FUNDAMENTOS DA UNDAMENT AMENTOS PSICOPEDAGOGIA SICOPEDA

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O termo psicopedagogia apresenta-se, hoje, com uma característica especial. Quanto mais tentamos elucidá-lo, menos claro ele nos parece. Essa dificuldade é uma das razões e finalidade do presente ensaio, isto é, procuro deixar claro que a ambigüidade reside tanto na palavra quanto na coisa que ela reporta. À primeira vista, o termo sugere tratar-se de uma aplicação da psicologia à pedagogia, porém tal definição não reflete o significado que esse termo assume em razão do seu nascimento. Como diz Lino de Macedo (1992), “o termo já foi inventado e assinala de forma simples e direta uma das mais profundas e importantes razões da produção de um conhecimento científico: o de ser meio, o de ser instrumento, para um outro, tanto em uma perspectiva teórica ou aplicada”. Neste sentido, enquanto produção de conhecimento científico, a psicopedagogia, que nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem, não se basta como aplicação da psicologia à pedagogia. Macedo (1992, p. VII) lembra-nos, ainda, que no Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa o termo psicopedagogia é definido como “aplicação da psicologia experimental à pedagogia”. Os diversos autores que tratam da Psicopedagogia enfatizam o seu caráter interdisciplinar.1 Reconhecer tal caráter significa admitir a sua especificidade enquanto área de estudos, uma vez que, buscando conhecimentos em outros campos, cria o seu próprio objeto, condição essencial da interdisciplinaridade. Ao admitir essa interseção, não nos resta outra alternativa senão abandonarmos a idéia de tratar a psicopedagogia apenas como aplicação da psicologia à pedagogia, pois, ainda que se tratasse de recorrer apenas a estas duas disciplinas (o que não creio) na solução da problemática que lhe deu origem – os problemas de aprendizagem –, não seria como mera aplicação de uma à outra, mas sim como constituição de uma nova área que, recorrendo aos conhecimentos dessas duas, pensa o seu objeto de estudo a partir de um corpo teórico próprio, ou melhor, que busca se formar. Penso que a psicopedagogia, como área de aplicação, antecede o status de área de estudos, a qual tem procurado sistematizar um corpo teórico próprio, defi-

começando por tentar definir a psicopedagogia. lingüística. para isso. A afirmação de que a psicopedagogia. ainda segundo a professora Neves. lingüística. inclusive no nosso meio... Por isso. falar sobre a articulação entre educação e psicologia. Para Maria M. epistemologia. Embora quase sempre presente no relato de inúmeros trabalhos científicos que tratam principalmente dos problemas ligados à aprendizagem. por um lado. Neves (1992. à luz de pesquisas psicopedagógicas que vêm se desenvolvendo. indicando uma forma de atuação que apontava a inevitável interseção dos campos do conhecimento da psicologia e da pedagogia. surgiu na fronteira entre a psicologia e a pedagogia merece maior atenção. necessariamente. chamaram de atitude psicopedagógica o que em verdade era um psicologismo radical. p. por outro. recorre à psicologia. correspondeu a uma aplicação conceitual e. antropologia. Kiguel aventa outra possibilidade quanto ao surgimento da psicopedagogia ao mencionar as tentativas de explicação para o fracasso escolar por outras vias que não a pedagógica e a psicológica. Bossa nir o seu objeto de estudo. no final da década de 1970 e início da década de 1980 no Brasil. fonoaudiologia. a psicopedagogia assumiu uma conotação substantiva. Concordo com Neves quando se refere à questão conceitual mencionando a confusão que se apresenta e creio que essa ambigüidade ou dubiedade se estende também à pratica. o termo psicopedagogia não consegue adquirir clareza na sua dimensão conceitual. devido a utilização de toda uma polissemia aplicada a um só termo. principalmente pertencentes ao campo pedagógico. a psicopedagogia inicialmente foi utilizada como adjetivo. psicanálise. p. articulação essa que desafia estudiosos e práticos dessas duas áreas. Posteriormente. consideradas inaptas dentro do sistema educacional convencional (. Diz Neves (1992. historicamente a psicopedagogia surgiu na fronteira entre a pedagogia e a psicologia. o que. De uma perspectiva puramente clínica e individual busca-se uma compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem e uma atuação de natureza mais preventiva. Para Sonia Moojen Kiguel (1991. historicamente. Podemos citar alguns profissionais brasileiros que objetivam dar a sua contribuição na formação desse corpo teórico. que também tem contribuído nesse processo de construção do saber psicopedagógico. e de contribuições da área da psicologia. 10): falar sobre psicopedagogia é. o campo da psicopedagogia passa por uma reformulação. medicina e pedagogia. Segundo essa autora.20 Nadia A. alguns autores. p.) no momento atual. a partir das necessidades de atendimento de crianças com “distúrbios de aprendizagem”. tratavam de denunciar a formação dos professores por eles cognominada de psicopedagógica. 10): dentro dessa conotação adjetiva da psicopedagogia. delimitar o seu campo de atuação. sociologia. causou um lamentável estado de confusão. 22). Afirma que “os fatores etiológicos utilizados para explicar índices alarmantes .

