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Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8089 - 8100 Condições Físicas

Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012)

do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8089 - 8100 Condições Físicas e de

8089 - 8100

Condições Físicas e de Infraestrutura das Salas de Curativos da Rede Municipal de Saúde de Jataí – Goiás. 1

Raniele Silveira Portela 2 , Suelen Gomes Malaquias 3 , Ludmila Grego Maia 4

Universidade Federal de Goiás – Campus Jataí

ranieleportela@gmail.com, sgmalaquias@gmail.com, lgregomaia@yahoo.com.br

PALAVRAS-CHAVE: enfermagem, curativos, ambiente de trabalho, normas, medidas de segurança.

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INTRODUÇÃO

O atendimento às pessoas com úlceras vasculares no âmbito dos serviços municipais de saúde de Jataí – Goiás ocorre, geralmente, em salas de curativos das unidades que apresentam estas instalações. No entanto, pode acontecer também no domicílio dos usuários, pela equipe da Estratégia de Saúde da Família, ou, pelo serviço de home care do município. Contudo, percebe-se que a realização de curativos aos usuários com úlceras vasculares é mais segura nas unidades de saúde, restringindo as exceções para casos de pessoas com limitações de acesso a essas unidades. Segundo Brasil (2011) a Unidade Básica de Saúde (UBS) é local de atuação de profissionais da saúde que trabalham com o desenvolvimento das ações de saúde à população, visando especialmente à promoção da saúde, prevenção de doenças, mas também outras atividades de menor complexidade que não exijam utilização de aparatos tecnológicos. Dentre as ações realizadas nessas unidades, inclui-se a realização de curativos, que constitui um procedimento de limpeza e cobertura de feridas objetivando a cicatrização dessas lesões e a prevenção de infecções, que usualmente é realizado pela equipe de enfermagem (DEALEY, 2008)

1 REVISADO PELO ORIENTADOR

2 Acadêmica de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí (UFG/CAJ), voluntária no Programa de Iniciação Científica – PIVIC/UFG. E-mail: ranieleportela@gmail.com

3 Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFG. Docente do curso de Enfermagem da UFG/CAJ. Orientadora. E-mail:

sgmalaquias@gmail.com

4 Enfermeira, Professora Auxiliar Nível I da Universidade Federal de Goiás – Campus Jataí (UFG/CAJ) e Enfermeira Auditora do Município. Mestranda em Ensino na Saúde pela Faculdade de Medicina da UFG. E- mail: lgregomaia@yahoo.com.br

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Apesar de todas estas situações haver intervenções de enfermagem, é no contexto das salas de

Apesar de todas estas situações haver intervenções de enfermagem, é no contexto das salas de curativo que as condições para visibilidade destas ações são mais evidentes, considerando especialmente o controle de infecção, por se tratar de locais públicos. Desta forma, ressalta-se a diversidade de condições relativas às lesões, as quais são abordadas nestes locais, atentando-se para a microbiota variada que essas apresentam (BOWLER et al., 2001; BOWLER, 2003; MARTINS, 2008; VOWDEN, VOWDEN, 2009; RAHMAN, ADIGUN, FADEYI, 2010), além do uso rotineiro de antibióticos tópicos e sistêmicos de forma pouco fundamentada e indiscriminadamente (MARTINS, 2008; MALAQUIAS, 2010). Estes eventos apontam também para as condições operacionais e de estrutura física das salas de curativo e do domicílio da população acometida, bem como os cuidados relativos ao controle de infecção, como observado em alguns estudos (NUNES, 2006; DEODATO, 2007; MARTINS, 2008; MALAQUIAS, 2010). Estes cuidados, bem como outros relativos à úlcera e aos aspectos clínicos etiológicos das alterações vasculares, têm estreita relação com características socioeconômicas e demográficas da população acometida (MALAQUIAS et al., 2012). A sala onde são realizados os curativos deve possuir um aparato adequado, de forma que os serviços prestados sejam seguros, resolutivos e de boa qualidade. Sabe-se que apesar da importância das ações de biossegurança para os trabalhadores de saúde, bem como para usuários, muitas vezes essas não são respeitadas em sua totalidade, devido a fatores diversos, sejam esses relacionados ao processo de gestão, operacional ou do próprio profissional (BRASIL, 2011). Há ainda o agravante de que as salas de curativo das unidades, no entanto, nem sempre se prestam à esta finalidade, podendo ser utilizadas, por vezes, como sala de medicação, ou de vacina. Outras vezes atendem apenas as pessoas para retirada de pontos. Os gestores têm a informação do número de salas, mas não apresentam um consolidado, com registros formais, das condições em que estão funcionando. Dessa forma, o presente estudo buscou investigar as condições desses ambientes na perspectiva do atendimento de enfermagem aos usuários com úlceras vasculares.

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OBJETIVO

Analisar as condições físicas e de infra-estrutura da rede de salas de curativos em que se realiza o atendimento de enfermagem à pessoas com úlceras vasculares, em Jataí – Goiás, em relação à prevenção e controle de infecção.

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3 METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa descritiva transversal, de abordagem quantitativa, realizada nas salas de

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METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa descritiva transversal, de abordagem quantitativa, realizada nas salas de curativo da rede municipal de saúde Jataí – Goiás, que dispõe de dez unidades básicas de saúde (UBS), um hospital com ambulatório, um centro de atenção psicossocial (CAPS), uma unidade policlínica de saúde e uma unidade de saúde para atendimento à população que reside em assentamentos e zona rural. Atualmente, 13 destas unidades apresentam salas de curativo em funcionamento. Esta pesquisa está inserida em uma maior intitulada “Úlceras vasculares: situação de atendimento, prevalência e condições dos usuários após seis meses de atendimento de enfermagem nas salas de curativo da rede municipal de saúde em Jataí – Goiás”, onde há investigações com os usuários que apresentam úlceras vasculares, em que a estudante desempenhou atividades também nesses eixos para complementar as observações necessárias ao tema da presente pesquisa. Conscientes do seu compromisso social, a equipe de pesquisadores buscou a pactuação necessária na Secretaria Municipal de Saúde de Jataí – Goiás, para discutir de

forma construtiva, os dados encontrados, havendo consentimento desta instância e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFG pelo protocolo n°026/2011.

A pesquisadora se apresentou ao enfermeiro de cada uma das unidades que tinham

salas de curativos “ativas”, em atendimento ás pessoas com úlceras vasculares e demais feridas, de modo a divulgar para esse profissional que atuava na sala, a proposta de pesquisa e estabelecendo, de comum acordo, as atividades operacionais de coleta de dados, sem interferir

na dinâmica do serviço. Foi utilizado um instrumento semi-estruturado em quatro partes para a coleta dos dados. A primeira parte direcionava-se à caracterização dos atendimentos oferecidos na sala e dos profissionais que atuam na mesma. A segunda parte continha questões sobre a estrutura física, equipamentos e mobiliário presentes na sala. A terceira parte direcionava-se a materiais de consumo utilizados para realização dos curativos, bem como os equipamentos de proteção individual (EPI). A quarta parte destinava-se a descrição da limpeza realizada na sala, bem como a rotina estabelecida e substâncias utilizadas.

O instrumento foi preenchido a partir da observação da pesquisadora assim como

respostas do funcionário que atuava na sala de curativos para confirmação e obtenção de informações pertinentes para complementar o preenchimento do instrumento.

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Os dados foram tabu lados e analisados utilizando-se o software S tatistic Package for Social

Os dados foram tabu lados e analisados utilizando-se o software S tatistic Package for Social Sciences® for Wind ows (versão 17.0), sendo verificada es tatística descritiva (frequência simples e percentu al).

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RESULTADOS

salas de curativos das unidades municipais de Jataí-Go, sendo

finais de semana e

feriados. Uma (7,7%) unidad e oferece atendimento nos dias úteis, no per íodo vespertino e a

a sexta, períodos

matutino e vespertino (Fig. 1) . Observou-se que os usuários que não cons eguem se deslocar,

os dias, realizam os

curativos em casa por eles pró prios ou por cuidadores formais ou informais .

aos finais de semana e feriado s, para a única unidade que funciona todos

maioria das unidades, 11 ( 84,6) apresentam atendimento de segunda

que uma (7,7%) delas oferec e atendimento todos os dias, inclusive aos

Foram analisadas 13

1 (7,7%)

1 (7,7%)

os dias, inclusive aos Foram analisadas 13 1 (7,7%) 1 (7,7%) 11 (84,6%) segunda a sex

11 (84,6%)

segunda a sex ta 07:00 às 17:00aos Foram analisadas 13 1 (7,7%) 1 (7,7%) 11 (84,6%) segunda a sex ta 13:10 às

segunda a sex ta 13:10 às 16:30(7,7%) 1 (7,7%) 11 (84,6%) segunda a sex ta 07:00 às 17:00 todos os dias 07:00

a sex ta 07:00 às 17:00 segunda a sex ta 13:10 às 16:30 todos os dias

todos os dias

07:00 às 19:00

Figura 1 – Padrão de dias e ho rário de funcionamento das salas de curativo das unid ades municipais de saúde Jataí – GO, ab ril – junho, 2012.

atendimento oferecido na sala, quatro (31 ,8%) das unidades

oferece administração de me dicamento e pré-consultas além dos procedi mentos ao cuidado com feridas e nove (69,2%) re alizam somente curativo nas salas.

em sete (53,8%) as

paredes não são laváveis. Em relação à ventilação da sala somente uma ( 7,7%) unidade não

demonstrou ter ventilação cor reta, pela inexistência de janela.

nove (69,2%) não

apresentavam este tipo de pis o. Uma (7,7%) das unidades não possuía pia de higienização das

Quanto ao tipo de

Em seis (46,2%) as

paredes da sala de curativo são laváveis e

Em quatro (30,8%)

das unidades o piso era antiderrapante e

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Sala de Curativo

Sala de Curativo mãos e em 12 (92,3%) das u nidades não havia pia para limpeza

mãos e em 12 (92,3%) das u nidades não havia pia para limpeza de mate riais sujos, além de que todas as pias não apresent avam torneira que dispensava o uso das mão s.

das unidades não foi verificado impressos o u qualquer local de

anotação dos dados de atendi mentos oferecidos na sala de curativos. Em

unidades foi verificada a an otação regular do procedimento e dados

usuário. Destas, duas (22,2%) ) possuem informações sobre condições da s lesões, porém de

forma que impossibilite com preender exatamente as características clín icas, bem como o tratamento estabelecido.

salas de curativo.

Somente em uma (7,7%) da s unidades existia apoio para as pernas, e m nove (92,3%) a

escadinha de apoio era dispon ível. Todas as unidades ( 100%) tinham ao menos uma lixeira na sa la de curativo, sete

(53,8%) das lixeiras eram par a lixo comum e três (23,1%) para lixo infecta nte.

e duas (15,4%) não

possuem, oito (61,5%) possue m dispensador de sabão líquido, em 12 (92, 3%) unidades havia disponível papel e/ou lençol p ara maca.

nove (69,2%) das de identificação do

Em quatro (30,8%)

A figura 2 mostra o utras observações sobre itens presentes nas

Dez (76,9%) das uni dades possuem papeleira e/ou papel toalha

(92,3%) (100%)

(92,3%) (76,9%) (61,5%) (7,7%)
(92,3%)
(76,9%)
(61,5%)
(7,7%)
(92,3%) ( 1 0 0 % ) (92,3%) (76,9%) (61,5%) (7,7%) 100,00% 80,00% 60,00% 40,00% 20,00%

100,00%

80,00%

60,00%

40,00%

20,00%

0,00%

(61,5%) (7,7%) 100,00% 80,00% 60,00% 40,00% 20,00% 0,00% Figura 2 – Mobiliário e materiai s disponíveis

Figura 2 – Mobiliário e materiai s disponíveis nas salas de curativos da rede municipal de saúde de Jataí - GO, abril – junho, 20 12.

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Em sete (53,8%) das unidades possuem vasilhame para acondicio namento das pinças utilizadas nos curativos

Em sete (53,8%) das unidades possuem vasilhame para acondicio namento das pinças

utilizadas nos curativos para serem encaminhadas ao expurgo em período s específicos, mais

comumente ao final do expe diente. No entanto, não havia vasilhame co m alguma solução

oito (61,5%) unidades havia a limpeza da s salas com rotina

álcool 70% e/ou

para imersão das pinças. Em

estabelecida, sendo realizada

hipoclorito de sódio a 1%.

sódio a 1% e logo

após com álcool 70%. Em oit o (61,5%) das unidades não realizam desinfe cção no mobiliário,

em uma (7,7%) não realizav a desinfecção da bancada, e em seis (46 ,6%) não realizava

desinfecção nas paredes (Fig. 3).

com água e sabão e a desinfecção com

A desinfecção era re alizada primeiramente com hipoclorito de

100% (92,3%) 90% 80% 70% (61,5%) 60% (53,8%) (46,2%) 50% (38,5%) 40% 30% 20% (7,7%)
100%
(92,3%)
90%
80%
70%
(61,5%)
60%
(53,8%)
(46,2%)
50%
(38,5%)
40%
30%
20%
(7,7%)
10%
0%
Sala de curativo

Não reali zada desinfecção

Realizada desinfecção

MobiliárioNão reali zada desinfecção Realizada desinfecção Bancada Paredes Figura 3 – Distribuição da situaçã o

Bancadareali zada desinfecção Realizada desinfecção Mobiliário Paredes Figura 3 – Distribuição da situaçã o de

Paredesdesinfecção Realizada desinfecção Mobiliário Bancada Figura 3 – Distribuição da situaçã o de realização

Figura 3 – Distribuição da situaçã o de realização da desinfecção de mobiliário, bancada e paredes nas salas de

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curativos das unidades

municipais de saúde, Jataí – GO, abril – junho, 2012.

DISCUSSÃO

observou-se que o padrão de dias e horário d e funcionamento da

maioria das salas de curativo o traz limitações às demandas de atendim ento da população

estudada que é caracterizada por necessitar de curativos frequentes, por vezes diariamente,

visto as condições particular es da etiologia das úlceras vasculares asso ciado às coberturas

utilizadas disponíveis nas un idades de saúde (MALAQUIAS, 2010). De ssa forma, sabe-se

que a programação de horári o não deve restringir o acesso da populaçã o, como o que foi

proposto para as unidades bás icas de saúde (BRASIL, 2006).

No presente estudo,

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Foi observado que em nove (69,2%) das unidades pesquisadas, havia outros tipos de atendimento, como

Foi observado que em nove (69,2%) das unidades pesquisadas, havia outros tipos de atendimento, como administração de medicamentos e pré-consultas. Sabe-se que o manejo de feridas, em especial, úlceras vasculares crônicas, possibilita contaminação do ambiente, visto que se trata de lesões com microbiota própria, até mesmo resistentes a antibióticos, como evidenciado no estudo de Martins et al. (2011). A recomendação do Manual de estrutura física das unidades básicas Brasil (2006) é que haja sala de uso exclusivo para o atendimento de pessoas com feridas, que inclui curativos, suturas e, ainda, coleta de material, com exceção de ginecológico. No entanto, não é novidade a ocorrência de infecções em úlceras vasculares como retratado em alguns estudos, os quais apresentaram lesões contaminadas por bactérias provenientes da pele, como Staphyococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Proteus vulgaris, Proteus mirabilis, Citrobacter sp, Streptococcus hemolíticos do grupo A, B,C, e G, Escherichia coli, Klebsiella sp., diferentes espécies de anaeróbios e raramente fungos como Candida sp. (BOWLER et al., 2001; BOWLER, 2003; MARTINS, 2008; VOWDEN, VOWDEN, 2009; RAHMAN, ADIGUN, FADEYI, 2010) Esta situação é agravada pelo uso de antibióticos de forma indiscriminada nas unidades de serviços ambulatoriais, na maioria das vezes, sem a realização prévia de exames microbiológicos, como observado nos estudos que vem sendo realizados em Goiânia – Goiás e mais recentemente em Jataí, os quais compõem conjuntamente a presente pesquisa. Este fato favorece a resistência bacteriana aos medicamentos frequentemente utilizados (BASU et al., 2009). Dessa forma, verificamos a necessidade de salas exclusivas para o atendimento de pessoas com úlceras vasculares e/ou demais lesões, geralmente crônicas (que apresentam mais possibilidade de maior colonização) separadamente às feridas agudas e coleta de material contrapondo o preconizado pelo Manual de estrutura física das unidades básicas (BRASIL,

2006).

A Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) de número 50, elaborada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (BRASIL, 2002) regula o planejamento, programação e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistências de saúde, sendo a referência utilizada para a construção de unidades de saúde, em que nos basearemos para as análises deste estudo. Vale ressaltar que não foram encontrados estudos que analisassem as salas de curativos de unidades de atendimento ambulatorial. Segundo a RDC 50 (BRASIL, 2002), a área mínima de uma sala de curativos no âmbito de atendimento ambulatorial deve ter 9,0 m 2 , o que vai de encontro aos achados na

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presente pesquisa. As dimensões diminutas das salas de curativos, encontradas nesta pesquisa possibilitam reflexões

presente pesquisa. As dimensões diminutas das salas de curativos, encontradas nesta pesquisa possibilitam reflexões sobre as limitações nas possibilidades de desempenho de atividades importantes a população estudada, considerando as experiências registradas no estudo de Pinto et al. (2005) que compartilharam as mesmas inquietações e evidenciaram a importância de acolher o usuário, estabelecendo vínculo e garantia do seguimento, favorecer a assistência de enfermagem de forma sistematizada, otimizando recursos humanos e ordenando a demanda. Os materiais adequados para o revestimento de paredes, pisos e tetos de ambientes de áreas críticas e semicríticas devem ser resistentes à lavagem e ao uso de desinfetantes, os pisos devem ser de material antiderrapante com o intuito de diminuir o risco de acidentes. Como foi demonstrado, há problemas em relação ao material existente nas paredes das unidades e o recomendado pela RDC 50 (BRASIL, 2002), já que pouco mais da metade das unidades não apresentavam paredes laváveis. Os diversos ambientes funcionais das UBS solicitam sistemas de controle das condições de conforto higrotérmico e de qualidade do ar distintas, em função dos grupos populacionais que os frequentam, das atividades que neles se desenvolvem e das características de seus equipamentos com o intuito de proporcionar um espaço com ventilação adequada e conforto (BRASIL, 2002). Isso inclui as salas de curativo, onde há necessidades particulares em relação às possibilidades de propagação de microorganismos presentes nas lesões dos usuários, bem como quanto aos profissionais que os atendem, os quais necessitam de paramentação adequada para protegerem-se. Considerando a existência de microbiota própria das lesões, assim como a ocorrência de infecções, a preocupação com higienização das mãos entre os profissionais que atendem essa população deve ter notória importância. É sabido que esta ação é a maneira mais eficiente e econômica para a prevenção de infecções nosocomiais e este fato é mundialmente reconhecido. Assim, torna-se necessário atentar para as condições dos equipamentos e insumos para esta ação a fim de que viabilize a imprescindível recomendação de higienizar as mãos antes e após qualquer procedimento realizado. Nesse sentido, dentre os equipamentos mínimos necessários, as salas de curativos devem possuir lavatório e pia de lavagem com bancada, além de torneira que dispense o uso das mãos, dispensadores de sabonete e anti- sépticos, papeleira, lixeira para descarte do papel toalha (BRASIL, 2006). O que foi observado neste estudo não é diferente de outros contextos dos serviços de saúde, em que há descumprimento da prática de higienização das mãos devido às condições dos equipamentos e insumos necessários. Chamou-nos atenção o fato da maioria das unidades

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pesquisadas (92,3%) não haver torneira que dispensasse o uso das mãos, sendo recomendado utilizar papel-toalha

pesquisadas (92,3%) não haver torneira que dispensasse o uso das mãos, sendo recomendado utilizar papel-toalha para fechamento da torneira, apesar da prática comum do uso coletivo de toalhas de tecido, o que é inadequado pois estas permanecem úmidas favorecendo a proliferação bacteriana (BRASIL, 2006; FELIX e MIYADAHIRA, 2009). Alguns equipamentos não são descritos nas resoluções e normativas como requisitos para sala de curativos, no entanto, observa-se a necessidade deles no atendimento a pessoas com úlceras vasculares, como apoio para membros inferiores, que apenas uma (7,7%) das unidades possuía. Isso possibilita conforto tanto para o usuário como também para o profissional que realizará o curativo, além de conferir maior segurança ao procedimento. É de grande relevância possuir nas salas impressos para anotação do procedimento realizado e nome do paciente, obtendo assim uma melhor organização e atendimento ao cliente. Considerando a Resolução n° 358/2009 do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) que exige a utilização do processo de enfermagem nos estabelecimentos de saúde como forma de sistematização da assistência de enfermagem (SAE), evidencia-se essa imperiosa necessidade de obtenção de registros mínimos sobre as condições clínicas dos usuários com úlceras vasculares, para que essa sistematização se concretize (MALAQUIAS, 2010; PINTO et al., 2005). Nas unidades pesquisadas observou-se uma não padronização na higienização das salas de curativo. A limpeza é um dos elementos primários e eficazes nas medidas de controle para romper a cadeia epidemiológica das infecções, pois está diretamente ligada à remoção da sujidade e contaminação dos artigos e das superfícies do hospital, como forma de garantir aos usuários uma permanência em local asseado e em ambiente com menor carga de contaminação possível, isto contribui para reduzir a possibilidade de transmissão de

infecções, oriundas de fontes inanimadas (PRADE et al., 1995).

A limpeza e desinfecção dos ambientes dos serviços de saúde são, geralmente, realizadas por funcionários de empresas terceirizadas, os quais apresentam baixa qualificação profissional representada pela baixa escolaridade, e que ingressam no serviço sem adequada instrução sobre as particularidades das atividades que desempenharão o que inclui ações de biossegurança e controle de infecções. Tornam-se necessárias ações de educação continuada a esses profissionais que são fundamentais para o funcionamento adequado das salas de curativo. Essas ações, por vezes, são desempenhadas pelo enfermeiro ficando sob sua responsabilidade a supervisão e orientação dos profissionais que atuam nesta limpeza (MONTEIRO, CHILLIDA, BARGAS, 2004).

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Segundo Pereira et al. (1999) é obrigatório que todo o pessoal envolvido no manuseio de

Segundo Pereira et al. (1999) é obrigatório que todo o pessoal envolvido no

manuseio de resíduos de serviço de saúde receba treinamento, cuidados médicos e

equipamentos de segurança e proteção individual. Os funcionários deverão receber

treinamento especializado sobre a contaminação e a desinfecção de resíduos e instruções para

a autoproteção.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao realizar a pesquisa fica explicito a necessidade de melhorias para a estrutura

física das salas de curativo da rede municipal de saúde de Jataí – Goiás, o que não é diferente

de outros cenários brasileiros.

Torna-se necessário realizar capacitação aos profissionais com o intuito de melhorar

o atendimento aos usuários com úlceras vasculares, tendo em vista o aproveitamento dos

recursos e estrutura física existente, de forma mais adequada possível, considerando o

preconizado pelas normativas vigentes.

Observou-se a escassez de estudos nesta temática o que dificultaram as análises dos

dados encontrados, as quais se limitaram às resoluções, que inclusive apresentam ainda

limitações, quando se considera o atendimento a pessoas com feridas, mais particularmente

úlceras vasculares.

Sugerem-se assim novos estudos envolvendo o exame da estrutura física das salas de

curativo de unidades que prestam atendimento ambulatorial a fim de reforçar os achados e possibilitar

resoluções e normativas mais direcionadas à população com úlceras vasculares, e consequentemente,

mais assertivas.

*REVISADO PELO ORIENTADOR.

REFERÊNCIAS

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Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8101 - 8114 Desenvolvimento de

Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012)

do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8101 - 8114 Desenvolvimento de um tutorial

8101 - 8114

Desenvolvimento de um tutorial para o ensino de síntese lógica de sistemas embarcados no curso de engenharia.

Raphael de Souza Neves, Karina Rocha Gomes (Orientadora) Universidade Federal de Goiás Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação

raphaeldesouzan@hotmail.com, karinarg@gmail.com

PALAVRAS-CHAVE: Sistemas embarcados, FPGA, Síntese Lógica.

1. Introdução

Os sistemas embarcados estão se tornando cada vez mais populares e para suprir a

demanda por novas tecnologias, impulsionada pelo consumo, as indústrias precisam de

ferramentas ágeis que facilitem o desenvolvimento de novos componentes. Dessa forma, o

processo de análise e construção de um novo produto precisa passar por etapas bem definidas,

que não atrasem a sua produção, como erros de compilação de código, ao fazer alterações de

projeto.

O desenvolvimento de sistemas embarcados pode ser realizado utilizando lógica

programável em dispositivos de FPGA (Field-Programmable gate array), essa plataforma

possibilitou uma revolução na construção de circuitos lógicos, pois os circuitos eram contruídos

em placas utilizando componentes padrões (resistores, capacitores, indutores, etc). Um

dispositivo FPGA é um circuito integrado que contém milhares de unidades lógicas idênticas que

podem ser configuradas e interligadas a partir de uma matriz de trilhas condutoras e switches

programáveis.

A implementação de um projeto de circuitos digitais envolve várias etapas, sendo elas

decompostas da seguinte forma [1]:

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1.1 Especificação de hardware Fig.1 - Fluxo de projeto de uma FPGA A especificação é
1.1 Especificação de hardware Fig.1 - Fluxo de projeto de uma FPGA A especificação é

1.1 Especificação de hardware

Fig.1 - Fluxo de projeto de uma FPGA

A especificação é a parte do projeto responsável pela descrição completa do hardware que se deseja construir, nela devem ser documentadas informações como análise dos requisitos, funcionalidades, e todas as características necessárias para sua execução. Normalmente, a especificação é implementada por um engenheiro de projetos, ela é de fundamental importância para o entendimento das necessidades do dispositivo a ser desenvolvido, inicialmente pode ser feita em um documento texto que contenha um alto nível de abstração, possuindo detalhes de alto e baixo nível tais como funcionalidades a serem executadas e descrição dos pinos respectivamente.

1.2 Especificação da verificação funcional

Realizada por um engenheiro de verificação, essa parte do projeto visa documentar os aspectos importantes que devem ser verificados em um determinado dispositivo, contendo os objetivos, os componentes e os detalhes do plano de verificação. Esse plano é uma parte crítica para se obter sucesso durante a verificação, pois ele é dinâmico, refletindo o estado presente do projeto, logo ele deve ser revisto e atualizado sempre que algo for mudado no projeto, até mesmo após erros terem sido encontrados, sendo assim todos os participantes do projeto devem ser consultados. São analisados todos os parâmetros,

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levando em consideração as funcionalidades importantes que devem ser executadas durante a simulação. 1.3

levando em consideração as funcionalidades importantes que devem ser executadas durante a simulação.

1.3 Implementação do código HDL

A implementação do dispositivo consiste na tradução da especificação em um código

escrito em um nível mais baixo de abstração, o nível de sinais, onde as operações são controladas por ciclos de relógio, essa tradução é normalmente escrita em uma linguagem de descrição de

hardware HDL.

A implementação RTL é o modelo de registros, equações booleanas, relógios e sinais de

interconexão, traduzido da linguagem de descrição HDL, que será convertido em hardware, um aspecto importante que deve ser respeitado é que os erros devem ser captados e corrigidos ainda no código HDL, pois quanto mais cedo forem detectados, menos recursos serão gastos para correção.

1.4 Implementação do testbench

O testbench é o ambiente de simulação através do qual o dispositivo será verificado

(Design Under Verification - DUV), de forma que ele receba estímulos e que as respostas sejam comparadas com as saídas esperadas no desenvolvimento do projeto.

O testbench deve ser implementado em um nível alto de abstração, o qual é denominado

nível de transação, uma transação é uma representação básica para a troca de informações entre

dois blocos funcionais, o foco do testbench é a comunicação entre blocos e a transferência de transações.

O testbench se comunica com o DUV através de um protocolo que consiga converter

dados no nível de transação para dados no nível de sinais, ele deve ser composto por um módulo capaz de gerar os estímulos necessários para a verificação do DUV, que consiga comparar o resultado gerado com o resultado contido na especificação, para isso deve-se evitar ao máximo a ocorrência de erros na implementação do testbench.

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1.5 Verificação Funcional A verificação funcional é realizada através de simulação, ela pode ser implementada

1.5 Verificação Funcional

A verificação funcional é realizada através de simulação, ela pode ser implementada por

testbench, através de uma verificação de análise textual das estruturas implementadas, ou através de ferramentas que simulam formas de onda de entrada e verificam as suas saídas. A verificação é um processo usado para demonstrar que o objetivo do projeto é preservado em sua implementação, ela é feita através da comparação de dois modelos, o modelo sendo desenvolvido e o modelo de referência que é uma implementação executável e por definição reflete a especificação, seu objetivo é eliminar os possíveis erros de lógica do processo.

1.6 Síntese

É o processo de conversão de uma descrição de alto nível do projeto em um domínio

estrutural, através de representações do circuito em termos de funções lógicas e elementos de

memória é possível fazer o mapeamento e a otimização dessas funções em níveis de portas lógicas, essa síntese pode ser sub-dividida da seguinte forma:

1.6.1 Síntese Lógica

Na etapa de síntese lógica, uma descrição verilog em conjunto com uma biblioteca de componentes é usada por uma ferramenta para a geração automática de um circuito digital, ou seja uma netlist, que satisfaça as requisições e restrições impostas pelo projetista (Fig. 1). A síntese é constituída por três fases: tradução, optimização e mapeamento para a tecnologia.

tradução, optimização e mapeamento para a tecnologia. Fig 2. Fluxo das etapas da Síntese Lógica. Capa

Fig 2. Fluxo das etapas da Síntese Lógica.

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Em um primeiro momento é feito a análise do código HDL em busca de erros

Em um primeiro momento é feito a análise do código HDL em busca de erros de sintaxe, após a verificação sintática não encontrar erros de qualquer espécie, a ferramenta de síntese começa o processo de tradução do projeto em uma descrição RTL. Na fase de tradução, a representação é traduzida para uma representação interna que pode, neste nível, ser mapeada em uma descrição de projeto RTL de componentes genéricos (portas lógicas, flip-flops, somadores, multiplexadores, etc.) pela ferramenta de síntese. Na fase de otimização, a representação anterior é analisada e optimizada por forma a minimizar a área e/ou o tempo de propagação do circuito. Na fase de mapeamento tecnológico, a representação optimizada é automaticamente mapeada para componentes específicos da biblioteca da tecnologia utilizada.

A saída do processo de síntese é um ficheiro de netlist, que é utilizado como entrada por

uma ferramenta para encontrar a melhor rota de construção dos blocos lógicos.

A ferramenta de síntese permite optimizar o circuito segundo alguns parâmetros impostos

pelo projetista [2]. Na etapa da síntese lógica a ferramenta de síntese gera, com base na biblioteca tecnológica de componentes, um circuito lógico com a funcionalidade descrita no código, satisfazendo as restrições impostas pelo projetista. Nesta etapa, o projetista decide a tecnologia de implementação do circuito, tomando em consideração fatores econômicos relacionados com o número de dispositivos a produzir [3], podendo usar FPGAs para implementações mais econômicas ou implementação em tecnologias de máscara específica (sea-of-gates ou standard cells) ou seja em implementações de larga escala.

standard cells) ou seja em implementações de larga escala. Fig.3 – Descrição VHDL e síntese de

Fig.3 – Descrição VHDL e síntese de um circuito digital.

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Na síntese lógica existem algumas restrições de implementação na linguagem. As linguagens são formadas por

Na síntese lógica existem algumas restrições de implementação na linguagem. As linguagens são formadas por dois conjuntos, um conjunto que é chamado de sintetizável, e que de fato pode passar pelo processo de síntese e gerar um hardware e outro conjunto que não é sintetizável usado na implementação de testes em simulações. O conjunto de instruções sintetizáveis deve seguir alguns padrões, a fim de evitar que a ferramenta de síntese altere a especificação do hardware. Um exemplo de uma construção desse tipo seria o simples uso de uma instrução do tipo

Essa instrução, deve ter sempre todos os ramos dela especificados no momento de

programação, correndo o risco de inferir um latch indesejado, caso isso não seja respeitado.

if

else.

