Você está na página 1de 19

Anais do IV SEMPE – Seminário de Metodologia para Projetos de Extensão, São Carlos 29-31 ago

2001.

METODOLOGIA DE INCUBAÇÃO E DESAFIOS PARA O


COOPERATIVISMO POPULAR: uma análise sobre o trabalho da Incubadora de
Cooperativas Populares da UFSCar

Farid Eid
Universidade Federal de São Carlos, (0xx16) 2608236 r. 211
farid@power.ufscar.br

Ana Rita Gallo


Universidade Federal de São Carlos, (0xx16) 2716368
argallo@bol.com.br

Este artigo propõe-se a aprofundar a investigação científica sobre exclusão social,


gênese e desafios atuais da Economia Solidária no Brasil, enfatizando o atual estágio
de desenvolvimento de uma proposta coletiva de metodologia de incubação,
fundamentada ou com elementos similares à Pesquisa-Ação, a partir do trabalho de
dois anos de técnicos de nível superior, especialistas em cooperativismo, estudantes de
graduação e de pós-graduação e de docentes de diversas áreas de conhecimento que
atuam na Incubadora Regional de Cooperativas Populares da Universidade Federal de
São Carlos.

1. EXCLUSÃO SOCIAL E ECONOMIA SOLIDÁRIA


1.1. Exclusão Social
A apartação social no Brasil inicia-se com o processo de ocupação de terras, exploração
da mão-de-obra indígena, escrava e imigrante. Séculos de escravidão configuraram a
representação social da pobreza, na qual interferem a etnia e o lugar que o trabalho tem
no imaginário social. Com o advento do café e as relações capitalistas instauradas no
país, no final do século XIX, pobre era o trabalhador habitante de cortiços. Sobre este,
deveria ser exercida a disciplina do trabalho para afastar os riscos da vadiagem e da
doença. Pobre daquele que não se submeteria a uma relação salarial, fundamentalmente
uma relação política e, levar-se a uma existência indisciplinada, ameaçaria a ordem
social.
A pobreza intensifica-se a partir de 1930, conformada por problemas estruturais
associados à concentração do poder e da propriedade da terra. Durante o período
getulista, o crescimento da urbanização e da industrialização relegaram a figura do
pobre ao ambiente rural. No espaço urbano o pobre estaria ou inserido como força de
trabalho ou em processo de transição rural-urbano, adaptando-se ao novo ambiente e
incorporando os valores da sociedade ‘moderna’. Nos bolsões de pobreza rural, a
condição era considerada ainda de natureza individual, gestada pela indolência e falta de
ambição daqueles apegados a valores tradicionais. A figura do Jeca Tatu era expressiva
desse imaginário. No espaço urbano, a natureza da pobreza era também individual,
porém de ordem cultural, pois pobre – migrante recente – ainda estaria em uma fase
adaptativa. A legislação social implementada no período estabeleceu uma estratificação
importante no seio da categoria dos trabalhadores, subdividindo-a, segundo sua
importância estratégica no desenvolvimento nacional, em grupos com maior ou menor
acesso aos direitos sociais – também estes com diversos graus de amplitude. Nos anos
1950 e 1960, impulsiona-se o movimento de industrialização pela substituição das
importações e conjuntamente os movimentos migratórios. À medida que as expectativas
de inserção laboral eram frustradas acabava-se por se constituir um amplo contingente
de subempregados ou desempregados disfarçados pelo exercício de atividades
intervenientes, irregulares, semilegais ou mesmo legais. Neste momento a natureza da
pobreza passou a ser considerada como de responsabilidade social. O sistema
econômico mantinha os pobres em sua periferia conformando um exército industrial de
reserva. Essa configuração deu origem ao conceito de “marginalidade social” e, em
período posterior, a um intenso debate que se consubstanciou na denominada ‘teoria da
marginalidade’. O pobre era o subempregado, vivendo através de uma ‘economia de
sobrevivência’, obtendo uma renda insuficiente que o caracterizava como carente. No
universo simbólico social a figura do ‘malandro’ associava-se a ociosidade, esperteza e
elegância contrapondo-se ao pobre trabalhador. A partir dos anos 70 consolidaram-se as
relações sociais do tipo urbano-industrial e um novo padrão de industrialização com a
formação de estruturas de mercado em oligopólios. Nesta década, o Brasil já era um
país urbanizado e em processo de conformação das metrópoles. Posteriormente, na
década de 80, ocorre uma acentuação da clivagem econômica, política e social
demarcada nesse processo histórico de exclusão constituída pela transição do regime
político e pelos ciclos econômicos recessivos que aceleraram e aumentaram a
visibilidade da ‘questão social’. Na década de 90, surgem os sinais evidentes de uma
piora nas condições de vida da população excluída, com o rápido crescimento da
população moradora nas ruas e da violência urbana, com mudança no perfil de pobreza:
deslocamento espacial (rural-urbano) e um deslocamento social à medida que a pobreza
invade setores do mundo do trabalho até então em mobilidade ascendente (metalúrgicos,
bancários, professores e profissionais liberais).
Segundo Lautier (1994) o aumento da pobreza urbana e do subemprego massificado
encontraram na economia informal uma solução, imprevista e não ótima, ao problema
do subdesenvolvimento. Por outro lado, há inúmeras causas da heterogeneidade da
formação da economia informal que vão desde a crise econômica até as várias formas
de exclusões sociais existentes, como, por exemplo, o preconceito racial e as atividades
ilícitas. Inúmeros são os termos usados para classificar a economia como informal:
economia não oficial, economia alternativa, economia autônoma, economia marginal,
economia ilegal, economia clandestina, entre outros. Tanto atividades lícitas quanto
ilícitas encontram-se enquadradas como informais, sendo a primeira caracterizada deste
modo por não pagar impostos, seguros sociais dos trabalhadores, não ter regulamentado
as condições de trabalho, higiene e segurança e por não ter registro na administração
fiscal; a segunda, que compreende as atividades criminais, de contrabando, tráfico ou a
máfia, são classificadas como informais devido aos seus princípios ilegais.
A marginalidade pode ser caracterizada como a ausência de inserção no assalariamento
formal e sua dupla conseqüência na irregularidade de rendimentos e na carência de uma
proteção social, caracterizando a ausência de um Estado de Bem Estar Social explicada,
em parte, pela crise de financiamento dos gastos sociais para com a população excluída
(Ewald, 1986; Rosanvallon, 1981, 1995; Castel, 1991, 1995). Como a empresa
capitalista, em contínua reestruturação face ao aumento na competição na economia
mundial, não oferece condições para o trabalho de toda a população excluída, portanto
cresce ano a ano o contingente de indigentes, sem qualquer perspectiva de melhoria de
vida.

