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14º CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHEIROS CIVIS - CBENC 2008

AS INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Desenvolvimento Sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem


que se comprometa a possibilidade de futuras gerações atenderem às suas próprias
necessidades. A sustentabilidade é a única forma racional de organização social que
pode garantir a sobrevivência da espécie humana. Ela deverá ser alcançada por meio
de abordagens e conquistas encadeadas nos diversos campos de ciência e tecnologia,
através de esforços interdisciplinares e dentro de uma visão sistêmica.

Sob este enfoque, a comissão organizadora do CBENC 2008 escolheu como tema de
abrangência “As Inovações Tecnológicas e o Desenvolvimento Sustentável”. O
momento atual com sérios problemas ambientais de toda ordem exige que a sociedade,
as empresas e as instituições que integram diferentes setores incentivem e promovam
o desenvolvimento dando ênfase as questões socioambientais. A evolução da
tecnologia cada vez mais contundente e acessível vem fazendo com que ela se
constitua numa das principais ferramentas na busca pela sustentabilidade na área de
Engenharia Civil. Porém, para isso é fundamental que se promova exaustivamente a
conscientização para a utilização de inovações tecnológicas, constituindo-se, portanto,
num dos principais enfoques do evento.
Comitê Executivo

Coordenador Executivo: Prof. Ademar Cordero, Dr. (FURB/SC)


Comitê de Organização:
Engo Civil, Domingos Bonin - (ABENC/SC)
Engo Civil, Francisco José Teixeira Coelho Ladaga - (CREA-PR)
Engo Civil, João Batista Gonçalves - (CREA/SC)
Engo Civil, Juliano Gonçalves - (CONFEA /AEAMVI/SC)
Engo Civil, Ney Perracini de Azevedo - (ABENC/Nacional)

Comitê Científico

Coordenador Científico: Prof. Helio Flavio Vieira, Dr. (FURB/SC)


Adilson Pinheiro, Dr. (FURB/SC)
Ana Lúcia Nogueira de Camargo Harris, Dra. (UNICAMP/SP)
Archimedes Raia, Dr. (UFSCar/SP)
Clarisse Odebrecht, Dra. (FURB/SC)
Eduardo Linhares Qualharini, Dr. (UFRJ/RJ)
Eduardo Luis Isatto, Dr. (UFRGS/RS)
Francisco Ferreira Cardoso, Dr. (POLI/USP/SP)
Gihad Mohamad, Dr. (UNESC/SC)
Guilherme Aris Parsekian, Dr. (UFSCar/SP)
Heitor Vieira, Dr. (UFRG/RS)
Ivone Gohr Pinheiro, Dra. (FURB/SC)
Márcio Minto Fabrício, Dr. (USP/SP)
Marco Gonzáles, Dr. (UNISINOS/RS)
Maria do Carmo Duarte Freitas, Dra. (UFPR/PR)
Marina de Oliveira Ilha, Dra. (UNICAMP/SP)
Mauro de Vasconcelos Real, Dr. (UFRG/RS)
Regina Ruschel, Dra. (UNICAMP/SP)
Ricardo Mendes Jr, Dr. (UFPR/PR)
Sergio Lund Azevedo, Dr. (UFPEL/RS)
Sergio Scheer, Dr. (UFPR/PR)
Sheila Mara Batista Serra, Dra. (UFSCar/SP)
Sheila Walbe Ornstein, Dra. (USP/SP)
Silvia Santos, Dra. (UNIVALI/SC)
Silvio Burrattino Melhado, Dr. (USP/SP)
Simar Vieira de Amorim, Dr. (UFSCar/SP)
29/10 - Quarta-Feira
Reunião da Diretoria e do Conselho Consultivo da ABENC
14h às 14h45
Local: Viena Park Hotel
14h45 às 16h45 Credenciamento e entrega de material - Local: Viena Park Hotel
20h30 Solenidade de Abertura - Local: Vila Germânica
Mini-Oktoberfest - Local: Vila Germânica
30/10 - Quinta-Feira (Salão Salsburg)
Palestra 1 - A Importância do Concreto - Inovação Tecnológica e
9h às 9h45 Desenvolvimento Sustentável
Engº Civil Carlos Roberto Giublin (ABCP)
Palestra 2 - Os Problemas e as Soluções para a Infra-estrutura de
9h45 às 10h30 Transportes no Brasil e o PAC
Engº Civil João José dos Santos (DNIT/Super Intendente)
Painel 1 - Formação do Engenheiro Civil e do Tecnólogo - Diferenças
de Objetivos, Currículos e Atribuições
Expositores: Engº Civil Francisco José Teixeira Coelho Ladaga (CREA/PR)
10h30 às 12h30 Engº Civil João Luís de Oliveira Collares Machado (CREA/RS)
Debatedores: Engº Civil João Batista Gonçalves (CREA/SC)
Engª Civil Elisabete Alves de Oliveira Rodrigues (ABENC/SP)
Engº Civil José Mirocem Gonçalves (ABENC/PB)
12h30 às14h ALMOÇO LIVRE
Palestra 3 - O Futuro da Construção Civil - Inovação e Sustentabilidade
14h às 14h45
Engº Civil Humberto Ramon (UFSC)
Painel 2 - Responsabilidade Profissional e Ações Sociais na Construção Civil
Expositores: Engº Civil José Tadeu da Silva (CREA/SP/ Presidente)
Engº Agr. Álvaro José Cabrini Júnior (CREA/PR/ Presidente)
14h45 às 16h45 Engº Civil Jorge Strehl (SINDUSCON/Blu)
Debatedores: Engº Civil Amauri Buzzi (FURB)
Engº Civil João Carlos Pimenta (SINDUSCON/DF - ABENC/DF)
Engª Civil Vera Lúcia de Lima Gomes (CREA/RN)
16h45 às 17h COFFEE - BREAK
Painel 3 - Criação da Ordem dos Engenheiros Civis - Prós e Contras
Expositores: Engo Civil Enéas Cardoso de Almeida Filho (CREA/BA - ABENC/BA)
Engº Civil Emerson Siqueira (CREA/SC - CNCEEC)
Engº Civil Valmir Antunes da Silva (CONFEA)
17h às 19h
Debatedores: Engº Civil Ivan Ribeiro Conceição (ABENC/RJ)
Engº Civil Iocanan Pinheiro de Araújo Moreira (ABENC/MG)
Engº Civil Willams Lopes Pereira (ABENC/RR)
Engº Civil Gilson Fernando Gomy Ribeiro (ABENC/PR)
Reunião Aberta da ABENC - Declaração de Lisboa, Carta de Fortaleza e
propostas da ABENC em relação ao CONFEA - Acompanhamento de ações
19h às 20h Engº Civil Ney Perracini de Azevedo (ABENC/Nacional)
Engº Civil Lyttelton Rebelo Fortes (ABENC/CE)
31/10 - Sexta-Feira (Salão Salsburg)
Palestra 4 - Reabilitação de Estruturas de Concreto com Compósitos:
9h às 9h45 Potencial e Aplicações
Engº Civil Andrei Beber (UNIVALI/SC)
Palestra 5 - Impacto da Informática nas Empresas de Projetos Estruturais
9h45 às 10h30 Engº Civil Marcos Monteiro (ABECE/Vice-Presidente)
Engº Luiz Aurélio Fortes (TQS Informática)

Painel 4 - Valorização do Engenheiro Civil no Sistema Confea/Crea


Expositores: Engº Civil Carlos Henrique Amaral Rossi (CREA/MG - CNCEEC)
Engº Civil Fernando Luiz Beckman Pereira (CREA/MA - CONFEA)
10h30 às 12h30 Engº Agr. Raul Zucatto (CREA/SC / Presidente)
Engº Civil Pedro Lopes de Queirós (CONFEA)
Debatedores: Engº Civil Ézio Francisco Calábria (ABENC/MT)
Engª Civil Maria do Socorro Gomes Araripe Seabra (ABENC/PI)
12h30 às14h ALMOÇO LIVRE
Palestra 6 - Avanços na Eficiência, na Qualidade e no Gerenciamento
14h às 14h45 dos Empreendimentos de Engenharia Civil
Engº Civil Sílvio Melhardo (USP/SP)
Painel 5 - O Momento Atual da Engenharia Civil no Brasil e sua Influência
sobre a Contratação de Obras e Serviços
Expositores: Engº Civil Alberto Sayão
(ABMS/Presidente - PUCRJ)
Engº Civil José Alberto Pereira Ribeiro (ANEOR/Presidente)
14h45 às 16h45
Engº Civil Juliano Gonçalves (AEAMVI-CONFEA)
Engº Civil Francis Bogossian (AEERJ/Presidente)
Debatedores: Engº Civil Gilberto Piva (CREA/PR/Vice-Presidente)
Engº Civil Milton Toledo de Sá (IMEC/MG)
Engº Civil Gustavo Selig (ABENC/PR)
16h45 às 17h COFFEE - BREAK
Painel 6 - Novos Desafios no Setor Ambiental para os Engenheiros Civis
Expositores: Engº Civil Adilson Pinheiro (FURB)
Engª Civil Anna Virgínia Machado (UFF/RJ - ABES)
17h às 19h Engº Civil Gilson de Carvalho Queiroz Filho (CREA/MG/Presidente)
Engª Civil Lélia Barbosa de Sousa Sá (CREA/DF/Presidente)
Debatedores: Engº Civil João Abukater Neto (CDHU/SP)
Engº Civil Eduardo Gobbi (UFPR - ABES)
Reunião Aberta da ABENC - O papel da ABENC no fortalecimento da
Engenharia Civil
Engº Civil Aristides Athayde Cordeiro (UFPR - ABENC/Nacional)
19h às 20h Engº Civil Raimundo Pereira Borges (ABENC/BA - ABENC/Nacional)
Engº Civil Marco Valério Aleluia (ABENC/AL)
Engº Civil Marcos Antônio Muniz Maciel (ABENC/PE)
01/11 - Sábado (Salão Salsburg)
Palestra 7 - Evolução da Engenharia Civil no Setor de Barragens no Brasil
9h às 9h45
Engº Civil Alberto Sayão (ABMS/Presidente - PUCRJ)

Palestra 8 - Tecnologia como Instrumento de Desenvolvimento e sua


9h45 às 10h30 Aplicabilidade nos Portos
Engº Civil André Monteiro de Fázio (Porto de Santos - ABENC/SP)
Palestra 9 - Valorização da Manutenção como Atividade do Engenheiro Civil
12h30 às14h Engº Civil Antônio Carlos de Aragão (CREA/PB)
Engº Civil Ney Perracini de Azevedo (ABENC/Nacional)

A PARTIR DE Aprovação da Carta de Blumenau e Solenidade de Encerramento do 14º CBENC


Engº Civil Ademar Cordero (FURB)
11h15 Engº Civil Domingos Bonin (ABENC/SC)
A CONSTRUÇÃO DE MAQUETES NO ENSINO DE PROJEÇÕES COTADAS

ANÁLISE DA VIABILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE RESÍDUOS DE MADEIRA

ANÁLISE DE DIFERENTES SISTEMAS ESTRUTURAIS EM CONCRETO


ARAMADO

ANÁLISE DE PLACAS USANDO O MÉTODO DE ELEMENTOS DE CONTORNO

ANÁLISE DE PROBLEMAS ESTÁTICOS USANDO O MÉTODO DE ELEMENTOS


DE CONTORNO

AVALIAÇÃO DE PRÁTICAS CONSTRUTIVAS EM ALVENARIA ESTRUTURAL

AVALIAÇÃO DE SISTEMAS DE IMPERMEABILIZAÇÃO

ESTABILIDADE GLOBAL EM EDIFÍCIOS ESBELTOS

ESTUDO DE CASO À TORÇÃO EM VIGAS DE CONCRETO

ESTUDO SOBRE DETALHAMENTO AUTOMÁTICO DAS ARMADURAS

GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS NA BACIA


HIDROGRÁFICA DO RIO TUBARÃO

HABITAÇÃO AUTO-SUFICIENTE DIRETRIZES CONSTRUTIVAS BÁSICAS

INOVAÇÃO NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL COM O BLOG


CORPORATIVO

PANORAMA DA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL NO MUNICÍPIO DE ARACAJU

PERDA DE RIGIDEZ EM ESPÉCIMES DE CONCRETO ARMADO

PROJETO DE FUNDAÇÕES - UMA ANÁLISE COMPARATIVA

UM ESTUDO DE CASO DA APLICAÇÃO DA ANÁLISE BAYESIANA NA


ATUALIZAÇÃO DA RESISTÊNCIA DO SOLO

UMA NOVA VISÃO METODOLÓGICA DO ENSINO DE DESENHO TÉCNICO


A CONSTRUÇÃO DE MAQUETES NO ENSINO DE PROJEÇÕES COTADAS E SUA
IMPORTÂNCIA NA PERCEPÇÃO ESPACIAL

Andréa Faria Andrade


Luzia Vidal de Souza
Departamento de Desenho
Universidade Federal do Paraná
andreafaria@ufpr.br, luzia@ufpr.br

RESUMO
A Geometria Descritiva e o método de Projeções Cotadas são assuntos que representam um
desafio ao aprendizado de grande parte dos alunos, sendo considerados difíceis por muitos. A
principal razão desta dificuldade é a deficiência da capacidade de visualização espacial, sendo
esta diferente para cada indivíduo. A habilidade mental é uma capacidade humana que pode
ser estimulada ou abandonada; neste caso, algumas regiões do cérebro tendem a deteriorar-se
ou a serem utilizadas para processar outras funções. Um procedimento útil para o
desenvolvimento do raciocínio espacial é a solução de problemas construtivos. O objetivo
desse trabalho é apresentar uma metodologia aplicada à disciplina de Expressão Gráfica I
ofertada ao curso de Engenharia Civil, utilizando o projeto de maquetes como um recurso
didático no processo ensino-aprendizagem do conteúdo de Projeções Cotadas.

1. INTRODUÇÃO
As dificuldades específicas das disciplinas baseadas em Sistemas de Projeção, como
Geometria Descritiva e o método das Projeções Cotadas; a heterogeneidade das turmas e o
pouco tempo disponível para trabalhar estes conteúdos nos cursos de Engenharia têm
motivado a utilização de novas ferramentas e metodologias visando criar uma maior
motivação e interesse nos alunos para o estudo destes (GODINHO et al, 2007).

A despeito de sua importância, o método de Projeções Cotadas e a Geometria Descritiva são


assuntos que representam um desafio ao aprendizado de grande parte dos alunos, sendo
considerado difícil por muitos. A principal razão desta dificuldade é a deficiência da
capacidade de visualização espacial, sendo esta diferente para cada indivíduo.

De acordo com Montenegro (2005), enquanto outros tipos de inteligência são, há muito
tempo, apreciados pela sociedade, a habilidade espacial é um dos mais vitais aspectos das
capacidades humanas. A pessoa dotada de boa habilidade espacial pode mentalmente
manipular, girar, torcer ou inverter uma figura representada. Se a figura representa um
edifício, esta pessoa poderá imaginá-lo visto de frente, de lado ou seccionado. A habilidade
mental é uma capacidade humana que pode ser estimulada ou abandonada; neste caso,
algumas regiões do cérebro tendem a deteriorar-se ou a serem utilizadas para processar outras
funções. Um procedimento útil para o desenvolvimento do raciocínio espacial é a solução de
problemas construtivos.

Braukman (1991) observou uma melhoria significativa na visualização espacial após 18 horas
de treinamento gráfico e com modelos, o que permite atestar a capacidade dinâmica de
aprendizagem da habilidade espacial.

A resolução dos exercícios relativos ao conteúdo de projeções cotadas requer raciocínio


espacial e abstrato que exercita o aluno a visualizar estruturas 3D mentalmente. Desta forma,
conforme Valente, Santos (2004), o modelo tradicional de ensino presencial deste conteúdo é
baseado na resolução de exercícios. Abstratos e aplicados, estes exercícios nem sempre são
compreendidos por todos os estudantes que, muitas vezes, encontram dificuldade em
acompanhar as aulas e conquistar o conhecimento desejado.

Na metodologia de ensino utilizada nas disciplinas com conteúdos relacionados às projeções


cotadas nos cursos de Engenharia na UFPR, são utilizadas além da representação da
superfície topográfica, as projeções de coberturas (ou telhados), visando relacionar os
elementos geométricos primitivos aos elementos dos telhados. Assim, ao plano geométrico é
estabelecida uma correspondência com as “águas” do telhado, e às retas a intersecção de duas
águas (ou dois planos). Ao ministrar esta disciplina, observa-se que os alunos possuem uma
grande dificuldade em estabelecer esta correspondência e principalmente de visualizá-la no
espaço tridimensional.

Conforme Montenegro (2007) a motivação dos alunos é aguçada quando se utilizam assuntos
da futura profissão. Então porque não utilizar exercícios práticos nas aulas iniciais do curso?

O objetivo desse trabalho é apresentar uma metodologia aplicada à disciplina de Expressão


Gráfica I ofertada ao curso de Engenharia Civil, utilizando o projeto de maquetes como um
recurso didático no processo ensino-aprendizagem do conteúdo de projeções cotadas.

2. METODOLOGIA
A metodologia apresentada neste trabalho foi realizada com três turmas do curso de
Engenharia Civil, no qual os estudantes deveriam elaborar um projeto de uma cobertura e
construir uma maquete, de forma que pudessem aplicar os conhecimentos adquiridos sobre o
conteúdo de projeções cotadas.

2.1. Elementos de uma cobertura plana


Na apresentação dos conteúdos relacionados à projeções cotadas para os cursos de
Engenharia, são mostradas as relações dos elementos geométricos primitivos (reta e plano)
aos elementos das coberturas. Ao plano geométrico é estabelecida a correspondência com as
“águas ou tacaniças” do telhado, e às retas com a intersecção de duas águas (ou dois planos).
Na Figura 1 são mostrados os elementos principais de uma cobertura.

Figura 1: Elementos de uma cobertura


2.1.1. Elementos Principais de uma cobertura
Conforme Rangel (1976), os elementos principais de uma cobertura são:
Água - Chama-se água de um telhado à superfície plana ao longo da qual ocorre o escoamento
das águas pluviais, logo um telhado pode ser de uma, duas, três, quatro águas ou combinações
dessas situações, formando telhados mais complexos.
Beiral - A parte do telhado que se projeta além das paredes exteriores da edificação é
chamada de beiral.
Cumeeira - É a aresta – reta horizontal correspondente ao encontro de duas águas, estando
localizada, normalmente, na parte mais elevada do telhado.
Espigão - O espigão é um divisor de águas, sendo a aresta inclinada – reta qualquer -
delimitada pelo encontro de duas águas que formam um ângulo saliente (diedro convexo).
Rincão - O rincão é um captador de águas, sendo a aresta inclinada – reta qualquer -
delimitada por duas águas que formam um ângulo reentrante (diedro côncavo).

2.1.2 Inclinação
Chama-se inclinação das águas de uma cobertura o menor ângulo que cada uma dessas águas
faz com o plano horizontal, este ângulo é o mesmo que a reta de declive do plano forma com
o plano horizontal, portanto ao obter a inclinação da reta de declive, obtém-se a inclinação do
plano (ou água). A inclinação é dada em graus e a declividade (tangente da inclinação) em
percentual (Figura 2).

i = 35%
35
tg α = tg α = 0,35
100
-1
α = tg (0,35) α = 19,29º
5%
i=3

35
α

100

Figura 2: Inclinação de 35% - Telha francesa e colonial

Para definir o tipo de telha a ser utilizada, deve-se levar em consideração os aspectos
climáticos da região onde a edificação será construída. Regiões com maior ocorrência de
chuvas beneficiam-se com telhados do tipo colonial, onde a inclinação deve ser maior,
fazendo com que a água escoe rapidamente evitando assim o contato com as paredes. De
acordo com a telha escolhida, deverá ser definida a inclinação adequada.

Na Tabela 1 são apresentados alguns tipos de materiais e telhas utilizados para coberturas
planas.
Tabela 1: Tipo de telha e Inclinação adequada
Material Tipo de Telha Inclinação
Francesa, Colonial, Paulista 35%
Cerâmica
Portuguesa 20%
Canaleta, calhetão 3%
Fibrocimento modulada 10%
ondulada 20%
Alumínio 5%
Metálica canaleta aço estrutural ondulada 3%
aço galvanizado 10%
Fonte: Edmundo Rodrigues (2006, pág. 152)

2.2. Representação de uma cobertura em projeção cotada


A representação de uma cobertura é feita por meio de sua planta, ou seja, a sua projeção
ortogonal no plano horizontal de projeções. Nem sempre a poligonal que define o perímetro
(linhas de beiral), está toda em mesma cota. Isto ocorre porque os respaldos das paredes, onde
a cobertura é apoiada, podem ter alturas diferentes. Assim, podem-se destacar os seguintes
casos: respaldos no mesmo nível e respaldos em níveis diferentes. Além disso, as águas de
uma cobertura nem sempre possuem a mesma inclinação. Logo, cada um dos casos anteriores
pode ser subdividido em: águas com mesma inclinação; águas com inclinações diferentes.
Qualquer que seja o caso, o problema se resume na busca da intersecção de superfícies. Estas
interseções, como foi citado anteriormente, podem ser uma cumeeira, um espigão ou um
rincão. As superfícies são as águas da cobertura, e tratando-se de coberturas planas, a linha
comum entre essas superfícies sempre será uma reta.

De acordo com Rangel (1976), o processo geral para a determinação das interseções consiste
em achar os pontos comuns das horizontais de mesma cota, que são, evidentemente, pontos da
interseção procurada. No caso de águas de mesma inclinação em respaldos de mesmo nível
tem-se o seguinte processo: como as horizontais de mesma cota distam igualmente dos lados
da poligonal, as interseções procuradas são as bissetrizes desses lados. Assim, este processo
consiste na determinação de bissetrizes, e é chamado processo das bissetrizes (Figura 3a).

No caso de águas com inclinações diferentes, não é possível utilizar o processo das
bissetrizes. Utiliza-se o processo geral que consiste em determinar pontos de mesma cota, que
são, evidentemente, pontos da intersecção procurada (Figura 3b).

Figura 3: Determinação das intersecções. a) águas de mesma inclinação. b) águas com


inclinações diferentes
Fonte: Santos, Almeida e Correia, 2002.

2.3. Cálculo da área total do telhado


Para se calcular o número total de telhas, deve-se conhecer sua área. Em geral, os planos que
contém as águas de um telhado são planos quaisquer. Sendo assim, na sua projeção, a
poligonal que representa cada uma das águas sofre uma redução, de acordo com a inclinação
de cada um dos planos. Para determinar a verdadeira grandeza de cada uma dessas águas pode
utilizar-se do processo do rebatimento.

2.3.1 Processo do Rebatimento do Plano Qualquer


O rebatimento é um processo descritivo cujo objetivo é tornar qualquer figura (ou reta)
contida no plano paralela (ou coincidente) com o plano de projeções π’ (NASCIMENTO,
1987).

Rebater um plano α sobre o plano de projeções π’ é fazê-lo coincidir com este último. Para
tanto, gira-se o plano em torno de uma reta (denominada eixo de rebatimento ou charneira)
que pode ser o traço do plano α sobre o plano π’, ou uma horizontal do plano α, que possua
cota zero ou cota igual ao do plano horizontal sobre o qual o plano α será rebatido.

Na figura 4, pode-se observar que ao se efetuar o rebatimento de um ponto contido no plano


α, o mesmo descreve um arco de circunferência que está contido num plano perpendicular ao
plano π’, (plano vertical γ), portanto a projeção deste arco é um segmento de reta que está
contido no traço do plano γ sobre o plano π’(γπ’).

O triângulo OP’P0’ é chamado de triângulo fundamental do rebatimento. Ao rebater o plano γ


sobre o plano π’, em torno da reta γπ’, o triângulo OP’P0’, fica representado em verdadeira
grandeza. Após o rebatimento, a reta PP’, ocupa uma posição paralela ao eixo do rebatimento
απ’, é a reta P’P0’, o ponto O é o centro do rebatimento. Assim, o arco δ, fica representado
em verdadeira grandeza no plano π’ por sua projeção δ’. Traçando-se o arco de centro O e
raio OP0’ obtém-se a projeção P1’ do ponto P. Procedendo desta maneira para outros pontos
do plano, obtém-se o rebatimento do mesmo.

Figura 4: Rebatimento de um plano qualquer


3. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

3.1. Exigências técnicas para a elaboração do projeto


O projeto foi realizado com em três turmas de 40 alunos do primeiro período do curso de
Engenharia Civil da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Foram formadas equipes de no
máximo seis alunos, os quais deveriam seguir as seguintes especificações técnicas:
• Criar uma cobertura composta de no mínimo cinco águas e com uma área mínima de
100m2 na escala 1:75. Embora a escala utilizada não seja a usual para a representação
de plantas de coberturas, optou-se pela mesma para que os estudantes tivessem a
oportunidade de trabalhar com escalas diferentes, já que durante o curso, a escala
utilizada sempre foi a 1:100;
• As águas do telhado deveriam ter declividades de acordo com o estabelecido nas
especificações técnicas da telha escolhida. Os alunos deveriam pesquisar os tipos de
telhas existentes no mercado, e verificar quais inclinações seriam indicadas para as
mesmas;
• Quanto aos beirais da cobertura, a equipe deveria adotar um beiral mínimo de 0,60m e
as linhas de beiral poderiam estar no mesmo nível de respaldo ou em níveis diferentes.
Foi sugerida uma altura de nível de beiral de 2,20m;
• Deveriam ser apresentados os cálculos das cotas das cumeeiras, número total
aproximado de telhas (inclusive de telhas goivas). Para a obtenção do número de
telhas, os estudantes deveriam utilizar o rebatimento descrito no item 2.3.1;
• Quanto à apresentação do projeto, os alunos deveriam entregar em prancha de desenho
de acordo com a NBR 10068 (Folha de Desenho, Leiaute e Dimensões). Recomendou-
se também a leitura das NBR 10126 (Cotagem em Desenho Técnico) e 10582
(Conteúdo da Folha para Desenho Técnico);
• O material a ser utilizado na maquete ficou a critério das equipes.

3.2. Fases de construção da maquete


A primeira fase do desenvolvimento do projeto foi à idealização da cobertura a ser construída,
através de um esboço feito à mão livre, onde os estudantes puderam discutir suas idéias em
relação à melhor geometria da edificação. Em seguida foi realizada uma pesquisa em
catálogos especializados sobre o tipo de telha que utilizariam e qual a declividade
recomendada para o tipo escolhido.

Na fase seguinte foi realizada a elaboração da planta na escala exigida utilizando os


instrumentos de desenho (escalímetro, régua, compasso, esquadros) onde foram obtidos as
interseções das águas e o sentido de escoamento das mesmas (Figura 5).

Para relacionar os conteúdos teóricos com a prática, foi solicitado aos alunos que efetuassem
os cálculos necessários a obtenção da cota da cumeeira principal e do comprimento dos
espigões de forma a poder calcular o número de telhas goivas necessárias para o mesmo. Para
efetuar estes cálculos foi necessário obter a verdadeira grandeza de uma reta inclinada em
relação ao plano horizontal de projeções. Na Figura 6 é apresentado um exemplo de cálculos
realizados sobre a planta de uma cobertura.
Figura 5: Exemplo de uma planta de cobertura projetada pelos alunos, onde efetuaram as
interseções das águas e outros cálculos como cota de cumeeiras.

40°

LEGENDA 30° verdadeira grandeza do espigão


40°
4,64m
linha de beiral com nível de
40°
respaldo diferente
linhas de beiral
cumeeiras ângulo que o espigão forma c/ o
cota cumeeira 5,80 plano de projeções
espigões ou goivas 5,15 θ
rincões ou água furtada

retas horizontais com 3,80


uma unidade de cota
a mais que a cota do beiral 40°
cota linha de beiral
40° 2,80m

plano α

Figura 6: Exemplo dos cálculos realizados pelos alunos sobre a planta de uma cobertura.

Para o cálculo do número de telhas e a construção da maquete foi necessária à representação


em verdadeira grandeza de cada água do telhado, e nessa fase os alunos puderam aplicar o
método do rebatimento de um plano qualquer (Figura 7).
Figura 7: Exemplo da aplicação do método do rebatimento sobre a água (I) da planta
mostrada na Figura 5.

Após terem concluído as fases anteriores os alunos escolheram os materiais e iniciaram a


construção do modelo. Tendo em mãos o desenho das partes das águas da cobertura em
verdadeira grandeza e utilizando a mesma escala da planta, os alunos montaram suas
maquetes. Alguns exemplos do material produzido pelos estudantes podem ser vistos nas
Figuras 8 e 9.

Figura 8: Maquetes feitas pelos alunos.

Figura 9: Maquetes feitas pelos alunos.


4. RESULTADOS E CONCLUSÕES
Em geral os alunos costumam confundir os termos espigão e rincão, não pela sua função, mas
por terem dificuldades em diferenciá-los na projeção horizontal. Não há a percepção de que
estes são representados por retas inclinadas em relação ao plano de projeção. Alguns alunos
até conseguem “enxergar” que ambos são retas inclinadas, porém não conseguem “ver” a
diferença para indicar o que seria um espigão ou um rincão (que só se observa mais
facilmente em planta, através da indicação do sentido das águas).

Em planta, sempre que os ângulos na linha de beiral forem salientes tem-se um espigão e
sempre que os ângulos forem reentrantes, tem-se um rincão. Na construção dos modelos, os
alunos puderam perceber melhor a diferença entre eles.

Uma das dificuldades apresentadas pelos alunos foi a de aplicar alguns conceitos teóricos, tal
como na obtenção da cota de cumeeira, para a qual é necessário obter o intervalo da reta de
declive em função da inclinação do plano (ou água) analisado. Na obtenção do intervalo, há a
necessidade de se inserir uma unidade de cota (conforme figura 10).

Figura 10: Cálculo do intervalo da reta de declive de um plano α.

Antes da execução deste projeto, os alunos estavam acostumados a utilizar apenas a régua
comum, onde utilizavam 1cm como unidade de cota, durante a execução do projeto
observaram o correspondente valor real do objeto, utilizando a escala 1:75.

Uma das questões que surgiram, foi o porquê da altura das cumeeiras terem ficado
desproporcionais à altura das paredes, ou seja, eles mesmos concluíram que havia erro de
cálculo em seus projetos.

Após a realização do trabalho, foi relatado pelos alunos, que o número de integrantes das
equipes não deveria exceder a três, pois como neste trabalho, o aluno deve ter um grau de
envolvimento elevado, para que possa relacionar os conteúdos teóricos com a prática, se o
número de integrantes da equipe for maior do que três, há dispersão e menor aproveitamento.
O que se pôde observar com a utilização desta metodologia, foi que a utilização dos modelos
facilitou a compreensão da teoria vista em sala de aula, especialmente no que diz respeito ao
método do rebatimento, que costuma ser o tópico que apresenta maior grau de dificuldade de
compreensão por parte dos alunos. Observou-se também, que a disciplina tornou-se mais
atrativa, tendo elevado o empenho e rendimento dos alunos nos conteúdos trabalhados. O
resultado dos trabalhos apresentados superou as expectativas, já que o tempo dado para a
apresentação do projeto foi de apenas duas semanas.

REFERÊNCIAS
BRAUKMANN, J. A comparison of two methods of teaching visualization skills to college
students. Idaho, 1991. Tese de Doutorado - Universidade de Idaho.
RODRIGUES, E. Técnica das Construções - Coberturas. Rio de Janeiro, 2006. Disponível
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Hipermídia de Aprendizagem, UFSC, 2004. Florianópolis, SC.
ANÁLISE DA VIABILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE RESÍDUOS DE MADEIRA NA
PRODUÇÃO DE PAINÉIS DE MADEIRA AGLOMERADA

Vilson Cadorin
Departamento de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense
vilson_cadu@hotmail.com
Andrea Murillo Betioli
Departamento de Engenharia Civil
Universidade de São Paulo
andreabetioli@gmail.com
Marcos Marques da Silva Paula
Departamento de Engenharia Materiais
Universidade do Extremo Sul Catarinense
mms@unesc.net

RESUMO
Este trabalho teve por objetivo desenvolver e avaliar a capacidade para a produção de chapas
de madeira aglomeradas produzidas com resíduos de serraria e marcenaria resultantes do
processamento mecânico das madeiras Itaúba, Angelin e Eucaliptus utilizadas na região de
Criciúma. Nesta pesquisa foram definidas as densidades para as chapas conforme o seu
emprego. A densidade para as chapas de madeira aglomeradas apenas prensadas com resina
foi de 0,5 g/cm³ e para as chapas que receberam tratamento com impermeabilizante (resina de
poliuretano) foi de 0,6 g/cm3. As chapas foram produzidas com maravalhas somente
peneiradas. As propriedades físicas avaliadas foram absorção de água, inchamento, expansão
longitudinal e resistência a flexão. Com base nos resultados de análises dimensionais,
resistência e ligações das partículas das placas realizados em laboratório, pode-se concluir que
as chapas manufaturadas com partículas de resíduo de madeira apresentam viabilidade técnica
e econômica para ser empregado como elemento para a vedação ou material de enchimento na
construção civil, pois atingem as características físicas e mecânicas necessárias para o
emprego na construção civil e é um composto de “Economia sustentável”.

1 INTRODUÇÃO

Todo e qualquer material ligno-celulósico pode ser utilizado como matéria-prima para a
fabricação de chapas. Porém, somente as madeiras de folhosas e de coníferas se apresentam
como fonte permanente e ininterrupta de elementos ligno-celulósicos para a produção desses
produtos. Os “particleboard” ou painéis de partículas aglomerados, são produzidos a partir de
pó de serra, cepilho e cavacos de madeira resultantes do beneficiamento na indústria de
esquadrias, móveis e moldureira ou de outro material ligno-celulósico, unidos com aglutinante
orgânico por meio de calor, pressão, umidade, catalisador, entre outros. Esta matéria-prima,
também pode ser proveniente de material florestal de desbaste e poda; resíduos industriais
grosseiros como costaneiras, sobras de destoco, miolos de toras laminadas. Para se ter uma
idéia da quantidade de madeira consumida, basta observar as indústrias paulistas de
beneficiamento de madeira, somente elas consumem 1,3 milhões de metros cúbicos de
madeira amazônica em toras por ano, sendo que 69% são transformadas em móveis populares,
4% em móveis finos, 14% em forros, pisos e esquadrias e 13% em casas pré-fabricadas.
Utilizando-se os coeficientes de transformação para o desdobro de toras de madeira, em torno
de 40 a 65% pode-se atingir um volume de resíduos de madeira amazônica de
aproximadamente 845 mil m3/ano no Estado de São Paulo, conforme destaca SOBRAL
(2002).
O uso desses resíduos de madeira de forma direta como, por exemplo, queimas em fornos
agregam pouco valor ao produto final, sendo necessárias outras formas de reaproveitamento.
A produção de painéis de madeira aglomerada é uma das alternativas no sentido de se obter
um produto de maior valor agregado. O posterior tratamento ou revestimento superficial dos
painéis, por colagem de lâminas naturais ou sintéticas, utilizados na indústria moveleira eleva
ainda mais seu valor.

Este trabalho tem como intuito principal avaliar a viabilidade de utilização dos resíduos de
madeira (serragem) para produção de chapas de madeira aglomerada.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Ao analisar os produtos derivados de madeira percebe-se que estes apresentam uma série de
vantagens em relação a outros materiais para a construção civil. A madeira é um material
renovável disponível abundantemente, biodegradável ou durável dependendo do tratamento.
Além disso, é reciclável e imobiliza carbono proveniente da atmosfera em sua estrutura.

Na elaboração de produtos madeireiros consome-se menor quantidade de energia em


comparação à produção de aço, plásticos e materiais a base de cimento. Outra vantagem da
madeira é a alta resistência em relação à massa específica, a facilidade no desenvolvimento de
ligações entre as peças e a trabalhabilidade.

O emprego de painéis à base de madeira permite manter muito das vantagens da madeira
sólida, como exemplo, as dimensões dos painéis não são estritamente relacionadas às
dimensões das árvores. Pode-se agregar valor aos materiais de baixa aceitação como resíduos
de serrarias e desbastes. Existe ainda a possibilidade de eliminar muitos dos defeitos
provenientes da anatomia da árvore como nós, medulas, conferindo ao produto final uma
maior homogeneidade que a encontrada na madeira serrada. Pode-se ainda, pela especificação
de densidade, controlar algumas das propriedades físicas e mecânicas através da adição de
produtos específicos.

Um processo importante para a fabricação desses painéis é a prensagem, pois determina a


espessura e a densidade final do painel. Além disso, se aquecido, transfere o calor,
responsável pela cura da resina, proporcionando a consolidação do painel e, por conseqüência,
altera a rugosidade final da superfície e a densidade da mesma. Deve-se lembrar que o
aumento da densidade promove um maior contato entre as fibras, significando menor perda de
resina em espaços vazios.

Existem alguns tipos de painéis confeccionados com madeira, por exemplo: painéis de MDF
(Medium Density Fiberboard), painéis de fibra de madeira orientada e painéis aglomerados.
Esses painéis de MDF são formados por processo de prensagem a seco e utilizam como
matéria-prima a madeira desfibrada termomecânicamente com a adição de resina sintética,
geralmente uréia-formaldeído, além de outros aditivos em menor quantidade. È um dos
painéis a base de madeira mais avançados tecnologicamente. É possível fabricá-los com
características especiais como resistência a umidade, resistência ao fogo e outros, através da
escolha correta do tipo, do teor de resina e da adição de aditivos em função da exigência. Uma
característica favorável presente nos painéis MDF é a maior densidade nas faces. Esta
densificação nas faces coincide com a região mais solicitada quando o painel trabalha sob o
esforço de flexão estática. A menor quantidade de espaços vazios permite a pintura de
maneira mais econômica e superfícies usinadas com menor rugosidade.

Os painéis de fibra de madeira orientada são painéis estruturais de tiras de madeira 100% de
pinus, orientadas em três camadas perpendiculares, o que aumenta sua resistência mecânica e
rigidez. Essas tiras de madeira são unidas com resinas e prensadas sob alta temperatura. O
painel pode ser utilizado no período de obra nos tapumes, instalações provisórias, bandejas de
proteção, passarelas e formas de concreto. Na construção definitiva, esses painéis podem ser
utilizados em mezaninos e na cobertura ou em paredes, lajes e cobertura. Além disso, podem
substituir a chapa de compensado e a madeira serrada nos mais diversos usos industriais.

Um outro exemplo são as chapas de madeira aglomerada pertencentes a família dos painéis de
madeira reconstituída, do qual também fazem parte, também o MDF, a chapa de fibra e os
painéis de fibra de madeira orientada. O Aglomerado é uma chapa produzida com partículas
de madeira de floresta ou de resíduo, aglutinadas com cola (resina sintética), calor e pressão.
Isto o difere do MDF e das chapas de fibra que são produzidos com fibras de madeira. Desta
forma, são chapas não homogêneas, apresentando três camadas (uma interna e duas externas).
O aglomerado de partículas possui uma grande versatilidade, no que diz respeito as suas
potenciais aplicações, são os mais largamente consumidos no mundo dentre os diferentes
painéis de madeira reconstituída existentes. A produção mundial de aglomerados alcançou 84
milhões de m³ em 2000, destacando-se como maior fabricante os Estados Unidos responsável
por 25% desse volume. O Brasil posiciona-se em nono lugar, com 2% do volume produzido.

3 METODOLOGIA DE TRABALHO

3.1 Tipos de materiais utilizados

3.1.1 Resíduo de madeira


Os materiais utilizados neste trabalho foram partículas de madeira resultantes do
desengrossamento destas na indústria de esquadrias, sendo os seus rejeitos de Angelin, Itaúba
e Eucaliptus da espécie Saligna e Grandis, como mostra a figura 1. Neste trabalho foram
utilizados apenas materiais do tipo cepilho (partículas de madeira de 1 mm a 10 mm) e
serragem (partículas de madeira de 1 mm à 5 mm).

Figura 1: Madeira Angelim (a), Itaúba (b), Eucaliptus (c) e partículas de cepilho e serragem
de madeira.

As perdas do beneficiamento das toras de madeira chegaram a aproximadamente 20%,


levando em consideração o material de desengrosso (uniformização e acabamento da madeira)
e destopo (corte das imperfeições da madeira). No desenvolvimento deste trabalho foram
analisados os seguintes aspectos: tipos de resinas aglomerantes e características do material
(resíduo de madeira). Para isso, foi estabelecido um padrão dimensional para as placas de
madeira onde os ensaios físicos e mecânicos foram avaliados, como mostra a Figura 2.

A matéria-prima empregada foi obtida dos resíduos de processamento mecânico de madeira


da Indústria de Esquadrias Cadore Ltda, situada no município de Ermo (SC). A empresa
utiliza equipamentos de beneficiamento do tipo, tupias, desengrossadeiras, furadeiras
múltiplas, sobretudo do tipo plainas, com diversas características em razão do produto final,
serras circulares destopadeiras e fresadoras. Os resíduos do processamento mecânico da
madeira, constituídos de serragem, cepilho e maravalhas são resultantes do beneficiamento,
não foram reprocessadas, apenas peneiradas, adequando o tamanho das partículas com as
dimensões desejadas, possibilitando assim a realização dos testes.

(a) (b)
Figura 2: Resíduo de madeira (a) e fôrma de prensagem para a fabricação das placas
aglomeradas (b).

3.1.2 Resina aglomerante


A confecção das placas de madeira aglomeradas, o grau de peneiramento do material e a
adequação da resina poliuretana PU com a adição de um selador foram determinados no
LASICOM (Laboratório de Síntese de Complexos Multifuncionais) na UNESC (Universidade
do Extremo Sul Catarinense). Nos testes foram empregados equipamentos para mistura,
aquecimento e agitação orbital visando garantir a homogeneização da resina e o melhor
cobrimento da mesma às partículas de madeira. O teor de umidade dos resíduos de madeira
foi de 14% + 2%, correspondendo ao valor de umidade de equilíbrio da madeira exposta ao
ambiente.

O material foi peneirado para remoção das partículas grossas com peneira de malha 10 mm.
As partículas selecionadas foram armazenadas em sacos de polietileno até o momento da
fabricação das chapas. As partículas de madeira foram pesadas em balança de precisão, em
quantidade suficiente para produzir uma chapa e misturadas com o adesivo em um misturador
manual do tipo tambor rotatório por um minuto. A resina de poliéster foi aplicada de forma
manual durante o tempo de mistura. Esse método de aplicação do adesivo garantiu sua
homogeneidade.

3.2 Prensagem das placas

Nas placas aglomeradas foram empregadas resina poliéster para o envolvimento das partículas
e prensagem das mesmas. O segundo tratamento foi dado a placa com a utilização da resina
poliuretana, para garantir a maior impermeabilidade, por meio de submersão da placa. Esta
prensagem foi realizada a temperatura ambiente. A massa de partículas com o adesivo foi
distribuída aleatoriamente em uma fôrma metálica medindo 16 x 16 x 10 cm (comprimento,
largura e altura), onde a mesma sofreu uma pré-prensagem. Foram confeccionadas placas
aglomeradas com duas dimensões de 15 x 15 x 1,0 cm, para ensaios físicos, e 7,5 x 7,5 x 1,0
cm, para ensaios mecânicos, como mostra a figura 3.

Figura 3: Placas prensadas com os resíduos de madeira e resina de poliéster (15 x 15 cm).

Foram realizados testes preliminares para definição das proporções de resinas. A proporção de
poliéster usual é de 7 a 12% com prensagem a quente. Como a prensagem foi realizada a frio,
estes teores não foram suficientes para gerar uma coesão entre as partículas, a fim de garantir
a densidade de 600 kg/m3. Para proporções acima de 25%, observou-se que após a prensagem
havia uma sobra de resina. Desta forma, optou-se por utilizar uma proporção de 20% de resina
em relação ao peso seco de serragem.

A fabricação das chapas em laboratório, para ambos os tipos de resinas, foi baseada nos
seguintes parâmetros:
- Densidade nominal das chapas: 0,5 g/cm³ para as placas apenas prensadas
com resina poliéster e 0,6 g/cm³ para as placas que receberam tratamento posterior por
imersão em resina poliuretana.
- Conteúdo de adesivo para ambos os casos: 20% de resina poliéster;
- Para o tratamento posterior à prensagem: 20% de resina poliuretana;
- Tempo de prensagem: 10 minutos;
- Número de repetições: 5 chapas;
- Tempo de fechamento da prensa: 20 segundos;
- Pressão da prensa: 60 kg/cm²;
- Temperatura ambiente.

De acordo com os objetivos do trabalho foram executados dois tratamentos para as chapas. O
primeiro tratamento, denominado de “Trat 1”, foi realizado com a adição de resina de
poliéster na proporção de 20% do peso da serragem. Com a adição da resina a mistura, a
mesma foi prensada respeitando um tempo total de 10 minutos. O tratamento “Trat 2” segue
o mesmo procedimento do tratamento 1, sendo que após a prensagem ocorria a adição da
resina de poliuretano dissolvida em tolueno na proporção de 20% do peso do resíduo de
madeira. A resina de poliuretano foi dissolvida em tolueno, onde a mesma foi preparada numa
solução de 1 para 2 de resina e tolueno, respectivamente.
A prensagem foi realizada em laboratório com prensa de acionamento manual, com
capacidade de 15 toneladas de aplicação de carga e pratos com dimensões de 16 x 16 cm, ou
seja, a dimensão da fôrma metálica possuía um centímetro a mais para que fosse possível o
acerto dimensional das placas, ficando a mesma com o tamanho final de 15 cm x 15 cm. A
pressão aplicada foi de 60 kgf/cm2 e a temperatura dos pratos ficaram em torno de 21ºC +
2ºC. O tempo de fechamento da prensa foi de 20 segundos, e o tempo total de prensagem foi
de 10 minutos.

3.3 Manufatura, testes e ensaios das placas de madeira aglomerada

Depois da prensagem, as chapas foram identificadas, esquadrejadas e armazenadas em


condições ambiente com uma temperatura em torno de 21°C + 2ºC e umidade relativa em
torno de 65%, onde ficaram até atingir a umidade de equilíbrio na placa em torno de 14% +
2%.

3.3.1 Tratamentos
De acordo com os objetivos do trabalho foram executados dois tipos de tratamentos para as
placas de madeira, um utilizando somente a resina de poliéster e o outro além desta resina
uma resina poliuretana dissolvida numa solução de tolueno. A média das densidades das
madeiras utilizadas foi de 0,65 g/cm³ e as resinas com densidade em torno de 0,85 g/cm³. O
catalisador utilizado foi o sulfato de amônia (NH4)2SO4.

3.3.2Testes físicos
Os ensaios físicos realizados foram: absorção de água, inchamento e expansão longitudinal.
Para esses ensaios foram utilizados corpos-de-prova de 15 x 15 cm, lixados e submersos em
água à temperatura de 20°C + 2ºC. O material foi colocado na posição horizontal e mantido
submerso a uma profundidade de 25 mm, por meio de pesos em forma de grade. A expansão
longitudinal e o peso das placas foram determinados com balança analítica eletrônica,
condicionada na câmara climática após 2 e 24 horas de submersão em água. O inchamento
das placas em 2 e 24 horas de imersão foi determinado por meio de medições da espessura
média com o uso do paquímetro.

3.3.3 Testes mecânicos


Os ensaios mecânicos foram realizados em um equipamento servo-controlado a fim de
garantir uma pequena variação nos resultados. O ensaio de flexão foi realizado em corpos-de-
prova de 7,5 x 7,5 x 1 cm, por meio da aplicação de uma carga no centro do corpo-de-prova
com velocidade de deslocamento de 6 mm/min.
Figura 4: Ensaio de flexão em corpos-de-prova 7,5 cm x 15 cm x 1 cm.

A resistência à tração na flexão foi calculada através da Equação 1.

F .L
f flexão = 1,5. (1)
b.d 2

onde: fflexão é a resistência, F é a força máxima aplicada, L é o comprimento, b é a largura e d é


a altura do corpo-de-prova.

4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS ESTUDOS REALIZADOS

4.1 Ensaios físicos (absorção de água, inchamento e expansibilidade longitudinal)

Os valores médios de absorção de água das placas aglomeradas submetidas aos diferentes
tratamentos após 2 e 24 horas de imersão em água são apresentados na Figura 5. Na figura 6
são apresentados os resultados de inchamento e expansão longitudinal em função do tempo.

140
Absorção de água (%)

120 Trat 1
100 Trat 2

80
60
40
20
0
2 horas 24 horas

Tempo de imersão em água

Figura 5: Ensaios físicos de absorção de água em 2h e 24 horas.


Expansão longitudinal (%)
Inchamento (%) 50 4

Trat 1 Trat 1
40
Trat 2 3 Trat 2
30
2
20

10 1

0 0
2 horas 24 horas 2 horas 24 horas
Tempo de imersão em água Tempo de imersão em água

Figura 6: Ensaios de inchamento e expansão longitudinal realizados nos corpos-de-prova


submetidos ao tratamento 1 (Trat 1 – resina de poliéster) e tratamento 2 (Trat 2 – resina de
poliéster + resina de poliuretano).

De acordo com os resultados o valor da absorção de água foi significativamente menor no


tratamento 2 “Trat 2”, o que demonstra a eficiência da resina poliuretana em garantir
parcialmente uma menor absorção de água das partículas de madeira. Essa redução no nível
de absorção de água com a aplicação da resina de poliuretano (trat 2) foi em torno de 3 e 4
vezes menor do que as apenas tratadas com resina de poliéster (trat 1) para o tempo de 2 e 24
horas de imersão em água, respectivamente.

O valor do inchamento das chapas foi maior do que a expansão em função da orientação das
fibras e a presença de porosidades abertas entre as partículas da placa de madeira. A ordem de
aumento do inchamento da madeira submersa em água para o tempo inicial de 2 horas, no trat
1, foi de 7 vezes em relação às medidas da madeira na umidade de equilíbrio. Já quando
considerado o tempo de 24 horas de imersão em água esse aumento foi de apenas 3 vezes o
valor da dimensão da madeira na umidade de equilíbrio.

4.4 Resistência à tração na flexão

A Figura 7 mostra o perfil das curvas de força por deslocamento durante o ensaio de flexão
dos corpos-de-prova submetidos aos diferentes tratamentos. Verifica-se pela curva força e
deslocamento um comportamento linear da mesma até aproximadamente 90% da carga última
de ruptura, demonstrando que a resina conseguiu solidarizar as partículas de madeira em um
bloco único.
Figura 7: Curvas força x deslocamento determinadas por ensaio de flexão nos corpos-de-
prova submetidos ao tratamento 1 (Trat 1 – resina de poliéster + resina de poliuretano) e
tratamento 2 (Trat 2 – resina de poliéster).

