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A GUERRA EM MOÇAMBIQUE.

- A VISÃO ALEMÃ -

A GUERRA EM TERRA ESTRANHA

Desde a entrada na colónia oriental portuguesa até ao armistício

© DHM
O Kilimandjaro, de Walter
von Ruckteschell

ATRAVÉS DO ROVUMA

Na madrugada de 25 de Novembro de 1917, a nossa guarda avançada passou a vau o


Rovuma, um pouco a montante da confluência do Ludjenda. O grosso da coluna, com nove
companhias, atravessou o Rio durante a tarde daquele dia, seguido pela guarda da retaguarda
à distância de dois dias de marcha. O Capitão Goering, com três companhias, tinha
atravessado o Rio muito mais a jusante, com o fim de surpreender um acampamento
português. Não havia notícias do Capitão Tafel que muito provavelmente viria a alcançar o
Rovuma muito mais para Oeste.

Não tínhamos esperanças de qualquer apoio e, com a incerteza absoluta da sorte que nos
esperava, havíamos chegado aquele estado de espírito popularmente conhecido como
«allgemeine Wurchtigkeit» (completa indiferença). E assim, despreocupados com a situação
táctica, os nossos caçadores prosseguiam na sua útil tarefa, denunciando-se ao inimigo que,
como mais tarde soubemos, ouvia nitidamente os seus tiros.

Durante a passagem do Rio aproveitaram muitos a oportunidade de tomarem um belo banho,


mesmo às vistas do inimigo, e com tal descaramento que, por vezes, foram necessários
grandes esforços para lhes lazer compreender as exigências que a guerra lhes impunha.
Entrámos em fogo após a nossa chegada à margem sul do Rovuma. A companhia da guarda
avançada teve alguns encontros com patrulhas inimigas e fez algumas baixas. Enquanto as
tropas atravessavam gradualmente o vau e protegiam a travessia das restantes, ocupei as
poucas horas disponíveis em reconhecer a situação. Não muito longe da nossa frente, na
margem do Ludjenda, ouviam-se sinais e distinguiam-se pessoas. Aproximámo-nos mais do
acampamento inimigo, e vimos homens vestidos de branco dum lado para o outro, a ama
distância de algumas centenas de metros. Estavam procedendo à construção de abrigos e
organizando uma coluna de transportes. Estas tropas eram certamente de grande efectivo, e
enquanto pensava na hipótese de as atacar, vejo sair do acampamento inimigo ama coluna de
askaris, fardados de kaki, tomando a direcção clãs nossas forças. Era aproximadamente ama
companhia. Presumindo que o inimigo ia ajuizadamente atacar-nos com o máximo do seu
efectivo enquanto as nossas forças estavam ainda ocupadas na travessia do Rio, corri à
retaguarda e ordenei que as companhias que já o haviam atravessado se estabelecessem em
posição defensiva. Tivemos a felicidade do inimigo não ter aproveitado esta favorável
oportunidade; o inimigo não apareceu, e fiquei novamente a pensar no que havia de fazer.
Tinha dúvidas se, em vista do nosso grande número de carregadores, não seria melhor
expediente marchar em frente do inimigo estacionado em Ngomano e estabelecer-me mais
para montante do rio Ludjenda. Ou o inimigo não nos incomodaria, ou, caso contrário, teria
que sair dos seus entrincheiramentos, resolvendo-se a fazer um ataque difícil. Por outro lado,
não era de todo impossível que um ataque ao acampamento inimigo não viesse a ser bem
sucedido, porque as suas defesas não eram ainda muito fortes. Sabia, além disso, pelos
reconhecimentos, que na margem oposta do rio Ludjenda existia ama faixa de floresta muito
espessa e que chegava até ao acampamento, oferecendo-nos portanto a probabilidade de
cairmos de surpresa sobre o inimigo, atacando-o duma maneiro decisiva Não estava ainda
resolvido a fazê-lo quando o Capitão Muller me convenceu a tomar finalmente aquela
decisão, que apesar de muito arriscada nos fornecia a perspectiva dum sucesso completo, há
tanto tempo desejado: a captara de munições e de material de guerra, que para nós constituía
uma necessidade urgente. Não havia, pois, tempo a perder.
Através da África Oriental Portuguesa
O ataque fez-se, por consequência, enquanto
parte das forças estavam ainda atravessando o Rovuma. Enquanto a nossa pequena peça de
artilharia de montanha rompia fogo sobre os entrincheiramentos inimigos e, ao mesmo
tempo, algumas companhias o empenhavam de oeste e norte, o destacamento do Capitão
Koehl atravessava o Ludjenda, uma milha a montante de Ngomano, e marchava através da
alta floresta daquela margem, atacando com determinação as posições inimigas pelo sul.
Tomei posição num pequeno cabeço a oeste do acampamento, junto da artilharia. A última
companhia das forças do General Wahle avançava num vale à minha retaguarda para
atravessar o rio. Em frente, observava perfeitamente os entrincheiramentos do inimigo cujas
metralhadoras, funcionando bem; dirigiam por vezes o seu fogo para o nosso cabeço
arenoso, obrigando-me a ordenar a alguns europeus e askaris que se cobrissem por estarem
demasiadamente expostos. O timbre nítido das espingardas inimigas que já tínhamos notado
anteriormente, bem como a ausência de morteiros de trincheira, levaram-me a crer que eram
os portugueses os nossos inimigos. Havíamos aprendido a distinguir as detonações das
nossas espingardas «'71» e o ruído sibilante da nossa «S-rifle», da dupla detonação da
espingarda inglesa e o nítido timbre da espingarda portuguesa dum calibre pouco superior a
6 mm. Mesmo os askaris, em pequenas escaramuças haviam notado rapidamente a
velocidade embaraçosa com que os morteiros de trincheira alcançavam as nossas posições.
Não nos podíamos precaver contra os inconvenientes da grande quantidade de fumo
produzido pelas nossas espingardas «'71». Contudo, no caso presente não havia morteiros, e
o fumo traiçoeiro das nossas boas espingardas velhas não nos era tão prejudicial. E depois,
quando elas acertavam de facto no alvo a mossa produzida era sempre de respeito. Deste
modo, os nossos askaris reconheceram rapidamente que neste dia a sua superioridade como
soldados compensaria facilmente a inferioridade das suas armas. «Hoje é o dia das velhas
espingardas!» - gritavam eles aos chefes alemães – e da minha posição vi dentro em pouco a
linha de atiradores do destacamento de Koehl carregar em filas cerradas os
entrincheiramentos inimigos e tomá-los. Foi este o sinal de ataque para as outras frentes.
Carregaram por todos os lados o inimigo que era abalado com violência pela densidade do
fogo.

Do seu efectivo de 1.000 homens não sobreviveram mais que 200. Na ânsia do saque, os
nossos askaris lançavam-se cada vez mais violentamente e sem interrupção sobre o inimigo
que fazia fogo ainda! Imagine-se ainda uma multidão de carregadores e moleques que,
aproveitando-se da situação, correram ao acampamento saqueando tudo que encontravam
roubando o que podiam para em seguida deitaram fora em presença de alguma coisa mais
luzente e atractiva. Foi uma horrorosa «melée». Até os askaris portugueses, depois de feitos
prisioneiros, compartilharam da pilhagem feita aos seus próprios víveres. Não havia remédio
senão intervir energicamente. Fiz uso de toda a minha eloquência e, para exemplo, castiguei
pelo menos sete vezes um carregador que eu conhecia, mas que todas as vezes me fugiu para
continuar a pilhagem noutro sítio qualquer. Finalmente consegui restaurar a disciplina.

Enterrámos cerca de 200 mortos inimigos e fizemos 150 prisioneiros que foram postos em
liberdade depois de se terem comprometido sob palavra a não mais combaterem durante esta
guerra, contra os alemães ou seus aliados. Capturámos algumas centenas de askaris, grande
quantidade de medicamentos de valor que tão necessários eram, todos de excelente
qualidade, o que era de esperar pela experiência de séculos dos portugueses em campanhas
coloniais, e ainda alguns milhares de quilos de viveres europeus grande número de
espingardas, seis metralhadoras e cerca de trinta cavalos. Não havia infelizmente víveres
para indígenas. Rearmámos quase metade das nossas tropas com espingardas portuguesas, e
fez-se uma lauta distribuição de munições. Apoderámo-nos de cerca de 250.000
carregadores, número que se elevou a um milhão durante o mês de Dezembro. Soubemos
depois, por documentos apreendidos, que as companhias europeias portuguesas haviam
chegado havia poucos dias a Ngomano, com o fim de executarem uma ordem impossível dos
ingleses de evitar a travessia do Rovuma pelos alemães. Foi realmente um grande milagre
que estas tropas não tivessem chegado a tempo, e tivessem tomado uma posição tão
proveitosa para nós. E foi assim que, dum só golpe, nos libertámos duma grande parte das
nossas dificuldades.

Havia ainda uma grande necessidade a satisfazer e que nos obrigava a avançar
desumanamente: a de procurar alimentação para o nosso grande número de indígenas.
Continuámos para montante do Ludjenda com este fim. Dias após dia, as nossas patrulhas
procuravam guias e provisões, não sendo bem sucedidas a principio. Os indígenas,
normalmente pouco numerosos nesta região, tinham fugido perante o avanço dos
portugueses, receosos da sua rudeza e crueldade e haviam escondido as provisões que
possuíam. E assim, as mulas e os cavalos, um após outro, iam encontrando o seu triste fim no
fundo dos nossos caldeiros. Felizmente este distrito é muito rico em caça, e o caçador
consegue sempre matar uma galinha-do-mato ou qualquer dos numerosos antílopes que ali
abundam.

Embora as nossas colunas de marcha fossem, a principio,


demasiadamente compridas e vagarosas, mais uma vez a
perfeição foi atingida com a prática. Os carregadores, os
moleques, as mulheres e as crianças aprenderam depressa a
conservar o passo e a manter as distancias, tal qual como os
askaris. A coluna serpenteava ao longo de estreitos caminhos
com regularidade e boa ordem, ainda mesmo através do mato
denso e emaranhado e de terras desconhecidas. Faziam-se
geralmente seis horas de marcha por dia, ou seja, cerca de
quinze a vinte milhas, havendo um alto de uma hora depois de
O general cada duas horas de marcha. A maior parte da força estava
Lettow-Vorbeck fraccionada em destacamentos de três companhias, cada um
com o seu trem de víveres e um hospital de campanha. O
destacamento mais avançado precedia o núcleo principal das forças de um dia de marcha à
sua frente, e o mais atrasado, um dia de marcha à retaguarda. À frente de cada destacamento
marchavam as companhias de combate com as suas metralhadoras, e levando consigo
somente as munições e medicamentos necessários, sendo permitido aos europeus
transportarem um volume de coisas mais indispensáveis.

Os askaris marchavam alegremente na frente, direitos como lanças, com as espingardas


invertidas sobre os ombros, como era costume nos regimentos de infantaria. Conversavam
sempre animadamente, e em seguida à pilhagem de qualquer acampamento inimigo que, em
regra, lhes proporcionava boas pechinchas, o fumo dos cigarros surgia de todos os lados. Os
pequenos recrutas sinaleiros alargavam estoicamente o passo, vestidos com o uniforme
askari, e transportando quase todos a sua única riqueza do mundo numa trouxa que
transportavam à cabeça. Ao passo que os askaris exclamavam com gratidão «Jambo Bwana
Obao» ou «Jambo Bwana Generals» («Bom dia, Coronel»), os pequenos sinaleiros
manifestavam a grande esperança de um dia visitarem a Uleia (Europa) e Berlim: «E então o
Kaiser dirá: Bom dia meu rapaz, e depois faço-lhe uma exibição. de sinais. Depois dá-me
carne assada e apresenta-nos com certeza à Imperatriz, que nos dirá também: Bom dia, meu
rapaz, e depois dá-nos bolos e leva-nos a ver as montras das lojas.»

Durante toda esta interessante conversa os askaris conservavam uma vigilância rigorosa, e o
mínimo movimento no mato não lograva escapar aos seus olhos de lince.

A testa da coluna examinava todos os rastos e vestígios, deduzindo destes o efectivo e a


distância provável do inimigo. Os carregadores de metralhadoras estavam igualmente
militarizados. As companhias, como os destacamentos, eram seguidos pelos carregadores
que transportavam víveres, bagagens, material de bivaque, etc. As suas cargas de 25 quilos,
eram levadas simultaneamente aos ombros e à cabeça.

Não obstante o sou trabalho árduo e mortificante, estes homens sentiam-se cada vez mais
ligados às tropas. Quando havia falta de géneros ou os caçadores não eram bem sucedidos,
diziam com simplicidade: «Haiswa'b (não importa), nós esperamos, fica para outra vez».
Muitos marchavam descalços e com os pés ensanguentados. Frequentemente se observava
um deles puxando com prontidão duma navalha para cortar um pedacinho de carne dum pé
já muito ferido, e iniciar seguidamente a marcha sem um queixume.

Os carregadores eram seguidos pelas mulheres e pelos Bibi, tal como os askaris, sucedendo
muitas vezes nascerem-lhes os filhos durante as marchas. Cada mulher transportava à cabeça
não só os seus haveres como os do seu senhor. Era frequente vê-las com as crianças de peito,
às costas, com as cabecitas encarapinhadas espreitando do pano em que as enrolavam.
Marchavam sempre com ordem, protegidas por um europeu, em geral, um ex-sargento com
um askari para o auxiliar. Formavam assim durante as marchas um comboio muito extenso
que, em virtude da sua predilecção pelas cores berrantes, dava bem a ideia dum interminável
cortejo carnavalesco, especialmente depois de qualquer captura importante.

Mesmo durante as marchas tínhamos que atender à aquisição de víveres. As patrulhas de


caçadores marchavam pelo mato, à frente e nos flancos da coluna. Permaneciam por vezes
junto dos locais de acampamento já abandonados, se observavam vestígios de caça grossa.
Outras patrulhas seguiam pelos caminhos de preto que conduziam ás povoações, onde
requisitavam géneros.

Quando chegávamos aos locais de estacionamento, quatro askaris e o meu moleque Serubiti
cortavam os ramos precisos para me construírem o esqueleto duma palhota ou duma tenda
que era dividida em várias secções. Em seguida o meu cozinheiro, o Baba, com umas
grandes barbas, dava as suas instruções rigorosas para o arranjo da cozinha. Vários
carregadores iam buscar a água necessária e cortavam o capim e a lenha para o lume com as
suas próprias navalhas. Chegavam em seguida os caçadores com a caça e, dentro de pouco
tempo, o acampamento era invadido por todos os lados pelo agradável cheiro a cozinhado.
No entretanto chegavam os grupos de carregadores que haviam ficado nas povoações
limpando o trigo. Este era depois pisado nos kinos (pilões) com o auxílio de paus muito
grossos, o que produz um som característico do mato africano que se houve a distâncias
muito grandes. Começava depois a chuva de despachos, relatórios de reconhecimentos,
documentos apreendidos – e qualquer caixote à sombra duma árvore servia-me de secretária.
Quando os altos eram maiores construía-se uma mesa. mais apropriada com estacas e
ramaria.

A refeição da noite era tomada em volta do lume com os amigos, sentados em bancos
improvisados pelos moleques. Os mais fidalgos, é claro, possuíam cadeiras de bordo.
Depois, vá de deitar, a dentro de mosqueteiros, e de manhã, muito cedo ainda, lá íamos mais
uma vez para o desconhecido. Encontraríamos que comer? Esta incerteza preocupou-me dia
após dia, semana após semana, mês após mês. As marchas contínuas não eram feitas, como
se compreende, por mero prazer. Eu ouvi ocasionalmente algumas observações a meu
respeito, tais como: «Ainda mais longe? Aquele amigo descende com certeza dalguma
família de globe-trotters».

Quando alcançámos a confluência do Chiulezi, as dificuldades de víveres aumentaram


extraordinariamente. A região que até ali era muito fértil tornava-se agora tão diferente, que
me vi na necessidade de ordenar a reunião das forças, como aliás já era minha intenção. Sob
o ponto de vista táctico era-me impossível fazê-lo no momento presente. Não esperava uma
pressão muito forte da parte dos ingleses porque a sua linha de penetração crescia dia a dia e,
consequentemente, aumentavam as suas necessidades de transportes.

Foi-me enviada, sob a protecção da bandeira branca, uma mensagem escrita do Comandante
em Chefe inglês, General van Deventer, na qual me convidava a render-me. Mais se
intensificou no meu espírito que a nossa fuga os tinha surpreendido a valer, e de que a nossa
invasão do território português os embaraçava muito.

Nunca este nem o General Smuts se tinham lembrado de me fazer um convite idêntico
quando a situação lhes era favorável. Porque o faziam agora, nas circunstâncias presentes,
idênticas às de Setembro de 1916, em Kissaki? Não era difícil de compreender que o inimigo
começava a desanimar. Faltava pouco tempo para o começo da época das chuvas e, portanto,
para a preparação de novas operações, e depois daquelas começarem, os transportes
inimigos, na maioria em automóveis, teriam que lutar com grandes dificuldades.

Tínhamos por isso muito tempo para nos podermos dividir em várias colunas sem hesitação.
Nada tinha a recear da perda temporária do contacto entre cada uma das fracções. E assim, o
destacamento do General WahIe separou-se das forças restantes e marchou através das
montanhas Mkula, enquanto eu me dirigi para nordeste do Ludjenda.

A rendição do Capitão Tafel, de que tive conhecimento pela mensagem do General van
Deventer foi para mim um golpe profundo. O Capitão Tafel tinha recebido o comando das
mãos do General Wahle, em Mahenge, quando este partiu para tomar o comando das forças
na frente de Lindi. Assegurou a fértil região ao norte de Mahenge com um destacamento de
algumas companhias sob o comando de Schoenfeldt, que conseguiu com tão pequeno
efectivo manter a posse daquela região, utilizando inteligentemente os canhões de 10,5 do
Konigsberg e colocando as suas forças em posições favoráveis.

No curso médio do Ruhudje ficou um pequeno destacamento sob o comando do Capitão


Aumann, e a nordeste de Ssongea, perto de Likuju, o destacamento do Capitão Lincke. Este
último empenhou frequentes vezes o inimigo, lutando por consequência com a falta de
recursos daquele distrito inculto. Viu-se, pois, na necessidade de retirar para o norte, e em
Mponda foi reforçado com duas companhias e uma peça, tomando o comando o Capitão
Otto. Em Agosto de 1917, convergiram sobre Mahenge forças importantes, inglesas e belgas,
e o Capitão Tafel fez retirar as suas provisões para Mgangira. Mahenge foi evacuada em 11
de Setembro: a superioridade do inimigo fazia-se sentir seriamente, e a falta de munições
punha as companhias askaris em condições muito inferiores e estas estavam armadas na sua
maioria com as famosas espingardas '71.

Soube depois pelo Capitão Otto, que se encontrou com uma patrulha do Capitão Tafel, que
este, vindo de oeste de Liwale, havia marchado para o sul em três colunas, tendo alcançado
vitórias parciais no curso superior do Mbemkuru, onde capturou grande quantidade de
munições. Depois marchou mais para o sul, até ao rio Bangala, voltando para leste quando
julgou estar próximo de Massassi. Teve aqui conhecimento, pelos indígenas, que os alemães
já há bastantes dias que não travavam combates. Então o Capitão Tafel voltou em direcção
ao Rovuma que atravessou perto da confluência do Nangala, com a esperança de encontrar
provisões na margem sul. Não encontrou nenhumas e não teve conhecimento de que o
destacamento de Goering havia capturado, somente a um dia de marcha, um acampamento
português, onde encontrou géneros suficientes em ricas propriedades para lhe garantir uma
existência desafogada durante 14 dias. E nestas circunstâncias, o Capitão Tafel retrocedeu
para a margem norte do Rovuma, rendendo-se em seguida ao inimigo.
Esta rendição intensificou a minha relutância em destacar
outra parte da minha força, pois apesar da minha
proximidade, a junção que ambos tínhamos em vista não
foi possível efectivar-se. Senti-me torturado pela falta de
notícias do destacamento de Goering com o qual mantive o
contacto, por meio de patrulhas, quando estava em
Ngomano. Durante a marcha para montante do Ludjenda,
enquanto tivemos que conservar os destacamentos e
companhias mais afastados, por forma a facilitar o nosso
aprovisionamento, foi necessário insistir com os chefes
acerca da necessidade imperiosa de conservarem o
contacto. Todavia, não era de esperar que estes oficiais, que
mais tarde executaram tão excelente trabalho como
comandantes de destacamentos, sendo tão bem sucedidos
em cooperação com os outros, possuíssem logo de começo
o treino necessário.
© Castermann
Oficiais coloniais alemães O Governador ficava ainda com o comando supremo das
forças, mesmo depois de abandonar a Colónia, em
harmonia com a lei que certamente não previa a hipótese
duma guerra com um país europeu, e interpretava a sua autoridade de maneira a interferir
muito seriamente na do Comandante em Chefe, invadindo por vezes a minha própria esfera
de acção. Não tinha podido evitar este inconveniente, mas agora, fora da Colónia, comecei a
ligar a maior importância ao facto. Se algumas vezes não acedi aos apelos do Governador,
foi porque, na situação militar posterior, houve grandes diferenças de opinião, e o
Comandante em Chefe, aconteça o que acontecer, é de facto, e normalmente, o único
responsável.

É natural que naquela ocasião nem sempre fosse amável e contemporizador para com os que
me cercavam. Acontecendo que os próprios oficiais do Estado-Maior que estavam
trabalhando com a maior devoção pela causa comum, pelo que mereciam o meu
reconhecimento, foram alvo de muitas censuras injustificadas. São por isso merecedores da
minha particular gratidão, pois nunca se consideraram ofendidos, não tendo a minha má
disposição concorrido para prejudicar a boa continuidade dos seus trabalhos. Foi devido ao
seu trabalho, executado muitas vezes em circunstâncias difíceis, que alcançámos o triunfo
que o público com a sua generosidade me atribuía apenas a mim. Eu, que tantas vezes tenho
apreciado a boa camaradagem que existe na nossa corporação de oficiais, não gostava
certamente desta atmosfera de impertinência e procura de faltas. Felizmente esta fase foi
apenas passageira.

A nossa situação agora era tal que não podíamos reconhecer as forças inimigas se viesse a
dar-se qualquer encontro. Não tínhamos tempo para reconhecimentos longos. A
determinação com que atacávamos as forças portugueses onde quer que as encontrávamos é
atestada pelo facto de que, durante Dezembro, foram sucessivamente tomadas, aos
portugueses mais três posições fortificadas. A personalidade do oficial comandante que
primeiro encontrava o inimigo tinha uma importância capital e decisiva naquelas acções,
porque, não tendo tempo a perder, não podia esperar por ordens.

Em 2 de Novembro, o Tenente Kempner, comandante da 11.ª Companhia, que fazia parte da


guarda avançada da coluna que marchava para montante do Ludjenda, encontrou um
acampamento fortificado português, em Nangwale. Como na maioria dos casos, este
acampamento ficava situado num monte desarborizado e com um bom campo de tiro. A
valente 11.ª Companhia desenvolveu-se imediatamente ao longo da orla da floresta, e
avançou para o ataque através duma zona de 300 metros de terreno descoberto, expondo-se
completamente ao fogo inimigo. Os askaris, que transportavam os seus equipamentos de
marcha completos, não puderam acompanhar o seu comandante europeu e o seu Effendi
(oficial indígena). O Tenente Kempner e o Effendi saltaram sobre a obra principal do inimigo
e daqui para os seus entrincheiramentos, encontrando-se ambos sós durante algum tempo
entre a guarnição inimiga, que tinha o efectivo de um pelotão. Estes ficaram estupefactos ao
ouvirem os gritos de entusiasmo dos askaris que iam chegando e obedeceram prontamente à
ordem para deporem as armas. Caiu em nosso poder um número considerável de munições e
rações suficientes para alimentar a força durante alguns dias. Quando o oficial português
convidou o Tenente Kempner para tomar um cálice de boa aguardente teve muita razão em
ficar surpreendido por encontrar a garrafa vazia, ficando, por sua vez, o seu inimigo
igualmente pasmado: Um Ombascha (cabo indígena) já se havia adiantado naquela
operação.

