P. 1
Caca Ao Dragao Jackie Pullinger e Andrew Quicke

Caca Ao Dragao Jackie Pullinger e Andrew Quicke

|Views: 159|Likes:
Publicado porchenrique_12

More info:

Published by: chenrique_12 on Jan 09, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as RTF, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

11/06/2015

pdf

text

original

E-book digitalizado com exclusividade para o site: www.bibliotecacrista.com.br e www.ebooksgospel.com.br Digitalização e Revisão: Levita Digital 11/09/2009 Por gentileza e por consideração não alterem esta página.

Aviso: Os e-books disponiveis em nossa página, são distribuidos gratuitamente, não havendo custo algum. Caso você tenha condições financeiras para comprar, pedimos que abençoe o autor adquirindo a versão impressa.

Título do original em inglês: Chasing the Dragon Copyright © 1980, Jackie Pullinger. Publicado na Inglaterra por Hodder and Stoughton, Londres. Tradução de Myrian Talitha Lins Primeira edição, 1982 Todos os direitos reservados pela Editora Betânia S/C Caixa Postal 5010 30.000 Venda Nova, MG Composto e impresso nas oficinas da Editora Betânia S/C Rua Padre Pedro Pinto, 2435 Belo Horizonte (Venda NovaX MG Printed in Brazil

Índice
Prefácio Glossário 1. Rastros de Sangue 2. Para a China de "Canoa" 3. Uma Cidade Chamada Trevas 4. O Clubinho 5. Luz nas Trevas 6. As Quadrilhas 7. O "Irmão Maior" Está Olhando por Você 8. Perseguindo o Dragão 9. "Doenças" da Infância 10. É Jesus Mesmo 11. As Casas de Estêvão 12. Acolhendo Anjos 13. Testemunhos 14. E Por em Liberdade os Cativos 15. Andar no Espírito

Para minha família, especialmente meu Pai. "E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra e, com ele, os seus anjos... Agora veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos..." Ap 12.9,10.

Prefácio

Excetuando-se esse detalhe. Alguns nomes e lugares citados no livro tiveram que ser modificados. dando um relato mais completo de tudo quanto lhe acontecera. da Califórnia. escrevermos um livro. Em 1978. consultei-a sobre a possibilidade de. mas não sem certa relutância. de Hong Kong. em Washington. Um amigo nos apresentou. tudo o mais foi narrado da forma como ocorreu. nessa ocasião. e ela me falou de seu trabalho na Cidade Murada. Concordou. onde o manuscrito foi terminado. juntos.Fiquei conhecendo Jackie Pullinger em 1968. Nos anos que se seguiram continuei a manter contato com ela. que nos emprestaram sua casa. quando fui a Hong Kong para fazer uma filmagem. a maioria das quais ainda vive naquela cidade. e em 1979 voltei a Hong Kong. para que as pessoas implicadas não sofressem nenhum tipo de prejuízo. Entre elas gostaria de mencionar Marjorie Witcombe e Mary Stack. Fiquei fascinado pelo que me narrou. Tenho que agradecer a muitas pessoas que nos ajudaram na feitura deste livro. ela foi à Inglaterra para falar sobre seu trabalho e. O jornal Sunday Times publicou um relato de sua obra em 1974. a Susan Soloman. Era exatamente como ela o descrevera. vendo seu trabalho desenvolver-se mais. e fui visitar o lugar em sua companhia. Muitos dos eventos aqui narrados podem ser comprovados em outras fontes. e sobretudo . a meu irmão Edward e a seus colegas do Banco Mundial.

que fez uma excelente revisão e deu sua contribuição durante toda a produção do livro. O que aconteceu de lá para cá terá de aguardar um novo livro. Andrew Quicke Londres Abril de 1980 Glossário .à minha esposa Juliet. Estamos narrando aqui incidentes ocorridos até 1976 apenas.

"Hai bin do ah?": De onde você é? Hak Nam: Trevas (Nome que muitas vezes é empregado para identificar a Cidade Murada de Hong Kong.) Hawh-fui: sentir muito um erro cometido. "M'gong?": Não quer falar? Mintoi: edredom. como tentativa de solucionar diferenças. Daih lo: Irmão Maior. Daih ma: Mãe Maior. Gong-sou: conversações entre quadrilhas inimigas. Mama-san: mulher que tem a seu encargo várias prostitutas jovens ou bar-girls. Fui-goih: arrepender-se. Congee: um mingau de arroz que se come no café da manhã.Amah: empregado (a). For-gei: garçom ou operário. . Daih pai dong: barraca de rua. "Moe yeh": Nada. a esposa mais velha de um chinês. Pahng-jue: chefe de um salão onde se vende ou toma drogas. Poon Siu Jeh: Pullinger em chinês.) Kung-fu: um tipo de arte marcial chinesa. Pin-mun: comércio ilegal. "Pa mafan": medo de complicações. Lap-sap: lixo. Kai na: madrinha Kai neui: afilhada (Estes dois termos são empregados para designar o relacionamento de uma mulher com uma criança que ela toma para criar.

significa pessoa que vigia ou guarda. merenda. "Yeh sou ngoi nei." Jesus te ama! . Seui Fong 14 K Nome das diversas quadrilhas tríades que são ilegais em Hong Kong." Você deve estar louco! "Yaunk": Estou aqui.Sai lo: Irmão Menor. Tin-man-toi: literalmente meteorologista. "Yau moe gau chor. Sai ma: Mãe Menor. esposa mais nova ou concubina de um chinês. Ging Yu Wo Shing Wo Siu yeh: lanche. Wunton: espécie de pastel de camarão ou carne de porco.

1 Rastros de Sangue O guarda da porta soltou uma cusparada no chão do beco. pois cria que sabia de quem era aquele sangue. e embora a essa altura já conhecesse o caminho muito bem. tão temida pelo povo de Hong Kong. para entrar nessa estranha "cidade" chinesa. devido a casos não solucionados. O juiz me confiara a guarda de Ah Sor. e logo depois várias gotas. Mantinha os olhos voltados para o chão por duas razões: para não pisar nas porcarias que escorriam para o rego aberto e para não receber em pleno rosto o lixo que era atirado das janelas à rua embaixo. Foi então que avistei uma pequena mancha vermelha. pisando cautelosamente na estreita ruela. pelo período de um ano. Deixei-o ali agachado. a escuridão do interior dela me deixou meio cega. Ao que . Por um instante. mas fez um aceno de cabeça dando-me permissão para passar. foi preciso bater várias vezes. Senti a tensão no estômago. com força. para afastá-los. e me espremi no pequeno vão entre duas construções escuras. Não havia dúvida de que era sangue. segui em frente. Bati palmas a fim de espantar os ratos. Mas uma quadrilha estava atrás dele para castigálo.

As pessoas que por ali se encontravam pareciam totalmente indiferentes. uma das poucas que possuía iluminação na Cidade Murada. Virei uma esquina e entrei na rua onde estavam situados os principais salões de jogatina. haviam-no encontrado. — O que aconteceu? indaguei temerosa. Tive que andar com mais cuidado ainda. onde ficava o salão que alugara e que abria todas as noites para os rapazes das quadrilhas. os vigilantes das quadrilhas que controlavam a Cidade Murada. Cheguei à rua principal. Em seguida. entrei em minha ruela. administrados pelos "irmãos" da quadrilha 14K. ao passar por outro salão de jogo. onde se achavam outros vigias. quer nos dar um auxílio? E estendiam as mãos cujos dorsos estavam marcados de pontas de agulha. ao mesmo tempo. e passei por mais dois tin-man-toi. A porta avistei uma poça de sangue maior. As prostitutas me reconheceram e gritaram de lá de seus compartimentos. as manchas de sangue já se apresentavam mais numerosas. Um velho cantonês abanou a cabeça e resmungou: . Estava impaciente para descobrir de quem era aquele sangue. Na rua seguinte. Mas.parecia. junto ao cinema de filmes pornográficos: — Sr.ta Poon! Poon Siu Jeh. Passei pelos terríveis antros de ópio. Avistei outras daquelas manchas lustrosas. a idéia me apavorava.

Naquela noite.— Nada. Sua mãe o tinha vendido. A fim de equilibrar essa forte sensação de rejeição. destranquei o portão de ferro. nada! Num lugar controlado pelas quadrilhas tem que se viver com as mãos sobre os olhos. toda a minha atenção estava concentrada em Ah Sor. eu tinha tido conhecimento da história de sua vida e dos seus problemas e procurara ajudá-lo. para um homem viciado em ópio. Estava escuro. ao mesmo tempo. não se envolver com nada. Toda sorte de insetos e bichinhos saíam dos esgotos e andavam pelas paredes do salão. despreocupadas. Ah Sor crescera com grande carência afetiva. que não tinha filhos e temia morrer e ir para o inferno sem um filho para adorar seu espírito. ele se agregou a uma quadrilha. quando ainda era bebê. úmido e malcheiroso. Cresceu brigando nas ruas e recebeu sua primeira sentença de detenção na prisão juvenil aos treze anos. Eu tinha mais medo das aranhas que vinham das fossas. não sabia reconhecer um afeto sincero. mas ele continuava na . e entrei em nosso "clubinho". Ali perto. do que dos quadrilheiros. Durante os últimos anos. mas. quando lhe era oferecido. Por isso. Temendo por Ah Sor. pois não havia água encanada. Era muito difícil conservá-lo limpo. se quiser sobreviver. porém. brincavam várias crianças. com bebezinhos amarrados às costas. como se nada tivesse acontecido. É mais seguro não ver nada.

depressa! Nosso amigo pode morrer.ta Poon. — Sr. pegamos um táxi. Senhor!". e cu desejava proporcionarlhe coisa melhor. como seu pai adotivo. Fora da Cidade Murada. orei baixinho. e o nosso ia zigue-zagueando entre uma pista e outra. era viciado em drogas." Então. Os motoristas de táxi de Hong Kong não precisam de muito incentivo para correr. a senhora deve ir imediatamente ao Hospital Elizabeth. Cinco minutos depois uma menina entrou ali correndo. sendo preso várias e várias vezes. Estão chamando a senhora. Tranquei tudo e saí. "Faz com que ele se salve. — Quem está lá? É Ah Sor? — Só tenho que dizer-lhe para ir depressa. e nós saltamos . o carro parou abruptamente com um guincho agudo dos pneus. com apenas uma das mãos no volante. — Para o Hospital Elizabeth. que nem era vida. Sentei-me num de nossos toscos bancos do clubinho e fiz a única coisa que podia — orei. No caminho fui arrebanhando alguns rapazes que conhecia. arfando pelo esforço. concluiu e logo desapareceu. Eu ia orando pelo caminho. Além disso. "Talvez meu amigo morra". as mãos apertadas uma contra a outra. "Salva-o. pensei em cantonês. Ele tinha tido uma vida tão miserável. É alguém que está morrendo.mesma.

) . procurando atingir sua vítima. próximo ao nosso salão. Isso era parte de uma guerra de quadrilhas por causa de um dos "irmãos" que fora prejudicado havia alguns anos. (Há sempre policiais postados nos hospitais. Quando este ia subindo a rua em companhia de Ah Tong e de outro "irmão". não se apercebeu da emboscada. a quadrilha Seui Fong havia-se emboscado num beco escuro.do veículo desejando ver Ah Sor antes que morresse. Mas não era Ah Sor. O alvo deles era Ah Sor. Ao que parecia. onde pegaram um táxi. seduzia mocinhas e depois as vendia. Mas Ah Tong viu-os logo e atirou-se à frente do outro. Até mesmo seus colegas o desprezavam. que os interrogam sobre as brigas das quadrilhas. Eu o conhecia apenas pela sua fama de ser um dos mais depravados chefes de quadrilha. Deixando o colega no hospital. e os agressores o deixaram ali caído numa poça de sangue. fugiram imediatamente. Fora Ah Tong quem deixara aquele sinistro rastro pelas ruas da cidade. Ah Sor e o outro rapaz o ampararam e saíram com ele aos trambolhões até chegarem a uma das saídas da cidade. para o comércio do meretrício. Então a quadrilha os atacou. que foi quase seccionado. com a vida assim arruinada. pois ele costumava ir a festas. armada de facões e canos. para protegê-lo. Alguém atingiu seu braço.

Sentada ali no hospital. devido à perda de sangue. . cristãs. Ele era mau. Passamos a noite toda ali. Fora milagrosamente curado. eram cada dia mais animadores. E enquanto estivemos lá. ele não recobrou os sentidos. e levava uma vida terrível. mas revelara um amor muito raro. Com muito cuidado. O que fazíamos nós. ficaram grandemente espantados com nossa atitude. orando pelo seu filho? Ele era mau e só merecia mesmo morrer. Alguém poderia pensar que. incompreensível. a irmã nos deu permissão para entrar na enfermaria onde ele se encontrava. Parecia que ele estava melhorando incrivelmente. Postei-me ao lado do leito e olhei para Ah Tong. depois de haver experimentado um milagre como esse. pensei no que ouvira e fiquei impressionada com o gesto do rapaz. Jesus já havia dito: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor de seus amigos.A única informação que consegui extrair da enfermeira foi que o paciente provavelmente perderia o braço. e não apenas sobrevivera. Afinal. e inconsciente. impusemos as mãos sobre ele e oramos em nome de Jesus. mas também conservara o braço em perfeitas condições. orando. Afinal. ele recebeu alta. para eles. Estava terrivelmente pálido. Os boletins médicos do hospital. porém. Quando a família apareceu. cinco dias depois de ter sido atacado. se não a vida. pessoas direitas." Telefonei para alguns amigos e pedi-lhes que fossem ao hospital.

Sabia que eu era crente e que os crentes eram pessoas direitas. ao passo que os viciados eram depravados. mas Jesus pode. Todo o tempo em que estivera no hospital. mal ele me avistava. . — Ele sabe que foram suas orações que o salvaram. Já tentei largar o vício muitas vezes. Alguns anos depois. saía correndo. para se aproximar de um cristão. Faz alguns anos.Ah Tong teria muito prazer em falar com um dos intercessores. então por que me evitava? Meses depois vim a saber a razão. Ah Tong tinha o cenho franzido. não. sua namorada lhe levara drogas. nos meses que se seguiram. estou desesperado. Será que pode me ajudar? — Eu. respondi. Por isso. ouvindo com atenção. Estava com medo de mim. Ah Tong entrou pela nossa porta no meio da noite. Sentia-se por demais impuro. mas não consegui. mas. Se ele pensava assim. Ah Sor. Era viciado em heroína. recebi algumas palavras de agradecimento. E creio que há um fato a respeito de Jesus que você poderá entender perfeitamente. Fitou-me com uma expressão angustiada e disse abruptamente: — Poon Siu Jeh. você se dispôs a morrer por seu irmão. disse um dos muitos mensageiros com recados de agradecimento. e precisava de várias doses diárias. Contudo. Foi um gesto maravilhoso. não lhe parecia correto vir ele mesmo expressar sua gratidão.

Saí depressa com ele. mas pude perceber claramente que alguma coisa havia acontecido. e outros que tinham sido seus companheiros de drogas. muitos dos quais ele reconheceu. Não creio que a mente cheia de drogas de Ah Tong pudesse absorver todos os detalhes da doutrina da redenção. . — No entanto. ele nos dará sua vida. Morrer por um "irmão" é uma coisa. mas por todas as pessoas de todas as outras quadrilhas. Pelo contrário. Ele era o Filho de Deus e nunca fez nada errado. que também era sala de jantar. todas sorrindo.— Mas o que você diria de morrer por um rapaz de outra quadrilha? — Aaahhh! fez ele e soltou uma cusparada. Ele morreu não somente para os de sua quadrilha. Ele se mostrou completamente atônito pela idéia de que Jesus pudesse amar uma pessoa como ele. ele curava os doentes. Se crermos nele. mais fortes e saudáveis. e levei-o para o pequeno apartamento que tínhamos na ilha de Hong Kong. Havia vários ocidentais e muitos rapazes chineses. estavam todos belos e felizes. foi exatamente isso que Jesus fez. Era um apartamento bem pequeno. Havia ali homens que ele tinha conhecido na cadeia. segundo os padrões ocidentais. mas ninguém morre por um inimigo. Mas o mais extraordinário ali eram as pessoas presentes. Era mais um lar. e sentiu-se bastante tocado. Tudo era muito limpo e bem arranjado. e não uma igreja. Ah Tong se viu na sala. Porém.

disseram eles.ta Poon e esses pastores aqui nunca tiveram de largar as drogas. e não senti mais dor nenhuma. a Sr. Eu senti muitas dores. Ah Tong recebeu o dom de línguas. e não sabem como é. A dor desapareceu e me senti outro." Então nos disse que queria crer que Jesus era Deus e pedir-lhe que modificasse sua vida. e deu certo. Em seguida. até cair num profundo sono. e ele sorriu. participando daquele milagre. seus olhos tinham uma expressão de grande alegria. — Você nos conhece. também posso. pode fazer por mim também. Os outros ex-marginais ali presentes se entreolharam felizes. Recebi novas energias: chama-se Espírito Santo. nem mesmo uma simples aspirina. Não houve necessidade de passar por uma desintoxicação dolorosa. se de fato não crêssemos nisso. mas orei a Jesus. O rapaz permaneceu na casa. Se Jesus fez isso por eles. como me disseram. Não lhe demos nenhum remédio.Eles se puseram a falar-lhe sobre o poder de Jesus que lhes havia transformado a vida. começava a . Todas as vezes que sentia a primeira pontada de dor. Falei em língua estranha. que pode causar-lhe a morte. e ele foi-se aquietando mais e mais. Quero dizer. Quando se deitou naquela noite. Sabe que nunca empregaríamos essa linguagem santa. orou e logo seu rosto magro e sulcado de rugas se relaxou. Ah Tong deve ter pensado: "Se eles podem. Logicamente. que constitui uma tortura tão grande para o viciado.

nem calafrios. Percebi que meu coração estava inundado de grande paz. Ah Tong começou uma nova vida. sumindo-se à distância. .orar na sua nova língua. nem diarréia. e eu era a primeira da fila. eu me aprontara e subira para o convés. 2 Para a China de "Canoa" Os agentes da imigração subiram a bordo do navio. em meio à bruma. Sua desintoxicação processou-se sem nenhum sofrimento. A vista que se tinha dali era de cair o queixo. como num quadro oriental. Não houve vômitos. Lá estavam as montanhas de cumes brilhantes. nem cãibra. de manhã. Cedo. ansiosa que estava para desembarcar.

O agente da imigração não demonstrava o mesmo entusiasmo que eu. agradeci-lhe. entreviam-se nesgas de ruas chinesas. após as docas. na Ilha de Hong Kong. na "Pérola do Oriente". que traziam toda sorte de alimentos da China territorial para a Colônia.e ao reconhecer que aquele era o lugar que Deus havia escolhido para mim. que separava a Ilha Victoria da Península de Kowloon. nas encostas dos morros. Um pouco mais perto. — Endereço de amigos? . Eu me achava ali. nos Novos Territórios. Cercava-nos a enseada. Erguendo os olhos. ainda não tenho onde morar. — Na verdade. tão singulares. que se estendiam até a fronteira da China de Mao. com o exotismo próprio do Oriente. — Onde mora? indagou. Ela estava pontilhada de barquinhos. Balsas se moviam entre as diversas ilhas adjacentes. Pareciam estranhamente antiquados em comparação com os modernos arranhacéus que se erguiam logo atrás. vi à distância ás colinas dos Nove Dragões. Hong Kong. nos quais eu declarava que tinha vindo à Colônia para trabalhar. esperando e contemplando o mar da China. levando operários. e nos ancoradouros viam-se muitos dos antiquíssimos juncos. encantadoras. Vista do mar. numa manhã ensolarada. Hong Kong era belíssima. Pegou os formulários preenchidos.

pois pensava estar muito bem financeiramente. — Onde está sua mãe? — Na Inglaterra. e saiu apressado.— Ainda não tenho conhecidos aqui. — E sua passagem de volta? — Ainda não tenho. Os dois confabularam por alguns instantes. depois voltaram para onde me encontrava. concluiu. Hong Kong é um lugar de vida muito cara.. seu rosto se iluminou oomo se encontrando a solução. ainda não tenho emprego. mas minhas respostas não se achavam muito de acordo com o "figurino". respondi orgulhosa. Até esse ponto conseguira levar bem a entrevista.. e não compreendia por que ele tinha que estar. Não dá nem para três dias. Chegara ali quase que com a mesma quantia que tinha ao embarcar. Tentou fazer mais algumas indagações suplementares. à procura de seu chefe. Afinal. não. Ele me fitou com uma expressão de desalento. replicou ele rispidamente. — Onde trabalha? — Bem. Não estava nem um pouco preocupada por não ter passagem de volta. — É pouco. . — Mais ou menos HKS100 dólares. — Quanto tem em dinheiro? Também fiquei satisfeita.

eu e minha irmã gêmea estávamos na escola dominical. foi de quando estava com quatro anos. me perguntando o que iriam fazer comigo. sair pelo mundo fora. obrigando-me a voltar para a Inglaterra. em nossa casa. Na imaginação. um dia seria conhecida e famosa. já os via trancando-me num camarote. que tinha esperanças de fundar um time de rugby* e acabou com quatro filhas. e uma missionária fez uma . Fiquei ali parada. falou o chefe. seguindo a orientação de Deus! Que atitude mais irresponsável! O que eu faria? E como viera parar aqui? Quando minha mãe ficou grávida de mim. Espere aqui. pensou que estava esperando uma criança só. Uma das recordações mais antigas que tenho. Lembro-me de que estava encostada ao aquecedor. gostava de brinquedos masculinos e bicicletas. Subia em árvores e corria muito. Mais ou menos um ano depois.— Embora a senhora seja britânica. fosse lá o que eu escolhesse fazer na vida. vamos negar-lhe permissão para desembarcar. Então procurei compensar o fato comportando-me como um garoto. mas deu à luz gêmeas. o que deve ter sido uma grande decepção para meu pai. e pensava: "Será que vale a pena ser bom neste mundo?" Acabei-me decidindo que. Meus amigos iriam dizer: — Não falei? Onde já se viu.

Mas não tinha a mínima idéia do que fosse um campo missionário. pois. Logo percebi que todos esperavam que eu fosse melhor do que os outros. algumas coisas ainda me incomodavam. Deus quer que todos vão para os campos. estava passeando na ponte do trem de ferro com Gilly. Estendendo o dedo para cada uma de nós.palestra. havíamos conseguido que nossa boa amiga Nellie nos desse pirulitos sabor limão. __________________ * Esporte semelhante ao futebol americano e ao nosso futebol militar. Então inventei uma porção de outras carreiras para desviar a atenção dos outros: regente de orquestra. e pouco depois de começar a saboreá-los ocorreu-me . Contei a uma amiga da escola que desejava ser missionária. sentindo-me muito nobre e digna. Certo dia. — Mas você vai ser missionária! diziam em tom acusador. Como sempre. interiormente. ela disse: — Será que Deus quer vocês no campo missionário? Recordo-me de que logo pensei que a resposta dessa pergunta nunca poderia ser "não". logicamente. Foi um grande erro. artista de circo. Contudo. a primeira mulher a escalar o pico do Everest. num lugar qualquer da Africa. Eu me via a mim mesma sentada à porta de uma choupana. minha irmã gêmea. quando eu me comportava mal.

No primeiro ano do curso ginasial cometi outro erro. E havia também o problema do pecado. Ele é a melhor pessoa que existe na terra. ele colocava uma marquinha ao lado dele. pois caso Deus existisse mesmo. _____________________ *O grande líder da Inglaterra na Guerra Mundial. Pois bem. Afinal. com um livro bem grande. e então resolvi: — Se eu nunca mais fizer nada errado. talvez eu termine mais ou menos igual a ele. Eu e minha irmã estávamos sentadas mesa do internato tomando chá com II e à o . pus-me a olhar para o céu e a imaginar que Deus estava lá. Não podia viver da maneira que me agradasse. Deitada no gramado. não havia nada que eu pudesse fazer para sanar o mal. talvez algum dia eu ainda pegue *Winston Churchill e fique igual a ele. Então. muito querido respeitado por todo o povo. Toda vez que alguém praticava um ato errado. Dei uma espiada na linha correspondente ao meu nome e a fila de marcas estava bastante comprida. no qual estava o nome de todas as pessoas. se eu parar de pecar agora. mas já é muito velho.um pensamento terrível: "Afinal. um dia teria que dar satisfações a ele. encontrei a solução. nunca. nunca. Os anos estavam a meu favor. o que estamos fazendo aqui na terra? Para que serve a vida?" Parecia que me encontrava presa numa armadilha.

Eu e Gilly fomos até a frente e nos ajoelhamos. é. que depois.. Tendo ouvido a primeira transmissão radiofônica de um programa de Billy Graham. Minha vontade era rir de felicidade.. individualmente. resolvi fazer-lhe uma pergunta. A cabeceira encontravase uma garota maior de nome Mirissa. que teríamos depois da cerimônia. na . bem. e o Bispo impôs as mãos sobre nós. ao voltar para meu lugar. — Em que devo pensar. Só me recordo de que.inevitável pão preto. ore! disse ele afinal. Meu medo era que o ministro nos perguntasse. Mas ele não o fez.. Eu estava levando tudo muito a sério. era um culto de confirmação espiritual. Pensei em iniciar educadamente uma conversa. infelizmente. mas sentia que os outros só estavam interessados nas roupas novas e no "chá de confirmação". e aquele era o momento mais solene.. mencionei como ficara impressionada com o evangelista. em que críamos. Eu tinha tanto respeito pela opinião das pessoas mais velhas. no momento em que o Bispo impuser as mãos sobre mim? — Ah. mas. Contudo. Que atitude mais imprópria! Afinal. escolhi o assunto errado. eu dizia com ironia: — Puro emocionalismo de massa! Chegou a época de nossa "confirmação" na igreja. estava sentindo uma grande alegria. O riso seria depois. todas as vezes que se conversava sobre isso na escola. — Puro emocionalismo de massa! exclamou a moça desdenhosa.

e creio que deveria começar a prepararme desde já. Eu tinha pensado antes que gostaria de me comportar de maneira bastante reverente e elegante nesse culto. A primeira coisa que fiz depois disso foi pegar a lista telefônica e procurar endereços de missões. Já me considerava uma pessoa integrada à sociedade. Vez por outra.hora do chá. onde descobri que os músicos achavam que o amor era o grande inspirador da música. Quais os cursos que devo fazer? Em resposta. eu trabalhava na fábrica de papai. escrevi para elas. geralmente. na época do Natal. Mas aqueles jovens ali me pareciam tão desinteressantes e sem graça. — Desejo ser missionária. Nas férias. além disso. na sua maioria. Na cantina da escola. não . eram organistas. Depois. e tive muito trabalho para me livrar de um pistonista. e não parecia haver nenhuma associação entre ele e aquela alegria tão despropositada. ou então dava aulas particulares. eu passava pela sala da União Cristã e via lá o quadro de avisos. Eu estava entregando minha vida a Deus. e não esperava receber nada em troca. Sentia um aperto na consciência. fui para o Real Conservatório de Música. parecendo muito santos. assentavamse sempre juntos. eles me mandaram dizer que haviam colocado meu nome no seu rol de associados jovens. ou funcionava como "carteiro" para o Correio. e.

Foi só depois de muito tempo que compreendi que ele nunca poderia estar presente numa daquelas festas. mas a principal forma de divertimento ali ou era imoral ou desinteressante. Contudo. E o que mais me impressionou foi que eram todos gente normal. voltando da escola para casa. quando encontrei duas excolegas de escola. onde um pregador maravilhoso faria palestras sobre a Bíblia.me atraíam em nada. Não sabia sobre o que conversavam e nem me interessava saber. Mas todas as outras pessoas também o eram. Contudo. Mas o que mais me transtornava era a idéia de que ninguém podia chegar a Deus. Compreendi que ou eu . e embora me garantissem que minha vida mudaria depois que eu viesse a "conhecer Jesus". Davam a impressão de serem muito solenes e tristes. a não ser por intermédio de Jesus. Os rapazes conversavam sobre corrida de automóvel — no entanto estavam ali porque desejavam estudar a Bíblia. eu sempre ia esperando encontrar ali o homem dos meus sonhos. eu gostava de freqüentar festinhas. Ele era realmente fabuloso. Naquele ambiente foi muito fácil falar sobre Deus. como eu. eu estava no trem. eu ainda ficava incomodada quando ouvia falar em céu e inferno. Nesse tempo. eu não queria mudar para ficar igual a eles. Certo dia. As moças usavam maquilagem. E eu fui. Elas me convidaram para ir a uma reunião em uma casa.

comecei a dar aulas de música. Certo dia. a recíproca também era verdadeira — quem não cresse nele não iria. respondi. após o estudo bíblico. pois se críamos que iríamos para o céu por causa de Jesus. as moças tiveram um momento de oração. Pouco depois disso. Abri os olhos para dar uma espiada. ou abandonar de vez a fé cristã. Eu o conheço. É diferente. "E as pessoas que ainda não ouviram as boasnovas?" Em conseqüência disso. Estava tocando piano numa reunião de jovens evangélicos em Waddon. em algum . — Não. um homem me perguntou se eu acreditava em Deus.tinha que aceitar tudo que Jesus dissera a respeito de si próprio. Mas eu queria dedicar toda a minha vida a uma obra qualquer. Foi aí que tive certeza de que minha vida havia-se modificado mesmo. E assim me converti. Mas essa nova vida também me trouxe alguns problemas. antes de minha conversão. Tenho paz e sei para onde estou indo. Sorriam parecendo muito felizes. "Como essas pessoas podem ficar sentadas aí sabendo disso?" pensei. Depois que me formei. Fiquei abismada. Passei a ter uma vida ainda mais cheia do que antes. E não foi sem relutância que orei a ele dizendo que acreditava em tudo que ele dissera. cantando hinos sobre a salvação. passei a tomar parte numa cena que teria abominado.

Quando acordei. olhando um mapa colorido da Africa. e gostaria de lecionar nesse país. ' Então escrevi para missões. diziam. responderam. Inclinei-me mais para ver qual era. E todos responderam da mesma forma — não queriam meus préstimos. — Já orou pedindo a orientação de Deus? replicavam. Estava escrito "Hong Kong". — O que você acha que devo fazer de minha vida? indagava. Impossível. Não aceitavam candidatos a missionário com menos de vinte e cinco anos. . — Ainda não podemos dar-nos o luxo de ter músicos por aqui. escolas e companhias radiofónicas da Africa. mas Deus ainda não tinha me dado uma resposta clara. Entre os diversos países daquele continente havia um que estava colorido de cor-de-rosa. Voltou-me a idéia de ser missionária. e tratei de pedir conselhos às pessoas que melhor pudessem me orientar.lugar. Recorri então à minha sociedade missionária. Já havia orado. E não havia nada que me impedisse de fazê-lo. escrevi para o governo de Hong Kong explicando que era professora de música. Eu teria que aguardar um pouco mais. A Bíblia ensinava que eu deveria crer e ele me orientaria. Responderam dizendo que não havia vagas para músicos. sonhei que nossa família estava reunida à mesa da sala de jantar. Não me deixei abater. Uma noite. formada.

Certa vez fui orar em uma pequena igreja de um povoado. quando eu saísse de lá. Ali tive uma visão de uma mulher de braços estendidos. em verdade. que sabia que eu estava orando sobre meu futuro. então. havia interpretado erradamente o meu sonho. — Já recebeu a resposta? indagou. Fiquei a me indagar o que ela queria. dinheiro ou roupas? Se eu lhes desse apenas essas coisas. Pouco depois disso. quando saísse de lá. o que iria dar às pessoas? Daria o que aprendera em meus estudos? Deveria talvez atuar como intermediária para conseguir-lhes alimentos. como se estivesse implorando ajuda. Seria auxílios do Fundo Cristão? Depois. Ocorreu-me. voltariam a ter fome. foram surgindo umas palavras que iam passando à minha frente.Ao que parecia. e poderia até transmiti-lo a outros. eu poderia dar a ela? Se fosse missionária. como se fossem a ficha técnica de um programa de televisão: "O que você pode nos dar?" O que. ela ainda estaria satisfeita. encontrei um amigo que morava em West Croydon. que o de que ela precisava era o amor de Jesus. Se ela o recebesse. Parecia desejar alguma coisa desesperadamente. . — Não. um lugar muito calmo. Mas a mulher da visão estava com fome de um alimento que ela não conhecia. Finalmente sabia o que tinha a fazer — só não sabia onde. respondi.

" Tive certeza de que Deus estava com minha vida em suas mãos. e eu queria ter facilidade de escapulir. — Logo que cheguei. Lá estamos sempre recebendo respostas. Voltei para . Sentei-me perto da porta. Não estava muito certa sobre o que iria haver ali. Não havia dúvida de que o povo de West Croydon recebia respostas de Deus. Será que aquela gente de West Croydon pensava que tinha uma espécie de monopólio de Deus? Fiquei curiosa para saber o que acontecia nas reuniões. Confie em mim e eu a guiarei. caso fosse necessário. nem voz estridente de Deus falando comigo. Uma pessoa começou a falar em voz tranqüila. Ao que parecia. Eu a instruirei sobre o caminho em que deve andar. e logo tive plena certeza de que aquilo era para mim. Um ou dois dos presentes realmente falaram numa língua que eu não compreendia. Mas a reunião foi muito ordeira e calma. com orações normais e os hinos de sempre. Mas depois ela veio. Eu a guiarei com meus olhos.— Gostaria de assistir às nossas reuniões? indagou. e que muito breve iria conduzir-me a algum lugar. mas até certo momento não houve nenhuma profecia estrondosa. iriam exercitar os dons espirituais. alguém me disse que não ficasse espantada se acontecesse algo de extraordinário. "Vá. Pensava que talvez alguém fosse profetizar em voz alta.

Todos os meus pedidos de trabalho estão sendo rejeitados. . Depois de vários meses. embarcaria nele. replicou ele. trabalhei durante uma semana na igreja de Richard Thompson. Desse modo. de modo que estivesse livre para partir logo após o encerramento das aulas. é melhor você ir. perguntando a Deus onde deveria descer.casa. mas não me dissera para onde. Ele me conhecia havia bastante tempo. Mas me parece errada. pois eu adoraria fazer isso. — É uma idéia maravilhosa. é melhor você começar a mexer-se. Durante os feriados da Páscoa. a aposentadoria e pensão. — Bem. e depois iria orando todo o tempo. e pus-me a aguardar maiores orientações. Disse-lhe que eu e Deus nos achávamos numa encruzilhada. a passagem. Ainda não sabia para onde deveria ir. respondi. se você já tentou todas as formas convencionais de trabalho missionário e Deus continua dizendo para você ir. compraria passagem num navio com destino ao ponto mais distante possível. era a primeira vez que eu recebia uma resposta definida. não precisaria confiar nele. Ele me ordenara claramente que fosse. continuou Richard. qualquer um pode ser missionário. Se já tivesse um emprego. Dei aviso prévio em todos os empregos. — Mas como. e eu sentia que poderia ajudar-me. se não sei para onde ir. o lugar para ficar. Se eu fosse você. — Se Deus está ordenando que và.

Meus pais . Em nenhum momento. Meu pai. ele a deterá. pois confiava em Deus. Ia da França ao Japão. obedecendo a uma ordem de Deus.Eu ainda pensava que tudo que o crente fizesse tinha que implicar em sofrimento. disse Richard com muita seriedade. aonde ele me mandasse. Naturalmente. e que não podia ter nenhuma satisfação em sua fé. se você se colocar inteiramente nas mãos de Deus. Alguns se mostraram descrentes. Abrão. com muito bom-senso. O conselho de Richard era um pouco incomum. que passava por muitos países. ele me deu a impressão de que eu entraria no navio como uma pessoa comum. Então fiz o que ele dissera. com o percurso mais longo possível. e sairia dele transformada em missionária. Se ele não quiser que você tome esse navio. A idéia me pareceu fascinante. Comprei a passagem. em minha "viagem de canoa para a China". e tudo estava resolvido. eu teria que enfrentar meus pais e amigos. Mas Richard afirmou que esse plano era bíblico. insistia em que eu pensasse muito. por exemplo. O que eu tinha de fazer era simplesmente seguir a Deus. — Não há o que temer. Procurei o navio mais barato. ou poderá levar a embarcação para qualquer lugar do mundo. seguira para a terra prometida sem saber para onde ia. deixara sua terra e. Assim compreendi que não tinha nada a temer nessa aventura. mas muito sábio. pronta para trabalhar.

E suponhamos que não tenha sido o Espírito Santo quem ditou as palavras para Richard Thompson? O dia em que parti foi um desses dias em que tudo dá errado. O pessoal da minha sociedade missionária já não se mostrou tão entusiasmado. Por um instante pensei que eu tinha vindo de tão longe até a Ásia. Ele é da polícia. Mas afinal vi-me acomodada no vagão do trem com minha bagagem. — Que conselho mais irresponsável para um pastor dar a uma jovem." Se meu nome estava gravado ali. disseram. gritando: — Glória a Deus! E daí a pouco o trem arrancou. mas um se preocupava com o outro. disse eu. Eu conheço uma pessoa aqui. — Espere um pouco.estavam satisfeitos com a minha ida. cada um tentando convencer o outro de que estava tudo certo. então Deus sabia tudo que me dizia respeito. e uma noite escutei os dois discutindo. O táxi que havíamos contratado para nos levar a Londres apareceu com uma hora de atraso. . Orei pelo problema. Mas de repente lembrei-me do texto que lera pela manhã: "Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei. O agente da imigração voltou-se para mim muito transtornado. apenas para ser repatriada. Richard Thompson surgiu correndo pela plataforma. lembrando-me repentinamente de um afilhado de minha mãe.

1966.O resultado foi dramático. e qualquer um que tivesse um conhecido na força policial. . continuamente. Naquela época. sob a condição de que deveria procurar emprego imediatamente. a polícia era tida em alta conta. obviamente era uma pessoa direita. por um exército de vigias. meu dinheiro não daria nem para três dias de estada em Hong Kong. Na opinião deles. Devolveram-me o passaporte resmungando que eu poderia desembarcar. Assim que um estranho qualquer se aproxima. 3 Uma Cidade Chamada Trevas A Cidade Murada é guardada dia e noite.

Portas se fecham. que significa "trevas". e atravessando ruelas estreitas. pois dentistas práticos não podem operar em Hong Kong. situada nos arredores da cidade. É a rua dos dentistas clandestinos. Era um cheiro fétido de comida azeda e de excremento. podemos ficar condoídos. Pegamos um carro até a rua Tung Tau Chuen. A Sr. . misturado ao de lixo e de vísceras de animais. cheios de compaixão. Um dos nomes chineses dados à Cidade Murada é "Hak Nam".a Donnithorne me convidara para visitar o jardim da infância e a igrejinha que organizara ali. mas não me havia preparado devidamente para o que iria ver. Passamos apertadamente por um vão entre duas das lojas de dentistas e pusemo-nos a caminhar por um beco escorregadio. tanto físicas quanto espirituais. Mas quando se conhecem os homens e mulheres que vivem e sofrem em tal lugar. E realmente trata-se de um lugar de trevas horríveis. As verdadeiras atividades da cidade ficam completamente camufladas para um forasteiro.os vigias vão passando a notícia de boca em boca. entrando e saindo por portas. Aqueles rapazes saem correndo por entre barracas de lanche. que exercem seu trabalho ilegalmente. janelas são cerradas e a queima de incenso disfarça o acre odor do ópio. Nunca me esquecerei do mau cheiro e da escuridão reinante. Logo atrás desses bizarros cômodos erguiam-se os precários arranha-céus da Cidade Murada.

Para um chinês. E essas tinham muitos clientes. a posse de uma criança prostituta era considerada apenas como uma excelente fonte de renda. Depois vinha o cinema de filmes pornográficos. à esquerda. Então ela contratava meninas prostitutas para trabalharem para ela. formando uma espécie de arco sobre o beco. "Tia Donnie" avisou-me que mantivesse o rosto voltado para o chão.Fomos andando por entre as casas. caso alguém resolvesse esvaziar na rua seu urinol. uma velha prostituta. A medida que avançávamos. minha amiga ia comentando algumas coisas: à nossa direita uma indústria de flores de plástico. e a parte superior delas se projetava sobre a rua. Vimos homens carregando na cabeça latas de concreto re-cém-misturado. Parecia-me estar caminhando por um túnel subterrâneo. a Colônia da Coroa Britânica? Há cerca de oitenta anos. Mas havia um comércio normal também. iam saindo das pequeninas saletas onde eram fabricadas. Como pode existir um lugar destes bem no meio de Hong Kong. uma espécie de pavilhão. Cinco feriados ao ano eram mais que suficientes. muitas horas por dia. tendo nas mãos imensas sacolas cheias de flores artificiais. no momento em que passávamos embaixo. é de suprema importância que os filhos trabalhem para os pais. Nesse lugar depravado. Ali não se observava o "Dia do Descanso". Mulheres. inteiramente lotado. que era velha e feia demais para conseguir fregueses. quando a .

Inglaterra se apossou da ilha chinesa de Hong Kong, da Península de Kowloon e dos territórios contíguos a ela, foi feita uma exceção. A velha cidade murada de Kowloon deveria permanecer sob a jurisdição da China, com seu mandarim, sujeita às leis chinesas. Mais tarde o mandarim morreu, e seu cargo nunca foi ocupado, nem por outro chinês nem por um inglês, e assim a desordem passou a reinar na Cidade Murada, onde prevalece até hoje. Ela se tornou um paraíso para o contrabando do ouro, antros de jogatina ilegal e todo o tipo de vícios. O desentendimento com relação à sua posse significava que a polícia não podia impor a lei e a ordem dentro dela. Quando querem procurar criminosos ali, entram em grupos grandes. A cidade tem uma população muito grande, mas é pequena. Em apenas seis acres de terra, vivem trinta mil pessoas, ou o dobro. As condições habitacionais são apavorantes. Não existem leis regulamentando a construção das casas; por isso as ruas se acham "entulhadas" de prédios de apartamento, situados em ângulos os mais loucos, sem água, luz ou esgoto. Excrementos são atirados nas ruas, que exalam constante mau cheiro. No andar térreo, existem apenas dois banheiros para as trinta mil pessoas. E esses dois não passam de buracos feitos no chão sobre fossas já transbordantes. Um é para as mulheres e o outro para os homens. Seria muito improvável que num lugar como a Cidade Murada houvesse escolas e

igrejas. Mas a Sr.a Donnithorne tinha conseguido abrir uma escolinha primária. Os professores não eram formados, mas haviam feito o curso secundário. Era uma escola pequena, com várias centenas de alunos. No primeiro dia em que fui visitar o local, Tia Donnie pediu-me que lecionasse nela. Antes de pensar duas vezes repliquei: — Pois não! E sem que soubesse claramente em que estava me metendo, concordei em dirigir a bandinha de percussão, ensinar canto e conversação em inglês, três vezes por semana. Pelo sistema chinês, aprende-se tudo de cor. E todos os meses se fazem provas, bem como ao fim do semestre e do ano. A criança reprovada nos exames finais tinha que repetir todo o ano escolar. As aulas da bandinha e de canto não apresentavam muita dificuldade para mim, mesmo levando-se em conta que não conversava muito com os alunos, mas, quanto às aulas de conversação, meu fracasso foi total. Tentei vitalizar mais as aulas dramatizando as histórias, mas eles não corresponderam. Todas as vezes que tentava fazer isso aconteciam verdadeiras guerras na sala de aula. A liberdade que eu tentava aplicar, em poucos minutos transformava-se em anarquia. Uma vez por semana, à noite, havia um culto numa das salas de aula. E a Sr.* a Poon —

nome que, orgulhosamente, me deram em chinês — tocava o harmónio. A maioria das pessoas que vinham era constituída de mulheres mais velhas, algumas carregando crianças presas às costas. Vim a descobrir depois que muitas delas, sendo analfabetas, vinham à igreja para ter aula de leitura. Começavam cantando entusiasticamente, em voz bem alta. Em seguida, a instrutora bíblica expunha os ensinamentos em cantonês. Nessa época, eu não entendia uma palavra do que era dito, mas sentia que participava do culto. Na primeira noite em que lá estive, uma mulher me captou a atenção, naquele grupo de chineses. Era uma velha verdureira: tinha o rosto muito sulcado de rugas, e apenas dois dentes, que estavam sempre em evidência, pois a mulher sorria constantemente. Ela se aproximou de mim e puxou-me pela manga, com veemência. Ficou falando e falando, sorrindo e puxando a manga. Pedi a alguém que interpretasse para mim o que ela estava dizendo. — Até a semana que vem! Até a semana que vem! Tive vontade de dizer a ela que não poderia ir todas as semanas, pois morava muito longe, e quando voltava para casa já era muito tarde, e eu tinha que me levantar cedo para dar aula. Mas senti que não conseguiria explicar-lhe tudo isso. Ela só compreenderia que eu estaria ali ou não estaria. Então resolvi ir ao culto todos os dias, só por causa dela.