1.2. Economia Solidária


A partir dos anos 80, surgem cooperativas com uma nova conotação, dentro do conceito
de Empreendimento Econômico Solidário – EES ou empreendimento autogestionário
(Gaiger et al., 1999a, 1999b) e da Economia Solidária (Singer, 1999a, 1999b). Os EES
são definidos como organizações coletivas de trabalhadores voltados para a geração de
trabalho e renda, regidos, idealmente, por princípios de autogestão, democracia,
participação, igualitarismo, cooperação no trabalho, auto-sustentação, desenvolvimento
humano e responsabilidade social. E por Economia Solidária (ES) entende-se um
conjunto de experiências coletivas de trabalho, produção, comercialização e crédito
organizadas por princípios solidários, espalhadas por diversas regiões do país e que
aparecem sob diversas formas: cooperativas e associações de produtores, empresas
autogestionárias, bancos comunitários, ‘clubes de trocas’, ‘bancos do povo’ e diversas
organizações populares urbanas e rurais (Singer, 1999a). Deste modo, os EES podem
explicar um novo e complexo tecido social, onde os setores populares desenvolvem suas
atividades produtivas, cujo objetivo não é, prioritariamente, a acumulação de capital,
mas a sobrevivência de quem neles trabalha (Gaiger, 1999a, 1999b). Outro aspecto que
marca esse tipo de empreendimento é a multiplicidade de identidades, onde a idéia
prevalecente é a da cooperação, companheirismo, colaboração, comunidade,
coletividades, coordenação, entre outros, como valores que caracterizam uma ação
comunitária e solidária (Tiriba, 1999).
No entanto, é evidente a quase ausência de pesquisas empíricas, com esse novo enfoque
analítico, que apresentem análises sobre o estado da arte das iniciativas solidárias,
tomando-se o cuidado de não reproduzir generalizações abstratas deslocadas da
realidade. Essa alternativa de vida econômica e social que se apresenta é representado,
destacando-se, as associações informais, negócios de caráter semifamiliar, pequenas
fábricas artesanais, cooperativas rurais e urbanas e microempresas. Desenvolvem
principalmente atividades econômicas como: limpeza e serviços gerais, plantio,
beneficiamento e comercialização de produtos primários, prestação de serviços,
confecções, alimentação, artesanatos, reciclagem de resíduos e outras.
A contribuição universitária se organiza a partir de meados dos anos 90 quando inicia-se
o programa de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs) a partir da
iniciativa pioneira da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente são 13 ITCPs filiadas a Rede de
ITCS e, outras mais, espalhadas em diversas universidades do país ou não vinculadas à
universidade, sendo que, a partir de 1998, essa Rede de ITCPs faz parte de um dos
Programas da Rede Interuniversitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho
(UNITRABALHO) a qual agrega 84 universidades de todas as regiões do país.
Na UFSCar existe um grupo de docentes de diversas áreas de conhecimento, técnicos de
nível superior especialistas em cooperativismo e estudantes da graduação e pós-
graduação que atua e desenvolve conhecimentos de forma inter-disciplinar, na
Incubadora Regional de Cooperativas Populares da Universidade Federal de São Carlos
(INCOOP/UFSCar). Esse grupo foi formado a partir do final de 1998 e a incubadora
surgiu em abril 1999, através da articulação dos Núcleos de Extensão UFSCar-
Cidadania, UFSCar-Município e UFSCar-Sindicato, com a preocupação sobre a questão
da desigualdade, da exclusão social e da precarização do trabalho (Gallo et al., 2000;
Valêncio et al., 2000).
Atualmente, cerca de dez cooperativas estão em processo de criação e/ou consolidação,
localizadas em diversos municípios da região de Ribeirão Preto. Algumas possibilidades
de convênios com Prefeituras Municipais podem acelerar esse processo, como já se
pode verificar nesse último ano. Para esse coletivo, o mais importante não é o aumento
no número de cooperativas que estão sendo criadas, mas assessorar para que o processo
de incubação garanta, na prática, os princípios do cooperativismo popular, sobretudo a
livre adesão, gestão democrática, autonomia, formação continuada e a inter-cooperação.
Entretanto, o coletivo dessa incubadora se submete à direção política dos trabalhadores
diretamente envolvidos no processo de criação e desenvolvimento de cada cooperativa.
Esse procedimento de trabalho não significa que a equipe esteja omissa, sem expressar
suas preocupações sempre que considerar a existência de desvios dos verdadeiros
princípios do cooperativismo popular. Para finalizar, formulamos uma hipótese de que a
organização cooperativista popular e autogestionária, vinculada à INCOOP/UFSCar, se
apresenta como uma alternativa concreta à redução da precarização das relações de
trabalho, das condições de trabalho e de vida, contribuindo modestamente para geração
de trabalho e renda em alguns municípios da região. No entanto, não se pode deixar de
reconhecer que o ritmo, em que se encontra atualmente, de crescimento da exclusão
social, decorrente da reestruturação produtiva-organizacional das empresas capitalistas
tem sido bem maior que o processo de inclusão social através da criação de pequenas
cooperativas populares.
É neste sentido que vem se elaborando um estudo, parte de um projeto de tese de
doutorado na UFSCar, cujo objetivo principal é analisar e compreender as diversas
formas de precarização do trabalho e das condições de vida decorrentes do processo
excludente do sistema capitalista. Além disso, propõe-se estudar e apresentar
alternativas organizacionais para o trabalhador que não se encontra no mercado formal
de empregos através da formação de cooperativas populares e as associações de
trabalhadores, que fazem parte dos empreendimentos econômicos solidários (EES).