1.6.2 Síntese Física

Sem a necessidade de interação do usuário, a síntese física é realizada dentro do dispositivo e é suportado apenas pelas mais sofisticadas ferramentas uma vez que os algoritmos são complexos e requerem um aprofundamento detalhado da arquitetura do dispositivo. Durante a síntese o dispositivo seleciona a localização das células para conectar os caminhos de roteamento que são influenciados pelo acesso a um atraso de roteamento preciso de valores em vez de estimativas usadas pela síntese lógica pura.

em vez de estimativas usadas pela síntese lógica pura. Fig 4 - Implementação do projeto Capa

Fig 4 - Implementação do projeto

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Nessa fase, tarefas de tradução e síntese, posicionamento e roteamento (place & route) são executadas,

Nessa fase, tarefas de tradução e síntese, posicionamento e roteamento (place & route) são executadas, é fornecido um conjunto de restrições de síntese contidos nos chamados guides files. Esses arquivos permitem que as ferramentas de síntese procurem atender aos requisitos de área e temporais.

A integração da aplicação desenvolvida pelo usuário com o núcleo (core) é feita através

da tarefa de tradução, a partir dos netlists oriundos da síntese do projeto do usuário.

O resultado da implementação é um documento contendo a descrição física do sistema,

essa descrição contém a disposição dos blocos lógicos, a verificação do projeto e o roteamento

entre os elementos do circuito.

1.7 Simulação pós-síntese

Na simulação pós-síntese, aspectos específicos passam a ser considerados durante a simulação como atrasos das portas lógicas, aspectos de funcionalidades e tempo, essa etapa é essencial para determinar se os requisitos de tempo são respeitados e se pode ser alcançado um desempenho melhor do dispositivo, usando circuitos mais otimizados.

1.8 Prototipação

A prototipação é formada pelo posicionamento e roteamento, que consiste na atribuição

dos componentes do dispositivo alvo (FPGA) e na atribuição de trilhas e elementos

programáveis. A prototipação é feita através da implementação da netlist gerado pela síntese em algum dispositivo de hardware.

A prototipação de um IP Core é tipicamente feita em FPGA e pode ser transferida para o

silício.

2. Objetivo

O objetivo desse trabalho é implementar um tutorial que possa ser usado como alternativa

para o correto desenvolvimento do software, afim de evitar problemas de síntese lógica em projetos que usam linguagens de descrição de hardware. A idéia é mostrar a viabilidade do uso da linguagem verilog.

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3. Metodologia As simulações foram feitas na ferramenta de desenvolvimento Quartus II Subscription Edition (trial)

3. Metodologia

As simulações foram feitas na ferramenta de desenvolvimento Quartus II Subscription

Edition (trial) a partir da linguagem de programação Verilog (Open Source) e os testes foram

realizados nas placas FPGA’s do tipo Altera DE1.

Quartus é uma ferramenta de software produzido pela Altera, que permite fazer o

desenvolvimento, a análise, a síntese e a compilação dos códigos escritos em linguagem de

descrição de hardware, através dela é possível fazer simulações de modo funcional e temporal de

forma mais detalhada.

Essa ferramenta é proprietária sendo necessária a aquisição de uma licença para o seu uso,

porém existe uma versão exclusiva para estudantes.

Para exemplificar de forma prática o uso dessa ferramenta, será apresentado um modelo

simples de como implementar e testar um pequeno código em verilog.

a) Crie um projeto clicando em File/New Project Wizard, dê um nome e clique em Finish.

b) Para criar um novo arquivo clique em File/New e escolha Verilog HDL File.

c) Escreva o programa e logo em seguida compile-o clicando em Processing e Start Compilation.

Segue o exemplo simples do código de um Flip-Flop.

module flip_flopDTB; wire [31:0] inDTB; wire [31:0] outQTB; reg clk, reset;

initial

begin

 

clk = 0; reset = 1; #4 reset = 0; #6 reset = 1; #10 reset = 0; #12 reset = 1;

end

always

 

#5 clk = !clk;

initial

 

begin

$dumpfile("teste.vcd");

$dumpvars(0);

$monitor($time, , inDTB,"

", outQTB);

end

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flip_flopDSOURCE flip_flopDSOURCE( .inD(inDTB), .outQ(outQTB), .reset(reset), .clk(clk)); flip_flopD flip_flopD(

flip_flopDSOURCE flip_flopDSOURCE( .inD(inDTB), .outQ(outQTB), .reset(reset), .clk(clk)); flip_flopD flip_flopD( .inD(inDTB), .outQ(outQTB), .reset(reset), .clk(clk));

initial

endmodule

begin

#1000; $finish;

end

As estruturas do código acima passaram nos testes de compilação mas não puderam ser

demonstrados nas placas, pois apresentaram erro de síntese lógica.

Logo abaixo será mostrado um programa que não apresenta erros de síntese sendo

possível continuar os testes e simulações a partir do item d.

module flip_flopD (inD, clk, reset, outQ); input [31:0] inD; input clk, reset; output reg [31:0] outQ; always @(posedge clk or negedge reset) begin

if(!reset) begin outQ = 32'h0; end

else

end

begin outQ = inD;

end

endmodule Se o programa não apresentar erros de compilação prossiga com os testes, caso contrário

re-examine o código corrigindo os problemas e compile novamente.

d) Para testar o código é necessário criar um sub-programa que irá fazer a análise da resposta em

cada porta lógica, clique em File/New/Vector Waveform File, irá abrir uma caixa com dois

quadrantes, no quadrante esquerdo clique com o botão direito e Insert/Insert Node or Bus.

e) Ao abrir uma caixa maior, clique no botão List e selecione do lado esquerdo para o lado direito

todos os sinais que irão gerar e fornecer a resposta, clique em ok/ok, irá aparecer os sinais com

as suas respectivas formas de onda, clique no sinal que representa a porta de entrada e altere o seu

valor com as ferramentas do canto esquerdo.

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f) Defina o período e a forma de onda dos sinais de entrada atráves do

f) Defina o período e a forma de onda dos sinais de entrada atráves do ícone clock, logo após clique em Processing/Start Simulation, essa operação irá gerar um arquivo contendo a resposta à entrada em forma de onda clicando em Report em Simulator Tool, sendo assim possível comparar com a resposta esperada.

4. Resultados Com base nos testes e simulações realizados foi possível classificar as estruturas de linguagem verilog em três grupos: Sintetizáveis, Sintetizáveis com restrição e Não sintetizáveis. Foi também gerada uma cartilha com todas as estruturas importantes sintetizáveis e não sintetizáveis da linguagem Verilog.

4.1 Sintetizáveis Segue uma lista de instruções sintetizáveis, ou seja que podem ser usadas para programar

uma placa de FPGA e/ou se transformar em um hardware.

Instruções sequenciais: if, case, next, return, null e atribuições;

Instruções concorrentes: generate, instanciação de componentes e funções que podem ser chamadas de domínio concorrente e sequencial.

Atributos: right, high, low, base, left, range e lenght.

Operadores lógicos de adição, relacionais, multiplicação, concatenação e tipos de dados de enumeração.

4.2 Sintetizáveis com restrição Algumas instruções, apesar de serem suportados pela ferramenta de síntese, possuem

parte da sua utilização limitada, neste caso as seguintes instruções:

Operadores aritméticos limitados nos cálculos que podem efetuar. Os operadores / , mod, rem requer-se que o operando da direita seja uma potencia de 2 calculável;

As instruções que permitem a sincronização de um processo com um determinado sinal wait, (em geral um relógio), têm a sua utilização restringida, cada processo só poderá conter uma única instrução de wait, que será a primeira instrução do processo.

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• Instrução de atribuição a sinais (cláusula after) não suportam a especificação de tempos de

Instrução de atribuição a sinais (cláusula after) não suportam a especificação de tempos de atraso, os tempos são ignorados pela ferramenta de síntese, mesmo podendo ser interpretados como um atraso mínimo, máximo ou típico.

São limitadas pela ferramenta de síntese, sinais em que o processo seja sensível.

4.3 Não sintetizáveis Ao realizarmos a síntese de um projeto, a parte do código não sintetizável é ignorado pela ferramenta de síntese, essas partes ignoradas podem ou não alterar o significado da descrição, podendo acarretar prejuízos ao projeto. As instruções que podem ser ignoradas sem alterar o significado da descrição servem apenas como validação de modelos, onde são encontradas as instruções de Assertion (verificação dos tempos de setup e hold em flip-flops) e não influenciam no funcionamento do circuito, podem ser usadas em um programa sintetizável apesar de serem ignorados pela ferramenta de síntese.

As instruções que não podem ser ignoradas, não devem ser incluídas numa descrição sintetizável, pois mesmo sendo ignorado pela ferramenta de síntese alteram o significado da descrição. Alguns exemplos desses tipos de construções são:

Atributos pré-definidos na linguagem que só tem significado para a simulação, tais como:

Initial, Transaction, Active, Last_Active, Last_Event, Delayed e Quiet.

Tipos que permitem o uso de apontadores, Incomplete e Acess, assim como instrução de reserva dinâmica de memória, New, cuja capacidade de representação em hardware não é obtida facilmente de forma a manter a mesma semântica.

Tipos de objetos Physical e Floating, a sua utilização requer um suporte de um conjunto de operadores que as ferramentas não tem capacidade de sintetizar.

Tipos File, declarações de ficheiro e o Package TEXTIO, essas construções permitem modelar memórias (ROMs ou FIFOs) que podem levar a que a especificação do circuito fique incompleta, por não serem sintetizadas pelas ferramentas de síntese.

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5. Discussão As simulações que utilizaram parte de código não sintetizável passaram sem problemas nos

5. Discussão

As simulações que utilizaram parte de código não sintetizável passaram sem problemas nos testes de compilação, entretanto ao fazer a transferência do código para a placa FPGA, a ferramenta de designer Quartus apresentou problemas de síntese, demonstrando que um pequeno descuido durante o desenvolvimento do projeto pode comprometer a eficiência e atrasar a sua conclusão.

A partir desses problemas de síntese, fez-se necessário a criação dessa cartilha contendo

os principais comandos que são utilizados na construção das estruturas lógicas, sua finalidade é poder auxiliar alunos e professores em sala de aula, em suas pesquisas e estudos, essa servirá de

meio para facilitar o aprendizado e o desenvolvimento de novos programas, permitindo com que os objetivos sejam alcançados sem que esbarrem nos erros de síntese lógica.

6. Conclusões

A simulação foi realizada em diversos programas utilizando-se técnicas avançadas de

verificação funcional para averiguar que nenhum erro de construção estrutural do código influenciasse nos resultados obtidos durante a síntese, as estruturas que demonstraram problemas durante a síntese foram identificadas através de inúmeros testes retirando-se parte do código e verificando se durante a síntese aquela estrutura apresentava algum problema, com base nessas

técnicas foi possível identificar e classificar a maioria dessas estruturas que irá auxiliar a praticidade de outros desenvolvedores.

O uso de circuitos digitais está inserido em todos os ramos de trabalho e de conhecimento

seja na indústria, agricultura, comércio e na fabricação de novos produtos de alta tecnologia, essa tecnologia é desenvolvida em centros de pesquisas, universidades ligadas a empresas e

demandam uma quantidade significativa de recursos financeiros para serem desenvolvidos, sendo assim ligados aos governos e empresas de países ricos que possam custear todo conhecimento necessário para sua produção. Com a competitividade de mercado as empresas vem utilizando cada vez mais essas novas tecnologias visando baixar os custos de produção, aumentar a produtividade e melhorar a

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qualidade de seus produtos o que também exige profissionais qualificados para manusear os equipamentos produzidos

qualidade de seus produtos o que também exige profissionais qualificados para manusear os equipamentos produzidos com circuitos digitais. Para sustentar toda essa demanda de mercado, a produção de novos equipamentos precisa atender a todos os requisitos de agilidade e qualidade, sendo assim a partir da classificação e organização das estruturas de código sintetizáveis, sintetizáveis com restrição e não sintetizáveis, em grupos, é possível prever os efeitos finais durante a execução do projeto, auxiliando os desenvolvedores a reduzir os custos e o tempo de produção dessas novas tecnologias.

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7. Referências [1] K. R. G. da Silva, E. U. K. Melcher, I. Maia, and

7. Referências

[1] K. R. G. da Silva, E. U. K. Melcher, I. Maia, and H. do N. Cunha. A methodology aimed at better integration of functional verification and RTL design. Design Automation for Embedded Systems, 10(4):285–298, 2007.

[2] J. Huber, M. Rosneck, Successful ASIC Design the First Time Through, Van Nostrand Reinhold, 1991.

[3] S. Sjoholm, L. Lindh, VHDL for Designers, PrenticeHall, 1997.

[4] http://www.pcs.usp.br/~edson/intro-hdl.pdf, acessado em 25/06/2012.

[5] S. Levitan, A. Martello, R. Owens, and M. Irwin. Using VHDL asa Language for Synthesis of CMOS VLSI Circuits. InProceedings of the NinthI FIP Symposium on Computer Hardware Description Languages and their Applications, June 1989.

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Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8115 - 8125 ELABORAÇÃO DE

Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012)

do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8115 - 8125 ELABORAÇÃO DE PÃES ENRIQUECIDOS

8115 - 8125

ELABORAÇÃO DE PÃES ENRIQUECIDOS COM BANANA DA TERRA VERDE (Musa sapientum linneo) E ESTUDO DA ACEITABILIDADE

Raquel Troncoso Chaves Moreno, Fabiana de Sousa Paschoa, Clarissa Damiani, Elaine Meire de Assis

Faculdade de Nutrição, Universidade Federal de Goiás

raquel.troncoso@hotmail.com; fabiana.paschoa@hotmail.com; damianiclarissa@hotmail.com; assis.elaine@gmail.com

PALAVRAS-CHAVE: farinha de banana da terra verde, pão, análise sensorial

1 INTRODUÇÃO

Fruta é o nome dado à parte polposa que rodeia a semente de plantas. As frutas possuem aroma característico, são ricas em suco, normalmente de sabor doce, e podem, na maioria das vezes, serem consumidas cruas. As frutas são consideradas fonte de vitaminas, minerais, carboidratos (glicose, frutose, sacarose, amido, pectina, celulose) e fibras (PHILIPP,

2006).

Além dos macro e micronutrientes, os frutos contêm diversos compostos de natureza fenólica, denominados polifenóis. Diversas pesquisas científicas demonstram que os compostos fenólicos, especialmente os flavonoides (antoxantinas e antocianinas), possuem capacidade antioxidante, além de efeitos na prevenção de enfermidades cardiovasculares e circulatórias, cancerígenas, no diabetes e no mal de Alzheimer (KUSKOSKI et al, 2006). A bananeira é uma planta originária do Sudeste Asiático, pertencente à classe botânica Monocotyledoneae, à família Musaceae e ao gênero Musa (MARTINEZ, TELES,

2006).

A banana é produzida em aproximadamente 115 países, sendo a segunda fruta mais consumida no mundo. Dentre as frutíferas, ocupa a segunda posição na produção mundial, sendo superada apenas pela melancia. No ranking mundial, a Índia aparece como a maior produtora da banana, responsável por 28,1% da produção, sendo que o Brasil ocupa a quarta posição, com 7,5% da produção mundial (VIEIRA, 2011).

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A banana é um alimento energético, rico em carboidratos, sais minerais, como sódio, magnésio, fósforo

A banana é um alimento energético, rico em carboidratos, sais minerais, como sódio,

magnésio, fósforo e potássio, além das vitaminas A e C (EMBRAPA, 2005). A banana faz

parte da dieta diária das diferentes camadas sociais por possuir sabor agradável, preço acessível e ser de fácil aquisição (BARROS, LOPES, WANDERLEY, 2008).

A banana, quando madura, é um fruto altamente perecível, exigindo rápida

comercialização após a colheita, além de cuidados específicos com o manuseio e transporte

(BARROS, LOPES, WANDERLEY, 2008). Apesar de o Brasil ser grande produtor de banana, parte da produção é desperdiçada devido às perdas pós colheita e ao descarte de frutos, fazendo com que grande parte seja perdida antes de chegar aos consumidores (CARDENETTE, 2006).

A banana verde, por sua vez, é mais facilmente transportada e pode ser armazenada

por tempo maior, sendo considerada um produto ideal para ser utilizado na indústria de alimentos. As farinhas de banana verde são consideradas importantes fontes de amido resistente, o que as torna matéria prima potencial para a elaboração de produtos alimentícios com propriedades funcionais. O amido resistente possui efeito fisiológico semelhante ao da fibra alimentar, além de apresentar reduzido valor energético, baixo teor de lipídios e de açúcares (CARDENETTE, 2006).