Os valores médios de resistência à tração na flexão das placas de madeira aglomerada obtidos
em duas amostras são apresentados na Figura 7.

6
Resistência à flexão(kgf/cm )
2

4 4,10

3,09

0
trat 1 trat 2

Figura 7: Resultados médios de resistências à tração na flexão em corpos-de-prova


submetidos ao tratamento 1 (Trat 1 – resina de poliéster) e tratamento 2 (Trat 2 – resina de
poliéster + resina de poliuretano).

Observa-se que a aplicação da resina poliuretana após a prensagem aumentou a resistência do


compósito. Este aumento pode ser explicado pela maior aderência entre as partículas após a
aplicação desta resina. Independente do tipo de tratamento, todos os valores de resistência à
tração na flexão foram superiores ao valor mínimo (4,2 Kgf/cm2) segundo a norma CS 236-
66.
5 CONCLUSÕES

Esta pesquisa mostrou um forte indício da potencialidade da fabricação de chapas


aglomeradas a partir de resíduo de madeira e resinas comumente encontradas no mercado.

O tratamento com a resina de poliuretano garantiu uma maior eficiência à chapa, pois, além
de aumentar o desempenho mecânico, reduziu a absorção de água, inchamento e
expansibilidade das chapas aglomeradas.

Observou-se também que a resistência à tração na flexão, independente do tipo de tratamento,


foi superior ao valor mínimo predito por norma. No entanto, há necessidade de se avaliar
outras condições experimentais ajustando-se as variáveis inerentes ao processo de confecção
das chapas.

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ANÁLISE DE DIFERENTES SISTEMAS ESTRUTURAIS EM
CONCRETO ARMADO PARA UM EDIFÍCIO RESIDENCIAL

Cláudio da Silva
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
dinhoeng@hotmail.com
Camila Lopes
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
camila_eng@hotmail.com
Alexandre Vargas
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
alexandrevargas@terra.com.br

RESUMO
O crescente aumento no emprego de ferramentas computacionais para projetos de estruturas
em concreto armado tem exigido ao projetista conhecer quais as concepções estruturais
fundamentais para a escolha de uma dada tecnologia. Neste trabalho foi realizado um estudo
comparativo entre quatro diferentes sistemas estruturais, em conformidade com a NBR 6118
(2003) para um edifício residencial, cujas características representam grande parte das obras
executadas na região de Criciúma SC. São levantados quantitativos de concreto, aço, forma e
revestimento na face inferior para as diferentes lajes: gesso, reboco ou laje aparente. Adota-se
o mesmo lançamento dos pilares para os quatro sistemas, alterando-se a tipologia das lajes e o
arranjo das vigas. Utilizou-se lajes pré-fabricadas com blocos cerâmicos, laje maciça, laje
nervurada com EPS e com forma plástica recuperável (cubeta). Para cada alternativa foram
utilizadas três classes de concreto (C20, C25 e C30). Com os resultados, podem-se avaliar os
consumos dos elementos estruturais, dos revestimentos das lajes, e incidências no consumo e
os custos totais de cada sistema estudado. Concluiu-se neste trabalho que a alternativa como a
laje pré moldada foi a que apresentou o menor custo dentre as opções de estrutura estudadas.

1. INTRODUÇÃO
A evolução dos materiais de construção tem oportunizado inúmeras possibilidades de arranjo
dos elementos estruturais que compõem um sistema estrutural em concreto armado. Várias
são as opções, por exemplo, de lajes e dos materiais de enchimento utilizados, no caso de
nervuradas e pré-fabricadas. No entanto, a grande incógnita, é a determinação do sistema que
apresente melhores resultados tanto nos aspectos técnicos como econômico para cada projeto
arquitetônico. Neste trabalho buscou-se utilizar os sistemas mais empregados na região de
Criciúma, SC. Foram realizados estudos comparativos, analisando os consumos dos insumos
empregados nas estruturas de concreto armado; como concreto, aço e fôrmas, além dos
diferentes tipos de revestimento no teto das lajes (uma vez que esse insumo pode influenciar
fortemente na composição de custos) e a influência da classe do concreto adotado no consumo
geral e por elemento estrutural. O projeto arquitetônico escolhido para o estudo foi um
edifício residencial representativo dos imóveis construídos na região.

2. APRESENTAÇÃO DO EDÍFICIO OBJETO DO ESTUDO


O edifício utilizado para o estudo dos diferentes sistemas estruturais apresenta as seguintes
características:
• Edifício residencial multifamiliar;
• Área total: 7.124,08.m²;
• Número de pavimentos: 16;
• Identificação dos pavimentos: subsolo; térreo; garagem superior; tipo (12x), cobertura;
• Quatro apartamentos por pavimento tipo e dois apartamentos de cobertura;
• Área do pavimento tipo: 400,22m²
• Localização: centro da cidade de Criciúma;
• Padrão construtivo: normal

Figura 1: Edifício utilizado para o estudo

Figura 2: Planta Baixa do Pavimeto Tipo


3. METODOLOGIA ADOTADA
Foram seguidos os procedimentos usuais no projeto, cálculo e detalhamento das estruturas de
concreto armado, de acordo com a NBR 6118 (2003). Para os quatros sistemas estruturais
analisados, foram adotados os seguintes parâmetros:
• Concreto fck : 20, 25 e 30 MPa
• Carga acidental no pavimento garagem: 300 kgf/m²
• Carga acidental para demais pavimentos: 200 kgf/m²
• Carga de enchimento mais revestimento: 120 kgf/m²
• Peso específico da alvenaria: 1300 kgf/m²
• Aço CA-50
Após o processamento e análise de cada um dos sistemas estruturais propostos, foram
levantados todos os quantitativos e esses valores compilados em gráficos de barras (Figura 8 e
seguintes) e na tabela 1.

4. DESCRIÇÃO DOS SISTEMAS ESTRUTURAIS ANALISADOS


Foram estudados quatro diferentes sistemas estruturais descritos a seguir. A nomenclatura
utilizada para cada modelo tem como elemento diferencial a laje adotada. Essa sistemática
tem o objetivo de facilitar a identificação de cada um dos sistemas por ocasião da análise
comparativa de resultados.

4.1. Laje pré-moldada com bloco cerâmico


Este primeiro sistema compõe uma estrutura convencional com o uso de laje pré-moldada
comum, composta por vigotas pré-moldados de concreto e blocos cerâmicos com espessura
total de 12cm, sendo 8cm referente ao sistema vigota/blocos cerâmicos com capa de
compressão de concreto de 4cm de espessura. As lajes foram dispostas nos sentidos dos
menores vãos, sendo limitados em no máximo 5 metros. Foram lançadas vigas sob todas as
paredes com dimensões de 12x55cm (Figura 3).

Figura 3: Fôrma do pavimento tipo – laje pré-moldada

4.2. Laje maciça


Estrutura composta por lajes maciças lisas, com 16cm de espessura, e por vigas no contorno
com dimensões de 12x55cm. O lançamento obedeceu ao critério de dispor as vigas de forma a
comporem panos de lajes com áreas aproximadamente equivalentes. Algumas paredes estão
dispostas sobre lajes, sem a presença de vigas para sua sustentação direta. (Figura 4).
Figura 4: Fôrma do pavimento tipo – laje maciça

4.3. Laje nervurada com EPS


Este sistema é concebido por laje nervurada, com vigas na periferia do pavimento e no corpo
da escada e elevador com dimensões de 12x55cm. Os capitéis têm a mesma espessura da laje,
cujo material de enchimento é o EPS, com dimensões de 40x40x20 cm. A laje tem espessura
total de 25 cm com capa de compressão de concreto de 5 cm de espessura. (Figura 5).

Figura 5: Fôrma do pavimento tipo – laje com EPS

4.4. Laje nervurada com cubeta recuperável


Segue o mesmo principio utilizado no sistema anterior, com o diferencial no elemento de
enchimento da laje, que, no lugar do EPS, é substituído por formas plásticas reutilizáveis,
denominadas aqui por cubetas. Os elementos são quadradas com 61cm entre eixos e 18 cm de
altura. A laje tem espessura total de 23 cm com capa de compressão de concreto de 5cm de
espessura. As vigas possuem dimensões de 12x55 cm (Figura 6).
Figura 6: Fôrma do pavimento tipo – laje com cubeta recuperável

5. ANÁLISE DOS RESULTADOS


Concluídos os processos de cálculo para cada sistema estrutural proposto, foram verificados,
para atender as normativas técnicas, todos os elementos constituintes das estruturas, (pilar,
viga e laje). Mantendo-se as dimensões das vigas e espessuras de lajes, foram processados os
cálculos para cada um dos três valores de fck adotados, variando apenas as seções dos pilares
que foram devidamente otimizadas. A figura 7 apresenta uma perspectiva da estrutura em 3D.

Figura 7: Vista 3D da estrutura

Foram avaliadas ainda, as flechas nas lajes do pavimento tipo nos sistemas com laje maciça,
nervurada com EPS e nervurada com cubeta recuperável. A flecha da laje pré-moldada, não
foi avaliada. Pressupõe-se, que esta atenderá a todas as prescrições técnicas das normas
específicas de dimensionamento e utilização. Verificou-se que o sistema que obteve o melhor
desempenho, no quesito flecha, foi o sistema com EPS, que apresentou um valor máximo de
6,78mm, e o sistema com o pior desempenho foi aquele que utilizou laje maciça,
apresentando um valor máximo de 9,08mm.

5.1. Análise comparativa entre consumos dos quatro sistemas propostos


Na Figura 8 e 9 são apresentados os consumos totais de concreto, aço e forma para os quatros
sistemas estruturais propostos. Com os resultados pode-se verificar a influência do aumento
da resistência a compressão do concreto no consumo de concreto, aço e forma em função das
diferentes tipologias de lajes. Pode-se observar que o aumento da resistência do concreto,
proporcionou uma redução no volume de concreto médio de apenas 2.5% para os diferentes
tipos de lajes. Os consumos do revestimento inferior nas lajes estão resumidos na Tabela 1.

CONSUMO TOTAL DE CONCRETO (m3) - Fck 20 Mpa


1.579
1.600

1.500

1.400 1.321 1.310


1.300 1.248

1.200

1.100

1.000
PM MACIÇA EPS CUBETA

CONSUMO TOTAL DE CONCRETO (m3) - Fck 25 Mpa

1.565
1.600

1.500

1.400
1.304 1.287
1.300 1.233

1.200

1.100

1.000
PM MACIÇA EPS CUBETA

CONSUMO TOTAL DE CONCRETO (m3) - Fck 30 Mpa

1.600 1.542

1.500

1.400
1.289 1.273
1.300 1.221

1.200

1.100

1.000
PM MACIÇA EPS CUBETA

Figura 8: Comparativo consumo de concreto para diferentes resistências a compressão


característica.
Tabela 1: Consumo de revestimento das lajes
Consumo de revestimento inferior das lajes
Sistema Revestimento Área (m2)

Pré-moldada Reboco 5.645


Maciça Laje aparente 6080
EPS Reboco 5980
Cubeta Forro de gesso 5980

Com o aumento da resistência a compressão do concreto houve uma diminuição no consumo


de aço em kg média da ordem de 10% para as diferentes lajes empregadas na simulação
computacional.

CONSUMO TOTAL DE AÇO (kg) - Fck 20 Mpa CONSUMO TOTAL DE FÔRMA (m2) - Fck 20 Mpa

150.000 138.438 15.000 13.588


12.842 12.860
140.000
123.429 13.000
130.000 114.609
120.000 11.000 9.383
110.000 99.719
9.000
100.000
90.000 7.000
80.000 5.000
70.000
3.000
60.000
50.000 1.000
PM MACIÇA EPS CUBETA PM MACIÇA EPS CUBETA

CONSUMO TOTAL DE AÇO (kg) - Fck 25 Mpa CONSUMO TOTAL DE FÔRMA (m2) - Fck 25 Mpa

150.000 15.000 13.541


130.930 12.751 12.767
140.000
13.000
130.000 115.659
120.000 109.167 11.000 9.304
110.000 9.000
91.739
100.000
90.000 7.000
80.000 5.000
70.000
3.000
60.000
50.000 1.000
PM MACIÇA EPS CUBETA PM MACIÇA EPS CUBETA

CONSUMO TOTAL DE AÇO (kg) - Fck 30 Mpa CONSUMO TOTAL DE FÔRMA (m2) - Fck 30 Mpa

150.000 137.346 15.000 13.400


12.637 12.653
140.000
13.000
130.000
120.000 109.679 11.000 9.304
103.920
110.000 9.000
100.000 87.358
90.000 7.000
80.000 5.000
70.000
3.000
60.000
50.000 1.000
PM MACIÇA EPS CUBETA PM MACIÇA EPS CUBETA

Figura 9: Comparativo do consumo de aço e forma para diferentes resistências a compressão


característica.

O sistema estrutural que apresentou o menor consumo de concreto, aço e forma


associados foi o pré-moldado com fck=30MPa e, dentre os aqueles que não utilizam lajes pré-
fabricadas, o que apresentou as menores deformações no pavimento tipo é o EPS fck=20MPa.
-A distribuição do consumo de concreto nos elementos estruturais que compõem os sistemas,
estão representados na figura 10, sendo considerando um fck de 25 MPa:
Laje pré Laje Maciça
Pilar; Pilar;
15% 13%
Laje;
45%
Viga;
25% Laje;
Viga;
62%
40%

Laje EPS Laje Cubeta


Pilar; Pilar;
16% 16%

Viga; Viga; Laje;


Laje;
26% 26% 58%
58%

Figura 10: Comparativo do consumo de concreto para diferentes elementos estruturais


conforme o tipo de laje adotado.

-A distribuição do consumo de aço nos elementos estruturais que compõem os sistemas, estão
representados na figura 11, sendo considerando o fck de 25 MPa.

Laje pré Laje Maciça


Pilar;
Pilar; 25%
33% Laje;
44%
Laje;
53%
Viga;
Viga; 22%
23%

Laje EPS Laje Cubeta


Pilar;
Pilar;
30%
31%
Laje; Laje;
47% 48%

Viga; Viga;
22% 22%

Figura 11: Comparativo do consumo de aço para diferentes elementos estruturais conforme o
tipo de laje adotado.
-A distribuição do consumo de fôrma nos elementos estruturais que compõem os sistemas,
estão representados na figuras 12, sendo considerando o fck de 25 MPa.

Laje pré Laje Maciça


Pilar; Laje;
Laje; 3% Pilar; 20%
24%
37%

Viga; Viga;
73% 43%

Laje EPS Laje Cubeta


Laje; Laje;
Pilar; 23% Pilar; 22%
38% 38%

Viga; Viga;
39% 40%

Figura 12: Comparativo do consumo de forma para diferentes elementos estruturais


conforme o tipo de laje adotado.

6. CONCLUSÃO
As conclusões relativas aos sistemas estruturais estudados referem-se exclusivamente ao
projeto arquitetônico do modelo proposto. Esse projeto apresenta características
representativas dos edifícios construídos na região de Criciúma/SC, o que resulta em
resultados que podem servir de parâmetro para os orçamentos e estudos mais aprofundados
para as decisões da tecnologia a ser empregada. Os quantitativos obtidos neste trabalho
levaram em conta os diferentes valores de altura entre pisos em virtude das diferentes
espessuras de lajes, a otimização dos pilares (redução de seção para valores de fck mais
elevados), além dos revestimentos no teto das lajes (reboco, gesso e laje aparente).
No sistema com laje maciça, ao elevar-se o valor de fck de 25MPa para 30MPa, observou-se
um acréscimo no consumo de aço. Esse fato se deve à prescrição da NBR 6118 (2003) quanto
às taxas mínimas de armadura de flexão em função da resistência a compressão do concreto.
O aumento das deformações, com o aumento do valor do fck, observado em alguns sistemas,
também se explica pelo acréscimo dos vãos ocasionado pela redução das seções transversais
de alguns pilares, o que nos leva à indicação da manutenção de seção constante dos pilares no
pavimento tipo e com dimensões que contribuam para minimizar os efeitos dessas
deformações nos demais elementos estruturais. Finalmente, é importante salientar que, para a
escolha de um sistema estrutural, além dos dados aqui apresentados, devem ser avaliados
outros componentes, tais como: qualidade e capacitação da mão de obra; disponibilidade de
materiais e equipamentos; formas e escoramento; aspectos sensoriais como, vibrações nas
lajes, conforto térmico e conforto acústico; possibilidade de executar serviços em diferentes
momentos, como por exemplo, instalações elétricas sob a laje com forro, além de outros
aspectos pertinentes à execução de estrutura de concreto armado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAUJO, José Milton de. Curso de Concreto Armado. 2.ed. Rio Grande: Dunas, 2003.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6118: Projeto de Estruturas
de Concreto – Procedimento. Rio de Janeiro, 2003.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14931: Execução de
Estruturas de Concreto – Procedimento. Rio de Janeiro, 2004.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6120: Cargas para Cálculo
de Estruturas de Edificações – Procedimento: São Paulo, 2003.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 8681: Ações e Segurança
nas Estruturas – Procedimentos: Rio de Janeiro, 2003.
CARVALHO, Roberto C.; Figueiredo Filho, Jasson R. Cálculo e Detalhamento de
Estruturas Usuais de Concreto Armado. São Carlos: Editora da UFSCar, 2001. 308 p. il.
MORAES, Marcello da Cunha. Concreto Armado. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1982.
472p. il.
LEONHARDT, F.; MÖNNIG, E. Construções de concreto: princípios básicos de
estruturas de concreto armado. v1. Rio de Janeiro, Interciência, 1977.
PINHEIRO, Libânio M.; Fundamentos do Concreto e Projeto de Edifícios. São Carlos;
Editora da UFSCar, 2004.
ANÁLISE DE PLACAS USANDO O MÉTODO DE ELEMENTOS DE CONTORNO
DE RECIPROCIDADE DUAL

André Pereira Santana


Departamento de Projeto Mecânico
Universidade Estadual de Campinas
andre@fem.unicamp.br
Edson Jansen Pedrosa de Miranda Júnior
Departamento de Mecânica e Materiais
Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão
edsonjansen_jansen@hotmail.com
Paulo César Marques Doval
Departamento de Mecânica e Materiais
Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão
doval@cefet-ma.br

RESUMO
Este artigo aborda o desenvolvimento, a implementação e aplicações de uma formulação de
elementos de contorno (MEC) para análise de problemas estáticos de elasticidade linear em
meios isotrópicos. As integrais de domínio, provenientes dos carregamentos distribuídos ou
dos termos de inércia ou efeitos não lineares como forças de corpo, são transformadas em
integrais de contorno utilizando-se o método da reciprocidade dual (DRM). Os termos de
inércia são aproximados por uma série finita de funções de aproximação e coeficientes a
determinar. Esta série é substituída nas integrais de domínio que então, são transformadas em
integrais de contorno. Esta formulação será aplicada no cálculo de tensões e deformações em
pontos do contorno e pontos internos e da na malha na precisão dos resultados. Os resultados
numéricos são apresentados para problemas quase-isotrópicos e comparados com resultados
presentes na literatura e mostram boa concordância.

1. INTRODUÇÃO
Considerando que nos materiais isotrópicos, a nível atômico e molecular, a hipótese dos
pequenos deslocamentos e levando em consideração que a maioria dos objetos em engenharia
está sujeito a pequenas deformações (< 0,001), é definido o tensor de deformações que
relaciona as deformações com os respectivos deslocamentos:
1
eij = (ui , j + u j ,i ) i,j = 1, 2, 3 (1)
2
onde ui são os deslocamentos ao longo da direção i, eij é o tensor das deformações com os
respectivos deslocamentos:
A partir da transformação de tensão de Cauchy e levando em conta o equilíbrio de um sólido
sob forças de superfície em sua superfície e forças de corpo em seu domínio, obtemos um
conjunto de três equações de equilíbrio:
σji,j + fi = 0 i,j = 1, 2, 3 (2)
sendo esta equação válida para sólidos sem um comportamento dinâmico, que será analisado
em questão, temos que fi são as forças de corpo por unidade de volume e σij é o tensor de
tensões.
Pode-se observar experimentalmente a lei de Hooke (para o caso do material isotrópico):
σki = Ckimnemn k, i, m, n = 1, 2, 3 (3)
onde σki é o tensor de tensões, Ckimn são constantes (dependendo apenas das direções k e i) e
emn que é o tensor de deformações. Podemos re-escrever obtendo:
σij = λδijekk + 2µeij (4)
Onde λ e µ são as constantes de Lamé, δij é o delta de Kronecker, σij é o tensor de tensões.
1. MÉTODOS DOS ELEMENTOS DE CONTORNO PARA MATERIAIS
ISOTRÓPICOS
A formulação de integrais de contorno para elasticidade linear a ser apresentada requer o
conhecimento de soluções para problemas especiais de elasticidade. Nesses problemas as
propriedades do material são as mesmas do componente que se quer analisar, mas
correspondente a um domínio infinito carregado com uma carga pontual unitária. Essas
soluções são chamadas de solução fundamental da elastostática, ou solução de Kelvin, e
consistem para deslocamento e para forças de superfície.
Para estado plano de tensão ou deformação, a relação recíproca entre o estado fundamental,
cujos deslocamentos são dados por Uik e as forças de superfícies são dadas por Tik, e um
estado genérico, sob carregamento estático e com a presença de forças atuantes no domínio
(forças de corpo) é dado por (KANE, 1993):
cik u k + ∫Τ
Γ
ik u k dΓ = ∫U
Γ
t dΓ +
ik k ∫U

b dΓ
ik k (5)

onde U ik e Τ ik são as soluções fundamentais de deslocamento e forças de superfície,


δ ik
respectivamente, cik é igual a para contornos suaves, sendo δ ik o Delta de Kronecker,
2
u k e t k são os vetores de deslocamento e forças de superfície respectivamente.
É importante ressaltar que a integral de domínio acima pode ser transformada em integral de
contorno a partir do método dos Elementos de contorno da Dupla Reciprocidade.
As soluções fundamentais para deslocamentos e forças de superfície são apresentadas nas
equações (6) e (7).
1  1 
U ik* =  (3 − 4v) ln δ ik r,i r,k  (6)
8π (1 − v)  r 
1  ∂r 
Tij* = −  [(1 − 2v)δ ik + 2r,i r,k ] + (1 − 2v)(ni r,k − n k r,i ) (7)
4πr (1 − v)  ∂n 
A dedução dessas soluções podem ser encontradas em (KANE, 1993) e (BREBIA e
DOMINGUEZ, 1989).

2. FUNÇÕES DE FORMA
Como enfatizado por (KANE, 1994), o passo fundamental para o desenvolvimento do método
dos elementos de contorno é o abandono da aspiração por uma solução exata do problema.
Este requisito e substituído por outra estratégia: encontrar uma solução aproximada de alta
qualidade em um número finito de pontos no contorno do problema, os nós.
As funções de interpolação no espaço utilizada neste trabalho (funções de forma)
são as funções de forma quadráticas. Funções de forma quadrática permitem o modelamento
de elementos curvos. Os deslocamentos e as forças de superfície são representadas em um
elemento quadrático padrão como:
u1 
u (ξ ) = φ1u1 + φ 2 u 2 + φ 3u 3 = [ φ1 φ 2 φ 3 ] u 2  (8)
u 3 
t1 
t (ξ ) = φ1t1 + φ 2 t 2 + φ 3t 3 = [ φ1 φ 2 φ3 ] t 2  (9)
t 3 
onde as funções de interpolação são:
1
φ1 = ξ (ξ − 1) (10)
2
1
(
φ2 = 1 − ξ 2
2
) (11)
1
φ3 = ξ (ξ + 1) (12)
2
onde ξ é a coordenada adimensional ao longo do elemento Fig. 1.

Figura 1: Elemento Quadrático Contínuo

4. MÉTODO DOS ELEMENTOS DE CONTORNO DA DUPLA RECIPROCIDADE


A solução da equação integral de contorno implica no cálculo da integral de domínio,
∫ U ik bk dΓ equação (5) na qual bk representa a força de corpo que age sobre o componente

analisado.
A forma mais simples de calcular essas integrais de domínio é discretizar a região em um
conjunto de células internas e usar um método de integração, como o método de Gauss, para
realizar a integração dentro de cada célula. No entanto, a discretização e a integração em
células internas fazem com que o método dos elementos de contorno perca seu atrativo
principal, que é a solução de problemas da mecânica do contínuo através da discretização e
integração apenas no contorno do problema.
Apresentamos assim de forma sucinta, a formulação do Método da Dupla Reciprocidade,
baseando-se em (PARTRIDGE, BREBIA E WROBEL, 1992) e em (DOMINGUEZ, 1993).

4.1 Formulação do Método da Dupla Reciprocidade


O método da dupla reciprocidade pode ser utilizado em problemas de elasticidade estática
para transformar integrais de domínio, resultantes da consideração de forças de corpo, em
integrais de contorno equivalentes.
Assumindo a presença de forças de corpo, a equação integral de contorno a ser resolvida a
partir de uma aproximação. A seguinte aproximação pode ser proposta para a força de corpo
bk(k = 1, 2):
N +L
bk = ∑f
j =l
j
αkj (13)

Nessa equação, os termos α k( j ) são um conjunto de coeficientes a serem determinados


(inicialmente desconhecidos) e os termos f j são funções de aproximação, que dependem
apenas da geometria do problema.
)
Uma solução particular u mkj pode ser encontrada para satisfazer a equação de
Navier como em (KANE, 1992):
)j G )j
G ⋅ u mk,ll + ⋅ ulk,lm = δmk f j (14)
1 − 2ν
)
O número de soluções u mkj utilizado deve ser igual ao número total de nós do problema. Se
existirem N nós do contorno e L nós do domínio (nós internos), como pode ser visto na Fig. 2,
)
existirão (N+L) valores de u j .

Figura 2: Nós do contorno e internos

Substituindo as equações (13) e (14) na equação (5) e aplicando o princípio da reciprocidade


dual para a integral de domínio resultante, obtém-se:
( )
N +L
) ij ) )
cik uk = ∫ U ik t k dΓ − ∫ Τ ik uk dΓ + ∑ cik umk + ∫ Τ ik umkj dΓ − ∫ U ik t mkj dΓ (15)
Γ Γ Γ Γ
j =l
)
sendo t mkj as forças de superfície correspondentes às soluções particulares de deslocamento
)
u mkj .
Após a aplicação desse procedimento, a equação (15) não apresenta mais nenhuma integral de
domínio. Esse é o procedimento que dá nome ao Método da Dupla Reciprocidade, pois o
princípio de reciprocidade foi aplicado em ambos os lados da equação (15), a fim de se levar
todas as integrais para o contorno.
Deve-se notar que uma vez que û e tˆ são funções conhecidas, que dependem apenas da
geometria dos elementos e dos nós internos, não há necessidade de aproximar suas variações
dentro de cada elemento usando funções de interpolação local e valores nodais, como é feito
para U e Τ .

4.1.1. Função de Aproximação f


A função de aproximação f e as soluções particulares û e tˆ usadas no método da dupla
reciprocidade (MDR) não são limitadas pela formulação. A única restrição é que a matriz que
será formada pela função f não seja singular.
No intuito de definir essas funções, é de costume propor uma expressão para f e então calcular
û e tˆ usando a equação (14).
Existem várias propostas para o tipo de função f, tais como as séries trigonométricas, os
elementos do triângulo de Pascal e a distância r utilizada na definição da solução
fundamental.
Nesse trabalho, será utilizada a função do tipo r, que foi primeiramente adotada por
(NARDINI E BREBBIA, 1982) e depois pela maioria dos pesquisadores desse método por ser
a alternativa mais simples e mais precisa. Essa função é baseada na série:
f = 1± r ± r2 ± ... ± rm (16)
Em princípio, qualquer combinação dos termos dessa série pode ser escolhida. Na aplicação
do MDR nesse trabalho, a função f(r) adotada será:
f=1–r (17)
adotada por (DOMINGUEZ, 1993) e apresentando resultados precisos.

4.1.2. A Função f = 1 – r
Para o caso de f = 1 – r, as funções û e tˆ (PARTRIDGE, 1992) são dadas por:

1  1 − 2v r  2 9 − 10v 
ûkm = ⋅  +  ⋅ r r,k r,n − δkn r 3  (18)
G  5 − 4v 30 ⋅ (1 − v)  90 ⋅ (1 − v) 

 2v
tˆlm =  [ ( )
⋅ (3A ⋅ r + 4B ⋅ r 2 + 3D ⋅ r 2 ) ⋅r,n δkj + 2 ⋅ A ⋅ r + B ⋅ r 2 ⋅ r,n δkj +
 1 − 2v

( ) ]}
+ A ⋅ r + B ⋅ r 2 + 3D ⋅ r 2 ⋅ (r , k δ nj + r , j δ kn ) + 2 B ⋅ r 2 r,k r,n r, j ⋅ n j (19)

1 − 2v 1 10v − 9
sendo: A = ;B = ;D = , G o módulo de elasticidade transversal e v
5 − 4v 30 ⋅ (1 − v) 90 ⋅ (1 − v)
o coeficiente de Poisson.
A solução û é obtida a partir da equação (14) e a solução tˆ é obtida através da
derivação da solução û.
O valor de r é a distância entre um nó fixo e todos outros nós do problema Fig. 3.

Figura 3: Representação das distâncias entre um nó fixo e todos os nós do problema.

4.1.3. Nós internos


Os nós internos não fazem parte de nenhum elemento, e apenas suas coordenadas são
necessárias como dado de entrada.
A definição de nós internos geralmente não é uma condição necessária para obter a solução no
contorno. No entanto, a solução será mais precisa se uma determinada quantidade de nós
internos for utilizada.

5. RESULTADOS NUMÉRICOS (AUSÊNCIA DE FORÇAS DE CORPO)


Considere o modelo de uma placa quadrada, tracionada em uma direção. Esse problema tem
solução analítica, possibilitando a comparação entre essa solução e a solução numérica obtida,
para vários refinamentos de malha.
O modelo considerado pode ser visto na Fig. 4, consistindo de uma placa quadrada com tração
unidirecional de 1000 Pa . O lado da placa mede 1m e as propriedades do material são
E = 1000 e ν = 0 . Foi definido um ponto no centro da placa para verificação da precisão do
cálculo do deslocamento em pontos internos.

Figura 4: Modelo de placa quadrada com tração uniaxial.

A geometria deformada obtida após a análise é apresentada na Fig. 5, onde a geometria inicial
aparece em cor azul e a geometria deformada em cor vermelha.
Figura 5: Geometria deformada para o problema de placa quadrada.

Verifica-se que não existe contração da placa, uma vez que o coeficiente de Poisson é nulo. A
solução analítica para barras tracionadas com força concentrada na extremidade pode ser
utilizada para determinar o erro da solução numérica. A solução analítica do deslocamento,
para esse caso é d = 0,1m .

6. CONCLUSÃO
Verifica-se que ocorre uma redução de erro dos resultados à medida que é utilizado um maior
número de pontos internos, comprovando assim, a convergência dos resultados com o
refinamento da malha. O pequeno valor de erro é relacionado com o tipo de problema
analisado. O deslocamento ao longo da placa tem uma variação linear, enquanto estão sendo
utilizados elementos quadráticos. Assim, mesmo com um elemento de contorno em cada lado
da geometria, obtém-se ótima precisão.
O mapa de cor para deslocamentos na direção y pode ser visualizado na Fig. 7.

Figura 7: Mapa de cor dos deslocamentos em y .


7. RESULTADOS NUMÉRICOS (COM PRESENÇA DE FORÇA DE CORPO)
O problema de uma placa circular em rotação ao redor de seu centro foi modelado para
verificação da precisão do método implementado. Esse problema tem solução analítica para o
deslocamento radial u r dada por (TIMOSHENKO, 1970), como:
1 1 − ν 
ur =  ( ρω 2 r 3 ) (20)
E 4 
Sendo, E o módulo de elasticidade, ν o coeficiente de Poisson, ρ a densidade, ω a
velocidade angular e r o raio da placa circular.
Uma vez que o problema é simétrico, pode-se modelar apenas um quarto da placa, como na
Fig. 8, que traz o modelo discretizado.

Figura 8: Modelo de um quarto da placa rotativa.

A geometria deformada obtida após a análise é apresentada na Fig. 9, onde a geometria inicial
aparece em cor azul e a geometria deformada em cor vermelha.

Figura 9: Geometria deformada para um quarto da placa rotativa.

Utilizou-se o módulo de elasticidade E = 1000 MPa , o coeficiente de Poisson ν = 0.3 e a


densidade do material ρ = 8000kg / m 3 . O raio da placa é de 1m e a velocidade de rotação
ω = 20rad / s . Com esses dados a solução analítica para o deslocamento radial, segundo a
equação (1), é de u r = 0.56m .
Para convergência do método e da importância do uso de pontos internos, foram realizadas
análises, considerando discretizações diferentes.
O primeiro estudo considerou o modelo sem nós internos. O número de elementos de
contorno foi variado 1 até 13 elementos em cada lado do quarto de circunferência. Os
resultados podem ser visualizados no gráfico da Fig. 10.

Figura 10: Erro percentual em função do número de elementos em cada linha.

Esses resultados mostram que, sem o uso de nós internos, o menor erro que pode ser obtido,
para essa solução, é de 10%, que é considerado um erro muito grande para aplicações de
métodos numéricos.
O segundo estudo realizado considerou a malha com quatro elementos em cada lado da placa
e o número de nós internos foi variado Fig. 11.

Figura 11: Erro percentual em função do número de nós internos.

Com o uso de nós internos, foi possível obter erros bastante pequenos, da ordem de 1%, que
poderiam ser ainda mais reduzido com a utilização de um número maior de nós internos.
8. CONCLUSÃO
Assim, a melhor discretização a ser utilizada implica no uso de uma malha representativa do
modelo e de uma quantidade de nós internos que possa considerar, de forma adequada, as
forças de corpo.
Com o uso de nós internos, foi possível obter erros pequenos, da ordem de 1%, que poderiam
ser ainda mais reduzidos com a utilização de um número de nós internos.

REFERÊNCIAS
Azevedo, A. F. M. – Método dos Elementos Finitos, Faculdade de Engenharia da
Universidade do Porto, 2003.
Azevedo, A. F. M. - Mecânica dos Sólidos, Faculdade de Engenharia da Universidade do
Porto, 1996.
Brebbia e Dominguez, Boundary Element Method: an Introductory Course, CMP
Publications, 1994.
Brebbia, C.A., The Boundary Element Methods for Engineers, Pentech Press, London, 1978.
Brebbia, C.A., Telles, J.C, e Wrobel, L.C., Boundary Element Echniques - Theory dan
applications in Engineering, Springer-Verlag, 1984.
Kane, James H., Boundary element analysis in engineering mechanics, 1994.
Kane, J., .Boundary Element Analisys in Engineering Contiuum Mechanics., Prentice Hall,
1993.
Larry Wall, Programming Perl, O’Reilly & Associates, 1996.
Partridge, P. W., Brebbia, C. A., e Wrobel, L. C. (1992). The dual reciprocity boundary
element method. Computational Mechanics Publications, Southampton, Boston.
Segadães Tavares, A. - Análise Matricial de Estruturas, Laboratório Nacional de Engenharia
Civil, Curso 129, Lisboa, 1973.
Tymoshenko, S. P.e Goodier, J. N., .Theory of elasticity., 3.edição, McGraw-Hill, Tokio,
1970.
ANÁLISE DE PROBLEMAS ESTÁTICOS USANDO O MÉTODO DE ELEMENTOS
DE CONTORNO DE RECIPROCIDADE DUAL

André Pereira Santana


Departamento de Projeto Mecânico
Universidade Estadual de Campinas
andre@fem.unicamp.br
Brenno Rodrigo Ferreira Corrêa
Departamento de Mecânica e Materiais
Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão
brennospa@hotmail.com
Rubens Soeiro Gonçalves
Departamento de Mecânica e Materiais
Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão
rsoeirog@hotmail.com

RESUMO
O presente trabalho apresenta o desenvolvimento, implementação e aplicações de uma
formulação de elementos de contorno (MEC) para análise de problemas térmicos em
materiais isotrópicos utilizando soluções fundamentais. A aproximação geométrica usa
elementos lineares e quadráticos. A formulação desenvolvida é aplicada no cálculo de fluxo e
temperatura de estruturas planas com calor gerado no domínio da estrutura. A presença
explícita da integral de domínio devido a efeitos não lineares como forças de corpo é mantida
na equação tornando obrigatório a discretização e integração através do método da
reciprocidade dual (DRM). No método da reciprocidade dual (DRM) os termos de inércia são
aproximados por uma série de funções de aproximações e coeficientes a determinar. Os
resultados obtidos são comparados com resultados disponíveis na literatura e mostram uma
boa concordância.

1. INTRODUÇÃO
As experiências mostram que quando existe um gradiente de temperatura em um corpo, existe
uma transferência de energia da região de alta temperatura para a região de baixa temperatura.
A energia é transferida por condução e a rapidez da transferência de energia por unidade de
área é proporcional ao gradiente normal de temperatura.
q dT
≈ (1)
A dx
Quando se insere certa constante de proporcionalidade k temos:
dT
q = − k . A. (2)
dx
q' = −k .∇T (3)
dT
onde q é a fluxo de transferência de calor e dx é o gradiente de temperatura na direção do
fluxo de calor. A constante positiva k se chama condutividade térmica do material, e o sinal
de menos é necessário para que possa satisfazer o segundo principio da termodinâmica, ou
seja, o calor deverá fluir para temperaturas mais baixas figura 1.

Figura 1: Direção do fluxo de calor

Agora podemos determinar a equação básica que governa a transferência de calor em um


sólido, utilizando a equação (2) como ponto de partida. Consideremos um sistema
unidimensional figura 2. Se o sistema se encontra em um estado estacionário e a temperatura
não varia com o tempo, então só precisamos integrar a equação (1.2) e substituir os valores
adequados. Consideremos o caso geral em que a temperatura pode estar variando com o
tempo e dentro do corpo pode haver fontes de calor. Para o elemento espesso dx pode-se
realizar o seguinte balanço de energia:
Energia na entrada (esquerda) + energia gerado dentro do elemento = energia interna +
energia da saída (saída).

Figura 2: Volume elementar para análise de calor unidimensional


∂T
Energia na entrada: q x = − k . A. (4)
∂x
Energia dentro do elemento: E g = q '.A.dx (5)
∂T
Energia interna: E ar = ρ .c. A. dx (6)
∂t
∂T
Energia na saída: q x + dx = − k . A.
∂x x + dx
 ∂T ∂  ∂T  
= − A k . + k dx  (7)
 ∂x ∂x  ∂x  
onde: q' = energia gerada por unidade de volume
c = calor especifico do material
ρ = densidade
k = condutividade térmica
Com a combinação dos elementos expressados antes temos:

∂T ∂T  ∂T ∂  ∂T  
− k . A. + q'.A.dx = ρ .c. A. dx − Ak + k dx 
∂x ∂t  ∂t ∂x  ∂x   (8)
∂  ∂T  ∂T
k  + q' = ρ .c.
∂x  ∂x  ∂t
Esta é a equação de condução de calor unidimensional. Em muitos problemas práticos o fluxo
de calor unidimensional em estado estacionário (sem geração de calor):
d 2T
2
= 0 ⇒ ∇ 2T = 0 (9)
dx
Observe que está equação é a mesma que a equação (2) quando q = constante.

2. MÉTODO DOS ELEMENTOS DE CONTORNO PARA PROBLEMAS DE


POTENCIAL
A característica central do método dos elementos de contorno é o emprego de determinadas
soluções ao problema sob investigação. Em problemas de transferência de calor, a resposta
térmica constante ao infinito é medida pela geração de energia interna unitária em um ponto
fonte chamado de solução fundamental.
A solução fundamental é uma base da formação dos elementos de contorno. Corresponde à
resposta da temperatura em um meio infinito quando a fonte de geração de calor é
concentrada em um ponto. Sendo assim, a solução fundamental deve satisfazer:
A formulação de integrais de contorno para fluxo e temperatura a ser apresentada requer o
conhecimento de soluções para problemas potenciais. Essas soluções são chamadas de
solução fundamental potencial, e consistem para fluxo de calor e temperatura.
As soluções fundamentais para fluxo de calor e temperatura (KANE, 1994) são apresentadas
nas equações (10) e (11) e são deduzidas com base nas equações (2) e (9).
−1
Tik = ln(r ) (10)
2.π .k
1
qik = ( x i ni + x k n k ) (11)
2.π .r 2
onde r é a distância entre o ponto fonte e o ponto campo, k é a condutividade térmica do
material, ni , nk são vetores normais ao contorno.
Para problema de potencial, a relação recíproca entre o estado fundamental, cujas
temperaturas são dadas por Τik e os fluxos de calor dados por qik , e um estado genérico é
dado por (BREBBIA, 1998):
cik u k + ∫ Τik u k dΓ = ∫ qik t k dΓ + ∫ qik bk dΓ , (12)
Γ Γ Ω

onde U ik e Τik são as soluções fundamentais de deslocamento e forças de superfície,


δ ik
respectivamente, cik é igual a para contornos suaves, sendo δ ik o Delta de Kronecker,
2
bk força de corpo, u k e t k são os vetores de deslocamento e forças de superfície
respectivamente.
3. MÉTODO DOS ELEMENTOS DE CONTORNO DA DUPLA RECIPROCIDADE
A solução da equação integral de contorno implica no cálculo da integral de domínio,
∫ qik bk dΩ , equação (12), na qual bk representa a força de corpo que age sobre o componente

analisado. A forma mais simples de calcular essas integrais de domínio é discretizar a região
em um conjunto de células internas e usar um método de integração, como o método de
Gauss, para realizar a integração dentro de cada célula. No entanto, a discretização e a
integração em células internas fazem com que o método dos elementos de contorno perca seu
atrativo principal, que é a solução de problemas da mecânica do contínuo através da
discretização e integração apenas no contorno do problema.
Apresentamos assim de forma sucinta, a formulação do Método da Dupla Reciprocidade,
baseando-se em (PARTRIDGE, BREBIA E WROBEL, 1992) e em (DOMINGUEZ, 1993).

3.1 Formulação do Método da Dupla Reciprocidade


O método da dupla reciprocidade pode ser utilizado em problemas de elasticidade estática
para transformar integrais de domínio, resultantes da consideração de forças de corpo, em
integrais de contorno equivalentes.
Assumindo a presença de forças de corpo, a equação integral de contorno a ser resolvida a
partir de uma aproximação. A seguinte aproximação pode ser proposta para a força de corpo
bk (k = 1, 2):
N +L
bk = ∑f
j =l
j
α kj (13)

Nessa equação, os termos α k( j ) são um conjunto de coeficientes a serem determinados


(inicialmente desconhecidos) e os termos f j são funções de aproximação, que dependem
apenas da geometria do problema.
)
Uma solução particular umkj pode ser encontrada para satisfazer a equação de Navier como em
(KANE, 1992):
) G )
G ⋅ u mkj ,ll + ⋅ u lkj ,lm = δ mk f j (14)
1 − 2ν
)
O número de soluções umkj utilizado deve ser igual ao número total de nós do problema. Se
existirem N nós do contorno e L nós do domínio (nós internos), como pode ser visto na figura
)
2, existirão (N+L) valores de u j .

Figura 3: Nós do contorno e internos

Substituindo as equações (13) e (14) na equação (12) e aplicando o princípio da reciprocidade


dual para a integral de domínio resultante, obtém-se:
( )
N +L
) ij ) )
cik u k = ∫ U ik t k dΓ − ∫ Τik u k dΓ + ∑ cik u mk + ∫ Τik u mkj dΓ − ∫ U ik t mkj dΓ (15)
Γ Γ Γ Γ
j =l
)
sendo t mkj as forças de superfície correspondentes às soluções particulares de deslocamento
)
u mkj .
Após a aplicação desse procedimento, a equação (15) não apresenta mais nenhuma integral de
domínio. Esse é o procedimento que dá nome ao Método da Dupla Reciprocidade, pois o
princípio de reciprocidade foi aplicado em ambos os lados da equação (15), a fim de se levar
todas as integrais para o contorno.
Deve-se notar que uma vez que û e tˆ são funções conhecidas, que dependem apenas da
geometria dos elementos e dos nós internos, não há necessidade de aproximar suas variações
dentro de cada elemento usando funções de interpolação local e valores nodais, como é feito
para U e Τ .

3.1.1 Função de Aproximação f


A função de aproximação f e as soluções particulares û e tˆ usadas no método da dupla
reciprocidade (MDR) não são limitadas pela formulação. A única restrição é que a matriz que
será formada pela função f não seja singular.
No intuito de definir essas funções, é de costume propor uma expressão para f e então calcular
û e tˆ usando a equação (14).
Existem várias propostas para o tipo de função f, tais como as séries trigonométricas, os
elementos do triângulo de Pascal e a distância r utilizada na definição da solução
fundamental.
Nesse trabalho, será utilizada a função do tipo r, que foi primeiramente adotada por
(NARDINI E BREBBIA, 1982) e depois pela maioria dos pesquisadores desse método por ser
a alternativa mais simples e mais precisa. Essa função é baseada na série:
f = 1 ± r 2 ± r 3 ± ... ± r m (16)
Em principio qualquer combinação dos termos da série pode ser escolhida. Na aplicação do
DRM nesse trabalho, a função f (r ) adotada será:
f (r ) = 1 + r (17)
f (r ) = 1 + r + r 2
(18)
f (r ) = 1 + r + r + r
2 3
(19)
E serão consideradas as funções û e q̂ (PARTRIDGE, 1992) dadas por:
r2 r3
uˆ mk = + (20)
4 9
 ∂x ∂y  1 r 
qˆ mk =  rx + ry  +  (21)
 ∂n ∂n  2 3 

3.1.2 Nós Internos


Os nós internos não fazem parte de nenhum elemento, e apenas suas coordenadas são
necessárias como dado de entrada.
A definição de nós internos geralmente não é uma condição necessária para obter a solução no
contorno. No entanto, a solução será mais precisa se uma determinada quantidade de nós
internos for utilizada.
4. FUNÇÕES DE FORMA
Como enfatizado por (KANE, 1994), o passo fundamental para o desenvolvimento do método
dos elementos de contorno é o abandono da aspiração por uma solução exata do problema.
Este requisito e substituído por outra estratégia: encontrar uma solução aproximada de alta
qualidade em um número finito de pontos no contorno do problema, os nós.
As funções de interpolação no espaço utilizada neste trabalho (funções de forma) são as
funções de forma quadráticas e constantes lineares.

4.1 Elementos Quadráticos


Funções de forma quadrática permitem o modelamento de elementos curvos. As temperaturas
e fluxos são representadas em um elemento quadrático padrão como:
t1 
t (ξ ) = φ1t1 + φ 2 t 2 + φ3 t 3 = [ φ1 φ 2 φ3 ] t 2  (22)
t 3 
q1 
q(ξ ) = φ1 q1 + φ 2 q 2 + φ3 q3 = [ φ1 φ 2 φ3 ] q 2  (23)
q3 
onde as funções de interpolação são:
φ1 = ξ (ξ − 1);
1
(24)
2
1
φ2 = 1 − ξ 2 ;
2
( ) (25)

φ3 = ξ (ξ + 1).
1
(26)
2
onde ξ é a coordenada adimensional ao longo do elemento figura 4.

Figura 4: Elemento Quadrático Contínuo


4.2 Elementos Lineares
Os valores de u e q podem ser definidos a qualquer ponto no elemento em termos dos valores
nodais deles e duas funções lineares interpoladas ø1 e ø2, que são determinados em termos da
coordenada homogênea ξ:
t 
t (ξ ) = φ1t1 + φ 2 t 2 = [φ1 φ 2 ] ⋅  1  (27)
t 2 
q 
q(ξ ) = φ1q 1 +φ 2 q 2 = [φ1 φ 2 ] ⋅  1  (28)
q1 
onde as duas funções de interpolação são:
φ1 = (1 − ξ )
1
(29)
2
φ 2 = (1 − ξ )
1
(30)
2
onde ξ é a coordenada adimensional ao longo do elemento figura 5.

Figura 5: Elemento Linear

5. RESULTADOS
Considere o modelo figura 6 de uma chapa de aço inox quadrada, isolado na sua base inferior
e superior Φ 1 = Φ 2 , e submetida a uma diferença de temperatura ∆Τ = 300 K e uma
condutividade térmica k = 18W/m.K. A solução do problema será considerada para uma
malha refinada de 40 elementos no contorno e 81 pontos internos.

Figura 6: Modelo de chapa de aço inox quadrada discretizada.


A distribuição de temperatura dessa chapa de aço inox pode ser vista através do mapa de
cores de temperatura na figura 7.

Figura 7: Mapa de cor da distribuição de temperatura.

5.1.1 RESULTADOS NUMÉRICOS 1


Os valores para temperatura em alguns pontos internos foram analisados e comparados
usando-se elementos lineares e elementos quadráticos, obtemos os seguintes resultados tabela
1.
Tabela 1.1: Temperatura em pontos do contorno utilizando-se elementos lineares e
quadráticos.
Variável Nó X Y Linear Quadrático Diferença

ΤINT 10 0.1 0.2 29,9999 30,4362 0,4363


11 0.2 0.2 59,9999 60,0493 0,0494
12 0.3 0.2 89,9998 90,3920 0,3992
13 0.4 0.2 119,9997 120,3025 0,3028
14 0.5 0.2 149,9996 150,4356 0,4360

5.1.2 CONCLUSÃO 1
Verifica-se que a diferença de temperatura usando os elementos lineares ou quadráticos é
quase desprezível.

5.2.1 RESULTADOS NUMÉRICOS 2


Considerando uma carga de calor q = 20W / m 2 é aplicada no domínio da chapa de aço inox
podemos comparar os resultados de temperatura e fluxo no contorno e ponto interno com
carga no domínio e sem carga no domínio usando elementos lineares tabela 2. Foi considerada
uma função f (r ) = 1 + r .

Tabela 2: Temperatura e Fluxo em pontos do contorno e pontos internos usando elementos


lineares.
Variável Nó X Y Sem Carga Com Carga Diferença

Τ 6 0.5 0 150,0000 150,1391 0,1391


16 1 0.5 300 300 0
26 0.5 1 150,0000 150,1391 0,1391
36 0 0.5 0 0 0
41 0.5 0.5 149,9996 150.1387 0,1391
Φ 6 0.5 0 0 0 0
16 1 0.5 0 0 0
26 0.5 1 -5400 -5390 -10
36 0 0.5 -5400 -5390 -10
41 0.5 0.5 0 0 0

5.2.2 CONCLUSÃO 2
As cargas no domínio influem bem pouco nos valores de temperatura e fluxo e podem ser
desprezadas como a maioria dos autores Kane (1994).
Os valores da temperatura em pontos internos para a função f (r ) , sendo que qualquer
combinação da série pode ser escolhida tabela 3.