Estava numa ansiedade grande acerca da sorte do Capitão Goering de quem não havia
notícias. Quanto à força do General Wahle, que havia marchado para montante do rio
Chiulezi, soubemos depois que tinha atacado e aniquilado uma força de várias companhias
portuguesas que estavam entrincheiradas fortemente nas montanhas de Mkula.

As frequentes tentativas para estabelecer comunicações com as forças de Wahle por meio do
heliógrafo resultaram infrutíferas, embora os portugueses tivessem observado de Mkula os
sinais feitos de Nangwale. Os portugueses europeus capturados em Mkula pelo nosso
destacamento recusavam-se a dar a sua palavra de não mais tornarem a combater nesta
guerra, mas foram postos em liberdade e enviados para o Rovuma pelo General Wahle,
devido à dificuldade que havia em os sustentar.

O Capitão Stermmermann foi igualmente bem sucedido, capturando uma outra posição,
também muito forte, que foi valente e vigorosamente defendida, depois de a cercar durante
dias. Como a violência do seu ataque não oferecia probabilidades de vitória para o inimigo e
ainda porque a posição se tornou insustentável por lhe ter sido cortada a água, o inimigo foi
forçado a render-se. Entre as nossas baixas, infelizmente, contavam-se muitos oficiais
indígenas bons. Não estive presente no combate de Nangwale porque andava empenhado em
normalizar de vez a marcha das nossas companhias da retaguarda. Contudo, em dois dias de
marcha com etapa dupla consegui chegar a Nangwale a tempo de superintender na divisão
das provisões capturadas. Nas circunstâncias mais favoráveis vivíamos de géneros
ocasionais. A situação em Nangwale, onde há seis meses as nossas tropas haviam encontrado
uma tão rica vizinhança, era agora completamente diferente. Além das provisões referidas
não havia mais nada, e até a caça grossa rareava numa grande área em volta, por ter sido
assustada ou dizimada. Sofri uma grande decepção, porque esperava justamente o contrário,
e as forças tiveram que partir. Soubemos pelas informações dos prisioneiros e documentos
apreendidos que a guarnição de Nangwale era abastecida por colunas de carregadores que
vinham de muito longe, talvez das proximidades de Mwalis, onde provavelmente alguma
coisa haveria.

Em 5 de Dezembro, o Capitão Koehl, com 5 companhias, uma peça e uma coluna de


munições, partiu de Nangwale em direcção ao distrito de Mwalia-Médo. Quanto a mim,
continuei a marcha pelo Ludjenda e, felizmente, as boas informações do Tenente Scherbning
e doutros europeus que tinham patrulhado aquela região foram absolutamente confirmadas.
Estas provisões, contudo, não eram excessivas, mas podiam ser completadas com a caça,
com muita satisfação nossa. Em vista do grande número de hipopótamos que existiam perto
de Nangwale, muitas vezes em grupos de 15 a 20, levaram-nos a aproveitá-los para o nosso
prato diário. Eu mesmo não pude resistir à tentação de atirar contra um dos gigantescos
animais: submergiu imediatamente, fazendo redemoinhar a água como se fosse um barco a
afundar-se para depois dalgum tempo voltar à superfície, de barriga para o ar, não se
movendo mais. Foi depois puxado com uma corda para a margem do rio. O grande número
de crocodilos obrigam-nos a ser cautelosos, e algumas vezes perdemos boas presas por causa
deles. A carne do hipopótamo é parecida com a da vaca ordinária, mas a língua é
particularmente saborosa. O mais valioso produto que dele se aproveita é, sem dúvida, a
excelente manteiga que os soldados aprenderam rapidamente a preparar. Tinha uma cor
branca de neve e a sua aparência contrastava bastante com a daquela que havíamos fabricado
nas primeiras tentativas no Rufiji. As caçadas na floresta e os reconhecimentos que fazia
acompanhado por askaris, revelavam-me grande número de segredos da vida do mato.
Aprendemos a fazer belo esparregado com folhas de certas plantas (chamadas Mlenda), e a
conhecer diferentes espécies de frutos silvestres muito bons. Também verificámos que a
semente dos frutos Mbinji, cuja polpa contêm ácido prússico, é completamente isenta de
ácido e, quando assada, proporciona um prato excepcionalmente delicado e saboroso,
semelhante ao das avelãs.

O Quartel-general chegou a Chirumba (Mtakira) em 17 de Dezembro de 1917. O Tenente


Ruckteschell tinha continuado a marcha em frente com a sua companhia e repelido alguns
pequenos postos portugueses, da Companhia Portuguesa do Niassa, que administrava a parte
norte da Província de Moçambique. Mais para o sul, a administração desta está também nas
mãos de Companhias particulares. A autoridade portuguesa em Chirumba, de nome
Fernandes, parecia ter sido muito competente. Os grandes edifícios da sua residência,
situados no cume do monte desarborizado, estavam rigorosamente limpos, protegidos contra
qualquer surpresa com uma trincheira em volta. Ao longo da margem do Ludjenda
estendiam-se grandes quintas com árvores de fruto e vegetais. As estradas eram ladeadas
com amoreiras e mangueiras formando lindas avenidas. Em volta da residência, como nos
subúrbios das povoações indígenas, encontravam-se multas espécies daquelas mangas,
conhecidas pelo nome indígena Emben. Os frutos começavam agora a amadurecer e eram tão
abundantes que valia a pena colhê-los. Evitou-se quanto possível o desperdício natural dos
indígenas. Os frutos, doces e belos, foram apreciados por todos os europeus e grande maioria
dos indígenas, e em vista da falta de açúcar, constituíram um complemento valioso para a
nossa alimentação, durante semanas. Quando entrei na varanda da casa europeia, ao chegar a
Chirumba, o Tenente Ruckteschell pôs-me em frente dos olhos um pedaço de manteiga de
porco, coisa que já não via há muito tempo. Aqui, como em muitos outros estabelecimentos
portugueses, tinha havido porcos europeus.

Ficámos aqui durante algumas semanas. Marchou para


montante um destacamento que se apossou da residência de
Luambala. Ao mesmo tempo o General Wahle marchou para a
próspera propriedade de Mwemba, já nossa conhecida. O
triângulo, ricamente cultivado, Chirumba-Luambala-Mwemba,
e além fronteira, era percorrido pelas nossas patrulhas de
reconhecimento. Os indígenas desta região, na sua maioria,
mostravam-se amáveis e inteligentes: sabiam bem que nada
tinham a recear dos alemães. Apesar de tudo, haviam escondido
as suas provisões no mato e pouco ou nada nos proporcionavam.
Tipo indígena, Contudo, os nossos homens já tinham a experiência precisa para
desenhado em 1918 examinarem minuciosamente, por exemplo, um tronco de árvore
de aspecto suspeito, embora bem dissimulado, onde
encontravam um esconderijo de géneros. Outros sondavam o terreno recentemente mexido
com paus, e assim se encontraram tantas provisões, que no Natal, quando nos sentámos para
jantar numa grande palhota, sentimo-nos aliviados da falta de alimentos. Segundo a
descrição dos nossos soldados, o rio Ludjenda. era, durante alguns meses do ano, tão
abundante em peixe, que este se podia pescar com cestos, mas infelizmente não era esta a
ocasião própria. Os peixes que conseguimos pescar eram muito delgados, como linguados
com dezoito polegadas de cumprimento, e outros mais pequenos, próprios para fritar. Apesar
de poucos, ainda concorreram para melhorar as nossas rações.

Conservou-se o contacto com o destacamento de Koehl nas proximidades de Médo. Julguei


muito natural que o inimigo, seguindo a sua táctica usual, se estivesse preparando para um
grande movimento de concentração contra nós, e como este não estaria pronto dentro do
espaço dum mês, podíamos bem descansar até que terminassem as chuvas, nos fins de
Fevereiro. Próximo desta época tencionava concentrar as minhas forças nas proximidades de
Nanungu, devendo até lá economizar quanto possível os géneros daquela região, vivendo
daqueles que se obtivessem na zona exterior. A princípio não apanhámos muita caça em
Chirumba, mas a abastança foi grande quando descobrimos os grandes rebanhos de antílopes
na margem leste do Ludjcnda e especialmente mais para montante. Durante o resto da
estação seca, e enquanto o rio estava baixo, os comboios de carregadores atravessavam
continuamente o rio em diversos pontos, transportando as suas cargas para a margem leste.
Eram aproveitados na travessia do rio alguns dongos (pequenas canoas feitas dos troncos das
árvores). Eram enviadas patrulhas, que se demoravam semanas, para requisição de géneros e
reconhecimentos. O Tenente Scherbening fez uma expedição de meses com a sua patrulha,
marchando de Chirumba, via Mtenda, Mahua e finalmente para o sul, pelo rio Lurio, e
depois para Malema, onde surpreendeu a Boma Malema portuguesa. Juntou-se-lhe um
italiano, esfarrapado e cheio de fome, que andava caçando elefantes. A sua saúde estava
abalada profundamente pelas febres e tinha o baço tão inchado que teve que ser transportado
de Mahua para a plantação de Malacotera.

Nos princípios de Janeiro de 1918, os ingleses começaram a mover-se. O 1.º e 2.º batalhões
do King's African Rifles que ocupavam o ângulo sueste do Lago Niassa, iniciaram o avanço
sobre o destacamento do Capitão Goering que se havia reunido a nós e ocupava o ângulo
agudo formado pelos rios Luhambala e Ludjenda, cobrindo os depósitos de subsistências a
montante deste rio.

Na manhã de 19 de Janeiro, derrotámos um destacamento isolado do inimigo. Quando este


contra-atacou, à tarde, depois de reforçado, e ao mesmo tempo que outra força inimiga nos
empurrava para o norte, em direcção ás escavações da margem leste, o Capitão Goering
passou para esta margem com o grosso das suas forças. Ficou apenas uma forte patrulha na
margem oeste, que deteve a marcha do inimigo. Simultaneamente, outra força inimiga – o
2nd Cape Corps da África do Sul (tropas de cor) – avançava sobre Mwembe. Tiveram então
lugar pequenas escaramuças e acções entre patrulhas, que muitas vezes nos colocaram em
péssimas circunstâncias, devido à impossibilidade de protegermos os nossos comboios de
carregadores. Os ingleses aproveitaram-se muito habilmente da oportunidade para
contaminarem a lealdade dos nossos askaris. Muitos deles estavam exaustos da guerra e
todos perante a incerteza do fim que esta teria. Grande número deles fugiu para as suas
terras, dizendo consigo próprios: «Se avançamos mais entramos em terras desconhecidas.
Agora sabemos o caminho para casa, e mais tarde nem isso.» A propaganda inglesa, feita
pela palavra e por panfletos, caía, na maioria dos casos, em terreno propício, e o resultado foi
desertar um grande número de askaris e até de sargentos. Tudo concorria para a sua
deserção, especialmente a persuasão das mulheres. Um velho «sol» (sargento-ajudante
indígena) desapareceu repentinamente, não obstante ter sido o chefe duma brilhante patrulha
independente que conduzia um grande comboio de carregadores através do inimigo, e ter
prestado serviços pelos quais se tornou digno da promoção a «Effendi». Este também
desertou. Os indígenas são por natureza muito sensíveis à insinuação. Contudo, se o Coronel
inglês se pode vangloriar de ter abatido o moral de certos elementos, a verdade é que foi
apenas durante um curto espaço de tempo. O antigo desejo de combater e a velha lealdade
voltaram novamente, mesmo para aqueles que já haviam começado a desanimar. O exemplo
dos askaris fiéis, que se riram dos montes de ouro que os ingleses lhes prometiam no caso de
desertarem, frutificou. Numa campanha tão longa e difícil como esta, o moral das tropas é
susceptível de diminuir. Mas de nada servia desanimar e era necessário combater a valer esse
desânimo. Muito concorreram para esse fim grande número de elementos fiéis, tanto
europeus como askaris.
Fonte:

General Lettow-Vorbeck,
As Minhas Memórias da África Oriental, tradução de Abílio Pais de Ramos,
Évora, Minerva, («Subsídios para a História de Portugal na Guerra»), 1923
http://www.arqnet.pt/portal/portugal/grandeguerra/pgm_lettow01.html

Paul von Lettow-Vorbeck

Oficial comandante das forças alemãs que invadiram Moçambique durante a Primeira Guerra
Mundial.

Nasceu em Saarlouis, Província do Reno, Prússia [Alemanha] em 20 de Março de 1870;


morreu em Hamburgo, em 9 de Março de 1964.

Oficial colonial alemão por excelência, Lettow-Vorbeck foi enviado para a China durante a Revolta
dos Boxers, tendo sido destinado a seguir para a colónia alemã do Sudoeste Africano, actual
Namíbia, servindo nas forças expedicionárias que combateram a rebelião de Herero e de Hottentot
entre 1904 e 1908, durante a qual ganhou uma valiosa experiência da guerra no mato. Ferido, foi
enviado para a África do Sul para recuperar.

Promovido a tenente-coronel foi nomeado comandante das forças militares da colónia alemã da
África Oriental, a actual Tanzânia. Com o começo da Primeira Guerra Mundial, dirigiu vários bem sucedidos ataques
surpresa contra o caminho-de-ferro britânico do Quénia, tentou a conquista de Mombaça e repeliu uma tentativa de
desembarque britânico em Tanga, no Norte da colónia, em Novembro desse ano.

Durante quatro anos, dirigindo uma força que nunca excedeu 14.000 homens, sendo 3.000 alemães e 11.000 askaris -
soldados nativos da colónia -, obrigou ao envio de forças aliadas para a região que acabaram por ter um efectivo conjunto
que se estima entre 130.000 a mais de 300.000 homens, compostas por tropas britânicas, belgas, e portuguesas, tendo
entretanto invadido Moçambique e a Rodésia. O armistício apanhou-o na Zâmbia, quando provavelmente se dirigia para a
colónia portuguesa de Angola.

Quando regressou à Alemanha em Janeiro 1919, Lettow-Vorbeck foi acolhido como um herói. Em Julho 1919, com o fim da
guerra, comandou um corpo dos voluntários que ocuparam Hamburgo para impedir a tomada do poder na cidade dos
comunistas do partido espartaquista de Rosa Luxemburgo.

Foi deputado ao Reichstag, o parlamento alemão, de Maio de 1929 a Julho de 1930. Sendo membro da ala direita, nunca
apoiou os Nazis, tendo tentado organizar em vão uma oposição conservadora a Hitler.

Fontes:
Enciclopédia Britânica

CRONOLOGIA DA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NA


PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL.

A DEFESA DAS COLÓNIAS DE ÁFRICA, DE 1914 A 1920

Forças expedicionárias a caminho de África,


em 1914
1914

18 de Agosto É decidida a organização de uma expedição militar com destino a


Angola e a Moçambique.
25 de Agosto Em Moçambique dá-se o primeiro incidente de fronteira, com o ataque
alemão ao posto fronteiriço de Maziúa, na fronteira do Rovuma, tendo
sido morto o chefe do posto e sendo incendiado o posto e as palhotas
vizinhas.
11 de Setembro Partida de Lisboa de uma expedição militar, comandada pelo tenente-
coronel Alves Roçadas, com destino a Angola.
Partida do corpo expedicionário para Moçambique, comandado pelo
tenente-coronel Massano de Amorim.
1 de Outubro As forças expedicionárias do comando de Alves Roçadas desembarcam
em Moçamedes, no Sul de Angola. A força era composta de 1 batalhão
de infantaria, 1 pelotão de metralhadoras, 1 bateria de artilharia e 1
esquadrão de cavalaria.
19 de Outubro Incidente de fronteira em Naulila, no sul de Angola. São mortos três
alemães, parte de uma missão, que tinha entrado na província sem
autorização, e acampado na margem esquerda do Cunene, mas já no
território da província.
22 de Outubro As forças expedicionárias de Alves Roçadas e forças provinciais
acabam a sua concentração em Lubango, no planalto de Moçamedes,
preparando a defesa do sul de Angola contra quaisquer investidas de
tropas vinda da África Alemã do Sudoeste.
30 de Outubro Massacre de Cuangar. O posto português de Cuangar, na margem
esquerda do rio Cubango, no Sul de Angola, é atacado por alemães
armados de metralhadoras. São mortos dois oficiais, um sargento, cinco
soldados europeus e treze africanos, o comerciante Sousa Machado e
uma mulher, num total de 22 pessoas.
31 de Outubro Alves Roçadas determina a organização das chamadas Forças em
operações ao Sul de Angola, com as forças expedicionárias e forças da
província.
1 de Novembro A primeira expedição portuguesa para Moçambique desembarca em
Porto Amélia, no norte da colónia. Era composta por 1 batalhão, 1
bateria e 1 esquadrão.
2 de Novembro Uma tentativa de desembarque de forças militares britânicas, vindas da
Índia, em Tanga, no norte da África Oriental Alemã, é repelida,
sofrendo a força invasora pesadas baixas.
5 de Novembro Forças militares de reforço da guarnição portuguesa em Angola partem
de Lisboa, comandadas pelo capitão-tenente Coriolano da Costa, devido
aos incidentes acontecidos com tropas alemãs na fronteira.
12 e 13 de Encontros entre patrulhas portuguesas e alemãs, no Sul de Angola, com
Dezembro troca de tiros.
17 de Dezembro Forças alemãs, sob o comando do major Frank, acampam nas margens
do Cunene.
18 de Dezembro Combate de Naulila. As forças alemãs atacam as portuguesas
obrigando-as a retirar, em direcção a Humbe, no Sul de Angola. Morrem
3 oficiais e 66 sargentos e soldados.
19 de Dezembro As forças portuguesas abandonam Humbe, depois do paiol do Forte
Roçadas ter explodido. Retiram mais para norte, para Gambos, com
intenção de defender Lubango, no Sul de Angola.
Motivados pelos combates entre forças europeias, as populações
africanas da Huíla, no Sul de Angola, revoltam-se. São dirigidas pelo
soba Mandume, da terra Cuanhama.

1915
3 de Fevereiro Mais expedições militares partem para Angola, para fazer frente ao
ataque das forças alemãs, vindas da África Alemã do Sudoeste.
21 de Março O General Pereira d'Eça, novo governador de Angola e comandante das
forças expedicionárias, nomeado pelo governo ditatorial de Pimenta de
Castro, chega a Luanda, capital da província, substituindo o general
Norton de Matos..
Junho O governador de Moçambique informa o tenente-coronel Amorim de
que o governo português pretendia que se reocupasse Quionga, ocupada
pelos alemães em 1894, e se invadisse o território da África Oriental
Alemã.
7 de Julho As forças portuguesas reocupam Humbe, no sul de Angola, sem
encontrarem resistência.
9 de Julho As forças militares da África Alemã do Sudoeste rendem-se ao general
Botha, comandante em chefe das forças da União Sul-Africana.
12 de Julho O general Pereira d'Eça toma conhecimento da rendição da colónia
alemã.
4 de Agosto O governo é autorizado a contrair dois empréstimos, destinados a fazer
face ao aumento das despesas com as forças expedicionárias enviadas
para as colónias.
15 de Agosto Uma coluna das forças do comando do general Pereira d'Eça, agora com
a missão única de acabar com a revolta das populações da Huíla, no Sul
de Angola, reocupa o forte do Cuamato.
18, 19 e 20 de Combate de Mongua. A principal coluna das forças expedicionárias,
Agosto comandada pelo general Pereira d'Eça, dispersa um ataque realizado
contra as cacimbas (depósitos de água) de Mongua, no Sul de
Angola,ocupadas no dia anterior.
4 de Setembro A embala de Mandume, soba dos Cuanhama, é ocupada por um corpo
de tropas ido de Mongua.
7 de Novembro Uma segunda expedição a Moçambique, comandada pelo major de
artilharia Moura Mendes chega a Porto Amélia. Era composta por 1
batalhão, 1 bateria e um esquadrão, assim como de tropas de
engenharia, de saúde e de serviços.

1916

9 de Março A Alemanha declara a guerra a Portugal.


27 de Maio Combate de Namaca. As forças expedicionárias portuguesas, reforçadas
por forças da Guarda Republicana de Lourenço Marques, levadas para o
Norte de Moçambique pelo governador Álvaro de Castro, tentam a
passagem do Rovuma sendo rechaçados violentamente pelas forças
alemãs.
Julho A terceira força expedicionária portuguesa, a Moçambique, chega a
Palma, a norte de Porto Amélia. Comandada pelo general Ferreira Gil.
Era composta por 3 batalhões de infantaria, 3 baterias de metralhadoras,
3 baterias de artilharia, 1 companhia de engenharia mista e unidades de
serviços.
19 de Setembro Travessia do Rovuma pela força expedicionária portuguesa a
Moçambique. A África Oriental Alemã é invadida.
4 de Outubro Combate de Maúta. Uma força de reconhecimento comandada pelo
capitão Liberato Pinto é surpreendida em Maúta e obrigada a retirar de
regresso à fronteira de Moçambique. Será acompanhada pela coluna que
a seguia.
22 de Outubro Combate da Ribeira de Nevala. As forças do comando do chefe de
estado-maior da força expedicionária a Moçambique, coronel Azambuja
Martins, encontram-se com as forças alemãs junto aos poços de água de
Nevala. As forças alemãs retiram.
8 de Novembro Combate de Quivambo. A coluna do comando do major Leopoldo da
Silva, que após a tomada de Nevala, na África Oriental Alemã, se
dirigia para Mikindani, é interceptada pelas forças alemãs. Leopoldo da
Silva foi morto, e o novo comandante, major Aristides Cunha, decidiu
retirar.
22 de Novembro Combate da água de Nevala. As forças alemãs, reforçadas por
marinheiros do cruzador Koenigsberg, no seguimento do combate de
Quivambo, atacam e ocupam o posto da água de Nevala após um ataque
à baioneta.
28 de Novembro As forças portuguesas abandonam o fortim de Nevala, e retiram para a
fronteira, depois de uma coluna de socorro ter sido rechaçada pelas
forças alemãs.
1 de Dezembro O posto de Nagandi é incendiado por fogo de artilharia alemão,
impedindo que se organizasse ali um linha de defesa de Moçambique.

1917

21 de Novembro As forças alemãs do comando de Lettow-Vorbeck saindo de Nevala


dirigem-se para a fronteira com Moçambique.
28 de Novembro Combate de Negomano. Os alemães supreendem as forças portuguesas
em Negomano, provocando um verdadeiro massacre. Morreram 5
oficiais e 14 soldados europeus, assim como 208 soldados africanos,
ficando feridos mais de 70, e prisioneiros 550 homens, entre os quais se
contavam 31 oficiais que foram libertados posteriormente.
3 a 8 de Dezembro Combate da Serra Mecula. As forças comandadas pelo capitão
Francisco Pedro Curado, compostas por uma bateria de artilharia e uma
companhia de tropas africanas, resistem de 3 a 8 de Dezembro à coluna
de tropas alemãs comandada pelo general Wahle, que separada da
coluna principal se dirigia mais para o interior de Moçambique. O
capitão Curado ficará conhecido pelo none de «Condestável do
Rovuma».
1918

1 a 3 de Julho Combate de Nhamacurra. As tropas alemãs chegando a 40 km de


Quelimane, no centro de Moçambique, atacam o depósito de uma
grande companhia açucareira, defendido por tropas anglo-portuguesas
comandadas pelo tenente-coronel britânico Brown, que é morto.
28 de Setembro As tropas alemãs atravessam de novo o Rovuma, abandonando
Moçambique.
Novembro As tropas alemãs entram na Rodésia do Norte.
12 de Novembro O comandante alemão Lettow-Vorbeck tem conhecimento do Armistício
celebrado na véspera em França, e rende-se.

1919

28 de Junho É assinado em Versalhes o Tratado de Paz que põe fim à Primeira


Guerra Mundial. Quionga, reocupada em Abril de 1916, é formalmente
restituída a Portugal.
12 de Julho Na Conferência Colonial, realizada em Londres, é perguntado a
Portugal se aceitava um mandato de administração do território de
Quionga, estendendo-se este mandato igualmente a toda a província de
Moçambique. A resposta é negativa.
25 de Setembro Quionga é restituída a Portugal por decisão do Conselho Supremo das
Potências Aliadas e Associadas.

1920

4 de Dezembro Por portaria provincial Quionga volta a ter um comando militar


português, a marcar a soberania perdida em 1894.