2. METODOLOGIA DE INCUBAÇÃO
2.1. Metodologia da Pesquisa-Ação
Para uma experiência autogestionária ser bem sucedida, sem dúvida que é importante,
distinguir-se entre o engajamento efetivo de cada uma das pessoas no coletivo
fortalecendo a coesão social de um envolvimento individual, formal e aparente. As
relações humanas devem estar elevadas em um patamar mais saudável, moralmente
mais maduro e politicamente mais consciente. Da mesma forma que não existe
autogestão sem um engajamento efetivo, apenas a vontade sincera do grupo não garante
nada.
Em relação à metodologia de incubação de cooperativas populares desenvolvida pela
equipe dos técnicos, estudantes e docentes da INCOOP/UFSCar, através das discussões
teóricas e conhecimento prático, percebe-se que, se para uns, há somente semelhanças
entre o processo de incubação e a metodologia da pesquisa-ação, para outros, adotou-se
a linha da pesquisa-ação. Essa linha associa diversas formas de ação coletiva orientadas
em função da resolução de problemas ou de objetivos de mudança/transformação social.
No caso desta atividade de extensão universitária indissociada das atividades de
pesquisa e de ensino, tem como um dos objetivos principais prestar assessoria a grupos
sociais excluídos do mercado de trabalho e interessados em re-inserção na economia na
forma da organização cooperativista como meio para geração de trabalho e renda direto
e indireto, além de emprego indireto.
A pesquisa-ação usa a participação e uma forma de ação planejada de caráter social,
educacional, técnico que nem sempre se encontra em outros tipos de propostas de
pesquisa. Um dos seus principais objetivos consiste em oferecer aos pesquisadores e aos
grupos de participantes os meios de se tornarem capazes de responder com maior
eficiência aos problemas da situação em que vivem, em particular sob a forma de
diretrizes de ação transformadora. Isto é feito através de um diagnóstico da situação no
qual os participantes tenham voz e vez. Os aspectos estruturais da realidade social não
ficam desconhecidos, a ação só se manifesta em um conjunto de relações sociais
estruturalmente determinadas. As técnicas de coleta de dados são as mais diversas. Entre
elas encontram-se: entrevistas coletivas e individuais; questionários; análise de
documentos; observação participante, diários de campo e histórias de vida; dinâmicas
de grupo e mapa cognitivo (a partir de um dado objetivo busca-se encontrar os desafios
a serem enfrentados e quais as relações necessárias para que o objetivo seja alcançado).
Para Thiollent (1998, p. 14), um dos maiores defensores no Brasil, “a pesquisa-ação é
um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita
associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os
pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão
envolvidos de modo cooperativo ou participativo”. É preciso que a ação seja uma ação
não trivial, onde exista uma problemática merecendo investigação para ser elaborada e
conduzida.
Na pesquisa-ação os pesquisadores desempenham um papel ativo no equacionamento
dos problemas encontrados, no acompanhamento e na avaliação das ações
desencadeadas em função dos problemas (vide quadro abaixo que mostra a atuação, dos
integrantes da INCOOP, junto aos grupos sociais). É necessário, por parte dos
pesquisadores, ter cuidado para que haja reciprocidade por parte das pessoas e grupos
implicados nesta situação não podendo substituir a atividade própria dos grupos sociais
e suas iniciativas. Procura-se tomar este cuidado em relação aos grupos sociais em
processo de formação pela equipe da INCOOP.
A pesquisa-ação não se trata de simples levantamento de dados ou de relatórios a serem
arquivados. Através da pesquisa-ação os pesquisadores pretendem desempenhar um
papel ativo na própria realidade dos fatos observados. Para isso, é preciso definir com
precisão qual é a ação, os seus agentes, seus objetivos e obstáculos e, por outro lado,
qual é a exigência de conhecimento a ser produzido em função dos problemas
encontrados na ação ou entre os atores da situação. A pesquisa-ação é uma estratégia
metodológica de pesquisa social na qual: a) há uma ampla e explícita interação entre
pesquisadores e pessoas implicadas na situação investigada; b) desta interação resulta a
ordem de prioridade dos problemas a serem pesquisados e das soluções a serem
encaminhadas sob a forma de ação concreta; c) o objeto de investigação não é
constituído pelas pessoas e sim pela situação social e pelos problemas de diferentes
naturezas encontradas nesta situação; d) o objetivo da pesquisa-ação consiste em
resolver ou, pelo menos, em esclarecer os problemas da situação observada; e) há,
durante o processo, um acompanhamento das decisões, das ações e de toda a atividade
intencional dos atores da situação; f) a pesquisa não se limita a uma forma de ação, mas
também é pretensão que se aumente o conhecimento ou o “nível de consciência” das
pessoas e grupos considerados.
O quadro abaixo apresenta o estágio de desenvolvimento dinâmico de uma proposta de
metodologia de incubação (base: primeiro semestre de 2001), construída coletivamente,
ao longo de dois anos de experiência na Incubadora da UFSCar e cuja sistematização se
deu pelo esforço de um estudante da graduação. Importante frisar que o quadro
representa uma proposta coletiva mas, que ainda não foi aprovada, mesmo que, esse ou
outros similares, durante o processo de discussão para o fechamento de um convênio ou
contrato, são sempre enviados para a entidade interessada na incubação de cooperativas.
Encontra-se na fase de análise crítica sobre sua operacionalização e mostra como a
INCOOP busca desenvolver este processo, porém há que se tomar o cuidado de
considerar as especificidades e interesses propostos em cada grupo.
As nove etapas descritas abaixo não seguem necessariamente a ordem apresentada.
Diversas, podem ocorrer antes e/ou em paralelo, dependendo da dinâmica
organizacional interna de cada grupo social. Se o grupo não aceitar ou tiver dúvidas em
relação ao processo de incubação espera-se um tempo (indeterminado, pois depende de
cada caso) para prosseguir ou não com o processo de incubação.