Tabela 3: Temperatura pontos internos para diferentes funções f (r ) .


Variável Nó X Y f = 1+ r f = 1+ r2 f = 1+ r2 + r3

ΤINT 38 0.2 0.5 60.0889 60.0546 59.9766


40 0.4 0.5 120.1332 120.0821 119.9648
42 0.6 0.5 180.1330 180.0820 179.9646
44 0.7 0.5 240.0885 240.0542 239.9761

Verifica-se que a variação temperatura interna é pequena para diferentes funções f (r ) .


5.3.1 RESULTADOS NUMÉRICOS 3
Usando a função f (r ) = 1 + r + r 2 + r 3 e comparando os resultados para temperaturas em
pontos internos com diferentes cargas tabela 4.
Tabela 4: Temperatura em pontos internos considerando diferentes cargas aplicadas no
domínio.
Variável Nó Y Y q=0 q = 20 q = 50 q = 80
ΤInterna 38 0.2 0.5 59.9999 59.9766 59.9416 59.9066
40 0.4 0.5 119.9997 119.9648 119.9124 119.8599
42 0.6 0.5 179.9996 179.9646 179.9122 179.8598
44 0.7 0.5 239.9994 239.9761 239.9412 239.9062

5.3.2 CONCLUSÃO 3
Pode-se concluir que a variação da temperatura interna é quase desprezível para diferentes
fontes de carga aplicadas no domínio e por esse motivo é possível desprezar seus efeitos. Da
mesma verificamos q a função f (r ) adotada por (Domingues, 1993) apresenta resultados
precisos e não apresentou variações consideráveis expandindo a série como se podia
imaginar.

REFERÊNCIAS
Azevedo, A. F. M., 2003. Método dos Elementos Finitos, Faculdade de Engenharia da
Universidade do Porto.
Boley, B. A. and Weiner, J. H., 1985. Theory of Thermal Stresses, Krieger Publ., Malabar
Florida, Reprint.
Brebbia e Dominguez, 1994. Boundary Element Method: an Introductory Course, CMP
Publications.
Brebbia, C.A., 1978. The Boundary Element Methods for Engineers, Pentech Press, London.
Brebbia, C.A., Telles, J.C, e Wrobel, L.C, 1984. Boundary Element Echniques - Theory dan
applications in Engineering, Springer-Verlag.
Holman, J.P., 1999. Transferência de Calor, CECSA.
Kane, James H., 1994. Boundary element analysis in engineering mechanics.
Kane, J., 1993. Boundary Element Analisys in Engineering Contiuum Mechanics., Prentice
Hall.
Krieth, F., 1973. Principles of Heat Transfer Edition, Third Edition, Intext Educational Publ.,
New York.
Larry Wall, 1996. Programming Perl, O’Reilly & Associates.
Partridge, P. W., Brebbia, C. A., e Wrobel, L. C., 1992. The dual reciprocity boundary
element method. Computacional Mechanics Publications, Southampton, Boston.
Segadães Tavares, A., 1973. Análise Matricial de Estruturas, Laboratório Nacional de
Engenharia Civil, Curso 129, Lisboa.
Tymoshenko, S. P.e Goodier, J. N., .Theory of elasticity., 3.edição, McGraw-Hill, Tokio,
1970.
AVALIAÇÃO DE PRÁTICAS CONSTRUTIVAS EM ALVENARIA ESTRUTURAL
COM BLOCOS CERÂMICOS – ESTUDO DE CASO

Luiz Fabiano Ponciano Nazário


Departamento de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense
luizfabianon@gmail.com
Gihad Mohamad
Departamento de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense
gihad@unesc.net
Ângela Costa Piccinini
Departamento de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense
acp@unesc.net

RESUMO
Atualmente a alvenaria estrutural construída com blocos cerâmicos, desponta como uma
alternativa técnica e economicamente viável. Proporciona edificações racionalizadas e reduz o
tempo de produção. Estudos atribuem à qualidade do sistema, um reflexo relativamente
associado aos procedimentos executivos empregados, materiais incorporados, mão-de-obra e
o nível de detalhamento dos projetos. O presente trabalho tem o intuito de realizar um
diagnóstico retratando o panorama atual no ponto de vista gerencial, da qualidade dos
materiais e controles de execução. A pesquisa foi desenvolvida a partir de estudo de caso nas
obras idealizadas em fase de construção na região de Criciúma – SC. Para alcançar os
objetivos propostos foram levantados informações, através de documentações técnicas, acervo
de projetos e inspeção in loco das técnicas executivas. A verificação foi de acordo com a
normalização brasileira e por meio de procedimentos metodológicos reconhecidos no meio
técnico em geral. Os resultados demonstraram blocos cerâmicos com variabilidade
dimensionais que implicou demasiadamente na coordenação modular. Identificaram-se pontos
equivocados de projeto, reincidência de desaprumos, e falhas na elevação das alvenarias
necessitando de intervenções com tratamentos veementemente efetivos.

1. INTRODUÇÃO
A alvenaria estrutural é um sistema construtivo onde as paredes desempenham a função de
resistir às cargas e aos esforços atuantes na edificação, decorrentes do peso próprio e dos
esforços laterais gerados pelas ações dos ventos (ROMAN et al, 2002).

A vantagem do uso desse sistema, segundo alguns estudos, está no alto potencial de
racionalização dos materiais e dos métodos construtivos utilizados na construção de edifícios.
Impulsionados pelo desenvolvimento tecnológico do setor, com investimentos e melhorias
nos processos efetivo de fabricação, os blocos cerâmicos estruturais se tornaram um dos
materiais muito utilizados por construtoras.

A alvenaria cerâmica oferece boa resistência e proporciona qualidade de isolamento térmico e


acústico. No entanto, os blocos devem conter especificações e propriedades adequadas.
Arestas irregulares, cantos quebrados, dimensões inconstantes e a falta de homogeneidade
comprometem a resistência do bloco, e por conseqüência, o desempenho de toda a parede. A
desconsideração de alguns princípios de estabilidade e a negligência de certas regras básicas,
certamente fazem parte de um conjunto de deficiências técnicas que debilitam a
confiabilidade do sistema construtivo (OLIVEIRA e HANAI, 2002). O meio técnico atribui,
em geral, a mão-de-obra como principal responsável pela qualidade das construções. A
carência de mão-de-obra especializada com domínio pleno da técnica torna o processo
executivo vulnerável a improvisos e adaptações. Para obter as inúmeras vantagens que o
sistema oferece, uma série de cuidados deve ser tomada desde o recebimento dos materiais até
o processo de execução.

A idéia desta pesquisa é avaliar um sistema construtivo em alvenaria estrutural de um


empreendimento em fase de construção na região de Criciúma – SC, por meio da análise dos
elementos cerâmicos e das argamassas de assentamento, verificando as suas principais
características que os tornam compatível para a sua utilização; e sob o ponto de vista
estrutural averiguando o controle na produção.

2. ESTUDO DE CASO - CARACTERÍSTICAS DA OBRA


Objetivando a análise dos aspectos expostos, o estudo de caso trata-se de um Conjunto
Residencial composto com prédios em fase de execução. Cada prédio constitui-se de quatro
pavimentos, sendo quatro apartamentos por andar, totalizando dezesseis apartamentos,
conforme Figura 1. Os edifícios foram executados com blocos cerâmicos assentados com
argamassa industrializada e preenchidos com grautes nas regiões solicitantes, principalmente
na solidificação dos elementos (vergas e cintas de amarração). O empreendimento analisado
apresenta a tipologia residencial destinada à classe média-baixa e baixa.

BWC
QUARTO QUARTO

ESTAR / JANTAR
SACADA

A. SERV. COZINHA

(a) (b)
Figura 1: (a) Vista lateral de um bloco residencial; (b) Planta baixa dos apartamentos.

3. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO ADOTADO


A avaliação foi de caráter qualitativo, restringindo-se a examinar aspectos relacionados à
execução de paredes estruturais, assim como os insumos básicos utilizados na confecção das
alvenarias. Os materiais empregados foram avaliados por meio da análise de documentações
técnicas dos últimos sete meses de produção (set/07 à mar/08). Utilizaram-se as
recomendações das normas NBR 15270 (2005) para os blocos cerâmicos e NBR 5739 (1994)
para as argamassas, normas estas, empregadas pela empresa para a caracterização dos
materiais.

A avaliação em campo foi realizada mediante a inspeção visual e registros fotográficos dos
processos de construção das paredes assim como dos detalhes construtivos, imperfeições,
modulações, entre outros. Foram analisados os alinhamentos, prumos, esquadros, planicidades
e espessuras das juntas das paredes executadas. Para o controle de qualidade da alvenaria,
consideraram-se os procedimentos propostos por Ferreira et al (1994), conforme a Tabela 1,
em conformidade com as recomendações de outros autores.
Tabela 1: Controle de qualidade e inspeção de serviços
Itens analisados Tolerâncias Procedimentos
Espessura das ± 2 mm satisfatório Mede-se com a trena a espessura das juntas e observa-se a sua
juntas ± 5 mm melhorar regularidade ao longo da alvenaria.
No caso de alvenaria aparente, verifica-se através de análise visual,
Frizamento das
a existência de falhas na junta de argamassa e a regularidade ao
juntas
longo do pano de alvenaria.
Prumo da parede Posiciona-se o fio de prumo afastado 5 cm da face dos blocos, e
- medida 1 ±2 mm/m mede se na base da parede a distância até a face da alvenaria,
- medida 2 registrando-se a diferença entre as duas medidas.
Verifica-se, utilizando a régua com bolhas, o nível dos blocos da
Nível da parede ± 2 mm/m parede, através de medidas de trechos ao longo da última fiada
executada.
Estende-se a linha que representa a face interna da alvenaria,
utilizando os referenciais das extremidades do pano ou o esticador
Alinhamento ± 10 mm
quando necessário. Verifica-se o alinhamento da fiada, e mede-se
com a trena o ponto que estiver mais afastado da linha.
Posiciona-se a régua com bolhas encostando-a diagonalmente à
Planicidade
parede, e verificando-se então se os blocos estão no mesmo plano.
Coloca-se o esquadro metálico nos encontros entre o pano de
alvenaria de referência e os panos ortogonais a ele, encostando uma
das faces no pano de referência e medindo o afastamento, quando
Esquadro ± 2 mm/m
existir, entre o gabarito e o outro pano de alvenaria. Verifica-se
através de comparação com o projeto, se as medidas obtidas
atendem às especificações.
Fonte: Ferreira et al (2004).

4. ANÁLISE DOS MATERIAIS E SISTEMA CONSTRUTIVO

4.1. Verificação dos blocos, argamassas e grautes


O bloco utilizado para as análises possui a seguinte dimensão nominal: 140x190x290mm (L
(largura) x H (Altura) x C (Comprimento)), representando 66,7 % dos blocos mais
empregados no empreendimento. A argamassa utilizada para o assentamento dos blocos era
industrializada do tipo Multi-Uso. Com base nos dados levantados, são apresentadas as
características dos materiais empregados, demonstrando os respectivos comportamentos no
decorrer dos meses.

4.1.1. Análise dimensional dos blocos cerâmicos


Na análise dimensional tanto a largura como a altura dos blocos cerâmicos apresentaram
medidas dentro das tolerâncias média de ± 3 mm, estabelecido pela NBR 15270 (2005), no
decorrer dos meses. O comprimento apresentou valores acima do tolerado, se enquadrando de
uma maneira geral dentro das prescrições admissíveis. A Tabela 2 demonstra os resultados
dessa análise, sendo representado pela média geral de todas as amostras, em cada variável.
Apesar da análise não demonstrar os limites acentuados, na verificação em campo a
variabilidade dimensional e a falta de geometria afetaram a coordenação modular.

Tabela 2: Variação média das dimensões do bloco 140x190x290mm


Variável (mm) Média Desvio Padrão Coef. Variação N° Obs
Largura 139 1,13 0,81 156
Altura 190 0,84 0,44 156
Comprimento 292 2,14 0,73 156
4.1.2. Verificações de defeitos nos blocos
Os blocos podem apresentar defeitos intrínsecos à fabricação, transporte e ou manuseio. Neste
item são verificadas as seguintes ocorrências: fissuras, deformações, lascas, quebras e
descolorações. A Tabela 3 ilustra esses defeitos.

Tabela 3: Principais defeitos encontrados nos blocos


Fissura Deformação Lasca Quebra Descoloração

Para a avaliação dos defeitos foram adotadas duas inspeções: uma com blocos cerâmicos de
diferentes paletes escolhidos aleatoriamente e outra com blocos de um mesmo palete. Os
defeitos foram apurados em 50 blocos cerâmicos, podendo ocorrer à sobreposição simultânea
para um mesmo bloco. A Figura 2 expressa os resultados da primeira e segunda inspeção.
50 blocos escolhidos de vários paletes
Tipo de defeitos N° %
Fissuras 19 26
Deformações 15 20
Lascas 18 24 Lascas
Quebras 5 7
Descolorações 17 23
Descolorações
Defeitos

Número de defeitos 74 100 Deformações

50 blocos escolhidos de um palete Fissura


Tipo de defeitos N° %
Quebras
Fissura 7 11
Deformações 14 21 0 5 10 15 20 25 30
Lascas 21 32
Percentual (%)
Quebras 5 8
Descolorações 19 29
Número de defeitos 66 100
Figura 2: Distribuição dos defeitos

Levando em consideração os resultados coletados, confrontando os defeitos em ambas as


inspeções, é possível verificar a presença de lascas nos blocos inspecionados com 27,9 %,
seguidos da ocorrência de descolorações 25,7 %, deformações 20,7 % e fissuras 18,6 %. As
quebras ocorreram em menor intensidade 7,1 %.

Essa caracterização visual depende do bom senso do operador na escolha dos blocos. No
palete escolhido, um ou mais defeitos pode ter destaque em relação aos demais, no entanto há
sempre a predominância e a freqüência de defeitos comuns em todos os lotes. Visualmente
consegue-se distinguir essas imperfeições. No palete da Figura 3.a percebesse uma
uniformidade entre os blocos, diferentemente da Figura 3.b que predominam as descolorações
e da Figura 3.c lascas e quebras.

A presença dos defeitos serve como parâmetro de dados para que as empresas observem e
melhorem os seus processos, promovendo as correções necessárias.
a b c
Figura 3: Predominância de defeitos entre paletes

4.1.3. Resistências dos blocos cerâmicos e argamassas de assentamento


A resistência à compressão da argamassa deve ser inferior à resistência das unidades
cerâmicas, afim de que estas possam absorver as deformações (ROMAN et al, 2002). Sendo
assim, a sua resistência estimada em projeto foi de 4,0 MPa, enquanto que a do bloco foi 6,0
MPa na área líquida. O gráfico da Figura 4 mostra esse parâmetro por meio das comparações
entre as resistências médias dos blocos e argamassas atingidas no decorrer dos meses. A
média de todas as amostras de argamassa correspondem a 6,0 MPa, enquanto que a resistência
média obtida (fbm) dos blocos foi de 10,6 MPa, no período de cinco meses. Em termos dessas
correlações, tendo em vista que as resistências (bloco x argamassa) apresentaram um aumento
proporcional ao requisitado em projeto, os mesmos atendem eminentemente aos preceitos
impostos.

14,0
12,0
Resistência (MPa)

10,0
8,0 Blocos
6,0 Argamassas
4,0
2,0
0,0
Out/07 Nov/07 Dez/07 Jan/08 Fev/08
Mês
Figura 4: Resistências à compressão média dos blocos cerâmicos e argamassas

4.1.4. Resistência à compressão do graute


O graute confinado aumenta a capacidade resistente da parede que estará submetida a esforços
de compressão (ROMAN et al, 2002). A resistência do graute, segundo a NBR 10837 (1989),
deve ter características com o dobro da resistência do bloco na área bruta, ou igual ou superior
à resistência a compressão do bloco na área líquida. A resistência média de todas as amostras
foi de 13,6 MPa aos 7 dias e 16,8 MPa aos 28 dias. A Tabela 4 mostra os valores das
resistências aos 7 e 28 dias. Como a resistência média dos blocos foi de 10,6 MPa na área
líquida e as resistências médias dos grautes ficaram superiores a esse valor aos 28 dias, logo
as resistências à compressão dos grautes atendem as premissas exigidas.

Tabela 4: Resistências à compressão média dos grautes


Resistência Desvio Coef. Variação Valor Valor
Média N° Obs
(MPa) Padrão (%) Mínimo Máximo
7 dias 13,6 4,00 29,41 9,4 19,2 6
28 dias 16,8 4,25 25,37 12,6 23,9 6

4.2. Verificações em campo


Selecionaram-se duas paredes, garantindo a inspeção de pelo menos uma parede para cada
apartamento, e um pano da área comum de cada apartamento. A Figura 5 indica as paredes
que foram vistoriadas in loco.

Paredes onde foram


tirados os prumos e
alinhamentos

Pontos onde foram


tirados os esquadros

Figura 5: Planta-baixa do pavimento identificando as paredes inspecionadas

4.2.1. Prumo das paredes


Em cada parede mediu-se o prumo em três pontos estratégicos, dois nos extremos e um no
meio da parede. Realizou-se a inspeção em todas as paredes especificadas na Figura 5 nos
quatro pavimentos. Os valores são ilustrados no gráfico da Figura 6.

20
18
Desaprumo (mm)

16
14 1° Pavimento
12 2° Pavimento
10 3° Pavimento
8
6 4° Pavimento
4
2
0
1 2 3 4 5 6 7 8
Parede
Figura 6: Variação dos desaprumos das paredes

O maior desaprumo encontrado durante a aferição foi de 20 mm. A média dos desaprumos
das paredes foi de 5 mm. Segundo Ferreira et al (1994) a tolerância para o desaprumo é de 2
mm/m, que corresponde neste caso, a 5,2 mm da altura total da parede do pavimento (2,60 m).
Logo, das 32 paredes averiguadas, 14 se encontraram fora da tolerância.

4.2.2. Alinhamento das paredes


A vistoria dos alinhamentos foi realizada esticando-se uma linha na altura do peitoril da janela
(1,20 à 1,50 m), nas mesmas paredes mencionadas anteriormente na Figura 5. Mediu-se o
valor do trecho mais afastado em relação a linha. Os valores obtidos estão representados na
Figura 7.

6
Alinhamento (mm).

5
1° Pavimento
4
2° Pavimento
3
2 3° Pavimento
1 4° Pavimento
0
1 2 3 4 5 6 7 8
Parede
Figura 7: Variação dos alinhamentos das paredes

A variação no alinhamento de 2 mm, corresponde a 43,7% do total vistoriado. O maior valor


encontrado nessa inspeção foi de 5 mm. Para Roman et al (2002) a tolerância aceitável no
alinhamento é de 1 mm/m, limitando algumas cotas a não atenderem esse quesito. Por outro
lado, Ferreira et al (1994) admite tolerâncias de ± 10 mm, dando margem para que todos os
valores sejam aceitos.

4.2.3. Esquadro das paredes


Munidos de um esquadro de alumínio de 1 m para ambos os lados, foram aferidos
internamente os planos ortogonais nos quatro cantos da edificação, nos locais indicados na
Figura 5. Os resultados apurados nessa inspeção estão representados graficamente na Figura
8.

10
Esquadro (mm).

8
6
4
2
0
1° 2° 3° 4°
Pavimentos

Figura 8: Variação dos esquadros das paredes

Os valores estão representados por pavimento, contendo a variação no esquadro das 4 paredes
analisadas. Tendo como cenário os vestígios de argamassas entre as juntas e blocos
assentados com imperfeições geométricas, procuraram-se durante a vistoria, o posicionamento
do esquadro em pelo menos dois pontos distintos no mesmo canto ortogonal as paredes
(primeira fiada e em meia parede), a fim de confrontar as leituras buscando-se superfícies
mais planas.
Na inspeção dos esquadros, de acordo com os critérios atribuídos por Ferreira et al (1994), a
tolerância deve-se enquadrar por volta de ± 2 mm/m. As aberturas nos esquadros variaram em
média 3,5 mm/m, sendo que o maior valor encontrado foi de 10 mm em um metro de parede.
Partindo-se da referência do autor, considerando-se os excedentes a 2 mm/m, tem-se que
44.% dos valores não satisfazem o requisito exigido.

4.3. Inspeção realizada em campo

4.3.1. Variabilidade dimensional


A variação dimensional implica na uniformidade da execução das paredes, consequentemente,
interfere no desempenho da equipe, resultando queda de produtividade (ROMAN et al, 2002).
Além disso, compromete na obtenção de revestimentos com espessuras reduzidas, acarretando
no maior consumo de argamassa para a regularização da superfície. Na vistoria realizada, logo
na primeira fiada é nítido o emprego de unidades que apresentam irregularidades. Percebesse
na amarração das fiadas o emprego do bloco especial “T” com deformações e imperfeições na
geometria, conforme é exemplificado na Figura 9.a. A Figura 9.b mostra um deslocamento de
10 mm em relação ao outro, na intersecção entre dois blocos pertencentes à mesma família.

a b
Figura 9: (a) Bloco fora de alinhamento na primeira fiada; (b) Variação dimensional dos
blocos na largura.

4.3.2. Espessura das juntas de argamassa


Para compensar a falta de geometria dos blocos, as juntas foram preenchidas com argamassa
até a cota correspondente, mantendo o prumo e o nivelamento das fiadas. Vale lembrar que
juntas pouco espessas possuem baixa capacidade de absorver deformações, ao passo que
sendo muito espessas, promovem redução de resistência mecânica da parede e aumento de
consumo de argamassa. Segundo pesquisadores para garantir a resistência à compressão e a
aderência entre as partes, o ideal são juntas com aproximadamente 10 mm de espessura.

Figura 10: Juntas com espessuras inadequadas.


Constatou-se através de medição, que a maioria das paredes prontas, possuiu junta com
espessuras entre 10 a 20 mm. Entretanto, em alguns casos chegou-se a espessuras entre 25
mm a 35 mm (Figura 10). Impactando na qualidade e desempenho.

4.3.3. Excentricidades nas paredes


“A norma inglesa prevê tanto excentricidades acidentais e iniciais, enquanto que a norma
nacional considera as cargas atuando axialmente às paredes” (ROMAN et al, 2002, p.126).
No projeto é sempre interessante majorar as excentricidades acidentais, para evitar que o
coeficiente de segurança seja minorado, decorrente de falhas construtivas como mostra a
Figura 11, encontrada durante a vistoria. Roman et al (2002) argumenta que a excentricidade
reduz a resistência à compressão da alvenaria, além disso, a correção do desaprumo deverá ser
feita pelo incremento na espessura dos revestimentos, onerando no consumo e gastos de
materiais.

Figura 11: Descontinuidade do prumo, na sobreposição dos pavimentos.

4.3.4. Rasgos em paredes


A quebra de bloco para passagem de tubulações é um fator preocupante, pois acaba
comprometendo a capacidade resistente da parede. Verificou-se que todas as paredes dos
banheiros, no pavimento térreo, foram rasgadas horizontalmente e em alguns casos
verticalmente, para a passagem de instalações hidráulicas (Figura 12). Uma sugestão para
evitar essa prática seria o emprego de blocos tipo canaleta, ou a utilização de blocos com
espessura inferior formando reentrâncias para a acomodação das tubulações.

Figura 12: Rasgos na parede para passagem hidráulica.


5. CONCLUSÃO
Parte dos problemas abordados na presente pesquisa atribui-se ao uso de blocos inadequados.
A falta de inspeção no controle de recebimento fomenta a vulnerabilidade e a aceitação
pacífica de blocos contendo defeitos. Por conseqüência, é transferida a responsabilidade para
o canteiro de obra, sujeitando-se a sua aplicação mediante os improvisos e adequações, com
reflexos imediatos no decurso da produção.

Quando os problemas relacionam-se com o material empregado ficam restritas as


probabilidades de uma execução satisfatória. Concomitantemente, quando são oriundos de
métodos e procedimentos, têm-se maiores possibilidades de intervenções e correções. Embora
a política da empresa tenha procedimentos para controles de não-conformidades, o mesmo
não se mostrou eficaz, sendo notório em vários pontos descritos na pesquisa.

O desenvolvimento das atividades e procedimentos operacionais requer planejamento e


esforços incondicionais de todos os setores envolvidos. Todas as obras e serviços deverão ser
executados utilizando-se mão-de-obra, materiais e equipamentos adequados, em consonância
com os projetos e especificações fornecidas. Somente a integração permitirá êxito no
conjunto.

Este estudo proporcionou uma visão ampla da prática construtiva em alvenaria estrutural de
blocos cerâmicos, com informações pertinentes, que podem levar os profissionais envolvidos
a repensarem em estudos mais apurados, na tentativa de promoverem modificações dos
procedimentos, e padronização dos métodos e serviços.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15270. Componentes
Cerâmicos: Parte 2: Blocos cerâmicos para alvenaria estrutural – Terminologia e requisitos.
Parte 3: Blocos cerâmicos para alvenaria estrutural e de vedação – Métodos de ensaio. Rio de
Janeiro, 2005.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 5739. Concreto - Ensaio de
compressão de corpos-de-prova cilíndricos. Rio de Janeiro, 1994.
FERREIRA et al. Metodologia de controle da qualidade de execução para sistema construtivo
em alvenaria estrutural não armada. In: ROMAN, H. R.; SINHA, B. P. Proceedings of 5th
International Seminar on Structural Masonry for Developing Countries. Florianópolis,
1994. Anais Florianópolis: UFSC/ University of Edinburg/ ANTAC. v.1. p. 529 - 538.
NAZÁRIO, L.F.P. Avaliação de práticas construtivas em alvenaria estrutural com blocos
cerâmicos - Estudo de Caso. 2008. 142 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em
Engenharia Civil) – Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma.
OLIVEIRA, F. L.; HANAI, João Bento de. Alvenaria estrutural de blocos cerâmicos:
patologias e técnicas inadequadas. Téchne, São Paulo, n.62, p. 54-58, maio. 2002.
ROMAN, Humberto Ramos et al. Análise de alvenaria estrutural. Florianópolis:
Universidade Corporativa da Caixa, 2002. 162 p.
AVALIAÇÃO DE SISTEMAS DE IMPERMEABILIZAÇÃO –
PROJETO E EXECUÇÃO

Deise de Souza Costa


Universidade do Extremo Sul Catarinense
deise.eng@gmail.com
Gihad Mohamad
Universidade do Extremo Sul Catarinense
gihad@unesc.net

RESUMO
Este artigo visa analisar e avaliar os sistemas de impermeabilização existentes no mercado, e
também os diferentes tipos de materiais. Foram analisadas patologias ocasionadas em uma
edificação existente que não concebeu a execução da impermeabilização em sua construção.
Constatou-se que o sistema impermeabilizante mais utilizado é a manta asfáltica e que esse
material tem um custo mais elevado. Também, deve se considerar a relação custo benefício
desse tipo de impermeabilização ao longo do tempo, pois possui um bom desempenho a
fadiga e ao desgaste, gerando custos menores com manutenção. O enfoque principal do
trabalho refere-se à descrição de detalhamentos em cada substrato a ser impermeabilizado,
visando minimizar os problemas existentes em uma edificação, para não ocasionar patologias
futuras, gerando bem estar e conforto aos usuários.

1. INTRODUÇÃO
Com as exigências do mercado, onde as construções deverão ter um bom desempenho e
também a rapidez da mesma sejam satisfatórios ao cliente e ao empreendedor, muitas vezes
não é realizado um planejamento adequado para uma obra. Esse planejamento deve englobar
desde a concepção da edificação, até a compatibilização de todos os projetos, para que não
haja interferência nos diferentes subsistemas. A compatibilização é um tema que está sendo
implantado aos poucos na construção civil, pois os erros na sobreposição dos projetos podem
gerar problemas, como a reconstrução total e a patologias diversas. Um projeto de
impermeabilização bem planejado, com projetos e detalhes estudados, com materiais
apropriados e profissionais capacitados, possibilita um maior aumento da vida útil da
edificação.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Impermeabilização
Impermeabilização é um processo utilizado a um determinado local, visando torná-lo
impermeável. Fazendo com que a água ou outro fluído não consiga penetrar nesse
determinado ambiente, garantindo a estanqueidade do local.

2.2 Planejamento da impermeabilização


De acordo com PORCIÚNCULA (2007), se estudarmos o custo de uma boa
impermeabilização, veremos que varia entre 1% a 3% do custo total da obra. Se os serviços
forem executados apenas depois de constatar problemas com infiltrações na edificação já
pronta, o custo com a impermeabilização ultrapassa em muito este percentual. Isto porque
refazer o processo de impermeabilização pode gerar um acréscimo de 10% a 15% do valor do
serviço.
O projetista de impermeabilização deve analisar os projetos básicos da obra procurando
evidenciar as áreas que necessitam de impermeabilização e avaliar os tipos das estruturas
entre outros aspectos, iniciando o estudo dos sistemas adequados para cada situação. Um
anteprojeto avaliará as interferências nos detalhes de hidráulica, elétrica, acabamentos e entre
outros, finalizando o estudo para o projeto definitivo. Isso ocorrerá, porém num momento em
que ainda possam ser discutidos, de forma a eliminar adaptações efetuadas na obra.

2.3 Desempenho da impermeabilização


O desempenho da impermeabilização em uma obra é obtido com a junção de alguns
componentes, tais como:
• Projeto de impermeabilização;
• Detalhamento;
• Qualidade do material;
• Qualidade da execução;
• Fiscalização da execução.

2.4 Sistemas de impermeabilização


Os sistemas impermeabilizantes quanto à flexibilidade são divididos em dois tipos:

2.4.1 Sistema flexível


De acordo com CUNHA e NEUMANN (1979), sistemas flexíveis são impermeabilizações
feitas com mantas pré-fabricadas ou com elastômeros dissolvidos e aplicados no local, em
forma de pintura ou melação em várias camadas e que, ao se evaporar o solvente, deixam uma
membrana hipoteticamente elástica.

Os tipos de sistemas de impermeabilização flexível são:


Feltro asfáltico e asfalto; emulsão asfáltica e véu de fibra de vidro; membrana elastomérica;
membrana acrílica; neoprene e hypalon; manta butílica; manta de PVC; mantas asfáltica;
manta elastomérica;

2.4.2 Sistema rígido


Segundo CUNHA e NEUMANN (1979), as impermeabilizações rígidas são os concretos que
se tornam impermeáveis pela inclusão de um aditivo, e os revestimentos com argamassas,
tratados da mesma forma.

Os tipos de sistema de impermeabilização rígidos são:


argamassa impermeável com aditivo hidrófugo; argamassa modificada com polímeros;
cimento polimérico; concreto impermeável; borracha clorada; silicone (pintura hidrófuga);
processos de cristalização; cimento modificado com polímero; membrana epoxídica.

2.5 Método executivo da impermeabilização


A superfície onde irá receber a impermeabilização deverá ser previamente lavada, isenta de
pó, areia, resíduos de óleo, graxa, desmoldante, etc. As cavidades ou ninhos existentes na
superfície devem ser preenchidos com regularização com argamassa de cimento e areia, traço
1:3, com caimento mínimo de 1% para os coletores d’água. As tubulações deverão estar
limpas e chumbadas convenientemente. Na região dos ralos, deverá ser criado um rebaixo de
1 cm de profundidade, com área de 40x40cm com bordas chanfradas para que haja
nivelamento de toda a impermeabilização, após a colocação dos reforços previstos neste local.

Em reservatórios, piscinas e encontro de lajes com paredes, que serão aplicadas mantas, na
camada de regularização devem ser executados cantos arredondados, com um raio de 5 cm, de
forma a evitar fissuração ou rasgamento da manta, o objetivo do arredondamento é proteger
os vértices contra a pressão da água nestes locais, considerados críticos, e permitir um melhor
controle da aplicação dos materiais impermeabilizantes evitando acúmulos e formação de
vincos. Em impermeabilizações com mantas as sobreposições deverão ser executadas no
sentido do caimento, respeitando a sobreposição de 10 cm. Após a aplicação do sistema de
impermeabilização escolhido, deve-se fazer o teste de estanqueidade, por um período de 72
horas, é de fundamental importância em se tratando de impermeabilização fazer o teste.
Recomenda-se ser efetuada uma prova de carga com lâmina d’água, para verificação da
aplicação.

Sobre a impermeabilização, deve-se colocar uma camada separadora que pode ser de papel
kraft ou filme de polietileno, para evitar que os esforços de dilatação e contração da
argamassa de proteção mecânica atuem diretamente sobre a impermeabilização.

2.5.1 Proteção mecânica


Proteção mecânica é a camada sobreposta à impermeabilização, com o objetivo de proteger a
impermeabilização dos agentes atmosféricos e mecânicos. Deve-se executar proteção
mecânica com argamassa de cimento e areia no traço 1:4 em volume, e com uma espessura
mínima de 3 cm. Em áreas verticais, e de pequenas inclinações armar com tela galvanizada.
Em seguida, realizar a cura úmida da camada de proteção, que deverá ser de
aproximadamente sete dias.

2.5.2 Isolamento térmico


De acordo com YAZIGI (2000), a proteção térmica objetiva evitar oscilações térmicas
bruscas, reduzir a influência da temperatura em deformações da construção, melhorar o
conforto térmico na edificação e, quando aplicada sobre a impermeabilização, aumentar sua
vida útil. Precisa atender aos seguintes requisitos:
• Ser estável, resistente às cargas atuantes, indeteriorável e não sofrer movimentação ou
desagregação que possa transmitir algum dano à impermeabilização;
• Para aplicação sobre a impermeabilização, deve ser de baixa absorção de água, para
manter suas propriedades de isotermia.
• Compatibilidade físico-química com o sistema impermeabilizante.

2.5.3 Juntas
De acordo com CUNHA e NEUMANN (1979), junta de dilatação pode ser definida como
sendo uma separação entre duas partes de uma estrutura para que estas partes possam
movimentar-se, uma em relação à outra, sem que haja qualquer transmissão de esforço entre
elas.

2.6 Escolha do sistema de impermeabilização


Conforme VERÇOZA (1983), a escolha do sistema de impermeabilização a adotar para cada
problema não é fácil, depende das condições locais, superfície a impermeabilizar,
durabilidade pretendida, segurança desejada, utilização da superfície, preço dos materiais,
qualidade da mão de obra disponível, dificuldade de execução, etc.

2.6.1. Mantas
As mantas constituem um dos muitos sistemas de impermeabilizantes do tipo flexível.
Quando pré-fabricadas, permitem maior facilidade de execução na obra e melhor controle de
materiais, o que é um real avanço tecnológico sobre a impermeabilização tradicional com
feltro e asfalto. São fornecidas em rolos, e são fáceis de ser instalado nas estruturas.
2.6.2 Cimento Polimérico
Argamassa a base de cimento, aditivada com polímeros que lhe conferem plasticidade e
impermeabilidade. Sistema impermeabilizante rígido destinado à aplicação em estruturas de
concreto não passível de fissuração.
Cimento polimérico é um material fornecido em dois componentes:
• componente A (resina): Polímeros acrílicos emulsionados.
• componente B (pó cinza): Cimentos especiais aditivos impermeabilizantes,
plastificantes e agregados minerais.

O material é preparado adicionando aos poucos o componente B (pó cinza) ao componente A


(resina) e misturar mecanicamente por 3 minutos ou manualmente por 5 minutos, dissolvendo
os possíveis grumos que possam vir a formar. Depois de misturados os componentes A + B, o
tempo de utilização deste não deverá ultrapassar o período de 40 minutos. A superfície a ser
impermeabilizada com cimento modificado, deverá estar previamente umedecida e não
encharcada. Aplicar sobre a superfície de concreto, três demãos em sentido cruzado do
cimento modificado, com intervalos de 2 a 6 horas entre demãos, dependendo da temperatura
ambiente, se a demão anterior estiver seca, molhar o local antes da nova aplicação.

2.6.3 Membranas
Conforme YAZIGI (2000), membrana é um produto ou conjunto impermeabilizante, moldado
no local, com ou sem armadura.
As membranas podem ser classificadas em:
• Membrana asfáltica;
• Membrana acrílica;
• Membrana de polímeros.

2.6.4 Emulsão
Asfalto dissolvido em água, através de emulsificadores a base de sabões de soda tenso-
redutores. Usa-se sabão a base de soda junto ao asfalto fluido resultando uma dispersão que
tem na seqüência, o emulsionamento eliminado por processos químicos, sendo que a
dispersão permanece podendo ser aplicada como uma tinta.

O produto já vem pronto para ser aplicado. Aplicar uma demão da emulsão diluída em 50%
de água, que tem a função de camada de imprimação, e aguardar a secagem total. Aplicar com
broxa, rolo ou trincha uma demão de emulsão sobre o local a ser impermeabilizado, aguardar
a secagem entre demãos por no mínimo 12 horas. Entre a 2ª e a 3ª demãos, aplicar tela de
poliéster ou nylon malha 2 x 2 mm. Aguardar a cura completa do produto por no mínimo
cinco dias, após a última demão parta depois aplicar a proteção mecânica.

3. Descrição dos sistemas de impermeabilização para cada fronteira

3.1 Lajes
As lajes necessitam de um acabamento, e as impermeabilizações não podem ficar expostas ao
sol e as intempéries, pois podem desenvolver patologias. Quanto ao processo de
impermeabilização as lajes podem ser classificadas em:

3.1.1 Laje transitável


São lajes que devem receber uma pavimentação adequada ao trânsito de pedestres, mas não de
veículos. Como é uma laje que receberá movimentação de pessoas, a proteção mecânica
deverá ter uma espessura de no mínimo 3 cm e deverá ser armada com uma tela plástica.
Propõe-se elevar a viga 5 cm, de forma a evitar a fissura que geralmente ocorre em
construções devido a laje e bloco cerâmico terem diferentes coeficientes de dilatação térmica,
proporcionando a entrada de umidade.

Em lajes transitáveis por pessoas, o sistema de impermeabilização mais adequado é com


manta asfáltica, nesse detalhe (Figura 01 e 02) além da elevação da viga, propõe-se fazer o
isolamento térmico com espuma rígida de poliuretano. O mesmo possui excelente resistência
à compressão, boa resistência à temperatura. Na junta de dilatação, sugere-se utilizar
poliestireno expandido, e como selante na junta, utilizar mástique plástico a base de amínica,
que melhor se adapta ao concreto.

Figura 01: Lajes transitáveis Figura 02: Detalhe


Fonte: Arquivo do autor, 2008 Fonte: Arquivo do autor, 2008

3.1.2 Laje com trânsito ocasional


A impermeabilização rígida não é recomendada para esses locais susceptíveis de fissuras
provenientes da oscilação térmica. Recomenda-se manta asfáltica. Como proteção mecânica,
por economia e facilidade na manutenção, recomenda-se utilizar seixo rolado solto, de cor
clara, a espessura mínima é de 2 cm (Figura 03 e 04). Por se manter sempre plástico, dispensa
junta de dilatação.

Figura 03: Lajes não transitáveis Figura 04: Detalhe


Fonte: Arquivo do autor, 2008 Fonte: Arquivo do autor, 2008
3.1.3 Laje transitável por veículos
Nas lajes de estacionamento, geralmente a solução indicada é a construção de placas de
concreto armada, é necessário que as placas não desloquem pelo efeito de freada ou
aceleração dos veículos. Recomenda-se utilizar mantas asfálticas ou elastoméricas. Em função
da grande movimentação de veículos e com peso em excesso, recomenda-se fazer uma
camada amortecedora entre a impermeabilização e a proteção mecânica. Essa camada
amortecedora poderá ser de mástique asfáltico com traço 1:8:3 de cimento, areia e emulsão
asfáltica com 2 cm de espessura. E a proteção mecânica com traço 1:4, com 5 cm de espessura
com tela soldada e juntas de 2cm, a cada pano de 1,5x1,5 m.

3.2 Fundações
Nos pavimentos em contatos com o terreno podem surgir problemas como a ascensão capilar
da umidade do solo. Pode aparecer nos pisos e propagar-se pela parede, podendo atingir altura
em torno de 2 m. Para evitar o aparecimento da umidade, que podem gerar além de doenças
respiratórias, pode causar eflorescências, descolamento das pinturas e desagregação de
argamassas de revestimento, necessita-se a aplicação de um sistema de impermeabilização
para proteger pisos e paredes.

A escolha do sistema mais adequado vai depender das geometrias das peças, facilidade de
acesso, nível do lençol freático e qualificação da mão de obra. Peças com pequenas dimensões
ou superfícies muito recortadas devem ser impermeabilizadas com membrana asfálticas. Em
cortinas com possibilidade de acesso a face que resultará em contato com o solo, recomenda-
se a impermeabilização com manta asfáltica. Poderão receber o tratamento interno com
cristalizante ou cimento polimérico. Poderá também ser utilizada a manta asfáltica, desde que
não tenha cantos vivos, pois a manta não poderá ser dobrada.

A impermeabilização com membrana asfáltica é composta pela sobreposição de camadas de


asfalto e estruturadas com véu de fibra de vidro ou tela de poliéster. A aplicação é feita com
auxílios de broxas de fibras de vegetais, em camadas com sentido contrário, e aplicando o
material estruturante contra o asfalto recém espalhado. É difícil determinar a espessura
padrão, mas é estimado um consumo médio de 4 a 6 kg/m2. (Figura 05)

Figura 05: Impermeabilização de fundações


Fonte: Arquivo do autor, 2008
3.3 Banheiro
Um dos problemas mais freqüentes em banheiros é o empoçamento de água no piso e,
conseqüentemente, a infiltração. Uma das causas está na falta de caimento do piso.
Recomenda-se fazer a regularização com desnível de no mínimo 1% entre os cantos da parede
na direção dos ralos, para favorecer o escoamento da água, com traço de cimento e areia 1:3
com espessura mínima de 2 cm. Os cantos, pontos formados pelo encontro da parede com a
laje do piso, precisam ser arredondados, formando a meia-cana.

VENTURA (2004), lembra que um dos maiores vilões de áreas como o banheiro,
principalmente no box, é a deficiência na fixação dos ralos. O fundamental é considerar que
os materiais possuem diferentes coeficientes de dilatação e que, se não estiverem bem
ajustados, é comum o aparecimento de fissuras no encontro do ralo com o piso. As tubulações
de PVC devem ser lixadas antes da aplicação dos impermeabilizantes a fim de garantir a
perfeita aderência entre eles. As empresas idôneas de impermeabilização fazem o teste de
refluxo, que atesta a eficácia de tal aderência.

Para lajes rebaixadas, é indicado o sistema de impermeabilização realizado com a membrana


asfáltica. Para evitar a percolação de água pelos cantos, é imprescindível subir a
impermeabilização e embuti-la nos rodapés, totalizando 40 centímetros do piso acabado. No
caso do box, ela deve subir 60 cm acima do nível do piso, evitando que respingos possam se
infiltrar através das paredes. Outro ponto fundamental no que se refere à impermeabilização e
nos banheiros é a falta de ventilação e a existência de vapor condensado no teto, provocando o
destacamento e o amarelamento da pintura, além do bolor.

Figura 06: Impermeabilização de banheiros


Fonte: Arquivo do autor, 2008

Impermeabilização de banheiro com membrana asfáltica:


• aplicar na superfície horizontal e vertical, uma demão de primer aplicado com escova
de fio fino, aguardar secagem de no mínimo 10 horas. Consumo aproximado de 0,5 l/m2;
• aplicar a membrana de maneira uniforme, nas superfícies horizontais e verticais da
regularização, utilizando rolo de lã de carneiro e aguardar secagem de 4 horas;
• após secagem da primeira demão, proceder de maneira uniforme o estiramento do
material estruturante (recomenda-se uma malha de 50 x 50 cm), sobrepondo com duas
demãos do material impermeabilizante nas superfícies horizontais e verticais.
• efetuar teste de lâmina d’água por 72 horas, para verificação de eventuais falhas, em
seguida, aplicação da proteção mecânica executada com uma argamassa de areio e cimento no
traço de 1:5, com espessura de 2 cm.

3.4 Análise edificação com patologias


Edificação com mais de 30 anos, situada no centro da cidade, com sistema construtivo em
estrutura de concreto armado. Essa edificação como outras construções mais antigas, não
concebiam o projeto de impermeabilização, causando manifestações patológicas. Além de
que, os usuários das edificações não têm por hábito fazer manutenções periódicas, somente
quando é constatado algum problema.

Na fachada, visualmente observa-se mofo e bolor (Figura 07), que pode ser causado pela má
qualidade do reboco, falta do tempo de cura adequado. A laje de cobertura não foi
impermeabilizada e não possui tratamento térmico. Em dias de chuva acumula água nos
cantos, a inclinação da laje não é suficiente para suprir o acúmulo de água. Nota-se a ausência
de pingadeira na platibanda, onde compromete a fachada e a própria platibanda.

Figura 07: Fachada com patologias Figura 08: Laje de cobertura


Fonte: Arquivo do autor, 2008 Fonte: Arquivo do autor, 2008

Por falta da impermeabilização, ocasionou infiltrações nos apartamentos, causando


desconforto aos condôminos, o ambiente fica insalubre, impróprio para uso. Nas paredes nota-
se o bolor e o destacamento na pintura. (Figura 09)

Figura 09: Infiltração nos ambientes Figura 10: Cobertura de fibrocimento


Fonte: Arquivo do autor, 2008 Fonte: Arquivo do autor, 2008
No local da laje onde não tem trânsito de pessoas, foi instalada telha de fibro cimento (Figura
10), que causa goteiras, pela má execução e a falta de manutenção. Além da
impermeabilização, com manta e a execução da inclinação necessária na laje, nessa parte onde
não há trânsito de pessoas, poderia ser utilizado seixo rolado, pra proteger a
impermeabilização e também fazer a isolação térmica, garantindo um melhor desempenho.

Constata-se que a falta do planejamento da impermeabilização nas construções causa


patologias. Comprometendo o desempenho e a vida útil da construção. Provocando prejuízos
financeiros aos usuários, pois acaba gerando custos altos com manutenção periódica, e que
dependendo do caso, o problema não é solucionado.

3.5 Consumo e custos de sistema de impermeabilização


De acordo com informações da principal empresa de impermeabilização na região de
Criciúma, os custos do sistema de impermeabilização com manta asfáltica, é o que possui o
valor mais elevado. Levando em consideração ao desempenho desse sistema com os demais,
o custo da impermeabilização com manta asfáltica torna-se mais viável, pois o seu bom
desempenho requer menos custos com manutenção. A seguir, tabela de consumo e custos de
sistema de impermeabilização, com base referente ao mês de maio de 2008.

Tabela 01: Tabela consumo, custos de sistemas de impermeabilização


Manta
Cimento Membrana
Maio/2008 Asfáltica
Polimérico Asfáltica
3 mm
Consumo 1,15 m2 / m2 3,00 kg/m2 4,00 kg/m2
Primer (consumo) 0,5 kg/m2 - 0,5 kg/m2
Valor Primer R$ 3,00/m2 - R$ 3,00/m2
Valor Material R$ 17,98/m2 R$ 2,75/m2 R$ 4,00/m2
Valor Total
R$ 22,17/m2 R$ 8,27/m2 R$ 17,50/m2
Material
Frete
R$ 2,21/m2 R$ 0,82/m2 R$ 1,75/m2
(10% material)
Mão de obra R$ 6,50/m2 R$ 9,00/m2 R$ 6,50/m2
Despesas Gerais R$ 2,00/m2 R$ 2,00/m2 R$ 2,00/m2
VALOR
R$ 32,88/m2 R$ 20,09/m2 R$ 27,75/m2
TOTAL
Fonte: Arquivo do autor, 2008

4. CONCLUSÃO
Foi constatada a ausência de:
• Junta de dilatação na laje de cobertura, onde futuramente pode ocasionar fissuras,
devida à diferença de dilatação térmica de cada material;
• Tempo de cura adequado para a proteção mecânica, para alcançar a resistência
almejada, e em algumas construções a proteção mecânica nem é executada;
• Manutenção periódica nas construções;
• Profissionais especializados em desenvolver projetos de impermeabilização.

Observou-se que o sistema impermeabilizante mais aplicado na região, é o sistema com manta
asfáltica para lajes, e o hidroasfalto (emulsão asfáltica) para banheiros.
O custo da aplicação da impermeabilização com manta asfástica é mais elevado em relação
aos outros sistemas, mais possui um desempenho melhor, gerando menores custos com
manutenção, e por conseqüência, o custo final acaba tendo menor valor.O custo do
planejamento da execução da impermeabilização em uma obra é menor do que o custo da
aplicação do sistema impermeabilizante de um problema já constatado, sem contar no
desgaste que gera ao usuário da edificação.

Por meio desse trabalho observou-se que um sistema de impermeabilização, com um bom
planejamento, detalhes coerentes com a realidade em obra, com a adequação dos materiais e
mão de obra de qualidade, trás ganhos substanciais para combater as intempéries e, portanto,
aumentando a vida útil da construção. Isso tudo gera uma edificação com níveis de
durabilidades maiores.

REFERÊNCIAS
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utilizados em impermeabilização. Rio de Janeiro: ABNT, 1983. 3p.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9574. Execução de
impermeabilização. Rio de Janeiro: ABNT, 1986. 12p.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9575. Impermeabilização
– seleção e projeto. Rio de Janeiro: ABNT, 2003. 2p.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9689. Materiais e sistemas
de impermeabilização. Rio de Janeiro: ABNT, 1986. 2p.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9690. Mantas de
polímeros para impermeabilização (PVC). Rio de Janeiro: ABNT, 1986. 2p.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9956. Mantas asfálticas –
estanqueidade à água. Rio de Janeiro: ABNT, 1987. 2p.
CUNHA, Aimar G. da; NEUMANN, Walter. Manual de Impermeabilização e Isolamento
Térmico. Rio de Janeiro. 1979. 190 p.
Impermeabilização. Disponível em: www.geocities.com/impermea. Acesso em 05 de
dezembro de 2007.
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Impermeabilização. Disponível em: www.fabertecnologia.com.br. Acesso em 03 de janeiro
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Impermeabilização Banheiro. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/classificados/imoveis/ult1669u1490.shtml. Acesso em 04
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PICCHI, Flávio Augusto. Impermeabilização de Coberturas. São Paulo: Pini. 1986. 208 p.
RIPPER, Ernesto. Manual Prático de Materiais de Construção: Recebimento, transporte
interno, estocagem, manuseio e aplicação. São Paulo: Pini, 1995. 252 p.
THOMAZ, Ercio. Tecnologia, gerenciamento e qualidade na construção. São Paulo: PINI,
2001. 449 p.
VERÇOZA, Enio José. Impermeabilização na Construção. Porto Alegre: Sagra. 1983. 150
p.
YAZIGI, Walid. A Técnica de Edificar. 3. ed. São Paulo: Pini. 2000. 648 p.
ESTABILIDADE GLOBAL EM EDIFÍCIOS ESBELTOS CONFORME NBR
6118/2003

Filipe Santos da Rocha


Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
webfiliperocha@ibest.com.br
Gihad Mohamad
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
gihad@unesc.net
Ângela Costa Piccinini
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
acp@unesc.net

RESUMO
Este trabalho tem por objetivo estudar a estabilidade global de edifícios esbeltos em concreto
armado, analisando os esforços solicitantes globais, deslocamentos horizontais e o coeficiente
γz sob o uso de diferentes arranjos de vigas, lajes e pilares. Além disso, identificar critérios
que contribuam para a redução dos deslocamentos horizontais e apontar alguns dos possíveis
efeitos gerados por estes na estrutura. As análises estruturais foram efetuadas com auxílio do
software Eberick V5 Gold, empregando-se o processamento via modelo de pórtico espacial e
análise P-Δ para a consideração dos efeitos de 2ª ordem, provenientes da não linearidade
geométrica da estrutura. As conclusões obtidas são: para edifícios esbeltos o
dimensionamento de elementos estruturais isolados é secundário, passando a ser a
estabilização da estrutura o principal desafio do projetista estrutural; um “torsionamento”
global do prédio altera a distribuição normal das cargas nos pilares; para a estabilidade global
do edifício as lajes pouco contribuem à rigidez dos pórticos; o coeficiente γz sofre
interferência direta das cargas verticais e da rigidez global do edifício para o eixo
considerado; recomenda-se ainda atenção especial às simplificações de norma quanto a não-
linearidade física dos materiais.