Aquela altura, eu já tinha um emprego fixo: dava aulas numa escola primária, pela manhã. Lecionei ali durante seis meses. Além disso, auxiliava Tia Donnie na escolinha dela, três vezes por semana, à tarde, tocava nos cultos de domingo, e preparava programas musicais em prol de várias instituições de caridade. Isso tomava todo o meu tempo. Na segunda vez que fui à Cidade Murada, tive uma sensação maravilhosa: aquela vibração interior que se tem no dia do aniversário. E comecei a me indagar por que me sentia tão feliz. E na outra vez que fui ali, experimentei exatamente a mesma coisa. Isso me parecia um pouco descabido, num lugar tão revoltante como aquele. E, no entanto, quase todas as vezes em que me encontrava nesse reduto de marginalidade, nos doze anos que se seguiram, sentia o mesmo gozo. Eu já tivera um vislumbre dessa alegria no dia da minha "confirmação", e depois quando recebera a Jesus em minha vida — mas experimentar o contentamento espiritual nesse lugar profano? — Aquele ali é viciado, disse-me Tia Donnie certa manhã, quando nos dirigíamos para a escola. Nessa ocasião, eu ainda não sabia direito o que significava ser viciado. Ele iria nos agredir, roubar-nos o relógio ou ter um acesso? Era um homem de aspecto patético, que, com movimentos lentos, catava coisas num monte de lixo. Estava examinando os detritos ali deixados, um por um, para ver se havia algum

objeto que pudesse ser de valor para ele. Dava a impressão de estar muito doente, o rosto muito pálido, e parecia ter setenta anos e não trinta e cinco. Usava uma camiseta de algodão bastante suja e sandálias de plástico, já bem gastas. A maioria dos chineses anda sempre muito limpa, mas o Sr. Fung estava imundo. Seus dentes eram pretos, quebrados. O cabelo cortado rente indicava que acabara de sair da prisão. Mas, para ele, a cadeia era apenas um lugar para dormir e comer com mais regularidade. Mas, na verdade, cama e comida não era o que importava para ele. Fung vivia para "perseguir o dragão". Essa maneira chinesa de tomar droga tem seu ritual próprio. O viciado chega a um local de comércio de drogas, pega um pedaço de folha de alumínio e coloca nela alguns grãozinhos de heroína. Acende um paviozinho feito de papel enrolado e coloca sob o alumínio, a fim de aquecer a droga. A heroína vai-se derretendo lentamente, transformandose numa espécie de melaço escuro e fumegante. Ele coloca na boca a parte externa de uma caixa de fósforo para servir de funil, pelo qual ele irá inalando a fumaça. Em seguida, põe-se a mover a folha de alumínio, fazendo o filete de líquido grosso escorrer de um lado para outro, acompanhando o movimento da fumaça com a boca. Chamam a isso "perseguir o dragão". Pouco depois, fiquei sabendo que nem todos os viciados tinham uma aparência como a do Sr. Fung. Alguns deles estão sempre bem

em chinês. — Yeh sou ngoi nei. Vendo a expressão de seu rosto. Ela colocara uma barreira entre nós. Aprendera a "Jesus te ama". uma rua tão estreita que o rego do esgoto passava perto de seus pés. Ficava o dia inteiro agachada na rua. falei. sentadas sobre caixas de laranjas e uma delas tinha até uma cadeira. cometera um engano e tocara nela. Mas ela se encolheu toda. vi o Sr. A primeira prostituta que vi ali chamou minha atenção por estar usando batom e esmalte num tom vermelho berrante. Para estes. A moça estava fortemente constrangida. compreendi subitamente que cometera um erro. Fung muitas vezes. porque eu. As marcas escuras no dorso da mão revelavam que injetavam heroína diretamente na veia. Comecei a me indagar se não deveria fazer alguma coisa por ele e por outros iguais a ele. uma suja. fugindo ao meu contato. e eu não sabia o que fazer para derrubá-la. Rua abaixo havia outras delas.vestidos. uma jovem "limpa". o fato de se apresentarem bem é uma evidência de que não se acham escravizados ao dragão. Um dia tentei tocar na menorzinha. Como passara a ir à cidade com freqüência. Na sua maioria também eram viciadas em drogas. o branco dos olhos amarelado pelo torpor da heroína. A prostituição raramente era camuflada. Eu passava ali todos os dias e nunca saberia dizer quando estavam acordadas ou dormindo. Estavam sempre pendendo a cabeça. .

Quando os homens saíam do cinema pornográfico. Depois que percebia que ela já estava afeiçoada a ele e acostumada com o sexo. e as vendiam para o comércio da prostituição. As vezes dava para ouvi-las dizer. como essas moças eram iniciadas nesse tipo de vida. eram estrupadas. cada membro da quadrilha pegava sua menina e ficava com ela durante alguns dias. A maioria das prostitutas era controlada por quadrilhas. que controlava a área em que se encontravam. Nessa época uma tinha treze e a outra quatorze anos. Havia duas mocinhas que eu via ocasionalmente. e é barato. porque seus pais não tinham condições de sustentálas. Ambas eram prisioneiras. ela é bem jovem. as mocinhas não ficavam com o dinheiro. vim a saber. e os bordéis só podiam funcionar com permissão da quadrilha. Durante a festa. Se resistissem. Mais tarde. Via de regra. onde permaneciam até se . através de um membro da quadrilha. Nunca saíam a não ser acompanhadas por uma mama-san. Uma delas era aleijada e a outra retardada. ele a entregava a um bordel. as jovens eram seduzidas. Os rapazes organizavam uma festinha e convidavam mocinhas. empurrando-os escada acima: — Venha. Naturalmente. Eram visitadas por três clientes a hora. as mama-sans quase os agarravam e puxavam para ali.Fui percebendo aos poucos que as mulheres mais velhas se engajavam na obtenção de clientes. Outras mocinhas se prostituíam.

pudéssemos conceber um plano de fuga para elas. eu e ele. pregasse o evangelho para a jovem. Comecei a planejar um modo de alcançar essas moças. muitas dessas antigas meninas-prostituas fugiam de seus donos e se lançavam na carreira. se alguma quisesse abandonar esse tipo de vida. Depois disso. fazendo a única coisa que sabiam. que estavam sempre tão bem vigiadas. nesse tempo. Talvez juntos. mas tinha esperanças de que um dia pudesse encontrar um homem que se interessasse por esse trabalho. e pudesse pagar a quantia necessária para uma hora com elas.tornarem mais adultas. mas que. Algumas dessas crianças iniciavam este tipo de vida com nove anos de idade. Afinal tive que desistir disso e "arquivei" mentalmente o problema. .

Estava ensinando uma musiquinha muito simples. e com tantos problemas. procurei descobrir as origens dele. vindo em minha direção. sem arroubo nenhum. Mandei que voltasse para o lugar. Conheci-o quando dava aulas de inglês e canto na Escola Primária Oiwah. no entanto. lá estava Chan Wo Sai parecendo realmente empolgado com uma cançãozinha infantil. Girava os olhos e estalava os dedos. . Após a aula. e passei a ensinar outra música.4 O Clubinho Às vezes penso que a verdadeira razão por que criei o clubinho foi Chan Wo Sai. três tardes por semana. e. Depois levantou-se e pôs-se a dançar pela sala. de quinze anos. Era um rapazinho feioso. quantos pode ter qualquer outra pessoa. remexendo os quadris com um jeito bem sensual.

pois era a primeira vez na vida que alguém demonstrava algum interesse por ele. moravam algumas prostitutas. uma bateria surda. Na casa ao lado. ele tinha uma deficiência de fala que embaraçava ainda mais nossa conversa. o garoto passou a conviver com esses fatos. Consistia numa membrana de borracha presa numa armação de madeira. Ele tinha que treinar naquilo. Minha mentalidade inglesa me levava a crer . A mãe era prostituta e o pai. os antros de jogo um pouco abaixo e os salões de ópio depois desses. eram parte de seu quotidiano. Toda a família ocupava um quartinho minúsculo. numa casa que havia desabado. percebi que estava constantemente pensando nele. Seus horizontes eram limitados pelo bordel ao lado. Então procurei conhecê-lo e ajudá-lo a melhorar de vida.Chan Wo Sai nascera ali mesmo. e isso me deixou um pouco alarmada. um bêbedo. Na Cidade Murada não havia nada que oferecesse a alguém uma atividade mais construtiva. Nosso único ponto em comum era uma espécie de tambor que eu havia dado a ele. Mas ele se mostrava muito satisfeito. mas não tinha o menor senso de ritmo. E para dificultar ainda mais as coisas. A medida que os dias iam passando. Desde que se entendeu por gente. Viviam num pardieiro. já que eu não falava uma só palavra de cantonês. na qual se batia com baquetas. na Cidade Murada. Isso seria um pouco difícil.

embora não se tratasse de um sentimento que devesse ou pudesse ser retribuído. e. E eles tinham de trabalhar nas indústrias de plástico. e até mesmo ridículo. Pouco depois. Mas os adolescentes não tinham nada. saíam de casa e iam viver com outros jovens em cômodos miseráveis. As crianças menores. Muitos rapazinhos. com uma formação das piores possíveis. Cheguei a um ponto em que estaria disposta a dar minha vida por ele. obviamente. e até mocinhas. para o qual sempre tinha desejado alguma forma de retribuição. Era como se Deus tivesse me concedido um amor especial por ele. sendo eu crente. Mas eu realmente o amava e orava por ele constantemente. isso teria que terminar em casamento. onde ganhavam pouquíssimo.que qualquer amor por um rapaz tinha que ser de natureza romântica. Meu bom-senso dizia que ele era um rapaz feioso. pelo menos. e diferia bastante do amor que eu sentira por outras pessoas. vim a compreender o que se passava comigo. e fiquei bastante surpresa. Mas. tinham a chance de freqüentar uma escola primária. isso era impossível. naquele caso. Era um amor que tinha por objetivo o bem dele. Dentre os vários grupos humanos necessitados que pululavam a Cidade Murada. . não tendo nenhuma atividade. Algum tempo depois. que eu deveria demonstrar. caíam na senda do crime. o mais desatendido era o dos adolescentes. Era praticamente impossível estudar num ginásio.

toda a China fora convulsionada pelas atividades da Guarda Vermelha. Meu plano era termos um salão que abrisse todas as noites. que alguns rapazes da Cidade Murada estavam sendo pagos para participarem do tumulto. Então. Percebi então que poderia convencê-los a fazer um piquenique. Ainda dava para contar nos dedos as palavras de cantonês que eu sabia. — Ótimo! Há anos estou orando por isso. e aos sábados e domingos. as quadrilhas é que lhes ofereciam a única forma de ocupação possível. Vim a descobrir. Houve tumultos por toda a colônia. num dia úmido de junho.Muitas vezes. que iriam avançar sobre a cidade com um programa de ação mu. Seria um lugar onde os rapazes pudessem jogar tênis de mesa e engajar-se em outras atividades saudáveis. todos escolhidos a dedo. assistindo e aplaudindo. Eu imaginava o trabalho sendo realizado com o auxílio de uma equipe de obreiros cristãos da ilha de Hong Kong.'to bem planejado. enquanto eu ficava sentada. Quando pretende começar? A semana que vem? Começamos uma semana depois. Mas Tia Donnie tinha uma atitude mais prática. Aquela "epidemia" chegou também a Hong Kong. Não contava com . porém. Durante o verão de 1967. mas igualmente um lugar onde ouvissem falar de Jesus. disse a Tia Donnie em tom bastante pomposo: — Acho que Deus está querendo que eu organize um clubinho para jovens.

ao pensar que os rapazinhos poderiam envolver-se mais nos tumultos de rua. De reuniões apenas aos sábados. Chan Wo Sai largou a escola. e que em toda a programação sempre haveria uma pequena palestra no início. tornando-se um esteio para mim. um jovem chinês que eu conhecera na Orquestra Juvenil. Eles não gostavam muito de ouvir falar de Jesus. com piqueniques. Alguns jovens me disseram que não poderiam ir ao clubinho. começaram as férias.minha equipe escolhida a dedo e não tínhamos um local para nos reunirmos. Nem ao menos sabiam direito quem ele era. ou ia patinar conosco. acompanhava-nos nos piqueniques. veio em meu auxílio como intérprete. E Gordon Siu. Mas passamos a usar uma sala da escola nos sábados à tarde. Estando com quinze anos. e sabemos que os crentes não fazem essas coisas. Todos sabiam que eu estava ali basicamente porque era cristã. era um dos . passamos a ter um completo programa de verão. Pouco depois. e. resolvi ampliar ainda mais nossas atividades. — Nós bebemos e fumamos. E nos anos que se seguiram realizamos o mesmo programa em julho e agosto. Ele me ajudava a alugar ônibus. caminhadas a pé e visitas às plantações do refloresta-mento. Pouco depois. Os primeiros a aparecer foram os adolescentes de treze e quatorze anos. vamos ao cinema e jogamos. que traziam também seus amigos de fora.

a não ser que fossem bastante dóceis. ou porque já passara da idade. porque não conseguíamos controlá-lo mais. disse um deles. — Olha. pelo menos. Diziamse cristãos apenas para conseguirem o emprego. ou porque não falava inglês. porém. Ele resolvera não concluir o ano. onde pudesse aprender algum ofício. Jackie. quando se reuniam para orar. tentei persuadir o garoto a voltar. que ele não se qualificava para nenhum deles. Por fim. largar a escola primária era uma coisa terrível. Viemos a descobrir. Durante todo o período das férias. ou porque não tinha terminado o primário. Fora aberto um novo cinema. ele resolveu ir conversar com os professores. e ele conseguira um emprego de vender ingressos. e eram incapazes de controlar quaisquer alunos. ficamos muito satisfeitos quando ele decidiu sair. mas eles se recusaram a recebê-lo. A única alternativa que restava a Sai era fazer um curso profissionalizante. em seus estudos. intercediam por alunos difíceis e problemáticos como Chan Wo Sai.mais velhos alunos do quarto ano. Para a inexperiente professora inglesa. Todas as . Achava-se com quatro anos de atraso. Pois que vá! E era uma escola missionária! Os professores eram crentes. Mas a verdade era que a maioria deles mal havia completado o segundo grau. e eu imagina que.

Mas nem nas quadrilhas nem em meu clubinho. a única perspectiva de vida para ele era vender ingressos no cinema. Ninguém obtinha lucros com ele. Tanto na igreja como na escola. Um salão com alguns joguinhos tais como mesa de pinguepongue e alvo para dardos. As duas filhas mais velhas . e a família toda vivia numa das piores casas que já vi. Vários dos seus amigos que paravam de estudar iam para as quadrilhas. Tivemos de mudar várias vezes. O que iria suceder-lhe? Parara de estudar e. não era controlado por chefes de quadrilhas. embora ele tivesse apenas quinze anos. consideração e amizade. eles escutavam palavras de condenação ou rejeição pelo fracasso. Tinham sua posição certa e eram tratados como uma pessoa importante. alguns bancos toscos e uma estante com alguns livros evangélicos". Não havia nada mais que eu pudesse fazer por ele. O nosso Clubinho Jovem era realmente bem diverso de tudo o mais que havia na Cidade Murada. ao que parecia.portas se fechavam para Chan Wo Sai. a não ser manter o clubinho em atividade. mas era sempre o mesmo. o que não achavam em nenhuma outra parte. Encontravam ali até um pouco de carinho e afeto. Sentiam que ali tinham uma função na vida. Outro rapaz que vim a conhecer bem naquela época foi Nicholas. Tanto o pai como a mãe já tinham sido processados por venda de drogas. o sucesso nas provas era sinônimo de valor e integridade.

Mas nada disso o tocava para que se modificasse. exercia uma influência negativa sobre os outros alunos da escola. a mentira e a corrupção eram coisas certas. do mesmo modo que Chan Wo Sai. e . embora isso fosse absurdo. dizia a mãe. Mas eu o amava. Mas as pessoas que assim pensavam assumiam uma atitude de moralidade em minha presença. acompanhava-o à delegacia. Interessava-me bastante por ele. do Sistema. Resolvi então fazer-me amiga dele e visitá-lo seguidamente. Vim a compreender depois que naquele lugar de tamanhas trevas não havia a noção do conceito de retidão. pois ele. Encontrava-o nos antros de droga.eram prostitutas. Na opinião deles. E todos moravam em apenas um cômodo pequeno e malcheiroso. — Nicholas é um menino terrível. E achavam que tal atitude era correta. Naturalmente eles sabiam que suas irmãs eram meretrizes e o pai viciado em ópio. Eu sabia que o rapaz tinha má conduta e estava sempre dando trabalho. Os membros da igreja não gostavam de Nicholas. já que eu era representante da Igreja. e ali orava por ele. repreendendo-o bem na minha frente. desde que dessem lucro. O crime. o fato de eu receber Nicholas em nosso clubinho implicava em descrédito para o bom nome da igreja cristã. o que também não fazia muito sentido. e. quando era preso. Jesus viera ao mundo por causa de pessoas iguais a ele. Eu não devia nem ser vista em companhia dele.

O noivo era for-gei.depois se lamentava: não sei por que meus filhos são todos uns perdidos. Não se tratava do que era certo e errado. afinal. Por que deseja que eu reclame? — Porque deixaram as de heroína funcionando. mas justo e injusto. e estava furioso. e pagamos a eles a mesma quantia que os outros. acabou fazendo um bom casamento. Isso não é justo. Certo dia. pois o rapaz tinha seu próprio carro. Annie. E sua mãe também ficou encantada. disse ele muito encolerizado. — Poon Siu Jeh. fazendo a arrecadação do dinheiro do suborno. E ela era uma pessoa que preparava os saquinhos de heroína para vender aos viciados. — E por que eu deveria reclamar? indaguei. também se tornou prostituta. . Era proprietário de um salão de consumo de ópio. quando eu caminhava pela rua. um velho correu ao meu encontro. Tempos depois. — Por que fecharam todas as salas de ópio. um homem muito importante na Cidade Murada. você tem que reclamar na polícia. Annie ficou muito feliz de se casar com ele. uma das meninas mais novas. respondi. Tinha o rosto esquelético dos viciados em ópio. mas também trabalhava para a polícia. Mas. — Mas estou muito satisfeita de saber que fecharam as salas de ópio.

Podia conversar à vontade com os amigos do irmão. Não tinha nenhuma ligação clara com o crime organizado. como Nicholas e Chan Wo Sai. seu pai casou-se de novo. causou-nos muitos problemas. Depois. Aos quinze anos era muito bonita. tipos como Nicholas começaram a freqüentar seu cômodo. Quando ele estava com seis anos. Então Joseph e sua irmã Jenny tiveram que sair mendigando. . Senti que. e estava-se deliciando com a liberdade que tinha. passando a noite ali. e como a madrasta não gostasse dos enteados. Mas um pastor de Novos Territórios os apanhou e enviou para a escola da Tia Donnie. Mas achei que Jenny poderia vir.Joseph foi um dos primeiros presidentes do clubinho. e durante o período em que esteve conosco. ela iria fatalmente acabar tomando o caminho inevitável. e seu quartinho se tornou uma "incubadeira" de quadrilheiros. morando comigo. já que havia outra moça da Cidade Murada. Convenci-a a sair de lá para ficar conosco. se continuasse morando com ele. sua irmã foi morar com ele. não lhes dava o que comer. Passei a visitá-los com regularidade. mas o desejo da moça era voltar para a Cidade Murada. Não poderia abrigar a ambos em minha casa. sempre que conseguia algum. Depois de terminar o curso primário. A irmã também estava correndo perigo moral. Joseph arranjou um quarto para morar e pôs-se a trabalhar em serviços pesados. Arranjei uma escola secundária para ela. Rachel. Pouco depois.

e seu dinheiro também era entregue à mãe. Todos os filhos tinham que ajudá-la. naturalmente. que.Outro rapaz que freqüentava assiduamente o clubinho era Christopher. Aos treze anos fora trabalhar numa fábrica de artigos de plástico. como um alçapão. E depois que chegava do serviço. Quando fazia uma blusa de frio. Nele havia apenas dois beliches e todos dormiam naquelas duas camas. Para se chegar lá. A ambição dos pais era aposentarem-se e serem sustentados . pregando lantejoulas em roupas. com os quais a mãe dele trabalhava. Era apenas um cômodo. A porta era aberta de baixo para cima. Subia-se uma escadinha de madeira. seriam de sua mãe. ganhava mais três dólares. descia-se por uma ruela escura. que morava num casebre. tinha que trabalhar mais. onde não penetrava a luz solar. por exemplo. O resto do aposento estava ocupado por imensas pilhas de artefatos de plástico. Era uma tradição dos chineses. ganhando mais ou menos um dólar por dia. os pais e seis filhos. Assim Christopher começou a trabalhar. e estava-se na casa dele. havia alguns galinheiros feitos de engradado de refrigerantes. Era ali. A filha mais nova nem chegara a terminar a escola. Uma cortina servia de tapume para o canto onde a família dormia. Em determinado ponto. E todo o dinheiro que ganhava tinha que ser entregue à mãe. uma lei não escrita: os filhos tinham que pagar aos pais pelo sustento deles recebido.

a irmã mais nova de Christopher. Sendo as meninas tratadas assim. e olhar os irmãozinhos. pois nunca ficavam com ele. mas também um rombo nas finanças dela.pelos filhos. fugiu de casa e foi morar com o rapaz. Os jovens chineses não tinham nenhuma satisfação ao receberem seu pagamento. ou então montar as peças dos objetos de plástico. comprou um apartamento para si. fora da Cidade Murada. afinal se rebelou contra aquela exploração. Os pais retinham tudo. sim. O que ela fizera significava não apenas vergonha para a família. A mãe de Christopher foi assim ajuntando dinheiro e. mas. não deveria existir para ela. como se fossem bens particulares. Muitos casais chineses têm família numerosa por razões econômicas: para que fiquem ricos ao envelhecer. em sua maior parte. Conheceu em sua fábrica um rapaz que gostava dela. A menina tinha que ficar em casa. a garota. . com quatorze anos. recreativas. mais tarde. pois as atividades dele eram. A mãe conseguiu pegá-la de volta e trancou-a em casa. Também não permitia que ela freqüentasse o clubinho. Tive a impressão de que a afeição familiar não se baseava em um amor mútuo. O divertimento. em interesses econômicos. Finalmente. ou buscar água. não é de se estranhar que caíssem na prostituição para se libertarem. mas a mãe proibiu o namoro. pura e simplesmente. Ah Lin.

para que vissem quem Jesus era. Se não conseguiam compreender as palavras que pregávamos sobre Jesus. Implicava em viver diante deles de maneira prática. tínhamos que demonstrar na prática quem ele era. não era isso que tinham em mente. Sicrano. quando um dos rapazes me pediu que ajudasse sua irmã a conseguir matrícula numa escola secundária. seus familiares e seus problemas. e o conhecessem. Fui-me envolvendo cada vez mais com os rapazes. eu sou fulana de tal. então nós. O processo normal era ficar na fila um dia inteiro. Parecia que havia muitos cristãos que não se importavam de andar a primeira milha. . Será que poderiam admitir aqui essa menina? Mas não fiz isso. como todo mundo.Minha tarefa era fazer o povo da Cidade Murada entender quem fora Cristo. muitos que não se dariam ao trabalho de andar duas e nenhum que quisesse andar três. os crentes. Entrei na fila. Aquele povo ali precisava que se andasse com eles uma maratona. Um exemplo desse tipo de conduta foi o que se deu. pois quando haviam pedido meu auxílio. Aquela família esperava que eu simplesmente fosse à diretora e lhe dissesse: — Olhe. pelos nossos atos e conduta. Então iniciei o que eu chamava de "andar a segunda milha". e eles ficaram muito espantados. apenas para pegar um formulário para fazer o exame de admissão. conheço o Dr.

Eu só podia dar esse tipo de ajuda durante as férias. estou sem emprego e meu dinheiro acabou. não tenho igreja. sim. Os diálogos eram quase sempre mais ou menos assim: — Poon Siu Jeh. — Ah. Tratavam-me como haviam tratado outros missionários. se ficassem em meu grupo. — Tem. Estavam constantemente pedindo dinheiro emprestado. Eram os "crentes da sopa". — Não. Você tem uma igreja na América que a sustenta. E não acreditavam. — Mas eu não tenho dinheiro. crendo que eu fosse uma presa fácil. qualquer dia desses você pega um jato e volta para sua terra. — Não. Mas durante muito tempo. talvez conseguissem um certificado de batismo ou um documento qualquer que lhes possibilitasse emigrar para os Estados Unidos. mas você deve ter sim. não existe a menor probabilidade de isso acontecer. pois não tenho dinheiro para a passagem. Você é muito rica. Mas não sou sustentada por igreja nenhuma. — Não. — Ah. respondia eu com toda a sinceridade. muitas pessoas se agregaram a mim simplesmente pensando que. . não tenho dinheiro nenhum. E eu vim da Inglaterra. pois estava dando aulas de música em tempo integral no Colégio AngloChinês para meninas. quando eu lhes dizia que não o tinha.

cantavam lindos hinos sobre Jesus e depois pegavam o avião e iam embora. Ficam aqui um ou dois anos. para aplacarem a consciência. e depois se esquecem completamente de nós. . e seus comentários eram sempre mais precisos. E hoje ele iria dizer uma coisa que todos eles pensavam. Mas Ah Ping sabia falar. Mas continuam bem. Ah Ping entrava na conversa. Mais cedo ou mais tarde. na sua pátria. Esse Jesus chama vocês de volta para fazer outro trabalho. você também irá embora. Não temos para onde ir. replicava. — Não. continuou ele. — Vocês. se quiser. — Meus pais também não têm muito dinheiro. morando em belas casas. Nós não podemos. Ah Ping. enquanto nós continuamos vivendo aqui. vêm aqui e falam de Jesus para nós. Ele pensava um pouco mais que os outros. podem pegar o avião e ir embora. Mas vocês. É verdade que lá muitos conseguem angariar bastante dinheiro para nós. Aquela altura.— Então seus pais lhe mandam dinheiro. Era um forte libelo contra aqueles evangelistas que chegavam a Hong Kong. mas sempre pode ir embora. com geladeiras e empregados. os ocidentais. e depois vão embora. — É. Não estou pensando em ir embora e esquecer vocês. quando se entusiasmava. os ocidentais. povos mais carentes. talvez você não tenha dinheiro mesmo.

E eu continuei a pregar. eles acenavam a cabeça afirmativamente. não sabem nada. E não nos conquistam tampouco. É muito fácil para eles cantar hinos que falam de amor. pois a maioria nem tinha idéia de quem era Jesus. — Ótimo! Muito bom! diziam. . como eles. dizia Ah Ping.— ótimo. Mas isso não significa nada para nós. mas não pareciam entender nada. se também pudéssemos pegar um avião e viajar pelo mundo todo. mas o que sabem a nosso respeito? Nada. Houve ocasiões em que tentei conversar com os guardas das salas de jogo. dizendo que Jesus poderia dar-lhes uma nova vida. ótimo para eles e para nós também. Teríamos muito prazer em crer em Jesus. E não significava mesmo. e do que fosse amor. mas quando mencionava que Jesus os amava.

Fez os cegos recobrarem a visão. na verdade. os surdos. e começaram a influenciar-me a tal ponto. a audição. e os mortos voltarem à vida.5 Luz nas Trevas Jesus não apenas afirmou que era Deus. Muitos deles tinham vivido sempre na China e se sentiam meio desarvorados. Alguns ainda tinham certos ranços culturais. estava bem livre de . que passei a me preocupar com detalhes tais como se devia usar vestidos sem mangas ou se devia ir nadar aos domingos. mas eu não as estava vendo. Alguns cristãos diziam que estas coisas ainda aconteciam em nossos dias. ele demonstrou isso. e. Meus amigos missionários não podiam auxiliar-me muito nessa questão. Eu não pertencia a nenhuma missão.

gostaria de recebê-la. Não falavam inglês muito bem. Contudo. tive vontade de saber por que eram tão diferentes. Havia ali uma mesa sobre a qual se viam um prato com laranjas e outro com pedaços de flanela molhada. Imediatamente. As laranjas eram usadas tradicionalmente pelos chineses para qualquer comemoração. e eu mal falava chinês." Mas estava claro que aquele casal tinha algo que eu não tinha. infrutífera. e eu o reconhecera. Ligeiramente indignada repliquei que o tinha sim. O apartamento deles. Então combinei visita-los em seu apartamento no dia seguinte. disseram. e deixaria para depois a nomenclatura teológica. ao passo que eu preferia outra expressão. e os pedaços de flanela eram para quando eu chorasse. estava me sentindo tolhida. — Você não possui o Espírito Santo.imposições. e percebi neles uma vitalidade e um poder que eu desconhecia. apesar de não ter entendido bem a mensagem. . como milhares de outros da cidade. Eles denominavam-no possuir o Espírito Santo. Lá conheci um casal chinês que iria dirigir o culto. pensei comigo mesma. "É lógico que possuo o Espírito". se Deus tinha outra bênção para mim. Mas. "Se não o tivesse não poderia crer em Jesus. Certo dia fui tocar harmónio na Capela. tinha apenas um cômodo.

. suave e coerente. Parecia-me maravilhoso ter uma nova língua na qual pudesse expressar a Deus todos os pensamentos. e não eu.Senti meu coração pulsar com força. embora um pouco surpreso de não me ver chorar. e eles impuseram as mãos sobre minha cabeça e começaram a falar repetidamente: — Agora comece a falar. pois não sabia exatamente o que iria acontecer ali. estava-me sentindo cada vez mais envergonhada. e abri a boca para dizer: "Ajudem-me!" Foi aí que começou. O casal chinês ficou encantado ao ver que eu falara em línguas. Mas eles . Não tive a menor dúvida de que tinha recebido o sinal.. além de um grande desconforto e muito calor. percebi que estava falando fluentemente uma língua que nunca aprendera. agora comece a falar. ele teria que fazê-lo. se nada acontecesse. mas fechei a boca firmemente. Mas não aconteceu nada. No grupo de West Croydon havia algumas pessoas que falavam línguas estranhas. mas ninguém gostava de conversar muito sobre esse dom. Era uma língua muito bela. bem articulada. Contudo. Eles iriam ficar muito desapontados. Então me sentei. agora comece a falar. Se Deus quisesse dar-me o dom. Logo que fiz aquele esforço consciente para abrir a boca. Mas não me sobreveio nenhuma alegria esfuziante. não consegui me conter mais. Foi totalmente desprovido de emoção. Afinal.

alguém em Hong Kong que pudesse dar-me umas explicações sobre isso. Lera livros que haviam-me deixado com a impressão de que aquela experiência iria fazerme andar nas nuvens. A experiência não havia mudado em nada a minha vida . Eu não tinha dúvida nenhuma acerca da validade e do uso deles. Os missionários pentecostais informaramme que haviam feito um acordo com os demais evangélicos de não conversarem com outros sobre os assuntos em que divergissem. Quando estava à porta. mas não sabia quando uma pessoa reconhecia que os possuía. aconteceu uma coisa muito perigosa que ocasionou divisão nas igrejas. Ainda me sentia um pouco constrangida. tinha vindo de Deus. Mas não entendi bem o que quiseram dizer. disseram-me: — Agora você pode esperar que os outros dons do Espírito vão aparecer também. como isso poderia ser perigoso? Com o passar dos meses. em tom sombrio: — Na China.choraram um pouquinho. e saí assim que pude. Outra coisa que me intrigava um pouco era o fato de não estar dominada pela emoção. comecei a pôr de lado a questão toda. Na semana seguinte. mas não encontrei ninguém. Alguns amigos missionários me disseram. todos os dias. falando só sobre Jesus. Procurei. Mas o ensino sobre os dons estava na Bíblia. ficava esperando que o dom de cura ou o de profecia surgissem de repente. Eram os dois únicos dons do Espírito de que eu ouvira falar. então.

conhecer a situação da igreja aqui. é um dom do Espírito. Eles deveriam. Sentia-me uma autoridade na questão de reuniões de oração da Colônia. E foi então que fiquei conhecendo Rick e Jean Stone Willans. Não vejo nele muita utilidade. na primeira vez que ouvi falar do casal Willans. a filha Suzanne e uma amiga. — Está bem. então parei de orar. primeiramente. mas parecia que não estava conseguindo nada. Jackie? indagou Jean. Mas uma amiga minha. Não me ajudava em nada. dizendo que seria uma reunião carismática. todas as noites ia a um culto qualquer. vou freqüentar durante algum tempo. Senti como se tivesse sido enganada. Ainda continuava rondando a Cidade Murada. Era um casal americano. Eu mesma tenho reuniões todos os dias. respondi. procurava ajudar as pessoas." Já haviam-se passado dois anos desde que eu chegara da Inglaterra. — Mas isso é um grande erro. Gail Castle. Ora em línguas? — Para dizer a verdade não o faço. e um ano que eu supunha haver recebido "o dom do Espírito". "Hong Kong não precisa de mais reuniões de oração. — Você tem o dom de línguas. Eles iam realizar reuniões de oração.espiritual. que acabara de chegar a Hong Kong. disse ela. A . "Quem eles pensam que são?" indaguei comigo mesma. Não se trata de um dom de emoção. Clare Harding. para satisfação própria. insistiu em que eu fosse.

Senti-me meio ridícula. Deus me falou: — Você não quer ser ridícula por amor a mim? Entreguei os pontos. — Está bem. onde um estranho poderia entrar e pensar que estavam todos loucos. Senhor.mesmo tempo. sugeriram que orássemos juntos em línguas. Mas nós três ali não iríamos escandalizar ninguém. Quando acabamos de orar. Meu coração estivera clamando pelo Senhor. dizendo coisas que não entendia. como se estivesse nas profundezas de . Jean falou que Deus lhe havia dado a interpretação do que eu dissera. eles pararam de orar e eu fui impelida a continuar. Iríamos simplesmente orar a Deus numa língua que ele nos concedera. pois a Bíblia ensina que as pessoas não podem falar línguas em voz alta. orando em voz alta. para meu espanto. Não houve jeito de escapar. isso não faz muito sentido para mim. Explicaram que Paulo se referia a um culto público. todas ao . mas como foste tu quem inventaste esse dom. em língua estranha. E em seguida. Mas quando pensei que estava para morrer de vergonha. Portanto. exercite-o. e então nos pusemos a orar. Faria qualquer coisa para não estar ali. em dado momento. diante daqueles americanos. não se importe muito com o que sente. E assim ela e Rick me fizeram prometer que iria orar em minha língua celestial todos os dias. ele deve ser bom. Eu não estava muito certa se isso era correto.Bíblia ensina que aquele que ora em línguas é edificado espiritualmente. Mas.

Depois compreendi o que havia acontecido. porém. e ele no pico das montanhas.um vale. Eu estava falando de Jesus a pessoas que realmente desejavam ouvir. passei a orar todos os dias na linguagem do Espírito. e me conduzas às pessoas que te desejam. Peço-te que ores por meu intermédio. Eu lhe dirigira palavras de adoração e suplicara que ele me usasse. Aceitei o fato de que ele estava-me ajudando a aperfeiçoar minha comunhão e súplica. e pensei que tinha descoberto. A princípio. Mas. criam nele. Antes de fazê-lo. E não poderia orgulhar-me de nada. não sei orar e nem por quem devo interceder. Tomei a decisão de nunca mais desprezar o dom. Só poderia maravilhar-me de ver como Deus permitia que eu tivesse uma pequena . comecei a notar que acontecia um fato maravilhoso. uma nova e excelente técnica de evangelização. não entendi direito. eu dizia as mesmas coisas que antes. Deixara que Deus participasse de minhas orações e isso tivera um resultado direto em meu trabalho. E. Mais ou menos um mês e meio depois. na verdade. quando orava na língua que ele me dera. se Deus me ajudasse a orar daquela maneira todas as vezes em que o exercitasse. dali por diante. Eu estava pedindo a Deus que realizasse sua vontade por meu intermédio. por acaso. As pessoas com quem eu falava de Cristo. eu dizia: — Senhor.

Ela veio. Em . o rapazinho fitou os quatro membros da famigerada quadrilha 14K que avançavam para ele ameaçadoramente. que possuímos em Cristo Jesus. E aí veio a emoção. mas a partir de então eu começava a ver os milagres que ele estava operando no mundo hoje. Passei a conhecer melhor os Willans. Ao me converter. e eles se me tornaram ótimos amigos e conselheiros. Experimentei mais uma vez a gloriosa liberdade de viver. eu aceitara o fato de que Jesus havia morrido por mim. 6 As Quadrilhas — Hai bin do ah? De onde você é? Aterrorizado. quando vi os resultados dessas orações.participação em sua obra.

pois acabava de presenciar aquela cena repulsiva. e depois se afastou manquejando. Não havia meio de escape. — M'gong? Não quer falar. tremia demais. Aquilo dava enorme satisfação aos membros das quadrilhas. O que aquele rapazinho fez a vocês? . enquanto ele seguia aos tropeções. que torna o soco preciso e mortal. hein? Ah Ping. Ele gemia. como que deliciandose sadicamente com o pavor que lhe inspiravam. O menino caiu. Eles estavam no controle de tudo que se passava ali em seu território. e se contorcia. Mas o rapaz não conseguia responder. ironizando seu medo. peito e virilha. chutando-o. O primeiro soco veio com grande rapidez. Foi aí que fiquei sabendo que o salão que eu alugara situava-se bem no meio da área controlada pela 14K. mas não disse nada. Eles o atormentavam. sem a devida proteção. Então os outros foram empurrando-o rua abaixo. e atingiu-o nas costelas — o treinamento que os chineses têm no kung-fu produz grande flexibilidade e economia de movimentos. Ficou então sabendo o que acontecia. avançando lentamente. o porta-voz da turma. quando alguém entrava em território inimigo. estavam indagando a qual daqueles grupos ele pertencia. — Por que fizeram isso? indaguei.gíria da quadrilha. aproximou-se mais até ficar a um passo dele. O rapaz estava encurralado num dos becos da Cidade Murada. e logo recebeu mais pancadas no estômago.

tinha que jurar que iria seguir seu "irmão" para sempre. Um candidato a membro da Sociedade Tríade poderia pedir a um membro efetivo dela que o deixasse "segui-lo". E esse laço era indissolúvel. e beber sangue. respondeu anuindo. aprender certas formas de aperto de mão e assinaturas. e assim .Ah Ping deu de ombros. Quando um homem entrava para uma delas. o Ging Yu. a Dinastia Ming. Nos dias atuais. todos alegando ser um prolongamento da tradicional Sociedade Tríade. Mas ele não se identificou. a antiga Sociedade Tríade encontra-se degenerada. e temos que mostrar a eles quem é que manda aqui. irmão menor. Nos seus primórdios. Este era conhecido como daih lo. Entre eles contavam-se decorar poesias. Provavelmente é dos nossos inimigos. bem como derramar sangue. e restaurar ao poder a casa governante da China. irmão maior. não passam de quadrilhas de marginais. e o iniciante era o sai lo. Na verdade. o indivíduo que quisesse filiar-se a uma das sociedades tríades tinha que submeter-se a uma série de rituais. que utilizam esse nome e os rituais da antiga sociedade apenas para camuflar suas atividades criminosas. então tínhamos que darlhe uma lição. No passado. — Talvez nada. a Sociedade Tríade era uma agremiação secreta chinesa. cujos membros faziam o juramento de derrubar o governo dos opressores estrangeiros. tendo-se subdividido em centenas de pequenos grupos.