2.2. Quadro de etapas referentes ao processo de incubação


ETAPAS SUB-ETAPAS Atividades e procedimentos
gerais
1.Apresentação e Apresentação e Reunião de apresentação do grupo,
sensibilização dos atores reconhecimento do multiplicadores e do trabalho da
envolvidos grupo, Incubadora e as razões que levam
multiplicadores e ao encontro dos atores
equipe da INCOOP-
UFSCar
Conscientização do Discussões temáticas: capitalismo,
grupo e desemprego, exclusão social,
multiplicadores a cidadania. Utiliza-se de fatos do
respeito de temas cotidiano, principalmente de fatos
atuais como noticiados pela mídia a que o grupo
desemprego, exclusão tem acesso (principalmente a
e cidadania televisão.
Demonstração de Apresentação, caracterização de
alternativas para a associações, cooperativas,
geração de trabalho e microempresas, emprego e
renda subemprego.
2-Formação e Verificação do Discussão e questionamento
Consolidação do grupo contexto de formação individual a respeito dos motivos
potencial do grupo afinidades, que o levam a participar do grupo.
identidades, objetivos Levantamento das condições
em comum sócioeconômicas e culturais das
pessoas envolvidas, buscando
alternativas de inclusão integradas
à formação da cooperativa
Verificação da Observação do grau de
maturidade, união e envolvimento dos integrantes a
convicção do grupo partir de uma motivação e
no sentido da avaliação à participação dos
formação da mesmos nos processos de divisão
cooperativa de tarefa e no comparecimento às
reuniões
3-Capacitação para o A economia popular Debate sobre o potencial da
cooperativismo solidária: importância economia popular e da
e contexto solidariedade como princípio
socioeconômico
Promoção do Utilização de dinâmicas de grupo
conhecimento dos e formação de círculos para
princípios discussões de cada princípio
cooperativistas cooperativista
Objetivos de uma Círculo para discussão de
cooperativa atividades fins de uma cooperativa.
Questionamentos de como o grupo
vai cooperar? Para quê? e Porquê?
Funcionamento de Divisão do trabalho, de funções e a
uma cooperativa função das assembléias. Expõe-se a
diferença entre uma cooperativa
autêntica e uma "cooperfraude"
Atuação dos Discussão sobre as funções de
cooperados trabalhador e administrador em
uma auto-gestão
Significado da Questionamento e discussões a
cooperação respeito da cooperação e da
competição, a diferença entre
trabalhar em uma cooperativa e
para uma empresa capitalista
A importância das Debate sobre a necessidade de uma
redes de cooperação rede entre os empreendimentos
como forma de viabilizar e
fortalecer a atividade econômica:
rede de trocas; de informações etc.
4-Escolha da atividade Caracterização da Caracterização do tamanho da
econômica estrutura e conjuntura cidade, localização regional,
do mercado local comércio, indústrias, serviços e
carências da cidade nesses setores
Verificação de nichos A partir das características acima
de detalhadas, procurar atividades
mercado/alternativas inovadoras, diferenciadas e/ou
estratégicas para a cidade e região,
verificando oportunidades
Verificação da Caracterização das vocações
motivação/habilidades individuais, motivações,
do grupo em relação a experiências profissionais,
determinada atividade apontando atividades potenciais
para o grupo e relacionado-as com
as oportunidades de atuação na
cidade e possibilidades de
formação de redes de
empreendimentos populares.
Verifica-se a disponibilidade de
recursos. Discussão entre o grupo e
a equipe da INCOOP, analisando
prós e contras que implicam na
escolha de determinada atividade.
Estudo/Escolha da Estudo da(s) atividade(s)
atividade econômica levantadas de acordo com a
viabilidade econômica, com a
inserção estratégica no mercado e
com a motivação do grupo para a
atividade
Levantamento de De acordo com o número de
recursos e integrantes do grupo e com os
infraestrutura recursos disponíveis, promove-se
necessárias para a uma assessoria para o
execução da atividade levantamento dos recursos
necessários para implementação da
cooperativa, através da elaboração
de projetos e mini-projetos de
instalação da cooperativa do
empreendimento solidário
Estudo da viabilidade De acordo com investimento
econômica necessário, verifica-se o retorno a
curto, médio e longo prazo
condizente com a estrutura da
cooperativa, através de simulações
do desenvolvimento das atividades
produtivas (ou serviços) e dos
resultados financeiros de acordo
com a variação de preços, custos e
quantidade produzida e quantidade
vendida.
Aquisição de recursos Assessoria para a busca de
5-Capacitação técnica Apresentação das Utilização de palestras para
características e caracterizar e demonstrar técnicas
funcionamento da utilizadas, procedimentos de
atividade trabalho na produção ou na
prestação de serviços, uso de
matérias-primas, insumos,
informações, documentos e
especificações além de apresentar
aspectos normativos e leis vigentes
Qualificação técnica Utilização de cursos, aulas,
congressos e encontros
relacionados à atividade além de
bibliografias básicas para consulta.
Proporciona-se e incentiva-se o
conhecimento de organizações que
já praticam atividades semelhantes,
estimulando o aprendizado e a
visão crítica
Treinamento e Através de produções piloto,
práticas simulações de processos,
organização do trabalho
cooperativo, produção
experimental com o objetivo de
permitir ganho de experiência, do
conhecimento de ações corretivas e
preventivas e conhecimento a
partir da prática e do erro, visando
também integrar o grupo na
atividade a ser desenvolvida
6-Capacitação A autogestão Discussão sobre os mecanismos