A partir da secagem da polpa de banana verde é possível se obter a farinha de banana verde, que apresenta sabor suave, podendo substituir outras farinhas sem

prejuízo desta característica sensorial A secagem pode ser natural ou artificial, e quando bem processada pode ser utilizada como matéria prima de inúmeros produtos, principalmente em panificação (OVANDRO MARTINEZ, 2009).

A jabuticabeira (Myrciaria spp.) é uma planta nativa do Brasil, possui maior

ocorrência e produtividade nos estados da região Sudeste, mas pode ser encontrada por todo o país. Geralmente, é cultivada como planta de fundo de quintal, em pomares domésticos de

chácaras, sítios ou fazendas (SATO, DA CUNHA, 2007). A jabuticabeira é, ainda, frutífera de grande interesse para os produtores rurais de diversas regiões brasileiras, devido à sua alta produtividade, rusticidade e as várias formas de aproveitamento dos frutos (ASQUIERI, SILVA, CÂNDIDO, 2009).

Os frutos da jabuticabeira são do tipo baga globosa, medindo até 3 cm de diâmetro e,

quando maduros, apresentam casca preta fina e frágil, polpa esbranquiçada, mucilaginosa,

agridoce e saborosa. A jabuticaba pode ser consumida in natura ou na forma de geleias, compotas e sucos, ou ainda ser fermentada para produção de licor, vinho e vinagre (ASQUIERI, SILVA, CÂNDIDO, 2009; TEIXEIRA, 2011).

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A jabuticaba é um fruto tropical de alto valor nutricional, contendo elevado teor de carboidratos,

A jabuticaba é um fruto tropical de alto valor nutricional, contendo elevado teor de

carboidratos, fibras, vitaminas, flavonóides e carotenoides, além de sais minerais como ferro,

cálcio e fósforo (ASCHERI et al, 2006).

A produção da jabuticaba vem crescendo nas diferentes regiões do Brasil. Porém, esta

fruta é altamente perecível, fazendo com que tenha um curto período de comercialização após a colheita por apresentar elevado teor de água e açúcares presentes na polpa. Assim, os

produtos alimentícios, derivados da jabuticaba, são uma alternativa para o melhor aproveitamento da fruta (ASCHERI et al, 2006; ASCHERI, ASCHERI, CARVALHO, 2006). Durante a utilização da polpa para elaboração de licor e suco de jabuticaba ou análogos de vinho, ocorre a produção de um bagaço que é descartado, não sendo utilizado para outros fins produtivos (ASCHERI et al, 2006). Considerando as suas diversas propriedades nutricionais, uma alternativa interessante

para a utilização do bagaço de jabuticaba pode ser na elaboração de farinhas, destinadas ao preparo de diversos produtos alimentícios como pães, pudins, bolo, bolacha, macarrão, entre outros (ASCHERI, ASCHERI, CARVALHO, 2006).

A banana verde e o bagaço de jabuticaba podem ser utilizados para a fabricação de

farinhas que, por sua vez, podem ser utilizadas na produção de pães. “Pão é o produto obtido pela cocção, em condições tecnologicamente adequadas, de uma massa, fermentada ou não, preparada com farinha de trigo e/ou outras farinhas que contenham, naturalmente, proteínas formadoras de glúten ou adicionadas das mesmas e água, podendo conter outros ingredientes(BATTOCHIO, 2006). Assim, o pão de forma pode ser definido como sendo “o produto obtido pela cocção da massa em formas, apresentando miolo elástico e homogêneo, com poros finos e casca fina e macia” (GANDRA, 2008). Para melhorar as características nutricionais e aumentar o teor de fibra dos pães, é possível acrescentar, à sua formulação, as farinhas conhecidas como não panificáveis, que são aquelas cuja massa não permite a extração do glúten. Para que essas farinhas sejam aproveitadas na panificação, é necessário misturá-las à farinha de trigo, com predominância desta última nas proporções da mistura (DE FREITAS, STERTZ, WASZCZYNSKYJ, 1997). Dentro deste contexto, as farinhas de banana verde e de jabuticaba são consideradas como não panificáveis, devendo ser adicionadas em menores proporções que a farinha de trigo na fabricação de pães. Este estudo teve como objetivo verificar a aceitabilidade de pães enriquecidos formulados com farinha de banana da terra verde e de pães com farinha de banana da terra verde e farinha de jabuticaba, em substituição parcial à farinha de trigo.

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2 METODOLOGIA 2.1 JABUTICABA ELABORAÇÃO DAS FARINHAS DE BANANA DA TERRA VERDE E DE Para

2 METODOLOGIA

2.1

JABUTICABA

ELABORAÇÃO

DAS

FARINHAS

DE

BANANA

DA

TERRA

VERDE

E

DE

Para obtenção da farinha de banana da terra verde (FBV) foi utilizado o cultivar Terra (Musa sapientum), sendo adotado como critério de escolha a coloração da casca totalmente verde. Os frutos foram adquiridos na Central Estadual de Abastecimento Sociedade Anônima de Goiânia (CEASA). Os demais ingredientes básicos foram adquiridos no comércio local. Os frutos foram pesadas, lavadas, imersos em solução de água clorada (150 ppm)/15 minutos, descascados manualmente com faca de aço inox, cortados em rodelas de 0,5 cm de espessura e colocados em solução de ácido ascórbico 1% (100mL/100g de banana) por 15 minutos. Foi realizada desidratação em estufa com circulação forçada de ar a 50°C/12 horas, trituração em moinho de facas Willy-Mill TE-648. Para a fabricação da farinha de jabuticaba (FJ) foram utilizados resíduos (casca e semente) da indústria de suco de jabuticaba, adquiridos na Fazenda Jabuticabal, Nova Fátima, Hidrolândia, no estado de Goiás. Os resíduos da jabuticaba foram desidratados em estufa com circulação forçada de ar a uma temperatura de 50°C por 48 horas, triturados em moinho de facas Willy-Mill e peneirados em Tamis de aço inox de 100 Tyler/mesh, ou abertura de 0,150 mm. As farinhas foram acondicionadas em sacos plásticos à vácuo a -22°C até sua utilização.

2.2 ELABORAÇÃO DOS PÃES DE FORMA

Baseado em El Dash (1994), foi utilizada a seguinte formulação do pão tipo forma:

farinha de trigo 1000 g, água gelada 500 ml, açúcar refinado 70 g, gordura vegetal hidrogenada 60 g, sal refinado 10 g, fermento químico 30 g e melhorador 10 g. Foram realizadas modificações da formulação padrão, com a substituição parcial da farinha de trigo pela FBV e pela FBV+ FJ, obtendo assim, mais duas formulações diferentes de pães de forma. Para formulação do pão com FBV, 20% da farinha de trigo do pão tipo forma padrão foi substituído pela farinha de banana da terra verde, sendo acrescentados 50 mL de água

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8118

gelada. No caso do pão com FBT e FJ, 20% da farinha de trigo foi

gelada. No caso do pão com FBT e FJ, 20% da farinha de trigo foi substituída pela farinha de banana da terra verde e outros 5% foi substituído por farinha de jabuticaba, acrescentando-se, ainda, 70 mL de água gelada, aproximadamente.

2.3 ANÁLISE SENSORIAL

O teste de aceitação foi realizado com o objetivo de avaliar o nível de aceitação dos consumidores em relação aos pães fabricados com a farinha de banana da terra verde e com a farinha de jabuticaba mais a farinha de banana da terra verde. Foram analisados os atributos cor, aroma, sabor, textura e avaliação global, utilizando-se escala hedônica de nove pontos que variaram de 1 (desgostei extremamente) até 9 (gostei extremamente). Os pães foram analisados, ainda, de acordo com a intenção de compra do produto, utilizando-se escala que variou de 1 (certamente não compraria) até 5 (certamente compraria). As amostras das três formulações foram avaliadas por 100 consumidores, em potencial, em um supermercado de Goiânia. De acordo com projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFG (Nº 127/2010), os consumidores foram recrutados pessoalmente, indicando o produto que seria avaliado. A todos foi apresentado o “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido , onde havia uma explicação sobre o projeto e o produto a ser avaliado. Os voluntários que manifestaram interesse e consentimento participaram da avaliação.

2.4 ANÁLISE ESTATÍSTICA

A avaliação da análise sensorial de aceitabilidade foi realizada utilizando-se a análise de variância (ANOVA), com comparação das médias por teste de Tukey, utilizando-se nível de significância de 5%. Os testes estatísticos foram realizados em Software estatístico Sisvar.

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8119

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO n° de participantes 30 24 25 22 22 20 17 15

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

n° de participantes 30 24 25 22 22 20 17 15 9 10 6 5
n° de participantes
30
24
25
22
22
20
17
15
9
10
6
5
0
< 20
20-29
30-39
40-49
50-59
>60

Faixa etária

Figura 1 - Faixa etária (em anos) dos consumidores pesquisados na avaliação sensorial dos pães enriquecidos com farinha de banana da terra verde e farinha de banana e farinha de jabuticaba

De acordo com a figura 1, verificou-se que a maioria dos participantes da análise sensorial dos pães estavam na faixa etária dos 40 aos 49 anos, sendo que a menor participação ocorreu na faixa etária de maior de 60 anos.

46% 54%
46%
54%

Feminino46% 54% Masculino

Masculino46% 54% Feminino

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8120

Figura 2 – Classificação, de acordo com o sexo, dos particiantes na avaliação sensorial dos

Figura 2 Classificação, de acordo com o sexo, dos particiantes na avaliação sensorial dos pães enriquecidos com farinha de banana da terra verde e farinha de banana e farinha de jabuticaba

De acordo com os dados da figura 2, o público masculino teve maior participação na pesquisa, com 54% do número total de participantes, enquanto o público feminino teve participação de 46%.

9% 26% 65%
9%
26%
65%

Superior9% 26% 65% Médio Fundamental

Médio9% 26% 65% Superior Fundamental

Fundamental9% 26% 65% Superior Médio

Figura 3 - Classificação, de acordo com o grau de escolaridade, dos particiantes na avaliação sensorial dos pães enriquecidos com farinha de banana da terra verde e farinha de banana e farinha de jabuticaba

De acordo com a figura 3, o maoir número de participantes possuíam como grau de escolaridade o ensino superior, sendo 65% do total, seguido por aqueles que possuíam somente o ensino médio, sendo 26% do total. Os participantes com o ensino fundamental representaram o menor número de participantes, com 9% do total.

Tabela 1 - Valores médios da análise de aceitabilidade dos pães padrão, enriquecidos com farinha de banana da terra verde e com farinha de banana + farinha de jabuticaba

Tipo de pão

Cor

Aroma

Sabor

Textura

Avaliação global

Padrão

6,91 ab

6,14 b

6,63 b

6,33 b

6,72 b

1

6,46 b

6,59 ab

7,02 ab

6,69 ab

6,88 b

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8121

2 7,15 a 6,96 a 7,44 a 7,16 a 7,42 a
2 7,15 a
6,96 a
7,44 a
7,16 a
7,42 a

Pão1: pão com farinha de banana da terra verde (20%), 2: pão com farinha de banana da terra verde (20%) + farinha de jabuticaba (5%); as letras iguais em uma mesma coluna indicam que não houve diferença significativa entre as amostras, com p<0,05 pelo teste de Tuckey.

Em relação a cor, o pão padrão não apresentou diferença significativa em relação aos outros pães, havendo diferença apenas entre as amostras 1 e 2. Nos itens aroma, sabor e textura, a média do pão 1 não apresentou diferença significativa em relação ao pão padrão e o pão 2, ocorrendo diferença entre as amostras de pão padrão e o pão 2. Ainda em relação aos itens aroma, sabor e textura, as menores médias foram representadas pelo pão padrão, o que indica a sua menor aceitação por parte dos consumidores em relação as outras amostras. Sobre o item de avaliação global, o pão padrão e o pão 1 não apresentaram diferenças significativas entre si. Já o pão 2 apresentou diferença significativa entre as outras amostras, obtendo, ainda, a maior média, o que indica a maior aceitação dos consumidores em relação ás outras amostras. O pão 2, também, apresentou as maiores médias em todos os itens analisados.

Tabela 2 - Intenção de compra dos pães padrão, enriquecidos com farinha de banana da terra verde e com farinha de banana + farinha de jabuticaba pelos consumidores

Respostas (%)

Escala

Padrão

Pão 1

Pão 2

(1) Certamente não compraria (2) Provavelmente não compraria (3) Tenho dúvidas se compraria (4) Provavelmente compraria (5) Certamente compraria

2

6

2

12

9

6

30

21

17

35

39

28

21

25

47

*Pão1: pão com farinha de banana da terra verde, *Pão 2: pão com FBV+FJ

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8122

Analisando a tabela 2, pode-se perceber que a preferência dos consumidores foi maior pelo pão

Analisando a tabela 2, pode-se perceber que a preferência dos consumidores foi maior pelo pão número 2, já que 47% das pessoas responderam que certamente o comprariam. No item 3 da escala, 30% dos consumidores responderam que ficariam em dúvida se comprariam ou não o pão padrão. Já no item 1 da escala, 6% dos participantes responderam que certamente não comprariam o pão 1, contra 2% que responderam que certamente não comprariam o pão padrão e o pão 2. A principal observação feita pelos consumidores que participaram da pesquisa foi de que o pão com farinha de jabuticaba, por possuir coloração escura, assemelhou-se a um pão integral, o que seria um fator com forte influência para a escolha deste pão. Várias pesquisas têm demonstrado que os pães produzidos com farinhas mistas, assim como nesta pesquisa o pão com FBV e o pão com FBV+FJ apresentaram boa aceitação entre os consumidores. BORGES et al (2011) produziram pão de sal enriquecido com farinha integral de linhaça em duas concentrações diferentes. A análise da intenção de compra dos pães mostrou que 71,74% e 68,12% dos julgadores revelaram que certamente comprariam os pães enriquecidos. Na análise das características sensoriais, as duas formulações obtiveram notas médias localizadas entre os termos “gostei moderadamente” e “gostei muito”. OLIVEIRA, PIROZI, BORGES (2007) obtiveram formulação de pão de sal com farinha mista de trigo e linhaça. A análise de aceitabilidade do pão mostrou que a média das respostas (7,85) esteve mais próxima da afirmação "Comeria isto muito frequentemente". DE FREITAS, STERTZ, WASZCZYNSKYJ (1997) produziram pães com farinha mista de trigo e mandioca. Os resultados da análise de aceitabilidade mostrou que o pão elaborado com 20% de farinha de mandioca foi considerado ideal, superando o padrão em algumas características na preferência de 60% dos provadores.

4 CONCLUSÃO

Os pães formulados neste estudo com farinha mista de trigo, banana da terra verde e jabuticaba obtiveram boa aceitação entre os consumidores. De acordo com a análise sensorial, o pão padrão obteve a menor média e o pão com farinha de banana verde mais farinha de jabuticaba obteve as maiores médias, sendo o mais bem aceito entre os julgadores. Na pesquisa de intenção de compra, o pão com farinha de banana da terra verde e farinha de jabuticaba também obteve os melhores resultados.

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8123

Os pães com farinha de banana da terra verde e farinha de jabuticaba se mostraram

Os pães com farinha de banana da terra verde e farinha de jabuticaba se mostraram

uma boa alternativa para o enriquecimento e formulação de novos produtos de panificação,

com boa aceitação entre os consumidores.

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Acesso em: 15 de julho, 2012.

em:

“Revisado pelo orientador”

Acesso em: 15 de julho, 2012. em: “Revisado pelo orientador” Capa Índice 8 1 2 5

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Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8126 - 8137 Anestesia infiltrativa

Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012)

do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8126 - 8137 Anestesia infiltrativa em “L”

8126 - 8137

Anestesia infiltrativa em “L” invertido para laparotomia pelo flanco em bovinos:

Qualidade da anestesia intra-operatória e impacto no período pós-operatório

MOURA, R. S. 1 ; SOUZA, M. H. T. 2 ; MORAIS, T. L. 2 ; DUQUE, J. C. M. 3

Palavras-chave:

anestesia

local,

analgesia

pós-operatória,

complicações

pós-operatórias,

ruminantes.