26 e 415. Cada quadrilha possuía uma complicada hierarquia de deveres e posições de liderança. e a quadrilha dele cada área tinha seu próprio dirigente. Mas os quadrilheiros mais temidos eram os da 14K. um grupo tríade poderia . Alguns dos chefes eram identificados por nomes estranhos. os antros de jogatina.° 14. Ali operavam dois grupos principais. O Jing Yu tinha o controle de todas as salas de venda consumo de heroína. e outras vezes apenas por números. Assim. e que controlava o comércio do ópio. n. Seu comando era descentralizado. Dizia-se que ela contava com cem mil membros em todo o mundo. com o objetivo de ajudar a causa da China Nacionalista. e os membros das quadrilhas-irmãs eram chamadas de "primos". no setor oeste da cidade. tais como 489. 438. em Tantão. Mas todos conheciam os chefes principais. A Cidade Murada era sede perfeita para as quadrilhas. Esse nome deriva do fato de ela haver sido organizada na Rua Wah. que cuidava los interesses dela no local. o que facilitava a extorsão de pagamento por proteção.este se tornava seu irmão maior. geograficamente separados por determinada rua. Também recebia o pagamento por proteção. Os membros comuns eram chamados penas de 49. As quadrilhas espalhavam terror por toda a Hong íong. em questão de minutos. bordéis de crianças e outros negócios. filmes pornográficos. e mais sessenta mil só em iong Kong. e explorava a prostituição no setor a este da Rua Principal.

mas. Se um irmão menor fosse preso. Em troca de uma obediência irrestrita por parte do seu sai lo. só caminhavam em seu próprio território. caso necessário. que se achavam restritos a apenas um lado da cidade. Como poderia andar por ali. E foi minha preocupação pelos viciados que mais tarde me aproximou de alguns líderes tríades. envolvendo centenas de quadrilheiros. e. chegando a conhecer o lugar melhor que os próprios marginais. andava por todas as ruas indistintamente. podia organizar ama briga em poucas horas. já que sua ausência diminuía sua utilidade para a quadrilha. drogas e proteção. para que na prisão ele recebesse comida. Enquanto as pessoas não ligadas às tríades andaram pela cidade "rezando" para não serem detidas. Todas as vezes que . Eu. porém. levando-me a tomar chá com eles. embora fizessem restrições ao uso de drogas. Não fiquei espantada ao saber que Christopher iria ser iniciado numa 14K. o seu irmão maior tinha que tomar providências. Os quadrilheiros que conheci observavam aquela velha máxima de que existe honra até mesmo entre ladrões. quando saíam dela. se não pertencesse a uma quadrilha? Ele freqüentara o clubinho com certa assiduidade.chamar a si dezenas de "irmãos". até mesmo os que pertenciam a Ging Yu ou 14K. depois de certo tempo passou a me evitar. o daih lo lhe prometia proteção.

em sua opinião. estaria aqui na Cidade Murada. disse. conversando com criminosos conhecidos. — Era nas ruas que ele passava grande parte do tempo. Não era hora de me importar com convenções.ta Poon. bem lá na lama. Não é correto dizer a um chinês que ele está errado. Contudo. — Foi por causa dos ricos ou por causa dos pobres? continuei. . eu ia conversando com ele. Começou a jogar e estava sempre em companhia de marginais. E enquanto caminhávamos. esperando que os bonzinhos fossem lá. não queria que eu visse o que estava fazendo. — Jesus ama os bons. e ia numa igreja arrumadinha e limpa. por que Jesus veio ao mundo? Ele não respondeu. desaparecia. Eu carregava meu pesado acordeon e pedi-lhe que carregasse o instrumento para mim. — Mas ele ama os bons ou os maus? indaguei. conversando com as prostitutas e cáftens. Sr. Sabe de uma coisa? Se Jesus vivesse no mundo hoje. — Christopher. — Errado. Encontramo-nos frente a frente. Estava encurralado. à oficina de consertos. — Por causa dos pobres. num beco muito estreito. Chegou o dia em que o apanhei.tentava aproximar-me dele. e ele não poderia dar para trás. sentado naqueles engradados de laranjas. mas eu estava ansiosa para que ele compreendesse o que eu queria comunicarlhe.

classe média. ele se tornou crente. — Porque foi para isso que veio. E sentado ali à beira da rua poeirenta e barulhenta. e então deixamos o acordeon na oficina ali perto e nos sentamos num banco público. Ias logo começaram as chacotas e risos. Estava pasmado com o que ouvira. Rapazes de família ruim simplesmente não se tornavam crentes. Um avião desceu para aterrissar. Não foi para salvar os bonzinhos. Tinha os olhos fechados e falava baixinho. Narrei-lhe a história de Naamã. os perdidos. tínhamos saído da idade Murada e passávamos pela rua do mercado. De repente Christopher parou. a princípio. e concluí: — É muito simples. ele apareceu no clubinho e stemunhou diante dos outros. isso era para moços bons. respondi lentamente. mas agora o conhecia. e lhe pedia que o purificasse. educados. Ele devia estar brincando. o general que fora atacado de lepra. mas para salvar os maus. como se faz em Hong Kong. . o povo conversava em altos brados. Estava confessando a Jesus que falhara em sua vida. A única coisa a fazer é buscar Jesus e ser purificado. Aquela altura. na palavra foi acolhida. dizendo que na semana anterior não cria em Jesus.— E por que ele fez isto? perguntou incrédulo. No sábado seguinte. Os veículos passavam por nós aos roncos. Mas hristopher não estava escutando nada. com silêncio. ele disse que queria ouvir mais.

Passou a trabalhar tão bem na fábrica. no meio aquela gente. E sua decisão foi uma revelação para mim também. Lute contra o diabo com a Bíblia. E recusou-se a continuar com sua iniciação na quadrilha. em cântico. Já estava com o livro de regulamentos que deveria memorizar. e aqueles que o buscassem poderiam encontrálo. e outros rapazes como Christopher também fizeram a decisão de converter-se a Cristo. Jesus estava em Hong Kong também. Continuei a orar em Espírito em minha devoção particular. que me salvas das trevas. Dá-me força e poder Para que eu viva no Espírito Santo. que foi promovido. A transformação que se operou em Christopher foi notável. e aos domingos ia aos cultos na igreja. "O Deus. Uma coisa dessas nunca acontecera antes. tanto quanto estava na Inglaterra. Fale aos pecadores desse mundo E os leve a pertencer a Cristo. Reuníamos para estudar a Bíblia e orar. mas devolveu-. e um dia. Esperamos uns instantes." . muitas vezes. e daí a pouco Christopher começou a dar a interpretação. quando estávamos orando.Mas não estava. Passava todo o tempo livre no clubinho. um deles recebeu uma mensagem em línguas.

e nós os perdemos. Naqueles meses e anos de contato. Certa noite. Não adianta trabalhar por nós. Embora nosso grupinho estivesse crescendo. mas ele não esperou que eu o quisesse. Um desses era Ah Ping. eu chegara a conhecer Ah Ping muito bem. Você arranja estudo ara nós. Nós não prestamos. Nunca mudaremos. não eram gratos.Bobby. — É melhor você ir embora. Consideravam-se pessoas necessitadas. Contudo. Largue este lugar. por que inda fica aqui? — Fico porque foi isso que Jesus fez por mim. ele estava vagando pela rua. também recebeu a mesma interpretação. Eles serão ótimos crentes. um outro rapaz. e supunham que eu era sustentada por uma instituição muito rica. para depois morrer . disse. e não vamos às aulas. e eles não tinham que pagar nada. Eu me sentia meio deprimida. Eram exigentes e agressivos. e já tinha fama de bom lutador. Procure estudantes bem comportados e pregue para eles. Poon Siu Jeh. Então. Arranja empregos. (ão sei por que você não desiste. quando cheguei ao clubinho. Fazíamos piqueniques aos sábados ou acampávamos. Muitos vinham apenas por causa das vantagens que obteriam. Ele ia ao clubinho muitas vezes. Eu também não o queria. e ele percebeu isso. nem todos os rapazes que freqüentavam o clube sabiam ao certo por que eu estava ali. Fora iniciado numa quadrilha tríade com apenas doze anos.

por mim. Ele morreu, morreu por mim, quando eu ainda o odiava. Apenas disse que me amava e que me perdoava. Foi esse Jesus que veio ao mundo e ressuscitou os mortos, que fez milagres e só praticou o bem. E ama você também, do lesmo jeito. A princípio, Ah Ping não disse nada, depois falou. — Não pode ser; ninguém ama a gente desse jeito. Quer dizer, nós... e sua voz ficou embargada. Mas logo em seguida ele prosseguiu: — Quero dizer, nós vivemos estrupando, roubando, brigando, esfaqueando. Ninguém pode nos amar assim. — Pois Jesus os amou. Ele não gosta das coisas que vocês fazem, mas ama vocês. Isso pode parecer stranho, mas ele disse que todas as coisas erradas que vocês praticaram eram dele, e quando ele morreu ia cruz, declarou-se culpado de todos os nossos rimes. Isso é muito injusto, não é? Mas se você lhe entregar todas as coisas ruins que já praticou, ele lhe dará sua nova vida. É como se você lhe entregasse sua roupa suja e recebesse as dele, completamente limpas. Ah Ping estava esmagado. Era difícil acreditar que existisse um Deus assim. E ele se sentou ali e pediu a Jesus que o perdoasse e transformasse sua vida. Ele foi o primeiro quadrilheiro a ligar-se aos Tentes. Quando estava com apenas quatorze anos, ima jovem prostituta ofereceuse para "sustentá-lo" ;m troca de proteção.

Mas a partir de então todo o seu nodo de vida se modificou de forma radical. Todas as noites ele levava seus "irmãos" para o clubinho e me pedia que lhes falasse de Jesus. Os poucos freqüentadores do clube que tinham a vida certinha — os alunos da escola — pararam de ir, pois sentiam que estavam sofrendo discriminação. Eu achava, porém, que havia dezenas de lugares em Hong Kong onde aqueles rapazes podiam receber cuidados e assistência, e então não impedi que se fossem. E foi somente muitos anos depois que conseguimos reunir esses dois tipos de pessoas tão diferentes: os maus e os "bonzinhos". Alguns amigos de Hong Kong vieram a conhecer Ah Ping e o convidaram para dar seu testemunho na igreja, num sábado. — Tome muito cuidado, disse-lhe eu. Satanás não gosta quando uma pessoa fala de Jesus. Provavelmente ele tentará atacá-lo de alguma forma daqui até sábado. Vá direto para casa e não pare em lugar nenhum. — Está certo, está certo, Sr.ta Poon, respondeu acenando afirmativamente, com docilidade. Mas logo que se afastou, rebelou-se. — Diabo? Bobagem. Conheço estas ruas como a palma da minha mão. Cuidado com quê? E foi dar umas voltas, antes de ir para casa. De repente, sete homens saíram de um beco escuro e o atacaram. Eram quadrilheiros

Chiu Chow. Mais tarde, quando Ah Ping me relatou o fato, disse: — Quando eles se aproximaram, ocorreram-me dois pensamentos. O primeiro foi: "Ah, isso é culpa da Sr.ta Poon". E logo em seguida: "Você deve orar." Então ele ficou orando, enquanto os homens o agrediam a pauladas, deixando-o no chão inconsciente. — Logo que comecei a orar, meu pai veio descendo a rua e quando eles o viram, fugiram correndo. Se não fosse isso, teriam me matado. Mas, mesmo assim, ele ficou com um ferimento grave nas costas e um corte na garganta. O pai foi buscar socorro com seus irmãos da quadrilha 14K. Levaram-no ao médico, e este afirmou que ele não poderia andar nem falar pelo menos durante duas semanas. Os irmãos de Ah Ping decidiram vingar a agressão que ele sofrera. Fizeram uma reunião na sede da quadrilha para combinarem um plano de ação. Depois pegaram faccões e disseram a Ah Ping: — Vamos esfaqueá-los, está bem? Falando com muita dificuldade por causa da garganta ferida, o moço replicou: — Não; agora sou cristão e não quero que revidem. Depois ele chamou um ou dois membros de nosso clubinho que eram crentes, foram para lá e puseram-se a orar. Oraram a noite toda pelo grupo que o tacara. Além de orar

pelos inimigos, pediu aos outros rapazes que impusessem as mãos sobre ele e orassem ara que fosse curado. No dia seguinte, estava completamente bom, dando com toda clareza. Aliás, dois dias depois ele falou na igreja. Testificou da mudança que se operara m seu coração e disse também que nunca mais iria menosprezar o diabo. Sabia que ele estava sempre por certo. Mas as brigas de quadrilhas eram um problema que os convertidos teriam de enfrentar com freqüência. Lembro-me de um culto num domingo à noite na Igreja Oiwah. O simples fato de poder ir à igreja era ator de orgulho para aqueles chineses um pouco mais prósperos que os outros. Ergui os olhos do teclado e pude ver alguns professores da escola com os vendedores do mercado e verdureiros. Todos com aparência de gente direita, séria e respeitável. O fato de eu me preocupar com os jovens marginais deixava-os bastante espantados. Não gostavam muito de ver aqueles rapazes na igreja, ao passo que eu ficava lá, sentada, irando para que eles fossem. De repente, a porta se abriu de ímpeto, e os garotos entraram. A aparência deles provocou repulsa na congregação. Mas até eu me espantei, pois eles estavam num estado terrível: sujos de lama e sangue e as roupas rasgadas. Vários tinham arranhões no rosto. Todavia, sentaram-se e permaneceram quietos

durante todo o tempo. Logo que terminou o culto, fui apressadamente até onde se achavam, para saber o que havia acontecido. Ao que parecia, haviam caído numa armadilha. Entraram num banheiro público para se arrumarem um pouco antes de irem à igreja; um grupo de quadrilheiros saltou por sobre os compartimentos e os atacou violentamente com bastões. Vários deles ficaram bastante feridos. Levei-os a um hospital. Estava muito feliz de eles terem me procurado na igreja, após uma luta tão terrível. Ingenuamente, achei aquilo maravilhoso. "Graças a Deus", pensei, "eles não foram procurar seus chefes de quadrilha, mas vieram procurar os cristãos." Pouco depois eu fiquei sabendo que o resto da congregação encarou o incidente todo de uma perspectiva diferente. Estavam enfurecidos pelo fato de os rapazes terem tido a ousadia de entrar na igreja naquele estado, e tão mal cheirosos. Não aceitavam a idéia de que aqueles garotos pudessem tornar-se crentes. Pensavam que uma mudança interior tinha que ser seguida de uma mudança exterior, e que eles logo deviam passar a usar gravata e sapatos de cadarço. E mostravam-se bastante transtornados por eu haver permitido que entrassem na igreja pouco depois de terem participado de uma cena de violência. Pelo que sabiam, nunca nenhum deles se tornara cristão. E quando pedi para que fossem batizados os que haviam-se convertido, a resposta foi um "não" direto. Os rapazes

poderão morrer. e se você os transplantar logo. Jackie. ainda na sementeira. Esses rapazes ainda não estão preparados para isso. separado. precisam da "família" da igreja. terem a direção de um trabalho. — Jackie. acho que esses rapazes precisam de irmãos e irmãs mais velhos. — E. uma delas é bem negativa. mas não concordou. por duas razões. São plantinhas muito tenras. Ele sabia no a geração mais antiga desaprovava a idéia de missionárias. George Williamson. Não quero que pensem. Mas um dia veio à Cidade Murada um velho missionário bastante sábio.precisavam antes passar por um período de provação. mulheres. por que você força esses garotos a virem a Igreja? — Bom. que pelo fato de eu sair com eles. Não seria muito salutar formarmos um grupo de jovens. — Não. continuei. No princípio eu aconselhava os rapazes a freqüentarem a igreja. Achei que ele iria concordar comigo. disse. George deu um sorriso compreensivo. respondi meio hesitante. É muito do para querer . Ele analisou bem o que estava acontecendo e entendeu a toda situação. que estou criando meu próprio grupo. em segundo lugar. embora estivesse bem claro que eram indesejados ali. Ainda não conseguirão suportar as sacudidelas da igreja estabelecida.

Mas a Igreja de Hong Kong ainda não tem estrutura para recebê-los. depois voltavam.que façam concessões a certas atitudes do pessoal da igreja. eles iriam para a rua até terminarmos. seus pensamentos e reações. comecei a ampliar nosso tudo bíblico no clubinho. A maioria dos rapazes vivia em casas pequenas com mais dez pessoas. — Pense neles como mudinhas numa sementeira. Fiquei muito admirada. quando já estiverem bem fortes para suportar os trancos. bastante barulhento. Mas eu nunca poderia ter superado as dificuldades sem o auxílio de Dora Lee. Aí. Nenhum deles tinha uma cama para si mesmo. Nunca havia silêncio e quietude. continuou. Juntamente com outras estudantes. A idéia de ir para um . e jogávamos pinguepongue. e também aos domingos pela manhã. Realizávamos estudos rias vezes na semana. pode replantá-los ai. quanto mais um quarto. Quanto mais eu aprendia. em vez de continuar insistindo para que os jovens se filiassem à igreja. Tínhamos sempre um período de louvor. Assim. Afaste-os daqui e cuide deles até crescem mais um pouco. Se eu falasse em orar. como a Bíblia. Ela me ensinou muita coisa sobre os chineses. Ele estava-me dizendo para criar meu próprio trabalho. mais percebia que nossos métodos de anunciar a mensagem de Jesus Cristo não se aplicavam a todas as partes do mundo. ela me ajudava a fazer as traduções mais difíceis.

"Senhor. Procurei estar em contato com os rapazes sempre que pudesse. Aqueles que sabiam ler. E eles cresceram espiritualmente. Então dei-lhe um exemplar do Evangelho de João e outros livretes. então eu tinha que fazer sugestões práticas. Preciso de mais tempo para ficar em companhia desses rapazes. Mas ele se afastou e não o vi durante dois anos. vez por outra. No entanto.lugar sossegado para estudar a Bíblia e orar. seria uma ironia. Essa lição eu aprendi através de uma dura experiência. ficou meio envergonhado. orar em língua estranha era uma solução prática. Meu trabalho na escola limitava muito o tempo de que dispunha. Comecei a orar pelo problema. Um dos rapazes dissera em oração que desejava seguir a Jesus. Muitos deles não sabiam ler. saíssem um pouco de suas bancas de trabalho na fábrica e fossem ao banheiro para ler alguns versículos. estou muito cheia de ocupações. mas você me deu uma biblioteca. se tenho que selecionar na boa . Precisava de mais horas para estudar chinês. — Eu queria conhecer a Jesus. pois podiam fazê-lo até caminhando por uma rua barulhenta de Hong Kong. sugeri que. por exemplo. encorajando-os a seguir os ensinos de Cristo. Tive que reexaminar alguns de meus conceitos sobre o estudo da Palavra de Deus. Mas isso é impossível. Quando o encontrei novamente e perguntei por que tinha estado me evitando há tanto tempo. Mas o tempo não era suficiente para ver todos eles.

passados dez anos. desejamos oferecer-lhe dinheiro para seu sustento. — E nós só teremos o dinheiro disponível em lho. ainda estou lá. Por favor. se Deus podia dizer a uma pessoa para oferecer-me um cheque mensal equivalente a cerca de quinze libras esterlinas. Compreendi que. queremos oferecer-lhe duzentos dólares por mês. — Jackie. Estávamos em meados de novembro. O telefonema dela foi um grande incentivo para mim. então não seria difícil para ele fornecer-me o restante do que precisava para viver. sem que eu tenha de trabalhar para isso. E se você estiver pensando em largar. percebo e foi naquele momento que resolvi "viver pela fé". de qualquer jeito. Mas senti vontade de telefonar e dizer-lhe isso desde agora. Mas eu e Neil temos orado a esse respeito. ele me daria o . a amiga que me apresentara ao casal Willans. Ninguém sabia que eu estava pensando naquela hipótese. — Bom. se Deus queria que me dedicasse a esse trabalho. Era Clare Harding. replicou ela. eu sei. diz-me se tu o darás. — É. se você resolver deixar de dar aula. Hoje. só sairei em julho." Três dias depois o telefone tocou. queria lhe dizer que. Tu prometeste dar-me o pão de cada dia.parte do dia. Fiquei pasmada. — Quem lhe disse que eu ia sair do colégio? No momento. Tive certeza de que.

e nunca me preocupei nem um pouquinho a respeito do modo mo ele o faria. .sustento.

7 O "Irmão Maior" .

— Está bem. silenciosa. Senhor. Eram cinco horas da manhã. a rua ainda estava vazia. Pensava que aqueles rapazes já me consideravam como uma pessoa do meio deles e confiavam»em mim como amiga. Lá chegando. Os bancos. e vesti-me. espalhado e quebrado. Para mim chega. livros. Afinal consegui um táxi para me levar à Cidade Murada. . Quando saí. tudo tinha sido atirado no chão.Está Olhando por Você Em meu sonho. então não preciso ficar tais nesse lugar. A cena com que me deparei era muito pior do que eu imaginara. se não me querem aqui. Minha vontade foi sentar-me e chorar. Ah Ping. esqueites. Porém atiravam fezes nas paredes do meu clubinho e assim mostravam o que realmente pensavam de mim e do meu trabalho. Alguém arrombou o clubinho e fez uma bagunça terrível. Não me importaria de trabalhar aqui para sempre. Afinal. o telefone estava tocando sem parar. E pior. com voz sussurrada. nem a mim nem a ti. você tem que vir aqui bem depressa. subi correndo as ruelas tortuosas em direção ao clubinho. No fone. se eles conhecessem o que faço. falava rapidamente: — Poon Siu Jeh. a pessoa havia deliberadamente passado sujeira dos esgotos nas paredes e assoalho. Mas. raquetes de pingue-pongue. Estremeci apesar do calor sufocante. Fiz um esforço imenso para despertar.

— Muito breve eles irão perceber que só prejudicaram a si mesmos. minha vontade era chorar e de entregar totalmente à autopiedade. Quero dizer. Mas lembrei-me também do que Jesus dissera: quando alguém nos bate uma vez. Estava profundamente ressentida. E outra passagem que me vinha insistentemente era a que falava sobre dar graças a Deus em todas as circunstâncias. pois parecia que os alicerces de meu mundo haviam ruído. não serão obrigados a receber isso. Num dado momento.não desejo ficar aqui pelo resto da vida jogando pingue-pongue. surgiu um rapazinho que eu nunca vira antes. e encostouse à porta. Não sabia quem izera aquilo. . pela primeira vez. senti medo. mas. Mas eu não estava com vontade de fazê-lo. abri o clubinho como de costume. não de que me agredissem. devemos deixar que os bata novamente. Tinha medo de ser rejeitada pelos rapazes que eu amava e a quem trazia a mensagem de Cristo. Mas passei o resto do dia varrendo e limpando o alão. nem por quê. — Algum problema? indagou. e murmurando entre lágrimas: — Glória a Deus! Glória a Deus! E tinha crises de choro. Senhor. estou fazendo isso por eles. Vamos schar esse clubinho. pois Deus sempre me protegera. se não o querem. das. e fiquei ali tremendo toda. No dia seguinte.

Não podia entender por que enviara um guarda para vigiar o clube. ainda não o conhecia pessoalmente. que bom saber disso. . disse virando a ponta do polegar para o próprio peito. — Goko disse que se alguém a incomodar ou encostar a mão neste lugar. não. As mensagens que eu mandara eram sempre bem simples como "Jesus te ama". Mas quem é você? Quem o mandou aqui? — Foi o Goko. Naqueles anos todos. obrigada. respondeu bruscamente. Era o chefe de uma das ramificações da 14K. o dirigente geral de toda a organização tríade da Cidade Murada. continuou meu protetor. Ele era o irmão maior de todos os irmãos maiores. Está tudo bem. Sabia quem era Goko. falei. — Ah. Um dos irmãos menores que freqüentava o clubinho havia mencionado seu nome para mim com o maior respeito. mas ele sempre se recusava a falar comigo. nós vamos "cuidar" dele. é só falar comigo. eu lhe enviara vários recados. e fez uma demonstração mímica do que dizia. jogo e prostituição da área. Tinha o controle de todas as salas de ópio. das por que pergunta? — Se tiver algum problema. respondi. embora eu conhecesse seu nome.— Não. pegando um facão imaginário e enterrando-o profundamente na barriga de uma vítima também imaginária. Mas. Fiquei abalada. e dizia-se que tinha alguns milhares de irmãos menores por ali.

Seu nome era Winson. . Entretanto. mas não posso aceitar. Não queria de maneira alguma ouvir-me. mas ficaria livre da dependência da droga. Era só trancar o viciado num aposento e deixá-lo lá por uma semana. começou a ceder. Nunca entrava.— Muito obrigada. Jesus já está cuidando de nós. Logo percebi que o amigo era ele mesmo. Somente Jesus. como era obrigado a ficar ali. o Senhor da vida. recebera ordens explícitas de vigiar o clube. Ele sempre ficava encostado de fora da porta do clubinho. É muita bondade de vocês. e pôs-se a falar de um "amigo" seu que era viciado em ópio. Quer fazer o favor de dizer a Goko que agradeço muito. e ficava olhando e escutando os rapazes cantarem nos. Então. e não quero ofendê-lo. Naturalmente ele iria sofrer as agonias do processo de desintoxicação. mas. Então disse-lhe que o ópio não é problema. uma noite. Qualquer um que achasse que Jesus podia proteger alguém na Cidade Murada devia estar maluco. pois sua mente e coração continuavam a desejá-la. Depois de alguns dias. Comecei a falar-lhe de Jesus. logo que a porta fosse aberta iria direto tomar a droga. Disse-lhe isso várias vezes. repliquei. podia remover da pessoa o desejo pela droga. não tinha como escapar. Mas ele continuou a se apresentar todas as noites. O olhar de desprezo que o rapaz me dirigiu foi de quem pensava estar diante de uma louca. como um bom vigia noturno.

Goko. ora liberto enquanto orava. o que significava que pertencia a uma categoria especial de tratador das lutas. eu lhe disse: — Por que você também não entra e vem louvar a Jesus? — Está bem. E não pode mais seguir ao seu irmão maior. louvando a Deus a plenos pulmões.quando o salão estava quase vazio. dentro do meu clubinho. eu lhe disse: — Glória a Deus! Foi maravilhoso! Agora o que você tem a fazer é levar seus companheiros da quadrilha a experimentarem o mesmo. Fiquei espantada com sua aquiescência. Ninguém pode ter dois irmãos . em voz bem alta. pois. Quando afinal ele foi-se calando. Tanto ele como eu sabíamos que estava completamente curado da dependência da droga. Eu nunca tinha ouvido uma oração tão cheia de alegria. O milagre tinha acontecido. Depois. No entanto. o local e a estratégia a ser usada. ajustar a colha das armas. ao que sabia. àquela altura. ele nunca ouvira ninguém falando em línguas. isso me pareceu ainda mais espantoso. disse ele prontamente. pois. Estava cantando n corinho. pois em seguida ele começou a louvar a Deus em língua estranha. ma meia hora depois ele parou. ali estava ele. e pensei: "Onde será que ele aprendeu isso?" E foi um momento extraordinário. pôs-se a orar em chinês. já sabia que seu posto na quadrilha 14K a correspondente ao número 426. Sua tarefa era tratar as brigas.

Era óbvio que ele estava sabendo como os crentes "deviam" agir. e pouco depois estavam todos dominados por um espírito de violência. que julgava terem acontecido por culpa minha. Isso despertou nos seus amigos o desejo de fazer o mesmo.maiores. Era simplesmente uma questão de violência coletiva. Um dos rapazes passara por alguns problemas. vai sim. — Mas nós quebramos tudo por lá. Então eles voltaram. Foi Ah Sor quem me revelou depois o que acontecera no arrombamento do clubinho. — Ah. embora minha tendência tivesse sido fazer exatamente o contrário. Muitos deles nem sabiam por que estavam com raiva. Poon é crente. Vai. Ela não vai nos querer no clube. replicou Goko. e chamou à sua presença os implicados. . ela os perdoará. E foi assim que Winson partiu para dizer ao seu chefe de quadrilha que cria em Jesus. Passara pelo clubinho e começara a berrar e a jogar pedras nas vidraças. Você terá que seguir ou a Jesus ou a Goko. Senti-me muito humilhada quando ele contou o que Goko dissera. e que na noite seguinte fossem ao clubinho e se comportassem muito bem. porque ta a Sr. Ela abrirá as portas para vocês e os receberá. disse um deles. Goko recebeu a notícia daquela agressão a uma casa do seu setor de controle. Poucas horas depois. Não poderá seguir os dois. Ordenou-lhes que nos devolvessem o que porventura houvessem tirado.

No primeiro treino apareceram rca de vinte. há outras em que dou uma tigela de arroz para guém que está com fome. . plicava. mas raramente funcionava. As vezes oramos e louvamos a Deus. Eu havia tentado operar em termos de projetos guiares. sem estrutura fixa. Haviam descoberto que não havia vantagens sociais em pertencer a ele. vieram dez. outras vezes apenas uma. Todos os rapazes gostavam íensamente de jogar futebol e mais de quarenta sram seus nomes. nenhum. Por fim descobri uma frase que descrevia meu ibalho e que impressionava bem. — É um trabalho de jovens. Em certa oca-lo. Alguns assistentes sociais e conselheiros de jovens me perguntaram qual era meu programa de ação. contávamos com um técnico de futebol que dava n treino por semana. Há ocasiões em que fico a noite da aqui com uma pessoa que não tem onde dormir. Tive muita dificuldade em respondê-los. já tinham desaparecido dali. Muitos dos aproveitadores. àquela altura.Reconheci assim que o "Irmão Maior" estava olhando por mim. Procuro travar amizade com eles e conversar. Aqueles moços tinham aprendido algumas coisas sobre Jesus. na outra semana. — Bom. e senti-me mais reanimada pelos rumos que o clubinho estava tomando. e outras imos a passeios. abrimos as portas todas as noites e às vezes aparecem cinqüenta pessoas. e na rceira.

. Havia :asiões em que ficavam de pé setenta e duas horas e . e na itra. e na outra ainda uns dez ou doze. e retendiam ir. que nem sabiam qual era o dia da mana.pois dormiam dois dias seguidos. Eles queriam ir. uns quatro. Os garotos da Cidade Murada levavam uma vida o desregrada. idéia de treinar futebol era bastante interessante.O treinador ficou desanimado e teve vontade de rgar tudo. Trabalhar na Cidade Murada arecia empolgante. Muitas pessoas me procuravam pedindo para au-iliarem no clubinho. Procurei fâzê-lo entender o que aconte-a. emocionante. Logo que percebessem que o técnico estava :almente interessado neles e iria ao campo mesmo ue houvesse um tufão e mesmo que fosse apenas ara treinar com um só. Passavam muito mpo no território da quadrilha. Eu precisava encontrar obreiros que realmente tivessem amor pelas pessoas com quem trabalhavam. nos salões de ópio. ilvez. mais do que pela atividade que exerciam. Se o treinador tivesse ido na semana seguinte. Dormiam de dia e levantavam à noite. mas não tinham autodisciplina. lhe devotariam toda a sua infiança e simpatia. ilvez tivesse encontrado uns dois ou três rapazes. ias ir ao treino era outra questão. logo desanimavam e nunca mais voltavam. Se a atividade ue dirigiam — jogos ou aulas — não tinham boa freqüência. Mas poucos permaneciam mais que algumas-semanas.

ia aos tribunais. ao perceber que muitos de seus "irmãos" o freqüentavam. e resolvera participar daquela nossa atividade. Então a solução foi aprender a tirar cochilos nos ônibus e balsas. Ah Ping sussurrou-me que aquele fora o seu daih lo. da qual eram também muitos dos presentes. Todos os dias. estava em suas mãos controlar todos aqueles rapazes e o clubinho também.Como os rapazes da Cidade Murada. Sai Di ficara curioso a respeito de nosso clubinho. . de aspecto abrutalhado. eu passei a dormir de dia e ficava acordada à noite. visitava os presos e resolvia outros problemas e então ficava acordada de dia também. pois fora eu quem comprara tudo e calculara que seria suficiente para o nosso grupo. pelo menos teoricamente. notei que os nossos rapazes estavam dando a ele a parte deles também. Além disso. continuando a olhar. Fiquei furiosa com ele. e o segundo homem forte de toda a Cidade Murada. Certa noite. ele era irmão carnal de Goko. a única maneira de fazer-me sair da cama era prometer a mim mesma que mais tarde voltaria para dormir. O luar estava bem claro e divisei entre os nossos um rapaz grandalhão. Se quisesse. sentado ali e comendo muito. mas nunca o fazia. Mas. e pareciam magnetizados pelas suas palavras. enchendo-se de carne. O que acontecia na verdade era que eu tinha as aulas de chinês. fizemos um churrasco numa colina das redondezas. o chefe de sua quadrilha. quando acordava.

Mas. ele abandonou aquela atitude e pôs-se a escutar-me atentamente. Uma vez que os interesseiros. quando nos afastamos. escola. E eles começaram a pensar seriamente que talvez Jesus fosse mesmo o . Não importa se a pessoa nos dá comida e graça. mas meu coração estava rebentando de gozo. replicou ele. percebi que os que haviam ficado eram os que mais cedo ou mais tarde se interessariam pelas coisas espirituais. Não cantei de alegria na frente dele. pois os que as realizam não têm nada em comum conosco. — Eu sei. os "crentes da opa". Estamos observando-a há algum tempo. Sempre arranjamos meios para fazê-los desanimar. já teria levado uma surra há mito tempo. tinham saído do clubinho. Muitos missionários vêm aqui a Hong Kong para ajudar-nos. os necessitados. Disse-lhe que meu único objetivo no clubinho era fazêlos conhecer o amor de Jesus.— Será que eu poderia falar com você? indaguei. a nós. O que queremos saber de verdade é se eles realmente se interessam por nós. Por exemplo. Ele achou engraçado aquele convite por parte de uma mulher e levantou-se com gestos apalhaçados. Mas nós damos cabo deles dentro de seis meses. E alguns até ficam famosos por terem vindo aqui. se você fosse homem. Você já está aqui há quatro anos e estamos achando que talvez você seja realmente sincera. Tiram retratos do pessoal aqui para chocar o povo de lá. Essas coisas não significam nada para nós. aula de judô ou de bordado.

Porque ninguém iria passar a vida toda conosco. ontem à noite ficamos um longo tempo conversando sobre você e chegamos a duas conclusões. convertera-se bem a tempo. e fora viver com um policial. E foi assim que Ah Keung também se tornou crente. Trabalhava num salão de jogo. Além disso. ou então o que você diz a respeito de Jesus deve ser verdade. aqui. por tráfico de drogas. estavam viciados também. e. Os três mais velhos foram presos já com a idade de treze. a não ser obrigado. nunca via os filhos durante o dia. disse: — Poon Siu Jeh. Nenhum deles estudou. e eles não receberam nenhuma criação. quando Ah Keung.que se dizia. acabaram todos como membros de quadrilhas. Ele tinha cinco irmãos e todos viviam com o pai. e revelou-se um dos mais entusiastas. quatorze e quinze anos. obviamente. Mas um de seus amigos fora morto numa luta de bandos e ele resolvera mudar-se para a Cidade Murada. Mais tarde. os rapazes tornaram-se caloteiros. Crescendo. os dois mais novos foram presos. O pai era membro de uma quadrilha muito forte. Ou você é espiã do governo britânico. A mãe fugira logo após o nascimento do sexto filho. Certo dia estávamos sentados no clubinho. Ah Keung era o único que ainda não fora encarcerado. Como trabalhasse à noite. . que é conhecido como o 'palhaço" do lugar.

e era exatamente isso que estavam querendo que eu fizesse. — Não podemos levá-lo. Meu primeiro impulso foi transportá-lo para um hospital. na falta de banheiros. ele entrou no clubinho correndo. Então não havia outra alternativa. não havia muito problema de acomodação. pois a rua estava muito escorregadia. procurando ir com muito cuidado. como normalmente dois ou três sempre estavam presos. Jesus dissera que tinha vindo ao mundo para curar as feridas. Estava diante de mim a tarefa de limpar as feridas e tratar dele. Ele é de uma quadrilha. Tinha que socorrê-lo. Os jogadores utilizavam aquele beco para se aliviarem. Falei-lhe do amor de Jesus. E vão descobrir que é viciado. e disse que eu tinha de ir à sua casa imediatamente.Uma noite. disseram os outros em coro. O quartinho onde moravam era muito pequeno para todos eles. Fora brutalmente surrado. será interrogado pela polícia. Não respondeu nada. com os braços e pernas cheios de vergões e ferimentos. e as roupas ensopadas de sangue. ofegante. Corri rua abaixo. vi que o irmão mais velho estava injetando heroína em si próprio. Quando ali entrei. Se o levarmos para o hospital. mas. mas senti que . e comecei a tratar do homem. Deitado no chão. Falei ao ferido sobre isso. Peguei um balde com água e algumas ataduras imundas. estava um homem.

quando escutei um deles. Qualquer hora do dia ou a noite que você ligar. fiquei mais ligada à família de Ah Keung. mas nem sempre culpados dos atos pelos mais eram presos. Um ou dois anos depois. como você sabe. eles eram criminosos. Sai So. estava saindo da Cidade Murada. o vosso trabalho não é vão". Parecia-me um erro muito grande me confessassem crimes que não haviam cometido ou legassem participação naqueles em que realmente estavam envolvidos. comecei a crer quando declaravam que eram inocentes de alguns delitos de que lhes acusavam. Enquanto me dirigia para casa. pois. Alguns dos piores criminosos de Hong Kong sabiam que o nome de Jesus era Verdade. voltou a nos procurar. Ali estava eu tendo o privilégio de ver os frutos. A única coisa que você tem de fazer é falar a verdade. A medida que os fui conhecendo melhor. . a Sr. ia pensando: "no Senhor. ta Poon irá auxiliá-lo. Após este incidente. Não importa se você cometeu o crime ou não. na maior parte. — 83-3179.compreendera. A maioria dos moços que eu conhecia estava constantemente sendo presa e levada a julgamento. pois eu própria ia verificar is álibis deles. Uma noite. ela é crente. dizia ele. Guarde bem esse número ara o caso de você ser preso. Visitei os que estavam presos e tentei arranjar emprego para quando fossem soltos. É claro que. dando meu telefone para um outro viciado.

Isso acontecia muitas vezes. poderiam tê-lo detido e interroga-lo. Eu tinha consciência de que os moços haviam praticado muitos crimes. Se quisessem. Comecei a pedir aos rapazes que sempre dissessem a verdade no tribunal. quando caminhava ao lado de Ah Ping fora da Cidade Murada. Ou poderiam até levá-lo preso. desde que falassem a verdade. pois via pessoas apontando para mim e dizendo: — Lá está aquela boba daquela crente. E onde você está? . — Johnny acaba de ser preso.Várias vezes. culpados ou não. Venha para a delegacia depressa. os pecadores. sentada com os marginais. Mas a vergonha dessa situação ajudou-me a compreender o admirável sacrifício de Cristo. Isso me levou a ir muitas vezes aos tribunais e passar ali várias horas. ouvi-o dizer: — Fffffiu! Andei a rua toda e não fui preso! Tinha avistado um ou dois detetives que o conheçam. — Como você sabe disso? indaguei. e atribuir a ele um :rime qualquer. e em minha sala estavam várias moças e rapazes que ali se achavam orando. quando publicamente se associou conosco. disse ele. mas estava sempre disposta a ir lá e me sentar com eles ali. Certa noite recebi um telefonema de Mau Jai. Eram quinze para as oito. partilhando da vergonha daqueles criminosos.

— A senhora pode voltar para casa. em troca de um dinheirinho. pedi para vê-lo. disse-me o sargento de plantão. Fora acusado de estar com uma chave de fenda com a intenção de entrar num prédio que ficava a um quilômetro e meio da Cidade Murada. — Pois vou ficar aqui até que o mostrem. Mais tarde eu digo. . eles o trouxeram. e se ele aparecer. mas disseram-me que não se encontrava ali. mas gastava tudo em heroína. Eles sabiam muito bem onde eram as salas. quando dois detetives entraram e prenderam Johnny.— Não posso falar nada aqui. que era um dos viciados de aparência mais repulsiva que eu conhecia. e os viciados eram presa fácil. A caminho da delegacia. Ele já confessara um crime. O mal daquela situação toda era que certos policiais tinham combinado com os exploradores dos vícios ali que ignorariam os antros de comércio. Era um rapaz de compleição miúda e horrivelmente magro. fiquei pensando em Johnny. mas eu chegara tarde demais. Johnny e Mau Jai estavam tomando droga numa das maiores salas de droga da Cidade Murada. Dois minutos depois. respondeu. Quando cheguei à delegacia. telefonamos. respondi. Era carpinteiro e ganhava bom salário. e comecei a ajeitar-me para passar a noite ali.

o que foi um erro. Fiquei sabendo inclusive que muitos detetives eram sócios daqueles negócios ilegais. ouvi os vigias das salas falando ao telefone com guardas que lhes avisavam que estavam caminho de lá. Fizlhe ima visita e tentei convencê-lo a declararse inocente. em várias ocasiões. isso significa que tenho que revelar onde ficam as salas de droga. se eu o fizesse. ele tomou mais e mais heroína. Falei a Johnny sobre Jesus e como ele sempre falava a verdade. do lado de fora da Cidade Murada. estou dizendo que os guardas também sabem onde . em troca de uma confissão. e ele concordou em que seria acertado falar a verdade. eles davam batidas policiais. Os viciados sempre diziam que ganhavam heroína na delegacia. A família de Johnny morava num apartamento muito pobre. mas. E o que é pior. Comecei a compreender por que os rapazes eram tão confusos sobre as loções de certo e errado. em cooperação com as quadrilhas. — Não posso voltar atrás na confissão que já assinei. ias mostrou-se relutante. Oramos. Eles arranjaram dinheiro emprestado e pagaram sua fian-a. pois nesse leríodo de várias semanas em que aguardava a prisão preventiva. Os policiais me disseram que. mas acrescentou: — Se eu disser a verdade no julgamento. e assim ele foi solto.Vez por outra. me prenderiam por outra coisa. ainda que isso lhe tivesse custado a vida.

rompi em pranto. mostrei-lhe uma passagem bíblica que nos ensina que não precisamos ter medo.elas são. Era muito incomum ver-se uma moça inglesa chorando por causa de um criminoso chinês. Mais tarde. pois o Espírito Santo nos instruirá quanto ao que devemos dizer. e considerou Johnny culpado. repliquei. mas o juiz acabou aceitando como certa a versão deles. Eu não desperdiçaria com ele minha pena. No dia do julgamento. ele me relatou que. Mas continuei a visitá-lo e a pedir-lhe que falasse a erdade. — Isso não vem ao caso. Nosso advogado fez longos interrogatórios aos policiais sobre as provas e fatos por ele apresentados. O chefe de polícia encarregado do inquérito veio falar comigo. quando levados a tribunais. ele estava decidido a lizer o que a polícia desejava. — Pois a ficha dele é bastante extensa. Pouco antes de ele prestar depoimento. Não é culpado. quando se pusera de pé no tribunal. disse ele com bondade. Tanto os meus amigos como a polícia vão querer se vingar. Quando ele pronunciou o veredito. Esse crime aí ele não cometeu. Perguntou-me por que estava chorando. sobreviera-lhe forte convicção de que tinha de dizer a verdade. respondi entre soluços. . — Porque ele não fez aquilo. embora eu houvesse contratado um advogado para defendê-lo.

Aquele julgamento teve também alguns outros resultados positivos. e temos que falar a verdade no tribunal. cometeu outros. Mas ele nunca se esqueceu do que acontecera naquele julgamento. Mas acabou voltando ao vício e preso de novo. diziam: . a condenação é justa. Após sair de lá. Sabiam que tinham mentido. Era preciso muito esforço para não sentir raiva deles. Viram as lágrimas escorrendo em meu rosto. Mais ou menos dois anos depois. ele creu em Jesus. Johnny foi mandado para a prisão e depois para um centro de reabilitação de viciados. onde sua vida foi totalmente transformada. insisti. ele prosseguiu nesse terrível círculo vicioso. Saindo da prisão. o nome de Jesus é verdade. O juiz voltou atrás e Johnny foi liberto. e foi para um centro de reabilitação cristão. tornou-enfermeiro em um sanatório de tuberculosos. E em todas as vezes a polícia saiu vitoriosa no caso. Fora a primeira vez que eu maltratara um advogado para defender nossos rapais. e depois disso fiz o mesmo outras vezes. trabalhando na ala dos viciados. riram e debocharam de mim. Recorremos da decisão. Mas eu continuei a visitá-lo.— Se não cometeu esse. O veredito final ainda não fora dado. Os detetives que efetuaram a prisão e alguns outros se aproximaram de nós. Fui visitá-lo várias vezes. — Mas não está certo. No todo. Ao interrogá-los.

sei disso. Verificando o caso de Johnny Ho. eles os deixavam ir. não. E isso ficava muito dispendioso para eles. — Estamos fazendo uma revisão em nossa escrituração e descobrimos que temos de reembolsá-la em mil dólares. A razão disso era que. repliquei. — Não devem. — Mas pelos nossos registros houve recurso. Era mais um sinal de que estavam de lho em mim. disse uma voz. Era natal. e isso pago pela assistência jurídica. Mas vários rapazes me disseram que vez por outra eram detidos por detetives que lhes indagavam: — Você pertence ao clube daquela mulher? Quando respondiam que sim. e assim Jesus era pregado. . — É. O pagamento foi feito corretamente. percebemos que lhe devemos mil dólares em honorários pagos a mais. quando detiam um dos nossos rapazes e ele era inocente. em vez de terem apenas uma simples audiência de dez minutos. e eu queria fazer um jantar especial para os rapazes. respondi. mas não tínhamos dinheiro. O telefone tocou. Mas façam o favor de verificar tudo com muito cuidado.— Não fique pensando que essa inglesa pode ajudar vocês. o julgamento poderia durar até uma semana. Outro resultado veio dois anos e meio depois. Era do escritório do nosso advogado.