administrativa/autogestão autogestinários: as assembléias e a
decisões coletivas
Administração do Explanação sobre o papel da
empreendimento diretoria, dos conselhos fiscal e de
cooperativo ética. Discussão sobre os direitos e
deveres da equipe administrativa
bem como dos demais cooperados
Os fundos e os Discussão sobre os fundos
benefícios obrigatórios e a constituição de
cooperativistas fundos equivalentes: férias, licença
maternidade, 13°, etc.
Planejamento e Mostrar as informações necessárias
controle da para o planejamento e controle da
produção/serviços produção, aplicando uso de
planilhas e estimulando a
construção de conhecimento
sobre os processos de produção,
procedimentos e histórico de
vendas. Apresenta-se material
didático para consulta
Apuração de custos, Proporcionar o entendimento do
formação de preços e processo de formação de preços a
análise de contratos partir do preço de mercado e dos
custos de produção (ou de
prestação de serviços) rateados
para cada produto ou serviço
prestado e, posteriormente, análise
de contrato. Apresenta-se material
didático para consulta
Organização contábil Uso de diário para contabilizar
e financeira débitos e créditos e resultados
mensais. A partir da análise dos
resultados mensais, fazer análise
sobre os gastos, prevendo cortes e
gastos futuros e, estimular o
planejamento financeiro a partir da
criação de fundos para a expansão
da cooperativa. Apresenta-se as
rotinas de encargos e impostos a
serem cumpridas. Apresenta-se
material didático para consulta
Planejamento Anteriormente, o integrante da
estratégico e equipe da INCOOP faz seu mapa
operacional cognitivo do planejamento
estratégico a fim de assessorar o
planejamento do grupo, de curto,
médio e longo prazo com o grupo,
procurando inclusive o
planejamento de expansão da
cooperativa. O objetivo é
7-Elaboração do estatuto Apresentação e Faz-se uma apresentação das
esclarecimento do características e funções de um
estatuto estatuto, e depois uma leitura de
um estatuto modelo, salientando os
direitos e deveres de cada
cooperado, da presidência, das
diretorias, do conselho fiscal,
comissão de ética, além da função
das diferentes assembléias, da
constituição de fundos obrigatórios
e não obrigatórios, da divisão das
sobras e constituição e divisão das
cotas parte.
Discussões Elabora-se, assessorando o grupo,
envolvendo princípios os pontos do estatuto passíveis de
cooperativistas e a mudança, de acordo com as
elaboração do estatuto aspirações dos mesmos e reforça-se
os princípios cooperativos como
base.
Apreciação do Consulta a advogado sobre os
estatuto elaborado pontos propostos pelo grupo. Em
caso de dúvidas ou impedimentos
legais, viabilizar o contato do
grupo com advogado, sempre
respeitando a autonomia do grupo
8-Legalização da Levantamento de Informação sobre os documentos
cooperativa documentos necessários para legalização da
cooperativa, solicitando-se ao
grupo social a providência dos
mesmos
Divulgação da Divulga-se, antecipadamente
assembléia de conforme prazo mínimo, em locais
fundação públicos e jornais a convocação
(através de edital) para a
assembléia geral de fundação
Formação das chapas Após a convocação para a
para eleição de assembléia geral de fundação,
presidente, diretoria, formam-se chapas para a disputa e
conselho fiscal e cargos e formação dos quadros de
comissão de ética. presidência, diretoria, conselho
fiscal e comissão de ética
Realização da Realização da assembléia de
assembléia de acordo com um quorun mínimo
fundação e da ata de exigido, aprovação do estatuto,
fundação eleição dos cargos e elaboração de
ata de fundação.
Envio de documentos Anexam-se os documentos
aos órgãos necessários de cada integrante do
competentes (junta grupo, a ata de fundação e o
comercial, receita estatuto e enviam-se aos órgãos
federal, prefeitura, reguladores para obtenção do
postos fiscais etc.) CNPJ (Cadastro Nacional de
Pessoa Jurídica) , Alvará, inscrição
estadual e outros, mediante o
pagamento de taxas.
Elaboração do De acordo com as necessidades
regimento interno específicas de controle e
organização do trabalho, de
atribuição de responsabilidades
referentes às atividades da
cooperativa, o grupo é assessorado
para a elaboração do regimento
interno
9-Assessoria para Monitoria do processo Implementação do marketing
implementação das de inserção da estratégico, análise dos
atividades da cooperativa no consumidores/
cooperativa/ mercado clientes/fornecedores e parcerias,
Inserção e atuação no efetuação da contabilidade da
mercado/ cooperativa, assessoria para o
Fim do processo de cumprimento de tributos, divisão
incubação das sobras líquidas e construção de
fundos. Busca de integração com
outras cooperativas populares e
formação de rede estratégica
Monitoria do Análise de procedimentos da
desenvolvimento das cooperativa de acordo com os
atividades internas da problemas diagnosticados: dos
cooperativa e da resultados financeiros
atuação da (correção/revisão de
cooperativa no procedimentos), da interiorização
mercado dos princípios cooperativistas e de
gestão democrática, da participação
e promoção das assembléias, dos
processos produtivos e
autogestionários ( processo de
gestão adequada)
Avaliação do grau de De acordo com os resultados
autonomia do grupo e verificados no processo de
final do processo de desenvolvimento das atividades da
incubação cooperativa
Fonte: equipe técnica, discentes e docentes da Incubadora Regional de Cooperativas Populares da
UFSCar (INCOOP). Base de referência – 1º semestre de 2001.
Sistematização: Christiano Basile, auxiliar de pesquisa da INCOOP

