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Resenha de Matrizes do Pensamento Psicológico de Luis Claudio Mendonça Figueiredo

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RESENHA DO LIVRO “ MATRIZES DO PENSAMENTO PSICOLÓGICO” DE LUÍS CLÁUDIO MENDONÇA FIGUEIREDO

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CAPÍTULO I A CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO EMERGÊNCIA E RUÍNA DO SUJEITO Na Idade Moderna surge a redefinição das relações sujeito/objeto: A razão contemplativa cede lugar à “razão” e à ação instrumental. A partir de Francis Bacon, enfatiza-se o caráter operante das relações entre homem e mundo, o sujeito possui o status de senhor de direito da natureza, cabendo ao conhecimento transformá-lo em senhor de “fato”. Descartes compartilha com Bacon a mudança, no sentido de um interesse utilitário. O conhecimento científico subordinando-se à utilidade, à adaptação e ao controle, modelando-se a prática científica pela ação instrumental alcançou realce cada vez maior. Com o passar do tempo, desdobrando-se a tradição utilitária, a aplicação prática do conhecimento, deixa de ser apenas condicionante externo e passa a justificar e motivar a pesquisa. A possível e desejável aplicação prática do conhecimento, ao motivar profundamente a pesquisa, faz com que ocorra a ruptura, de uma forma, na qual as teorias do conhecimento ainda manifestavam-se sob o modelo da razão contemplativa, que buscava os fundamentos absolutos do conhecimento, na razão (Descartes) e na experimentação (Bacon), para uma que fundamentava-se cada vez mais na instrumentabilidade do conhecimento, cujos procedimentos e técnicas definem-se nos termos de controle, cálculo e teste. O “real” objeto desta ciência é o real tecnicamente manipulável, na forma do controle e na forma simbólica do cálculo e da previsão exata. A ciência e a produção tecnológica, por terem os mesmos projetos e meios empregados nas atuações produtivas, progridem juntas, amparando-se e incentivando-se mutuamente. Ambas encarnam um projeto único e visam o mesmo objeto, da mesma forma. Bacon afirma que o ser humano possui tendências inatas ou adquiridas que bloqueiam ou deformam a leitura objetiva da natureza; diz também que a mente humana foi possuída por ídolos e falsos preceitos e que existe dificuldade para a verdade penetrar e ser absorvida e apreendida. Instala-se a partir de Bacon, uma atitude cautelosa e suspeitosa do homem para consigo mesmo. A produção do conhecimento produtivo pela objetividade e a ação instrumental, necessariamente enfrentam uma dificuldade; o auto-conhecimento e o auto-controle seriam preliminares indispensáveis. Tem-se por disciplina do espírito o objetivo das regras metodológicas, as quais definirão a própria prática científica, ou seja, a disciplina do método é o que especifica o cientista. Emerge com Descartes, a dúvida metódica; a nova ciência tem nela, seu procedimento fundamental. Na doutrina dos ídolos assim como na dúvida metódica encontram-se todos os discursos de suspeição que a Idade Moderna elaborou, identificando e extirpando, ou neutralizando a subjetividade empírica. A base segura para se validar e fundar o conhecimento objetivo, no entanto, continuou sendo para Bacon, a evidência empírica que além de sua dificuldade de obtenção ainda exigia uma constante higiene mental. Hegel e Marx inauguram um outro ponto de vista, onde surge a desconfiança em
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relação ao sensível, ao imediatamente dado. Nessa concepção, todo conhecimento é mediado e construído. Desenvolvia-se a suspeita dirigida à experiência sensorial e numa outra tradição, a própria razão tinha seu valor e limites investigados. David Hume reduziu os processos mentais a fenômenos associativos apontando para a aprendizagem como sendo origem das categorias e operações do pensamento. Hume inicia o procedimento que desqualifica a lógica como reitora incondicional do discurso científico e a coloca como resultado da experiência, portanto, condicionada e relativa. O que exige cautela, diante da própria razão. Não se encontra com facilidade, movimentos intelectuais que compartilhem simultaneamente as suspeitas, diante das teorias e dos dados, da razão e da observação e suspeitas generalizadas diante dos afetos e das motivações. Isto reduziria o sujeito ao desespero e à condenação (por ilusória), de qualquer pretensão ao conhecimento objetivo. O niilismo Nietzschiano é o que mais se aproxima deste limite. Com Peirce e Popper a busca do fundamento absolutamente seguro do conhecimento foi substituída pela especificação de um procedimento, de uma lógica da investigação, que diante da impossibilidade de extirpar o subjetivismo e a arbitrariedade, no início da pesquisa, possa promover um processo infinito de auto-correção, no qual a verdade objetiva se coloca como idéia reguladora. A época define-se pela presença destes ataques ao sujeito empírico do conhecimento, pelas táticas contra sua inclusão indesejada, pelo sítio armado em torno da subjetividade. O sujeito empírico é concebido como fator de erro, de ilusão. Constitui-se e tentase colonizar um novo campo, “o da natureza interna” ou “intímo”. Este projeto carrega uma contradição peculiar: justifica-se por se presumir que a natureza interna seja essencialmente hostil à disciplina imposta pelo método científico e por isso deva ser neutralizada. Mas, por outro lado, o objetivo seria submeter a natureza interna às mesmas práticas de pesquisa e portanto de controle, que se firmaram e desenvolveram na interação com a natureza externa. O sujeito, então é atravessado por uma sucessão de rupturas. As ciências naturais repousam na pressuposição de uma exterioridade entre a prática da pesquisa e seu objeto, o confronto nitidamente delimitado e rigidamente controlado entre sujeito e objeto, o que promove a multiplicação e o refinamento dos instrumentos conceituais e teóricos de descrição, previsão e controle. Mas, a Psicologia que nasce no bojo das tentativas de fundamentação das novas ciências acaba por destinar-se a jamais encontrar seus próprios fundamentos e nunca satisfazer os moldes de cientificidade que motivaram seu próprio surgimento. EMERGÊNCIA E RUÍNA DO SUJEITO Numa sociedade agrária, a identidade social era pré-definida pela cultura em função de eventos biográficos, quase que totalmente. O indivíduo era o que a comunidade definia, ao menos em grande medida. A nova forma de organização social, a convivência é marcada pelas relações instrumentais e pela luta entre interesses particulares opostos, o que dá margem para o surgimento de uma subjetividade diferenciada em relação à identidade social pré- definida existente na sociedade agrária. Surge uma imagem de indivíduo legada pelo iluminismo e presente no liberalismo clássico: capaz de discernimento, capaz de cálculo na defesa de seus interesses, etc., enfim: capaz de independência em relação à autoridade e à tradição. Mais tarde, quando a sociedade entra em crise, com as guerras, as lutas operárias, as recessões, os bolsões da miséria urbana, o indivíduo privado passa a ser visto como
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egoista, imediatista, sem condições de autocontrole em benefício do social, tornando-se assim o bode expiatório. Esta perspectiva instrumental da administração racionalizada também aparece no projeto de constituição de uma psicologia como ciência do individuo e (inúmeras vezes) contra o indivíduo. Observa-se: de um lado o indivíduo para si, irredutível; do outro lado, o indivíduo para o outro, um suporte de papéis sociais e pré definidos. Um, objeto de uma psicologia que não é ciência; o outro, objeto de uma ciência, mas não chega a ser psicologia. CONCLUSÕES Nota-se, ao se reconstituir as condições sociais, econômicas e culturais existentes no projeto de uma Psicologia Científica que lhe criam o espaço e definem seu significado, oposição entre o caráter considerado pré-científico do sujeito, somado ao caráter pré-social, ou anti-social do indivíduo privado de um lado, e do outro lado a necessidade de submeter a subjetividade a leis, descobrindo aí regularidades que possibilitem seu controle e a coloquem a serviço do domínio técnico da Natureza e da reprodução social. Daí, a ciência psi, tende a constituir-se, vendo-se na obrigação de reconhecer e desconhecer seu objeto. Ao não reconhece-lo, não se legitima como ciência independente e pode ser anexada à outras modalidades de conhecimento. Mas ao não desconhece-lo, não se legitima como ciência, pois não se submete aos requisitos da metodologia científica, nem resulta na formulação de leis gerais com caráter preditivo. Abre-se um campo de conflitos que não é acidental. Este, não parece que possa vir a ser unificado, por qualquer meio que o seja. Antes, as divergências parecem refletir as contradições do próprio projeto que enraizam-se por sua vez na ambigüidade da posição do sujeito e do indivíduo na cultura ocidental contemporânea. CAPÍTULO II A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO No plano teórico a Psicologia reproduz a ambigüidade de seu objeto: o sujeito é dominador e dominado; o indivíduo é liberto e reprimido. No conjunto da Psicologia nos deparamos com um complexo de relações sincrônicas que se caracteriza pelo antagonismo entre diversas concepções irredutíveis entre si. De um lado, escolas e movimentos gerados por matrizes cientificistas, onde a especificidade do objeto, ou seja, a subjetividade e a singularidade tendem a ser desconhecidas e surge uma imitação dos modelos e práticas das ciências naturais. Do outro lado escolas e movimentos gerados por matrizes românticas e pós românticas, onde atos e vivências de um sujeito, dotados de valor e significado para ele são valorizados, ou seja, a especificidade do objeto é reconhecida, reivindicando-se total independência da Psicologia em relação às demais ciências, mas, há carência de segurança e de cientificidade e assim buscam-se novos moldes científicos. MATRIZES CIENTIFICISTAS MATRIZ NOMOTÉTICA E QUANTIFICADORA É a que define a natureza dos objetivos e procedimentos de uma prática teórica realmente científica. Busca ordem natural nos fenômenos psi e comportamentais, classificando e procurando leis gerais, mantendo caráter preditivo. Hipotetização, cálculo e