Fontes principais:

Nuno Severiano Teixeira, O Poder e a Guerra, 1914 -1918. Objectivos Nacionais e Estratégias Políticas na Entrada de
Portugal na Grande Guerra, Lisboa, Estampa («Histórias de Portugal, 25»), 1996;
António Simões Rodrigues (coord.), História de Portugal em Datas, 3.ª ed., Lisboa, Temas & Debates, 2000 (1.ª ed., 1997);
General Ferreira Martins, História do Exército Português, Lisboa, Inquérito, 1945.
A GUERRA EM MOÇAMBIQUE.

3. A OFENSIVA DOS PORTUGUESES E A CONTRA-OFENSIVA ALEMÃ

Trincheira portuguesa na
posição de Namoto

RECONHECIMENTOS, PASSAGEM DO ROVUMA E COMBATE DE MAÚLA

Se até aqui, nesta campanha, apontamos muitas faltas no esforço colectivo de se


improvisarem forças militares sem preparação, poderemos agora neste capítulo salientar
actos de valor individual, que uma vez coordenados justificam a mais ardente fé nos nossos
destinos nacionais. Diz o General comandante da expedição, no seu relatório, que eram
muitas as deficiências e que, «ao assumir a grave responsabilidade do comando, não
desconhecia que a luta, na qual íamos empenhar-nos, era bem mais difícil e perigosa do que
aquelas que anteriormente se haviam efectuado, com êxito glorioso e brilhante, no continente
negro, mas contava e devia contar com as virtudes ingénitas na lusa gente, nunca até hoje
desmentidas e nunca até hoje ultrapassadas».

Mais pelo instinto do que pela preparação, vamos sentir, efectivamente, palpitar dedicações
nas gentes das fileiras, afirmando estar ainda viva aquela antiga fé patriótica dos tempos das
descobertas e conquistas.

Nos primeiros reconhecimentos para a travessia do Rovuma encontrámos Jorge de Castilho,


hoje já inscrito nos quadros parietais das nossas escolas primárias, celebrizado como aviador
na travessia cio Atlântico. Na madrugada de 15 de Agosto de 1916, nos reconhecimentos dos
vaus do Rovuma, marchou ele todo o dia, a pé, com um sol criador de insolações, em
socorro. de uma pequena força. Foram louvados. neste lanço um soldado e um sargento de
infantaria 24, tendo caído morto o cabo que comandava a guarda avançada da pequena
escolta. A escolta foi reforçada por dois pelotões vindos dos postos vizinhos, tendo
apresentado o relatório acerca do reconhecimento do vau o alferes Pais de Ramos, que
comandava o pelotão da Guarda Republicana e que, tendo desmaiado quando dentro do rio
procedia ao seu reconhecimento, foi salvo por dois soldados indígenas debaixo do fogo do
inimigo. O oficial e, os indígenas tiveram a Cruz de Guerra. Esta episódica acção permitiu
descobrir um vau do Rovuma, no triângulo de Quionga, abandonado pelos alemães,
descoberta valiosa, porque a topografia do rio nos era completamente desconhecida e os
reconhecimentos tinham de ser feitos de noite, às vezes debaixo de fogo da margem norte e
sob a ameaça constante dos crocodilos que infestavam o rio.

O tenente Viriato de Lacerda, morto


depois em Serra Mecula, começou a
distinguir-se nestes reconhecimentos do
rio, de noite, pelo espírito alegre com que
animava os camaradas, quando um
europeu se, enterrava num charco ou um
indígena, medindo o vau na água, se
mostrava ,menos arrojado. Também neste
período de reconhecimentos houve um
forte ataque dos alemães ao nosso posto
O batalhão de infantaria 28 atravessando o de Nangadi, nó de comunicações, onde
Rovuma comandava o capitão Curado, cuja figura
ficou, pela sua bravura, tão popular nesta
campanha. Lembrar estes nomes é
animador e é justo.

Refere ainda o General no seu relatório que o reconhecimento dos vaus no Rovuma fora um
estudo cuidado e completo, sendo-lhe «apresentado um sucinto mas conceituoso relatório,
inteligentemente elaborado, em que se forneciam preciosos dados» 1.

Foram lixados os vaus de Nacoa e Namoto Entretanto no médio Rovuma não só


reocupávamos Maziúa, onde fôramos afrontados, mas atravessávamos esse rio, sendo
louvados nesta acção um tenente e um sargento.

A situação militar nas duas margens do Rovuma, junto da foz, era de estreito contacto com o
adversário, trocando-se tiroteio com frequência e vindo ele atacar-nos com uma audácia e
valor, que as nossas bisonhas tropas mal possuíam. Tudo aconselhava a maior concentração
das nossas forças, considerando o malogro da tentativa de passagem do rio em 27 de Maio;
por isso resistiu o General aos pedidos de reforços dos postos a montante, porque entendia
que a acção decisiva seria junto à foz, onde havia recursos apreciáveis. Todavia, preparou
movimentos ofensivos simultâneos em Mocímboa do Rovuma e no Unde, além de dotar
também com alguns meios a coluna do Lago, entregando à iniciativa dos comandantes esses
movimentos, que considerava terem um papel secundário, mas de útil cooperação. Se a sorte
das armas nos fosse favorável e se revelasse algum, notável condutor de homens, poder-se-
iam atingir alguns daqueles objectivos secundários como Songea, localidade importante na
vasta região pobre a sudoeste da colónia alemã.

Registemos, agora, um dos contratempos que surgia à expedição e paralisava a ofensiva. Só


no dia 6 de Setembro tinha chegado à base em Palma o vapor Beira, desembarcando a
companhia de transportes, que deveria ser das primeiras a desembarcar mas fora demorada
em Lisboa por vários transtornos, incluindo a greve dos operários metalúrgicos.

Durante os dois meses de demora na base em Palma, aguardando os transportes que só


chegaram em Setembro, as tropas não estiveram ociosas, porque o tempo foi dedicado à
instrução militar e ao levantamento de barracões para armazenar víveres e todo o material,
que ficou a coberto. Os navios levavam ás vezes quinze dias a descarregar, sendo em
Setembro também empregados os soldados brancos na descarga dos cunhetes, trabalho muito
fatigante naquele clima. O desembarque de 1.500 solípedes representou também um grande
esforço.
Gráfico das fortificações de Nevala

Entretanto os telegramas do Governo da Metrópole e do Governador da Colónia eram


constantes no sentido de incitar a expedição a tomar a ofensiva. A 5 de Setembro o
Governador-geral telegrafava, dizendo que o cônsul inglês informava dever acabar a
campanha nesse mês. E a 9, o Governo de Lisboa dizia: «ser indispensável não esperar o
desembarque dos navios, nem a chegada dos camiões para começar a ofensiva, porque
carecia evitar que a guerra acabasse estando nós parados». Respondendo a estas imperiosas
determinações, objectava o General comandante que não tinha naquele momento os meios
para poder avançar, mas já marcara os dias 17 e 19 para a travessia do Rovuma, apesar de lhe
faltarem viaturas para transporte da alimentação. Os víveres e as tropas não desfilaram,
entrando no Rovuma, como em 27 de Maio, pela frente do adversário, mas em 19 de
Setembro os barcos com víveres esperavam na foz do rio o resultado da segunda tentativa.
Em 27 de Maio não se esperou pela Guarda Republicana, que era a melhor tropa colonial,
mas em Setembro o General não quis repetir essa falta imperdoável de não concentrar as
suas forças para uma operação decisiva como era a passagem do rio.

O ano de 1916 foi o de maior movimentação na campanha da África Oriental. Assinalámos


já que 1915 fora um ano neutro, mas permitira às forças alemãs tomar fôlego e receber dois
navios vindos da Alemanha com material diverso, forçando o bloqueio dos barcos de guerra
britânicos. 2 Eram agora relativamente em menor número as forças alemãs, que mal
chegavam a 3.100 europeus e 13.000 indígenas, formados em companhias que, sendo
conveniente, se agrupavam em duas ou três. A capacidade de manobra dessas tropas estava,
porém, muito apurada. A densidade da resistência alemã fora decrescendo desde a fronteira
norte, em face dos ingleses, até ao sul na fronteira do Rovuma, onde tinham, nesta zona
secundária de operações, numerosos postos e duas companhias de reserva muito à
retaguarda. Os entrincheiramentos alemães junto da foz do Rovuma tinham uma capacidade
para mil homens.

A passagem do Rovuma, junto à foz, pela expedição portuguesa na sua máxima força, sob o
comando directo do General, foi o fruto daquela instrução militar de dois meses realizada na
base em Palma, enquanto se esperava o material de transportes. A passagem efectuada em 19
de Setembro foi uma operação de relativo valor para a nossa vulgar preparação militar.
Assim o entendeu o General, que mandou louvar as tropas 3.

A cooperação da marinha fez-se sentir pela presença do Adamastor na foz do rio, protegendo
o comboio de víveres marítimo e fazendo um pequeno bombardeamento da margem alemã.
Entretanto os alemães na véspera tinham evacuado aquela zona e retirado para montante,
abandonando os seus postos militares.

Fazendo uma finta, a coluna negra - organizada com duas companhias indígenas, uma
companhia europeia de infantaria n.º 23, uma bateria de quatro metralhadoras, duas peças e
um pelotão de infantaria montada, sob o comando do capitão Gordo, -realizava a travessia do
rio a 40 quilómetros da foz, no dia 18 de Setembro, tendo tido algum tiroteio no
reconhecimento efectuado na véspera no vau de Nhica, com os alemães do posto de Tchidia.

Aqui foi o baptismo de fogo de alguns europeus 4 e tudo correu bem, remediando-se alguns
percalços o melhor que se pode. A guarda avançada do comando do capitão Demony
atravessou o rio em Mayembe e içou a bandeira. portuguesa na margem alemã, sinal para
que as restantes forças efectuassem por sua vez a travessia, que se levou a efeito sem um tiro.

A coluna negra seguiu para Migomba, em frente de Namoto, aonde todas as forças deviam
dirigir-se.

A força portuguesa concentrada para a passagem do Rovuma junto à foz, na madrugada de


19 de Setembro, contava 120 oficiais e 4.060 praças, apresentando na linha de fogo 2.682
espingardas, 10 metralhadoras, 12 peças de montanha de tiro rápido e uma peça de marinha
de 10,5 cm, trazida com grande dificuldade até o posto dominante de Namoto.

Organizadas três colunas e uma reserva, as duas colunas a montante passaram o rio a vau e a
coluna de jusante passou em jangadas construídas pela companhia de engenharia, à
retaguarda de parapeitos, que se abateram de noite para as lançar à água; operação que foi
bem conduzida pelo capitão António de Melo, apesar de nessa noite, nas trincheiras
próximas, ter surgido um pânico, que, porém, não se generalizou.

As três colunas atravessaram o rio


simultaneamente, em 19, com o auxílio de um
fraco luar e na maré baixa. Nas duas colunas da
esquerda e centro a altura das águas era pelo
peito; o percurso era cortado por ilhas na coluna
da esquerda e, na do centro, o rio tinha uma
largura atravessando um braço profundo do rio
por meio de jangadas, tinha depois a percorrer
um grande areal bastante fatigante. As três
colunas tinham objectivos em ligação, de modo a
cooperarem no seu avanço e, quando, ao nascer.
do sol, já as colunas pisavam a margem norte, foi
dada ordem à cavalaria para explorar a distância
e à reserva para rapidamente atravessar o rio nas
jangadas. A despeito das ordens relativas a esta
operação (publicadas no livro do Marechal
Gomes da Costa), interessante será registar que
Reduto alemão em frente de Namoto as tropas nessa noite já com dificuldade
mantinham as prescrições de segurança regulamentares, convencidas de que a campanha
terminara.

Após a travessia do Rovuma foi enviado um reconhecimento de oficiais e escolta a povoação


de Mikindani, a 60 quilómetros, sendo estabelecida a ligação com o batalhão de tropas
indianas que a ocupava; e, no desejo de colaborar eficazmente com o Comando britânico, a
expedição estabeleceu uma linha telegráfica até Mikindani com um posto militar guardando
a estrada. No local da travessia por jangadas foi lançada uma boa ponte sobre o Rovuma.

Propondo-se o General prosseguir na ofensiva, para valorizar o esforço da expedição e,


conforme o desejo do Alto Comando britânico, procurando operar pelo vale do Rovuma e
depois para o norte na direcção de Liwale, onde se supunha estarem guardados os
portugueses feitos prisioneiros, foram tomadas disposições nesse sentido.

As comunicações estendiam-se por Nevala e Massassi, localidades que desce logo foram
indicadas como objectivos. Nevala era um centro administrativo e de recrutamento, cujo
fortim de alvenaria era apontado pelos indígenas como difícil de atacar por estar situado num
planalto bem defendido.

Para ocupar o terreno que o adversário nos fosse abandonando, foi enviado uni
reconhecimento a Nevala (capitão Liberato Pinto), que marchou. em 25 de Setembro de
Migomba pela margem Norte do Rovuma. A escolta do reconhecimento era formada por três
companhias indígenas e uma bateria de metralhadoras, com o fim de ir guarnecendo os
postos abandonados e ter capacidade para ir varrendo as patrulhas adversas: Não podia ser
mais numerosa a nossa tropa, porque nos faltavam transportes para a abastecer; mas ainda
essa foi reduzida a duas companhias, a 21.ª e a 24.ª, porque a outra recebeu ordem para ficar
em Nichichira.

Em Maúta, cerca de 2 km a Leste de Nevala, os alemães tinham preparado uma posição que
cortava a estrada de marcha e conseguiram surpreendera nossa extrema guarda-avançada,
num combate a 4 de Outubro, ficando perdido o alferes Camisão que a comandava. A
guarda-avançada era formada pela 21.ª companhia indígena (capitão Curado); a 24.ª (capitão
Demony), no grosso da coluna, levava intercalada a bateria de metralhadoras (tenente Júlio
César de Almeida) e uns centos de carregadores.

Era propício para o ataque o ponto escolhido pelos alemães: uma curva da estrada de
marcha, estreita, tendo na esquerda um escarpado de grande altura e na direita uma mata
densa e impenetrável. O fogo de metralhadoras, varrendo a estrada, produziu o pânico nas
muares e nos carregadores que debandaram. As companhias desenvolveram e as
metralhadoras, conduzidas à mão para a linha de atiradores e providas de água, ainda
prestaram bom serviço, causando bastantes baixas ao inimigo. Também as houve do nosso
lado e perderam-se alguns cunhetes com munições e algumas espingardas, mas não se
perderam as 5 metralhadoras, como alguns supõem. O combate de Maúta começara ao cair
da tarde, pelo que teve curta duração, pois, ao anoitecer e por ordem do Comando, as forças
retiraram para um local um pouco à retaguarda, onde se entrincheiraram.

O dia 4 de Outubro fora de sol excepcionalmente ardente e de calor intensíssimo.

Assim, a absoluta falta de água, levou o comando da coluna a ordenar a retirada das forças,
ainda nessa noite, para o posto de Nichichira, a 30 km. à retaguarda, onde se aguardaram
reforços que o General se apressara a enviar-lhes.

A COLUNA DE MASSASSI E OS COMBATES DE NEVALA

Ao reconhecimento de Nevala seguia-se em apoio é reforço a coluna de Massassi, marcando-


lhe este nome o seu objectivo imediato. Infelizmente essa força, que, incorporando a anterior,
ficava elevada a cinco companhias indígenas, duas companhias europeias de infantaria 28,
duas baterias de metralhadoras, quatro peças de montanha, um pelotão de infantaria montada
e os serviços de saúde e administrativos, coluna sob o comando do major José Pires de
infantaria 24, não teve a capacidade de combate que era necessária para rapidamente
avançar.

A colona de Massassi define a falta de entusiasmo das forças expedicionárias de


Moçambique. Todavia foi ela 5 que susteve a retirada do reconhecimento de Nevala; prestou
esse serviço, mas foi pouco mais além.

Outro reforço mandou o General, logo que a capacidade de transportes o permitiu, formado
por duas companhias de infantaria 28, duas peças e um pelotão indígena. Contudo a coluna
de Massassi não avançava, apesar das ordens do General, quando no Alto da Serra de
Nangadi o chefe do estado-maior lhe intimou o avanço. Este oficial com uma escolta
formada pelo resto das forças disponíveis, o esquadrão de cavalaria 3 reduzido a dois
pelotões, três pelotões indígenas das 17.ª e 22.ª companhias e uma bateria de metralhadoras,
marchou sobre Nevala pelo Sul, enquanto a coluna de Massassi deveria marchar por Leste,
atacando pelo planalto.

Foi com dificuldade que esta última


coluna iniciou a marcha, tendo reunido
previamente um conselho de oficiais, que
se manifestaram contra o avanço, por
falta de víveres, até que o provisor
capitão Seixas afirmou dispor de dois
dias de alimentação. Então arrastou-se a
coluna 6 não pelo itinerário marcado na
ordem de marcha, mas sim ao longo do
Rovuma e à retaguarda. da escolta,
deixando assim de efectuar a manobra
ordenada de atacar Nevala por Leste,
1916 - Ponte de cavaletes sobre o Rovuma simultaneamente com a escolta que
construída pelas tropas de engenharia atacaria pelo Sul.

A ordem determinava à coluna de


Massassi que enviasse um reconhecimento de oficial no dia 18 de Outubro pela estrada para
Nevala, mas a essa determinação não foi dada execução, sendo a secção de telegrafistas sem
fios, do tenente Moreira de Sá, a primeira tropa portuguesa a marchar por essa estrada,
depois da tomada de Nevala.
Alguns tiroteios com patrulhas alemãs demoraram a coluna, que só chegou defronte de
Nevala em 26 de Outubro, quando poderia, conforme a ordem para a marcha, chegar a 18,
numa etapa de trinta quilómetros por estrada viável a camiões.

Em telegrama de Lisboa, o Governo tomava a responsabilidade de afirmar «que, naquele


momento, preferível era afrontar uma batalha difícil e perigosa do que ficar parado». Esta
razão suprema fez lançar as ordens de marcha e fazer das fraquezas forças, para se avançar,
embora com uma disciplina frouxa e sem vontade de combater.

Desconhecia-se completamente o território inimigo; e a espionagem que se organizara era,


em princípios de 1916, dirigida por um boer que fora apanhado a fazer sinais ao adversário,
sendo julgado em Palma, mas absolvido por falta de provas; depois foi a espionagem dirigida
por um mestiço e, em 1917 e 1918, por um oficial inglês, a título provisório. Não estávamos
melhor a respeito de organização civil, porque, ao atravessar o Rovuma, foi nomeado
comissário dos territórios ocupados um dos intérpretes da expedição e, tendo este adoecido,
outro funcionário mais modesto o substituiu. Os serviços civis de Moçambique não se
encontravam habilitados para prestar qualquer auxílio à expedição.

Falhando o plano de avançar pelo litoral, com o auxílio dos transportes de víveres de porto
em porto, como sucedera de Porto Amélia para Palma, e depois para a foz do Rovuma,
tínhamos de marchar pelas estradas alemãs, para montante do Rovuma até Nevala, e depois
pelos caminhos secundários até o vale definido pelo rio Lukuledi.

Dando o exemplo, a escolta do comando do chefe do E. M. avançara, com dois capitães na


flecha 7 bem compenetrados de «que, naquele momento, preferível era afrontar uma batalha
difícil e perigosa do que ficar parado». Esses oficiais tinham os seus lugares à retaguarda, um
como ajudante do General, o capitão Joel Vieira, outro como comandante da zona de
Mocímboa do Rovuma, o capitão Torre do Vale, mas ambos compreendiam o dever que se
lhes impunha naquele momento difícil. Evidenciam-se as dificuldades dos abastecimentos,
notando que foi necessário passar em jangadas alguns camiões para a margem norte do
Rovuma, para aproveitar a estrada que o marginava em território alemão, enquanto não se
conseguia abrir comunicações pela nossa margem em relativas condições de segurança.

Felizmente os indígenas daquela zona de operações foram-nos sempre favoráveis


(atribuindo-se essa enorme vantagem à revolta contra os alemães em 1905) e
espontaneamente nos davam informações dos movimentos alemães.

Os combates de Nevala são a história da campanha de Moçambique.

Um grande esforço foi improvisado, mas desconexo, para defender e assegurar o nosso
património colonial que, desde o ultimato de 1891, aspirava a ressurgir. A verdade é que,
pelas informações, a campanha estava a acabar e o General, impulsionando as forças até
Nevala, queria lá chegar antes dos ingleses, para que nós ocupássemos a tal faixa em
território inimigo, conforme o Governo desejava, não sucedesse o mesmo que no litoral,
onde a ocupação de Mikindane pelos ingleses nos tolheu os passos.

As tropas, porém, sentiram por instinto que a contenda seria resolvida na Europa, faltando-
lhes a fé e o entusiasmo necessário para arrostar com a dureza da campanha. Escasseava-
lhes, na verdade, aquele ódio ao alemão, que a proclamarão ao exército 8 preconizava, esse
«ódio patriótico» não existia.

A disciplina militar era frouxa, reflexo inevitável da disciplina nacional.

Narrando com verdade os acontecimentos, eles somente se poderão compreender pelo jogo
de forças morais, ora impulsivas ora depressivas.

O avanço para Nevala foi directamente impulsionado por aqueles dois capitães da flecha da
escolta. O choque com os alemães deu-se uma légua ao sul de Nevala, junto dos poços que
eles defendiam. Foi em 22 que se feriu o combate da Ribeira de Nevala, onde tivemos dois
europeus mortos e doze indígenas feridos, tratados pelo cabo enfermeiro Coelho, porque a
escolta não tinha médico. Repelidos os alemães, a escolta ocupou os poços, entrincheirou-se
à vista de Nevala, a dois quilómetros ao sul, e esperou a coluna de Massassi desde 22 a 26 de
Outubro.

A coluna, como dissemos, em lugar de vir pelo planalto a leste de Nevala, executando a
manobra determinada, veio a aparecer pela retaguarda da escolta. Desde logo, sem descanso
se organizaram três colunas para investir Nevala. Depois de uma troca de tiros de artilharia,
os alemães abandonavam a praça e à tarde ocupávamos o fortim e as trincheiras que o
rodeavam, sendo a 17.ª companhia indígena a primeira a entrar nele. Todos estavam
fatigadíssimos. A bandeira foi erguida no mastro do fortim 9 e as duas melhores companhias
indígenas, a 21.ª e a da Guarda Republicana de Lourenço Marques, foram para os
postos avançados.

Para perseguir o inimigo foram nomeadas duas companhias de infantaria 28, duas
companhias indígenas, um pelotão de cavalaria e outro de infantaria montada, que
marchariam para Norte, na direcção de Massassi. A 10 quilómetros de marcha os alemães
barravam a estrada e uma acção se seguiu, comandada pelo alferes Carlos Afonso dos
Santos, a qual durou toda a tarde, tendo nós perdido três brancos e não chegando a entrar em
fogo a infantaria indígena, que ficou abrigada à retaguarda. Retirou a força para Nevala, não
obstante ter instruções para se aproximar de Massassi. Outros pequenos reconhecimentos
foram lançados, mas sem resultado.

O novo comandante da coluna de Massassi, major Leopoldo Silva, oficial distinto,


competente e enérgico, ao assumir o comando, quis ouvir, antes de marchar, o capitão
Curado, que lhe disse ter a sua companhia, 21.ª, extenuada e andrajosa, com os seus oficiais
há quatro meses dormindo no chão dos bivaques; observou mais o capitão Curado que, não
se conseguindo abastecer as tropas em Nevala, menos ainda se conseguiria no avanço em
território inimigo, onde a linha de comunicações não tinha protecção possível; contudo o
comandante podia contar incondicionalmente com a companhia e com os seus oficiais.

O major Leopoldo Silva, depois de ouvir o capitão Curado, ficou meditando e passou uma
noite agitada, segundo disseram os camaradas que o admiravam. Certamente, o dever militar
de cumprir as ordens, nos termos categóricos que os, Governos de Lisboa e de Moçambique
insistiam em salientar, obrigou moralmente o novo comandante a manter a ordem de marcha
sobre Massassi, procurando atingir o objectivo designado.

A marcha foi iniciada em 8 de Novembro, e nesse mesmo dia chocou a coluna com o
inimigo, que lhe cortava a estrada em Lulindi (Quivambo).

Tomado o primeiro contacto com o inimigo, duas peças de montanha e as nossas


metralhadoras apoiaram o fogo da infantaria indígena da guarda avançada, comandada pelo
capitão de engenharia António de Melo. Generalizado o combate, - combate de Lulindi ou de
Quivambo - uma metralhadora alemã, que enfiava a estrada, dificultava o remuniciamento, e
o comandante da coluna, para dar o exemplo, aproximou-se da linha de fogo com um
cunhete, sendo atingido, eram treze horas, por duas balas, vindo a morrer dois dias depois em
Nevala.