INTRODUÇÃO Distúrbios digestivos são importantes na clínica de bovinos e, em casos em que a abordagem clínica não seja conclusiva, pode ser necessário buscar subsídios em procedimentos cirúrgicos como a laparotomia exploratória. A decisão de realizar laparotomia em bovinos com doenças abdominais envolve a interpretação dos sinais clínicos do animal, história clínica, exame físico e exames complementares. Esta decisão também deve levar em

consideração a experiência do cirurgião, disponibilidade de fatores para a cirurgia e ainda a condição física do animal (GHELLER, 2005).

A laparotomia exploratória pode ser executada com o animal em posição

quadrupedal em tronco de contenção, preservando assim a anatomia topográfica da cavidade abdominal. Para esse fim, a anestesia local é segura e efetiva, permitindo a realização da maioria dos procedimentos, com o auxílio de apenas a contenção física (TRANQUILLI et al.,

2007).

Na medicina de bovinos muitos fatores devem ser levados em conta no momento

de se escolher uma técnica anestésica adequada, entre eles: o tipo de procedimento cirúrgico, o local de intervenção, as instalações disponíveis, a experiência dos profissionais que realizarão a anestesia e a cirurgia, a condição física do animal e o custo total do procedimento (METRE, 2005). Na prática veterinária a anestesia local tem grande importância, pois geralmente as técnicas são simples, baratas e promovem a perda reversível da sensibilidade em áreas bem delimitadas (EDMONDSON, 2008). A anestesia em L invertido é um bloqueio local inespecífico, que dessensibiliza os tecidos caudais à 13 a costela e ventrais às apófises transversas das vértebras lombares. É utilizada uma agulha de 3 a 8 centímetros para injetar um total de até 100 mL de anestésico local em vários pontos do tecido, acompanhando o bordo caudal da décima terceira costela e os bordos ventrais das apófises transversas das vértebras lombares (TRANQUILLI et al.,

Revisado pelo orientador. 1 Aluno PIVIC – EVZ/UFG, 2 Aluno do Curso de Graduação em Medicina Veterinária – EVZ/UFG, 3 Docente de Anestesiologia – EVZ/UFG. E-mail para contato: anestesiologiavet@yahoo.com.br

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2007). As vantagens desta técnica incluem: facilidade de execução, não há interferência na deambulação do

2007). As vantagens desta técnica incluem: facilidade de execução, não há interferência na deambulação do animal, nem há deposição de anestésico no local de incisão, diminuindo assim a ocorrência de edema e hematoma. As desvantagens incluem a possibilidade de analgesia e relaxamento muscular incompletos nas camadas mais profundas da parede abdominal (principalmente em animais obesos), possibilidade de intoxicação por grandes doses de fármacos anestésicos e custo mais alto em relação à outras técnicas, devido ao grande volume utilizado de fármacos anestésicos (SKARDA, 1996). A associação de anestésicos locais tem se tornado popular. A lidocaína possui curta duração de ação (cerca de 1 hora a 1 hora e meia), mas com rápido início de ação (cerca de 5 minutos). Já a bupivacaína é escolhida para analgesia perioperatória, em virtude de sua longa duração de ação (cerca de 6 horas), porém seu tempo de latência é de no mínimo 20 minutos. A lógica é que a associação de um anestésico local de curta duração com um de longa duração fornecerá menor período de latência e maior duração da anestesia e da analgesia pós-operatória (CARROLL, 2012). No ser humano é claro o papel da anestesia local na melhora da qualidade da recuperação dos pacientes cirúrgicos. Existem evidências de que a anestesia regional afeta de forma positiva a qualidade de vida no período pós-operatório, por fornecer analgesia de excelente qualidade, melhorar a qualidade do sono, favorecer o retorno da mobilidade normal e preservar a função cognitiva (NIELSEN & STEELE, 2002). Neste trabalho foram avaliados a qualidade da analgesia cirúrgica e o impacto da anestesia na recuperação pós-operatória em bovinos submetidos à anestesia infiltrativa pela técnica do L invertido, para realização de laparotomia pelo flanco na posição quadrupedal.

OBJETIVOS Avaliar a latência, qualidade da anestesia cirúrgica e analgesia pós-cirúrgica da anestesia em L invertido, além dos parâmetros cardiorrespiratórios, temperatura, motricidade ruminal e características físico-químicas do fluido ruminal em bovinos submetidos à laparotomia pelo flanco em posição quadrupedal.

MATERIAL E MÉTODOS Animais

Foram utilizados 5 bovinos, mestiços, adultos, machos, hígidos, pesando 364±129 kg, oriundos do rebanho experimental da Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ), da

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Universidade Federal de Goiás (UFG). Os animais foram alojados em piquetes do Hospital Veterinário (HV)

Universidade Federal de Goiás (UFG). Os animais foram alojados em piquetes do Hospital Veterinário (HV) da EVZ/ UFG e alimentados com forrageiras, silagem e água ad libidum. Este estudo foi conduzido após sua aprovação pela Comissão de Ética no Uso de Animais da UFG – CEUA/UFG, protocolo n o 015/2011.

Procedimentos anestésico e cirúrgico Na data da realização do experimento os animais foram acondicionados em brete de contenção, onde foram realizadas as aferições dos parâmetros basais e após isto realizada a tricotomia e antissepsia da área cirúrgica. Em seguida, foi realizada a técnica de anestesia em “L” invertido descrita por TRANQUILLI et al. (2007), utilizando 60 mL de anestésico local, sendo 30 mL de lidocaína a 2% e 30 mL de bupivacaína a 0,5%. Confirmado o período de latência (L – considerado como o tempo transcorrido entre o final da administração da anestesia local e a perda da sensibilidade cutânea, conferida

pela técnica de pin prick modificada), uma incisão cirúrgica de 20 cm foi realizada em um ponto equidistante entre a última costela e a tuberosidade ilíaca, três centímetros ventralmente

à borda dos processos transversos das vértebras lombares. Todos os procedimentos cirúrgicos foram realizados pelo mesmo cirurgião, conforme técnica descrita por HENDRICKSON

(2010).

Após inspeção do posicionamento das vísceras e avaliação macroscópica do líquido peritoneal se realizou o fechamento da incisão por aproximação das camadas musculares com pontos simples separados com Categute cromado número 0 (Catgut Cromado 0 – Shalon Fios Cirúrgicos Ltda., São Luís dos Montes Belos – GO, Brasil). O espaço morto no subcutâneo foi reduzido empregando-se sutura contínua simples com mesmo tipo de fio usado na musculatura abdominal. A pele foi suturada com pontos simples separados com fio de náilon 0 (Naylon 0 – Technofio Indústria e Comércio Ltda. Goiânia – Go, Brasil). O manejo pós-operatório da ferida cirúrgica foi realizado pelo emprego de solução salina a 0,9%, seguida de desinfecção com solução iodada a 0,1%, aplicação de um

repelente em spray contra moscas sobre as bordas da ferida, a cada 24 horas, durante dez dias

e administração de ceftiofur (Bioxell – Vallée S/A Produtos Veterinários, Montes Claros –

MG, Brasil), na dose de 3 mg/kg, pela via intramuscular, a cada 24 horas, durante três dias. Os bovinos também receberam meloxicam (Maxicam – Ourofino Agronegócio, Cravinhos – SP, Brasil), na dose de 0,5 mg/kg, pela via intramuscular, a cada 24 horas, durante três dias. Os pontos foram retirados após 10 dias do procedimento cirúrgico.

Revisado pelo orientador. 1 Aluno PIVIC – EVZ/UFG, 2 Aluno do Curso de Graduação em Medicina Veterinária – EVZ/UFG, 3 Docente de Anestesiologia – EVZ/UFG. E-mail para contato: anestesiologiavet@yahoo.com.br

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Parâmetros avaliados Parâmetros cardiorrespiratórios e temperatura retal A frequência cardíaca (FC) foi avaliada por

Parâmetros avaliados

Parâmetros cardiorrespiratórios e temperatura retal

A frequência cardíaca (FC) foi avaliada por meio de eletrocardiografia

computadoriza (Eletrocardiógrafo ECGPC – TEB Tecnologia eletrônica Brasileira, São Paulo – SP, Brasil) e por auscultação por estetoscópio. As pressões arteriais sistólica (PAS), diastólica (PAD) e média (PAM) foram avaliadas pelo método oscilométrico, com o manguito do aparelho multiparamétrico (Dixtal modelo DX 2022 – Dixtal Biomédica Indústria e Comércio Ltda., Manaus – AM, Brasil) adaptado na base da cauda. A frequência respiratória (f) foi avaliada por meio de visualização da movimentação da região do abdômen e do gradil costal. A temperatura retal (TR) foi aferida por via retal com o auxílio de termômetro digital.

Motricidade ruminal e características físico-químicas do fluido ruminal A motricidade ruminal (MR) foi avaliada por auscultação, com estetoscópio, na

fossa paralombar esquerda identificando-se a quantidade e intensidade dos ruídos ruminais em cinco minutos, conforme DIRKSEN et al. (1993).

As análises do aspecto físico, do tempo de atividade do sedimento (TAS), da

prova de redução do azul de metileno (PRAM), densidade (D) e pH do fluido ruminal foram realizadas logo após a colheita e interpretação de acordo com as técnicas propostas por DIRKSEN et al. (1993). Para a quantificação e classificação dos protozoários pequenos (PP), médios (PM) e grandes (PG) do rúmen, uma alíquota de 10 ml de conteúdo ruminal foi transferida para

frascos de vidro com 10 ml de formaldeído a 37%. Essa mesma amostra foi empregada para avaliar a motilidade (MP) e viabilidade (VP) dos protozoários. As amostras foram homogeneizadas e mantidas em repouso até o momento das determinações, obedecendo à técnica descrita por DEHORITY (1977).

Realização da técnica e qualidade da anestesia cirúrgica Foram avaliados o tempo empregado para realização da técnica anestésica, o período de latência para a perda da sensibilidade cutânea (L) e a qualidade da anestesia cirúrgica, pela resposta dos animais à incisão cirúrgica, à manipulação dos tecidos (musculatura, peritônio e vísceras) e à sutura da ferida.

Revisado pelo orientador. 1 Aluno PIVIC – EVZ/UFG, 2 Aluno do Curso de Graduação em Medicina Veterinária – EVZ/UFG, 3 Docente de Anestesiologia – EVZ/UFG. E-mail para contato: anestesiologiavet@yahoo.com.br

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Qualidade da analgesia pós-cirúrgica imediata Foi avaliada por meio da técnica do pin-prick modificada (foi

Qualidade da analgesia pós-cirúrgica imediata Foi avaliada por meio da técnica do pin-prick modificada (foi usada a agulha de um martelo de Buck) aplicada nas superfícies cutâneas dorsal (Do), lateral direita (Ld), lateral esquerda (Le) e ventral (Ve) à incisão cirúrgica. Foram observadas as respostas do animal como virar a cabeça em direção à ferida, mudanças de posição na tentativa de fugir do estímulo, escoicear, vocalização e outras reações defensivas, identificando-se, caso uma ou mais dessas reações fossem expressas pelo animal, o fim da analgesia naquele ponto.

Ocorrência de complicações pós-cirúrgicas Durante todo o período pós-cirúrgico de dez dias, sempre no horário da manhã, foi avaliada a presença de edema, calor, sensibilidade e secreções na região da incisão.

Também foi registrada a ocorrência de deiscência da ferida, enfisema subcutâneo, bem como

o tempo em que o animal precisou de tratamento adicional depois da retirada dos pontos.

Intervalos de avaliação Todos os parâmetros foram avaliados 30 minutos antes (T-30), imediatamente antes (T0) e 60, 120,180 e 240 minutos após a anestesia local (T-30, T60, T120, T180 e T240, respectivamente). A área máxima de dessensibilização foi avaliada 60 minutos depois da aplicação da anestesia local e a analgesia pós-cirúrgica foi avaliada em T60, T120, T180 e T240. Nos animais nos quais a analgesia excedeu às quatro horas de avaliação continuou-se com a avaliação de hora em hora até verificar a presença de respostas aversivas ao pin prick, considerando-se então o término da analgesia pós-operatória. Os parâmetros

cardiorrespiratórios, a motricidade, a temperatura e as características físico-químicas do fluido ruminal foram avaliadas novamente 24, 48, 72 horas e 7 dias (T24H, T48H, T72H, T7D) após

a administração da anestesia local, sempre no horário da manhã, entre às 8:00 e às 12:00 AM.

Análise estatística Os dados obtidos na fase experimental foram submetidos à análise estatística pelo programa de computador Jandel SigmaStat for Windows. O teste de normalidade de Kolmogorov-Smirnov foi usado para verificar a distribuição normal dos dados, que estão apresentados como médias ± desvios-padrão. Utilizou-se a análise de variância de uma via com medições repetidas, seguida do teste de Student-Newman-Keuls, para detectar diferenças entre os diferentes momentos. Para a análise dos dados não paramétricos foi empregado o

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8130

teste de Kruskal-Wallis seguido do teste de Student-Newman-Keuls. As diferenças foram consideradas significativas quando

teste de Kruskal-Wallis seguido do teste de Student-Newman-Keuls. As diferenças foram

consideradas significativas quando p0,05.

RESULTADOS

Tempo de técnica anestésica, latência e tempo de cirurgia

Os valores individuais, as médias e os desvios-padrão para estas variáveis se

encontram na tabela 1.

Tabela 1 – Tempo individual e médio de execução de técnica anestésica local, técnica

cirúrgica e latência da anestesia em bovinos submetidos à anestesia local em “L”

invertido para a realização de laparotomia exploratória pelo flanco.

Animal

Tempo de técnica anestésica (minutos)

Latência

Tempo de cirurgia (minutos)

(segundos)

1

22

960

-

2

19

240

84

3

17

300

65

4

13

600

54

5

12

120

75

Média±DP

 

16,60

444

69,5

[4,2]

[338,3]

[12,9]

Parâmetros cardiorrespiratórios e temperatura

Não foram observadas diferenças significativas ao longo das avaliações nas variáveis

FC e f. A PAS foi significativamente menor em T120 e T180, em relação à todos os outros

momentos. A PAM aumentou em T120, T180 e T240, em comparação com T-30 e T0. Já a

PAD aumentou significativamente em T60, em comparação com todas as outras avaliações e

diminuiu em T240, também em comparação com todos os outros momentos. Apesar de a TR

ter aumentado gradativamente durante as avaliações, somente houve diferença estatística entre

T48H e T-30, T0 e T60 (Tabela 2).

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8131

Tabela 2 – Médias e desvios-padrão de frequência cardíaca (FC), frequência respiratória ( f ),

Tabela 2 – Médias e desvios-padrão de frequência cardíaca (FC), frequência respiratória (f), pressão arterial sistólica (PAS), pressão arterial diastólica (PAD), pressão arterial média (PAM) e temperatura retal (TR) de bovinos submetidos à anestesia local em “L” invertido para a realização de laparotomia exploratória pelo flanco.

Variável

T-30

T0

T60

T120

T180

T240

T24h

T48h

T72h

T7d

FC

54

51

54

53

51

55

57

58

54

59

[11]

[12]

[13]

[9]

[10]

[7]

[9]

[4]

[5]

[12]

f

22

24

23

24

28

30

26

35

32

27

[6]

[6]

[7]

[6]

[5]

[7]

[10]

[13]

[17]

[7]

PAS

135

133

131

123

120

133

       

[12]

[19]

[17]

[12]

[6]

[10]

PAD

62

71

73

63

62

62

       

[8]

[15]

[11]

[8]

[8]

[18]

PAM

87

92

93

83

82

85

       

[5]

[15]

[9]

[8]

[7]

[13]

TR

37,8

37,9

38

38,2

38,3

38,8

38,5

39

38,6

38,5

[0,3]

[0,5]

[0,3]

[0,4]

[0,3]

[0,5]

[0,5]

[0,5]

[0,4]

[0,5]

Motricidade ruminal e características físico-químicas do fluido ruminal Houve redução significativa da MR nos momentos T120 e T180 em comparação com T-30, T0, T48, T72h e T7D. Os parâmetros TAS, densidade, motilidade, e quantificação e classificação dos protozoários do rúmen em pequenos, médios e grandes não apresentaram diferenças significativas. A viabilidade dos protozoários foi significativamente menor em T120 e T240, em comparação com T72H. A PRAM teve tempo significativamente maior em T-30 do que em T60, T24H e T48H (Tabela 3). O pH em T120 foi significativamente mais alto que em todos os outros momentos, e em T48h e T72h foram observados os menores valores de pH, quando comparados à todos os outros momentos.