2.3. Uma análise de dois processos de formação de cooperativas populares


Nesse item, desenvolve-se uma análise sobre dois processos de formação de
cooperativas populares. Porém, dado o nosso estágio, ainda recente, de aprendizado
coletivo sobre incubação de cooperativas e financiamento precário para as atividades
profissionais, somente algumas etapas da metodologia de incubação apresentada
anteriormente, foram efetivamente aplicadas a esses dois processos. Observa-se que,
principalmente, as etapas quatro, seis e nove foram, muito pouco ou nada,
desenvolvidas com os dois grupos sociais que criaram uma nova cooperativa popular.
No entanto, perspectivas de financiamento no curto prazo e capacitação de novos
técnicos pode levar à continuidade desse processo, entendendo-o como continuado e
integrado nas dimensões técnica, administrativa e política.
As características principais dos dois grupos sociais diferem bastante, principalmente,
antes do início do processo de incubação.
A atividade principal da Cooperativa A está ligada a serviços rurais e reciclagem de
resíduos. Este grupo já estava formado antes da intervenção da Incubadora Regional de
Cooperativas Populares (INCOOP) da UFSCar. Este relacionamento ocorreu devido a
um convênio firmado entre a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM) com a
INCOOP com o objetivo de fomentar e desenvolver cooperativas de trabalho com
pessoas desempregadas e ligadas à confederação citada1[1]. A atuação da INCOOP foi no
sentido de auxiliar o grupo a encontrar alternativas de renda e trabalho com as
experiências que o grupo possuía. Em 2000, estaria ocorrendo uma negociação entre
Prefeitura, Cooperativa, Incubadora e uma grande empresa produtora de suco na cidade
de Matão para uma parceria entre esta empresa e a Cooperativa. A empresa estaria
interessada em apoiar atividades ambientais. Este apoio viabilizaria a construção de um
galpão, compra de um caminhão, prensa, balança, bem como o material de publicidade.
Atualmente, a Cooperativa se encontra legalizada, sem contrato e apoio, e os
cooperados estão buscando contato direto com fornecedores e recicladores de resíduos.
O grupo social que criou a Cooperativa A possuía as seguintes características antes de
iniciar o processo de incubação: a) formação no ensino fundamental completo (todos
ex-alunos do Programa Integrar: criado em 1996 pela CNM, oferecendo a formação e
certificação – reconhecidos pelo MEC – do Ensino Fundamental, articulado com a
formação profissional); b) participação em movimentos sociais, militância partidária;
orçamento participativo, apoio ao MST e outros; c) ação coletiva em relação à
conscientização sobre a importância do trabalho em equipe; d) noção sobre
cooperativismo já desenvolvida, pois o grupo já havia constituído uma cooperativa, em
1998, na área de Serviços Rurais, mas que se desfez; e) não participação na discussão/
elaboração do Estatuto anterior (1998); f) iniciativa em mudar a atividade para
coleta/triagem de recicláveis com expectativa de baixo investimento; g) grande união do
grupo com várias tentativas, enquanto cooperativa, de buscar outras atividades; h)
iniciativa de diálogo com poder público com o objetivo de ganhar apoio da prefeitura; i)
consciência sobre a importância da coleta seletiva de resíduos; j) iniciativa na
divulgação da coleta seletiva em alguns bairros do município; k) capacidade de
negociação com poder público; l) pesquisa sobre o mercado de materiais recicláveis.
O grupo social que forma a cooperativa B, situada na cidade de São Carlos, foi
detectada através da pesquisa 'Condições de vida e pobreza em São Carlos: uma
abordagem multidisciplinar'”, que indicava, a partir de cinco variáveis - renda, inserção
no mercado de trabalho, moradia, escolaridade e saúde - quais os bairros mais carentes
do município. A pesquisa foi realizada pelo Núcleo de Pesquisa e Documentação do
Departamento de Ciências Sociais da UFSCar. Dentre os bairros mais carentes
destacou-se o Jardim Gonzaga como o primeiro a ser trabalhado pela INCOOP. Em
meados de 1998, a liderança comunitária do referido bairro convidou a Coordenação
dos Núcleos de Extensão Município, Cidadania, Sindicato e demais interessados da
comunidade acadêmica para participar das reuniões da associação de moradores.
Inicialmente, as discussões centraram-se nas condições de moradia e escolaridade da
população (Venâncio et al., 2000). As primeiras discussões estabelecidas entre o grupo
da Incubadora e a população local permitiram constatar que a ausência de oportunidades
de trabalho antecedia à questão da precariedade de moradia. Todavia, a baixa
escolarização colocava-se como o fator anterior de inacessibilidade ao mercado de
trabalho, razão pela qual uma proposta de ação voltada para a busca de alternativas de
obtenção de renda só seria sustentável no longo prazo com o enfrentamento das
restrições ao mundo da escrita e, por este, de acesso ao conhecimento mais técnico
dentro das várias habilidades profissionais (Valêncio et al.). A situação encontrada
demonstrava que a busca dos rudimentos que instrumentalizavam a construção da
cidadania se colocava como objeto primeiro para a nossa ação, razão pela qual o grupo

1[1]
Este convênio ocorreu entre a Confederação Nacional do Metalúrgicos da Central Única dos
Trabalhadores (CNM/CUT) com algumas Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares - a
Incubadora da COPPE/UFRJ, a Incubadora da USP-SP, a INCOOP/UFSCar e a Incubadora da Fundação
Santo André (Guimarães, 2000).
buscou estruturar cursos de alfabetização de adultos, de desenvolvimento sustentável
em conjunto aos que tratavam de relações interpessoais, motivação para o
cooperativismo, auto-gestão, autonomia para ampliar a discussão de renda para uma
discussão mais abrangente sobre dignidade e cidadania, buscando, com isso, elucidar as
relações que movem política, legal e economicamente o conjunto da sociedade. Assim,
a iniciativa do trabalho cooperativo supera as razões apenas econômicas e traz à tona a
discussão das estruturas onde estão alicerçadas a Sociedade. O simples ato da
legalização da cooperativa exigia que os cooperados tivessem seus documentos pessoais
em ordem, o que não era o caso de muitos deles que sequer detinham um registro geral.
Obter esse documento (o RG) foi significativo, não apenas para a finalidade do trabalho,
mas como um passo no processo de resgate da dignidade e da cidadania dos cooperados.
O conjunto das ações em busca dos direitos e o acesso a novas oportunidades é que
garantem a saída definitiva da situação de exclusão. Em relação ao trabalho, por
exemplo, isso se efetiva quando o trabalhador não se satisfaz mais em vivenciar a
condição passiva e dependente da relação trabalhista tradicional e aspira por uma
relação onde possa dividir democraticamente direitos e deveres. Por isso, é papel da
Incubadora incentivar que as análises contextualizadas no bojo do modelo de gestão
cooperativa não sejam apenas internas aos cooperados, mas estendam-se ao bairro, que
é a unidade espacial onde grande parte dessas cooperativas estão surgindo, refletindo-se
em ações organizadas que procuram interferir sobre a realidade de tal modo a promover
mudanças para superar a situação de exclusão e promover a adesão de outros segmentos
(Valêncio et al.). Para concretizar essa expectativa, foram inicialmente realizadas no
bairro as reuniões abertas a toda comunidade - convidada através de divulgação por
carro de som, cartazes e com a participação de lideranças - elucidavam que o caráter da
proposta de envolvimento com a Universidade era o de conhecer os problemas
relacionados ao desemprego; elucidar, quando possível, os vários aspectos da situação,
ouvir as aspirações e as sugestões para a reversão da situação, ampliando a relação de
troca para um exercício de construção da cidadania e desenvolvimento da maturidade
das relações no trabalho coletivo. Todo o processo de constituição da cooperativa B
mostrou-se como uma ação na qual o propósito de pesquisa não pode ser
desconsiderado no fazer da extensão universitária. Não poderiam os docentes
envolvidos simplesmente induzir a montagem de uma estrutura organizacional e afastar-
se das etapas constitutivas, posto que o conhecimento envolvido no processo se
mostrava de uma complexidade que, a um só tempo, necessitava do apoio do saber
formal e necessitava ser acompanhado e avaliado por este mesmo saber a fim de que os
quadros de referência teórica fossem revisados à luz da experiência em acontecimento
(Venâncio et al.).
A Cooperativa B apresentava as seguintes características antes do processo de
incubação iniciar: a) 50% das pessoas não possuíam pelo menos 1 documento de
identificação, 10% não possuíam qualquer documentação (RG e CPF) e algumas
pessoas com o ensino fundamental incompleto ou sem alfabetização; b) pouca
participação em movimentos sociais, apenas local: pastoral e associação de moradores;
c) ação individual com trabalho através de "bicos", caracterizando a informalidade; d)
inexperiência de trabalho em equipe; e) desinformação sobre o cooperativismo; f)
experiência na atividade escolhida (limpeza), porém baixa especialização em limpeza
industrial; g) limitação de canal de diálogo com poder público; h) dificuldade de
visibilidade/ oportunidades enquanto vítima de preconceito quanto à localidade do
bairro na cidade.
Depois de iniciado o processo de incubação as habilidades que os dois grupos
adquiriram foram as seguintes: a) informações e regulamentações sobre a
necessidade/importância dos documentos pessoais; b) formação para o cooperativismo
oferecido pela Incubadora para conhecer todas as fases do processo; c) compreensão/
elaboração do Estatuto pelo grupo reconhecendo a sua importância; consolidação da
democracia participativa através de assembléias, diretoria, conselho fiscal, etc.; d)
capacitação/qualificação no trabalho específico (reciclagem/limpeza); e) capacitação em
coleta de dados como informações sobre o mercado/possíveis clientes; f)
informação/aplicação dos direitos e deveres trabalhistas; g) constituição/administração
de fundos da cooperativa; h) trabalho em equipe e autogestão; i) discussão e elaboração
da logomarca e marketing entre os cooperantes; j) participação em eventos em vários
municípios como forma de informação e intercâmbio com outros grupos.
O Grupo A destacou-se nas noções de planejamento estratégico para a definição de
metas e iniciativa na organização do trabalho como a coleta, separação, estocagem e
venda dos produtos adquiridos. O Grupo B passou pelas fases de treinamento para
contato com clientes através do desenvolvimento de habilidades de relações
interpessoais – curso oferecido pela Incubadora; capacidade na elaboração de critérios
de seleção para o trabalho - para demandas que não absorvessem todos os cooperantes;
elaboração, treinamento e realização de enquete, na UFSCar, para busca de possíveis
demandas (Castilho et. al., 2000). Parte das pessoas da cooperativa A e da B já está
prestando serviços à instituição pública, buscando também outras formas de inserção no
mercado em empresas privadas. Para isto, existe um estudo em andamento, sobre o
mercado de atuação e de divulgação das atividades que as cooperativas podem ofertar
ao mercado.