procurando estudar a construção do conhecimento em toda a sua complexidade. 2. Cypel. O OBJETO DE ESTUDO DA PSICOPEDAGOGIA Se a (in)definição do termo psicopedagogia produz um estado de confusão conforme afirma Neves. etc. conforme vimos. como sintoma proeminente. afetivos e sociais que lhe estão implícitos. o que é então? Para responder esta pergunta. As explicações para o fracasso escolar fundamentavam-se em discursos que superam o psicológico e negam o pedagógico. portanto. se a psicopedagogia não é uma aplicação da psicologia (experimental) à pedagogia. sobre as teorias que. p. 1991. procurando colocar em pé de igualdade os aspectos cognitivos.A psicopedagogia no Brasil 21 do fracasso escolar envolviam quase que exclusivamente fatores individuais como desnutrição. convém percorrer um caminho em que é preciso pensar sobre o seu objeto de estudo. Passemos a pensar. acrescentando que “no Brasil. distúrbios na escolaridade” (Kiguel. indica o peso da concepção organicista no entendimento de uma problemática que. vejamos qual é a definição do objeto de estudo da psicopedagogia segundo alguns psicopedagogos brasileiros.”. ao mesmo tempo. embasam essa prática e sobre o seu campo de atuação. sobre o objeto de estudo da psicopedagogia.. problemas neurológicos. 12): a psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar. particularmente durante a década de 1970. escola. problemas neurológicos e problemas psicológicos (cf. menor o espaço para o psicológico. pois. Tais afirmações de Kiguel remetem-nos a duas considerações: 1. 1986). na interdisciplinaridade. se afirma. A idéia. . p. muito aceita no Brasil (e em outros países). Considerando as suas implicações na prática. Dorneles. em Scoz et al. levando sempre em conta as realidades interna e externa da aprendizagem. 22). Para Kiguel (1991. tomadas em conjunto. De acordo com Neves (1991. E. mais. Essa segunda consideração nos permite a seguinte correlação: quanto maior a preocupação com o orgânico. de que o problema de aprendizagem estivesse relacionado com fatores neurológicos (cf. mas. p. psicológicos. pois falam de desnutrição. sociedade) no seu desenvolvimento. a psicopedagogia não pode ser pensada simplesmente como uma aplicação da psicologia à pedagogia. 24): o objeto central de estudo da psicopedagogia está se estruturando em torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e patológicos – bem como a influência do meio (família. foi amplamente difundido o rótulo de Disfunção Cerebral Mínima para as crianças que apresentavam. 1987). ser preocupação da psicologia e da pedagogia.

mas ir também à família e à comunidade. Poderá esclarecer. ressaltar que a concepção de aprendizagem resulta de uma visão de homem. integrando-os e sintetizando-os. num sentido amplo. Bossa Segundo Scoz (1992. bem como a compreensão do processamento da aprendizagem considerando todas as variáveis que intervêm neste processo. O tema da aprendizagem apresenta tamanha complexidade que tem a dimensão da própria natureza humana e caberia um outro ensaio para tratá-lo. 103): em um primeiro momento a psicopedagogia esteve voltada para a busca e o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de dificuldades. Seu objeto de estudo é a pessoa a ser educada. assim como a melhor qualidade na construção da própria aprendizagem de alunos e educadores. É importante. porém é uma ilusão pensar que tal consenso nos conduza. 2): a psicopedagogia estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades? e em uma ação profissional deve englobar vários campos do conhecimento. pais e administradores sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento. sobre o progresso nos processos de aprendizagem.22 Nadia A. e é em razão desta que acontece a práxis psicopedagógica. sobre as condições determinantes de dificuldades de aprendizagem. Essas considerações em relação ao objeto de estudo da psicopedagogia sugerem que há um certo consenso quanto ao fato de que ela deve ocupar-se em estudar a aprendizagem humana. elaboração de uma metodologia de diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem. no entanto. Focaliza as possibilidades do aprender. p. o objeto da psicopedagogia passa a ser mais abrangente: a metodologia é apenas um aspecto no processo terapêutico. . análise. a todos. Não deve se restringir a uma só agência como a escola. O enfoque preventivo considera o objeto de estudo da psicopedagogia o ser humano em desenvolvimento. de forma mais ou menos sistemática. 13): [o] objeto de estudo da psicopedagogia deve ser entendido a partir de dois enfoques: preventivo e terapêutico. p. O enfoque terapêutico considera o objeto de estudo da psicopedagogia a identificação. sobre as condições psicodinâmicas da aprendizagem. Ainda. seus processos de desenvolvimento e as alterações de tais processos. tendo como objetivo fazer a reeducação ou a remediação e desta forma promover o desaparecimento do sintoma. Para Kubinstein (1992. a partir do momento em que o foco de atenção passa a ser a compreensão do processo de aprendizagem e a relação que o aprendiz estabelece com a mesma. Do ponto de vista de Weiss (1991. enquanto educável. Para Golbert (1995. p. 6): a psicopedagogia busca a melhoria das relações com a aprendizagem. p. a professores. e o principal objetivo é a investigação de etiologia da dificuldade de aprendizagem. a um único caminho.

dando conta dos fenômenos inconscientes. como se desenvolvem estas atividades. ou entram em contradição e são substituídos. que leis regem estes processos. que nos aporta um modelo da inteligência. Recorremos à teoria da inteligência de Piaget. nos inspiraram). quais as problemáticas estruturais que intervêm no surgimento de transtornos da aprendizagem e no fracasso escolar. 7 e 8) diz que é função da psicologia pensar como se incrementam os conhecimentos. que inicialmente foi uma ação subsidiária da medicina e da psicologia. Alicia Fernández (1990a. . Podemos observar esse pensamento traduzido nas palavras de profissionais argentinos que atuam na área e que estão envolvidos no trabalho teórico. que propostas de mudança surgem.A psicopedagogia no Brasil 23 Dos profissionais brasileiros supracitados. que influências afetivas e representações inconscientes os acompanham. entre tantas outras coisas. “a aprendizagem com seus problemas” constitui-se no pilar-base da psicopedagogia. acerca do sujeito que não aprende. Fernández (1984a. ao refletir-se sobre o objeto de estudo específico da psicopedagogia. Este é também o pensamento dos argentinos (os quais. Vejamos. Para Marina Müller. conforme veremos no Capítulo 2. Ao se referir à psicopedagogia. mas não uma teoria sobre as fraturas no aprender. como incidem subjetivamente os sistemas e métodos educativos. o problema da aprendizagem é nossa plataforma de lançamento para construir uma teoria psicopedagógica . sendo os problemas desse processo (de aprendizagem) a causa e a razão da psicopedagogia. Müller (1984. a psicopedagogia. pudemos verificar que o tema da aprendizagem ocupa-os e preocupa-os. 102) sublinha: Mas ainda não podemos construir uma teoria acerca de nossa prática específica. 11). p. Recorremos também à psicanálise. realizar uma leitura do inconsciente e nos possibilita um marco psicopatológico a que remetemos para compreender a estrutura de personalidade de nossos pacientes. p. “O sujeito que aprende” – diz Marina Müller – “é motivo de perguntas para os psicopedagogos. de que maneira é possível favorecer as aprendizagens ou tratar suas alterações. que dificuldades interferem ou impedem. Mas carecemos de uma psicopatologia acerca da aprendizagem. Para eles. Segundo Jorge Visca (1987). p. Estamos tentando construir nossa própria teoria. que nos permite. os rasgos diferenciadores de nossa técnica e nosso lugar como especialistas em problemas de aprendizagem. possuidora de um objeto de estudo – o processo de aprendizagem – e de recursos diagnósticos. deve-se tomar em conta o lugar em que se situa este campo de atividade. ao citar Sara Paín. É função da pedagogia pensar: O que é educar. o que é ensinar e aprender. corretores e preventivos próprios. e destinatário de sua atividade profissional”. nosso específico enquadramento. na patologia da aprendizagem. coloca: ela considera o sintoma histérico a plataforma de lançamento para que Freud pudesse formular a teoria e a técnica da psicanálise. perfilou-se como um conhecimento independente e complementar.