1. INTRODUÇÃO
A avaliação da estabilidade global das estruturas de concreto armado é ponto indissociável à
análise estrutural de prédios esbeltos, entendidos como edifícios verticais que apresentam uma
relação superior a 4:1 entre a altura total do projeto e a sua menor largura em planta. Para
estas características notadamente são consideráveis os efeitos causados por cargas horizontais,
tais como esforços solicitantes representativos e deslocamentos horizontais excessivos.
Buscou-se, assim, avaliar a interferência de alguns critérios na concepção estrutural desta
tipologia avaliando o comportamento global da estrutura. Dessa forma, o desenvolvimento do
estudo inicia com a adaptação de um pré-projeto arquitetônico efetuado para um edifício
residencial multifamiliar com 33 pavimentos tipo, 107,10 metros de altura e 8,50 metros para
menor largura em planta. Observando as possíveis interferências relevantes dos elementos
estruturais sobre a arquitetura foram propostos diferentes arranjos de vigas, lajes e pilares.
Em cada um dos arranjos as solicitações, deslocamentos horizontais e coeficientes γz foram
apontados e elencados como fonte de dados para a avaliação do comportamento global da
estrutura. As análises mostraram-se pertinentes para o entendimento dos possíveis efeitos a
que estão sujeitas as estruturas esbeltas, bem como à compreensão dos fatores que
influenciam os indicativos de instabilidade global e dos esforços solicitantes no conjunto.
Estes fatores permitem ao projetista estrutural tratar de forma coerente a manifestação dos
esforços, buscando a melhor distribuição, bem como propor de forma fundamentada uma
adequada concepção estrutural.

2. CARACTERÍSTICAS DO ESTUDO

2.1. Alterações propostas


O projeto analisado foi alvo de diferentes concepções estruturais para uma melhor
interpretação de alguns dos possíveis efeitos a que estão sujeitas as estruturas de prédios
esbeltos. Com esse intuito no desenvolvimento da pesquisa basicamente três procedimentos
relacionados à concepção estrutural foram efetuados:
• O uso de seções e posições diversas para pilares;
• Alteração da espessura da laje inicial e simulação com uso de laje maciça em concreto
armado;
• Diferentes arranjos para as vigas dos pavimentos.
Nas diversas concepções adotadas buscou-se a integração do projeto estrutural com os
possíveis projetos complementares e arquitetônicos, mesmo embora este não tenha sido o foco
da pesquisa. As interferências arquitetônicas, por exemplo, são evidentes e indispensáveis ao
projeto, tais como caixas de elevadores e circulações.

2.2. Projeto adotado


O prédio utilizado para as simulações iniciais é uma adaptação de um estudo arquitetônico
desenvolvido pela WEP Arquitetos Associados a um empreendimento vertical para o litoral
brasileiro. Por repetição da planta baixa formulou-se uma torre com 33 pavimentos, com o pé-
direito de 3,15 m, 107,10 m de altura total e 8,50 m para menor dimensão horizontal em
planta, totalizando uma relação de 12,6:1 para a consideração da esbeltez do projeto. Com
área total aproximada de 5.424,10 m², o estudo original contempla um apartamento por andar
com padrão de acabamento A.

Figura 1: Planta baixa adotada


Fonte: WEP Arquitetos Associados (2007)
2.3. Carregamentos
Conforme a NBR 6120 (1980) – Cargas para cálculo de estruturas de edificações – as cargas
são classificadas em permanentes (g) e acidentais (q). Neste estudo as cargas permanentes (g)
foram consideradas como:
• Peso próprio dos elementos de concreto armado considerado de 2500 Kgf/m³;
• Peso próprio das paredes em 1300 Kgf/m³, adotadas paredes de 15 cm de espessura;
• Regularização das lajes com capa de 5 cm de argamassa de concreto simples adotada uma
carga de 120 Kgf/m²;
• Revestimento de teto em gesso com 40 Kgf/m²;
• Revestimento cerâmico de piso com 30 Kgf/m², não considerado para o pavimento tipo 33.

As cargas acidentais (q) foram tomadas como de 200 Kgf/m² para todos os panos de lajes e de
250 Kgf/m² para as escadas. As ações provocadas pelo vento foram previstas ainda conforme
o estabelecido pela NBR 6123 (1988) – Forças devidas ao vento em edificações – sob as
seguintes considerações:
• Velocidade básica do vento de Vo= 30 m/s;
• Maior dimensão da edificação 107,10 m de altura;
• Rugosidade do terreno correspondente à categoria III;
• Fator topográfico S1=1,10;
• Fator estatístico S3=1,00;
• Coeficiente de arrasto em x e y iguais a 1,00;
• Ângulo de aplicação do vento à 0º para as direções x e y;

2.4. Agressividade do meio e durabilidade


A classe ambiental de agressividade II foi adotada para este projeto, apontada conforme a
NBR 6118 (2003) como de agressividade moderada, ou seja, ambiente urbano com pequeno
risco de deterioração da estrutura. Sob esta condição fez-se uso do concreto com fck 25 MPa,
recomendação mínima dada pela NBR 6118 (2003) para o ambiente adotado.
Os cobrimentos configurados aos elementos estruturais fixaram-se em 25 mm para lajes e 30
mm para vigas e pilares, seguindo orientação de norma para a durabilidade da estrutura, bem
como o limite de 0,3 mm para abertura de fissuras, admitida uma combinação freqüente de
carregamento para o estado limite de serviço.
Os limites para os deslocamentos verticais e horizontais seguem a tabela 13.2 da NBR 6118
(2003), para aceitabilidade sensorial:
• L/250 para deslocamentos visíveis em elementos estruturais;
• L/350 para vibrações sentidas no piso devido a cargas acidentais.
Quanto a efeitos em elementos não estruturais provocados pela movimentação estrutural
adotou-se um limite de H/1700 para a movimentação lateral do prédio, sob combinação
freqüente pela ação do vento.
O coeficiente de ponderação das ações γf é estimado em 1,40 para o concreto sob condição
desfavorável. Para fatores de combinação γf2 temos ψ0 =0,50, ψ1= 0,40 e ψ2 = 0,30,
considerados para cargas acidentais em locais em que não há predominância de pesos de
equipamentos que permanecem fixos por longos períodos de tempo, nem de elevadas
concentrações de pessoas (edifícios residenciais).
O aço utilizado para o cálculo foi o CA-50A com coeficiente de ponderação em 1,15 para
condição desfavorável.
3. ANÁLISE DA ESTABILIDADE GLOBAL

3.1. Modelo inicial


Foram adotados parâmetros e critérios de concepção para possibilitar o início das
verificações. Desta forma partiu-se das seguintes configurações:
• Lajes nervuradas com enchimento de painel EPS de 16x40x40 cm, com capa de concreto
de 14 cm, totalizando uma espessura de 30 cm de laje;
• Vigas nos bordos do pavimento e internas somente junto às circulações. Estas últimas
lançadas em virtude das peculiaridades arquitetônicas como caixa de elevadores e
ventilações das caixas de escada. Nos dois casos adotou-se espessura de 12 cm e altura de
60 cm, seguindo as recomendações da largura mínima dada pelo item 13.2.2 da NBR 6118
(2003). Todas as vinculações entre vigas e pilares foram modeladas com rigidez integral.

3.2. Concepções

3.2.1. Pilares
Os pilares são os elementos estruturais de manipulação inicial. Em primeira análise possuem a
tipologia e seções indicadas na tabela 01, com ou sem a presença de capitéis.

Tabela 01: Seção dos pilares para cada caso


Pilar-parede Caso Forma Tipo Seção (cm) Capitel (cm)
P1 01 Retangular 20 x 100 ausente
P1 02 Retangular 25 x 135 ausente
P1 03 Retangular 20 x 135 ausente
P2 01 Retangular 20 x 100 ausente
P2 02 Retangular 25 x 135 ausente
P2 03 Retangular 20 x 135 ausente
P3 01 Retangular 20 x 250 ausente
P3 02 L 243 x 250 x 20 x 20 ausente
P3 03 L 201,90 x 250 x 20 x 20 ausente
P4 01 Retangular 20 x 150 139 x 269
P4 02 L 170 x 190 x 20 x 20 ausente
P4 03 L 170 x 190 x 20 x 20 ausente
P5 01 Retangular 20 x 150 151,95 x 281
P5 02 Retangular 25 x 200 359 x 185
P5 03 Retangular 25 x 150 269 x 139
P6 01 Retangular 20 x 100 ausente
P6 02 L 150 x 100 x 20 x 20 231,95 x 281
P6 03 L 150 x 100 x 20 x 20 219 x 269
P7 01 Retangular 20 x 200,05 319,05 x 139
P7 02 L 240 x 190 x 20 x 20 ausente
P7 03 L 200,05 x 190 x 20 x 20 ausente
P8 01 Retangular 20 x 150 269 x 139
P8 02 Retangular 25 x 300 167 x 455
P8 03 Retangular 35 x 350 167 x 503
P9 01 Retangular 20 x 150 174,95 x 302,55
P9 02 L 165 x 85 x 20 x 20 318,95 x 239
P9 03 L 180 x 135 x 25 x 25 318,95 x 287
P10 01 Retangular 20x150 167 x 311
P10 02 L 150 x 150 x 20 x 20 316,05 x 311
P10 03 L 262,50 x 150 x 30 x 30 316,05 x 407
P11 01 Retangular 20 x 150 139 x 269
P11 02 Retangular 30 x 200 344 x 200
P11 03 L 40 x 200 320 x 160
P12 01 Retangular 20 x 100 220 x 140
As posições destes pilares em cada caso seguem as figuras 02 e 03.

Figura 2: Posição dos pilares caso 01

a) caso 02 b) caso 03
Figura 3: Posição dos pilares para o caso 02 e 03

3.2.2. Lajes
Mantendo as características do caso 03 em referência aos pilares e vigas, foram então
alteradas as características das lajes. Desta forma dois procedimentos foram verificados: o
aumento na espessura da capa de concreto da laje nervura de 14 cm para 19 cm totalizando
uma laje com 35 cm de espessura (caso 04), e ainda a substituição desta por laje maciça com
20 cm de espessura (caso 05).

3.2.3. Vigas
Partindo das concepções do caso 05, retirando-se apenas os capitéis dos pilares, as
verificações seguiram-se com alteração das características das vigas. Em primeira análise
foram incluídas vigas internas aos pavimentos com a mesma espessura e altura das vigas
adotadas nos bordos das lajes presentes até esta etapa, bw = 12 cm e h = 60 cm, (caso 06). O
novo arranjo de vigas é apresentada na figura 04. Para uma segunda simulação sob alteração
das características das vigas apenas a altura destas sofreram modificação passando de 60 cm
para 100 cm (caso 07).

Figura 4: Arranjo de vigas (caso 06)

3.3. Análise dos resultados


Os deslocamentos de topo do edifício são limitados em H/1700 de acordo com a tabela 13.2 da
NBR 6118 (2003), totalizando ao projeto utilizado, um deslocamento máximo sobre a
combinação freqüente de 6,30 cm. Os deslocamentos obtidos nas simulações para as direções x
e y são indicados na figura 05 que apresenta ainda os valores para ambos os eixos do fator γz.
Segundo Kimura (2007) os valores coerentes para o coeficiente γz variam entre 1,00 e 1,50.
Valores inferiores a 1,00 ou negativos são incongruentes e indicam a instabilidade da
estrutura. Valores superiores a 1,50 podem revelar ainda que a estrutura seja impraticável.
37,51

40
COMPORTAMENTO DOS ARRANJOS Deloc. x (cm)
35
Deloc. y (cm)

30 Gama-z(x)
22,92

Gama-z(y)
25
Valor

20
15,49

14,54
13,44

14,3

14,3
12,95

12,95
12,78

15
10,36

10,09
8,22

10
5,06

5,08
4,17

5
1,83

1,80
1,74

1,75

1,75

1,70
1,57

1,59

1,53

1,19
1,4

1,2

Caso 01 Caso 02 Caso 03 Caso 04 Caso 05 Caso 06 Caso 07

Figura 5: Comparação dos deslocamentos e fator γz obtidos nas simulações para x e y.


A aferição das cargas axiais nos diversos lances dos pilares demonstrou a existência de cargas
negativas (convencionado com sinal -) para alguns pilares, deixando estes de resistirem à
compressão e passando à condição de tirante, atuando preponderantemente à tração. Estes
valores são obtidos conforme as verificações dadas por combinações últimas de serviço
recomendadas no item 11.8.3.1 da NBR 6118 (2003). Na figura 06 é mostrada a evolução do
carregamento mínimo do pilar P4, sob as diversas concepções abordadas.

EVOLUÇÃO Ndmín
550
500
Caso 02
450
400
350
300 CASO 03
250
200
Nd (tf)

150
CASO 04
100
50
0
-50 CASO 05
-100
-150
-200
CASO 06
-250
-300
-350
-400 CASO 07
-450
-500
L34

L32

L30

L28

L26

L24

L22

L20

L18

L16

L14

L12

L10

L08

L06

L04

L02
LANCE DO PILAR

Figura 6: Evolução das cargas normais mínimas de cálculo em P4.

Este carregamento descontínuo das cargas é verificado também nos pilares P1, P2, P4, P6 e
P10 para o caso 01, e ainda nos pilares P1, P2, P3 e P7 para os demais casos.
Na figura 7 pode-se verificar o comportamento dos momentos máximos em torno do eixo y
para o pilar P8, que representa satisfatoriamente a evolução dos momentos fletores
solicitantes nos diversos pilares da estrutura.

MOMENTOS MÁXIMOS DE CÁLCULO


1800,00
1602,33 1599,16
1600,00 1496,50

1400,00
Mhdmáx (tf.m)

1200,00 1127,88
1021,83
1000,00

800,00
672,22

600,00

400,00

200,00

0,00
Caso 02 Caso 03 Caso 04 Caso 05 Caso 06 Caso 07
PILAR 08

Figura 7: Evolução dos momentos fletores máximos de cálculo em P8 em torno de y.


3.4. Discussão dos resultados
A primeira concepção estrutural demonstrou-se instável, ou seja, excessivamente deslocável
pelo parâmetro γz. Desta forma na distribuição adotada para o caso 02 propôs-se o aumento
desta rigidez fazendo uso da ampliação das seções e inércias dos pilares existentes, a exemplo
do núcleo de concreto armado na caixa de elevadores. Pode-se concluir que a redução
significativa dos deslocamentos e dos valores de γz apontados pela análise do caso 02,
demonstraram que o prédio passa a apresentar uma maior instabilidade para o eixo y do que
para o eixo x. Conclui-se para o caso 03 que os esforços concentram-se em peças com grande
rigidez como os verificados nos resultados gerados para o pilar P8, que elevou os momentos
fletores do caso 02 para o 03. Entre estas concepções o pilar tem sua seção ampliada e, por
conseqüência, sua rigidez característica fato este que importante para as considerações do
projetista. No caso 03 buscou-se, por meio do refinamento da distribuição das seções dos
elementos estruturais do caso 02, a proximidade entre os centros geométricos do pavimento e
o de rigidez dos pilares. Isso favorece a melhor distribuição dos esforços, sendo um critério
favorável para a redução das excentricidades globais.
eixo (y)

-0,14 ; 1,30
1,20 0,74 ; 1,21

1,00

0,80 Caso 01

0,60

Caso 02
0,40

0,20
Caso 03
-0,01 ; 0
0,00
-0,25 -0,05 0,15 0,35 0,55 0,75
eixo (x)

Figura 8: Posição entre os centros de rigidez e geométrico dos pavimentos.

A figura 8 apresenta os deslocamentos relativos apurados entre os centros geométricos do


pavimento e o de rigidez dos pilares para os casos 01, 02 e 03. A origem do sistema (0;0)
representa o centro geométrico do pavimento. Com esta análise houve uma tendência de
equiparação dos deslocamentos nos dois eixos para as ações horizontais, assim como a
aproximação para os coeficientes γz. Sob as diversas combinações de carregamentos, houve a
tendência do prédio literalmente “torser”, como mostra a figura 9. Este comportamento é
justificado pela deformação dos elementos de forma não-linear sob a ação de cargas verticais
e horizontais aplicadas em uma torre assimétrica. A resultante das forças horizontais
rotacionam a estrutura em torno do eixo de rigidez do prédio. Desta forma os esforços
provocados pelos momentos torsores são distribuídos pelos elementos da estrutura e resistidos
pelas peças que apresentam maior rigidez a torsão.
Figura 9: Deslocamentos do pórtico para o caso 03 (majorado em 40 x).

Por conseqüência em edifícios esbeltos alguns pilares podem apresentar carga mínima de
cálculo negativa como apontado anteriormente na figura 6. O exemplo dos pilares P3, P4 e P7
comuns a esta condição nas distribuições dos casos 02 e 03, pode-se verificar que existe uma
tendência de diminuição do acréscimo de carga com a altura da edificação até próximo a 2/3
da altura do prédio medido a partir da base, passando deste ponto a um aumento no
carregamento vertical.
A alteração das lajes, apontadas nos casos 04 e 05, demonstrou a influência do carregamento
vertical sobre o fator γz. A elevação dos coeficientes γz no caso 04 para as direções x e y
justifica-se pela majoração da carga total do prédio em relação ao uso da laje nervurada de 30
cm de espessura. Do mesmo modo, a redução relativa dos coeficientes do caso 04 para 05
segue influenciada pela minoração das cargas verticais incidentes.

Tabela 02: Evolução do γz sob o carregamento vertical.


Alterações Relação (tf/m²) γz (x) γz (y)
Caso 03 1,76 1,75 1,57
Caso 04 1,91 1,80 1,75
Caso 05 1,76 1,70 1,59

Em referência aos deslocamentos, conforme Kimura (2007), “se um edifício tem grandes
problemas de estabilidade, não adianta aumentar a altura das lajes”. A contribuição das lajes é
muito pequena e na maioria dos casos pode ser desprezada. Pode-se verificar que a alteração
da espessura das lajes para auxílio da estabilidade global do edifício pode ser uma solução um
tanto onerosa e sem resultados significativos. Isso foi verificado pelos resultados de
deslocamentos horizontais totais do prédio para o caso 04 e 05. Nestes dois casos houve a
mudança da tipologia da laje e das espessuras equivalentes.
As lajes não interferem para a rigidez dos pórticos resistentes em associação com as vigas e
de pilares, ou seja, a mesma funcionará como um diafragma rígido, hipótese que considera as
lajes infinitamente rígidas no seu plano, garantindo um comportamento mais realista da
estrutura no tocante aos deslocamentos horizontais.
Os incrementos nas inércias das vigas nas direções x e y ao projeto possibilitaram a ampliação
e formação de novos pórticos resistentes aos deslocamentos, com resultados satisfatórios à
estabilidade global da estrutura e a redução de esforços solicitantes incidentes.
4. CONCLUSÃO
Pode-se perceber que a formação de pórticos por vigas e pilares é mais eficiente aos
deslocamentos provocados por ações horizontais em comparação ao uso de lajes adotadas a
este fim. As lajes como indicadas pela literatura técnica não se prestam a absorção de esforços
globais distribuídos nos pórtico, porém são bem entendidas como diafragmas rígidos que
mantém uniforme os deslocamentos no próprio plano. Em adoção a estruturas sem a presença
de vigas, comum em lajes planas, os pilares são os grandes responsáveis pelo
contraventamento da obra.
Do mesmo modo o projetista deve ter especial atenção às direções pouco rigilizadas da
estrutura. Existe uma tendência natural, ou uma maior preocupação de incluir pórticos nas
menores direções da torre.
Com relação à rigidez dos pórticos, de fundamental importância à estabilidade, o uso de
núcleos rígidos à construção, tais como poços de elevadores, apresenta-se de grande valia para
redução dos deslocamentos horizontais. Quanto à manipulação da rigidez dos pilares, com
alteração das seções, pode ser conveniente buscar a aproximação do centro de rigidez do
prédio com o centro geométrico dos pavimentos. Com esta ferramenta os valores dos
deslocamentos tendem a aproximarem-se para os eixos x e y.
Quanto ao parâmetro γz,entende-se que além da altura do projeto, sua magnitude pode ser
alterada segundo pelo menos um dos critérios: modificação da rigidez global do prédio na
direção considerada ou do valor da carga vertical deste. Não dependendo assim do valor das
cargas horizontais que provocam os deslocamentos, desde que o γz ≤ 1,30, para que as
aproximações não lineares indicadas por norma sejam válidas.
Sob critérios construtivos é oportuno que os projetos arquitetônicos de prédios esbeltos sejam
acompanhados por uma consultoria em estruturas, de forma a prevenir que os projetos
estruturais do edifício possam interferir significativamente ou ainda inviabilizar a arquitetura
do empreendimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6118. Projeto de Estruturas
de Concreto Armado – procedimento. Rio de Janeiro, ABNT, 2003.
______. NBR 6120. Cargas para o Cálculo de Estruturas de Edificações. Rio de Janeiro,
ABNT, 1978.
______. NBR 6123. Forças Devidas ao Vento em Edificações. Rio de Janeiro, ABNT, 1988.
KIMURA, Alio. Informática Aplicada em Estruturas de Concreto Armado: Cálculo de
Edifícios com o Uso de Sistemas Computacionais. São Paulo: Pini, 2007.
ESTUDO DE CASO À TORÇÃO EM VIGA DE CONCRETO CONFORME A
NBR 6118(2003)

Alison Rosso Evangelista


Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
alisonrosso@hotmail.com
Alexandre Vargas
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
alexandrevargas@terra.com.br
Gihad Mohamad
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
gihad@unesc.net

RESUMO
Em vigas sujeitas à torção, admite-se como área resistente um perímetro externo delgado
funcionando como treliça plana onde as tensões principais de tração são decompostas e
absorvidas por armaduras longitudinais e transversais. Este trabalho apresenta a análise de
uma viga submetida exclusivamente à torção, utilizando como critério a inclinação das bielas
segundo os modelos I e II preconizados pela norma NBR 6118 (2003), para diferentes
resistências características do concreto a compressão (fck). O objetivo do estudo é verificar se
o aumento da resistência a compressão do concreto, mantendo a mesma seção, resulta em
ganhos com relação ao consumo de materiais e, por conseqüência, no custo. Como conclusão
do estudo, pode-se observar que o melhor resultado é o obtido para o modelo I com fck de 30
MPa. Para o concreto de fck de 40 MPa observou-se que a área de aço longitudinal se
manteve, para o mesmo modelo de cálculo, mas a área de aço transversal (estribo) aumentou
em aproximadamente 5,4%. O custo do aumento do fck foi de aproximadamente 6%. Por isso,
quando atendido ao requisito de esmagamento da biela de concreto e para resistências a
compressão superiores a 30 MPa, o aumento da resistência do concreto não trás ganhos
significativos no comportamento da viga a torção, por isso o aumento não é justificável por
razões econômicas.

1. INTRODUÇÃO
Torção é um giro que faz a peça a rodar em torno do seu eixo. Existem duas formas de torção, a
torção de compatibilidade e a torção de equilíbrio, como mostra a Figura 1. A torção de
compatibilidade é resultante do impedimento à deformação. A mesma pode ser desprezada desde
que a peça tenha capacidade de adaptação plástica, ou seja, é dispensável para o equilíbrio da
peça. Como exemplo, pode-se citar as vigas de bordo que tendem a girar devido ao engastamento
na laje e são impedidas pela rigidez dos pilares. A torção de equilíbrio é a resultante da própria
condição de equilíbrio da estrutura, se não for considerada no dimensionamento de uma peça
pode levar à ruína. Como exemplo tem-se as vigas-balcão e marquises.
Torção de compatibilidade Torção de Equilíbrio

Figura 1: Torção de compatibilidade e equilíbrio;

Segundo Lima et. al (2003), o fenômeno da torção em vigas vem sendo estudado há muito
tempo, com base nos conceitos fundamentais da Resistência dos Materiais e da Teoria da
Elasticidade, mas foi a partir da teoria dos tubos finos de Bredt que o fluxo das tensões foi
compreendido. Percebeu-se que quando o concreto fissura (Estádio II), o seu comportamento
à torção é equivalente ao de peças ocas (tubos) de paredes finas ainda não fissuradas (Estádio
I). Essa afirmativa é respaldada na própria distribuição das tensões tangenciais provocadas
por momentos torçores nas quais, na maioria das seções, são nulas no centro e máximas nas
extremidades, como mostra a figura 2.

Figura 2: Tubo de paredes finas

1.1. Teoria da treliça espacial generalizada


A treliça espacial generalizada é uma concepção ampla do modelo original de Ernest Rausch
para o dimensionamento de vigas de concreto armado solicitadas a torção (Sánchez (2003)).
O modelo da treliça espacial generalizada adotado para os estudos de torção tem origem na
treliça clássica idealizada por Ritter e Mörsch para o cisalhamento e foi desenvolvido por
Thürlimann e Lampert em 1977. A idéia de juntar a analogia da treliça com a teoria de Bredt
para a análise de vigas à torção deveu-se a Ernest Rausch, que em 1929 em sua tese de
doutorado, propôs um modelo denominado “Analogia da Treliça Espacial”, que considera
diagonais comprimidas a 45o. A treliça espacial é composta por quatro treliças planas na
periferia da peça (tubo de paredes finas da Teoria de Bredt), sendo as tensões de compressão
absorvidas por barras (bielas) que fazem um ângulo θ com o eixo da peça e as tensões de
tração absorvidas por barras decompostas nas direções longitudinais (armação longitudinal) e
transversais (estribos a 90o). Pode-se observar que a concepção desse modelo baseia-se na
própria trajetória das tensões principais de peças submetidas à torção como mostra a figura 3.
Figura 3: Trajetória das tensões principais provocadas por torção (Lima et. al. (2003)).

De acordo com teoria de Bredt e adotado pela norma brasileira NBR 6118(2003), a torção
deve ser considerada na ruptura, quando os elementos já estão fissurados. A torção gera
esforços tangenciais de compressão e tração no plano da seção transversal. Considerando-se
que nem toda a seção, mas só uma faixa desta a partir da borda externa colabora na resistência
à torção, pode-se determinar uma seção equivalente, conforme mostra a figura 4. Essa seção
equivalente deve ser considerada, pois após a fissuração a colaboração do concreto do núcleo
é muito reduzida, portanto a seção cheia é tratada como seção vazada com uma espessura
equivalente. A partir dos estudos de Bredt, percebeu-se que quando o concreto fissura
(Estádio II), o seu comportamento a torção é equivalente ao de peças ocas (tubos) de paredes
finas ainda não fissuradas (Estádio I).

Figura 4: Seção equivalente

De acordo com a NBR 6118 (2003), é possível escolher o modelo de cálculo a ser adotado no
dimensionamento de peças a torção. Os modelos preconizados pela mesma são: o modelo I
com ângulo da biela de compressão fixo em 45o e o modelo II onde esta inclinação pode
variar entre 30o à 45o.

O estudo de caso apresentado neste trabalho tem por objetivo avaliar o efeito do aumento da
resistência característica do concreto à compressão para uma dada seção utilizando os
modelos I e II preconizados pela NBR 6118 (2003) e comparar com os custos relativos devido
ao uso de diferentes resistências características do concreto (fck).

2. MÉTODO DE CÁLCULO PARA TORÇÃO SEGUNDO A NBR 6118(2003)


2.1. Determinação da seção vazada equivalente
As seções cheias serão calculadas como seções vazadas, com parede fictícia de espessura he.
O cálculo da distância do centro da armadura longitudinal (c1) é dada pela equação (1).
φ
c1 = l + φ t + c (1)
2
em que: c1 : distância do centro da armadura longitudinal a face externa (cm);
φ l : diâmetro da armadura longitudinal (cm);
φ t : diâmetro da armadura transversal (cm);
c: cobrimento da armadura (cm).

A espessura da seção vazada equivalente (he) deve ser escolhida entre os limites mínimo e
máximo determinados respectivamente pelas equações (2) e (3).

h e ≥ 2 c1 (2)
A
he ≤ (3)
μ

em que: A : área da seção transversal (cm);


μ : o perímetro da seção transversal (cm).

A equação (4) e (5) apresenta respectivamente a área delimitada pela linha média da parede e
o perímetro da mesma.

A e = (b - h e ). (h - h e ) (4)

μ e = 2 . (b + h - 2h e ) (5)
em que:
Ae: área limitada pela linha média da parede incluindo a parede vazada (cm2);
b: base da seção transversal (cm);
h: altura da seção transversal (cm).
μ e : perímetro de A e (cm).

2.2. Verificação da proporção entre as tensões solicitantes e resistentes ao cisalhamento e


torção
O não esmagamento da biela comprimida na torção pura é garantida se a TSd ≤TRd, onde Tsd é
o momento torçor solicitante de cálculo e TRd é o momento torçor resistente de cálculo, como
mostram as equações (6) e (7), respectivamente.
TSd = 1,4 . Ts (6)
TRd,2 = 0,50. α v2 .f cd .A e .h e .sen 2.θ (7)

A NBR 6118 (2003) preconiza que para o efeito de torção e cisalhamento combinados deve
ser obedecida a verificação da equação (8).
VSd T
+ Sd ≤ 1 (8)
VRd,2 TRd,2
em que: TSd : momento torçor solicitante de cálculo em KN.cm;
Ts : Momento torçor solicitante em KN.cm;
α v2 : coeficiente de efetividade do concreto (equação (9));
fcd: resistência de cálculo do concreto em KN/cm2;
θ : ângulo da biela de concreto comprimido em graus;
fck: resistência característica do concreto a compressão em MPa.
fctd: resistência à tração do concreto em KN/cm2 (equação (10)).
f
α v2 = (1 - ck ) (9)
250
2
3
f ck
f ctd = 0,15. (10)
10
Para o cálculo dos esforços cortantes solicitante de cálculo e esforço cortante de cálculo
usam-se as equações (11) e (12).
Vsd = 1,4.Vs (11)
VRd,2 = 0,54. α v2 . f cd .b w .d.(sen 2θ).(cotα + cotθ ) (12)
em que: Vsd: força cortante solicitante de cálculo em KN;
Vs: força cortante solicitante em KN;
VRd,2 : força cortante resistente de cálculo em KN;
α : ângulo do estribo ao eixo longitudinal da peça em graus.

2.3. Cálculo das Áreas de aço para as barras longitudinais e transversais


Para o cálculo da armadura longitudinal e transversal usam-se as equações (13) e (14).
TSd
A sl = μ.cotg θ. (13)
2.A e .f yd
A st Tsd
= .tan(θ ) (14)
s 2.A e .f yd
em que: A sl : área de aço para as barras longitudinais em cm2;
fyd: resistência de cálculo à tração do aço em KN/cm2.

A torção de equilíbrio deve ser suportada por estribos verticais fechados e pela armadura
longitudinal distribuída ao longo do perímetro efetivo da seção. As taxas geométricas das
armaduras longitudinais e transversais são dadas pela equação (15).

As 0,2 . f ctm
ρ sw = ≥ (15)
b w .s f yk
A falta ou pouca armadura transversal diminui a resistência da viga transversalmente podendo
ocorrer uma ruptura sem aviso (frágil). Como prevenção a norma brasileira exige que seja
colocada uma quantidade mínima de armadura transversal. A exigência de uma armadura
transversal mínima resulta da necessidade de armaduras capazes de suportar os esforços de
tração liberados pelo concreto no momento da formação de fissuras inclinadas devidas ao
esforço cortante (visando um funcionamento satisfatório no que se refere aos estados limites
de formação de fissuras). Por este motivo especifica-se, segundo a NBR-6118/80, a
necessidade da existência de uma porcentagem volumétrica mínima. Para os aços CA-50 e
CA-60 esta taxa mínima geométrica de armadura transversal vale ρ min = 0,14%.

em que: ρ sw : taxa geométrica de armadura transversal (estribos);


As: área de aço da armadura transversal em cm2;
bw: base da seção transversal em cm;
s: espaçamento entre estribos em cm;
fctm: resistência média à tração do concreto em KN/cm2 (equação 16);
fyk: resistência à tração do concreto em KN/cm2.
2
3
f
f ctm = 0,3 . ck (16)
10
Para o cálculo das tensões de cisalhamento solicitantes usa-se a equação (17), enquanto que
para a resistente utiliza-se a (18).
V
τ Sd = d (17)
b w .d
τ c = 0,6 . f ctd (18)
em que: τ Sd : tensão de cisalhamento solicitante em KN/cm2;
Vd: Esforço cortante de cálculo;
bw: base da seção transversal em cm;
d: altura útil da seção transversal em cm;
τ c : tensão de cisalhamento resistente do concreto em KN/cm2.

A área de aço total resultante da contribuição do esforço cortante e do torçor é dado pela
equação (19).
A s tota l A sw A st
= + (19)
s s s
em que: A sw : área de armadura transversal parcial, resultante do esforço cortante solicitante
em cm2;
s: espaçamento unitário [cm].
A st : área de armadura transversal parcial, resultante do momento torçor em cm2;
A s total : área de armadura transversal (estribos) total, resultante da soma das áreas de
aço para esforço cortante e momento torçor em cm2;

O espaçamento (s) das barras é dado pela equação (20).


2.A se
s= (20)
A s total
em que: s: espaçamento entre estribos em cm;
Ase: área de aço do estribo (1 ramo) em cm2.

3. ESTUDO DE CASO DE UMA VIGA A TORÇÃO


Para o estudo de caso apresentou-se uma viga com 4 metros de comprimento e seção
transversal de 25 x 60 cm, submetida ao esforço de torção de equilíbrio com um momento
torçor igual a 40 KN.m. A carga distribuída na viga foi de 13,7 KN/m. Admitiu-se para o
concreto três diferentes resistências à compressão característica (fck =20, 30 e 40 MPa) e aço
CA-50A. A figura 5 apresenta o esquema proposto.

Figura 5: Dimensões da viga e cargas solicitantes


De acordo com as características geométricas da seção foi determinada a espessura
equivalente da seção na qual atua o fluxo das tensões tangenciais provenientes da torção,
conforme mostra a tabela 1.

Tabela 1: Transformação de seção cheia em seção vazada


A µ c d Estribos Ø long c1 he min he max he (cm) Ae µe
(cm2) (cm) (cm) (cm) Ø (mm) (mm) (cm) (cm) (cm) utilizado (cm2) (cm)
1500 170 2,5 57,5 8 10 3,8 7,6 8,82 8,82 827,85 134,71

Na tabela 2 são apresentados os resultados entre as proporções dos esforços solicitantes e


resistentes para a ação combinada entre o cisalhamento e a torção, sempre considerando a
mesma seção (25 x 60).

Tabela 2: Verificação da resistência da biela de compressão


Tsd TRd ((Vsd/VRd)+
fck modelo fctd Vsd V Rd
θ (°) αv2 (KNcm (KNcm (Tsd/TRd))
(MPa) I ou II (KN/cm2) (KN) (KN)
) ) ≤1
20 I 45 0,92 5600 0,11 4800,17 38,50 510,11 1,24
20 II 40 0,92 5600 0,11 4727,24 38,50 502,36 1,26
20 II 35 0,92 5600 0,11 4510,68 38,50 479,34 1,32
20 II 30 0,92 5600 0,11 4157,07 38,50 441,77 1,43
30 I 45 0,88 5600 0,14 6887,19 38,50 731,89 0,87
30 II 40 0,88 5600 0,14 6782,56 38,50 720,77 0,88
30 II 35 0,88 5600 0,14 6471,85 38,50 687,75 0,92
30 II 30 0,88 5600 0,14 5964,49 38,50 633,84 1,00
40 I 45 0,84 5600 0,18 8765,52 38,50 931,50 0,68
40 II 40 0,84 5600 0,18 8632,35 38,50 917,35 0,69
40 II 35 0,84 5600 0,18 8236,89 38,50 875,32 0,72
40 II 30 0,84 5600 0,18 7591,16 38,50 806,70 0,79

A tabela 3 apresenta os resultados da determinação da área de aço longitudinal considerando


diferentes resistências à compressão característica e inclinações do ângulo da biela de
compressão.

Tabela 3: Cálculo das barras longitudinais


fck Modelo I ou As long(cm2) d (cm)
θ (°) Ø long (mm) As long (cm2) n
(MPa) II 1 Ø long
20 I 45 10 0,79 10,48 13 9,83
20 II 40 10 0,79 12,49 16 7,97
20 II 35 10 0,79 14,97 19 6,41
20 II 30 10 0,79 18,15 23 5,05
30 I 45 10 0,79 10,48 13 9,83
30 II 40 10 0,79 12,49 16 7,97
30 II 35 10 0,79 14,97 19 6,41
30 II 30 10 0,79 18,15 23 5,05
40 I 45 10 0,79 10,48 13 9,83
40 II 40 10 0,79 12,49 16 7,97
40 II 35 10 0,79 14,97 19 6,41
40 II 30 10 0,79 18,15 23 5,05
n: Quantidade de barras; d: distância entre as barras;

As tabelas 4 e 5 apresentam os resultados da determinação da área de aço transversal considerando


os diferentes resistências a compressão característica e inclinações da biela de compressão.

Tabela 4: Cálculo da área aço dos estribos


ρsw
fck modelo τ Sd τc fctm Asw/s Ast/s As total/s
θ (°) 2 Taxa
(MPa) I ou II (KN/cm2) (KN/cm2) (KN/cm ) (cm2/cm) (cm2/cm) (cm2/cm)
mínima
20 I 45 0,027 0,066 0,22 0,00088 0,0221 0,078 0,10
20 II 40 0,027 0,066 0,22 0,00088 0,0221 0,065 0,09
20 II 35 0,027 0,066 0,22 0,00088 0,0221 0,054 0,08
20 II 30 0,027 0,066 0,22 0,00088 0,0221 0,045 0,07
30 I 45 0,027 0,087 0,29 0,00116 0,0290 0,078 0,11
30 II 40 0,027 0,087 0,29 0,00116 0,0290 0,065 0,09
30 II 35 0,027 0,087 0,29 0,00116 0,0290 0,054 0,08
30 II 30 0,027 0,087 0,29 0,00116 0,0290 0,045 0,07
40 I 45 0,027 0,105 0,35 0,00140 0,0351 0,078 0,11
40 II 40 0,027 0,105 0,35 0,00140 0,0351 0,065 0,10
40 II 35 0,027 0,105 0,35 0,00140 0,0351 0,054 0,09
40 II 30 0,027 0,105 0,35 0,00140 0,0351 0,045 0,08

Tabela 5: Cálculo do espaçamento entre estribos


fck (MPa) Modelo I ou II θ (°) Ø estribo (mm) Ase (cm2) estribo S (cm) s (cm) n
20 I 45 8 0,50 30 10,06 40
20 II 40 8 0,50 30 11,51 35
20 II 35 8 0,50 30 13,13 30
20 II 30 8 0,50 30 15,00 27
30 I 45 8 0,50 30 9,42 42
30 II 40 8 0,50 30 10,67 37
30 II 35 8 0,50 30 12,05 33
30 II 30 8 0,50 30 13,61 29
40 I 45 8 0,50 30 8,91 45
40 II 40 8 0,50 30 10,02 40
40 II 35 8 0,50 30 11,23 36
40 II 30 8 0,50 30 12,57 32
S: Espaçamento máximo entre estribos; s: espaçamento obtido para o estribo; n: número de estribos.

4. ANÁLISE DOS RESULTADOS


De acordo com os resultados obtidos, por meio das proporções entre as tensões solicitantes e
resistentes ao cisalhamento e a torção com os diferentes resistências características a compressão
(figura 6), pode-se verificar que o concreto de 20 MPa ficou acima do limite máximo
estabelecido de 1,00. Com isso, entende-se que biela de concreto comprimida não resistiu aos
esforços solicitantes de cisalhamento e torção. Já para os concretos de 30 e 40 MPa, os valores
ficaram abaixo de 1,00, atendendo ao critério de verificação concomitante de cisalhamento e
torção. A seção é comumente dita de econômica quando este valor estiver entre 0,75 e 1,00.
1,50

((Vsd/VRd)+(Tsd/TRd)) ≤ 1
1,40
1,30
1,20
1,10 modelo I – 45°
1,00 modelo II – 30°
0,90 modelo II – 35°
0,80 modelo II – 40°
0,70
0,60
10 20 30 40 50
fck (MPa)

Figura 6: Proporção entre as tensões solicitantes e resistentes ao cisalhamento e torção em


relação ao fck (MPa)

A figura 7 apresenta os resultados da área de aço longitudinal conforme o fck e a inclinação da


biela de compressão. Pode-se verificar que mesmo alterando o fck do concreto, a área de aço
continuou a mesma, entretanto existiu diferença quando se comparou a inclinação da biela de
compressão conforme o modelo de cálculo adotado. A área de aço longitudinal para o modelo II
com ângulo de inclinação da biela de compressão de 30o aumentou, aproximadamente, 73% em
relação ao modelo I, cuja inclinação da biela de compressão é de 450. Portanto, o modelo de
cálculo II proporcionou uma maior área de aço longitudinal demonstrando ser antieconômico.
Quando comparado a área de aço transversal (estribos) com diferentes fck (figura 8), para o
modelo II a área de aço diminui em relação ao modelo I. Isso se deve a maior participação do
concreto na resistência ao cisalhamento devido à redução do ângulo θ da biela comprimida de
concreto ao longo do eixo longitudinal da viga. Foi verificado que a área de aço do estribo
aumentou com o aumento do fck do concreto, isso aconteceu por causa da garantia de uma área de
aço mínima, quando os esforços solicitantes são significativamente inferiores aos resistentes.

20
19
18
As longitudinal (cm2)

17
16 modelo I – 45°
15 modelo II – 30°
14 modelo II – 35°
13 modelo II – 40°
12
11
10
9
10 20 30 40 50
fck (MPa)

Figura 7: Área de aço longitudinal (cm2) em relação ao fck (MPa)


0,120
0,110

As estribo (cm2)
modelo I – 45°
0,100
modelo II – 30°
0,090
modelo II – 35°
0,080
modelo II – 40°
0,070
0,060
10 20 30 40 50
fck (MPa)

Figura 8: Área de aço transversal (cm2) em relação ao fck (MPa)

5. CONCLUSÃO
Como principais conclusões deste trabalho se pode verificar que:
- Para o fck de 20 MPa, em todos os modelos de cálculo, a biela de compressão da viga seria
insuficiente para absorver os esforços solicitantes de torção;
- Os resultados obtidos para o fck de 30 MPa, tanto para o Modelo I quanto para o Modelo II,
foram melhores (mais econômicos), comparando-se com os demais fck utilizados;
- Como a área longitudinal tem maior influência sobre o consumo de aço do que a área dos
estribos, pode-se concluir que o modelo I com 30 MPa apresentou-se como mais eficaz, pois
sua área longitudinal resultou em 10,48 cm2, enquanto que no modelo II com θ = 30o
representou um aumento de aproximadamente 73%. Portanto, o modelo de cálculo II pode ser
dispensado, pois se torna antieconômico;
- Verificou-se que o aumento do fck, para uma mesma inclinação da biela de compressão, não
representou em um aumento na área de aço da armadura longitudinal. Já para a área de aço
transversal (estribo), foi verificado o contrário, ou seja, o aumento de resistência do concreto
proporcionou um aumento de aproximadamente 5,4% na armadura transversal. Considerando
o custo do aumento de resistência do concreto em torno de 6%, pode-se concluir que quando
atendida à resistência da biela comprimida de concreto, o aumento do fck neste caso não é
justificável por razões econômicas;
- A conquista de concretos cada vez mais resistentes dão a possibilidade de estruturas mais
esbeltas, ou seja, aparentam uma redução de custo. Para o caso de vigas solicitadas por
esforços de torção verificou-se que o aumento da resistência à compressão do concreto não
apresentou vantagens econômicas, devido ao maior custo e o aumento da taxa de aço dos
estribos. Além disso, a redução excessiva da seção das vigas pode resultar em deformações
excessivas ocasionando patologias na estrutura e deterioração precoce.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABNT. NBR-6118:2003 - Projeto e Execução de Obras Concreto Armado - ABNT, São
Paulo, 2003.
LEONHARDT, F.; MÖNNIG, E. Construções de concreto: princípios básicos de
estruturas de concreto armado. v1. Rio de Janeiro, Interciência, 1977.
LIMA, S. J.; GUARDA, M.C.C.; PINHEIRO, L.M. Estruturas de Concreto – Torção. Capítulo
18, Nov. 2003.
SÜSSEKIND, José C. Curso de Concreto Vol II. Ed. Globo, São Paulo, 1991.
SANCHES FILHO, E. de S. As prescrições da NB-1/2003 sobre o dimensionamento a torção.
Revista do Ibracon; Ano XI; n.33;Jun/Jul/Ago/2003.
.

ESTUDOS SOBRE DETALHAMENTO AUTOMÁTICO DAS ARMADURAS


LONGITUDINAIS.

Luis Carlos Seelbach, Msc


Laboratório de Computação Cientifica do Centro de Ciências Tecnológicas
Universidade Regional de Blumenau
email :seelbach@furb.br
Daniel Domingues Loriggio, Dr.
Professor Titular do Departamento de Engenharia Civil
Universidade Federal de Santa Catarina
email: loriggio@ecv.ufsc.br

RESUMO
Este trabalho estuda prescrições da norma de Projeto de Estruturas de Concreto (NBR
6118/2003) em relação ao detalhamento das armaduras longitudinais de vigas de Concreto
Armado. Para realizar este estudo, foi elaborado o programa VigaCalc, desenvolvido no
Laboratório de Análise de Estruturas (LAE) da Universidade Federal de Santa Catarina, que
permite o detalhamento completo de vigas contínuas de Concreto Armado. Foram analisados
vários exemplos com variações no detalhamento, e os resultados foram comparados com os
procedimentos que vinham sendo usualmente utilizados na prática de projeto. Especial
atenção, foi dada à influência da relação x/d sobre o valor da armadura longitudinal da viga e
na determinação automática da posição do centro de gravidade da armadura. Exemplos
adicionais foram realizados para estudar critérios para a escolha automática da armadura
longitudinal, bem como para a comparação de resultados com programas comerciais. Os
resultados desse trabalho fornecem indicações sobre as configurações que devem ser adotadas
em programas comerciais, buscando uma otimização do detalhamento.

1. INTRODUÇÃO
As alterações introduzidas pela norma de Projeto de Estruturas de Concreto (NBR 6118/2003)
em relação ao detalhamento das armaduras longitudinais serão estudadas neste trabalho. Neste
estudo serão analisados alguns exemplos, com variações no detalhamento, e os resultados
serão comparados com os procedimentos que vinham sendo usualmente utilizados. Especial
atenção, se dará à influência da relação x/d sobre o valor da armadura longitudinal da viga e
na determinação automática da posição do centro de gravidade da armadura.

2. RELAÇÃO ENTRE POSIÇÃO DA LINHA NEUTRA E ALTURA ÚTIL DA VIGA


(SEGUNDO NBR 6118/2003)
De acordo com as prescrições da NBR 6118/2003, a posição limite da linha neutra pode ser
determinada para cada limite entre domínios, através da equação 1.
xlim = ζlim · d (1)
em que: xlim – posição limite da linha neutra;
ζlim – relação x/d limite do domínio;
d – altura útil da viga.
Domínio 2-3 x/dlim= 0,259
Domínio 3-4 x/dlim=0,628 para o aço CA50
Domínio 4-5 x/dlim= 1,000

A NBR 6118/2003 estabelece um valor limite diferente dos apresentados acima para a relação
x/d na região dos apoios, para garantir a ductilidade das estruturas nestas regiões.
Limites estes que são: para fck ≤ 35MPa x/dlim ≤ 0,5
para fck > 35MPa x/dlim ≤ 0,4
.

Para verificar qual a influência que esta modificação no valor da relação x/d, no limite dos
domínios 3-4, traria para o valor da armadura longitudinal. Fez se o dimensionamento e o
detalhamento de uma viga engastada em uma extremidade e apoiada na outra, com dimensões
e carregamento, segundo figura 1. As dimensões dos apoios na figura serve apenas como
referência, e a condição de apoio ou engaste deve ser definida em função do comportamento
estrutural da peça.

2.1. EXEMPLO 1:

50

20
50 400 40

40,0 kN/m

4,45

Figura 1: Dimensões e Carregamentos da Viga do Exemplo.


Fonte: SEELBACH (2004, pág. 145)

Neste estudo os valores da relação x/d são alterados, conforme indicado na tabela 1, para
determinar qual a influência que a relação x/d tem sobre o valor da armadura longitudinal. Na
tabela 1 e nos gráficos das figuras 2 e 3, são apresentados os resultados obtidos para a
armadura longitudinal da viga, no apoio esquerdo.

Tabela 1: Resultados Armadura Longitudinal.


Relação x/d = 0,5 : aplicada apenas nos apoios
Armadura de tração – mk = - 105,201 kN.m – apoio esquerdo
Bitola (mm) As (cm²) ∆AS (cm2) x/d A’s (cm2)
10,0 9,810 0,59 0,433 0,194
12,5 9,300 0,70 0,433
20,0 8,908 0,54 0,433
Relação x/d= 0,4 ; aplicada apenas nos apoios.
Armadura de tração – mk = -105,201 kN.m – apoio esquerdo
A’s
Bitola (mm) AS (cm2) ∆AS (cm2) x/d
(cm2)
10,0 9,141 0,46 0,400 1,366
12,5 8,925 1,08 0,400 0,926
20,0 8,723 0,73 0,400 0,501
Relação x/d= 0,30 ; aplicada apenas nos apoios.
Armadura de tração – mk = -105,201 kN.m – apoio esquerdo
Bitola (mm) AS (cm2) ∆AS (cm2) x/d A’s (cm2)
10,0 8,667 0,13 0,300 2,799
12,5 8,449 0,30 0,300 2,419
20,0 8,289 1,16 0,300 2,122
Fonte: SEELBACH (2004, pág. 146)
.