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8132

Tabela 3 – Médias e desvios-padrão do tempo de atividade da motricidade ruminal (MR), do

Tabela 3 – Médias e desvios-padrão do tempo de atividade da motricidade ruminal (MR), do sedimento (TAS), da prova de redução do azul de metileno (PRAM), da densidade (D), do pH, dos protozoários pequenos (PP), médios (PM) e grandes (PG), da motilidade (MP) e da viabilidade (VP) dos protozoários do fluido ruminal em bovinos a anestesia local em “L” invertido, para realização de laparotomia exploratória pelo flanco.

Tempo

Variável

 

T-30

T0

T60

T120

T180

T240

T24H

T48H

T72H

T7D

 

6

6

4

3

3

4

4

6

6

6

MR

[1]

[2]

[1]

[0]

[1]

[1]

[1]

[2]

[1]

[1]

TAS

10,4

9,6

12,0

8,8

10,3

7,7

6,4

6,3

9,7

8,9

[2,9]

[0,4]

[2,4]

[1,1]

[3,3]

[1,8]

[2,2]

[3,5]

[0,2]

[2,5]

PRAM

6,2

8,2

2,6

5,1

3,7

5,3

3,2

2,4

4,0

4,0

[1,7]

[1,3]

[0,2]

[0,1]

[1,6]

[1,1]

[1,6]

[0,8]

[2,0]

[3,5]

pH

7,5

7,4

7,6

7,7

7,5

7,4

7,3

7,1

7,2

7,4

[0,2]

[0,1]

[0,1]

[0,0]

[0,0]

[0,1]

[0,2]

[0,2]

[0,]

[0,1]

PP

37,5

42,5

33,3

40,0

33,3

45,0

42,5

40,0

50,0

40,0

[4,3]

[10,9]

[4,1]

[7,1]

[4,1]

[15,0]

[13,0]

[14,1]

[14,1]

[12,2]

PM

37,5

35,0

43,3

40,0

41,7

40,0

40,0

46,7

29,0

36,7

[4,3]

[8,7]

[4,1]

[0,0]

[5,4]

[12,2]

[12,2]

[14,7]

[17,1]

[8,2]

PG

25

22,5

23,3

20

25

15

[5]

17,5

13,3

15

23,3

[5]

[12,9]

[4]

[7]

[6,1]

[4,3]

[4]

[3,5]

[10,8]

MP

1,8

1,5

1,3

1,3

1,7

1,5

1,8

2,0

2,0

2,0

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

D

12,0

1,8

2,0

2,3

2,0

1,5

1,8

1,3

1,5

1,3

[0,0]

[0,4]

[0,0]

[0,4]

[0,0]

[0,4]

[0,4]

[0,4]

[0,3]

[0,4]

VP

70,0

65,0

60,0

46,7

63,3

57,5

70,0

66,7

80,0

63,3

[12,2]

[16,6]

[12,2]

[10,8]

[7,3]

[9,7]

[6,3]

[3,7]

[0,0]

[15,9]

Qualidade da anestesia cirúrgica

Dos cinco animais três reagiram à manipulação do músculo oblíquo abdominal

externo e apenas um animal reagiu à divulsão e sutura do peritônio. Em apenas um animal foi

necessária a readministração de mais 5 mL de anestésico local, sendo que após isto não houve

reação aos estímulos durante o procedimento cirúrgico.

As reações aos estímulos dolorosos registrados foram arqueamento do dorso,

escoicear, vocalização e dirigir a cabeça em direção ao local da cirurgia. As reações foram

pontuais e não se repetiram durante o procedimento cirúrgico.

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8133

Analgesia pós-cirúrgica O tempo de analgesia pós-cirúrgica nos quatro quadrantes avaliados é apresentado na tabela

Analgesia pós-cirúrgica

O tempo de analgesia pós-cirúrgica nos quatro quadrantes avaliados é apresentado na

tabela 4.

Tabela 4 – Médias e desvios-padrão do tempo de analgesia pós-cirúrgica (em minutos) nas regiões dorsal (Do), ventral (Ve), lateral esquerda (Le) e lateral direita (Ld) em bovinos submetidos à anestesia local em “L” invertido para laparotomia exploratória pelo flanco.

 

Tempo de analgesia

 

Animal/Quadrante

Do

Ve

Le

Ld

1

236

236

236

236

2

170

230

170

170

3

318

318

318

318

4

216

216

221

216

5

180

840

180

840

Médias

224,00

368,00

225,00

356,00

Desvios-padrão

52,72

238,69

52,60

246,70

Complicações pós-cirúrgicas

A frequência de ocorrência das complicações pós-cirúrgicas esta listada na tabela 5.

Tabela 5 – Frequência de ocorrência de secreções, edema, sensibilidade e calor observados durantes dez dias em bovinos submetidos à anestesia local em “L” invertido para a realização de laparotomia exploratória pelo flanco.

Sinais

 

Tempo

 

D1

D2

D3

D4

D5

D6

D7

D8

D9

D10

Edema

2

2

1

2

2

2

2

2

2

2

Secreção

1

0

0

0

0

0

0

0

0

0

Calor

4

2

2

3

1

1

0

1

3

3

sensibilidade

3

2

1

2

2

2

2

2

2

2

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8134

DISCUSSÃO A técnica anestésica utilizada é relativamente simples e tem como vantagens facilidade de execução,

DISCUSSÃO

A técnica anestésica utilizada é relativamente simples e tem como vantagens

facilidade de execução, pouca interferência na deambulação e não há deposição do anestésico no local da ferida cirúrgica. Suas desvantagens são o volume relativamente alto de fármacos anestésicos, analgesia insatisfatória de camadas profundas e possibilidade de aplicação acidental de fármacos na cavidade peritoneal (SKARDA, 1996).

Para este experimento foram utilizados 60 mL de anestésico locai, embora TRANQUILLI et al. (2007) tenham relatado que podem ser utilizado um total de até 100 mL de anestésico local acompanhando o bordo caudal da décima terceira costela e os bordos ventrais das apófises transversas das vértebras lombares. A quantidade de anestésico utilizado varia de acordo com o tamanho do animal, já que o cordão anestésico pode variar de 20 à 30 cm, de acordo com o talhe do animal, devendo a área anestesiada abranger todo o campo cirúrgico (MASSONE, 2003). Por esse motivo, o volume de anestésico foi ajustado ao tamanho dos animais empregados neste estudo. Neste experimento foi necessária a aplicação de repique de 5 mL em um animal que reagiu à incisão de pele e à manipulação das camadas musculares mais superficiais e 3 animais reagiram durante a divulsão do músculo oblíquo abdominal externo, porém não houve necessidade de repique. A analgesia insatisfatória de camadas profundas do tecido é uma das desvantegens citadas por MASSONE (2003), na prática a técnica tem mostrado que os animais, sobretudo animais zebuínos, costumam reagir à incisão cirúrgica na região distal,

o que leva a crer que em face da rica inervação cutânea descrevendo uma rede, a anestesia

local em “L” pode não ser totalmente satisfatória. Neste estudo utilizou-se metade do volume de anestésico de bupivacaína e metade de lidocaína. Segundo CARROLL (2012) atualmente a mistura de anestésicos locais tornou-se popular. A lógica é que a mistura de um anestésico local de curta duração com um de longa duração fornecerá um anestesia com menor latência e maior duração. Em geral a bupivacaína

é escolhida para analgesia perioperatória em virtude de sua longa duração de ação (cerca de 6

horas), porém o tempo de contato necessário é de no mínimo 20 minutos. A lidocaína é

escolhida quando é necessário uma curta duração de ação (cerca de 1 hora à 1hora e meia) com rápido início de ação (cerca de 5 minutos).

Os anestésicos locais podem reagir nos canais de cálcio do músculo cardíaco podendo

induzir inotropismo negativo e vasodilatação (HERRICK & ROOYEN, 2002), porém neste estudo não foram observadas quaisquer alterações clínicas significativas nos parâmetros

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8135

cardiovasculares em nenhum dos momentos. Isto é explicado ao fato de que não foram utilizadas

cardiovasculares em nenhum dos momentos. Isto é explicado ao fato de que não foram utilizadas doses elevadas de fármacos, que pudessem levar à concentrações plasmáticas tóxicas após a absorção. Apesar disto a técnicas de anestesia local empregada tem como risco a administração inadvertida de fármacos dentro da cavidade peritoneal, o que poderia levar à uma absorção rápida dos fármacos ocasionando concentrações plasmáticas tóxicas para o sistema nervoso central e para o sistema cardiovascular. O acompanhamento da realização da técnica por um profissional experiente foi crucial para que estas complicações viessem a ocorrer. Não houve diferença significativa na MR, TAS, densidade, motilidade dos protozoários, nem na quantificação e classificação dos protozoários do rúmen em pequenos, médios e grandes. Esses achados sugerem que não houve interferência da técnica anestésica e cirúrgica na saúde ruminal. As alterações do pH e da PRAM podem ser justificados pela forma em que as coletas eram feitas, já que a passagem da sonda pela cavidade oral pode ocasionar a contaminação das amostras por saliva. Todos os animais tiveram alta aos dez dias sem mais complicações na ferida cirúrgica

e tampouco foi relatada a ocorrência de secreções, isto pode ser explicado pela técnica

anestésica, que não é feita através da deposição de fármacos nos tecidos da região de incisão,

diminuindo a formação de edema e melhorando a cicatrização tecidual. A ocorrência de sensibilidade, calor, edema e secreção são esperados durante o período pós-operatório em bovinos submetidos à laparotomia exploratória (SILVA et al. 2005).

CONCLUSÕES A técnica de anestesia em L invertido não ocasiona alterações significativas nos parâmetros cardiorrespiratórios, na saúde ruminal, nem tem impacto negativo na recuperação pós-operatória em bovinos submetidos a laparotomia exploratória em posição quadrupedal.

REFERÊNCIAS

1. CARROLL, L. G. Anestesia e Analgesia de Pequenos animais. 1ª ed. São Paulo: Manole,

2012, 130p.

2.

DIRKSEN, G.; GRUNDER, H.D.; STOBER, M. Rosenberger: Exame clínico dos bovinos.

ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993, 419p.

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8136

3. DEHORITY, B.A. Classification and morfology of rumen protozoa. Wooster, Ohio Agricultural Research and Development

3. DEHORITY, B.A. Classification and morfology of rumen protozoa. Wooster, Ohio

Agricultural Research and Development Center, 1977, 82p.

4. EDMONDSON, A. M. Local and regional anaesthesia in cattle. Veterinary clinics food

animal practice, 2008, vol. 24, p. 211-216.

5. GHELLER, A. V. Abordagem cirúrgica do sistema digestivo em ruminantes. In:

SIMPÓSIO MINEIRO DE BUIATRIA, 2., 2005, Minas Gerais. Anais eletrônicos. Disponível em: http://www.ivis.org/proceedings/abmg/2005/pdf01.pdf. Acesso em: 08 ago. 2012.

6. HENDRICKSON, D.A. Técnica Cirúrgica em Grandes Animais. 3ª ed. Guanabara Koogan,

2010. 332p.

7. HERRICK, M.; ROOYEN, I.F.V; Principles of Anaesthesia, The Medicine Publishing

Company Ltd; 2002.

8. MASSONE, F. Anestesiologia veterinária. 4ª ed. Guanabara Koogan, 2003. 39p.

9. METRE, D.C.V. Abdominal emergencies in cattle. Veterinary Clinics of North America

Food Animal Practice, 2005, vol. 21, n o 3, 43 p.

10. NIELSEN, K. C.; STEELE, S. M. Outcome after regional anaesthesia in the ambulatory

setting – is it really worth it?. Best Practice & Research Clinical Anaesthesiology, 2002, v. 16, p. 145-157.

11. SILVA, L. A. F. et al. Rumenotomia em bovinos: uso de paramentação e de

oxitetraciclina parenteral na profilaxia de complicações pós-operatórias. Ciência Rural, vol. 35, nº3, p. 611-617, mai-jun, 2005.

12. SKARDA, R. Local and regional anesthesia in ruminants and swine. Veterinary Clinics of

North America Food Animal Practice, 1996, vol.12, p. 579–626.

13. TRANQUILLI, W.J.; THURMON, J.C.; GRIMM, K.A. Lumb & Jones´Veterinary

Anestesia and Analgesia. 4ed. Ames: Blackwell Publishing, 2007. p.395-418.

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8137

Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8138 - 8152 TRAÇOS DE

Anais do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012)

do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão- CONPEEX (2012) 8138 - 8152 TRAÇOS DE CONSERVAÇÃO LEXICAL

8138 - 8152

TRAÇOS DE CONSERVAÇÃO LEXICAL NO DIALETO CAIPIRA EM GOIÁS

Rayne Mesquita de Rezende 1 ; Maria Helena de Paula 2 Universidade Federal de Goiás/Campus Catalão Departamento de Letras raynemesquita@hotmail.com; mhpcat@gmail.com

Palavras-chave: dialeto caipira; conservação lexical; Goiás.

Introdução

Apresentaremos os resultados finais da pesquisa sob o título “Traços de Conservação

Lexical no Dialeto Caipira em Goiás”, realizada no período de agosto de 2011 a julho de

2012, no âmbito do Programa Institucional de Iniciação Científica, modalidade voluntária

(PIVIC). A pesquisa vincula-se ao Grupo de Estudos e Pesquisas em História do Português

(GEPHPOR) e ao projeto “Estudos de Léxico do Português”, ambos coordenados pela

Professora Doutora Maria Helena de Paula.

Demos continuidade à nossa investigação acerca da permanência do dialeto caipira na

atualidade, em pesquisa executada anteriormente “Percursos Lexicais do Dialeto Caipira”,

que comprovou a ocorrência do dialeto nas regiões denominadas de “Rota Caipira”, formada

pelos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e parte

do Paraná. Contrariando a hipótese levantada por Amadeu Amaral ([1976] 3 1920) de que o

dialeto caipira estava “condenado a desaparecer em tempo mais ou menos breve”,

prosseguimos com a nossa pesquisa acerca dessa variante, mas dessa vez, já que outrora

atestamos a sua sobrevivência, o foco será a situação do dialeto caipira especificamente no

estado de Goiás nos dias de hoje.

Utilizamos como suporte teórico quanto aos estudos da formação do estado de Goiás,

da sua constituição linguística e cultural os estudos de Paula (2007), Ribeiro (2008) e

Linhares (2004). Este, da área da sociologia, tendo como ponto central a linguagem e a

identidade cultural caipira faz uma abordagem da história do povoamento do estado e Goiás

em linhas gerais tendo como foco o município de Mossâmedes, além de um levantamento das

principais peculiaridades fonéticas registradas nas entrevistas feitas com habitantes da zona

rural que caracterizam o falar caipira 4 .

1 Graduanda do 5º Período do Curso de Letras (Inglês/Português), de Universidade Federal de Goiás, Campus Catalão. Voluntária de Iniciação Científica, modalidade PIVIC.