E eles reverificaram os livros e me enviaram o dinheiro. orei. tive que começar a passar de largo pela sua rua. cuidando de nós. Estava tão feliz. Afinal. que ela vendia em sua barraca ali. Todas as vezes que eu passava pelo mercado. "Graças a Jesus sou livre. 8 Perseguindo o Dragão Uma noite. pus-me a pensar longamente. e ainda tinha que conversar com Deus o tempo todo.porque se me mandarem o dinheiro. pois nunca me deitava ou cantava em horários regulares. Deus também estava de olho em nós. vou gastálo. "Graças a Deus não sou casada". que sempre me dava muitos presentes." Naquela época estava morando num apartamento m uma jovem de nome . para cuidar dos filhos de outras pessoas. quando saía daquela cidade escura. A vida que estava levando era muito estranha. ela me dava ovos e lingüiça. Minhas roupas estavam começando a ficar apertadas. A mãe de Johnny ficou extasiada quando ele se converteu. E foi assim que passamos um ótimo Natal.

quando começara a ir à cidade Murada. Ele saltou do veículo num setor da cidade onde a vida noturna era movimentada. Já era bem mais de meia-noite. As órbitas oculares eram escuras. imensa. no rosto acinzentado. e era óbvio que estava vivendo pelas ruas. para voltar.Stephanie. E ali estava ele de novo. e aquele garotinho ficava por ali. pedi aos conhecidos chineses que escrevessem bilhetes para ele. esperando táxis para abrir a porta e receber uma pequena gorjeta. O garoto ficou bastante constrangido. recordei de onde o conhecia. O que eu não sabia era que o menino se viciara em drogas por volta dos dez anos. de uns quinze anos. Fora há cinco anos. Como ainda não sabia lar chinês. Percebia- . quando tomei o micro-ônibus. Agradeci a Deus por aproximá-lo novamente de mim. notei que se sentia cada vez mais inquieto. um esqueleto ambulante. Bati-lhe de leve no ombro e me apresentei. Ele nunca vinha aos encontros que marcava. e ela nunca se preocupava com os horários em que eu chegava em casa. Felizmente já sabia falar chinês. oferecendo-me para ajudalo. Saltei também e o segui. Tinha um aspecto muito doente. mas continuei a orar por ele. pus minha atenção se voltou para um rapazinho de aparência horrível. Procurei lembrar onde o vira antes. Afinal. Enquanto lanchávamos. Havia uma grande casa de chá nas imediações. Em dado momento. convidando-o para comermos alguma coisa. interrompi minha oração.

soube que ele estava assaltando pessoas na rua. Com todas aquelas marcas de picada pelo braço. mais gostava dele. a qualquer hora do dia ou da noite. Calculei que. para comprar a droga. chegou o dia em que ele deveria seguir para o centro. se resolvêssemos primeiro o problema de sua dependência da droga. sua mente se aclararia. Mas eu estava obcecada pela idéia de salvá-lo. Se não lhe desse. Sua mente já estava muito prejudicada pela quantidade de heroína que consumira. sandálias e calção de banho.se claramente que estava precisando de uma dose da droga. encontreime com ele várias vezes. era um alvo fácil para a polícia. E o que era pior. e eu estava receosa de perder o contato com ele. mas ele precisava do dinheiro para comprar heroína. e poderia falar-lhe de Cristo. Assim me convenci de que estava agindo de modo certo. o Pastor Chan concordou em recebê-lo no seu Centro Cristão de Reabilitação. Comprara-lhe algumas roupas novas. Por fim. não adiantava falar com Ah Tsoi sobre Jesus. Quanto mais via aquele garoto de vida miserável. Portanto. Nunca dormia no mesmo lugar. Afinal. . Estava um pouco em dúvida quanto a essa atitude. seria forçado a roubar. caso fosse preso. Como ele teria que esperar algum tempo antes de ir para o centro. comecei a dar-lhe dinheiro. Nas semanas que se seguiram. Era a resposta às minhas orações. Ele não estava entendendo nada do que lhe dizia.

Deitada ali fiquei a pensar que aquilo era o fim de tudo. Não suportara as dores da desintoxicação forçada. Os outros tentaram convencê-lo a orar. mas grandemente aliviada. O pastor poderia falar-lhe de Jesus e ajudá-lo a crescer. dinheiro. negativa. mas recusou-se. antes de ir para o centro. Sentia-me muito abatida. Eu dera a Ah Tsoi meu tempo. Eu lhe dissera para passar em meu apartamento e tomar um banho. Fui deitar-me e dormi quase vinte horas seguidas. e. Graças a Deus. . Duas horas depois do momento em que deveria ter chegado. sentia uma enorme ternura por Ah Tsoi. Fui despertada por um telefonema. Estava exausta.. Não sabia o que mais poderia ter feito para socorrê-lo. e deitei-me no chão e chorei. Estava imundo. mas não havia mais tempo para o banho. Ah Tsoi achava-se nas mãos de outra pessoa e era problema dela. Embrulhando aquelas coisas. escapou.pois o centro ficava próximo de uma praia. O pessoal do centro tentou encontrálo para convencê-lo a voltar. ainda não havia o menor sinal dele. Quando eu já estava começando a achar que não viria mais. Ah Tsoi fugira do centro. Senti como se uma parte de meu ser houvesse morrido. mas ele se recusava terminantemente a retornar. mesmo assim fomos. Havia semanas que não dormia com tranqüilidade. carinho. Ele revelava uma atitude muito hostil. e então o entreguei ao Pastor Chan. E eu poderia procurar o próximo.. à noite. ele apareceu.

porque não desejo passar por todo aquele sofrimento outra vez. se aquilo não ia dar em nada. inalando heroína abertamente. "Senhor". Em uma rua. Eu fracassara. No dia seguinte. com o canto do olho. "não estou olhando. se tu me usasses para socorrê-los. mas não foi suficiente. pois não queria olhar para ele. e . Afinal orei: — Senhor. Mas nada disso adiantara. Eu só tinha amor para dar a uma pessoa. não quero mais saber desse tipo de coisa. avistei um rapazinho que era deficiente mental." Aos poucos fui-me refazendo do sofrimento que tivera por causa de Ah Tsoi. Não estava zangada com Deus. por favor. Eu pensava que tu irias ajudar-me. mas não deu certo. Não entendia por que ele permitira que eu me aproximasse de Ah Tsoi. Naquela ocasião. A única coisa a fazer então era fechá-los. Virei o rosto. e dei-o todo a ele. pela manhã. Acho que não tenho mais nada para dar. mas sentia-me muito decepcionada e confusa com tudo que acontecera. Não querer lidar com viciados. E meu olhos deram com outro viciado em drogas.alimento. e tentara falar-lhe de Jesus. E por que não?" Lembrei-me da época em que começara a ver e a reconhecer viciados. quando. Acomodei-me como pude no meio de outros quarenta e tantos passageiros de pé. orei. peguei o ônibus para ir à aula de chinês. havia mais de cem. eu dissera a Deus: "Valeria a pena dar minha vida por essa gente. pois não suporto isso.

criara o seu centro de reabilitação de viciados. Com determinação e coragem. o Pastor Chan convidou-me a tomar chá com ele. O fracasso no caso de . Ele palmilhara sozinho aquela estrada. operada pelo poder de Deus. nos Novos Territórios. (Isso aconteceu antes de eu haver presenciado a libertação de Winson. mas estava tentando salvá-lo com minhas próprias forças. e assim podia crescer em Cristo. Muitos dos que passaram pelo seu centro haviam-se tornado obreiros cristãos. sentira-me derrotada. mas eu sabia que.então comecei a ver os erros que cometera no trato com ele. não teria permanecido. que desejasse a libertação. mas ele não se achava tão desesperado. Vendo que nem isso dera certo. Algum tempo depois. Eu não tivera coragem de forçá-lo a libertar-se do vício. E os rapazes de lá eram os únicos que eu conhecia que não voltavam à droga. se não tivesse tido uma aproximação maior com as pessoas com quem trabalhava. ficava ali um ano e meio. Uma vez que o viciado era liberto da droga.) Estava convencida de que Ah Tsoi precisava dos cuidados de uma pessoa mais tarimbada. Os assistentes sociais são instruídos a não se envolverem emocionalmente com aqueles com quem trabalham. recebendo carinho e disciplina. Queria vê-lo livre das drogas. com muitas experiências e sofrimento. Tentara dar-lhe tudo que tinha. E ele fora edificando sua obra aos poucos.

Entre os cinqüenta e poucos presentes ali. porque a droga era muito barata e de fácil obtenção. num jantar estranho e silencioso. um "garçon" fornecia os pavios feitos de papel higiênico retorcido.Ah Tsoi ensinou-me que não tinha capacidade suficiente para pegar uma tarefa assim. aquilo não foi o fim. achava-se um rapazinho de uns quatorze anos. Têm medo de tomar uma dose excessiva. inalando a droga em seu festim macabro. . Era numa espécie de coberta. apesar de haver orado muito. às quais estavam sentadas pessoas que mais lembravam figuras despersonalizadas. cheguei à conclusão de que havia tantos viciados entre eles. Havia algumas mesas longas. Descobri que poderia voltar a cuidar deles. a folha de estanho e o funil de papelão necessário para se "perseguir o dragão". Conhecendo melhor as quadrilhas e seu funcionamento. Senti como se estivesse entrando num banquete diabólico. Estava imunda. simplesmente porque era uma obra meritória. Pela quantia de cinqüenta centavos. Uma noite entrei numa das salas de comércio e consumo de heroína. Mas eu sabia que meus recursos próprios estavam esgotados. mas funcionava com o conhecimento da polícia. pedindo a Deus que não me aparecessem mais viciados. nos arredores da cidade. São poucos os viciados chineses que injetam heroína. com o amor de Deus. Entretanto.

mas daí a pouco tem necessidade de aumentá-las. mas ainda assim quer experimentá-la. Na primeira vez em que um indivícuo toma a droga. estava sentada ao seu lado'. ele a detesta. e suas forças estavam esgotadas. e que desafia toda a lógica. que leva a uma dependência total e à depravação. e fica pensando que pode tomá-la sem problemas. Olhei os outros presentes que também sustentavam o hábito pelo mesmo processo. Começa com doses pequenas. enquanto ele aspirava aquele veneno. mas sentia-me fascinada e atraída por aquilo. amparando-o nos braços. para a de viciado. talvez. sente-se forçado a continuar nisso. Nenhum deles percebe quando cruzou a fronteira que separa a condição de simples curioso. até ficar acorrentado a ela. Outro. Era uma cena degradante. que todo viciado em potencial conhece muito bem. Senti a força de atração da droga. Ele sabe que ela destrói. E vai tomando . E depois que a experimenta uma vez. A namorada. a menos que roubassem. mas depois volta a tomá-la. a fim de pagar a droga para o rapaz. experimente poucos efeitos negativos. mas seu corpo a deseja fortemente. fazendo-a crer que a droga é sua salvação. ele vomita.Sua pele era pálida e sem vida. que "brinca" com as drogas. Então me lembrei de que a moça tinha que comerciar com seu corpo. só para ver se já consegue sentir alguma coisa. que devia ter mais ou menos a mesma idade. e atraiçoa a mente. Todo viciado tem um relacionamento de amor e ódio com a droga. Na mente.

Era demoníaco. mas não quis apertar-me a mão. eu não teria auxiliares masculinos. onde se situava o acampamento. Ah Ping disse-me que um amigo seu. um quadrilheiro de grande influência ali. nem conversar. Eu e as poucas moças que foram dormíamos nas barracas. fossem trabalhar conosco. Por isso. Senti o poder de atração da droga. Pouco depois. um viciado. mas era difícil fazê-la funcionar sozinha. Deus me revelou que o dragão podia ser derrotado. e aceitei-o prontamente. A programação era bem delineada. desejava ir ao nosso acampamento no verão. No dia em que Winson veio ao clubinho e foi liberto do vício. embora mais tarde dois rapazes ingleses." O acampamento ficava no alto de uma montanha. enquanto os rapazes acomodavam-se no enorme dormitório. mande-me somente as pessoas certas. Era muito forte.doses cada vez maiores até morrer ou ser preso. Não permita que venham os problemáticos. Nos primeiros dias. Eu não podia ir lá examinar os pertences deles nem . Naquele momento. Tim e Nick. Conhecemo-nos na balsa que nos conduzia à Ilha Lamma. orei a Deus nos seguintes termos: "Senhor. Ah Ming era da Ilha de Hong Kong. com horários de dormir bastante rígidos e trabalho bem distribuído. um lugar lindo e tranqüilo. percebi que a experiência por ele vivida poderia repetir-se em outros rapazes que se convertessem.

Os missionários haviam-me dito que o melhor modo de se fundar uma igreja era trabalhar com um converso de cada vez. para que barrasse a ida de problemáticos. Eu pedira a Deus que impedisse a ida de rapazes problemáticos. Eu fizera exatamente o contrário. — Éééé. em meio à escuridão. Ah Ming surgiu à porta do dormitório e me viu sentada do lado de fora. e tomar sua droga. Não tinha contado com isso. — É. fui-me deitar e ele dirigiu-se para o outro lado do morro para tomar sua heroína.. então tinha de concluir que todos os que tinham ido haviam sido enviados por ele. Depois que esse fosse crente e estivesse bem firme. concordei. . São muito lindas. e agora estava com um dormitório cheio de quadrilheiros. mantendo uma conversa educada.. Dois dias depois. Afinal. então poderia trabalhar com outro.. eu. Eu também.apagar as luzes.. Comecei a pensar que talvez os missionários tivessem razão. disse improvisando uma desculpa. éeéé. não são? Ficamos ali sentados várias horas. Mandou que um rapaz viesse dizer-me que tinham um problema urgente a resolver. Como estávamos realizando o culto matutino. Estava claro que ele estava ansioso para dar uma saída. Mas podia orar a Deus.. Ah Ming havia esgotado seu estoque de drogas. e portanto iriam embora.. três deles fugiram. gosto de olhar as estrelas.

— Vamos imaginar que podemos enxergar todos os erros que uma pessoa praticou. ele fez que sim. Quando reapareceram com Nick. se fosse preciso. aquela mudança de direção. — Lamento muito. Caía uma chuva forte e entramos numa barraca pequena. você estar-se sentindo tão mal. estávamos orando para que voltassem. E quando sugeri a Ah Ming que tivéssemos uma conversa. que subiriam cem morros. Desenhei três cruzes no chão. pareciam bastante encabulados. Enquanto isso.Pedi a Nick que fosse atrás deles. para chegar à balsa e aos fornecedores da heroína. nem a si mesmos. Aqueles ardilosos rapazes haviam elaborado uma boa explicação para sua fuga. De repente. principiei. sempre escutando aquele inglês dizendo repetidamente: — Vocês têm que voltar! Jesus os ama! Mas o desejo deles pela droga era tão forte. os três rapazes estacaram. mas não podia sair da barraca por causa da chuvarada. Vamos pegar este lap-sap (lixo) para . mas felizmente Nick não sabia falar chinês e continuou atrás deles. Ah Ming. sem saber bem por que estavam agindo assim. mas queria dizer-lhe uma coisa que poderá ser-lhe muito útil. incomodado com a situação. Subiram e desceram três morros. Viraram-se e começaram a voltar. lá no acampamento. Não sabiam explicar. Ah Ming estava muito inquieto.

"Nós erramos. Não tinha pecado. Jesus nunca fez nada errado. e que ele tremia. "Então prove. — Sei. merecemos morrer. pegando um pouquinho de terra. . lembre-se de mim quando chegar ao seu reino. E ao dizer isso. respondeu Jesus. então você é o Cristo. Coloquei um montinho de lixo sobre as cruzes laterais. — Sabe por que essa do meio está sem lap-sap? indaguei. — Você está com vontade de vomitar? indaguei. Notara que a fisionomia de Ah Ming estava esverdeada." "— Você não devia falar assim". e salve-nos também. e depois virou-se para Jesus e disse: "Senhor. não é?" disse o homem daqui em tom de ironia. tampinhas de garrafa e pedaços de papel que havia por ali. deixando vazia a de Jesus. Quando Jesus foi crucificado. continuei. Mas esse homem não fez nada". continuei: "— Ei.representar esses pecados. Chame seus capangas para salvá-lo. objetou o ladrão da cruz da direita. peguei o montinho de terra da cruz da direita e coloquei-o sobre a de Jesus. Eram ladroes e talvez até já tivessem matado alguém. Apontando para uma das outras cruzes." "— Hoje você estará comigo no paraíso". de cada lado dele também foram crucificados dois homens.

Ficamos os dois olhando para o chão. Ainda estava chovendo. durante alguns minutos. Só que foi muito pior. Isso bastava. e ele se achava naquela barraca. Meus amigos ingleses vieram até a barraca. fitando a mensagem ali exposta. para que pudesse começar uma nova vida. disse ele com um suspiro resignado. e impusemos as mãos sobre Ah Ming. e ele comprimia o estômago com as mãos. Então. repliquei. — Suponhamos. ele poderá removê-las agora mesmo. recebeu todos os pecados e as dores de todas as pessoas do mundo. Você quer? Ah Ming não estava querendo muito. pois além de ficar com os pecados daquele homem. suponhamos que eu faça uma tentativa. não conseguiu suportar mais. Depois eu disse: — O ladrão desse lado foi perdoado e hoje está vivendo com Deus. Seus olhos lacrimejavam. — E é isso que você precisa fazer. para que hoje não tivéssemos pecados nem dores. .— Pois bem. Naquele momento parou de chover. Afinal. fez uma oração clara pedindo a Jesus que removesse a dor e todos os seus pecados. Jesus sentiu a mesma coisa. Mas por que o outro não foi? — Porque um creu e o outro não. Se você quiser entregar suas dores a Jesus. respondeu Ah Ming.

Ventava muito. mas estava apalpando o leito. Ele fora deitar-se ainda um pouco confuso. Viu um homem com uma vela na mão. Como estava-se sentindo muito mal. As dores desapareceram. Todas as manhãs. O apito estava trilando. quando regressávamos do acampamento.Oramos. e impôs as mãos sobre ele com muito carinho. Saltaram todos da cama. Ah Ming pensou: "Coitado desse homem. Mas a pessoa bateu novamente. Uma semana depois. e ele recebeu o dom do Espírito Santo. Em seguida." Abriu a porta. e o rapaz nunca mais sentiu nada. colocou a vela sobre ela. Ele voltou a deitar-se. replicou. disse a Ah Ming que se sentasse. o rapaz me relatou como Deus atendera às nossas orações naquela noite. não deve ter para onde ir. Na terceira vez que o homem bateu. aproximando-se da cama. e ele ouviu alguém batendo à porta. pois estava de muito mau humor. não foi atender. Sonhara que se achava deitado numa cama de madeira. e ele foi ver quem era. . e foi deitar-se de novo. Ah Ming também se levantou. os rapazes tinham que fazer a ginástica costumeira. O outro entrou no barraco e. — Estou procurando as gotas de parafina da vela. e tivera um sonho bastante estranho. Ah Ping perguntou-lhe o que estava fazendo. devido à carência da droga. no alto da montanha.

Instintivamente. após o acampamento. pôs-se a orar novamente. olhando-o com ar intrigado. Quer saber como foi? . — Epa! Eu vim pela balsa orando para ter paz! Não posso brigar com essa gente. Naquele mesmo dia. Mas seguiu em frente. o rapaz se lembrou de uma coisa. Logo notou que um grupo de uma quadrilha rival vinha em sua direção armado para a luta. No acampamento. sentandose no chão. sem se deixar abater. Instantes depois. No primeiro dia de serviço. e entrou pelo portão descalço. Agora sou crente. De repente. ele já havia dado instruções a seus irmãos com relação àquela briga. que ele tinha certeza de que Jesus estivera ali de verdade. Embora Ah Ming tivesse um emprego nos estaleiros. Ficava deitado o tempo todo. pegou a primeira arma que viu: dois pesados mourões de ferro. — O que você está fazendo? indagou o chefe deles. Largou as armas que pegara e. Vendo que Ah Ming se preparava para ir ao ataque. Estava tão imerso na oração. enquanto seus "irmãos menores" lhe levavam heroína. ergueu os olhos e viu que seus inimigos o cercavam. foi orando pela balsa que atravessava a baía. para o trabalho. ele próprio não fazia nada. — Orando. que nem notou que alguém havia-lhe furtado as sandálias. foi batizado no mar.O sonho lhe parecera tão real. eles também pegaram em facões.

Ao passarmos pelo cinema pornográfico e pelas salas de jogo. todos nós dávamos alguns pulos. e os outros doze vieram atrás de nós. Algumas semanas depois do acampamento. Um dos corinhos de que mais gostávamos no clubinho era "Não tenho prata nem ouro". Os outros se desculparam. mas seu "irmão grandalhão" ia ali muitas vezes. Como todos os que haviam crido em Cristo tinham recebido também o Espírito Santo. que alguns passaram a assistir às nossas reuniões. Peguei meu acordeon. Muitos dos comércios do vício naquela hora tiveram de parar. Mas apenas doze se dispuseram a ir. e Ah Ming pôs-se a narrar-lhes o que sucedera. estávamos orando certo dia. Quando chegávamos ao verso que dizia "andando e saltando e louvando a Deus". Eu ainda não conhecia pessoalmente o afamado Goko. todos estávamos descendo a rua. Na visão. — Poon Siu Jeh. cantando e dançando. enfileirados. Desse modo nosso clubinho foi crescendo mais e mais.' quando um dos rapazes teve uma visão.Responderam que sim. não nos surpreendíamos com as maravilhas que ele operava. Os outros ficaram tão impressionados com o fato. Um dos moços tocava violão. completamente espantados. Muitas daquelas pessoas já . nós moramos neste lugar. enfileirados. uns dois ou três pandeiros. os homens saíram para ver o que estava acontecendo.

quando escutou aquela cantoria lá fora. e pediu para falar comigo em particular. Ele pouco ou nenhum prazer alcançava mais com a droga. Dentro de uma delas um jovem alto. — Não posso ser crente. ficou espantado de ver seu amigo Ah Ming contando como Jesus havia transformado sua vida. Realmente acontecera uma coisa maravilhosa com o rapaz. Depois de passar pelos antros de ópio. chamado Ah Mo. Sr. chegamos às duas maiores salas de comércio de heroína. E me narrou a trágica história de sua ascensão na quadrilha pela fama de bom brigador.tinham visto os crentes distribuindo papeizinhos pelas ruas. Esquecendo sua intenção de praticar um assalto. e Ah Ming começou a pregar. Saindo de lá. acabara de injetar em si uma dose. Já estava maquinando o próximo assalto. Ali paramos. Matei minha esposa.ta Poon. Ali pôs-se a escutar maravilhado as palavras dos moços que lhe diziam como Jesus poderia transformar-lhe toda a vida. tinha o . Em pouco tempo. pois umas três semanas antes os dois tinham tomado heroína juntos. Ele costumava jogar pessoas para fora de boates e bares nos mais chiques setores da cidade. mas nunca os tinham visto cantar e dançar por ali. e já precisava pensar em como obter dinheiro para a próxima. acompanhou a fileira de crentes até o clubinho. Mas ele abanou a cabeça. pois nem bem acabava de tomar uma dose.

certa vez. Quando foi preso. no beco. onde fez lavagem estomacal. . — Ele ficou religioso. continuou a procurar as outras mulheres. entregou-se às drogas também. diziam. seus olhos ganharam nova esperança. Eu presumira que. e continuou a tomar drogas. zombaram dele ao ver a expressão de seu rosto. Quando eu lhe disse que poderia encontrar perdão em Cristo. Alguns dos velhos companheiros que se achavam lá fora. Ela o amava realmente. Ficou religioso. e. todos os que cressem o seriam também. e ela tomou outra dose excessiva. pois meu coração estava leve. como Winson e Ah Ming tinham sido curados milagrosamente do vício. e. Mas Ah Mo não largou sua vida de libertinagem. gente. Na terceira vez em que o fez. Mas Ah Mo não o foi. Vivia com uma recepcionista de um dancing. morreu no hospital. num impulso de autopunição. a recepcionista o visitou na cadeia. Ela começou a tomar drogas. Orou recebendo a Jesus e saiu dali pisando nas nuvens. foi levada quase à morte para o hospital. Ele ficou profundamente abalado com o senso de culpa. mas tinha mais três amantes.controle de um pequeno império. Mais tarde Ah Mo me disse: — Não me importei com aquilo. Mas depois que foi solto.

Arranjei um emprego. quando o intruso chegasse lá. Aprendera que não devia dar dinheiro. Quase todas as vezes em que ia lá. sua tarefa era introduzir o plugue numa tomada que havia na muralha. mas não para o arroz. — Glória a Deus! disse Ah Mo alguns dias depois. Quando fiquei sabendo qual era o emprego. e. que eram suficientes para a heroína. Ele estava trabalhando em uma das salas como tin-man-toi (metereologista).Pedi ao Pastor Chan que o recebesse em seu centro. eu me . ou um investigador do departamento de narcóticos. pagando para isso a quantia de HK$ 15. tinha que ficar sentado em uma das entradas da Cidade Murada. Todas as noites. Ele dormia num beco atrás dos banheiros públicos de Kowloon. Ah Mo recebia cerca de HK$ 15.00 dólares diários. Essa semana não precisei assaltar ninguém para comprar minha heroína. eu mesma não consegui dar graças a Deus. quando veio para o culto de domingo. e ele teve de esperar várias semanas. Em seu maço de cigarros havia um plugue elétrico.00 dólares a outro homem que se arvorara em "dono" da rua. toda a atividade estaria paralisada. Isso disparava um alarme nas várias salas. Se visse um grupo de policiais aproximando-se. mas não havia vagas. ou um membro de uma quadrilha inimiga. Todos os dias eu lhe dava um pouco de alimento. Para fazer este serviço.

. por exemplo. Mais um dragão beijara a lona. exibindo dentes estragados e escurecidos pela droga. e que fora um grande jogador de futebol antes de se entregar ao ópio. Fez um gesto cortês. fora da cidade. concordou em falar comigo. Winson chegou com um recado. Enquanto me encaminhava para lá. e achava-se sentado sozinho. engordou quase dez quilos. já que eu era a única ocidental a entrar no restaurante.sentava ali e orava com ele. Dei graças a Deus quando acabou-se aquele trabalho de vigilante. embora geralmente estivesse sonolento. Após a cura miraculosa de Winson. indicando que me sentasse. em um mês. libertou-se da droga. Sabia que era alto e forte. pude perceber que o ópio deixara profundas marcas de dissipação em seu rosto forte. Olhando-o de frente pela primeira vez. Afinal. Ele me reconheceu primeiro. conversei com a esposa dele. e orgulhava-se de observar bem as leis do seu mundo. muito bem vestido. Ah Mo foi para o centro de reabilitação. Era um dos mais velhos chefes das quadrilhas. Sorriu. encarregar-se dos funerais de um companheiro assassinado. O fato de ser viciado fazia um forte contraste com o terror que seu nome inspirava. como. e. Ia aos antros de jogo e deixava ali meu nome. dizendo que ele me convidava para tomar chá no Restaurante Fairy. Era um homem de uns trinta e cinco anos. fiquei a imaginar como seria Goko. continuei mandando recados a Goko.

— É que creio que você gosta de meus "irmãos" assim como eu gosto. Então pôs de lado as gentilezas e passou a falar abertamente. concordei. Mas acho que Jesus consegue. Não temos a mínima simpatia um pelo outro. Fiquei maravilhada ao pensar nas implicações do que ele acabara de dizer.Educadamente. — Poon Siu Jeh. até que não agüentei mais e disse abruptamente: — Não precisa ser tão educado comigo. e você desse jeito (apontou o coração). repliquei prontamente. Vamos parar com essa hipocrisia. Você possui um poder que não tenho. — É. por favor. Não quero meus "irmãos" amarrados à heroína. — Por isso. Por que me trata com tanta gentileza? Ele pensou por uns instantes. — Não. aquele impiedoso chefe da corrupção indagou-me o que iria pedir. E ele não estava falando por falar. Eu o utilizo desse jeito (e cerrou os punhos). para que voltem a lutar na quadrilha. mas não consigo fazer com que larguem. resolvi entregar todos os viciados a você. Entregamo-nos a uma conversa agradável. tanto eu como você conhecemos o poder. realmente gosto deles. Mas os cristãos não podem servir a dois . Quer que Jesus os liberte das drogas. continuou ele. Mas detesto tudo que você faz. Era conhecido de todos o cuidado que tinha por seus seguidores. e as coisas em que está envolvido. Já sei o que você quer.

— Ótimo. simplesmente para você pegá-los de volta.senhores. retornarão ao vício também. arriscava-se a ser severamente castigado ou até morto. E ali estava Goko. Goko sempre mandava os viciados para eu curá-los. liberando alguns de seus "irmãos". ele disse: — Vou ficar de olho em vocês. disse ele erguendo a cabeça lentamente. Nós dois estamos seguindo rumos diferentes. Quando uma pessoa se unia a uma quadrilha. Eu libero aqueles que quiserem seguir a Jesus. — Está bem. era membro dela para o resto da vida. Tenho certeza de que. Quando ouviu falar do que acontecera a Johnny. A partir daquele dia. — Sabe o que vou fazer? disse ele depois. se voltarem a seguir você. . Se ele permanecer firme uns cinco anos. Eles têm que seguir ou a Cristo ou a você. Não tenho a menor intenção de ajudar seus "irmãos" a se libertarem da droga. Jesus veio para os imprestáveis mesmo. repliquei. Uma sociedade tríade nunca liberava seus membros. Mal pude acreditar no que ele estava dizendo. eu também terei que crer. E foi esse o estranho pacto que fizemos. Se alguém tentasse sair. voluntariamente. então. Vou dar-lhe todos os imprestáveis e ficar com os bons para mim.

— Poon Siu Jeh. Na época em que se convertera. disse-lhe. pelo simples fato de residirem na Cidade Murada. tenho que dar muitas graças a Deus. e Deus me deu forças para resistir. Isso é tentar a Deus.9 "Doenças" da Infância Winson estava em perigo. mas na prática isso era o mesmo que dizer: "Ide em paz. ficavam num dilema muito grande. aquecei-vos e fartai-vos". Mas o problema é que Winson não tinha outro lugar para dormir. Era muito difícil dar as costas aos amigos com quem haviam-se criado e de quem gostavam. Eu já lhe dissera para largar a quadrilha e seguir a Jesus. Ele me procurou todo animado. Quando um "irmão" deles era atacado. Tive vontade de tomar. Winson. Compreendi também que a mera presença . Tanto Winson como Ah Ping ainda estavam envolvidos com as quadrilhas. Mas orei. Você nem devia ter ido lá. fui a uma sala de ópio e um deles me ofereceu a droga de graça. Ontem à noite. — Isso não é razão para "louvar o Senhor". Fiquei furiosa com ele. O primeiro impulso deles era defendê-lo. e não fazer nada para suprir suas necessidades materiais. estava morando nessa sala de ópio.

pois sou crente. Se eu dizia: "Vai". E meus "irmãos" estão perdendo o respeito por mim. Se eu dizia: "Faca". Nem paravam para pensar. e que pudessem dar referências de um pastor e pagar um mês de aluguel adiantado. e isso me magoa. Pus-me a procurar lares ou pensões de crentes que pudessem recebê-los. E como nenhum dos recémconvertidos que eu conhecia preenchia essas exigências. Pela primeira vez na vida. pois os garotos precisavam de . meus seguidores iam. eu estava sempre encontrando ex-viciados e quadrilheiros que revelavam um grande desejo de mudar de vida. tenho parado para pensar no sentimento das vítimas. — Antes de me tornar cristão. eu era bastante conhecido pela minha capacidade de comando. agora. Ah Ming também encontrou muitas dificuldades. eles esfaqueavam. Andando pela Cidade Murada. mas sempre exigiam que eles tivessem um emprego ou estudassem. tenho que parar e pensar. quando eles vêm se queixar comigo. Eu procurara colocar um desses rapazes em casa de cada família inglesa que eu conhecia. Mas essa situação não foi bastante satisfatória. daquele ambiente de pecado. disse. Mas. Não posso mandálos lutar. era impossível arranjar lugar para eles. Mas não havia outro lugar onde pudessem viver.deles ali era uma aprovação às atividades das quadrilhas. Tinham que ser retirados dali.

e assim era um quarto a mais. a ponto de desmoronar. e havia uma escada que dava para um terraço que fora parcialmente recoberto com folhas de zinco ondulado. Fiquei tão empolgada quando o vi. contribuindo com suas habilidades. o que tais pessoas às vezes não podiam dar. sendo mais prática. achava muito desagradável ter um quadrilheiro em casa. Além disso. sem luz e com um encanamento de água não . que enxerguei apenas as possibilidades. depois de algum tempo. Tinha mais de trezentos metros de área ao todo. e a luz não estava ligada. Mas Mary. Havíamos orado pedindo a Deus um lugar onde pudesse abrigar minhas ovelhas. indagando se ali havia cômodos para alugar. e esse era o lugar. Baseadas na premissa de que o serviço sai com mais rapidez se o interessado se acha presente.maior vigilância e de um disciplina-mento mais rígido. Mary Taylor rompeu em lágrimas na primeira vez que viu nosso apartamento da Rua Lung Kong. Encontrei esse apartamento quando estava andando nas vizinhanças da Cidade Murada. para mim era um presente do céu. no telhado havia um grande rombo. No entanto. ou mesmo sem elas. a maioria delas. Os rapazes da Cidade Murada nos ajudaram a fazer os reparos necessários. eu e Mary nos mudamos para lá. mesmo sendo um quadrilheiro convertido. via apenas as falhas dele. acomodando-nos entre montes de entulho. É verdade que as paredes estavam rachadas.

detetives vinham à nossa porta . Prostitutas me ligavam da delegacia.muito confiável. era acordada por viciados que queriam ouvir falar de Jesus. Mas a chance de opção foi-me tirada das mãos. cactus e trepadeiras. Também abríamos o clubinho quase todas as noites. o que não era muito aconselhável visto ser eu solteira. a não ser a Cidade Murada ou nosso apartamento da Rua Lung Kong. Era então hora de resolver se iria receber ali rapazes ou moças. quando Ah Ping e Ah Keung tiveram de sair da casa que eu arranjara para morarem. comprava roupas e alimento para os rapazes. Se recebesse os rapazes. o antigo presidente de nosso clubinho. já que tantos estavam desabrigados. depois que removemos o lixo que ali havia e plantamos begónias. Nossa família foi aumentada com a chegada de Joseph. Quando finalmente me deitava para dormir. Colocamos a trepadeira de forma a vedar a vista à casa do outro lado da rua. Winson também largou a sala de ópio e passou a morar conosco. e não tinham mais para onde ir. seria necessário recusar as moças. Tivemos que arranjar um jeito de Ah Ping ir morar com alguns amigos. Cozinhava. arranjava escola ou emprego para eles. para auxiliar os rapazes no seu crescimento espiritual. cuidava da casa. Eu me encarregava de muita coisa. E foi assim que criamos uma comunidade cristã. Uma das grandes vantagens era o jardim do terraço.

murmurou ela. Todos os cinco eram muito acanhados. O único dinheiro que entrava ali era a Sr. dormiam nela. uma espécie de mingau de arroz cozido em água. Atrás dela estavam seu irmão e duas irmãzinhas menores. Eu conhecera aquelas crianças havia três meses e tivera muitos contatos com a família. e juízes me enviavam certos casos. cozinhavam nela. viravam-se para a parede. porque o infeliz pai gastava tudo que tinha em heroína e não dava à família nenhum sustento. Viemos morar com você. Era nessa cama que as crianças aprendiam a andar. carregando água. Ela buscava água nas fontes que havia fora da Cidade Murada. pois nossa casa era uma das poucas que recebiam delinqüentes. Nunca os vi comer nada a não ser congee. Ganhava cinco centavos por balde que . Moravam num quartinho minúsculo onde só havia uma cama de casal. Afinal.a Chung quem ganhava.procurando informações. vi uma mocinha com um bebê num dos braços e uma mala enorme na outra mão. A história da família Chung era de estarrecer. Uma noite ouvi uma batida à porta. ignorando minha presença. levando-a às casas. e quando eu ia visitálos. O teto era um pedaço de linóleo que. nosso apartamento acabou sendo misto. brincavam e faziam os deveres de casa nela. — Poon Siu Jeh. Quando abri. quando chovia. ficava cheio de água e abaulado no meio.

Recebera a Jesus no coração e muitas vezes orava conosco. e que devíamos aguardar uma carta deles. para poderem comprar seu arroz.a Chung era entrevistada. mas ficou reumática e não podia mais caminhar com os baldes pesados. mas os sociólogos encarregados do levantamento eram muito desinteressados.entregava. Levei o caso dessa família ao Departamento de Bem-Estar Social. ela me disse que tinha ido outra vez à repartição para assinar o pedido de auxílio. Até mesmo os filhos tinham que trabalhar nas indústrias ali. Passaram-se quatro meses e a carta não veio.a Chung até lá. e a resposta que recebi foi: — Essa família não se enquadra dentro das disposições para receber auxílio de pobreza. pois não sabia ler. Embora estivesse esperando o sexto filho. Ficamos sentadas lá o dia todo. o marido o roubaria para comprar heroína. Mandaram-me sair. Costumávamos levar-lhe bacon. peixe seco e azeite para melhorar um pouco seu arroz. Sugeri à moça que tratasse o casal como duas pessoas distintas. solicitando alguma ajuda financeira. e não contribuía para a renda da família. Se lhe déssemos dinheiro. ela estava sempre sorrindo. enquanto a Sr. demos brinquedos às crianças e pagamos a taxa escolar para elas. esperando a assistente designada para cuidar do caso deles. Acompanhei a Sr. Fui ao departamento para verificar. . Mais tarde. pois o marido raramente aparecia em casa. No Natal.

Meus rapazes contrataram um caminhão. então quem está? indaguei. Isso era uma grande mentira. e então colocou sua marca.— Se eles não estão enquadrados. mas voltaram atrás na decisão. é muito vergonhoso ter de confessar que não consegue sustentar sua família. e quando a Sr. E agora têm uma criança recém-nascida. pediram-lhe que endossasse a declaração do marido. — Mas não sabem reconhecer um viciado? O pessoal ali acabou-me tachando de "criadora de caso". dissera ele.a Chung foi lá. Anteriormente. e afinal a Sr. replicaram. os encarregados haviam solicitado a presença do marido na repartição para fazer uma declaração de rendimentos. eles . Ao que parecia. Então ajudamos a família a mudar-se da Cidade Murada. e retiramos a cama de casal dali.8 Chung recebeu auxílio do governo. mas. Ela não sabia o que estava escrito ali. — Mas vocês não viram que ele é viciado? Não se pode confiar na palavra de um homem assim! — Ele disse que está completamente liberto da droga. Debaixo dela encontramos vários tambores cheios de roupa usada. — Ganho HKS600 dólares por mês e dou 400 à minha esposa. Não conheço ninguém que seja mais pobre que eles. Pensou que estivesse assinando a petição de auxílio. para um chinês. Essa informação errada foi anotada.

Os tambores estavam apinhados de baratas. mas eles se recusaram a ajudá-la por mais tempo. a Sr. Após o sepultamento dela. eu era culpada de sua morte. Ela lhes respondeu que não estava bem.tinham estado em contato com uma instituição de caridade que lhes dera uma dúzia de tambores de roupas. Mais ou menos na época em que nos mudamos para o apartamento da Rua Lung Kong. E ela morreu. ela começou a tossir e morreu. . Havia muitas e muitas roupas que não prestavam mais e amontoei uma porção delas junto às latas de lixo na rua. Ah Ling. que estavam sendo exploradas pelo pai. quando fui lá. enviadas de outros países para os "refugiados". mas nunca me dera ao trabalho de acompanhá-la ao médico. Uma morte que poderia ter sido evitada. No dia seguinte. continuei a visitar e a ajudar as crianças.a Chung tinha um desejo tão forte de possuir coisas. soube que a filha mais velha. Senti que. as apanhara de volta. Já padecia com tosse havia muito tempo e tinhase consultado várias vezes. A Sr. Sabia que estava tossindo. que não jogava nada fora.a Chung me disse que recebera ordens do governo para arranjar trabalho. em parte. por um minguado salário de HK$ 100 dólares por mês. e assim não fora diagnosticado que estava com tuberculose. E tinha que entregar todo o dinheiro a ele. Ele mandou a filha de treze anos trabalhar numa fábrica. já que não podiam sustentar a esposa de um viciado indefinidamente. Duas semanas depois.

Ela resolvera morrer. era um viciado terrível. ao saber que o filho fora preso mais uma vez. senão acolhê-los. pela lei. Nossos rapazes eram muito bondosos com aquelas crianças. pedi-lhe notícias de sua mãe. Disse-lhes que. para eu . Mas. e por isso ela não tinha mais vontade de viver. levávamos todas as crianças. Pin Kwong era toda a sua vida. Em minha casa já havia rapazes dormindo no chão. procurei a mãe e encontrei-a de cama. mas o dela era um perdido. que eu conhecera havia alguns meses. em seu quartinho na Cidade Murada. nossa família aumentou mais com as constantes visitas da Sr. fizeram a mala e fugiram de casa para morar comigo.a Chan. mas não tinha outra opção. Ele não queria que eu visitasse a mãe. mas ele sempre me dizia: — Ela não quer saber de crentes. Depois. Eram crianças muito retraíadas. é uma adoradora de ídolos. Seu filho. As mulheres chinesas em geral têm muito orgulho dos filhos homens. e foi então que pediram para morar em minha casa. eles estavam sob a guarda e tutela do pai. Parados ali à minha porta. Estavam inteiramente convictos de que eu os receberia. Pin Kwong. e só depois de muito tempo foi que conseguiram conversar comigo.Quando fazíamos passeios com o clubinho. que não tinha a menor intenção de mudar de vida. constituíam um quadro patético. e gostavam imensamente de brincar com o bebezinho. Muitas vezes. Quando ele foi preso mais uma vez. um mês depois.

sem se alimentar. o seu Filho.a Chan nunca tinha ouvido falar de Cristo. e nos apresentava os negociantes do mercado local. Então resolvemos tomar providências para restaurar-lhe o animo. A partir daquele momento. ela ergueu os olhos. Terminada a oração. que tinha dado ao mundo o seu bem mais precioso. demos-lhe uma chave da casa. Quando a encontramos. ela já estava recolhida havia vários dias. fazendo a limpeza ou cozinhando para nós. aproximar-se dela com os braços estendidos. Gostava imensamente da nova família que adotara e ficava por ali dando ordens a todos. orando em voz alta e pedindo a Deus que ele próprio lhe falasse de um modo que ela pudesse compreender. . Naquela noite ela sonhou que via um homem vestido com um longo manto branco. sorriu e disse que fora curada da "doença do pulmão" e que já conseguia respirar sem dificuldade. e ela estava sempre aparecendo por lá. pendindo-lhe que fosse a ele e se batizasse. E nunca mais sentiu nada. Demos-lhe alimento e falamos-lhe do Pai celestial. Impusemos as mãos sobre ela. Quando nos mudamos para a Rua Lung Kung. que passaram a vender-nos alimentos por baixo preço. e achava-se enfraquecida. seus conhecidos.não saber que a explorava. só porque a amava. ela foi sempre uma pessoa alegre e radiante. A Sr.