Relação Armadura Longitudinal x Relação x/d Relação Armadura Longitudinal x Relação x/d
Armadura Tração Armadura Compressão

3
10
2,5
9,5
2
10,0mm 10,0mm

A`s (cm²)
As (cm²)

9 12,5mm 1,5 12,5mm


20,0mm 20,0mm
1
8,5
0,5

8 0
0,5 0,4 0,3 0,5 0,4 0,3
Relação x/d Relação x/d

Figura 2: Gráficos Comparativos Relação x/d.


Fonte: SEELBACH (2004, pág. 147)

Relação Armadura Longitudinal x Relação x/d


Armadura Total

12
11,5
11
10,0mm
As (cm²)

10,5
12,5mm
10
20,0mm
9,5
9
8,5
0,5 0,4 0,3
Relação x/d

Figura 3: Gráficos Comparativos Relação x/d – Armadura Total.


Fonte: SEELBACH (2004, pág. 148)

Analisando a figura 2 pode-se concluir que, no caso da armadura longitudinal de tração, esta
sofre uma redução em seu valor em virtude da diminuição do valor da relação x/d. No caso da
armadura longitudinal de compressão ocorre o inverso.

No gráfico da figura 3 constata-se que a armadura total da viga aumenta à medida que se
reduz o valor da relação x/d. Sendo que, ao passar-se de uma relação x/d de 0,5 para 0,4 a área
de aço sofre um acréscimo aproximado de 5%; quando a relação for de 0,5 para 0,3, o
acréscimo será de 16%; e, ao ir-se da relação de 0,4 para 0,3, o aumento na área de aço será
da ordem de 11%. Salienta-se que estas porcentagens apresentaram uma variação em função
da bitola estudada, mas com pequenas variações em torno da média.

Os valores da armadura longitudinal e transversal, referente ao meio do tramo, mantiveram-se


constantes durante as alterações impostas à relação x/d.

3. ESTUDO SOBRE A INFLUÊNCIA DE ALGUNS PROCEDIMENTOS USUAIS DE


DETALHAMENTO SOBRE AS ARMADURAS LONGITUDINAIS.
Para realizar os estudos que aqui serão apresentados, foram dimensionadas e detalhadas duas
vigas exemplo no programa VigaCalc, com mais de um tramo, nas quais foram realizadas
variações nas configurações do programa e alterações no detalhamento das barras, diferentes
.

dos adotados automaticamente, para tentar determinar qual seria o detalhamento mais
funcional sem perder de vista o aspecto econômico.

3.1. Exemplo 1:
A viga deste exemplo é constituída por dois tramos, simplesmente apoiada, com dimensões e
carregamento, apresentados na figura 4.

50

15
20 500 40 400 30

30,0 kN/m
25,9 kN/m

5,30 4,35

Figura 4: Dimensões e Carregamentos da Viga 1.


Fonte: SEELBACH (2004, pág. 111)

Neste exemplo, foi estudado o efeito do agrupamento das barras no detalhamento, utilizando
detalhamento com barras isoladas e agrupamentos de duas em duas barras e de três em três
barras. Estudou-se ainda, as seguintes opções para a determinação das bitolas: menor
diferença entre armadura necessária e efetiva (menor delta As), maior diferença entre
armadura necessária e efetiva (maior delta As) e uma concepção do autor de melhor
detalhamento. Com isto geraram-se nove detalhamentos diferentes.

As rotinas do VigaCalc fazem a opção pela menor diferença entre as armaduras necessárias e
efetivas automaticamente e as demais foram obtidas manualmente, por intermédio de uma das
ferramentas disponibilizadas pelo programa.

Para realizar o detalhamento, considerado como a melhor opção, foi levada em consideração
os seguintes fatores: menor número de barras e de camadas, diâmetros que apresentam melhor
condição de manuseio e maior uniformização possível das bitolas utilizadas.

Depois de gerados os nove detalhamentos, fez-se uma comparação entre o peso total de aço
utilizado em cada um dos detalhamentos realizados para a viga exemplo, com o peso total de
aço utilizado nos nove detalhamentos realizados, a qual pode ser visualizada na figura 5.

Esta comparação mostra que, dos nove detalhamentos apresentados, o mais econômico em
relação à quantidade de aço utilizado foi o que utilizou-se os grupos de uma barra e a opção
pela menor diferença entre armadura necessária e efetiva. Constata-se também que, mesmo ao
adotarem-se as opções de maior delta As e “melhor concepção”, os detalhamentos mais
econômicos foram obtidos quando se utilizou o agrupamento de barra em barra no
detalhamento das barras longitudinais.
.

Nas figuras 6 e 7 são apresentados três detalhamentos dos nove gerados, onde a Vig-03.1, foi
obtida com a configuração de menor delta As e grupo de 2 barras; a Vig-03.2, foi obtida com
a configuração de maior delta As e grupo de 2 barras e Vig-03.3, foi obtida com a
configuração de “melhor concepção” e grupo de 2 barras.

Vig-03.1
10,7% 9,0% Vig-03.2
14,3% Vig-03.3
14,3%
Vig-03.4
Vig-03.5
9,9%
9,1% Vig-03.6
Vig-03.7
9,6% 8,8%
14,3% Vig-03.8
Vig-03.9
Figura 5: Gráfico Comparativo de Peso Total das Vigas 03.
Fonte: SEELBACH (2004, pág. 114)

Figura 6: Detalhamentos Gerados pelo Programa VIGACALC.


Fonte: SEELBACH (2004, págs. 115,116)
.

Figura 7: Detalhamentos Gerados pelo Programa VIGACALC.


Fonte: SEELBACH (2004, págs. 115,116,117)

3.2. Exemplo 2:
Neste exemplo estuda-se uma viga de três tramos, simplesmente apoiada, com dimensões e
carregamento, conforme apresentado na figura 8.

50

15
35 455 50 265 40 310 30

36,4 kN 28,4 kN

18,8 kN/m 17,5 kN/m 21,7 kN/m


19,2 kN/m

3,20 1,80

4,975 3,10 3,45

Figura 8: Dimensões e Carregamentos da Viga 2.


Fonte: SEELBACH (2004, pág. 126)

Para realizar este estudo, variou-se o processo utilizado para fazer o detalhamento das barras
longitudinais e a forma de determinação da altura útil da viga, para as seguintes opções de
bitolas utilizadas: menor diferença entre armadura necessária e efetiva, maior diferença entre
armadura necessária e efetiva e proposta do autor de melhor concepção de detalhamento. Com
isto geraram-se doze detalhamentos diferentes.

Neste estudo, a altura útil da viga poderia ser determinada de forma exata ou adotada e o
detalhamento da barras longitudinais poderia ser feita pelo processo exato ABNT(2003) ou
simplificado SÜSSEKIND (1993).
.

A comparação do peso total do aço utilizado em cada um dos detalhamentos realizados para a
viga exemplo com o total de aço utilizado para os doze detalhamentos, pode ser analisado na
figura 9. Constatou-se que, dos doze detalhamentos apresentados o mais econômico, em
relação à quantidade de aço utilizado, foi o que utiliza o menor delta As, a altura útil adotada
da viga e o processo exato para gerar o detalhamento da armadura Longitudinal. E o que
utiliza a altura útil exata da viga, menor delta As e o processo exato para detalhamento.
Constata-se também que se obtém um detalhamento mais econômico quando se utiliza o
processo exato para detalhar as barras longitudinais.

Deve-se ressaltar que, quando se faz o detalhamento utilizando-se a altura útil adotada, pode-
se estar adotando uma altura útil superior a real, que resultaria em uma menor área de aço que
a necessária, ou uma altura útil inferior a real, que acarretaria em uma área de aço superior à
necessária, resultando em peças antieconômicas.

Nos detalhamentos gerados pelo VigaCalc, pode-se constatar que a maior parte dos
detalhamentos é similar, apresentando principalmente diferenças nos pontos de início das
barras e nos comprimentos destas. Estas diferenças estão relacionadas, basicamente com o
processo de detalhamento das barras longitudinais adotado e com a altura útil das vigas
adotada.

Vig-04.1
Vig-04.2
7,4% 6,5% Vig-04.3
11,6% 11,7% Vig-04.4
Vig-04.5
6,7% Vig-04.6
6,0%
Vig-04.7
6,9% 6,9% Vig-04.8
Vig-04.9
Vig-04.10
11,6% 12,0%
Vig-04.11
5,7% 7,1%
Vig-04.12
Figura 9: Gráfico Comparativo de Peso Total das Vigas 04.
Fonte: SEELBACH (2004, pág. 128)

Nas figuras 10 e 11 são apresentados oito detalhamentos dos doze gerados, que foram obtidos
com as seguintes configurações: Vig-04.1 menor delta As, altura útil exata e processo exato;
Vig-04.4 menor delta As, altura útil exata e processo simplificado; Vig-04.7 menor delta As,
altura útil adotada e processo exato; Vig-04.10 menor delta As, altura útil adotada e processo
simplificado; Vig-04.3 “melhor concepção”, altura útil exata e processo exato; Vig-04.6
“melhor concepção”, altura útil exata e processo simplificado; Vig-04.9 “melhor concepção”,
altura útil adotada e processo exato; Vig-04.12 “melhor concepção”, altura útil adotada e
processo simplificado.
.

Figura 10: Detalhamento Gerado pelo Programa VIGACALC.


Fonte: SEELBACH (2004, pág. 131, 134, 137, 140)
.

Figura 11: Detalhamentos Gerados pelo Programa VIGACALC.


Fonte: SEELBACH (2004, págs. 133, 136, 139, 142)
.

4. CONCLUSÕES.
Do estudo da influência da relação entre a posição da linha neutra e a altura útil da viga, pode-
se constatar que, quanto menor for esta relação, maior será a área de aço necessária para
absorver os esforços de flexão atuantes sobre as vigas, e que esta relação não terá grande
influência sobre a armadura transversal. Contudo, excetua-se o caso de ocorrer uma mudança
no valor da posição do centro de gravidade das armaduras longitudinais, pois ao ocorrer tal
fato, este afetará o valor da altura útil da viga, que por sua vez interferirá no cálculo da
armadura transversal.

Do estudo sobre detalhamento longitudinal das armaduras, onde com a alteração de alguns
parâmetros de detalhamento obteve-se uma série de resultados diferentes. Com estes, pôde-se
concluir que quando se procede ao agrupamento de barras no detalhamento, há um aumento
no consumo de aço, que é diretamente proporcional ao número de barras agrupadas. Outro
fato que provoca um consumo maior de aço é a utilização do processo simplificado,
apresentado por Süssekind (1993), para determinar os pontos de corte das armaduras.

A utilização da altura útil exata da viga no processo manual, é algo bastante trabalhoso, pois
este valor é influenciado pelo centro de gravidade das armaduras, que, por sua vez, é
influenciado pela área de aço utilizada, a qual é alterada diretamente pela altura útil da viga.
Ou seja, para se determinar o valor exato da altura útil da viga faz-se necessário a realização
de um trabalho repetitivo, até que se encontre um valor que seja constante ao longo do
processo. Por isso, geralmente adota-se um valor para a altura útil da viga, procedimento este
que, normalmente, conduz a uma área de armadura longitudinal e transversal superior à
efetivamente necessária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NB-1: Projeto de estruturas de
concreto: procedimento. Rio de Janeiro : ABNT, 2003. 170p.
SEELBACH, Luis Carlos. Estudos Sobre Detalhamento Automático de Vigas de Concreto
Armado. 2004. 179 p, il. Dissertação (Mestrado em Engenharia) - Programa de Pós-
Graduação em Engenharia Civil, Centro Tecnológico, Universidade Federal de Santa
Catarina, Orientador: Prof. Dr. Daniel D. Loriggio, Florianópolis, 2004.
SÜSSEKIND, J. C. - Curso de Concreto Armado, São Paulo, Editora Globo,1993. nv. Em
apêndice: Projeto e execução de obras de concreto armado : NB-1/1978 / Associação
Brasileira de Normas Técnicas.
GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS NA BACIA
HIDROGRÁFICA DO RIO TUBARÃO E COMPLEXO LAGUNAR

Rogério Bardini
Professor do Curso de Engenheiro Civil
Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL
rogério.bardini@unisul.br

Bruno Borges Gentil


Engenheiro Sanitarista e Ambiental
Serrana Engenharia Ltda.
bruno@serranaengenharia.com.br

Marcelo Heidemann
Acadêmico de Engenharia Civil
Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL
marcelo.heidemann@gmail.com

RESUMO
O aumento do consumo de bens descartáveis gera problemas ambientais em função do
aumento na geração de resíduos, os quais precisam de destinação adequada. Como na maioria
das regiões do país, este cenário também é uma realidade na bacia hidrográfica do Rio
Tubarão e Complexo Lagunar, onde os dados referentes são escassos, falhos e conflitantes.
Diante desta deficiência, buscou-se, através de questionários com questões fechadas, enviados
às vinte e uma prefeituras dos municípios que compõem a bacia, a obtenção de informações e
dados atualizados sobre o gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos. Tais informações se
referem à geração per capta por município, destinação final, índice de cobertura da coleta
seletiva de materiais recicláveis e de coleta seletiva de resíduos orgânicos, destinação final da
coleta regular de resíduos de unidades de saúde e da coleta de resíduos resultantes do serviço
de varrição, capina e limpeza, destinação final da coleta especial (feiras, mercados de rua,
entulhos) e do serviço de recolhimento de animais mortos. A geração per capta é de 0,52
(kg/hab/dia). A situação atual do gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos na bacia foi
comparada com a realidade existente no ano de 2001, constatando-se que se encontra
adequada.

1. INTRODUÇÃO
O crescimento populacional e o aumento do consumo de bens descartáveis provocam
drásticas transformações ambientais em função do aumento na geração de resíduos. Além das
quantidades cada vez maiores, ocorre ainda significativa mudança na composição desses
resíduos com o crescente aumento do material inerte e diminuição de material orgânico e
biodegradável, acarretando uma quantidade cada vez maior de resíduos que precisam de
destinação adequada.
Este cenário também se constitui numa realidade no âmbito da bacia hidrográfica do Rio
Tubarão e Complexo Lagunar. Tal realidade motivou o Comitê Tubarão a recomendar aos
municípios da bacia, através Carta das Águas (2007), que “[...] seus agentes deverão estar
comprometidos [...] em monitorar e aperfeiçoar a coleta e destino de resíduos sólidos para,
progressivamente, minimizar os impactos ambientais negativos” (COMITÊ TUBARÃO,
2007).
No entanto, o tratamento dado aos resíduos sólidos na Bacia do Tubarão, assim como em todo
o país, pode ser avaliado a partir da própria dificuldade em se obter informações confiáveis e
detalhadas sobre o tema. Os dados existentes são escassos, falhos e conflitantes, a começar
das estimativas sobre a quantidade de resíduos gerados.
Diante desta deficiência, o Comitê Tubarão pesquisou o gerenciamento dos resíduos sólidos
urbanos (RSU) nos municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar e
comparou os resultados obtidos com a situação existente em 2002.
Neste artigo são apresentados os resultados obtidos, com informações sobre a produção de
RSU e resíduos especiais, constituindo-se, portanto, num diagnóstico de extrema relevância
para os gestores públicos dos municípios da bacia.

2. CONCEITOS E CLASSIFICAÇÃO
De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (1992) "lixo é tudo aquilo que não presta e
se joga fora”. Resíduos sólidos, segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (2004),
são “resíduos no estado sólido ou semi-sólido, que resultam de atividades de origem
industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição”.
Os termos “lixo” e “resíduos sólidos”, segundo Monteiro et al. (2001), são normalmente
utilizados indistintamente, sendo assim, consideramos resíduo sólido ou simplesmente "lixo"
todo material sólido ou semi-sólido indesejável e que necessita ser removido por ter sido
considerado inútil por quem o descarta em qualquer recipiente destinado a este ato. Neste
artigo, para efeito de simplificação, usaremos somente o termo “resíduos sólidos”.

2.1. Composição dos resíduos sólidos urbanos


A produção de resíduos sólidos não cresce apenas na proporção do aumento populacional,
mas também em função de sua composição, sendo esta influenciada por fatores como
condições sócio-econômicas, políticas, climáticas, hábitos e costumes da população, acesso a
tecnologias diferenciadas, variações sazonais, etc. (FIGUEIREDO, 1995;
NUNESMAIA,1997 apud AZEVEDO; NASCIMENTO; MENDES, 2001).
Este aumento na produção e diversidade de composição tem motivado muitos estudos em
vários municípios brasileiros, com o objetivo de se conhecer as características dos resíduos
sólidos gerados nas cidades. Um dos estudos que ilustram a média da composição dos RSU
no Brasil foi realizado por Oliveira (1999) na cidade de Botucatu/SP, cujo resultado é
apresentado no gráfico 1.

Gráfico 1 – Caracterização dos Resíduos Sólidos Urbanos do município de Botucatu/SP.


Fonte: Adaptado de OLIVEIRA (1999).

2.2. Classificação dos resíduos


De acordo com a NBR 10.004 de 2004, os resíduos sólidos são classificados em: Classe I
(perigosos), Classe IIA (não perigosos e não inertes) e Classe IIB (não perigosos e inertes). A
periculosidade dos resíduos está associada às características decorrentes das propriedades
físicas, químicas ou infecto-contagiosas que possam apresentar riscos à saúde pública,
provocando ou acentuando, de forma significativa, o aumento da mortalidade ou incidência de
doenças e/ou risco ao meio ambiente. A classificação dos resíduos sólidos antes de sua
disposição é tarefa básica, a partir da qual é possível a prevenção de uma série de
conseqüências danosas.

2.3. Resíduos especiais


Resíduos especiais, segundo Monteiro et al. (2001), são os resíduos sólidos que por suas
características peculiares passam a merecer cuidados especiais em seu manuseio,
condicionamento, transporte, estocagem ou disposição final. Compreendem os resíduos
industriais, os resíduos dos serviços de saúde, os radiativos, os resíduos de portos, aeroportos,
terminais rodoviários e ferroviários.

3. RESPONSABILIDADE PELO GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS


Para Oliveira e Pasqual (1998), o gerenciamento integrado dos RSU consiste num conjunto
articulado de ações normativas, operacionais, financeiras e de planejamento, que uma
administração municipal desenvolve, baseado em critérios sanitários, ambientais e
econômicos para coletar, tratar e dispor os resíduos sólidos de uma cidade.
Um gerenciamento eficaz consiste naquele que contempla o uso de práticas administrativas de
resíduos, com manejo seguro e efetivo fluxo de RSU, com o mínimo de impactos sobre a
saúde pública e o meio ambiente.
A administração pública municipal é responsável pelo gerenciamento dos RSU, porém, os
outros tipos de resíduos sólidos são de responsabilidade de seus geradores. Jardim et al.
(1995 apud OLIVEIRA; PASQUAL, 1998) apresenta os tipos de resíduos e os respectivos
responsáveis pelo seu gerenciamento (Quadro 1).

Tipo de resíduo Responsável


Domiciliar Prefeitura
Comercial Prefeitura
Especiais Prefeitura
Férias, varrição e outros Prefeitura
Serviços de saúde Gerador
Industrial Gerador
Portos, aeroportos e terminais ferrov. e rodov. Gerador
Agrícola Gerador
Outros (tóxicos e/ou perigosos) Gerador
Quadro 1 – Responsabilidade pelo gerenciamento dos resíduos sólidos
Fonte: Jardim et al. (1995 apud OLIVEIRA; PASQUAL, 1998).

4. OBJETIVOS DA PESQUISA
A pesquisa teve como objetivo: a) verificar o gerenciamento dos RSU na Bacia Hidrográfica
do Rio Tubarão e Complexo Lagunar, localizada no Estado de Santa Catarina, com área total
de 937,22 km², composta por vinte e um municípios: Anitápolis, Armazém, Braço do Norte,
Capivari de Baixo, Grão Pará, Gravatal, Imaruí, Imbituba, Jaguaruna, Laguna, Lauro Müller,
Orleans, Pedras Grandes, Rio Fortuna, Sangão, Santa Rosa de Lima, São Bonifácio, São
Ludgero, São Martinho, Treze de Maio e Tubarão, os quais totalizam uma população de
360.556 habitantes, segundo o Censo 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE); b) verificar o tratamento e a disposição final dos RSU atuais nos municípios e
comparar com a situação de 2002, apresentada no Plano Integrado de Recursos Hídricos da
Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar.
5. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS UTILIZADOS NA PESQUISA
Inicialmente foi analisado o panorama do gerenciamento dos RSU apresentado em 2002, pela
Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SDM), através do Plano
Integrado de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar.
Através de questionário contendo questões fechadas, foram obtidas informações atuais
referentes aos serviços de coleta regular de RSU, coleta de materiais recicláveis, coleta
regular de unidades de saúde, serviços de varrição, capina e limpeza, serviços de coleta
especial e, por fim, serviços de recolhimento de animais mortos.
Os formulários foram enviados no segundo semestre de 2007, via correios, às prefeituras dos
vinte e um municípios que compõem a Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo
Lagunar. Por sua vez, não foi pesquisada a situação referente aos resíduos sólidos industriais e
agrícolas em função da destinação final destes resíduos ser de responsabilidade dos geradores.
As informações atuais relacionadas às quantidades de RSU recolhidos e encaminhados ao
destino final foram fornecidas pela empresa que recebe esses resíduos.
Os dados e informações obtidos com os formulários foram tabulados e apresentados através
de mapas temáticos gerados com o auxílio do Sistema de Informações Georreferenciadas
ArcView GIS 3.2. Os mapas com os limites dos municípios foram obtidos através da
montagem de um mosaico com cartas topográficas digitalizadas do IBGE na escala 1:50.000 e
disponibilizadas pela EPAGRI.
Finalmente, foi comparada a situação existente em 2002 com a atual, e esta com as ações 6 e
7 previstas no Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e
Complexo Lagunar.

6. RESULTADOS
Segundo informações da Companhia de Polícia de Proteção Ambiental, citada pelo Ministério
Público Catarinense (2004), em 2001 56% (cinqüenta e seis por cento) dos municípios
catarinenses depositavam seus resíduos sólidos em lixões a céu aberto; 5% (cinco por cento)
em usina de compostagem; 27% (vinte e sete por cento) em aterros sanitários; 7% (sete por
cento) de recolhimento privado; 4% (quatro por cento) em usinas de reciclagem; 1% (um por
cento) em lixão industrial; e, 2% (dois por cento) não possuíam nenhum tipo de coleta
(MINISTÉRIO PÚBLICO DE SANTA CATARINA, 2004).
Em 2001 somente dois municípios da bacia hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar
adotavam procedimentos adequados considerando-se a destinação final dos RSU. Anitápolis
destinava seus resíduos sólidos para a compostagem e incineração, enquanto que Orleans os
encaminhava para um aterro controlado no município de Urussanga.
Os demais municípios (Figura 1) adotavam práticas não recomendadas de gerenciamento de
seus RSU e os encaminhavam para os chamados “lixões a céu aberto”, sendo que o maior
deles encontrava-se no município de Laguna (Figura 2). Este “lixão” era o destino dos RSU
de vários municípios da região, dentre os quais os mais populosos, como Tubarão, Imbituba e
Laguna.
Frente a essa situação o Ministério Público do Estado de Santa Catarina (2004) idealizou o
Programa Lixo Nosso de Cada Dia. Fazendo uso dos Termos de Ajustamento de Conduta
tomou frente na busca de soluções para um problema que era crônico no Estado, ou seja, a
ausência de locais adequados para a destinação final dos RSU na maioria dos municípios
catarinenses. A ação do Ministério Público fez surtir resultados positivos e dois anos depois
do início do programa o número de municípios do Estado com situação adequada passou de
12,6% para 69% de cobertura estadual.
Figura 1: Destinação final dos RSU da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar em 2001.
Fonte: Adaptado de Santa Catarina (2002).

Figura 2: Fotografia: Lixão a céu aberto no município de Laguna.


Fonte: Oliveira, 2007.

O governo do Estado de Santa Catarina, por sua vez, propôs ações com o objetivo de
contribuir para resolver, ou pelo menos mitigar, os problemas levantados no diagnóstico e
prognóstico do setor de Saneamento Básico. Através da Secretaria de Estado do
Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SDM) desenvolveu o Plano Integrado de
Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar, no qual foram
apresentadas as chamadas ações 6 e 7, as quais sugeriam a adoção de consórcios
intermunicipais para coleta e disposição final conjunta dos resíduos sólidos e implantação da
coleta seletiva nos municípios da bacia.
Configurando uma realidade diversa da estabelecida em 2001, todos os municípios da Bacia
Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar se adequaram às condições recomendadas
pelo Ministério Público, motivo pelo qual têm hoje uma destinação final aceitável dos pontos
de vista legal e ambiental (Figuras 3 e 4).
Figura 3: Destinação final dos RSU da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar em 2007.
Fonte: Adaptado de Gentil, 2007; Prefeituras Municipais.

Figura 4: Fotografia -Vista do aterro sanitário no município de Laguna/SC.


Fonte: Gentil, 2007.

Esta nova realidade foi investigada pelo Comitê Tubarão. Através da Câmara Técnica de
Resíduos Sólidos foram enviados questionários às vinte e uma prefeituras da bacia, com
questões referentes ao gerenciamento dos resíduos sólidos. Vinte prefeituras atenderam à
solicitação do Comitê Tubarão, devolvendo o questionário devidamente preenchido.
Os resultados apontaram uma geração per capta média na bacia de 0,52 kg/hab/dia, sendo
Tubarão o município com maior valor, apresentando 0,66 kg/hab/dia, e Rio Fortuna o menor
valor, 0,07 kg/hab/dia. A produção média mensal e a geração per capta dos demais
municípios são apresentadas na tabela 1.
A coleta seletiva de materiais recicláveis é realizada em nove municípios da bacia,
destacando-se os municípios de Santa Rosa de Lima, São Bonifácio, Armazém, Rio Fortuna,
Tubarão, São Martinho, Grão-Pará, Lauro Müller e Anitápolis, com índice de cobertura de
igual ou superior a 50% (Figura 5).
Tabela 1: Produção média mensal e geração per capita de RSU de 17 municípios da Bacia
Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Lagunar – 2007.
Municípios Produção Média (ton/mês) População Geração per capta
08/2006 - 08/2007 IBGE (2007) (kg/hab/dia)
Armazém 24,83 7.312 0,11
Braço do Norte 474,43 27.730 0,57
Capivari de Baixo 349,59 20.064 0,58
Grão Para 36,92 6.051 0,20
Gravatal 115,08 10.510 0,36
Imarui 68,25 11.675 0,19
Imbituba 640,65 36.231 0,59
Jaguaruna 267,44 15.668 0,57
Laguna 869,82 50.179 0,58
Pedras Grandes 37,76 4.817 0,26
Rio Fortuna 9,42 4.468 0,07
Sangão 73,64 10.300 0,24
Santa Rosa de Lima 6,95 2.031 0,11
São Ludgero 131,73 10.246 0,43
São Martinho 10,61 3.194 0,11
Treze de Maio 59,69 6.599 0,30
Tubarão 1.834,69 92.569 0,66
5.011,48 319.644 0,52
Fonte: GENTIL, Bruno Borges. Foto do aterro [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por
<bardini.com@uol.com.br> em 13 nov. 2007.

Figura 5: Índice de Cobertura da Coleta Seletiva de Materiais Recicláveis.


Fonte: Elaborado pelos autores.

Os resíduos orgânicos são recolhidos somente nos municípios de Santa Rosa de Lima, São
Bonifácio, Armazém, Anitápolis e Grão Pará. Não existe este serviço nos demais municípios,
conforme apresentado na figura 6.
Os resíduos provenientes de unidades de saúde têm a incineração como destinação final em
pelo menos treze dos vinte e um municípios da bacia. O destaque negativo, pelo fato de não
existir tal serviço, é dado para os municípios de Pedras Grandes e Sangão (Figura 7).
Figura 6: Índice de Cobertura do Serviço de Coleta Seletiva de Resíduos Orgânicos.
Fonte: Elaborado pelos autores.

Figura 7: Destinação Final da Coleta Regular de Resíduos de Unidades de Saúde.


Fonte: Elaborado pelos autores.

Em todos os municípios pesquisados existe o serviço de coleta de resíduos resultantes de


varrição, capina e limpeza. Os destinos dos resíduos recolhidos por este tipo de serviço em
cada município são apresentados na figura 8.
Com relação aos resíduos de feiras, mercados de rua e entulhos, somente foi investigada a
existência de coleta referente, sendo os resultados apresentados na figura 9.
Finalmente foi investigada a existência de recolhimento e qual o destino dado aos animais
mortos. Dos vinte municípios que responderam este quesito, somente em sete existe o
recolhimento. Nos municípios em que os animais mortos são recolhidos, a destinação final é
feita conforme apresentado na figura 10.
Figura 8: Destinação Final da Coleta de Resíduos Resultantes do Serviço de Varrição, Capina e Limpeza.
Fonte: Elaborado pelos autores.

Figura 9: Destinação Final da Coleta Especial (feiras, mercados de rua, entulhos).


Fonte: Elaborado pelos autores.

Figura 10: Destinação Final do Serviço de Recolhimento de Animais Mortos.


Fonte: Elaborado pelos autores.
7. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
A destinação final dos RSU nos municípios da bacia está adequada e atende aos preceitos
técnicos e legais. No entanto, em somente nove dos vinte municípios da bacia existe coleta
seletiva de materiais recicláveis. É necessário, portanto, incentivar a coleta seletiva desses
materiais nos demais municípios da bacia, sendo imprescindível o estabelecimento de
parcerias entre os municípios, setores produtivos e a universidade para pesquisas relacionadas
à diminuição da geração e o reaproveitamento de RSU, industriais e agrícolas.
Destaca-se, ainda, o fato de os resíduos industriais e agrícolas serem de responsabilidade dos
geradores, devendo, por esta razão, existir maior rigor dos órgãos de fiscalização para que a
legislação seja efetivamente cumprida.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉNICAS. Resíduos sólidos: Classificação,
NBR-10.004. Rio de Janeiro, 2004. 71 p.
AZEVEDO, J.; NASCIMENTO, L. C. A.; MENDES, O. F. Panorama dos Problemas
Gerados, pelos Resíduos Sólidos Urbanos no Brasil. In: IV SIMPÓSIO DE DIREITO
AMBIENTAL. 2001, São Gonçalo. Anais... Rio de Janeiro: UNIVERSO, 2001 (Em CD-
Rom).
COMITÊ DA BACIA DO RIO TUBARÃO E COMPLEXO LAGUNAR. Carta das Águas.
Tubarão. [2007]. Disponível em:
<http://www.unisul.br/content/navitacontent_/userFiles/File/hotsites/comite/carta_das_aguas.
pdf>. Acesso em: 30 maio 2008.
GENTIL, Bruno Borges. Foto do aterro [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por
<bardini.com@uol.com.br> em 13 novembro 2007.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Contagem da população
2007. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/estadosat/>. Acesso em: 13 maio 2008.
LAROUSSE CULTURAL. Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Cultural,
1992. 1176 p.
MONTEIRO, José Henrique Penido et al. Manual de gerenciamento integrado de resíduos
sólidos. Rio de Janeiro, IBAM, 2001. Disponível em: <http://www.resol.com.br/cartilha4/>.
Acesso em: 18 nov. 2007.
MINISTÉRIO PÚBLICO DE SANTA CATARINA, Lixo Nosso de Cada Dia. Disponível
em: < http://www.mp.sc.gov.br/portal/site/portal/portal_detalhe.asp?campo=2103>. Acesso
em: 12 maio 2008.
OLIVEIRA, Solene de. Caracterização física dos resíduos sólidos domésticos (RSD) da
cidade de Botucatu/SP. Revista Engenharia Sanitária e Ambiental, São Paulo, v. 4, n. 3,
p.113-116. 1999.
OLIVEIRA, Solene de; PASQUAL, Antenor. Gestão de resíduos sólidos na microrregião
Serra de Botucatu/SP. Revista Limpeza Pública, São Paulo, n. 47, p.23-28, 1998. Disponível
em: <http://botucatu.sp.gov.br/Artigos/artigos/R_LimpezaPublica.pdf>. Acesso em: 15 maio
2008.
OLIVEIRA, Vanelli Ferreira de. Lixão a céu aberto [mensagem pessoal]. Mensagem recebida
por <bardini.com@uol.com.br> em 20 nov. 2007.
SANTA CATARINA. Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento e Meio
Ambiente. Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Tubarão e Complexo
Lagunar. Diagnóstico da Forma e Processos Associados à Dinâmica Fluvial. Florianópolis,
2002, v. 1.
HABITAÇÃO AUTO-SUFICIENTE: DIRETRIZES CONSTRUTIVAS BÁSICAS

Antônio Domingos Dias Ferreira


Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil
Universidade Federal Fluminense
toni.dias@ig.com.br

Ana Lúcia Torres Seroa da Motta


Programa de Pós-graduação em Engenharia Civil
Universidade Federal Fluminense
anaseroa@poscivil.uff.br

RESUMO
Questões referentes à sustentabilidade do planeta, como o desperdício de água e de energia
elétrica estão entre os maiores exemplos de fatores causadores dos impactos ambientais
observados na atualidade e vem merecendo crescente atenção em todo o mundo. Na indústria
da construção civil, o estudo e o desenvolvimento de tecnologias e técnicas construtivas que
minimizem esses impactos, assume grande importância no desenvolvimento de uma cidade
mais sustentável. Este trabalho objetiva traçar diretrizes básicas para a construção de uma
edificação residencial auto suficiente no que se refere aos aspectos do abastecimento e reuso
de água, coleta e tratamento do esgoto, além do aproveitamento da energia solar para
aquecimento de água e para geração de energia elétrica, apresentando as tecnologias já
existentes para esta finalidade. Pretende-se contribuir também para a disseminação, junto à
sociedade, de conhecimentos acerca do assunto, influenciando assim em sua qualidade de
vida. Foram utilizados dados de pesquisas da EMBRAPA, do Projeto Planágua (cooperação
técnica Brasil-Alemanha), do Projeto Casa Solar (CEPEL/Eletrobrás), entre outros. O
conhecimento acerca desses sistemas pode ajudar na viabilização de habitações mais limpas e
ambientalmente corretas, dando assim sua contribuição para um modelo mais sustentável para
nossas cidades.

1. INTRODUÇÃO
Atualmente, temas que possuem ligação direta com questões referentes à sustentabilidade do
planeta assumiram proporções consideráveis e vem merecendo crescente atenção em todas as
partes do globo. As questões climáticas, por exemplo, tem deixado o mundo inteiro em alerta
e já se tem comprovação científica acerca dos efeitos danosos à nossa atmosfera, tanto no que
se refere ao buraco na camada de ozônio, quanto ao efeito estufa, ambos provocados pela
intensa e crescente atividade industrial nas sociedades mais desenvolvidas e nos países
emergentes, como é o caso do Brasil.

Mas não são apenas os danos à atmosfera terrestre que causam preocupação. Além da forte
industrialização hoje observada, outros fatores igualmente nocivos acarretam prejuízos
extremamente sérios aos solos, rios, lagos, mares, etc, afetando sensivelmente vários
ecossistemas ao redor do mundo. O desmatamento feito sem manejo e de forma ilegal, a
ocupação irregular do solo urbano e rural, o despejo in natura do esgoto doméstico e o
desperdício de água e energia elétrica estão entre os exemplos mais significativos dos fatores
causadores dos impactos ambientais observados na atualidade.

Esta complexa realidade tem motivado reflexões e discussões cada vez mais amplas e
freqüentes envolvendo os mais diferentes agentes tais como: governos, organizações não
governamentais, órgãos internacionais, além é claro dos mais variados segmentos de uma
sociedade cada vez mais globalizada.
Nesse contexto, no que se refere à indústria da construção civil, o estudo e o conseqüente
desenvolvimento de tecnologias e técnicas construtivas que levem à resultados voltados a um
novo patamar no que se refere a uma maior responsabilidade ambiental, minimizando os
impactos causados ao meio ambiente, assume importância vital para o desenvolvimento de
uma nova concepção de cidade sustentável.

Tal estudo, quando relacionado às construções para uso residencial, deve buscar, entre outras,
respostas à questões tais como: É possível a concepção de uma tipologia construtiva que
contemple aspectos relacionados a um melhor aproveitamento da água das chuvas e da
subterrânea? Seria viável o projeto e a construção de um sistema de reuso de água para
edificações residenciais? Como tratar do esgoto doméstico no próprio local, sem despejá-lo
em redes convencionais de coleta? No que se refere a questão energética, é viável
economicamente a implantação de um sistema de aproveitamento da energia solar?

Este trabalho visa obter as respostas para tais questionamentos, procurando traçar diretrizes
básicas para a construção de uma habitação auto suficiente no que se refere aos aspectos do
abastecimento e reuso de água, coleta e tratamento do esgoto, além do aproveitamento da
energia solar para aquecimento de água e geração de energia elétrica, apresentando as
tecnologias já existentes para tais finalidades.

Pretende-se contribuir também para a disseminação de conhecimentos técnico-científicos


acerca do assunto aqui abordado, buscando-se aumentar a compreensão e o acesso por parte
da sociedade como um todo, a conhecimentos que certamente irão influenciar positivamente
na qualidade de vida dos habitantes de nossas cidades.

2. METODOLOGIA
Na seção que trata acerca dos sistemas voltados para a captação de água foram utilizados
dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA e do Projeto
PLANÁGUA, que é uma cooperação técnica entre o Brasil, representado pela Secretaria de
Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Rio de Janeiro - SEMADS e a
Alemanha.

No item sobre sistemas para aproveitamento de energia solar foram utilizados dados do
Centro de Pesquisas Elétricas - CEPEL/ELETROBRÁS e de mídia eletrônica produzida pelo
CNPq, entre outras instituições. Também foram utilizadas informações obtidas em visita à
Casa Solar, que é um projeto também do CEPEL localizado no campus universitário da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão – Rio de Janeiro.

Em relação aos sistemas de coleta e tratamento de esgoto foi realizada pesquisa em página na
internet da organização não governamental Sociedade do Sol, especializada no assunto.
Também foram obtidos dados de projeto específico para construção de um sanitário seco
compostável.

3. SISTEMAS PARA CAPTAÇÃO DE ÁGUA


Para se projetar e se construir uma habitação auto-suficiente do ponto de vista do
abastecimento de água, existem duas alternativas principais que devem ser consideradas. São
elas: a) Captação de água da chuva e b) Captação de água subterrânea, onde sua extração se
mostrar técnica e economicamente viável. Serão mostrados a seguir os dois sistemas.
3.1. Sistema para captação de água da chuva
A captação de água da chuva é uma prática muito difundida em países como a Austrália e a
Alemanha (EMBRAPA, 2005), apresentando boa relação custo-benefício. Aqui no Brasil, em
localidades onde existe pouca ou nenhuma rede de abastecimento adota-se este sistema. Além
da vantagem de suprir o consumo de água potável, o sistema ajuda na contenção das
enchentes e da erosão. A melhor forma de armazenar a água de chuva é a cisterna subterrânea,
onde a ausência de luz e calor retarda a ação bacteriana. Os componentes do sistema podem
ser vistos abaixo (Figura 1).

Sistema de Cisterna Sistema de


captação de Pré-filtro Filtro armazenamento tratamento
água da chuva de água de água

Figura 1: O sistema cisterna é constituído dos seguintes componentes:


Fonte: EMBRAPA (2005, pág. 4)

3.1.1. Captação da água


A captação normalmente é feita por um conjunto de calhas e tubos, em geral com diâmetro de
10 cm, que conduzem a água da chuva a um pré-filtro para a limpeza dos materiais grosseiros
em suspensão na água. É recomendável que somente a água de chuva captada em telhados e
coberturas venha a ser encaminhada para a cisterna, após passagem em um sistema de
filtragem. Superfícies lisas são as melhores para a captação (telhas de barro, de cimento, etc).
A área de captação de chuva necessária para atender a demanda, considerando somente o
volume de água da chuva, é calculada pela equação 1:
Ac = Vd / (Prec x Efic) (1)
2
em que: Ac = área de captação (ex. área do telhado) (m );
Vd = volume de demanda de água da propriedade por dia (m3/dia);
Prec = Intensidade da precipitação (m) diária;
Efic = coeficiente de eficiência do sistema (0,7).

3.1.2. Filtração da água


A filtração é um processo de separação sólido-líquido, visando principalmente a remoção das
impurezas contidas na água que são retidas através de um meio poroso. A água corre do
telhado para o filtro (Figura 2), onde se separa a água das impurezas (carga orgânica). Ela é
então encaminhada para a cisterna, enquanto a sujeira, impulsionada por um pequeno volume
de água, vai para o sistema de descarga e posterior infiltração no subsolo.

Figura 2: Filtros comerciais para limpeza de água da chuva recolhida de áreas cobertas.
Fonte: EMBRAPA (2005, pág. 10)
3.1.3. Armazenamento da água
O reservatório pode ser constituído de lonas de PVC ou PEAD, fibra de vidro, alvenaria
(Figura 3), ferro-cimento ou concreto armado, sendo os de fibra de vidro e alvenaria mais
usados para pequenos volumes, porém os últimos são mais sujeitas a fissuras. As cisternas
podem ser enterradas ou ao nível do solo, devendo-se considerar que nas enterradas a
temperatura da água é menor, reduzindo o desenvolvimento de microorganismos. As cisternas
devem ser cobertas para evitar a entrada de impurezas, matéria orgânica, insetos e animais
domésticos, que possam contaminar a água.

Figura 3: Cisterna construída em alvenaria.


Fonte: EMBRAPA (2005, pág. 12)

A estimativa da capacidade de armazenamento de uma cisterna é calculada em função da


demanda ou consumo de água na residência, do volume de precipitação médio na região, da
área dos telhados, da área de captação e da duração do período de estiagem. É necessário
conhecer o máxima, o mínima e o total de chuva ocorrida (mm de chuva) e o período de
estiagem (dias) na região. Estes dados podem ser obtidos nas estações meteorológicas
existentes na região ou nas entidades federais (INMET, EMBRAPA, UNIVERSIDADES),
estaduais e municipais. O volume da cisterna é calculado pela equação 2:
Vc = {Vd x Ndia – (Qfont x Ndia)} + Vevap (2)
em que: Vc = Volume da cisterna (m3);
Vd = volume de demanda de água da propriedade por dia (m3/dia);
Ndia = Número médio de dias sem chuva no período de estiagem;
Qfont = Vazão de água da fonte existente na propriedade (m3/dia).
Vevap = Volume de água evaporada da cisterna no período considerado (m3);

3.1.4. Tratamento da água


Para o tratamento pode-se utilizar primeiramente uma barreira física, como uma grade ou uma
tela fina, para reter o material grosseiro como galhos e folhas que se depositam no telhado.
Em seguida é recomendável a separação via sedimentação de pequenas partículas que passam
o aparato de grade ou tela, podendo ser feita por uma caixa do tipo pré-filtro com brita.
Posteriormente, a água passa por um sistema simples de filtro lento para remoção de materiais
mais finos em suspensão.

A desinfecção com cloro é recomendável para eliminar microorganismos. A quantidade de


cloro a adicionar vai depender do tipo da solução de cloro e da qualidade da água. Existem
vários cloradores disponíveis no mercado que operam automaticamente no processo de
desinfecção de água.
3.2. Sistema para captação de água subterrânea
A existência da água nos estados sólido, líquido e gasoso na Terra, envolve o gigantesco
fenômeno denominado Ciclo Hidrológico (Figura 4). A contínua circulação entre os oceanos,
a atmosfera e os continentes é responsável pela renovação da água doce, há pelo menos 3,8
bilhões de anos.

No entanto, 97,6% da água do planeta está nos oceanos, mares e lagos de água salgada. A
água doce, representa os 2,4% restantes, tendo sua maior parte situada nas calotas polares e
geleiras (1,9%). Da parcela restante (0,5%), mais de 95% é constituída pelas águas
subterrâneas.

Figura 4: Ciclo hidrológico


Fonte: SEMADS (2001, pág. 35)

3.2.1. Água subterrânea no Brasil


O Brasil detém um terço de toda a água doce disponível no planeta, porém a utilização das
águas subterrâneas é ainda relativamente modesta, ou seja, muito aquém de sua
potencialidade (Figura 5).

Figura 5: Potencialidades médias de água subterrânea no Brasil


Fonte: SEMADS (2001, pág. 47)

3.2.2. Projeto construtivo básico de poço doméstico


Poço doméstico é qualquer captação rasa, aproveitando essencialmente o lençol freático,
construído manualmente, utilizando-se revestimento de anéis de concreto ou tubos PVC de
pequeno diâmetro.
A construção desses poços, em regiões servidas por energia elétrica pode ser pelo método de
perfuração e revestimento em áreas de baixada sedimentar ou pelo método de perfuração e
revestimento em áreas de pequena cobertura de solo (Figura 6).

(a) (b)
Figura 6: Projeto construtivo básico de poço doméstico em área de baixada sedimentar (a) e
com proteção sanitária em áreas com pequenas coberturas de solo (b)
Fonte: SEMADS (2001, págs. 51 e 53)

4. SISTEMAS PARA APROVEITAMENTO DE ENERGIA SOLAR


Em uma edificação residencial, a energia solar pode ser aproveitada basicamente de duas
maneiras distintas. A primeira delas é no aquecimento de uma determinada quantidade de
água, a ser utilizada principalmente para o banho. A outra utilização é na geração e no
fornecimento de energia elétrica para a unidade habitacional. Esses usos passam agora a ser
apresentados.

4.1. Sistema para aquecimento solar de água


Atualmente, além do sistema tradicional de aquecimento solar de água, já existem disponíveis
projetos para sistemas de aquecimento solar de baixo custo - ASBC (SOCIEDADE DO SOL,
2008) baseados nos mesmos princípios de funcionamento dos sistemas tradicionais, diferindo
apenas pelo tipo de material usado e da possibilidade de auto-construção.

4.1.1. Princípios de funcionamento do ASBC


O funcionamento se inicia quando a energia solar irradiante incide sobre a superfície preta dos
coletores, transformando-se em calor e aquecendo a água que está em seu interior. A água
aquecida diminui de densidade e se movimenta em direção à caixa, dando início a um
processo natural de circulação da água, chamado de termo-sifão, devendo o reservatório estar
acima dos coletores (Figura 7).

Esse processo é contínuo, enquanto houver boa irradiação solar ou até quando toda água do
circuito atingir a mesma temperatura. A água aquecida fica armazenada num reservatório
termicamente isolado que evita perda de calor para o ambiente.
Figura 7: Esquema do aquecedor solar de baixo custo, mostrando a caixa
de água quente (1), os coletores (2) e o misturador de água quente (3)
Fonte: SOCIEDADE DO SOL (2008, pág. 5)

4.2. Sistema para geração de energia solar fotovoltaica


A energia solar fotovoltaica é a energia obtida através da conversão direta da luz em
eletricidade. É o chamado efeito fotovoltaico, que consiste no aparecimento de uma diferença
de potencial nos extremos de uma estrutura (célula) de material semicondutor, produzida pela
absorção da luz (CEPEL/ELETROBRÁS, 1999). O material mais empregado na produção das
células é o silício, que é o segundo elemento mais abundante na crosta terrestre.

No Brasil, o uso residencial de energia elétrica corresponde a cerca de um quarto do total do


consumo (CNPq et al., 1998). Este percentual justifica a preocupação com o desenvolvimento
tecnológico voltado para uma maior utilização da energia solar, convertida em energia
elétrica. Nesse sentido estão em andamento pesquisas em todo o mundo, tendo sido anunciada
em 2008 a descoberta, por pesquisadores norte-americanos, de uma tinta com propriedades
idênticas às células fotovoltaicas, com a vantagem de ter um custo muito menor. Aqui no
Brasil, o Centro de Pesquisas Elétricas – CEPEL/ ELETROBRÁS construiu um protótipo
batizado de Casa Solar, situado no campus Fundão da Universidade Federal do Rio de
Janeiro.

Painéis solares (Figura 8) com o objetivo de gerar energia elétrica para fins residenciais estão
sendo instalados em regiões do Brasil onde a rede convencional de distribuição de energia não
alcança.

Figura 8: Formas usuais de instalação de módulos fotovoltaicos


Fonte: CEPEL/ELETROBRÁS (1999, pág. 143)
5. SISTEMAS PARA COLETA E TRATAMENTO DE ESGOTO
Serão abordados aqui os princípios construtivos básicos de dois sistemas de esgoto, um
utilizando o sanitário seco, também chamado de sanitário compostável ou fossa seca e o outro
trabalhando com a idéia do reuso da água para finalidades menos nobres.

5.1. Sistema utilizando sanitário seco


É mostrado aqui um modelo (Figura 9) que se adequa melhor para construção separada da
casa. Mas em casas com dois pisos ou com uma declividade natural do terreno próximo a elas,
pode ser construído junto, dando acesso por dentro de casa.

Figura 9: Esquema construtivo do sanitário seco


Fonte: VIEIRA (2006)

5.1.1. Condições básicas de funcionamento


Algumas condições devem ser obedecidas para que este sistema funcione corretamente. São
elas: a) Cada câmara deve ter cerca de 1m3 de espaço para o material a ser compostado; b) A
rampa deve ter inclinação mínima de 45 graus para permitir uma boa compostagem; c) Deve
haver fácil acesso à serragem que é o que permite, juntamente com o papel higiênico o
processo de compostagem (fermentação); d) A altura de queda até a rampa deve ser de
aproximadamente 80 cm para provocar o início da rolagem; e) A chapa preta que provoca o
aquecimento do ar das câmaras deve ficar (aqui no Brasil) voltada para a face norte e livre de
sombras.

Após o uso de uma câmara por um período de 3 a 6 meses passa-se a usar a outra câmara. No
final de cada período de repouso retira-se o composto da câmara e alterna-se novamente o uso
das câmaras. Quando da troca da câmara em uso, basta desaparafusar as tampas e trocá-las.

Recomendações: a) Jogar na câmara uma medida de serragem após cada uso; b) Não jogar
dentro das câmaras materiais inorgânicos; c) Se possível, mudar o sistema para que a urina
seja captada e não se misture ao composto, para não prejudicar o processo de compostagem.