2 Professora Doutora do Departamento de Letras da Universidade Federal de Goiás, Campus Catalão.

3 Fazemos uso da terceira edição da obra O Dialeto Caipira.

4 O nosso entendimento acerca do que é a linguagem caipira é a partir do que é pautado por Amaral (1920).

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8138

Ribeiro (2008) faz um estudo antropológico a respeito da constituição da população e da cultura

Ribeiro (2008) faz um estudo antropológico a respeito da constituição da população e da cultura caipira, traçando um panorama da irradiação das mesmas, bem como apontando uma causa plausível para a manutenção dos costumes caipiras na época presente. Paula (2007) trata da formação linguística, histórica e cultural, primeiramente do estado de Goiás para, em seguida, associar, cultura à constituição do léxico de uma comunidade linguística, tendo como locus de pesquisa o município de Catalão-GO, região integrante da “Rota Caipira”. Observamos, nos estudos desta estudiosa, como as práticas culturais se mantêm na memória dos falantes de uma comunidade por meio dos signos lexicais, que as designam. Em relação aos procedimentos de um estudo dialetológico, utilizamos Castro (2006) que, partindo do que Amaral (1920) registra como caipira e tendo como corpus cartas linguísticas contidas nos altas linguísticos de Minas Gerais EALMG (Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais) de Ribeiro et alii (1977) e do Paraná ALPR (Atlas Linguístico do Paraná) de Aguilera (1994), faz um mapeamento de traços fonético/fonológicos da prosódia caipira recorrentes nos estados de Minas Gerais e Paraná. No entanto, nosso estudo é de natureza eminentemente lexical e nos valemos da metodologia do referido autor para este estudo dialetológico que ora relatamos. Parte das obras que compõem o nosso referencial teórico constitui-se de pesquisas de natureza quantitativa e qualitativa, ou seja, todas contêm em seus corpora dados de pesquisas de campo com falantes do dialeto caipira, que compuseram as bases necessárias para as análises possíveis dentro da ciência Linguística, nos níveis lexical, fonético e fonológico. A justificativa para a escolha dos referenciais teóricos supracitados é a semelhança nas suas estruturas e natureza em relação à pesquisa que fizemos. Embora a pesquisa “Traços de Conservação Lexical no Dialeto Caipira em Goiás” seja de cunho bibliográfico e nosso corpus não contenha entrevistas de campo que pudessem evidenciar traços do dialeto caipira, a mesma também é de cunho quantitativo e qualitativo, já que cotejamos os 1.720 verbetes registrados por Amaral (1920) com os registros nos dicionários Houaiss (2001) e Ferreira (2004) na pesquisa anterior 5 e, na presente, com o que registra Ortêncio (2009). Em relação ao léxico, nível linguístico ao qual vamos nos ater nesse estudo, fundamentamo-nos nas teorias de Biderman (2001) e Vilela (1994), que concebem o léxico

5 Aqui nos referimos à pesquisa “Percursos Lexicais do Dialeto Caipira”, desenvolvida na modalidade PIBIC- Ação Afirmativa, no Campus Catalão/UFG, no período de 2010-2011, sob os auspícios do CNPq.

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como um subsistema aberto da língua que configura a realidade extralinguística de uma determinada sociedade

como um subsistema aberto da língua que configura a realidade extralinguística de uma determinada sociedade através dos signos linguísticos.

Objetivos O objetivo principal dessa pesquisa foi o de discutir sobre conservação lexical do dialeto caipira atualmente no estado de Goiás, bem como verificar se o que Amaral (1920) considera e registra como caipira no glossário presente na obra “O Dialeto Caipira” ([1976] 1920) é também registrado como caipira por Teixeira (1944) 6 , pioneiro em fazer um estudo linguístico sistematizado acerca da linguagem goiana, e por Ortêncio (2009) no Dicionário do Brasil Central subsídios à Filologia, acervo lexicográfico que traz lexias de usos correntes e com sentidos específicos na região Centro-Oeste. Ensejamos, ainda, contribuir em quantidade e qualidade para as pesquisas sobre o dialeto caipira em Goiás, pois observamos que é irrisória a quantidade de estudos que tratem do comportamento da variante caipira no estado, reconhecidamente um locus de sua recorrência.

Metodologia Para a execução desse trabalho, inicialmente fizemos as leituras que tangem a parte teórica sobre a constituição do léxico de uma língua, bem como a sua associação com o conceito de cultura, além de uma breve discussão acerca da história do estado de Goiás. Como esse trabalho aborda a variante linguística caipira, buscamos também compreender o que são os regionalismos e os sentidos que um mesmo vocábulo adquire de acordo com a variação geográfica e social de cada lugar. Neste sentido, a definição do termo cultura apresentada por Paula (2007) é que nos dá o respaldo necessário para essa discussão. Para a autora,

6 Essa etapa da pesquisa não pode ser concluída devida à impossibilidade de contato com a obra de Teixeira (1944) “Estudos de Dialectologia Portuguesa – Linguagem de Goiás”, uma vez que esta é uma obra raríssima, e apesar de nossa incessante busca para a execução da pesquisa não conseguimos encontrá-la dentro do prazo previsto para envio do presente relatório. Somente em meados de julho tivemos acesso a uma cópia, mas não acrescentamos aqui nenhuma informação do livro, por acreditarmos que por ser um estudo acurado sobre a linguagem de Goiás, a obra de Teixeira (1944) precisa ser estudada e observada com afinco, o que o escasso tempo não nos permitiu. Adiantamos que o livro traz uma definição de dialetologia em sua introdução e se divide em quatro partes: I Fonética, II Morfologia, III Sintaxe e IV Glossário, que indica a área de ocorrência das lexias. Continuaremos nossos estudos baseadas no que Teixeira (1944) considera como “linguagem de Goiás” no trabalho de conclusão de curso (TCC), ao qual daremos início em breve. Ressaltamos, ainda, que a ausência da obra supracitada não comprometeu a veracidade dos dados aqui atestados.

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Cultura é o conjunto de práticas sociais situadas historicamente, que se referem a uma sociedade

Cultura é o conjunto de práticas sociais situadas historicamente, que se referem a uma sociedade e que a fazem diferente de outra. Baseia-se na construção social de sentidos a ações, crenças, hábitos, objetos que passa a simbolizar aspectos da vivência humana em coletividade. Construída socialmente no cotidiano das relações humanas demanda que seja definida no seio das relações sociais e históricas que a amparam e por ele são caracterizadas (PAULA, 2007, p. 74).

É na convivência e no cotidiano que os elementos abstratos e concretos vão adquirindo seus lugares e funções. Estas, por sua vez recebem um nome, que as particularizam e as distinguem entre si. Esse nome é dado de acordo com as convenções sociais de cada comunidade. Assim ocorre o processo de nomeação e categorização desses elementos. Desta feita, dizemos que a língua como um diassistema, além da sua função primeira que é a comunicação, influencia e demarca a organização social de uma população e é justamente dentro do subsistema léxico que, segundo Vilela (1994), melhor vemos refletir a face linguístico-cultural de uma sociedade, a saber:

O léxico é a parte da língua que primeiramente configura a realidade extralinguística e arquiva o saber linguístico duma comunidade. Avanços e recuos civilizacionais, descobertas e inventos, encontros entre povos e culturas, mitos e crenças, afinal, quase tudo antes de passar para a língua e para a cultura dos povos, tem um nome e esse nome faz parte do léxico. O léxico é o repositório do saber linguístico e é ainda a janela através da qual um povo vê o mundo. Um saber partilhado que apenas existe na consciência dos falantes duma comunidade (VILELA, 1994, p. 6).

Assim, se é no léxico de uma língua que mais se visualizam os traços culturais de determinado grupo de falantes, é natural que haja variação linguística entre a língua considerada oficial e as demais formas de linguagem de acordo com as variações diatópicas e diastráticas. Buscamos a explicação para a manutenção do dialeto caipira no estado de Goiás nas raízes históricas de seu povoamento e na formação da sociedade goiana dos tempos do Brasil colônia, que deixaram heranças nos costumes e no falar goiano atualmente. Segundo Paula (2007), nas primeiras décadas do século XVIII, Bartolomeu Bueno de da Silva, que ficaria mais conhecido como Anhanguera, que do étimo tupi significa “diabo velho”, volta para São Paulo depois de três anos perdido nos sertões do interior do Brasil, com a notícia de que na região que hoje forma o estado de Goiás existiriam jazidas de ouro, nos arredores do Rio Vermelho. Isso ocasionou a vinda de muitos imigrantes portugueses de toda classe, desde comerciantes até aventureiros que vinham com a esperança de enriquecer com a exploração e

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o comércio do ouro, bem como alguns migrantes de origem portuguesa e mestiça que já

o comércio do ouro, bem como alguns migrantes de origem portuguesa e mestiça que já viviam em outras partes do Brasil. Completando esse quadro populacional, temos os índios, que aqui há muito já viviam, tendo alguns sido escravizados, e outros que ainda resistiam bravamente à dominação portuguesa, além dos negros que foram sendo trazidos para o trabalho escravo. Assim, constituiu-se o conforme nos diz Paula (2007, p. 69) “o quadro populacional de Goiás” e, por conseguinte a mistura de suas línguas resultou na base do dialeto caipira, que falamos hoje. Abordamos, ainda, em linhas gerais, sobre o que é um regionalismo, já que fazemos um trabalho baseado em dois glossários de lexias (o capítulo V Vocabulário de Amaral (1976) e a obra de Ortêncio (2009)) que adquirem sentidos específicos no caipirês. A este propósito, acreditamos ser necessário abordar brevemente a definição de regionalismo, fomentando nossa discussão em Biderman (2001), que o define como:

Com base em estudo de Boulanger (1985) creio que se pode definir regionalismo: qualquer fato linguístico (palavra, expressão, ou seu sentido) próprio de uma ou de outra variedade regional do português do Brasil, com exceção da variedade usada no eixo linguístico Rio/São Paulo, que se considera como o português brasileiro padrão, isto é, a variedade de referência, e com exclusão também das variedades usadas em outros territórios lusófonos (BIDERMAN, 2001, p. 136, grifos da autora).

Adotamos, no presente trabalho, uma metodologia semelhante à pesquisa à qual no referimos anteriormente 7 . Dessa vez, comparamos os 1.720 verbetes registrados por Amaral (1920) no capítulo V Vocabulário do livro O Dialeto Caipira([1976] 1920) com os verbetes registrados por Ortêncio (2009), na versão eletrônica do seu Dicionário do Brasil Central - subsídios á Filologia, que não traz em sua apresentação a quantidade de verbetes registrados na versão eletrônica. Embora o nosso objetivo principal ao fazer esse estudo não seja o de analisar o supracitado dicionário, não podemos deixar de observar que o mesmo apresenta algumas deficiências na sua metodologia de elaboração, que em alguns momentos dificultaram o nosso trabalho com o cotejo dos verbetes. Procedemos da seguinte maneira:

a) elaboramos uma tabela, em que copiamos e enumeramos os 1.720 verbetes registrados por Amaral (1920);

7 Ver nota de número 6.

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b) verificamos se Ortêncio (2009) registrou esses verbetes e, se registrados, os comparamos com os

b) verificamos se Ortêncio (2009) registrou esses verbetes e, se registrados, os comparamos com os trazidos por Amaral (1920); c) classificamos os verbetes em: verbetes não registrados (VNR), verbetes registrados com significados iguais (VRSI), ressaltando que essa categoria engloba também os verbetes que foram transcritos por Amaral (1920) com a grafia de acordo como falavam os seus informantes; verbetes registrados com significados semelhantes (VRSS), verbetes registrados com significados diferentes (VRSD). A tabela seguinte apresenta nosso procedimento metodológico nesta etapa da pesquisa:

VERBETES

AMARAL (1920)

   

ORTÊNCIO (2009)

 

RESULTADO

Arranchá (r)

Armar barraca ou “rancho”; estabelecer-se provisoriamente; fig. hospedar-se sem cerimônia

Hospedar. [

]

VRSI

(com alguém): [ (p. 91).

].

   

Càititú

Espécie de porco do mato (p.

1. Porco do mato. 2. Artista que grava discos para autopromover-se nas emissoras de rádio. 3. Nas fábricas de farinha, principal instrumento de ralar mandioca.

VRSI [caititu]

106).

Especúla

Perguntador, indiscreto [ (p. 131).

].

Indivíduo que tem mania de perguntar muito; indiscreto; abelhudo.

VRSI

[especula]

Garrucha

Espécie de pistola de cano

VNR

 

VNR

longo: [

].

(p. 138).

   

Muchirão

Reunião de roceiros para auxiliar algum vizinho nalgum trabalho agrícola - roçada, plantio, colheita; terminando sempre em festa, com grande jantar ou ceia, danças e descantes (p. 155).

Mutirão

 

VRSI

Opinião

Teimosia: firmeza numa ideia (p. 158).

VNR

 

VNR

Patóta

Negócio aladroado (p. 162).

 

[Patota] 1 Grupo de pessoas. 2 “Já larguei das patotas (onde os viciados se reúnem para fumar a maconha).”

VRSD

Rabeá(r)

Erguer pelo traseiro (um veículo) para o colocar na direção desejada, quando se tem de fazer uma curva muito viva (p. 174).

[Rabear] 1 Dar a volta: [

]

2 Dirigir

VRSS

o olhar a alguém ou algo, de través:

[

]

3 Ficar inquieto, cercando e

querendo alguma coisa [

].

4

Derrapar (o automóvel) nas rodas traseiras; sair apressadamente,

 

cantando pneu [

].

5 Fazer girar a

traseira de um automóvel e depois, posicionando-o melhor, encostar.

Sambanga

Tolo, palerma (p. 178).

 

Tolo; abobalhado; ingênuo [

].

VRSI

Tabela I - Verbetes registrados em Amaral (1920) em coda com os registrados por Ortêncio (2009).

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Após essa etapa, fizemos a contagem das quantidades classificadas em cada categoria (verbetes não registrados,

Após essa etapa, fizemos a contagem das quantidades classificadas em cada categoria (verbetes não registrados, verbetes registrados com significados iguais, verbetes registrados com significados semelhantes e verbetes registrados com significados diferentes) e construímos um gráfico com os dados, como se verá na seção dos resultados.

Resultados e Discussão Durante o período em que cotejamos as lexias contidas no glossário de Amaral (1920) com as registradas por Ortêncio (2009), percebemos qua a nossa hipótese de que o dialeto caipira tem seu uso corrente no estado de Goiás procede. Nossa afirmação parte não apenas pelo que fizemos na pesquisa, pois agregamos aqui o conhecimento que temos enquanto falantes da variante caipira, dos usos presentes nos dois glossários em nosso vocabuário cotidiano. O gráfico abaixo demonstra a porcentagem de cada uma das categorias em que classsificamos as lexias contidas em Amaral (1920) e em Ortêncio (2009).

Verbetes não registrados (48,9%) Verbetes registrados com significados iguais (37,3%) Verbetes registrados com

Verbetes não registrados (48,9%)Verbetes registrados com significados iguais (37,3%) Verbetes registrados com significados semelhantes (4,4%) Verbetes

Verbetes registrados com significados iguais (37,3%)Verbetes não registrados (48,9%) Verbetes registrados com significados semelhantes (4,4%) Verbetes registrados com

Verbetes registrados com significados semelhantes (4,4%)(48,9%) Verbetes registrados com significados iguais (37,3%) Verbetes registrados com significados diferentes (9,4%)

Verbetes registrados com significados diferentes (9,4%)(48,9%) Verbetes registrados com significados iguais (37,3%) Verbetes registrados com significados semelhantes (4,4%)

Gráfico I Percentual a partir do cotejo dos verbetes em Amaral ([1976] 1920) e Ortêncio (2009).

Conforme podemos observar, a quantidade de verbetes não registrados é maior do que a de verbetes registrados com significados iguais. Este resultado pode parecer contraditório à afirmação que fizemos acima, mas para isso temos algumas explicações e os reultados obtidos na pesquisa “Percursos Lexicais do Dialeto Caipira” que objetivava comprovar a resistência do dialeto caipira nas áreas conhecidas como locus de ralização da variante, dentre elas o estado de Goiás, podem sustentar nossa afirmação.

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Durante o cotejo dos verbetes registrados por Amaral (1920) com os dicionários gerais de língua

Durante o cotejo dos verbetes registrados por Amaral (1920) com os dicionários gerais de língua portuguesa, Houaiss (2001) e Ferrreira (2004) apontaram para uma grande quantidade de lexias resgistradas com significados iguais aos constantes em “O Dialeto Caipira”. Houaiss (2001) registra com significados iguais 84,9% que corrresponde a 1.460 das 1.720 lexias contidas no vocabulário de Amaral (1920). Já Ferreira (2004) aponta para 82,9% de significados iguais, correspondendo a 1.426 das lexias citadas. Esses resultados nos levam a crer que o dialeto caipira e o português brasileiro têm o mesmo fundo lexical, pois ambos têm a mesma base morfológica, sintática e um léxico praticamente igual, o que muda são alguns sentidos que essas lexias gnham dentro do próprio dialeto e que estão associadas às práticas culturais dos falantes do caipirês.