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mensuração definem a lógica experimental. Assim orientam-se a práticas de controle do ambiente natural, no qual inserem-se aspectos da vida social. MATRIZ ATOMICISTA E MECANICISTA Procura relações deterministas ou probabilísticas. Mantém concepção linear e unidirecional de causalidade. Considera-se o real como sendo elementos que em diferentes combinações, causam mecanicamente os fenômenos complexos daí derivados. Abriga rígida noção de causalidade onde ocorre inexorável encadeamento de causas e efeitos. Ao substituir o determinismo pelo probabilismo reduz a ambição de conhecimento sem alterar o a-historicismo mecanicista. Salta à vista a incompatibilidade entre o mecanicismo e um sujeito capaz de agir transformando e inovando. Esta matriz foi muito influente apenas na pré-história da Psicologia por suas pretensões e realizações eminentemente científicas. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA Exerceu e ainda exerce sobre o pensamento psi influência, mais poderosa que a matriz atomicista e mecanicista. A noção de causalidade funcional, surge, recuperando-se a noção de causa final de Aristóteles. A causalidade circular, na qual um efeito é também causa e uma causa é efeito de seu efeito é cogitada. Considera-se a funcionalidade de um orgão, de um mecanismo, etc., como algo que remete ao todo de que faz parte e assim apenas se define na interdependência das partes deste todo. A análise então, obedece regras diferentes das que do atomicismo emanam. Substitui-se a sub-divisão da matéria (atomicismo) pela análise dos sistemas funcionais. Dispensa-se atenção aos processos temporais. Os seres vivos têm uma história de desenvolvimento. E outra evolutiva. Dividese em submatriz ambientalista e submatriz nativista. Ao superar o atomicismo e o mecanicismo, regata as noções de valor e significado. É um estruturalismo biológico que se funda na idéia de complementaridade num sistema, onde o conflito é visto como patológico, o que talvez seja acertado para a Biologia mas traz para a Psicologia, conseqüências. A dimensão ética do comportamento, essencial e diferenciadora do comportamento humano, transforma-se em técnica de sobrevivência. Aparecem a noções pragmáticas de conveniência e adequação. Uma técnica de sobrevivência mostra-se adequada e conveniente se elimina ou reduz o conflito e restabelece a harmonia e a complementaridade. MATRIZES CIENTIFICISTAS E IDEOLOGIAS CIENTÍFICAS A partir de todas as matrizes cientificistas, surge na Psicologia a idéia de conhecimento útil. Mas, deve-se avaliar a utilidade tanto no nível prático quanto no simbólico. Um dos mais antigos focos permanentes na pesquisa psi é a elaboração de técnicas: psicométricas, de treinamento, de ensino, de persuasão, etc... Mas, à Psicologia do século XX coube além disso, fornecer legitimações, pela necessidade de se dar às práticas sociais de controle e dominação a necessária legitimidade que debilmente é negada pelo liberalismo. Entende-se que uma tecnologia psi é possível e não há mal em usá-la: quem garante é a ciência. A pesquisa de base é a fiadora maior da possibilidade de se aplicar ao subjetivo os modelos das ciências naturais possibilitando que se submetam os fenômenos subjetivos à interesses tecnológicos. Este esforço de legitimação mostra-se necessário: as práticas de dominação e controle social estão sujeitas à contestação emanada, na Psicologia, das matrizes românticas.

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MATRIZES ROMÂNTICAS E PÓS-ROMÂNTICAS Nelas, o que foi excluido pelas matrizes cientificistas é recolhido, no que se denomina de vitalismo naturista: o qualitativo, o indeterminado, o espiritual, etc. Os vitalistas, são a favor da vida e contra a razão. O sujeito, por não se reconhecer na sua ciência, na imagem refletida pela ciência, desiste da ciência. Surge o interesse estético no lugar do interesse tecnológico. Anulam-se as diferenças entre sujeito e objeto, entre ser e conhecer. Esta matriz está profundamente enraizada no senso comum da prática psi e nas representações sociais da Psicologia. MATRIZES COMPREENSIVAS Existem três grandes linhas compreensivas: o historicismo idiográfico, o estruturalismo e a fenomenologia. O primeiro busca a captação da experiência como se constitui na imediata vivência do sujeito. Propõe que se decifre e interprete as manifestações vitais, culturais e psicológicas, ou seja, atribui às ciências do espírito uma tarefa hermenêutica. Mas como resolver o problema da verdade? Como escolher entre interpretações conflitantes? Uma das soluções para o problema da compreensão foi proporcionada pelos estruturalismos. Nestes, o trabalho de interpretação tenta modelar-se pela hipotetização, pelo cálculo e teste de hipóteses, característica das ciências da natureza. A intenção é reconstruir as estruturas geradoras de mensagens, as regras que controlam inconscientemente a organização das formas simbólicas e os discursos. Mas é na fenomenologia que vamos encontrar uma tentativa de superação, do cientificismo, ao qual os estruturalistas sucumbem, assim como do historicismo. Os objetos, então, não são os eventos naturais, mas os fenômenos, aquilo que à consciência aparece. Assim os eventos psi não são coisas no mundo, mas, constitutivos do mundo. A fenomenologia denuncia como irremediavelmente cético ao historicismo idiográfico. O ceticismo seria uma conseqüência do relativismo radical historicista. A fenomenologia descobre que o ser humano não tem essência alguma pré definida. Compreender o indivíduo são ou doente, implica em reconstruir seu mundo, explicitar horizontes que confiram sentidos a seus atos e vivências, desvelando o seu projeto existencial. Na base de tudo encontra-se um sujeito e suas escolhas. MATRIZES ROMÂNTICAS, PÓS-ROMÂNTICAS E IDEOLOGIAS PARARRELIGIOSAS As matrizes cientificistas secretam ideologias científicas. As matrizes românticas e pós-românticas, com exceção dos estruturalismos que fazem a balança pender para o outro lado, secretam ideologias pararreligiosas. O indivíduo, a liberdade e imagens afins são colocados no altar, sem que se analisem as condições concretas de realização de tais pressupostos. As ideologias científicas afirmam ser o sujeito um objeto como qualquer outro para o exercício do poder, legitimando a dominação com o manto da ciência, mas as ideologias românticas completam: independentemente de questões menores de dominação e poder, a liberdade é indestrutível, o indivíduo é livre, a escravidão é uma opção. Legitimase assim, o retraimento do sujeito sobre si mesmo. Entre as ideologias de um e de outro lado, ocorre complementação.

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PERSPECTIVAS ATUAIS O projeto de unificação filosófica e metodológica permanece atual, mas parece inviável. Desde Watson, até Skinner, na Psicanálise ou em Piaget, percebe-se a mesma intenção. Diante da impossibilidade da unificação surgem projetos de partilha. Karl Jaspers distribuiu os fenômenos psi entre uma ciência da natureza e uma ciência do espírito. S. Koch aceita como inevitável a diversidade na Psicologia e preconiza a anexação das diversas áreas às disciplinas mais próximas. Há quem defenda a permanência da duplicidade epistemológica e metodológica, tal como Nuttin, para quem existe a intencionalidade e as leis da natureza, sem que se possa excluir uma ou outra. Howaarth, assume ótica pragmática e reúne tradição humanista e psicologia mecanicista e acaba incorrendo num ecletismo embelezado. O ecletismo tem sido a maneira que se tem encontrado predominantemente na comunidade profissional da Psicologia, para enfrentar as contradições do projeto de independência científica da Psicologia. Mas assim, as contradições ficam camufladas, travestidas de complementaridade e a própria natureza do projeto é subtraida do campo da reflexão e da crítica. CAPITULO III MATRIZ NOMOTÉTICA E QUANTIFICADORA A ciência em qualquer de suas práticas e específicos procedimentos, busca tornar para o homem, mais compreensível um domínio de sua experiência. As ciências naturais com a sua procura de compreensão da realidade assenta-se na crença de uma ordem natural, uma ordem à parte dos sujeitos que a experimentam. Esta não é uma crença gratuita nem se trata de um mero expediente de conveniência; origina-se na e justifica-se pela historia da espécie homo sapiens. Nossa espécie caracteriza-se pela produção da própria existência, através do trabalho que por um lado exige e por outro testa a capacidade que temos para formar idéias que reproduzem regularidades naturais; estas idéias orientarão a fabricação de instrumentos e a codificação de técnicas produtivas. O trabalho é a forma mais completa e poderosa do ser humano adaptar-se ao ambiente, sobre o mesmo exercendo algum controle. Respostas adaptativas padronizadas com formas e condições de ocorrência dependentes essencialmente da informação filogenética existem no nível mais simples. A crença na ordem que a ciência assume é a crença na ordem assumida e legitimada pelo trabalho. O ser humano anda em busca de regularidades que lhe permitam prever; é um traço característico de nossa espécie. A crença na ordem natural dirige o pesquisador na busca de sistemas classificatórios recortando a realidade de acordo com as diferenciações mais verdadeiras e ou mais inconvenientes e também de leis gerais que possam descrever de modo mais conveniente ou aproximados relações entre os fenômenos. Sistemas classificatórios e leis têm valor de hipótese e precisam sofrer correção sempre que se revelem insuficientes para proporcionar descrições e explicações satisfatórias. A ORDEM NAS APARÊNCIAS A ciência pode se propor a apenas organizar os dados aparentes sem pretensão de representar a ordem objetiva. Taxionomias são concebidas como “mecanismos de descrição, cálculo e previsão”, sem dimensão ontológica. A preocupação com salvar as aparências dá lugar a uma proliferação de dispositivos ad hoc numa interminável sucessão de ajustes que acabam, ao se superporem, também contradizendo-se.

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A ORDEM NATURAL Copérnico, Kepler e Galileu e Descartes imbuíram nova função à matemática: expressar as “leis da natureza”. Previsão e cálculos exatos obviamente não foram deixados de lado. Sobretudo esta previsão é condicionada por uma abstração, que naturalmente exclui o sensível para trabalhar apenas com o inteligível, com o puramente racional. Haverá uma substituição: o mundo da experiência cotidiana saturado de significados e de valores afetivos e estéticos intenções e desejos, dá lugar a um mundo em que a pesquisa e a teorização são fins pra um universo geométrico e mecânico, matematizável e homogêneo. Esta homogeneízação acaba com divisão do cosmos, porém impõe-se a tarefa de oferecer descrições e explicações unitárias. A ruptura epistemológica, que foi uma das grandes façanhas dos precursores da física, ou seja, a superação e afastamento da experiência sensível para construção de um objeto teórico original, construída pela razão e objeto da experiência intelectual, foi uma lição. Apenas a este objeto se aplica de maneira exata as leis da matemática. Assim a experiência cientifica foi se tornando cada vez mais abstrata e purificada. A EXPANSÃO DA ORDEM NATURAL O espírito de exatidão, da mensuração e da análise experimental surgiu através de Lavoisier. Os estudos biológicos também avançaram na direção da biologia científica. A ORDEM NATURAL DOS FENÔMENOS PSICOLÓGICOS E COMPORTAMENTAIS. Submeter os fenômenos psi aos procedimentos da matemática, possibilitando a criação de uma Psicologia empírica, foi algo negado pr Kant. O projeto de uma psicometria, no entanto, surgiu no século XVIII com Chrstian Wolff. Em momento algum arrefeceu o impulso nomotético e quantificador. RAÍZES SOCIOCULTURAIS DA QUANTIFICAÇÃO PSICOLÓGICA Hoje se aceita como objetivo de uma observação acerca do homem, a elaboração de leis gerais, em linguagem matemática, descrevendo regularidades dos fenômenos psíquicos e comportamentais, proporcionando previsões exatas, mas isto soava a ainda bem pouco tempo, como contra-senso, perante a natureza especial da subjetividade. Estender o pensamento nomotético e quantificador ao homem e particularmente ao sujeito individual encontrou obstáculos diversos, culturais, ideológicos, religiosos, etc, e teve que se preceder de transformações sociais que modelaram uma natureza humana, criando uma imagem de homem que tornou o próprio homem acessível, objeto aos procedimentos das ciências naturais. Assim houve melhores condições de expansão da economia mercantil. O surgimento da psicologia enquanto ciência natural associa-se à expansão da economia mercantil, graças às transformações sociais que esta proporcionou, mas associa-se também às crises desta economia, a exigir novas técnicas de controle social, uma ativa intervenção do Estado, além disto, a legitimações para as novas formas de exercício de poder. Coube em parte à Psicologia fornecer técnicas e ideologias, e as práticas sociais criaram pré-condições para que se tornasse aceito um tratamento cientificista da subjetividade, por introduzir na vida do indivíduo o formalismo, a quantificação, e a sujeição as leis supostamente naturais da sociedade. O tratamento cientificista devolve por