colocado em um território pouco explorado. uma vez que são avaliados os processos didático-metodológicos e a dinâmica institucional que interferem no processo de aprendizagem. o esperado para determinada idade. O processo evolutivo pelo qual essa nova área de estudo procurou estruturar- . esse objeto foi entendido de várias formas. e o trabalho procurava vencer tais defasagens. enquanto espaço físico e psíquico da aprendizagem. Isso significa que. em uma prática. visando reduzir as diferenças e acentuar a uniformidade. o processo de aprendizagem era avaliado em função de seus déficits. constituindo-se. como reconhecê-las. onde investigador e objeto-sujeito de estudo interagem constantemente. a psicopedagogia adotou a noção de “não-aprendizagem” de outra maneira: o não-aprender é tido como carregado de significados. ainda que embrionários.3 a instituição. buscando o sentido particular de suas características e suas alterações. situado além dos limites da psicologia e da própria pedagogia – e evoluiu devido a existência de recursos. A definição do objeto de estudo da psicopedagogia passou por fases distintas. implícita no não-aprender. segundo as circunstâncias da sua própria história e do seu mundo sociocultural. para atender a essa demanda.2 Esse objeto de estudo. como se produzem as alterações na aprendizagem. Houve tempo em que o trabalho psicopedagógico priorizava a reeducação. como aprende e por que. Em diferentes momentos históricos. Posteriormente.24 Nadia A. na psicanálise e na psicologia genética. Como se preocupa com o problema de aprendizagem. que repercutem nas produções científicas. tratá-las e preveni-las. deve o profissional comprender o que o sujeito aprende. vemos que a psicopedagogia estuda as características da aprendizagem humana: como se aprende. Essa nova concepção leva em conta a singularidade do indivíduo ou grupo. em especial. e não se opõe ao aprender. buscando compreender a mensagem de outro sujeito. Nesse processo. a própria alteração torna-se alvo de estudo da psicopedagogia. Bossa A psicopedagogia se ocupa da aprendizagem humana. Portanto. que é um sujeito a ser estudado por outro sujeito. assim. Esse enfoque buscava estabelecer as semelhanças entre grandes grupos de sujeitos. concebendo-se a “não-aprendizagem” pelo enfoque que salientava a falta. nesta modalidade de trabalho. como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores. as regularidades. além de perceber a dimensão da relação entre psicopedagogo e sujeito de forma a favorecer a aprendizagem. w No trabalho preventivo. assim como os demais aspectos dessa área de estudo. O objeto de estudo era o sujeito que não podia aprender. Essa fase da psicopedagogia é fundamentada. deve ocupar-se inicialmente do processo de aprendizagem. adquire características específicas a depender do trabalho clínico ou preventivo: w O trabalho clínico se dá na relação entre um sujeito com sua história pessoal e sua modalidade de aprendizagem. que adveio de uma demanda – o problema de aprendizagem. é objeto de estudo da psicopedagogia.

vale repensar um pouco a prática. em função da visão de homem adotada em cada momento histórico e da sua correspondente concepção de aprendizagem. podemos falar em diferentes níveis de prevenção. Essa concepção de sujeito variou. apareçam transtornos na aprendizagem do processo de leitura e escrita. Cabe então ao psicopedagogo. como também de encontrar os meios para que os mesmos sejam eliminados. que corresponderia ao primeiro nível preventivo. bem como na formação e orientação de professores. podemos nos valer de uma situação específica: a alfabetização. Seu trabalho incide nas questões didático-metodológicas. agora. Esse profissional tem. Essa inter- . o objetivo é diminuir e tratar dos problemas de aprendizagem já instalados. trata de elaborar métodos de ensino compatíveis com as novas concepções acerca desse processo. Assim sendo. a partir do qual se procura avaliar os currículos com os professores. uma vez que. sendo que essas disposições influenciam e são influenciadas pelas condições socioculturais do sujeito e do seu meio. além de fazer aconselhamento aos pais. Utilizando ainda a alfabetização. e elaboram-se planos de intervenção baseados nesse diagnóstico. em um procedimento clínico com todas as suas implicações. classe ou instituição. No segundo nível. ao eliminarmos um transtorno. a psicopedagogia trabalha com uma concepção de aprendizagem segundo a qual participa desse processo um equipamento biológico com disposições afetivas e intelectuais que interferem na forma de relação do sujeito com o meio. porém. estamos prevenindo o aparecimento de outros. digamos que. Para tanto. como se refere Alicia Fernández (1991). ele trabalha com os professores. ele é também teórico na medida da necessidade de se refletir sobre a práxis. No trabalho preventivo. cria-se um plano diagnóstico da realidade institucional. No primeiro nível. Atualmente. Já o terceiro nível se dá no momento em que problemas específicos de leitura e escrita já estejam instalados em um aluno ou grupo de alunos. o psicopedagogo. Como exemplo dos níveis de trabalho preventivo. juntamente com outros profissionais da escola. o psicopedagogo atua nos processos educativos com o objetivo de diminuir a “freqüência dos problemas de aprendizagem”. pois trata-se de um sujeito que estuda outros sujeitos. Conforme vimos. conforme dissemos anteriormente. realizar um diagnóstico do grupo e intervir nos procedimentos didático-metodológicos em vigor. no segundo nível preventivo. antes de abordar o teórico. No exercício clínico. atuar diretamente junto a estes. o objetivo é eliminar os transtornos já instalados. neste caso. Deve o psicopedagogo. em um determinado grupo.A psicopedagogia no Brasil 25 se entende que o objeto de estudo é sempre o sujeito “aprendendo”. a fim de tratar esses transtornos e evitar outros. para que não se repitam tais transtornos. O caráter preventivo permanece aí. o trabalho psicopedagógico pode ser preventivo e clínico. não só o objetivo de detectar as causas dos transtornos. No terceiro nível. Nesse momento. Ao se deparar com novas teorias acerca da alfabetização. Entretanto. auxiliando-os a incorporar os novos conhecimentos e os procedimentos metodológicos deles decorrentes. o psicopedagogo deve reconhecer a sua própria subjetividade na relação.

como este se transforma em suas diversas etapas de vida. na qual um procura conhecer no outro aquilo que o impede de aprender. é como uma matriz. b) construção teórica: é permeada pela prática de forma que.5 conforme observa outro autor: “Este desejo de conhecer (epistemofilia) está ligado. imperioso que. um esquema de operar que utilizamos nas situações de aprendizagem. Bossa relação de sujeitos. em um único personagem. . e quem é para os outros). desta maneira. que o psicopedagogo saiba o que é ensinar e o que é aprender. condições e limites para conhecer. espaço-temporal. esse saber só é possível com uma formação que se oriente sobre três pilares: a) prática clínica: ocorre em consultório individual-grupal-familiar.26 Nadia A. Para Alicia Fernández (1991). Esse saber exige do psicopedagogo que recorra a teorias que lhe permitam reconhecer de que modo se dá a aprendizagem. Modalidade de aprendizagem significa uma maneira pessoal para aproximar-se do conhecimento e constituir o saber. bem como às leis que regem esse processo: as influências afetivas e as representações inconscientes que o acompanham. e à busca do mundo cognitivo cultural. em movimento dialético. compartilhado socialmente” (Müller. quais os recursos de conhecimento de que ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento e aprende. no desejo de conhecer. os problemas estruturais que intervêm no surgimento dos transtornos de aprendizagem e no processo escolar. aprendamos sobre como os outros sujeitos aprendem e também sobre como nós aprendemos. Essa modalidade é fruto do seu inconsciente simbólico constituído na sua inter-relação com o outro e de sua atividade estruturante de um universo estável: relação causaefeito. Esse sujeito envolve. o tratamento psicopedagógico-didático é fundamental na formação do psicopedagogo. em instituições educativas e sanitárias. também. Isso significa que a possibilidade de aprender está situada no nível inconsciente. a teoria psicopedagógica possa ser tecida. 1984. que configuram a atitude psicopedagógica. todo sujeito tem a sua modalidade de aprendizagem. pois se constitui em um espaço para a construção do olhar e da escuta clínica4 – a partir da análise do seu próprio aprender –. Ao psicopedagogo cabe saber como se constitui o sujeito. objetividade. implica uma temática muito complexa. 8). É preciso. o sujeito epistêmico e o sujeito do desejo. Ainda de acordo com Alicia Fernández (1991). Faz-se. à busca de sua própria verdade (conhecer quem é. como interferem os sistemas e métodos educativos. um molde. meios. organizam-se as operações lógicas de classificação e de relação que de um nível de elaboração simples passam a outro cada vez mais complexo. Assim. c) tratamento psicopedagógico-didático: segundo essa autora argentina. ou seja. o que pode comprometê-lo e o que pode favorecê-lo. Tal modalidade constrói-se desde o nascimento. a partir desta. enquanto psicopedagogos. p.

uma teoria psicopedagógica fundamentada em conhecimentos de outros corpos teóricos. revisar velhos impasses conceituais subjazentes à ação e à atuação da pedagogia e da psicologia no apreender do fenômeno educativo. uma etapa genética da inteligência e um sujeito associado a tantas outras estruturas teóricas. AS TEORIAS QUE EMBASAM O TRABALHO PSICOPEDAGÓGICO Conhecer os fundamentos da psicopedagogia implica refletir sobre as suas origens teóricas. p. se possa decifrar os processos que dão sentido ao observado e norteiam a intervenção: “Além do sintoma que deve ser reeducado. conceber o sujeito que aprende como um sujeito epistêmicoepistemofílico implica procedimentos diagnósticos e terapêuticos que considerem tal concepção. a operatividade e o inconsciente. enfim. De acordo com Alicia Fernández (1991). Envolve simultaneamente. a lingüística e a psicanálise. a meu juízo. 205). no sentido de alcançar compreensão desse processo. é necessária uma leitura clínica na qual. a sociologia. necessitamos incorporar conhecimentos sobre o organismo. primeiramente existe uma mensagem que deve ser ouvida” (Mannoni. e perceber o interjogo entre o desejo de conhecer e o de ignorar. embasem essa prática. assumir essa atitude6 clínica requer um conjunto de conhecimentos estruturados de forma a se constituir uma matriz teórica interpretativa. Essas duas áreas não são suficientes para apreender o objeto de estudo da psicopedagogia – o processo de aprendizagem e suas variáveis – e nortear a sua prática. que. Da psicologia. estando estes quatro níveis basicamente implicados no aprender. o corpo. recorre-se a outras áreas. p. o social e o individual em processos tanto transformadores quanto reprodutores. Faz-se necessário construir. Vejamos quais são essas teorias. ouvir essa mensagem. ressignificados. no processo diagnóstico interessa-nos saber como e o que o sujeito pode aprender. em separado. por meio da escuta psicopedagógica. 1976. referimonos principalmente ao materialismo histórico. um dualismo que ora privilegia o físico (observável). Dessa forma. enquanto instauram a ideologia. a psicopedegogia traz as indefinições e contradições de uma ciência cujos limites são os da própria vida humana. as teorias que se ocupam da inteligência. . Do seu parentesco com a pedagogia. à teoria piagetiana da inteligência e à teoria psicanalítica de Freud. Considerando-se o problema de aprendizagem na interseção desses níveis. do organismo e do corpo. Para isso. Para Sara Paín (1987. um organismo. ou seja. do inconsciente. 15): nesse lugar do processo de aprendizagem coincidem um momento histórico. como a filosofia. Por exemplo. ora o psíquico (a consciência). de cuja engrenagem se ocupa e preocupa a epistemologia.A psicopedagogia no Brasil 27 No trabalho clínico. pois. Perceber esse interjogo. a psicopedagogia herda o velho problema do paralelismo psicofísico. não conseguem resolvê-lo. a neurologia. a inteligência e o desejo.

Sonia Moojen Kiguel (em Scoz et al. envolvendo dificuldades cognitivas. piagetiana e da psicologia social de Enrique Pichon-Rivière. instrumentais e afetivas. conforme veremos a seguir. 5). Jorge Visca (1987. Vimos que. 25). Os profissionais brasileiros também crêem nessa articulação como fundamento para a teoria e a prática psicopedagógicas. permitindo-nos levar em conta a face desejante do homem. um quadro de comprometimentos que extrapola o campo de ação específico de diferentes profissionais. entende esse autor ser possível compreender a participação dos aspectos afetivos. Barone e outros. Por sua vez. p. 1990. visando a integração das ciências pedagógica. por exemplo: w a psicanálise encarrega-se do mundo inconsciente. psicológica. são importantes à psicopedagogia conhecimentos específicos de diversas outras teorias. por assimilação recíproca das contribuições das escolas psicanalítica.28 Nadia A. bem como a psicologia social e a linguística.. neuropsicológica e psicolinguística. o sujeito com dificuldade de aprendizagem. vale relembrar. Vemos nas palavras de Barone (1991. 7) considera que a psicopedagogia foi se perfilando como um conhecimento independente e complementar. quase sempre. p. . Encontra-se ainda em fase de organização de um corpo teórico específico. Bossa Os autores brasileiros Neves. operantes por meio da dinâmica psíquica que se expressa por sintomas e símbolos. ao fazer considerações sobre a abordagem psicopedagógica. as quais incidem sobre os seus objetos de estudos. Paín. Golbert. Marina Müller (1986) aponta como suportes teóricos na psicopedagogia clínica – campo do qual essa argentina se ocupa – a psicanálise e a psicologia genética. articulados. fonoaudióloga e psicopedagoga. fonoaudiológica. p. 12): “A epistemologia genética e a psicanálise são necessárias para a teoria psicopedagógica. Kiguel. Visca. assim como os argentinos Fernández. para uma compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem humana. cujo fim é dar conta da articulação inteligênciadesejo”. devido à complexidade do seu objeto de estudo. de manejo difícil e geradoras de conflito. os que se defrontam com os problemas de aprendizagem devem fundamentar a sua prática na articulação da Psicanálise. das representações pro- fundas. Para Sara Paín (1986. Isto porque seu “paciente”. Diz Fernández (1985. afirma: A psicopedagogia terapêutica é um campo de conhecimento relativamente novo que surgiu na fronteira entre a pedagogia e a psicologia. cognoscitivos e do meio que confluem no aprender do ser humano. Desta forma. 113) um pensamento convergente para esse sentido: A prática psicopedagógica vem colocando questões ainda pouco discutidas. Scoz. p. Weiss. p. Rubinstein. da teoria piagetiana e do materialismo histórico. Müller. devem fundamentar a constituição de uma teoria psicopedagógica. apresenta. são unânimes quanto à necessidade de conhecimentos de diversas áreas que. mas não se confundem com ela.

A psicopedagogia no Brasil 29 w a psicologia social encarrega-se da constituição dos sujeitos. a construção desse novo objeto de conhecimento – o processo de leitura-escrita – implica processos cognitivos que podem ser compreendidos por meio da psicologia genética. Recorremos. analisando-o do ponto de vista de quem ensina. nos fornecem meios para refletir cientificamente e operar no campo psicopedagógico. a um corpo teórico para que alguns elementos nos ajudem a iluminar o epicentro do problema. Começamos por analisar algumas questões que surgem no nosso trabalho de auxiliar esse sujeito a restabelecer o seu processo de aprendizagem ou. seja na instituição escolar. que atuam no sentido da não-aprendizagem para esse sujeito. será que a metodologia utilizada no processo de alfabetização é adequada? Essa questão envolve aspectos do processo ensino-aprendizagem que devem ser vistos à luz de teorias pedagógicas. em condições socioculturais e econômicas específicas e que contextuam toda aprendizagem. e a fala como fenômeno subjetivo. Elas. indicando-nos a que correspondem. seja no consultório. uma vez confirmadas. enfim. bastante comum no dia-a-dia. por sinal. do ponto de vista orgânico. ainda. a entrar no curso da aprendizagem. a pedagogia contribui com as diversas abordagens do processo ensino-aprendizagem. todas as evoluções ocorridas no plano psíquico. dão um direcionamento muito diferenciado das situações anterio- . Ou será que o processo se acha inviabilizado na relação professor-aluno? Estaria o aluno estabelecendo uma relação transferencial com o professor. nenhuma dessas áreas surgiu especificamente para responder à problemática da aprendizagem humana. grupais e institucionais. por exemplo. o nosso campo. por outro lado. por outra. ou vice-versa? Ou. envolve o respaldo de outras disciplinas. Vejamos um exemplo: uma criança nos é encaminhada por não aprender a ler e a escrever – situação. a qual não lhe permite o aprender. Pois bem. Além disso. no entanto. evolutivo e historiado de acesso à estrutura simbólica. seja no caso uma cultura psicanalítica que permita identificar mecanismos psíquicos. Ora. então. que. a epistemologia e a psicologia genética encarregam-se de analisar e descrever o processo construtivo do conhecimento pelo sujeito em interação com os outros e com os objetos. o acesso à leitura-escrita poderia se tornar algo persecutório por estar relacionado com o crescimento? Essa análise. Podemos. conforme vimos sublinhando. a lingüística traz a compreensão da linguagem como um dos meios que caracterizam o tipicamente humano e cultural: a língua enquanto código disponível a todos os membros de uma sociedade. atingindo a área cortical da linguagem. Como nos assegurarmos dessas informações. que responde w w w w às relações familiares. estar diante de um caso em que o sujeito tenha sofrido uma anóxia de parto que lhe ocasionou uma lesão cerebral. de representação. os fundamentos na neuropsicologia possibilitam a compreensão dos mecanismos cerebrais que subjazem ao aprimoramento das atividades mentais.

O foco de atenção do psicopedagogo. como quaisquer outros profissionais. Além de outros procedimentos. Frente a enfermidades que apareciam no corpo e que não podiam ser explicadas pela medicina.30 Nadia A. sustentam a sua prática em pressupostos teóricos muitas vezes distintos. Podemos ainda nos deparar com uma ocorrência em que a dificuldade advenha de diferenças culturais e de linguagem. porém. considerando resistências. O psicopedagogo pode. hesitações. conseqüências da identificação do profissional com determinada corrente teórica. conforme já referido antes. a psicopedagogia pensa o seu objeto de estudo. o sonho e o sintoma. De sua parte. por exemplo. que alguns princípios da neurologia são de fundamental importância ao profissional da psicopedagogia. Segundo o criador da psicanálise. Tal escolha estaria alicerçada na condição pessoal de psicopedagogo. Bossa res? Evidencia-se. a qual é oriunda da sua experiência de análise e das condições da sua formação. requerendo elementos conceituais de outros corpos teóricos. Menos como uma digressão do que como um breve lembrete. o inconsciente não se manifesta de forma direta. nesta situação exemplar. repetições. na sua dinâmica. escolher a psicanálise com o objetivo de comprender o sentido inconsciente das dificuldades de aprendizagem. dentro das teorias da personalidade. mas aparece através das fraturas: o chiste. comprometendo deste modo a leitura e a escrita. A estranheza dos significantes do professor para o aluno. com o sintoma conversivo. o psicopedagogo faz as intervenções. gera problemas na própria comunicação. sentimentos e angústias frente a certas situações. A lingüística. nem se pode circunscrevê-lo ou delimitá-lo. neste caso. Essa opção implica determinado procedimento prático. o lapso. uma anomalia. que visam permitir à criança entrar em contato com o sentido inconsciente das suas dificuldades. quem sabe. permitir-lhe uma eficiente intervenção. pode oferecer um aparato conceitual que venha a operar no sentido de explicitar ao psicopedagogo a causa da problemática e. Isso implica diversificados enquadres. O problema de aprendizagem enquanto sintoma pode ser comparado. esse operar com outros sobre um problema. no qual o trabalho psicopedagógico consistiria em propor à criança a realização de determinadas tarefas e acompanhá-la na sua execução. A partir daí começa a pensar nas formações do inconsciente. poderíamos sublinhar que Freud já previu a possibilidade de se recorrer à psicanálise na compreensão dos diversos sintomas (remetamo-nos ao uso psicanalítico do termo sintoma). lapsos. exemplos em que se registra essa cooperação. entre elas o sintoma. bloqueios. a psicologia social ilumina a natureza do grupo a que pertence o sujeito da aprendizagem e as interferências socioculturais desse grupo nesse sujeito. e vice-versa. Enfim. desde o encaminhamento a outros profissionais até a definição da forma de tratamento. é a reação da criança diante da tarefa. Freud chega à noção de inconsciente e entende que o que ocorria era uma conversão simbólica do inconsciente para o corpo. o ato falho. “O futuro provavelmente atribuirá muito maior impor- . esse e os demais exemplos aqui apresentados atestam situações em que. já que essas se configuram em um ato de comunicação. Os profissionais da psicopedagogia.

se inicia um processo de intervenção. até esta chegar à configuração atual. Como ciência do inconsciente. etc. Entretanto. para isso. Como vimos. 44). É clínico porque envolve sempre um processo diagnóstico ou de investigação que precede o plano de trabalho. aprender é um processo que implica pôr em ação diferentes sistemas que intervêm em todo sujeito: a rede de relações e códigos culturais e de linguagem que. a partir de pressupostos teóricos iniciais da medicina. porém com diversos pontos de convergência. novas situações e mais transformação: o psicopedagogo então transforma a teoria. 1976. ainda que o seu objetivo seja a prevenção dos problemas de aprendizagem. o psicopedagogo recorre a critérios diagnósticos no sentido de compreender a falha na aprendizagem – daí o caráter clínico da psicopedagogia. e seu corpo teórico achase em construção. o indivíduo se incorpora ao mundo cultural. conseqüentemente. construindo em sua interioridade um universo de representações simbólicas. após o momento inicial de investigação. entretanto. 1990. ele busca conhecimentos também na psicologia genética. têm lugar em cada ser humano à medida que ele se incorpora à sociedade. v. com a implantação de recursos capazes de solucionar o problema tão logo este se anuncie. a teoria o transforma. no qual. De qualquer modo. transformaram a prática psicopedagógica. as quais se transformaram e. a psicopedagogia se encontra em fase embrionária. A aprendizagem. amalgamando-se ou estruturando o seu arcabouço lógico-principal ou ideal. não só à psicanálise recorre o psicopedagogo. Tratando do mundo psíquico individual e grupal em relação à aprendizagem e aos sistemas e processos educativos. social e cultural). o psicopedagogo inicia a construção do seu plano de trabalho. 303). na psicologia social. e. afinal. A cada dia surgem novas idéias. Pois bem. Assim. p. em posturas teórico-práticas diversificadas. portanto. o psicopedagogo ensina como aprender e. Para o psicopedagogo. é responsável pela inserção da pessoa no mundo da cultura. com uma participação ativa. Sabemos igualmente que nenhuma dessas áreas surge para responder aos problemas de aprendizagem: as diversas combinações entre elas resultam. foram-se constituindo concepções acerca dos problemas de aprendizagem. necessita apreender o aprender e a aprendizagem.A psicopedagogia no Brasil 31 tância à psicanálise como a ciência do inconsciente do que como um procedimento terapêutico” (Freud. XX. desde antes do nascimento. p. ocorrendo também no trabalho institucional. Por meio das informações obtidas nesse processo de investigação. ao se apropriar de conhecimentos e técnicas. da psicologia e da pedagogia. Esse diagnóstico consiste na busca de um saber para saber-fazer. por seu turno. na psicolingüística. Podemos caracterizar a psicopedagogia como uma área de confluência do psicológico (a subjetividade do ser humano enquanto tal) e do educacional (atividade especificamente humana. nesse trabalho de ensinar a aprender. Durante esse processo . a psicanálise permite a compreensão do sintoma enquanto problema de aprendizagem. Mediante a aprendizagem. “O diagnóstico não completa o olhar interpretativo nem diagnóstico: todo o processo terapêutico é também diagnóstico” (Fernández. percebendo-o como uma manifestação humana carregada de significado.

O trabalho preventivo. é com a criança que encontramos dúvidas nosográficas. o profissional não abandona o olhar interpretativo que caracteriza a prática psicopedagógica. o mesmo acontece em patologia. a aprendizagem sistemática. a psicopedagogia refere-se a um saber e a um saber-fazer. promotor de decisões acerca do tratamento. Atualmente. Essa questão é ainda mais controvertida quando se fala na atuação psicopedagógica no Brasil. devido às suas condições de formação. Bossa de intervenção. como já vimos anteriormente. Interjogam aí o pessoal. a depender da modalidade: clínica. nem nos déficits e alterações subjetivas do aprender. o profissional. o familiar atual e passado. mas também e em especial ao espaço epistemológico que lhe cabe. 1) nos falam das dificuldades inerentes ao processo diagnóstico no trabalho psicopedagógico com a criança e com o adolescente. As observações de Ajuriaguerra (1970. ao tratar alguns transtornos de aprendizagem. é sempre clínico. Essas duas formas de atuação. numa abordagem psicopedagógica. O decifrar do sentido da dificuldade de aprendizagem repercute sobre o problema que interpretamos: a nossa linguagem sobre a linguagem da enfermidade nos leva a um compromisso. no qual todas as ambigüidades de atribuição de sentido a uma série de manifestações conscientes e inconscientes se fazem presentes. preventiva e teórica. O trabalho clínico não deixa de ser preventivo. mas avalia a possibilidade do sujeito. pode evitar o aparecimento de outros. uma vez que. ainda mais do que com o adulto. p. o educacional. ou seja. em função da sua formação. não deixam de resultar em um trabalho teórico. Tanto na prática preventiva quanto na clínica. O conhecimento psicopedagógico não se cristaliza em uma delimitação fixa. levando em conta a singularidade de cada processo. a inibições. a disponibilidade afetiva de saber e de fazer.32 Nadia A. atrasos e desvios do sujeito ou grupo a ser diagnosticado. às condições subjetivas e relacionais – em especial familiares e escolares –. o sociocultural. reconhecendo que o saber é próprio do sujeito. umas articulando-se às outras. A leitura do diagnóstico pode variar segundo cada profissional. A forma de abordar o objeto de estudo pode assumir características específicas. O CAMPO DE ATUAÇAO DA PSICOPEDAGOGIA O campo de atuação do psicopedagogo refere-se não só ao espaço físico onde se dá esse trabalho. por sua vez. ou seja. procede sempre embasado no referencial teórico adotado. dos marcos referenciais que sustentam a sua prática e a abordagem teórica com a qual ele se identifica. ao diagnóstico. A investigação diagnóstica envolve a leitura de um processo complexo. a criança é móvel em suas estruturas e maleável em suas manifestações. ao lugar deste campo de atividade e ao modo de abordar o seu objeto de estudo. Sujeito em evolução. .

acreditando que muitas dificuldades de aprendizagem se devem à inadequada pedagogia institucional e familiar. a psicopedagogia nasceu para atender a patologia da aprendizagem.A psicopedagogia no Brasil 33 Ao delimitar o campo de atuação do trabalho psicopedagógico. bem como da aplicabilidade e dos conceitos teóricos. visando favorecer a apropriação do conhecimento pelo ser humano. no sentido de reconhecer e atender às alterações da aprendizagem sistemática e/ou assistemática. por meio de estudos das questões educacionais e da saúde no que concerne ao processo de aprendizagem. w promover orientações metodológicas de acordo com as características dos indivíduos e grupos. cabe ao psicopedagogo: w detectar possíveis perturbações no processo de aprendizagem. por exemplo. seja na área clínica. vocacional e ocupacional. A elaboração teórica visa criar um corpo teórico da psicopedagogia. especificando as suas tarefas. Na sua função preventiva. direção e evolução de planos. uma reflexão constante sobre a pertinência da aplicação das diversas teorias ao campo da psicopedagogia. onde o objetivo seria favorecer a aprendizagem do sujeito para uma nova função. em uma ação preventi- . w participar da dinâmica das relações da comunidade educativa. w realizar processos de orientação educacional. com processos de investigação e diagnóstico que lhe sejam específicos. o trabalho psicopedagógico na área preventiva é de orientação no processo ensino-aprendizagem. mas ela se tem voltado cada vez mais para uma ação preventiva. auxiliando-o para um desenvolvimento mais efetivo de suas atividades. proporcionando práticas mais consistentes. de natureza patológica. Já na área da saúde. Esse trabalho consiste em uma leitura e releitura do processo de aprendizagem e do processo da não-aprendizagem. certamente. no entanto. diferenciar essas modalidades de atuação. deve-se. preventiva. Implica. ter um caráter assistencial. ao longo da sua evolução. o trabalho é feito em consultórios privados e/ou em instituições de saúde (como hospitais). Existe também uma proposta de atuação nas empresas. o psicopedagogo participa de equipes responsáveis pela elaboração. a fim de favorecer processos de integração e troca. assistencial. desta maneira. A proposta da psicopedagogia. O trabalho psicopedagógico pode. na área da saúde mental e da educação. Historicamente. assim. Isso acontece quando. envolvendo elaboração teórica no sentido de relacionar os fatores envolvidos nesse ponto de convergência em que opera. integrando diferentes campos de conhecimento. de todo o contexto da aprendizagem. programas e projetos no setor de educação e saúde. Esse trabalho pode se dar na forma individual ou na grupal. resultando em novos contornos e significados. A psicopedagogia ocupa-se. tanto na forma individual quanto em grupo. por meio de avaliação da prática resultante desses pressupostos. Dessa forma.