Como não soubesse ler, pedi aos rapazes que lhe ensinassem versículos da Bíblia. Levou uma semana para aprender: "Disse Jesus: Eu sou o pão da vida". Três anos antes, certa noite, íamos ter um estudo bíblico, e Dora viera até a Cidade Murada para interpretar para mim. Foi uma dessas ocasiões em que só um rapaz veio ao culto. Fiquei muito irritada, e foi esta uma das raras vezes em que desejei estar na Inglaterra. E expressei esses sentimentos. Quando orávamos, Deus deu uma mensagem em línguas ao rapaz, e Dora interpretou-a. — Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai ou filhos, ou terras por amor a mim ou ao evangelho deixará de receber cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães e filhos, e terras nesta vida, e, na vida futura, a vida eterna. Imediatamente abri a Bíblia em Marcos e li esses versos, e vi que realmente o texto dizia que receberíamos ainda nesta vida cem vezes mais. E naquela noite reivindiquei o cumprimento dessa promessa. — Senhor, disse, gostaria de ter cem casas, cem irmãos e irmãs. E também cem mães e filhos. Contei então o pessoal ali, naquele apartamento da Rua Lung Kong, e vi que devia ter pelo menos uns cem irmãos e irmãs. Como ainda era pequeno o número de mães, apareceu então a Sr.a Chan. Mas vieram outras mães também.

Certo dia fui procurada por um rapaz que acompanhava sua avó. Era bem velhinha e debilitada, e tinha um curativo na cabeça. — Quero ser batizada, disse ela com voz esganiçada. Fiquei logo desconfiada. — Se a senhora ainda não recebeu a Jesus, batizar não significa nada. Se quiser que eu lhe fale dele, terei imenso prazer, mas se o que a senhora quer é apenas o certificado, não posso dar-lhe. Aqui em nossa igreja não damos certificados. A velhinha tinha levado um tombo e ferido a cabeça. Estava com receio de morrer, sem ter um lugar para ser enterrada. Em Hong Kong havia poucos lugares. Mas, como membro de uma igreja, ela conseguiria um. Levei-a à Sr.a Chan, que fez amizade com ela e falou-lhe de Cristo. A velhinha teve uma conversão genuína, foi batizada e seis meses depois morreu, tendo já o seu lugar reservado no céu. Eu não fazia idéia de que cuidar dos rapazes em minha casa iria ser tão trabalhoso. Cometera um erro básico. Tinha pensado que "se alguém está em Cristo é um novo homem", ao passo que o texto bíblico diz que "é nova criatura". Eles eram como recém-nascidos, e tinham muito que aprender. A ignorância deles sobre as condições normais de vida era de estarrecer. Alguns, como Mau Jai, tinham vivido pelas ruas desde a idade de cinco anos. Ele não pudera viver em sua própria casa, porque o pai

tinha duas esposas, e a segunda, sua mãe, caíra no desagrado dele e os filhos dela foram expulsos de casa. Não tiveram uma infância normal. Logo tornaram-se peritos na arte da astúcia e da trapaça. Como estavam acostumados a ficar acordados a noite toda, não compreendiam por que tinham que ir dormir à meia-noite. Levantavam a hora que acordassem. Se não sentissem vontade de ir trabalhar, não iam. Os regulamentos da casa eram logo associados com a idéia da prisão, e não os observavam da forma devida. Por vezes, eu achava que eram eles que estavam-me dirigindo, e não eu a eles. Um exemplo de um caso assim foi o de Ah Hung, que nos fora enviado pelas autoridades, supostamente liberto da dependência à droga. Na verdade, ele recomeçou a tomar heroína no mesmo dia em que foi solto. Portanto, não foi surpresa para nós, quando perdeu o emprego e desapareceu de casa. Certo dia, reapareceu completamente drogado, confessando que havia participado de um assalto. Nós o convencemos a entregar-se, mas fugiu de novo. Como mencionara uma arma, liguei para a polícia, e, daí a pouco, seis viaturas cheias de detetives vieram pelo túnel, cantando pneus, e pararam diante do prédio. Num instante, entraram no apartamento, revólveres em punho, como se pensassem que ele ainda estava lá. Depois se foram, deixando alguns de vigia, os quais se revezavam, guardando a casa vinte e quatro horas por dia. Numa noite, os dois que estavam de guarda largaram seu

turno e foram procurar um bom restaurante, deixando-nos um número de telefone, onde poderíamos encontrá-los. Era tudo mentira. No dia seguinte, Ah Hung apareceu e explicou que não havia participado realmente do crime. Não acreditei, e levei-o à delegacia para confessar. Foi a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido, pois soubemos que não poderia mesmo ter tomado parte no assalto. Todos zombaram dele, por haver inventado aquela história sob o efeito de drogas. Mas era exatamente o que precisava acontecer para que se comprovasse o fato de que ainda estava viciado, e chegasse ao ponto de desejar auxílio espiritual. Estávamos sentindo claramente que os rapazes da Cidade Murada precisavam de uma disciplina mais forte. Em parte, eu tinha dificuldade nisso, pois me relacionara com eles como amiga, e tornou-se difícil a transição, e colocar-me na posição de pastor ou professora. Assim, eles chegavam em casa a qualquer hora do dia ou da noite, e não estavam crescendo espiritualmente, como eu desejava. Comecei a orar a Deus para que mandasse alguém que pudesse encarregar-se dos serviços caseiros, de modo que eu pudesse sair às ruas outra vez. Pedi a dois rapazes crentes, chineses, que morassem conosco para dirigir a casa. Mas não deu muito certo. Eles queriam um salário definido, o que eu não poderia prometer-lhes. Queriam que os rapazes os tratassem de "professor". Quando eu acordava de manhã,

perguntava-lhes se haviam chamado os rapazes e preparado o desjejum. Replicavam que tinham estado muito ocupados com a "hora silenciosa", isto é, seu momento de oração e leitura bíblica. Para eles, ensinar era realizar um estudo bíblico e pregar por quase uma hora e meia. Foram ensinados que era assim que se fazia o trabalho cristão: dirigir cultos, serem tratados com determinado título e pregar. Ainda não haviam aprendido a lição de Jesus, quando lavara os pés dos discípulos. Muitas vezes, eu levava os rapazes às reuniões promovidas pelo casal Willans, das quais eles gostavam muito. Ali sempre se fazia a interpretação para o chinês, a fim de que eles pudessem participar e ter comunhão com outros crentes. Muitas pessoas oravam por nós. Certo dia, Jean Willans disse-me com firmeza: — Se você quer mesmo trabalhar com esses rapazes, Jackie, tudo bem. Mas não precisa morar com eles. Ou pelo menos arranje um lugar, onde você possa ir vez por outra para recuperar suas energias em paz. Mas eu não entendia essa atitude. Aliás, eu não entendia por que o mundo todo não queria trabalhar na Cidade Murada. Eu não desejava estar em nenhum outro lugar da Terra. Entretanto, a despeito da confusão reinante em nossa casa, descobri que muitas vezes Deus usava crentes jovens para nos reanimar, a mim e aos outros. Todos os que

vá trabalhar na colheita. quando tínhamos nossas reuniões. "A seara está pronta. disse aos rapazes. o fato de terem um dom." Era uma mensagem muito estranha." Saímos e pregamos aos vagabundos que dormiam pelas ruas nas proximidades da nossa. quando um dos moços disse que Deus lhe dera algumas palavras para nos dizer: "Vá e colha os repolhos e pegue o ônibus rapidamente. tinha por objetivo auxiliarem-se mutuamente. Certa noite. Eu chegara em casa exausta e preocupada. Mas o texto mais animador que acharam foi um verso deprimente de Apocalipse. E me indagava se os missionários de outros países tinham os mesmos problemas que eu enfrentava com os novos convertidos. Mary e os dois obreiros tinham ido embora. E nós os aconselhávamos a exercitar os dons espirituais. então falei. — Vamos orar.haviam-se tornado crentes receberam o poder de Deus na mesma hora em que haviam crido. Então eles sabiam perfeitamente que. estávamos orando. — Achem um versículo bíblico bem reconfortante para mim. Um deles aceitou nossa oração e mais tarde foi liberto das drogas em nossa casa. . Houve uma outra ocasião em que os rapazes me reanimaram bastante. Só depois de uma consulta ao dicionário foi que consegui a interpretação correta. Estavam-se sentindo impotentes para dirigir os conversos e os outros rapazes.

Quem sai andando e chorando Enquanto semeia.Quando estávamos orando. percebi que sempre recebia tudo de que precisava.6 e 127." (Salmo 126. um amigo me dava exatamente a quantia que eu estava pedindo ao Senhor em oração. A medida em que nossa família da Rua Lung Kong ia crescendo. Se o Senhor não edificar a casa Em vão trabalham os que a edificam. Desde que eu parara de lecionar em tempo integral.5. Mas a interpretação que deu foi uma citação clara e direta do livro de Salmos: "Os que com lágrimas semeiam Com júbilo ceifarão. e um dos rapazes a interpretou imediatamente. Voltará com júbilo.2) E aquelas criancinhas em Cristo. Inútil vos será levantar de madrugada Repousar tarde. As vezes chegava um cheque pelo correio.1. Comer o pão que penosamente granjeastes. Certa . Só havia poucos dias que ele crera em Jesus. me disseram exatamente as palavras certas naquele dia. Aos seus amados ele o dá enquanto dormem. nossa renda foi aumentando também. e não sabia ler a Bíblia direito. Outras. Trazendo os seus feixes. por meio do Espírito Santo. recebi uma mensagem em línguas.

Num domingo. e mandara que ele a entregasse a nós.vez. — Mas vamos cozinhar o arroz assim mesmo. mas. sentindo-me bastante indisposta. à última hora. Uma noite eu estava muito gripada e ficara em casa. e orar para Deus nos dar mais alguma coisa para colocar nele. chegou ali uma visita. mesmo assim. Mas também era um miserável viciado e perdera sua utilidade para a quadrilha. Sua classe de estudo bíblico tinha levantado uma coleta para nós. tivemos de dizer aos rapazes que não dispúnhamos de dinheiro para o alimento daquele dia. convidávamos muitas pessoas para almoçarem conosco. Todos os domingos. Dez minutos antes da hora marcada para a refeição. após o culto da manhã. Era uma vida muito emocionante. isso era maravilhoso. levando-nos alimentos enlatados'. arfando e suando. e uma pessoa nos enviou da Inglaterra a quantia exata. pois sentiam estar participando de maneira direta na obra de Deus. Naquela época. queríamos comprar um bote de borracha para um passeio que eu desejava fazer com os rapazes. quando ali chegou Geui Jai. um dos poucos que era instruído. cometi muitas tolices. quando oravam pela manhã pedindo o pão de cada dia. Era muito inteligente e falava inglês muito bem. Deus via a intenção de meu coração e nos abençoava. Eu o . Para os jovens. Sempre tínhamos o suficiente para as despesas de cada dia. um conhecido lutador de kung-fu.

Que bom. até que coloquei o fone no gancho. pois tanto seus pais como seus "irmãos" da quadrilha o haviam banido. e que nunca mais a veria. — Será que poderia emprestar-me sua máquina de escrever. SrM Poon? pediu ele. Vou conseguir um bom dinheiro ajudando uma pessoa a fazer traduções. Alguns rapazes ficaram sabendo do que Geui Jai fizera. Deixei que levasse a máquina. sinto muito. Ameaçaram bater nele. e daí? Jesus perdeu a vida. — Sr.ta Poon. E a máquina nem se compara com uma vida. Mais tarde ele me ligou. Foi culpa minha e não dele. Mandariam imprimir. Perdi minha máquina. contando que me devolvesse à noite. Pois arranjei um outro serviço. Era óbvio que ele empenhara a máquina. mas não poderei devolvê-la hoje. A condição em que estava deve ter prejudicado meu discernimento. e ficaram bastante zangados. não é? Tenho que datilografar duzentos convites para uma festa. Seu argumento me pareceu razoável. Vamos esquecer isso. Que ridículo! Ninguém aqui iria bater um convite duzentas vezes. embora eu tivesse dito: — Deixem isso para lá. . Isso me rende o suficiente para a droga e assim não preciso roubar.encontrara muitas vezes dormindo nas ruas ou escadarias próximas de nossa casa.

Estes exigiram dele a cautela de penhor da máquina. Não poderia ter feito uma coisa dessas com você. E ali conversei com o "poderoso chefão" de quadrilha que. e Goko pagara do seu próprio bolso o resgate dela. que mandara seus homens atrás dele. continuei. Mais uma vez mandei um recado urgente para ele. E mais uma vez fomos tomar chá juntos. — Mas você não tinha obrigação nenhuma de resgatar minha máquina. Minha máquina reapareceu na estante de livros. — Geui Jai é um sujeito muito ruim. Sou contra você. ele contou que Goko ficara tão irritado ao saber do que Geui Jai fizera. Não é meu amigo. disse. . pois queria agradecer-lhe.Três meses depois. Nada mesmo. porque quero derrubar tudo isso por que você luta. e vim para cá. Interroguei Ah Ping para saber o que acontecera. continuei. Não foi nada. moeyeh. replicou parecendo bastante constrangido. dirigia um império do crime e com a outra protegia uma missionária. Então ele a devolvera sem mandar dizer nada. com uma das mãos. disse-lhe. Deus me deu o primeiro fruto positivo disso. Afinal. em casa. — Muito obrigada pela devolução da máquina. — Seu gesto me comoveu profundamente. E eu queria explicarlhe uma coisa. — Moeyeh.

O segundo resultado positivo foi que Geui Jai ficou com consciência de culpa e tornou-se mais sensível. resgatando-nos com seu próprio sangue. A maneira mais fácil de expressar o que sinto é empregando as palavras do Evangelho de João: "A mulher quando está para dar à luz.Em seguida falei-lhe um pouco do que Cristo havia feito para nós. Afinal chegou o dia em que ele orou conosco. porque deram à luz muitos filhos e um relacionamento maior com o casal Willans." As dores daquela época podem ficar esquecidas. depois de nascido o menino. Ele ouviu atentamente. pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. As duas coisas me proporcionaram muita alegria. e seu desejo de ser uma pessoa diferente também aumentou. Muitas vezes me senti confusa. já não se lembra da aflição. Mas ouvira a história da redenção. Depois pagou a conta do lanche e saiu apressadamente. E não apenas libertou-se da droga. Ele vira a mudança que se operara em Winson e Ah Ming. tem tristeza. e depois foi para o centro de reabilitação do Pastor Chan e trocou a seringa pela cruz. Certa vez. mas. parecendo quase acanhado. . porque a sua hora é chegada. Aqueles anos vividos no apartamento da Rua Lung Kong foram uma época de aprendizado e crescimento. dei com o fracassado lutador dormindo em ruas e escadas. mas também foi estudar numa escola bíblica e tornou-se pastor.

Tem o dom de falar 'línguas estranhas'. O título é The Acts of the Little Green Apples (Os atos dos maçãzinhas verdes) e descreve^ vida da .10 É Jesus Mesmo "Jean Stone Willans é uma senhora muito entusiasta. e acaba de publicar um livro leve e interessante sobre religião.

de seu marido Rick. ou então assistir televisão. Descobrimos que houvera muita semelhança em nossas chamadas para trabalhar no Oriente. Ao que parece. deve também capacitá-la para isso. se Deus assim o determinasse. apreciavam-nas bastante. A Sr. e de Suzanne. ou ir a um jantar refinado. Aquela altura. em julho de 1973. Mas. e eu também partilhava desse entusiasmo acerca dele. isso se acha ao alcance de qualquer pessoa. a filha do casal. pois eles também tinham ." Era o que dizia um artigo do Hong Kong Standard. Eles haviam-me ensinado que podemos apreciar as boas coisas que Deus nos dá. mas da mesma forma estavam dispostos a dar tudo para os outros. Quando tinham coisas belas. segundo ela diz. Haviam aprendido a estar contentes em quaisquer circunstâncias. ela conseguiu uma forma de fácil comunicação com Deus. a Willans não pratica religião. O pensamento de Jean Stone Willans é de que. a respeito do livro de Jean.família Willans — dela. Os Willans haviam vivido momentos de necessidade também. Jean e Rick eram meus amigos íntimos e conselheiros espirituais. ela a vive. se Deus estálhe chamando para trabalhar para ele. Também eram os únicos crentes que eu conhecia que poderiam orar a noite toda. E ele o faz muitas vezes. mas não achavam que Deus queria que vivessem assim para sempre. Eu fora levada a crer que os missionários devem ter o mínimo de coisas possíveis.

E foi a um telefone. Logo pensei que devíamos então informar ao chefe de sua quadrilha que ele iria sair dela. — Por que você não tenta falar com ele? Se quer mesmo ser crente. David? indaguei. Ele me disse que estava disposto a seguir a Jesus de todo o coração. O juiz resolveu soltá-lo. quando avistei David agachado a um canto. — Mas qual é o nome dele? insisti. e ele saiu como que fora de si de espanto. não poderá seguir a dois Jesus. Saímos juntos dali e fomos tomar um café. mas quando me viu sentiu um aperto na consciência. Ele estava pensando em declarar-se inocente.recebido a orientação através de um sonho e uma profecia. — O apelido dele é "Jesus". — Está bem. Afinal voltou com uma expressão de surpresa no rosto. . disse ele. Ele ficou nervoso e pôs-se a remexer no assento. Vou tentar encontrá-lo. Certo dia eu me encontrava num tribunal acompanhando um caso. Seu ministério em Hong Kong era numa esfera de ação completamente diferente da minha. respondeu. no setor onde ficavam os acusados. Mas ele não vai querer vê-la. pois seria bom se rompesse com o mundo do crime. Começou a orar e acabou confessando-se culpado das acusações que lhe eram feitas. — Ele não vai querer falar com você. Era amigo de Ah Ming. — Quem é o seu daih lo.

ta Poon. onde haviam construído prédios de conjuntos habitacionais. Cheguei em Chaiwan às onze e meia e fiquei alguns minutos passeando por ali. Ali uma pessoa irá encontrá-la e levá-la a "Jesus". se isso puder fazer você compreender que Deus o ama. centenas de pessoas estavam sentadas tomando seu lanche noturno. É um lugar muito perigoso à noite e pode ser assaltada. Sr. hoje à meia-noite. está louca! Deu uma olhada de relance para os amigos e depois continuou: — Nunca vimos ninguém que quisesse morrer por nós. Tratase de uma área bem espaçosa na Ilha de Hong Kong. E depois. — Porque lá em Chaiwan ninguém a conhece. — Mas por que os cem dólares? indaguei curiosa. eles o levam e a deixam em paz. Não vou levar dinheiro nenhum. mas se não tiver nada. O rapaz olhou para mim com ar incrédulo e depois falou: — Você está maluca.— Ele vai falar com você. Aquela hora. É para você ir à Quadra 20 do conjunto habitacional de Chaiwan. quanto mais cem. Se você tiver o dinheiro. ficam com raiva e batem em você. explicou David. Mas terá que levar cem dólares. a rua ainda estava regurgitando de gente. . — Está brincando? Não tenho nem dez dólares. Se estou fazendo a obra de Deus. na lanchonete. ele cuidará de mim. não me importo de morrer.

Eu e "Jesus" sentamo-nos num café próximo. àquela mesa. Era quase como se o Espírito Santo estivesse ali. pedindo a Jesus que entrasse em sua vida. Estava tão absorta olhando para aquilo. totalmente desligado do ambiente que nos cercava. repliquei agarrando firmemente a minha Bíblia. Na valeta da rua. — Quero que me conduza ao seu chefe. — Está falando com ele. E depois orou. escorriam detritos em água poluída. com lágrimas escorrendo pelo rosto. e foi batizado no Espírito Santo.Deu meia-noite. — Tenho. — Por que quer ver "Jesus"? — Quero falar com ele sobre o meu Jesus. em meio às chícaras de café. Ali estava "Jesus". — O que quer conversar com ele? — Quero falar sobre o meu Jesus. Já eram mais ou menos três horas da madrugada. quando saí de Chaiwan e peguei . O homem virou a ponta do polegar para si mesmo. que não percebi a aproximação daquele que seria meu guia. — Quem você quer ver? — Quero ver "Jesus". Abri a Bíblia e pus-me a falar-lhe de Jesus. E ele entendeu tudo que eu estava dizendo. Eu estava na lanchonete da quadra 20. — O que você quer? indagou um cantonês de cabelos encaracolados. repeti. — Tem certeza de que quer falar com ele? Aquela conversa parecia um diálogo de filme de segunda classe. ao lado.

replicou. Existem muitas descrições sobre o encontro de diversas pessoas com Jesus. como o seu daih lo. E à minha frente estava aquele ex-quadrilheiro. e agora todos querem crer em Cristo também. Trouxera consigo um sai lo. participar da festa que. eu ainda estava em Hong Kong. que creu em Cristo hoje. cantar. com os pés na terra. esperando ouvir mais alguma coisa. naquele momento. Sai Keung. — Não. Também queria saber como poderia receber o poder de Jesus. Quando o vi no dia seguinte. Falei com a quadrilha toda. lembrei-me de uma coisa. Mas só aquele que já passou por essa experiência compreende a maravilha que ela representa. a propósito. que me olhava. Eu sempre dizia aos rapazes que. que estivera presente à nossa conversa de madrugada. Jesus lhes daria o dom de língua . Ficamos acordados até às seis da manhã. no apartamento de um amigo. você deve contar a pelo menos uma pessoa. entre os anjos. Mas antes disso. estava acontecendo no céu. dançar. lendo os versos que você sublinhou na Bíblia. Tinha uma expressão alegre e vibrante. logo que cressem. E então ele recebeu a Jesus e o dom do Espírito Santo.uma condução de volta a Kowloon. — Ah. Todavia. — Você falou a alguém que creu em Jesus ontem à noite? A pelo menos uma pessoa? indaguei um pouco ansiosa. Minha vontade era pular. quase não reconheci nele o antigo "Jesus". disse-lhe.

Como sempre fazia. reuniões de oração em lojinhas. Era um rapazinho baixo e corpulento. sem exceção. pedi a "Jesus" (que passou a chamar-se Christian) para apresentarme ao seu "irmão maior". mas incentivou-me com muita ênfase a voltar a Chaiwan no dia seguinte. É uma pessoa muito importante e tem centenas de seguidores. — Ele não vai querer falar com você. A obra estava-se alastrando para fora dos limites da Cidade Murada e atingindo pessoas de outros bairros. E todos.estranha para auxiliá-los em oração. Mas fiquei sabendo que o nome dele era Ah Kei. se estavam seguindo um Deus Todo-Pode-roso. e assim não houve nenhuma confusão sobre a possibilidade de um ser mais espiritual que outro. de pouca conversa. Deixe para lá. Mesmo quando queremos falar com ele. mas Christian deveria orar em favor dele. e cultos evange-lísticos nas escadas dos prédios. E eu voltei naquela noite. não sabemos onde o podemos encontrar. E aqueles novos convertidos aceitaram com facilidade o fato de que. Prometi que não iria forçar um encontro com ele. disse. era perfeitamente adequado que ele lhes desse uma nova língua para que falassem com ele. Estávamos todos com a impressão de . Sai Keung mostrava-se radiante. e em muitas outras. Fazíamos estudos bíblicos junto a barracas de lanches. para pregar aos outros. O número de interessados aumentou consideravelmente. receberam o dom.

Parecia estar tendo enorme satisfação em "atirar a luva". E tinha-se até a impressão de que ele se preparava para duelar. — Poon Siu Jeh. Onde quer que eu ia. e se ia haver um avivamento. Sentando-se à mesa onde estávamos. o local. convidou todos que se achavam por ali para lancharem com ele. pronta para uma emergência. ta Poon. Queria que todos vissem bem quanto dinheiro iria gastar. Ah Kei tinha ouvido os rumores a respeito do que estava acontecendo em Chaiwan. eu lhe darei mil discípulos. sempre levava comigo exemplares da Bíblia. exibindo ostensivamente sua condição de homem endinheirado. A hora era meia-noite e quinze. E também não pode simplesmente dizer aos seus sai los para crerem nele. e nem queria saber se estávamos com fome ou não. Aquilo era pura e simplesmente uma exibição. Acreditar em Jesus é uma decisão que você próprio deve tomar. Mas ele mesmo não comeu nada. Sr. Ah Kei surgiu de entre a escuridão disposto a brigar. — Não posso convertê-lo. uma barraca de rua. repliquei. disse em tom de desafio. se você puder me converter. Ah Kei. o elenco. .que ele iria tornar-se um elemento muito importante em nosso trabalho. "Jesus" e os crentes de Chaiwan. então ele tinha que estar no comando da coisa. Terão que decidir isso por si mesmos.

Logo se estampou na fisionomia deles uma expressão de espanto e preocupação. disse. do que com um indivíduo que pensa que leva uma vida certinha. Quando ele empurrou a portinhola com um tapume de plástico escuro. vi-me diante de uma dezenas ou mais de homens jogando. — Você seria capaz de ter amizade com um? indagou. respondi. — Não tenham receio. ele se virou para mim. Ah Kei ergueu a mão pedindo silêncio. . Ela não tem desprezo por nós. Continuamos a caminhar em silêncio. convidou-me para acompanhá-lo a um certo lugar. — Pois o pessoal da Cidade Murada me critica justamente por que gosto mais de ter amizade com um viciado. até que Ah Kei parou à porta de um barraco coberto com folhas de zinco. De repente.Mas ele ficou muito pensativo e. onde iria mostrar-me uma coisa. e tanto ele como eu sabíamos a quem ele estava-se referindo. — Poon Siu Jeh. após o lanche. Ah Kei. É cristã e veio aqui para nos falar sobre Jesus. às três horas da manhã. Não os desprezo. Começamos a caminhar em direção à favela cujos antros de jogo e drogas tinha sob seu comando. pela presença ali de uma mulher inglesa. você despreza os viciados? — Não. pois foi por causa de pessoas como eles que Jesus veio ao mundo.

que fica contíguo. trouxeram-me um homem que se contorcia em dores. Distribuí bíblias em todos os pontos que passei. convidando-me a pregar. — Poon Siu Jeh. — Não. Em um dos antros. e em todos as pessoas me escutavam respeitosamente. Veio aqui para nos falar sobre Jesus. . mas Ah Kei insistia em que eu conhecesse outros pontos de seu império de drogas. mais braços e pernas que corpos. respondi. — Não tenham medo. Quando saí dali deixei vários exemplares da Bíblia em chinês. nem enfermeira. perversão e jogo. ele me apresentou como uma cristã. Kwon Tong e Ngautaukok. Fomos de Chaiwan para Shaukiwan. Em cada um desses lugares. a senhora é médica? Pode levá-lo para um hospital? Ele está padecendo muito. Só o fato de eu ter pregado o Evangelho naquelas salas de perversão já era extraordinário. Ali havia velhinhos esquálidos estendidos sobre um estrado. A metade deles estava inconsciente.E em seguida me passou a palavra. Depois fomos ao salão de ópio. Ah Kei repetiu o que dissera antes. não sou médica. Pareciam mais uns insetos gigantescos. Ela não nos despreza. e dali para Lyemum. e não tenho dinheiro para interná-lo num hospital. Dentro presenciei um terrível espetáculo. Os que ainda estavam conscientes escutaram atentamente o que eu dizia. Mas posso orar por ele.

Ouvindo isso, soltaram risinhos maliciosos, mas concordaram em conduzir-nos a um quartinho dos fundos, que estava mais silencioso. Ali impus as mãos sobre o homem e orei por ele em nome de Jesus. Imediatamente, seu estômago relaxou e ele se levantou, parecendo bastante espantado. Estava completamente curado. Os outros também estavam um tanto surpresos. Um deles perguntou: — Esse é o Deus vivo, aquele de quem você esteve falando? E então puderam crer, porque entenderam quem era Jesus, pelas suas obras poderosas. No final, dei uma Bíblia para Ah Kei e escrevi uma dedicatória nela: "Para meu amigo Ah Kei, orando para que um dia seja meu irmão." Ele me agradeceu educadamente, mas sem a menor intenção de lê-la. Nos três meses que se seguiram, passei a acompanhar a vida dele. Era casado, tinha mulher e filhos, mas também costumava dormir onde estivesse, tarde da noite. Uma noite ele ficou tão drogado, que leu duas páginas de A Cruz e o Punhal, duas de Foge, Nicky, Foge, e duas da Bíblia, alternadamente, durante dois dias. A certa altura começou a abrir-se comigo e disse-me como se arrependera de haver-se casado tão jovem. Mas tive mais pena da esposa dele, por ter um marido que quase nunca parava em casa. As vezes ele dormia três dias seguidos. Outras, não dormia. Mas Deus sempre me

revelava onde ele estava dormindo, e depois de procurá-lo por algum tempo, eu o encontrava. Ele me olhava com uma expressão que parecia dizer: — Você, de novo? Como ficou sabendo que estava aqui? Enquanto isso, eu pedi a muitos crentes que orassem por ele. Certo dia, quando o encontrei, disse-me: — Deus me falou uma coisa. — O que quer dizer? Deus falou com você? Fiquei meio irritada, pois pensei que estivesse brincando. — É; Deus conversou comigo, insistiu ele. Estava lendo a Bíblia, e lá diz que ele tem uma graça especial para pessoas como eu. — O que quer dizer com "graça especial"? — A Bíblia diz que quem mais pecou, mais é perdoado. Quase senti inveja dele, mas estava falando com muita seriedade sobre essa sua descoberta, e parecia preparado para pedir ao Senhor essa graça especial. Estávamos num barraco contíguo a uma de suas salas de jogo. Ele sentou-se no chão e eu também me sentei. E, pela primeira vez, orei com Ah Kei. Ele pediu a Jesus que aceitasse a dedicação que fazia de sua vida e que fizesse dele uma nova pessoa. Aquela altura, porém, ele ainda não tinha muita noção de pecado e orgulhava-se de seu passado. Em seguida fomos para Mei Foo onde Jean e Rick estavam morando. Sabia que

ficariam encantados de conhecer Ah Kei, já que tinham orado tanto por ele. Fizemos uma grande festa pelo nascimento espiritual de Ah Kei. Geralmente orávamos em festinhas, e como Ah Kei ainda não recebera o dom do Espírito Santo, dissemos-lhe que Deus dá o seu poder a todos quantos o seguem. E todos começamos a orar no Espírito, quando, de repente, Ah Kei caiu de joelhos. Depois da reunião, ele nos disse que, ao ouvir as línguas estranhas, ficara profundamente consciente de seus erros passados. Sentindo forte convicção de pecados, compreendera que não poderia ficar sentado na presença de Deus, mas tinha que ajoelhar-se. E começara a falar em línguas também. Era uma cena incrível, ver um chefe de uma tríade de joelhos. Naquela mesma noite, pegamos um táxi e fomos a uma praia, onde Rick o batizou. Nas semanas que haviam precedido sua conversão, eu havia lido a Bíblia com ele muitas vezes. E certa vez ele me disse que não iria crer em Jesus com muita pressa, pois, se construísse uma casa rapidamente, ela poderia desmoronar-se com rapidez também. Mas, na noite em que foi batizado, começou a colocar sua vida em ordem, na mesma hora. Voltou para a esposa depois de muitos meses de afastamento. Ela parecia querer crer que ele mudara de vida, mas tinha tão pouca confiança nele, que temia ser mais uma esperança infundada.

Ah Bing casara-se com Ah Kei havia sete anos. Ele a conhecera numa festa e a seduzira, planejando "vendê-la" à prostituição. Mas acabara gostando dela e resolvera ficar com ela. Até certo ponto, Ah Bing tinha direito de duvidar, pois para ele edificar um lar cristão, teria que pagar um alto preço. Não apenas teria que abandonar uma imensa fonte de renda ilegal e seu controle sobre diversos homens, como também teria de enfrentar um processo de desintoxicação de ópio e heroína. Ele não se libertou da dependência da droga, e eu estava sem saber o que fazer. Aguns dos viciados que haviam-se tornado crentes, haviam sido libertos instantaneamente, enquanto outros iam para o centro de realibitação do Pastor Chan, onde recebiam muita assistência após a desintoxicação. Ah Kei solicitou admissão no centro, mas não havia vagas. O que eu poderia dizer-lhe? "Ore, Ah Kei, e Deus o libertará miraculosamente!" Eu vira o Senhor fazer isso, e não compreendia por que não acontecia sempre, em todos os casos. Não poderia levar Ah Kei para minha casa, pois já estava cheia de rapazes que tinham sido libertos da droga, ou haviam saído da cadeia dados como libertos dela. E era claro que não desejava colocar ali um que tomava drogas declaradamente. Para reanimá-lo, disse-lhe sem muita convicção: — Deus vai dar um jeito.

Pouco antes do Natal, fui despertada às quatro e meia da madrugada por um chamado telefônico. Era Ah Kei que desejava despedirse. — Poon Siu Jeh, muito obrigado por suas conversas a respeito de Jesus, por seu cuidado e consideração, mas não posso ser salvo. — Pode, sim, Ah Kei. Para Deus tudo é possível, disse eu. Mas minhas palavras até a mim mesmo pareciam sem convicção. — Não adianta mesmo. Não posso mais ser crente. — O que quer dizer com isso? Não pode ser crente? — Não dá para mim. Parei de controlar as quadrilhas, o jogo e o tráfico de drogas. Agora não tenho com que viver. Muito obrigado, Sr.ta Poon, por tudo que você fez. Mas não deu certo. Tentei ainda argumentar com ele desesperadamente. Arranjei todos os argumentos possíveis. Não poderíamos perdêlo. Talvez, se eu fizesse com que continuasse falando, aquele impulso passasse. Mas a voz dele foi ficando cada vez mais impessoal, e não conseguia mais falar ao coração dele. Afinal disse que ia sair à Procura de Ah Chuen para matá-lo. — Ah Kei, você não pode matar ninguém. Você é crente. Mas ele já não escutava mais os meus apelos patéticos. Estava fortemente drogado e

espere um pouco! disse eu. "Deus fez um milagre. Mas não parecia que Deus estava fazendo sua parte nesse caso. Então o casal se pôs a orar. disse. Há muitos viciados e aleijados espirituais pelas ruas. mas não durou muito!" Fiquei a procurar algum crente que pudesse dizer-me que. Estava só passando. desligou. E eu também orei durante todo o período de festejos do Natal. E os assaltos? . conhecendo-te. Não queria aceitar o fato de que uma pessoa que crera em Jesus pudesse pensar em matar alguém. Estava um pouco zangada com Deus. disse. Como pode ser que. Eu não queria acreditar no que ouvira. Até logo. E as pessoas olham para eles e zombam de ti. leva-a até o fim. — Senhor. — Nem sei por que vim aqui. Alguns dias depois. e veja como estão agora. Eles me ouviram atentamente. Ah Kei apareceu em nossa porta. — Vocês precisam levantar e orar. Imediatamente liguei para Jean e Rick. quando Cristo começa uma boa obra em alguém. E chorando cantei os tradicionais hinos natalinos. eu realmente cria que tu eras a solução para tudo. — Ei.depois de dizer-me que seria obrigado a fazer alguns assaltos para obter dinheiro. Acho que Ah Kei saiu para matar um homem e também está planejando praticar assaltos. ele não te quis? Ah Kei e outros creram em ti.

Está na hora de alguém agir com firmeza. — Eu estou. e depois acrescentou: — Só um. mas pude sentir que estava começando a ficar transtornada em ver um verdadeiro crente não conseguir libertar-se das drogas. ficamos sabendo que um do grupo nos havia delatado. fez os cortes nelas para enxergarmos por eles. — Se estiver sendo sincero em seu propósito de seguir a Jesus. mas eu não estava com vontade de fazer um assalto naquele dia. mas não tivera coragem de sugerir. respondeu. Como de costume. Você precisa ter uma conversa com eles. — Você tem problemas? indagou. Era exatamente isso que eu desejava. falei. fez os capuzes para nós. Na segunda vez. ele fará o que você quiser. — Pois bem. Da primeira vez que planejamos ir. Ainda estou viciado em heroína. Ela também não . — Não. E não fomos. — Pois bem. Então não fomos. não. respondeu ele. isto é. continuou ela firmemente. disse acenando afirmativamente.— Bom. Na noite em que me telefonara. vamos à casa do casal Willans. Jean mostrou-se bastante receptiva. minha mulher preparou as fronhas. estávamos sentados no carro com tudo pronto. quer ficar aqui e passar pela desintoxicação? Fiquei grandemente admirada. não conseguira achar Ah Chuen.

se sentisse uma pontada de dor. e com ótima aparência. Depois disso. diarréia e fortes dores no estômago. Jean ligou para um médico crente e pediu-lhe explicações sobre como seria o processo de libertação de drogas. logo o instruíamos para . aliada inspiração do Espírito Santo. estendeu o braço debaixo da cama e tirou ali uma caixa contendo um suprimento de heroína suficiente para várias semanas. Nos momentos em que acordava. mas sua preocupação pelo futuro de Ah Kei. sob nossas vistas. tirou alguns embrulhinhos de heroína e atirou-os no vaso sanitário. Ele respondeu que. Em seguida. febre. Lá. mas ele dormiu como uma criancinha. abriu o blusão. sentada ao lado de Ah Kei. voltamos ao apartamento de Jean e Rick. vômitos. Ele poderia até tornar-se violento. levou-a a isso. mas se ela o quisesse. ele poderia ministrar-lhe metadona. Passei três noites sem dormir. fomos também à sua casa. sem medicação adequada. Ele não a aconselharia a cuidar dele. tremores. Esperávamos todas as reações previstas.pensara em fazer esse convite. no conjunto habitacional. — Vamos ficar com Jesus mesmo. ele iria sofrer agonias terríveis. Por fim. estava completamente bom. recusando o oferecimento dele. jogou tudo no vaso. ao ponto de atacar as pessoas que o assistiam. para um viciado que durante dez anos vinha tomando heroína. apertando a descarga. Ao fim dos três dias. respondeu ela. uma droga que substituía a heroína.

que não estava muito satisfeito com essa situação. e só depois que ele aquiesceu com a exigência de Rick. e ele encontrou-se com um velho amigo. No quinto dia. se ele não se libertasse do vício do fumo também. convenceu-o a . começou a sentir as dores. lhe arranjasse alguns cigarros. Redobramos nossas orações outra vez. Quase no mesmo instante. Mais uma vez Deus o libertara. e enquanto adorávamos a Deus. Conversando com ele. Wahchai. ele estava inteiramente liberto da dependência da heroína. ele começou de repente a sentir os efeitos da desintoxicação. mas ainda tinha forte desejo de fumar. Pusemo-nos a orar todos no Espírito. com fortes sensações de frio seguidas de sensações de calor. foi que as dores cessaram. e a dor cessava milagrosamente. procurando o alívio para ele. Felizmente. Certo dia. Ele ainda precisava de cuidados. O milagre da cura de Ah Kei se deu também com vários de seus amigos. Jean Levou-o ao barbeiro para cortar o cabelo. Já sabíamos que a maneira de uma pessoa passar pelo processo de desintoxicação sem dor era orar no Espírito. e era melhor ficar mais algum tempo num ambiente onde não houvesse drogas.que orasse em línguas. conseguiu que a empregada do casal. a esposa dele o visitou. Rick dizia firmemente que. No sétimo dia. já que estava curado. a dor passou. Mas nós nos opusemos. Ah Kei. Quatro dias depois. e tentou convencê-lo a voltar para casa. então não estava completamente liberto. que era budista.

que também aceitara a Jesus. Na quinta-feira seguinte. mas ficara receoso de falar. começou a chorar incontrolavelmente. Depois disso. Depois que já estava bom. dando assistência a ele. e ele foi liberto da heroína sem nenhum sofrimento. Durante quatro dias. mas ninguém disse nada. e ficamos a noite inteira com ele ali. sua cura foi relativamente simples. até que foi totalmente liberto. a fim de se completar a cura. e recebido o dom do Espírito Santo. pediu o poder de Deus para se libertar do vício. Esperamos alguns instantes. . um outro rapaz. Recebi ali uma mensagem em línguas. na reunião regular. e ali tivemos de improvisar uma reunião. Como acontecera com Ah Kei. embora tivesse se convertido pouco antes. Por fim. mas a interpretação não veio. Duas semanas depois. Wahchai confessou que recebera a interpretação da mensagem. punhase a orar no Espírito.acompanhá-lo ao apartamento de Jean. Ao transmitir-nos a interpretação da mensagem. Um bom grupo acompanhou-o à estação ferroviária. uma questão apenas de ficarmos ao lado dele. e logo sentia-se melhor. pois ainda era viciado. vários rapazes de nosso grupo se revezaram. alugamos então um quarto num apartamento que era utilizado como bordel. orando. todas as vezes que sentia a primeira pontada da dor. passou uma semana na casa de Jean e Rick. Ah Kei resolveu ir à China e passar uma semana lá. Como o apartamento do casal Willans já não comportava mais ninguém.

respondeu Ah Kei. respondeu alegremente. os guardas de segurança do país interrogaram-no querendo saber quem eram as pessoas que o haviam levado à estação de Kowloon. um moça inglesa (eu) e uns amigos chineses. sendo chinês. Quem são aqueles ocidentais? Como você se envolveu com eles? Era um interrogatório incessante. abandonando as atividades criminosas. que cria em Jesus Cristo. Mas aqueles ocidentais são crentes. — Por que dessa vez você não está trazendo drogas? indagaram. Respondeu que tinha sido um senhor americano (Rick). — Ah. Foi então que aqueles guardas revelaram que sabiam que Ah Kei muitas vezes tentara passar na fronteira com drogas. mas ele insistiu em afirmar que o estava. Os agentes da segurança disseram que não era possível que ele estivesse liberto da dependência das drogas. foram eles quem me falaram sobre Jesus Cristo. e Ah Kei respondeu a tudo com a verdade. E que em março iria começar a trabalhar num escritório. acho que os chineses são melhores. e portanto também são muito bons. Explicou que havia deixado a quadrilha. e era uma . — E quem eram esses ocidentais? indagaram eles. Então diga uma coisa: quem é melhor.Quando o trem chegou à fronteira. o homem chinês ou os ocidentais? — Bom. replicaram os guardas. — Pois bem.