5.2. Sistema de reuso de água


Reutilizar a água do banho em aplicações simples como por exemplo nas descargas dos vasos
sanitários diminui em cerca de 30% o uso de água potável para esse fim. Essa água
reaproveitada é denominada de "Greywater" ou água cinza, bastante utilizada para irrigação
em outros países. Apesar de muito mais limpa do que a do esgoto, apresenta aspectos
químicos e biológicos especiais, cuja solução ainda está sendo estudada. Essa água é pouco
homogênea, constituída por resíduos biológicos, sabões, detergentes, creme dental, entre
outros.
5.2.1. Funcionamento do sistema
Esse sistema, além de muito barato, é seguro por ser um circuito fechado, (chuveiro, ralo do
box, reservatório fechado e vaso sanitário), sem fácil acesso para manuseio ou ingestão por
familiares ou terceiros. Após a filtragem a água é tratada dentro de um reservatório com cloro
de origem orgânica (produto que não forma sub-produtos cancerígenos) garantindo a
desinfecção e conservação, deixando a água segura para o reuso no vaso sanitário (Figura 10).

Figura 10: Projeto desenvolvido pela ONG – Sociedade do Sol


Fonte: SOCIEDADE DO SOL (2003)

6. CONCLUSÕES
Os assuntos aqui abordados de maneira bem sintética, possuem uma imensa gama de
variáveis que merecem um maior aprofundamento visando alcançar uma concepção de
habitação auto-suficiente que realmente atenda a esses e outros requisitos, de maneira
integrada, contribuindo assim na busca da tão desejada sustentabilidade para as sociedades
modernas.

Buscou-se traçar diretrizes básicas para a construção desta edificação residencial sustentável,
com impactos positivos, tanto do ponto de vista ambiental como do sócio-econômico para
seus usuários e para a sociedade em geral.

Alguns dos sistemas aqui apresentados, como por exemplo, o aquecimento solar de água para
banho, encontram-se bastante disseminados no seio da sociedade, já sendo bastante acessíveis
do ponto de vista de sua relação custo-benefício. Por outro lado, outros sistemas como a
geração de energia elétrica fotovoltaica, embora altamente desejável, ainda enfrenta barreiras
relativas ao alto custo do equipamento.

A disseminação do conhecimento acerca desses sistemas construtivos poderá vir a ajudar na


viabilização de modelos habitacionais muito mais limpos e ambientalmente corretas, dando
assim sua contribuição para um modelo mais sustentável para nossas cidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CEPEL/ELETROBRÁS, Centro de Pesquisas Elétricas – Eletrobrás. Manual de Engenharia
para Sistemas Fotovoltaicos. Rio de Janeiro, RJ. 1999.
CNPq et al.. CD-Rom Eficiência Energética na Arquitetura. Santa Catarina, 1998.
EMBRAPA. Seminário: Planejamento, Construção e Operação de Cisternas para
Armazenamento da Água da Chuva. Concórdia, SC, 2005.
SEMADS, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Projeto
Planágua Semads / GTZ de Cooperação Técnica Brasil-Alemanha – Poços Tubulares e Outras
Captações de Águas Subterrâneas – Orientação aos Usuários. Rio de Janeiro, 2001.
SOCIEDADE DO SOL. Manual de Instrução de Manufatura e Instalação Experimental do
Aquecedor Solar de Baixo Custo, 2008. Disponível em: <http://www.sociedadedosol.org.br>
SOCIEDADE DO SOL. Reuso de água residencial. 2003. Disponível em:
<http://www.sociedadedosol.org.br/reuso>
VIEIRA, Itamar. Sanitário compostável, 2006. Disponível em:
<http://www.setelombas.com.br/2006/04/20/sanitario-compostavel>
Inovação na Indústria da Construção Civil com o Blog Corporativo: O caso Tecnisa

Quirino Osório da Silva Junior


Universidade Federal do Paraná: silvajunior.quirino@gmail.com
Maria do Carmo Duarte Freitas
Universidade Federal do Paraná: mcf@ufpr.br
Sérgio Scheer
Universidade Federal do Paraná: scheer@ufpr.br

RESUMO

As empresas nacionais, especialmente, a Indústria da Construção Civil, enfrentam inúmeros


desafios oriundos do processo de globalização. No Brasil, com o advento da internet, algumas
empresas se preparam para utilizar as ferramentas disponíveis no mercado, como a formação
de ambientes colaborativos, através de Blogs corporativos para se comunicarem com a
sociedade e com o seu público alvo. As empresas inovadoras saem na frente de seus
concorrentes e se destacam no mercado em que elas atuam. Este artigo discute a utilização do
Blog corporativo na indústria da construção civil. Além disso, estuda o primeiro caso do uso
desta ferramenta dentro deste contexto, o caso Tecnisa.

1. INTRODUÇÃO

O rádio e a televisão definiram a cara do século XX. Com estas mídias surgiram os campeões
de audiência que marcaram a cultura de massa no século passado, projetaram as celebridades
e revolucionaram nossos costumes, ao apresentar temas sensíveis como divórcio, aborto,
sexualidade ou racismo. Também serviram de meio para que políticos de todos os matizes se
tornassem conhecidos, transmitissem suas mensagens e exercessem o poder de modo eficaz
sobre bilhões de seres humanos. Ainda deram origem a uma indústria pujante, geraram
fortunas e transformaram a economia por meio da publicidade e do marketing. O século
passado pode ser, sem exagero, chamado de Era do Radio e da TV.

No século XXI observa-se o crescimento da Internet e dos meios de comunicação de massa. A


rede mundial Web aproxima as pessoas e aumenta a interação, todos podem publicar e gerar
conteúdo. Muda o referencial como um meio de comunicação não apenas de massa, é
construído pela massa - os internautas. O diário ganho espaços virtuais e assume o nome de
blogs. A Era da comunicação através da Internet e - também - dos Blogs. "Os blogs são o
primeiro passo para que todas as pessoas alfabetizadas tenham sua própria plataforma no
mundo", disse a Revista EPOCA o jornalista e “blogueiro” americano John Batelle, um dos
colaboradores do Boing Boing, o blog mais popular do mundo. "Um espaço onde elas podem
declarar quem são, o que querem e o que pensam".

Como os blogs atuam no mundo organizacional? Estariam as empresas construtoras


Brasileiras aptas a fazerem uso deste meio de comunicação inovador? Este é o desafio desta
investigação, analisa como as empresas utilizam os Blog corporativos, principalmente na
indústria da construção civil. A proposta é fazer um estudo de caso do uso dessa ferramenta
dentro deste contexto, o caso Tenisa.

2. WEBLOG OU BLOG

O neologismo foi criado pelo norte-americano Jorn Barger em dezembro de 1997 para
designar seu site, Robot Wisdom Weblog (HTTP://www.robotwisdom.comitiome), uma home
page pessoal caracterizada por uma coleção de comentários com links1 para outras páginas de
internet (BLOOD, 2002a, e BAUSCH et al, 2002 apud ARAÚJO, 2006). A expressão surgiu
como derivação de um termo anterior: "web log". A locução substantiva, no jargão da
Tecnologia da Informação, é o nome que se dá ao arquivo digital que contém o registro da
quantidade e do tipo de acessos feitos a um determinado servidor2. Com o tempo, a palavra
weblog foi abreviada, por aférese3, para blog (BLOOD, 2002a apud ARAÚJO, 2006).

ARAÚJO (2006) afirma que o emprego do termo blog é objeto de controvérsias.


Identificaram-se cinco acepções associadas ao termo. A primeira acepção esta relacionada
com a colocação de links (BLOOD, 2002a , RABAÇA. e BARBOSA, 2001 apud ARAÚJO,
2006); a segunda é de diário on-line (SCHITTINE, 2002 apud ARAÚJO, 2006); a terceira é
de home page pessoal na Internet (BARBOSA e GRAMDO, 2004 apud ARAÚJO, 2006), a
quarta, a mais difundida, é de página na Internet com textos ou arquivos dispostos em ordem
cronológica reversa, na qual o mais recente fica em cima e o mais antigo, no fim da pagina
(BAUSCH et al, 2002 apud ARAÚJO, 2006), geralmente produzida por meio de software de
edição on-line. A última vincula a palavra ao conceito de espaço de discussão.

A associação decorre da existência de uma ferramenta de edição que permite aos internautas
deixar mensagens. Essa última definição tem sido cada vez mais associada ao conceito
(BAUSCH et al, 2002; e BLOOD, 2002 apud ARAÚJO, 2006) apesar de programas de edição
em outros formatos oferecer o mesmo recurso. Todos os cinco sentidos da expressão
terminam por se amalgamarem, criando híbridos de dois, de três, de quatro ou de todas as
possibilidades semânticas do termo (ARAÚJO, 2006).

3. O UNIVERSO DOS BLOGS

A multidão de blogs que se entrecruzam e se relacionam ficou conhecida como blogosfera. O


tamanho da blogosfera é crescente. O número de diários em todos os idiomas é hoje 60 vezes
maior do que era há três anos e já ultrapassou a marca de 40 milhões de páginas (MULLER,
2006). De acordo com o site Technorati, que cataloga e faz buscas em blogs no mundo inteiro,
são criados 75 mil blogs por dia. Isso dá uma média de um novo blog por segundo. Há um
blog para cada 25 pessoas on-line. Segundo o Pew Internet & American Life Project,
instituição americana que estuda o impacto da internet, 57 milhões de internautas dos Estados
Unidos lêem blogs diariamente. Eles são abastecidos por cerca de 1,2 milhões de novos
conteúdos por dia, ou uma média de 50 mil por hora. No Brasil, dos quase 20 milhões de
internautas, estima-se que algo como 25% vasculhem blogs todo dia em busca de informação
ou entretenimento (AMORIN: VIEIRA, 2006).

Um recém-lançado serviço de catalogação de blogs brasileiros, o BlogBlogs


(http//www.blogblogs.com.br), ultrapassou o número de 85 mil blogs voluntariamente
cadastrados em três meses. Todos eles disputam a atenção do internauta com sites
convencionais e grandes portais.

CIPRIANI (2006) destaca que essa interação em massa se dá por meio de opiniões em lojas
de comércio eletrônico e websites diversos, fóruns de debate sobre todo tipo de assunto, salas
de bate-papo, colaborações de textos e artigos, e muitos outros meios.

A Tabela 1 apresenta a população da internet estimada em pouco mais de um bilhão de


pessoas, cada uma com sua maneira individual de viver, cada uma com próprias idéias,
sonhos, desejos, opiniões e, principalmente, vontade de compartilhar todos os itens anteriores
com outras pessoas. A internet passa a ser o meio de comunicação em que toda essa
eletricidade fluirá.

Tabela 1: População conectada na internet


Local População total População "conectada"
Brasil 184.284.898 25.900.000
Mundo 6.499.697.060 1.018.057.389
Fonte: www.world-gazetteer.com, www.internetworldstats.com (2005)

MULLER (2006) afirma que esta explosão dos blogs é confirmada em números através de
relatórios postados pela empresa Technorati — que rastreia o que está sendo publicado na
blogosfera e acompanha o crescimento dos blogs no mundo todo. Em relatório publicado em
2006, a empresa aponta os seguintes números:

 há cerca de 27.2 milhões de blogs, 1.2 milhões de posts diários;


 aproximadamente 50.000 por hora;
 a blogosfera dobra de tamanho a cada 5 meses e meio;
 a blogosfera é 60 vezes maior do que era há 3 anos;
 em média, um blog é criado a cada segundo do dia;
 13.7 milhões de bloggers continuam postando 3 meses depois da criação de seus blogs.

As razoes para sobrevivência destes diários é que a internet torna realidade duas promessas da
internet. A primeira é a liberdade universal de expressão que por meio de uma ferramenta
simples, qualquer um pode escrever o que quiser em seu blog. Ele potencialmente será lido
por qualquer habitante da Terra que fale a mesma língua e tenha acesso à rede. A segunda
promessa é a interatividade. Assim que um blogueiro escreve um texto, ele pode receber
comentários. Graças a isso, a ferramenta que parecia servir apenas para alguém escrever as
próprias opiniões e saber o que os amigos achavam transformou-se em algo muito mais
poderoso. Os blogs deixaram de ser meros "diários on-line". Eles dão noticias, contam piadas,
fazem política, criam arte e podem ser considerados até literatura. Ou fazem tudo isso ao
mesmo tempo. Os blogs interferem na cultura, na carreira, nas empresas, na política, enfim,
em todas as áreas da vida (AMORIN: VIEIRA, 2006).

E ainda ressalta que, a principal responsável pela credibilidade que os blogs adquiriram é a
interatividade. Em tese, uma informação veiculada por um diário pessoal on-line não seria
confiável. Mas, a partir do momento em que é posta no ar, recebe correção ou retificação de
milhares de pessoas. Ganha peso e densidade. Foi esse mesmo princípio colaborativo que
tornou a enciclopédia on-line Wikipédia uma fonte de pesquisas com credibilidade
comparável à da tradicional Enciclopédia Britânica,

4. O BLOG CORPORATIVO

Para EMILIANO (2004), o Blog Corporativo é um diário mantido por uma empresa. Através
dele, a empresa detalha seus produtos e serviços, criar um canal de comunicação direta com
os clientes, divulgar notícias próprias e do mercado, demonstrar seu expertise na área de
atuação, Pode ser interno, direcionado aos seus funcionários, ou externo, também para seus
clientes, parceiros, mídia e comunidade. E divide-se em blog corporativo interno e externo.

Um blog corporativo interno é uma importante e eficaz ferramenta de comunicação entre a


empresa e seus colaboradores. Muitas vezes consegue substituir, com vantagens, trocas de e-
mails para tomadas de decisões, pois além de manter as mensagens publicadas num único
lugar, permite a qualquer interessado o acompanhamento da discussão em sua ordem
cronológica e organizada.

Desta forma, o conhecimento adquirido é mantido, assim como o histórico das conversas e
decisões. As reuniões também podem ser otimizadas com a implementação de blogs internos.
Além de permitir que os participantes se preparem melhor e tenham discussões mais
adiantadas, muitas vezes consegue eliminar a necessidade de mobilizar as equipes para a troca
de idéias, pois através do blog é possível lançar propostas, dúvidas, questionamentos e receber
as opiniões dos demais integrantes do time. Outro beneficio do blog interno é a difusão do
conhecimento e o nivelamento das informações entre os funcionários, pois tudo que for de
interesse da empresa estará à disposição para consulta durante todo o tempo (EMILIANO,
2004).

O blog corporativo externo é o diário publicado na internet. É através dele que a empresa
poderá criar um novo canal de comunicação com a comunidade na qual está inserida. Entre os
muitos benefícios que o blog externo pode trazer, destaca-se o potencial de fidelização de
clientes e a garantia de presença do empreendimento em mecanismos de buscas como o
Google® e o Yahoo®, criando mais um meio de captação de novos negócios.

CIPRIANI (2006) orienta que a adoção do blog corporativo por parte das empresas deve ser
uma decisão estudada antes de ser colocada em prática. Existem diversos fatores que devem
ser analisados como orçamentos, disponibilidade de pessoal, políticas de uso, processos
afetados, entre outros. As empresas devem acompanhar as informações disponibilizadas na
internet e, principalmente, nos blogs, que são fontes confiáveis de gostos, manias, opiniões,
criticas, idéias, tendências e diversas outras coisas relacionadas. As empresas já estão
adotando o diário como ferramentas de comunicação e interação, para que as companhias se
posicionem como vitrine das oportunidades de negócio que os blogs podem gerar.

Em 2006, Peppercorn Strategic Communications divulgou uma pesquisa envolvendo 1100


profissionais de Relações Públicas e agências de comunicação nos Estados Unidos e Reino
Unido. Nessa pesquisa a grande descoberta é que as empresas estão conscientes da
importância dos blogs e do monitoramento da blogosfera, mas que ainda estão reticentes em
colocar o pé nesta realidade. Os principais dados da pesquisa são:

 85% acreditam que o blog é uma ferramenta de comunicação importante (sendo que os
dois motivos mais importantes são: facilidade de compartilhar informações rapidamente e
em longo alcance e oportunidade de influenciar a opinião pública e a decisões
estratégicas).
 mais de 80% admitem que eles (ou seus clientes) não possuem uma política de uso de
blogs.
 apesar da maioria das empresas acharem que os blogs são importantes, apenas 36% estão,
efetivamente, utilizando os blogs para seus clientes ou para sua própria companhia.

Empresas tradicionais ou fora do ramo de tecnologia também reconhecem o valor desse tipo
de opinião coletiva e já utilizam essa inteligência da população on-line para criar e
desenvolver produtos com a cara do consumidor ou colher opiniões e previsões de mercado.
A Lego, fabricante de brinquedos, criou em seu websìte uma área dedicada para seus clientes
desenvolverem seus próprios modelos ( www.lego.com/eng/factory ). Com isso, as crianças e
adultos aficionados por Lego criam modelos excepcionais, que são expostos em galerias
virtuais e geram ainda 25 Capítulos. Também existe uma seção dedicada à troca de
experiências e dicas, dando um charme de comunidade engajada em prol da "Legoland"
(CIPRIANI, 2006).

No Brasil, poucas empresas aderiram a idéia e as grandes empresas que estão com seus
diários, ainda não estão usando o blog de uma maneira estruturada, relacionando-se
efetivamente enviando e recebendo informações dos clientes e parceiros (olhando o público
externo). Ainda pior, nem mesmo os canais de comunicação mais tradicionais como o e-mail
e call-center obtêm bons índices de satisfação do cliente, isso por conta da onda de
otimização de processos e redução de custos que passaram pelas companhias neste início de
século XXI de encolhimento econômico.

Certamente, conclui CIPRIANI (2006), a adoção começará principalmente pelas pequenas e


médias empresas graças a sua flexibilidade e curta estrutura hierárquica, e pelas grandes
multinacionais que já utilizam os blogs fora do Brasil e que estão normalizando o seu uso ao
longo das unidades espalhadas pelo mundo (uma abordagem "top-down"). Não me
surpreenderia se funcionários da Sun, IBM, HP, entre outras empresas multinacionais
presentes no Brasil publicassem blogs no curto prazo. E só uma questão de tempo.

É praticamente impossível imaginar o mundo hoje sem o poder de comunicação


proporcionado pela internet, e que só se tornou possível diante das recentes evoluções nas
tecnologias de armazenamento, transmissão e processamento de dados. Assim como a
evolução dos computadores e microcomputadores se inseriu fortemente nas empresas nas
décadas de 1980 e 1990, a internet está mudando rapidamente a maneira de se fazer negócios
neste início do século 21 (CIPRIANI, 2006).

5. INOVAÇÃO NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL COM O BLOG


CORPORATIVO: CASO TECNISA.

Dentro da economia nacional a construção civil não tem se caracterizado por avanços
tecnológicos e gerenciais significativos. O setor se destaca pela tendência de centralizar
informações e decisões nas mãos de seus engenheiros. Além disso, seus gestores têm grande
resistência à implantação de inovações tecnológicas, quer seja nas Areas de planejamento e
gerenciamento (SCHMITT, 1998).

Segundo SILVEIRA (2005) nesta nova Era, tradicionais conceitos são abandonados ou
questionados, e o próprio conceito de "organização" está mudando, de forma a refletir os
desafios inerentes ao novo ambiente. Na sociedade interconectada, a fonte primária de criação
de valor mudou a ênfase da produtividade para os relacionamentos, e a capacidade de
colaborar precisa se tornar uma competência-chave para a organização.

A indústria da construção civil tem investido pouco em TI em relação a outros setores da


indústria, atraso decorrente principalmente do conservadorismo e da lentidão em que ocorrem
as mudanças na construção civil. O setor tem sido forçado a inovar devido à globalização e
grande competitividade (ANDRESEN et al., 2000 apud NASCIMENTO; LAURINDO;
SANTOS, 2003; NASCIMENTO; SANTOS, 2001). O aumento da competitividade no setor
de construção civil está intimamente ligado à melhoria da qualidade dos sistemas de gestão
dos seus diversos agentes (incorporadores, projetistas, construtores, fornecedores de material
e equipamentos, entre outros) (OLIVEIRA; MELHADO, 2005).
Isso significa que os gestores precisam interagir com um ambiente informacional cooperativo,
no qual a informação requerida estaria disponível independentemente da real estrutura
hierárquica e de eventuais diferenças tecnológicas dos sistemas que fornecem a informação
(SILVEIRA, 2005).

Para além da infra-estrutura tecnológica, entretanto, parece fundamental para a gestão de


ambientes informacionais cooperativos a construção de relacionamentos baseados na
confiança e na estruturação de processos de gestão que assegurem a efetiva participação de
todos os envolvidos. SILVEIRA (2005) destaca os aspectos como cultura organizacional,
poder e controle, fronteiras e estruturas organizacionais, confiança e gestão cooperativa da
informação deverão ser observados. E os arranjos interorganizacionais mais flexíveis
demandam e market facilitam maneiras de pensar que transcendem estreitos domínios
profissionais, de serviço ou de setor. Considerando que muitas habilidades e recursos
essenciais para a organização estão fora de suas fronteiras, e, portanto, fora do controle direto
da gerência, parcerias e alianças não devem mais ser vistas como opções, mas como uma
necessidade.

Nesse contexto, o desenvolvimento de ambientes de informação cooperativos é uma questão


que tem se tornado mais e mais importante, e os profissionais de Inteligência Competitiva
terão de adaptar-se à nova realidade de organizações que apenas funcionam ou competem
melhor se operarem em rede - são novos tempos, e novas práticas de Inteligência Competitiva
são requeridas (SILVEIRA, 2005).

A proposta metodológica é avaliar como a empresa Tecnisa utiliza o blog como meio de
comunicação e interação.

Na indústria da construção civil, a Tecnisa, construtora e incorporadora, com sede em São


Paulo, lançou o seu blog corporativo como uma ferramenta de comunicação.

A agência de propaganda na Internet EMARKET afirma que os blogs estão cada vez mais
presentes no mundo empresarial como ferramenta de comunicação. Vários setores percebem o
canal como uma oportunidade de lidar diretamente com o consumidor e evitar ruídos
causados por intermediários. No Brasil, já é possível encontrar - poucos - blogs de empresas
dos setores de tecnologia e serviços, entre outros. (EMARKET, 2006)

Seguindo essa tendência corporativa, a Tecnisa lançou seu blog corporativo. É o primeiro do
setor de construção civil no Brasil. O novo período para a companhia, que já utiliza a mídia
on-line como um dos principais meios de comunicação com clientes, parceiros, fornecedores
e funcionários, a página eletrônica “www.blogtecnisa.com.br” ´foi inaugurada.

Um dos diferenciais desse canal é que a empresa escreve como uma pessoa comum e se
posiciona próxima ao cliente. A mensagem deve ser sempre verdadeira, informal e clara. Os
resultados do uso do blog passam pela mudança de comportamento e a abertura empresarial
para ouvir, acatar e propor melhorias para as critica de funcionários, parceiros e clientes. A
Tecnisa pretende aumentar sua transparência com a nova ferramenta, diz Busarello, um dos
executivos responsáveis pela publicação no blog, que a influência dos blogs no meio
corporativo já é forte e muitos podem decidir uma compra. Diz também que já leu blogs com
mensagens de clientes criticando produtos e mau atendimento. E que esse canal foi escolhido
por se adequar ao momento de comunicação da Tecnisa, em que foi focada a consolidação da
marca sob os signos de modernidade, credibilidade e transparência, conclui (TECNISA,
2006).

Segundo Busanello, toda a preocupação da Tecnisa com canais de relacionamento rende


resultados satisfatórios para a companhia. A empresa constatou que 22% das vendas
ocorreram por indicação, muitas vezes de clientes que ainda nem moram em seus
apartamentos, mas receberam um atendimento satisfatório em todo processo, até mesmo após
o recebimento das chaves. Não só a opinião positiva é importante para nós. Queremos saber
quando e como erramos com nosso cliente. A escolha de investir em meio web também não é
aleatória. O site da Tecnisa recebe uma média de 2,5 mil visitas diárias e, no primeiro
semestre de 2006, 24% das vendas foram concluídas pelo canal virtual (TECNISA, 2006).

Novelli, gerente de e-Business da Tecnisa, comenta em entrevista divulgada no seu blog


corporativo, que o blog da Tecnisa é direcionado aos stackholders da Tecnisa, que são os
clientes da empresa, os vizinhos de obra. A empresa mantém um relacionamento com os
vizinhos de cada obra, universitários, e inclusive recebeu comentários no blog de um
universitário querendo fazer um trabalho sobre o blog. São as pessoas com quem a empresa se
relaciona no seu dia-dia, no seu negócio (TECNISA, 2006).

Continuando a entrevista, ele descreve o conteúdo do blog, que contém temas do dia-dia da
empresa, o que faz no lançamento de um produto, uma obra semi-entregue, fim de uma obra,
mas também temas que envolvem o mundo da empresa, o mundo dos negócios, onde são
coladas opiniões sobre a mulherização, como nos colocamos no mercado "gay friendly", isso
acaba gerando também, uma maior abrangência no conteúdo do nosso blog, também
disponível para comentários e criticas, aí que a conversação com o público que é interessante,
o blog permite essa comunicação interativa com a audiência, com o público e quanto mais
temas, mais interessante. O blog da Tecnisa, no começo, recebeu uma critica por haver
poucos temas abertos, eram termos muito focados no que a Tecnisa fazia. Exemplo: A
Tecnisa saiu na revista, a Tecnisa iniciou uma obra (TECNISA, 2006).

Partindo do princípio que são indivíduos, e não entidades ou departamentos por trás de um
blog, as conversas entre essas duas partes (que na verdade é uma única blogosfera) são
mandatórias. Blogs sem conversas não existem, por isso, quando pensamos em blogs, a idéia
de conversa está embutida. E se a sua empresa está na categoria das que não querem abrir essa
porta para o mercado, muito em breve ela poderá estar defasada em relação aos seus
concorrentes. Os consumidores ganharam novos poderes com a internet e agora com os blogs.
Tudo o que você faz ou diz está sujeito a conversações na blogosfera (CIPRIANI, 2006).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A releitura do pensamento do autor conclui que o estabelecimento de um sistema de gestão


em curto prazo possibilita a retomada da competitividade, significando a parte inovadora. A
parte tecnológica se configura em longo prazo proporcionada pelo aprimoramento continuo
balizado pelas solicitações de mercado e pelas próprias reações causadas pelo sistema de
gestão. Isto significa que a inovação tecnológica em gestão é essencial para que as empresas
da indústria da construção civil cresçam, buscando sempre a melhoria da qualidade de seus
serviços e produtos, favorecendo assim todo o setor,

Além de ser um excelente instrumento de comunicação, o Blog corporativo estimula a


propaganda boca a boca na Internet, o que é muito positivo para a empresa, devido à força que
a Internet vem ganhando nos últimos anos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Globo, ed n'.428, julho, 2006.
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Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) — Escola de Comunicação e Artes. Universidade de São
Paulo. São Paulo, 2006.
CIPRIANI, F. Blog Corporativo - Aprenda como melhorar o relacionamento com seus clientes e fortalecer
imagem da sua empresa. Editora Novatec. Ed. n'.1. São Paulo, 2006.
EMARKET. Tecnisa lança blog corporativo como ferramenta de comunicação. Agência de marketing na
Internet, publicada em 06/07/2006, Acessado na http://www.emarket.ppg.br/lindex.asp?InCDMateria=4166 em
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EMILIANO. Blogs corporativos em detalhes Acessado na http://www.blogcorporativo.com.br/blogcorporativo
em 10/12/2006.
MULLER, P. Blogs corporativos — uma introdução Acessado na http://www,sinestesia.com.uk/blog/?page
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NASCIMENTO, L. A.; LAURINDO, F. J. B.; SANTOS, E. T. A Eficácia da TI na Indústria da Construção
Civil. III Simpósio Brasileiro de Gestão e Economia da Construção (III SIBRAGEC). UFSCar, São Carlos, SP -
16 a 19 de setembro de 2003.
NASCIMENTO, L.A.; SANTOS, E.T. A Contribuição da Tecnologia da Informação ao Processo de Projeto
na Construção Civil. Workshop de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios, São Carlos, 2001,
OLIVEIRA, O. J. de; MELHADO, S. B.. Modelo de Gestão para pequenas empresas de projeto de edifícios.
Boletim Técnico da Escola Politécnica da USP. BT/PCC/416. São Paulo, 2005.
PEPPERCOM STRATEGIC COMMUNICATIONS. Nova pesquisa internacional sobre blogs corporativos..
PR Biz update. Acessado na http://www.blogcorporativo.net em 10/12/2006.
SILVEIRA, H. F. R. Informação em organizações virtuais: uma nova questão para a coordenação
interorganizacional no setor público. Ciência da Informação. Brasília, v. 24, n. 2, p. 70-80, mai./ago, 2005.
Disponível em: http://www.ibict.br/cionline.
SCHMITT, Carin Maria. Integração dos documentos técnicos com uso de sistemas de informações
computadorizados para alcançar qualidade nos projetos de obras de edificação. In: VII Encontro Nacional de
Tecnologia do Ambiente Construído. Florianópolis, 1998, Anais, UFSC, Santa Catarina.
TECNISA. Blog corporativo. Acessado na http://www.blogtecnisa.com.br em 12/12/2006.
Panorama da Construção Sustentável no Município de Aracaju/SE

Daniel Moreira Fontes Lima


Departamento de Engenharia Civil
Universidade Federal de Sergipe (danielmfl@gmail.com)
Débora de Gois Santos
Departamento de Engenharia Civil
Universidade Federal de Sergipe (deboragois@ufs.br)

RESUMO
A problemática ambiental se tornou uma realidade inconveniente. A degradação do meio
ambiente é algo crítico e a construção civil aparece como um importante agente neste
processo. A sustentabilidade no setor da construção civil é algo que ganha força pelo mundo
todo. Uso racional de água e energia, aproveitamento de materiais renováveis e menor
desperdício de recursos naturais são pontos cada vez mais discutidos e desenvolvidos.
Medidas precisam ser tomadas, e estas são diferentes a depender das realidades de cada
região. Esta regionalidade é um dos motivos para se realizar um panorama da construção civil
no município de Aracaju, estado de Sergipe. Para isto, adotou-se como método de trabalho um
levantamento qualitativo, por meio de questionários direcionados a empresas construtoras,
órgãos de engenharia e consumidores Deste modo, a pesquisa possibilitou não só identificar o
que pensam estes atores, se eles se contradizem e qual o caminho que Aracaju está tomando
em termos de construção sustentável. Ao se realizar este panorama pôde-se perceber que a
situação encontrada é bastante problemática, com divergência de caminhos e expectativas.

1. INTRODUÇÃO
O mundo passa por mudanças ambientais, que cada vez mais afetam o ser humano e a sua
sobrevivência no futuro no planeta. A construção civil é uma indústria predatória, que gasta
sem piedade os recursos naturais, e cada vez mais degrada o meio-ambiente. É necessária uma
mudança na forma de agir, e passar a pensar o desenvolvimento do homem e a manutenção do
meio-ambiente como um só. Isso deve acontecer para todos os homens, sem separação de
classe econômica, habitat, ou cultura. Cada região tem suas peculiaridades, e é possível se
realizar diferentes tipos de desenvolvimento sustentável, adequados a cada situação.

A construção sustentável se mostra cada vez mais necessária para a manutenção do mundo
que o homem quer deixar para os seus descendentes. Tendo em vista estes pontes, o presente
estudo busca fazer um panorama da construção sustentável no município de Aracaju,
identificando o que vem sendo feito, o que pode ser feito, levando-se em consideração as
peculiaridades da região. A pesquisa procura entender como as empresas de construção que
atuam no município de Aracaju, estado de Sergipe, tem se portado diante desta nova filosofia
que se desenvolve no mundo todo.

Observa-se ainda a opnião dos órgãos ligados à área da engenharia civil, olhando se a
construção sustentável no município é uma realidade apenas para construções de alto padrão
ou pode ser aplicada em habitações de interesse social. Deste modo, a pesquisa busca também
entender o que os consumidores esperam da construção sustentável, se eles possuem
conhecimento sobre o assunto, se cobram um maior compromentimento tanto das empresas da
construção civil quanto dos órgãos relacionados, ou ainda se as empresas se preocupam em
passar para os seus clientes esse conhecimento de forma clara.
2. CONTEXTUALIZAÇÃO
2.1. A construção civil e os impactos ao meio ambiente
Durante muito tempo, a construção civil se desenvolveu através da exploração de recursos
naturais para suprir a necessidade de moradia do homem e este processo vem sendo
implantado sem nenhuma preocupação com as condições de suporte da natureza
(CARVALHO, 2008b). Apesar disso, a construção civil sempre teve inegável importância na
sobrevivência e qualidade de vida dos seres humanos, com provisão de casas e infra-estrutura,
proporcionando condições vitais para o desenvolvimento social e econômico mundial
(ESPINOZA et al., 1999, apud CARVALHO, 2008a).

Com relação ao impacto social, ele é a informalidade das empresas e profissionais, que causa
irregularidades, como: realização de trabalhos sem contrato, existência de trabalhadores sem
capacitação profissional, trabalho infantil, contratação de fornecedores que não pagam
tributos ou encargos, desrespeito a normas técnicas, concorrência desleal, entre outros
(CARDOSO, 2007, apud CARVALHO, 2008b). Ademais, a indústria da construção civil
ocupa uma posição bem destacada na economia do país, sendo responsável por importante
parcela no PIB (valores superiores a 15 %). Além disso, emprega um contingente importante
de pessoas, tanto direta quanto indiretamente, acredita-se que são cerca de quatro milhões de
empregos direto, e 3 de empregos indiretos para cada emprego direto.

Carvalho (2008b) afirma que os impactos econômicos vão além, pois a construção civil tem
um papel extremamente importante na geração de riquezas de um país. Têm influência direta
em decisões políticas, embora não tenha um reflexo forte nas importações. O autor cita ainda
Bluemenschein (2004) quanto aos impactos ambientais, que ocorrem ao longo da cadeia de
produção da construção civil, através da extração de materiais, da ocupação de terras, do
transporte da matéria prima, do processamento desta matéria prima, dos processos
construtivos e da geração de resíduos. Assim, a demanda de materiais na construção civil é
algo bastante expressivo, em comparação às outras indústrias. Para a construção de um
edifício, são demandadas enormes quantidades dos mais variados materiais. Pode-se até dizer
grosseiramente que para cada metro quadrado construído, são utilizadas aproximadamente
uma tonelada de materiais.

O uso de energia também é algo preocupante, tanto antes da fase de produção (durante o
transporte) quanto durante a construção. Cerca de 80 % da energia utilizada na produção de
um edifício é consumida durante a produção e o transporte de materiais (JOHN, 1996).

Apesar de todos os impactos gerados, verifica-se que nenhuma sociedade conseguirá atingir o
desenvolvimento sustentável sem que a construção civil passe por sérias e profundas
mudanças (JOHN, 2000, apud DALTRO FILHO et al., 2005). Mudanças de pensamentos e
ações se mostram prementes para a que manutenção da vida humana na terra seja possível.
Exatamente neste ponto é que se insere o desenvolvimento sustentável e a sua aplicação.

O homem, entre todos os seres que vivem no planeta terra, sempre se mostrou o mais
destruidor e desequilibrador, mesmo com toda a sua capacidade de raciocínio. Foi exatamente
devido a esta capacidade de pensar e criticar que ele constatou que os recursos naturais não
são eternamente renováveis e que algo precisava ser feito perante a situação de degradação
que se apresentava cada vez mais forte.

As discussões sobre desenvolvimento sustentável datam de 1972. Camargo (2003) apud


Carvalho (2008b), afirma que o ápice das discussões e debates sobre desenvolvimento
sustentável e meio-ambiente se deu em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre
o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, que ficou mais conhecido como
Rio-92 ou Eco-92. Nela foram lançadas as bases para se alcançar o desenvolvimento
sustentável em escala global, destacando-se como documento a Agenda 21.

Assim, o principal objetivo do desenvolvimento sustentável está na busca do desenvolvimento


que não esteja focado apenas na geração de riquezas, mas que englobe os interesses sociais e
os limites de suporte da natureza, buscando ao mesmo tempo o desenvolvimento sustentável
como alternativa de solução para problemas globais que não estão restritos apenas à
degradação ambiental, incorporando também as dimensões sociais, políticas e culturais
(CAMARGO, 2003, apud CARVALHO, 2008a).

Mesmo assim, existem sérios entraves à aplicação destes conceitos em um ambiente de


racionalidade econômica dominante (CARVALHO, 2008a). A autora cita ainda Leff (2001)
ao falar da racionalidade econômica, afirmando que esta não incorpora as externalidades
ambientais nem os princípios de desenvolvimento sustentável. Uma nova racionalidade deve
ser fundamentada no conceito de ambiente como potencial produtivo e não como fonte de
recursos e local de depósito de resíduos.

2.2. Sustentabilidade no canteiro de obras


Com relação à sustentabilidade no canteiro de obras, as atividades desenvolvidas durante a
execução ou construção de uma obra compreendem todo o processo desenvolvido pela
construtora, como técnicas construtivas empregadas, equipamentos e materiais a serem
aplicados, planejamento, mão-de-obra, execução de serviços e gestão. Por isso, as diversas
interferências do canteiro de obras são de grande relevância para a aplicação da
sustentabilidade na construção civil (CARVALHO, 2008b).

Cardoso (2005) apud Carvalho (2008b) afirma que além dos impactos causados pela perda de
materiais e pela produção de resíduos de construção destacam-se impactos no meio físico,
biótico e antrópico. Recomenda-se, então, para a avaliação de sustentabilidade em edifícios,
que sejam adotados critérios sociais, gerenciais e ambientais. Segundo Moretti (2005) apud
Carvalho (2008b), no tocante às recomendações sociais, são previstas algumas ações para a
minimização dos impactos sociais, como melhoria das condições de hospedagem e
alimentação, da segurança do trabalho, do treinamento dos colaboradores e busca pela
diminuição de incômodos à vizinhança por ruídos, vibrações e poluição do ar.

Com relação às preocupações ambientais no canteiro, pode ser citada redução da geração de
resíduos do canteiro, gerenciamento de resíduos do canteiro, valorização da reciclagem e
reuso, limitação dos incômodos e poluições causadas pelo canteiro e limitação de recursos
demandados, como água e energia (CARDOSO, 2006, apud CARVALHO, 2008b).

Dada a importância, o CONAMA (2002) define resíduos da construção civil como aqueles
“provenientes de construções, reformas demolições de obras de construção civil, e os
resultantes da preparação e da escavação de terrenos, tais como: tijolos, blocos cerâmicos,
concretos em geral, rochas, metais, resinas, colas, tintas, madeiras e compensados, forros,
argamassa, gesso, telhas, pavimento asfáltico, vidros, plásticos, tubulações, fiações elétricas,
etc., comumente chamados de entulho de obra, caliça ou metralha.”.

Esta resolução estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos na
construção civil e com ela os municípios e o Distrito Federal ficam obrigados a elaborar e
implantar uma gestão sustentável dos resíduos da construção civil. Segundo Daltro Filho et al.
(2005), a reciclagem é outro ponto importante relacionado aos resíduos sólidos. Ela envolve
um conjunto de instrumentos jurídicos (licenciamento ambiental dos empreendimentos
industriais e dos aterros municipais), econômicos (venda dos materiais recicláveis ou o seu
beneficiamento) e de fomento. Os autores complementam que o tratamento dado aos resíduos
em Aracaju é semelhante ao que é observado na maioria dos municípios brasileiros, sem
nenhuma estrutura para o gerenciamento de volumes significativos de entulhos e para a
resolução dos inúmeros problemas por eles criados.

2.3. A grande Aracaju e a construção civil

A implantação de Aracaju foi marcada não pela ampliação de sua área de ocupação original,
mas por um projeto de ocupação de uma área de 32 quadras, medindo 110 metros de lado,
com projeto do engenheiro Sebastião Basílio Pirro. A implantação destas quadras foi realizada
em uma área cheia de lagos, inundável, baixa com relação ao nível do mar, através de aterros
(FRANÇA, 2005; SOUZA, 2005, apud CARVALHO, 2008a).

Percebe-se que a construção e o desenvolvimento da cidade se deram através de um processo


de degradação ambiental, com desmonte de dunas, aterro de mangues, devastação de matas
ciliares, contaminação de mananciais e poluição de rios (FRANÇA, 1999, apud
CARVALHO, 2008a). Conforme o autor, no final da década de 1970, foi desenvolvido o
Projeto Urbano Integrado de Desenvolvimento da Área Metropolitana de Aracaju, tomando
como base espacial o município de Socorro, com destaque para a implantação de atividades
industriais. Foi um projeto de fundamental importância para a metropolização de Aracaju,
com o prosseguimento da construção de habitações em algumas áreas de expansão, embora o
tão esperado desenvolvimento industrial não tenha ocorrido, devido à crise econômica
ocorrida no Brasil na década de 1980.

Alguns fatores podem ser destacados no processo de urbanização e crescimento de Aracaju,


são eles: as transformações econômicas iniciadas na década de 1950, que se intensificaram a
partir da década de 1970, onde o desenvolvimento da pecuária, com a concentração de terras
por parte desta, liberou mão-de-obra do campo em grandes quantidades que começaram a ser
absorvidas pela construção civil em desenvolvimento; a descoberta de recursos minerais em
Sergipe, como calcário, petróleo, e principalmente a chegada da sede da Região Produtora do
Nordeste da Petrobrás no estado, que impactou o mercado imobiliário, alterando assim a
configuração urbana da região; e o turismo na urbanização de Aracaju, com a construção de
hotéis privados e com a execução da Orla de Atalaia (RIBEIRO, 1989; FRANÇA, 1999, apud
CARVALHO, 2008a).

Com relação à estrutura de mercado, a construção civil em Aracaju se apresenta como no


resto do Brasil, composta por dois setores distintos, mas conectados: o primeiro tem o poder
público como cliente e suas empresas são as empreiteiras; o segundo é formado por empresas
que vendem para clientes privados, as chamadas incorporadoras ou imobiliárias
(CARVALHO, 2008a). Por fim, embora tenha atingido um bom nível de evolução, a
construção civil em Aracaju, se deu sem preocupações com o meio ambiente, com degradação
de jazidas de areia e argila, aterro de áreas de forma descontrolada, poluição de rios e
degradação de manguezais (DALTRO FILHO et al., 2005).
3. MÉTODO DE TRABALHO
O trabalho trata de um levantamento bibliográfico seguido de um levantamento qualitativo a
cerca da construção sustentável no município de Aracaju. Ele utilizou como instrumento de
coleta de dados questionários direcionados aos envolvidos o setor, ou seja, empresas da
construção civil, órgãos e pessoas ligadas à construção civil, além de consumidores.

Os entrevistados foram selecionados de modo a ter número de respostas equilibrada entre os


grupos. Eles foram contactados pessoalmente ou por meio de correio eletrônico antecedido de
contato para verificar o aceite em participar da pesquisa. Foram encaminhados 15
questionários para as empresas, 18 para os orgãos e 60 para os consumidores.

Para as empresas, buscou-se entrar em contato com todas aquelas que possuam destaque e
estejam constantemente participando do mercado, de acordo com o porte da empresa (grande,
média, e pequena/micro), selecionou-se tres emrpesas de cada porte. Foram ainda
entrevistados representantes de empresas de engenharia civil e de arquitetura.

Com os órgãos buscou-se seguir a mesma linha de raciocínio para com as empresas. Os
órgãos incluídos no universo de pesquisa são expressivos na realidade da construção civil no
município aracajuano. São órgãos das mais variadas finalidades, como associações de
empresas construtoras, órgãos ambientais, órgãos regulamentadores da profissão engenharia
civil, instituições de ensino da profissão através de professores, profissionais liberais, etc. Por
último, os consumidores foram escolhidos aleatoriamente, buscando-se coletar dados com
pessoas de diferentes formações e conhecimentos distintos da área da engenharia civil.

Foram elaborados dois tipos de questionários para ser aplicado no universo de entrevistados.
No primeiro tipo de questionário, direcionado às empresas, buscou-se abordar os mais
variados temas de sustentabilidade, como tecnologias utilizadas, informação de funcionários
sobre o tema abordado, relações da empresa com os órgãos, os consumidores e os
responsáveis políticos acerca do assunto. Algumas perguntas foram mais específicas e se
relacionaram com a parte executiva e construtiva dos empreendimentos.

No segundo tipo de questionário, direcionado para os órgãos relacionados e os consumidores,


buscou-se uma abordagem menos técnica do assunto, mas mesmo assim tão abrangente e
esclarecedora quanto a do primeiro tipo de questionário.

4. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS


No grupo das empresas, onze empresas foram entrevistadas, ou seja, retornaram o
questionário preenchido, dos mais variados portes, conforme colocado no capítulo de método
de trabalho.

Quanto aos órgãos, a variedade apresentada neste universo de entrevistados foi alta dando aos
resultados obtidos uma abrangência que condiz com a realidade de Aracaju. Foram enviados
ou foram contactados pessoalmente todos os orgãos que exercem influencia no setor da
construção civil em Aracaju, destes retornaram o questionário apenas doze pessoas. No grupo
dos consumidores o número de entrevistados que retornou o questionário foi de quinze
pessoas.

4.1. Resultados e comentários das empresas


Percebeu-se um equilíbrio entre as respostas SIM e NÃO (Figura 1). Os índices SIM são
pontos positivos, NÃO, pontos negativos, e EI, em implantação. Ele demonstra que as
empresas de Aracaju se preocupam com a sustentabilidade na construção civil, mas ainda
existe muita coisa a ser feita e esta preocupação não necessariamente se traduz em resultados
práticos. Este índice poderia ser mais representativo, tendo em vista que os pontos abordados
no questionário são factíveis.

Figura 1: Iniciativas das empresas na sustentabilidade da construção civil.

Observa-se na Figura 2a que o interesse maior das construtoras com a construção sustentável
ainda está relacionado com o fator econômico. Porém, este interesse divide espaço com o
ambiental e o social, o que mostra um começo de mudança de pensamento das empresas com
relação à construção sustentável, como uma forma de dar condições das futuras gerações
viverem num planeta pelo menos semelhante ao atual.

80,00% 72,73%
60,00% 54,55%
70,00%
50,00%
60,00%

40,00% 50,00%
40,00%
30,00% 27,27%
30,00%
18,18% 18,18%
20,00% 20,00%
9,09%
10,00%
10,00%
0,00%
0,00% Extremamente Importante Pouco importante
Economico Ambiental Social importante

(a) (b)
Figura 2: (a) Fatores de maior interesse para as empresas construtoras com relação à construção sustentável; (b)
Importância da construção sustentável para as empresas entrevistadas.

Com relação ao nível de importância da construção sustentável, como pode ser percebido na
Figura 2b, a grande maioria considera este tipo de construção importante, seguido por uma
pequena parte que considera extremamente importante e de uma ínfima parcela que considera
pouco importante. Isto mostra que a mentalidade das construtoras está mudando a favor da
sustentabilidade e que este primeiro passo de transformação de consciência é muito
importante para a mudança da realidade atual.

Procurou-se conhecer também quais eram os maiores empecilhos, na opinião das empresas,
para que a construção sustentável fosse aplicada na cidade de Aracaju da mesma forma que é
aplicada em outras partes do mundo. A maior parte respondeu que falta uma participação mais
efetiva e incisiva do governo, além do custo teoricamente elevado para implantar essas
tecnologias, custo esse que seria repassado para os clientes. Estes não são bem informados
sobre o assunto e não se interessam em adquirir empreendimentos deste tipo.
4.2. Resultados e comentários dos órgãos ligados à Engenharia Civil
Ao analisar o questionário, percebe-se que a respostas NÃO apresentou uma porcentagem
superior a 50%, enquanto que as respostas SIM e NT (não tenho conhecimento) se
apresentaram com valores de porcentagem próximos, como pode ser visto na Figura 3a. Pode-
se inferir que os órgãos relacionados à engenharia no município de Aracaju consideram que a
construção sustentável não está desenvolvida como deveria estar.

90,00% 83,33%
80,00%
70,00%
60,00%
50,00%
40,00%
30,00%
20,00% 16,67%

10,00%
0,00%
0,00%
Extremamente Importante Pouco importante
importante

(a) (b)
Figura 3: (a) Resultado geral para os órgãos ligados à engenharia civil; (b) Importância da construção
sustentável para os órgãos ligados à construção civil entrevistados.

Com relação ao nível de importância da construção sustentável (Figura 3b), a grande maioria
considera este tipo de construção extremamente importante, seguido por uma pequena parte
que considera importante e com nenhum entrevistado considerando pouco importante. São
dados muito mais satisfatórios do que os apresentados pelas empresas, o que mostra que os
órgãos apresentam uma mentalidade completamente positiva com relação à construção
sustentável e que já é possível cobrar ações das empresas e das autoridades.

Procurou-se ainda conhecer, junto aos órgãos, quais eram os maiores empecilhos para que a
construção sustentável fosse aplicada na cidade de Aracaju da mesma forma que é aplicada
em outras partes do mundo. Uma pequena parte dos respondentes disse que faltam maiores
ações por parte das autoridades pelo desenvolvimento da construção sustentável, mas a grande
maioria afirmou que o maior problema definitivamente é a desinformação da população
acerca da problemática ambiental e a influência da construção civil nesta.

4.3. Resultados e comentários dos consumidores


Analisando os resultados dos questionários dos consumidores dos empreendimentos da
construção civil, observam-se resultados semelhantes com aqueles obtidos para os órgãos. A
resposta NÃO apresentou uma porcentagem próxima a 50%, enquanto que as Respostas SIM
e NT se apresentaram com valores de porcentagem relativamente iguais, conforme Figura 4a.
É possível concluir que esses consumidores no município de Aracaju, assim como os órgãos,
consideram que a construção sustentável não está desenvolvida como deveria.
80,00% 75,00%

70,00%

60,00%

50,00%

40,00%
30,00%
18,75%
20,00%

10,00% 6,25%

0,00%
Extremamente Importante Pouco importante
importante

(a) (b)
Figura 4: (a) Resultado geral para os consumidores da engenharia civil; (b) Importância da construção
sustentável para os consumidores da construção civil entrevistados.

Com relação ao nível de importância da construção sustentável (Figura 4b), a maioria


considera este tipo de construção importante, seguido por uma pequena parte que considera
extremamente importante e com uma mínima parte dos entrevistados considerando pouco
importante, resultado muito próximo daquele obtido junto às empresas. Não deixam de ser
dados satisfatórios, pois mostram que o cliente tem expectativas quanto à construção
sustentável, o que é um ponto fundamental para a implantação dessa nova vertente na
construção civil, tendo em vista que ele é o principal foco das empresas.

Buscou-se saber junto aos consumidores quais eram os maiores empecilhos para que a
construção sustentável fosse aplicada na cidade de Aracaju da mesma forma que é aplicada
em outras partes do mundo. Assim como aconteceu com os órgãos, uma parte extremamente
expressiva das respostas disse que o maior problema definitivamente é a desinformação da
população sobre a situação. Além disso, teve destaque a falta de interesse das empresas na
questão ambiental, sempre priorizando o lucro, e a falta de ações das autoridades
responsáveis.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Realizar um levantamento de qualquer tipo é uma tarefa complicada que exige paciência. A
consciência para retornar os questionários ainda é algo que não existe na população brasileira.
É importante coletar dados junto com um número expressivo de pessoas e que estes
representem de forma significativa aquilo que a pesquisa busca.

É possível perceber no contato com a construção civil em Aracaju que a sustentabilidade não
faz parte da realidade e do cotidiano das empresas construtoras e dos empreendimentos
oferecidos por ela. A pesquisa buscou identificar onde se encontram os problemas e o que
cada parte envolvida nas atividades da construção civil pensa sobre a problemática ambiental
e a nova tendência sustentável, que começa a despontar com força total no mundo.

Com os dados obtidos nas entrevistas dos três grupos é possível apontar o que não está correto
e o que precisa mudar, bem como o que pensa cada parte. Observa-se que as empresas não se
interessam em aplicar novas técnicas de construção sustentáveis nem em passar a importância
da sustentabilidade para os seus consumidores.
A informação das empresas para com os consumidores e os órgãos é algo deficiente, que
precisa ser melhorado. Além da oferta de tecnologias sustentáveis nos empreendimentos ser
limitada, não existe uma divulgação nem uma conscientização delas junto ao cliente. A
desinformação dos clientes sobre a péssima situação ambiental, que é agravada pela
construção civil antiquada em diversos lugares no mundo, é outro fator de peso para a
situação ruim da construção civil em Aracaju.

Com o cliente desinformado não existe o interesse por parte das empresas em pagar mais caro
para implantar uma situação sustentável em seus empreendimentos, tendo em vista que a
aceitação do consumidor não será boa e os lucros idem. O fator econômico é o que mais pesa
para as empresas e a implantação de técnicas sustentáveis acaba sendo relegada a segundo
plano, mesmo quando o custo para esta implantação não é tão alto.

Percebe-se a necessidadea urgentemente de uma mudança de consciência tanto dos clientes


quanto das empresas. Os consumidores precisam ser informados que são agentes diretos no
sistema da construção civil e que as suas escolhas são capazes de mudar as ações das
empresas construtoras. Além disso, o meio ambiente precisa ser tratado de modo diferente.

A mudança de pensamento por parte das empresas também é vital. Claro que o fator
econômico é importante, mas o fator ambiental se torna cada vez mais preocupante e precisa
ser cuidado. Mudanças não surgem de uma hora para outra e não vêm de graça. Sempre existe
um preço a se pagar para que uma inovação se consolide. Uma tecnologia sustentável como o
reuso de água, por exemplo, pode se apresentar cara atualmente, mas à medida que começa a
ser utilizada em uma escala maior, os custos começam a cair. Existem diversos exemplos de
empresas que utilizam corriqueiramente a sustentabilidade, nos seus diversos níveis, em seus
produtos com preços que se aproximam e muito dos preços das construções tradicionais. É
evidente que essas conquistas não foi algo obtido desde o começo das ações, mas depois dos
esforços e riscos é algo que as torna diferenciadas e líderes nas suas áreas de atuação.

As empresas precisam também começar a investir em informação junto aos seus clientes.
Tudo o que elas fazem possui apenas um objetivo: atingir o consumidor. Assim, a
conscientização deste é ponto chave para que o desenvolvimento sustentável seja atingido.
Não adianta ser sustentável e não demonstrar isso junto ao comprador. É preciso que a
informação seja divulgada para servir de exemplo a todos de que algo está sendo feito.

Além dos consumidores e das empresas, tanto as autoridades quanto os órgãos precisam rever
seus conceitos de atuação quando o assunto é sustentabilidade. Faltam ações do governo mais
enérgicas e eficazes para que a construção sustentável se desenvolva. Não existem incentivos
às empresas que buscam a sustentabilidade. Não existe uma fiscalização eficaz para que os
abusos da construção civil ao meio ambiente sejam diminuídos. As leis são ultrapassadas e
inoperantes. Não existe um investimento consistente em pesquisas que tornam os caminhos
para a sustentabilidade mais acessíveis a todos. Os órgãos que deveriam representar as
empresas e buscar sempre a melhoria da construção civil também se mostram inertes e
desinformados, tanto quanto os consumidores. Não existe ainda um sistema de avaliação
ambiental para habitações em uso no município de Aracaju. Nem um que busque se adequar
às realidades da região, nem algum dos vários sistemas já utilizados pelo mundo todo, que
dão credibilidade às construções que optam pelo sustentável.

Com todos os problemas que se apresentam em cada segmento entrevistado separadamente,


ainda existe uma problemática conjunta. As ações devem ser tomadas por todos, de forma
única, e isto definitivamente não está acontecendo. Não adianta a empresa possuir um sistema
de gestão de resíduos eficiente, com todos os colaboradores informados e participativos, se
isto é uma realidade apenas dentro do canteiro de obras. É preciso que esta mesma empresa
cobre das autoridades medidas para a correta destinação desses resíduos que ela separa e
gerencia de forma tão organizada dentro do seu canteiro de obras.

É preciso também que esta empresa se preocupe mais com o desenvolvimento de técnicas
sustentáveis a ser aplicadas em seus empreendimentos, através de investimentos em pesquisas
junto a órgãos de ensino como universidades, por exemplo. É necessário que as autoridades
realizem mais campanhas sobre construção civil e meio ambiente, por exemplo, e que se
mostre mais receptiva às necessidades das empresas construtoras. É preciso ainda que todos
os envolvidos pensem que são parte de um todo, pois essa visão holística não existe e se
mostra um grande entrave para a situação sustentável em Aracaju.

A construção sustentável no município se apresenta em um estado muito inicial, não se pode


negar. Os problemas se destacam cada vez mais, principalmente com a nova mentalidade
mundial de preservação ambiental. As soluções não são simples, e a mudança de mentalidade
é um passo demorado. Porém, ao se conhecer os pontos falhos de um sistema, as chances de
se mudar a situação aumentam. Cabe aos envolvidos perceber que algo precisa ser feito o
mais cedo possível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARVALHO, Emerson Meireles de. Resíduos sólidos da construção civil e
desenvolvimento sustentável: modelo de sistema de gestão para Aracaju. 2008a. Dissertação
(Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente). Universidade Federal de Sergipe.
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente. São Cristóvão.

CARVALHO, Patrícia Menezes. Gerenciamento de resíduos de construção civil e


sustentabilidade em canteiros de obras de Aracaju, 2008b, 179 p. Dissertação (Mestrado
em Desenvolvimento e Meio Ambiente). Universidade Federal de Sergipe. Programa de Pós-
Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente. São Cristóvão.

CONAMA. Resolução nº 307, de 05 de Julho de 2002. Disponível on line em


http://www.mma.gov.br/port/conama/res/res02/res30702.html. Visitado em 04 de Agosto de
2008.

DALTRO FILHO, José; BANDEIRA, Arilmara Abade; BARRETO, Ismeralda Maria Castelo
Branco do Nascimento; AGRA, Leonilde Gomes da Silva. A problemática dos resíduos
sólidos da construção civil em Aracaju: Diagnóstico. Sergipe: Aracaju, 2005. 105 p.

JOHN, Vanderley M. Desenvolvimento sustentável, construção civil, reciclagem e


trabalho multidisciplinar. 1996. Disponível on line
http://www.reciclagem.pcc.usp.br/des_sustentavel.htm. Visitado em 27 de Julho de 2008.
PERDA DE RIGIDEZ EM ESPÉCIMES DE CONCRETO ARMADO

Josafá de Oliveira Filho


Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Sergipe
Projeto de Pesquisa PAIRD/UFS
josafa@ufs.br
Ana Lúcia Homce de Cresce El Debs
Departamento de Estruturas da Escola de Engenharia de São Carlos-Universidade de São Paulo
analucia@sc.usp.br

RESUMO
O presente trabalho analisa o comportamento da aderência aço-concreto em prismas
cilíndricos de concreto armado, através análise numérica e experimental, submetidos a
carregamento cíclico, simulando o contato entre os dois materiais. O objetivo principal é
quantificar a perda de rigidez desses espécimes, quando submetidos a ciclos de carga, em
serviço. A análise numérica utiliza o MEF como ferramenta; são levados em conta os efeitos
da não linearidade física dos materiais e da não linearidade geométrica dos espécimes. Com
esse modelo pretende-se reproduzir de maneira fiel e realista a forma dos materiais
envolvidos, o aço com suas nervuras e o concreto que o envolve. Na simulação numérica são
analisados modelos construídos com elementos bidimensionais axissimétricos. A simulação
do contato entre as superfícies do aço (e suas nervuras) e do concreto envolvente é feita
através de eficiente algoritmo de contato, baseado em técnicas do tipo Newton-Raphson,
contido no aplicativo ABAQUS. O modelo constitutivo do concreto permite medir o dano
progressivo, podendo assim avaliar a perda de rigidez dos espécimes. Os ensaios
experimentais com os espécimes, para carregamento monotônico e cíclico, foram realizados
no laboratório de estruturas da EESC-USP. Comparações feitas entre os modelos numéricos e
os ensaios experimentais são apresentadas e comentadas.

1. INTRODUÇÃO
O concreto é um material de comportamento complexo. A não linearidade decorrente da
fissuração, proveniente dentre outras causas do processo de microfissuração interna do
concreto, mesmo antes de sua utilização, torna bastante complexa a execução de uma
simulação numérica que permita reproduzir de forma fiel e realista o comportamento do
concreto ao longo de um processo de carregamento, mormente para ações cíclicas.
A grande maioria dos modelos teóricos e numéricos existentes na literatura técnica e ao
alcance de engenheiros e pesquisadores não consideram as dimensões reais isoladas de cada
parte, do aço (com suas nervuras) e do concreto, juntamente com a ligação dessas partes
através do contato na interface entre elas, seja pela complexidade do fenômeno ou mesmo
pelas dificuldades inerentes ao desenvolvimento desses modelos.
O concreto armado é, na sua essência, dependente da aderência. Sob o ponto de vista do
carregamento, a aderência é fortemente afetada pelo tipo de ação imposta à estrutura. As
ações cíclicas, que se fazem sentir pela variação do tempo de aplicação da carga,
caracterizam-se por imprimir uma determinada amplitude de tensão. As ações cíclicas
impõem diminuição da aderência e perda de rigidez à estrutura devido ao aumento e
propagação das fissuras no concreto. Os efeitos das ações cíclicas sobre as estruturas têm sido
estudados, correntemente, nos estados limites de ruptura por fadiga. Ultimamente diversas
pesquisas têm sido dirigidas para o estudo dos efeitos das ações cíclicas no âmbito da
degradação da ligação aço-concreto.
As normas vigentes nos paises, notadamente no Brasil, continuam, no entanto, a adotar suas
recomendações baseadas em pesquisas realizadas com carregamento estático. Mais ainda, a
introdução dos efeitos da interação entre o aço e o concreto na análise das estruturas de
concreto armado, se mostra de grande importância quando se deseja uma modelagem mais
realista do funcionamento dessas estruturas.
Entender cada um desses materiais isoladamente (o aço e o concreto) e entender,
principalmente, o funcionamento desses materiais quando trabalhando em conjunto (concreto
armado) continua sendo, portanto, preocupação e motivação constante e atual.
O presente trabalho, baseado em resultados obtidos na tese de doutorado de (OLIVEIRA F.
,J., 2005) analisa experimental e numericamente o comportamento de espécimes cilíndricos
de concreto armado quando submetidos a carregamento monotônico e cíclico. O que se
pretende é avaliar a perda de rigidez desses espécimes, considerando o comportamento da
interface aço-concreto. Resultados numéricos são confrontados com resultados obtidos
experimentalmente.

2. METODOLOGIA
O presente trabalho foi dividido em duas fases distintas: uma fase de investigação
experimental e outra de análise teórico/numérica. Na fase experimental foram realizados
ensaios estáticos e cíclicos em espécimes cilíndricos de concreto armado (CP’s). Procurou-se
determinar a perda de rigidez desses espécimes, após a aplicação de um certo número de
ciclos, através medição de deformações. O equipamento usado para a realização dos ensaios
foi uma máquina INSTRON localizada no Laboratório de Estruturas da Escola de Engenharia
de São Carlos (LE-EESC).
O estudo teórico consistiu numa análise numérica baseada no método dos elementos finitos,
apoiado em modelos de dano e plasticidade. O modelo axissimétrico utilizado para
representar o comportamento dos CP’s, contendo uma única barra de aço em seu eixo e
submetidos a carregamento estático e cíclico, em nível de serviço, considerou o contato entre
as duas superfícies aço-concreto. A figura 1 mostra o modelo usado e o CP pronto para o
ensaio (instrumentado com transdutor).
transdutor de
deslocamento
25
200
100

barra Ø=6.3
275

barra Ø=10.0

100

Figura 1: Esquema usado (dimensões em cm) e CP na máquina


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 117 e 118)

Foram realizados dois tipos de ensaios:


a) ensaio padronizado de arrancamento (até a ruptura);
b) ensaio cíclico com carga em serviço.
Dois CP’s, contendo uma barra de diâmetro 6.3 mm em seu eixo, foram submetidos a cada
um dos dois tipos de ensaio acima mencionados. Outros dois CP’s, contendo uma barra de
10.0 mm, também foram submetidos aos mesmos ensaios. No total, quatro ensaios foram
realizados.

3. ANÁLISE EXPERIMENTAL
O ensaio de arrancamento para o CP com barra de 6.3 mm foi realizado com controle de
deslocamento a uma taxa de 0,05 mm/s. Para o CP com barra de 10.0 mm foi usada uma taxa
de 0,02 mm/s; os registros para aquisição de dados foram feitos com uma leitura a cada
segundo. A figura 2 mostra o resultado do ensaio para os CP’s com barra de 6.3 e 10.0 mm.
18 40

16 35
14
30
12
25

força (kN)
força (kN)

10
20
8
15
6
10
4
5 10.0 mm
2 6.3 mm

0 0
0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5 5,0 0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9

deslocamento (mm) deslocamento (mm)

Figura 2: Ensaio de arrancamento para os CP’s de 6.3 e 10.0 mm de diâmetro


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 120)

A figura 3 mostra curva comparativa para os dois CP’s.


40,0

35,0

30,0

25,0
força (kN)

20,0

15,0

10,0
10.0 mm
5,0
6.3 mm
0,0
0,0 0,2 0,3 0,5 0,6 0,8 0,9 1,1 1,2 1,4 1,5

deslocamento (mm)

Figura 3: Ensaio de arrancamento – comparativo


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 121)

Da análise dos ensaios mostrados nas figuras 2 e 3, podem ser extraídos os resultados
apresentados na tabela 1, com as respectivas cargas de ruptura e deslocamento último da
barra.
Tabela 1: Carga de ruptura e deslocamento para os CP’s
Carga de ruptura (kN) /
CP Observações
deslocamento (mm)
6.3 mm 16,6 - 0,49 Não apresentou fissuras - arrancamento
10.0 mm 36,1 - 0,58 Apresentou fissuras - fendilhamento
Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 121)

O ensaio veio comprovar o que já havia sido escrito por GOTO (1971), ELIGEHAUSEN et al
(1983), BULLETIN D’INFORMATION n. 230 (1996), entre outros. A aderência é função,
praticamente, da aderência mecânica proveniente da irregularidade da superfície e das
nervuras das barras. Verificou-se que no ensaio com barra de 6.3 mm o espécime sofreu
ruptura por arrancamento da barra, como ilustra a figura 4 (a); observar o concreto esmagado
entre as nervuras. Para a barra de 10.0 mm, no entanto, antes mesmo que ocorresse
esmagamento total do concreto e a barra escorregasse, aconteceu o fendilhamento da peça,
provavelmente devido às altas tensões radiais de tração. O ensaio veio confirmar essas
afirmativas, como mostra a figura 4 (b).
Figura 4: Ruptura por arrancamento (a) e por fendilhamento (b)
Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 122)

O ensaio cíclico para o CP de 6.3 mm foi realizado com controle de deslocamento a uma taxa
0,03 mm/s. A leitura de aquisição variou de 0,1 reg./s a 0,2 reg./s. A carga máxima aplicada
foi de 13 kN (aproximadamente 80% da carga última) e a carga mínima de 7 kN
(aproximadamente 40% da carga última). Foram aplicados um total estimado de 230 ciclos.
Após o último ciclo, o CP foi levado à ruptura sendo atingida a carga de 19,8 kN. As figuras 5
e 6 (a) mostram, respectivamente, a curva força x deslocamento para o CP com barra de 6.3
mm e 10.0 mm.
20,00

18,00

16,00

14,00

12,00
força (kN)

10,00

8,00

6,00

4,00
6.3 mm
2,00

0,00
0,000 0,025 0,050 0,075 0,100 0,125 0,150 0,175 0,200 0,225

deslocamento (mm)

Figura 5: Curva cíclica força x deslocamento para o CP de 6.3 mm


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 124)

O ensaio cíclico para o CP de 10.0 mm foi realizado com controle de velocidade de


deslocamento do pistão de 0,03 mm/s e velocidade de aquisição de dados de 2 reg./s.
40,0 40,0

35,0 35,0

30,0 30,0

25,0 25,0
força (kN)
força (kN)

20,0 20,0

15,0 15,0

10,0 10,0
1º ciclo
5,0 5,0
10.0 mm ultimos ciclos
0,0 0,0
0,000 0,100 0,200 0,300 0,400 0,500 0,600 0,700 0,800 0,900 0,000 0,100 0,200 0,300 0,400 0,500 0,600 0,700 0,800 0,900

deslocamento (mm) deslocamento (mm)

Figura 6: Curva cíclica força x deslocamento e 1º e últimos ciclos para o CP de 10.0 mm


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 124 e 125)
A carga máxima foi de 30 kN (aproximadamente 80% da carga última) e a carga mínima de
22 kN (aproximadamente 60% da carga última).
Foram aplicados um total estimado de 200 ciclos. Após o último ciclo, o CP foi levado à
ruptura sendo atingida a carga última de 37 kN. A figura 6 (b) mostra o primeiro e os últimos
ciclos de carga para o ensaio com CP de 10.0 mm.

4. ANÁLISE NUMÉRICA
As simulações numéricas realizadas neste trabalho, para a modelagem dos CP’s cilíndricos de
concreto armado, tiveram o propósito de testar o comportamento e a eficiência do algoritmo
de contato quando simulando o efeito da aderência aço-concreto através do contato entre suas
superfícies e, principalmente, medir a perda de rigidez após um determinado número de ciclos
de carga aplicado. Foi escolhido um modelo bidimensional axissimétrico, tanto da barra
nervurada quanto do concreto, considerando o contato entre os dois materiais, conforme
mostra a figura 7, para o CP de 10.0 mm (dimensões em cm).

concreto
200
100

barra Ø=10.0 aço


lisa ou nervurada
5
100 50

Figura 7: Corte do CP e uma seção (aço e concreto) geradora do modelo axisimétrico


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 85)

O modelo constitutivo utilizado para o aço foi o elasto-plástico e para o concreto os modelos
elástico e inelástico, com dano. Para avaliar os níveis de tensões de aderência, o deslizamento
relativo entre as superfícies na interface aço-concreto e a perda de rigidez da estrutura pela
degradação progressiva da seção transversal da estrutura, foi utilizado o MEF instalado no
programa comercial ABAQUS (2002), disponível no laboratório de computação do SET
(EESC-USP). A figura 8 mostra o modelo axissimétrico e a superfície de contato (na cor
vermelha), para o aço e para o concreto, respectivamente.

Figura 8: barra nervurada e concreto – modelo e superfície de contato


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 86 e 87)
Os elementos utilizados na análise, tanto para o aço quanto para o concreto, foram os do tipo
CAX4 que são elementos contínuos, axissimétricos, com quatro nós, sendo dois
deslocamentos por nó, um radial e outro axial. Permite calcular tensões e deformações nas
direções radial, axial e tangencial. Permite, também, determinar o deslizamento relativo entre
os nós situados sobre as superfícies de contato, na direção axial, que é um dos pontos de
interesse da análise.
A malha de elementos finitos tipo CAX4 utilizada, tanto para a barra quanto para o concreto,
é mostrada na figura 9. Observar o refino da malha na região de contato entre os dois
materiais.

Figura 9: Malha e elementos utilizados para o aço e para o concreto


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 88)

5. RESULTADOS
No capítulo 3 foram apresentados os ensaios realizados no LE-SET com CP’s de concreto
armado e no capítulo 4 as simulações numéricas feitas com modelos os axissimétricos. Nesse
capítulo é feita uma análise dos resultados mais importantes colhidos na pesquisa.

5.1 Análise Experimental


Para os ensaios com carga levada à ruptura, a figura 10 relaciona as tensões de aderência com
os deslizamentos ocorridos nos CP’s com barra de 6.3 mm e 10.0 mm. Observa-se, da análise
desse gráfico, a queda brusca de tensão no CP com barra de 10.0 mm configurando a ruptura
do CP por fendilhamento; observa-se, ainda, o comportamento da curva do CP com barra de
6.3 mm onde a tensão cai lentamente enquanto o deslizamento aumenta, configurando, no
final, a ruptura do CP por arrancamento da barra; constata-se, também, que a curva descrita
pelo CP com barra de 6.3 mm assemelha-se, no aspecto, com a curva do CEB-FIP MC
(1990).
14

barra 10.0 - exp.


12
CEB - 90
tensão de aderencia (MPa)

10 barra 6.3 - exp.

0
0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5 5,0 5,5 6,0
deslizam ento (m m )

Figura 10: Curvas dos CP’s comparadas com o CEB


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 159)
O valor limite para a tensão de aderência correspondente a um deslizamento de 0,1 mm,
segundo a NBR 6118:2003. É obtido pela expressão dada na equação 1 e mostrado na figura
11, com o limite dado pelo CEB.
f bd = η1 ⋅ η2 .η3.f ctd (1)
Para cada CP, vale:
f bd = 3,34MPa para o CP com barra de 6.3mm e
f bd = 5,96MPa para o CP com barra de 10.0 mm.
14

12
tensão de aderencia (MPa)

10

6 barra 10.0 - exp.


CEB - 90
4 barra 6.3 - exp.
lim. - CEB
2
lim. - NBR 6118
0
0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0
deslizam ento (m m )

Figura 11: Limites para a tensão de aderência – CEB e NBR6118


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 159)

Algumas considerações podem ser feitas das observações tiradas dos ensaios à ruptura
realizados com os CP’s:
ƒ Ficaram bastante evidentes os modos de ruptura por arrancamento e por fendilhamento,
como esperado;
ƒ O comprimento de ancoragem usado para o CP com barra axial de 6.3 mm foi de 10 Ф (63
mm), contrariando, por conseguinte, o que recomenda a NBR 6118:2003, item 9.4.2.5.
Observou-se, no entanto, que o valor registrado para a tensão de aderência, correspondente
a um deslizamento de 0,1 mm, foi aproximadamente o triplo do valor limite;
ƒ Para o CP com barra axial de 10.0 mm o valor registrado para a tensão de aderência,
correspondente a um deslizamento de 0,1 mm, foi praticamente coincidente;
ƒ Verificou-se que as barras não entraram em regime de escoamento;
Para o ensaio cíclico, a tabela 2 apresenta um resumo dos dados e alguns resultados colhidos.
Pu é a carga de ruptura alcançada no ensaio estático de arrancamento; Pmax e Pmin são os
limites superior e inferior da amplitude da carga cíclica aplicada e Puc é a carga alcançada na
ruptura após a aplicação do último ciclo de carga.

Tabela 2: Dados e resultados dos ensaios cíclicos com CP’s


CP Pu (kN) Pmax (kN) Pmin (kN) Pmax/ Pu Pmin/ Pu Nº ciclos Puc (kN

6.3 mm 16,6 13,0 7,0 80 % 40 % 230 18,5

10.0 mm 36,1 30,0 22,0 80 % 60 % 200 37,9


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 160)

Na figura 12 as curvas dos CP’s de 6.3 mm e de 10.0 mm são plotadas juntas de modo a se ter
uma visão comparativa da evolução relativa dos deslocamentos entre elas. Nessas figuras são
mostrados o 1º ciclo, alguns ciclos intermediários e os últimos ciclos, inclusive a última fase
do ensaio quando o CP é levado à ruptura, após o último ciclo.
40

35

30

25

força (kN)
20 1º ciclo - 10.0
ciclos interm. - 10.0
15
ultimos ciclos - 10.0
10 1º ciclo - 6.3
ciclos interm. - 6.3
5
ultimos ciclos - 6.3
0
0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9

deslocamento (mm)

Figura 12: Comparativo entre os CP’s de 6.3 e 10.0 mm


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 162)

A figura 13 mostra comparativo entre o ensaio à ruptura e o ensaio cíclico para os CP’s com
barra axial de 6.3 mm e 10.0 mm, respectivamente.
20 40

18 35
16
30
14
25
força (kN)
força (kN)

12

10 20

8 15
6
10
4 cic. 10.0 mm
cic. 6.3 mm 5
2 rup. 10.0 mm
rup. 6.3 mm
0
0
0,0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9
0,00 0,05 0,10 0,15 0,20 0,25 0,30 0,35 0,40 0,45 0,50 0,55 0,60
deslocamento (mm) deslocamento (mm)

Figura 13: Cíclico e ruptura para os CP’s de 6.3 e 10.0 mm


Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 162 e 163)

Algumas considerações podem ser feitas das observações tiradas dos ensaios com carga
cíclica:
ƒ Aumento da carga de ruptura, após a aplicação do último ciclo de carga, e a conseqüente
diminuição do deslocamento na ruptura;
ƒ Para o CP com barra axial de 6.3 mm o aumento da carga de ruptura é de
aproximadamente 12 % (última coluna da tabela 2) enquanto que o deslocamento na
ruptura é aproximadamente 3,5 vezes menor;
ƒ Para o caso do CP com barra axial de 10.0 mm o aumento da carga de ruptura é de
aproximadamente 5 % (última coluna da tabela 2) enquanto que o deslocamento na ruptura
é aproximadamente 25 % maior.

5.2 Análise Numérica


Para o modelo axissimétrico utilizado, são mostrados alguns resultados obtidos da análise
numérica. A figura 14 mostra o panorama do dano verificado em alguns pontos da superfície
de contato dos CP’s (gráfico à esquerda). Observar o dano atingido por alguns pontos – maior
que 80%. O dano d é uma variável escalar podendo tomar valores de zero (material sem dano)
a um (material completamente danificado), ou seja, 0 ≤ d ≤ 1 . Dentro do contexto da teoria do
dano escalar, a degradação da rigidez é isotrópica e caracterizada por uma simples variável de
degradação d. O dano associado aos mecanismos de ruptura do concreto (fissuração e
esmagamento) resulta numa redução da rigidez elástica. A figura (gráfico à direita) apresenta
as curvas força x deslocamento para dois pontos adjacentes pertencentes à superfície de
contato (aço-concreto); a comparação é feita com a curva obtida do ensaio experimental.
50

45

40

35 experimental

30 Abaqus - pto aço

força (kN)
Abaqus - pto conc.
25

20

15

10

0
0,0 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1,2 1,4 1,6 1,8

deslocamento (mm)

Figura 14: Medida do dano em pontos da superfície de contato


e curva numérico x experimental
Fonte: Oliveira Filho, Josafá de (2005, pág. 165 e 167)

Diante das análises numéricas apresentadas nesse item é possível tecer alguns comentários a
respeito do comportamento dos CP’s de concreto armado:
ƒ As mudanças bruscas de direção da normal ao elemento de uma das superfícies tornam o
problema mais rígido e de difícil convergência;
ƒ O carregamento aplicado pode ser em incrementos de força ou de deslocamentos;
constatou-se que a solução obtida para carga aplicada com incrementos de deslocamento
converge mais rapidamente, com menos iterações;
ƒ A discretização da malha utilizada para o modelo mostrou-se eficiente;
ƒ Em pontos sobre a superfície de contato ficou bastante evidente o dano localizado;

6. CONCLUSÕES
Dentre as diversas observações e constatações feitas ao longo deste trabalho, algumas foram
consideradas relevantes e são apresentadas neste capítulo.
O valor limite recomendado pela NBR 6118:2003 para a tensão de aderência, correspondente
a um deslizamento de 0,1 mm, mostrou-se conservador.
Constatou-se o aumento crescente do deslocamento em função da aplicação de ciclos de
carga, com conseqüente perda de rigidez.
Nas simulações numéricas, a barra de aço foi modelada levando em conta suas características
reais, com o desenho de suas nervuras.
Em alguns trabalhos que tratam da análise numérica de peças de concreto armado, o modelo
usado para a barra de aço é representado por elementos de barra (no Abaqus denominado
REBAR), apresentando o inconveniente de perder sua característica tridimensional.
Nas simulações numéricas, a barra de aço, com suas nervuras, e o concreto envolvente, são
unidos na interface através superfícies de contato; essa estratégia confere ao conjunto uma
resposta mais realista podendo-se obter da análise, por exemplo, o deslizamento dos pontos da
interface, dano ocorrido e perda de rigidez.
O modelo constitutivo, denominado no Abaqus de “Concrete Damaged Plasticity”, mostrou-
se bastante adequado para retratar o funcionamento conjunto entre a barra de aço e o concreto;
o autor não encontrou, para o tema estudado, nenhum trabalho onde essa estratégia de
modelagem tenha sido utilizada.
Para o modelo axissimétrico, a resposta foi considerada satisfatória mesmo o modelo
mostrando-se bastante rígido.
Na análise numérica, os valores encontrados na interface, para a variável d de dano
localizado, próximos da unidade, indicam a degradação da interface. Perda de rigidez da peça
e conseqüente ruptura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABAQUS/CAE User’s Manual. Versão 5.8 (1998) e versão 6.2 (2002). Hibbitt, Karlsson &
Sorensen, Inc.
ACI COMMITTEE 408. (1991). Abstract of: State-of-the-art-report: bond under cyclic
loads. ACI Materials Journal, v.88, n.6, p.669-73, Nov./Dec.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (2003). NBR 6118 – Projeto de
estruturas de concreto - procedimento. Rio de Janeiro, ABNT.
COMITE EURO-INTERNATIONAL DU BETON (1996). RC elements under cyclic loading:
state of the art report. Bulletin D’Information n.230.
ELIGEHAUSEN, R. e POPOV, E. P. e BERTERO, V. V. (1983). Local bond stress-slip
relationships of deformed bars under generalized excitations. Report n. UCB/EERC-83/23.
University of California, Berkeley. 162 p.
GOTO, Y. (1971). Cracks formed in concrete around deformed tension bars. ACI Journal,
April.
OLIVEIRA FILHO, JOSAFÁ de. (2005). Estudo teórico-experimental da influência das
cargas cíclicas na rigidez de vigas de concreto armado. Tese de Doutorado. 218 p. EESC-
USP.
PROJETO DE FUNDAÇÕES – UMA ANÁLISE COMPARATIVA
ESTUDO DE CASO

Camila Lopes
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
camila_eng@hotmail.com
Adailton Antônio dos Santos
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
adailton@unesc.net
Alexandre Vargas
Curso de Engenharia Civil
Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
alexandrevargas@terra.com.br

RESUMO
Para a escolha da opção mais adequada de fundação faz-se necessária uma criteriosa análise
técnica e econômica das alternativas possíveis. O que se observa é uma tendência do mercado
nesta área, em optar por soluções que priorizam economia no empreendimento, em detrimento
de aspectos técnicos. Neste trabalho, são avaliadas diferentes possibilidades de fundação, para
uma obra e perfil geotécnico pré-estabelecidos, objetivando a melhor opção, aliada ao menor
custo e melhor desempenho. Após análise do perfil geotécnico do solo, é determinada a
capacidade de carga para fundação superficial e o seu dimensionamento estrutural. São
dimensionados quatro tipos de fundações profundas mais usuais na região, avaliando-se todas
as variáveis que influenciam diretamente no custo total, e também aspectos técnicos
executivos. Concluiu-se que a execução de sapatas apresentou-se inviável para a obra em
estudo, decorrente de seu elevado custo, quando comparada com as demais opções estudadas,
bem como seu processo executivo mediante as características do solo de fundação. Em
relação às estacas, os resultados mostraram que as do tipo pré-moldadas de concreto
apresentam menor custo, bem como, a solução mais viável tecnicamente, analisando as
características do solo, o entorno e os demais elementos que contribuem na composição do
custo final.

1. INTRODUÇÃO
Atualmente a atividade nas áreas de projeto e execução de fundações tem-se pautado
fortemente pelo fator econômico, algumas vezes em detrimento do aspecto técnico. Para
estabelecer a solução de fundação mais adequada, deve-se fazer uma criteriosa análise técnica
e econômica das alternativas possíveis, devendo ser ponderadas variáveis tais como as
condições das edificações vizinhas à obra, características geotécnicas do solo, viabilidade
técnica de execução, além da consideração dos elementos que compõem o custo final.
Inicialmente será analisado o perfil geotécnico do solo em estudo, a fim de identificar as
diversas camadas, o nível do lençol freático e a capacidade de carga de cada uma das
camadas, para o posterior dimensionamento dos diferentes tipos de fundações a serem
estudados. Na determinação da tensão admissível do solo serão utilizados métodos teóricos,
de acordo com a norma NBR 6122 (1996), uma vez que não faz parte desse estudo ensaios
laboratoriais. Na seqüência são dimensionadas sapatas rígidas isoladas com carga centrada,
através do modelo bielas e tirantes, segundo a norma NBR 6118 (2003), além da
determinação do recalque imediato para esse tipo de fundação, com base na Teoria da
Elasticidade. A seguir é determinada a capacidade de carga de diferentes tipos de estacas
resultante da interação estaca-solo, pelo Método de Décourt e Quaresma e o de Aoki e
Velloso, com base no perfil geotécnico adotado, comparando com a capacidade nominal das

1
estacas, para posteriormente projetar o número de estacas por pilar e os blocos de coroamento.
De posse dos dados será feito o levantamento dos quantitativos e dos custos, para então
realizar a análise técnica e econômica das soluções.

2. ABRANGÊNCIA E LIMITAÇÕES DO TRABALHO

2.1. Capacidade de carga de fundações superficiais


Serão utilizados apenas os boletins de sondagem à percussão, não sendo realizados ensaios
laboratoriais nem outro tipo de investigação complementar, além da adoção de um valor único
para a tensão admissível do solo (σadm.), tendo-se como base o menor dos valores encontrados
no agrupamento de cargas nos pilares.
2.2. Fundações superficiais
Não são consideradas as sobreposições das sapatas, uma vez que isso levaria a situações de
sapatas retangulares e/ou associadas, que não são objetos desse estudo. A resistência à
compressão do concreto é de 20 MPa, módulo de elasticidade do concreto (Eci) igual a 25
GPa, aço utilizado tipo CA-50 e cobrimento da armadura igual a 5 cm. Para o detalhamento
da armadura das sapatas foi adotado o critério de igualar as armaduras nas duas direções,
tendo como referência a área de aço de maior valor.
2.3. Recalques
Os recalques a serem calculados serão apenas os imediatos, não levando em conta os demais
componentes utilizados para previsão do recalque final.
2.4. Fundações profundas
São dimensionados quatro tipos de estacas mais usuais na região: tipo Strauss, Escavada, Pré-
moldada de concreto e Hélice Contínua, sendo avaliada também, a viabilidade executiva para
cada uma das opções, levando em consideração o nível do lençol freático e demais
características do solo. A resistência à compressão do concreto será de 20 MPa, módulo de
elasticidade do concreto (Eci) igual a 25 GPa, aço utilizado tipo CA-50 e CA-60 e cobrimento
da armadura igual a 5 cm.

3. CARACTERÍSTICAS DA OBRA EM ESTUDO


Edifício residencial composto por um pavimento garagem, três pavimentos tipo e um
pavimento cobertura duplex, perfazendo uma área total de 3.310,08 m². O terreno destinado à
implantação da obra possui 1.200 m² de área, dos quais apenas 455 m² serão utilizados para a
construção. O sistema estrutural adotado foi o convencional com laje do tipo pré-moldada
treliçada.

4. INVESTIGAÇÕES GEOTÉCNICAS – SONDAGEM À PERCUSSÃO COM SPT


O processo de investigação geotécnica utilizado para caracterizar o subsolo, é a sondagem à
percussão com o ensaio de penetração dinâmica SPT (“Standard Penetration Test”). Para
tanto, foram executados dois furos de sondagem no terreno sob a projeção da edificação.

4.1. Perfil estratigráfico estimado do solo


O perfil estratigráfico estimado está ilustrado na Tabela 1, onde é apresentada a classificação
do solo e o NSPTmédio a cada metro de perfuração realizada, ao longo do furo de sondagem;
além do nível d’água, na situação mais desfavorável. Analisando o substrato, evidencia-se a
presença de argila arenosa até a profundidade de 5,80 m, seguindo uma camada de areia
média argilosa até a profundidade de 6,80 m, onde a sondagem foi paralisada por atingir o
impenetrável à percussão. Para assentamento da fundação superficial, estabeleceu-se a cota de
2,00 m. As fundações profundas serão assentadas na cota do impenetrável a percussão.
Tabela 1: Perfil estratigráfico estimado do solo
Nível do terreno SPT médio Classificação do solo
-1 10 argila arenosa cor marrom
-2 11 argila arenosa cor marrom
-3 12 argila arenosa cor vermelha
-4 14 argila arenosa cor amarela
-5 19 argila arenosa cor amarela
-6 37 argila arenosa cor cinza
-7 58 areia média argilosa
-8 Impenetravel a percussão -

5. DIMENSIONAMENTO DA FUNDAÇÃO SUPERFICIAL

5.1. Determinação da capacidade de carga para fundação superficial (σr) e tensão


admissível do solo (σadm.)
A capacidade de carga para a fundação superficial (σr) foi calculada através do método de
Terzaghi. Os parâmetros médios do solo de fundação foram obtidos com base no valor do
NSPTmédio correspondente à camada de assentamento das sapatas. Tendo em vista que o solo é
predominantemente argiloso, o que poderá resultar, seja por carga ou por recalque excessivo,
rupturas localizadas, a equação geral proposta por Terzaghi teve os parâmetros coesão (c’) e,
ângulo de atrito interno do solo (φ’) reduzidos. A Tabela 2 apresenta os resultados obtidos
para a tensão admissível a partir do agrupamento de cargas atuantes nos pilares.

Tabela 2: Tensão admissível do solo correspondente ao intervalo de cargas nos pilares


Intervalo de carga Tensão admissível do solo
(tf) (kgf/cm²)
30 1,75
45 1,76
55 1,76
65 1,75
75 1,95
85 1,76
95 1,77
105 1,76
115 1,77
120 1,78
130 1,77
143 1,77

Foi adotado como valor único para a tensão admissível do solo (σadm.) igual a 1,75 kgf/cm².

5.2. Quantitativos das sapatas


Após o dimensionamento e detalhamento das sapatas, foram levantados os quantitativos totais
de aço, concreto, sem colarinhos, (fck= 20 MPa estrutural) e (fck= 15 MPa regularização),
fôrmas (considerando apenas o rodapé) e volume de escavação (considerando a área da
projeção em planta das sapatas, acrescida de 10 cm para cada uma das faces e 2 metros de
profundidade). Os resultados são apresentados na Tabela 3, a seguir.
Tabela 3: Quantitativos das sapatas.
Concreto (fck = 20 MPa) 113,84 m³
Concreto (fck = 15 MPa) 12,625 m³
Aço 2.472,28 Kg
Fôrma 110,576 m²
Volume de escavação 505 m³

6. PREVISÃO DO RECALQUE IMEDIATO


A previsão do recalque imediato (wi) para a alternativa de fundação superficial foi calculada a
partir da equação (1), oriunda da Teoria da Elasticidade.
1 − μ2
wi = σ . B. . Is . Id . I h (1)
E

Onde : σ: tensão aplicada [kN/m²]; B: menor dimensão da fundação [m];


μ: coeficiente de Poisson; E: módulo de Young [kN/m²];
Is: fator de forma; Id: fator de profundidade/ embutimento;
Ih: fator de espessura da camada compressível.

Uma vez adotado um valor único para a tensão admissível do solo (σadm.) igual a 1,75 kgf/cm²
ou 175 kN/m², coeficiente de Poisson igual a 0,50, no caso de argila saturada, módulo de
Young igual a 25.000 kN/m², fator de forma da sapata (Is) igual a 0,99, no caso de sapata
quadrada rígida, efetuou-se o cálculo para a previsão dos recalques, cujos resultados obtidos
são resumidos na Tabela 4. Cabe salientar que, os fatores de embutimento (Id) e espessura da
camada compressível (Ih) foram desprezados, tendo em vista a homogeneidade do solo de
fundação.

Tabela 4: Previsão do recalque imediato para fundação superficial.


Tensão Máxima no solo (Kgf/cm2): 1,75
Dimensões Carga Recalque imediato
Sapata Relação dos Pilares
lados (cm) Máxima (t) (wi) (cm)
S1 130 130 27 P3 = P10 = P37 = P44 0,6757
S2 170 170 46 P6 = P7 = P11 = P16 0,8836
S3 190 190 57 P4 = P9 = P22 0,9875
S4 210 210 70 P5 = P8 = P17 = P18 = P23 = P29 = 1,0915
P36 = P43
S5 230 230 84 P13 = P14 = P19 = P26 = P27 = 1,1954
P28 = P38
S6 250 250 99 P1 = P2 = P12 = P15 = P32 = P33 = 1,2994
P40 = P41
S7 270 270 116 P30 = P35 = P39 = P42 1,4033
S8 290 290 134 P21 = P24 = P31 = P34 1,5073
S9 300 300 143 P20 = P25 1,5593

7. DIMENSIONAMENTO DAS FUNDAÇÕES PROFUNDAS


Foram dimensionados quatro tipos de estacas mais usuais na região: tipo Strauss, Escavada,
Hélice Contínua e Pré-moldada de concreto. Com o intuito de otimizar o dimensionamento e a
execução das estacas definiu-se intervalos de carga (IC), relacionando a carga total nos pilares
com a carga admissível estrutural ou nominal das estacas, de acordo com cada diâmetro. Para
cada tipo de estaca proposto adotou-se três diâmetros comerciais, cujas cargas contemplassem
blocos de uma e duas estacas somente.
O dimensionamento geotécnico das fundações profundas constitui na determinação do
comprimento dos elementos estruturais, da capacidade de carga do sistema estaca-solo (QR),
resultante da somatória das cargas máximas suportadas pelo atrito lateral (Ql) e pela ponta da
estaca (Qp), bem como a determinação da carga admissível do sistema.
Para efeito de dimensionamento e orçamento, as estacas foram assentadas na cota do
impenetrável, conforme sondagem à percussão, e o arrasamento destas foi no nível do terreno.
A distância mínima entre os eixos das estacas, no caso de duas estacas para um mesmo pilar
será de acordo com as empresas executoras, igual a:
→ Estaca Escavada, Hélice Contínua e Pré-moldada de concreto: 2,5.φest.
→ Estaca tipo Strauss: 3 . φestaca

7.1. Quantitativos de aço e concreto das fundações profundas moldadas “in loco”

Tabela 5: Relação do consumo de materiais das estacas moldadas “in loco”.


Aço total Volume de concreto total
Elemento
(kg) (kg)
Estaca tipo Strauss 651,08 55,45
Estaca Escavada 673,88 51,41
Estaca Hélice Contínua 1456,80 43,31

7.2. Blocos de coroamento das estacas

Tabela 6: Relação do consumo de materiais dos blocos de coroamento das estacas.


Aço total Vol. de concreto Fôrma total Vol. de escavação Regularização
Elemento
(kg) total (kg) (m²) total (m²) total (m³)
Bloco da Estaca tipo
1001,11 25 61,96 30,83 1,76
Strauss
Bloco da Estaca
950,13 22,36 63,84 27,81 1,73
Escavada
Bloco da Estaca
840,24 18,85 55,93 23,75 1,61
Hélice Contínua
Bloco da Estaca
508,30 10,81 42,92 14,26 1,12
Pré-moldada de concreto

8. LEVANTAMENTO DE CUSTOS

Para a análise orçamentária foram considerados os itens listados a seguir, sendo que tais
valores correspondem aos valores médios obtidos mediante um sistema de aquisição de dados,
junto às empresas executoras. Os valores adotados correspondem ao mês de junho de 2008.
• Valor do m³ pronto, considerando-se concreto (fck = 20 MPa), aço, fôrma e desfôrma,
no caso de fundação superficial e blocos de coroamento de estacas. Preço médio do m³
pronto = R$ 1.000,00;
• Valor por m³ de escavação e reaterro = R$ 20,00;
• Valor por metro de execução/ cravação de cada tipo de estaca proposto. Cabe salientar
que os valores compreendem mão-de-obra e locação dos equipamentos, no caso de
estacas moldadas “in loco” e mão-de-obra, locação dos equipamentos, bem como o
valor propriamente dito da estaca enquanto material, no caso de estaca pré-moldada.
Tabela 7: Valor por metro de execução das estacas moldadas “in loco”.
Valor unitário
Tipo de estaca Diâmetro execução/ m
(cm) (R$/m)
32 35
Tipo Strauss 42 50
52 65
35 23
Escavada 40 27
45 29
30 32
Hélice Contínua 35 34
40 36

Tabela 8: Valor por metro de execução da estaca Pré-moldada de concreto.


Valor unitário
Tipo de estaca Seção Valor estaca cravação/ m
(mm) (R$/m) (R$/m)
Pré-moldada de 205x205 36,47 17,50
concreto 235x235 43,95 20,00
265x265 54,50 23,00

• Distância da obra de empresas especializadas (taxas de mobilização), no caso de


fundação profunda.
- Estaca tipo Strauss: R$ 300,00;
- Estaca Escavada: R$ 300,00;
- Estaca Hélice Contínua: R$ 12.000,00;
- Estaca Pré-moldada de concreto: R$ 1.000,00.

• Valor do concreto usinado fck = 15 MPa: R$ 180,00 e fck = 20 MPa: R$ 195,00.

• Valor do aço CA-50 e CA-60 de acordo com o diâmetro das barras:

Tabela 9: Valores dos aços CA-50 e CA-60.


Diâmetro Valor
Tipo
(mm) (R$/kg)
CA-60 5.0 4,38
CA-50 6.3 4,52
CA-50 8.0 4,20
CA-50 10.0 3,79
CA-50 12.5 3,62
CA-50 16.0 3,62
CA-50 20.0 3,62

9. ANÁLISE DOS RESULTADOS


9.1 Levantamento comparativo dos volumes de concreto das sapatas e das estacas
moldadas “in loco”
A Figura 1 apresenta o volume total de concreto das sapatas e das estacas moldadas “in loco”,
considerando também o volume dos blocos de coroamento. Observa-se que, para a fundação
superficial, o volume de concreto representa uma quantidade superior as demais opções,
atingindo 113,84 m³. Para as estacas tipo Strauss e Escavada, embora os valores sejam
elevados, não há uma variação representativa no volume de concreto total. Nota-se que a
estaca Hélice Contínua foi à opção que apresentou o menor volume do material, atingindo
62,16 m³.

Estaca Hélice 62,16 m³


Continua
Tipos de fundação
Estaca Escavada 73,77 m³

80,45 m³
Estaca Tipo Strauss
113,84 m³

Sapata

0 20 40 60 80 100 120

Volume de concreto (m³)

Figura 1: Gráfico do volume de concreto total para sapatas e estacas moldadas "in loco".

9.2 Levantamento comparativo dos volumes de concreto dos blocos de coroamento para
cada tipo de estaca
Os blocos de coroamento representam uma parcela significativa no volume de concreto total
quando o tipo de fundação for estaca. Através da Figura 2 é possível analisar esta influência,
bem como comparar os volumes obtidos para os blocos das fundações profundas. Cabe
salientar que não foram incluídos os volumes do lastro de concreto simples neste
levantamento.

Estaca Pré-moldada de 10,81 m³


concreto
Tipos de estaca

18,85 m³
Estaca Hélice Continua
22,36 m³

Estaca Escavada
25,00 m³

Estaca Tipo Strauss

0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00

Volume de concreto (m³)

Figura 2: Gráfico comparativo dos volumes de concreto dos blocos de coroamento para cada
tipo de estaca.

9.3 Levantamento comparativo da quantidade de fôrmas no caso de fundação superficial


e blocos de coroamento das estacas
A Figura 3 compara as quantidades de fôrmas necessárias à execução das sapatas e blocos de
coroamento das estacas. Cabe salientar que, para as sapatas, considerou-se apenas a execução
de fôrmas para o rodapé, enquanto que para os blocos de coroamento em todo seu perímetro.
42,91 m²
110,58 m²
55,93 m²

63,84 m² 61,96 m²

Sapatas Blocos estaca tipo Strauss


Blocos estaca Escavada Blocos estaca Hélice contínua
Blocos estaca Pré-moldada de concreto

Figura 3: Gráfico comparativo das quantidades de fôrmas necessárias à execução das sapatas
e blocos de coroamento das estacas.

9. 4 Custo comparativo entre os tipos de estacas propostos


Para a análise dos custos dos diferentes tipos de estacas propostos foram considerados os
seguintes itens: taxa de mobilização, aço, concreto, locação de equipamentos e mão-de-obra.
Os valores apurados estão ilustrados graficamente na Figura 4.

Estaca Pré-moldada R$ 30.711,78


de concreto
R$ 41.223,37
Tipos de estaca

Estaca Hélice
Continua

R$ 24.163,82
Estaca Escavada

R$ 33.639,51
Estaca Tipo Strauss
0,00

5.000,00

10.000,00

15.000,00

20.000,00

25.000,00

30.000,00

35.000,00

40.000,00

45.000,00

Valor (R$)

Figura 4: Gráfico do custo dos diferentes tipos de estaca propostos.

A Figura 4 mostra que a estaca Hélice Contínua foi a opção que apresentou maior custo.
Seguida das estacas tipo Strauss, Pré-moldada e Escavada. A diferença, quando comparada à
estacas Escavadas, é de R$ 17.059,55, o equivalente a 1,71 vezes o valor. Em relação à estaca
tipo Strauss, a diferença é de R$ 7.583,86 (junho/ 2008). Analisando individualmente os tipos
de estaca propostos, considerando as variáveis citadas no início deste tópico, é possível
perceber que tais variáveis exercem influência direta no custo total, com maior ou menor
intensidade dependendo do tipo de estaca.