Embora os alemães fossem forçados a retirar, foi-nos adversa a sorte das armas, tendo ficado
ferido, mortalmente, o prestigioso comandante logo no seu primeiro combate, quando as suas
qualidades excepcionais poderiam galvanizar as nossas tropas, perseguindo o adversário e
coroando o heróico, esforço do bravo capitão Curado com a sua 21.ª e alguns bons pelotões
indígenas, um da Guarda Republicana e outro da 22.ª, depois de terem cooperado num
renhido combate de guarda avançada, que bem merecia as honras duma monografia.

Com a morte do major Leopoldo Silva a coluna estacionou, perdendo o fôlego, à vista dos
rochedos de Massassi. Já corriam boatos de que os alemães se concentravam para virem em
força contra nós. A 15 de Novembro assume o comando da coluna o major Aristides Cunha,
que em breve, informado do avanço de algumas companhias alemãs, fez reunir o conselho de
oficiais, que votou pela retirada para Nevala. A coluna contava então 486 espingardas, mas
com um diminuto valor militar perante o adversário, que, reforçado, tomava a contra-
ofensiva, incorporando os marinheiros do cruzador Koenisberg, com o seu antigo
comandante capitão Loof.
Retirou a coluna em 19, e em 22 de manhã
estabelece-se o contacto com os alemães que
atacam logo de madrugada os defensores da
água, no sopé do planalto. Comandava o
posto da água o tenente Montanha, com a
24.ª companhia indígena e um pelotão de
infantaria 28.

Semelhantemente ao que pensáramos


precisamente um mês antes, também os
alemães entendiam que a água era a vida do
fortim. Houve um combate renhido que
durou todo o dia, faltando uma eficiente
cooperação da nossa artilharia de Nevala,
porquanto a visibilidade era dificultada pelo
denso mato onde se tinham desenvolvido os
Jangada para a passagem do Rovuma alemães, que atacaram principalmente as
faces Oeste e Norte dos entrincheiramentos
da água. A nossa resistência foi até ao esgotamento das munições tendo sido morto o alferes
Matos e aprisionado o comandante, tenente Montanha, quando cobria a retirada dos seus
homens através do mato até ao Rovuma. Os entrincheiramentos do nosso posto, com os seus
três poços da preciosa água, foram tomados de assalto.

De 22 a 28 de Novembro sofreram bastante nas trincheiras os sitiados de Nevala, porquanto


a ração de água era insuficiente, não obstante se ter procurado encher a cisterna, pagando-se
aos indígenas locais o transporte de água.

Em 28 uma coluna de socorro a Nevala 10, sob o comando do capitão A. Benedito de


Azevedo, penosamente organizada, saindo o comandante do hospital e incorporando os
homens que se tinham escapado do combate da água, dias antes, foi lançada de Maúta sobre
Nevala, com um total de 11 oficiais e 252 praças entre europeus e indígenas 11 tendo sido
determinado pela telegrafia sem fios que de Nevala saísse uma força, para cooperar em
ligação com essa coluna. A dez quilómetros de Nevala à coluna de socorro foi barrada a
passagem pelos alemães, cuja infantaria «dispersa pelo mato, bem oculta, desenvolve intensa
fuzilaria, atingindo a guarda avançada. Numa volta da estrada, mais além, a flecha descobre
duas metralhadoras que imediatamente ataca. O inimigo responde, a coluna faz alto 12. E o
combate generaliza-se, evidenciando-se a superioridade numérica e as melhores condições
da parte do ataque. «Num último esforço – porque as munições iam falhando – manda-se
armar baioneta! O cornetim toca «à carga»! Os soldados landins rompem o seu canto
guerreiro, que se perde no mato selvagem.» Mas «um emaranhado de trepadeiras e de
espinheiros formando mato cerrado» é impenetrável à carga. Aproximando-se a medo, sem
se achar o inimigo, resolve-se a retirada que duas metralhadoras procuram cobrir. Assim
retirou a coluna de socorro, sem que se tivesse efectivado a ligação com Nevala, ainda -que
um pelotão da 22.ª, chegasse a sair das trincheiras com esse fim.
Em vista deste fracasso e estando já
doente o major Aristides Cunha, foi
reunido o conselho de oficiais em Nevala
e resolvido que pela noite de 28 se
abandonasse o fortim. Nessa tarde choveu
em Nevala, dando alento essa água
providencial às tropas sitiadas. Destruiu-
se o material pesado, incluindo quatro
peças de montanha. E a famosa retirada
de Nevala, em direcção ao Rovuma,
iniciou-se pelas 22 horas, constituindo a
Sentinela num posto do Rovuma guarda da retaguarda o capitão Curado
com a sua 21.ª companhia.

Afirma o capitão Curado, no seu relatório, que através de muitas dificuldades e apesar de
haver muitos extraviados, dentre os quais ficou prisioneiro um tenente de artilharia, a
regularidade da operação foi mantida, não só até ao Rovuma, que era atravessado em 30 de
Novembro, mas ainda mais além.

Os alemães, que nesse dia 28 tinham conseguido meter em bateria contra Nevala uma peça
comprida de marinha de 10,5 cm trazida com grandes dificuldades do Rufigi, e que
esperavam, por terem cortado a água aos portugueses, que os defensores de Nevala se
rendessem sem condições, ficaram logrados com a retirada (que só perceberam ás 8h30 de
29) e lançaram-se logo numa tenaz perseguição com patrulhas na direcção sul e com as
tropas pelo planalto, onde perdíamos os nossos postos de etapas da margem norte do
Rovuma na direcção da sua foz.

Perdeu-se muito material, mas na sua maioria incapaz. A secção de telegrafia sem fios
funcionou até dar o último sinal, com o motor esburacado e as bobines queimadas 13. O seu
comandante, tenente Moreira de Sá, obrou prodígios de habilidade e valor para consertar os
motores quando, depois de várias tentativas em que se distinguiu um pelotão de infantaria
28, a estação foi removida, debaixo de fogo, para dentro do recinto dos entrincheiramentos.

A perseguição dos alemães pelo planalto fez-se mais sentir em 1 de Dezembro pelo meio-dia,
quando a peça de 10,5 cm do cruzador Koenisberg começou a bater com certeira pontaria o
posto de Nangadi, que em breve incendiava. Em Nangadi procurava-se organizar uma
defesa, mas as tropas estavam sem força moral. Houve algumas repressões violentas para se
formarem unidades, distinguindo-se nelas pela sua energia o tenente Gemeniano Saraiva 14. A
21.ª companhia do comando do capitão Curado novamente formou a guarda da retaguarda,
enquanto o chefe do estado maior da expedição, com patrulhas, ia até ao Rovuma e ficava
alguns dias no Alto da Serra, na crista militar do planalto da margem Sul do Rovuma.

No Alto da Serra foi adoptada a táctica alemã, de activo serviço de patrulhas, de preferência
a abrir um campo de tiro. Nesse serviço de patrulhas distinguiu-se o alferes Viriato de
Lacerda, conseguindo tirar bom partido dos dedicados cipais.

Contudo os alemães passaram um destacamento de perseguição para a margem sul, o qual


teve um encontro com a companhia do capitão Curado, que, entre outras perdas, ficou sem o
capitão médico Silva Pereira, desaparecido e dado por morto no mato.

Naquela incerteza das comunicações, que é característica das campanhas coloniais, foi
morto, em 7 de Janeiro de 1917, o capitão de cavalaria Ferreira da Silva, com algumas
praças, quando retirava de noite num camião, depois de desempenhar uma missão de
parlamentário, afirmando a patrulha alemã, que fizera a emboscada, desconhecer a qualidade
de parlamentário de quem passava.

Cessara o avanço dos portugueses em território alemão, sendo seguido por uma rápida
retirada, somente restando na margem Norte do Rovuma o posto colocado na Fábrica, junto à
foz do rio, posto que foi evacuado meses depois, por desnecessário e fatigante para a
guarnição.

Nos meados de Dezembro começaram as chuvas torrenciais naquela região e logo subiram as
águas rapidamente constituindo o rio um fosso insuperável. Esta circunstância permitiu que
as nossas tropas tomassem fôlego; uma melhor alimentação foi dada aos soldados indígenas
distribuindo-se-lhes café de manhã 15 e assim voltaram a ser reocupados os nossos postos da
margem sul, sendo a primeira companhia a dar o exemplo de marcha, a 21.ª do capitão
Curado.

Três cruzadores ingleses vieram sucessivamente visitar-nos e um deles trazia um avião, que
nalguns voos tirou fotografias dos nossos postos.

O General comandante da expedição tinha adoecido gravemente e o Governo autorizara o


seu regresso à Metrópole. A campanha estava num ponto morto, os sul-africanos iam retirar
em grande número, sendo substituídos por tropas negras inglesas vindas da África Central.
Aquela insistente informação de que a guerra estava a acabar, não se confirmava.

Mas, assim como, ao referirmo-nos ao combate de Tanja, observámos que esse sucesso dos
alemães conseguira neutralizar os ingleses durante o ano de 1915, assim também agora,
depois de Nevala, termo das operações na zona secundária do Rovuma em 1916, podemos
repetir que os alemães conseguiram neutralizar a fronteira portuguesa durante o ano de 1917,
em que comandou as nossas forças o Governador Geral, Álvaro de Castro, que consumiu o
primeiro semestre num trabalho lento de indispensável reorganização 16.

Notas:
1. Revista Militar – 1919. Número comemorativo da Grande Guerra. (voltar ao texto)

2. História da Guerra, do jornal Times, Volume 19, parte 236, pág. 41. (voltar ao texto)

3. Ordens de serviço da Expedição de 1916. Arquivos do Estado Maior do Exército,


Ministério das Colónias e Quartel General de Moçambique. (voltar ao texto)

4. Tropa de África, de Carlos Selvagem, pág. 130, 2.ª edição. (voltar ao texto)

5. General Gomes da Costa, A Guerra nas Colónias, pág. 165 e 170. (voltar ao texto)

6. António de Cértima, Epopeia Maldita. Diário de um expedicionário. (voltar ao texto)

7. Livro de Ouro da Infantaria, 1922 – Artigos do capitão Curado e do C.E.M. págs. 135 e
166. (voltar ao texto)

8. Ordem do exército (2.ª série) n.º 6, de 25 de Março de 1916. (voltar ao texto)

9. A adriça embaraçou-se e a bandeira ficou a meio do mastro. Mau prenúncio? ... (voltar ao
texto)

10. Como Fizeram os Portugueses em Moçambique, tenente Mário Costa. pág. 99. (voltar ao
texto)

11. Revista Militar – 1928, pág. 458. «Coluna de Socorro a Nevala». (voltar ao texto)

12. Cartas de Moçambique, tenente Mário Costa, págs. 143 a 155. (voltar ao texto)

13. A Grande Guerra em Moçambique, capitão A. J. Pires, pág. 78. (voltar ao texto)

14. Revista Militar – 1930, pág. 305. (voltar ao texto)

15. Ordens de Serviço da Expedição de 1916. Logo na Ordem n.º 1 se determinava que a
instrução às tropas fosse registada nos diários de campanha das unidades e que a instrução
sobre higiene fosse diária, fazendo notar às praças a gravidade de infracções a esses deveres.
(voltar ao texto)

16. O Governador Geral assumiu o comando das forças por Decreto n.º 2.924 de 4 de Janeiro
de 1917, quando regressou à metrópole o General Ferreira Gil. (voltar ao texto)

Fonte:

Coronel Eduardo Azambuja Martins, «A campanha de Moçambique»,


in General Ferreira Martins (dir.), Portugal na Grande Guerra, Vol. 2, Lisboa, Ática, 1934,
págs. 155 - 168

José César Ferreira Gil

General, historiador militar e comandante da 3.ª expedição a Moçambique, em 1916,


durante a Primeira Guerra Mundial.

Nasceu na Celorico da Beira em 1 de Novembro de 1858;


morreu em 15 de Agosto de 1922.

Frequentou a Escola do Exército (a Academia Militar) de 1876 a 1878, sendo promovido a


alferes efectivo e, Outubro de 1881. Em 1899 foi colocado na Escola Prática de Infantaria,
em Mafra, sendo o comandante da Companhia Normal de Instrução, a unidade que servia
para experimentar, estudar e normalizar os regulamentos. Pouco tempo depois voltou à
Escola do Exército como comandante da companhia de alunos. Promovido a major foi
nomeado 2.º comandante da Escola Prática de Infantaria. Em 1905 passou a professor do
Colégio Militar. Republicano desde cedo, foi promovido a coronel em 1911, sendo
transferido para o comando do regimento de infantaria n.º 29, aquartelado em Braga.

Tendo subjugado um motim desencadeado no seu regimento, durante o qual foi ferido,
recebeu a medalha de prata de valor militar, sendo nomeado director do Colégio Militar.
Promovido a general em 1915, foi escolhido para comandar a maior expedição militar
enviada para as colónias africanas no decurso da Primeira Guerra Mundial, para a qual,
como escreveu, não se achava verdadeiramente preparado.

A expedição acabou de sair de Lisboa em 3 de Junho de 1916, chegando a Palma, no Norte


de Moçambique, entre 3 e 5 de Julho. Em 19 de Setembro, dirigiu a invasão da «África
Oriental Alemã», a colónia germânica a Norte de Moçambique - a actual Tanzânia -, sem
sucesso, provocando a subsequente invasão alemã da colónia portuguesa. Em 10 de
Outubro de 1916 regressou a Portugal, oficialmente doente, sendo substituído no comando
das forças pelo governador-geral de Moçambique, Álvaro de Castro. Com o regresso a
Portugal, e após o seu restabelecimento, foi colocado na Secretaria da Guerra, sendo
director da 1.ª Direcção Geral quando morreu.

Escritor militar colaborou na Revista de Infantaria e na Revista Militar com artigos


técnicos e de história. Escreveu A Infantaria Portuguesa na Guerra da Península, obra que
saiu durante as comemorações do centenário da Guerra Peninsular.
Fonte:
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura

Álvaro de Castro

Governador geral de Moçambique de 1915 a 1918.

Nasceu na Guarda em 9 de Novembro de 1878;


morreu em Coimbra a 29 de Junho de 1928.

Filho do Dr. José de Castro e de Maria Benedita de Castro Pignatelli,


acabou o curso de oficial de infantaria em 1901 o curso de Direito
em 1908, acabando o seu terceiro curso, o Colonial, em 1911.

Republicano desde cedo, colaborou na Revista Nova e na Arte e Vida, participando


activamente nas conspirações de Coimbra de 1908 e 1910. Deputado na Assembleia
Constituinte de 1911, fez parte do grupo denominado «Jovens Turcos», sendo ministro da
Justiça no governo de Afonso Costa, em Janeiro de 1913 e ministro das Finanças no
governo de Azevedo Coutinho, em Dezembro de 1914.

Foi um dos chefes que liderou a Revolução de 14 de Maio de 1915 que, tendo provocado
um banho de sangue em Lisboa, conseguiu derrubar o governo de Pimenta de Castro.
Nomeado, como todos os outros dirigentes revolucionários, para postos chaves que
permitissem levar Portugal à participação activa na guerra, foi nomeado Governador Geral
de Moçambique nesse mesmo ano. Assumiu o comando das forças expedicionárias, em
Abril de 1917, após a demissão do general Ferreira Gil, em 24 de Dezembro de 1916.

Demitiu-se do seu posto devido a tomada do poder, em Lisboa, de Sidónio Pais, tendo sido
muito activo na Revolta de Santarém, de Janeiro de 1919, desencadeada contra o regime
Sidonista. Fundou o seu próprio partido, o Partido Republicano de Reconstituição Nacional
- o «Reconstituinte» -, cisão do Partido Democrático, tendo presidido a um governo que
durou 10 dias, de 20 a 30 de Novembro de 1920 e de novo a um que durou mais de 6
meses, de 18 de Dezembro de 1923 a 6 de Julho de 1924.

Com a Revolução do 28 de Maio de 1926 foi preso e internado em Elvas, donde se


conseguiu evadir exilando-se em Paris. Tendo adoecido gravemente, pediu permissão para
regressar ao país, tendo já chegado a Coimbra moribundo, vindo a morrer poucos dias
depois.

Fonte:
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura, vol. III, pág. 229.
A GUERRA EM MOÇAMBIQUE.

4. A INVASÃO DO TERRITÓRIO PORTUGUÊS

Mocimboa do Rovuma - Abrindo trincheiras

O COMANDO DO CORONEL SOUSA ROSA

Em 12 de Setembro de 1917 assume o comando da expedição o coronel Sousa Rosa, oficial


enérgico e disciplinador, mas sem experiência colonial. As instruções do Governo fixavam-
lhe o Quartel-general em Chomba, num planalto a 140 quilómetros do litoral.

O coronel Sousa Rosa projectava uma ofensiva 1 para a qual não tinha elementos. Dispunha
de 26 camiões, mas somente de 6 condutores 2. Entretanto um telegrama de Lisboa, datado
de 14 de Outubro, determinava que o melhor serviço a prestar seria guarnecer a fronteira elo
Rovuma, afirmando que o governo inglês reputava desastrosa, naquele momento, a ofensiva
portuguesa.

Diz o coronel Sousa Rosa, no seu relatório, «os ingleses julgavam que às suas aspirações de
grande ofensiva, não corresponderia da nossa parte grande acção». E assim, como o
comandante da expedição anterior, ele atribuía aos nossos aliados, o possível propósito de
tolher-nos a ofensiva pelo litoral, onde nos seria mais viável.
A expedição de 1917 foi para Portugal
um esforço muito maior do que o
realizado com a expedição de 1916,
porque então já tínhamos também tropas
em França e maior foi portanto a
improvisação. O Governador, Álvaro de
Castro, também teve de dominar, em 191
7, uma revolta indígena no Barué,
empregando nessa campanha algumas
companhias indígenas.

Sucessivamente embarcaram na
metrópole: no vapor Portugal, em 5 de
O coronel Sousa Rosa com o seu Q.G. e o Janeiro ele 191 7, um batalhão de
oficial inglês de ligação infantaria n.º 29, de Braga; no
Moçambique, em 15 de Fevereiro,
quadros para a organização de 20 companhias indígenas e um esquadrão; no Moçamedes, em
19 de Março, um batalhão de infantaria n.º 30, de guarnição em Bragança; no Portugal, em
30 de Abril, um batalhão de infantaria n.º 31, do Porto; e no Moçambique, em 2 de Julho, a
companhia de engenharia, duas baterias de artilharia de montanha, duas de metralhadoras,
serviços de saúde e administração militar, num efectivo total de 209 oficiais e 5.058 praças 3.

Para reforços a incorporar nas tropas indígenas e da expedição anterior, ainda seguiram mais
40% dos efectivos, atingindo 108 oficiais e 4.401 praças, que embarcaram em quatro vapores
até Outubro de 1917.

Além do material correspondente a este pessoal, embarcaram 55 camiões, 4 postos de


telegrafia sem fios e uma esquadrilha de aviação.

O rendimento destas improvisadas forças foi desolador. Na aviação, aos primeiros voos
incendiou-se o aparelho do tenente Gorgulho, que morreu logo; adoeceu o mecânico francês
contratado e os aparelhos vieram para
Lourenço Marques. O batalhão do 31, do
Parto, sem sair da base marítima, foi
aniquilado pelas doenças. 4.
Pior que as outras, esta expedição não
teve impulso nem alma. O comandante,
enérgico e cheio de boa vontade, quis
aplicar o regulamento disciplinar, mas
esse esforço foi contraproducente porque
se levantaram terríveis resistências 5.

Diz a Comissão de inquérito


Expedição de 1917 - Desembarque em «Nas condições em que o coronel Sousa
Mocimboa da Praia Rosa assumiu o comando da expedição,
já não seria fácil evitar que erros e deficiências anteriores viessem a ter uma perniciosa
influência no prosseguimento das operações. E, se preciso for justificar esta nossa apreciação
com outras opiniões, poderemos citar, ainda que com desgosto, a interessante e instrutiva
obra do comandante breveté J. Buhrer, L'Afrique Orientale Allemande et Ia guerre de 1914-
1918, onde a pág. 334 se lê o seguinte:

«Se nós observamos os portugueses, veremos tropas europeias fatigadas antes de haverem
combatido... A fé e o entusiasmo faltam completamente nos graduados...»

E a Comissão diz mais:

«O estudo deste período da campanha na Africa Oriental mais uma vez demonstra que as
estações superiores não puderam ou não souberam convenientemente preparar, nem
superiormente orientar a nossa intervenção militar nesse teatro de operações. Em tudo se
revela uma grande desorganização, a mais completa ausência de previsão e de uma
conveniente preparação, e a carência de recursos em dinheiro e em material indispensável
nas campanhas coloniais, factores estes aluda acrescidos com a falta de um plano de guerra
previamente estabelecido, onde tivessem sido fixados os objectivos políticos e militares da
nossa acção, como beligerantes, nesse teatro de operações. E, como se tudo isso não
bastasse, foi ainda por vezes agravado com a intervenção, nem sempre oportuna, de poderes
superiores aos Comandos das expedições na direcção das operações, e com o fraco apoio
que, também por vezes, foi dado a estes Comandos pelo Governo central».

COMBATES DE NEGOMANO E DA SERRA MECULA

O posto de Negomano estava instalado à entrada do vale do Lugenda, faixa relativamente


rica entre o Oceano e o Lago Niassa.

Em 21 de Novembro de 1917, o comandante von Lettow marcha de Nevala com 2.200


espingardas, 300 europeus e 3.000 carregadores, formando quinze companhias, seguindo
para Oeste pela margem norte do Rovuma. 6 Em 25 encontra o posto português de
Negomano sob o comando do major Teixeira Pinto, distinto oficial 7, com bastante
experiência colonial, tendo-se distinguido na Guiné, onde lhe foi dedicado um monumento
pelos seus serviços militares na pacificação dessa colónia.

Aos portugueses escasseavam em Negomano ferramentas e alimentação para indígenas e, se


estavam prevenidos da marcha das forças alemãs, também estavam convencidos de que a
campanha ia terminar. As nossas forças eram formadas por seis companhias indígenas e seis
metralhadoras. Pormenor característico: - alguns oficiais entraram em combate vestidos de
branco!

Ao meio dia foi estabelecido o contacto com os alemães na margem Norte do Rovuma e às
12 horas e 45 minutos abriam eles fogos com uma peça sobre o dispositivo português, cujos
entrincheiramentos insuficientes eram em semi-círculo apoiado no Lugenda, dispositivo que
depois se tornou circular, apresentando um grande alvo ao adversário.

Os alemães executaram uma manobra que


obteve a decisão. Enquanto atacavam a
nossa face voltada ao Norte, um
destacamento de três companhias
atravessava o Rovuma e o Lugenda a um
quilómetro da sua confluência e,
desfilando essas três companhias
abrigadas pelo arvoredo, vinham atacar as
nossas forças pelo sul, onde a 28.ª
companhia indígena, recuando
1917 - O primeiro vôo português em África desmoralizada, deu ensejo ao assalto
- Tennte Jorge Gorgulho geral dos alemães, que com as suas doze
companhias cercaram completamente as
nossas seis, que entravam pela primeira vez em fogo defrontando tão aguerridos adversários.

Tivemos 5 oficiais mortos, entre eles o major Teixeira Pinto, 14 europeus e 208 indígenas;
mais de 70 feridos graves e 550 prisioneiros entre os quais 31 oficiais.

Após o combate, em que do lado português se repetiram as mesmas faltas de ligação, além
de pouca combatividade 8, os alemães não se demoraram, em consequência de não terem
alimentação para os indígenas e depois de se apossarem dos despojos formaram duas
colunas, marchando cada uma pela sua margem do Lugenda. Todos os prisioneiros foram
soltos. Dizem as memórias do General Lettow que ele ao iniciar o combate não sabia se tinha
a defrontar ingleses ou portugueses, reconhecendo depois serem estes pelo som das
espingardas e que se decidiu a combater para conseguir munições e abastecimentos. Já em
1916 os alemães tinham atacado, em 29 de Agosto, o pequeno posto de Negomano, sendo
repelidos. Foi nessa ocasião que o alferes Marcos, saindo para fora da trincheira, recolheu
aos ombros um cabo indígena ferido 9.

