FUNDAMENTOS DA UNDAMENT AMENTOS PSICOPEDAGOGIA SICOPEDA

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O termo psicopedagogia apresenta-se, hoje, com uma característica especial. Quanto mais tentamos elucidá-lo, menos claro ele nos parece. Essa dificuldade é uma das razões e finalidade do presente ensaio, isto é, procuro deixar claro que a ambigüidade reside tanto na palavra quanto na coisa que ela reporta. À primeira vista, o termo sugere tratar-se de uma aplicação da psicologia à pedagogia, porém tal definição não reflete o significado que esse termo assume em razão do seu nascimento. Como diz Lino de Macedo (1992), “o termo já foi inventado e assinala de forma simples e direta uma das mais profundas e importantes razões da produção de um conhecimento científico: o de ser meio, o de ser instrumento, para um outro, tanto em uma perspectiva teórica ou aplicada”. Neste sentido, enquanto produção de conhecimento científico, a psicopedagogia, que nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem, não se basta como aplicação da psicologia à pedagogia. Macedo (1992, p. VII) lembra-nos, ainda, que no Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa o termo psicopedagogia é definido como “aplicação da psicologia experimental à pedagogia”. Os diversos autores que tratam da Psicopedagogia enfatizam o seu caráter interdisciplinar.1 Reconhecer tal caráter significa admitir a sua especificidade enquanto área de estudos, uma vez que, buscando conhecimentos em outros campos, cria o seu próprio objeto, condição essencial da interdisciplinaridade. Ao admitir essa interseção, não nos resta outra alternativa senão abandonarmos a idéia de tratar a psicopedagogia apenas como aplicação da psicologia à pedagogia, pois, ainda que se tratasse de recorrer apenas a estas duas disciplinas (o que não creio) na solução da problemática que lhe deu origem – os problemas de aprendizagem –, não seria como mera aplicação de uma à outra, mas sim como constituição de uma nova área que, recorrendo aos conhecimentos dessas duas, pensa o seu objeto de estudo a partir de um corpo teórico próprio, ou melhor, que busca se formar. Penso que a psicopedagogia, como área de aplicação, antecede o status de área de estudos, a qual tem procurado sistematizar um corpo teórico próprio, defi-

lingüística. e de contribuições da área da psicologia.. Para Sonia Moojen Kiguel (1991. Embora quase sempre presente no relato de inúmeros trabalhos científicos que tratam principalmente dos problemas ligados à aprendizagem.) no momento atual. a partir das necessidades de atendimento de crianças com “distúrbios de aprendizagem”. causou um lamentável estado de confusão.20 Nadia A. por outro. à luz de pesquisas psicopedagógicas que vêm se desenvolvendo. alguns autores. Podemos citar alguns profissionais brasileiros que objetivam dar a sua contribuição na formação desse corpo teórico. medicina e pedagogia. por um lado. devido a utilização de toda uma polissemia aplicada a um só termo. De uma perspectiva puramente clínica e individual busca-se uma compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem e uma atuação de natureza mais preventiva. 10): dentro dessa conotação adjetiva da psicopedagogia. que também tem contribuído nesse processo de construção do saber psicopedagógico. historicamente. ainda segundo a professora Neves. o campo da psicopedagogia passa por uma reformulação. Para Maria M. para isso. Neves (1992. necessariamente. principalmente pertencentes ao campo pedagógico. psicanálise. sociologia. a psicopedagogia inicialmente foi utilizada como adjetivo. p. epistemologia. p. no final da década de 1970 e início da década de 1980 no Brasil. A afirmação de que a psicopedagogia. Segundo essa autora. Por isso. p. Posteriormente. falar sobre a articulação entre educação e psicologia. lingüística. 10): falar sobre psicopedagogia é. recorre à psicologia. começando por tentar definir a psicopedagogia. Kiguel aventa outra possibilidade quanto ao surgimento da psicopedagogia ao mencionar as tentativas de explicação para o fracasso escolar por outras vias que não a pedagógica e a psicológica. o que. a psicopedagogia assumiu uma conotação substantiva. correspondeu a uma aplicação conceitual e. chamaram de atitude psicopedagógica o que em verdade era um psicologismo radical. consideradas inaptas dentro do sistema educacional convencional (. delimitar o seu campo de atuação. inclusive no nosso meio. articulação essa que desafia estudiosos e práticos dessas duas áreas. Concordo com Neves quando se refere à questão conceitual mencionando a confusão que se apresenta e creio que essa ambigüidade ou dubiedade se estende também à pratica.. 22). fonoaudiologia. indicando uma forma de atuação que apontava a inevitável interseção dos campos do conhecimento da psicologia e da pedagogia. Afirma que “os fatores etiológicos utilizados para explicar índices alarmantes . Diz Neves (1992. antropologia. historicamente a psicopedagogia surgiu na fronteira entre a pedagogia e a psicologia. surgiu na fronteira entre a psicologia e a pedagogia merece maior atenção. o termo psicopedagogia não consegue adquirir clareza na sua dimensão conceitual. tratavam de denunciar a formação dos professores por eles cognominada de psicopedagógica. Bossa nir o seu objeto de estudo.

De acordo com Neves (1991. Dorneles. As explicações para o fracasso escolar fundamentavam-se em discursos que superam o psicológico e negam o pedagógico. escola. muito aceita no Brasil (e em outros países). problemas neurológicos. sobre as teorias que. 1986). 2. 24): o objeto central de estudo da psicopedagogia está se estruturando em torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e patológicos – bem como a influência do meio (família. 12): a psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar. p. ser preocupação da psicologia e da pedagogia. mais. na interdisciplinaridade. sociedade) no seu desenvolvimento. conforme vimos. portanto. 22). como sintoma proeminente. Passemos a pensar. 1987). Para Kiguel (1991. Cypel. procurando colocar em pé de igualdade os aspectos cognitivos. pois. indica o peso da concepção organicista no entendimento de uma problemática que. convém percorrer um caminho em que é preciso pensar sobre o seu objeto de estudo. vejamos qual é a definição do objeto de estudo da psicopedagogia segundo alguns psicopedagogos brasileiros. de que o problema de aprendizagem estivesse relacionado com fatores neurológicos (cf.. distúrbios na escolaridade” (Kiguel. sobre o objeto de estudo da psicopedagogia. tomadas em conjunto. 1991. ao mesmo tempo. Essa segunda consideração nos permite a seguinte correlação: quanto maior a preocupação com o orgânico. se a psicopedagogia não é uma aplicação da psicologia (experimental) à pedagogia. embasam essa prática e sobre o seu campo de atuação.A psicopedagogia no Brasil 21 do fracasso escolar envolviam quase que exclusivamente fatores individuais como desnutrição. p. pois falam de desnutrição. problemas neurológicos e problemas psicológicos (cf. p. se afirma. Considerando as suas implicações na prática. menor o espaço para o psicológico. particularmente durante a década de 1970. levando sempre em conta as realidades interna e externa da aprendizagem. mas. . Tais afirmações de Kiguel remetem-nos a duas considerações: 1. E. procurando estudar a construção do conhecimento em toda a sua complexidade. etc.”. psicológicos. A idéia. acrescentando que “no Brasil. foi amplamente difundido o rótulo de Disfunção Cerebral Mínima para as crianças que apresentavam. a psicopedagogia não pode ser pensada simplesmente como uma aplicação da psicologia à pedagogia. em Scoz et al. O OBJETO DE ESTUDO DA PSICOPEDAGOGIA Se a (in)definição do termo psicopedagogia produz um estado de confusão conforme afirma Neves. afetivos e sociais que lhe estão implícitos. o que é então? Para responder esta pergunta.

Focaliza as possibilidades do aprender.22 Nadia A. O enfoque terapêutico considera o objeto de estudo da psicopedagogia a identificação. a professores. 2): a psicopedagogia estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades? e em uma ação profissional deve englobar vários campos do conhecimento. elaboração de uma metodologia de diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem. a partir do momento em que o foco de atenção passa a ser a compreensão do processo de aprendizagem e a relação que o aprendiz estabelece com a mesma. assim como a melhor qualidade na construção da própria aprendizagem de alunos e educadores. O enfoque preventivo considera o objeto de estudo da psicopedagogia o ser humano em desenvolvimento. o objeto da psicopedagogia passa a ser mais abrangente: a metodologia é apenas um aspecto no processo terapêutico. p. bem como a compreensão do processamento da aprendizagem considerando todas as variáveis que intervêm neste processo. p. enquanto educável. sobre as condições determinantes de dificuldades de aprendizagem. porém é uma ilusão pensar que tal consenso nos conduza. Do ponto de vista de Weiss (1991. Para Golbert (1995. análise. a um único caminho. ressaltar que a concepção de aprendizagem resulta de uma visão de homem. Não deve se restringir a uma só agência como a escola. Bossa Segundo Scoz (1992. a todos. mas ir também à família e à comunidade. e o principal objetivo é a investigação de etiologia da dificuldade de aprendizagem. de forma mais ou menos sistemática. . 13): [o] objeto de estudo da psicopedagogia deve ser entendido a partir de dois enfoques: preventivo e terapêutico. É importante. num sentido amplo. no entanto. e é em razão desta que acontece a práxis psicopedagógica. seus processos de desenvolvimento e as alterações de tais processos. p. integrando-os e sintetizando-os. O tema da aprendizagem apresenta tamanha complexidade que tem a dimensão da própria natureza humana e caberia um outro ensaio para tratá-lo. sobre o progresso nos processos de aprendizagem. Poderá esclarecer. p. Essas considerações em relação ao objeto de estudo da psicopedagogia sugerem que há um certo consenso quanto ao fato de que ela deve ocupar-se em estudar a aprendizagem humana. tendo como objetivo fazer a reeducação ou a remediação e desta forma promover o desaparecimento do sintoma. 6): a psicopedagogia busca a melhoria das relações com a aprendizagem. 103): em um primeiro momento a psicopedagogia esteve voltada para a busca e o desenvolvimento de metodologias que melhor atendessem aos portadores de dificuldades. sobre as condições psicodinâmicas da aprendizagem. pais e administradores sobre as características das diferentes etapas do desenvolvimento. Ainda. Para Kubinstein (1992. Seu objeto de estudo é a pessoa a ser educada.

mas não uma teoria sobre as fraturas no aprender. a psicopedagogia. Recorremos à teoria da inteligência de Piaget. dando conta dos fenômenos inconscientes. os rasgos diferenciadores de nossa técnica e nosso lugar como especialistas em problemas de aprendizagem. pudemos verificar que o tema da aprendizagem ocupa-os e preocupa-os. Mas carecemos de uma psicopatologia acerca da aprendizagem. perfilou-se como um conhecimento independente e complementar. sendo os problemas desse processo (de aprendizagem) a causa e a razão da psicopedagogia. p. como incidem subjetivamente os sistemas e métodos educativos. acerca do sujeito que não aprende. ao citar Sara Paín. É função da pedagogia pensar: O que é educar. deve-se tomar em conta o lugar em que se situa este campo de atividade. o que é ensinar e aprender. possuidora de um objeto de estudo – o processo de aprendizagem – e de recursos diagnósticos. ao refletir-se sobre o objeto de estudo específico da psicopedagogia. ou entram em contradição e são substituídos. 7 e 8) diz que é função da psicologia pensar como se incrementam os conhecimentos. Podemos observar esse pensamento traduzido nas palavras de profissionais argentinos que atuam na área e que estão envolvidos no trabalho teórico. “O sujeito que aprende” – diz Marina Müller – “é motivo de perguntas para os psicopedagogos. p. 11). Segundo Jorge Visca (1987). Fernández (1984a. Estamos tentando construir nossa própria teoria. . quais as problemáticas estruturais que intervêm no surgimento de transtornos da aprendizagem e no fracasso escolar. Este é também o pensamento dos argentinos (os quais. realizar uma leitura do inconsciente e nos possibilita um marco psicopatológico a que remetemos para compreender a estrutura de personalidade de nossos pacientes. coloca: ela considera o sintoma histérico a plataforma de lançamento para que Freud pudesse formular a teoria e a técnica da psicanálise. corretores e preventivos próprios. na patologia da aprendizagem. nosso específico enquadramento. que nos permite. e destinatário de sua atividade profissional”. nos inspiraram). como se desenvolvem estas atividades. que inicialmente foi uma ação subsidiária da medicina e da psicologia. 102) sublinha: Mas ainda não podemos construir uma teoria acerca de nossa prática específica. entre tantas outras coisas. que leis regem estes processos. que propostas de mudança surgem. Alicia Fernández (1990a. Para eles. conforme veremos no Capítulo 2. Para Marina Müller. que nos aporta um modelo da inteligência. “a aprendizagem com seus problemas” constitui-se no pilar-base da psicopedagogia. Müller (1984.A psicopedagogia no Brasil 23 Dos profissionais brasileiros supracitados. que influências afetivas e representações inconscientes os acompanham. de que maneira é possível favorecer as aprendizagens ou tratar suas alterações. p. Ao se referir à psicopedagogia. que dificuldades interferem ou impedem. o problema da aprendizagem é nossa plataforma de lançamento para construir uma teoria psicopedagógica . Vejamos. Recorremos também à psicanálise.

onde investigador e objeto-sujeito de estudo interagem constantemente. esse objeto foi entendido de várias formas. é objeto de estudo da psicopedagogia.2 Esse objeto de estudo. O processo evolutivo pelo qual essa nova área de estudo procurou estruturar- . que adveio de uma demanda – o problema de aprendizagem. como aprende e por que. a psicopedagogia adotou a noção de “não-aprendizagem” de outra maneira: o não-aprender é tido como carregado de significados. Isso significa que. Portanto. Posteriormente. assim. concebendo-se a “não-aprendizagem” pelo enfoque que salientava a falta. visando reduzir as diferenças e acentuar a uniformidade. Bossa A psicopedagogia se ocupa da aprendizagem humana. que repercutem nas produções científicas. o esperado para determinada idade. e não se opõe ao aprender. situado além dos limites da psicologia e da própria pedagogia – e evoluiu devido a existência de recursos.3 a instituição. além de perceber a dimensão da relação entre psicopedagogo e sujeito de forma a favorecer a aprendizagem. assim como os demais aspectos dessa área de estudo. a própria alteração torna-se alvo de estudo da psicopedagogia. Essa nova concepção leva em conta a singularidade do indivíduo ou grupo. tratá-las e preveni-las.24 Nadia A. constituindo-se. uma vez que são avaliados os processos didático-metodológicos e a dinâmica institucional que interferem no processo de aprendizagem. deve ocupar-se inicialmente do processo de aprendizagem. buscando o sentido particular de suas características e suas alterações. A definição do objeto de estudo da psicopedagogia passou por fases distintas. implícita no não-aprender. enquanto espaço físico e psíquico da aprendizagem. na psicanálise e na psicologia genética. deve o profissional comprender o que o sujeito aprende. Esse enfoque buscava estabelecer as semelhanças entre grandes grupos de sujeitos. vemos que a psicopedagogia estuda as características da aprendizagem humana: como se aprende. e o trabalho procurava vencer tais defasagens. Como se preocupa com o problema de aprendizagem. Em diferentes momentos históricos. como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores. Essa fase da psicopedagogia é fundamentada. Houve tempo em que o trabalho psicopedagógico priorizava a reeducação. adquire características específicas a depender do trabalho clínico ou preventivo: w O trabalho clínico se dá na relação entre um sujeito com sua história pessoal e sua modalidade de aprendizagem. as regularidades. em uma prática. que é um sujeito a ser estudado por outro sujeito. em especial. w No trabalho preventivo. Nesse processo. buscando compreender a mensagem de outro sujeito. como se produzem as alterações na aprendizagem. ainda que embrionários. segundo as circunstâncias da sua própria história e do seu mundo sociocultural. colocado em um território pouco explorado. nesta modalidade de trabalho. como reconhecê-las. o processo de aprendizagem era avaliado em função de seus déficits. O objeto de estudo era o sujeito que não podia aprender. para atender a essa demanda.

Essa concepção de sujeito variou. antes de abordar o teórico. e elaboram-se planos de intervenção baseados nesse diagnóstico. Nesse momento. Atualmente.A psicopedagogia no Brasil 25 se entende que o objeto de estudo é sempre o sujeito “aprendendo”. podemos nos valer de uma situação específica: a alfabetização. ele é também teórico na medida da necessidade de se refletir sobre a práxis. No trabalho preventivo. estamos prevenindo o aparecimento de outros. ele trabalha com os professores. no segundo nível preventivo. Ao se deparar com novas teorias acerca da alfabetização. O caráter preventivo permanece aí. para que não se repitam tais transtornos. Esse profissional tem. juntamente com outros profissionais da escola. o psicopedagogo atua nos processos educativos com o objetivo de diminuir a “freqüência dos problemas de aprendizagem”. classe ou instituição. trata de elaborar métodos de ensino compatíveis com as novas concepções acerca desse processo. Como exemplo dos níveis de trabalho preventivo. uma vez que. o trabalho psicopedagógico pode ser preventivo e clínico. sendo que essas disposições influenciam e são influenciadas pelas condições socioculturais do sujeito e do seu meio. No primeiro nível. em função da visão de homem adotada em cada momento histórico e da sua correspondente concepção de aprendizagem. Assim sendo. o psicopedagogo. cria-se um plano diagnóstico da realidade institucional. Deve o psicopedagogo. No terceiro nível. ao eliminarmos um transtorno. o psicopedagogo deve reconhecer a sua própria subjetividade na relação. conforme dissemos anteriormente. em um determinado grupo. além de fazer aconselhamento aos pais. realizar um diagnóstico do grupo e intervir nos procedimentos didático-metodológicos em vigor. agora. Cabe então ao psicopedagogo. vale repensar um pouco a prática. Entretanto. auxiliando-os a incorporar os novos conhecimentos e os procedimentos metodológicos deles decorrentes. o objetivo é eliminar os transtornos já instalados. digamos que. neste caso. a partir do qual se procura avaliar os currículos com os professores. No exercício clínico. atuar diretamente junto a estes. No segundo nível. não só o objetivo de detectar as causas dos transtornos. Já o terceiro nível se dá no momento em que problemas específicos de leitura e escrita já estejam instalados em um aluno ou grupo de alunos. bem como na formação e orientação de professores. Conforme vimos. podemos falar em diferentes níveis de prevenção. a psicopedagogia trabalha com uma concepção de aprendizagem segundo a qual participa desse processo um equipamento biológico com disposições afetivas e intelectuais que interferem na forma de relação do sujeito com o meio. como se refere Alicia Fernández (1991). pois trata-se de um sujeito que estuda outros sujeitos. Utilizando ainda a alfabetização. apareçam transtornos na aprendizagem do processo de leitura e escrita. como também de encontrar os meios para que os mesmos sejam eliminados. em um procedimento clínico com todas as suas implicações. Essa inter- . Para tanto. que corresponderia ao primeiro nível preventivo. a fim de tratar esses transtornos e evitar outros. o objetivo é diminuir e tratar dos problemas de aprendizagem já instalados. porém. Seu trabalho incide nas questões didático-metodológicas.

é como uma matriz. na qual um procura conhecer no outro aquilo que o impede de aprender. ou seja. a teoria psicopedagógica possa ser tecida. organizam-se as operações lógicas de classificação e de relação que de um nível de elaboração simples passam a outro cada vez mais complexo. Ao psicopedagogo cabe saber como se constitui o sujeito. b) construção teórica: é permeada pela prática de forma que. a partir desta. todo sujeito tem a sua modalidade de aprendizagem. enquanto psicopedagogos. que o psicopedagogo saiba o que é ensinar e o que é aprender. p. c) tratamento psicopedagógico-didático: segundo essa autora argentina. bem como às leis que regem esse processo: as influências afetivas e as representações inconscientes que o acompanham. também. É preciso. espaço-temporal. Assim. condições e limites para conhecer. pois se constitui em um espaço para a construção do olhar e da escuta clínica4 – a partir da análise do seu próprio aprender –. desta maneira. o que pode comprometê-lo e o que pode favorecê-lo. um molde. . à busca de sua própria verdade (conhecer quem é. Faz-se. no desejo de conhecer. Ainda de acordo com Alicia Fernández (1991).5 conforme observa outro autor: “Este desejo de conhecer (epistemofilia) está ligado. Tal modalidade constrói-se desde o nascimento. compartilhado socialmente” (Müller. implica uma temática muito complexa. 1984. imperioso que. os problemas estruturais que intervêm no surgimento dos transtornos de aprendizagem e no processo escolar. como este se transforma em suas diversas etapas de vida. 8). Bossa relação de sujeitos. Para Alicia Fernández (1991). meios. como interferem os sistemas e métodos educativos. um esquema de operar que utilizamos nas situações de aprendizagem. o sujeito epistêmico e o sujeito do desejo. o tratamento psicopedagógico-didático é fundamental na formação do psicopedagogo. em instituições educativas e sanitárias. em movimento dialético.26 Nadia A. em um único personagem. esse saber só é possível com uma formação que se oriente sobre três pilares: a) prática clínica: ocorre em consultório individual-grupal-familiar. quais os recursos de conhecimento de que ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento e aprende. Isso significa que a possibilidade de aprender está situada no nível inconsciente. Esse saber exige do psicopedagogo que recorra a teorias que lhe permitam reconhecer de que modo se dá a aprendizagem. Essa modalidade é fruto do seu inconsciente simbólico constituído na sua inter-relação com o outro e de sua atividade estruturante de um universo estável: relação causaefeito. e quem é para os outros). aprendamos sobre como os outros sujeitos aprendem e também sobre como nós aprendemos. objetividade. Esse sujeito envolve. Modalidade de aprendizagem significa uma maneira pessoal para aproximar-se do conhecimento e constituir o saber. que configuram a atitude psicopedagógica. e à busca do mundo cognitivo cultural.

um organismo. 205). a inteligência e o desejo. a neurologia. referimonos principalmente ao materialismo histórico. a meu juízo. o corpo. Dessa forma. pois. por meio da escuta psicopedagógica. . primeiramente existe uma mensagem que deve ser ouvida” (Mannoni. em separado. embasem essa prática. enquanto instauram a ideologia. assumir essa atitude6 clínica requer um conjunto de conhecimentos estruturados de forma a se constituir uma matriz teórica interpretativa. não conseguem resolvê-lo. Essas duas áreas não são suficientes para apreender o objeto de estudo da psicopedagogia – o processo de aprendizagem e suas variáveis – e nortear a sua prática. um dualismo que ora privilegia o físico (observável). no sentido de alcançar compreensão desse processo. estando estes quatro níveis basicamente implicados no aprender. as teorias que se ocupam da inteligência. ora o psíquico (a consciência). à teoria piagetiana da inteligência e à teoria psicanalítica de Freud. do inconsciente. se possa decifrar os processos que dão sentido ao observado e norteiam a intervenção: “Além do sintoma que deve ser reeducado. conceber o sujeito que aprende como um sujeito epistêmicoepistemofílico implica procedimentos diagnósticos e terapêuticos que considerem tal concepção. Por exemplo. p. Vejamos quais são essas teorias. e perceber o interjogo entre o desejo de conhecer e o de ignorar. Considerando-se o problema de aprendizagem na interseção desses níveis. ouvir essa mensagem. uma etapa genética da inteligência e um sujeito associado a tantas outras estruturas teóricas. recorre-se a outras áreas. a lingüística e a psicanálise. uma teoria psicopedagógica fundamentada em conhecimentos de outros corpos teóricos. do organismo e do corpo. Faz-se necessário construir. revisar velhos impasses conceituais subjazentes à ação e à atuação da pedagogia e da psicologia no apreender do fenômeno educativo. a psicopedagogia herda o velho problema do paralelismo psicofísico. p. ressignificados. 1976. ou seja. a psicopedegogia traz as indefinições e contradições de uma ciência cujos limites são os da própria vida humana. Para Sara Paín (1987. a operatividade e o inconsciente. Perceber esse interjogo. enfim.A psicopedagogia no Brasil 27 No trabalho clínico. a sociologia. De acordo com Alicia Fernández (1991). Do seu parentesco com a pedagogia. como a filosofia. o social e o individual em processos tanto transformadores quanto reprodutores. Envolve simultaneamente. necessitamos incorporar conhecimentos sobre o organismo. de cuja engrenagem se ocupa e preocupa a epistemologia. 15): nesse lugar do processo de aprendizagem coincidem um momento histórico. Para isso. AS TEORIAS QUE EMBASAM O TRABALHO PSICOPEDAGÓGICO Conhecer os fundamentos da psicopedagogia implica refletir sobre as suas origens teóricas. que. Da psicologia. é necessária uma leitura clínica na qual. no processo diagnóstico interessa-nos saber como e o que o sujeito pode aprender.

Barone e outros. Vimos que. p. fonoaudióloga e psicopedagoga. Visca. . Paín. 12): “A epistemologia genética e a psicanálise são necessárias para a teoria psicopedagógica. Diz Fernández (1985. cognoscitivos e do meio que confluem no aprender do ser humano. p. devido à complexidade do seu objeto de estudo. Para Sara Paín (1986. visando a integração das ciências pedagógica. 1990. vale relembrar. conforme veremos a seguir. Bossa Os autores brasileiros Neves. por exemplo: w a psicanálise encarrega-se do mundo inconsciente. ao fazer considerações sobre a abordagem psicopedagógica. operantes por meio da dinâmica psíquica que se expressa por sintomas e símbolos. são unânimes quanto à necessidade de conhecimentos de diversas áreas que. p. psicológica. fonoaudiológica. entende esse autor ser possível compreender a participação dos aspectos afetivos. Desta forma. 7) considera que a psicopedagogia foi se perfilando como um conhecimento independente e complementar. devem fundamentar a constituição de uma teoria psicopedagógica. de manejo difícil e geradoras de conflito. quase sempre. mas não se confundem com ela.28 Nadia A. permitindo-nos levar em conta a face desejante do homem. Golbert. Os profissionais brasileiros também crêem nessa articulação como fundamento para a teoria e a prática psicopedagógicas. Kiguel. Weiss. 113) um pensamento convergente para esse sentido: A prática psicopedagógica vem colocando questões ainda pouco discutidas. os que se defrontam com os problemas de aprendizagem devem fundamentar a sua prática na articulação da Psicanálise. envolvendo dificuldades cognitivas. neuropsicológica e psicolinguística. piagetiana e da psicologia social de Enrique Pichon-Rivière. Scoz. as quais incidem sobre os seus objetos de estudos. Müller. são importantes à psicopedagogia conhecimentos específicos de diversas outras teorias. p. Sonia Moojen Kiguel (em Scoz et al. 25). Encontra-se ainda em fase de organização de um corpo teórico específico. da teoria piagetiana e do materialismo histórico. p. bem como a psicologia social e a linguística. Jorge Visca (1987. para uma compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem humana. 5). assim como os argentinos Fernández. Marina Müller (1986) aponta como suportes teóricos na psicopedagogia clínica – campo do qual essa argentina se ocupa – a psicanálise e a psicologia genética.. cujo fim é dar conta da articulação inteligênciadesejo”. articulados. instrumentais e afetivas. afirma: A psicopedagogia terapêutica é um campo de conhecimento relativamente novo que surgiu na fronteira entre a pedagogia e a psicologia. Por sua vez. das representações pro- fundas. por assimilação recíproca das contribuições das escolas psicanalítica. um quadro de comprometimentos que extrapola o campo de ação específico de diferentes profissionais. apresenta. Rubinstein. o sujeito com dificuldade de aprendizagem. Vemos nas palavras de Barone (1991. Isto porque seu “paciente”.

seja no caso uma cultura psicanalítica que permita identificar mecanismos psíquicos. Ora. a epistemologia e a psicologia genética encarregam-se de analisar e descrever o processo construtivo do conhecimento pelo sujeito em interação com os outros e com os objetos. então. Podemos. Ou será que o processo se acha inviabilizado na relação professor-aluno? Estaria o aluno estabelecendo uma relação transferencial com o professor. Elas. ainda. Além disso. conforme vimos sublinhando. analisando-o do ponto de vista de quem ensina. a pedagogia contribui com as diversas abordagens do processo ensino-aprendizagem. ou vice-versa? Ou. envolve o respaldo de outras disciplinas. em condições socioculturais e econômicas específicas e que contextuam toda aprendizagem. bastante comum no dia-a-dia. enfim. por outro lado. a lingüística traz a compreensão da linguagem como um dos meios que caracterizam o tipicamente humano e cultural: a língua enquanto código disponível a todos os membros de uma sociedade. dão um direcionamento muito diferenciado das situações anterio- . Começamos por analisar algumas questões que surgem no nosso trabalho de auxiliar esse sujeito a restabelecer o seu processo de aprendizagem ou. Vejamos um exemplo: uma criança nos é encaminhada por não aprender a ler e a escrever – situação. nos fornecem meios para refletir cientificamente e operar no campo psicopedagógico. por sinal. todas as evoluções ocorridas no plano psíquico. o nosso campo. o acesso à leitura-escrita poderia se tornar algo persecutório por estar relacionado com o crescimento? Essa análise. a construção desse novo objeto de conhecimento – o processo de leitura-escrita – implica processos cognitivos que podem ser compreendidos por meio da psicologia genética. e a fala como fenômeno subjetivo. Recorremos. uma vez confirmadas. a entrar no curso da aprendizagem. os fundamentos na neuropsicologia possibilitam a compreensão dos mecanismos cerebrais que subjazem ao aprimoramento das atividades mentais. seja no consultório. grupais e institucionais. nenhuma dessas áreas surgiu especificamente para responder à problemática da aprendizagem humana. que responde w w w w às relações familiares. de representação. por outra. seja na instituição escolar. a um corpo teórico para que alguns elementos nos ajudem a iluminar o epicentro do problema. estar diante de um caso em que o sujeito tenha sofrido uma anóxia de parto que lhe ocasionou uma lesão cerebral. que atuam no sentido da não-aprendizagem para esse sujeito. Como nos assegurarmos dessas informações. Pois bem. que. por exemplo. no entanto. a qual não lhe permite o aprender. será que a metodologia utilizada no processo de alfabetização é adequada? Essa questão envolve aspectos do processo ensino-aprendizagem que devem ser vistos à luz de teorias pedagógicas. evolutivo e historiado de acesso à estrutura simbólica. indicando-nos a que correspondem. do ponto de vista orgânico. atingindo a área cortical da linguagem.A psicopedagogia no Brasil 29 w a psicologia social encarrega-se da constituição dos sujeitos.

pode oferecer um aparato conceitual que venha a operar no sentido de explicitar ao psicopedagogo a causa da problemática e. nesta situação exemplar. Freud chega à noção de inconsciente e entende que o que ocorria era uma conversão simbólica do inconsciente para o corpo. que alguns princípios da neurologia são de fundamental importância ao profissional da psicopedagogia. como quaisquer outros profissionais. o ato falho. Isso implica diversificados enquadres. na sua dinâmica. dentro das teorias da personalidade. comprometendo deste modo a leitura e a escrita. gera problemas na própria comunicação. quem sabe. esse operar com outros sobre um problema. “O futuro provavelmente atribuirá muito maior impor- . conforme já referido antes. Os profissionais da psicopedagogia. no qual o trabalho psicopedagógico consistiria em propor à criança a realização de determinadas tarefas e acompanhá-la na sua execução. o psicopedagogo faz as intervenções. repetições. é a reação da criança diante da tarefa. o inconsciente não se manifesta de forma direta. a qual é oriunda da sua experiência de análise e das condições da sua formação. Segundo o criador da psicanálise. Além de outros procedimentos. Podemos ainda nos deparar com uma ocorrência em que a dificuldade advenha de diferenças culturais e de linguagem. com o sintoma conversivo. A estranheza dos significantes do professor para o aluno. por exemplo. considerando resistências. permitir-lhe uma eficiente intervenção. Menos como uma digressão do que como um breve lembrete. exemplos em que se registra essa cooperação. hesitações. bloqueios. o lapso. que visam permitir à criança entrar em contato com o sentido inconsciente das suas dificuldades. mas aparece através das fraturas: o chiste. Frente a enfermidades que apareciam no corpo e que não podiam ser explicadas pela medicina. sentimentos e angústias frente a certas situações. conseqüências da identificação do profissional com determinada corrente teórica. o sonho e o sintoma. requerendo elementos conceituais de outros corpos teóricos. A partir daí começa a pensar nas formações do inconsciente. sustentam a sua prática em pressupostos teóricos muitas vezes distintos. Essa opção implica determinado procedimento prático. Bossa res? Evidencia-se.30 Nadia A. O problema de aprendizagem enquanto sintoma pode ser comparado. De sua parte. a psicopedagogia pensa o seu objeto de estudo. O foco de atenção do psicopedagogo. poderíamos sublinhar que Freud já previu a possibilidade de se recorrer à psicanálise na compreensão dos diversos sintomas (remetamo-nos ao uso psicanalítico do termo sintoma). Enfim. e vice-versa. O psicopedagogo pode. Tal escolha estaria alicerçada na condição pessoal de psicopedagogo. escolher a psicanálise com o objetivo de comprender o sentido inconsciente das dificuldades de aprendizagem. nem se pode circunscrevê-lo ou delimitá-lo. porém. a psicologia social ilumina a natureza do grupo a que pertence o sujeito da aprendizagem e as interferências socioculturais desse grupo nesse sujeito. A lingüística. entre elas o sintoma. já que essas se configuram em um ato de comunicação. neste caso. desde o encaminhamento a outros profissionais até a definição da forma de tratamento. uma anomalia. esse e os demais exemplos aqui apresentados atestam situações em que. lapsos.

Podemos caracterizar a psicopedagogia como uma área de confluência do psicológico (a subjetividade do ser humano enquanto tal) e do educacional (atividade especificamente humana. portanto. as quais se transformaram e. construindo em sua interioridade um universo de representações simbólicas. aprender é um processo que implica pôr em ação diferentes sistemas que intervêm em todo sujeito: a rede de relações e códigos culturais e de linguagem que. Durante esse processo . 1990. Mediante a aprendizagem. da psicologia e da pedagogia.A psicopedagogia no Brasil 31 tância à psicanálise como a ciência do inconsciente do que como um procedimento terapêutico” (Freud. o psicopedagogo ensina como aprender e. afinal. e seu corpo teórico achase em construção. Como ciência do inconsciente. Tratando do mundo psíquico individual e grupal em relação à aprendizagem e aos sistemas e processos educativos. ele busca conhecimentos também na psicologia genética. a partir de pressupostos teóricos iniciais da medicina. É clínico porque envolve sempre um processo diagnóstico ou de investigação que precede o plano de trabalho. entretanto. Pois bem. não só à psicanálise recorre o psicopedagogo. a psicanálise permite a compreensão do sintoma enquanto problema de aprendizagem. Esse diagnóstico consiste na busca de um saber para saber-fazer. conseqüentemente. até esta chegar à configuração atual. necessita apreender o aprender e a aprendizagem. Como vimos. para isso. por seu turno. nesse trabalho de ensinar a aprender. Por meio das informações obtidas nesse processo de investigação. ocorrendo também no trabalho institucional. com uma participação ativa. A cada dia surgem novas idéias. têm lugar em cada ser humano à medida que ele se incorpora à sociedade. ao se apropriar de conhecimentos e técnicas. Sabemos igualmente que nenhuma dessas áreas surge para responder aos problemas de aprendizagem: as diversas combinações entre elas resultam. percebendo-o como uma manifestação humana carregada de significado. na psicologia social. e. transformaram a prática psicopedagógica. se inicia um processo de intervenção. foram-se constituindo concepções acerca dos problemas de aprendizagem. social e cultural). p. 303). novas situações e mais transformação: o psicopedagogo então transforma a teoria. De qualquer modo. etc. o psicopedagogo recorre a critérios diagnósticos no sentido de compreender a falha na aprendizagem – daí o caráter clínico da psicopedagogia. em posturas teórico-práticas diversificadas. Entretanto. desde antes do nascimento. p. o indivíduo se incorpora ao mundo cultural. a psicopedagogia se encontra em fase embrionária. a teoria o transforma. no qual. Para o psicopedagogo. XX. Assim. na psicolingüística. A aprendizagem. “O diagnóstico não completa o olhar interpretativo nem diagnóstico: todo o processo terapêutico é também diagnóstico” (Fernández. ainda que o seu objetivo seja a prevenção dos problemas de aprendizagem. é responsável pela inserção da pessoa no mundo da cultura. 1976. 44). porém com diversos pontos de convergência. após o momento inicial de investigação. com a implantação de recursos capazes de solucionar o problema tão logo este se anuncie. o psicopedagogo inicia a construção do seu plano de trabalho. v. amalgamando-se ou estruturando o seu arcabouço lógico-principal ou ideal.

ao diagnóstico. o sociocultural. reconhecendo que o saber é próprio do sujeito. Interjogam aí o pessoal. O trabalho clínico não deixa de ser preventivo. p. Tanto na prática preventiva quanto na clínica. O decifrar do sentido da dificuldade de aprendizagem repercute sobre o problema que interpretamos: a nossa linguagem sobre a linguagem da enfermidade nos leva a um compromisso. pode evitar o aparecimento de outros. Essas duas formas de atuação. nem nos déficits e alterações subjetivas do aprender. atrasos e desvios do sujeito ou grupo a ser diagnosticado. Sujeito em evolução. mas também e em especial ao espaço epistemológico que lhe cabe. a criança é móvel em suas estruturas e maleável em suas manifestações. não deixam de resultar em um trabalho teórico. .32 Nadia A. O CAMPO DE ATUAÇAO DA PSICOPEDAGOGIA O campo de atuação do psicopedagogo refere-se não só ao espaço físico onde se dá esse trabalho. promotor de decisões acerca do tratamento. ao tratar alguns transtornos de aprendizagem. o profissional não abandona o olhar interpretativo que caracteriza a prática psicopedagógica. em função da sua formação. às condições subjetivas e relacionais – em especial familiares e escolares –. ou seja. ou seja. levando em conta a singularidade de cada processo. As observações de Ajuriaguerra (1970. uma vez que. O conhecimento psicopedagógico não se cristaliza em uma delimitação fixa. a inibições. como já vimos anteriormente. a disponibilidade afetiva de saber e de fazer. A forma de abordar o objeto de estudo pode assumir características específicas. devido às suas condições de formação. 1) nos falam das dificuldades inerentes ao processo diagnóstico no trabalho psicopedagógico com a criança e com o adolescente. o educacional. por sua vez. a depender da modalidade: clínica. no qual todas as ambigüidades de atribuição de sentido a uma série de manifestações conscientes e inconscientes se fazem presentes. é com a criança que encontramos dúvidas nosográficas. dos marcos referenciais que sustentam a sua prática e a abordagem teórica com a qual ele se identifica. o profissional. O trabalho preventivo. o familiar atual e passado. ainda mais do que com o adulto. Essa questão é ainda mais controvertida quando se fala na atuação psicopedagógica no Brasil. Bossa de intervenção. preventiva e teórica. numa abordagem psicopedagógica. A investigação diagnóstica envolve a leitura de um processo complexo. A leitura do diagnóstico pode variar segundo cada profissional. a aprendizagem sistemática. umas articulando-se às outras. ao lugar deste campo de atividade e ao modo de abordar o seu objeto de estudo. a psicopedagogia refere-se a um saber e a um saber-fazer. o mesmo acontece em patologia. é sempre clínico. procede sempre embasado no referencial teórico adotado. Atualmente. mas avalia a possibilidade do sujeito.

Esse trabalho pode se dar na forma individual ou na grupal. mas ela se tem voltado cada vez mais para uma ação preventiva. diferenciar essas modalidades de atuação. com processos de investigação e diagnóstico que lhe sejam específicos. w promover orientações metodológicas de acordo com as características dos indivíduos e grupos. A proposta da psicopedagogia. O trabalho psicopedagógico pode. A elaboração teórica visa criar um corpo teórico da psicopedagogia. no entanto. Isso acontece quando. w realizar processos de orientação educacional. o trabalho psicopedagógico na área preventiva é de orientação no processo ensino-aprendizagem. o trabalho é feito em consultórios privados e/ou em instituições de saúde (como hospitais). proporcionando práticas mais consistentes. cabe ao psicopedagogo: w detectar possíveis perturbações no processo de aprendizagem. ter um caráter assistencial. de natureza patológica. Implica. certamente. visando favorecer a apropriação do conhecimento pelo ser humano. seja na área clínica.A psicopedagogia no Brasil 33 Ao delimitar o campo de atuação do trabalho psicopedagógico. a psicopedagogia nasceu para atender a patologia da aprendizagem. onde o objetivo seria favorecer a aprendizagem do sujeito para uma nova função. assim. envolvendo elaboração teórica no sentido de relacionar os fatores envolvidos nesse ponto de convergência em que opera. na área da saúde mental e da educação. por exemplo. deve-se. resultando em novos contornos e significados. Esse trabalho consiste em uma leitura e releitura do processo de aprendizagem e do processo da não-aprendizagem. vocacional e ocupacional. especificando as suas tarefas. assistencial. integrando diferentes campos de conhecimento. a fim de favorecer processos de integração e troca. em uma ação preventi- . no sentido de reconhecer e atender às alterações da aprendizagem sistemática e/ou assistemática. direção e evolução de planos. Já na área da saúde. Dessa forma. por meio de estudos das questões educacionais e da saúde no que concerne ao processo de aprendizagem. acreditando que muitas dificuldades de aprendizagem se devem à inadequada pedagogia institucional e familiar. programas e projetos no setor de educação e saúde. Existe também uma proposta de atuação nas empresas. uma reflexão constante sobre a pertinência da aplicação das diversas teorias ao campo da psicopedagogia. o psicopedagogo participa de equipes responsáveis pela elaboração. tanto na forma individual quanto em grupo. w participar da dinâmica das relações da comunidade educativa. desta maneira. de todo o contexto da aprendizagem. preventiva. bem como da aplicabilidade e dos conceitos teóricos. Historicamente. A psicopedagogia ocupa-se. ao longo da sua evolução. auxiliando-o para um desenvolvimento mais efetivo de suas atividades. por meio de avaliação da prática resultante desses pressupostos. Na sua função preventiva.

Bossa va.). ele assumirá sempre a dupla polaridade do seu papel. visando propor novas alternativas de ação voltadas para a melhoria da prática pedagógica nas escolas. Orientação de estudos – Consiste em organizar a vida escolar da criança quando esta não sabe fazê-lo espontaneamente. no Brasil. artísticas. Atendimento de crianças – A psicopedagogia se presta a atender deficientes mentais. em determinados casos. a elaboração de uma agenda e tudo aquilo que é necessário ao “como estudar” (como ler um texto. ocupa-se das seguintes atividades: 1. . 3. Procura-se promover o melhor uso do tempo. O atendimento psicopedagógico poderá. professor). podendo até substituir o trabalho da escola. 4. o que determinará o modo de ser perante a criança e seus familiares. 2. bem como diante da equipe a que pertence. pedagogo. estas quatro atividades não são excludentes entre si nem em relação a outras. Os jogos são muito utilizados. pois o conteúdo escolar é usado apenas como uma estratégia para ajudar e fornecer ao aluno o domínio de si próprio e as condições necessárias ao desenvolvimento cognitivo. De qualquer forma. Qualquer que tenha sido a sua formação (psicólogo. está sempre relacionado com o trabalho escolar. Para Janine Mery (1985). Este procedimento pode promover um desenvolvimento cognitivo maior do que aquele que as escolas costumam alcançar. etc. Segundo Lino de Macedo (1990). como estudar para a prova. etc.34 Nadia A. pois são férteis no sentido de criarem um contexto de observação e diálogo sobre processos de pensar e de construir o conhecimento. autistas ou crianças com comprometimentos orgânicos mais graves. Apropriação dos conteúdos escolares – O psicopedagogo visa propiciar o domínio de disciplinas escolares em que a criança não vem tendo um bom aproveitamento. possui as seguintes especificidades: w o “transtorno de aprendizagem” é encarado como manifestação de uma perturbação que envolve a totalidade da personalidade. Para Lino de Macedo. em uma concepção mais totalizante. O trabalho do psicopedagogo. é adotar uma postura crítica frente ao fracasso escolar. como escrever. o psicopedagogo é um professor de tipo particular7 que realiza a sua tarefa de pedagogo sem perder de vista os propósitos terapêuticos da sua ação. recorrer a propostas corporais. de acordo com Mery. Ele se diferencia do professor particular. ainda que com ele não esteja diretamente comprometido. fonoaudiólogo. o psicopedagogo. Desenvolvimento do raciocínio – Trabalho feito com os processos de pensamento necessários ao ato de aprender.

favorecendo as suas iniciativas pessoais. A interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém. pode-se considerar que o psicopedagogo tem uma atitude clínica frente ao seu objeto de estudo. O psicopedagogo.A psicopedagogia no Brasil 35 w o desenvolvimento infantil é considerado a partir de uma perspectiva dinâ- mica. porque é através da escola que o aluno se situará em relação aos seus semelhantes. ainda segundo Janine Mery (1985). nenhuma consente em abandonar-se. se for oferecida uma forma de relação melhor e diferente à criança. Em seu trabalho. w objetivo do psicopedagogo é levar o sujeito a reintegrar-se à vida escolar normal. pois traduz perfeitamente o significado da psicopedagogia: O interdisciplinar. . se assim podemos dizer. ela deverá retomar a sua evolução normal. optará por uma profissão. apresenta uma definição que merece ser citada. de que tanto se fala. mas se refere às atitudes do profissional ao longo da sua atuação. não significaria impor à criança normas arbitrárias ou sufocar-lhe a individualidade. apesar de suas imperfeições. não basta tomar um “assunto” (um tema) e convocar em torno duas ou três ciências. 99). Isso não implica que o lugar de trabalho seja a clínica. Barthes (1988. e não a de amanhã. e é dentro dessa evolução dinâmica que o sintoma “transtorno de aprendizagem” é estudado. permitindo a opção. em O rumor da língua. Para se fazer interdisciplinaridade. não está em confrontar disciplinas já constituídas das quais. Assim. tanto no seu exercício na área educativa como na da saúde. suscitando os seus interesses. NOTAS 1. participará da construção coletiva da sociedade à qual pertence. no entanto. ele deverá fazer com que a criança enfrente a escola de hoje. respeita a escola tal como é. visto ser a psicopedagogia uma espécie de saber híbrido. na realidade. A seguir. Apesar dessa hibridez. e este conhece a importância da relação transferencial entre o profissional e o sujeito da aprendizagem. respeitando as suas possibilidades e interesses. p. notaremos que se trata de um saber já algo configurado em certa autonomia. w a neutralidade do papel de psicopedagogo é negada. procurando sugerir pelo menos duas vias para a escolha do rumo a ser tomado. procuramos mostrar como a prática e a teoria psicopedagógicas vêm ocorrendo – dentro desse território epistemologicamente problemático. respeitando os seus gostos. enquanto derivado de outras vertentes ou afluentes. certa autenticidade: faz-se sua identidade enquanto uma jovem episteme. Busca-se sempre desenvolver e expandir a personalidade do indivíduo. Assim. Esse enfrentamento. Isso não impedirá que o psicopedagogo colabore para a melhoria das condições de trabalho numa determinada escola ou na conquista de seus objetivos. a psicologia e a pedagogia – nas experiências específicas e inter-relacionadas do Brasil e da Argentina. propondo e não impondo atividades.

desde a mais tenra infância. prática e experiência vivida socialmente. comentada em nota de rodapé na página anterior. O trabalho preventivo. uma vez que este não assume – nem deve assumir – a postura de terapeuta.. Vale ressaltar que a concepção de “um professor de um tipo particular”. 5. refere-se à atitude do profissional no sentido de adequar as condições de aprendizagem de forma a evitar comprometimentos nesse processo. significa aplicação dos conhecimentos médicos ao enfermo. Na prática médica.. O termo prevenção. 3. p. 10): Atitude é um complexo de ação e teoria (. da forma como é concebido neste estudo. a epistemofilia. alusivo ao impulso de conhecer associado. deriva de Freud e sua visão “pansexualista” (cf. Klein. é um conceito kleineano.) é um se mover práxico no desenvolvimento do terapeuta. Desejo de conhecer. 7. 1981). como adjetivo. ver o que se passa e o que o transtorna – daí as expressões “olho clínico”. assim como no vocabulário corrente em psicopedagogia. “escuta”. derivando de um termo grego que significa leito (klinê): klinikos é aquele “que visita os doentes no leito” (Larousse Étymologique – Nouveau Dictionnaire Étymologique et Historique. 1990a. 6. refere-se à idéia de prevenção. como se refere Mery. A partir da análise cuidadosa tanto dos fatores que podem promover quanto dos que podem comprometer o processo de aprendizagem (motivo de exaustivos estudos na área). no presente ensaio. Segundo Armando Bauleo (apud Fernández. Bossa 2. ou seja. produto e conjugação nesse desenvolvimento de teoria.36 Nadia A. O conceito de clínica provém da Medicina. 4. o psicopedagogo elege a metodologia e/ou a forma de intervenção com o objetivo de facilitar e/ou desobstruir tal processo – função primeira da psicopedagogia. é diferente do “professor particular” na nossa sociedade. e as dificuldades do enunciar recortando-o estão ligadas a sua própria constituição. o profissional deve observar o sujeito. Para tanto. 1971). ao interesse sexual. .