9. 5 Custo comparativo total entre a fundação superficial e os tipos de estacas propostos


Com base nos dados obtidos é possível compilá-los a fim de se obter o valor total para os
diferentes tipos de fundação propostos, e, posteriormente, definir qual a opção mais viável
técnica e economicamente. Foram considerados para este levantamento todos os itens
relativos a cada opção para a fundação proposta, tais como: concreto, aço, fôrma, lastro de
concreto, escavação, reaterro, mão-de-obra, locação de equipamentos e taxa de mobilização.
Os resultados obtidos estão ilustrados graficamente na Figura 5.
Estaca Pré-moldada de concreto R$ 42.009,33

Tipos de fundação
Estaca Hélice Continua R$ 60.837,68

R$ 47.391,89
Estaca Escavada
R$ 59.573,77
Estaca Tipo Strauss
R$ 126.212,50
Sapatas

0,00

20.000,00

40.000,00

60.000,00

80.000,00

100.000,00

120.000,00

140.000,00
Valor (R$)

Figura 5: Custo total das fundações propostas.

A Figura 5 mostra que a fundação superficial foi a opção que apresentou maior custo em
relação às demais. A diferença entre os valores é significativa, equivalendo a 2,08 vezes o
custo total da opção em estaca de maior valor. Repetindo o comportamento demonstrado pela
estaca Hélice Contínua na Figura 4, a mesma manteve o maior custo em relação aos demais
tipos de fundação em estaca. Quando comparada à estaca tipo Strauss, a diferença entre os
valores é pouco representativa, sendo a primeira 2,08% superior a segunda. Porém, analisando
a disponibilidade dos equipamentos e da mão-de-obra especializada para execução do serviço,
enfatizando a taxa de deslocamento, a opção por estacas do tipo Hélice Contínua seria pouco
atrativa, sendo a estaca Pré-moldada de concreto a opção que resultou em menor custo para
fundação. Analisando os gráficos das Figuras 4 e 5, torna-se evidente a influência do valor
dos blocos de coroamento sobre o custo total da opção adotada para estacas.

10. CONCLUSÃO
Para a análise do tipo de fundação a ser executado todos os seus componentes devem ser
avaliados. Assim, não basta definir o tipo de estaca sem considerar a disponibilidade de
equipamentos e mão-de-obra, taxas de mobilização e blocos de coroamento. Os estudos
realizados comprovaram a significativa influência dos itens citados a cima, no custo total da
fundação por estaca. Características do entorno também devem ser avaliadas de maneira
minuciosa, apontando os empecilhos observados. Tendo em vista o tipo de solo em estudo e o
nível elevado do lençol freático, a opção por fundações profundas moldadas “in loco” requer
cuidados executivos. Através de uma análise global dos resultados, bem como uma avaliação
técnica, pode-se concluir que a opção em estaca Pré-moldada de concreto, apresentou menor
custo e melhor desempenho executivo, mediante as características do terreno e avaliação do
entorno, podendo ser considerada a melhor opção técnica e econômica. Finalmente, conclui-
se que algumas características de uma obra podem impor certo tipo de fundação, porém,
outras obras podem permitir uma variedade de soluções. É imprescindível a realização do
programa de investigação do subsolo, que compreende as investigações preliminares,
investigações de projeto e, quando necessário, investigações durante a fase de execução da
obra, seguida da interpretação de seus resultados para orientação do tipo de fundação a ser
executado. Um bom projeto de fundações deve considerar basicamente três aspectos: análise
técnica, econômica e executiva.

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226 p.
UM ESTUDO DE CASO DA APLICAÇÃO DA ANÁLISE BAYESIANA NA
ATUALIZAÇÃO DA RESISTÊNCIA DO SOLO DURANTE A CRAVAÇÃO DE
ESTACAS

Eduardo Vidal Cabral


Universidade do Estado do Rio de Janeiro, engcabral@gmail.com

Bernadete Ragoni Danziger


Departamento de Estruturas e Fundações
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, brdanzig@uerj.br

Marcus Pacheco
Departamento de Estruturas e Fundações
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, marcus_pacheco@terra.com.br

RESUMO
O presente trabalho apresenta uma aplicação de um procedimento de atualização da
resistência do solo durante a cravação (SRD) baseado em registros documentados durante a
execução do estaqueamento. O procedimento é aplicado a um conjunto de estacas pré-
moldadas de concreto armado de um extenso estaqueamento executado na Zona Oeste do Rio
de Janeiro A atualização é procedida através da aplicação dos conceitos da análise Bayesiana,
assumindo que os parâmetros da distribuição probabilística utilizada são variáveis
randômicas. A incerteza dos parâmetros é modelada por distribuições “a priori” e “a
posteriori”. A distribuição “a posteriori” é calculada pela atualização da distribuição “a
priori”, utilizando uma função de máxima verossimilhança, que contém a observação obtida
dos registros de cravação. Os resultados mostram uma qualidade bastante satisfatória da
atualização da resistência no caso das estacas analisadas, podendo ser muito útil na seleção
das estacas a serem submetidas a provas de carga estática ou dinâmica.

1. INTRODUÇÃO
A previsão da capacidade de carga de estacas envolve uma série de incertezas em razão das
variações espaciais das propriedades do solo, limitações da investigação geotécnica,
simplificações nos modelos de cálculo, efeitos do tempo, dificuldades de se obter com
exatidão os carregamentos atuantes nos elementos de fundação, diferenças nos processos
construtivos, entre outras.

O objetivo do trabalho é apresentar uma aplicação de um procedimento de atualização da


resistência do solo durante a cravação de estacas com base em registros documentados durante
a execução. Uma aplicação a um conjunto distinto de estacas foi apresentada recentemente
por Cabral et al (2008).

A atualização da resistência do solo durante a cravação é procedida através da aplicação dos


conceitos da análise Bayesiana, admitindo que os parâmetros da distribuição probabilística
utilizada são variáveis randômicas. Sendo a incerteza dos parâmetros modelada por
distribuições “a priori” e “a posteriori”. A distribuição “a posteriori” é calculada pela
atualização da distribuição “a priori”, utilizando uma função de máxima verossimilhança, que
contém a observação obtida de dados disponíveis através dos registros de cravação.

Esta ferramenta estatística é utilizada para atualizar o valor esperado, bem como a variância,
da distribuição probabilística da resistência oferecida pelo solo durante a cravação de estacas
pré-moldadas. A metodologia é ilustrada na Figura 1, tendo sido utilizada por Guttormsen
(1987) em aplicações a fundações offshore.

a priori
verossimilhança
Função Densidade de
Probabilidade a posteriori

Resistência do solo durante a cravação

Figura 1: Relação entre as distribuições “a priori”, de verossimilhança e “a posteriori” das


resistências do solo durante a cravação, Guttormsen (1987), Lacasse e Goulois (1989),
Lacasse et al. (1991).

A Figura 1 mostra a função densidade de probabilidade da resistência do solo durante a


cravação. O teorema de Bayes permite a obtenção da distribuição “a posteriori” a partir da
estimativa da distribuição “a priori” e da distribuição da função de verossimilhança. As
equações 1 e 2 possibilitam, assim, o cálculo da estimativa do valor esperado e da variância da
resistência atualizada do solo durante a cravação, “a posteriori”, em função do valor esperado
e da variância da estimativa “a priori” e da distribuição probabilística da função de
verossimilhança, Guttormsen (1987).

σ Q2, L. µ QP + σ Q2, P. µ QL
µQ = (1)
σ Q2, L + σ Q2, P

2
σ Q2, L . σ Q2, P
σ = 2,L
Q (2)
σ Q + σ Q2, P

Nas equações (1) e (2) µ Q é o valor esperado da resistência do solo durante a cravação
atualizada, ou seja, obtida “a posteriori”, enquanto µQP e µQL são, respectivamente, o valor
esperado da resistência prevista originalmente (“a priori”) e aquela obtida a partir dos dados
de cravação no campo (função de verossimilhança). O valor de σ Q2 designa a variância da
distribuição atualizada da resistência do solo durante a cravação (“a posteriori”) e σ Q2, P e σ Q2, L
são, respectivamente, as variâncias da distribuição prevista originalmente, pelos ensaios de
campo, “a priori”, e a partir dos registros de cravação (pela função de verossimilhança).

Guttormsen (1987) ressalta que a metodologia de atualização de Bayes permite que um


julgamento subjetivo, baseado em cálculos realizados “a priori”, sejam combinados com
observações objetivas (função de verossimilhança), como, por exemplo, os registros obtidos
por ocasião da cravação, resultando numa estimativa atualizada da resistência do solo
oferecida durante a cravação. Guttormsen (1987) também comenta que este procedimento
auxilia o engenheiro na organização, avaliação e acúmulo da experiência fornecida pelos
registros de cravação, além de prover elementos para decisões in-situ quanto ao desempenho
das estacas.

Um detalhamento mais extenso da teoria de Bayes pode ser encontrado em livros de


estatística, como Ang e Tang (1984).

2. ESTIMATIVA DA DISTRIBUIÇÃO A PRIORI

A resistência mobilizada durante a cravação de uma estaca difere da resistência calculada


pelos métodos estáticos, embora seja procedida de forma semelhante. A resistência
mobilizada durante a cravação, conhecida como SRD, “soil resistance during driving”,
(Toolan e Fox 1977, Stevens et al 1982, Semple a Gemeinhardt 1981), é que deve ser
relacionada ao número de golpes por penetração numa análise pela equação da onda. A
resistência durante a cravação é a soma das forças de resistência mobilizadas ao longo do
fuste e na ponta da estaca. A parcela da resistência de ponta é estimada através do produto da
resistência unitária mobilizada na ponta pela área da base da estaca ao passo que o atrito
lateral é obtido pela soma das parcelas obtidas pela multiplicação do atrito médio mobilizado
durante a cravação em cada uma das camadas pela área da superfície de embutimento da
estaca na camada considerada.

Diversas metodologias de cálculo são disponíveis para a determinação do atrito lateral


unitário e da resistência unitária de ponta oferecidos pelo solo durante a cravação, sendo mais
aplicados na engenharia offshore aqueles derivados da API (American Petroleum Institute) ou
do método conhecido como CPT (De Ruiter e Beringen, 1979; Toolan e Fox, 1977). Estes
métodos são derivados da experiência offshore, embora os autores não façam restrição à sua
utilização em estacas em terra.

No presente trabalho, procurou-se adaptar algumas das considerações empregadas na


estimativa da resistência à cravação das estacas offshore ao método de Decourt e Quaresma
(1978), utilizado amplamente no Brasil para a estimativa da capacidade de carga estática,
numa condição a longo prazo. Procurou-se prever a resistência por ocasião da cravação, com a
redução das resistências unitárias de atrito, nas camadas argilosas de comportamento não
drenado com base em correlações com ensaios Vane, bem como com a adoção dos mesmos
limites de resistência unitária de ponta e atrito utilizados na prática offshore.

Com base na variabilidade do valor de NSPT, foram desenvolvidas expressões que determinam
o valor esperado e a variância do atrito lateral unitário e da resistência de ponta unitária, a
cada metro de profundidade.

As expressões que determinam o valor esperado e a variância foram desenvolvidas com base
no emprego de métodos probabilísticos aproximados. A formulação utilizada foi a “FOSM”,
first order second moment, na qual são considerados apenas os dois primeiros momentos
probabilísticos das variáveis aleatórias, ou seja, a média e o desvio padrão, admitindo-se uma
distribuição normal para as variáveis.
A Tabela 1 resume os resultados obtidos para a estimativa “a priori” de algumas estacas do
Setor N do embasamento da obra.

Cabe destacar que os maiores coeficientes de variação ocorreram nas estacas com maior
percentual de carga previsto na ponta (71% para a P 137B), enquanto os menores coeficientes
de variação ocorreram nas estacas com maior percentual de carga previsto por atrito (77% de
atrito e 23% de ponta para a P 109D).

Tabela 1: Parâmetros da distribuição “a priori” da resistência do solo durante a cravação.


Estaca Valor esperado µQL Desvio padrão Coeficiente de
(em kN) σQL (em kN) Variação σQL/ µQL
P 109D 2216,11 318,44 (0,14)
P 137B 688,60 544,37 (0,79)
P 170A 702,89 230,26 (0,33)
P 209B 1265,00 584,97 (0,46)
P 210B 1689,89 1034,74 (0,61)
P 227D 1024,30 388,49 (0,38)
P 242 1501,59 622,01 (0,41)
P 243C 1501,59 625,50 (0,42)
P C6 1038,72 357,34 (0,34)

A Tabela 2 ilustra, para cada uma das estacas analisadas, a porcentagem de carga na ponta e
os respectivos coeficientes de variação em relação às cargas de ponta e atrito. Para facilitar a
comparação, as estacas foram listadas sequencialmente, da maior para a menor parcela de
carga prevista “a priori” na ponta.

Tabela 2: Comparação entre os coeficientes de variação da parcela de ponta e atrito na


previsão “ a priori”
σQP/ µQP σQP/ µQP σQP/ µQP
Estaca % Ponta
Global Ponta Atrito
P 137B 71 0,79 1,11 0,30
P 210B 71 0,61 0,86 0,30
P 243C 62 0,42 0,67 0,15
P 242 62 0,41 0,67 0,10
P 209B 60 0,46 0,75 0,26
P 227D 56 0,38 0,67 0,15
P 170A 52 0,33 0,63 0,10
P C6 42 0,34 0,78 0,19
P 109D 23 0,14 0,48 0,12

A Tabela 2 ilustra que o coeficiente de variação da carga prevista “a priori” por atrito foi
bastante uniforme, variando na faixa de 0,13 a 0,30, com média de 0,19. Por outro lado, em
relação à carga prevista pela ponta, pode-se observar que a variabilidade foi muito maior. O
coeficiente de variação da carga prevista pela ponta se situa numa faixa ampla, no intervalo de
0,48 a 1,11, com um valor médio igual a 0,74.

3. FUNÇÃO DE VEROSSIMILHANÇA

Os registros obtidos durante a cravação refletem a resistência provável da estaca durante a


instalação (estimativa objetiva), enquanto a resistência estimada antes da cravação (“a priori”)
representa a estimativa “subjetiva”.
O Programa GRLWEAP (2005) foi utilizado para a determinação da função de
verossimilhança, ou seja, para a estimativa da distribuição provável (“objetiva”) da resistência
mobilizada durante a cravação para posterior aplicação do teorema de Bayes, visando a
atualização desta resistência.

A aplicação do programa GRLWEAP (2005), que simula a cravação da estaca através da


equação da onda, necessita de parâmetros de entrada que apresentam certa incerteza, alguns
deles com um maior impacto nos resultados, merecendo tratamento diferenciado. Outros
parâmetros, de menor relevância, podem ter sua incerteza grupada numa variância única.

Guttormsen (1987) procedeu a um estudo paramétrico utilizando um programa da equação da


onda com o objetivo de auxiliar o usuário na avaliação dos parâmetros cuja incerteza deve ser
tratada separadamente daqueles parâmetros cuja incerteza possa ser grupada numa variância
única.

Guttormsen (1987) procedeu sua análise paramétrica em estacas offshore e verificou que a
eficiência do martelo é uma das fontes de maior incerteza nas previsões de cravabilidade.
Segundo aquele autor, os fabricantes dos martelos geralmente apresentam limites superiores
de eficiência, admitindo que tudo esteja funcionando perfeitamente. Contudo, durante as
cravações offshore, as eficiências podem se situar em patamares significativamente inferiores
aos especificados, face às deficiências na manutenção dos martelos. Se este é o caso das
estacas offshore, nas estacas em terra, objeto do presente estudo, patamares ainda menores de
eficiência podem ser esperados. Guttormsen (1987) sugere que os estudos de cravabilidade de
estacas offshore sejam procedidos com uma faixa de incerteza na eficiência de cerca de 10%.
Neste trabalho, que apresenta resultados preliminares da aplicação do teorema de Bayes à
atualização da resistência mobilizada pelo solo durante a cravação de estacas de diâmetros
bem inferiores, com emprego de martelos a queda livre, utilizou-se o seguinte procedimento
para a definição da eficiência: a eficiência média foi fixada em 60%, associada a uma faixa de
variação de 50 a 70%.

A porcentagem de mobilização do atrito lateral, em relação à resistência total mobilizada


durante a cravação, costuma ser uma variável sensível no estudo da cravabilidade. Na presente
aplicação, procurou-se adotar a mesma porcentagem de atrito correspondente à estimativa do
valor esperado da previsão “a priori”.

As variâncias devidas à incerteza dos demais parâmetros foram incorporadas a uma variância
única, obtida a partir de um coeficiente de variação, denominado por Ω, baseado na
experiência do projetista.

Guttormsen (1987) sugere, assim, que a variância total da estimativa através do estudo pela
equação da onda através do programa GRLWEAP (2005), σ T , seja obtida pela equação (3)
abaixo:
σ T2 = σ H2 + σ L2 (3)

sendo σ H2 a variância relativa à eficiência do martleo e σ L2 àquela devida à incerteza nos


demais parâmetros.

O procedimento proposto por Guttormsen (1987) consiste nos seguintes passos:


i) Executar o programa GRLWEAP (2005) para os parâmetros médios selecionados, incluindo
a eficiência média, obtendo-se a curva esperada de cravabilidade correspondente à energia
disponível do martelo empregado na obra.
ii) Com o número de golpes por penetração obtido dos registros da obra para a estaca em
análise, entra-se no eixo das abcissas da curva de cravabilidade, exemplificada na Figura 2, e
obtém-se, no eixo das ordenadas, o valor esperado da resistência do solo durante a cravação
(SRD).
SR

nº de golpes/penetração
Figura 2: Resistência mobilizada durante a cravação versus número de golpes por penetração.

iii) Executando-se o programa para o limite inferior da faixa de incerteza da eficiência e para
o limite superior da mesma faixa, obtêm-se duas outras curvas de cravabilidade, que
delimitam uma região onde devem se situar as curvas correspondentes à faixa de incerteza
selecionada para a eficiência do martelo.
iv) Entrando-se no eixo das ordenadas com a resistência dinâmica esperada obtida em ii), nas
curvas de cravabilidade correspondentes aos limites superiores e inferiores de eficiência,
obtem-se o limite inferior, n1 , e superior, n2 , do número de golpes por penetração,
exemplificado na Figura 3.
SRD

>eficiência

<eficiência

η1 η2

nº de golpes/penetração

Figura 3: Obtenção dos limites (inferior e superior) do número de golpes por penetração
correspondentes ao valor esperado da resistência mobilizada durante a cravação.
A variância σ H2 em relação ao número de golpes é estimada, então, pela equação (4)
(Guttormsen, 1987):

2
 n1 − n2 
σ H2 =  (4)
 2 

A parcela σ L2 da variância devida às demais incertezas pode ser calculada, ainda segundo o
mesmo autor, como:

σ L2 = ( Ω µ N ) 2 (5)

Nesta equação Ω é o coeficiente de variação relativo à incerteza das demais variáveis,


devendo ser selecionado com base na experiência do projetista, e µ N o valor esperado do
número de golpes. Com base na extensa experiência obtida na análise de diversas obras de
cravação offshore, Guttormsen (1987) sugere a adoção de um coeficiente de variação de 0,10.
Na presente aplicação considerou-se Ω igual a 0,12, face ao menor controle da obra em
relação à situação offshore. Conhecidos os valores de σ H2 e σ L2 , através da aplicação das
expressões anteriores, obtém-se o valor da variânica total, σ T2 , em relação ao número de
golpes por penetração, através da aplicação da equação (3).

Continuando-se o procedimento proposto por Guttormsen (1987), tem-se:

v) Introduzindo-se a faixa de valores do número de golpes no eixo das abscissas, cuja


variância foi calculada a partir da equação (3), valor medido do número de golpes por
penetração menos o desvio padrão e valor medido mais desvio padrão, na curva de
cravabilidade correspondente à eficiência média, obtém-se, finalmente, o limite superior da
resistência mobilizada durante a cravação (valor esperado mais o desvio padrão) e o limite
inferior da resistência mobilizada durante a cravação (valor esperado menos o desvio padrão).
vi) O quadrado do desvio padrão obtido em v) corresponde à variância da resistência
mobilizada durante a cravação, correspondente à distribuição da função de verossimilhança.

A Tabela 3 resume os resultados obtidos para a estimativa dos valores de resistência do solo
durante a cravação obtidos da função de verossimilhança para algumas estacas analisadas.

Tabela 3: Parâmetros da distribuição da função de verossimilhança da resistência do solo


durante a cravação
Valor esperado µQL Desvio padrão Coeficiente de
Estaca
(em kN) σQL (em kN) Variação σQL/ µQL
P 109D 1080,00 133,00 (0,12)
P 137B 660,00 114,00 (0,17)
P 170A 700,00 175,00 (0,11)
P 209B 1275,00 130,00 (0,10)
P 210B 1280,00 205,00 (0,16)
P 227D 860,00 136,00 (0,16)
P 242 1410,00 190,00 (0,13)
P 243C 1550,00 242,00 (0,16)
P C6 1340,00 170,00 (0,13)
4. ESTIMATIVA DA DISTRIBUIÇÃO A POSTERIORI

As equações (1) e (2) indicadas anteriormente permitem que se combine as duas fontes de
informação obtidas nas Tabelas 1 e 3, ou seja, a distribuição “a priori” da resistência do solo
mobilizada durante a cravação, e a distribuição da função de verossimilhança, de forma a se
obter uma previsão “a posteriori”, ou seja, atualizada, da resistência oferecida pelo solo
durante a cravação.

A Tabela 4 resume os resultados encontrados.

Tabela 4: Parâmetros da distribuição “a posteriori” da resistência do solo durante a cravação


Coeficiente de
Valor esperado Desvio padrão
Estaca Variação
µQP (em kN) σQ (em kN)
σ Q/ µ Q
P 109D 1248,75 122,73 (0,10)
P 137B 661,20 111,58 (0,17)
P 170A 701,06 139,33 (0,20)
P 209B 1274,53 126,90 (0,10)
P 210B 1295,48 201,09 (0,16)
P 227D 877,94 128,36 (0,15)
P 242 1417,82 181,71 (0,13)
P 243C 1543,69 225,68 (0,15)
P C6 1284,40 153,51 (0,12)

Cabe observar que a resistência do solo durante a cravação obtida “a posteriori” está sempre
compreendida entre os valores “a priori” e os correspondentes à função de verossimilhança, se
aproximando mais do valor que apresente a menor variância.

Verificou-se, também, que o coeficiente de variação da distribuição “a posteriori” é sempre


menor que o das demais distribuições. Este fato é bastante compreensível, já que a
distribuição à “posteriori” inclui ambas as informações, ou seja, a estimativa “a priori” e a
função de verossimilhança, reduzindo a margem de incerteza da estimativa.

5. AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA ATUALIZAÇÃO

Guttormsen (1987) também ilustra a definição de um indicador de falha, capaz de avaliar a


qualidade do resultado da atualização. Segundo aquele autor, o indicador de falha representa a
diferença entre a estimativa “a priori” e aquela obtida pela função de verossimilhança,
normalizada em relação à soma da variância da estimativa “a priori” e daquela obtida pela
função de verossimilhança. O indicador de falha é definido por:

µ QL − µ QP
D= (6)
(σ Q2, L + σ Q2, P )

Os valores de µQL e µQP são, respectivamente, o valor esperado da resistência durante a


cravação obtida pela função de verossimilhança e pela estimativa “a priori”. Já os valores de
σ QL e σ QP são os desvios padrão, cujos quadrados fornecem as variâncias, respectivamente da
distrinbuição de verossimilhança e da distribuição “a priori”.
Guttormsen (1987) ressalta que:

(i) um valor de D igual a zero indica que a estimativa “a priori” e a obtida da função de
verossimilhança são iguais. A atualização, neste caso, somente influenciará (reduzirá) a
estimativa “a posteriori” da variância.
(ii) um pequeno valor de D (menor que ± 1,5) indica uma atualização satisfatória da
resistência oferecida durante a cravação.
(iii) um valor positivo de D indica que a estimativa “a posteriori” será superior àquela obtida
“a priori”.
(iv) um valor negativo de D indica que a estimativa “a posteriori” será inferior àquela obtida
“a priori”.

A Tabela 5 ilustra os resultados obtidos do indicador de falha para as estacas analisadas.

Tabela 5: Verificação da qualidade da atualização.


Estaca Indicador de falha (D)
P 109D -3,29
P 137B -0,05
P 170A -0,01
P 209B 0,02
P 210B -0,39
P 227D -0,40
P 242 -0,14
P 243C 0,07
P C6 0,76

A Tabela 5 mostra que, para todas as estacas analisadas, exceto a estaca P-190D, a qualidade
da atualização foi satisfatória. No caso da estaca P 190D, o valor elevado do indicador de
falha, superior a 1,5, sugere que a estimativa “a priori” e a função de verossimilhança
apresentam estimativas contraditórias.

A razão desta discrepância, segundo reporta Guttormsen (1987) nas análises que o autor
realizou em uma série de estacas offshore, deve ser investigada em termos do perfil de solo
representativo, parâmetros utilizados no programa GRLWEAP (2005) e incertezas no método
de previsão da resistência “a priori”.

6. CONCLUSÕES

Uma aplicação de um procedimento de atualização da capacidade de carga de estacas com


base em registros documentados durante a execução foi adaptado a estacas em terra, a partir
da experiência acumulada na aplicação a estacas offshore.

A atualização é procedida através da aplicação dos conceitos da análise Bayesiana, admitindo


que os parâmetros da distribuição probabilística utilizada são variáveis randômicas. A
incerteza dos parâmetros é modelada por distribuições “a priori” e “a posteriori”. A
distribuição “a posteriori” é calculada pela atualização da distribuição “a priori”, utilizando
uma função de máxima verossimilhança, que contém a observação obtida de dados
disponíveis através dos registros de cravação.
Uma série de adaptações ao método de Decourt e Quaresma (1978) foi necessária para se
proceder a estimativa “a priori” da resistência por ocasião da cravação. O detalhamento destes
procedimentos foi desenvolvido por Cabral (2008).

O trabalho objetivou mostrar resultados preliminares do procedimento aplicado a um conjunto


de estacas de um determinado setor de um extenso estaqueamento executado na Zona Oste do
Rio de Janeiro.

Os resultados encontrados mostram uma qualidade bastante satisfatória da atualização da


resistência no caso das estacas analisadas, vislumbrando a aplicação do procedimento também
em obras correntes. Em particular, este procedimento poderá ser muito útil na seleção das
estacas a serem investigadas através de provas de carga estática ou dinâmica.

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Part 1, Vol.1, pp. 221-243, Londres.
Uma Nova Visão Metodológica do Ensino de Desenho Técnico na Engenharia Civil

Anderson Roges Teixeira Góes


Departamento de Desenho
Universidade Federal do Paraná – UFPR
artgoes@ufpr.br
Adriana Augusta Benigno dos Santos Luz
Departamento de Desenho
Universidade Federal do Paraná – UFPR
driu@ufpr.br

Resumo
O novo significado da formação profissional do Engenheiro Civil, passando a ser entendido através da
construção do conhecimento solidificado de forma dialética e, ainda proporcionando aos acadêmicos
experiências que os levem a refletir sobre a área de aplicação profissional. Nossas reflexões estão no âmbito do
que concerne ao ensino do Desenho Técnico, nos levando a desenvolver uma metodologia que destaque a
importância de resgatar o ensino desta disciplina, como um instrumento facilitador na construção do
conhecimento, firmando-se através da utilização de recursos que geram possibilidades de novos caminhos para a
aprendizagem, diferente da didática tradicional, facilitando o aprendizado da disciplina no curso de Engenharia
Civil. Isto posto, estaremos reestruturando o ensino do Desenho Técnico, criando uma nova perspectiva na
formação dos futuros profissionais na área. Sintonizados com nova visão de mundo, expressa em um novo
paradigma de sociedade e formação profissional, garantindo ao acadêmico uma formação global e crítica como
sujeito de transformação da realidade, capacitando-o para o exercício da cidadania, como resposta para os
grandes problemas contemporâneos.

1. Introdução
A importância de resgatar o ensino do Desenho Técnico, como um instrumento
facilitador na construção do conhecimento, firmou-se através da compreensão da necessidade
de (re) introduzir no processo ensino-aprendizagem o princípio de que toda a morfogênese do
conhecimento tem algo a ver com a experiência criativa e compartilhada. Um trabalho
possível de construção coletiva, de conhecimentos e atitudes, delineou-se de modo desafiador,
levando-nos à criação de uma metodologia que propiciasse o desenvolvimento de trabalhos
em que a teoria e a prática caminhassem juntas e não somente se limitassem a problemas
resolvidos em sala de aula. Adotou-se uma tomada de posição no que concerne à metodologia
do ensino, diferente da didática tradicional do método único, utilizando o ensino do desenho
como um instrumento facilitador do aprendizado, criando possibilidades reais inseridas nos
contextos individuais de cada um dos educandos.
A metodologia trabalhada propôs a utilização de recursos que geram possibilidades de
novos caminhos para a aprendizagem, reestruturando o ensino do Desenho Técnico através da
construção do conhecimento solidificado de forma dialética. Assim, surge um novo
significado para a formação profissional do futuro Engenheiro Civil.
Pretendeu-se com este trabalho proporcionar ao acadêmico experiências que o levasse
a refletir sobre sua área profissional, principalmente no que concerne ao ensino do Desenho
Técnico e suas diversas aplicações, tanto no campo profissional como durante a formação
acadêmica da Engenharia Civil. Propomos atividades que ajudam o professor a abordar
assuntos da disciplina de Desenho Técnico com temas e elementos relacionados à realidade
dos acadêmicos de Engenharia Civil, além de sugerir projeto a ser aplicado durante o decorrer
da disciplina.

2. Revisão Bibliográfica
Dentre os diversos problemas enfrentados pelas universidades no que se refere à
formação acadêmica e profissional, um dos principais é a fragmentação curricular. As
disciplinas básicas são desvinculadas das profissionalizantes, pois são ofertadas por
departamentos que pertencerem a outros setores com visões distintas da formação em
Engenharia Civil. Este fator, segundo Luz (2004), gera uma descontinuidade do aprendizado,
tornando os conteúdos ministrados vazios, sem aplicação na prática profissional e sem
nenhuma ligação com as disciplinas profissionalizantes.
A autora acima continua afirmando que a descontinuidade leva ao desinteresse, ao
desestímulo por parte dos acadêmicos que passam pelo curso sem saber para que servem as
disciplinas básicas e onde deveriam aplicá-las. Isto causa sérios problemas na vida acadêmica
dos estudantes, como se comprova nas seguintes considerações de coordenação de curso:

Os acadêmicos cursando o ciclo básico declaram-se desligados da profissão, o que,


somando-se às constantes reprovações nas disciplinas leva cerca de boa parte destes a
abandonarem o curso nesta fase. Além das desistências, as reprovações nas disciplinas de
formação básica implicam em disputas de vagas para cursá-las, competindo os repetentes
com 132 novos acadêmicos de cada entrada. A coincidência de horários entre as disciplinas
de seu período e as atrasadas, a falta de vagas em algumas delas e o conseqüente
desestímulo, retém o acadêmico nesta fase, levando-o ao baixo rendimento e em casos
extremos à desistência e abandono do curso. (UFPR, 1999).

Para Bernstein (1986), o modelo curricular ainda hoje adotado em nossas


universidades é o chamado currículo coleção. Neste modelo curricular o conhecimento está
organizado para um ensino em profundidade vertical, em que a especialização vai
aumentando à medida que o acadêmico vai avançando na sua escolarização. O autor explica
esse modelo nas seguintes palavras:

No currículo coleção, os conteúdos mantêm relações fechadas entre si e o “mistério” do


assunto é revelado muito tarde, exigindo uma longa iniciação, muitos anos de estudo. O
conhecimento torna-se sagrado, somente acessível a alguns. Ele é propriedade privada de
poucos. Aqueles que o “professam” são detentores de um monopólio, de um capital cultural.
A avaliação, por exemplo, ensina a subserviência e a passividade do acadêmico frente ao
conhecimento; cria o habitus da submissão; (BERNSTEIN, 1986, p. 20-21).

Infelizmente, as palavras acima traduzem a real situação da grande maioria dos


acadêmicos. Na tentativa de mudar os panoramas críticos, apresentados anteriormente, é que
desenvolvemos este trabalho, buscando as relações entre a disciplina básica de Desenho
Técnico e outras, como por exemplo, a disciplina de Projetos Arquitetônicos, que faz parte da
formação profissional, melhorando consideravelmente a vida acadêmica dos estudantes.
Neste contexto a disciplina de Desenho Técnico é um instrumento de percepção e
compreensão da realidade, onde os acadêmicos estarão desenvolvendo sua capacidade de
percepção do mundo visuoespacial e das representações e, ainda, de realizar transformações
nas próprias percepções iniciais.

3. O Desenho Técnico
O Desenho Técnico é considerado expressão gráfica coordenada, não permite tanta
variedade na representação de qualquer objeto, deve ser apresentado sempre da mesma
maneira, seja por um único desenhista, ou por vários. Por ser uma linguagem gráfica, onde
objetos tridimensionais são representados no plano, exige-se o treinamento de quem vai
interpretá-los.
O desenho representado na figura 01, para leigos nessa modalidade de linguagem,
representa apenas três losangos. No entanto, para quem conhece a linguagem gráfica do
Desenho Técnico, a figura representa um hexaedro (cubo) em perspectiva isométrica. Assim,
para se interpretar um desenho técnico é necessário mais que saber as normas desta linguagem
de comunicação é necessário também desenvolver a visão espacial, permitindo o
entendimento de formas espaciais sem estar vendo fisicamente os objetos.

Figura 01: Hexaedro (Cubo)

Conforme ZACHARIAS (2003) uma das Sete inteligências da Teoria das Inteligências
Múltiplas de Gardner é a inteligência visual-espacial. Esta inteligência é a habilidade para
visualizar objetos e dimensões, de formar modelos mentais e utilizá-lo para orientar e
organizar elementos visuais de forma harmônica e estabelecendo relações estéticas entre eles.
Alguns indivíduos conseguem desenvolver esta inteligência mais facilmente, conseguindo
visualizar com maior habilidade representações bidimensionais de figuras espaciais. "A
habilidade de percepção das formas espaciais a partir das figuras planas pode ser desenvolvida
a partir de exercícios progressivos e sistematizados". (RIBEIRO, PERES e IZIDORO, 2003)

4. O Desenho e o Engenheiro
Um dos instrumentos para a comunicação do Engenheiro é o desenho, e se
fundamentado nas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) fará que
seus projetos sejam compreendidos por aqueles que deverão aprová-los, construí-los, operá-
los ou mantê-los. O mais importante para um engenheiro não é saber desenhar com total
precisão, mais sim visualizar todo o sistema e conseguir ser claro na explanação de suas idéias
através, ao menos, de esboços. (GÓES, 2003)

Figura 02: Esboço

Ao examinar um projeto de engenharia nota-se a real importância do desenho como


comunicação na vida do engenheiro, percebe-se que constam esquemas, plantas, esboços,
vistas, perspectivas, cortes, cotas, entre outros.

5. Sugestões de Ensino do Desenho Técnico para o Curso de Engenharia Civil


Ao analisarmos os conteúdos trabalhados nessa disciplina em várias Universidades,
inclusive no Instituto Superior Técnico - Lisboa/Portugal, observamos que os tópicos comuns
destes programas são: a importância do desenho como linguagem de comunicação; os
instrumentos de desenho e seu manejo; construções geométricas usuais; normas técnicas, no
Brasil, normas da ABNT (cotagem, escalas numéricas e gráficas, linhas, caligrafia, formatos
de papel, legenda e outros); vistas ortogonais; perspectivas isométrica, cavaleira e cônica; e
cortes.
Mas como ensinar esses conteúdos?
Muitos professores julgam que as peças mecânicas são as únicas peças didáticas para
se aplicar o Desenho Técnico, visto que as normas técnicas da ABNT, que são embasadas nas
ISO, são somente aplicadas sobre elas. Este fato deixa os acadêmicos insatisfeitos com essa
teoria, pois não vêm sua aplicação na formação profissional. O problema não está em utilizar
estas peças, pois se sabe que são interessantes para despertar a visão espacial dos acadêmicos,
mas sim em utilizar somente elas. Por que não trazer peças relacionadas à futura profissão?
Por que não denominar um cilindro de coluna circular? Ou um paralelepípedo de muro?
Assim as formas geométricas abordadas estarão mais próximas do acadêmico e despertando
seu interesse. (GÓES, 2003)
NEIZEL (1974) nos mostra diversas sugestões para o ensino dos tópicos acima em
cursos relacionados com a Construção Civil. Em entrevista realizada, SCHEER (2003),
professor de Desenho de Construção do Departamento de Construção Civil (DCC) da
Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostrou-se preocupado quanto ao ensino isolado
dos conteúdos, sem que haja um elo entre a teoria e a prática.
Baseado nos autores acima e em nossa experiência como professores da disciplina na
UFPR é que propomos uma metodologia de trabalho para a referida disciplina onde dividimos
o conteúdo em tópicos e trabalhamos cada um deles com exemplos direcionados ao curso,
como segue:

5.1. A importância do desenho como linguagem de comunicação


Para mostrar aos acadêmicos a importância do desenho como linguagem de
comunicação, após as apresentações formais da primeira aula, o professor solicita aos
acadêmicos que formem equipes de três ou quatro acadêmicos para realizar a seguinte
atividade que possui quatro fases.
Na primeira fase o professor distribui folhas de sulfite, lápis e borracha, assim os
acadêmicos devem desenhar a “casa de seus sonhos” (planta baixa).
Na fase seguinte estes devem fazer a descrição escrita desta casa. Assim recolhem-se
os desenhos e a descrição.
Na terceira fase o professor distribui as descrições aos grupos, de tal maneira que
nenhum grupo fique com sua descrição original. Pede-se então que desenhem a casa descrita
na folha.
Na última fase da atividade os acadêmicos comparam os últimos desenhos com os
primeiros e percebem que o desenho, independente da língua, é entendido por todos.
Percebem que a escrita para alguns casos, não basta, mesmo estando descritos na língua
materna os desenhos realizados na 1ª e 3ª fases são totalmente diferentes. Desta forma os
acadêmicos concluem que o Desenho é uma Linguagem de Comunicação universal, mas é
necessário estabelecer algumas normas que serão apresentadas durante o curso de Desenho
Técnico. O resultado desta experiência pode ser verificado na figura 03.
Como a disciplina de Desenho Técnico na maioria das Universidades é ministrada no
primeiro semestre, este trabalho fará que os acadêmicos se conheçam e o professor comece a
conhecer o perfil de sua turma.
“Nossa casa possui um único bloco e cômodos dispostos convencionalmente. A casa é
composta por 4 quartos e mais um quarto de empregada com banheiro, hall, sala de estar, sala
de jantar, cozinha, churrasqueira, área de serviço, 2 banheiros, sala de TV, estúdio, piscina e
garagem. A garagem é para 4 carros e existem áreas livres para a construção de quadras
esportivas.” (transcrição da figura 03)
Figura 03: Desenho 1ª fase (esq.) – Descrição 2ª fase (sup. dir.) – Desenho 3º fase (inf. dir.)

5.2. Escala
Ao perguntar aos acadêmicos “O que é escala? O que conhecem sobre escala?” Muitos
não terão resposta. Mas ao pedir a estes que ampliem ou reduzam um desenho, com certeza os
acadêmicos executarão o solicitado.
Todos sabem o que significa escala, pois nas primeiras séries (ou ciclos) do Ensino
Fundamental, atividades como reduzir e ampliar desenho são desenvolvidas. E por que não
resgatar estas atividades para a aula no ensino superior? O professor poderá levar aos seus
acadêmicos, um desenho como a figura 04 e solicitar que o reduzam e o ampliem.

Figura 04: Casa

A sugestão é que na ampliação as medidas do desenho sejam dobradas, ou seja, o


desenho deve ser realizado em escala 2:1, e na redução as medidas sejam a metade da original
(escala 1:2). Após a atividade, o professor formaliza o conceito de escala e expõe as escalas
existentes (escala numérica e escala gráfica).

5.3. Formatos e Dobras de Papéis


Após a explicação da obtenção dos formatos da série “A”, sugere-se uma atividade
que mostra aos acadêmicos como dobrar estes formatos conforme a norma da ABNT. Com
esta atividade o professor poderá fazer uma avaliação diagnóstica de sua turma, pois o mesmo
percorrerá entre seus acadêmicos para as devidas explicações.
Os acadêmicos deverão construir os formatos A0, A1, A2, A3 e A4 em escala 1:4,
fazendo as marcas de dobra, margem e legenda, e com ajuda do professor ou dos próprios
colegas deverão realizar as dobras conforme as normas da ABNT. Assim cada acadêmico terá
seu modelo de dobras de formatos da série “A”.
Nesta atividade o professor também pode avaliar o traçado de linhas, letra técnica e
posição da legenda.

5.4. Caligrafia Técnica


Este tópico causa um desanimo geral nos acadêmicos, pois muitos professores
solicitam que copiem as letras muitas vezes. Para amenizar este quadro é interessante, após a
explicação da norma da ABNT para caligrafia técnica, pedir aos acadêmicos que façam cópia
de parte de um texto ou artigo (máximo 15 linhas) ao invés de solicitar a estes que executem
“infinitas” vezes o traçado da mesma letra. Pede-se aos acadêmicos que as últimas linhas
sejam transcritas em letras maiúsculas.
Desta forma, a escrita do texto torna-se mais prazerosa, uma vez que o assunto é
relacionado à futura profissão, e o objetivo do professor é alcançado, pois os caracteres que
mais precisam ser treinados com certeza são as que aparecem mais vezes no texto.

5.5. Cotagem
Um dos elementos fundamentais para a execução de um projeto é a cotagem. Mesmo
que o desenho não seja perfeito, mas a cotagem for elaborada corretamente, será possível
executar o projeto.

a) b) c)

d) e) f) g)

Figura 05: Elementos e objetos relacionados à Engenharia Civil – (a) vista superior de muro, (b) corte de tubo
de drenagem, (c) vista frontal de rampa de acesso com escada, (d) planta baixa de ambiente, (e) janela com arco
de circunferência, (f) coluna circular, (g) vista superior de telhado com chaminés circulares.

As normas para cotagem estão disponíveis em vários livros sobre desenho técnico,
além da própria norma da ABNT. Assim sugerimos elementos e objetos relacionados à
Engenharia Civil em forma de exercícios de cotagem.

5.6. Vistas Ortogonais


Um sólido geométrico que lembre uma casa será o material manipulável que ajudará
no entendimento de vistas ortogonais. Com sólido da figura 6 o professor poderá solicitar as
vistas ortogonais aos acadêmicos. Pede-se a estes que deixem sobre a mesa o sólido e não
alterem mais sua posição. Solicita-se que façam esboços do sólido visto de cima (vista
superior), visto de frente (vista frontal), visto dos lados (vista lateral esquerda e vista lateral
direita), visto por trás (vista anterior) e visto por baixo (vista inferior).

Figura 06: Planificação de sólido “casa”.


Após as atividades expõem-se as normas para vistas ortogonais, vistas principais e as
representações quanto aos diedros.
Outras sugestões de “sólidos” para que os acadêmicos executem as vistas principais
estão na figura 07.
a) b) c) d) e) f)

g) h) i) j) l)

Figura 07 – Sólidos relacionados à Engenharia Civil - (a) parede com pilastra de concreto, (b) base com pilastra
e parede, (c) parede com pilar chanfrado, (d) coluna circular com base octogonal, (e) telhado tipo tenda, (f)
telhado com tacaniça, (g) muro, (h) base de parede com pilastra de canto, (i) muro com ressalto de pilastra, (j)
escada com patamar, (l) parede com fundação.

5.7. Perspectivas Isométrica, Cavaleira e Cônica.


Todos sabem esboçar algum objeto em perspectiva. Para mostrar aos acadêmicos
alguns tipos de perspectiva, pode-se utilizar desenhos elaborados pelos mesmos. Para isto
basta no início da aula, antes do conteúdo perspectiva ser exposto, o professor solicitar que
desenhem um objeto qualquer, como por exemplo, uma torre. Perceber-se-á que a maioria
absoluta dos desenhos serão perspectivas, e estas serão perspectivas “cavaleira” (sem a
redução na profundidade do desenho ou com redução incorreta). Assim, o professor poderá
iniciar sua aula mostrando a diferença entre as perspectivas isométrica, cavaleira e cônica.

Figura 08: Torres – Perspectiva isométrica, cavaleira e cônica.

Os sólidos utilizados para exercícios sobre vistas ortográficas poderão ser utilizados
nos exercícios de fixação dos métodos de execução de perspectivas isométrica, cavaleira e
cônica.

5.8. Perspectiva Cônica


Para mostrar o conceito de perspectiva cônica mais importante “retas paralelas se
encontram num mesmo ponto”, que é o chamado ponto de fuga, é interessante realizar a
seguinte atividade:
O professor solicita que cada acadêmico traga à sala de aula uma folha de
transparência. Estes devem formar equipes de três acadêmicos e cada equipe deve ter uma
caneta para retroprojetor (trazida pelo professor ou solicitada aos acadêmicos). Cada equipe
escolherá um ambiente interno ou externo, e estes deverão se posicionar frente ao ambiente.
Dois acadêmicos seguram a folha de transparência enquanto o outro desenha (à mão livre) as
arestas que vê além da folha.
Após a execução dos desenhos estes serão expostos a toda turma, e será mostrado que
as retas que sabemos que são paralelas estão se encontrando num ponto (ponto de fuga).
Assim, o professor formaliza o conceito de perspectiva cônica, realizando as observações
importantes e destacando que a mais comum na Engenharia Civil é de dois pontos de fuga,
utilizada para representar fachadas (ambientes externos), no entanto, existe também a
perspectiva com um ponto de fuga, utilizada para ambientes internos.

5.9. Cortes
O corte mais utilizado na Engenharia Civil é o corte aplicado a projetos arquitetônicos,
como mostra a figura 09. Sugere-se que o professor traga a sala de aula uma maquete que
reproduza a figura.

Figura 09: Plano de corte, perspectiva após plano de corte e planta-baixa.


Fonte: Silva, p. 140,141

6. Sugestão de Projeto Final Da Disciplina de Desenho Técnico para o Curso de


Engenharia Civil
Percebe-se que ao trabalhar os conteúdos totalmente separados, a maioria dos
acadêmicos não relaciona a teoria com a prática, e que muitos deles ao final da disciplina de
Desenho Técnico não sabem “montar” um prancha. Uma forma de tornar os conteúdos
relacionados é a aplicação em projetos, pois os acadêmicos além de rever os conhecimentos
adquiridos, irão se familiarizar com uma área de sua futura profissão.
Uma sugestão para projeto final (o nome é projeto final, mas que deve ser proposto
aos acadêmicos – grupos com quatro a cinco alunos - no começo da disciplina para que
realmente busquem soluções para o desenvolvimento e tragam sugestões para o
aprimoramento do projeto) é a construção do futuro ambiente de trabalho, ou seja, um
escritório de Engenharia Civil. Alguns requisitos mínimos são exigidos, sendo eles: duas
salas, recepção, sala de reuniões, lavabo, copa.
Cada ambiente deve contém os itens mínimos: Salas com mesa para computador
(1,20x0, 60x0, 75m), mesa para escritório (1,20x0, 60x0, 75m), 03 cadeiras, armário (1,10x0,
50x1, 80m), prancheta (1,00x0, 80m), e banco para prancheta; Recepção com mesa para
recepcionista com computador (1,50x0, 60x0, 75m), 01 cadeira, 01 sofá para três pessoas, e
mesa de canto ou centro; Sala de Reuniões com mesa (2,00x1, 20x0, 80m), 06 cadeiras, e
mesa para telefone; Lavabo com pia, e vaso sanitário; e Copa com geladeira ou frigobar, 01
pia (1,20x0, 55x0, 87m), microondas, 01 mesa (1,00x0, 60x0, 75m), e 04 Bancos- altura
0,45m.
Os acadêmicos deverão confeccionar a planta baixa (escala 1:50) deste Escritório,
sendo que a construção total não poderá ultrapassar 80m2. Além da planta baixa, deverão ser
confeccionados: Planta baixa com os desenhos dos móveis - escala 1:25; Planta de situação -
escala 1:100; Planta de localização - escala 1:200; Corte - escala 1:50 - a ser definido pelo
professor; duas elevações - escala 1:50; Perspectiva cavaleira ou isométrica do escritório;
Perspectiva cônica da fachada principal do escritório - escala 1:50.
Como o trabalho deverá ser acompanhado pelo professor desde o começo, os
acadêmicos deverão entregar em papel sulfurize: Prancha 01- Planta baixa com os móveis;
Prancha 02 - Planta baixa, planta de localização e planta de situação; Prancha 03 – Corte e
elevações; e Prancha 04 – Perspectiva cavaleira ou isométrica, e perspectiva cônica.
Deverá ser analisado e avaliado, além da solução para os itens mínimos exigidos,
cotagem, traçados (margens, linhas de corte, contornos), caligrafia técnica, legenda,
distribuição dos desenhos nas pranchas, dobras, criatividade, trabalho escrito (fluxograma de
atividade e cronograma de desenvolvimento do projeto, apresentação do produto:
“Escritório”), e maquete confeccionada em papel cartão ou similar (escala 1:50).

6. Considerações Finais
Para mudar um cenário de crescentes desigualdades, procuramos, desvendar a
decantada “funcionalidade” da realidade universitária, optando por desenvolver uma
metodologia de cunho dialético, procurando desvendar o singular conjunto de contradições
que caracterizam a sociedade e a prática universitária, com o objetivo de resgatar a
importância do ensino do Desenho Técnico como instrumento facilitador da aprendizagem
dos conteúdos das disciplinas curriculares do Curso de Engenharia Civil.
Com o desenrolar desta metodologia, suas aplicações e análise dos seus resultados,
percebemos e utilizamos aqui as afirmações de Luz (2004) de que hoje a melhoria da
qualidade do ensino superior e, conseqüentemente, da melhoria da prática de ensino envolve
muito mais questões como: formação continuada de professores, profissionalidade e novos
paradigmas, relação universidade e processo produtivo, transformação social, dentre outras.
Todas elas, intimamente ligadas, formando uma teia de inter-relações que não podem ser
analisadas separadamente. Portanto, os resultados deste trabalho não advêm somente da
aplicação da metodologia em sala de aula, mas também, de uma mudança de postura e atitude,
no que concerne à educação, fruto desse conjunto de vivências e experiências construídas da
prática diária.
Ao fazermos uma retrospectiva deste estudo no seu âmbito geral, percebemos que
cada etapa apresentada foi, em si mesma, conclusiva e aos poucos definindo e mostrando os
resultados esperados. Buscamos mostrar sugestões, com exemplos de atividades simples, para
o ensino do Desenho Técnico de forma que os acadêmicos absorvam o conhecimento mais
facilmente, uma vez que os temas abordados estão relacionando a teoria com a prática através
de sugestões para trabalhos com materiais manipuláveis.

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