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seguridade social no brasil

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Eliana Lucia Prevedello Rubin

SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL: A (NÃO) EFETIVAÇÃO DO DIREITO Á SAÚDE – UMA ABORDAGEM SÓCIO-JURÍDICA

Santa Maria, junho de 2008

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Eliana Lucia Prevedello Rubin

SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL: A (NÃO) EFETIVAÇÃO DO DIREITO Á SAÚDE – UMA ABORDAGEM SÓCIO-JURÍDICA

Trabalho de monografia apresentado ao Curso de Especialização em Direito do Trabalho e Previdenciário da Faculdade de Direito de Santa Maria – FADISMA para obtenção do Grau de Especialista.

Orientadora: Jane Lucia Wilhew Berwanger

Santa Maria, junho de 2008

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RESUMO

Ao falarmos de Seguridade Social, surge a idéia primária de Previdência Social. Consoante o art. 216 da Constituição Federal de 1988 por Seguridade Social, compreende-se o conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, assegurada mediante políticas sociais, econômicas, ambientais e assistenciais, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Devido a distorções quanto ao seu verdadeiro significado, a Seguridade Social, no Brasil, tem sido alvo de reformas e críticas e assemelha-se a um seguro social. Toda Constituição inserida em um Estado Social e Democrático de Direito é alicerçada nos direitos fundamentais, e a nossa Carta Magna de 1988, não foge a regra. A nova visão e conceito de saúde inserido pelo Texto Constitucional traz à discussão a importância atribuída à saúde como direito social e fundamental de eficácia plena e aplicabilidade imediata, bem como sua difícil efetivação no Brasil. Através das políticas sociais, principalmente do SUS, busca-se a efetivação deste direito prestacional. Percebe-se que a realidade brasileira está distanciada, na área da saúde, do que preconiza o Texto Constitucional. Os fatores desse distanciamento passam pela falta de vontade e comprometimento de alguns administradores, até a escassez de recursos financeiros. Palavras-chaves: seguridade social – direitos sociais – saúde – efetivação - políticas sociais

it is the integrated set of actions of the initiative of Public Powers and society. to ensure the rights to health. assured by social. and its difficult realization in Brazil. is far from the recommended by the constitutional text. of full effectiveness and immediate applicability. has been the target of criticism and reform and has characteristics of an insurance social. Of course. 216 of the Federal Constitution of 1988 by Social Security.social policies . economic. the Social Security in Brazil. Through social policies. The causes of this distance ranging from the lack of will and commitment of some administrators. environmental and welfare. no exception to rule.4 ABSTRACT When we talk about Social Security. the idea is the first of Welfare. in health. seeks to making realizable this right prestacional. especially the SUS. Entire Constitution inserted in a Democratic and Social State of Law is founded on fundamental rights.health . Due to of distortions his true meaning. According to art. welfare and social assistance.social rights . The new concept of health inserted by the Constitutional text discusses the importance of health as a fundamental right and social. Keywords: social security .realization . the Brazilian reality. and our Magna Carta of 1988. up to scarcity of financial resources.

Contribuição Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira DJ – Diário da Justiça Fls.Número OIT – Organização Internacional do Trabalho OMS – Organização Mundial da Saúde PEC – Proposta de emenda à Constituição .Folhas FUNABEM – Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural INAMPS – Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social INPS – Instituto Nacional de Previdência Social INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social LBA – Liga Brasileira de Assistência LOAS.Lei Orgânica de Assistência Social LOPS – Lei Orgânica da Previdência Social Min. – Artigo CAPs – Caixas de Aposentadoria e Pensão CEME. – Ministro MPAS..Central de Medicamentos CF/88 – Constituição Federal de 1988 CLPS – Consolidação das Leis da Previdência Social CPMF .Ministério da Previdência e Assistência Social Nº .5 LISTA DE ABREVITURAS E SIGLAS AG – Agravo Art.

– Relator SINPAS.6 RDT – Revista de Direito do Trabalho RE – AgR – Recurso Extraordinário – Agravo Regimental Rel.Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social STF – Supremo Tribunal Federal SUS – Sistema Único de Saúde TJRS – Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul .

..............................................39 3.......1 Seguridade Social: Diversidade de Interpretações.................................................46 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................................................................................3 Evolução da Seguridade Social no Brasil ......2 Saúde e Dignidade Humana..................................1 Aplicabilidade Imediata e a Eficácia Plena dos Direitos Fundamentais ............................................................... 26 2.....................................................................................3 A Possibilidade de Efetivação do Direito à Saúde no Brasil sob o Enfoque da CF/88 e da Lei nº 8080/90 .....................................................56 REFERÊNCIAS........................32 3 POLÍTICA SOCIAIS E EFETIVAÇÃO DE DIREITOS PRESTACIONAIS............................................................................................................ 8 1 A EVOLUÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL ................................................................................20 2 BREVE ENFOQUE SOBRE DIREITOS FUNDAMENTAIS ............4 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS............................................11 1..39 3.......................................................................................................3 ABSTRACT............................7 SUMÁRIO RESUMO ..................................................................................................................................................................................................................2 Evolução da Seguridade Social no Mundo ................................1 Saúde como um Direito Fundamental Social ......................................................................................................................................60 .......................................................................................................................................... 11 1................................. 5 INTRODUÇÃO.....16 1.................................................. ....................... 43 3...................

Todos devem ter o direito aos benefícios que ela distribui e o dever de contribuir para manter a solidariedade entre gerações. assegurada mediante políticas sociais. compreende-se “o conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade. Foi esse o ideário que orientou as políticas sociais após a Segunda Guerra Mundial nos países mais desenvolvidos e transformando àquelas sociedades em Estados de Bem-Estar Social. No entanto não foi a Carta Magna que decretou o surgimento da Seguridade Social. ambientais e assistênciais. Importa consignar que esse resultado foi conseqüência de uma atitude deliberada das sociedades através do apoio à intervenção do Estado. ou . à previdência e à assistência social”.8 SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL: A (NÃO) EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE – UMA ABORDAGEM SÓCIO-JURÍDICA INTRODUÇÃO Ao falarmos de Seguridade social. idéia limitada. por Seguridade Social. O termo vem sendo utilizado desde 1935 nos Estados Unidos e desde a década de 1940 nos países capitalistas da Europa. designando um conjunto variável de programas e serviços sociais. 194 da Constituição Federal de 1988. Consoante o art. Mesmo recentemente adotado no Brasil. surge a idéia primária de Previdência Social. destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. econômicas. Foi essa a base sobre a qual se assentou o desenvolvimento econômico e social das sociedades mais evoluídas.

reduzindo a possibilidade de sua institucionalização. externando uma perspectiva hermenêutica adequada do texto constitucional. fazendo com que os dispositivos constitucionais que o permeiam. ao tratar a previdência como política isolada. de modo que se diminua a complexidade do tema. Busca-se uma abordagem clara e concisa. o termo "Seguridade Social" permanece marcado pela imprecisão conceitual (VIANNA. propondo assim. introduzindo um novo conceito. O objetivo deste estudo é externar toda relevância da Seguridade Social na sociedade. estas reformas tendem a minar e destruir as bases conceituais e financeiras da seguridade social. Destarte. buscando a racionalização do problema. Cabe lembrar que. XX. saúde e assistência. a reorganização das políticas que passaram a compor a Seguridade Social: a previdência. a seguridade social assemelha-se a um seguro previdenciário e não é analisada sob seu amplo significado. a Seguridade Social tem sido alvo de reformas. No Brasil. 1998).9 como prática consolidada em outros países. em nosso país. fato que corrobora para que sua efetivação torna-se cada vez mais distante e utópica. a ampliação do conceito de Seguridade Social surgiu com a Constituição de 1988. principalmente no que diz respeito à área da previdência social. . A CF/88 tentou abarcar todas as políticas sociais desde o início do séc. Devido às distorções quanto ao seu significado. demonstrando que a necessidade de reformas ocorre devido a não implementação do Projeto de Proteção preconizado na Carta Máxima Brasileira. sejam interpretados de forma sistemática. Justificam-se reformas devido a um suposto déficit entre receita e despesa desta política social.

algumas confusões conceituais existentes em torno do termo Seguridade Social. pois estas incorrem em confusão e limitação da sua compreensão como previdência. especialmente o SUS.10 Discutem-se inicialmente. tem o condão de efetivar o acesso ao direito à saúde no país. se. . finalmente. as políticas sociais e econômicas. sustentar que o debate sobre a previdência desconsidera o sistema da qual esta política faz parte – implicando primeiramente. especificamente o direito à saúde. desconsiderando tanto a importância como o sentido do sistema de proteção social idealizado no Brasil. na fragmentação e inaplicabilidade do projeto de proteção social projetado pela Constituição de 1988. busca-se dar ênfase à importância constitucional atribuída à Seguridade Social. portanto. enquanto geradora de direitos e garantias sociais no Brasil. abordando-se que a não implementação do projeto de Seguridade Social. Pretendo. Num segundo momento. e por último na redução da proteção social (crise do estado de bem-estar social) implicando na não-efetivação de nossos direitos sociais. Questiona-se. com este estudo. implicará na redução de nosso sistema de proteção social e conseqüente não efetivação de direitos sociais no país.

política social. moral e recreativo". bem como o Sozialstaat (alemão) apresentam distinção no significado do termo seguridade social. ela não possui um significado específico. vez que a tradução pura e simples resulta confusão. Já no Dicionário Eletrônico Houaiss (versão 1. Que características possui então esta política social? Confunde-se seguridade com seguro. Cada uma das nações citadas elaborou seu conceito para designar determinadas formas de intervenção estatal na área social e econômica e muitas vezes. mas restrita às ações incluídas na Constituição de 1988. abrangendo toda a população. cultural. O termo "seguridade". EtatProvidence (francês). que integradas. estes conceitos foram incorporados ou traduzidos sem o devido cuidado na sua precisão. Torna-se inevitável questionar até que ponto. asseguram a saúde. que passou a integrar os Dicionários de Língua Portuguesa a partir de 1988 (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa -versão eletrônica 3. a precisão do termo seguridade social. social. há uma idéia de universalidade. sob os aspectos econômico. esta se refletindo ou explicando a realidade brasileira? .0). sendo o "Conjunto de medidas. Estado de Bem-Estar Social ou Estado de Providência? Todas as terminações remetem-se ao mesmo fenômeno. além de implicar uma suposta previdência de caráter mais amplo: "Previdência social em moldes mais amplos. welfare state. a previdência e a assistência social". ao utilizar a expressão traduzida de outro idioma. está ligado a idéia de segurança.1 Seguridade Social: Diversidade de Interpretações No que tange a Seguridade Social. tanto o conceito Welfare State (anglo saxão).0). pode-se afirmar que no Brasil. Conjunto de ações dos poderes públicos e da sociedade.11 1 A EVOLUÇÃO DA PROTEÇÃO SOCIAL 1. ou cada um possui significação particular? É de suma importância. normas e leis que visam a proporcionar ao corpo social e a cada indivíduo o maior grau possível de garantia. Percebe-se que. distinguindo-o dos demais. providências.

Economicamente. 23). ampliam este conceito ao agregarem. p. Diante da afirmação. mas não são as únicas.. é freqüentemente designada como seguro social. b) a utilização e definição de um conceito é simplesmente resultado de uma "opção" do pesquisador ou deve procurar expressar a totalidade do real? O Estado do bem-estar social (. 1995. Exemplo desta última possibilidade é o trabalho de Marques (1997. entre outras.. Politicamente. p. . o principal objeto de ação do Estado em matéria de proteção social (MARQUES. uma das expressões mais utilizadas a partir de meados do século XX. solidariedade e justiça social. de modo impreciso. a defesa das idéias de justiça social.. seja para designar todo e qualquer tipo de política social implementada.23). moral e política.) um conjunto de políticas sociais desenvolvido pelo Estado no intuito de prover a cobertura dos riscos advindos da invalidez. na maioria dos países. do acidente de trabalho e do desemprego". é utilizado. contra o duplo perigo do fascismo e do bolchevismo (ESPING-ANDERSEN. como áreas de atuação do 'welfare'. Nesta definição o welfare state é reduzido à política que no Brasil denominamos previdência e que.) representou um esforço de reconstrução econômica. tais como Wilensky. p. tanto do ponto de vista do volume de recursos envolvidos como das políticas desenvolvidas. da doença. por exemplo. 1997. de modo que esta perspectiva restringe o escopo da proteção social.. seja para reduzir seu escopo à esfera de políticas específicas. em favor da exigência de extensão da segurança do emprego e dos ganhos como direitos de cidadania. Preferiu-se usar a definição restrita porque. solidariedade e universalismo. a habitação e a educação. são possíveis duas observações: a) as políticas de substituição de renda e a atenção à saúde podem ser os pilares do welfare state. Alguns autores. significou um abandono da ortodoxia da pura lógica do mercado. para designar o "conjunto" de políticas sociais baseadas no modelo fordista-keynesiano. as políticas de renda de substituição e de cuidados com a saúde são consideradas. quando define welfare state como "(.12 O termo welfare state. a democracia liberal. moralmente. o Welfare state foi parte de um projeto de construção nacional.73). na Europa. da velhice. muitas vezes.

velhice e desemprego”. engloba aposentadorias e pensões. ao Estado. onde este busca a distribuição de renda e fontes financeiras para realização de seus supostos deveres ( ESPING-ANDERSEN. regulamentação econômica em quase todos os níveis e intervenção. 1995. com “prestações uniformes a todos”. O Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social. “cujas prestações dependem do montante e do tempo de contribuição do segurado. habitação e Seguridade Social que. este país não instituiu um sistema de Seguridade Social universal. quase todos tinham planos para atender acidentes no trabalho e moléstias industriais. 81) foram iniciados sob a ótica privada e destinados a reduzidas categorias profissionais e se espalharam no final do século XIX e início do século XX.13 O chamado Estado do Bem-estar Social foi o tipo de organização política e econômica que colocou o Estado (país) como agente da promoção (protetor e defensor) social e organizador da economia. p. política e econômica do país em parceria com sindicatos e empresas privadas. 4). pouquíssimos possuíam “seguro obrigatório contra o desemprego e cobriam situações de riscos como doença. . na Alemanha a expressão Sozialstaat (Estado Social) é utilizada para designar o conjunto de políticas de proteção social que inclui os seguros sociais. mas não se restringe a eles. entre países da Europa. O Sozialstaat assegura educação universal. p. de acordo com a nação em questão. Os seguros. saúde. Os regimes de seguros sociais obrigatórios. deixam entre 1 e 5% da população excluída do acesso a um dos regimes existentes” (DUMONT. por sua vez. 1995). outros. a responsabilidade da cobrança e administração dos impostos. seguro acidente de trabalho e auxílios familiares. organizados por categoria profissional. Segundo Kott (1995). Américas e Australásia. se necessário for. alguma forma de aposentadoria contributiva”. Cabe ainda. Ásia. conforme aponta Marshall (1967. Esta modalidade de proteção social demonstrou não possuir caráter universal e nem recebia a designação de welfare state. em níveis diferentes. Alguns países possuem “seguro compulsório contra doença. Cabe ao Estado do bem-estar social garantir serviços públicos e proteção à população. Apesar da significação. o que revela a impropriedade de “restringir o conceito welfare state às prestações de substituição de renda sob a forma de seguros sociais”.

mas não se confunde com ele. habitação. como educação. a manutenção do pleno emprego. O conceito Seguridade Social integra o welfare state. 113). Por outro lado. parece-me. segundo Mishra (1995). emprego e assistência aos velhos. na minha opinião. que provocou mudanças significativas no âmbito dos seguros sociais até então predominantes. constata-se que a expressão welfare state surge e se generaliza a partir de sua utilização na Inglaterra na década de 1940. A 'política social'. Portanto.. e um conjunto de serviços sociais pessoais. Apesar das "armadilhas" na tradução dos conceitos. utilizar o termo 'política social' como quase equivalente a 'Estado-providência'. o serviço nacional de saúde.14 O que parece marcar a emergência do welfare state anglo saxão é justamente a superação da ótica securitária e a incorporação de um conceito ampliado de Seguridade Social. a Seguridade Social também pode apresentar características e .17) define o welfare state como: a introdução e ampliação de serviços sociais onde se inclui a seguridade social. e designa uma configuração específica de políticas sociais. são aqueles apontados no Plano Beveridge: a) responsabilidade estatal na manutenção das condições de vida dos cidadãos. um programa de nacionalização. que não podemos ignorar (MISHRA. enquanto o Estado-Providência tem uma conotação histórica (pós-guerra) e normativa ('institucional') bastante específica..) é de certo modo enganador. Os princípios que estruturam o welfare state. os serviços de educação. p. Nesta linha de raciocínio. p. Johnson (1990. por meio de um conjunto de ações em três direções: regulação da economia de mercado a fim de manter elevado nível de emprego. é um conceito genérico. b) universalidade dos serviços sociais. 1995. não são todas e quaisquer formas de política social que podem ser designadas de welfare state: (. inválidos e crianças. e c) implantação de uma 'rede de segurança" de serviços de assistência. segurança social. prestação pública de serviços sociais universais. assistência médica e habitação.

Segundo Castel (1995. podemos realizar as seguintes afirmações sobre a Seguridade Social: 1) seguridade social não se confunde e não é sinônimo de welfare state. Etat Providence ou Sozialstaat.309) "O desenvolvimento da propriedade social e dos serviços públicos representa assim a realização do programa solidarista contra o individualismo-egoísmo do liberalismo clássico". 3) a precisão conceitual da seguridade social enseja a superação de análises fragmentadas das políticas que a compõem. Diante do exposto. A Seguridade Social francesa atual. assistência médica e auxílios assistenciais.15 abrangência diferenciadas. 2) a seguridade social também não se confunde e nem se restringe ao seguro social ou a previdência (como no Brasil). pensões e salário maternidade) e assistência à família (um conjunto de sete prestações financeiras de apoio familiar). mas é parte integrante. de acordo com as especificidades de cada país. por sua vez. previdência (aposentadorias. p. Compartilhando do entendimento de Dorion & Guionnet (1993). Desse modo. pelo menos três elementos estão presentes: seguros. a Seguridade Social. com benefícios proporcionais à contribuição. podendo limitar-se aos seguros ou incorporar outras áreas. abrange três grandes áreas: saúde (seguro saúde e ações sanitárias e sociais). enquanto a terceira tem caráter misto . ao superar a lógica liberal dos seguros mercantis. afirma-se que as duas primeiras seguem a lógica do seguro contributivo. a compreensão de suas . possui a potencialidade de transmutar-se em "propriedade social" e constituir-se em um dos principais mecanismos de promoção da igualdade e da cidadania. e que a seguridade social é imprescindível para a compreensão da natureza da intervenção social do Estado.

assim como o tipo de financiamento e forma de organização. na Encíclica Rerum Novarum. dentre eles Pereira Netto (2002. por exemplo. como os seguros de vida. posteriormente surgindo a cobertura de riscos de incêndios.2 Evolução da Seguridade Social no Mundo A origem da Seguridade Social no mundo está ligada à própria origem do homem. embora outros visualizam suas origens a períodos da história chinesa. educacional e assistencial a famílias pobres e indigentes. citar como primórdios da previdência as caixas de socorro de natureza mutualista. 33-34). semelhantes aos realizados pelos armadores de navios.16 propriedades e de seu significado na conformação do Estado social pressupõe investigar os elementos que definem o caráter dos direitos. observa-se. visando protegê-lo dos riscos sociais. que no ano de 1344 ocorreu a celebração do primeiro contrato de seguro marítimo. custeado com parte do salário do mesmo. Com tais elementos. 1983). para compreensão da Seguridade Social. a partir do século XVI. Nos pronunciamentos dos pontífices da época. e que a famosa Lei de Amparo aos Pobres (Poor Relief Act). que as corporações profissionais da Idade Média mantinham para os seus. estava aí. as origens da “Previdência Social remetem-se à Roma e Grécia antigas. a Igreja também desempenhou papel importante na ajuda médica. torna-se necessário uma análise de sua gênese e desenvolvimento no mundo e no Brasil. marco da . Consenso entre os doutrinadores. Era a caridade e solidariedade pregadas pela doutrina cristã. nas instituições de cunho mutualista”. No período. Para alguns autores. Cabe lembrar. de Leão XIII (1891). p. a idéia de criação de um sistema de pecúlio ao trabalhador. 1. Quando o homem primitivo se permitiu guardar um pedaço de carne para o dia seguinte. nascendo a previdência ( LEITE.

é o marco da institucionalização do sistema de seguros privados e do mutualismo em entidades administrativas. certa vez – tem importância excepcional: colocou o Estado na posição de órgão prestador de assistência àqueles que – por idade. foi editada em 1601. por força de dogmas religiosos. A assistência oficial e pública. começou. reconhecendo o Estado a sua obrigação de amparar as pessoas que comprovassem necessidade de meios. 2001). fundaram a Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale.. a história da Previdência Social. a demanda por proteção social cresceu o que forçou a Inglaterra a reformular a Lei de Amparo aos Pobres. assinalando o início do movimento cooperativista no mundo (CORRÊA. como concebida na atual Carta Magna. na medida em que não se assegurava a cobertura aos riscos inerentes às atividades profissionais ou econômicas (MARTINS. 2000). do Estado. entre eles ex-empregados de Robert Owen. na Inglaterra. saúde e deficiência congênita ou adquirida – não tenham meios de garantir sua própria subsistência. que a preocupação estatal com a assistência social pública precede a de previdência social. e não apenas aos associados inscritos nas entidades de Previdência Social. p. Surgia a primeira disciplina jurídica de proteção social. . no séc XVIII. no entanto.17 criação da assistência social. vinte e oito tecelões.6): Essa "oficialização da caridade" – como foi dito. que elevaram o desemprego (MALTHUS. Com a Revolução Industrial. 2005). podemos concluir dizendo: naquele momento distante. Dessa forma. Não é por outra razão a afirmação de Russomano (1998. A causa deste aumento de demanda deve-se a invenção da máquina a vapor e do tear mecânico.. [. no sentido de entender os benefícios e serviços da Previdência Social à totalidade dos integrantes da comunidade nacional. na verdade. no princípio do século XVII. de molde a ser a precursora da previdência social como concebida na atualidade. Em 1844. Nota-se. a expensas. pois desvinculou da caridade o auxílio aos necessitados. exclusivamente.] Hoje compreende-se que nesse passo estava implícita a investida de nossa época. prestada através de órgãos especiais do Estado. entre o período de 1832 a 1834.

Em 1911. em 1889. Salienta-se que as leis instituídas por Bismark. independentemente de culpa. caso não pudesse proporcionarlhe a oportunidade de ganhar a vida com um trabalho produtivo. em especial os idosos e desempregados. através de movimentos socialistas fortalecidos com a crise industrial” (RUSSOMANO. onde as constituições passam a cuidar dos direitos sociais. o seguro obrigatório contra acidentes de trabalho. Sobrevém a fase. 1998. conhecida como Constitucionalismo social. A primeira a incluir o seguro social foi a Constituição do México. 123). previdenciários e trabalhistas. cujo objetivo era a concessão de pensões aos maiores de 70 anos. criou-se o Old Age Pensions Act.18 Embora as nações conhecidas como embrionárias da previdência social sejam Inglaterra e França. em 1919 (art. bem como o auxílio-desemprego aos trabalhadores . foi na Alemanha. p. Destinado a ajudar os idosos e a estimular o consumo. Diante da necessidade de resolver a crise econômica que vinha assolando os Estados Unidos. empregados e do Estado (MARTINS. 2005). estabelece-se um sistema compulsório de contribuições sociais. custeado pelos trabalhadores. independentemente de contribuição. seguida da Constituição de Weimar. empregadores e Estado. Em 1908. desde 1929. trabalhadores e empresas. através do Workmen’s Compensation Act. que delegou ao Estado o dever de prover a subsistência do cidadão alemão. através do National Insurance Act. Organizado pelo Estado. em 1897. 163). foi instituído o seguro de invalidez e velhice. que ficavam a cargo do empregador. Franklin Roosevelt instituiu o New Deal. No ano de 1884. as medidas de proteção sob a forma de seguro social só eclodiram no período pós Primeira Grande Guerra. sob a tríplice contribuição: Estado. consolidando o princípio da responsabilidade objetiva da empresa. O empregador era considerado responsável pelo sinistro. que o Chanceler Otto Von Bismark instituiu um verdadeiro sistema de seguro social destinados aos trabalhadores. Surge na Inglaterra. criou-se o seguro de acidente de trabalho. em 1917 (art. possuíam o objetivo de “evitar as tensões sociais existentes entre os trabalhadores. Almejava a luta contra a miséria e a defesa dos mais necessitados. Nos demais continentes. através da doutrina do Estado do bem-estar social (Welfare State). 9/10). excluindo o europeu.

com predominância de custeio estatal. pois tal medida consubstanciava-se no amparo generalizado do cidadão contra riscos sociais em geral. e o bem-estar próprio e da família. tais como a indingência ou incapacidade laborativa.19 desempregados. nos moldes atuais. mediante uma série de medidas públicas contra as privações econômicas e sociais que de outra forma. Inaugura-se a fase da Seguridade Social. 25: Toda pessoa tem o direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe a saúde. conforme preconizado no art. por força de circunstâncias independentes de sua vontade. Com a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Um novo momento surge na Inglaterra. Vislumbra-se a expressão que originou a tão suscitada Seguridade Social. pois vai além da previdência social (ARAÚJO. doença. A segurança social deveria ser prestada do berço ao túmulo (Social security from the cradle to the grave). em sua convenção nº 102 e aprovada em Genebra em 1952: Seguridade Social é a proteção que a sociedade proporciona a seus membros. Com a mesma concepção de proteção a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Doutor pela Universidade de Oxford e Diretor da London School of Economics. O Plano Beveridge apresentou as seguintes características: a) unificar os seguros sociais existentes. velhice ou em qualquer outro caso de perda dos meios de subsistência. à habitação. com o Plano Beveridge (1941). tem direito à segurança no caso de desemprego. c) igualdade de proteção social. invalidez. 2006). reformado em 1946. em 1948. viuvez. a proteção previdenciária. tinha como objetivo constituir um sistema de seguro social que garantisse ao indivíduo proteção diante de certas contingências sociais. foi instituído o Social Security Act. Elaborado por Sir William Beveridge. derivam do desaparecimento ou . d) tríplice forma de custeio. em 1935. à assistência médica e aos serviços sociais necessários. enfatizase entre outros direitos fundamentais da pessoa humana. especialmente no tocante à alimentação. criada em 1919. b) estabelecer a universalidade de proteção social para todos os cidadãos. ao vestuário.

de 1860. e também a proteção em forma de assistência médica e ajuda às famílias com filhos. sendo apenas um reflexo do preceito semelhante contido na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. como a de Santos (1543). c) Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica – 1969). XXXI. dispunha que os empregadores deveriam manter o pagamento dos salários dos empregados por no máximo 03 meses. a qual. A Constituição Imperial de 1824 tratou da proteção social em seu art. velhice. invalidez. 23. Sociais e Culturais (1966). acidente de trabalho ou enfermidade profissional. Referida proteção social reforçada pela lição de Ruy Carlos Machado Alvim "não teve maiores conseqüências práticas. de 1793. foi criado o primeiro Montepio (entidade privada) em nosso país. b) Protocolo de São Salvador (1988). A Constituição de 1891 foi a primeira a contemplar a expressão "aposentadoria". qualificava estes "socorros públicos" como "dívida sagrada" [.. 1. nesta fase de Constitucionalismo social.20 em forte redução de sua subsistência como conseqüência de enfermidade. Surgem as Santas Casas de Misericórdia. desemprego. que em seu art. 179.3 Evolução da Seguridade Social no Brasil No Brasil. no caso de acidentes imprevistos e inculpados. maternidade. a preocupação com a proteção social do indivíduo nasceu com a necessidade de implantação de instituições de seguro social. por fim. de cunho mutualista e particular. mediante a repartição dos encargos com todo o grupo. .711.] (RDT 18/12). Configurou-se em um sistema mutualista.. abordando a importância da constituição dos socorros públicos. inc. Preceituava que os funcionários públicos. João VI (1808) e sociedades beneficentes. o Montepio Geral dos Servidores do Estado (Mongeral). como o da Guarda Pessoal de D. que regulamentou o financiamento de montepios e sociedades de socorros mútuos. o art. Destacam-se. no qual os associados contribuíam para um fundo que garantiria a cobertura de certos riscos. 79. os pactos realizados entre os países na defesa da seguridade social: a) Pacto dos Direitos Econômicos. os Montepios. e o Decreto nº 2. Em 1835. Na mesma linha de proteção outros diplomas legais: o Código Comercial de 1850.

de 24/01/1923. seja porque outras leis previdenciárias são anteriores a esta data (como nossa primeira lei acidentária que data de 1919).682. vinculadas às empresas e de natureza privada. através da Lei nº 5. p. Através deste diploma foram criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPs) para os empregados das empresas ferroviárias.eram assegurados os benefícios de aposentadoria e pensão por morte e assistência médica. instituiu a responsabilidade dos empregadores pelas conseqüências dos acidentes de trabalho (ARAÚJO. a pensão por morte e a assistência médica. Por sua vez. de 15/01/1919. aposentadoria ordinária (similar a aposentadoria por tempo de contribuição). o Decreto Legislativo nº 3.485.109. seja pelos apontamentos. Decreto Legislativo nº 4. a afirmativa relativa ao surgimento da Previdência em 1923. a saber: Tivemos o mutualismo como forma organizatória e como precedente precioso da Previdência Oficial. Os empregados portuários e marítimos tiveram os benefícios da Lei Eloy Chaves reconhecidos a partir do Decreto Legislativo nº 5. de 20/12/1926. uma inverdade histórica. os festejos oficiais que situam na Lei Elói Chaves (1923) o nascimento da Previdência brasileira têm caráter ideológico que deve ser desvendado: buscam transformar as conquistas sociais. enquanto que os empregados das empresas de serviços telegráficos e radiotelegráficos passaram a ter direito aos mesmos benefícios.724. . logradas com lutas e a partir das bases.21). em benesses estatais. Na década de 20 surgem as Caixas de Aposentadorias. contemplando-os com os benefícios de aposentadoria por invalidez. independentemente de nenhuma contribuição para o sistema de seguro social. asseverando que tal marco tem um forte conteúdo ideológico. Existia uma caixa de aposentadoria e pensão por empresa ferroviária. Sobre ser ainda. Este fato é considerado o marco da previdência social no país e não passa imune à crítica de Aníbal Fernandes (2003.21 em caso de invalidez. O custeio estava a cargo das empresas e dos trabalhadores. em 1928. Sob tal prisma. teriam direito à aposentadoria. Foi com a Lei Eloy Chaves. de 30/06/1928. 2006). A primeira Caixa de Aposentadoria criada foi a dos empregados da Great Western do Brasil . que se instituiu em nosso país a previdência social.

a invalidez e a morte. do empregador e do empregado e que deveria garantir a maternidade. Para Martins (2005. mencionava que a previdência social seria custeada através da contribuição da União. Surge a LOPS através do Decreto-Lei nº 72. com o advento da Lei nº 4. os . de 02/03/1963. os institutos ao serem organizados por categorias profissionais passaram a ter uma abrangência nacional. dando ênfase pela primeira vez à expressão "previdência social". auxílio-funeral.22 A década de 30 caracterizou-se pela criação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões – entidades de proteção social que reuniam categorias profissionais. Realidade que se modificou com o Decreto nº 35. No início dos anos 50 a proteção previdenciária se ampliou. p.214. bem como riscos sociais: a doença. à margem dele encontravam-se somente os trabalhadores domésticos e autônomos. Já a Constituição de 1946 aboliu a expressão "seguro social". os quais trouxeram inovações na legislação previdenciária como: criação do salário-família. 2005). de 21/11/1966. Também abordava a obrigatoriedade da instituição do seguro de acidente de trabalho por conta do empregador. A Constituição de 1937 apenas rememorou a expressão "seguro social" ao invés de previdência social em seu texto. o qual uniformizou a legislação sobre a previdência social no País. Na década de 70. empregador e pelo governo”.448. As Caixas de Aposentadorias e Pensões eram organizadas por empresas. Assim. custeada pelo empregado.807. de 01/05/1954. hoje INSS. Com a edição da Lei nº 3. de 26/08/1960. são editados diversos diplomas legais. tais como: auxílio-natalidade. O inciso XVI do artigo 157. houve por parte do governo a centralização da organização previdenciária em seu poder (MARTINS. a velhice. auxílio-reclusão e assistência social. foram unificados os critérios de concessão dos benefícios dos diversos institutos existentes na época e ampliados os benefícios. Foi criado o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL). criando o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS). 33) os IAP‟s valeram-se do modelo italiano” e cada categoria era responsável por um fundo. desta forma. “A contribuição era tríplice.

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empregados domésticos se tornaram segurados obrigatórios e o salário-maternidade passou a constar no rol dos benefícios previdenciários. Diante da diversidade de normas disciplinando a previdência social, houve a necessidade de unificá-las. Para tanto, cria-se o Decreto nº 77.077, de 21.01.1976, resultando na Consolidação das Leis da Previdência Social (CLPS). Intentando a reestruturação da Previdência Social, com a revisão das formas de concessão e manutenção de benefícios e serviços, reorganização da gestão administrativa, financeira e patrimonial, surge em 01/07/1977, através da Lei nº 6.439, o SINPAS (Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social), subordinado ao Ministério da Previdência e Assistência Social.

Com a redação da Carta de 1988, ocorre uma estruturação completa da previdência social, saúde e assistência social. Esses conceitos são unificados no termo "Seguridade Social" (arts. 194 a 204). No ideário de Martins (2003, p.43) Seguridade Social compreende:

Um conjunto de princípios, de regras e de instituições destinado a estabelecer um sistema de proteção social aos indivíduos contra contingências que os impeçam de prover as suas necessidades pessoais básicas e de suas famílias, integrado por ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, visando assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social.

A Seguridade Social é uma técnica moderna de proteção social, que se busca implementar em prol da dignidade da pessoa humana. As suas diversas facetas: a assistência, a saúde e a Previdência Social, devem atuar de forma articulada e integrada, mas percebe-se a existência de uma nítida separação no respectivo campo de atuação extraída do próprio texto constitucional. Enquanto a saúde e a assistência social estão focadas para o atendimento do que se convencionou chamar de mínimos sociais, a previdência social busca "assegurar níveis economicamente mais elevados de subsistência, limitados, porém, a certo valor" (PULINO, 2001, p.33).

Em virtude disso, afirma-se que a existência de regras jurídicas destacadas sobre previdência – sobretudo de origem constitucional – é reveladora de uma estrutura modeladora da previdência social brasileira dotada de "especificidades

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capazes de compor um sistema próprio (um subsistema), um regime jurídicoprevidenciário, dentro da totalidade do sistema de Seguridade Social" (BALERA, 2003 p.14). No tocante a Previdência Social, ainda não se conseguiu afasta-la do regime de seguro social, porquanto tem como pressuposto para a concessão de suas prestações a necessidade de prévia contribuição por parte dos trabalhadores expostos aos riscos sociais. Isso não significa dizer que o princípio a solidariedade não seja um dos esteios do regime protetivo da previdência social conforme arts. 3º , I, e 195, caput.

Quanto ao fim da Previdência Social, Pulino (2001, p.45-46) afirma que esta deve:

(...) garantir condições básicas de vida, de subsistência, para seus participantes, de acordo, justamente, com o padrão econômico de cada um dos sujeitos. São, portanto, duas idéias centrais que conformam esta característica essencial da previdência social brasileira: primeiro, a de que a proteção, em geral, guarda relação com o padrão-econômico do sujeito protegido; a segunda consiste em que, apesar daquela proporção, somente as necessidades tidas como básicas, isto é, essenciais – e portanto compreendidas dentro de certo patamar de cobertura, previamente estabelecido pela ordem jurídica – é que merecerão proteção do sistema. Pode-se dizer, assim, que as situações de necessidade social que interessam à proteção previdenciária dizem respeito sempre à manutenção, dentro de limites econômicos previamente estabelecidos, do nível de vida dos sujeitos filiados.

Em 1990, o Decreto nº 99.350, de 27 de junho, cria o Instituto Nacional do Seguro Social -INSS. Os demais órgãos que faziam parte da estrutura do SINPAS são paulatinamente extintos: em 1993, o INAMPS; 1995 a LBA e a FUNABEM e em 1997 a CEME. Somente a DATAPREV permanece atuando na prestação de serviços de processamento de dados aos órgãos do MPAS.

A Seguridade Social foi organizada, através da edição da Lei nº 8.080, de 19/09/1990 que cuidou da Saúde. Seguiram-se as leis nºs 8.212/91 e 8.213/91, que atendendo ao disposto na Carta Magna Brasileira, em consonância com o art. 59 do ADCT/88, instituíram o Plano de Organização e Custeio da Seguridade Social e o Plano de Benefícios da Previdência social, respectivamente. No § único do art. 1º da

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Lei 8.212/91 há referência aos mesmos princípios constitucionais descritos no art. 194 do referido diploma legal. Vejamos a seguir os citados princípios:

a) Universalidade da cobertura e atendimento: a seguridade social tem como postulado básico abranger todos os residentes de um país, que, diante de uma contingência terão direito aos benefícios. No entanto, na prática, só terão direito aos benefícios e às prestações da seguridade social de acordo com a disposição da lei (art. 201), a pessoa que contribui. Já as prestações nas áreas da saúde e da assistência social (arts. 196 e 203) são destinadas ao cidadão, independentemente de sua contribuição.

A universalidade da cobertura não significa assegurar direitos iguais para todos. Na verdade, indica que a saúde é direito de todos, que a assistência é devida a quem necessitar e que a previdência é um direito derivado de uma contribuição anterior. Com o advento da Constituição, qualquer pessoa, mesmo que não esteja exercendo uma atividade remunerada pode contribuir para a previdência como autônomo, o que rompe com o conceito de cidadania regulada (SANTOS, 2001).

b) Uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais: as prestações da seguridade social são divididas em benefícios e serviços. Os benefícios são prestações em dinheiro, como a aposentadoria e a pensão, enquanto que os serviços são bens imateriais colocados à disposição da pessoa, como assistência médica, reabilitação profissional, serviço social etc.

A legislação previdenciária instituiu benefícios aos trabalhadores rurais e urbanos inscritos no Regime Geral de Previdência Social (RGPS) sem qualquer distinção. Assim, este princípio garante que mediante contribuição os trabalhadores rurais passam a ter direito aos benefícios dos trabalhadores urbanos. Princípio este, inaplicável para tornar equivalente os benefícios dos trabalhadores do setor público e do setor privado.

os da previdência e os da saúde. Além das fontes previstas no art. Os contribuintes que se encontram em condições contributivas iguais deverão ser tributados da mesma forma. A lei determinará a que pessoas as prestações serão estendidas. e) Eqüidade na forma da participação no custeio: este princípio é um desdobramento dos princípios da igualdade e da capacidade contributiva. é o § 9º do art. o constituinte assegurou a irredutibilidade dos benefícios da seguridade social. que possibilita a diferenciação da base de cálculo e da alíquota da contribuição.26 c) Seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços: a seleção das prestações vai ser feita de acordo com as condições econômico-financeiras do sistema de seguridade social. atendendo a redação do § 4º do art. A distributividade tem caráter social. Um exemplo claro de eqüidade no financiamento da seguridade social. 195 da Carta Magna. 201 da Carta Constitucional. Diversificação essa. nada impede que se instituam outras fontes de custeio. desde que por lei complementar. e que deverão ser reajustados e não atingidos pela inflação. 195 da Constituição. As contribuições dos empregadores não devem ser mais baseadas somente sobre a folha de salários. desta forma. devem incidir sobre o faturamento e o lucro. Assim. Este princípio abrange além dos direitos assistenciais. f) Diversidade na base de financiamento: as fontes de financiamento devem ser diversificadas com intuito de garantir a manutenção do sistema de seguridade social. A forma de correção dos benefícios deve ser feita de acordo com o disposto legal. que . de forma a tornar o financiamento da seguridade social mais redistributivo e progressivo – compensando. a diminuição das contribuições patronais provocadas pela introdução da tecnologia e redução da mão de obra. A irredutibilidade do valor dos benefícios recomenda que nenhum benefício deve ser inferior ao salário mínimo. d) Irredutibilidade dos benefícios: todo benefício previdenciário deve ter o seu valor real preservado. pois deve atender prioritariamente aos mais necessitados. em razão da atividade econômica ou utilização intensiva de mão-de-obra.

destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. ainda. e muito menos a reforma da previdência social. Este princípio assegura que aqueles que financiam e usufruem dos direitos (os cidadãos) devem participar das tomadas de decisão. já que a lógica do seguro que sustenta a previdência brasileira desde sua origem não só não foi suprimida. 10 da Constituição que garante a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados de órgãos do governo em que se discutam ou deliberem sobre assuntos relativos à seguridade social. 194 da Constituição. não foram estes os princípios que sustentaram a implementação das políticas que constituem a seguridade social. Tal dispositivo se coaduna com o art. Tal responsabilidade continua sob a proteção do Estado. Embora alguns autores considerem que "o Brasil fez a sua reforma à inglesa. por outro lado. que os trabalhadores e empregadores devem administrar as instituições responsáveis pela seguridade social. com a participação do governo. Isto não significa. os elementos do seguro. com intuito de articulá-las e formar uma rede de proteção ampliada. eliminando os fundamentos bismarckianos de um sistema montado nos anos 30 com as características segmentares do alemão" (VIANNA.130). ficou entre o seguro e a assistência. CF/88).27 obriga o governo federal. trabalhadores e empregadores. Deveriam. § único do art. tal como a Constituição a instituiu. Os . coerente e consistente. como foi até mesmo reforçada em alguns aspectos. previdência e assistência. à previdência e à assistência social" (Artigo 194. aposentados. há disposição de que a gestão administrativa da Seguridade Social é qüadripartide. g) Caráter democrático e descentralizado da administração: no inciso VII. permitir a transição de ações desarticuladas para "um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade. encontramos presentes. os Estados e os municípios a destinarem recursos fiscais ao orçamento da seguridade social. deveriam provocar mudanças sensíveis na área da saúde. Esses princípios norteadores da seguridade social. A seguridade social brasileira. p. enfim. 1998. Apesar de tais indicações.

de 31/12/2003. foram transferidos para a assistência social. enquanto que a Emenda Constitucional nº 41. abono permanência.28 benefícios previdenciários tiveram sua lógica atuarial revigorada. A assistência. uniformização dos direitos. de 07/12/1993. . alterou as regras do regime próprio de previdência social dos servidores públicos. mantém prestações assistenciais apenas para pessoas comprovadamente pobres e incapazes ao trabalho implementando programas e serviços cada vez mais focalizados em populações tidas como de "risco social" (TEIXEIRA. redutor da pensão. Advém então. denominada PEC Paralela que procurou reduzir os prejuízos causados aos servidores públicos pela Emenda nº 41/2003 (ARAÚJO. 2006). passou a ser orientada por todos os princípios do modelo assistencial beveridgiano (universalização. que tratou da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS.742. e os benefícios com natureza assistencial mais demarcada. Com a Emenda Constitucional nº 29. Tampouco se observam estudos que analisem a seguridade em sua totalidade. deu-se com a Emenda Constitucional nº 47/2005. unificação institucional. seguida de algumas emendas tentando melhor implementar a seguridade social. Mesmo com a inclusão destes princípios. financiamento predominantemente de origem fiscal). descentralização. com exceção do auxílio doença. O que encontramos são análises específicas. 1990). com a redação da Emenda Constitucional no 20. no sentido de verificar como se deu a operacionalização destes princípios. Tentativa derradeira. de 13/09/2000. poucos se dedicam a analisar quais princípios que o sustentam legalmente. que focam separadamente cada uma das políticas que compõem a seguridade social. apesar de reconhecida como direito. como auxílio natalidade e funeral. com o intuito da paridade e integralidade para os futuros servidores. Estas condutas demonstram a urgência em se desenvolver estudos que apontem os limites e obstáculos à sua consolidação. base de cálculo da aposentadoria com base da média contributiva. as políticas de saúde. previdência e assistência não conseguiram transformar-se em seguridade social. a Lei nº 8. se sustenta um avanço do conceito de seguridade social. houve alterações no sentido de assegurar os recursos mínimos para o financiamento das ações e serviços públicos de saúde. Embora. A saúde. a contribuição dos inativos/pensionistas.

necessidades e conseqüências das reformas ocorridas no Brasil.29 a fim de melhor compreender os motivos. .

reconhecidos e positivados na esfera do direito Constitucional positivo de determinado Estado". enquanto que para Gomes Canotilho (2003). liberdades fundamentais. Elenca-se alguns os conceitos. com intuito de clarear o entendimento." E . independentemente da existência desses pressupostos. Direitos fundamentais "são os direitos do ser humano. como de Sarlet e Canotilho. direitos individuais. pode-se extrair a seguinte reflexão. as expressões „direitos do homem‟ e „direitos fundamentais‟ são utilizadas como sinônimas. (. 382-383) sobre direitos fundamentais. os direitos fundamentais.) “Antes de serem um instituto no ordenamento positivo ou na prática jurídica das sociedades políticas. Há que se falar na antinomia da materialização dos organismos de proteção social.. na concepção de Sarlet (2004. p. direitos públicos subjetivos. Ao longo da história. direitos humanos. surge uma dimensão econômica extremamente relevante.." Na perspectiva internacionalista ou universalista. os direitos fundamentais receberam várias denominações. No tocante às lições de Canotilho (2003. foram uma idéia no pensamento dos homens. cujo objeto exige condutas positivas do Estado. foi a experiência da II Guerra e do totalitarismo o fator determinante da preocupação internacional em se criar mecanismos jurídicos capazes de proteger os direitos fundamentais dos cidadãos nos diversos Estados. dentre elas: direitos naturais.30 2 BREVE ENFOQUE SOBRE DIREITOS FUNDAMENTAIS A mais moderna concepção dos direitos fundamentais discute a possibilidade e o dever do Estado vir a ser obrigado a criar os pressupostos fáticos necessários ao exercício dos direitos constitucionalmente afirmados e a possibilidade do titular desse direito debelar sua pretensão frente ao Estado. direitos do homem. pois quanto mais subdesenvolvido economicamente o Estado mais abundante de necessidades sociais. p. 45). liberdades públicas e direitos fundamentais do homem. Não desconhecendo que os direitos inerentes à Seguridade Social efetivam-se através de prestações.

do dever de atingir objetivos sociais." Jorge Miranda (2000. pois faz referência aos princípios que resumem o conceito do mundo. cultural e política). como são saúde. a imposição. pela definição das atribuições do Estado. vez que a premissa para se formar um Estado Social consubstanciado no princípio democrático. ao Estado.basta construir a noção de Estado Social Democrático de Direito. ao designar a expressão „direitos fundamentais do homem‟. quando tais serviços sejam de prestação gratuita e universal. é sem dúvida sua ligação correlacionada com os direitos fundamentais e sociais.115) elenca três razões para não utilizar a terminologia „direitos do homem‟ como sinônima de „direitos fundamentais‟. O conceito encontra-se em total harmonia com o verdadeiro significado de Estado Social Democrático de Direito. c) os direitos fundamentais presentes na generalidade das Constituições do século XX não se reproduzem a direitos impostos pelo Direito natural. Para definir juridicamente o Estado brasileiro e a maioria dos Estados civilizados . na "perspectiva Constitucional refere-se à garantia Constitucional de certos direitos ou liberdades. a saber: a) trata-se de direitos assentes a ordem jurídica e não de direitos derivados da natureza do homem. b) a necessidade de. 2006). no plano sistemático da ordem jurídica (Constitucional). Esta definição é a mais adequada para o presente estudo. é oportuna a posição de José Afonso da Silva (2003). . Um Estado Social Democrático de Direito poderia definir-se pelo comprometimento Constitucional com os direitos sociais. (SUNDFELD. ainda no tocante à prestação direta dos serviços públicos.31 por fim. como aquelas prerrogativas e instituições que ele concretiza em garantias de uma convivência digna. considerar os direitos fundamentais correlacionados com outras figuras subjetivas e objetivas (organização econômica. Diante do aparente dissenso. aos indivíduos do correspondente direito de exigi-los. social. ao documento francês de 1789 e às constituições atuais. p. livre e igual para todas as pessoas. fazendo referência à Carta Magna de 1215. e a atribuição. em especial. de tal forma que configura a ideologia política de cada ordenamento jurídico. agregando-se aos seus elementos.

de consciência e religião. é de relevância que a Constituição. e para alavancar estes investimentos. para desta forma conseguir crescer e conseqüentemente cumprir com suas obrigações constitucionais no que tange as prestações sociais. Os direitos individuais. à liberdade e à segurança. e a via escolhida tem sido a da proclamação de direitos de âmbito transnacional. Num segundo grupo encontram-se expostos os direitos do indivíduo em face das coletividades: direito à nacionalidade. há de realizar investimentos consideráveis na área social. lapidado por princípios democráticos. e a nossa Carta Magna de 1988. princípio na direção dos negócios públicos. não restam dúvidas – e nisso parece existir um amplo consenso na doutrina – de que nem por isso o princípio fundamental do Estado Social deixou de encontrar guarida em nossa Constituição. p. além de promover a organização estatal. Na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 houve a preocupação. o Estado para cumprir com suas obrigações sociais na prestação de serviços básicos e essenciais a população. se tornaram uma questão de interesse internacional. 171-172): Logo no início. haja vista o ensinamento de Sarlet (2004.32 educação e assistência social. Num outro grupo são tratadas as liberdades públicas e os direitos públicos: liberdade de pensamento. são proclamados os direitos pessoais do indivíduo: direito à vida. Para vivermos em um Estado Social de Direito. não foge a regra. conforme assegura Celso Ribeiro Bastos (2000.75): Apesar da ausência de norma expressa no direito constitucional pátrio qualificando a nossa República como um Estado Social e Democrático de Direito (art. direito de livre circulação e de residência. caput. devido sua transcendência. direito de propriedade. primordial. de reunião e de associação. tanto no interior como no exterior e. Toda Constituição inserida em um Estado Social e Democrático de Direito é alicerçada nos direitos fundamentais. Neste sentido. refere-se apenas os termos democrático e Direito). o Estado atua como ente econômico. Num quarto . para. p. direito de asilo para todo aquele perseguido (salvo os casos de crime de direito comum). de opinião e de expressão. atingindo efetivamente os fins sociais. 1º. finalmente. com quatro dimensões de direitos individuais. assumir seu papel de norteadora da sociedade. seja contornada de direitos fundamentais.

sem direitos do homem reconhecidos e protegidos. que expressam o amadurecimento de novas exigências. não há democracia. como os de bem-estar e da liberdade através ou por meio do Estado. basta examinar os escritos dos primeiros jusnaturalistas para ver quanto se ampliou a lista dos direitos. que – concebendo a liberdade como autonomia – tiveram como conseqüência a participação cada vez ampla. e complementa: " o desenvolvimento dos direitos do homem passou por três momentos distintos: no primeiro. foram propugnados os direitos políticos. Conforme o pensador italiano. Quanto a Declaração Universal. ao repouso e à educação. torna-se necessária uma abordagem sobre a dimensão dos direitos fundamentais. segundo a teoria de Robert Alexy (2002). sendo essa uma característica do modelo epistemológico mais adequado. classes no poder ou dos meios disponíveis para a realização dos mesmos. o direito à vida. afirmaram-se os direitos de liberdade . generalizada dos anunciados os direitos sociais. Norberto Bobbio (1992. interesses. de novos valores –. sem democracia. Para tanto. à sindicalização. não existem as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos. O referido modelo é . Constitui-se uma “síntese do passado e uma inspiração para o futuro: mas suas tábuas não foram gravadas de uma vez para sempre"." Observamos assim que os direitos fundamentais do homem constituem uma variável ao longo da história. E comenta ainda sobre a transformação e ampliação ocorrida com os direitos. uma esfera de liberdade em relação ao Estado. Hobbes conhecia apenas um deles. Os direitos fundamentais podem ser estudados com projeções multidimensionais.33 grupo figuram os direitos econômicos e sociais: direito ao trabalho.todos aqueles direitos que tendem a limitar o poder do Estado e a reservar para o indivíduo ou grupos.34) diz que ela representa a consciência histórica que a humanidade tem dos próprios valores fundamentais na segunda metade do século XX. no segundo. que se modificaram e continuam se modificando de acordo com os acontecimentos históricos. A partir deste contexto. p.

por ser uma manifestação de poder. observando-se igualmente sua função ambiental (1997. p. São teorizados pelo seu cunho materialista. normas do gênero e principalmente na jurisprudência. e o jusnaturalismo. num contexto em que se reconhece a segunda dimensão dos direitos fundamentais. de modo compatível com suas matrizes ideológicas. tal como se apresentam nas leis. em um trabalho de diferenciação entre as várias figuras e institutos jurídicos localizados em nossa área de estudo. e com o aparecimento da terceira dimensão. é aquela em que a teoria assume o papel prático e deontológico que lhe está reservado. temos (a) "dimensão analítica". temos que o direito individual de propriedade. p. da qual se tem um aperfeiçoamento conceitual a ser utilizado na investigação. Assim. apoiada em um saber. a ordem jurídica estudada (GUERRA FILHO. a primeira dimensão é a dimensão analítica. (b) "dimensão empírica" e (c) "dimensão normativa". onde não se justifica apenas pelo preciosismo de que as gerações anteriores não desaparecem com o surgimento das mais novas. Dessa forma. só pode ser exercido observando-se sua função social. na tentativa de conciliar três das principais correntes do pensamento jurídico: o positivismo normativista. Como bem exemplificado pelo professor Guerra Filho. Dessa forma. tornando-se o que com maior propriedade se chamaria doutrina. toma-se como instrumento de estudo. manifestações concretas do direito. Inicia-se esta abordagem com os direitos fundamentais de primeira dimensão. denominada empírica. o positivismo sociológico ou realismo. indicando uma nova universalidade com finalidades materiais e concretas.98) Falar em dimensões é melhor do que gerações de direitos fundamentais. É que os direitos gestados numa geração ganham outra dimensão com o surgimento de uma geração sucessiva. Por fim. os direitos da geração posterior se transformam em pressupostos para a compreensão e realização dos direitos da geração anterior.34 tridimensional. O século passado foi marcado pelo advento dos direitos de . com o compromisso de complementar e ampliar. 2000. Na segunda. os quais permeiam todos os diplomas constitucionais das sociedades civis democráticas. a terceira dimensão que se denomina normativa. no campo do direito. e postulam uma atividade negativa por parte do Estado.13).

"são os direitos da liberdade.". os direitos civis e políticos. sim. 2004. 50) Vivencia-se um novo conteúdo dos direitos fundamentais: as garantias institucionais . p. e econômicos. trabalho.518). os quais exercem uma liberdade social. culturais. na lapidar formulação de C. propriedade. Inauguram uma nova fase. São os direitos ligados as prestações sociais do Estado perante o indivíduo. p. Entende-se aqui.inerentes das instituições de Direito Público. Lafer. Promovem um pensamento de preservação do indivíduo. "são os direitos sociais.35 primeira dimensão (direitos civis e políticos). bem como assistência social. por um prisma histórico. p. introduzidos no constitucionalismo das distintas formas de Estado social. educação. a nota distintiva destes direitos” é a sua dimensão positiva. São direitos que delimitam as formas de organização e o arbítrio do Estado para com os direitos de segunda dimensão. cultura. Estes se tornam tão essenciais quanto os direitos da primeira dimensão. . a saber. Segundo Bonavides (2000.517). mas. este foi caracterizado por uma nova ordem social. saúde. os primeiros a constarem do instrumento normativo constitucional.. um necessário despertar para a conscientização de proteger a instituição. mas também por exercerem uma função prestacional Estatal para com o indivíduo. e estabelecem ligação das liberdades formais abstratas para as liberdades materiais concretas. àquela fase inaugural do constitucionalismo do Ocidente". segurança pública. de propiciar um „direito de participar do bem-estar social (Sarlet. Na concepção de Bonavides (2000. uma realidade social mais fecunda e aberta à participação e a valoração da personalidade humana.. liberdade. uma vez que se cuida não mais de evitar a intervenção do Estado na esfera da liberdade individual. a qual ejeta uma nova estruturação dos direitos fundamentais não mais sedimentada no individualismo. não só pelo fato de possuírem o intuito positivo. bem como os direitos coletivos ou de coletividades. que em grande parte correspondem. os direitos civis e políticos como os direitos à vida. e no que diz respeito ao século XX. tanto por sua universalidade quanto por sua eficácia.

Com o reconhecimento dos direitos de segunda geração. ao meio ambiente. ao meio ambiente. 2000. se consubstancia como conjunto integrado de ações de iniciativa do poder público com a participação da sociedade atuando na área de saúde. assistência social e previdência social. a Seguridade Social. Na evolução. p. ou seja. ou seja. de um grupo. ao desenvolvimento. Esta dimensão é típica das democracias pluralistas contemporâneas e diz respeito a fins coletivos. A terceira dimensão relaciona os direitos a uma nova ordem social e internacional em que os direitos de liberdade estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos do Homem possam ser plenamente realizados. à paz. Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade. direito à paz. mas como meio de proporcionar uma participação do bem estar social. e de .36 Assim. por se referirem a pessoas indeterminadas. porque se referem a direitos dos indivíduos enquanto seres humanos (parte da humanidade) ou dos indivíduos enquanto membros de uma categoria ou grupo social específico. os direitos da terceira dimensão. o direito assume uma dimensão positiva não como forma de aceitar a intervenção do Estado na liberdade individual. tema central deste estudo. entre outros.523). São direitos classificados como “metas individuais”. é direito fundamental de segunda geração. ou de um determinado Estado (BONAVIDES. Urge um novo intuito jurídico que vem somar nos direitos do homem junto com os historicamente versados direitos de liberdade e igualdade. os direitos da terceira geração tendem a cristalizar-se neste fim de século enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo. de “multiculturais” por garantirem respeito à pluralidade de identidades socioculturais. que são direitos atribuídos à fraternidade ou de solidariedade. Também são classificados como direitos “difusos”. aqueles referentes ao desenvolvimento. à propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade e a comunicação. ligados às prestações que o Estado deve ao seu conjunto de integrantes.

à paz e à fraternidade. Nota-se a nítida vantagem de constituir. a humanidade parece caminhar a todo vapor. para posteriormente serem efetivados. portanto.37 “republicanos”. o direito à informação. caso este último venha a induzir apenas sucessão cronológica e. 2003). depois de haver dado o seu primeiro e largo passo. E continua dizendo que "tais direitos sobrevivem. e os da terceira. direitos sociais. São reconhecidos como direitos de solidariedade ou de fraternidade. os da segunda. Estes significam uma institucionalização do Estado social: "são direitos da quarta geração o direito à democracia. 526) que força é dirimir. um eventual equívoco de linguagem: o vocábulo „dimensão‟ substitui. o termo „geração‟. porque se relacionam à coletividade e porque implicam numa cidadania ativa (SARLET. com vantagem lógica e qualitativa. relacionando os direitos contra a manipulação genética. delineando direitos de titularidade coletiva ou difusa. direitos ao desenvolvimento. Ao contrário. os direitos da terceira dimensão são direitos solicitados pelo indivíduo devido os avanços tecnológicos. mudança de sexo. com isso criar-se-á um processo ao qual sempre estará em evolução. os direitos de primeira geração". são infraestruturais. p. a esta altura. uma nova fase no reconhecimento dos direitos fundamentais. os direitos da primeira geração. formam a pirâmide cujo ápice é o direito à democracia. remove-la – a subjetividade dos direitos individuais. No que se refere à terminologia – alvo de discussão quando se aborada as dimensões dos direitos – salienta Bonavides (2000. direitos individuais.525). ao meio ambiente. de fato. coroamento daquela globalização política para a qual. Conforme as mudanças no mundo e nas sociedades. como no provérbio chinês da grande muralha. Os direitos da quarta geração não somente culminam a objetividade dos direitos das duas gerações antecedentes como absorvem – sem. . permanecem eficazes. Assim. como integrantes da quarta dimensão. e não apenas sobrevivem. suposta caducidade dos direitos das gerações antecedentes. senão que ficam opulentados em sua dimensão principal. a globalização política neoliberal provoca grande impacto sobre os direitos fundamentais da população subdesenvolvida inserindo um novo rol de direitos fundamentais: os direitos fundamentais da quarta dimensão. dentre outros. p. 2000. e o direito ao pluralismo"( BONAVIDES. o que não é verdade. a saber. Vivenciada em nosso país. mais direitos vão sendo descobertos e formulados. todavia.

assumirem uma postura ativa. doravante. §1º. Acrescentando que “os direitos sociais estão vinculados com a necessidade de se assegurar as condições materiais mínimas para a sobrevivência e. concretizam-se. leciona Ingo Wolfgang Sarlet que são considerados direitos sociais prestacionais básicos a saúde. o art. que importam uma restrição à ação do Estado para. sendo que na Constituição vigente tais direitos encontraram uma receptividade sem precedentes. p. 2. de modo especial no capítulo dos direitos sociais. Nesse contexto. terceira e quarta geração não se interpretam. que se encontra o futuro da globalização política. posteriormente. visto que estes devem ser tratados de maneira diferente dos direitos clássicos na defesa contra o poder estatal. mas sim. podendo. o início de sua legitimidade e a força que funde os seus valores de libertação. pode-se partir para a assertiva de que os direitos da segunda. E é no seio dessa materialização.38). visto que a igualdade material e a liberdade real não se estabelecem por si só. 5º. além disso. para a garantia de uma existência com dignidade (SARLET. exigindo ações positivas deste mesmo Estado. Assim. 2001. impõem aos órgãos estatais a tarefa de maximizar a eficácia dos Direitos Fundamentais Sociais e criar as condições materiais para sua realização (KRELL.38 objetiva e axiológica. o dispositivo da aplicação imediata ganha uma outra função. irradiar-se a todos os direitos da sociedade e do ordenamento jurídico". previdência e assistência social. dessa solidificação. Em virtude de sua vinculação com a concepção de um Estado social e democrático de Direito. Ao permearem todo o texto constitucional. Nesse sentido: Em relação aos direitos sociais. . educação. 2003. carecendo de uma realização. como garante da justiça material. os direitos fundamentais sociais reclamam uma postura ativa do Estado. p 170). A propósito.1 A Aplicabilidade Imediata e a Eficácia dos Direitos Fundamentais O presente trabalho atenta para a consagração dos direitos sociais no nosso Texto Constitucional como direitos fundamentais de eficácia imediata. os direitos fundamentais assumem primeiramente um caráter de direitos negativos.

devido a sua forma de positivação no texto constitucional. o pleno exercício desses direitos outorgandolhes. bem como parte dos direitos sociais) e. de interposição do legislador para que conseqüentemente sejam permeados de aplicabilidade e eficácia plena. bem como já se tem como consagrados os direitos sociais como direitos humanos fundamentais. Os direitos fundamentais de defesa ou prestacionais estão vinculados intimamente ao grau de eficácia e aplicabilidade. Os direitos a prestação. Atualmente os indivíduos têm pleno acesso aos mecanismos de proteção judicial de seus direitos. Não se tem dúvida em afirmar que as prestações positivas inerentes aos direitos sociais devem ser submetidas ao que a doutrina constitucional denomina de princípio da "reserva do possível". necessitam de uma atuação positiva do Estado surgindo posições diversas acerca de sua aplicabilidade imediata. b) os direitos a prestações (envolvendo os direitos à proteção e à participação na organização e procedimento. o trabalho e a previdência social). a saúde. a nenhuma vinculação jurídica”. tanto sua pela eficácia como também. p. p. Ressalta Canotilho (2003. na prática.39 Devido a problemática a respeito das funções. não apenas autorizando. igualdade. tais como a educação. carecem em princípio. 481-482) que um direito social sob „reserva dos cofres cheios‟ equivale. sustentando que “os direitos fundamentais sociais consagrados em normas da Constituição dispõem de vinculatividade normativo-constitucional”. o nobre jurista gaúcho (2004) propõe uma classificação para os mesmos. viabilizando. em virtude de sua multifuncionalidade: a) direitos de defesa (englobaria os direitos de liberdade. assim. portanto. positivados a partir de normas programáticas. representados pelos direitos sociais de natureza prestacional. garantias. 2004. direitos a prestação. sua efetividade (SARLET. eficácia e positivação dentro da Constituição Federal. asseverando que “as normas garantidoras de . A presunção em favor da aplicabilidade imediata e a máxima da maior eficácia possível devem prevalecer. estes direitos de cunho prestacional. mas impondo aos juizes e tribunais que apliquem as respectivas normas aos casos concretos. A partir disto. 262).

40 direitos sociais devem servir de parâmetro de controle judicial quando esteja em causa a apreciação da constitucionalidade de medidas legais ou regulamentares restritivas destes direito”. que direciona a atuação da administração pública em geral. destacando “que também resta abrangida na obrigação de todos os órgãos estatais e agentes políticos a tarefa de maximizar os recursos e minimizar o impacto da reserva do possível. quanto mais diminuta a disponibilidade de recursos. a crise de efetividade vivenciada com cada vez maior agudeza pelos direitos fundamentais de todas as dimensões está diretamente conectada com a maior ou menor carência de recursos disponíveis para o atendimento das demandas em termos de políticas sociais. 2003. § 1º.. por sua vez. acrescentando que “as tarefas constitucionalmente impostas ao Estado para a concretização desses direitos devem traduzir-se na edição de medidas concretas e determinadas e não em promessas vagas e abstractas. 356-357). indissociável da assim designada “reserva do possível” (que não pode servir como barreira intransponível à realização dos direitos a prestações sociais). notadamente quando se cuida de administrar a escassez de recursos e otimizar a efetividade dos direitos sociais”. p. Parece-nos oportuno apontar aqui que os princípios da moralidade e da eficiência. assumem um papel de destaque nesta discussão. Com efeito. a inconstitucionalidade por omissão.. Como dá conta a problemática posta pelo “custo dos direitos”. e que “as normas de legislar acopladas à consagração de direitos sociais são autênticas imposições legiferantes. 250). Com efeito. cujo não cumprimento poderá justificar. que cabe ao poder público o ônus da comprovação efetiva da indisponibilidade total ou parcial de recursos e do não desperdício dos recursos existentes. 2004. levar a sério a “reserva do possível” (e ela deve ser levada a sério.” (SARLET. especialmente em face do sentido do disposto no art. especialmente de cunho . como já se referiu. Assim. verifica-se que deve haver máxima cautela quando o Poder Executivo se apega ao argumento da reserva do possível para justificar a sua omissão na área da efetivação dos direitos fundamentais. p. mais se impõe uma deliberação responsável a respeito de sua destinação. embora sempre com as devidas reservas) significa também. da CF. 5º. o que nos remete diretamente à necessidade de buscarmos o aprimoramento dos mecanismos de gestão democrática do orçamento público ( SARLET.

normas aplicáveis diretamente. a localização tópica da norma. É comum o agente estatal apresentar uma desculpa genérica para não concretizar um direito social. a norma que dá amparo ao reconhecimento dos direitos excluídos do texto constitucional (direitos sociais. aos direitos fundamentais: "As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata". salienta Maliska (2001) que o dispositivo estaria reduzido às normas do art. Ao se analisar a abrangência e o significado da norma do Art. Adentra-se.8). 5º determinou certo grau de eficácia e aplicabilidade. principalmente. há o entendimento de que a norma em evidência não pode atentar contra a natureza das coisas. Uma interpretação sistemática e teleológica conduzirá aos mesmos resultados. 5 º. oportuna e urgente a lição de Eros Roberto Grau (2000. uma vez que utilizar a expressão „direitos e garantias fundamentais‟. posto que. assim em um campo de divergências na doutrina jurídico-constitucional no que diz respeito a aplicação imediata dos direitos e garantias fundamentais. tal entendimento pode ser afastado pela simples interpretação literal da norma. como Ferreira Filho (1996. p. todos os demais direitos. que refere a „direitos e garantias fundamentais‟. não serve como critério para justificar tal entendimento restritivo. No entanto. 5 º. liberdades e garantias de natureza semelhante. A CF/88. a tal ponto que relativa parte dos direitos fundamentais alcançaria sua eficácia nos termos e na medida da lei. Desta forma. que tal preceito não reclama – porque dele independe – qualquer ato legislativo ou . notadamente na área da saúde. o constituinte buscou atingir a totalidade das normas do Título II. Não obstante. o que inclui também os direitos políticos. econômicos e culturais). configuram-se. Há divergência de posições. em seu §1º do art. p. § 1º da Lei Maior de 1988.41 social. 313) : Aplicar o direito é torná-lo efetivo. para alguns juristas. Dizer que um direito é imediatamente aplicável é afirmar que o preceito no qual é inscrito é auto-suficiente. de nacionalidade e os direitos sociais e não apenas os direitos e garantias individuais e coletivos.

pelo Legislativo ou pelos particulares a sua aplicação. Esta norma é de aplicabilidade imediata (o Poder Judiciário. p. Neste mesmo sentido. objetiva tornar direitos prerrogativas diretamente aplicáveis pelos Poderes Legislativo. outorgando-lhes. baseado nos princípios jurídicos. 5º da Constituição Federal é dotada de vigência e eficácia jurídica. Negada pela Administração Publica. a maior eficácia possível.42 administrativo que anteceda a decisão na qual se consume a sua efetividade. Assim. ou seja. Da linha de pensamento de Eros Roberto Grau (2000. bem como de produzir.. cumpre ao Judiciário decidir pela imposição de sua pronta efetivação. Esta produção do direito.. Interpretando-se o ensinamento de Eros Grau. fundamentado na Lei Maior. Preceito imediatamente aplicável vincula. (. tendo em vista o conteúdo do próprio § 1º do artigo 5º. 5º § 1º da Constituição Federal impõe aos Poderes Públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental. p.). o Poder Judiciário. Este princípio intenta assegurar a força dirigente e vinculante dos direitos e garantias de cunho fundamental. está compelido a conferir-lhe efetividade jurídica ou formal). não deve ser subentendida como dever do Judiciário de assumir a função Legislativa. Executivo e Judiciário. Piovesan (1997. ao Legislativo incumbe o monopólio do exercício da função legislativa e não da função normativa. Sarlet (2004. 313/319). Tal designação não viola o princípio da Separação dos Poderes. afirma-se que a referida norma do § 1º do art.64) assevera que: A norma do art. nesse sentido.259-261) entende que todas as normas relativas a direitos fundamentais são dotadas de um mínimo de eficácia. efeitos reforçados relativamente às demais normas constitucionais. há um plus nas normas definidoras dos direitos fundamentais quando comparadas às demais normas constitucionais. pois segundo o autor. podendo-se afirmar que aos poderes públicos incumbem a tarefa e o dever de extrair das normas que consagram tais direitos. em última instância. mas sim de assegurar a pronta execução do direito. Isso . em ultima instância. pode-se extrair o seguinte posicionamento: o Poder Judiciário tem a função de reproduzir o direito. p.

dependendo da forma de positivação. a omissão inconstitucional não pode ser concebida como não fazer. Cabe lembrar. desde logo. A importância dos chamados remédios constitucionais justifica-se pelo fato de serem eles os instrumentos garantidores do Estado de Direito. Destarte. o objeto clássico da pretensão jurídica fundada num direito subjetivo: de uma pretensão de omissão dos poderes públicos (direito a exigir que o Estado se abstenha de intervir nos direitos. sem eles. se nem sempre podem autorizar a substituição do legislador pelo juiz. É o não fazer algo devido. com todos os direitos e garantias nele inserido. Conforme a lição do notável jurista Canotilho (2003). os direitos fundamentais de natureza prestacional passam a ter certa peculiaridade devido ao seu grau de aplicabilidade imediata e eficácia plena alcançável. sociais e culturais) inverte. e estas. o texto constitucional. dentre eles a saúde. por vezes. 2002. podem. mas sim como produto da vontade de não realizar a ação prescrita pela norma e. quando assumem uma dimensão positiva. pois. que os direitos sociais. otimização) da eficácia de todos os direitos fundamentais. condicionam o legislador. reclamando a realização de suas imposições. portanto. esperada. Acerca dos dispositivos supra citados. e da função que cada preceito desempenha. O § 1º do artigo 5º da Constituição representa uma espécie de mandado de otimização (ALEXY. do objeto. autorizar o desencadear de medidas jurídicas ou políticas voltadas para a cobrança do implemento pelo próprio legislador. As normas constitucionais possuem uma eficácia jurídica de vinculação. não passaria de letra morta. que impõe a maximização (portanto. Os direitos fundamentais prestacionais tem sua exegese externada de forma diversa dos direitos fundamentais de defesa. passaram a contar com remédios específicos para garantir-lhes plena eficácia.43 não significa que mesmo dentre os direitos fundamentais não possam existir distinções quanto à graduação da aplicabilidade e eficácia. 2003). a força dirigente e determinante dos direitos a prestações (econômicos. liberdades e garantias) transita-se para . no que tange a sua aplicabilidade e posterior efetivação. 81-114). (SARLET.

afirmando que embora a Constituição não possa. 5º.19). no sentido da não aplicabilidade imediata de todos os direitos fundamentais. por si só. em última instância. 5º. realizar nada. nem mesmo aos assim equivocadamente denominados direitos individuais e coletivos do art. a exemplo do que tem ocorrido na doutrina. de colher das normas consagradoras dos direitos fundamentais. bem como dos localizados em outras partes do texto constitucional e nos tratados internacionais. pois presumir a aplicabilidade imediata e a eficácia plena em prol dos direitos fundamentais significa. ela pode impor tarefas. exteriorizar toda a fundamentalidade formal da qual nossa Carta Magna é detentora. as quais dispõem sobre os institutos do Mandado de Injunção e da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão como aporte interpretativo da norma do § 1 º do art. estão a serviço da aplicabilidade imediata dos direitos fundamentais. Konrad Hesse (1991. A utilização de normas constitucionais. Negar eficácia plena à referida norma constitucional contraria toda evolução doutrinária e jurisprudencial acerca da efetividade dos direitos fundamentais. Por isso. p. 5º da CF. Ao contrário. 5º. cabe o trabalho e o relativo dever. 5º). ao analisar a norma constitucional inserida no § 1º do art. assegura Sarlet (2003). pode revelar que tais institutos. que não há como sustentar uma redução do âmbito de aplicação da norma a qualquer das categorias específicas de direitos fundamentais consagradas na nossa Constituição. ainda mais porque a Lei Fundamental prevê que “as normas definidoras dos direitos e garantias constitucionais têm aplicação imediata” (§ 1º do art. a aplicabilidade imediata (por força do art. § 1º. Aos Poderes Públicos. continua o autor há como sustentar. já em 1959 abordava a questão da força normativa da Constituição.44 uma proibição de omissão (direito a exigir que o Estado intervenha ativamente no sentido de assegurar prestações aos cidadãos). 5º a 17). a máxima eficácia possível. da CF) de todas as normas de direitos fundamentais constantes do Catálogo (arts. aduzindo que .

se. a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência.45 a Constituição transforma-se em força ativa se estas tarefas forem efetivamente realizadas. a eficácia a ser dada à Lei Maior deve ser equivalente à sua importância no contexto do ordenamento jurídico. . em virtude destes possuírem vinculação imediata com os mesmos. se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida. ou seja. o Poder Judiciário é atingido pelos institutos processuais. devendo ser sempre interpretada em sintonia com a sua mais alta hierarquia. Desta forma. se puder identificar a vontade de concretizar esta ordem. sendo norma em sentido material. a Constituição tem força normativa própria. Portanto. que obrigam a fornecer tal efetividade aos direitos fundamentais.

cuja redação afirma que saúde é direito de todos e dever do Estado. mental e social e não somente a ausência de doenças ou agravos. p. A definição de saúde compreende o “completo bem-estar físico. Destaca-se o art. Entretanto. consagrado na Constituição Federal de 1988. do outro lado. Neste sentido. torna-se necessário a delimitação do termo “saúde”. seja qual sua condição social ou econômica e sua crença religiosa ou política”. . no Brasil. o termo "saúde" ensejou uma diversidade de interpretações. A definição atual de saúde não pode vir dissociada do princípio da dignidade da pessoa e do direito à vida. bem como. J. Min. amparado em vários artigos de nossa Carta Constitucional (art. reconhecida como um dos direitos fundamentais de todo ser humano. 200). como direito fundamental e social.07. 196 ao art. 196.02. somente em 1946 quando do surgimento da Organização Mundial da Saúde (OMS).06. O reconhecimento da saúde como direito fundamental social.: 12. garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção. de um lado "o entendimento de que a saúde relacionava-se como o meio ambiente e as condições de vida dos homens.12. o brocado grego "Mens Sana In Corpore Sano". Aponta-se como marco inicial da definição de saúde.46 3 POLÍTICAS SOCIAIS E EFETIVAÇÃO DO DIREITO Á SAÚDE 3.representa conseqüência constitucional indissociável do direito à vida” (STF – 2.1 Saúde como um Direito Fundamental Social Prosseguindo esta análise. “o direito à saúde além de qualificar-se como direito fundamental que assiste a todas as pessoas .ª T. na medida em que saúde passa a caracterizar-se como um direito público subjetivo. DJ 02. na evolução histórica. CELSO DE MELLO. quanto com a mente sadia. 00140). – RE-AgR 393175/RS – Rel. no Texto Constitucional de 1988. proteção e recuperação (grifou-se). que por vários séculos foi motivo de discussão vindo a se consubstanciar. abriu caminho para todos os cidadãos dele usufruir. o conceito de saúde como sinônimo de ausência de doenças. onde se vislumbra de imediato a preocupação tanto com o corpo." Esta divergência foi contornada.

Devido sua importância na sistemática constitucional. à moradia. o direito à saúde. como um direito social. preconizando em seu artigo 2º. que visa a melhor qualidade de vida possível”. na concepção de direito social. 2004). Destarte. que o direito à saúde encontrou sua maior concretização ao nível normativo-constitucional” (SARLET. e conseqüentemente de eficácia limitada. quais sejam: direito ao saneamento. Imperioso designar que. à assistência social. estará originando um elo jurídico criador de obrigações entre todos os Entes da Federação (devedor) e o cidadão (credor) no que tange seu direito à saúde. independentemente do seu status social. pena de ineficácia de tal direito (SARLET.” . “Dispõe sobre as condições para a promoção. a Lei 8. Schwartz (2001) saúde deve ser concebida como um “processo sistêmico que objetiva a prevenção e cura de doenças. à educação. “ É no art. devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. se vê permeado de outros direitos. que “A saúde é um direito fundamental do ser humano. 196 não pode ser interpretado como uma norma programática. 2003).196 e seguintes. tendo como instrumento de aferição a realidade de cada indivíduo e pressuposto de efetivação a possibilidade de esse mesmo indivíduo ter acesso aos meios indispensáveis ao seu particular estado de bem-estar.47 O referido dispositivo constitucional é o novo modelo.080/90. Assim sendo. ao bem-estar social. quando o cidadão se encontrar na situação de hipossuficiente para fruir a sua saúde e de sua família. o art. a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências”. ao mesmo tempo. Sendo reconhecido na Carta Máxima. por colocar em condições de igualdade de acesso às ações e serviços de saúde todos os cidadãos. direito de acesso aos serviços médicos e ao direito à saúde física e psíquica. à seguridade social. Conforme o expoente prof. o direito à saúde passa a ser um direito que exige do Estado prestações positivas no sentido de garantia/efetividade da saúde. proteção e recuperação da saúde.

nos termos do que dispõe o artigo 5. da Constituição. 2004. esta se encontra ligada à relevância do bem jurídico tutelado pela ordem constitucional. 198 da CF). ainda que sejam de última geração. c) por derradeiro. 90-94). cuidando-se. os direitos fundamentais (e. por esta razão. Já no que diz com a fundamentalidade em sentido material.48 A saúde comunga. encontram-se submetidos aos limites formais (procedimento agravado para modificação dos preceitos constitucionais) e materiais (as assim denominadas “cláusulas pétreas”) da reforma constitucional. situam-se no ápice de todo o ordenamento jurídico. Esta relação jurídica tem no pólo ativo qualquer pessoa e a comunidade. desdobra-se em três elementos: a) como parte integrante da Constituição escrita. cirurgias etc. que se apresenta como meio pelo qual o Poder Público cumpre seu dever na relação jurídica de saúde. o Estado fica obrigado a garantir aos seus cidadãos o acesso a serviços e ações de saúde. em nosso Texto Constitucional. pois. que devem proporcionar atendimento integral (inciso II do art. 2001). portanto. pela existência do Sistema Único de Saúde – SUS (art. também a saúde). da dupla fundamentalidade formal e material da qual se revestem os direitos e garantias fundamentais (e que. Observa-se que o legislador constituinte reconheceu que “são de relevância pública as ações e serviços de saúde” (art. na nossa ordem jurídico-constitucional. A fundamentalidade formal encontra-se ligada ao direito constitucional positivo e. as normas definidoras de direitos e garantias fundamentais são diretamente aplicáveis e vinculam diretamente as entidades estatais e os particulares. ao menos na Constituição pátria. 197). assim são designados) na nossa ordem constitucional. 198 da CF). o que . reforçando sua . pouco importando o seu custo. desde que comprovadamente necessários para a preservação da vida e saúde do usuário do SUS.dada a inquestionável importância da saúde para a vida (e vida com dignidade) humana (SARLET. nele compreendido uma adequada assistência médico-hospitalar. uma vez que o direito à saúde a ser concebido como um direito social pessoal e também como um direito social coletivo (SCHWARTZ. Consoante. b) na condição de normas fundamentais insculpidas na Constituição escrita. parágrafo 1º. de norma de superior hierarquia.) e de medicamentos. O direito à saúde é garantido. a qual pressupõe a oferta de procedimentos (exames.

eis que se consubstancia como um direito público subjetivo. lado a lado. inciso III. coexistindo. e deve ser respeitado como tal. com o intuito de desincumbir-se da sua responsabilidade. assim como. concluímos que o princípio da universalidade de acesso e igualdade perante os serviços só existe no plano teórico. todas às vezes que este se modificar. Não obstante a consagração do direito à saúde no rol dos direitos fundamentais. Pois o direito à saúde. 2004). revela uma afronta ao nosso bem maior. Entretanto. 2001).2 Saúde e Dignidade Humana Hodiernamente. o princípio da dignidade da pessoa humana é cada vez mais abordado. a cidadania. . e não nas dificuldades de acionar tais direitos. com a soberania. Passa então. Por outro lado. ele foi estabelecido como fundamento do Estado Democrático de Direito no artigo 1º. eis que deixou de ser um mandamento moral para ganhar a força coativa de direito. de seu dever constitucional de prestar. A caracterização da relevância pública dos serviços e ações de saúde. a não atuação do Estado na prestação sanitária. nos países consideramos democráticos. o Estado a incumbir-se do papel de garantidor positivo de uma política sanitária ampla. que é a vida. "a causa de inefetividade dos direitos sociais está na ausência de vontade política para materializar sua principal forma de garantia (prestações positivas estatais). o reconhecimento da saúde como um direito social e individual e o fato de a saúde ser o resultado de políticas sociais e econômicas que reduzem o risco de doença são os princípios essenciais que vão informar todas as ações e serviços de saúde (SANTOS. tendo posição de destaque na Constituição como um direito fundamental social (SCHWARTZ." Diante disto.49 exigibilidade e atribuindo-lhe o caráter de serviço público essencial. Na ordem jurídica brasileira. da Constituição Federal de 1988. 3. neste aspecto é eivado de aplicabilidade imediata e eficácia plena. a estruturação do Sistema Único de Saúde para garantir o restabelecimento do status saúde. os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

Surge. De igual modo. da Constituição especifica cinco direitos fundamentais básicos: vida. p. Portanto. Em . igualdade. daí resultando a existência de direitos correlatos. Conclui.50 como os valores mudam conforme a visão de mundo de cada um. conduzirá a um lugar comum. Em relação à dignidade humana como fonte de direitos prestacionais. variável e até mesmo antagônica. então. os direitos fundamentais se apresentam como uma espécie de trincheira na salvaguarda da dignidade da pessoa humana. quer passiva (o dever). direta ou indiretamente. que constituem o fundamento de todos os demais direitos consagrados no texto Constitucional. consagrando o dever do Estado ou contemplando o direito do homem. que todos os direitos e garantias diretamente vinculados a um dos cinco direitos fundamentais básicos constantes do art. a ele alcançarão. é pertinente a seguinte indagação: qual o critério mais razoável para a aplicação e para a interpretação de tal princípio? O reconhecimento do caráter normativo do princípio da dignidade da pessoa humana. segurança e propriedade. liberdade. Assumindo a Constituição o status de pedra fundamental da organização política. em maior ou menor medida. 5º. mas de forma indefectível. Assim. sendo o homem o centro da referida organização. alcançará a Constituição efeitos axiológicos paritários. 2002) Retoma-se a questão já proferida: qual o papel dos direitos fundamentais face ao princípio da dignidade humana? O papel dos direitos fundamentais é salvaguardar a existência e a dignidade humana. Assim. (KELL. quer se parta de uma posição ativa (o direito em sentido lato). todos os direitos nela consagrados serão oponíveis. desde que preservada a sua essência. ao Estado. 5º. 115-123) observa que “o art. a aplicação e a interpretação desse princípio têm-se mostrado. caput são considerados direitos fundamentais e que os demais compõem apenas o quadro dos direitos constitucionais. outra indagação: quais são os direitos fundamentais cuja função é esta? A eminente jurista Maria Garcia (2002. especificamente direcionada aos direitos sociais. caput. muitas vezes. quaisquer deveres imputados ao Estado. assumirá ela ares de exceção.

a um só tempo. consoante os valores vigentes no grupamento. um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano. o difundido vetor principiológico da dignidade assume maior concretude e. 1997. ao Estado e à sociedade. p. Nesse caso. mantendo a condição de ratio decidendi. ainda que deslocada a uma posição secundária e alçada à condição de mera argumentação. devendo ser tratado sempre como o fim de todas as coisas e não como o meio. esmiúçam a idéia de dignidade e têm a sua interpretação por ela direcionada. que fixará suas condições e dimensões. 2003. consoante a situação específica. 395). enquanto núcleo essencial do direito fundamental que alicerça uma pretensão de ordem prestacional. Todavia. não como fundamento principal à configuração do direito subjetivo a essa prestação.60) O homem. p. merece do Estado e dos demais indivíduos da sociedade. O direito à existência digna não é assegurado apenas pela não abstenção do Estado em afetar a esfera patrimonial das pessoas sob a sua autoridade. Passa também pelo cumprimento de prestações positivas. implicando. bem como a respectiva fonte de custeio das prestações dela derivadas (ZIPPELIUS. todo o respeito e consideração. ser social. além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos (SARLET. pressupondo. Dignidade é a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade. neste sentido. Os direitos fundamentais. do que resulta uma simbiose que não é passível de ser dissolvida. Essa constatação talvez justifique o fato de a dignidade humana.51 regra. No entanto. pode assumir o status de direito subjetivo. consubstanciador da dignidade. não há óbice à sua invocação direta com o fim de alicerçar pretensões dessa natureza. a intermediação do legislador. a dignidade humana não costuma ser interpretada como diretamente invocável a partir de normas constitucionais. a dignidade humana não se dissocia de seu caráter estrutural. como veremos. Não foi à toa que a nossa Lei Fundamental impôs. tratando-se de prestações que se enquadrem. em um núcleo. essencial e incontestável. a realização . como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável. deva ser normalmente invocada em caráter subsidiário. ante o seu acentuado grau de indeterminação.

proteção e recuperação (art. 201). Diante do que já vimos. devendo ser reconhecida. e) garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção. 203). promovida e protegida. b) amparo às crianças e adolescentes carentes. 194). englobando: a) cobertura dos eventos de doença. realizadas mediante políticas sociais e econômicas que objetivam a redução dos riscos de doença e de outros agravos. respeitada. ou de tê-la provida por sua família. a qual engloba necessariamente respeito e proteção da integridade física e emocional (psíquica) em geral da pessoa. d) habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiências.38) . incumbe-se ao aparato estatal a prestação de assistência social quando necessitarem (art. destinada a assegurar a prestação dos direitos inerentes à saúde. Não podem ser esquecidas. especialmente à gestante. com a sua integração à vida em comunidade. 196). c) proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário. àqueles não filiados à previdência social. Da mesma forma. sem a qual o sentido de justiça humana se esvai. invalidez. consistindo nas seguintes prestações: a) proteção à família. É qualidade integrante e irrenunciável da condição humana. b) proteção à maternidade. por isto um ser dotado de uma dignidade. as ações no campo da saúde. à maternidade. garantindo-se o acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção.742/93. morte e idade avançada. e) pensão por morte. à infância. com vistas a suprir os rendimentos do trabalhador por ocasião das contingências da vida gregária (art. tendo sua regulamentação advindo com a Lei 8. Para Barroso (2003. à adolescência e à velhice. salário-família e auxílioreclusão para os dependentes do trabalhador de baixa renda. à previdência e à assistência social. Ao Estado cabe.52 de ações integradas para a implementação da seguridade social (art. c) promoção da integração ao mercado de trabalho. então. impera afirmar que o homem é um ser de valor absoluto. organizar e manter sistema previdenciário. p.

envolvendo aspectos dos direitos individuais. formando os juristas de uma nova escola de pensadores e hermeneutas. Há. é em atenção ao princípio da dignidade humana que se reconhecem e se garantem direitos fundamentais. ambientais). e mudou para sempre. políticos. quando advieram os direitos fundamentais da segunda.221). Foi o reconhecimento da dignidade humana. da terceira e da quarta gerações e a reflexão constitucional passou. 2001. de compatibilização teórica. Suas postulações fizeram o princípio deslocar a regra. não há dignidade. e assim logrou estabelecer o primado da dignidade da pessoa humana como esteio de legitimação e alicerce de todas as ordens jurídicas fundadas no argumento da igualdade. É em 1 Paulo Bonavides assim destaca “ o primado da dignidade da pessoa humana” no Estado de Direito democrático: “. que é o acesso à justiça. O mínimo existencial comporta variação conforme a visão subjetiva de quem o elabora. pode-se dizer que foi o reconhecimento da dignidade humana.53 Dignidade da pessoa humana expressa um conjunto de valores civilizatórios incorporados ao patrimônio da humanidade. é em atenção ao princípio da dignidade humana que se reconhecem e se garantem direitos fundamentais. Igualmente. no valor da justiça e nas premissas da liberdade. a legitimidade a legalidade. também aristotélica. Cabe a este promover a efetividade dos direitos fundamentais em todas as modalidades que se apresentam (civis. sociais. a Constituição a lei. Teoria Constitucional da Democracia Participativa. em forma de princípio fundamental do Direito Constitucional e do Direito Internacional dos Direitos Humanos. O Estado Democrático de Direito tem em sua base o princípio da dignidade humana para sustentá-lo e orientá-lo no exercício do poder. que concretizam o Estado de Direito”. p. É em respeito ao pleno desenvolvimento da personalidade humana que o direito à saúde merece a qualificação de direito fundamental.Mas tudo mudou. O conceito jurídico do princípio vem associado aos direitos fundamentais. Seu conteúdo material elementar é composto do mínimo existencial. Em síntese. (Cfme.1 em forma de princípio fundamental do Direito Constitucional e do Direito Internacional dos Direitos Humanos. de modo a assentar-se este sob as bases daquele princípio.. . Aquém daquele patamar. BONAVIDES.. mas parece haver consenso de que inclui: renda mínima. numa hora feliz. ainda quando haja sobrevivência. indispensável para a exigibilidade e efetivação dos direitos. culturais. para o outro pólo – o da vertente tópica. que levou à instituição do Estado Democrático de Direito. Igualmente. ainda. saúde básica e educação fundamental. políticos e sociais.o conjunto de bens e utilidades básicas para a subsistência física e indispensável ao desfrute da própria liberdade. Paulo. São Paulo: Malheiros. que levou à instituição do Estado Democrático de Direito. um elemento instrumental. econômicos.

em contexto assemelhado (Pet. 442). 5º. perdendo até mesmo a sua razão de ser”. A dignidade humana e os direitos fundamentais vêm a constituir os princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. caput e art. ou fazer prevalecer. à saúde e à dignidade humana devem prevalecer. 1º. p. 196). Sabe-se que a promoção do direito de todos à saúde enfrenta grandes desafios e sérias dificuldades no campo de sua concretização. torna-se o “fio condutor de toda a ordem constitucional.246-SC). No mesmo sentido é o pensamento de Flávia Piovesan (1998. que. . Cabe ressaltar que os direitos à vida. que se qualifica como direito subjetivo inalienável assegurado pela própria Constituição da República (art. p. quando do exercício da Presidência do Supremo Tribunal Federal. ao programa de distribuição gratuita de medicamentos. Inquestionável que este avanço constitucional pertinente ao direito à saúde relaciona-se à proteção igualmente constitucional da dignidade da pessoa humana. contra essa prerrogativa fundamental. um interesse financeiro e secundário do Estado. cuja parte final transcreve-se: Entre proteger a inviolabilidade do direito à vida. ainda que em detrimento de gastos públicos. 1. III – impõe-se como núcleo básico e informador do ordenamento jurídico brasileiro. notadamente daqueles que têm acesso. entendo – uma vez configurado esse dilema – que razões de ordem éticojurídica impõem ao julgador uma só e possível opção: aquela que privilegia o respeito indeclinável à vida e à saúde humana. para quem o valor da dignidade humana – ineditamente elevado a princípio fundamental da Carta. nas palavras de Sarlet (2004. nos termos do art. sem o qual ela própria acabaria por renunciar à sua humanidade. por força de legislação local. 34). conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico brasileiro. instituído em favor de pessoas carentes. como sabiamente já decidiu o Ministro Celso de Mello. como critério e parâmetro de valoração a orientar a interpretação e compreensão do sistema constitucional instaurado em 1988.54 respeito ao pleno desenvolvimento da personalidade humana que o direito à saúde merece a qualificação de direito fundamental.

3 A possibilidade de efetivação do direito à saúde no Brasil sob o enfoque da CF/88 e da Lei 8080/90 Como resultado das lutas e mobilização da sociedade brasileira. rel. ROMS no 11. com assento no art. hipótese não contemplada na respectiva lei de regência: 1a T. em 09/04/2002.777/PR. em 22/08/2000. foi decidido que "o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. 1o. em 04/12/2003. 138.. 3.. as propostas defendidas pelo 2 1a T. o Superior Tribunal de Justiça. 20 da Lei n 8. Nesse precedente. RSTJ no 156/102). DJ de 08/03/2004. "a lei deveria ser interpretada de forma mais humana. à vida e à dignidade humana. incorporou de forma parcial. e deve se materializar em todos os documentos legislativos voltados para fins sociais. considerando o direito à saúde um direito fundamental e realçando o fortalecimento da jurisprudência dos Tribunais Superiores no sentido de reconhecer o dever de o Estado diante de salvaguardar a saúde e as condições mínimas à sobrevivência de pessoas carentes. no 560.026/PR. III. em 23/05/2000. devendo-se ressaltar o atendimento das necessidades básicas do cidadão" 2. a Constituição Federal. No mesmo sentido. REsp. em que princípios de ordem ético-jurídica conduzam ao único desfecho justo: decidir pela preservação da vida. rel. teleológica. José Delgado. Min. rel. no 249. a invocação da dignidade da pessoa humana serviu de nítido vetor interpretativo.. p. que deve ser buscado com a maior otimização possível." tendo acrescido a necessidade de serem sopesados "preceitos maiores insculpidos na Carta Magna garantidores do direito à saúde. RSTJ no 138/52. deve ser entendido como um direito social fundamental. j. Eliana Calmon. passando ao largo do caráter programático das normas constitucionais que o consagram. como a lei que instituiu o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço". j. o direito à saúde perante os dispositivos da nossa Carta Magna.036/90 e autorizar o levantamento do FGTS para a reconstrução da casa própria parcialmente destruída por enchente (1a T. é fundamento do próprio Estado Democrático de Direito.. Nesse último acórdão. José Delgado. Luiz Fux. da CF/88.183/PR. 234). rel. j. à luz das peculiaridades do caso. que constitui a República Federativa do Brasil. Min. A dignidade o humana também foi invocada para o fim de identificar a teleologia do art. autorizando o levantamento de verbas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para fins de tratamento de portador do vírus HIV.55 No Brasil. Min. p. Isto posto. Ressaltou que. j. bem como para permitir a aquisição de aparelho auditivo para a filha menor (2a T. . REsp. condenou o Estado ao cumprimento desse dever. Min. eis que se configura na preservação da vida e no respeito à dignidade humana. DJ de 26/06/2000.

sem prejuízo dos serviços assistenciais (art. cuja leitura combinada dos arts. O dever do estado de garantir o direito à saúde a todos os brasileiros far-se-á. 196. devendo ser universal e igualitário o acesso às ações e serviços de saúde. I e III): traduzido na distribuição de responsabilidades pelas ações e serviços de saúde entre os vários níveis de governo. que buscam eliminar ou controlar as causas das doenças e agravos. 194. caput): como direito de todos. c) atendimento integral. com prioridade para as atividades preventivas. 196 da Carta Máxima: "mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e assegurem o acesso universal (princípio da universalidade) e igualitário (princípio da equidade) às ações e serviços para a promoção. VII. . como habitação. Dentre as políticas sociais e econômicas se inclui a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). com participação da comunidade (art. 194. b) caráter democrático e descentralizado da administração. 198. incluindo ações de saneamento básico. a saúde não requer nenhum requisito para sua fruição. proteção e recuperação da saúde".56 movimento da Reforma Sanitária Brasileira e consolidadas na 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986). art. 196 e 198 da Constituição Federal permite a definição dos princípios informadores desta política pública de saúde. imunizações. II): significa garantia de acesso a ações de promoção. de recuperação. de proteção/prevenção de riscos e exposições a doenças. 198. conforme já mencionado pelo art. favorecendo medidas de vigilância epidemiológica. reconhecendo a saúde com um direito de todos e dever do Estado e instituindo o SUS . meio ambiente. vigilância à saúde e sanitária. 198. caput): este princípio permite um conhecimento maior dos problemas de saúde da população de uma área ou região delimitada. d) regionalização e hierarquização (art. educação. art.Sistema Único de Saúde. 194. ações coletivas e preventivas. I. envolvendo também as ações em outras áreas. Vejamos: a) universalidade (art.

A outra metade (50%) são representantes dos usuários (SCHWARTZ. tendo em vista que a redução de doenças e outros agravos dá-se mediante ações sanitárias preventivas. também a proteção. As ações e serviços ofertados pelo SUS devem estar de acordo com as políticas e diretrizes aprovadas pelos Conselhos de Saúde (Conselho Nacional de Saúde. na sua efetivação. Por imposição constitucional o dever do Estado vai além da promoção da saúde. todo e qualquer cidadão.080/90. posto que "a Constituição vigente não isentou qualquer esfera de poder político na obrigação de proteger. 2004).) é de responsabilidade da União. Conselhos Estaduais de Saúde. é do Estado como um todo." Entendimento preconizado pela Carta Máxima em seu artigo 23. a Lei da Saúde. na esfera municipal). interpretação que está muito bem expressa nos direitos equivalentes do art. planejamento e programação de como se dará a execução de ações e serviços do Sistema Único de Saúde. dos profissionais (ou trabalhadores) da saúde e dos prestadores de serviços. 3 º da Lei n º 8.. também prevista na Lei 8080/90 impulsiona cada esfera do Estado a atuar dentro de suas diretrizes e atribuições permitindo maior êxito na efetivação do direito à saúde. na esfera estadual. devem também exprimir um acesso igualitário e universal para qualquer ser humano. na esfera federal. Esta descentralização. em seu art. Não pode ser esquecida. Tais políticas sociais e econômicas. não se limitando à cura e prevenção de doenças. A competência para o direito sanitário. através de ações que interliguem os seus princípios. do Distrito Federal e dos Municípios. dos Estados. Por conseguinte. elevando a qualidade de vida. bem como a recuperação da saúde enquanto política social e econômica (HUMENHUK. 2004).57 Interpretando minuciosamente a legislação Maior. organizar o Sistema Único de Saúde (SUS). mas modificando o tecido social. diretrizes e normas através de políticas sociais e . inciso II. direito de ser atendido pelo Sistema Único de Saúde. observa-se que as políticas sociais e econômicas determinam uma atuação estatal preventiva. assim. trata de explanar a forma de organização. Metade (50%) dos Conselheiros de Saúde são representantes do governo. (. 18.. defender e cuidar da saúde. inclusive o estrangeiro tem o direito à saúde. e Conselhos Municipais de Saúde. fazendo com que o mesmo seja acessível e igualitário. Tais políticas têm por objetivo.

58 econômicas. nada mais é do que a descentralização prevista pela Carta Máxima (art. Ante o exposto. estava sendo arrecadada para fomentar o atendimento de necessidades urgentes no setor. No entanto. evidenciam as necessidades locais e as particularidades de cada região. designando todo o Estado Democrático de Direito para com o cidadão. 2004). visto que se as políticas impostas pelo Estado na área da saúde fossem suficientes para efetivação e conseqüente aplicação da prestação sanitária. as quais exprimem a primeira forma de efetivação. diante da realidade apresentada pela saúde brasileira e veiculada na mídia. 198. posto que cancelada. Há ressalvar. é uma política econômica que abandona o cenário brasileiro resultando em uma defasagem sensível à efetivação da saúde. já enfatizado por Hesse (1991). é quase inquestionável que a arrecadação deste montante não foi destinada à saúde ou foi de forma insuficiente. Bem ou mal aplicada. A efetivação do direito à saúde perpassa pelas políticas sociais e econômicas. os municípios passam a desempenhar papel de destaque com a descentralização da saúde. Assim. uma vez que. ou se realiza o direito à saúde. vontade política de fazer valer os ditames constitucionais. ou se desrespeita a dignidade humana. que elevariam o orçamento federal da saúde em aproximadamente 30 %. A municipalização da saúde. Cabe ressaltar uma forma encontrada pelo governo Brasileiro para tentar amenizar/sanar o problema da efetivação da saúde: a CPMF. (Relatório da OMS: A saúde no Brasil). percebe-se uma nova interpretação constitucional no dever dos municípios quanto à prestação de serviços em saúde. I). Assim sendo. também. a falta de "vontade de Constituição".8 bilhões de dólares. desnecessária a necessidade de outras organizações e atividades com função de reparar a inércia estatal para com a saúde (SCHWARTZ. . sempre com intuito de alcançar a efetivação da saúde como meio para uma qualidade de vida. que desde janeiro de 1997. Com essa contribuição se esperava arrecadar cerca de 4. a Constituição e a vida.

à soberania e à cidadania não o possa usufruir pela falta de norma regulamentadora que torne inviável o seu exercício. Inciso LXXI e é utilizado sempre que o titular dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. na defesa dos direitos sociais. e que nenhum dos entes federados componentes da República Brasileira pode eximir-se de tal obrigação. (.. Como é interposto pelo próprio titular do direito. há falar em algumas ações capazes de efetivá-los: os remédios constitucionais. É a ação civil pela qual qualquer pessoa pode provocar o controle jurisdicional quando sofrer lesão ou ameaça de . p. a omissão da norma regulamentadora. visando sanar. ilegalidade e abuso de poder em prejuízo de direitos e interesses individuais” (SILVA. no caso concreto. a Constituição Federal. 2003.59 Conforme ensina o prof. determina que os Poderes Públicos têm responsabilidade na área da saúde. exige uma solução para o caso concreto e é o próprio Poder Judiciário que supre. através de inúmeros artigos que tratam da matéria. que se tenha vontade política para promoção. Por remédios constitucionais entende-se todos “os meios postos à disposição dos indivíduos ou cidadãos para provocar a intervenção das autoridades competentes. A condição primordial para o desenvolvimento de qualquer regime democrático é a vida do ser humano. especificamente os prestacionais. que não pode ser colocada em segundo plano por distorções ideológicas que têm como grande objetivo disfarçar os reais e egoísticos interesses implícitos em ditas falas. corrigir.. recuperação e defesa da saúde.) A saúde não pode estar condicionada a discursos vago. promessas políticas e ideologias cambaleantes. portanto. b) Mandado de Segurança Individual.420). Aplicam-se à saúde os seguintes: a) Mandado de Injunção. Perante esta falta de “vontade de Constituição” e inércia estatal. não atuando e investindo somente nos interesses econômicos em detrimento aos direitos sociais. Schwartz(2004): Mesmo que o direito à saúde necessite dos meios materiais necessários para sua efetivação. Suficiente. Sua previsão constitucional está no artigo 5°.

ao patrimônio histórico ou cultural. independentemente de demonstração de ilegalidade. A imoralidade se constitui em fundamento autônomo para propositura da ação popular. responsável por dano ou ameaça de dano a interesse difuso ou geral. 5º. Distrito Federal e Municípios. ao patrimônio artístico. funcionários ou administradores que houverem autorizado. É utilizável apenas para a defesa de interesse coletivo (não a soma de interesses individuais. É uma inovação da Constituição de 1988. em decorrência de ato de autoridade (alguém dotado de parcela do poder público). paisagístico ou outros . 5º. à moralidade administrativa. Entidade de Classe ou Associação legalmente constituída. d) Ação Popular. O sujeito passivo é qualquer pessoa. aprovado ou ratificado ou praticado ato lesivo. histórico.60 lesão a direito líquido e certo. 5º. nos termos da lei civil. ao patrimônio público. Fundações e Sociedades de Economia mista bem como as Associações que estejam constituídas há pelo menos um ano. pelas autoridades. física ou jurídica pública ou privada. a União. LXIX e LXX). Pode ser proposta em caso de lesão ou ameaça de lesão a interesse difuso ou coletivo que abrange a proteção do meio ambiente. Os pressupostos são os mesmos previstos para o Mandado de Segurança Individual. ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural. Visa anular ato emanado pelas pessoas jurídicas públicas ou privadas. e incluam entre as suas finalidades institucionais. não amparado por habeas corpus nem habeas data. as Autarquias. a proteção do meio ambiente. à ordem econômica. Podem manejar esta ação. ao consumidor. LXXIII) e) Ação Civil Pública. o Ministério Público. Empresas Públicas. à ordem urbanística ou a qualquer interesse que possa enquadrar-se como difuso ou coletivo. Qualquer cidadão (brasileiro nato ou naturalizado) no gozo dos direitos públicos é parte legítima para propor ação popular (Art. praticado com ilegalidade ou abuso de poder (Art. estético. mas aquele que pertence ao todo) (Art. ao consumidor. em defesa dos interesses de seus membros ou associados. no entanto pode ser impetrado por partido político com representação no Congresso Nacional ou Organização Sindical. LXIX). c) Mandado de Segurança Coletivo. os Estados.

por força constitucional e infraconstitucional. RESPONSABILIDADE DO ESTADO. como defensor dos interesses da sociedade. 5º. que alcança como devedor qualquer dos entes federativos.) (MSE n º 597258359. dos direitos fundamentais sociais de caráter prestacional. incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica. A ação ministerial respalda-se na propositura da ação civil pública e promoção de inquéritos policiais na defesa do direito à saúde. porém está inserida no rol do chamado “direito de petição” – (Art. O direito à saúde. FORNECIMENTO DE EXAMES E MEDICAMENTOS ESSENCIAIS À SAÚDE E VIDA DO IMPETRANTE. julgado em 17/03/2000). tendo em vista o interesse difuso e coletivo. do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis (art. Relator: Des. Há que lembrar da importância do Ministério Público. Henrique Osvaldo Poeta Roenick. medicamentos e aparelhos essenciais e indispensáveis à saúde e à própria vida do impetrante. Internação hospitalar. A participação do Ministério Público na elaboração das políticas públicas passa. deve tomar as medidas necessárias para a adoção. o fornecimento de exames. em conjunto com os Poderes Executivo e Legislativo. pelo Estado. O Ministério Público é instituição permanente. CF/88). DIREITO CONSTITUCIONAL. primeiramente pelo conhecimento da realidade de cada um dos Municípios.61 interesses difusos e gerais. TJRS. 127. ofensivo a direito líquido e . para que possíveis falhas sejam devidamente corrigidas. buscando. Aplicabilidade imediata dos princípios e normas que regem a matéria. (A ACP não tem previsão constitucional específica. Apoiando-se a internação em direito subjetivo constitucional. Conselhos de Gestão e sociedade civil organizada definir prioridades. PROTEÇÃO À SAÚDE. em especial. Preliminar de ilegitimidade afastada. pela nova ordem constitucional foi elevado ao nível dos direitos e garantias fundamentais. É dever e responsabilidade do Estado. Vejamos: MANDADO DE SEGURANÇA. Estados e da União no que concerne ao atendimento aos direitos sociais. indicando a melhor forma de fazer com que os orçamentos públicos contemplem recursos suficientes para tanto. XXXIV). Primeiro Grupo de Câmaras Cíveis." (9 fls. essencial à função jurisdicional do Estado. sendo direitos de todos e dever do Estado. das políticas públicas voltadas à realização dos direitos fundamentais. Segurança concedida.

e dever do Estado fornecer. Dentre os vários temas discutidos na atualidade. Primeiro Grupo de Câmaras Cíveis. Relator: Tupinambá Miguel Castro do Nascimento. depois de esgotadas outras instâncias. Segurança concedida. Como sabemos. Por outro lado. .) (Mandado de segurança n º 70000696104. e principalmente da saúde. MANDADO DE SEGURANÇA. Questiona-se. A busca da efetivação dos direitos sociais. deve levar o Ministério Público à realização do acesso dos direitos fundamentais a milhões de pessoas que vivem à margem do direito. Mandado de Segurança concedido. 2004). de segurança pública. ( 7 fls. TJRS. O Ministério Público também atua como potencializador do controle social. se o Ministério Público deve atuar na elaboração das políticas públicas. pode buscar a tutela jurisdicional visando o cumprimento das políticas públicas. na fiscalização alfandegária. até que ponto o Ministério Público. Primeiro Grupo de Câmaras Cíveis.62 certo do impetrante e a negativa. o campo de discricionariedade do Chefe do Poder Executivo no cumprimento das políticas públicas é bastante amplo. O caminho do Ministério Público. (Mandado de Segurança n º 597267608. TJRS. já que defende o direito à saúde também em conjunto com os Conselhos de Saúde. por mais que a superestrutura estatal esteja satisfatoriamente aparelhada para se desincumbir destes encargos sociais. deve também. MEDICAMENTOS. medicamentos excepcionais e indispensáveis à sobrevivência quando não puder prover o sustento próprio sem privações. Julgado em 18/06/1999). Relator: Desembargador Arno Werlang. não possui natureza impositiva. também deve ter ao seu alcance instrumentos eficazes na busca do cumprimento das políticas já formuladas. atualmente. 2004). o de efetivação da saúde pública (HUMENHUK. É direito do cidadão exigir. Isto porque. pela via processual ou extraprocessual. gerando resultados positivos no que tange à fiscalização das ações e omissões estatais (HUMENHUK. da infra-estrutura de transportes. na área educacional. SAÚDE PÚBLICA. insere-se aquele atinente à capacidade limitada do Poder Público de prover todas as necessidades ilimitadas da coletividade. Quer no campo. como instituição da sociedade. Julgado em 05/05/2000). sobretudo diante do fato de que o orçamento.

os responsáveis pela representação judicial dos entes estatais. Assim. por mais que uma norma jurídica esteja inserida no próprio Texto Constitucional. Não há como se fugir da . com um ingente prejuízo para o funcionamento das estruturas governamentais. Que procura estabelecer alguns marcos regulatórios para a emissão de ordens judiciais. ademais.133). Motivo pelo qual sua concretização estaria vinculada ao montante de aportes financeiros. é dada pela adoção do princípio da reserva do possível. econômicos e culturais deve ser examinada segundo os parâmetros desta “reserva do possível”. Com efeito. cumpre que os Órgãos Jurisdicionais atentem para a circunstância de haver ou não meios materiais disponíveis para sua concretização. pois estão intimamente dependentes dos recursos econômicos necessários para sua efetivação. ninguém poderá ser forçado a cumprir suas diretrizes. para quem a plena realização dos direitos sociais. caso contrário. Posto que. Capaz de impedir que estas situações viessem a se concretizar. Pois. ela somente poderá alcançar sua efetividade se estiverem presentes as condições fáticas e jurídicas capazes de lhe conferir esta eficácia. p. de alguma forma. para a implementação de certas diretrizes legais (sejam constitucionais ou infraconstitucionais). capazes de serem mobilizados para o cumprimento desta finalidade. na ausência deste contexto favorável e imprescindível à sua realização. por mais nobre que fosse a intenção do mandamento legal. Como.63 dificilmente terá condições de promover um atendimento integral a todos aqueles que. principalmente no que tange àquelas que exigirão iniciativas positivas (ativas) e materiais do Estado. no caso. Solução que. bem esclarece Canotilho (2003. Inúmeras decisões judiciais vêm obrigando os entes governamentais a fornecerem determinados medicamentos. cujos aportes financeiros para efetuar tais pagamentos chegam a alcançar cifras astronômicas. passaram a procurar argumentações alternativas que pudessem apresentar uma solução jurídica aceitável. necessitam do suporte dos Poderes Públicos. ou a executarem procedimentos médicos. tendentes a obrigar o Poder Público a dar efetividade a certa categoria de prerrogativas instituídas em favor das pessoas em geral.

funciona como pressuposto de vida. à sociedade organizada ver o direito à saúde efetivado. de modo a. Desta forma. cabe ao Estado contemplar no orçamento dotações específicas para tal finalidade. É claro que. neste caso. num determinado espaço de tempo (cinco ou dez anos). tratar-se-ia de exigir do Poder Público o cumprimento da lei orçamentária que contenha as dotações necessárias (evitando.64 constatação de que a concretização dos direitos previstos nas legislações demandam – quase sempre – um determinado custo financeiro. esta deve ser buscada por todos. do acesso ao lazer. das ações civis públicas. assim. Assim sendo. um bom caminho para cobrar a realização progressiva dos direitos sociais é o das ações coletivas. emerge o problema orçamentário. os remanejamentos de recursos para outras finalidades). à educação. resolver o problema do acesso do cidadão a esses direitos. . ao se afirmar que vivemos em um Estado Democrático de Direito e que a saúde. Nos ensinamentos de Cléve (2004). Tratar-se-ia de compelir o Poder Público a adotar políticas públicas para. neste aspecto. Cabe. resolver o problema da moradia. Sem esquecer que o orçamento é lei que precisa ser cumprida pelo Poder Executivo. Entretanto. num prazo determinado. especialmente. portanto.

mas certamente representa um grande avanço em termos de Constituição de um Brasil moderno.65 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo se propôs a abordar o problema da Seguridade Social e a efetivação do direito à saúde no Brasil. . esbarrando apenas em pressupostos fáticos. grandes foram as conquistas em termos de proteção social no decorrer da histórica. Assim. assentada no bemestar e na justiça sociais. O ordenamento normativo constitucional não é perfeito. A Saúde. Entretanto o mesmo não está sendo considerado e efetivado conforme preconizado nos dispositivos constitucionais que o permeiam. buscando vislumbrar algumas alternativas para sua consecução. que com muito luta e empenho serão batidos. bem como selecionando e distribuindo suas prestações de forma a atingir o ideário do sistema de seguridade social. abrangendo o maior número possível de protegidos. ainda que não arraigada com técnicas de medidas preventivas. a passos largos. enquanto que hoje se caminha. também delineou importante evolução. Face aos referenciais teóricos analisados. para o ideário da Seguridade Social. já que se adota como ideário um modelo de proteção social assentado na proposta da Seguridade Social. assim destacado e amparado em nossa Lei Maior. pois há menos de um século não se tinha sequer a garantia efetiva do Estado quanto às prestações de assistência social. como uma das facetas desse sistema de Seguridade Social. conclui-se que o direito à saúde se consubstancia em um verdadeiro direito fundamental social e direito público subjetivo.

nas políticas públicas que envolvem a saúde. No entanto. A finalidade é propiciar o enfrentamento e a resolução de problemas identificados. . pela articulação de saberes e práticas com diferenciados graus de complexidade tecnológica.resultando um tecido social permeado de mazelas. O pacto federativo brasileiro é fortalecido e fomentado pela presença e pela atividade do município. por interesses particulares . que se pretende demonstrar a relevância da efetivação do direito à saúde. de que saúde era sinônimo de ausência de doenças não mais se justifica perante os preceitos do Estado Democrático de Direito brasileiro. tornando a saúde um direito fundamental de difícil efetivação. o SUS. em algumas administrações municipais. Considerado pela nossa Carta Máxima. Enfatiza-se o Programa de Saúde da Família. em especial. O direito à saúde é um direito do indivíduo frente ao Estado. outrora defendido.66 É diante da atual concepção de saúde. o direito à saúde é elevado à condição de princípio constitucional de justiça social. bem como direito daquele frente aos demais de sua espécie. A política social e econômica assinalada pela Constituição Federal para a efetivação do direito à saúde no Brasil é o Sistema Único de Saúde (SUS). Neste sentido. após a promulgação da Constituição Federal de 1988. submetida a várias alterações ao longo da história. deve ser aplicado tanto na função de defesa. como política não consegue alcançar seus objetivos constitucionais devido a uma série de descasos do Poder Público – há detrimento de interesses sociais. criado pelo Ministério da Saúde em 1994. como na função de proteção e prestação. dever do Estado (compreendido em todas as suas esferas). Percebe-se que o conceito. integrando distintos campos do conhecimento e desenvolvendo habilidades e mudanças de atitudes nos profissionais envolvidos. que apresenta características estratégicas para o Sistema Único de Saúde (SUS) e aponta possibilidades de adesão e mobilização das forças sociais e políticas em torno de suas diretrizes. Isto possibilita integração e organização das ações de saúde em território definido.

Estados e Distrito Federal) e a sociedade da co-responsabilidade pela saúde.RESP nº249. A municipalização da saúde. neste caso. DJ. porém não o único. VII) e na Lei Federal 8. caput). Tendo em vista as particularidades dos casos em concreto. estabelecida na Constituição Federal (Artigo 30. Rel. Rel. posto que. Mas. (CF. Por óbvio que este não pode ser o raciocínio aplicado. sobretudo perante preceitos . por outro lado. considerá-la tendo-se em vista a intenção do legislador. a jurisprudência vem se fortalecendo no sentido de emitir preceitos pelos quais os necessitados podem alcançar o benefício almejado (STF. o que significa dizer que os municípios assumem a responsabilidade total pela gestão do sistema de saúde em seu território. logo um direito de defesa do indivíduo. à letra fria da lei.67 Aceitar a idéia de que a prestação estatal positiva em favor da saúde humana está condicionada à existência de recursos nos cofres públicos. Diante da negativa/omissão do Estado em prestar o atendimento à população carente. instrumento para a preservação da vida humana. Min. Marco Aurélio.Min.11/05/99.026/PR.080 (Artigo 7°. teleológica. José Delgado. a municipalização não exime os demais poderes públicos (União. é o mesmo que afirmar que o direito existe somente no plano formal e. em que princípios de ordem ético-jurídica conduzam ao único final justo: decidir pela preservação da vida. o direito à saúde é uma manifestação da própria vida. Ou seja.328/RS. mais. há de ser observado o princípio da reserva do possível. Com a municipalização. compreende sob dois aspectos: a habilitação. a). AG nº 238. onde os municípios assumem a gerência das ações e serviços de saúde. Não há aceitar o apego de forma rígida.DJ 26/06/2000). o município passa a ser o responsável imediato pelas necessidades de saúde de seus munícipes. e sim. que não possui meios para a compra de medicamentos necessários à sua sobrevivência. faz-se imprescindível interpretar a lei de forma mais humana. é fulminar a existência e dignidade humana. Artigo 194.STJ. e a descentralização. IX.

saúde bocal. dando ao direito sanitário seu referido valor dentro da Lei Maior de 1988. As ações preventivas em Saúde devem ser fortalecidas. Conclui-se também que podemos falar de Saúde Pública em nosso país. tuberculose. à vida e à dignidade humana. portanto. saúde do adolescente. formando uma rede um trabalho onde. sobre programas como o combate às endemias (dengue. Pelo contrário. As ações preventivas em Saúde não se resumem à implementação de programas sociais. ao mesmo tempo. atendimento ao idoso. .68 maiores preconizados na Carta Magna garantidores do direito à saúde. tampouco são de responsabilidade exclusiva do Estado. sejam através de feiras e oficinas. devendo-se ressaltar o atendimento das necessidades básicas dos cidadãos. especialmente o direito à saúde depende de ações do Poder Público. Conclui-se. DST/AIDS e saúde mulher. controle da hipertensão e diabetes. leishmaniose e gripe aviária). raiva. da sociedade organizada e do Poder Judiciário. a prevenção deve ser realizada através de programas e ações concretas que podem e devem ser levadas a efeito pelos municípios e pela própria sociedade. PSF. ou através da atuação dos agentes comunitários. hanseníase. as comunidades passem a desempenhar um verdadeiro protagonismo. A população carece de orientação. na prerrogativa de fazer valer os dispositivos constitucionais. planejamento familiar. que a efetivação de direitos sociais. embora os obstáculos a sua efetivação decorram da escassez de recursos financeiros e dos interesses de alguns administradores. em especial aos jovens.

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