Ao fim da festa. Mas essa reação deles foi a deixa para Ah Kei se lançar no relato de seu testemunho. . que também se tornou cristão e foi batizado com o Espírito Santo. e depois permitiram que entrasse na China levando sua Bíblia. Ah Kei deu-lhe a sua e a notícia se espalhou. os guardas ficaram muito irritados e responderam que era impossível.nova pessoa. Os policiais o escutaram atentamente. que a aceitaram um por um. em que se serviram pratos chineses saborosos. e agora sou velho. Logo que Ah Kei se tornara crente. Ouvindo isto. O pai de Ah Bing ficou tão satisfeito de ver a transformação que se operara em seu genro. Explicou também que não tomara nenhum medicamento. soube de uma jovem crente que não conhecia bem as Escrituras. porque nunca tivera uma Bíblia. Falou quase uma hora. mas nunca antes vi um homem mau tornar-se um homem bom. E para comemorar deunos um banquete memorável. Chegando ao seu povoado de origem. uma narração completa do que Deus fizera por ele. transmitira a boa-nova a todos os seus familiares. ele se ergueu e disse: — Já fui moço. A cura fora totalmente efetuada por Jesus.

larguei os estudos e entrei para uma quadrilha tríade. Meu nome chinês é Ah Lam. tornei-me pior que antes. escrito em minha casa. e achei que. Há mais ou menos dez anos. respeitado. Desejava ser temido. Aprofundei-me mais e mais no . Então abandonei a vida normal e passei a viver no submundo da marginalidade. Fui sentenciado a cumprir pena num centro de treinamento para jovens delinqüentes. fui preso e indiciado por roubo à mão armada. reconhecido por todos. "A razão por que estou dando graças ao Senhor Jesus é que antes eu era um homem depravado. na Rua Lung Kong. estava muito sentido pelo que fizera.11 As Casas de Estêvão Eis o testemunho de Daniel. e me senti muito triste e infeliz. "Dou graças a nosso Senhor Jesus por terme salvado de minha antiga vida. sendo membro de uma quadrilha. Um ano depois. mas meu nome ocidental é Daniel. Resolvi modificar-me. teria tudo isso. Mas logo que fui solto. começar vida nova. eu estava com quatorze anos. dando-me uma nova e maravilhosa existência nele. "Naquela ocasião.

arrependi-me e aceitei-o como meu Salvador. Dou graças a Jesus por haver-me proporcionado tudo isso.crime. Foi uma experiência maravilhosa! Posso dizer que nunca voltei atrás na decisão tomada. Ele temme abençoado muito. Um dia. eles não tinham opção de . mas nunca o consegui. "Oro para que você também goze dessa mesma experiência. Tanto quanto possível eu evitava recebêlos em minha casa na Rua Lung Kong. após terem ouvido contar o que ocorrera a Ah Kei. Senti-me completamente diferente. poderia obter a quantidade que quisesse de heroína ou ópio. Logo se espalhou entre os viciados a notícia de que." Isso foi escrito por um dos muitos marginais que procuraram a mim ou aos Willans. e só então poderá entender plenamente meu testemunho. No apartamento de Jean e Rick. Mas sentia um grande vazio interior. e em questão de segundos um viciado. Então recorri à heroína. receberiam um certo poder. já tenho aprendido muitas cousas e a cada dia aprendo mais. se quisessem crer em Jesus. Era como se tivesse sido liberto. "Tornei-me um viciado. Ah Lam. £ uma vida realmente maravilhosa. que os capacitaria a libertar-se das drogas sem sofrimentos. "Que Deus o abençoe. Tentei libertar-me das drogas algumas vezes. em desespero. vim a conhecer Jesus. pois era muito próxima da Cidade Murada. como se tivessem tirado um enorme peso de meus ombros.

a fim de crescerem espiritualmente. E o número deles foi crescendo ao ponto de a casa de Jean e Rick ficar superlotada. Poucos dias depois de ter sido liberto das drogas. E foi o problema de Ah Kit que afinal nos obrigou a resolver de uma vez por todas a questão da casa. A porta tinha tranca dupla.escape. se não quisesse orar. Aliás. Entretanto. Um jovem que fora trazido à minha casa por um padre disse: — Sei que os viciados que vão à casa de ta Sr. eles só nos procuravam quando já estavam dispostos a fazê-lo. Ele teria que sofrer as agonias do processo de desintoxicação. Pullinger são libertos. não teríamos nada para oferecer-lhes. respondeulhe o padre. Estava claro que precisávamos de um lugar só para que os viciados se libertassem da dependência da droga. pois sabiam o modo como trabalhávamos. e as janelas eram protegidas por grades. Estava redondamente enganado. nunca tivemos de enfrentar um caso em que o viciado não quisesse crer em Jesus. — Não se preocupe com isso. ele concluiu que queria . Mas tenho um pouco de medo desse negócio de Jesus. Se não "impingíssemos" Jesus aos viciados. E sempre havia pelo menos uma pessoa a vigiá-los nas vinte e quatro horas do dia. A maioria deles exigia uma atenção constante. e onde pudessem ficar algum tempo. Jackie não tentará impingi-lo a você.

sentia-se rejeitado. — Ou os viciados ou eu. levando em conta o fato de que ela cuidaria dele. liberou-o. ouviu o relato de Jean sobre a mudança que nele se operara.. Levamos Ah Kit para casa. . ele teve uma genuína experiência de transformação de vida e se arrependeu. escutamos os guardas comentando se não seria melhor uma pessoa ter um Deus do que um advogado. e voltasse a Jesus. ao ponto de um dia Jean encontrar sua filha Suzy. Na prisão. o juiz fez um comentário no sentido de que Ah Kit tinha uma ficha muito ruim e merecia uma longa sentença. colocando-o aos nossos cuidados. Se Jean se afastava para falar com alguém. Todos oramos para que ele chegasse a um ponto onde não pudesse continuar com aquela vida de crimes e drogas. e falava sério.governar a própria vida novamente e saiu da casa dos Willans. No julgamento.. Entretanto. Ao sairmos dali. Isso provocou enorme tensão na família. e. mas exigia atenção constante. disse ela à mãe. de dezessete anos. Estava gostando de ficar na casa de Jean e Rick. Depois de toda uma vida de descaso. Começou a orar e a falar de Cristo aos companheiros de cela. Foi indiciado por assalto à mão armada. E ele foi preso. Ah Kit começou a crescer espiritualmente bem devagar. Fora um ato bastante raro o dele: soltar um homem que tinha tais acusações. parecia muito carente de afeto. fazendo as malas.

em poucas semanas. Estava na hora de procurarmos um lugar que tivesse a atmosfera de um lar. mas. e outras questões desse tipo. Começamos com apenas um residente. Uma pessoa que lera o livro de Jean doara uma soma em dinheiro para alugarmos um apartamento que seria utilizado exclusivamente para a assistência a viciados que desejassem começar uma nova vida em Cristo. a segunda. julgamento nos tribunais.Nenhuma família poderia resistir por muito tempo a esse tipo de pressão. e por isso precisávamos de atuar através de uma entidade oficializada. o número aumentou . quando lidávamos com as leis do inquilinato. sendo que a minha fora a primeira e a de Mei Foo. Nosso primeiro obreiro de tempo integral foi Diane Edwards. Fora batizada no Espírito numa das reuniões na casa dos Willans. Demos ao novo apartamento alugado o nome de "Terceira Casa de Estêvão". quando o casal Willans me telegrafou. dando a notícia. Tanto eu como os Willans estávamos cada vez mais envolvidos em auxiliar marginais. Eu me encontrava na Inglaterra. Então nos tornamos conhecidos por todo o submundo dos viciados como "Estêvão". Era uma ex-freira que já morara cinco anos em Hong Kong. e uma vigilância de vinte e quatro horas por parte dos obreiros. O nome escolhido pelo grupo que orava em casa dos Willans foi Associação Estêvão. com muito amor.

Era-nos penoso ter que recusarlhes admissão ali. No culto da véspera do Ano-Novo. oramos pedindo a Deus uma nova casa no novo ano. Ah Kei e seus familiares se mudaram para o apartamento para auxiliarem Diane na direção da casa. a fim de acomodarmos aqueles que nos procuravam. — Porque precisamos de uma promessa de dinheiro para o aluguel. Começamos a orar pedindo a Deus mais um lugar. padres e freiras. Na época de Natal já havia dezessete pessoas naquele pequeno apartamento. Cada vez que chegava um rapaz. Após o encerramento do culto. Ele cria em Cristo e era liberto da dependência das drogas sem dores. quando orava no Espírito. agrade-cendo-lhe pela resposta antecipadamente. ou então de uma garantia de Deus. Depois. de que podemos tratar .para seis. uma quarta casa. por volta do Ano-Novo. juntamente com nossos quadrilheiros e ex-viciados. ou então de que alguém nos doe o apartamento. Por vezes. professores universitários. sabendo que seria tão simples libertarem-se das drogas pelo poder de Jesus. um amigo inglês perguntou-me por que ainda não havíamos alugado a casa. o milagre se repetia. havia ali até cento e cinqüenta pessoas entre pastores. que tiveram de mudarse para uma casa maior. A reunião dos sábados na casa dos Willans cresceu tanto.

Certa vez. . deixávamos apenas outra opção. recusou-se terminantemente a orar. um dos chefões do sindicato do crime fez uma oração recebendo a Cristo e foi cheio do Espírito. Eram onze e meia da noite. Simplesmente reduzíamos a zero todas as outras alternativas possíveis. sofrer. respondi. Aliás. ou melhor. Coroamos o negócio fazendo uma reunião de oração na nova casa. Nunca obrigávamos os viciados a orarem. é impossível obrigar qualquer um a orar. dizendo que havia um apartamento desocupado ali perto. Foi o mais maravilhoso culto de vigília de que já participei em minha vida.do aluguel mesmo sem termos o dinheiro. depositei o dinheiro numa conta especial para vocês. no momento em que oravam na linguagem do Espírito. Pelas experiências obtidas com Ah Kei e outros viciados. aprendi que não era necessário esperar até que Deus "acidentalmente" os libertasse. Então mandamos dois de nossos rapazes procurarem um lugar adequado. quando acertamos o aluguel do apartamento com o vigia. Compreendi que poderiam ser libertos por intermédio do poder que Cristo lhes concede. mas quando as dores começaram. Voltaram quase no mesmo instante. quando estavam passando pelo processo de desintoxicação. E ele me disse: — Faz duas semanas. comemorando a entrada do AnoNovo.

Então ele ficou e foi para o quarto. onde eu me encontrava. — Se você orar. pois cria que ele fora sincero quando dissera que desejava seguir a Cristo. orou novamente. Afinal. tenho sim. seu desespero foi tão grande. — Pois bem. ele confessou que orara em línguas várias vezes. Não têm esse direito. Fiquei olhando-o. objetou ele. E da outra vez em que principiou a sentir dor. estaria sendo desleal para com você. ou embora. Quando o processo já estava quase findando. ou saltar do telhado. ou ficar aqui e passar por todo aquele sofrimento. Você pediu que o ajudássemos a começar vida nova. Não o permiti. e encaminhou-se para a porta. Logo que começou. — Já decidi que não quero mais seguir a Jesus. então você tem quatro opções.No dia seguinte. sozinho. — Não podem me prender aqui. vai se sentir bem melhor. — Ah. que resolveu orar. Mas terá que passar por cima de mim para sair. as dores cessaram e ele dormiu tranqüilamente. Um homem de grande influência como ele não usava de violência contra mulheres. disse-nos que iria embora. Saltar do telhado significaria a morte. disse irredutível. Pode e dar um soco e pegar a chave. repliquei. . — Mas vou embora. e se o deixasse sair agora. ou então ficar aqui e orar. enquanto sopesava as alternativas.

antes de passarem pela experiência de libertação da droga. . perdão. Chegavam a uma de nossas casas dizendo: — Ouvi falar que Ah Kei (ou outro amigo qualquer) mudou completamente de vida. e disse que foi Jesus que fez isso. Uma enfermeira inglesa. Cada uma que orava. A maioria de nossos rapazes começou a entender quem era Jesus somente depois que já o haviam experimentado na própria vida. mas no fato de que Jesus havia operado em outros. mais tais pessoas não estão a par de todos os fatos.Eram bem poucos os viciados. precisávamos de mais obreiros de tempo integral. Certas pessoas explicavam esse extraordinário acontecimento espiritual como um caso em que a mente sobrepuja a matéria. tem a mente já parcialmente destruída. e assim sua fé se fortalecia. pode mudar a minha também A fé dessas pessoas não se baseava no entendimento de conceitos teológicos. que passa por um processo de desintoxicação. E se Jesus pode mudar a vida dele. com exceção dos da Cidade Murada. o clubinho da Cidade Murada e as reuniões e cultos. era um benefício para eles. Só compreendiam verdades como salvação. redenção muito tempo depois de já possuírem os benefícios delas. Mas isso. Uma vez já tendo quatro casas. que tinham algum conhecimento do cristianismo. recebia a resposta de sua petição. Um viciado em drogas. ao invés de ser uma desvantagem.

Aos domingos realizávamos cultos pela manhã na casa da Rua Lung Kong. Percebi também que eu não era indispensável. Entendi então o significado do Corpo de Cristo. Muita gente batia à minha porta. orando por eles e incentivando-os à oração. vendo cada pessoa executar uma função diferente. e saía dali crente.Doreen Cadney. batizada no Espírito Santo. bem como Gail Castle. que regressara dos Estados Unidos. para responsabilizarse pela direção das casas. Depois foi Sarah Searcy que abandonou um emprego. os rapazes que haviam sido libertos das drogas ajudavam muito aos "novatos". Durante muito tempo. aos quais compareciam muitos estudantes. resolveu ajudar-nos. E esses os escutavam com muito respeito. cozinhavam e assistiam aos recémchegados. muitas pessoas "boazinhas" ficavam impressionadas e criam em Cristo também. Arrumavam a casa. cheia de problemas. Quase diariamente chegavam novos viciados desejosos de se libertarem das drogas. eu tentara fazer tudo sozinha. a qualquer hora do dia ou da noite. Além disso. ex-viciados e outros visitantes. Outra coisa que aprendemos foi que o trabalho de se transformar um viciado numa . Vendo a transformação por que os moços passavam. rapazes da Cidade Murada. mas depois comecei a passar tarefas para os outros. que vinham em busca de cura ou aconselhamento espiritual.

Nunca recomendavamos um período . embora ainda preferíssemos que fosse de dois. Seu hábito de vida era mentir e trapacear. Depois percebemos que eram necessários pelo menos seis meses. Muitos tinham vivido pelas ruas durante anos e anos. para que sua atitude mental se modificasse.pessoa integrada à sociedade era tarefa a longo prazo. dizíamos que. ainda tinham muito que aprender. No ministério da Rua Lung Kong. como ele fizera uma decisão voluntária de seguir a Jesus e entrar para uma de nossas casas. pensávamos que três meses seriam suficientes. eu tentara arranjar trabalho ou estudo para os rapazes o mais cedo possível. antes de poderem caminhar com os próprios pés. tinham a opção de ir embora ou permanecer na casa e conhecer melhor a Jesus. Mais tarde passamos a recomendar que o tempo mínimo para isso fosse de um ano. Depois desse período. Mas a experiência me ensinou que. Tínhamos que mantê-los em contato com uma família cristã. ao enfrentarem situações difíceis. até que se habituassem a agir à maneira do crente. A princípio. Dos rapazes que desejavam realmente seguir a Jesus. já completamente libertos. embora os rapazes estivessem fisicamente habilitados para tal. não permitiríamos que saísse antes de dez dias. recebendo muito amor e uma disciplina rígida. jamais. nenhum foi mandado embora. E aos que apareciam querendo livrar-se da dependência da droga.

uma espécie de clínica onde os viciados recebiam certas drogas em substituição à heroína. Quase todos os dias praticavam esportes. e se o novo crente não tivesse feito aquela entrega pessoal básica. que eram fornecidas pelo governo. Diariamente oravam. aulas de chinês e inglês. Assim que percebiam que não iríamos mesmo deixar que voltassem para casa. Nunca tivemos um melhor supervisor para o nosso serviço de assoalhos do que Tony. Os rapazes encontravam nela um forte senso de segurança. Cristo não poderia transformá-lo. faziam as tarefas caseiras. Tinham estudo bíblico. principalmente futebol. que muitos dos viciados que estavam por ali ficavam sabendo que Cristo poderia libertá-los do vício.inicial inferior a dez dias. Grupos de rapazes iam fazer a limpeza e enceramento de apartamentos. Seguir a Cristo era uma opção para toda a vida. e aí tinham a oportunidade de falar de Cristo a outros. e isso ensejou a formação da "Conservadora Estêvão". E assim estabeleceu-se a rotina. Recebemos a doação de uma enceradeira industrial. iam ao mercado. e se aquietavam ali. . embora não muito rígida. Sempre jogavam perto de um Centro de Metadona. Isso constituiu-se numa oportunidade a mais para a pregação do Evangelho. O time formado pelos nossos rapazes era tão forte e saudável. eles se tranqüilizavam e passavam a ter uma vida ordenada. aquele comprometimento de modificarse. individualmente ou em grupo.

que dirigia a companhia como se fosse uma operação militar. Sentia que ninguém o . não tinha nenhum dinheiro. seu pai o mandara para a China. que o encaminharam para o roubo com violência. mas isso era impossível para o garoto sem dinheiro. Um amigo mútuo nos apresentou. Sua vida era muito diferente de um conto de fadas. como um conto de fadas. e ele chegou até nossa casa. e ele me viu. Eu havia conhecido Tony havia uns dois anos.. começou a tomar heroína e pouco depois injetava-a diretamente na veia. acabou-se deparando com as tríades. mas era tudo muito vago. para ajudar sua primeira esposa. Sua verdadeira mãe escreveu-lhe de Havana suplicando-lhe que voltasse. até que a cidade caiu em poder dos comunistas. Ficou intrigado por ver uma mulher ocidental lanchando numa barraca de lanches. que não tinha filhos. Aqui chegando. Então pôs-se a trabalhar como engraxate ou a bater carteiras para sobreviver. que não se conseguia apreender bem. Inevitavelmente. fugiu e viajou pela China em direção à fronteira de Hong Kong. Mais tarde foi a uma outra igreja e disse que gostou. Cuba. Quando estava com oito anos. Com dezesseis anos. Nascera em Havana. Estávamos lanchando numa barraca de lanches em nossa rua. e com tantos criminosos por ali. Afinal conseguiu cruzar a fronteira. Quando estava com quatorze anos.. na maior pobreza. E ele viveu com ela em Pequim durante algum tempo. Estava acostumado a mandar.

Isso exigia represálias. Contou-me que. pedindo que procurasse Tony. Eles se envolviam em chantagens. Mas ele estava tremendo.amava. Uma noite. fundando. e devido às tristes experiências da infância. uma nova ramificação da 14K. com mais dois colegas. Então abotoei bem o casaco e fui fazer uma visita noturna à Vila Diamond. e. Entretanto. Ele não tinha outra opção senão preparar o ataque da vingança. ao sair da prisão. brigas e mortes. Até mesmo eles temiam aquele líder impiedoso. Tinham roubado seus pertences. sabendo de sua paixão pela música. no fundo da lembrança havia uma . Junto dele. Eu ainda não sabia como ia acontecer. o colarinho do paletó virado para cima a proteger-se do frio. que se encontrava em grande dificuldade. Mas quando fitei Tony. o que me chocou foi a expressão de seu rosto. granjeou a reputação de "solitário" entre os "irmãos" da quadrilha. que ele já havia planejado tudo. Com isso. soubera que uma quadrilha rival tinha tentado tomar o controle de seu território. mas percebia. Encontrei-o sentado em uma casa de chá. onde ficava a sede de seus domínios. que conseguira deter tanto poderio nas mãos. criou em torno de si uma couraça de amargura. Ah Kei me telefonou aflito. Era a expressão de quem ia morrer. e isso era terrível. Pôs-se a narrar-me a situação. dois companheiros de quadrilha. haviam quebrado seu violão ao meio.

mas eu insisti. . Venha conosco.ta Poon. Para aplacar isso. Tony. — Não estamos querendo construir um templo. respondi. Por isso decidira matar ou morrer. E nenhuma das duas coisas lhe importava muito. porém. disse ele. insistiu.recordação muito doce de uma coisa boa. Tony. — Sr. Descemos pela ruazinha que passava entre os barracos. Ele quer você. Se ele não revidasse ao ataque. — Deus o chamou para salvá-lo. — Não queremos seu terreno. nunca mais poderia andar pelas ruas com a moral de um chefe. peça por peça. Pouco antes de eu chegar ali. Todos estavam esperando que ele tomasse represálias. Venha comigo. — Deus está chamando você. resolveu vender seu barraco e doar o dinheiro obtido para a Associação Estêvão. queremos sua vida. e depois tocara fogo em sua casa. disse eu por fim. Mostrou-me o lugar onde ela era. Não quis. mas queremos ajudá-lo a reconstruir sua vida. eu queria dar a escritura desse lote para a igreja. — Vocês podem construir uma igreja nele. Estava cansado. e vi as cordas do violão ainda espalhadas pelo chão. a outra quadrilha havia arrastado suas roupas no chão. Tony tinha sido o "rei" do lugar. Tony. e notei como os habitantes dali olhavam para ele.

Mas daquela vez foi diferente. por isso sempre andava com um pouco de heroína escondido em minhas roupas. Quando eu estava no meio da frase. Desde que era criança nunca mais havia chorado. Venha conosco. Mais tarde. para o caso de ficar sem ela. Em meu apartamento da Rua Lung Kong. e a dor . Era a última vez que via seu povoado por um período de vários anos. Meus irmãos em Cristo oraram por mim. recebendo depois o batismo do Espírito Santo. Então eles lhe ensinaram como poderia receber uma nova vida. Nem se despediu dos "irmãos" da quadrilha. mas ficou pensando no que eu dissera: "Deus o chamou. e também orei em língua estranha. ele escreveu seu testemunho. "Eles oraram por mim e eu aceitei a Jesus como meu Senhor. Eu já tinha tentado outras vezes livrar-me da dependência das drogas. os rapazes estavam prontos para recepcionálo. Mas a dor era muito forte. Ele estava com certo temor de Deus. Tony. Então compreendi que realmente nascera de novo. "Levaram-me para a Terceira Casa de Estêvão. e fez que sim.Chamei um táxi e entrei. senti o coração arder e todo o meu corpo com um forte calor. e eu não a suportava. e chorei. Deus o chamou". Perguntaram-lhe se desejava receber a Jesus. ele entrou no carro e sentou-se ao meu lado. Quando fui cheio do Espírito. Comecei então a dizer-lhe: — Deus quer sua vida hoje.

onde pudesse ser amado e cuidado. Os outros rapazes que se achavam nas outras casas também estavam-se desenvolvendo. Isso tudo é maravilhoso e mostra como o Senhor Jesus é poderoso.desapareceu. no rádio e na televisão. embora alguns saíssem antes de sentirmos que estavam preparados para tal. vendo os filhos libertados da droga. Agora trabalho num dos principais salões de Hong Kong. expresidiário. receber uma concessão especial para visitar os Estados Unidos." O ideal seria que cada um de nossos rapazes se tornasse filho adotivo de uma família crente. E hoje já não desejo seguir os caminhos do pecado. Ele perdera sua vida. Mas a melhor coisa que ele fez por mim foi mudar meu coração. fui morar com o casal Willans. Fui com meus pais adotivos à China. "De lá para cá. um ex-lutador de quadrilha. porque sigo a ele. tenho visto Deus operar de muitos modos em minha vida. e em 1976 visitei também os Estados Unidos e a Inglaterra. onde aprendi a cortar e pentear. mas assim fazendo a reencontrara. o que nos entristecia bastante. logo começavam a resmungar com relação a . Que coisa maravilhosa para mim. Eles são agora como pais para mim. A mais forte pressão que sofriam nesse sentido era a dos pais que. onde falei em igrejas. "Depois fiz um curso de cabelereiro. Dois meses depois. ex-viciado em heroína. Foi maravilhoso ver Tony crescer espiritualmente e ir sempre se transformando.

E então saiu de casa outra vez. e constantemente o repreendia. Nunca aprendera a ler ou escrever. Siu Ming trabalhava vendendo jornais. Como acontece a muitas famílias de Hong Kong. todos dormiam numa cama só. Um ano depois. até que ele saiu de casa. . esperando o pai voltar para casa. Siu Ming não sofreu essas pressões por parte dos pais. Aos quinze anos entrara para uma quadrilha tríade. ele começou a tomar heroína. e não havia cozinha. e depois pediam para retornar à nossa casa. nem banheiro. nem eletricidade. Como não tinham mais ninguém na vida. nem água encanada. a irmã foi à sua procura e disse que o pai havia morrido. pois era órfão. para sempre. Siu Ming e a irmã costumavam sentar-se numa pedra que havia à porta do barraco. Mas. Sua mãe tinha morrido quando estava com seis anos e ele morava num casebre com o pai e uma irmã menor. para aqueles rapazes. Se viam que ele trazia alguma coisa consigo. e alguns voltavam a tomar droga. O pai ficou com muita raiva. Se as mãos dele estavam vazias. o peso de sustentar uma família era demasiado. Mas só os recebíamos quando tínhamos certeza de que estavam sendo sinceros. sabiam que teriam o que comer.dinheiro e a responsabilidades de família. A irmã suplicou-lhe que não o fizesse. isso significava que ele perdera no jogo e não teriam jantar naquela noite. mas pouco depois já estava viciado.

Depois de permanecer ali cinco meses. Ao ver-me. e preferiu Jesus.Como a venda de jornais não fosse suficiente para custear a compra de heroína. Escreveu meu nome e endereço. Voltou ao centro. num pedaço de papel. e começou a falar numa língua que não conhecia. foi preso de novo. Foi preso e enviado para um centro de reabilitação. quando lhe falei que Jesus o amava. . Tampouco sabia que tínhamos alguma relação com igreja. Mas. disfarçou um pouco a surpresa de encontrar-se frente a frente com uma inglesa. onde deveria passar pêlo processo de desintoxicação. Alguns dos ex-quadrilheiros que moravam em nossa casa oraram por ele. saiu e imediatamente voltou a tomar drogas. quando saiu num feriado. e voltou às drogas. Dessa vez foi mandado para o presídio. O agente encarregado de vigiá-lo na condicional disse que ele era um caso perdido. pareceu indeciso sem saber como receber isso. Siu Ming foi procurar-nos pensando que iria entrevistar-se com uma mulher chinesa. Afinal pensou: "Tenho que escolher entre Jesus e a cadeia". certa vez. e deu-o a ele. mas resolveu dar-lhe uma última oportunidade e instruiu-o para que procurasse a Associação Estêvão. ele passou a roubar. e. ele sentia profunda amargura contra tudo e contra todos. em chinês. Depois o conduzimos à terceira casa. Liberto depois de algum tempo.

falou que estava-se sentindo maravilhosamente bem. Acabou-se tornando um de nossos melhores auxiliares para os novatos. ou íamos ao campo de futebol. inteligentemente. tinha verdadeira convicção de que Cristo o amava. digno de confiança. esperavam até não suportarem mais. e não sentiam nem uma pontada de dor. mal se notava sua presença. e parecia ter personalidade muito fraca. trabalhador. Sofria as agonias das dores provocadas pelo processo. Sempre que fazíamos nossas excursões à praia. e. começou a revelar-se um rapaz bondoso. esperando que nenhum deles houvesse escapulido para ir fumar no banheiro. Ele simplesmente não queria orar. Outros.Alguns rapazes. Nos primeiros meses em que esteve conosco. e daí a dez minutos dormia tranqüilo. não agüentando mais. Quando acordou. E. oravam logo. desesperado. Afinal. muito espiritual. o que é mais importante. Ah Lun e o Sr. Depois disso. Sempre nos esquecíamos de contálo. Siu Ming era uma pessoa muito calada. como Siu Ming. Aprendeu a ler e escrever através de nossos estudos bíblicos diários. tínhamos que recontar nosso pessoal. não o saberia. Também havia homens mais idosos morando conosco nas casas. mesmo que quisesse orar. aceitou orar naquela língua estranha. Mas. Wong chegaram à nossa casa da Rua Lung . e muitas vezes o víamos orando sozinho. com o passar do tempo.

devido à sua posição. Além disso. na . O Sr. pegou vários livros de Jean. Ah Lun tinha quase sessenta anos e o Sr. e esperava que Taiwan reconquistasse a China Continental. e guardava objetos debaixo de sua cama ou mesmo em cima dela. Era um alto oficial do exército.Kong no mesmo dia. Não me parecia acertado misturá-los com os rapazes. Naturalmente houve certos problemas. Embora sua reabilitação pudesse parecer mais fácil. Mas os dois continuaram a aparecer em nossa casa todos os dias. mas não juntos. Como isso não aconteceu recorrera às drogas. E assim os dois passaram a morar conosco e se adaptaram muito bem. Não poderia deixá-los de fora. negando-lhe a oportunidade de receber a Cristo. Wong dizia que fora general do exército de Chiang Kai Shek. embora não soubesse ler inglês. que acabei pensando que o exército era composto unicamente de generais. Dei um jeito de dispensar os dois. Wong se julgava superior a todos. Ah Lun estivera preso durante um ano e meio e só vivia para comer e tomar heroína. Ambos tinham ouvido falar de nosso ministério e pediram que os acolhêssemos imediatamente. sempre pedindo que os aceitássemos. Wong uns cinqüenta e tantos. (Conheci tantos soldados nacionalistas que afirmavam o mesmo. mas que a nossa era a primeira em que Jesus estava presente. Já o Sr.) Dizia também que já estivera em diversas igrejas de Hong Kong. pois Ah Lun tinha mania de ajuntar coisas.

eram curados também de outras enfermidades. Empregava uma linguagem evangélica bastante floreada. quando oravam para serem libertos da heroína. Enquanto um viciado está fazendo uso de drogas. e o órgão voltou ao normal.verdade ele apresentava o mesmo problema básico que os outros rapazes: orgulho. não fica ciente de outras doenças. o Sr. Mas dois dias depois a asma desapareceu completamente e a chapa do pulmão estava limpa. depois da desintoxicação. Um deles sofria de tuberculose e asma. Muitos rapazes. Ah Lun também estava com o fígado inchado ao chegar. e Deus está-me dando um coração de carne. Wong achou que não precisava mais de Jesus e parou de orar. Depois de ficar livre da dependência da droga. . mas. O problema mais comum eram os entes. mas foi curado. Mas Sara lhe disse que devia orar pela manhã e à noite em língua estranha. seu estilo pomposo não mudara nada. Era briguento e causava-nos muitos aborrecimentos. Ao que parecia. sempre descobríamos algumas que ainda perduravam. que aprendera nas outras igrejas que visitava. Achava-se muito certo e justo. e ainda tinha que orar pelo menos durante meia hora em seu devocional particular. Sua atitude começou a mudar imediatamente e um dia ele me disse: — Meu coração de pedra está-se derretendo. mas irritava-se facilmente.

Muitas vezes. para mandarmos fazer as dentaduras dele. O tio lhe dava muito dinheiro. Felizmente. e considerava-se um filósofo. uma associação bastante elitista. Fizera alguns anos de curso secundário. a fim de extrair todos os dentes. O pai havia morrido e a mãe desaparecera. pertencia ao Jockey Clube. o exército britânico nos ofereceu assistência nos casos mais graves. que haviam-se estragado pelo uso constante de heroína.Tivemos de gastar uma pequena fortuna em atamento dentários e em dentaduras. que o criava. já havíamos utilizado seus acampamentos e ônibus para nossas excursões. Isso foi de beneficio mútuo. — Se quiser. Quantas vezes nossos rapazes diziam a um soldado inglês: — Você já aceitou Jesus? E logo em seguida ofereciam orientação espiritual. O exército ainda fez mais: doou-nos alguns fundos. devido ao contato conosco. Ah Fung era um garoto carente. e isso lhe proporcionava maiores oportunidades de . podemos orar por você. Era fortemente viciado em heroína e precisava de meios para custear o vício. Mas. O tio. apesar de todas essas vantagens. Não era a primeira vez que o exército auxiliava as Casas de Estêvão. e assim o Sr. pois alguns de nossos conhecidos ali tornaram-se crentes. Wong foi para o hospital militar. Um de nossos mais entusiastas evangelistas era Ah Fung. Ele era de uma família rica.

mas ainda estava viciado. Procurou-me em minha saleta na Cidade Murada. porém. a família percebeu que ele ainda estava viciado. e parecia um caso perdido. Mais tarde. numa tentativa de procurar trabalho. E viu-se forçado a roubar ou fazer o que fosse necessário para arranjar dinheiro. quais são as exigências para se entrar na Associação Estêvão? perguntou. Quando conheci Ah Fung. Não é bem assim. — Sr. Quando o tio teve conhecimento do vício do sobrinho. sob vigilância constante. e o expulsaram de casa. Certo de que não iriam perturbá-lo. Chegou um dia. depois de dois meses. Somos um grupo de cristãos interessados em que você passe por uma .ta Pullinger.cultivar mais e mais o vício. e quanto tenho de pagar? — Bom. mas insistiu em que não o importunassem à noite. ele ajeitava coisas na cama. Onde se faz a matrícula. Aí então ele procurou assistência profissional. ele já estivera preso seis vezes. a fim de dar a impressão de que estava lá dormindo. Afinal. Chegara até a ir a Taiwan e à Austrália. Ah Fung. em que a quantia dada pelo tio já não era suficiente. obrigou-o a ficar preso em casa durante dois meses. e todas as noites escapolia da casa sem ser visto. respondi. O rapaz concordou. ele fez a triste declaração de que conhecia todos os centros de tratamentos de viciados de Hong Kong.

Lá você ficará alguns meses e depois sairá e voltará a tomar drogas. ele não teria permissão para sair. e afinal concordou em fazer a oração de entrega pessoal. começou a sentir dores. Rick foi até lá e falou ao rapaz com toda a firmeza. No segundo dia em que lá estava. e aquiescesse em orar com Rick. e as dores cessaram. ais tarde contou-nos que. Disse-lhe que acontecesse o que acontecesse. o encaminhamos para a terceira casa. Jean e Rick tinham acabado de sentar-se à mesa para jantar. sentira como que um clarão sobre si. Ele fez que sim. senão dali a oito dias. .mudança de vida. quando veio um telefonema de um dos obreiros. O rapaz ia acenando afirmativamente. dizendo que Ah Fung ainda estava teimando em sair. Recusou-se a orar. se estiver disposto a mudar de vida e quiser ficar pelo menos um ano. Alguns dos rapazes que estavam ali no clubinho lhe falaram entusiasticamente sobre Jesus. lutando para fugir. meio alheado. No dia seguinte. A firmeza e autoridade dele fizeram com que o paz se acalmasse. Mas nós só o aceitaremos. como se fosse um pai. Se você quer apenas ficar livre do vício. eu lhe recomendo que procure um centro de tratamento. o que indicava que estava iniciando seu processo de desintoxicação. As dores pioraram. quando Rick impusera as mãos sobre ele. e exigiu que o deixassem sair.

No dia seguinte. sem exceção. e não Rick. Assim Ah Fung aprendeu que era Jesus. Todos conheciam a realidade de um Deus vivo e o poder de seu Espírito. quando acordou." Ele reconheceu que Deus podia remover montanhas. e aí então foi liberto. para ver se alguém o observava. uma história maravilhosa. Resolveu orar. Ah Fung citou um provérbio chinês que diz: "É mais fácil mudar as características de um país. do que a disposição de um homem. foram libertos do vício da heroína sem dores nem traumas. Cada um dos rapazes que acolhíamos tinha sua própria história. Mas nada aconteceu. Aqueles que o seguiam eram evidências vivas de uma incrível transformação de vida. sentiu novamente as dores e lembrou-se do que acontecera no dia anterior. Espiou para um lado e outro. E ele ficou em nossa casa dois anos e nos ajudou bastante no trato com os outros rapazes. E todos. e em seguida impôs as mãos sobre si mesmo. . que tinha as mãos de cura.

Era uma garota muito bonita. estava pensando em aposentar-se. Não que ela tivesse repugnância pelo trabalho. Postava-se junto ao cinema pornográfico. Maria estava com treze anos. estando elas agachadas ou apoiadas à parede. e quando sua mãe adotiva quis que ela começasse a trabalhar nos bordéis. Não havia meio de se saber. aguardando os clientes. A prostituta que comprara Maria. Contudo. ou então sentavase e contava o dinheiro. instando com os homens que de lá saíam para que desfrutassem dos prazeres juvenis da moça lá em cima. ela se rebelou. de pele azeitonada e olhar expressivo.12 Acolhendo Anjos Elas poderiam ter vinte anos. Tendo sido criada numa casa dessas. mas a idéia de dormir com homens velhos não lhe agradava muito. . quando esta era ainda um bebezinho. A cabeça pendia sobre o peito. ou sessenta. via aquilo apenas como um meio de ganhar a vida.

mas tive certeza de que Deus queria que fosse naquela direção.ela estava procurando amor e atenção. muitos deles com cartazes anunciando "Massagens". naquele momento. que recebia o dinheiro. mais preocupada eu ficava. As bailarinas constituíam uma casta superior de prostitutas. Não vire para a esquerda. Quanto mais o tempo passava. nem vi uma nuvem branca. pedindo a Deus que me levasse até onde ela se achava. Vou parar de brincar de detetive espiritual. Só sabia que havia fugido. etc. Por isso. Mas. não se consideravam meretrizes. E voltei para casa. "Hotel". . Se ela quisesse mudar de protetor poderia fazê-lo. nem para a direita. isso tudo é uma bobagem." Não ouvi uma voz. Caminhei em frente. Eu não sabia onde ela se encontrava. Maria tornou-se bailarina de dancing em Kowlo-on. Cada bailarina dessas tinha o seu "protetor". atravessei a rua principal e depois senti claramente a orientação: "Pare aí. fugiu. refutei todas as revelações até ali recebidas e disse: — Senhor. desde que ela ou o outro pagassem uma grande soma em dinheiro. teriam que pagar um pouco mais." Encontravame diante de um prédio de apartamentos. "Siga diretamente em frente. Num domingo à tarde. Aliás. e se quisessem segui-las até a casa. pus-me a andar pelas ruas. Os homens pagavam para dançar com elas.

Fui visitá-la. naquele domingo. pois sentia que não possuía meios de encontrá-la. sonhei com Maria. Mas depois provocou o aborto. com a exceção de que havia muitos espelhos pelas paredes e no teto. Mas os familiares desse homem. Vi claramente o lugar onde estava morando e o homem com quem vivia. E o apartamento era exatamente igual ao do meu sonho. Um modo de escapar disso era engravidar-se. e depois arranjou serviço numa fábrica. alguns meses antes. Era no mesmo prédio. eles conseguem localizar garotas desaparecidas em pouco tempo. E foi o que fez. Passei a visitá-la todos os domingos.Alguns dias depois. e foi morar com a mãe de seu protetor. Geralmente. seus amigos e ele próprio a desprezavam por ter . Normalmente. sem antes pagar uma quantia vultosa. e vão descontando de seus ganhos. Contou-me que estava totalmente endividada no seu dancing. Acordei chorando. alguns meses depois. à tarde. mas tudo é debitado em sua conta. e me deu as instruções de como chegar à sua casa. Engravidouse pela segunda vez. Ela não poderia sair dali. para dizer-lhe que me interessava por ela e queria ajudá-la. na frente do qual eu parara. a própria Maria me telefonou. Disse que havia muito tempo estava tentando entrar em contato comigo. A única maneira possível de saber seu paradeiro era recorrer à teia de comunicação dos tríades. as moças desses lugares ganham lindos vestidos e recebem aulas de dança. Entretanto.

porém. A filhinha. Ela lhe dera o nome de Jackyan. Dançava muito todas as noites.500 dólares. ia para as salas de jogo e o inevitável acontecia. mas sentia-se cada vez mais infeliz. então o melhor era mesmo voltar para o dancing. eu não tinha nem HK$ 15 dólares. a fim de pagar o débito. sendo forçada a tomar dinheiro emprestado de um agiota. Eu não tinha intenção de dar dinheiro a uma moça que não . Isso seria a suprema humilhação para ela. ficou com a vovó. trabalhando na prostituição. Contudo. Após o trabalho. Minha grande preocupação era saber se ela estava realmente sendo sincera. essa rejeição por parte deles convenceu-a de que não valia a pena levar uma vida direita. dominada pelo pânico. ela era independente até certo ponto. Algum tempo antes ela tinha feito uma oração de entrega pessoal a Cristo. mas não fizera nenhum esforço para segui-lo. Maria arranjou um novo protetor. Queria que eu lhe arranjasse HK$ 1. E então ela me ligou. Mais tarde.sido dançarina. ficava mais e mais endividada. Não demorou muito e ficou totalmente enredada e sem condição de saldar a dívida. Mas estava por se tornar virtualmente prisioneira de um homem impiedoso. Como bailarina de dancing. e tomava comprimidos estimulantes para suportar o cansaço. O agiota então exigiu que ela se tornasse propriedade dele por dois anos. a fim de evitar cair nesse destino. E afinal. em minha homenagem.

Mas precisava vê-la e falar com ela. cheguei à conclusão de que a única coisa de valor que eu possuía era o meu "querido" oboé. Numa certa reunião. Vou ajudá-la a arranjar um emprego e outro lugar para morar. logo estará novamente com os mesmos problemas." E se Jesus tinha dado a própria vida. quinze notas de HKSIOO dólares. e Ah Ping recebeu a interpretação. o que era um oboé em comparação com isso? — Está bem. a segunda é que você mude de vida. Se ficar aqui. Vou pagar a dívida. à meia-noite e meia. — Eles não vão querer manter conversações com você. considerava o instrumento quase como um amigo muito estimado. Disse ele: "O Senhor Jesus Cristo entregou seu bem mais precioso por você.tivesse um desejo sincero de mudar de vida. respondeu ela. Resolvei levar Ah Ping comigo. Maria. Fazendo um levantamento de meus bens materiais. Como todo oboísta. Mas como ela não tinha outra escolha. Vendi meu oboé e coloquei o dinheiro. respondi à moça mais tarde. Cheguei ao restaurante e me . Michael é um agiota muito exigente. num envelope grande. para descobrir se ela estava querendo apenas explorar-me. Precisava do conhecimento que ele tinha dessas coisas. A primeira é que eu própria vou entregar o dinheiro. a sua vida. então marcou um encontro numa casa de chá para daí a dois dias. mas com duas condições. recebemos uma mensagem em língua estranha. isto é.

chamei-os. Pegaram logo o envelope. repliquei. O porteiro abriu-me a porta com uma chave dourada. ele concordou em me receber. Quando já estavam quase na porta. — O que quer com ele? — Tenho uma mensagem muito importante para transmitir a ele. — Quero falar com Michael. e quando liguei. que entraram pelo salão no velho estilo de Chicago. Como posso encontrar com ele? Para surpresa minha. Então era este o clube em . tenho que entregá-la pessoalmente. Michael mandara quatro homens. O ruído de pneus chiando no asfalto anunciou a chegada dos encarregados da cobrança. respondi. aguardando a chegada de Michael. Mal deram uma olhada para nós. Já estavam-me esperando. sem dizer nada. — Ei. Eu e Maria ficamos a tomar café. tapetes macios e luz amortecida faziam o ambiente. verificaram o conteúdo dele. esperem aí! Um deles olhou para trás. deram-me o telefone dele. — Não.sentei a uma das mesas centrais. A boate dele ficava no vigésimo primeiro andar. Dentro. e saíram novamente. — E o que é? — É muito pessoal. — Pois pode dizer-nos o que é. — O que deseja? indagou com ar de desdém. Fui conduzida a um prédio alto.

falei. Michael dignou-se a dar-me a entrevista. Depois de esplanar toda a autojustificação. nem que mudará de vida. Você foi levada a cometer um erro. Ele morreu por minha causa. Ele só fez o bem. — Isso realmente não tem muita importância. Sentei-me a uma das mesas e pus-me a esperar. Já ouviu falar de Jesus? Ele já tinha escutado algumas histórias bíblicas. Talvez pense que praticou um ato muito nobre pagando a dívida daquela garota. bem vestido. E tampouco disse que só morreria por mim. Acabará voltando ao mesmo tipo de vida. sem o negócio da agiotagem. Curou os doentes. Era uma pessoa de aspecto agradável. — Jesus foi o único homem perfeito que houve no mundo. e de como. e no instante em que morria perdoou-me. se não tivéssemos conseguido o dinheiro para ela. um verdadeiro desperdício. passou a atacar-me: — Você é uma boba. mas seus inimigos o pregaram numa cruz e assim o mataram. E não esperou que eu mudasse de vida e me tornasse uma pessoa boa. Pôs-se a falar com muita emoção sobre as terríveis condições de vida em Hong Kong. Vou explicar por que fiz isso.que Maria teria de trabalhar. disse. expliquei. Afinal. Não pense que ela ficará grata a você. . Mas deu-me sua vida. mas sei que ela não vai mudar nunca. se eu mudasse de vida. não poderia pagar os estudos de seus onze irmãos. ressuscitou mortos. para morrer por mim.

Foi isso que Jesus fez. Prefiro ser uma boba. Nunca mais vi Michael. Fiz uma pausa. é com ela. insistiu ele. mas não conseguiu dizer nada. disse. Michael abriu a boca para responder. Estava mudo de espanto. mas quando estava descendo pelo elevador. Quero aprender sobre esse negócio de ser crente. eu já começara a receber rapazes para morar em minha casa. Afinal Jesus perdeu sua vida. Afinal resmungou com voz roufenha: — Não sei o que dizer. um dos empregados da boate entrou e veio falar comigo. e ele ainda não conseguia falar. — Mas ela não vai mudar. com uma Bíblia aberta à nossa frente. Foi Jesus quem lhe deu essa oportunidade. Já tínhamos percebido que era mais difícil ajudar moças . mas ela tem a possibilidade de fazêlo. E é isso que desejo que Maria compreenda. Não posso mudar sua vida. Passaram-se alguns minutos. Voltará à mesma vida de antes. — Não me importo de passar por tola e perder esse dinheiro. — Posso falar com você um instante? indagou. do que ser incrédula. e ver essa moça ir para o inferno. Seus olhos ficaram marejados de lágrimas. e perder tudo. Naquela ocasião. e não poderia levar Maria para lá. e passamos o resto da noite ali. Tudo que fez foi pura perda. Pode me indicar um lugar onde posso ir para aprender? Então fomos nos sentar num bar. Agora.

e só aí percebiam que não tinham conquistado nenhuma liberdade.iguais a ela. mas achavam-se cativas. não conheciam outra vida. ganhar muito dinheiro. eles eram em número de até sete ou oito. conheci muitas moças que queriam sair dali. pois eram poucas as que queriam mudar de vida. uma pessoa de minha amizade levou uma surra. mas os homens para quem trabalhavam naturalmente resitiam a isso. falou ele em voz calma. Ela está desesperada e não tem para onde ir. Só mais tarde é que vinham a perceber que tinham sido exploradas. Muitas não achavam que procediam mal. Também achavam-se em dívida com o clube para o qual trabalhavam. Nas visitas que fiz ao dancing onde Maria estava. além de temer o cáften. Muitas jovens tinham essa ilusão e a conservavam por muito tempo. Eram livres no sentido de que podiam se divertir. Mas àquela altura. tendo em vista a liberdade que obtinham. porque tentou largar dos tríades. e não se submetiam à vida insípida da mulher chinesa em geral. Algumas dessas moças até que gostariam de largar esse tipo de vida. Achavam que valia a pena o*estigma que a sociedade lhes impigia. Amavam o namorado com elevado grau de romantismo e os sustentavam de bom grado. e. recebi um telefonema de Frederick. Uma noite. Será que podemos ir até aí? . — Poon Siu Jeh. em alguns casos.

Todas as noites tinha que ir para um bordel. onde trabalhava. Iremos à noite. Angel não foi trabalhar. à noite. era ela quem o sustentava e a mais quatro ou cinco. mas ela não quis dizer uma só palavra naquela noite. Como na língua chinesa as palavras não têm gênero. Frederick contou-me que ela trabalhara como stituta para uma quadrilha de Mong Kok. Mas isso não aconteceu. que estava querendo deixar a quadrilha. Estavam ali para vigiar as moças. Disse-lhe que. Sua e a dera para um homem que lhe pedira a menina. e quando apareceu no apartamento. . No dia seguinte. seu "namorado" bateu muito nela. havia rapazes que vigiavam as garotas. levei um choque. Mandei que entrassem rapidamente. Fred. e tentei conversar com a jovem. Essa pessoa não pode ser ta. O nome dela era Angel.— Pode. Quer vir amanhã cedo? — É "muito perigoso. Sua necessidade de conversar limitava-se a acenos afirmativos ou a abanar a cabeça. pensara tratar-se de um rapaz. assistindo televisão ou comendo alguma coisa. quando abri a porta para receber meu fugitivo. Eles ficavam lá sentados. jogando baralho. Em vez de esse homem cuidar da moça. Em algumas dessas casas. tudo bem. para que trabalhassem o número devido de horas e não fugissem. esperando que se casasse com a filha. Fred estava-me trazendo uma moça. Os olhos dela exibiam marcas de pancadas. Uma noite.

ou entrar em luta contra nós. e marcamos um encontro nà Lanchonete do Hotel Hong Kong. e então recorreu a ele. Embora ela estivesse disposta a começar vida nova. A única pessoa que conhecia era Fred. Mas alguns dias depois. Telefonei para ele. ele a mataria de pancadas. A moça não queria apanhar mais. e que a perdoava. para se acertar a taxa a ser paga para a separação dela. Só então vimos seu olhar adquirir um pouco mais de animação e vida. era claro que não poderia andar livremente por Hong Kong. Combinei com Angel para que fossemos falar com seu antigo namorado. e era bastante ingênua. e assim não poderiam . a quadrilha poderia raptá-la. isto é. ela entendeu a mensagem cristã o suficiente para aceitar o fato de que Jesus a amava tal como era. Se fosse para casa. mas na verdade tinha vinte e cinco. mas também não tinha para onde ir.se acontecesse de ela não ir trabalhar uma outra vez. E assim tornou-se crente. Se não fizéssemos isso. na primeira vez que saísse à rua. Angel parecia ter dezessete anos. Não tinha amigos. os tríades a localizariam em quarenta e oito horas. pois era um lugar com muitas portas. se alugasse um apartamento. desfigurar seu rosto com ácido. e assim ficasse oficialmente transferida para outra pessoa. Tinha que haver uma gong-sou. enquanto a situação não fosse solucionada. o namorado iria atrás dela. uma conversação.

ao chegarmos ali. procurou convencer a mim e a si mesmo de que amava a moça. o que impediria que a quadrilha a seqüestrasse. E assim eu e Angel fomos para o hotel. ela não tem nenhuma chance de uma vida melhor. rodeado de quadrilheiros. disse eu. acompanhadas de um dos rapazes. Além disso. Deixe que Angel conversasse com eles. E ela deseja parar com isso e começar vida nova. Estava simplesmente obedecendo a força de um hábito de vários anos.encurralar-nos. Foram seus pais quem a deram para mim. — Mas que maneira estranha você tem de demonstrar seu amor. mandando que ela vá fazer esse tipo de serviço. já encontramos o namorado dela sentado a uma mesa. — Mas não vou desistir dela. Em seguida. comentei. insistiu. eu entrando num táxi e ela em outro. a certa altura. mas. apenas para "ficar de olho" na coisa toda. — Com você. não abriria mão dela em hipótese alguma. Ela creu em Jesus. mas concordando com tudo que o homem dizia. Resolvi entrar na conversa. e seria bom se houvesse algum dos seus homens por ali. liguei para a polícia e expliquei-lhe que iríamos ter essa conversação. Eu já nos via saindo dali. mas o homem estava irredutível. Por direito ela é minha. mas. percebi que não estavam discutindo as bases. . para voltar a ser uma prostituta. Também era um lugar com bom afluxo de público.

ele saiu do carro. Além disso. e desejavam protegê-la e a mim. na . instruí ao motorista para dar uma longa volta. pois. Neguei-me a dar o número. estava com medo de que brotasse violência de uma outra fonte. Decidi ter esse encontro no Café Diamond. Ele virou-se para trás. e ele também estaria sozinho. Como não queria sair. enquanto o nosso moço a segurava pelo outro. pois poderiam tentar raptá-la. — Meu chefe vai ficar muito irritado com isso. Resolvemos que. se houvesse briga. Agarrei-a por um braço. quando voltássemos a ter nova conversação. que fica logo em frente ao nosso prédio. Não confiei plenamente nele. Quando este já se afastava do meio-fio.Mas isso não significava nada para ele. Não vai deixar Angel sair. Afinal. e ordenou à moça que fosse embora com ele. na rua Lung Kong. instintivamente eles iriam brigar. ele entrou e sentou-se no banco da frente. Os rapazes de nossa casa estavam tomando as dores de Angel. Preciso do número do seu telefone. e expliquei que entraria em contato com ele. O namorado disse que deveríamos ir apenas eu e Angel. falou. E isso era exatamente o que eu não queria que acontecesse. e mais ninguém. e foi dessa forma que saímos porta a fora e tomamos um táxi. Então. Ligamos para ele e marcamos um novo encontro. e pudemos ir para casa. Não queria que o sujeito descobrisse onde Angel estava. Angel não iria.

Se virem algum ato de violência. meditei com eles sobre as histórias de Gideão e Josafá. expliquei-lhes com firmeza. mandou em seu lugar o chefe da quadrilha. Algumas horas antes do encontro. de onde podiam ver o que se passava. Queria que nossos rapazes aprendessem que não precisamos lutar. então podem ligar para a polícia. — Mas assim vocês não estariam lutando a batalha espiritual. os homens da quadrilha começaram a postar-se em vários pontos da rua. Mas não podem absolutamente sair para me defender. O namorado de Angel não apareceu. juntamente com mais quatro ou cinco de seus companheiros.manhã daquele dia. bem como os outros do lado de . e assim obtiveram a vitória. — A única coisa que vão fazer aqui é orar. Eu pedira aos nossos moços que ficassem no alto de nosso prédio. que estavam enfrentando situações fortemente adversas. acompanhada de um dos rapazes. enquanto que Angel ficou em casa. disse-lhes. que ficou tomada por eles. e afinal parti. sem contudo serem vistos. Oramos bastante a respeito da situação. que é o que devemos fazer como crentes. Não podemos nos envolver numa briga corporal. Eles estavam querendo mandar pedir a Goko que enviasse alguns de seus homens para brigar com a outra quadrilha. Simplesmente louvaram a Deus e cantaram. mas não tiveram de lutar para vencer. no Velho Testamento.

e Willie atendeu. Ele não sabia que eu era bem relacionada com o pessoal da Cidade Murada. Ficou furioso ao ver que Angel não estava comigo. falou. também não irá ouvir-me. tentei dar uma espécie de testemunho. posso dar um telefonema? falei com voz mansa. Liguei para casa. só porque você é desse negócio de igreja. disse ele. disse-me ele. Estão aí esperando. mas não quis ouvir. Não vamos mais ter nenhuma cerimônia com você. — Não olhe agora. e deu um murro na mesa. Fiquei aterrorizada e sussurrei para Willie: — Chame a polícia! Voltei à mesa e disse-lhes que teriam que fazer as conversações comigo mesma. Entregue-nos a moça. — Pois bem. mas na porta do café há dois carros cheios de quadrilheiros armados de faca." Senti muito medo naquele momento. Imediatamente ele concluiu que eu tinha ligações com a 14K. que já eram seguidores de Jesus. então. ingenuamente.fora. — Não pense que vou ficar todo cerimonioso. mencionando o nome de alguns rapazes de lá. enquanto não a trouxer. Se eu quiser argumentar sobre á moça. Estava claro que tinham tudo preparado para seqüestrá-la. "quis falar de Jesus e ele não me deu ouvidos. pensei. e que Angel desejava seguir a Jesus. . Tentei falar-lhe de Jesus. — Por favor. "Bom". Não vamos deixar que saia daqui.

Quando a polícia chegou. Então. passou um lotação e entrei nele e fui embora. Afinal. não portavam armas. os policiais foram embora. Eu ainda estava presa ali. Meus joelhos tremiam. repliquei. os carros deles voltaram. — Ah. sem saber o que fazer. Fui diretamente para a delegacia. Há alguns carros lá fora cheios de homens com facas. para que não escutassem. naturalmente. e assim que saíram. Fui ao banheiro. levantei-me e disse: — Tenho que sair para comprar verduras. A única coisa a que poderia recorrer naquela situação era a oração. os carros com os homens armados escapoliram. — Agora não há mais ninguém lá. em voz bem baixa. Não encontrariam nada. e um dos investigadores estava lá. Então orei em línguas. e não tinha a mínima idéia do que iria fazer em seguida. dá licença. e quando os policiais entraram no restaurante já estava tudo tranqüilo. Estava tremendo fortemente quando saí dali. Por felicidade. . Tentei explicarlhes que havia uma porção de homens armados procurando Angel. e à porta vi os homens também saindo do carro. Quer que façamos uma revista no café? — Não iria adiantar. respondeu. Meu maior medo era que os rapazes da Cidade Murada viessem lutar com eles em minha defesa. Os outros rapazes. Vinham em minha direção. naquele instante. disse eu.

Afinal. Tenho quase certeza de que esses quadrilheiros irão aparecer para maltratar essa gente. senti que os outros policiais também não estavam muito dispostos a cooperar. repliquei. disse com uma entonação deliberada. para ficar de olho nessa casa. porque gostaria que essa morte fosse evitada. Quer ir à delegacia de Shek Kip Mei? — Não poderiam lígar daqui mesmo? perguntei. — Mas estou avisando a vocês. disseram. Ali. respondi. responderam.— Tenho certeza de que vão à casa de seus familiares e vão criar problemas para eles. Mas. todos os dias morre gente nesta cidade. — E onde moram? indagaram eles. disseram. Temos muito que fazer. — Em Shek Kip Mei. afinal. — Sei que não podem. — Minha senhora. — Esse negócio é de Kowloon. — Não podemos mandar uma pessoa ficar de guarda lá o tempo todo. concordaram em levar-me à delegacia de Shek Kip Mei numa de suas viaturas. Estou achando que vão matar alguém. . mas poderiam ao menos instruir os policiais da ronda. — É fora de nossa jurisdição. Um dos policiais disse-me com ironia. o que deseja que façamos? — Eles moram aqui nesse endereço.

mas a polícia pegou dois ou três deles. Ela tem um poder qualquer. Quando estávamos conversando com ela no café. Além disso. Já estavam a par do fato e mandaram seus homens para lá rapidamente. E ainda há outros sentados nas escadas. — E vocês já viram o olhar dessa mulher? indagavam. Mas. Nunca mais importunaram Angel. eles os amedrontaram. disse a pessoa com voz trêmula. já que não acontecera nada.Por fim. . ficamos muito nervosos. Felizmente. interrogaram-nos bastante. e a gente nem conseguia olhar para ela direito. um dos inspetores anotou a queixa. recebi um chamado desesperado de um dos familiares de Angel. A maioria dos quadrilheiros conseguiu escapar. e estão armados. não oficialmente. querendo o meu endereço. Imediatamente liguei para a polícia. os familiares da moça me contaram que. dizendo que. poderiam criar muitos problemas para toda a quadrilha. — Saí para comprar umas coisas. Mais tarde. algumas horas depois. e agora estou vendo cinco homens sentados em minha casa. eles não o sabiam e assim não o puderam revelar. eles ficaram aterrorizados. quando os quadrilheiros entraram na casa e se assentaram lá. — Mas quem é essa dona que só fala de Jesus e quem são esses crentes? perguntou um dos rapazes da quadrilha. se quisessem.

ninguém esquece o que foram antes. Nunca mais foi incomodada por ninguém e mais tarde casou-se com um ótimo rapaz crente. Embora não tenhamos podido manter a casa das moças por muito tempo. com mais três. um certo juiz ligou para Jean e perguntou se ela poderia considerar a hipótese de receber em nossas casas uma mulher de meia-idade. Sara permaneceu lá. Angel aprendeu a ler um pouco. até vencer o contrato de aluguel. parece que existe uma espécie de glória. pois reconheciam ali a presença de um poder espiritual. Nos crimes dos homens. juntamente com os rapazes. Outra grande dificuldade na reabilitação dessas jovens era que ninguém esquecia o passado delas. senti grande regozijo. Fora presa no aeroporto com dois quilos de ópio . Como Jean e Rick tinham-se mudado para Hong Kong. Mas com as mulheres é diferente. não poderíamos mais mantê-la em nossa casa. para ser a responsável. no entanto. o apartamento de Mei Foo estava à nossa disposição. Mais ou menos um ano depois. Mesmo que se tornem crentes. E assim teve início a casa das moças. aprendemos muita coisa com a experiência. pois aquele fora um dos momentos mais terríveis de minha vida.E a palavra que empregaram designa poder sobrenatural. E. Quando me contaram isso. eles tinham ficado ainda mais atemorizados que eu. Uma vez que a liberdade de Angel estava garantida. Resolvemos acomodar a moça ali.

O juiz acreditava que isso fora um incidente isolado em sua vida. com seus quarenta e sete ou quarenta e oito anos. mas também meio contenciosa e de difícil convivência. e quando lá chegamos. E sorrimos. dando-lhe uma nova vida com seu poder. Olhei para ela. e de como ele removia o peso de seu pecado. e estava disposto a enviá-la para nós. Mas. aos poucos. Respondeu-nos que estivera orando na prisão e que éramos uma resposta a suas orações. ela foi melhorando. o juiz mandou esvaziar o salão para que pudéssemos falar com ela o tempo que desejássemos. Recebeu a Jesus com um sorriso. tornando-se uma pessoa . a princípio. pois poderia passar por uma conversão insincera. mas concordou em ir falar com a mulher no dia seguinte. ao sentir que seus pecados tinham sido perdoados. e depois fez uma oração fervorosa para receber o Espírito. pois seria melhor para ela. no tribunal. Jean olhou para mim. pois dissemos quase juntas: — É melhor dizermos ao juiz que vamos levá-la. Fui com Jean. Então falamos-lhe de Cristo. Ah Ying passou a morar na Terceira Casa. Não queríamos que ela pensasse que seu futuro estivesse dependendo das coisas que nos diria e de sua reação à nossa mensagem.escondidos nas roupas. Era uma mulher chinesa. Era muito igrejeira. Jean explicou-lhe sucintamente que não tínhamos mais a casa de moças.

pois passara por ela várias vezes. tomava heroína. o Filho de Deus. resultado.. Seria horrível. Comecei falando-lhe sobre a mulher que lavava os pés de Jesus com as próprias lágrimas e os enxugara com os cabelos. Então.totalmente diferente. e não tinhamos mais uma casa para moças. talvez. para suportar aquela vida de prostituição. Eu costumava passar por algumas das velhas prostitutas e evitá-las. Estava sempre sentada num caixote de laranjas. — Meu Deus. ela era prostituta. Ela sabia quem eu era. passava horas e horas.. de ela sempre orar no Espírito. naqueles anos todos. a amou e . o que fazer com uma daquelas "senhoras". e ele. Sabia que Cristo pode derrotar o poder do vício de drogas. essas duas coisas estavam intimamente ligadas. A única maneira de ela arranjar uma cama para dormir era conseguir um cliente. e assim ela passava o resto da noite no quarto alugado por ele. Não tinha onde morar. caso se convertesse? Deixá-la na rua? Mas uma noite não pude resistir ao impulso de falar a uma delas. não posso falar de Jesus a essas mulheres. Ah King já estava com quase cinqüenta anos. e. mas sabia também que os novos crentes precisavam de um lugar seguro onde pudessem desenvolver-se espiritualmente. às vezes. quando estava passando roupa. E. se elas se convertessem. Quase sempre.

— Esse é o Deus que eu quero. Uns dez minutos depois. — Sabe de uma cdisa. e minha bolsa estava vazia. Daí a pouco ela estava orando numa belíssima língua estranha. e ela orou em chinês. — Talvez." Ah King ouviu tudo aquilo e creu. falei com ela. em voz alta. disse-lhe. Busque a Deus. — Você está querendo dizer que ele vai cair do céu? indagou. ali sentadas com os olhos fechados. Ah King? Você não precisa mais recorrer aos homens para obter sua porção diária de arroz. o rosto radiante de felicidade. Não tinha nada para dar a ela. Continuou tranqüilamente a conversar com seu novo Senhor. ela ergueu os olhos. Chegou então o momento que eu mais temia. e ainda lhe dissera: "Perdoados são os teus pecados. — Esse mesmo Deus vai dar-lhe poder para a oração.. e pôs-se a dar gargalhadas. afirmou. Mas isso não afetou Ah King. O velho que era seu cáften estava por perto. Não tinha uma casa para abrigar prostitutas. Deus pode muito bem mandar arroz do céu para você. repliquei falando seriamente. A partir de agora você não pode mais viver nesse tipo de vida. Expliquei-lhe como poderia receber o Senhor. Ficou a observar-nos.. vai-te em paz.tratou-a com bondade. . com a maior naturalidade.

para se libertar da droga. ela não trabalha mais nisso. sentada. Uma semana depois encontrei-a novamente. disse ela. — Já aprendi muitas coisas. e responderam: — Ah. Quatro ou cinco rapazes achavam-se em nosso pequeno salão do . Saí dali. aquela noite. Acho que é certo Deus me dar dinheiro para o arroz. Foi a última vez que a vi. deixando-a sentada no caixote de laranja. Mais tarde indaguei às outras prostitutas onde ela estava. disse-me ela. na Cidade Murada. mas resolvi confiá-la inteiramente a Deus. Não estava muito satisfeita de fazer aquilo. Foi para um lugar desses aí. 13 Testemunhos Estava muito escuro.— Pois da próxima vez que nos encontrarmos. vou lhe contar como foi que o arroz veio. e Deus derramando arroz para ela. mas não para a heroína. Gosto de imaginar Ah King num lugar qualquer. como chuva.

Era muito jovem e magérrimo. Fui visitá-lo. assistindo a um jogo de pinguepongue. Prometeu-me que voltaria. Falei-lhe um pouco mais. assim que foi solto. foi preso e mandado para a cadeia. o irmão mais novo de Winson. Notava-se claramente que era viciado em heroína. voltou às drogas. pode me chamar. sozinho. pois. Mais tarde. — Não posso mais continuar encontrando-o. Tive a impressão de que ele começou a entender a mensagem. e. Acompanharei todo o seu processo. tenho certeza de que tudo sairá bem. Uma das acusações era que ferira um jornaleiro e roubara o relógio dele. pois estarei desrespeitando a lei. que irei com você à delegacia para se entregar. Mas ele não se entregou.clubinho. Estava fugindo da polícia. Vou orar por você. e falei-lhe de Jesus. mas. a decisão de seguir a Cristo. na claridade do ambiente. Um dia ouvi dizer que fora outra vez preso por dois crimes bastante graves. Uma figurinha patética surgiu em dado momento. senti que ele não era culpado de pelo menos uma delas. e disselhe que já tinha conhecimento suficiente para tomar. ele estava no clubinho . Reconheci Bibi. Logo que fiquei sabendo dos detalhes das acusações. e quando estiver disposto a seguir a Cristo. mas não ficou ali mais que uma meia hora. Chamei-o para que se sentasse num banco de madeira. de fato. No momento em que supostamente estaria assaltando o jornaleiro. alguns dias depois reapareceu. se realmente se dispuser a orar. A segunda era de assalto.

e fiquei sabendo que estava disposto a confessar tudo. — Então. um inspetor de polícia me deteve. — Bom. embora fosse inocente das duas acusações. tinha cometido uns vinte roubos em outro lugar. Ao explicar o caso.conversando comigo. No julgamento. mas esse aí ele não praticou. mas . Fui vê-lo na prisão. disse o policial. No fim do julgamento. insisti. mas diga a verdade. mas foi considerado culpado. Diga ao juiz que você cometeu os outros crimes. Quando esse pessoal comete um crime. quando eu saía da sala do júri. e acabei ficando conhecida dos policiais. Eu passara muitos dias no fórum orando. — Pois eu também sou cristão. Procure ver as coisas por esse prisma. — Vou-me confessar culpado e acabar logo com isso. E encerrou o caso. pois. mas achava que a outra testemunha se confundira a respeito da hora do crime. geralmente sabemos quem o cometeu. isso não é verdade. — Como você se envolveu nisso? indagou. — Mas não pode. apesar de meu depoimento. acontece que sou crente. o juiz disse que acreditava que eu estava falando a verdade. e sei que praticou muitos furtos. ele se declarou inocente. por que está depondo a favor de um criminoso? — Sei que ele é criminoso. disse com um tom de resignação.

É duro. pela polícia e pela verdade. — E. repliquei. repliquei. Isso destrói o respeito pela lei. — Mas. é praticar o crime pelo qual foram castigados. têm o direito de cometê-lo. Prometera modificar-se. — Mas não reconhecem que estão pagando pelos atos praticados. já se que cumpriram a pena por ele. o homem encerrou a conversa meio desajeitado. o efeito sobre a sociedade é negativo. Quando Bibi saiu da prisão. concluiu ele.nem sempre temos provas para prendê-lo. os acusamos de crimes para os quais possamos "arranjar" provas. encontrei-o novamente. mas achava-se sem forças para tal. E quando saem. a longo prazo. Por isso. argumentou o inspetor. nunca tinha pensado nisso dessa maneira. Acham que. Afinal. Seu rosto parecia acinzentado e tinha profundas olheiras. pelo menos. É simplesmente falta de sorte sua. a primeira coisa que querem fazer. E ficam fortemente revoltados por estarem presos sob acusações falsas. — Mas. Os viciados têm uma frase que gostam de repetir quando vão a uma "boca" de drogas: "Meu coração ainda não . estão recebendo castigo pelos seus crimes. mas é justo. Voltou direto a tomar drogas. E a sociedade sai ganhando. comentou e afastou-se apressadamente. O criminoso aprende a pensar que ser preso não tem nada a ver com sua culpa ou inocência.

e voltou então a roubar. pois você não precisava estar assim. Você já conhece o caminho da salvação." Bibi arranjou o emprego de coletor de lixo. mas ele tinha que ganhar algum dinheiro para adquirir a heroína. A família transformou o acontecimento numa novela. e um tempo em que não se falava mais. — Esta é a última vez que venho falarlhe. Não quero vê-lo mais enquanto estiver nesse estado. É lógico que não era assim que as coisas se passavam. uma emissora de televisão foi à Cidade Murada fazer um filme sobre nosso trabalho. mas meus pés foram por si mesmos. E este tempo chegara para ele. Poon Siu Jeh. Leve-o para sua casa e faça dele um homem bom. Certa vez. então disse-lhe que havíamos chegado ao fim da linha. a fim de comprar a droga. Procuramos Bibi. Bibi tinha conhecimento da verdade. aí então pode me procurar. Pode escolher se quer segui-lo ou não. Agora é com você. Era o mais baixo tipo de trabalho ali. e ele foi filmado em casa. dizia ela. Mas o que ganhava não era suficiente. ele veio. Quando estiver disposto a mudar de vida. dava um jeito de fugir. sabia que só ele poderia tomar a decisão de modificar-se. A mãe chorava: — Conserte a vida de meu filho.tinha decidido. Sempre que me via. Mas geralmente eu descobria onde ele estava morando. . Eu já tinha aprendido que havia um tempo certo para se pregar e falar. Uma semana depois.

— Mas você tem que deixar eu ir para lá. — Mas tem que receber. ele terá que esperar até que já estejam mais firmes. E nenhum crente de verdade pode tomar essa droga. Para mim. chega. Não posso ficar em casa. argumentei. Depois me disse: — Agora. porque deseja a casa bem acertadinha. mas não temos vagas. pedindo que o recebessem. . pois continuarei a tomar heroína. Ele ficou muito irritado. mas recusa--se. falou. Se os que estão aqui não tiverem um relacionamento sólido para suportar a vida de mais um. ajude-me. Não pode querer que eu fique pelas ruas. Conversei com os Willans e com os obreiros da terceira casa. Agora você não quer deixar que eu leve um aí. Dei um suspiro profundo e respondi: — Sinto muito. Não há outro jeito. Esse é o objetivo dessas casas. Sara explicou: — Não podemos recebê-lo. — Não será bom trazer nenhum rapaz para uma a que não esteja com tudo acertado. Sua única salvação seria ir para uma das casas de Estêvão. que os moços possam desenvolver-se na vida cristã. replicou ela com firmeza.— Agora estou disposto. Não consigo me livrar do vício sozinho. Por favor. senão irei vender drogas para comprar a minha. Bibi foi cheio do Espírito e começou a falar numa nova língua. porque não estamos condições. Oramos durante muito tempo. berrou ele. isto é. você tem que me levar para sua casa.

dizendo-lhe: — Bibi. Deixei-o naquela barraca. — Bibi. o mar e os pássaros. desordenadamente. Na terceira vez que o chamei. Contou-me que tinha visto Jesus. disse procurando acalmá-lo.Ela tinha razão. a terra. abriu os olhos com muita relutância. como já o fora antes. Não é maravilhoso pensar que o Espírito do Deus que criou o mundo todo possa realmente vir morar em nós? Pare de ficar pensando que nossa casa é a sua salvação e pense em como nosso Deus é grandioso. mas não respondeu. de olhos fechados e um leve sorriso no rosto. Olhe para o céu. pare de olhar para si mesmo e de pensar que nossa casa é a sua salvação. É ele quem faz tudo. e saí para conversar com outro viciado. orando. Ele estava no alto de uma montanha e Jesus se aproximara dele com a mão estendida. morreu e ressuscitou para que tivéssemos seu Espírito. Ele ficou furioso comigo. E foi ele quem decidiu que seu Espírito habitasse em nós. a situação poderia tornar-se caótica. Olhe para o alto e pense naquele que criou o céu. Encontramo-nos junto a uma barraca de lanches. você quer me seguir? . quando lhe dei a notícia. Se eu fosse simplesmente colocando mais e mais pessoas ali. Chamei-o. Tive que procurar Bibi e dizer-lhe que não havia vagas mesmo. só por um momento. Era seu dever proteger os membros de "nossa família". Voltei meia hora depois e encontrei-o ainda ali. Por quê? Por que Jesus deixou toda a sua glória e veio aqui e foi chicoteado.

Foi um dos melhores rapazes que já tivemos lá. O pai. Os filhos oraram por eles e foi curado. Senhor. A quem mais eu poderia seguir? replicou ele. e o perfume era muito doce. abriu-se uma vaga para ele em nossa terceira casa. levou uma vida normal. a . e pessoas de todas as partes da colônia procurava-nos em busca de ajuda. eu podia sair mais às ruas. esperando só nele. seus familiares ligaram para Jean e Rick informando que o pai dele estava à morte. Mas não morreu.— Quero. que também se libertara do ópio e se tornara crente. Como havia vários obreiros trabalhando na Associação Estêvão. passou a olhar para o seu Criador. No dia seguinte. Certo dia. E ele ficou ali dois anos. Então o Senhor o tomara pela mão e o conduzira por um caminho belíssimo. em vez de ficar com a idéia fixa de que nossa casa era sua única salvação. Estávamos andando por aquele caminho. Um policial crente deu-me um bip. Havia flores lindas por ali. e pássaros. Os viciados espalhavam a notícia do nosso trabalho. disse: — Agora estou pronto para ir para o céu. quando a ouvi chamar-me. Daquele momento em diante. e o rapaz foi visitá-lo no hospital. mas não queria voltar. — Era um lugar lindo. pois Jesus transformou meus filhos em homens bons. para que eu pudesse ser contactada onde estivesse. Durante o processo de libertação da droga.

e mesmo que o soubesse. Fiquei sabendo que tinha o apelido de Sorchuen. quando saía. Era uma solicitação meio incomum. Será que poderia suspender o caso até que façamos verificações nesse sentido? O juiz ergueu as sobrancelhas. sendo levado para o tribunal. — Meritíssimo. e então fui falar com o rapaz. — Quero. aquele rapaz estava para enfrentar aquela batalha sozinho. Mas pude perceber o desespero em seu rosto sujo. Mas depois que fui preso. não conheço bem o acusado. O juiz suspendeu o julgamento por vinte e quatro horas. respondeu o rapaz. Não o conhecia. disse. Assim achei-me cada vez mais envolvida em tribunais e julgamentos.qualquer momento. — Você deseja um representante? indagou. não me deixaram dar um telefonema. Tive uma inspiração súbita e levantei-me. Virou-se para o acusado. ouvi alguém me chamando: — Poon Siu Jeh! Estão-me acusando injustamente! Ajude-me! Olhei para trás e vi o rapaz que iria ser julgado em seguida. Entretanto. mas creio que é possível que não tenha tido acesso a um defensor. Eu não tinha condições de saber se ele estava falando a verdade ou não. e que tinha conhecimento a meu . não tinha direito de falar no tribunal. Certo dia eu havia assistido a um julgamento e.

foi preso de novo. então os homens o levaram para a delegacia. à procura do outro. — Não tenho muito tempo para lhe falar de Jesus. pegara um ônibus para ir a Chaiwan. disse ele. mas fora detido por dois detetives que lhes ordenaram que descesse e fosse "falar". mas se você clamar a ele.respeito por intermédio de seus "irmãos" de Chaiwan. Afirmava que no momento do crime ele se achava no cinema. Depois de sair da cadeia. e agora me sinto totalmente diferente. assistindo a um filme pornográfico. tinha o rosto tranqüilo e feliz. Quando o vi no dia seguinte. Sorchuen foi declarado culpado das acusações que pesavam contra ele. Imediatamente. Pediram-lhe que os ajudasse a encontrar outro quadrilheiro de nome Morgwai. depois de . Fungava o tempo todo. Sorchuen viu um amigo seu. e o indiciaram sob aquela acusação. Tremia convulsivamente e seus olhos estavam vermelhos e lacrimejantes. e suas feições relaxaram. mas telefonou-me da delegacia. em Wanchai. Fora preso sob a acusação de arrombar vários carros no distrito de Shaukiwan. os sintomas de carência da droga desapareceram. mas não conseguiram localizar o "Diabo". Segundo ele. ele o ouvirá e o salvará. (diabo). isso era mentira. — Orei a Jesus. Terminado o filme. Fui visitá-lo acompanhada de um excelente advogado. e o levaram num carro particular até um cinema. Ali.

no estacionamento de Shaukiwan. o amigo que o rapaz vira no cinema. Como muitos dos outros rapazes. — Normalmente. Muitos acusados eram condenados com base apenas em sua confissão. onde morava o dono de um deles. De posse das placas dos veículos fomos a Sheko. nada. o advogado.ele haver assinado uma declaração incriminatória na delegacia de polícia. Fiquei convicta de que estava falando a verdade. . resolvemos investigar os fatos por nossa conta. Sorchuen afirmava que apanhara para confessar o crime. porém. Eu e Davi. O rapaz disse que ele o tinha visto três horas antes da hora em que. Sorchuen estava preso e não poderia ter entrado em contato com esse amigo. mas tinham tanta certeza de que isso aconteceria. Ele se lembrava bem do dia e da hora. Tínhamos. Encontrei. uma testemunha. segundo os autos. Fui procurar o "Diabo". Mas no dia do roubo. Conseguimos localizá-lo e perguntamos onde normalmente estacionava o carro. provas. afinal. ele fora preso em Shaukiwan. mas soube que também tinha sido preso. incriminando-se. sem testemunhas. que assinavam as confissões. Vim a saber que muitos não chegavam a apanhar. respondeu ele. Ele escreveu à polícia solicitando o número da placa dos carros que supostamente Sorchuen tinha tentado arrombar. não o tinha deixado lá. já que as duas versões eram idênticas.

Tenho certeza de que não cometeu esse crime. Mas ainda teria que aprender que a maneira de se . — Olhe. aquele foi um dos poucos casos em que me envolvi. Se não fosse isso. — Por que vocês dois estão-se dando tanto trabalho por um caso tão insignificante? indagou ele. No dia em que tínhamos orado na cela da delegacia. o advogado de acusação pediu para falar comigo. já estou em Hong Kong há seis meses. e o escritório da promotoria ficou alerta. já estaria tudo encerrado a essa altura. — Porque cremos que o acusado é inocente. replicou. Entretanto. Num dos intervalos do julgamento do caso.. Tinha ficado muito irritado com o interrogatório longo e minucioso levado a efeito pela defesa.. respondi. minha cara. mas por que perder tempo com um caso desses? objetou.Toda essa agitação em torno de um caso de menor importância era muito incomum. eu lhe falara do fato de que Jesus está vivo. é uma questão tão trivial. — Será que não se deve apresentar a melhor defesa possível em favor do acusado? — Claro. Olhou-me grandemente espantado. De qualquer modo. — Mas a ficha desse homem tem dezenas de condenações! — Estamos falando das acusações de hoje. nos quais o acusado não foi declarado culpado. E estávamos com Sorchuen nas mãos também.

Foi numa ocasião em que alguns rapazes foram presos por terem-se declarado membros de uma sociedade tríade. Dois dos rapazes tinham assinado confissão nesse sentido. Após este caso. Mais tarde afirmaram que o tinham feito sob coação. O julgamento de problemas semelhantes. isto é. mas esse acabou-se tornando extremamente complicado. Ele se apresentou no tribunal e deu seu depoimento. geralmente era rápido. uma vez membro de uma delas. Muitos de nós estávamos orando para que esse julgamento. Embora hoje eu fique o . fosse para a glória de Deus. Embora uma pessoa não possa ser presa por ser membro de uma quadrilha. se se mantiver calada. Davi representou vários outros acusados. pode ser presa caso se declare como tal. — Sou um dos dirigentes de uma 14K. Os outros se declararam culpados. de membros de uma sociedade tríade. e certa vez provocou a abertura de um precedente jurídico em Hong Kong. o indivíduo é membro para sempre. A polícia apresentou sua primeira testemunha. de alguma forma. pois as duas coisas eram incompatíveis. Pelos regulamentos de uma sociedade tríade. Um indivíduo que fosse membro ativo de uma sociedade tríade não poderia ser cristão. Os dois rapazes acusados tinham-se tornado cristãos havia mais ou menos um ano.tornar seu discípulo não era assistindo a um filme pornográfico.

Outra testemunha técnica foi um filólogo chinês que explicou que a confissão dos rapazes tinha sido traduzida para o inglês. pois na língua chinesa não havia tempos verbais. nem presente nem passado. Perante o juiz os rapazes declararam: — Já fomos membros da quadrilha. Agora não o somos mais. Nosso argumento era de que tinha dito realmente: — Sim.tempo todo dando depoimentos na polícia. Depois apresentamos outra testemunha. Se quiserem seguir a Jesus. nesse tipo de . Esses dois rapazes que estão sendo julgados eram meus irmãos menores. que tivera na sua quadrilha a mesma graduação que o rapaz que testemunhara pela polícia. Mas tornei-me cristão e renunciei à quadrilha. Argumentamos que nossos rapazes já não pertenciam à tríade. O juiz já tivera de passar várias horas escutando essa gente falar de batismo. são livres para fazê-lo. como se eles tivessem dito: "Sou membro de uma sociedade tríade". renunciando assim à condição de membros dela. conversão e etc. Já disse aos membros do grupo que não sou mais responsável por eles. Ah Kei. — Também sou um número 426 da 14K. Mas esse sentido era questionável. Normalmente. porque tinham recebido o batismo cristão. fui membro de uma tríade. ainda sou membro da 14K.

comecei a notar certos indivíduos que apareciam com regularidade. anotava diante do nome a quantia a da multa a ser paga. . Vim a saber que era assim que ganhava a vida. Se ele deseja mudar de vida e tornar-se cristão. não poderiam deixar de ser justificados. sob nomes diversos. Havia uma desconfiança geral da justiça. Uma razão pela qual não havia mais absolvições. Tinha nas mãos uma espécie de lista. disse ele afinal. Quando um desses nomes era chamado. crendo que ele era justo. os indiciados eram logo condenados ou absolvidos. Havia. como era ferrenha defensora do sistema judiciário britânico. muito bem. se falassem a verdade. e ficava ali sentada a manhã inteira.caso. Como não tinha mais condições de ficar na rua vendendo seus artigos. Caso encerrado. Se tantos casos eram julgados desfavoravelmente a eles. declarando-se culpada de pelo menos umas vinte acusações. por exemplo. ela se levantava e murmurava: Yauh (presente). — Não vejo por que um homem tenha que ficar marcado para toda a vida. tentei convencê-los de que. ia ao tribunal responder pelas infrações de seus colegas vendedores de rua. isso se devia ao fato de eles próprios se omitirem tanto. uma velhinha com uma longa trança que lhe caía pelas costas. Como eu ia muitas vezes ao tribunal. Mas eu. era que o povo de Hong Kong não se dispunha muito a depor nos tribunais. Em seguida.

Para isso. . — Cem dólares de multa. A loja lhe pagava cento e cinqüenta dólares para fazer isso. — Não. Havia ali também um velho de setenta anos que fazia a mesma coisa. deixando ali somente um velho viciado. Comentei com Ah Keung: — Ele sempre tinha a má-sorte de ser preso. recebia uma sentença leve. que então era preso e indiciado. e ainda lhe fornecia ópio de graça: assim ele podia cultivar seu vício e. e um dia de detenção. explicou ele. fechavam tudo. Devido à sua idade e ao número de condenações anteriores. muito satisfeito. ainda lhe sobrava algum dinheiro. As acusações eram lidas: — Uso de tóxicos e posse de instrumentos para consumo de tóxicos. E ele continuava a acenar que sim. depois de pagar a multa. Esse homem é um "ator". não. ou cinqüenta dólares. — Cinqüenta e oito condenações anteriores por infrações semelhantes. sorrindo. E o homem se afastava com um amplo sorriso no rosto. O velho acenava afirmativamente. Quando os proprietários das salas eram informados de que a polícia ia dar uma batida.para que pudessem continuar com seus negócios. Ganha dos donos da sala de drogas para ser preso. recebia uma pequena quantia.