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seu turno à sociedade, a imagem na qual as características da vida cotidiana, são fixas e mostradas como fatos naturais. Não se pode negar a cientificidade de muitas descrições e explicações da Psicologia principalmente as mais relacionadas ao campo biológico, mas ao estender-se a todas as formas e níveis de fenômenos psi e do comportamento o pensamento nomotético e quantificador ao não revelar as origens sócio culturais de suas próprias possibilidades de existência, a Psicologia cientificista acaba contribuindo para que se legitime práticas sociais e interesses correspondentes, o que torna muito comum os produtos das matrizes românticas, confundir os planos de análise, rejeitando junto com a ideologia cientificista, conservadora ou progressista, a própria ciência. CAPÍTULO IV MATRIZ ATOMICISTA E MECANICISTA O movimento dos seres inanimados sempre intrigou o homem. Em busca de previsão e controle, torna-se importante a resolução desta questão. Tem-se que dominar os fenômenos naturais. Estes são, em grande medida, movimentos. Exercício do domínio implica em se produzir movimento no mundo físico. Todo movimento é interpretado como efeito de ação exercida sobre o corpo que se move. Durante séculos o ocidente aderiu ao ponto de vista de Aristóteles, quanto ao movimento. Este ponto de vista superava o antropomorfismo do senso comum, apesar de animista. Aristóteles admitia a existência de um movimento violento que seria produzido por um mecanismo obedecendo a uma intenção estranha ao corpo movente. Mas, este movimento não explica o movimento dos astros, de uma pedra que se move caindo de uma montanha, ou da fumaça de uma chaminé. Estes seriam movimentos naturais, segundo Aristóteles: cada corpo se move na direção de seu lugar natural. Para Aristóteles, há uma causa final que gera e dirige os movimentos físicos. Mas os movimentos violentos permaneciam em sua dinâmica, na obscuridade. Autores medievais propuseram o impetus: potencia que impregna o corpo, a partir de sua associação com o motor, podia se acumular e dissipar, seria, segundo Benedetti, passível de descrição matemática. Na Idade Média, a física do impetus desalojou a física de Aristóteles, mas a noção de impetus, afinal de contas é antropomórfica. A matematização é maneira de ordenar as aparências. AS ORIGENS NA FÍSICA A princípio, também Galileu aderiu à física do impetus, mas mediante sua fragilidade, terminou por lançar as bases da física científica. Rompeu com Aristóteles e o senso comum, ao conceber o movimento no vácuo, num experimento imaginário, o que o conduziu à lei da inércia que atribui o mesmo valor e as mesmas propriedades ao repouso e ao movimento. O movimento é dotado de autonomia e sua permanência é automática. A aceleração e a direção são concebidas como procedentes de causas externas ao corpo que se move, mas o movimento em si independe de força que o puxe como meta, ou causa final, ou o empurre como ação que lhe foi impressa. Aos fatores causais de aceleração e direção denomina-se causas eficientes: antecedem o movimento e lhe imprimem direção e velocidade. O passado determina o presente e o presente ao futuro: é o conceito de causalidade mecanicista. Homogeneíza-se o universo. Com a homogeneização, propiciada pela matematização, surge a ressurreição do atomismo de Demócrito. Este concebia o real como sendo composto de mínimas partículas, invisíveis, combinadas em diversas formas
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observáveis. Ao se postular que estes elementos seriam os realmente objetivos vai-se desqualificar a sensibilidade e valorizar a razão como via de acesso ao real. Foi a mecânica de Newton que sintetizou a matematização e a atomização. Engendrou-se o universo como um grande mecanismo, um imenso relógio. Ali se condensava a idéia de movimento automático, perfeição mecânica, determinismo estrito e quantificação. Surge uma nova, abrangente e sistemática concepção da Natureza que se opõe radicalmente às concepções aristotélicas. A síntese newtoniana tornou-se exemplo de cientificidade e matriz de teorias e pesquisas em outras áreas de conhecimento.

EXTENSÕES DO ATOMICISMO E DO MECANICISMO A química veio chegando a decomposições cada vez mais precisas, embora mais tarde contribua com o antielementarismo e com o antimecanicismo quando mostra a importância de configurações e sínteses originais. Na biologia o atomicismo insinuou-se através da anatomia. Na Psicologia Científica, o elementarismo (atomicismo) e o mecanicismo tiveram também repercussões e uma matriz na teoria do conhecimento teve grande importância na Psicologia. Tentou-se reduzir o conhecimento e os fenômenos mentais a uma combinação de elementos primitivos. ATOMICISMO E MECANICISMO NA PSICOLOGIA As ciências naturais estudam os elementos buscando uma ordem objetiva; a perspectiva atomicista na Psicologia levou a que se buscasse estudar os elementos átomos da consciência: as sensações. Isto, na sua relação de dependência com o organismo que as vive. Para Titchener, identificar estes elementos é em grande parte a tarefa da Psicologia, mediante introspecção controlada e altamente treinada, evitando-se o erro de estímulo, o qual seria relatar algo do objeto, ao invés de relatar somente as sensações simples e primitivas que oferece a experiência. Na obra de Ebbinghaus sobre a memória também está presente o atomismo e o mecanicismo.Em algumas versões do behaviorismo também se encontram o atomicismo e o mecanicismo, embora oscilem entre atomicismo/mecanicismo e funcionalismo organicista. Alguns behavioristas são marcadamente mecanicistas, a ponto de excluir intenções e propósitos, ficando-se com o conceito de automatismos. Em sua maioria, os behavioristas preconizam, no entanto, embora nem sempre de maneira consistente, análises molares do comportamento. Afastam-se também do mecanicismo e aderem a explicações funcionais da aprendizagem que se baseiam no sucesso ou fracasso adaptativo das respostas. Exclui-se, do discurso científico, por razões metodológicas ou metateóricas, os conceitos mentalistas, mas, embora promovam uma visão da aprendizagem como processo automático, chegam a postular variáveis organísmicas motivacionais e cognitivas. Por influência do funcionalismo, reduz-se o automatismo comportamental. Condutas motivadas e instâncias de escolha e decisão são incompatíveis com a imagem de passividade e reatividade pura, ocasionada pela matriz mecanicista. Não se pode concordar com a idéia, amplamente divulgada que associa o behaviorismo, fundamentalmente ao atomicismo e ao mecanicismo. RAIZES SOCIOCULTURAIS A organização social e técnica do trabalho industrial ocasionaram o surgimento e consolidação do atomicismo e do mecanicismo. Mas o simples prestígio não explica a
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importação deste modelo para a Psicologia. É necessário que práticas sociais institucionalizadas forneçam condições para o funcionamento do sujeito se equiparar aos processos impessoais e padronizados da natureza inanimada e às formas de movimento das máquinas. De início, o atomicismo e o mecanicismo se manifestaram nos primórdios da Psicologia Industrial. Muitos psicólogos experimentalistas viram como possível e desejável contribuir para adaptar o homem à máquina e à linha de montagem. A vivência da prática mecanizada através do trabalho, nas condições que surgiram a partir de Taylor, Fayol e Ford, faz com que o movimento assuma o lugar da conduta. Esta vivência junto com a desvalorização da consciência, como fator causal, prepara o terreno para explicações mecanicistas em Psicologia. Este terreno, não fica nunca aplainado totalmente. Tem havido forte resistência ao mecanicismo, gerada por vezes dentro dos próprios quadros das ciências naturais com o funcionalismo, outras vezes geradas nos quadros das ciências humanas e da filosofia, correspondentes à própria resistência engendrada nas práticas sociais.

CAPITULO V MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA AMERICANA LIMITES DO ATOMICISMO E DO MECANICISMO A matriz mecanicista e atomicista sobre os seres vivos encontrou e tem encontrado resistência. Reprodução, desenvolvimento e autoconservação desafiaram o poder explicativo do atomicismo e do mecanicismo. Estes fenômenos indicam uma especificidade nos seres vivos que aponta par algo dentro deles. Superficialmente os seres vivos são matéria tão acessível quanto qualquer outra aos procedimentos da física e da engenharia. Mas nos seres vivos há mecanismos sui generis. Surgiu então nova ciência e com ela os conceitos de organismo, função, evolução, desenvolvimento. FUNÇÃO, ESTRUTURA E GENESE Organismo e função são conceitos decisivos na biologia. As disciplinas biológicas são estabelecidas sob o conceito de adaptação. A biologia recupera de certa forma a causa final aristotélica que a física moderna afastou do discurso cientifico passa a vigorar uma causalidade teleonômica ao lado da eficiente. Identificar as funções de um fenômeno biológico é o primeiro passo na busca de sua explicação, então o funcionamento global é pressuposto nas operações analíticas e a analise funcional sempre necessariamente uma analise sistêmica e estrutural. Os conceitos que caracterizarão a biologia são: função, estrutura e gênese. Na teoria dos sistemas abertos encontrou expressão este conjunto de noções, o qual fornece o modelo das interações adaptativas dos seres vivos e seus ambientes. A adaptação é meta continuamente perseguida pelo ser vivo, mediante coordenação de atividades submetidas ao controle de suas próprias conseqüências, por meio de um fluxo constante de retro-informação. Daí emerge a idéia do equilíbrio, estado de estabilidade relativa, ativamente procurado, mantido e se necessário, recuperado, com a auto-regulação fisiológica do desenvolvimento ontogenético e da evolução filogenética.