A discrepância entre os resultados de dois dicionários, vale ressaltar os mais

conhecidos e utilizados no Brasil, e um dicionário de regionalismos específicos da região Centro-oeste, notadamente lugar de fala caipira, nos leva a crer que a causa desta diferença está na ausência do registro, por Ortêncio (2009), de alguns verbetes muito conhecidos e ainda hoje utilizados por goianos de diversas faixas etárias.

Reforçamos mais uma vez que nosso ituito não é o de fazer estudo específico do Dicionário do Brasil Central subsídios à Filologia, em sua versão eletrônica (2009), mas foi impossível não observarmos as deficiências em relação à estrutura do dicionário. Como exemplo dessas lacunas, podemos citar: a) na seção apresentação/biografia, observamos que não consta sobre a quantidade de verbetes registrados na presente edição (2009), tampouco sobre seu autor; b) ausência de definição para alguns verbetes, para os quais coloca trechos retirados de livros de autores goianos; c) ausência de critérios para o uso de exemplos e abonações. Entendemos, conforme a tradição lexicográfica ensina (COELHO, 2008), que os trechos dos livros que servem de abonação poderiam acompanhar as definições para que se visualizassem os contextos em que as lexias adquirem aqueles sentidos.

Ao longo de nossa pesquisa, notamos também que a causa para a imagem, na maioria

das vezes distorcida, que se tem do povo goiano e de se viver em Goiás tem sua raiz no processo de colonização. Começamos pelos bandeirantes que, apesar de serem de origem portuguesa e de estarem a serviço da Coroa, eram homens rudes, treinados para guerrear, dominar e destruir tudo e todos que fossem contra os seus interesses. Os indígenas eram tidos como preguiçosos porque viviam apenas do que podiam extrair da natureza sem se preocupar em formar patrimônio de qualquer espécie, ao contrário dos portugueses.

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Já o negro era visto como uma mercadoria, um investimento de mão-de-obra que servia apenas

Já o negro era visto como uma mercadoria, um investimento de mão-de-obra que

servia apenas para o trabalho pesado, nas minas de ouro e também nas plantações que

proviam a Capitania dos Guayazes de mantimentos. Segundo Paula (2007);

Então, muito do modo “desbravado” e “civilizado” e “domado” do que tinha e tem do que é ser de Goiás e do que é estar em Goiás carrega marcas do Desbravador e dos seus desbravados os bandeirantes, os brancos líderes e os liderarados. A imagem que (trans)parece no imaginário da goianidade o rústico, o caipira, o roceiro, o não-civilizado, o não-urbanizado, o não- educado, o introspecto está eivada da historicidade dessa representação (PAULA, 2007, p. 64).

A figura estereotipada do caipira como um induivíduo bruto, preguiçoso, por vezes

ignorante e incapaz de acompanhar o ritmo das mudanças e inovações que acontecem nas aglomerações urbanas, advém da junção da representação conferida às três etnias que lhe conferiram origem; o comportamento rústico e direto, dos bandeirantes; a suposta preguiça, dos índios e por fim a “ignorância” dos negros. Aos olhos de quem não conhece seu modus vivendi e suas raízes histórico-culturais, variadas são as causas para o seu jeito de ser como, por exemplo, a falta de escolaridade, a condição financeira, dentre outras, abstendo-se de considerar toda uma extensa e rica cultura, responsável pela conservação das marcas linguísticas que, na verdade, identificam-se com a base lexical do português brasileiro. Cabe ressaltar que a visão preconceituosa com que se veem os goianos ou outros caipiras se reflete no preconceito com o seu dialeto, de modo a parecer que sua linguagem, seus usos lexicais e suas realizações gramaticais são erradas, feias e rústicas. Certamente, o uso lexical há de demarcar mais a configuração linguística e a bagagem cultural que o sustenta. Neste sentido, discutiremos a respeito de como a relação entre léxico e cultura se estabelece na língua. Primeiramente, faremos algumas considerações a respeito do léxico, subsistema o qual escolhemos para fazer um estudo sistematizado acerca da variante linguística caipira em Goiás. A justificativa para a escolha do léxico como viés a ser estudado se deve ao fato de ser nele que podemos observar o que muda e o que se conserva em uma língua, uma vez que o léxico se constitui continuamente para cumprir a sua função, que é a de recobrir o conhecimento da realidade extralinguística em que estamos inseridos. Segundo Biderman

(2001):

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O léxico de uma língua natural constitui uma forma de registrar o conhecimento do universo.

O léxico de uma língua natural constitui uma forma de registrar o

conhecimento do universo. Ao dar nomes aos seres e objetos, o homem os

classifica simultaneamente. Assim, a nomeação da realidade pode ser

considerada como a etapa primeira no percurso científico do espírito humano

de conhecimento do universo. Ao reunir os objetos em grupos, identificando

semelhanças e, inversamente, discriminando os traços distintivos que individualizam esses seres e objetos em entidades diferentes, o homem foi estruturando o mundo que o cerca, rotulando essas entidades discriminadas. Foi esse processo de nomeação que gerou o léxico das línguas naturais (BIDERMAN, 2001, p. 13).

O léxico é o subsistema mais arbitrário dentro do diassistema língua e responsável por nomear o que é concreto e abstrato. Ao atribuirmos um nome a uma coisa ou objeto, demonstramos que temos conhecimento do que é e de para que serve. A conceptualização é um processo arbitrário, então para que um signo linguístico represente um determinado objeto, deverá ser eleito por meio de convenção social, uma vez que para a primeira função da língua, a comunicação entre os sujeitos, existe a necessidade de que o que este signo significa (significado) e o que ele designará (referente) sejam de entendimento comum ao grupo de falantes. Sendo assim, um aspecto importante que devemos ressaltar é o fato de que um mesmo signo pode remeter a significados e sentidos diferentes, de acordo com a variação diatópica e diastrática, conforme diz Oliveira (2001):

O léxico de uma língua é constituído por um conjunto de vocábulos que representa a herança sociocultural de uma comunidade. Em vista disso,

torna-se testemunha da própria história dessa comunidade, assim como de

De um modo geral, podemos

todas as normas sociais que a regem. [

considerar como princípio o fato de que um vocábulo é aceito com elemento

da língua a partir do momento em que ele passa a exprimir todos os valores

de um determinado grupo social e, sobretudo, satisfazer suas necessidades de comunicação (OLIVEIRA, 2001, p. 109).

]

Logo, um signo pode remeter a um significado no léxico geral da língua, mas pode adquirir um sentido específico em determinado vocabulário. Estabelecendo um seguimento para esse raciocínio, afirmamos que, de uma perspectiva do geral para o particular, temos a língua, o léxico e o significado, porque o léxico de uma língua abrange todos os usos possíveis de significados atribuídos a um signo. Já quanto à tríade dialeto- vocabulário- sentido, a perspectiva é também do geral para o particular, pois é nas variações ou nos subcódigos da língua que os mesmos signos ganham um sentido diferente daquele que têm no léxico geral.

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Como o nosso intuito era o de verificar a conservação lexical do dialeto caipira no

Como o nosso intuito era o de verificar a conservação lexical do dialeto caipira no estado de Goiás, buscamos como material de observação além do glossário de Amaral (1920) que compõe nosso corpus, um dicionário de regionalismos, que registra (ou deveria registrar) os sentidos que as lexias passam a ter de acordo com a variação geográfica. Os dicionários, “recolhem o tesouro lexical da língua num dado momento da história de um grupo social” Biderman (2001, p. 132). Assim, para melhor entendimento do motivo de as lexias inventariadas terem adquirido os sentidos com as quais se apresentam em Amaral (1920) e em Ortêncio (2009), abordaremos agora o cenário de sua formação histórica e cultural e qual é sua situação atualmente. Durante a leitura de “O Dialeto Caipira” ([1976] 1920), notamos que Amaral não se atém em definir o sujeito caipira, focando apenas na linguagem dos falantes do caipirês. Este, em seu glossário, traz como significado para a lexia caipira “habitante da roça, rústico; próprio de matuto, digno de gente rústica”. Quanto à etimologia da palavra, Amadeu salienta:

Qual a origem? Como todas as palavras de aspecto indígena, real ou aparente, tem fornecido largo pasto à imaginação dos etimologistas. Uns derivam-na de “currupira”, sem se dar o trabalho de explicar a transformação; outros, de “caapora”, o que é ainda mais extravagante, se é possível. C. de Mag. entendia que era ligeira alteração de “caa-pira”, mondador de mato (AMARAL, [1976] 1920, p. 106).

Castro (2006, p. 39) apresenta uma definição que nos parece ser a mais adequada e aproximada da verdadeira etimologia da palavra caipira, por conta do significado destas palavras de étimo tupi. Segundo o autor, Perecin apud Francisco (2004) liga o termo à língua geral, em que o vicentino do litoral era identificado como kai-ñ-çará e o do interior, como kai-ñ-pirá, formas que teriam dado origem a caiçara e a caipira, respectivamente”. Baseados nas pesquisas de Ribeiro (2008), afirmamos que o caipira é resultado da miscigenação linguística e cultural de brancos, índios e negros que se deu graças ao movimento colonizador bandeirante do século XVI ao XVIII, rumo ao interior do Brasil. Por não ter obtido o mesmo êxito com o cultivo da cana-de-açúcar que ocorreu na região nordeste do Brasil, os paulistas saíram em busca de índios para serem capturados e abastecerem os engenhos de mão de obra escrava, já que havia a escassez de escravos africanos naquela época, século XVII.

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Durante esse período, enquanto a economia açucareira dava os primeiros sinais de enfraquecimento, a descoberta

Durante esse período, enquanto a economia açucareira dava os primeiros sinais de enfraquecimento, a descoberta de ouro na região de Taubaté e, logo em seguida, na de Minas Gerais (1698) Mato Grosso (1719) e Goiás (1725) provocou a vinda de mais imigrantes portugueses de diversas classes sociais e, juntamente com eles, para suprir a necessidade de força de trabalho, vieram mais negros (principalmente das etnias nagô e quimbundo), como mercadorias diretamente do continente africano ou de outras partes do Brasil, na maioria das vezes do nordeste, ex-trabalhadores dos engenhos. A abundância do ouro, fez com que em torno dos garimpos se formassem os arraiais que, com a chegada de grande massa populacional atraída pela rentabilidade da exploração aurífera, evoluíram para vilas até adquirirem o status de cidades, a exemplo de Vila Rica, Cuiabá e Goiás. Com sua economia estruturada em torno da exploração do ouro, ocorreu também uma estratificação social, uma divisão bem delimitada de classes que antes não se viu no Brasil colônia. Surge aqui uma classe média, entre os ricos, os pobres livres e os escravos (RIBEIRO, 2008). Ainda conforme o autor, o declínio de toda essa economia e, por tabela, dessas sociedades construídas em torno do garimpo, acontece com a escassez do ouro depois de mais de um século de exploração. Então, os que ainda tinham algumas posses migram para outras partes do país em busca de um novo recomeço. As cidades ficam vazias e os mais pobres migram para a zona rural onde passam a prover seu sustento da terra. Neste ponto, o caipira, que é resultado da miscigenação linguística e cultural de brancos, índios e negros e que antes tinha hábitos nômades, com a derrocada das atividades extrativistas e, por conseguinte, o fim das expedições bandeirantes, passa a ter parada fixa e desenvolve a agricultura de subsistência. Segundo Candido (1964), citado por Castro (2006, p. 47), as principais características do caipira seriam “1) isolamento; 2) posse de terras; 3) trabalho doméstico; 4) auxílio vicinal; 5) disponibilidade de terras; 6) margem de lazer”. Lembramos ainda que algumas mudanças na estrutura socioeconômica brasileira alterou em alguns quesitos o modo de vida do típico caipira. A primeira foi a supracitada; depois, com o surgimento das grandes fazendas de monocultura, a exemplo as de café, os caipiras perderam seu espaço e tiveram que se conformar em trabalhar para os grandes latifundiários como agregados e peões ou, então, contra a sua vontade, buscar um novo modo de sobreviver na cidade. No início do século XX, com o processo de industrialização em larga escala, que fez com que a população do Brasil que antes era predominantemente rural até meados de década de 1940, cerca de trinta anos depois, na década de 1970, fosse predominantemente urbana.

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Atualmente, podemos dizer que aqueles que continuaram na zona rural ou que partiram para as

Atualmente, podemos dizer que aqueles que continuaram na zona rural ou que partiram para as cidadezinhas do interior, principalmente as dos estados que formam a rota caipira, ainda são assim denominados por preservarem grande parte dos costumes caipira, logo do léxico do dialeto, já que este é o subsistema da língua que reflete com mais intensidade os moldes culturais de uma comunidade de falantes. Castro (2006) reforça a nossa constatação ao dizer que:

E o que se poderia dizer da noção de caipira, hoje? O termo continuou a ser usado, mas parece-nos que encerra uma opacidade. A denominação é usada tanto em referência a um tipo social como a sua maneira de falar, que se supõe uma continuidade da variedade descrita por Amaral, sem que se tenha, no entanto, uma visão mais precisa de suas peculiaridades. Costuma-se atribuir a designação de caipira ao interiorano, particularmente o de zona rural (tocando-se, portanto, em um fator geográfico), inculto e que tem hábitos diversos dos que se vêem nos grandes centros (e aqui se toca em um fator cultural). A linguagem, indiscutivelmente, é um fator relevante no reconhecimento do caipira (CASTRO, 2006, p. 49, grifos do autor).

Recentemente, estudos como os de Linhares (2004) e Paula (2007) têm apontado para a manutenção da linguagem e de hábitos dos caipiras ainda muito comuns em Goiás. Um exemplo clássico e cotidiano que tem sua designação registrada tanto no glossário de Amaral (1920) como em Ortêncio (2009), é o muchirão, ou de acordo com a norma oficial, mutirão. O mutirão consiste em uma reunião de vizinhos na zona rural para que o dono da casa onde é feita essa reunião receba o auxílio nas atividade de lida com a terra, seja limpar o terreno para o plantio das sementes, ou o plantio em si, e a colheita. É de praxe que depois do dia de trabalho, o dono da casa ofereça uma festa ou um jantar para os companheiros de lida, os quais o ajudam sem lhe cobrar nada, esperando apenas a cooperação quando necessitarem de auxílio na lida em sua roça.

Considerações finais A respeito da presente pesquisa, podemos concluir que atingimos o nosso objetivo de estudar os níveis de conservação lexical do dialeto caipira em Goiás. Conseguimos comprovar a nossa hipótese de que são recorrentes tanto o linguajar caipira quanto as práticas culturais através de um acurado estudo sobre a variante linguística caipira, bem como na discussão de nosso trabalho, que identificou uma quantidade considerável de lexias com significados iguais transcritas no glossário de “O Dialeto Caipira”, datadas da primeira décadas do século XX, no

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“ Dicionário do Brasil Central - subsídios à Filologia ” , em sua versão eletrônica

Dicionário do Brasil Central - subsídios à Filologia , em sua versão eletrônica (ORTÊNCIO,

2009).

Certamente, uma das nossas mais importantes constatações foi a de que o léxico do

português brasileiro e o que se registrou como do dialeto caipira em Houaiss (2001), Ferreira

(2004), Amaral (1920) e Ortêncio (2009), além das estruturas morfológicas e sintáticas serem

praticamente iguais. Como já dissemos anteriormente, salvo alguns usos lexicais ganharem

sentidos diferentes, acarretados pelos contornos sociais e geográficos como se vê na

problemática do que vem a ser caipira, discutida por Castro (2006) em passagem por nós

citada acima, o fundo léxico do dialeto caipira se assenta no tesouro lexical do português

brasileiro. Pode-se, assim, afirmar que o léxico caipira (o subsistema) é apenas mais um uso

variante do português, como outros tantos possíveis, com especificidades que lhe são próprias

e com usos gerais que pertencem à língua, o sistema maior.

Referências AMARAL, Amadeu. O Dialeto Caipira. 3. ed. São Paulo: HUCITEC / Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976.

BIDERMAN, Maria Teresa Camargo. As Ciências do léxico. In: OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de; ISQUERDO, Aparecida. Negri. (Orgs.). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande MS; EDUFMS.2001. p. 13-22.

Os dicionários na contemporaneidade: arquiteturas, métodos e técnicas. In: OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de; ISQUERDO, Aparecida. Negri. (Orgs.). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande MS; EDUFMS.2001. p. 131-144.

CASTRO, Vandersí Sant’Ana Castro. A Resistência de Traços do Dialeto Caipira: