FUNDAMENTOS DA UNDAMENT AMENTOS PSICOPEDAGOGIA SICOPEDA

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O termo psicopedagogia apresenta-se, hoje, com uma característica especial. Quanto mais tentamos elucidá-lo, menos claro ele nos parece. Essa dificuldade é uma das razões e finalidade do presente ensaio, isto é, procuro deixar claro que a ambigüidade reside tanto na palavra quanto na coisa que ela reporta. À primeira vista, o termo sugere tratar-se de uma aplicação da psicologia à pedagogia, porém tal definição não reflete o significado que esse termo assume em razão do seu nascimento. Como diz Lino de Macedo (1992), “o termo já foi inventado e assinala de forma simples e direta uma das mais profundas e importantes razões da produção de um conhecimento científico: o de ser meio, o de ser instrumento, para um outro, tanto em uma perspectiva teórica ou aplicada”. Neste sentido, enquanto produção de conhecimento científico, a psicopedagogia, que nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem, não se basta como aplicação da psicologia à pedagogia. Macedo (1992, p. VII) lembra-nos, ainda, que no Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa o termo psicopedagogia é definido como “aplicação da psicologia experimental à pedagogia”. Os diversos autores que tratam da Psicopedagogia enfatizam o seu caráter interdisciplinar.1 Reconhecer tal caráter significa admitir a sua especificidade enquanto área de estudos, uma vez que, buscando conhecimentos em outros campos, cria o seu próprio objeto, condição essencial da interdisciplinaridade. Ao admitir essa interseção, não nos resta outra alternativa senão abandonarmos a idéia de tratar a psicopedagogia apenas como aplicação da psicologia à pedagogia, pois, ainda que se tratasse de recorrer apenas a estas duas disciplinas (o que não creio) na solução da problemática que lhe deu origem – os problemas de aprendizagem –, não seria como mera aplicação de uma à outra, mas sim como constituição de uma nova área que, recorrendo aos conhecimentos dessas duas, pensa o seu objeto de estudo a partir de um corpo teórico próprio, ou melhor, que busca se formar. Penso que a psicopedagogia, como área de aplicação, antecede o status de área de estudos, a qual tem procurado sistematizar um corpo teórico próprio, defi-

lingüística. 22). 10): falar sobre psicopedagogia é. Afirma que “os fatores etiológicos utilizados para explicar índices alarmantes . historicamente a psicopedagogia surgiu na fronteira entre a pedagogia e a psicologia. correspondeu a uma aplicação conceitual e. a psicopedagogia inicialmente foi utilizada como adjetivo. articulação essa que desafia estudiosos e práticos dessas duas áreas.) no momento atual. Bossa nir o seu objeto de estudo. Posteriormente. chamaram de atitude psicopedagógica o que em verdade era um psicologismo radical. Kiguel aventa outra possibilidade quanto ao surgimento da psicopedagogia ao mencionar as tentativas de explicação para o fracasso escolar por outras vias que não a pedagógica e a psicológica. antropologia. Segundo essa autora. necessariamente. De uma perspectiva puramente clínica e individual busca-se uma compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem e uma atuação de natureza mais preventiva. fonoaudiologia. no final da década de 1970 e início da década de 1980 no Brasil. medicina e pedagogia. Embora quase sempre presente no relato de inúmeros trabalhos científicos que tratam principalmente dos problemas ligados à aprendizagem. o campo da psicopedagogia passa por uma reformulação. que também tem contribuído nesse processo de construção do saber psicopedagógico. o que.. inclusive no nosso meio. à luz de pesquisas psicopedagógicas que vêm se desenvolvendo. começando por tentar definir a psicopedagogia. 10): dentro dessa conotação adjetiva da psicopedagogia. p. sociologia. falar sobre a articulação entre educação e psicologia. alguns autores. consideradas inaptas dentro do sistema educacional convencional (. Neves (1992. indicando uma forma de atuação que apontava a inevitável interseção dos campos do conhecimento da psicologia e da pedagogia. Concordo com Neves quando se refere à questão conceitual mencionando a confusão que se apresenta e creio que essa ambigüidade ou dubiedade se estende também à pratica.20 Nadia A. por outro. delimitar o seu campo de atuação. surgiu na fronteira entre a psicologia e a pedagogia merece maior atenção. principalmente pertencentes ao campo pedagógico. psicanálise. p. causou um lamentável estado de confusão. devido a utilização de toda uma polissemia aplicada a um só termo. Para Maria M. a psicopedagogia assumiu uma conotação substantiva. e de contribuições da área da psicologia. tratavam de denunciar a formação dos professores por eles cognominada de psicopedagógica.. ainda segundo a professora Neves. historicamente. por um lado. Podemos citar alguns profissionais brasileiros que objetivam dar a sua contribuição na formação desse corpo teórico. epistemologia. a partir das necessidades de atendimento de crianças com “distúrbios de aprendizagem”. Por isso. A afirmação de que a psicopedagogia. recorre à psicologia. para isso. p. lingüística. o termo psicopedagogia não consegue adquirir clareza na sua dimensão conceitual. Diz Neves (1992. Para Sonia Moojen Kiguel (1991.

como sintoma proeminente. sociedade) no seu desenvolvimento. acrescentando que “no Brasil. se a psicopedagogia não é uma aplicação da psicologia (experimental) à pedagogia. 1987). em Scoz et al. levando sempre em conta as realidades interna e externa da aprendizagem. 1991. a psicopedagogia não pode ser pensada simplesmente como uma aplicação da psicologia à pedagogia. Essa segunda consideração nos permite a seguinte correlação: quanto maior a preocupação com o orgânico. 12): a psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar. menor o espaço para o psicológico. mais. vejamos qual é a definição do objeto de estudo da psicopedagogia segundo alguns psicopedagogos brasileiros. particularmente durante a década de 1970. tomadas em conjunto. problemas neurológicos e problemas psicológicos (cf. de que o problema de aprendizagem estivesse relacionado com fatores neurológicos (cf. Dorneles. p. Tais afirmações de Kiguel remetem-nos a duas considerações: 1. sobre o objeto de estudo da psicopedagogia. . p. 1986). muito aceita no Brasil (e em outros países). ser preocupação da psicologia e da pedagogia. conforme vimos. Passemos a pensar. mas. As explicações para o fracasso escolar fundamentavam-se em discursos que superam o psicológico e negam o pedagógico. convém percorrer um caminho em que é preciso pensar sobre o seu objeto de estudo. pois falam de desnutrição. pois. afetivos e sociais que lhe estão implícitos. E. problemas neurológicos. De acordo com Neves (1991. 24): o objeto central de estudo da psicopedagogia está se estruturando em torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e patológicos – bem como a influência do meio (família..”. escola. procurando estudar a construção do conhecimento em toda a sua complexidade. 2. sobre as teorias que. o que é então? Para responder esta pergunta. A idéia. foi amplamente difundido o rótulo de Disfunção Cerebral Mínima para as crianças que apresentavam. psicológicos.A psicopedagogia no Brasil 21 do fracasso escolar envolviam quase que exclusivamente fatores individuais como desnutrição. O OBJETO DE ESTUDO DA PSICOPEDAGOGIA Se a (in)definição do termo psicopedagogia produz um estado de confusão conforme afirma Neves. distúrbios na escolaridade” (Kiguel. Cypel. ao mesmo tempo. na interdisciplinaridade. se afirma. p. etc. Para Kiguel (1991. Considerando as suas implicações na prática. procurando colocar em pé de igualdade os aspectos cognitivos. 22). embasam essa prática e sobre o seu campo de atuação. indica o peso da concepção organicista no entendimento de uma problemática que. portanto.

a um único caminho. bem como a compreensão do processamento da aprendizagem considerando todas as variáveis que intervêm neste processo. O enfoque preventivo considera o objeto de estudo da psicopedagogia o ser humano em desenvolvimento. seus processos de desenvolvimento e as alterações de tais processos. de forma mais ou menos sistemática. a professores. Para Golbert (1995. Ainda. mas ir também à família e à comunidade. O enfoque terapêutico considera o objeto de estudo da psicopedagogia a identificação. 2): a psicopedagogia estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades? e em uma ação profissional deve englobar vários campos do conhecimento. p. . e o principal objetivo é a investigação de etiologia da dificuldade de aprendizagem. 103): em um primeiro momento a psicopedagogia esteve voltada para a busca e o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de dificuldades. p. assim como a melhor qualidade na construção da própria aprendizagem de alunos e educadores. sobre o progresso nos processos de aprendizagem. 6): a psicopedagogia busca a melhoria das relações com a aprendizagem. Não deve se restringir a uma só agência como a escola. tendo como objetivo fazer a reeducação ou a remediação e desta forma promover o desaparecimento do sintoma. sobre as condições psicodinâmicas da aprendizagem. p. análise. a todos. É importante. o objeto da psicopedagogia passa a ser mais abrangente: a metodologia é apenas um aspecto no processo terapêutico. p. enquanto educável. porém é uma ilusão pensar que tal consenso nos conduza. elaboração de uma metodologia de diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem. pais e administradores sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento. no entanto. a partir do momento em que o foco de atenção passa a ser a compreensão do processo de aprendizagem e a relação que o aprendiz estabelece com a mesma. Essas considerações em relação ao objeto de estudo da psicopedagogia sugerem que há um certo consenso quanto ao fato de que ela deve ocupar-se em estudar a aprendizagem humana. ressaltar que a concepção de aprendizagem resulta de uma visão de homem. Do ponto de vista de Weiss (1991.22 Nadia A. integrando-os e sintetizando-os. Focaliza as possibilidades do aprender. sobre as condições determinantes de dificuldades de aprendizagem. num sentido amplo. Seu objeto de estudo é a pessoa a ser educada. e é em razão desta que acontece a práxis psicopedagógica. Bossa Segundo Scoz (1992. Para Kubinstein (1992. Poderá esclarecer. 13): [o] objeto de estudo da psicopedagogia deve ser entendido a partir de dois enfoques: preventivo e terapêutico. O tema da aprendizagem apresenta tamanha complexidade que tem a dimensão da própria natureza humana e caberia um outro ensaio para tratá-lo.

. que nos permite. Este é também o pensamento dos argentinos (os quais. Alicia Fernández (1990a. acerca do sujeito que não aprende. entre tantas outras coisas. p. quais as problemáticas estruturais que intervêm no surgimento de transtornos da aprendizagem e no fracasso escolar. Estamos tentando construir nossa própria teoria. “a aprendizagem com seus problemas” constitui-se no pilar-base da psicopedagogia. perfilou-se como um conhecimento independente e complementar. na patologia da aprendizagem. p. É função da pedagogia pensar: O que é educar. que dificuldades interferem ou impedem. 102) sublinha: Mas ainda não podemos construir uma teoria acerca de nossa prática específica. a psicopedagogia. Vejamos. Segundo Jorge Visca (1987). Recorremos também à psicanálise. como se desenvolvem estas atividades. mas não uma teoria sobre as fraturas no aprender.A psicopedagogia no Brasil 23 Dos profissionais brasileiros supracitados. o que é ensinar e aprender. 11). Müller (1984. corretores e preventivos próprios. dando conta dos fenômenos inconscientes. coloca: ela considera o sintoma histérico a plataforma de lançamento para que Freud pudesse formular a teoria e a técnica da psicanálise. que influências afetivas e representações inconscientes os acompanham. Recorremos à teoria da inteligência de Piaget. que leis regem estes processos. possuidora de um objeto de estudo – o processo de aprendizagem – e de recursos diagnósticos. Para Marina Müller. realizar uma leitura do inconsciente e nos possibilita um marco psicopatológico a que remetemos para compreender a estrutura de personalidade de nossos pacientes. Mas carecemos de uma psicopatologia acerca da aprendizagem. ou entram em contradição e são substituídos. nosso específico enquadramento. o problema da aprendizagem é nossa plataforma de lançamento para construir uma teoria psicopedagógica . e destinatário de sua atividade profissional”. ao refletir-se sobre o objeto de estudo específico da psicopedagogia. Fernández (1984a. que propostas de mudança surgem. nos inspiraram). Podemos observar esse pensamento traduzido nas palavras de profissionais argentinos que atuam na área e que estão envolvidos no trabalho teórico. sendo os problemas desse processo (de aprendizagem) a causa e a razão da psicopedagogia. como incidem subjetivamente os sistemas e métodos educativos. p. deve-se tomar em conta o lugar em que se situa este campo de atividade. ao citar Sara Paín. que inicialmente foi uma ação subsidiária da medicina e da psicologia. Para eles. 7 e 8) diz que é função da psicologia pensar como se incrementam os conhecimentos. os rasgos diferenciadores de nossa técnica e nosso lugar como especialistas em problemas de aprendizagem. “O sujeito que aprende” – diz Marina Müller – “é motivo de perguntas para os psicopedagogos. que nos aporta um modelo da inteligência. Ao se referir à psicopedagogia. pudemos verificar que o tema da aprendizagem ocupa-os e preocupa-os. de que maneira é possível favorecer as aprendizagens ou tratar suas alterações. conforme veremos no Capítulo 2.

constituindo-se. as regularidades. Essa nova concepção leva em conta a singularidade do indivíduo ou grupo. é objeto de estudo da psicopedagogia. A definição do objeto de estudo da psicopedagogia passou por fases distintas. visando reduzir as diferenças e acentuar a uniformidade. colocado em um território pouco explorado. assim como os demais aspectos dessa área de estudo. implícita no não-aprender.24 Nadia A. concebendo-se a “não-aprendizagem” pelo enfoque que salientava a falta. situado além dos limites da psicologia e da própria pedagogia – e evoluiu devido a existência de recursos. uma vez que são avaliados os processos didático-metodológicos e a dinâmica institucional que interferem no processo de aprendizagem. como reconhecê-las. Bossa A psicopedagogia se ocupa da aprendizagem humana. para atender a essa demanda. buscando o sentido particular de suas características e suas alterações. como aprende e por que. em especial. e o trabalho procurava vencer tais defasagens. e não se opõe ao aprender. além de perceber a dimensão da relação entre psicopedagogo e sujeito de forma a favorecer a aprendizagem. adquire características específicas a depender do trabalho clínico ou preventivo: w O trabalho clínico se dá na relação entre um sujeito com sua história pessoal e sua modalidade de aprendizagem.3 a instituição. Essa fase da psicopedagogia é fundamentada. Como se preocupa com o problema de aprendizagem. nesta modalidade de trabalho. na psicanálise e na psicologia genética. esse objeto foi entendido de várias formas. a psicopedagogia adotou a noção de “não-aprendizagem” de outra maneira: o não-aprender é tido como carregado de significados.2 Esse objeto de estudo. vemos que a psicopedagogia estuda as características da aprendizagem humana: como se aprende. que é um sujeito a ser estudado por outro sujeito. Houve tempo em que o trabalho psicopedagógico priorizava a reeducação. O processo evolutivo pelo qual essa nova área de estudo procurou estruturar- . onde investigador e objeto-sujeito de estudo interagem constantemente. Nesse processo. tratá-las e preveni-las. como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores. o processo de aprendizagem era avaliado em função de seus déficits. Isso significa que. w No trabalho preventivo. deve ocupar-se inicialmente do processo de aprendizagem. em uma prática. segundo as circunstâncias da sua própria história e do seu mundo sociocultural. que repercutem nas produções científicas. o esperado para determinada idade. Esse enfoque buscava estabelecer as semelhanças entre grandes grupos de sujeitos. como se produzem as alterações na aprendizagem. a própria alteração torna-se alvo de estudo da psicopedagogia. assim. Posteriormente. O objeto de estudo era o sujeito que não podia aprender. buscando compreender a mensagem de outro sujeito. que adveio de uma demanda – o problema de aprendizagem. ainda que embrionários. Portanto. enquanto espaço físico e psíquico da aprendizagem. deve o profissional comprender o que o sujeito aprende. Em diferentes momentos históricos.

como também de encontrar os meios para que os mesmos sejam eliminados. em função da visão de homem adotada em cada momento histórico e da sua correspondente concepção de aprendizagem. o psicopedagogo atua nos processos educativos com o objetivo de diminuir a “freqüência dos problemas de aprendizagem”. Como exemplo dos níveis de trabalho preventivo. uma vez que. No primeiro nível. Entretanto. estamos prevenindo o aparecimento de outros. Esse profissional tem. ele é também teórico na medida da necessidade de se refletir sobre a práxis. atuar diretamente junto a estes. Conforme vimos. No segundo nível. Essa concepção de sujeito variou. agora. a partir do qual se procura avaliar os currículos com os professores. e elaboram-se planos de intervenção baseados nesse diagnóstico. realizar um diagnóstico do grupo e intervir nos procedimentos didático-metodológicos em vigor. não só o objetivo de detectar as causas dos transtornos. No trabalho preventivo. para que não se repitam tais transtornos. O caráter preventivo permanece aí. ao eliminarmos um transtorno. auxiliando-os a incorporar os novos conhecimentos e os procedimentos metodológicos deles decorrentes. em um procedimento clínico com todas as suas implicações. que corresponderia ao primeiro nível preventivo. Já o terceiro nível se dá no momento em que problemas específicos de leitura e escrita já estejam instalados em um aluno ou grupo de alunos. cria-se um plano diagnóstico da realidade institucional. no segundo nível preventivo. o objetivo é diminuir e tratar dos problemas de aprendizagem já instalados. trata de elaborar métodos de ensino compatíveis com as novas concepções acerca desse processo. classe ou instituição. Atualmente. como se refere Alicia Fernández (1991). Para tanto. Deve o psicopedagogo. No terceiro nível. podemos falar em diferentes níveis de prevenção. pois trata-se de um sujeito que estuda outros sujeitos. a psicopedagogia trabalha com uma concepção de aprendizagem segundo a qual participa desse processo um equipamento biológico com disposições afetivas e intelectuais que interferem na forma de relação do sujeito com o meio. porém. vale repensar um pouco a prática. ele trabalha com os professores. a fim de tratar esses transtornos e evitar outros. sendo que essas disposições influenciam e são influenciadas pelas condições socioculturais do sujeito e do seu meio. No exercício clínico. digamos que. conforme dissemos anteriormente. Ao se deparar com novas teorias acerca da alfabetização. antes de abordar o teórico. Assim sendo. Nesse momento. o objetivo é eliminar os transtornos já instalados. neste caso. o psicopedagogo deve reconhecer a sua própria subjetividade na relação. Seu trabalho incide nas questões didático-metodológicas. Cabe então ao psicopedagogo. o psicopedagogo. podemos nos valer de uma situação específica: a alfabetização. bem como na formação e orientação de professores. além de fazer aconselhamento aos pais. Essa inter- . em um determinado grupo. apareçam transtornos na aprendizagem do processo de leitura e escrita. o trabalho psicopedagógico pode ser preventivo e clínico. juntamente com outros profissionais da escola.A psicopedagogia no Brasil 25 se entende que o objeto de estudo é sempre o sujeito “aprendendo”. Utilizando ainda a alfabetização.

o que pode comprometê-lo e o que pode favorecê-lo. que configuram a atitude psicopedagógica. o sujeito epistêmico e o sujeito do desejo. a partir desta. enquanto psicopedagogos. organizam-se as operações lógicas de classificação e de relação que de um nível de elaboração simples passam a outro cada vez mais complexo. . esse saber só é possível com uma formação que se oriente sobre três pilares: a) prática clínica: ocorre em consultório individual-grupal-familiar. Isso significa que a possibilidade de aprender está situada no nível inconsciente. o tratamento psicopedagógico-didático é fundamental na formação do psicopedagogo. pois se constitui em um espaço para a construção do olhar e da escuta clínica4 – a partir da análise do seu próprio aprender –. imperioso que. implica uma temática muito complexa. Assim. e à busca do mundo cognitivo cultural. os problemas estruturais que intervêm no surgimento dos transtornos de aprendizagem e no processo escolar. bem como às leis que regem esse processo: as influências afetivas e as representações inconscientes que o acompanham. desta maneira. Tal modalidade constrói-se desde o nascimento. que o psicopedagogo saiba o que é ensinar e o que é aprender. p. como interferem os sistemas e métodos educativos. a teoria psicopedagógica possa ser tecida. um esquema de operar que utilizamos nas situações de aprendizagem. Faz-se. condições e limites para conhecer. em instituições educativas e sanitárias. b) construção teórica: é permeada pela prática de forma que. objetividade. 8). Essa modalidade é fruto do seu inconsciente simbólico constituído na sua inter-relação com o outro e de sua atividade estruturante de um universo estável: relação causaefeito.26 Nadia A. Modalidade de aprendizagem significa uma maneira pessoal para aproximar-se do conhecimento e constituir o saber. todo sujeito tem a sua modalidade de aprendizagem. compartilhado socialmente” (Müller. espaço-temporal. c) tratamento psicopedagógico-didático: segundo essa autora argentina. 1984. Esse saber exige do psicopedagogo que recorra a teorias que lhe permitam reconhecer de que modo se dá a aprendizagem. à busca de sua própria verdade (conhecer quem é. meios. é como uma matriz. em um único personagem. Esse sujeito envolve. aprendamos sobre como os outros sujeitos aprendem e também sobre como nós aprendemos. Para Alicia Fernández (1991). no desejo de conhecer. também. Bossa relação de sujeitos. e quem é para os outros). em movimento dialético. Ainda de acordo com Alicia Fernández (1991). um molde. como este se transforma em suas diversas etapas de vida. na qual um procura conhecer no outro aquilo que o impede de aprender. ou seja.5 conforme observa outro autor: “Este desejo de conhecer (epistemofilia) está ligado. É preciso. Ao psicopedagogo cabe saber como se constitui o sujeito. quais os recursos de conhecimento de que ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento e aprende.

Para Sara Paín (1987. referimonos principalmente ao materialismo histórico. p. Vejamos quais são essas teorias. em separado. uma teoria psicopedagógica fundamentada em conhecimentos de outros corpos teóricos. Para isso. um organismo. Faz-se necessário construir. a sociologia. do inconsciente. a operatividade e o inconsciente. conceber o sujeito que aprende como um sujeito epistêmicoepistemofílico implica procedimentos diagnósticos e terapêuticos que considerem tal concepção. é necessária uma leitura clínica na qual. ou seja. p. estando estes quatro níveis basicamente implicados no aprender. 205). De acordo com Alicia Fernández (1991). embasem essa prática. pois. a meu juízo. uma etapa genética da inteligência e um sujeito associado a tantas outras estruturas teóricas. ouvir essa mensagem. a psicopedegogia traz as indefinições e contradições de uma ciência cujos limites são os da própria vida humana. de cuja engrenagem se ocupa e preocupa a epistemologia. a neurologia. as teorias que se ocupam da inteligência. Envolve simultaneamente. . Perceber esse interjogo. necessitamos incorporar conhecimentos sobre o organismo. revisar velhos impasses conceituais subjazentes à ação e à atuação da pedagogia e da psicologia no apreender do fenômeno educativo.A psicopedagogia no Brasil 27 No trabalho clínico. não conseguem resolvê-lo. enquanto instauram a ideologia. do organismo e do corpo. Dessa forma. a psicopedagogia herda o velho problema do paralelismo psicofísico. primeiramente existe uma mensagem que deve ser ouvida” (Mannoni. se possa decifrar os processos que dão sentido ao observado e norteiam a intervenção: “Além do sintoma que deve ser reeducado. à teoria piagetiana da inteligência e à teoria psicanalítica de Freud. um dualismo que ora privilegia o físico (observável). 1976. Considerando-se o problema de aprendizagem na interseção desses níveis. por meio da escuta psicopedagógica. 15): nesse lugar do processo de aprendizagem coincidem um momento histórico. Por exemplo. e perceber o interjogo entre o desejo de conhecer e o de ignorar. no sentido de alcançar compreensão desse processo. AS TEORIAS QUE EMBASAM O TRABALHO PSICOPEDAGÓGICO Conhecer os fundamentos da psicopedagogia implica refletir sobre as suas origens teóricas. ressignificados. o social e o individual em processos tanto transformadores quanto reprodutores. Essas duas áreas não são suficientes para apreender o objeto de estudo da psicopedagogia – o processo de aprendizagem e suas variáveis – e nortear a sua prática. recorre-se a outras áreas. Do seu parentesco com a pedagogia. que. assumir essa atitude6 clínica requer um conjunto de conhecimentos estruturados de forma a se constituir uma matriz teórica interpretativa. o corpo. no processo diagnóstico interessa-nos saber como e o que o sujeito pode aprender. Da psicologia. enfim. como a filosofia. a inteligência e o desejo. ora o psíquico (a consciência). a lingüística e a psicanálise.

articulados. assim como os argentinos Fernández. devem fundamentar a constituição de uma teoria psicopedagógica. entende esse autor ser possível compreender a participação dos aspectos afetivos. Scoz. Diz Fernández (1985. p. devido à complexidade do seu objeto de estudo. são importantes à psicopedagogia conhecimentos específicos de diversas outras teorias. ao fazer considerações sobre a abordagem psicopedagógica. psicológica. envolvendo dificuldades cognitivas. para uma compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem humana. apresenta. 5). fonoaudiológica. Weiss. p. Müller. 25). afirma: A psicopedagogia terapêutica é um campo de conhecimento relativamente novo que surgiu na fronteira entre a pedagogia e a psicologia. Para Sara Paín (1986.28 Nadia A. mas não se confundem com ela. Paín. os que se defrontam com os problemas de aprendizagem devem fundamentar a sua prática na articulação da Psicanálise. 7) considera que a psicopedagogia foi se perfilando como um conhecimento independente e complementar. cognoscitivos e do meio que confluem no aprender do ser humano. Vemos nas palavras de Barone (1991. Isto porque seu “paciente”. 12): “A epistemologia genética e a psicanálise são necessárias para a teoria psicopedagógica. instrumentais e afetivas. fonoaudióloga e psicopedagoga. Marina Müller (1986) aponta como suportes teóricos na psicopedagogia clínica – campo do qual essa argentina se ocupa – a psicanálise e a psicologia genética. Vimos que. de manejo difícil e geradoras de conflito. da teoria piagetiana e do materialismo histórico. quase sempre. operantes por meio da dinâmica psíquica que se expressa por sintomas e símbolos. Rubinstein. visando a integração das ciências pedagógica. das representações pro- fundas. Barone e outros. Os profissionais brasileiros também crêem nessa articulação como fundamento para a teoria e a prática psicopedagógicas.. são unânimes quanto à necessidade de conhecimentos de diversas áreas que. p. permitindo-nos levar em conta a face desejante do homem. Kiguel. Bossa Os autores brasileiros Neves. conforme veremos a seguir. . vale relembrar. Encontra-se ainda em fase de organização de um corpo teórico específico. Jorge Visca (1987. Desta forma. por assimilação recíproca das contribuições das escolas psicanalítica. piagetiana e da psicologia social de Enrique Pichon-Rivière. 113) um pensamento convergente para esse sentido: A prática psicopedagógica vem colocando questões ainda pouco discutidas. neuropsicológica e psicolinguística. cujo fim é dar conta da articulação inteligênciadesejo”. Golbert. Por sua vez. p. bem como a psicologia social e a linguística. Visca. p. por exemplo: w a psicanálise encarrega-se do mundo inconsciente. um quadro de comprometimentos que extrapola o campo de ação específico de diferentes profissionais. Sonia Moojen Kiguel (em Scoz et al. as quais incidem sobre os seus objetos de estudos. 1990. o sujeito com dificuldade de aprendizagem.

Elas. Como nos assegurarmos dessas informações. em condições socioculturais e econômicas específicas e que contextuam toda aprendizagem. então. por outra. a epistemologia e a psicologia genética encarregam-se de analisar e descrever o processo construtivo do conhecimento pelo sujeito em interação com os outros e com os objetos. a qual não lhe permite o aprender. atingindo a área cortical da linguagem. Vejamos um exemplo: uma criança nos é encaminhada por não aprender a ler e a escrever – situação. que atuam no sentido da não-aprendizagem para esse sujeito. por sinal. a entrar no curso da aprendizagem. ainda. e a fala como fenômeno subjetivo. todas as evoluções ocorridas no plano psíquico. que. estar diante de um caso em que o sujeito tenha sofrido uma anóxia de parto que lhe ocasionou uma lesão cerebral. de representação. grupais e institucionais. conforme vimos sublinhando. que responde w w w w às relações familiares. indicando-nos a que correspondem. por exemplo. os fundamentos na neuropsicologia possibilitam a compreensão dos mecanismos cerebrais que subjazem ao aprimoramento das atividades mentais. a lingüística traz a compreensão da linguagem como um dos meios que caracterizam o tipicamente humano e cultural: a língua enquanto código disponível a todos os membros de uma sociedade. a pedagogia contribui com as diversas abordagens do processo ensino-aprendizagem. será que a metodologia utilizada no processo de alfabetização é adequada? Essa questão envolve aspectos do processo ensino-aprendizagem que devem ser vistos à luz de teorias pedagógicas. envolve o respaldo de outras disciplinas. Ora. bastante comum no dia-a-dia. Além disso. a construção desse novo objeto de conhecimento – o processo de leitura-escrita – implica processos cognitivos que podem ser compreendidos por meio da psicologia genética. Ou será que o processo se acha inviabilizado na relação professor-aluno? Estaria o aluno estabelecendo uma relação transferencial com o professor. Começamos por analisar algumas questões que surgem no nosso trabalho de auxiliar esse sujeito a restabelecer o seu processo de aprendizagem ou. evolutivo e historiado de acesso à estrutura simbólica. nos fornecem meios para refletir cientificamente e operar no campo psicopedagógico. analisando-o do ponto de vista de quem ensina. no entanto. dão um direcionamento muito diferenciado das situações anterio- . por outro lado. o acesso à leitura-escrita poderia se tornar algo persecutório por estar relacionado com o crescimento? Essa análise. seja no consultório. nenhuma dessas áreas surgiu especificamente para responder à problemática da aprendizagem humana. Recorremos. enfim. o nosso campo. Podemos. seja no caso uma cultura psicanalítica que permita identificar mecanismos psíquicos. seja na instituição escolar. uma vez confirmadas. a um corpo teórico para que alguns elementos nos ajudem a iluminar o epicentro do problema. ou vice-versa? Ou. Pois bem. do ponto de vista orgânico.A psicopedagogia no Brasil 29 w a psicologia social encarrega-se da constituição dos sujeitos.

uma anomalia. é a reação da criança diante da tarefa. dentro das teorias da personalidade. nem se pode circunscrevê-lo ou delimitá-lo. conforme já referido antes. hesitações. no qual o trabalho psicopedagógico consistiria em propor à criança a realização de determinadas tarefas e acompanhá-la na sua execução. quem sabe. já que essas se configuram em um ato de comunicação.30 Nadia A. neste caso. o sonho e o sintoma. Podemos ainda nos deparar com uma ocorrência em que a dificuldade advenha de diferenças culturais e de linguagem. na sua dinâmica. pode oferecer um aparato conceitual que venha a operar no sentido de explicitar ao psicopedagogo a causa da problemática e. poderíamos sublinhar que Freud já previu a possibilidade de se recorrer à psicanálise na compreensão dos diversos sintomas (remetamo-nos ao uso psicanalítico do termo sintoma). Isso implica diversificados enquadres. como quaisquer outros profissionais. De sua parte. Frente a enfermidades que apareciam no corpo e que não podiam ser explicadas pela medicina. sustentam a sua prática em pressupostos teóricos muitas vezes distintos. porém. esse operar com outros sobre um problema. comprometendo deste modo a leitura e a escrita. Bossa res? Evidencia-se. a psicologia social ilumina a natureza do grupo a que pertence o sujeito da aprendizagem e as interferências socioculturais desse grupo nesse sujeito. o psicopedagogo faz as intervenções. desde o encaminhamento a outros profissionais até a definição da forma de tratamento. permitir-lhe uma eficiente intervenção. lapsos. gera problemas na própria comunicação. conseqüências da identificação do profissional com determinada corrente teórica. e vice-versa. Essa opção implica determinado procedimento prático. exemplos em que se registra essa cooperação. Os profissionais da psicopedagogia. Freud chega à noção de inconsciente e entende que o que ocorria era uma conversão simbólica do inconsciente para o corpo. O psicopedagogo pode. por exemplo. A estranheza dos significantes do professor para o aluno. o ato falho. nesta situação exemplar. o inconsciente não se manifesta de forma direta. o lapso. Enfim. entre elas o sintoma. a psicopedagogia pensa o seu objeto de estudo. A partir daí começa a pensar nas formações do inconsciente. Além de outros procedimentos. sentimentos e angústias frente a certas situações. que visam permitir à criança entrar em contato com o sentido inconsciente das suas dificuldades. mas aparece através das fraturas: o chiste. “O futuro provavelmente atribuirá muito maior impor- . A lingüística. com o sintoma conversivo. O foco de atenção do psicopedagogo. Menos como uma digressão do que como um breve lembrete. que alguns princípios da neurologia são de fundamental importância ao profissional da psicopedagogia. a qual é oriunda da sua experiência de análise e das condições da sua formação. repetições. Tal escolha estaria alicerçada na condição pessoal de psicopedagogo. requerendo elementos conceituais de outros corpos teóricos. bloqueios. escolher a psicanálise com o objetivo de comprender o sentido inconsciente das dificuldades de aprendizagem. O problema de aprendizagem enquanto sintoma pode ser comparado. considerando resistências. esse e os demais exemplos aqui apresentados atestam situações em que. Segundo o criador da psicanálise.

“O diagnóstico não completa o olhar interpretativo nem diagnóstico: todo o processo terapêutico é também diagnóstico” (Fernández. De qualquer modo. Entretanto. têm lugar em cada ser humano à medida que ele se incorpora à sociedade. amalgamando-se ou estruturando o seu arcabouço lógico-principal ou ideal. Durante esse processo . é responsável pela inserção da pessoa no mundo da cultura. até esta chegar à configuração atual. foram-se constituindo concepções acerca dos problemas de aprendizagem. a psicanálise permite a compreensão do sintoma enquanto problema de aprendizagem. após o momento inicial de investigação. ele busca conhecimentos também na psicologia genética. Pois bem. com a implantação de recursos capazes de solucionar o problema tão logo este se anuncie. o indivíduo se incorpora ao mundo cultural. A cada dia surgem novas idéias. e seu corpo teórico achase em construção. afinal. Tratando do mundo psíquico individual e grupal em relação à aprendizagem e aos sistemas e processos educativos. da psicologia e da pedagogia. transformaram a prática psicopedagógica. XX. Podemos caracterizar a psicopedagogia como uma área de confluência do psicológico (a subjetividade do ser humano enquanto tal) e do educacional (atividade especificamente humana. desde antes do nascimento. não só à psicanálise recorre o psicopedagogo. o psicopedagogo ensina como aprender e. É clínico porque envolve sempre um processo diagnóstico ou de investigação que precede o plano de trabalho.A psicopedagogia no Brasil 31 tância à psicanálise como a ciência do inconsciente do que como um procedimento terapêutico” (Freud. para isso. ao se apropriar de conhecimentos e técnicas. portanto. Esse diagnóstico consiste na busca de um saber para saber-fazer. 1990. p. no qual. entretanto. etc. Mediante a aprendizagem. 1976. ocorrendo também no trabalho institucional. necessita apreender o aprender e a aprendizagem. se inicia um processo de intervenção. na psicologia social. conseqüentemente. aprender é um processo que implica pôr em ação diferentes sistemas que intervêm em todo sujeito: a rede de relações e códigos culturais e de linguagem que. na psicolingüística. 44). novas situações e mais transformação: o psicopedagogo então transforma a teoria. A aprendizagem. ainda que o seu objetivo seja a prevenção dos problemas de aprendizagem. Como vimos. nesse trabalho de ensinar a aprender. porém com diversos pontos de convergência. p. o psicopedagogo recorre a critérios diagnósticos no sentido de compreender a falha na aprendizagem – daí o caráter clínico da psicopedagogia. Como ciência do inconsciente. percebendo-o como uma manifestação humana carregada de significado. em posturas teórico-práticas diversificadas. Para o psicopedagogo. com uma participação ativa. v. 303). por seu turno. Por meio das informações obtidas nesse processo de investigação. a partir de pressupostos teóricos iniciais da medicina. Sabemos igualmente que nenhuma dessas áreas surge para responder aos problemas de aprendizagem: as diversas combinações entre elas resultam. a psicopedagogia se encontra em fase embrionária. as quais se transformaram e. o psicopedagogo inicia a construção do seu plano de trabalho. a teoria o transforma. social e cultural). construindo em sua interioridade um universo de representações simbólicas. Assim. e.

procede sempre embasado no referencial teórico adotado. . As observações de Ajuriaguerra (1970. Bossa de intervenção. a psicopedagogia refere-se a um saber e a um saber-fazer. o familiar atual e passado. O trabalho preventivo. promotor de decisões acerca do tratamento. é sempre clínico. devido às suas condições de formação. ao lugar deste campo de atividade e ao modo de abordar o seu objeto de estudo. umas articulando-se às outras. p. nem nos déficits e alterações subjetivas do aprender. ainda mais do que com o adulto. no qual todas as ambigüidades de atribuição de sentido a uma série de manifestações conscientes e inconscientes se fazem presentes. o profissional não abandona o olhar interpretativo que caracteriza a prática psicopedagógica. a disponibilidade afetiva de saber e de fazer. A leitura do diagnóstico pode variar segundo cada profissional. 1) nos falam das dificuldades inerentes ao processo diagnóstico no trabalho psicopedagógico com a criança e com o adolescente. Tanto na prática preventiva quanto na clínica. ou seja. por sua vez. a depender da modalidade: clínica. a aprendizagem sistemática. a inibições. mas avalia a possibilidade do sujeito. o educacional. é com a criança que encontramos dúvidas nosográficas. a criança é móvel em suas estruturas e maleável em suas manifestações. o mesmo acontece em patologia. O decifrar do sentido da dificuldade de aprendizagem repercute sobre o problema que interpretamos: a nossa linguagem sobre a linguagem da enfermidade nos leva a um compromisso. em função da sua formação. ao tratar alguns transtornos de aprendizagem. O trabalho clínico não deixa de ser preventivo. dos marcos referenciais que sustentam a sua prática e a abordagem teórica com a qual ele se identifica. Atualmente.32 Nadia A. o profissional. ou seja. A investigação diagnóstica envolve a leitura de um processo complexo. pode evitar o aparecimento de outros. O conhecimento psicopedagógico não se cristaliza em uma delimitação fixa. não deixam de resultar em um trabalho teórico. uma vez que. O CAMPO DE ATUAÇAO DA PSICOPEDAGOGIA O campo de atuação do psicopedagogo refere-se não só ao espaço físico onde se dá esse trabalho. ao diagnóstico. Interjogam aí o pessoal. levando em conta a singularidade de cada processo. atrasos e desvios do sujeito ou grupo a ser diagnosticado. numa abordagem psicopedagógica. reconhecendo que o saber é próprio do sujeito. o sociocultural. Sujeito em evolução. Essas duas formas de atuação. Essa questão é ainda mais controvertida quando se fala na atuação psicopedagógica no Brasil. mas também e em especial ao espaço epistemológico que lhe cabe. às condições subjetivas e relacionais – em especial familiares e escolares –. como já vimos anteriormente. preventiva e teórica. A forma de abordar o objeto de estudo pode assumir características específicas.

Já na área da saúde. por exemplo.A psicopedagogia no Brasil 33 Ao delimitar o campo de atuação do trabalho psicopedagógico. integrando diferentes campos de conhecimento. envolvendo elaboração teórica no sentido de relacionar os fatores envolvidos nesse ponto de convergência em que opera. a psicopedagogia nasceu para atender a patologia da aprendizagem. por meio de estudos das questões educacionais e da saúde no que concerne ao processo de aprendizagem. Isso acontece quando. w realizar processos de orientação educacional. a fim de favorecer processos de integração e troca. o trabalho psicopedagógico na área preventiva é de orientação no processo ensino-aprendizagem. uma reflexão constante sobre a pertinência da aplicação das diversas teorias ao campo da psicopedagogia. mas ela se tem voltado cada vez mais para uma ação preventiva. o psicopedagogo participa de equipes responsáveis pela elaboração. A elaboração teórica visa criar um corpo teórico da psicopedagogia. programas e projetos no setor de educação e saúde. Na sua função preventiva. por meio de avaliação da prática resultante desses pressupostos. preventiva. certamente. w participar da dinâmica das relações da comunidade educativa. resultando em novos contornos e significados. Esse trabalho consiste em uma leitura e releitura do processo de aprendizagem e do processo da não-aprendizagem. proporcionando práticas mais consistentes. diferenciar essas modalidades de atuação. Implica. com processos de investigação e diagnóstico que lhe sejam específicos. no sentido de reconhecer e atender às alterações da aprendizagem sistemática e/ou assistemática. seja na área clínica. no entanto. Dessa forma. Historicamente. assistencial. bem como da aplicabilidade e dos conceitos teóricos. O trabalho psicopedagógico pode. A proposta da psicopedagogia. tanto na forma individual quanto em grupo. em uma ação preventi- . ter um caráter assistencial. assim. visando favorecer a apropriação do conhecimento pelo ser humano. o trabalho é feito em consultórios privados e/ou em instituições de saúde (como hospitais). Esse trabalho pode se dar na forma individual ou na grupal. ao longo da sua evolução. onde o objetivo seria favorecer a aprendizagem do sujeito para uma nova função. vocacional e ocupacional. deve-se. de todo o contexto da aprendizagem. de natureza patológica. auxiliando-o para um desenvolvimento mais efetivo de suas atividades. w promover orientações metodológicas de acordo com as características dos indivíduos e grupos. cabe ao psicopedagogo: w detectar possíveis perturbações no processo de aprendizagem. direção e evolução de planos. na área da saúde mental e da educação. A psicopedagogia ocupa-se. Existe também uma proposta de atuação nas empresas. acreditando que muitas dificuldades de aprendizagem se devem à inadequada pedagogia institucional e familiar. especificando as suas tarefas. desta maneira.