3. DESAFIOS PARA O COOPERATIVISMO POPULAR


Alguns desafios referem-se à formação sobre a cultura de auto-gestão do trabalhador e à
cultura e história específica do grupo e passa pelo envolvimento total com o trabalho,
tanto no sentido técnico da execução de uma tarefa, como na gestão da organização
(políticas financeiras, comerciais e administrativas); e crítica, na superação de uma
formação autoritária e burocrática inculcada pelo meio social em sentido amplo
(familiar, escolar, profissional, político, etc). Outra importante questão diz respeito à
necessidade de saber administrar. A autogestão é um processo longo e complexo que
articula a sobrevivência no mercado com o aperfeiçoamento organizacional e pessoal de
forma continuada. Em síntese, depende de um aprendizado permanente sobre questões
técnicas, administrativas e comerciais específicas do ramo de atividade do
empreendimento, assim, como do desenvolvimento de novas formas participativas e de
tomada coletiva de decisões (Vieitez, 1997).
Talvez o maior desafio para a construção de uma forte Economia Solidária está no fato
de estar inserida em uma sociedade contraditória, marcada historicamente por relações
sociais e de produção capitalistas. No entanto, esse conjunto de relações é hegemônico e
não totalitário. A história de lutas dos trabalhadores demonstrou ser utópica essa
pretensão de incorporar todas as relações societais numa lógica de subordinação ao
capital. Há e sempre houve movimentos de resistência a esse processo (Eid, Gallo &
Pimentel, 2001).
Por outro lado, a sociedade de hoje que convive com a hegemonia da economia
capitalista e com a gênese de um novo tipo de economia é herdeira de deficiências
educacionais e tem que lidar com comportamentos individuais formados em contextos
autoritários, preconceituosos e burocráticos, cuja cultura predominante está
fundamentada na subordinação. Certamente, isso contribui para que autores afirmem
que a busca pela competição para sobrevivência na economia capitalista leva
necessariamente a reproduzir a lógica da subordinação ao capital (Bialoskorski Neto,
2000; Panzutti, 2000). Não percebem que se tratam fundamentalmente de movimentos
sociais de resistência à economia capitalista que é hegemônica mas, que se encontra em
crise.
Por isso, enfrentar os desafios de forma objetiva, amadurecendo seus conhecimentos e
culturas de grupo, buscando desenvolver a coesão social através da responsabilização de
cada um dos indivíduos para o desenvolvimento do projeto coletivo, torna-se estratégico
para o sucesso dessa iniciativas autogestionárias. Seguindo essa linha de raciocínio, a
formação continuada e integrada nos planos administrativo, técnico e político assume
um papel fundamental para o sucesso dessa estratégia. Levando-se em consideração
essas características podemos concluir que o maior risco para esses empreendimentos
econômicos solidários é entrar no jogo da banalização dos princípios – principalmente,
a adesão voluntária, a gestão democrática, a autonomia e a inter-cooperação - duramente
construídos, buscando seu crescimento pela via da competição pela competição com as
empresas capitalistas.
Abrir mão dos princípios, para garantir a concorrência e não o desenvolvimento da
(inter)cooperação e do crescimento dos movimentos sociais por melhores políticas
públicas, é não compreender que essas experiências populares tem também como
importância mostrar ser possível o crescimento de formas democráticas de organização
do trabalho e da produção. Pode-se até mesmo sonhar que num futuro distante, dentro
da utopia dos trabalhadores, essas formas democráticas venham a tornar-se
hegemônicas; mesmo que na atualidade, sirvam como experiências pontuais
demonstrando ser possível construir uma reserva estratégica para uma mudança
estrutural da sociedade.
Perder essa oportunidade histórica que os trabalhadores tem na atualidade, talvez a
maior nesses dois séculos de capitalismo, possa permitir num futuro talvez menos
distante, que a hegemonia do capital neutralize ou destrua novamente uma iniciativa dos
próprios trabalhadores. É nesse sentido que autores como Singer (1999a, 1999b), Gaiger
(1999a, 1999b), Eid (2000), Icaza (2000), entre outros, entendem o cooperativismo
popular como sendo parte integrante da Economia Solidária, enquanto um movimento
social em fase de crescimento organizativo e articulado mas, sem deixar de lado seu
caráter de resistência à economia capitalista e não de subordinação ou emancipação.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na matriz brasileira de relações sociais e no entendimento do que é ser excluído
predomina a lógica desumana do ‘estranho’, atingindo o limite de retirar o caráter de
humano ao outro. Essa diferenciação extrema se insere em uma cultura que envolve a
naturalização, a banalização, a indiferença, a fatalidade e o conformismo da pobreza que
passa a ser aceita, sem indignação e reações, como integrante estrutural, perene do
cenário social (Dejours, 1999). Situar a condição humana de miséria no espectro da
‘fatalidade’ implica na submissão ao imprevisível, ao destino, ao léu, à sina e ao arbítrio
(Escorel, 1999).
É nesse sentido, que uma incubadora universitária de cooperativas populares pode
constituir-se em um locus onde se desenvolvem pesquisas teóricas e empíricas sobre o
cooperativismo, cuja ação política pode voltar-se para atender uma classe social
desprovida dos meios de produção e pode, pelos princípios do cooperativismo popular,
vir a redefinir, em uma certa dimensão, a organização de parte dos trabalhadores
excluídos (Gallo et al., 2000).
A incubadora pode ter um papel fundamental de prestar assessoria técnica,
administrativa e política de forma integrada e continuada aos trabalhadores que
pretendam formar uma cooperativa popular autêntica. Assim, a cooperativa nasce a
partir de uma demanda dos trabalhadores e a incubadora, em trabalho conjunto com
essas pessoas buscam criar e motivar os valores cooperativistas. A cooperativa
permanece vinculada à incubadora, pretendendo-se que em um determinado tempo, que
varia a cada caso, adquira autonomia para atuar no mercado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIALOSKORSKI NETO, S. Trajetórias do Cooperativismo: debate teórico e