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OS REFLEXOS DO FUNCIONALISMO NA PSICOLOGIA Tanto no plano ontológico quanto no plano metodológico manifesta-se a presença da matriz funcionalista e organicista na Psicologia. Toda Psicologia que se pretende uma ciência natural adota modelo funcionalista instrumentalista dos fenômenos mentais e comportamentais. Percepção, memória, pensamento, afetividade, motivação, aprendizagem, são compreendidos como processos adaptativos o que aponta para uma intencionalidade, consciente ou puramente objetiva, manifesta ou encoberta. Por sua própria amplidão no campo da Psicologia ocorre uma enorme variedade ou diversificação do legado funcionalista, organicista. O panorama torna-se confuso, graças às influências cruzadas do funcionalismo, com vestígios do mecanicismo e do atomismo, como por exemplo, na Psicologia da aprendizagem norte americana, na qual a dimensão estrutural, embora não eliminada, permanece dissimulada, em segundo plano. Assim, é preciso analisar autor por autor, para se descrever com alguma fidelidade, a versão de Psicologia funcional que cada qual elabora. O MOVIMENTO DA PSICOLOGIA FUNCIONAL O grande precursor do funcionalismo na Psicologia é William James (1842-1910), mas houveram outros representantes notáveis desta corrente chamada Psicologia funcional, que nos EUA se desenvolveu no final do século XIX e inicio do XX tais como J. Dewey, J. Angell, J. Baldwin. Nestes autores os ingredientes fundamentais do funcionalismo biológico são encontrados. Os seres vivos exibem uma intencionalidade ao se comportarem. Seus comportamentos distinguem-se dos comportamentos mecânicos dos seres inanimados, pois são articulados e hierarquizados, visando uma meta e encontraremse submetidos a sistemas de auto regulação que asseguram a persecução da meta frente as resistências impostas pelo ambiente. Comportamentos não são movimentos, são operações. A consciência é uma operação seletiva e auto reguladora das táticas comportamentais. Operação pressupõe interesses e que se identifiquem os interesses, corresponde à analise funcional dos processos psi e comportamentais. Estudar estas operações mentais e comportamentais opõe-se à análise atomística da reflexologia de Tichener e do elementarismo de Mach. A oposição ao atomismo, com a decorrente defesa de análises molares e sistêmicas liga o pensamento dos funcionalistas a Kant. Mas, aqui as estruturas transcendentais são naturalizadas e seu caráter apriorístico é matizado, pois são interpretados como estruturas orgânicas e epistemológicas, resultantes de uma história natural e de uma experiência individual. No conjunto do movimento da Psicologia Funcionalista, pode-se encontrar interpenetradas, análises funcionais, estruturais e genéticas, característica metodológica básica da matriz funcionalista e organicista. A PSICOLOGIA COMPARATIVA Estudar o comportamento animal para conhecer o desenvolvimento da vida mental na escala filogenética e buscar a origem da inteligência humana foi iniciado por Darwin, continuado por Romanes, Morgan, Thorndike, Jennings, dentre outros. O pano de fundo deste projeto de Psicologia comparativa é a hipótese da continuidade evolutiva de Darwin. OS BEHAVIORISMOS A partir do início do século XX organizou-se nos EUA um movimento behaviorista representando uma conjunta influência de várias tradições filosóficas e
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científicas. Os positivismos, o pragmatismo, aparecem claramente no pensamento de Mach. Com o behaviorismo de Watson, os primeiros atacados foram a introspecção e a vida interior. Mas há em Watson, tanto o ideário funcionalista quanto algo do ponto de vista atomicista e mecanicista. Em Watson o funcionalismo é compreensivo mas nada explicativo. O mecanicismo prevalece em termos de explicação e assim ele rejeita a lei do efeito de Thorndike, vendo nela vestígios de mentalismo, pois a mesma sugere intencionalidade, o que o positivismo não poderia admitir. Watson procurou na fisiologia do reflexo respaldo científico que o legitimasse. A reflexologia e a teoria do condicionamento reflexo são a promessa de uma Psicologia fundamentada em eventos observáveis e submetido a leis objetivas. De maneira ainda mais acentuada o elementarismo e o mecanicismo está no behaviorismo de Guthrie. Hull e Spence destacaram-se na evolução do behaviorismo rumo a uma purificação metodológica, com base numa opção funcionalista. O APOGEU DO FUNCIONALISMO BEHAVIORISTA Tolman e Skinner assumiram integralmente, cada qual ao seu modo o legado funcionalista. Tolman foi quem provavelmente mais contribuiu para o desenvolvimento de uma Psicologia funcional. Trouxe para o movimento a preocupação com o rigor metodológico e a prática da experimentação. No entanto, a solução mais original está em Skinner, batizada por ele de Behaviorismo Radical. A ciência do comportamento de Skinner assenta-se no conceito elaborado por ele, de comportamento operante. No conceito de comportamento operante de Skinner é resguardada a natureza voluntária do comportamento instrumental. O comportamento operante é emitido pelo organismo e não eliciado por estimulação. Skinner prescindiu de todo mecanicismo associacionista e de todo estruturalismo cognitivista. A organização do comportamento não se localiza no sujeito, mas nas suas relações com o ambiente. O conceito de tríplice contingência de reforçamento é uma outra forma de se referir ao comportamento operante. Na dimensão genética, Skinner admitiu a existência de uma prévia organização, na forma de um sistema de respostas reflexas e na forma de padrões instintivos de tendências inatas, pela seleção natural modeladas, mas para ele em sua maior parte as formas de adaptação ao meio, nos organismos superiores localiza-se durante a vida do indivíduo. CAPITULO VI MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA EUROPÉIA, NA PSICANÁLISE E NA PSICOSSOCIOLOGIA A matriz funcionalista e organicista e em especial a biologia evolutiva darwiniana comandaram as pesquisas sobre interação adaptativa em cada espécie. Vários autores formularam o projeto de se estudar o comportamento no contexto da evolução com métodos da biologia. Assim o vitalismo é superado e o mecanicismo é combatido, por não apreender intencionalidade no comportamento. O atomismo reduz as unidades funcionais significativas a um amontoado de elementos, mas, o sucesso do animal é assegurado, não pela existência desses elementos, mas por sua coordenação e hierarquização. Então se deve buscar, ao se procurar compreender o comportamento, uma análise de frente ampla, buscando-se os elementos de um conjunto, os quais somente serão compreendidos simultaneamente, ou não o serão de maneira alguma.

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FUNCIONALISMO NA PSICOGENÉTICA DE PIAGET A formação biológica e a preocupação epistemológica conduziram Piaget à Psicologia. Com seu trabalho quis buscar uma forma de integrar numa teoria científica do conhecimento as duas áreas, biologia e psicologia, integrando os fenômenos cognitivos ao contexto de adaptação do organismo ao meio. Encontra-se em Piaget uma obra das mais completas, consistentes e articuladas, enquanto um representante do funcionalismo organicista em Psicologia. Em Piaget dissolvem-se os limites entre filosofia, biologia e Psicologia, mas os métodos e conceitos da biologia é que dominarão, ao longo de sua carreira. Baldwin, Janet, Claparede, foram precursores de Piaget na Psicologia. Nas primeiras obras de Piaget há indícios da influência de Freud. Em consonância com o funcionalismo pragmatista norte americano, Piaget vê na ação concreta, motora, a origem dos níveis superiores de adaptação. A ação é coordenada, decorrente da estrutura orgânica do sujeito e dotada de lógica. Piaget focou o estudo das estruturas cognitivas, mas acreditava, sendo funcionalista, na indissociabilidade dos fenômenos mentais e comportamentais. Para Piaget, o desenvolvimento cognitivo, ocorre em paralelo com o desenvolvimento das formas de afetividade e com as formas de existência social. Evidenciam-se na obra de Piaget os pontos de vista da fisiologia da autoregulação e da embriologia. Ele assumiu uma posição que o distingue bastante de outros autores no que toca à evolução. FUNCIONALISMO NA PSICANÁLISE FREUDIANA A psicanálise de Freud apresenta grande riqueza e vem passando por reformulações de tal forma que admite várias leituras.. Algumas dessas leituras, em certos aspectos relacionam-se à presença da matriz funcionalista e organicista. Mas, a obra de Freud é tributária de diversas tradições, filosóficas, filológicas, teológicas e místicas, mas também tradições científicas. Estas, mais explicitadas. O próprio Freud afirma que a psicanálise é uma ciência natural. Mas, em sua obra aparecem lado a lado uma fisiologia de caráter mecanicista e uma biologia funcionalista. A psicanálise, porém, nada tem de eclética. As diversas tradições foram integradas num conjunto que é original e pode-se falar de uma pré-história da Psicanálise, onde o que a embasou ainda pode ser analisado isoladamente. Para Freud, nada acontece por acaso. Todos os fenômenos se encontram inter-relacionados e são de tal forma indissociáveis. Nenhuma parte se esclarece sem a relação com o conjunto. Em Freud a visão organicista é assumida em sua inteireza. Mas, o determinismo absoluto de Freud não é o mecanicista mas o funcional. Sem se eliminar a idéia de um determinismo mecanicista onipresente, a explicação dos fenômenos psi, no entanto deve responder à questão: para que serve? Tudo tem um sentido e uma função. Nada é casual. O desenvolvimento da personalidade é visto como um processo de diferenciação (colocando Freud na tradição da embriologia) e é uma história de sofrimento e adaptação. A Psicanálise afasta-se das mais típicas manifestações do funcionalismo ao enfatizar a existência do conflito.. Nos EUA a assimilação da Psicanálise foi condicionada pelo domínio do ponto de vista funcional. Atribui-se ao ego maior autonomia em relação ao superego e uma ênfase maior na adaptação do indivíduo. A ênfase na adaptação e na harmonia é característica da escola culturalista, inspirada pelo funcionalismo americano através da antropologia principalmente. Atenua-se a tensão entre o prazer e a civilização, quando se afirma que a vida psíquica é nada mais que um produto do meio.

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FUNCIONALISMO NA PSICOSSOCIOLOGIA Na psicossociologia a matriz funcionalista organicista associa-se às obras de Durkhein, Malinowski, Radcliffe-Brown, Parson, Merton, etc. O modelo funcionalista de sociedade é estruturado em torno das noções de função e complementaridade. A sociedade é vista como um organismo. Cada parte desempenha função complementar às demais e essa complementaridade é essencial ao funcionamento da vida social. Na psicologia social existe a teoria dos papéis e o manual de Lindsey e Aronson, condensa as principais lições em termos psicológicos, da sociologia funcionalista. Um dos grandes nomes do funcionalismo foi Mead que se tornou, no entanto, mais conhecido na sociologia que na psicologia. Embora a psicossociologia funcionalista tome a sociedade como sendo essencialmente harmoniosa, não desconhece a existência de conflitos. Em forma de crises, sendo que o tema das disfunções sociais, remete à idéia de patologias. Então, de certa forma, absolve-se o sujeito, na crítica sociologizante, por seus maus comportamentos. O problema está na sociedade e não no indivíduo. Hoje o senso comum encontra-se impregnado de modelo funcionalista de sociedade. Além das divergências teóricas o senso comum aproxima as escolas psicológicas divergentes e com facilidade maior as inspiradas na matriz funcionalista organicista. Na questão genética, onde a matriz funcionalista tem um de seus focos, surgem questões que irão separar em suas respostas, ambientalistas e nativistas na Psicologia. CAPITULO VII SUBMATRIZES AMBIENTALISTA E NATIVISTA NA PSICOLOGIA O AMBIENTALISMO PSICOLÓGICO Surge no século XIX a “inspiração ambientalista nos estudos da experiência sensorial”, tais como, por exemplo, os estudos de Helmholtz (1821-1894) em psicofísica e psicofisiologia. Para este autor a percepção dos objetos é aprendida; insere-se, portanto no que leva ao empirismo epistemológico de Berkeley” século XVIII”. HELMHOLTZ afirma que as qualidades da sensação devem ser consideradas como sensação pura e real mas a maioria das percepções do espaço é produto de experiência e treinamento. Habito e memória embora produzidos através de processos inconscientes e automáticos, conferem às sensações puras uma estrutura não atribuível, apenas ao fenômeno sensorial. Lidar com objetos sobre diversos pontos de vista ensina o sujeito a percebê-los como único objeto apesar das diferenças de foco. A conclusão inconsciente (termo de Helmholtz) possibilita compensar as deformações impostas pelas diversas perspectivas obtendo-se uma constância de forma. As variações propiciadas pelas mudanças de iluminação acarretam conseqüências na percepção das cores que são compensadas pela aprendizagem obtendo-se constância na percepção da cor. O caráter inconsciente dos efeitos da aprendizagem faz com que se tornem bastante difícil perceber isoladamente o papel do presente, do passado e de experiências. A aprendizagem perceptiva também se revela na seleção de elementos sensoriais importantes na composição da imagem com que se percebe um objeto. O critério de conveniência existe e comanda esta seleção, ou seja, o critério da adaptação. Não observamos exatamente nossas sensações senão quando úteis no reconhecimento de objetos externos. Antes, pelo contrário, deixamos de lado as sensações sem importância para os objetos.
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A aprendizagem nas obras de “Ebdinghaus” e “Thorndike” já não era, ao fim do século XIX, um recurso meramente interpretativo, na explicação, quer filosófica quer fisiológica, dos fenômenos. No auge do movimento behaviorista (século XX), recebeu a psicologia da aprendizagem um intensivo tratamento, o maior já acontecido em relação a um tema de psicologia cientifica. Watson posicionou-se equilibradamente, de início, entre empirismo e nativismo, no entanto se inclinou mais e mais para uma opção ambientalista radical. O que refletiu um movimento amplo na psicologia americana. Assim o conceito de instinto sofreu crítica severa, tanto por questões empíricas, quanto por questões metodológicas. Além disto, a opção ambientalista, mostrou-se manifestação de posturas ideológicas e políticas. Houve retraimento da importância atribuída ao organismo e negação do caráter ativo do sujeito do comportamento. Enfatizar o controle ambiental faz com que se atenue a imagem funcionalista de autoregulaçao: resulta o sujeito reagente sem espontaneidade e direção própria. O ambientalismo radicalizado criou condições para combinação de funcionalismo e mecanicismo, característicos de grande parte da psicologia norteamericana, mas enfatizar o controle ambiental não conduz necessariamente a estes compromissos, aja vista a obra de Skinner. O ambientalismo/empirismo é nítido, explicitamente, em Skinner, podendo ser inferido do seu discurso ou de sua prática de pesquisa. Ocorre uma suposição: os motivos primários da ação são em numero bastante reduzido. Skinner afirma: a maior parte dos reforços são condicionados, cultural e historicamente determinados, na espécie humana. As condutas adaptativas são reforçadas. A prática de pesquisa de Skinner, baseia-se principalmente nos conceitos de estímulos e respostas representativas. Skinner quer elaborar leis empíricas que possam descrever a dinâmica do comportamento, em termos de Sd -R - Sr supondo implicitamente que estas seriam leis gerais e sua aplicação à casos particulares dependeria de ajustes de parâmetros. Qualquer estímulo poderia mostrar-se estímulo discriminativo pra qualquer resposta; qualquer reforço poderia exercer efeitos sobre qualquer resposta antecedente: é a eqüipotencialidade de estímulos e respostas. Isto baseia todo o projeto científico de Skinner, no qual há uma critica à “botanização” da psicologia, ou à sua redução, a uma pura descrição de comportamentos particulares e situações, o que conduz a que se suponha que a experiência e as contingências ambientais, são os determinantes únicos do comportamento. O comportamento tem uma estrutura que não reflete a estrutura do organismo, mas a estrutura das relações do organismo com o meio. A conduta adaptativa em sua estruturação de classes funcionais de respostas operantes emergiria completamente da historia do individuo; então a tendência é desconhecer que existam classes estruturais que precedem e interferem com as formações das classes funcionais. Admite-se as classes estruturais, mas no campo das respostas reflexas apenas, negando-se que condutas adaptativas complexas e de caráter instrumental, possam estar submetidas a uma estruturação biológica e hereditária. Supervaloriza-se a plasticidade do comportamento considerando-se que tudo pode ser aprendido. Também se supervaloriza a aleatoriedade da variabilidade comportamental, sobre a qual se aplica a seletividade da conseqüência do reforço; minimiza-se, ou nega-se efeitos de estados motivacionais e de estímulos ambientais, na indução de comportamentos específicos e assim restringe-se a faixa de variabilidade sujeita à seleção. Skinner, nunca abandonou a imagem do organismo ativo, emitindo respostas, atuando sobre e modificando seu ambiente. Sua originalidade explicita-se na simultânea
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lealdade ao funcionalismo e ao radical ambientalismo, então, se designa como sendo não mecanicista, apesar de ambientalista, nem cognitivista, apesar de funcionalista, pois realça a intencionalidade da conduta. O NATIVISMO PSICOLÓGICO As tradições racionalistas e nativistas revelaram-se na psicofisiologia de Müller (1801-1858). Muller postulou energias específicas dos “nervos” que pela estimulação externa ou interna dariam aos fenômenos sensoriais suas qualidades. Uma pancada, no ouvido produz um som, no olho uma luminosidade, noutra parte do corpo, mera sensação táctil. Muller naturalizou o apriorismo transcendental de Kant convertendo num apriorismo fisiológico, pois afirmou a especificidade de cada via sensorial. Na psicofisiologia contemporânea, Maturana, com os seus trabalhos acerca da estrutura da experiência visual da rã (função da estrutura do olho deste animal), inseriu-se na tradição de Müller e também de Von Uexküll, para quem o ambiente de cada espécie, não é o que as ciências da física e da química descrevem, mas um conjunto articulado de estímulos com valor e significado para o animal. Foi com Lorenz que o conceito de instinto retornou, mas livre do mentalismo. Lorenz mostra segurança quanto a uma diferenciação entre comportamentos sujeitos a aprendizagem e comportamentos inatos. No homem o inato se retrai, mas não é eliminado. Recentemente, Chomsky e seus seguidores manifestaram-se pelo nativismo; situam-se na tradição da lingüística racionalista cartesiana e do pensamento romântico organicista. Segundo Chomsky o fenômeno lingüístico essencial é o aspecto criativo do uso da linguagem: “a fala não está determinada pela associação fixa de palavras à estímulos externos ou à estados fisiológicos” . O pensamento de Chomsky representa o estruturalismo e não se insere na tradição funcionalista. OS INTERACIONISMOS As respostas ambientalistas e nativistas nunca são encontradas na forma pura e exclusiva, pois isto destruiria a característica principal dos fenômenos vitais: os elementos estruturais no organismo e no ambiente são coordenados uns com os outros. Assim, o organismo adapta-se ao ambiente, e o ambiente, inclusive o interno ambiente, ao organismo se adapta: eis o que mantém a vida. A estrutura orgânica é inseparável da estrutura ambiental, não existem isoladamente e suas existências expressam mútua coordenação. Na Psicologia como ciência natural, veda-se a possibilidade de uma exclusiva opção, seja pelo controle ambiental, seja pelo controle organísmico. Organismo e ambiente definem-se em termos de interdependência. É natural, portanto, existir uma terceira força entre o ambientalismo e o nativismo, buscando uma síntese que apreenda o organismo e o ambiente como integrantes de uma totalidade que se auto-sutenta. Baldwin, Loyd Morgan e Poulton, assim como Waddington e Piaget, associaramse à ênfase nas interações reciprocamente determinantes, entre organismo e ambiente e entre a história da espécie e do indivíduo. A história do individuo, implicando na supervalorização da aprendizagem e da experimentação, num determinado ambiente e a ênfase na história da espécie, implicando na sobrevalorização do organismo, na determinação do curso em que se desenvolve e na qualidade de suas experiências e de suas reações.
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Em Freud encontra-se outro exemplo, da adesão ao interacionismo, porém nem tão explícitos, embora bastante ambíguo. No trabalho de Freud, surge como tendo um caráter essencial, o conflito. Natureza e ambiente, de modo especial o ambiente social encontram-se indissoluvelmente associados e integram como pólos um antagonismo. O indivíduo se desenvolve refletindo o conflito que há entre o natural (instinto) e o que o ambiente físico e social lhe oferece, possibilidades que são restritivas. Os resultados dos conflitos tornam a personalidade simultaneamente natural e social; desaparece a separação entre influências biológicas e influências sociais. O indivíduo não existe dissociado do ambiente, em nenhum espaço e temporalidade. O indivíduo, se constitui exatamente no processo, entre natureza e sociedade. Além de Piaget e Freud que assumiram o interacionismo, autores de áreas mais marcadas pelos extremos, ambientalismo e nativismo, aproximaram-se da terceira posição. A dicotomização do comportamento inato e aprendido foi atacada por D. Hebb e F.ª Beach que mostraram ser todo comportamento, dependente, tanto de hereditariedade como de experimentação. Beach nega a utilidade do conceito de instinto, enquanto definido como ‘o que não é aprendido’. Inato, enquanto conceito, deve-se evitar, no contexto dos estudos da ontogênese, quando passa a designar uma fixidez de desenvolvimento, oposta a plasticidade comportamental. Skinner também aderiu ao interacionismo. O ponto de vista interacionista sempre se manteve vivo e atuante e hoje ele tende a tornar-se o ponto de vista dominante, além do ambientalismo e do nativismo. Estas posições extremadas, no entanto, ainda permanecem e procurar entender o contexto cultural que a tempos vem lhes garantindo a dominância e assegurando sua sobrevivência, ainda hoje, pode ser útil. Skinner admite a determinação genética da aprendizagem e a existência de padrões instintivos, modelados, contudo, pelas contingências naturais que determinaram a evolução da espécie. RAÍZES SOCIOCULTURAIS DAS SUBMATRIZES AMBIENTALISTA E NATIVISTA O empirismo epistemológico teve o seu apogeu associado à luta antidogmática e contra a autoridade não legitimada pela razão e pelo consenso, da nova ciência. Diante da necessidade da natureza, ou melhor, do imperativo da cultura, põe-se o próprio homem, como réu. Quando a cultura se torna a única referência, tudo é nomeável, desde o organismo e todas as indiferenciáveis formas orgânicas, até os sentimentos. Dentro desta contradição, qual seja, entre a cultura instituída pelo homem e o homem enquanto fruto deste meio, pode-se questionar como caberia qualquer transformação. Ambientalismo e nativismo radicais dirigem-se ao sustentáculo de autoritárias concepções de exercício do poder enquanto a posição interacionista se volta para a legitimação do auto controle; assim sendo, contém um potencial crítico, relacionado às formas vigentes de sociabilidade. A autoregulação é fenômeno essencial da matéria orgânica e conceito fundamental da biologia. Em Piaget encontra-se talvez a figura mais exemplar da posição interacionista numa perspectiva funcionalista o que o torna merecedor do titulo do mais completo funcionalista. Em Freud, o interacionismo corresponde à realização plena do ideal funcionalista e liberal; encontra-se integrado, numa original combinação com a teoria do conflito, a qual rompe com a matriz funcionalista organicista. Houve um rompimento. Mas também, com a concepção da psicologia como ciência natural.

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E aqui surge a possibilidade de olharmos as alternativas que se oferecem, no que se denominou “matrizes românticas e pós-românticas” (Figueiredo). CAPITULO VIII MATRIZ VITALISTA E NATURISTA Não se pode dizer que as matrizes românticas e pós-românticas articulam-se com um mesmo tronco, assim como sucede com as matrizes mecanicista e funcionalista em relação à nomotética e quantificadora. Pode-se, no entanto, observar entre elas uma certa afinidade, na especificação do objeto da Psicologia e na denúncia da inadequação ou mesmo da insuficiência dos métodos das ciências naturais, para o estudo dos fenômenos subjetivos. O BERGSONISMO: UM EXEMPLO A obra de Bergson é representativa de algumas orientações intelectuais e afetivas, bem específicas, presentes nessas linhas e em especial em algumas formulações ecléticas e do senso comum. É como introspeccionista que Bérgson inicia sua reflexão filosófica e se mantém sempre atento às informações, impressões e sentimentos que lhe chegam por essa via que ele considera privilegiada. Justifica-se, com um ponto de vista cartesiano, afirmando ser a existência a respeito da qual se tem segurança e que se conhece melhor, a existência pessoal. Em seus primeiros trabalhos versou sobre dados da consciência e sobre memória. Em Bérgson, instaura-se a mística da fluidez e da indeterminação, com pretensão de representar uma posição metacientífica. Bérgson não nega a importância da ciência natural em relação matéria orgânica, mas estabelece uma interdição, quanto ao estudo naturalista dos fenômenos vitais, em particular com relação à Psicologia. A ciência, produto do intelecto, nada entende da vida. A Psicologia Científica é um contra senso. A promessa de previsão e controle é uma farsa. O que esperar de uma Psicologia que renuncia ao status de ciência, se apresenta como metafísica, denuncia a lógica e o conceito, recusa as faculdades intelectuais e coloca as próprias colocações em perigo? Bergson se vale da experiência estética e tenta justificar a viabilidade da apreensão intuitiva dos fenômenos vitais. A psicologia metafísica não é um corpo de doutrinas e menos ainda um arsenal de técnicas e instrumentos. Sob este ponto de vista a psicologia metafísica é uma arte delicada e sutil da qual a própria idéia de utilidade deve ser afastada pra que não se caia na perversão. Mas, embora não tenha utilidade, no entanto, tem um interesse: promover comunhão entre o indivíduo e o fluxo vital, do qual faz parte e que o constitui. Este é o interesse que permeia a obra de Bérgson e o leva ao exagero de estetização nas idéias e no estilo. Sem os ornamentos do estilo o trabalho de Bergson pode ser percebida, como incoerente, pobre, inócua, baboseiras. Sua obra antecipa várias correntes da Psicologia contemporânea que sequer o mencionam como precursor. O HUMANISMO ROMÂNTICO A institucionalização da profissão de psicólogo não é compatível com a noção de Bergson de Psicologia, pois esta supõe uma prática mais para os grandes inspirados: artistas, santos, heróis. Uma boa parte das seitas psi que existem nas grandes metrópoles
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culturais e são importadas para o Brasil, são marcadas por essas idéias de psicólogo guru. Essa perspectiva é forte nos humanistas. Cura, reeducação, solução de problemas, são substituídos pela esperança na fruição do sujeito por ele mesmo em termos estéticos, entregando-se à corrente da vida, impetuosa e criativa. Um barato. O objetivo da terapia, seria libertar a energia vital. Para tanto, deve-se abolir as restrições sociais. A uniformidade do modelado pelo social deve ser substituída pela diversidade do autêntico, do individual. Em Bérgson, o misticismo da criação e da indeterminação, associa-se ao intuicionismo e à desvalorização da lógica e do conceito; o autêntico é o pré simbólico, aquilo que não se pode comunicar, a experiência pessoal e intransferível. A linguagem deve permanecer na berlinda e intervenções não verbais ou antiverbais ganham simpatia. No corpo e pelo corpo, no gesto pelo gesto; nos movimentos vicerais, os motivos autênticos e sentimentos genuínos. O IRRACIONALISMO CONFORMISTA Entre os filósofos modernos, o intuicionismo irracionalista e o vitalismo não são exclusividade de Bérgson. O discurso do anti-racionalismo psicológico pode ser visto nele. Divulga-se uma visão otimista e positiva da condição humana. A energia vital não depende, para ser liberada, de nenhuma condição de vida concreta. Basta uma nova atitude, a ser obtida por meio da terapia. O retorno ao subjetivo via intuição, com vistas a uma pretensa liberação das forças vitais, que jazem amortecidas, é de tal forma banalizado e ao senso comum da prática psi incorporado, preenchendo um vácuo teórico e outorgando certa consistência à prática profissional, entre ecléticos, que surge uma tentativa de analisá-lo, em sua dimensão ideológica. Supõe-se no bergsonismo e em outras versões do humanismo, assim como na gestáltica, em outras terapias corporais, na bioenergética, etc., que a realidade psi tenha uma existência pré-simbólica e anti-simbólica. Mas não se cogita que a libertação desses conteúdos vitais possa comprometer a vida socialmente falando-se. O subjetivismo de Bérgson é anêmico, sem capacidade de resistência efetiva, contra a massificação, a estereotipia, a repressão, sendo que o próprio irracionalismo bergsoniano não compromete ninguém, com uma crítica radical da racionalidade estreita, reduzida à pura instrumentalidade, pois é muito bem comportado. O funcionalismo, parece representar, principalmente em suas versões mais interacionistas que superam a visão de ambiente e organismo independentes, o velho liberalismo burguês em sua forma viril e progressista; o vitalismo naturista, parece que corresponde à forma feminina e magoada do liberalismo. O vitalismo reduz-se a uma ideologia sem valor cognitivo. Inverte os valores dos termos em oposição, ordem e história, razão e vida. Renega a racionalidade e o impulso crítico. No plano do conhecimento nenhuma ambição rigorosa, mas delicada intuição dos sentimentos da subjetividade, enfim. A nenhuma das outras matrizes cabe tão bem o conceito de romântica. CAPITULO IX MATRIZES COMPREENSIVAS: O HISTORICISMO IDIOGRÁFICO E SEUS IMPASSES

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DESDOBRAMENTOS E DIFERENCIAÇÕES DO ILUMINISMO Iluminismo, na obra de Adorno e Horkheimer, designa uma tradição cultural que é crítica e combate as tradições. Tem por objetivo libertar o sujeito para o desempenho sem entraves, de seu poderio técnico-manipulatório, sobre a Natureza, submetendo-a a sua próprias finalidades. A crítica deve ser livre, racional e soberana. Espera-se da crítica o desbloqueio, ou a quebra de todos os bloqueios que limitam o homem em seu progresso de um domínio teórico e prático. Neste processo impiedoso, o iluminismo separa constantemente o sujeito (do poder e do conhecimento), do objeto. Na Idade Moderna, o iluminismo traz a exaltação do sujeito como senhor do Universo. Mas, como pré-condição para o exercício do poder, também exalta o objeto. A oposição ao cientificismo objetivista no pensamento psicológico decorreu, ou da metafísica bergsoniana, ou de uma posição crítica mais radical ao Iluminismo: o romantismo. Mas, a vertente subjetivista do Iluminismo, foi incorporada, às tradições do pensamento psicológico, no contexto da problemática romântica e assumindo muitas de suas proposstas. CARACTERIZAÇÃO DO ROMANTISMO O romantismo opõe-se ao Iluminismo. Na segunda metade do século XVIII a dominância do Iluminismo era incontestável. Então, dominava a matriz atomicista e mecanicista. Goethe identificava-se com o Iluminismo, porém não aceitava suas limitações. Desenvolveu então uma nova forma de ciência que exerceu mais tarde, considerável influência na formação do ideário romântico. Empenhou-se Goethe na constituição de uma ciência anti-newtoniana. Os românticos herdaram da obra científico-poética de Goethe vários aspectos que em nada influíram nos rumos das ciências naturais do século XIX. Em contrapartida, encontraram-se no cerne de muitas das ciências morais ou humanas e também das reflexões estéticas e metafísicas. É preciso que se saiba que existem distinções entre o romantismo alemão, o funcionalismo e o intuicionismo de Bergson, com os quais o romantismo aparenta alguma semelhança. Também os românticos renegam o indivíduo independente, racional, crítico, em favor da coletividade, porém, com a pressuposição e com a promoção da comunicação entre particulares e não sua aniquilação. O ROMANTISMO E AS HUMANIDADES O romantismo não proporcionou nenhuma solução metodológica às ciências naturais, mas inspirou uma série de ciências morais. As humanidades tem fenômenos espirituais e culturais como objetos, nos quais o pesquisador se reconhece de alguma forma. Não faz sentido buscar a neutralização do sujeito em nome de uma objetividade absoluta. As ciências morais, ao invés de repousar sobre e acentuar a separação entre sujeito e objeto, supõe e promove a aproximação entre eles. A CRÍTICA DA RAZÃO COMPREENSIVA Durante o século XIX houve uma preocupação em definir a metodologia das ciências morais. Schleiermacher sobressaiu-se com suas contribuições para a arte da compreensão, ou seja, a hermenêutica. Wilhelm Dilthey (1833-1911) se propôs desempenhar nas ciências morais, o papel de Kant nas ciências naturais do século XIII, explicitando as condições de possibilidade do conhecimento histórico. Nas obras de Dilthey não se encontram orientações metodológicas precisas, como as influenciadas pelo
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positivismo nos trabalhos acerca das ciências naturais podem ser encontradas pelo leitor moderno. Trata-se de uma reflexão critica que define a natureza do sujeito e do objeto e as relações entre estes, numa concepção peculiar desta forma de conhecimento. O trabalho de Dilthey posiciona-se no campo da ontologia e da epistemologia e não no campo da metodologia. Dilthey retoma uma distinção já insinuante no espírito do tempo: a diferença radical entre as ciências naturais e históricas. Isto marca o repúdio do romantismo e do cientificismo iluminista que procuravam cada um ao seu modo, englobar as práticas cientificas num mesmo construto epistemológico. Durante o século XIX as ciências naturais não se deixaram influenciar profundamente pelo romantismo e além disto, geraram novas produções metodológicas na tradição iluminista que superaram as limitações de sua própria versão mecanicista, com a biologia funcionalista e com os avanços na física e na química, corroendo o universo de Newton. No entanto, o romantismo sobrevivera e se consolidara nas ciências morais. Dilthey definiu as ciências naturais como sendo explicativas, pois seu procedimento é na elaboração de leis gerais, com a explicação de acontecimentos particulares subsumidos nestas leis. Já, as ciências morais e históricas são ciências do espírito e sua meta não é a explicação, mas a compreensão de seus objetos. Compreender é elucidar a experiência vivida, manifesta por meio dos atos comunicativos. Os atos comunicativos sempre são atos de um indivíduo, histórica e culturalmente datados que se articulam ao conjunto da biografia individual que se integra ao sistema total das formas culturais. Somente nesta articulação com um conjunto, do individuo e da sociedade, o ato adquire sentido e pode ser compreendido, como momento e expressão de uma totalidade histórica e biográfica. Mas se o limite do psicologismo é o irracionalismo, já o limite do historicismo é o ceticismo e o conjunto de regras interpretativas, caso elaborado, resolvendo a contradição entre a universalidade e a singularidade, não seria um produto histórico? Assim solapam-se as bases da ciência do espírito: a interpretação já não pode visar as verdades das mensagens INTERPRETAÇÃO E VERDADE Em vários arraiais psicológicos a preocupação com a verdade não é acentuada. Variantes do discurso Diltheyano, na psicologia clinica, aparecem com freqüência. Os humanistas, por exemplo, usam e abusam desta terminologia: compreensão significado, etc. Assim, operam na redução destes conceitos ao nível do vitalismo pré-crítico, ou, de bergsom. Em que condições poderemos expressar sobre a compreensão verdadeiras? O núcleo da compreensão, encontra-se na valoração do espírito. CAPÍTULO X MATRIZES COMPREENSIVAS: OS ESTRUTURALISMOS A PROBLEMÁTICA ESTRUTURALISTA A noção de organismo, central na matriz funcionalista, também aparece no ideário romântico, sendo que ela, traz consigo, em ambos os casos, o enfoque anti-elementarista, globalizante, sistemático. Na biologia, no entanto, a noção de organismo liga-se à noção de complementaridade. As partes do todo, adquirem significado funcional, ajustando-se umas às outras, complementando-se com harmonia na promoção da interação adaptativa do organismo ao meio externo a este, mantendo o meio interno dentro da faixa de variação que seja compatível com a conservarão da vida. O disfuncional, o patológico é puramente
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negativo; é o acidental que se opõe ao essencial; é a desintegração contra-posta à cooperação orgânica entre os componentes do todo No romantismo as noções de organismo, totalidade, ou forma, supõe interdependência mas não complementaridade e não excluem o conflito. No campo das ciências naturais, o romantismo nunca exerceu grande influência, mas, no campo das ciências morais, não apenas influenciou, mas, também frutificou e passou sérias transformações que dizem respeito fundamentalmente à atividade crítica autoreflexiva que oferece às ciências morais, um terreno seguro, epistemologicamente falando-se. A neutralização do sujeito caracteriza o ideal cientifico dos estruturalismos, colocando-os como uma espécie de positivismo das ciências humanas e tal índole cientificista levam as ciências humanas estruturalistas para bem próximo das ciências naturais, distinguindo-se no entanto pela persistência em considerar as noções de significado, de sistemas simbólicos, como definidoras de seus objetos específicos. Os estruturalismos, julgam superar a oposição entre compreender e explicar: compreende-se uma determinada mensagem, quando se aplica à mesma, de modo mais ou menos automático, mais ou menos, exploratório, mais ou menos consciente, a gramática que a gerou, ou se é capaz de reproduzi-la. ORIGENS DOS ESTRUTURALISMOS: A PSICOLOGIA DA FORMA A matriz estruturalista, em sua origem trás movimentos intelectuais que revolucionaram no final do séc 19 e inicio do 20 a psicologia, a teoria da literatura e a lingüística. A psicologia da forma, ofereceu consistente alternativa na Europa à velha psicologia elementarista, associacionista e introspeccionista. Nos EUA coube ao funcionalismo e ao behaviorismo esta missão. Wundt reconhecera a complexidade dos fenômenos da experiência imediata. Von Ehrenfels em 1890 aponta a existência de qualidades formais, configuracionais, como dimensões dos elementos que existem apenas no contexto dos conjuntos estruturados a que se integram. Qualidades que pertencem à configuração e não a cada uma de suas partes. Os autores gestaltistas da escola de Berlim assumiram de maneira completa, criticas ao elementarismo, ao negar a realidade independente dos elementos, como Von Ehrenfels, extendendo a idéia de uma estrutura organizadora a todos os níveis e áreas da experiência. Alguns experimentos engenhosos nas áreas da percepção da memória, das soluções de problemas permitem observação sem nenhuma introspecção de como os sujeitos organizam seus campos. Se há nisso alguma universalidade estará segura a viabilidade da tarefa de descrever objetivamente e cientificamente, explicar o comportamento> O conceito de geltalt passa a unificar todos os reinos da natureza e do espírito e o isomorfismo psicofísico expulsa a subjetividade introduzida no inicio pela descrição e compreensão da experiência imediata. Consuma-se o rompimento da psicologia da forma, com as ciências morais ou do espírito e apesar de argumentação contrária, revela-se a índole positivista do gestaltismo. ORIGENS DOS ESTRUTURALISMOS: OS FORMALISTAS RUSSOS A noção de forma, contemplada pelos gestaltistas exerceu influência notável sobre a teoria das artes plásticas enquanto na Rússia se desenvolvia uma teoria da literatura formalista e estruturalista. Ler as obras literárias, pondo de parte o psicologismo e o sociologismo e visando a obra mesma de modo a captar nela, não as intenções do autor ou o efeito das pressões sociais, porém sua estrutura imanente e seus procedimentos constitutivos. Os formalistas vêem a obra literária fundamentalmente como uma forma que
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não deixa transparecer uma idéia ou conteúdo; ela é o conteúdo em sua manifestação sensível, a única em que pode este conteúdo subsistir. Importa na análise da forma detectar princípios de organização, técnicas construtivas. A matriz é Urphänomen (Goethe) dos contos fantásticos, como a Urplanze o era dos vegetais, contudo um objeto construído e não um objeto da imediata experiência, alvo da intuição concreta. ORIGENS DOS ESTRUTURALISMOS: A LINGUISTICA DE SAUSSURE Na época em que a Alemanha desenvolvia-se a psicologia da forma, na Rússia a teoria formalista da literatura, na França ocorria o impacto do lingüista suíço Saussure . A lingüística estrutural teve peso na formação do estruturalismo moderno. A contribuição de Sausser ocorreu no plano conceitual e metodológico, ao distinguir langue e parole, isto é o sistema lingüístico e a fala. No estudo da língua apresenta-se a descrição do conjunto de regras, que é o código de diferenciação e de oposição. NOVOS RUMOS PARA OS ESTRUTURALISMOS: A GRAMATICA GERATIVA Na década de 50 nos EUA desenvolveu-se uma corrente de estudos lingüísticos lideradas por Chomsky, conhecida por “Gramática Gerativa Transformacional”. Chomsky critica a lingüística estruturalista por permanecer em um nível demasiado empírico e descritivo, com isto tornando-se incapaz de compreender a mais importante e original característica da linguagem humana: sua criatividade. Aqui novamente o Urpänomen goethiano. Por baixo da estrutura da mensagem que aparece na forma de discurso outra forma mais decisiva, a forma criadora de formas. A lingüística estruturalista tomara principalmente a forma aparente como objeto, mas uma teria completa da linguagem, deveria exatamente se voltar para a forma interna que Chomsky denomina estrutura profunda. O essencial na teoria de Chomsky é a tese: “a competência lingüística é universal e a estrutura psíquica de todas as línguas é semelhante, apenas variando nas regras de transformações e isso permite que se traduzam mensagens de uma língua para outra”. Chomsky associa-se neste ponto ao racionalismo dos séculos XVII e XVIII , afastando-se do romantismo que enfatiza o particularismo dos sistemas lingüísticos. Chomsky resolve o velho problema das ciências compreensivas: fornecer interpretação verdadeira de fenômenos culturais históricos psicológicos estranhos ao universo do intérprete. ESTRUTURALISMO NA ANTROPOLOGIA E NA PSICOLOGIA Os lingüistas estruturalistas facilitaram a importação por outras ciências humanas dos conceitos e métodos lingüísticos, ao inserirem suas disciplinas claramente, nos contextos mais amplos destas ciências. Saussure situa a lingüística dentro da semiologia que teria como objetos os sistemas simbólicos todos e também processo de comunicação operantes no emaranhado da vida social. Nos anos recentes esta versão da matriz estruturalista tem efetivamente exercido grande influência nos estudos da chamada psicologia cognitiva e também na psicologia social. A lingüística pertence ao conjunto das ciências sociais e ai ocupa lugar excepcional; não é uma ciência social como as outras mas a que os maiores progressos realizou, a única que pode reivindicar o nome de ciência; chegando a formular um método positivo, vindo a conhecer a natureza dos fatos pela sua análise. A metodologia da lingüística, caso se aplique ao sistema de comunicação social que marca a passagem do natural ao social, se aplicará ainda com mais razão, aos sistemas simbólicos mais independentes da natureza, mais convencionais e arbitrários, como a
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mitologia, os rituais, as religiões e a arte. Em Levi Strauss, a antropologia se pretende ciência semiológica, situando-se resolutamente no nível da significação. Na antropologia estruturalista uma nova imagem de homem surge que é a de um ser simbólico e simbolizante, sempre imerso num mundo de significados incessantemente estruturando seu universo em um sistema significativo. Na Psicologia vinculam-se a desdobramentos da psicologia da forma, repercussões do estruturalismo, em particular na influência exercida por Kurt Lewin. F.Heider com sua teoria das relações interpessoais que se baseia numa dinâmica orientada pelo balanceamento, está na trilha de Lewin. Há uma tendência à congruência, ao equilíbrio, a boa forma, no campo das interações pessoais. Além de Heider, também há Festinger com sua teoria racionalista da motivação que atribui tendência ao sujeito para buscar compatibilidades em suas representações atitudes e sentimentos. São questões extremamente atuais no contexto de consideração das alternativas teóricas e metodológicas da psicologia contemporânea. ROMANTISMO, ESTRUTURALISMO E PSICANÁLISE Freud reconheceu e registrou a influência que o levou à Faculdade de Medicina: um ensaio de Goethe sobre a Natureza que ele ainda adolescente ouvira. Mas a relação da Psicanálise com a filosofia da natureza romântica, assim como com a problemática romântica da expressão e compreensão de textos vai muito além deste primeiro encontro. Uma das categorias essenciais do ideário romântico é o conflito. Também o cientificismo alemão mecanicista e/ou funcionalista, assimilou a idéia de forças naturais em conflito. Freud, ao apontar o interesse possível de ser despertado, nas ciências, pela Psicanálise, contempla a linguística: linguagem não é somente a fala, mas o conjunto dos gestos e outra atividade psíquica como a escrita. Assim, a Psicanálise é uma ciência do sentido, mas não do sentido imediato. Então, não é na linha divinatória, da revivência, da empatia, da valorização da consciência espontânea, do intérprete ou do interpretado que se move Freud. Ele elabora um dos ataques mais consistentes contra o desregramento subjetivista, proposto pelos românticos e pelos intuicionistas.. A Psicanálise é uma ciência mediata do sentido e um empreendimento eminentemente antifenomenológico. A Psicanálise aproxima-se dos estruturalismos, e surgem projetos de fusão. No de Lacan, é à ciência estrutural da linguagem que se recorre, na busca da terminologia e das leis adequadas, à dinâmica da vida psi. O inconsciente está estruturado como uma linguagem é a frase mor de Lacan. Mas há controvérsias: Benveniste, por exemplo, é um lingüista que confronta, linguagem estricto sensu e simbolismo do inconsciente,, concluindo que este teria mais afinidade com a estilística que com a lingüística. A simbólica psicanalítica aparentaria-se mais com a retórica que com a ciência da linguagem. De todo modo, ao enfoque estrutural caberia ainda a análise dos estilos da fala e do simbolismo inconsciente. CAPÍTULO XI MATRIZ FENOMENOLÓGICA E EXISTENCIALISTA As ciências da compreensão e da interpretação, com dificuldades enfrentam o problema da verdade. Como produzir, identificar, fundamentar, uma interpretação verdadeira? Os estruturalismos e a fenomenologia representam respostas alternativas para o referido problema. Autoproclamam-se adequados para construir disciplinas compreensivas
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rigorosamente cientificas. Os estruturalismos concebem o rigor em termos metodológicos, prioritariamente. Assim sendo exigem empenho máximo na formalização dos conceitos das hipóteses dos procedimentos analíticos. A fenomenologia, no entanto, preocupa-se essencialmente com o rigor epistemológico e promove a radicalização do projeto de análise critica, dos fundamentos e das condições de possibilidade do conhecimento. A FENOMENOLOGIA E A QUESTÃO EPISTEMOLÓGICA O projeto cartesiano busca um fundamento absoluto e indubitável para o conhecimento. Para Husserl esta busca corresponde à intencionalidade. Descarte alcançou o sujeito pensante, mediante o exercício da dúvida metódica, como sendo a única evidência de que não se pode duvidar. Na opinião de Husserl, porém, Descartes não aprofundou sua investigação epistemológica, retornando muito rapidamente do eu penso ao mundo natural, restabelecendo muito cedo a confiança nos dados empíricos. Para Husserl evidências apoditicas, às quais a fenomenologia deve se ater e a respeito das quais pode se constituir como ciência rigorosa, serão os atos da consciência intencional, isto é, a consciência de alguma coisa e seus respectivos objetos imanentes. A fenomenologia estabeleceria relações com todas as ciências, mas com as ciências humanas, estabeleceria relações particulares. O ENCONTRO DA FENOMENOLOGIA COM AS CIÊNCIAS HUMANAS Husserl encerra suas meditações cartesianas apontando na direção de uma mudança nas relações entre conhecimento empírico e subjetividade, como as estabelecidas no objetivismo cientificista. Para Husserl o esclarecimento do homem é uma pré-condição onde deve-se fundamentar o conhecimento do mundo. A fenomenologia herda a disposição iluminista de abolição dos preconceitos e das crenças mal-fundadas. A fenomenologia é um anti-romantismo e manifesta-se oposta ao historicismo de Hegel e Dilthey defendendo a legitimidade de um conhecimento invulnerável. Esposa com máxima fidelidade a perspectiva cartesiana e kantiana, radicalizando e opondo-se à vertente objetivista do iluminismo, opondo-se ao naturalismo e ao ceticismo psicologista. Da superação dos preconceitos, emerge uma egologia e assim aproxima-se das ciências do espírito articuladas sob inspiração romântica. A separação entre sujeito e objeto é abolida na fenomenologia. Seus objetos são os objetos da consciência para consciência. Seu método é a contemplação imediata, destes objetos tais como se dão, na experiência espontânea e pré-reflexiva. Segundo Husserl a fenomenologia é capaz de fundar a filosofia do espírito. A única que poderia orientar a psicologia, a sociologia, a antropologia, e a historia, como ciências compreensivas. A fenomenologia exerceria, em relação às ciências do sujeito, uma função rectora, fornecendo-lhes os instrumentos conceituais , necessários à prática da compreensão que supere o nível do senso comum e que se possa rigorosamente validar. AS ESTRUTURAS DA CONCIÊNCIA TRANSCENDENTAL As ciências compreensivas foram influenciadas pelas descrições fenomenológicas da estrutura geral da consciência profundamente. A intencionalidade da consciência é conceito de Brentano (1838-1917), psicólogo austríaco e professor de Husserl e Freud. É a consciência em ato, oposta à consciência enquanto conteúdo. A temporalidade da consciência refere-se a que: toda consciência intencional é uma síntese no tempo. O conceito de horizonte de consciência refere-se a que: a consciência intencional em qualquer modo que se dê a atualidade explicita, consciência de algo e potencialidade implícita, conjunto de estados passados antecipados, sugeridos etc., em relação ao qual, o objeto em
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foco adquire significado para o sujeito. A experiência pré-reflexiva está sempre adiante da reflexão e assim a compreensão da vivência é tarefa essencialmente inacabada. OS MODOS DA CONSCIÊNCIA TRANSCENDENTAL E AS ONTOLOGIAS REGIONAIS A fenomenologia caminha para estruturas típicas especiais, a partir das descrições das estruturas gerais da consciência. Surgem as fenomenologias da percepção, da imaginação, etc (Merleau – Ponty, Sartre, dentre outros). A INFLEXÃO ROMÂNTICA NA FENOMENOLOGIA DE M. SCHELER O filósofo, psicólogo e sociólogo M. Scheler (1874- 1928) discípulo de Dilthey e Husserl é a figura paradigmática do processo de redirecionamento da fenomenologia convertida em método das ciências humanas compreenssivas. Graças à obra de Scheler a fenomenologia afasta-se da orientação que lhe deu Husserl que desembocara no subjetivismo metodológico. Uma auto-percepção puramente interna e psíquica é ficção. Scheler parte para uma estética tipicamente romântica assumida pelos formalistas e futuristas na mesma época. Com Scheler a fenomenologia transformou-se no método de investigação das formas expressivas, mas a fenomenologia dos simbolismos nunca focara os sistemas lingüísticos enquanto objetos independentes da subjetividade. O foco será a fala, a expressão concreta de uma intencionalidade. AS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS Sobre a psicologia, a fenomenologia influiu como ciência compreensiva e foi em grande parte mediada pelas doutrinas existencialistas. O método fenomenológico, ao ser sistematizado, despertou no inicio do século vinte, em muitos a esperança de que se proporcionasse a descrição da existência concreta, um rigor ainda não alcançado. É necessária, contudo uma distinção entre, por exemplo, K. Jaspers, Heidegger e Sartre. A PSICOPATOLOGIA DE K.JASPERS K.Jaspers foi não apenas a figura de maior destaque de uma das correntes existencialistas, mas um pioneiro das ciências compreensivas: psicopatologia e psiquiatria. “O existir não é objetividade”. Em Jaspers temos mais um filosofar existencialista, que uma filosofia dogmática existencialista. Este filosofar relaciona-se duplamente com as ciências. As relações entre ciências do homem e filosofias existencialistas, diferem daquelas em que se baseiam as ontologias de Heidegger e Sartre, duramente criticadas por Jaspers. ANALITICA E PSICANALISE EXISTENCIAL Binswanger (1881-1966) é um dos grandes nomes da psiquiatria fenomenológica e criador da análise existencial que se deriva de Heidegger. O seu livro, “Ser e Tempo” influenciou Binswanger. A psicanálise existencial não promete cura, adaptação, tranqüilidade e sim autocompreensão, liberdade, responsabilidade, angústia. A ANTIPSIQUIATRIA EXISTENCIAL MARXISTA David Cooper e Ronald Laing sofreram influência de Sartre, neomarxista. O homem é o ser cuja existência precede a essência. A vida não é determinada por, nem expressão de, uma realidade material ou ideal que a anteceda cronológica ou logicamente. A existência é contingente e gratuita. Mas o outro ameaça perenemente a existência. O homem é um
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processo essencialmente incompleto de totalização e não uma totalidade acabada e determinada. Diz Cooper que se deve compreender o que o sujeito faz com o que lhe é feito e o que ele faz do que ele é feito. Para Laing e Cooper, a gênese da esquizofrenia e a solução terapêutica desta, e a própria caracterização deste quadro clínico, remetem ao sistema de interações sociais, que no conjunto da sociedade e de forma crítica, no seio da família, configuram o projeto de loucura. O pessimismo existencialista é bastante atenuado, no momento em que a antipsiquiatria se propõe como terapêutica existencial, o que a aproxima da psiquiatria alternativa norte-americana. que se inspira na psicossociologia funcionalista, e com o mito da comunidade desalienada, do pensamento político romântico. O PROBLEMA DA COMPREENSÃO NAS DOUTRINAS EXISTENCIALISTAS A imbricarão dos existencialismos na velha problemática romântica da expressão e da interpretação das formas expressivas, tendo de um lado como exemplo o neo-marxismo de Sartre e do outro a ontologia Heideggeriana com seus desdobramentos teve resultados. O homem é para si mesmo e para os outros um ser significante , pois não se pode jamais compreender o menor de seus jestos sem que se supere o puro presente explicando-o pelo futuro. É um criador de signos. Utiliza alguns objetos para designar outros ausentes e futuros. O homem constrói signos por ser significante em sua natureza e é significante por ser superação dialética de tudo que é simplesmente dado. Gadamer diz que em Heidegger “ compreender não éummodo de comportamento do sujeitoentre outros, mas o modo de ser do próprio dasein”. Essencialmente o ser ai é uma relação original do sujeito com o mundo, em que este é o mundo projetado pelo Daisein como horizonte de suas possibilidades de ser. Não há como a razão ser exercitada fora do prévio horizonte das tradições, dos preconceitos, mas pertencer a uma tradição e a aplicação do projeto de compreensão antecipada que daí recorre não excluem a racionalidade e a critica. Mas a consciência em que se pode manifestar à irredutível alteridade do outro é a consciência aberta para o dialogo e a busca do consenso. CAPITULO XII CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVAS A PROBLEMÁTICA DA DIVERSIDADE E DA UNIDADE A multiplicidade de enfoques metodológicos seria o grande problema da constituição cientifica da psicologia? A diversidade instalou-se na constituição da psicologia desde sua origem. A duração desde a origem da psicologia desta diversidade, desta multiplicidade de abordagens, sua persistência seria outro aspecto problemático a ser estudado. Sendo assim, poderia a psicologia ser considerada, efetivamente, e com o propósito de romper com este problema, como sendo “a ciência da conduta?” A conduta é finalizada, é uma unidade funcional. É sob a regência do funcionalismo, portanto, que se faria a unificação. A interpretação funcional da conduta é exatamente a mesma; o sentido da conduta é sempre o de restabelecer a unidade do organismo quando este se acha ameaçado pela tensão inerente a uma necessidade fisiológica ou adquirida.
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A SUPERAÇÃO E A DURAÇÃO DA DIVERSIDADE Constitui-se o sujeito individual num contexto histórico e determinado culturalmente: fora deste processo ele simplesmente não teria qualquer existência. É necessário sublinhar o caráter histórico das relações entre o cientista e o seu objeto. “O que a ciência nos oferece é um quadro da natureza, isto é, uma relação ordenada do homem e da matéria” (Serge Moscovici). O conhecimento cientifico não seria apenas conhecimento de um objeto que se transforma efetuado por um sujeito que também se transforma, mas fundamentalmente, um conhecimento das formas históricas das relações práticas que a humanidade instaura com a matéria criando e recriando assim as ordens naturais. As diferentes matrizes se refletem e expressam formas diferentes de relações humanas, a opção individual entre as correntes psi é uma questão ética , não cientifica, mas sem ser absolutamente uma questão para qual só existem soluções irracionais e arbitrarias. Um dos mecanismos de defesa contra a incerteza é o dogmatismo, não se deve esquecer disto, pois, não é atôa que lado a lado ecletismo pragmático agnóstico e dogmatismo acrítico irracionalista lado a lado campeι am na psicologia. COMENTÁRIO: A Psicologia em todas as suas facetas e nuances mostra-se multifacetada pluripresente e multiatuante na sociedade hoje. Apesar da complexidade, ou antes, graças a Ela pode-se perceber nas diversas tendências e linhas da Psicologia algo relacionado, algo que parece comum: quer seja no discurso nomotético e quantificador quanto na gestalt assim como no lado romântico da Psicologia, quanto ao sujeito (ou o que quer que lhe chamem, quer seja organismo, etc.), sempre portar de uma forma ou de outra , sua singularidade. Se organismo, contingência, se gestalt, parte do todo, se procedente de vitalismo uma outra instância... É interessante observar no entanto, um fato curioso: dentro do curso de Psicologia, se a singularidade aparece, às vezes, tem que ser massacrada? Tem-se, obrigatoriamente que fazer parte do bando? É o tudo e o nada do 4º Reich? FIM?

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