). visando propor novas alternativas de ação voltadas para a melhoria da prática pedagógica nas escolas. professor). Bossa va. Os jogos são muito utilizados. Desenvolvimento do raciocínio – Trabalho feito com os processos de pensamento necessários ao ato de aprender. Atendimento de crianças – A psicopedagogia se presta a atender deficientes mentais. é adotar uma postura crítica frente ao fracasso escolar. pois são férteis no sentido de criarem um contexto de observação e diálogo sobre processos de pensar e de construir o conhecimento. Este procedimento pode promover um desenvolvimento cognitivo maior do que aquele que as escolas costumam alcançar. O atendimento psicopedagógico poderá. etc. ocupa-se das seguintes atividades: 1. fonoaudiólogo. autistas ou crianças com comprometimentos orgânicos mais graves. 3. está sempre relacionado com o trabalho escolar. pois o conteúdo escolar é usado apenas como uma estratégia para ajudar e fornecer ao aluno o domínio de si próprio e as condições necessárias ao desenvolvimento cognitivo. no Brasil. de acordo com Mery. De qualquer forma. o que determinará o modo de ser perante a criança e seus familiares. Para Janine Mery (1985). Para Lino de Macedo.34 Nadia A. possui as seguintes especificidades: w o “transtorno de aprendizagem” é encarado como manifestação de uma perturbação que envolve a totalidade da personalidade. como estudar para a prova. 2. a elaboração de uma agenda e tudo aquilo que é necessário ao “como estudar” (como ler um texto. 4. . etc. Qualquer que tenha sido a sua formação (psicólogo. Ele se diferencia do professor particular. estas quatro atividades não são excludentes entre si nem em relação a outras. Segundo Lino de Macedo (1990). pedagogo. ainda que com ele não esteja diretamente comprometido. Orientação de estudos – Consiste em organizar a vida escolar da criança quando esta não sabe fazê-lo espontaneamente. Apropriação dos conteúdos escolares – O psicopedagogo visa propiciar o domínio de disciplinas escolares em que a criança não vem tendo um bom aproveitamento. em determinados casos. Procura-se promover o melhor uso do tempo. recorrer a propostas corporais. artísticas. bem como diante da equipe a que pertence. ele assumirá sempre a dupla polaridade do seu papel. como escrever. o psicopedagogo é um professor de tipo particular7 que realiza a sua tarefa de pedagogo sem perder de vista os propósitos terapêuticos da sua ação. em uma concepção mais totalizante. podendo até substituir o trabalho da escola. o psicopedagogo. O trabalho do psicopedagogo.

Assim. pois traduz perfeitamente o significado da psicopedagogia: O interdisciplinar. no entanto. A seguir. permitindo a opção. . Em seu trabalho. ela deverá retomar a sua evolução normal. w a neutralidade do papel de psicopedagogo é negada. apresenta uma definição que merece ser citada. procurando sugerir pelo menos duas vias para a escolha do rumo a ser tomado. respeita a escola tal como é. não basta tomar um “assunto” (um tema) e convocar em torno duas ou três ciências. ele deverá fazer com que a criança enfrente a escola de hoje. de que tanto se fala. Esse enfrentamento. Barthes (1988. 99). em O rumor da língua. e é dentro dessa evolução dinâmica que o sintoma “transtorno de aprendizagem” é estudado. e não a de amanhã. mas se refere às atitudes do profissional ao longo da sua atuação. w objetivo do psicopedagogo é levar o sujeito a reintegrar-se à vida escolar normal. propondo e não impondo atividades. notaremos que se trata de um saber já algo configurado em certa autonomia. Isso não implica que o lugar de trabalho seja a clínica. a psicologia e a pedagogia – nas experiências específicas e inter-relacionadas do Brasil e da Argentina. apesar de suas imperfeições. se for oferecida uma forma de relação melhor e diferente à criança.A psicopedagogia no Brasil 35 w o desenvolvimento infantil é considerado a partir de uma perspectiva dinâ- mica. suscitando os seus interesses. A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém. respeitando as suas possibilidades e interesses. ainda segundo Janine Mery (1985). Assim. na realidade. NOTAS 1. não está em confrontar disciplinas já constituídas das quais. visto ser a psicopedagogia uma espécie de saber híbrido. tanto no seu exercício na área educativa como na da saúde. p. optará por uma profissão. Apesar dessa hibridez. enquanto derivado de outras vertentes ou afluentes. nenhuma consente em abandonar-se. respeitando os seus gostos. certa autenticidade: faz-se sua identidade enquanto uma jovem episteme. Isso não impedirá que o psicopedagogo colabore para a melhoria das condições de trabalho numa determinada escola ou na conquista de seus objetivos. Busca-se sempre desenvolver e expandir a personalidade do indivíduo. se assim podemos dizer. não significaria impor à criança normas arbitrárias ou sufocar-lhe a individualidade. O psicopedagogo. favorecendo as suas iniciativas pessoais. procuramos mostrar como a prática e a teoria psicopedagógicas vêm ocorrendo – dentro desse território epistemologicamente problemático. porque é através da escola que o aluno se situará em relação aos seus semelhantes. e este conhece a importância da relação transferencial entre o profissional e o sujeito da aprendizagem. Para se fazer interdisciplinaridade. pode-se considerar que o psicopedagogo tem uma atitude clínica frente ao seu objeto de estudo. participará da construção coletiva da sociedade à qual pertence.

comentada em nota de rodapé na página anterior. como adjetivo. 4. 1990a. significa aplicação dos conhecimentos médicos ao enfermo. 7. O conceito de clínica provém da Medicina. ao interesse sexual. derivando de um termo grego que significa leito (klinê): klinikos é aquele “que visita os doentes no leito” (Larousse Étymologique – Nouveau Dictionnaire Étymologique et Historique. 5. Klein. Vale ressaltar que a concepção de “um professor de um tipo particular”. alusivo ao impulso de conhecer associado. o profissional deve observar o sujeito. Na prática médica. 6. ou seja. como se refere Mery. é um conceito kleineano. 3. A partir da análise cuidadosa tanto dos fatores que podem promover quanto dos que podem comprometer o processo de aprendizagem (motivo de exaustivos estudos na área). O termo prevenção. .. 1971). 10): Atitude é um complexo de ação e teoria (. o psicopedagogo elege a metodologia e/ou a forma de intervenção com o objetivo de facilitar e/ou desobstruir tal processo – função primeira da psicopedagogia.36 Nadia A. assim como no vocabulário corrente em psicopedagogia. prática e experiência vivida socialmente. deriva de Freud e sua visão “pansexualista” (cf. e as dificuldades do enunciar recortando-o estão ligadas a sua própria constituição.. Desejo de conhecer. Para tanto. no presente ensaio. “escuta”. Bossa 2. refere-se à idéia de prevenção. 1981). O trabalho preventivo. é diferente do “professor particular” na nossa sociedade. da forma como é concebido neste estudo. a epistemofilia.) é um se mover práxico no desenvolvimento do terapeuta. refere-se à atitude do profissional no sentido de adequar as condições de aprendizagem de forma a evitar comprometimentos nesse processo. p. uma vez que este não assume – nem deve assumir – a postura de terapeuta. desde a mais tenra infância. produto e conjugação nesse desenvolvimento de teoria. Segundo Armando Bauleo (apud Fernández. ver o que se passa e o que o transtorna – daí as expressões “olho clínico”.

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