experiências concretas. Ciclo de Debates sobre o Cooperativismo. II Curso de Extensão
em Direitos Humanos – UFSCar/UNESCO. São Carlos, nov. 2000
CASTEL, R. De l’indigence à l’exclusion, la désaffiliation: précarieté du travail et
vunerabilité relationnelle. In: DONZELOT, J. (org.) Face à l’exclusion – le modèle
français.Paris: Ed. Espirit, 1991, p. 137-168.
___________ Les métamorphoses de la question sociale: une chronique du salarial.
Paris: Fayard, 1995.
CASTILHO, L. F.; SHIMBO, I. DAKUZAKU, R. Y.; CASTILHO, T.C.L. Análise do
grau de iniciativa e autonomia de cooperantes no processo de incubação de cooperativas
populares: estudo de caso. VIII Congresso de Iniciação Científica da Universidade
Federal de São Carlos, 2000. CD-Rom.
DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: Editora da Fundação
Getúlio Vargas, 1999.
EID, F. Trajetórias do Cooperativismo: debate teórico e experiências concretas. Ciclo
de Debates sobre o Cooperativismo. II Curso de Extensão em Direitos Humanos –
UFSCar/UNESCO. São Carlos, nov. 2000.
EID. F.; GALLO, A. R.; PIMENTEL, A. E. Desemprego, exclusão e desafios para o
desenvolvimento da Economia Solidária no Brasil. IV Encontro Regional da ABET, Rio
Grande do Sul, 2001.
ESCOREL, S. Vidas ao léu: trajetórias de exclusão social. Rio de Janeiro: Ed.
Fiocruz, 1999.
GAIGER, L. et al., A Economia Solidária no RS: viabilidade e perspectivas. Cadernos
CEDOPE - Série Movimentos Sociais e Cultura, n. 15, 1999a.
GAIGER, L. I. Significados e tendências da Economia Solidária. In: Sindicalismo e
Economia Solidária. Central Única dos trabalhadores – CUT, 1999b, pp. 29-42.
GALLO, A.R. et al.. Incubadora de Cooperativas Populares: uma alternativa à
precarização do trabalho. III Encontro Regional de Estudos do Trabalho – ABET,
Recife-PE/2000.
GUIMARÃES, G. Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares: contribuição
para um modelo alternativo de geração de trabalho e renda. In: SINGER, P.; SOUZA, A.
R. (orgs.) Economia Solidária no Brasil: autogestão como resposta ao desemprego.
São Paulo: Contexto, 2000. Pp. 111-122.
ICAZA, A. M. Trajetórias do Cooperativismo: debate teórico e experiências concretas.
Ciclo de Debates sobre o Cooperativismo. II Curso de Extensão em Direitos Humanos –
UFSCar/UNESCO. São Carlos, nov. 2000
LAUTIER, B. L’économie informelle dans le tiers monde. Éditions La Découverte,
Paris, 1994.
PANZUTTI, R.. Trajetórias do Cooperativismo: debate teórico e experiências concretas.
Ciclo de Debates sobre o Cooperativismo. II Curso de Extensão em Direitos Humanos –
UFSCar/UNESCO. São Carlos, nov. 2000.
ROSANVALLON, P. La crise de l’Etat-providence, Paris, Seuil, 1985.
________________La nueva cuestión social: repensar el Estado providencia.
Buenos Aires: Manantial, 1995.
SINGER, P. Possibilidades da Economia Solidária no Brasil In: CUT BRASIL.
Sindicalismo e Economia Solidária: reflexões sobre o projeto da CUT. São Paulo:
CUT, 1999a: 51-60.
____________ Globalização e desemprego: diagnóstico e alternativas. 3ed. São Paulo,
Contexto, 1999b.
THIOLLENT, J. M. Metodologia da Pesquisa-Ação. 8ª ed. São Paulo, Cortez, 1998.
TIRIBA, L.V. Economía popular y crisis del trabajo asalariado: de las estrategias de
supervivencia a la producción de una nueva cultura del trabajo. (Tese de Doutorado)
Faculdade de Sociologia e Ciências Políticas, Universidade Complutense de Madrid,
1999. Cap. 3, pp. 121-174.
VALÊNCIO, N.F.L.S; SHIMBO, I.; EID, F.; et al. Incubadora Tecnológica de
Cooperativas Populares: uma experiência universitária em prol da transformação social.
In: THIOLLENT, M.; SOARES, R. L. S.; ARAÚJO FILHO, T. Metodologias e
Experiências em Projetos de Extensão. Rio de Janeiro, Editora da Universidade
Federal Fluminense, 2000.