Para Lino de Macedo. é adotar uma postura crítica frente ao fracasso escolar. Qualquer que tenha sido a sua formação (psicólogo. ele assumirá sempre a dupla polaridade do seu papel. Os jogos são muito utilizados. pedagogo. Para Janine Mery (1985). artísticas. Apropriação dos conteúdos escolares – O psicopedagogo visa propiciar o domínio de disciplinas escolares em que a criança não vem tendo um bom aproveitamento. 2. 4. ocupa-se das seguintes atividades: 1. em determinados casos. Ele se diferencia do professor particular. Orientação de estudos – Consiste em organizar a vida escolar da criança quando esta não sabe fazê-lo espontaneamente. O atendimento psicopedagógico poderá. a elaboração de uma agenda e tudo aquilo que é necessário ao “como estudar” (como ler um texto. o psicopedagogo. Bossa va. O trabalho do psicopedagogo. podendo até substituir o trabalho da escola. 3. fonoaudiólogo. como escrever. ainda que com ele não esteja diretamente comprometido. pois são férteis no sentido de criarem um contexto de observação e diálogo sobre processos de pensar e de construir o conhecimento. no Brasil. como estudar para a prova.). Procura-se promover o melhor uso do tempo. professor). em uma concepção mais totalizante. De qualquer forma. Este procedimento pode promover um desenvolvimento cognitivo maior do que aquele que as escolas costumam alcançar. pois o conteúdo escolar é usado apenas como uma estratégia para ajudar e fornecer ao aluno o domínio de si próprio e as condições necessárias ao desenvolvimento cognitivo. possui as seguintes especificidades: w o “transtorno de aprendizagem” é encarado como manifestação de uma perturbação que envolve a totalidade da personalidade. etc. está sempre relacionado com o trabalho escolar. de acordo com Mery. Atendimento de crianças – A psicopedagogia se presta a atender deficientes mentais. etc. bem como diante da equipe a que pertence. estas quatro atividades não são excludentes entre si nem em relação a outras. o psicopedagogo é um professor de tipo particular7 que realiza a sua tarefa de pedagogo sem perder de vista os propósitos terapêuticos da sua ação. Desenvolvimento do raciocínio – Trabalho feito com os processos de pensamento necessários ao ato de aprender. o que determinará o modo de ser perante a criança e seus familiares. Segundo Lino de Macedo (1990). visando propor novas alternativas de ação voltadas para a melhoria da prática pedagógica nas escolas. recorrer a propostas corporais. autistas ou crianças com comprometimentos orgânicos mais graves.34 Nadia A. .

pois traduz perfeitamente o significado da psicopedagogia: O interdisciplinar. ela deverá retomar a sua evolução normal. e este conhece a importância da relação transferencial entre o profissional e o sujeito da aprendizagem. a psicologia e a pedagogia – nas experiências específicas e inter-relacionadas do Brasil e da Argentina. A seguir. tanto no seu exercício na área educativa como na da saúde. propondo e não impondo atividades. w a neutralidade do papel de psicopedagogo é negada. Apesar dessa hibridez. visto ser a psicopedagogia uma espécie de saber híbrido. apesar de suas imperfeições. em O rumor da língua. Assim. no entanto. enquanto derivado de outras vertentes ou afluentes. Isso não implica que o lugar de trabalho seja a clínica. respeitando os seus gostos. certa autenticidade: faz-se sua identidade enquanto uma jovem episteme. não basta tomar um “assunto” (um tema) e convocar em torno duas ou três ciências. Em seu trabalho. . nenhuma consente em abandonar-se. O psicopedagogo. se for oferecida uma forma de relação melhor e diferente à criança. procurando sugerir pelo menos duas vias para a escolha do rumo a ser tomado. porque é através da escola que o aluno se situará em relação aos seus semelhantes. ainda segundo Janine Mery (1985). notaremos que se trata de um saber já algo configurado em certa autonomia. permitindo a opção. apresenta uma definição que merece ser citada. suscitando os seus interesses. 99). mas se refere às atitudes do profissional ao longo da sua atuação. Isso não impedirá que o psicopedagogo colabore para a melhoria das condições de trabalho numa determinada escola ou na conquista de seus objetivos. NOTAS 1. se assim podemos dizer. A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém. Assim. respeita a escola tal como é. w objetivo do psicopedagogo é levar o sujeito a reintegrar-se à vida escolar normal. respeitando as suas possibilidades e interesses. participará da construção coletiva da sociedade à qual pertence. de que tanto se fala. Esse enfrentamento. ele deverá fazer com que a criança enfrente a escola de hoje.A psicopedagogia no Brasil 35 w o desenvolvimento infantil é considerado a partir de uma perspectiva dinâ- mica. Busca-se sempre desenvolver e expandir a personalidade do indivíduo. pode-se considerar que o psicopedagogo tem uma atitude clínica frente ao seu objeto de estudo. não está em confrontar disciplinas já constituídas das quais. na realidade. Barthes (1988. optará por uma profissão. não significaria impor à criança normas arbitrárias ou sufocar-lhe a individualidade. p. favorecendo as suas iniciativas pessoais. procuramos mostrar como a prática e a teoria psicopedagógicas vêm ocorrendo – dentro desse território epistemologicamente problemático. Para se fazer interdisciplinaridade. e não a de amanhã. e é dentro dessa evolução dinâmica que o sintoma “transtorno de aprendizagem” é estudado.

desde a mais tenra infância. 1971). como adjetivo. Na prática médica. o psicopedagogo elege a metodologia e/ou a forma de intervenção com o objetivo de facilitar e/ou desobstruir tal processo – função primeira da psicopedagogia. O conceito de clínica provém da Medicina. ou seja. “escuta”. Segundo Armando Bauleo (apud Fernández. 1981).. o profissional deve observar o sujeito. assim como no vocabulário corrente em psicopedagogia.) é um se mover práxico no desenvolvimento do terapeuta. O termo prevenção. p. é diferente do “professor particular” na nossa sociedade. 7. produto e conjugação nesse desenvolvimento de teoria. prática e experiência vivida socialmente. 1990a. 5. significa aplicação dos conhecimentos médicos ao enfermo. e as dificuldades do enunciar recortando-o estão ligadas a sua própria constituição. Vale ressaltar que a concepção de “um professor de um tipo particular”. como se refere Mery. refere-se à atitude do profissional no sentido de adequar as condições de aprendizagem de forma a evitar comprometimentos nesse processo. Para tanto. Bossa 2. no presente ensaio. a epistemofilia. Klein. é um conceito kleineano.36 Nadia A. comentada em nota de rodapé na página anterior. 10): Atitude é um complexo de ação e teoria (. O trabalho preventivo. 3. ao interesse sexual. 6.. deriva de Freud e sua visão “pansexualista” (cf. alusivo ao impulso de conhecer associado. . 4. uma vez que este não assume – nem deve assumir – a postura de terapeuta. da forma como é concebido neste estudo. Desejo de conhecer. A partir da análise cuidadosa tanto dos fatores que podem promover quanto dos que podem comprometer o processo de aprendizagem (motivo de exaustivos estudos na área). ver o que se passa e o que o transtorna – daí as expressões “olho clínico”. derivando de um termo grego que significa leito (klinê): klinikos é aquele “que visita os doentes no leito” (Larousse Étymologique – Nouveau Dictionnaire Étymologique et Historique. refere-se à idéia de prevenção.

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