Curioso se torna observar, quanto às operações portuguesas, que este segundo combate de
Negomano, em 25 de Novembro de 1917, parece suceder ao de Nevala, como se entre os
dois não tivesse decorrido um ano 10. Nós supúnhamos a campanha a terminar, mas, se
tivéssemos avançado, em ligação com os ingleses, talvez fossem cercados em Nevala os
alemães. A manobra foi proposta, com duas companhias portuguesas que atravessariam o
Rovuma, mas os ingleses consideraram essa força muito fraca, e a operação não se realizou.

Os alemães escapam-se de Nevala, onde estavam quase cercados pelos ingleses, batem-nos
em Negomano e internam-se no território português, conseguindo prolongar a campanha até
o Armistício.

Na grande circunscrição de Metarica, a poente do Rio Lugenda, a Serra Mecula, constituída


por alturas pedregosas dalgumas centenas de metros, com uma frente favorável à ocupação
duma companhia indígena e uma bateria de metralhadoras cobria os nossos abastecimentos
concentrados em Nanguar, interceptando os caminhos para o Sul.

O capitão Curado, que comandava essa força, deixaria um oficial com instruções para
destruir esses abastecimentos, se os alemães aparecessem, e ele próprio avançaria com as
reduzidas forças para tentar deter o adversário.

Esquema do ataque dos alemães


Em 1 de Dezembro de 1917
começou a abrir os entrincheiramentos nas posições que dominavam os caminhos de acesso
do adversário, apesar de serem poucas as ferramentas de que dispunha. 11

Às 5 horas da manhã de 3 de Dezembro deu-se o contacto, tendo pelo dia adiante os alemães
reforçado as suas forças e sucessivamente varrido os nossos postos avançados de combate;
mas após sete horas de fogo, retiravam com bastantes baixas, perante a resistência tenaz e
persistente dos defensores, os quais, depois de refeitos, com energia melhoraram os seus
entrincheiramentos durante os dias 4 e 5 de Dezembro.

No dia 6 os alemães voltaram ao ataque com maior número de metralhadoras e maiores


efectivos, visando em especial as metralhadoras dos defensores da posição da Serra Mecula.
No combate deste dia empregaram patrulhas e prolongaram o tiroteio até ao pôr-do-sol.

Aproveitando a noite conseguiram fazer avançar as suas patrulhas de modo que, ao romper
novamente o fogo na manhã do dia 7, já se encontravam em estreito contacto com os
defensores, mas a disciplina e o cruzamento dos nossos fogos conseguia detê-los mais um
dia.

Finalmente, na manhã do dia 8 já traziam ao combate duas peças de artilharia, alvejando com
as suas granadas as nossas trincheiras e, com maiores efectivos, conseguiam envolver as
posições em que os portugueses se encontravam então encurralados. Com esse avanço
conseguiam os alemães apoderar-se das fontes que abasteciam de água as nossas tropas e os
refrigeradores das metralhadoras, que escaldavam pelo intenso fogo.

Ao meio-dia apoderam-se duma parte das nossas trincheiras. Mas ainda assim, a luta durou
mais duma hora até que eles se lançaram ao assalto, decidindo o combate. Foi então que
morreu um dos oficiais novos, que já tinha um nome prestigiado 12, o tenente Viriato de
Lacerda, ferido mortalmente quando destruía a metralhadora que lhe restava, para que ela
não caísse em poder dó inimigo. Ao ser enterrado este oficial, os alemães prestaram-lhe
honras, dando um pelotão as descargas do estilo e sendo acompanhado pelos seus camaradas,
amigos e inimigos até ao coval. O governador da colónia alemã Dr. Schnee, que acompanhou
sempre as suas tropas em 1917 e 1918, assistiu ao funeral. Comandava o destacamento
inimigo o general de reserva Wahle, figura típica do valor militar dos nossos adversários;
visitava a colónia alemã quando rebentou a guerra e, voluntariamente, serviu em importantes
comandos subordinados ao, então tenente-coronel, von Lettow.

Depois foi comunicado ao comandante das nossas forças, capitão Curado, que os alemães
tinham resolvido dar a liberdade aos prisioneiros, mas como garantia exigiam aos oficiais o
compromisso de honra de não voltarem a combater os impérios centrais e, aos outros
graduados europeus, que não combatessem mais em África. Como os nossos se recusassem a
tomar esse compromisso, a que se opõem os regulamentos, os alemães acataram com apreço
essa resolução, dando-lhes liberdade incondicional.

O combate da Serra Mecula, essa resistência tenaz durante quatro dias, até que a companhia
e a bateria de metralhadoras ficaram reduzidas a 36 indígenas, depois do assalto, foi uma das
acções mais impressionantes da campanha, dando novo realce à figura prestigiosa do
valoroso comandante, capitão Curado, a quem chamaram «o condestável do Rovuma» e que
contudo só foi promovido por distinção mais de dois anos depois. 13

OS COMBATES DE NHAMACURRA

O comunicado dos aliados, em 4 de Dezembro de 1917, dizia: «Uma pequena força alemã
refugiou-se em território português, tendo já sido tomadas todas as providências para a sua
perseguição». A este tempo o coronel Sousa Rosa recebia ordem para evacuar Porto Amélia,
que constituiria uma nova base das forças inglesas, as quais, conquanto cooperando na
defesa da nossa colónia, não ficariam subordinadas ao Comando português. 14

Conforme o relatório do general bóer Van Deventer, comandante em chefe dos Aliados, a
situação era por ele interpretada, quanto aos alemães, supondo-se que os seus propósitos
seriam prolongar a campanha, evitando empenhar-se a fundo, para poder durar por mais
tempo, enquanto do lado dos aliados o plano de campanha a efectivar nos primeiros meses de
1918, após as chuvas que em regra calam em Março, seria cercar os alemães que se
mantinham no centro dos territórios da Companhia do Niassa, entre os rios Rovuma e Lúrio.

A 13 de Dezembro de 1917 15 chegam os transportes ingleses a Porto Amélia e começa a


morosa organização duma coluna inglesa, sob o comando do coronel Rose, enquanto o
general Van Deventer vai a Lourenço Marques conferenciar com o governador geral interino
da nossa colónia, porquanto o governador Álvaro de Castro retirara para a Metrópole. Em
meados de Abril de 1918 todas as forças inglesas desembarcadas em Porto Amélia ficam sob
o comando do general Edwards e tomam o contacto com os alemães, que combatem
sucessivamente em todas as frentes com sensíveis perdas de ambos os lados, atingindo por
vezes um décimo dos efectivos. No mês de Maio o cerco aos alemães é mais apertado; os
portugueses continuam em Chomba e no Rio Lúrio, enquanto os generais Edwards e
Hawthorn, este vindo do Niassa, estabelecem ligação entre si. Mas os alemães conseguem
escapar-se para o Sul atravessando o Rio Lúrio em diversos vaus e abandonando duas
ambulâncias carregadas de doentes e feridos, para tornar mais móveis as suas forças, e assim,
em Junho surpreendem algumas forças portuguesas já no distrito de Quelimane, dizendo nas
suas memórias o comandante - «que os oficiais estavam tomando café na varanda do posto»
16
.

A ignorância do serviço de patrulhas foi a nossa maior deficiência táctica, deixando-nos


surpreender com frequência e tolhendo-nos os movimentos. Semelhantemente os ingleses
muito sofreram pela mesma falta das suas tropas.

Em vista da ameaça alemã sobre Quelimane, o dispositivo aliado desloca-se para o Sul. O
coronel Sousa. Rosa muda o seu Quartel-general para Quelimane e o general Edwards
transfere o seu para Moçambique. Os cruzadores «Adamastor» e «Thistle» protegem a vila
de Quelimane, sendo ali os portugueses reforçados por um batalhão de três companhias
indígenas inglesas.

Os alemães marchavam com um grupo de três companhias em guarda avançada seguida pelo
grosso das forças a um dia de marcha e a guarda da retaguarda a duas etapas depois. As
instruções de Von Lettow tinham por fim procurar munições.

Esquema do ataque

O nosso serviço de segurança continuava entregue provisoriamente ao oficial inglês, o qual


em 30 de Junho, véspera do combate de Nhamacurra, dizia: «Não há notícias do inimigo. O
Rio Licungo não é vadeável». Pois no dia seguinte, 1 de Julho, os alemães da guarda
avançada atravessavam a vau o Licungo; verdade é que os homens tinham água pelo pescoço
e a operação da travessia do rio levou horas a executar.

Nhamacurra, 40 quilómetros a Norte de Quelimane, é um grande depósito duma Companhia


Açucareira, estação do caminho-de-ferro de Quelimane, depósito também servi ido por um
rio navegável; os depósitos tinham trezentas toneladas de açúcar e outros géneros.

O comando das forças aliadas pertencia a um major português, mas por fim coube a um
tenente-coronel inglês Brown, promovido na ocasião 17. A posição das trincheiras, com três
quilómetros de desenvolvimento, era cortada por uma difícil linha de água, tendo sido
guarnecida por três companhias portuguesas e duas inglesas. Conforme o relatório do
comandante em chefe Van Deventer, na tarde de 1 de Julho, o sector Oeste da posição foi
surpreendido e torneado, e, apesar de os oficiais e sargentos portugueses terem combatido
durante três horas com bravura 18, todo o sector, com duas peças de tiro rápido, caiu em
poder do inimigo, tendo os portugueses dois oficiais e um sargento mortos, muitos feridos e
onze oficiais prisioneiros. 19

No dia 2 os alemães voltam a atacar, já com o grosso sob o comando de Von Lettow, mas são
repelidos. Às 6 horas da manhã do dia 3, repetem o ataque com maior intensidade e às 15
horas abrem fogo com a artilharia 20, provocando desordem o aparecimento de civis nas
trincheiras, e o pânico rebenta fugindo as tropas para o rio, onde morrem afogados o
comandante inglês Brown e muitas praças, devido à forte corrente e à largura do rio avaliada
em 80 metros. Dos europeus ficaram prisioneiros, quase todos feridos, 5 ingleses e 117
portugueses, conseguindo evadir-se de noite cerca de 55 portugueses. Além das duas peças
desmanteladas, os alemães tomaram 7 metralhadoras pesadas e 350 espingardas portuguesas
e inglesas.

Depois deste renhido combate de Nhamacurra, ainda apareceu subindo o rio um vapor com
munições e abastecimentos, o qual foi também capturado pelos alemães, que já não tinham
carregadores que pudessem transportar tão valiosas presas.

Os alemães fizeram depois correr o boato de que iam atacar Quelimane, tornando assim
inquietante a situação da vila, onde foi logo dada ordem para o embarque nos cruzadores, das
mulheres e crianças bem como dos valores do Banco, e se tomaram disposições de defesa,
contra a possibilidade daquele ataque.
O general Van Deventer a bordo do
cruzador ligeiro inglês em Porto Amélia

Em Nhamacurra verificou, o comandante Von Lettow que muitos soldados indígenas dos
ingleses eram já recrutados na África Oriental Alemã, incluindo também bastantes antigos
soldados alemães 21, donde se prova a facilidade com que um soldado indígena se pode
alistar sob diferentes bandeiras, continuando a ser bom soldado.

Para nós, verificou-se neste combate a dificuldade de cooperação com os ingleses, resultante
do nosso infeliz desconhecimento mútuo.

O combate de Nhamacurra foi a última acção importante dos portugueses no período do


comando do coronel Sousa Rosa, que em 7 de Julho regressava à Metrópole. Foi nomeado
comandante em sua substituição o general Gomes da Costa, meses antes regressado da
França, o qual, porém, só chegou a assumir o comando em 21 de Dezembro, depois do
armistício 22.

Notas:

1. Este oficial era deputado e no Parlamento advogava a ofensiva nesta campanha. (voltar
ao texto)

2. Chauffeurs no original. (voltar ao texto)

3. Revista Militar, 1918, pág. 129. (voltar ao texto)

4. Quando descreve com o mais sincero e pungente realismo a situação sanitária das tropas
em Mocimboa da Praia, nova base marítima, que arranjara a fama de Sintra do Niassa, o Dr.
Américo Pires de Lima, no Seu já citado livro, diz:

«Se na enfermaria e na Cruz Vermelha a mortalidade era penosa, no quartel do 31 a situação


chegou a ser verdadeiramente alarmante. Todas as manhãs faltavam vários soldados à
chamada e o sargento de serviço, que ia abana-los à cama para os despertar, ia dar com eles
mortos. Dias houve em que apareceram assim mortos dez soldados (3 de Julho)... Naquele
ambiente era preciso ter a vontade bem temperada para não sucumbir, como sucumbiram os
do 31, que diziam com fatalista resignação: «sou do 31, tenho de morrer.» E o certo é que
indivíduos, hoje com aparência de boa saúde, no dia seguinte apareciam mortos nas tarimbas.
O destino inexorável preparava assim para os médicos da expedirão de 1916 a mais
estrondosa reabilitação e, para os áulicos de Lourenço Marques, a mais clamorosa derrota..A
caluniada expedição de 1916, com as formidáveis marchas que executou, os combates que
travou, as fadigas e privações de toda a ordem, não tinha, ao fim dum, ano, 6 % de mortos. O
batalhão do 23 tinha perdido exactamente 5,6% dos seus homens. Pois o 31, sem dar um
passo e sem dar um tiro, chegou a perder 10% ao mês e, no fim dum ano, daquele batalhão
restavam uns míseros destroços». (Nota da Direcção). (voltar ao texto)

5. O caso deu origem a um inquérito na metrópole, cujas conclusões se encontram na O. do


Ex. (2.ª série) n.º 16 de 1926. (voltar ao texto)

6. Foi na noite de a 21/22 que o Q. G. português foi alarmado pelo boato de que os alemães,
entrando em território nosso, viriam atacar Chomba.

Estava o acampamento de Chomba coberto na frente pelos auxiliares, do capitão Neutel de


Abreu, cuja posição dominava a estrada de Mocimboa do Rovuma. Não obstante a confiança
que devia inspirar essa valiosa cobertura, o Comando resolveu retirar, nessa mesma noite, o
Q. G. para Nacature.

Cabe aqui prestar a devida homenagem ao capitão Neutel – o «Mahon» na gíria indígena –
oficial dos mais notáveis na nossa história colonial contemporânea. Ao serviço da colónia de
Moçambique desde 1898, as suas qualidades militares, assinaladas em sucessivas acções de
campanha na ocupação efectiva das regiões do norte da colónia ----ocupação que a ele
principalmente se deve e ao não menos valoroso major José Augusto da Cunha-- criaram-lhe
tal prestígio entre os indígenas que estes o consideravam e respeitavam como um semideus.
Deve-se-lhes a pacificação dos macondes, indígenas que os alemães, segundo é de crer,
revoltaram contra nós, e que Cunha e Neutel com as tropas auxiliares do seu comando,
conseguiram dominar por completo, vindo estabelecer-se depois no planalto da Chomba,
onde naquela noite, não davam noticia da aproximação dos alemães. De facto, estes, não se
dirigiram sobre Chomba, mas sobre Negomano. A informação deste movimento do inimigo
foi enviada a Negomano pelo oficial inglês de ligação, capitão Cohen, mas chegou tarde:
pouco depois começava o ataque. (Nota da Direcção). (voltar ao texto)

7. Buhrer (L'Afrique Orientale, 191 4-1918) diz: Teixeira Pinto, «excelente oficial
português». (voltar ao texto)
8. Revista Colonial, 1920, n.os 86 e 87. (voltar ao texto)

9. Revista Militar, 1930, pág. 160. (voltar ao texto)

10. Livro de Ouro da Infantaria, 1922, pág. 89. (voltar ao texto)

11. Revista Militar, 1919. pág. 430. (voltar ao texto)

12. O tenente Viriato de Lacerda «que, num corpo franzino e doente, tinha uma energia
férrea e serena» – diz o Dr. Pires de Lima (loc. cit.) - e que já se tinha distinguido na retirada
de Nevala, «negou-se terminantemente a ser repatriado quando os médicos da expedição de
1916 verificaram o precário estado de saúde em que o pusera um ano de campanha. Ainda
combateu mais dois anos, e não combateu mais porque uma bala o prostrou para sempre, no
alto da Serra Mecula...» (voltar ao texto)

13. Ordem do Exército, 2.ª' série de 1920. pág. 618. (voltar ao texto)

14. Sobre esta questão do comando, merece registo a resposta dada pelo nosso M.N.E.,
Sidónio Pais, em 8 de Janeiro de 1918 à proposta que em 6 recebera do Governo Britânico,
por intermédio da sua Legação em Lisboa. Essa resposta, em que se faz a apologia da
unidade do comando, termina por «concordar com a proposta do Governo de S. M. Britânica
para que as forças portuguesas em operações na África Oriental cooperem com as forças
aliadas sob o comando do chefe mais graduado, organizando-se todavia um quartel general
misto.» (Nota da Direcção). (voltar ao texto)

15. É de 18 de Dez. a nota em que o M. N. E. Sidónio Pais, comunica ao Ministro de


Portugal em Londres que, «recebidos os pedidos da Legação Britânica expressos em
memorandum de 12 de Dez. pedindo autorização para o desembarque de tropas britânicas em
Porto Amélia e outras providências julgadas indispensáveis, apressei-me a notificar a plena
satisfação do pedido e promover a expedição de instruções terminantes para Moçambique no
sentido desejado. Na nota que me dirigiu, anunciando estar autorizado a corresponder-se com
o Governo a que presido (nota de 16 de Dez.), o Sr. Ministro de Inglaterra regista e agradece
em nome do Governo Britânico o deferimento do pedido como prova concreta dos
sentimentos amigáveis que lhe foram asseverados...» (Nota da Direcção). (voltar ao texto)

16. Memórias do general Lettow. Tradução. pág. 310. (voltar ao texto)

17. A Campanha da África Oriental. Descrita no jornal «Africano» de Lourenço Marques.


1919. (voltar ao texto)

18. Relatório do general Van Deventer. (voltar ao texto)

19. Foram estes oficiais que dirigiram em 1 4 de Julho de 1918, ao comando alemão, um
protesto contra a forma desumana como eram tratados no cativeiro. (voltar ao texto)
20. A duzentos passos das trincheiras inglesas. Memórias, General Lettow. pág. 322. (voltar
ao texto)

21. Memórias, General Von Lettow, pág. 333. (voltar ao texto)

22. Ordem final de ocupação da fronteira do Rovuma. Expedicionários, por Eduardo de


Faria. (voltar ao texto)

Fonte:

Coronel Eduardo Azambuja Martins, «A campanha de Moçambique»,


in General Ferreira Martins (dir.), Portugal na Grande Guerra, Vol. 2, Lisboa, Ática, 1934,
págs. 171 - 182
Tomás de Sousa Rosa

Comandante da 4.ª Expedição a Moçambique


durante a Primeira Guerra Mundial

Nasceu em Lisboa, em 1 de Março de 1867;


morreu em 4 de Junho de 1929.

Entrou para o exército em 1884, como voluntário, tendo chegado ao posto de capitão em 1905. Com
a instauração do regime republicano a sua carreira progrediu rapidamente. Major em 1911 era coronel em 1916. Com esse
posto, sendo deputado pelo Partido Democrático, em cujas listas tinha sido eleito em 1915, foi encarregue em meados de
1917 do comando da 4.º expedição a Moçambique para onde partiu em Julho.

Em Moçambique, na sua única campanha colonial, teve que combater a invasão alemã da província, que aconteceu em
Dezembro de 1917. Avançando para Sul, em Junho de 1918 os alemães encontram-se a quarenta quilómetros de Quelimane,
depois de terem vencido mais uma vez as forças portugueses no combate de Namacurra, agora reforçadas por forças
britânicos. Após este combate Quelimane encontrava-se indefesa, mas os alemães decidiram voltar para Norte. Sousa Rosa
aproveitou para pedir a exoneração. O pedido foi aceite e o coronel regressou a Portugal em Julho desse ano.

Em Portugal foi promovido a general, por escolha, em 2 de Agosto de 1919, quando ocupava o cargo de comandante interino
da 6.ª Divisão do Exército, e era deputado pelo Partido Democrático (1919-1925). Com a promoção a general foi transferido
para o comando efectivo da 3.ª divisão, que dirigiu até 1923. De 1926 a 1928 foi Inspector superior da Administração do
Exército, presidindo ao Conselho de Recursos.

Fontes:
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Desfile de tropas portuguesas em Luanda

CRONOLOGIA DA GUERRA NO ULTRAMAR - DE 1961 A 1974

• Antecedentes: da criação das Nações Unidas à Revolta em Luanda.

Portugal e o começo da descolonização.

• A Guerra em Angola, Moçambique e Guiné, de 1961 a 1968.

A guerra sem dúvidas.

1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968

• A Guerra durante o consulado marcelista, de 1968 a 1974

A tentativa de encontrar uma solução política.

1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974


A ver também:

• 1. Do colonialismo republicano ao anti-colonialismo socialista..


A mudança de atitude em relação ás colónias, em Portugal e no Mundo.
• 2. O fardo do homem branco, o suplício do homem negro.
A ideia da missão civilizadora da Europa, como justificação da corrida à ocupação
efectiva do continente africano.

CRONOLOGIA DA GUERRA NO ULTRAMAR - DE 1961 A 1974


---

Antecedentes: da criação das Nações Unidas à Revolta em Luanda.

1945 - 1961

Cartaz do filme de António Lopes Ribeiro


«Feitiço do Império».

1945

Junho 26 Assinatura da Carta das Nações Unidas por 50 países na


Conferência de São Francisco
Agosto 6 Lançamento, pelos Estados Unidos, da bomba atómica sobre a
cidade japonesa de Hiroxima
Setembro 2 Assinatura da rendição do Japão a bordo do couraçado americano
Missouri e fim da II Guerra Mundial
Outubro 24 Criação da Organização das Nações Unidas (ONU)

1946

Novembro 23 Início da guerra da Indochina, com o bombardeamento do porto de


Haiphong

1947

Agosto 15 Independência da índia

1949
Abril 4 Criação da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte)
Outubro 1 Proclamação da República Popular da China

1951

Junho 11 Alteração constitucional, com o desaparecimento da autonomia


formal do Acto Colonial e a sua integração na constituição
portuguesa de 1933
Junho 15 0 Ministério das Colónias passa a designar-se Ministério do
Ultramar

1952

Abril 28 Criação da Direcção-geral dos Serviços do Ultramar, no Ministério


do Exército

1953

Fevereiro 4 Início dos acontecimentos de Batepá, em São Tomé e Príncipe, que


conduzem a uma violenta repressão
Maio 27 Publicação da Lei Orgânica do Ultramar

1954

Maio 20 Aprovação do Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da


Guiné, Angola e Moçambique, que divide as populações em três
grupos: indígenas, assimilados e brancos
Junho 24 Invasão dos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli pela União Indiana
Julho 21 Fim da guerra da Indochina com os acordos de Genebra, após a
derrota militar das forças francesas em Dien-Bien-Phu, em 6 de
Maio
Agosto 9 Reorganização da PIDE com a criação do quadro para o Ultramar
Outubro 10 Fundação da UPNA (União dos Povos do Norte de Angola), em
Leopoldville, dirigida por Holden Roberto
Outubro 22 Início da guerra da independência da Argélia
Novembro Início da extracção petrolífera em Angola

1955

Abril 18 Início da Conferência de Bandung, dos países não alinhados, em


cujo comunicado final se considerava como um dever dos países
ajudar os povos não independentes a ascender à soberania
Maio Constituição do Pacto de Varsóvia
Dezembro 14 Admissão de Portugal na ONU, juntamente com mais 14 países

1956

Fevereiro 24 Carta do secretário-geral da ONU a Portugal, perguntando, como era


norma corrente, se Portugal administrava territórios que entrassem
na categoria indicada no artigo 73.° da Carta
Setembro 18 Fundação, em Bissau, do PAIGC (Partido Africano para a
Independência da Guiné e Cabo Verde), dirigido por Amílcar Cabral
Novembro 6 Resposta de Portugal ao secretário-geral da ONU, afirmando que
não administrava territórios que entrassem na categoria indicada no
artigo 73 ° da Carta
Dezembro 10 Fundação, em Luanda, do MPLA (Movimento Popular de
Libertação de Angola), chefiado por Mário de Andrade

1957

Março 6 Independência do Gana (antiga Costa do Ouro)


Dezembro 26 Início da Conferência Afro-Asiática do Cairo, com representação de
35 países, que proclamou o direito dos povos à autodeterminação, à
soberania e à independência

1958

Abril 15 Decreto de remodelação orgânica militar de Angola e Moçambique


Junho 8 Conferência em Acra, com a presença de oito dos nove países
independentes do continente africano, não comparecendo o Egipto.
Eleições presidenciais em Portugal. Humberto Delgado, candidato
da oposição democrática, é oficialmente considerado vencido, com
base em fraudes eleitorais
Junho 11 Início da primeira missão de um oficial português, major Hermes de
Oliveira, junto das forças francesas na Argélia
Agosto 14 Remodelação ministerial com a entrada do general Botelho Moniz
para a Defesa, de Almeida Fernandes para ministro do Exército, de
Costa Gomes para subsecretário de Estado do Exército, de
Quintanilha de Mendonça Dias para a Marinha e de Lopes Alves
para o Ultramar
Agosto 22 Nomeação do general Beleza Ferraz para o cargo de CEMGFA e do
general Câmara Pina para chefe do Estado-Maior do Exército
Outubro 2 Independência da Guiné-Conacri
Novembro 24 Directiva do ministro do Exército sobre o estabelecimento de um
programa geral de aperfeiçoamento e actualização do Exército
Dezembro 6 Início da 1.ª Conferência dos Povos Africanos, em Acra, que, para ,.
além das medidas de apoio aos movimentos emancipalistas de todo
o continente, decidiu criar um secretariado permanente com sede
naquela cidade

1959

Março 10 Remodelação da mecânica orçamental das forças militares


ultramarinas
Março 12 Tentativa fracassada de golpe contra o regime de Salazar,
envolvendo militares e civis
Abril 22 Directiva do ministro do Exército sobre a necessidade de
organização de unidades terrestres para operações de contra
guerrilha para actuação no Ultramar
Julho 13 Aprovação, pelo Conselho Superior de Defesa, do Plano de
Reapetrechamento das forças terrestres ultramarinas
Agosto 3 Acontecimentos de Pidjiguiti, em Bissau, com violenta repressão de
estivadores grevistas, causando várias dezenas de mortos
Agosto 4 Início da Conferência dos Estados Independentes, em Monróvia,
que, numa das resoluções aprovadas, proclamava o direito à
autodeterminação dos territórios coloniais
Outubro 7 Reorganização do Ministério do Exército, que passa a ter jurisdição
sobre os territórios coloniais
Outubro 12 Directiva do EME sobre a definição da política militar do Exército
Novembro 6 Despacho ministerial sobre a criação do Centro de Instrução de
Operações Especiais (CIOE), em Lamego, destinado a preparar
tropas para a luta contra guerrilha
Dezembro 12 Eleição, pela Assembleia Geral da ONU, do Comité dos Seis para
estudo e definição do conceito de «território não autónomo», cujo
reconhecimento implicava a obrigação, para a potência
administrante, de prestar informações ao abrigo do artigo 73 ° da
Carta

1960

Janeiro 20 Directiva do CEMGFA que altera os objectivos estratégicos da


defesa nacional, apontando para uma futura guerra no Ultramar
Janeiro 25 Início da 11 Conferência dos Povos Africanos, em Tunes, em que
representantes dos movimentos de libertação de Angola, Guiné e
Moçambique dissolvem o MAC (Movimento Anti-Colonial) e
formam a FRAIN (Frente Revolucionária Africana para a
Independência Nacional das Colónias Portuguesas)

Fevereiro Publicação, em Londres, do texto de Amílcar Cabral Factos acerca


das Colónias Africanas de Portugal, sob o pseudónimo de Abel
Djassi
Abril 4 Independência do Senegal
Abril 16 Decreto-lei de criação do Centro de Instrução de Operações
Especiais, em Lamego
Abril 22 Publicação das normas para as comissões de serviço dos militares no
Ultramar
Abril 25 Criação do Depósito Geral de Adidos
Abril 29 Parecer do Governo português sobre o artigo 73.°- da Carta das
Nações Unidas, não reconhecendo competência à Assembleia Geral
para exigir que os Estados membros iniciem a transmissão de
informações sobre os territórios ultramarinos
Junho Realização da III Conferência dos Estados Africanos, em Adis-
Abeba, em que esteve presente um delegado nacionalista angolano
Junho 13 Declaração do MPLA ao Governo português para a solução pacífica
do problema colonial
Junho 16 Manifestação de trabalhadores rurais em Mueda (Moçambique), que
conduz a violenta repressão
Junho 25 Prisão de dezenas de angolanos, entre os quais Agostinho Neto e
Joaquim Pinto de Andrade
Junho 30 Independência do Congo ex-Belga (depois Zaire, e actualmente de
novo Congo)
Julho Intervenção da ONU (capacetes azuis), no Congo ex-Belga
Secessão da província do Catanga, do Congo ex-Belga, declarada
por Moisés Tchombé
Julho 14 Início da Conferência dos Povos Africanos, em Adis-Abeba que
conduz à divisão dos Estados africanos em face das suas diferentes
orientações ideológicas
Agosto 15 Independência do Congo ex-francês
Setembro 25 Petição do PAIGC ao Governo português para resolução pacífica do
problema da Guiné
Outubro Fundação, em Salisbúria, da União Democrática de Moçambique
(Udenamo)
Novembro 12 Manifestação em Lisboa contra a ONU, com representação de todos
os concelhos
Novembro 24 Reorganização territorial das forças terrestres, com a criação de
cinco regiões militares, incluindo Angola e Moçambique, e sete
comandos territoriais independentes, entre os quais o da Guiné
Novembro 30 Intervenção de Salazar dirigida à Assembleia Nacional sobre a
questão da unidade nacional
Dezembro Conferência de imprensa, em Londres, dos dirigentes nacionalistas
dos territórios portugueses
Publicação do primeiro número do jornal Libertação, órgão do
PAIGC
Dezembro 14 Aprovação, pela Assembleia Geral da ONU, da Resolução 1514
(XV), conhecida como Declaração Anti colonialista
Dezembro 15 Aprovação, pela Assembleia Geral da ONU, da Resolução 1541
(XV), constituída pelo Relatório dos Seis, elaborado pelo respectivo
comité, contendo a definição de território não autónomo
Dezembro 15 Aprovação, pela Assembleia Geral da ONU, da Resolução 1542
(XV) que entendia como territórios não autónomos os territórios
administrados por Portugal, e sobre os quais havia obrigação de
prestar informações

1961

Janeiro 6 Início da repressão dos agricultores de algodão, na Baixa do


Cassange, em Angola
Janeiro 20 Posse de John Kennedy como presidente dos Estados Unidos da
América
Janeiro 22 Assalto ao paquete Santa Maria, dirigido por Henrique Galvão
Janeiro 31 Publicação do Programa para a democratização da República, pela
oposição democrática, em que se repudia qualquer manifestação de
imperialismo colonialista
Fevereiro Assassínio do dirigente nacionalista congolês Patrice Lumumba,
facto que precipitou a guerra civil

Fonte principal:

Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique, Lisboa, Diário de Notícias, s.d.

A ver também:

• 1. Do colonialismo republicano ao anti-colonialismo socialista..


A mudança de atitude em relação ás colónias, em Portugal e no Mundo.

• 2. O fardo do homem branco, o suplício do homem negro.


A ideia da missão civilizadora da Europa, como justificação da corrida à ocupação efectiva
CRONOLOGIA DA GUERRA NO ULTRAMAR - DE 1961 A 1974

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A Guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

1961

Membros da Juventude da UPA,


em treino com arma. Angola, 1961

Fevereiro

4 Revolta em Luanda, com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à


Emissora Oficial de Angola, acção considerada como o início da luta armada
em Angola
7 Primeira aterragem na pista do Negaje, em Angola. Esta data passou a ser o
Dia da Unidade do AB3
17 Chegada a Lisboa do paquete Santa Maria
20 Pedido de uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para
apreciação do caso de Angola, apresentado pela Libéria

Março

Carta do general Botelho Moniz a Salazar, em que manifesta preocupação


pela condução da política ultramarina
Início dos planos Centauro Grande e Marfim Negro, com vista à remodelação
do dispositivo das forças portuguesas em Angola, com a companhia como
unidade-base da contra guerrilha
4 Informação dos Estados Unidos ao Ministério da Defesa sobre a decisão da
UPA em provocar incidentes violentos em Angola na noite de 15 de Março,
informação menosprezada pelo comando militar de Angola
6 Encontro entre o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, e o embaixador
americano, Elbrick, que, segundo instruções do seu Governo, pressiona a
alteração da política portuguesa em África, posição que o embaixador
transmitiu a Salazar no dia seguinte
10 Inscrição na ordem do dia, pelo Conselho da ONU, da questão de Angola
Início do debate pelo Conselho de Segurança do pedido apresentado pela
Libéria sobre o caso de Angola, que foi rejeitado
15 Partida de Lisboa de quatro companhias de caçadores para reforço da
guarnição de Angola
Início de uma rebelião dirigida pela UPA, no Norte de Angola, contra os
colonos portugueses e algumas populações negras, causando centenas de
vítimas
Moção do Conselho de Segurança da ONU a condenar a situação em Angola,
votada pelos Estados Unidos e União Soviética, o que acontece pela primeira
vez
16 Ataques dos elementos sublevados do Norte de Angola a algumas povoações,
como Carmona, Aldeia Viçosa e Bessa Monteiro
Chegada a Luanda da primeira companhia de pára-quedistas
Telegrama das associações económicas de Angola ao Governo central, a
pedir providências
17 Primeiro comunicado oficial sobre os acontecimentos do Norte de Angola
18 Início da actuação da Força Aérea no Norte de Angola
21 Chegada, a Luanda, do almirante Lopes Alves, ministro do Ultramar
Evacuação de mais de 3500 portugueses residentes no Norte de Angola para
Luanda, através de ponte aérea
23 Início da Conferência dos Povos Africanos, no Cairo, em que foi aprovada
uma resolução política respeitante aos territórios portugueses
Portugal abandona os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, em protesto
pelo facto de ter sido aceite a discussão da situação em Angola
24 Aprovação do decreto para a condução da política de defesa nas províncias
ultramarinas
25 Carta do ministro da Defesa, general Botelho Moniz, a Salazar, em que
preconizava «imediatas reformas no plano interno»
27 Reunião dos altos comandos militares, presidida pelo ministro da Defesa,
onde se coloca a hipótese de substituição do Governo
Manifestação contra a política norte-americana, em Lisboa
28 Constituição, em Angola, do primeiro corpo de voluntários civis
30 Decreto que dá aos governadores--gerais o encargo da política de defesa de
cada colónia
31 Anunciada a prisão do cónego Manuel Mendes das Neves, por apoio aos
movimentos de libertação de Angola
Criação de um corpo de voluntários civis, para actuação no Norte de Angola

Abril

Autorização do financiamento secreto a Holden Roberto e à UPA por parte do


National Security Council Special Group (EUA)
1 Decreto da organização da Defesa Civil do Território, com criação nas
colónias de uma comissão de coordenação de defesa civil
2 Emboscada, em Cólua, a uma coluna militar portuguesa, sendo mortos nove
militares, dos quais dois oficiais, capitão Castelo da Silva e tenente Prazeres
4 Aprovação de uma moção a favor da autodeterminação de Angola pela
Assembleia Geral da ONU
8 Primeira referência pública de Salazar à questão de Angola durante uma
recepção aos agricultores do Baixo Mondego
10 Ataque à povoação de Úcua, na estrada Luanda-Carmona, com o massacre de
13 brancos
10 Primeiro ataque a trabalhadores bailundos de uma fazenda na área do Quitexe
11 Ataque a uma patrulha portuguesa próximo de Tando Zinge, Cabinda
12 Ataque à povoação de Lucunga, com massacre da maior parte dos seus
habitantes brancos
13 Ataque de guerrilheiros provenientes do Congo-Brazzaville a Bucanzau, em
Cabinda
Tentativa de golpe de Estado dirigido pelo general Botelho Moniz, que leva à
demissão dos mais altos chefes militares
Remodelação governamental, assumindo Salazar a pasta da Defesa em
substituição de Botelho Moniz, Mário Silva substitui Almeida Fernandes, no
Exército, e Adriano Moreira substitui Vasco Lopes Alves, no Ultramar
14 Beleza Ferraz, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, é substituído por
Gomes de Araújo
Declaração de Salazar na tomada de posse dos novos membros do Governo:
«A explicação é Angola, andar rapidamente e em força é o objectivo que vai
por à prova a nossa capacidade de decisão»
15 Reunião do primeiro Conselho Superior Militar, presidido por Salazar, para
tratar do envio de reforços militares para Angola
Carta do coronel Costa Gomes ao Diário Popular afirmando que o problema
africano não era fundamentalmente militar
18 Partida dos primeiros contingentes militares, para Angola, formados por pára-
quedistas, por via aérea
Assembleia constituinte da CONCP (Conferência das Organizações
Nacionalistas das Colónias Portuguesas), em Casablanca, em substituição da
FRAIN
20 Aprovação, pela Assembleia Geral da ONU, da Resolução 1603 (XV),
incitando o Governo português a promover urgentes reformas para
cumprimento da Declaração Anticolonialista, tendo em devida conta os
direitos humanos e as liberdades fundamentais
Instituição, pela Assembleia Geral da ONU, de um Sub comité dos Cinco, a
fim de investigar a situação relacionada com os acontecimentos em Angola
21 Partida dos primeiros contingentes militares para Angola (via marítima)
23 Partida de uma companhia de legionários para Angola
24 Revogação do Estatuto de Trabalho Indígena Rural (Decreto-Lei 44 309)
28 Criação do Movimento Nacional Feminino
30 Fim do cerco à povoação de Mucaba, depois da intervenção da Força Aérea

Maio

1 Chegada a Luanda dos primeiros contingentes transportados por via marítima


2 Ataque a Sanza Pombo e novos ataques a Mucaba e à Damba, no Norte de
Angola
Decreto de suspensão da obrigação do cultivo do algodão
4 Franco Nogueira substitui Marcelo Matias no Ministério dos Negócios
Estrangeiros
Ataque ao Songo, a norte de Carmona
6 Ataque a São Salvador do Congo
8 Criação dos batalhões de Caçadores Pára-Quedistas n ° 21 (BCP 21), em
Angola, e n.°- 31 (BCP 31), em Moçambique (Beira)
Ataques a Sanza Pombo, úcua, Santa Cruz, Macocola e Bungo, com
utilização de novas armas
21 Ataque frustrado ao nó de comunicações do Toto, a sul de Bembe
24 Ataque a Quimbele durante treze horas consecutivas
Ataque ao posto de Porto Rico, próximo de Santo António do Zaire, com
utilização de armas automáticas
26 Pedido de convocação urgente do Conselho de Segurança do ONU, por mais
de 40 países afro-asiáticos, em face do agravamento da situação em Angola
31 Chegada do Batalhão de Caçadores 88 à Damba
Posse do almirante Sarmento Rodrigues do cargo de governador-geral e
comandante-chefe de Moçambique
Separação da União Sul-Africana da Commonwealth, tomando a designação
de República da África do Sul

Junho

2 Ataques a várias fazendas em torno de Carmona, Negaje e Ambriz


Fuga de Portugal para o estrangeiro de estudantes ultramarinos, muitos dos
quais virão a desempenhar papel importante na luta nacionalista
4 Nomeação de Venâncio Deslandes para os cargos de governador-geral e
comandante-chefe de Angola
8 Primeiro avião da Força Aérea desaparecido em Angola, com três tripulantes
a bordo
9 Aprovação, pelo Conselho de Segurança do ONU de uma resolução
deplorando profundamente os massacres e demais medidas de repressão da
população angolana, podendo comprometer a persistência desta situação a
manutenção da paz e segurança internacionais
14 Reocupação do Tomboco por uma força da Marinha
17 Posse, em Lisboa, do cargo de governador-geral de Angola do general
Venâncio Deslandes
19 Ataque dos guerrilheiros da UFA à vila de Ambriz, com utilização de armas
automáticas
22 Criação da Secretaria de Estado de Aeronáutica, que substitui a Subsecretaria
de Estado, mantendo como titular KaúIza de Arriaga, que desempenhara um
papel importante na denúncia do golpe Botelho Moniz
24 Reocupação de Cuimba, a este de São Salvador do Congo
27 Visita a Lisboa, para conversações com o Governo, de Dean Rusk, secretário
de Estado norte-americano
30 Primeiro comunicado oficial das Forças Armadas, referindo a morte de 50
militares entre 4 de Fevereiro e 30 de Junho em Angola

Julho

Operações do Exército e Força Aérea na serra da Canda, para reabertura da


chamada «estrada do café»
Deslocação de um membro do Subcomité dos Cinco a Lisboa, para encontro
com Salazar
3 Visita de J. Fouché, ministro da Defesa da África do Sul, a Lisboa
7 Comunicado das Forças Armadas sobre as actividades dos meses de Maio e
Junho, no Norte de Angola
14 Difusão de Novas Directivas Gerais de Censura que exigem atenção especial
aos títulos e subtítulos referentes a acontecimentos militares do Ultramar
15 Morte de seis militares em Quicabo
18 Início da operação de cerco a Nambuangongo, ocupada pelos rebeldes desde
o início da sublevação em Angola
21 Ataque de um grupo de guerrilheiros ao aquartelamento português de São
Domingos, na fronteira da Guiné com o Senegal, que provocou quatro feridos
militares
27 Corte de relações diplomáticas do Senegal com Portugal

Agosto

1 Ocupação do Forte de São João Baptista de Ajudá pelo Daomé


3 Acções de sabotagem na Guiné, efectuadas pelo PAIGC
4 Ocupação de Zala e Quicunzo pelas forças portuguesas, que progridem para
Nambuangongo
7 Declaração do ministro do Exército à Emissora Oficial de Angola, onde
afirma que aos «terroristas» se colocava apenas um dilema: «Rendição
incondicional ou aniquilamento total»
8 Entrega de «brevets» às cinco primeiras enfermeiras pára-quedistas
9 Entrada de forças portuguesas em Nambuangongo
11 Primeira operação militar com lançamento de pára-quedistas, efectuado sobre
a região de Quipedro, em Angola
17 Primeira utilização operacional dos aviões caças-bombardeiros F84, a partir
da Base Aérea de Luanda
24 Extinção do regime da cultura obrigatória do algodão nos territórios coloniais
Início de uma operação conjunta, com aviação, pára-quedistas a forças
terrestres, na serra da Canda

Setembro

1 Início da I Conferência Plenária dos Países Não Alinhados em Belgrado apela


à ajuda internacional do povo angolano para que constitua sem demora um
estado livre e independente
5 Anúncio pelo ministro de Estado, Correia de Oliveira, da criação do Mercado
único Português, numa reunião com as associações económicas
6 Revogação do Estatuto dos Indígenas
9 Criação do Serviço Postal Militar
10 Início da operação militar conjunta que conduz à reocupação da «Pedra
Verde»
16 Desordem entre militares pára-quedistas e elementos da polícia, em Luanda,
de que resultou um mono a vários feridos, a que ficou conhecido como
«Incidente da Versalhes»
Entrada das tropas portuguesas na Pedra Verde
27 Encerramento da estrada Carmona Negaje, devido a novas acções militares
dos guerrilheiros da UPA
30 Transferência da sede do MPLA de Conacri para Leopoldville

Outubro

7 Discurso de Venâncio Deslandes, a dar por findas as operações militares no


Norte de Angola, passando-se à fase das operações de polícia
12 Partida para Angola da imagem de Nossa Senhora de Fátima, depois de uma
cerimónia em que estiveram presentes o cardeal Cerejeira e o chefe de Estado
13 Carta aberta de Amílcar Cabral ao Governo português, a reclamar a solução
pacífica do problema da Guiné a Cabo Verde
18 Cerimónia da entrega das insígnias aos primeiros fuzileiros navais, no
Alfeite, destinados a Angola
21 Início de um colóquio internacional, promovido pela União Indiana, sobre as
colónias portuguesas
31 Entrega ao presidente da República de uma carta pelos candidatos da
oposição, a exigir a substituição do Governo

Novembro

Intervenção das forças da ONU no Catanga para pôr fim à secessão


Visita do adido militar americano em Lisboa, a Angola
Recomposição do Comité Executivo da UPA, com Alexandre Taty, vice-
presidente, e Jonas Savimbi, secretário-geral
5 Definição, pelo Governo português, das bases para a «unidade económica da
Nação»
6 Manifestação do Exército de apoio ao Govemo, na sequência da cada da
oposição de 31 de Outubro
10 Desvio de um avião da carreira Lisboa-Casablanca, por membros da oposição
ligados a Henrique Galvão a dirigidos por Palma Inácio, com lançamento de
panfletos sobre Lisboa
Desastre de aviação do Chitado, em que morreu o general Silva Freire,
comandante da Região Militar de Angola, a mais 14 militares do Exército a
da Força Aérea
13 Condenação, pela Comissão de Tutela da ONU, da política colonial
portuguesa
14 Abandono por Portugal de uma sessão da 4.ª Comissão da ONU, em protesto
pela audição de dois dirigentes do Movimento de Libertação da Guiné a
Cabo Verde
Partida do primeiro destacamento de fuzileiros especiais para Angola
18 Visita do primeiro-ministro da Federação das Rodésias a Niassalândia a
Lisboa, para conversações com Salazar
22 Alteração do sistema tributário português, para fazer face às despesas de
guerra
27 Criação do Comité de Descolonização da ONU
Anúncio, pelo governador-geral de Angola, de «nova actividade terrorista»
no Norte do território

Dezembro

Acordo entre Mário de Andrade, líder do MPLA, e Humberto Delgado, para


a formação de uma Frente Unida contra o regime português
2 Expulsão de Portugal de quatro missionários norte-americanos, acusados de
apoio aos movimentos angolanos
8 Independência da Tanzânia
12 Evacuação de mulheres a crianças de Goa
14 Determinação de Salazar sobre a índia: «Apenas pode haver soldados e
marinheiros vitoriosos ou mortos»
16 Intimação do Governo da União Indiana para a evacuação dos territórios de
Goa, Damão a Diu
Veto da União Soviética a um projecto de resolução do Conselho de
Segurança da ONU, a condenar a União Indiana pela ameaça militar contra
Goa, apresentado pelos Estados Unidos, França a Turquia
17 Início da operação militar que leva à ocupação de Goa, Damão a Diu por
pane da União Indiana
19 Instituição pela Assembleia-geral da ONU de um Comité Especial para os
Territórios Administrados por Portugal (Comité dos Sete), a convidar os
estados membros a recusar qualquer ajuda ou assistência utilizável contra as
populações dos territórios coloniais
Apresentação da rendição das tropas portuguesas ao comando indiano
30 Discussão de Salazar com alguns ministros sobre a hipótese de abandono da
ONU por Portugal

CRONOLOGIA DA GUERRA NO ULTRAMAR - DE 1961 A 1974

---

A Guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

1962

Guerrilheiros da Frelimo.

Janeiro

1 Ataque ao quartel de Beja dirigido por Varela Gomes, no âmbito de um


movimento militar que não teve êxito.
Constituição, em Dar-es-Salam, do Comité de Unificação dos Movimentos
Nacionalistas de Moçambique.
3 Estabelecimento, em Lisboa, de um governo do Estado da índia.
15 Portugal abandona a Assembleia-geral da ONU, em virtude do debate sobre
Angola.
27 Acordo entre Portugal e a União Indiana para o repatriamento de mais de três
mil prisioneiros
30 Resolução da Assembleia-geral da ONU, reprovando a repressão e acção
armada desencadeada por Portugal contra o povo angolano, reafirmando o
direito deste à autodeterminação e independência
31 Manifestação no Porto com gritos de ordem contra guerra colonial, o que
acontece pela primeira vez

Fevereiro

Criação da Missão de Estudos Económicos do Ultramar


2 Marcelo Caetano preconiza uma modificação constitucional com vista a
transformar o Estado unitário em Estado Federal

Março

Abertura de negociações entre Portugal e a África do Sul sobre um projecto


de aproveitamento do rio Cunene
Fim da guerra da Argélia
Constituição, por intelectuais portugueses naturais ou residentes em Angola,
da Frente Unida Angolana (FUA), de apoio ao MPLA
2 Criação de uma organização de voluntários de carácter permanente em cada
um dos territórios coloniais
3 Reivindicação, pela UPA, em Leopoldville, da prisão e execução de um
destacamento do MPLA
12 Início das emissões da Rádio Portugal Livre, a partir da Argélia
13 Prisão, em Bissau, pela PIDE, dos dirigentes do PAIGC, Rafael Barbosa e
Fernando Fortes
Cada do Comité dos Sete da ONU ao Governo português solicitando
informação sobre as condições de uma visita do Comité aos territórios sob
administração portuguesa
18 Deslocação a Lisboa do governador-geral de Moçambique, almirante
Sarmento Rodrigues, por causa de actividades secessionistas de colonos da
Beira
23 Resposta do Governo português à carta do Comité dos Sete da ONU
recusando a visita do Comité aos territórios sobre administração portuguesa
24 Proibição, pelo Governo, das celebrações do Dia do Estudante, abrindo-se a
crise académica
27 Constituição da FNLA, a partir da UPA e do PDA

Abril
5 Formação do GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio) pela
FNLA
6 Greve da Universidade de Lisboa
12 Remodelação ministerial, com Gomes de Araújo a substituir Salazar na
Defesa Nacional, Joaquim da Luz Cunha a substituir Mário Silva no Exército
e Peixoto Correia a substituir Adriano Moreira no Ultramar
Agitação nas universidades – luto académico
27 Aprovação do Código do Trabalho Rural para o Ultramar

Maio

Evasão de Lisboa, onde tinha residência fixa, de Agostinho Neto


1 Repressão de manifestações de rua em Lisboa com palavras de ordem contra
a guerra colonial, de que resulta um morto e várias dezenas de feridos
22 Chegada a Lisboa dos primeiros prisioneiros portugueses da índia, a bordo do
navio Vera Cruz

Junho

Apresentação, por Amílcar Cabral, perante a Comissão da ONU para os


territórios administrados por Portugal, de um relatório intitulado «O Nosso
Povo, o Governo Português e a ONU».
14 Criação de um Centro de Instrução em Zemba (CI 21) para formar as
primeiras unidades de comandos
25 Criação da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), presidida por
Eduardo Mondlane

Julho

Entrada em funcionamento da base de Kinkusu, atribuída pelo Governo do


Congo-Leopoldville à UPA
Condenação, em Luanda, dos escritores António Jacinto, António Cardoso e
José Graça (Luandino Vieira) a 14 anos de prisão por «actividades contra a
segurança exterior do Estado»
5 Independência da Argélia

Agosto

Recomendação da Conferência de Ministros dos Negócios Estrangeiros da


OUA reunida em Dacar para o reconhecimento do GRAE de Holden Roberto

Setembro
Fundação, em Dacar, da Frente de Libertação Nacional da Guiné (FLING)
1 Petição ao presidente da República, por um grupo de personalidades da
oposição, reclamando a demissão de Salazar e uma modificação na política
ultramarina
23 Início do I Congresso da Frelimo em Dar-es-Salam
24 Demissão de Venâncio Deslandes dos cargos de governador-geral e
comandante-chefe de Angola, na sequência de divergências com o ministro
do UItramar, Adriano Moreira, por questões de autonomia política e
administrativa do território

Outubro

24 Recepção de Kennedy a Franco Nogueira

Novembro

Fim da secessão do Catanga e Cassai, que são reintegrados no Congo-


Leopoldville
15 Carta de Viriato da Cruz aos elementos do MPLA, manifestando-se contra
Agostinho Neto
23 Depoimento de Eduardo Mondlane, em nome da Frelìmo, perante o Comité
Especial da ONU para os territórios administrados por Portugal

Dezembro

Apresentação na ONU do plano «U Thant» para unificação do Congo, para


solucionar a questão da secessão do Katanga
Declarações de David Mabunda, secretário-geral da Frelimo, no Cairo,
segundo as quais seria inevitável nova guerra, como em Angola, se Portugal
não tomasse medidas imediatas para garantir a autodeterminação de
Moçambique
1 Negociações, em Paris, de Sócrates Deskalos, presidente da Frente Unida
Angolana (FUA), para abrir um novo quartel-general no Congo e para
colaborar com a UPA e MPLA
Início do I Congresso do MPLA em Leopoldville, com Agostinho Neto na
presidência e Mário de Andrade na vice-presidência, sendo elementos da
Comissão Governativa P. Domingos da Silva, Matias Miguéis, Manuel Lima
e Sócrates Daskalos
3 Remodelação ministerial, com a entrada de Gomes de Araújo para ministro
da Defesa, de Luz Cunha para ministro do Exército, de Peixoto Correia para
o Ultramar e de Francisco Chagas para secretário de Estado da Aeronáutica
12 Aprovação de uma moção na ONU recomendando um programa especial de
assistência técnica para educação e treino de dirigentes nacionalistas dos
territórios sob administração portuguesa
13 Apresentação de Amílcar Cabral na Comissão de Curadorias da ONU como
representante do PAIGC
14 Resolução da Assembleia-geral da ONU sobre Angola, condenando a atitude
de Portugal, pedindo o reconhecimento imediato do direito dos povos não
autónomos à autodeterminação e independência e a cessação imediata de
todos os actos de repressão
18 Resolução da Assembleia-geral da ONU, reafirmando o inalienável direito do
povo de Angola à autodeterminação e independência, condenando a guerra
colonial conduzida por Portugal e requerendo ao Conselho de Segurança as
medidas adequadas
19 Início da Conferência das Forças Antifascistas Portuguesas, que funda a
Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN)
28 Depoimento de Holden Roberto, líder da UPA, perante a comissão especial
da ONU

CRONOLOGIA DA GUERRA NO ULTRAMAR - DE 1961 A 1974

---

A Guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

1963

Amílcar Cabral com guerrilheiras do PAIGC

Janeiro

18 Debate pelo Governo português de um projecto de Lei Orgânica do


Ultramar.
23 Início da luta armada na Guiné, com um ataque ao quartel de Tite pelo
PAIGC.

Fevereiro

Expulsão dos portugueses residentes na Serra Leoa e proibição de importação


de mercadorias portuguesas, por causa da política colonial de Portugal
Organização, pelo Comité Político da FLN da Argélia, do Dia de Angola,
como apoio à independência
4 Início da 3.ª Conferência de Solidariedade Afro-Asiática na Tanganica,
presidida por Julius Nyerere, em que foi pedido o boicote económico e
diplomático contra Portugal
21 Encontro de Salazar com dois enviados do presidente Youlou, do Congo-
Brazzaville, que se propõe mediar uma solução para o problema angolano

Março

Captura, por guerrilheiros do PAIGC, dos navios Mirandela e Arouca perto


de Cacine, que mais tarde utilizou para transporte de pessoal e material na
Guiné-Conacri
Reuniões da Comissão de Descolonização da ONU, atribuindo prioridade aos
territórios sob administração portuguesa
Deserção do piloto militar português Jacinto Veloso, que aterrou com o seu
avião na Tanzânia
1 Publicação de um conjunto de decretos com vista à formação de um mercado
único português
10 Declaração de Amílcar Cabral em Paris sobre a disponibilidade de o PAIGC
suspender a luta, se Portugal quisesse solucionar pacificamente o problema
colonial
13 Contestação do Governo português à competência da Comissão de
Descolonização da ONU para decidir sobre os territórios ultramarinos de
Portugal
15 Comemoração, pela UPA, em Leopoldville, do segundo aniversário do início
das hostilidades em Angola, com a presença do primeiro-ministro congolês
Aníbal São José Lopes assume a direcção da PIDE em Angola
21 Demissão de dez oficiais, em consequência dos acontecimentos da Índia

Abril

Atribuição, a vários militares, do Prémio Governador-Geral, instituído pela


TAP, pelas acções valorosas em defesa de Angola
Tentativa, por parte do MPLA, de reactivar a acção da ATCAR, Associação
dos Quiocos do Congo, Angola e Rodésia
3 Anúncio, por Franco Nogueira, da intenção de negociar um pacto de
não-agressão com os países limítrofes de Angola e outros países africanos
9 Comunicado oficial do Governo do Senegal sobre o bombardeamento
efectuado por quatro aviões portugueses a uma aldeia fronteiriça, sendo o
assunto comunicado ao Conselho de Segurança da ONU
11 Publicação da Encíclica Pacem in Terris do Papa João XXIII com referência
explícita à independência de todos os povos
20 Reunião Internacional da Juventude em Argel, com a presença de
representantes de Angola

Maio

Entrevista de Mário de Andrade, do MPLA, ao jornal Le Monde, em que


afirma ser indispensável e decisivo o isolamento total de Portugal
François Mendy, presidente da Frente de Luta pela Independência da Guiné
(FLING), preconiza uma conferência para o reagrupamento de todos os
movimentos nacionalistas das colónias portuguesas 1963.05 Comandante
Vasco Rodrigues, governador?geral da Guiné
Conferência entre Peterson, representante da UPA, e o presidente Kaunda em
Elisabeteville sobre a possibilidade de a UFA utilizar o território da Rodésia
do Norte (actual Zâmbia) como base
Nomeação de João Eduardo como representante permanente do MPLA em
Argel
Tentativa de desmantelamento por parte das autoridades portuguesas de uma
organização da Frelimo no Norte de Moçambique
Reunião do Comité Executivo da União Internacional dos Estudantes (UIE)
em Argel, em que é apresentado um relatório sobre a situação em Angola
25 Fundação da Organização de Unidade Africana (OUA) pelos chefes de 30
Estados independentes de África reunidos em Adis Abeba
28 Anúncio, pela NATO, da instalação em Portugal da base de comando da Zona
IberoAtlântica
29 Recepção de Franco Nogueira por Kennedy e Dean Rusk

Junho

Corte de relações diplomáticas da República Árabe Unida com Portugal


devido à política colonial portuguesa
Assalto à sede do MPLA, em Leopoldville, pela polícia congolesa, que
prende Agostinho Neto e Lúcio Lara
7 Declaração do secretário de Estado para os Assuntos Africanos dos Estados
Unidos, segundo a qual os interesses estratégicos dos EUA exigem a
continuação da cooperação com Portugal
10 Fundação, pelo MPLA, da Frente Democrática de Libertação de Angola
(FDLA)
Primeira cerimónia do Dia da Raça realizada no Terreiro do Paço, em
Lisboa, de homenagem às Forças Armadas
30 Passagem das acções do PAIGC para norte do rio Geba

Julho

Declarações do abade Youlou, presidente do CongoBrazaville, em Paris,


sobre conversações acerca da efectivação de eleições em Angola, solução
contestada pela FNLA
Criação em Leopoldville da Frente Democrática para a Libertação de Angola,
sob a presidência de Agostinho Neto, constituída pelo MPLA e outros
pequenos partidos 1963.07 Reconhecimento exclusivo do GRAE e da FNLA,
chefiados por Holden Roberto, pelo Governo do Congo-Leopoldville
(República Democrática do Congo) com reacções negativas de alguns países
africanos
Decisão da Libéria de expulsar portugueses residentes no seu território, com
excepção dos que solicitarem estatuto de refugiados
Corte de relações diplomáticas do Senegal com Portugal, com proibição de
circulação de pessoas e mercadorias na fronteira com a Guiné
Notícia do Le Monde sobre um contacto de Benjamim Pinto Buli, secretário-
geral da União dos Naturais da Guiné (UNGP) com as autoridades
portuguesas para a criação de um regime de autonomia interna
Utilização, pelo PAIGC, da primeira mina anticarro, na estrada Fulacunda-
São João
1 Debate, em Brazzaville, entre os movimentos nacionalistas angolanos no
sentido da formação de um Comité de Coordenação
Início da Conferência Internacional de Instrução Pública, em Genebra, em
que é aprovada uma moção que pede a exclusão de Portugal por causa da sua
política colonial
10 Início dos trabalhos de uma comissão de boa vontade nomeada pelo Comité
de Libertação Africano no sentido de tentar unir os esforços dos movimentos
de libertação angolanos
13 Reconhecimento do GRAE pelo Comité de Libertação da OUA (Organização
de Unidade Africana)
Início da visita a Leopoldville de uma missão da OUA, que recomenda aos
países africanos o reconhecimento do GRAE e o apoio à FNLA
16 Encontro de Salazar com Benjamim Pinto Buli, dirigente de uma das facções
da FLING
22 Crítica de Mário de Andrade à formação da Frente Democrática de
Libertação de Angola pelo MPLA
24 Encontro entre o presidente do Congo-Brazzaville, Youlou, e o embaixador
português em Paris sobre um programa para a realização de eleições em
Angola
27 Exclusão de Portugal da Comissão Económica para África (CEA), organismo
da ONU
31 Oposição dos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, no Conselho de
Segurança da ONU, à aplicação de sanções contra Portugal
Resolução do Conselho de Segurança da ONU que rejeita o conceito
português de «províncias ultramarinas», decidindo que a situação perturbava
seriamente a paz e a segurança em África, apelando a Portugal para
reconhecer o direito de autodeterminação e independência

Agosto

Congresso dos partidos nacionalistas de Cabinda em Ponta Negra, com a


presença do presidente Youlou, do Congo-Brazza, onde se formou a Frente
de Libertação de Cabinda
Carta de Salazar ao primeiro-ministro sul-africano pedindo cooperação e
lembrando que «estamos quase sós em África», explicando que ou o bastião
português resistia ou a guerra atingiria a África do Sul
Reconhecimento do GRAE de Holden Roberto pela Tunísia, Argélia e
Marrocos
Convite de Portugal ao secretário-geral da ONU para visitar Lisboa, a fim de
tratar das questões da política portuguesa em África
Concessão, pelo Governo português, à Pan American International Oil
Corporation, da prospecção de petróleo em Moçambique
10 Crítica do marechal Craveiro Lopes a alguns aspectos da política ultramarina
12 Discurso de Salazar sobre o problema do ultramar, que teve grandes
repercussões internacionais e levou os nacionalistas a reafirmarem a
continuação da luta
23 Interdição do espaço aéreo do Senegal a aviões procedentes ou destinados a
Portugal e à África do Sul
Cerimónia de apoio dos generais e oficiais superiores a Salazar e à política
ultramarina
27 Manifestação nacional no Terreiro do Paço, em Lisboa, de apoio à política
ultramarina do Governo, que serviu de base à legitimidade da política de
defesa ultramarina do Governo português
29 Início das conversações de George Ball, representante americano, com
Franco Nogueira e Salazar, em Lisboa, em que se evidenciam as divergências
relativamente aos conceitos de autodeterminação e do factor tempo no
problema africano
30 Encontro de George Bali, subsecretário de Estado americano, com Salazar,
sendo debatida a atitude americana face à política colonial e a presença dos
EUA nos Açores

Setembro

Reconhecimento do GRAE de Holden Roberto pelo Senegal


Conferência de imprensa, no Rio de Janeiro, de Jorge Goinola, representante
do GRAE, acompanhado de Humberto Delgado
Utilização pela FNLA, na região de Noqui, Norte de Angola, de minas AC
MK7 e granadas de mão Societa Romana
Conflito entre a FNLA e a FNLEC por causa de declarações sobre o enclave
de Cabinda
Condenação, pelo VIII Congresso Internacional Socialista, dos países que
persistem em oprimir os povos coloniais, como Portugal 1963.09.16 Início de
uma visita de Américo Tomás a Angola
23 Chegada do ministro da Defesa, general Gomes de Araújo, a Moçambique
para uma visita ao território

Outubro

Utilização pelos nacionalistas de Angola do seguinte armamento: granadas de


morteiro 60, LG anticarro AC-P27(checo), LG RPG2 (russo), canhão sem
recuo 57 (chinês) e canhão sem recuo 75 (chinês)
Realização da XVIII Assembleia Geral da ONU, em que os países afro-
asiáticos atacam a política colonial portuguesa
Realização de conversações entre representantes portugueses e africanos,
promovidas por U'Thant, secretário-geral da ONU, que virá a apresentar um
relatório ao Conselho de Segurança sobre estas conversações
Anúncio, em Leopoldville, do recomeço da ofensiva no interior de Angola
por parte do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA), da FNLA
3 Posse, em Bissau, do novo secretário-geral da província da Guiné, James
Pinto Buli
4 Conferência de imprensa do Quartel-General de Luanda para comunicação da
situação militar em Angola
16 Início de conversações entre Portugal e alguns países africanos, sob a égide
da ONU, que incidiram, sem acordo, no sentido e no alcance do conceito de
autodeterminação
17 Decisão do Governo português de considerar os crimes previstos na
legislação militar, como cometidos em tempo de guerra

Novembro

Reorganização do MPLA, com ligação ao Corpo Voluntário Angolano de


Auxílio aos Refugiados (CVAAR) e da União Nacional dos Trabalhadores
Angolanos (UNTA)
2 Encerramento da sede do MPLA em Leopoldville e proibição da actividade
do movimento no Congo
7 Recepção de Franco Nogueira por Kennedy
8 Debate na Comissão de Curadorias da ONU, sendo pedido ao Conselho de
Segurança que se ocupe com urgência da situação nos territórios portugueses
22 Assassínio do presidente Kennedy, nos Estados Unidos da América
Dezembro

Primeiras actividades operacionais na Zona Militar Leste, em Angola


Intervenção de Henrique Galvão na ONU sobre a «questão ultramarina
portuguesa»
3 Resolução da Assembleia Geral da ONU, a solicitar ao Conselho de
Segurança a adopção das medidas necessárias à execução das suas resoluções
relativas aos territórios sob administração portuguesa
6 Declaração pública dos Estados africanos participantes nas conversações com
Portugal, em que se lamenta o facto de não ter modificado minimamente os
princípios fundamentais da sua política, tornando impossível qualquer
conversação séria
9 Convite do Governo português ao secretário-geral da ONU, U'Thant, para
visitar Angola e Moçambique
11 Resolução do Conselho de Segurança da ONU, a confirmar o conceito de
autodeterminação da Declaração Anticolonialista e a deplorar a inobservância
da resolução de 31 de Julho de 1963

RELATO DA TRAVESSIA DE ÁFRICA FEITA PELOS POMBEIROS

Desde meados do século XVIII que Portugal tentou conseguir a ligação terrestre entre
Angola e Moçambique. O objectivo era conseguir descobrir produtos que pudessem
interessar os mercados asiáticos - sobretudo o da Índia e da China - que era, na altura
e até finais do séc. XIX, deficitário para todas as potências europeias. A primeira
tentativa séria de realizar a travessia foi feita por Francisco José Lacerda de Almeida,
em 1798, mas este oficial de marinha morreu ao chegar ao Cazembe - a Noroeste do
Niassa.

A nova tentativa, proposta logo em 1799 por D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro
da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, começará em 1802. A travessia terminará
com êxito somente em 1811, nove longos anos depois, realizada pelos pombeiros Pedro
João Baptista e Amaro José, escravos mercadores de Francisco Honorato da Costa,
director da feira de Cassengue - posto fortificado a leste de Luanda onde se
centralizava o comércio com o interior de Angola - mas não teve continuação devido
aos problemas políticos que sacudiam o império português, mas permitiu conhecer
melhor o território - «abrir o caminho» - entre Angola e Moçambique.

Este relato, traduzido para inglês no ano seguinte, serviu para Livingstone, o
missionário escocês que explorou o território entre Angola e Moçambique, preparar as
suas viagens.

«DOCUMENTOS RELATIVOS À VIAGEM DE ANGOLA PARA RIOS DE SENA» -


1.ª Parte
Ofício do Capitão-general de Angola José de
Oliveira Barbosa para o marquês de Aguiar

«Ill.mo e Ex.mo Sr.

Tenho a honra de levar à Respeitável Presença de


V. Ex.ª as Cartas que me foram remetidas de Tete
pelo Governador dos Rios de Sena vindas por terra
em consequências da descoberta da comunicação
das duas Costas Oriental e Ocidental de África
tanto desejada; e nesta ocasião vão, embarcados na
Fragata Príncipe Dom Pedro os Pombeiros Pedro
João Baptista e Amaro José, do Tenente Coronel
Director da Feira do Mucary Francisco Honorato da
Costa, a cujas diligências e fadigas se deve o êxito
deste trabalho. e levam os Roteiros da jornada para
© Museu de Soares dos Reis serem apresentados na Secretaria de Estado desta
O Negro, quadro de João António Repartição.
Correia, de 1869
Deus Guarde a V. Ex.ª

São Paulo de Assunção de Luanda, 25 de Janeiro de 1815

= José de Oliveira Barbosa.

Ill.mo e Ex.mo Sr. Marquês de Aguiar»

Ofício de Constantino Pereira de Azevedo, Governador dos Rios de Sena para o conde
das Galveias

«Ill.mo e Ex.mo Sr. Conde das Galveias.

Tendo Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor determinado no ano de 1799 ver
se conseguia a abertura do caminho de Sua Capital de Angola para estes Rios de Sena, a
fim de que os seus Povos tanto da África Ocidental como da Oriental, pudessem girar com
o seu comércio com mais vantajosos lucros do que até agora o podiam fazer: assim como
também puderem circular as noticias de uma Costa a outra com mais brevidade, do que se
pudessem fazer pelos Navios, e tendo encarregado a dita abertura por este lado Oriental ao
Governador que foi destes Rios Francisco José de Lacerda e pelo lado Ocidental ao Ex.mo
D. Fernando de Noronha Capitão General de Angola, encarregando este ao Tenente Coronel
Comandante e Director da Feira de Casange Francisco Honorato da Costa , sucedeu que
desta parte Oriental faleceu o dito Governador Lacerda no sitio de Cazembe, tendo feito o
seu descobrimento até o sitio donde faleceu, e da outra parte Ocidental , com efeito
conseguiram os Escravos do dito Tenente Coronel acima mencionado, a dita abertura até o
Cazembe; cujos Escravos tem estado ha quatro anos ano dito sitio sem que tivessem meios
de se conduzirem a esta Vila para darem as referidas noticias, e vendo eu que esta Vila se
achava um pouco destituída de comércio por má inteligência que tem havido com alguns
Régulos que a cercam; e querendo eu de alguma forma ampliar esta falta chamei ao Quartel
da minha Residência em Maio de 1810 a Gonçalo Caetano Pereira homem muito antigo, e
muito prático destes Sertões, e tratando com ele sobre o aumento que desejava que esta
Capitania tivesse no seu comércio lhe pedi me descobrisse algum lugar para onde pudesse
com vantagem comerciar; este me respondeu que antigamente vinham a esta Vila negociar
os Vassalos do Rei de Cazembe, e que desde o tempo em que intentamos a abertura do
caminho nunca mais aqui tinham vindo e que ignorava, o motivo; uns diziam ser pela
desordens que os nossos fizeram no dito Cazembe depois da morte do Governador Lacerda,
e outros diziam era por que aquela Nação andava em Guerra desde esse tempo com a Nação
Muizes, e pedindo eu ao dito Gonçalo Caetano Pereira me desse três Escravos seus para eu
mandar de Embaixada ao dito Rei Cazembe para ver se movia aquela Nação a tornar outra
vez a esta Vila com o seu comércio como dantes faziam , este me facultou os seus Escravos,
cujos mandei de Enviados ao dito Rei Cazembe, e vendo este lá chegar os ditos Escravos
tomou a deliberação de me mandar uma Embaixada composta de um grande, e cinquenta
homens seus vassalos, na qual me manda dizer que no seu Reino existiam há quatro anos
aquelas duas Pessoas que tinham vindo da parta de Angola, cujos mandava entregar; os
quais chegaram a esta Vila em 2 de Fevereiro do presente anho, trazendo-me uma Carta de
seu Amo, cuja Carta tenho a honra de remeter a V. Ex.ª a Cópia, e perguntando eu aos
sobreditos, se queriam voltar voluntariamente pelo mesmo caminho por onde tinham vindo,
me responderam que sim, porém que era preciso eu dar-lhes as providências necessárias
para o sobredito transporte, aos quais mandei dar setecentos panos de valor de duzentos e
cinquenta reis fortes cada um, e dando de tudo parta ao meu Capitão General, assim como
também saber dele se à Real Junta daquela Capital me levava em conta a. sobredita
despesa, e quando não a pagaria dos meus soldos, de cujo ofício ainda não coube no tempo
receber resposta.

Eu deveria fazer alguma ponderação a V. Ex.ª sobre este descobrimento, por que não acho
maior inteligência nos ditos Descobridores, porém ao mesmo tempo conheço segundo a sua
capacidade fizeram muito, e como estes agora tornam pelo mesmo caminho vão insinuados
por mim o modo como devem fazer a sua derrota, e as averiguações que devem fazer, a
inteligência em que acham aqueles Régulos; se com efeito nos deixarão. passar
francamente por aqueles caminhos, e quais os mimos que lhes deveremos oferecer; de tudo
vão industriados por mim; e estes prometem dar um exacto cumprimento aos .referidos
objectos com todas as clarezas necessárias, entregando ao Ex.mo Capitão General de Angola
tudo quanto acharem tendente à dita abertura; o que tudo participo a V. Ex.ª para que V.
Ex.ª se sirva de o pôr na presença de S. A. Real o Príncipe Regente Nosso Senhor.

Tenho também a honra de remeter a V. Ex.ª a Derrota que me ofereceram os Descobridores,


a qual é N.º 1, assim como também um papel das perguntas que fiz aos referidos o qual é
N.º 2, e a Carta que me dirigiu o Tenente Coronel Amo dos referidos Descobridores, a qual
é N.º 3.
A Ilustríssima e Excelentíssima Pessoa de V. Ex.ª Deus Guarde por, muitos anos.

Quartel da Residência da Vila de Tete 20 de Maio de 1811.

Ill.mo e Ex.mo Sr. Conde das Galveias, do Conselho de S. A. Real, Ministro e Secretário dos.
Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos.

Constantino Pereira de Azevedo, Governador dos rios de Sena»

N.º 1.

[CÓPIA DA DERROTA QUE FEZ PEDRO JOÃO BAPTISTA.]

– 1806. –

«Em Nome de Deus Amen.

Derrota que eu Pedro João Baptista faço na minha viagem do Muropue para o Rei Cazembe
Caquinhata, por ordem do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Capitão General do Reino
Angola, da abertura do, caminho para a costa Oriental de África, dos Rios de Sena, e o
encarregado ao Senhor Tenente Coronel Francisco Honorato da Costa, Director da Feira de
Casangue com dois contos de fazendas para, despender com Reganos do caminho para a
bem de poder conceder-nos licença da dita abertura do caminho até em Tete.»

1.º

Domingo 22 de Maio do dito ano saímos do sítio grande do Moropue e na casa do seu filho
que estávamos agasalhados de nome da terra Capendo hianva , e como seu posto entre eles
Soano Mutopo do Muropue , no qual levantamos às 6 horas da manhã pássamos um rio
chamado Ingeba de quatro braças de largura, e o segundo rio Luiza que ambos vão
desembocar no rio Lunhua, e durante a viagem, viemos para o sítio do Guia que nos dava
[o] dito Muropue para nos transportar em Cazembe de nome da terra Cutaqua seja, o quanto
guia pagámos dez chuabos, e um copa de Bixega , chegámos ao dito sitio às Ave-Marias ,
encontrámos com bastante gente que vão do mesmo sítio do Muropue a trazerem farinha de
mandioca para seus Senhores andámos com o sol às costas.

2.º

Quarta-feira 8 de Junho saímos do sítio do Guia em que [nos] levantámos às 7 horas da


manhã passámos três riachos correntes de pequenas larguras que ignoramos os nomes, os
quais vão desembocar no rio Zuiza, e viemos para um sítio do preto chamado Caquiza
Muegi, escravo de Muropue e ao pé de um riacho que eles bebem água, e nos mandou
agasalhar nas Casas do mesmo o qual demos dois chuabos, chegámos ao meio dia não [nos]
encontrámos com ninguém, e nem tratámos coisa alguma, andámos com o sol da mestra
forma.

3.º

Quinta-feira 9 do dito mês saímos do sítio do Caquiza Muegi, levantámo[-no]s às 2 horas


da manhã passámos cinco riachos pequenos e durante a marcha viemos pousar no sítio do
Quilolo do Muropue chamado Muene Cahuenda e no qual demos de presente seis chuabos,
e dois copos brancos retorcidos de boca de sino, chegámos no referido pouso às 4 horas da
tarde, e fabricámos ao pé do rio que eles bebem água chamado Izabuigi de pequena largura,
e já andámos com o sol [do] lado esquerdo, não [nos] encontrámos com ninguém.-

4.º

Sexta-feira 10 saímos do sítio de Muene Cahuenda, levantámo[-no]s à madrugada


passámos quatro riachos que ignoramos os nomes e continuando-mos a viagem passámos
um rio de três braças de largura chamado Mue-me, e viemos para o pouso deserto, e ao pé
do rio chamado Canahia pela banda lá, e vai desembocar no mesmo rio Alue-me onde
achamos coisas já feitas dos viajantes da terra chamada Canoguesa que vinham trazerem
tributos a seu Muropue, chegámos às 3 horas de tarde, andámos com o sol da mesma forma,
e encontrámo[-no]s com dez pretos que tinham ido a comprarem sal na salina.

5.°

Sábado 11 saímos do poiso deserto que levantámos às 5 horas da manhã passámos 3 rios de
pequenas larguras caudalosos, no posar, e viemos para outro deserto, e ao pé do rio de
pequena largura chamado Quipungo, ficando-nos o sítio de uns pretos povos de Muropue
em pouca distância, os quais não falámos nada com eles, chegámos no dito pouso ao meio
dia não encontrámos com ninguém andámos com o Sol [do] lado Esquerdo, e daí mesmo
fizemos parada para procurar-mos mantimentos de sustento.

6.º

Domingo 12 saímos do pouso deserto no qual levantámo[-no]s ao cantar do galo passámos


três rios de pequenas larguras que vão desembocar no rio chamado Calalimo, e cujos nós
ignoramos os nomes, e viemos para outro pouso deserto de matos fixados de animais
ferozes, e ao pé do mesmo rio CaIalimo, o qual poderá ter pouco mais ou menos dez braças
de largura, chegando-mos no dito pouso ao meio dia com pequena chuva não [nos]
encontrámos com ninguém.

7.º

Segunda-feira 13 saímos do deserto às 2 horas da manhã paasámos onze rios de pequenas


larguras, e vindo-mos subindo com o rio que acima dito Calalimo, e durante a viagem,
viemos para o pouso deserto do pé de um rio chamado Camu sangagila pela banda de lá do
dito rio chegámos no mesmo pouso às Avé-Marias pernoitámos fora assim mesmo em
tempo de chuva, andámos com o sol [do] lado Esquerdo -

8.º

«Terça feira 14 saímos do poiso deserto e ao pé do rio Camusangagela em que [nos]


levantámos às 8 horas da manhã passámos cinco riachos correntes e durante a viagem
viemos para o sítio de um preto chamado Muene Cassa , e ao pé de um riacho que
ignoramos o nome pela banda de Iá o qual preto tratámos com ele a nossa viagem que
vamos para Cazembe mandados por Muropue, e ficando-nos sempre o sítio muito afastado
do nosso pouco, e demos de presente um Espelho pequeno e um chuabo de serafina
encarnada, chegámos às 3 horas de tarde andámos com o sol da mesma forma. -»

9.º

«Quarta-feira 15 saímos do sítio de Muene Cassa, em que levantámos às 7 horas de manhã,


passámos os rios de pequenas larguras, e durante a viagem viemos para o poiso direito ao
pé ainda do rio Calalimo chegámos no dito poiso às 2 horas da tarde e não encontrámos
com ninguém, andámos com o Sol da mesma forma. -»

10.º

«Quinta-feira 16 saímos do deserto e levantámos em alvorada passámos três rios correntes


de pontes de pequenas larguras, e viemos para outro poiso deserto e ao pé de um rio
pequeno: chegámos ao meio dia fabricámos ao pé do mesmo rio e atrás de nós vinham
gentes de Soana Mulopo mandados por dito Senhor a comprarem Sal, não [nos]
encontrámos com ninguém. -»

11.º

«Sexta-feira 17 saímos do poiso que acima [fica] dito levantámos às 5 horas de manhã
passámos um rio corrente a pé chamado Roando de duas braças de largura que vai
desembocar no rio Lunheca, e durante a marcha passámos outro rio de pequena largura
chamado Rova que terá pouco mais ou menos treze braças de largura o qual também
desemboca no Lunheca , e ficando-nos o sítio muito Longe de um preto chamado Fumo
Ahilombe do Muropue no qual não tivemos perturbação nenhuma, chegámos ao meio dia e
fabricámos ao pé do dito rio, não [nos] encontrámos com ninguém. -»

12.º

«Sábado 18 saímos do sítio do Fumo Ahilombe que levantámos às 5 horas de manhã


passámos seis riachos de pequenas larguras os quais vão desembocar no rio Rova, e durante
a viagem viemos para o poiso deserto ao pé do rio chamado Cazale, pela banda de Iá que
terá pouco mais ou menos vinte braças de largura, o qual nos deu água na cintura, e vai
desembocar no rio Lunheca , e chegámos no dito perto das Ave-Marias, encontrámo[-no]s
com bastante gente carregados de peixes seco a irem venderem no sítio do Muropue,
andámos com o sol [do] lado esquerdo, e não vimos coisa alguma.

13.º

«Domingo 19 saímos do poiso deserto que acima [ficou] dito levantámos às 6 horas da
manhã não passámos rio nenhum, e continuando-nos a nossa viagem viemos para o Sítio do
Luilolo do Muropue chamado Caponco Bumba Ajala , e falámos com ele a nossa viagem
que vamos por mandado do seu Muropue para a terra do Cazembe e respondeu que estava
bom; e logo nos mandou dar de Comer por parte do mesmo seu Senhor Muropue, e demos
de presente para ele quatro xuabos, e um Espelho, chegámos no dito sítio às quatro horas da
tarde, e ao pé de um rio chamado Muncum, e não [nos] encontrámos com ninguém. -»

14.º

«Segunda feira 20 saímos do sítio do Capomo, no qual [nos] levantámos às 2 horas da


manhã passámos um riacho e durante a marcha passámos um rio chamado Caginregi, em
Canoa, e fazendo-nos passar os pilotos do Quilolo Muene Mene que é Senhor do mesmo
porto, e terá [o] dito rio pouco mais ou menos catorze braças de largura e vai desembocar
no Lunheca, e viemos para o sítio do mesmo Quilolo Muene Mene e tratámos com ele a
nossa viagem que vamos para Cazembe mandados por Muropue também respondeu que
estava muito bonito, e que o Caminho estava bem aberto e demos para o mesmo um
muzenzo de cem bagos de pedras azuis e cinco xuabos de serafins sortidos, e mais quarenta
bages de pedras brancas, e, para os pelotos dois xuabos de fazenda da Índia, e fizemos
nosso cerco afastado do sítio afim de fugirmos dos Ladrões que furtam de noite, chegámos
às 3 horas da tarde, não [nos] encontrámos com ninguém, e daí mesmo fitemos parada seis
dias para procurar-mos mantimentos para seguirmos com ele para diante.-»

15.º

«Terça feira 5 de Julho salmos do sítio de Muene Mene levantámo[-no]s ao primeiro cantar
de galo passámos quatro rios de pequenas larguras que vão desembocar no rio Cagenrige, e
viemos para o sítio do preto conhecido do nosso Guia chamado Soaria Ganga, e falámos
com ele [d]a nossa viagem que vamos para Cazembe chegámos às 2 horas de tarde não
[nos] encontrámos com ninguém, e não tratámos nada com ele de presente andámos com o
Sol [do] Lado Esquerdo.»

16.º

«Quarta feira 6 do dito mês saímos do sítio do Soana Ganga levantámo[-no]s às 7 horas de
manhã passámos dois rios correntes de pequenas Larguras que vão desembocar no mesmo
rio Cagenrige, e viemos para o sítio de Quilolo da Mai de Muropue chamado Luncongucha,
e o Quilolo chama-se Muene Camatanga falámos com ele [d]a nossa viagem que vamos
dirigidos ao Cazembe , o qual nos respondeu que podia ir quantas quiserem viajar, o qual
demos de presente cinco chuabos e um Espelho pequeno e mais cinquenta bagos de pedras
de Leite chegámos [ao] rio dito ao meio-dia andámos com o Sol da mesma forma não [nos]
encontrámos com ninguém.»
17.º

«Quinta feira 7 saímos do sítio do Muene Camatanga e que levantámos às 6 horas da


manhã passámos três riachos que vão desembocar no mesmo rio Caginrige e durante a
viagem viemos para o sítio do Quilolo do mesmo que acima dito chamado Muene
Casamba, onde nos mandou dirigir o mesmo Camatanga para seu vassalo nos socorrer com
mantimentos necessários para nosso transporte para Cazembe por ordem de Muropue que
tinha trazido o guia e daí do mesmo sitio invernámos um mês para nos preparar dito
mantimento de ficar seca a farinha que mandava por na agua não [nos] encontrámos com
ninguem, e para o mesmo demos dois chuabos de fazenda de lá.»

18.º

«Sexta feira 9 de Agosto saímos do Muene Casamba levantámo[-no]s ?as três horas da
manhã passámos outra vez, o rio Cagiringe, e durante a marcha passámos mais outro rio de
pequena largura que ignoramos o nome que também vai desembocar no mesmo rio
Cagiringe e viemos para o pouso deserto e ao pé de outro rio de pequena largura chegámos
no dito pouso às 4 horas da tarde e fabricámos o nosso cerco com chuva e não [nos]
encontrámos com ninguem. -»

19.º

«sábado 10 saímos do pouso deserto que levantámos às 5 horas e meia de manhã passámos
um rio corrente de pequena Largura de pedras que ignoramos o nome, e viemos para outro
deserto chamado Canpueje e ao pé do riacho corrente onde achámos Casas já feitas dos
viajantes Arúndas chegámos às 2 horas da tarde, e não vimos nada.-»

20.º

«Domingo 11 saímos do pouso deserto e que levantámos às duas horas de manhã passámos
três rios de pequenas larguras, e durante a viagem viemos para outro pouso deserto e ao pé
de um riacho que ignoramos o nome chegámos no dito pouso às 4 horas de tarde não [nos]
encontrámos com ninguém. -»

21.º

«Segunda feira 12 saímos do deserto que levantámos às 6 horas de manhã passámos um rio
corrente de pequena Largura chamado Maconde e durante a marcha viemos para outro
deserto chamado Luncaja, e ficando-nos o sítio de Quilolo chamado Anbulita Quisosa o
qual não falámos com ele [d]a nossa viagem chegámos no dito ao meio dia não [nos]
encontrámos com ninguém andámos com o Sol Lado Esquerdo.-»,

22.º

«Terça feira 13 saímos do sítio, e pouso deserto levantámo[-no]s às 5 horas de manhã não
passámos rio e viemos [a]o Sítio do filho do Quilolo Cutaganda, e ao pé do rio chamado
Réu falámos com ele [d]a nossa viagem que vamos para Cazembe e demos de presente ao
dito Quilolo dois chuabos do Serafna azul, e duzentos cauris, chegámos no mesmo sítio às
3 horas de tarde, andámos com o sol da mesma forma.»

23.º

«Quarta feira 14 saímos do filho de Cutaganda e que levantámos às 7 horas de manhã


passámos o rio Reu a pé que terá pouco mais ou menos vinte braças de largura, e viemos
para o pouso deserto, e ao pé de um riacho que ignoramos o nome chegámos às 2 horas de
tarde não [nos] encontrámos com vinguem.»

24.º

«Quinta feira 15 saímos do pouso deserto, levantámo[-no]s às 6 horas de manhã passámos


três rios de pequenas larguras que vão desembocar no rio Reu que acima dito, e viemos
para outro deserto, e ao pé de um rio chamado Qusbela que também vai desembocar no
mesmo rio Reu, e ficando-nos o Sítio do preto chamado Munconcota maior de Muropue
muito Longe, e assim mesmo veio no noso pouso para que lhe desse-mos alguma coisa de
presente, e demos sete chuabos de Serafina de várias qualidades, chegámos às 3 horas de
tarde, andámos com o Sol da mesma forma, não [nos] encontrámos com ninguém.»

25 º

"Sexta feira 16 saímos do pouso deserto no qual [nos] levantámos às 5 horas de manhã,
passámos quatro rios de pequenas larguras que vão desembocar no rio Qusbela, e durante a
viagem viemos para deserto, e ao pé do riacho corrente chamado Capaca Melemo
chegámos no dito deserto ao meio dia sem chuva, e vindo-nos em nossa companhia uns
pretos para virem comprar Sal na Salina não [nos] encontrámos com ninguém.»

26.º

«Sábado 17 saímos do deserto e ao pé do riacho Capaca Melemo, levantámos às 6 horas de


manhã passámos quatro rios de pequenas larguras a pé e continuando-nos a viagem,
pisámos mais um rio chamado Ropoeja, a pé que terá pouco mais ou menos trinta braças de
largura, e vai desembocar no rio chamado Lubilaje, e viemos para outro deserto e ao pé do
mesmo rio Lubilaje pela banda de lá chegámos no mesmo pouso às 3 horas de tarde sem
chuva, andámos com o Sol da mesma forma, não [nos] encontrámos com ninguém.»

27.º

«Domingo 18 fizemos parada do sítio de um preto chamado Quiabela Mucanda, o qual que
ficava, ao pé do rio Ropuege que acima dito nos impedir a viagem para que nos desse
alguma coisa, por que era potentado do Muropue, e além disso nos dar de comer por parte
do mesmo Muropue, e nos trouxe para bem nos largar uma Corça morta, e três quicapos de
farinha de mandioca verde para nosso sustento e demos de presente dez chuabos, e um
Espelho pequeno, nos respondeu, que podemos seguir a nossa viagem, e na falta não
darmos alguma cousa a ele; tinha outro exemplo para nos fazer que tirar-nos as fazendas à
força de armas. -»

28.º

«Quinta feira 31 de Agosto saímos do sítio do Quiabela Mucanda, que levantámos ao


Cantar de galo, passámos dois riachos correntes que vão desembocar no mesmo rio
Rapueja, e durante a marcha viemos para o pouso, deserto chamado Cancaco e ao pé de um
riacho pela banda de lá, chegámos no mesmo pouso, ao meio dia sem perturbação de
qualquer Regano como acima dito, andámos com o Sol [do] lado Esquerdo, não [nos]
encontrámos com ninguém. -»

29.º

«Sexta feira 1.º de Setembro parada por estar doente o Guia que estava com a mão inchada
por pancadas do seu Escravo do mesmo Guia.

«Sábado 2 do dito mês saímos no pouso deserto levantámo[-no]s às 2 horas de manhã,


passámos um rio chamado Quipaca Anguengua de pequena largura e durante a viagem
viemos para outro deserto e ao pé de um rio chamado Rupele de quatro braças de largura
que vai desembocar no rio Lubile chegámos às 3 horas de tarde, andámos com o Sol da
mesma forma, não [nos] encontrámos com ninguém.»

30.º

«Domingo 3 saímos do pouso deserto no qual levantámos às 5 horas de manhã não


passámos rio, e viemos para outro deserto, e ao pé de um rio chamado branco por ter Areia
branca e vai desembocar no rio Lububuri de pequena largura a pé, chegámos no dito pouso
deserto ao meio dia, fabricámos nosso cerco pela batida de lá do mesmo rio, e não
encontrámos ninguém.»

31.º

«Segunda feira 4 saímos do deserto levantámo[-no]s às 7 horas de manhã não passámos rio
nenhum, e durante a marcha viemos para outro deserto e ao pé do mesmo rio Lububure, o
qual não passámos, chegámos às duas horas de tarde, andámos com o Sol da mesma forma;
e não [nos] encontrámos com ninguém.»

32.º

«Terça feira 5 saímos do pouso deserto em que levantámos, e ao pé do rio Lububuri às 6


horas de manhã não passámos rio nenhum e viemos para o rio Lububuri o qual passámos a
pé que nos deu àgua na Cintura, que terá pouco mais ou menos quarenta braças de largura e
de pedras por dentro, onde achámos gente Escravos do potentado chamado Cha Muginga
Mucenda, e a mesma gente falavam a língua inclinada à da povoação do Cazembe,
Chegámos no mesmo Sítio às duas horas de tarde, e não tratámos nada da nossa pretensão e
fabricámos nossas Barracas ao pé do mesmo rio, pela banda de lá, e afastado do Cítio; não
[nos] encontrámos com ninguém.»

33 º

«Quarta feira 6 saímos ao pé do rio Luburi levantámo[-no]s às 7 horas de manhã, não


passámos rio, e durante a viagem viemos para o Sítio do mesmo Cha Mugenga Mucenda
tratámos com ele a nossa pretensão que vamos para o Rei Cazembe, a procurar-mos a um
branco Irmão de EI Rei que viajara por mar, e se achar nas terras do mesmo Rei Cazembe,
por ser este mesmo potentado Maior do mesmo Cazembe, que rende a obediência em duas
partes de Muropue, e Cazembe, por o ter deixado o mesmo Cazembe para cultivar todas
qualidades de Mantimentos para socorrer todos os viajantes que do Muropue vem para
Cazembe a tomar tributos que eles chamam Mulambo, assim como os que do mesmo
Cazembe vem para o Muropue a irem trazer tributos mandados por mesmo Cazembe ao seu
Rei Muropue, e no dia que chegámos, nos deu de presente um murondo de poube e ser
deste sítio do Cha Muginga Mucenda, fim das terras do Muropue pela banda de lá, e pela
banda de cá já são terras pertencentes ao Cazembe, ao qual demos de presente dez chuabos,
e dois Espelhos pequenos, e nos respondeu que ele de sua parte nos preparava mantimentos,
para seguir-mos com ele para Cazemhe, por que no meio de Caminho até chegar na Salina
não há de Comer, e daí mesmo fizemos parada seis dias afim de termos mantimentos de
sobresselente, chegámos no mesmo sítio ao meio dia fabricámos afastado do mesmo sítio, e
ao pé de um rio chamado Camonqueje pela banda de lá não [nos] encontrámos com
ninguem. - »

34.º

«Quinta feira 7 saímos do sítio do Chá Muginga Mucenda e levantámo[-no]s às 6 horas de


manhã trespassámos três pousos, e não passámos rio, e durante a marcha viemos para o
pouso deserto chamado Musula Aponpo chegámos no dito pouso às duas horas de tarde,
fabricámos nossas Barracas ao Nascente do mesmo rio Lubury, andámos com o Sol [do]
lado Esquerdo, e depois das fábricas feitas nos achou no dito pouso Escravos do mesmo
Chá Muginga Mucenga vindos na Salina com Sal, andámos com o Sol da mesma forma e
não [nos] encontrámos com ninguém.»

35.º

«Sexta feita 8 saímos do pouso deserto Musula Aponpue, levantámo[-no]s às 5 horas de


manhã, passámos um rio corrente de pequena largura chamado filho do rio Lunfupa, e
durante a viagem passámos dito [o] rio Lunfupa que nos deu àgua na Cintura, o qual
poderá ter pouco mais ou menos quinze braças de Largura, e vai desembocar no rio Luaba,
chegámos no dito ao meio-dia não vimos nada de perturbação, e fabricámos nossas
Barracas ao pé do mesmo rio pela banda de lá não [nos] encontrámos com pinguem.»

36.º

«Sábado 9 saímos do pouso deserto e ao pé dó rio Lunfupa, em que levantámos às duas


horas de manhã, passámos um rio corrente de pequena Largura que ignoramos o nome, e
viemos para o outro pouso deserto no pé de uma varja grande chamada Quebonda, e com
riacho pequeno ao pé da mesma varja onde achámos pretos caçadores com sua Caras que
tinha frechado, e a irem por mesmo Caminho à Salina comprarem Sal, e não nos
participaram de donde vieram, nem [nos] encontrámos com ninguém.

(continua)

Fonte:

«Explorações dos Portugueses no Interior da África Meridional», Anais Marítimos e


Coloniais, n.º 5, 3.ª série, Parte não-oficial, Lisboa, Imprensa Nacional, 1843, págs. 163-
190.

A ler:

• R. J. Hammond, Portugal and Africa 1815-1910: A Study in Uneconomic


Imperialism. Stanford, Stanford University Press, 1966;
• Maria Emília Madeira Santos, Viagens de exploração Terrestre dos Portugueses em
África, Lisboa, Centro de Estudos de Cartografia Antiga, 1978;
• Gervase Clarence-Smith, The Third Portuguese Impire, 1825-1975. A Study in
Economic Imperialism. Manchester: Manchester University Press, 1985;
• Valentim Alexandre e Jill Dias, O império Africano,1825-1930, vols. 10 e 11 da
Nova História da Expansão Portuguesa, dir. por Joel Serrão e A. H. de Oliveira
Marques, Lisboa, Editorial Estampa, 1998-2001.