— Pa mahfan. achava que era preferível ficar em paz com a polícia. Tive . que tinha sido preso por ter roubado um rádio de um velho. para não ser usada por indivíduos inescrupulosos. e. Eu tinha que me controlar muito. era cada vez maior o número de pessoas que compreendiam o que era ser justificado nos celestiais. que não tinham o mínimo interesse em mudar de vida. não quero envolvimento com a polícia. É muito perigoso. se parecia que os tribunais terrenos eram injustos. trabalhando arduamente para sustentar a esposa e quatro filhos. Durante dez anos. O pai também vira os dois detetives levarem o rapaz. como ele estava retendo uma informação de vital importância. quando a verdade era derrotada. Um maravilhoso exemplo disso foi Suenjai. Mesmo assim desejava que eu o ajudasse.O pai de Ah Keung pediu-me certa vez que socorresse seu filho Ah Pooi. um criminoso que se reabilitou. A mulher negou-se a depor. Muitas pessoas foram tocadas devido a esses problemas no tribunal. para não me deixar dominar pela raiva. Expliquei-lhe que. fora da Cidade Murada. argumentava. ele tinha levado uma vida certinha. conversando com uma velhinha. Mas. mas não queria ir depor. ele estivera dentro da cidade. Certo dia foi preso sob a acusação de bater carteiras. no momento do roubo. Como estava ligado à jogatina ilegal. Mas também tinha que tomar cuidado. do que defender o filho. eu não poderia fazer nada.

apenas um livrete com trechos do Sermão do Monte. Ia apenas declarar-se inocente. vim para cumprir. para que a lesse. deixei-a com ele. nem um Í ou um til jamais passará da lei. pus-me então a orar. Suenjai estava sentado no meio de um pequeno grupo. O Sermão do Monte levou-o à fé. Não tendo. Queria falar-lhe de Jesus. Comecei a aconselhá-lo a não fazer isso.certeza de que não fizera aquilo. Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem. até que tudo se cumpra. Pouco antes do dia do julgamento. perguntei-lhe como iria apresentar sua defesa." Foi a resposta dele. Resolvera não apresentar defesa nenhuma. Aí ele ficou calmo. Na primeira vez em que fui visitar o centro de triagem. . outra coisa. onde aguardava julgamento. pois não continha a mensagem da salvação. Estava muito ressentido e revoltado. mas ele não queria ouvir sermões. Não tinha uma Bíblia em mãos. A esposa dele entrou em contato comigo e visitei-o na cadeia. mas ele me interrompeu. Pediu a Jesus que entrasse em sua vida e recebeu o Espírito Santo. Perguntei-lhe: — Por que Jesus teve de morrer? — Porque está escrito: "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar. Foi um golpe muito duro para ele. Achei que não era uma literatura bastante adequada. porém.

não. — Então disseram que também queriam crer nele. já disse. E assim expliquei-lhes como poderiam fazê-lo. Suenjai contou-me que ganhara para Cristo doze prisioneiros.— A Bíblia diz: "Seja. Fiquei um pouco em dúvida. Percebi que estava sendo agarrado por um demônio. como se estivesse sufocando. não. e em sua própria experiência. saia dele!" Mas nada aconteceu." Suenjai foi condenado. Falei de novo: "Saia dele. que me pediram que fossemos falar-lhes desse Jesus que tinha poder para transformar o coração do homem. Então. nunca cessando de louvar a Deus. Um dia. alguns de seus vizinhos. algumas conversas comigo. e o colega ficou calmo e tranqüilo. Embora fosse obrigado a ficar preso um ano e três meses por um crime que não cometera. porém. Os outros colegas me perguntaram: — Que foi isso? O que você fez? — Foi Jesus. . levantei-me e disse: "Satanás. — Bem. respondi." Fiz que ia dar um chute no espírito. ficaram tão impressionados. Aliás. em nome de Jesus. uma noite um dos companheiros da cela acordou aos berros. pois sabia que seus conhecimentos teológicos eram baseados apenas em três capítulos de Mateus. sim. conservou-se sempre alegre. quando ouviram falar da maneira como ele se conduzira no tribunal. O que disto passar. contorcendo-se na cama. explicou ele. a tua palavra: Sim. vem do maligno. e ele saiu.

— Sei que o que vou dizer é meio estranho. ele conseguiu dizer o que estava querendo. Após o veredito. E Deus não operava apenas no coração dos criminosos. convidando todos os vizinhos. quando vocês entraram no tribunal hoje de manhã. quando o juiz o confiou às nossas mãos. que acabou voltando para o marido.Três dias depois que Suenjai foi solto. sua esposa fugiu com outro homem e se prostituiu. afirmou: — Quando vi o que aconteceu com esse meu amigo. olhei para vocês. e. um inspetor de polícia procurou-nos mostrando-se muito interessado em nosso trabalho. Mas ele permaneceu fiel em oração. Jean e vários outros membros de nosso grupo fomos assistir ao julgamento. Quando Ah Kit foi julgado. mas. eu.. Um ex-detento que assistiu a uma dessas reuniões. ela ficou tão impressionada com a atitude de compaixão e perdão da parte dele. não pude deixar de receber a Jesus em meu coração. Sugeriu que fôssemos almoçar juntos para continuarmos a conversa. em encontros posteriores com a mulher.. Várias horas depois. . ele realizou reuniões de oração em seu pequeno apartamento. principiou. parecia que havia uma auréola na cabeça de cada um. mas em várias ocasiões tocou profundamente na vida de pessoas ligadas aos processos. bom. e. Durante algum tempo.

e ele compareceu.Não tive vontade de rir. No final. uma das moças se aproximara dele e lhe indagara sem rodeios se era salvo. pensando que ele pudesse ter ficado agastado com um "ataque" tão direto. ligounos e disse que queria receber o batismo no Espírito Santo. explicou. Afinal. vi gente falando em línguas. Fiquei aliviada ao ouvi-lo emitir um comentário tão positivo. Fiquei só pensando no que vi ontem à noite. levou consigo um exemplar do livro de Jean. pois. Mas hoje estou vendo que vocês aqui estão realmente sendo inspirados por uma coisa que não compreendo bem. — Não consegui dormir. Fiquei preocupada. aos sábados à noite. juntamente com a esposa e com um antigo quadrilheiro. E cheguei à conclusão de que Jesus tem que ser mesmo real. durante a reunião. vi com meus próprios olhos como a vida dos moços foi transformada. saio com os colegas para beber. E hoje pela manhã orei a ele pedindo que entrasse em minha vida. . Mas não. Acho que nunca vi uma pessoa que ficasse tão tocada por uma reunião de oração. Em seguida. ele foi batizado no mar. No domingo seguinte. pelo contrário. teve que ajoelhar-se e orar. Nós o convidamos para a reunião de oração dos sábados à tarde. Leu-o durante todo o domingo. engoli em seco várias vezes. E ao sair. comentou: — Normalmente.

. replicou Ted. — Bom. mas se eu "apagar" antes? — É. disse-lhe: — Pelo menos espero que você não tente mudar-me. Seus amigos notaram que sua vida mudara completamente. — Não. não estou tentando modificar você. A conversão de Ted causou um grande impacto no Departamento de Polícia de Hong Kong. muita gente ficou sabendo da conversão do policial. replicou Ted. Não muito tempo depois disso. um de seus colegas.Logo. Sei que quando você se arrepender tudo vai-se acertar. realmente isso pode acontecer. que fazia oposição à sua conversão.

que se encontrava preso no centro de triagem. Jesus perdoaria seus pecados. Então fui falar de Jesus a Ah Lung. depois de ouvir-me. era um homem revoltado. fosse o que fosse que tivesse feito. que lhe falara a meu respeito. resmungou.14 E Pôr em Liberdade os Cativos Certo dia recebi uma belíssima carta de um chinês de Taiwan. Na mesma cela. aguardando julgamento. Em suas roupas havia uma tarja branca. Respondi-lhe que teria de perdoar os guardas da cadeia e abandonar os ressentimentos. Contudo. Expliquei-lhe que. enquanto não compreender que você foi perdoado. disse que queria crer no Senhor. estava com ele um rapaz da Cidade Murada. — Não me peça para fazer isso. cheio de ódio. A . que indicava ser ele um indivíduo perigoso. Nunca poderia amar esses homens. — É lógico que não pode perdoá-los. Na ocasião em que o conhecera ali. O que ele esperava era que eu iria ajudá-lo a sair da prisão.

— Crê que ele morreu pelos seus pecados? — Isso também eu não entendo. e senti o impulso de falar em língua estranha. perdôo os guardas. e que assistiu a um dos estudos bíblicos que eu realizara no centro. Mais tarde nos disse: — Tive que reconhecer que fiz uma porção de coisas erradas. voluntariamente. Modificou seu depoimento. — Deus me falou que não poderá me perdoar. Então ele pôs-se a interpretarme em voz suave. respondeu. respondeu. declarando-se culpado no tribunal. Expliquei-lhe que Jesus era o Filho do Deus to-do-poderoso. Então. — Mas você deseja crer? — Está bem. que morrera pelos pecadores. orei. continuando com os olhos baixos. Ah Lung testemunhou para um rapaz que estava aguardando o julgamento por crime de estupro. — Você crê que ele era o Filho de Deus? perguntei. enquanto eu não perdoar a outros. — Vi o que aconteceu com Ah Lung. . O que há nisso tudo que faz um homem durão tornar-se uma pessoa de coração brando? Quero conhecer este Jesus.seguir. — Não entendo bem essas coisas. E ele se tornou um detento-padrão. Foi a primeira vez em minha vida que admiti que estava errado. os olhos fixos no tampo da mesa. quando creu em Cristo.

é lógico.— Não tem importância se você não compreende bem essas coisas. mas tenho que confessar que sou culpado. Deseja crer nisso? — Está bem. — Pois bem. mas não tem certeza das outras coisas? indaguei curiosa. pois agora creio em Jesus. — Crê que ele ressuscitou dos mortos? — Ah. para que este o ajude nisso. sorriu para mim. Foi sentenciado a nove anos de detenção. ele se dirigira ao juiz e dissera: — Meu advogado instruiu-me para dizerlhe que sou inocente. pois ele não espera que você tenha essa vida obedecendo a um conjunto de regrinhas. Isso é impossível. Quando fui visitá-lo na penitenciária. Jesus lhe dará poder para viver a vida cristã. No julgamento. respondeu. — Porque senão você não estaria aqui na cadeia conversando comigo. creio. vi no jornal que seu caso tinha sofrido uma reviravolta. a quem mais eu iria seguir? — Está bem. . Ele irá dar-lhe seu Espírito. e afinal ergueu o rosto. — Por que tem tanta certeza disso. — Se ele é o Deus verdadeiro. Duas semanas depois. disse prontamente. ainda sem erguer a cabeça. você deseja segui-lo? perguntei.

falando que tenho de largar as drogas. Os prisioneiros ficavam dentro de um compartimento. sua atitude era outra. até o tão terrível estupro. Pecar é andar em nossos próprios caminhos. mas como era viciado em heroína desde os treze anos. que não me permitia ver claramente suas feições. E nunca cessava de testemunhar de Jesus aos outros. pois parecia haver uma aura de inocência em torno de sua pessoa. — O que é pecado? perguntara-lhe.— Estou tão feliz de saber que meus pecados foram perdoados. parecia mais um velho. — Não adianta ficar conversando comigo. e a parede de separação consistia numa telinha muito fina. replicara. Mas aquele dia na prisão. mas eu gostava muito dele. ta Sr. quando fora visitá-lo. no mesmo lugar. Poon. e conversara com ele no salão geral. Daih So tinha apenas trinta anos. Não tivera permissão para utilizar uma sala privativa. — Isso é simples.ta Poon. Isso é impossível. havia dois anos. Sr. dizendo: — É maravilhoso saber que Jesus levou sobre si todos os nossos pecados. Certa vez. exclamou ele. Também não me . ele me deu a mais clara definição de pecado que eu já ouvira até então. Essa atitude se acha em franco contraste com a que vi em Daih So. Estava sempre babando.

Houve ocasiões em que mandamos pessoas para a cadeia. quando voltei. Cheguei à cela e orei em nome de Jesus. mas. eu não queria ouvir. Então fiz o que tinha me falado. É verdade que tinham deixado para trás todo o passado. você já tinha saído. e tinham que reparar o erro no plano humano também.estava andando pela Cidade Murada. olhei para trás e vi você sentada. E assim dizendo. Muitos dos rapazes que chegaram à nossa casa tinham cometido crimes. Entretanto. No dia em que foi lá falar-me de Jesus. não vou lê-la. senti uma forte convicção e pedi ao guarda para voltarmos. Aquele pobre homem estava convicto de que não poderia parar de tomar drogas na cadeia. e chamei o guarda para me levar de volta. Saí dali profundamente desolada. Daih So! — Daih So. e assim fiquei liberto da droga. quando um desconhecido meio gorducho correu para mim. parecendo tão triste. mas continuei orando por ele. pelos quais nunca haviam sido presos. De repente. Mas quando cheguei à porta.peça para orar. . algumas coisas ficavam a importuná-los. para encerrar a conversa. eu . você saiu da cadeia? E por que está tão bem assim? — Eu queria mesmo contar a você. deu-me as costas. E se deixar uma Bíblia aqui. às vezes. em vez de ajudá-las a escapar dela. — Poon Siu Jeh! Sou eu. Mais ou menos uns seis meses depois.

era bem provável que fosse preso ao apresentar-se. ele não tinha a mínima intenção de apresentar-se. Estava com tão boa aparência.Ah Wah. Afinal. que os homens que estavam tirando as impressões pensaram que fora ali para se candidatar a um emprego. seguimos para a delegacia. com a instrução de apresentar-se no tribunal daí a duas semanas. Todos oramos muito em línguas naquela manhã de segunda-feira. Ele fora preso em julho por posse de drogas. Disse a ele e a todos os rapazes de nossas casas que orassem. queria ir à delegacia para entregar-se. encontra-se cumprindo pena em liberdade. Afinal ele conseguiu convencê-los de que fora entregarse. Então. para fazer uma identificação precisa. explicando que Jesus transformara sua vida. levaramno para tirar impressões digitais. e o recebemos numa das Casas de Estêvão em novembro. Mas não sabíamos disso. mas foi solto sob fiança. por exemplo. Os meses foram-se passando. Quando cometera o último delito. . Naturalmente. Dissemos várias vezes que Ah Wah deveria ser preso. mas não pareciam muito interessados. Seria muito difícil evitar isso. Conversando com Ah Wah achei que a possibilidade de ele ser liberto era ínima. por ter deixado de se apresentar quando devia. onde nos serviram um cafezinho e pediram que esperássemos. Afinal. e sua consciência começou a importuná-lo. Então ele confessou que deveria ter ido a julgamento.

e. Pode ir. nunca mais foi preso. Faz muito tempo que larguei o povo aí da casa. e quando chegou de volta. Mas agora creio em Jesus. Muitos criminosos ficavam bastante sentidos por terem sido presos. aprendi a fazer diferença entre os termos hauh-fui (sentir muito) efui-goih (arrependerse). De meu contato com tantos detentos. Desejo-lhe muitas bênçãos nesta nova vida.Finalmente. Foi preso e escreveu-me da cadeia. orando todo o tempo. houve um grande regozijo em nossas casas. Querida Pullinger. e ele respondeu: — Eu era viciado. Ah Wah apenas teve que assinar um compromisso de boa conduta. Terei que ficar aqui dez meses. Mas não sabia o que fazer com a liberdade e com as decisões que tinha de tomar. — Meu parabéns. mas bem poucos se arrependiam do erro cometido. de sua vida. Espero que Jesus os abençoe em tudo. ele mesmo. Ficou muito feliz e aliviado. depois disso. depois então poderei ter minha nova vida de novo. O juiz perguntou-lhe por que não fora apresentar-se. chegou o momento em que fomos convidados a entrar numa viatura. e sinto muito ter agido assim. que ficou em nossa casa apenas dez dias. disse o magistrado. e nos dirigimos para o tribunal. . e vim para entregar-me. Um dos que estavam constantemente errando era Ah Bill. tomou uma decisão muito sensata. e afinal resolveu que já estava apto a cuidar.

Deus nos tem dado muitas oportunidades. quero dizer uma palavra aos novos irmãos. mas mesmo assim tem que ficar preso. . claro que não. consegui esquecer as palavras deles. mas quando o milagre de Deus entrou em meu coração. Não que ele gostasse da cadeia. E eu responderia para fazer-lhe algumas perguntas sobre a Bíblia. Logo que vim para a prisão. Ficaria muito feliz de receber uma carta sua no mês que vem. pois aprendi a ser obediente. eu ficava com muita raiva. Ah Bill foi um dos que descobriram que era mais fácil ser crente dentro de uma prisão. Ah Bill. Alguns dos homens aqui diziam certas coisas a meu respeito. E para terminar.Espero poder arrepender-me e ser aceito pelo Senhor mais uma vez. Espero que esteja gozando boa saúde. Você tinha-nos visitado e ensinado a Bíblia para nós. Mas agora está tudo certo. Naqueles momentos. mas não dei ouvidos e desobedeci aos regulamentos. mas apesar disso pude receber um pouco de sua graça. sim? Fui transferido de área. Orem por mim. pois fiz uma coisa muito errada aqui na prisão. Agora estou seguindo a Jesus. mas será que a» estamos levando a sério? Tenho passado por muitas dificuldades. Diziam por exemplo: — Você crê em Cristo. eu costumava ir à capela todos os domingos e orava em língua estranha todas as noites.

tinha menos capacidade de viver do lado de fora. também era membro de uma tríade. Paulo foi chamado para pregar a BoaNova do perdão de Deus. Quando lhe falei de Jesus. E cada vez que era liberto. foi entregue aos nossos cuidados e falou-me de Kwok. Mas. Um dos rapazes de outra quadrilha fora morto durante a briga. Embora Kwok fosse policial. disse Kwok. tinham sido assassinos? Ele teve uma expressão de espanto. Cinco dos quadrilheiros foram julgados. dois homens que Deus usou muito. que fez . que além de ser perdoado. do interior. E ele tinha matado os cristãos. — Um deles era Davi. Outro rapaz. Deus mostrou todo o significado do evangelho. — Mas que esperança há para mim? repetia ele tristemente. — Quer dizer então. vindo de Novos Territórios. Que futuro me espera? — Você sabia que dois homens da Bíblia. ao usar este homem. e participara de uma batalha entre quadrilhas.Mas é que ali não tinha que tomar ele mesmo as decisões de todos os dias. um amigo da cadeia. Era um rapaz tranqüilo. posso vir a trabalhar para Deus? Essa idéia de que poderia ser útil para Deus foi de tanto estímulo para ele. de aparência limpa. Era muito cortês. e o outro Paulo. mais que todos os outros. só conseguiu compreender que ele era o Filho de Deus. continuei. Ah Kit.

disse ele. Dois dias depois fui visitá-lo novamente. Mas ele veio correndo para a sala de visitas. e tinha orado e recebido o poder do Espírito Santo. que ele o amava e morrera por ele. tendo-lhe falado muito sobre Deus. não sabia exatamente o que ia encontrar. Não me importa se serei condenado ou não. — Sr. Por fim. ele foi sentenciado à morte. Afinal. quando pude vê-lo novamente. Nos dois anos que se seguiram não consegui mais entrevistar-me com Kwok. Nunca tinha . Mas o outro rapaz que fora condenado à morte juntamente cóm ele estava aterrorizado. sentia-me muito nervosa. No dia seguinte. Agora sei que meu passado foi perdoado e tenho esperanças para o futuro. Quando entrei.uma oração jubilosa. Agora tenho esperança. pensava eu. como se seu coração estivesse estourando de regozijo. Lembro-me de que fiquei a observá-lo no momento em que era pronunciada a sentença. pois conversara com ele apenas duas vezes.ta Poon. Levantou os braços algemados até a altura do pescoço fazendo a mímica do enforcamento. e riu. Estava radiante. muito radiante. — Coitado. provavelmente já esqueceu tudo que lhe falei. Ele sabia que Jesus era o Filho de Deus. tenho uma paz tão grande no coração. sua sentença foi comutada para prisão perpétua. E era só isso. Estava profundamente calmo.

— Oh. Tinham seus próprios cânticos. tudo isso é maravilhoso! Tenho uma paz tão grande no coração. Jamais conheci um grupo de homens que entendesse o que significava Jesus ter dado a vida por eles. E leu-o duas vezes antes que eu o visse novamente e ele pudesse perguntar-me: — Ah.visto uma alegria tão pura no rosto de um homem.ta Poon. falou quase sem fôlego. E eles eram realmente crentes. quando adoeciam. de manhã e à noite. procurando reanimar- . Dei uma Bíblia a Kwok. E oravam uns pelos outros. Deu-me uma lista com os nomes. Sr. Um deles era o rapaz que fizera a mímica do enforcamento no dia do julgamento. Poon Siu Jeh. o que significa "gentio"? Os seus convertidos também se desenvolveram bastante. melhor do que aqueles ali. e sei que ele compreende o que vai em meu coração. e mais tarde os visitei. e uns seis deles creram também. Tenho falado aos outros presos sobre Jesus. que o Espírito Santo lhes inspirava. Poon Siu Jeh. e ele leu o Novo Testamento em dois meses. Oro todos os dias em minha cela. disse-me sorrindo. Aqui está o nome deles. e estava um pouco temerosa de que não me dessem permissão para vê-los mais. Certo dia visitei Kwok. — Não se preocupe conosco. uma alegria tão grande de saber que meus pecados estão perdoados. Oro naquela língua que Deus me deu.

"Pelo poder do Espírito Santo. Prezado William. e muitos deles querem falar com Jackie. pelo grande amor de Deus. nos sentimos muitos felizes. para explicar-nos o evangelho. inclusive alguns estudantes. Estamos muito bem. para que sejam totalmente transformados. espero fazer o máximo por ele. "Saúdo-o no mome de Jesus. Deus me tem dado muitas oportunidades de testemunhar a outros aqui. pois pelo seu maravilhoso nome nós nos conhecemos. e. Recebi várias cartas deles. "Graças sejam dadas ao Senhor Jesus Cristo. Glória a Deus! "Quero agradecer-lhe muito por ter-me escrito palavras de encorajamento e ensino. e alguns jovens de nosso grupo escreveram para eles também. Estamos orando por você. Jackie costuma visitar-nos aqui na prisão todos os meses. Realmente estamos muito tocados por isto. Kwok." Na primeira vez que visitei Ah Lung conheci um outro prisioneiro que estava sendo . ore por nós aqui. Acredito firmemente no que a Bíblia nos afirma sobre Jesus Cristo ter morrido por nós.me. para eu compreender o amor de Deus. mas tenho a impressão de que têm segundas intenções. Todas as vezes que ela vem. "Por favor. com toda sinceridade. Mas eu apenas oro para que o Espírito Santo opere no coração deles. São os homens mais livres que conheço.

e a mãe ficou fora de si de desespero. já era tarde demais para salválo. mas não conseguiu reanimá-lo mais. o corpo do menino boiando na água. o diretor da escola voltou ali e viu.julgado por ter tentado entrar em Hong Kong. uma familia chinesa fugiu da China para Taiwan. Nessa família havia um garotinho de mais ou menos quatro anos. e os médicos deram o atestado de óbito. Certo dia. Deixe-me contar-lhe uma história. horrorizado. Puxou-o para fora. com muita tristeza. a maior que já se descobrira num navio. Ali havia uma lagoazinha. Logo que o conheci. E ele caiu dentro dela. Mandou chamar os pais. disse-lhe. com uma grande quantidade de heroína. — A única razão por que estou aqui. . Naturalmente. Bem no meio da noite. replicou Go Hing. o garoto sentou-se e disse: — Por que estou vestido com essas roupas? A mãe pensou que se tratasse de uma visão. que saiu correndo e não disse nada para ninguém. — Mas não posso tornar-me cristão. começou a discutir comigo sobre os pormenores de seu processo. a mãe levou o corpinho do filho para casa e vestiu-o com uma mortalha. O amiguinho dele ficou tão apavorado. Horas depois. Há mais de vinte anos. é falar-lhe sobre Jesus. ele saiu de casa e foi brincar com um amigo no pátio da escola. e insistiu para que o levassem a um hospital. Afinal.

Mas não posso ser crente porque eu conhecia a verdade. — Pois tenho uma coisa muito boa para lhe dizer. Mas. — Um homem? Quem era ele? indagou a mãe. e desde então minha família sempre foi crente. — É Jesus. Também lhe dará uma nova língua. para se comunicar com ele. Nesse instante. Go Hing. Ele lhe dará poder para segui-lo. respondeu o garoto. Jesus não espera que o sigamos com nossas próprias energias.— Você se lembra de que caiu dentro da lagoa? indagou ela. — Lembro. replicou o menino. — Sabe o nome dele? perguntou ela. — Bom. ele o perdoará. daquele dia em diante a mãe e toda a família tornaram-se discípulos de Jesus. ele veio e me tirou da água. vi um homem vindo em minha direção. Voltei da morte. Portanto. Após alguns instantes disse: . se você disser a ele que está arrependido e pedir-lhe perdão. Aquela família nunca tinha ouvido falar de Jesus antes. e não segui a Jesus. mas a água entrou por ela. Depois perguntou: — Sabe por que conheço essa história? Eu era aquele menino. Estava afundando na água e abri a boca para gritar pedindo socorro. Ali mesmo nós oramos. Go Hing contou-me essa história com muita emoção. e ele começou a orar em língua estranha. depois pôs-se a chorar.

— Mas você tem de falar a verdade. desde que me tornei adulto. e a . Quando fui preso. Pouco antes de voltar à Inglaterra. Passados alguns dias. replicou. Em Taiwan. mas não chorei. — Só quero lhe dizer uma coisa. Agora sei que Jesus está comigo. não é? — Estou com muito medo. fui visitá-lo novamente e conversei com ele. disse-lhe. serei condenado à morte. — Você sabe que deve confessar a verdade no tribunal. sabia que ia passar muitos anos sem ver minha esposa e filhos. O rapaz foi sentenciado a doze anos de detenção. falou. Não vou conseguir. e não tenho medo de ventos e ondas bravias. pude ir visitá-lo na Prisão Stanley. Uma foi quando você me visitou na prisão e recebi a Jesus e seu Espírito Santo. dão pena de morte para tráfico de drogas. Só houve duas ocasiões em minha vida em que chorei. Sou conhecido como um homem muito durão. mas estava sorrindo. — Se me confessar culpado desse delito. Logo que olhei para ele através do vidro de comunicação. — Estou só dizendo que você tem de falar a verdade.— Essa é a primeira vez que choro. Sabe que Cristo salvou sua vida. assalto à mão armada e por assassinatos. começou a chorar. e não pode obedecê-lo apenas parcialmente. Fui marinheiro muitos anos. Você agora é crente.

A polícia não ficou satisfeita. porque isso a deixou muito mal vista. então revelei à polícia que havia mais heroína naquele navio. mas meus pecados estão perdoados. eu não tinha a menor intenção de fazê-lo. . Hoje estou chorando de alegria. à tarde confessarei a verdade. porque sei que meus pecados foram perdoados. O juiz ficou com raiva e me deu uma sentença pesada. mas fiz um acordo com Deus. E aqui ele sorriu para mim e concluiu. Naturalmente. porque havia ali uma fortuna escondida. e depois ir para o inferno. e um dia irei para o céu. Eu disse a ele: "Se ela vier me visitar hoje. Quando você me disse que eu devia confessar a verdade. meus colegas ficaram furiosos comigo." Você veio. E isso é melhor do que ter uma sentença leve aqui. — Sei que tenho uma sentença pesada.outra é agora.

à noite. e. Numa das ruas.15 Andar no Espírito Certa vez. Expliquei-lhe que sempre falava em línguas. uma rua tão íngreme que era feita de degraus. Um pouco mais abaixo. Durante o dia. ele vendia verduras ali. No dia seguinte. vimos um homem que morava num armário. quando andava pela Colônia. E convidei-o para acompanhar-me numa de minhas rondas por Hong Kong. Com uma população de quatro milhões e meio de pessoas. sem cessar. subia nele para dormir. um marinheiro americano resolveu me passar um sermão por causa do meu dom de línguas. orando os dois. Ele próprio tinha o dom. pelas ruas. ocupando cada metro quadrado do lugar. havia famílias inteiras morando num só cômodo. Achava que eu estava exagerando um pouco. encontramos uma velhinha que estendeu-nos uma tijela de . nos encontramos e fomos caminhando do Setor Oeste até o cais. mas exercitava-o com muita parcimônia.

e ele me respondera enviando-me para a Cidade Murada. outra igual. mas ela estava cuidando do nenê. Queria continuar estudando. mas os pais o haviam tirado da escola para trabalhar. pedia-me para falar inglês com ele. E depois desta. Parara de estudar logo após o curso primário. Mas meu objetivo naquele dia fora incentivá-lo a andar no Espírito. Ninguém na cidade tinha dinheiro ou espaço sobrando. eu tinha a sensação de que passara toda a minha vida ali. para praticar um pouco e poder conseguir um emprego melhor. Todas as vezes que o encontrava. Ninguém estava cuidando da pequenina e suja menina de cinco anos. e que poderia amar todas aquelas pessoas e conhecê-las bem. . Chegando ao fim da rua.plástico. e concedendo-me os maravilhosos eventos dos doze anos seguintes. Então comecei a orar. Mas entramos na outra rua. Depois passamos por um rapazinho que pagava para ter o privilégio de dormir em cima de um balcão de loja. então ela ganhava a vida mendigando. pois os pais tinham que trabalhar. Continuando a caminhada. carregando às costas uma criancinha. à medida que caminhávamos mais. que era uma réplica da primeira. Aquele marinheiro ficou pasmado com essa nova visão que tivera de Hong Kong. vimos uma garotinha de mais ou menos cinco anos. Contei ao marinheiro como havia perguntado a Deus que setor de sua obra iria caber a mim.

e em sua fisionomia surgiu uma expressão de espanto. Sentia forte dor de estômago e vomitava muito. Havia várias pessoas deitadas pelas escadas. Imediatamente. Tive oportunidade de visitar Mau Wong várias vezes. Não se achava em condições de ouvir-me falar de Jesus. estava em péssimo estado. saiu correndo. e voltou daí a pouco trazendo consigo um homem de magro e chupado. Entramos num prédio que alardeava bordéis e dan-cings. Eu fora ali à procura de Mau Wong. e então eu e o jovem americano simplesmente impusemos as mãos sobre ele e oramos silenciosamente. um lugar onde os viciados em heroína se reuniam. pedindo sua cura. Aceitou a Jesus e foi batizado no Espírito no mesmo instante. Quando o encontramos. explicoume que. e assim ganhava bastante dinheiro. Podia afinal sentar-se tranqüilamente e escutar-nos. Será que poderíamos orar por ele? Então oramos por aquele outro também. Foi curado na hora. quando ele se ergueu. tinha de ganhar a . Mau Wong explicou que aquele seu amigo estava com dor de dente. e depois lhe falamos de Jesus. Estávamos procurando um certo marginal. Da segunda vez em que o vi. Ele também quis receber a Cristo e seu Espírito. que era "protetor" de várias prostitutas. no Espírito. Mal termináramos de orar. a dor passou. como era crente.Atravessamos a baía e chegamos à Rua Jordan. para falar-lhe mais a respeito de Jesus. e o fez imediatamente.

O velho aceitou a Jesus com a sinceridade de uma criança. pôs-se a orar também. Depois passou a freqüentar regularmente nossas reuniões aos sábados. O moço achava que orar num ônibus já era demais. Receberam-nos como se já estivessem nos esperando. fomos para um salão de drogas. e que iria tornar-se engraxate. parando apenas para as refeições. Mas era só isso que queria. uma refeição gratuita. mas depois do que vira na Rua Jordan. Em Chaiwan. Eu estava-lhe . Ah Wing nos acompanhou.vida de forma honesta. respondi. ou para conversar com as pessoas que encontrávamos pelo caminho. O dia inteiro nós oramos sem cessar. Eu e o americano continuamos nossa ronda por Hong Kong. Era um dos homens que vendia heroína. Sentei-me ali e pus-me a explicar o plano da salvação. disse-me um viciado. Quando saímos. Eu ia orando o tempo todo. e ele também. em voz baixa. Paramos numa barraca de lanches para comer. e um bom grupo foi-se aglomerando ao nosso redor para escutar-nos. — Poon Siu Jeh. pode arranjar-me uma Bíblia? Um velho indagou: — Onde posso ir para ouvir mais a respeito de Jesus e sua doutrina? — Você não precisa ir a um culto. Atravessamos a baía de volta e pegamos um micro-ônibus para ir a Chaiwan. Eu mesma posso falar-lhe. para ouvir falar de Jesus.

por que não pergunta a Deus se Jesus é o Filho dele ou não? Tenho certeza de que ele responderá. acho que ele deve ter ressuscitado mesmo. — Isso não tem importância. aquiesceu. e pus-me a orar silenciosamente. Talvez. quero. Alguns instantes depois. — E você quer segui-lo? — Ah. Mas. — Não tenho certeza. resmungou ele. replicou. — E você crê que ele morreu por você? — Não entendo isso. é lógico. isto é. fazendo um aceno ao americano. disse-lhe. vi que ainda estava orando. Afinal. — Ah Wing. Mas. procurando dar a entender que não tinha nada conosco. Quer crer? — Está bem. julgando que já havíamos orado o suficiente. perguntei: — O que foi que viu? . O marinheiro fora sentar-se numa outra banqueta. ergui a cabeça. quando viu a expressão do rosto de Ah Wing. Suas feições tinham uma aparência celestial. sua atitude mudou inteiramente. e continuou a orar por muito tempo. se ele é mesmo o Deus yerdadeiro. mas ele estava-se apressando para podermos ir logo comer. — Está disposto a crer que Jesus é o Filho de Deus? indaguei. — Está disposto a crer que ele ressuscitou dos mortos? — Bom. quando olhei para aquele traficante de drogas. para que se juntasse a nós.falando de Jesus. quando levantou o rosto.

Estava sentado a uma longa mesa e havia outros homens em torno dela. Expliquei-lhe que aquilo significava. nem roupas. ou incumbisse-nos de instalar mais doze apartamentos para os rapazes. não tínhamos onde abrigar aqueles que ganhávamos para Cristo. ou nenhuma. para agir do modo que ele determinasse. depois que desse baixa da marinha. . e depois um cálice de vinho. que Jesus havia dado seu corpo e seu sangue por nós. e todos bebiam. vi uma espécie de um quadro. quando estava orando. Na continuação de nossa caminhada. até que ele acertasse a vida. A maioria deles não tinha um lar. cinqüenta. e meu amigo americano não precisou mais de argumentos sobre o valor de se orar no Espírito.— Bem. Eu achava que tinha a responsabilidade de cuidar de cada um. bem como vício de drogas e doenças diversas. Muitas vezes. Eles responderam que àquela altura poderíamos ter cinco casas. Estavam passando uns para os outros um pedaço de pão. mais duas pessoas se converteram. quer nos mandasse ir para a China. e acho que era Jesus. O marinheiro escreveu ao casal Willans indagando se poderia trabalhar conosco. E que estaríamos nas mãos de Deus. lutavam com sérios problemas de personalidade.

que conversava com alguns traficantes de droga. Quatro horas depois. Ele convidara membros de sua antiga quadrilha . Então espalhou-se em Chaiwan o boato de que eu era profeta. senti que devia voltar a Chaiwan e procurar Ah Wing para fazer com ele um trabalho de consolidação. que ele só poderia firmar-se. Nunca mais vi Ah Wing. Um outro irmão carnal de Goko voltou do Canadá. mas vi Ah Kwan. Todos me trataram muito bem. mas senti que devia dizer-lhes que. e que se ele não seguisse a Jesus imediatamente. mas confiei plenamente em que Deus cuidaria dele melhor do que eu poderia fazê-lo. Conhecemo-nos no casamento de Johnny. se eu pudesse fornecer-lhe uma atmosfera de segurança. iria preso dentro de poucos dias. Ah Kwan disse que só poderia arrepender-se na semana seguinte. Respondi-lhe que ninguém pode escolher a hora para se arrepender. de modos brandos. Finalmente vim a crer que poderia deixá-los inteiramente aos cuidados do Senhor. crera que Deus pode curar um viciado em drogas instantaneamente. pois precisavam dos lucros dos três dias seguintes.Mais tarde. impeçavelmente vestido. foi apanhado e sentenciado a trinta dias na cadeia. o negócio que faziam era repulsivo. Depois. já que ele o ama mais que eu. o traficante. embora Jesus os amasse e eu também. Voltei então ao ponto de partida: primeiro. Era um homem alto. Não o encontrei.

oramos. ta Sr. — Tenho que dar-lhe um aperto de mão. de onde ele vem? Ele não cai do céu. — Está bem. mas. — Ah. disse-me o irmão de Goko. repliquei. Deus cuida de nós. cai? — Bem. respondi. falando de maneira prática. assistiu às nossas reuniões e conversou comigo. explicando-lhe quem realmente fizera toda a obra. Naquele momento bateram à porta e entrou um velhinho. Você já fez tudo. isso até pode acontecer. e decidira estudar direito para ajudá-los. — Poon Siu Jeh. Pullinger. Isso se devia em parte ao fato de que muitos dos rapazes da 14K tinham-se convertido. disse ele.para que seu casamento fosse um testemunho para eles. Crieime na Cidade Murada com esses rapazes. que me entregou um envelope. O irmão de Goko entrou ali e logo gostou. Fomos caminhando pelas ruas da Cidade Murada em direção ao clubinho. Nas noites seguintes. Prontamente recusei seus louvores. Mas agora estou vendo que não há mais nada para eu fazer. Muitos dos negócios ilícitos da Cidade Murada haviam-se fechado. — Como resolve seus problemas de dinheiro? indagou ele um dia. eu estava andando pela rua e uma pessoa me entregou esta carta. Quando precisamos de dinheiro. .

enviada por um homem que eu não conhecia e de quem nunca ouvira falar. era apenas um monte de entulho. Então raptou um filho dele com uma antiga amante. Estava com muito medo de voltar para casa. Aterrorizada com o marido. tinha presenciado um começo de briga entre dois desconhecidos. e escondeu o garoto. sua esposa havia desaparecido. Ele não quis prometer nada. passando pelas prostitutas. de apenas quatro anos. se ele perdoasse sua falta.Olhei para ela. e dentro havia a quantia de cem dólares. forçou o garotinho . num apartamento. — Eu me rendo. Abri-a." E era só. pelos salões de drogas e jogatina. Depois telefonou para ele e disse que devolveria a criança. um ano antes. Saí da cidade e passei pelo local onde estivera o prédio da Rua Lung Kong. e ele ergueu as mãos. e logo colocou os quadrilheiros na pista do apartamento. Lembrei-me de que Goko morava no edifício do outro lado da rua. Passei pelo lugar onde. após perder uma grande quantia em dinheiro no jogo. falou. „ Depois ele se foi. sabendo que ele iria castigá-la severamente. pelos cinemas pornográficos. Estava escrita em inglês: "Jackie Pullinger — Walled City (Cidade Murada). Mostrei aquilo para o irmão de Goko. Alguns meses antes. Mas a esposa dele não queria ficar à espera de que ele a encontrasse. brandindo facões. e saí por aquelas ruas sozinha.

e ambos morreram. mas o irmão canadense se confessava crente abertamente. e quando nos encontramos outra vez para tomar chá. se o fosse. e já notei que a maioria ganha muito pouco em seus empregos. porque. Mas tenho observado vocês. mas quero ter certeza de que ele irá sustentar também os meus seguidores. Sei que Jesus pode me sustentar. os crentes. apresentei-lhe minhas condolências. — Como você sabe? Nunca contei a ninguém que tenho medo. e sei que os crentes não podem fazer essas coisas. roubar. Percebi nele também medo da solidão. — Não estou dizendo que não creia em Jesus. Por isso não quero ser crente. e como queria tanto ganhá-lo e tocar seu coração. trapacear para sustentar minha família. Tanto Goko como Sai Di tinham atitudes semelhantes com relação a Cristo. confessou ele. Mas estou certa . Sempre respeitei a opinião desses dois irmãos. disse-lhe que percebera seus temores. Eu tinha feito o propósito de ver Goko pelo menos uma vez por ano. Mas eu tenho que mentir. Fez uma expressão de desdém quando mencionei a esposa. e tenho orado para que eles vejam que Deus é suficientemente poderoso para suprir todas as suas necessidades. queria ser um crente de verdade.a beber veneno e depois bebeu também. mas pude sentir que sofria pela perda do filho. diziam eles. E Goko disse-me que nunca falara de seus sentimentos a ninguém.

Mas sei também que a decisão de perservar ou não. mas deixavam as casas prematuramente. Os que tinham conhecido a Cristo. CONTRACAPA . sempre acabavam tendo problemas. um viciado de Chaiwan resumiu tudo isso muito bem: — Ouvi dizer que Jesus faz o mesmo milagre para todos os rapazes que vêm a esse lugar. Afastei-me da casa de Goko e dirigi-me para as Casas de Estêvão. ah!. se aquele irmão deseja ser crente.de que nenhum deles fará uma entrega pessoal insincera. Se quer ser crente. tenho-o ouvido dizer: — Está bem. então que seja um bom crente. a fim de seguir seus próprios impulsos. Não quero que ele saia daqui hoje e volte amanhã. em minhas conversas com Goko. onde os rapazes que continuavam a caminhar no Espírito se tornavam homens dignos de todo respeito e confiança. Mas que siga a Jesus direitinho. isso é com o rapaz. tudo bem. Muitas vezes. Certa vez.

Os forasteiros não são bem recebidos ali. a pornografia e o vício da heroína. que revela a fibra. Mas. desafiante e inspirador.. prostitutas largaram o ofício. verdadeiro inferno de tráfico de drogas e de jogatina ilegal.. quando começou a falar de Jesus ali. rudes quadrilheiros se converteram. Caça ao Dragão é um relato honesto. E nessa área pequena e apertada vivem amontoadas pelo menos trinta mil pessoas — talvez o dobro.Caça ao Dragão No coração de Hong Kong. não tinha a menor idéia de que Deus a estava levando para trabalhar justamente na Cidade Murada. A própria polícia tem receio de se aventurar naqueles domínios. encontra-se a temida Cidade Murada. o amor e a dedicação de uma jovem disposta a tudo para servir a Deus. Ali florescem a prostituição. e Jackie tropeçou na descoberta de um novo método de tratamento para a dependência das drogas. Editora Betânia Leitura para uma vida bem sucedida . Quando Jackie Pullinger saiu da Inglaterra.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->