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NICIDADE DO
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ucação e Pssicologia

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Clara Co
osta Oliveirra1 & Joaquim Pinto‐M
Machado2 

INTRODU
N UÇÃO

A  Medicina o ocidental ccontemporâânea centraa a sua exp plicação e ccompreensãão do 


ser h
humano no o desadequaado funcionamento b biológico (leeia‐se, biologia moleccular) 
face  ao  que  see  acredita  constituir  o  funcionamento  óp ptimo  de  uum  membrro  da 
espéécie Homo SSapiens Sap piens.  

O  avanço  tecnológico
t o  proporcio onado  no século  paassado,  asssociado  a  esse 
paraadigma  dass  ciências  do  vivo,  acarretou  para 
p a  Meddicina  o  trriunfo  do  Homo 
H
Fabeer sobre o H Homo Sapieens do quall ele emerggiu (Jonas, 1994:42; 5 54); na tenttativa 
de see controlarr as conseqquências deesta situaçãão surgiu aa Bioética,  cujos discu ursos 
por  vezes 
v se  asssemelham
m  às  justificcações  quixxotianas  paara  as  lutas  intermináveis 
nas q
quais se en nvolvia. 

En
ntre  a  biollogia  e  a  prática 
p clín
nica,  os  esttudantes  de 
d Medicinaa  encontraam‐se 
divid
didos,  na  maior 
m parte  dos  caso os.  O  hiato
o  entre  o  mundo 
m intrra‐celular  e 
e um 
doennte  com  coorpo,  mentte  e  espírito  (a  tríad de  clássica  do  orientte)  é  por  vezes 
v
deixaado por suaa conta e riisco. 

Peedir  a  estees  futuros  profissiona


p ais  que  pro
omovam  o  sentido  dee  coerênciaa  dos 
seus doentes (cconsiderad do como esssencial para a diminuição de quaalquer form ma de 
sofriimento:  Antonovsky
A y,  1988) pode  seer  por  eles e considerado  como c

1 Univ
versidade do M
Minho – Portugaal. clara@ecsa
aude.uminho..pt 
2 Univ
versidade do M
Minho – Portugaal 
OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
despropositado,  pois  muitas  vezes  o  sentido  de  coerência,  e  o  contacto  com  os 
recursos  das  comunidades  em  que  os  doentes  se  inserem,  só  são  por  si 
considerados  em  contexto  de  prática  clínica  profissional,  alheada  da  formação 
académica laboratorial e memorizante da qual tantas vezes sentem saudades. 

A formação académica sempre promoveu, no entanto, estas dicotomias, no que 
respeita aos futuros médicos?  

1. ANOTAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS SOBRE A MEDICINA


OCIDENTAL ACTUAL

A formação de um médico até meados do século XX oscilava sobretudo entre a 
aprendizagem  do  surgimento  e  desenvolvimento  dos  embriões  e  dos  seres 
humanos  adultos.  A  dimensão  técnica,  como  a  microscópica,  não  possuía  papel 
predominante. As teorias evolucionistas, nomeadamente as de Darwin, não tinham 
ainda  sido  fundidas  com  o  mendelismo,  e  o  desenvolvimento  embrionário,  por 
exemplo, podia ainda ser explicado legitimamente por uma pluralidade de teorias, 
congeminações  e  hipóteses.  A  observação  do  doente  era  a  base  da  profissão 
médica,  e  a  prática  clínica  desde  cedo  proporcionava  a  percepção  de  que  muito 
pouco  se  sabia  de  doenças  e  que  cada  um  dos  doentes  com  que  os  médicos  se 
deparavam merecia uma atenção especial  

A vacinação surgia como uma esperanç, os antibióticos como uma promessa, a 
vacinação; a noção da fragilidade humana estava usualmente presente no contacto 
médico‐doente.  “If  we  demanded  absolute  certainty  before  acting,  then  all  health 
care  would  have  to  be  stopped.  For  instance,  it  would  be  totally  impossible  to 
vaccinate  newborn  babies.  How  could  we  ever  be  sure  that  no  problems  would 
arise in the babies whom we vaccinated?” (Alanen, in Evans, Louhiala e Puustinen, 
2004:33). 

A  partir  da  fusão  da  Genética  com  o  darwinismo  via  introdução  da  teoria  da 
informação no mundo vivo (aquilo que constitui a base da Biologia molecular), este 
cenário generalizado alterou‐se fortemente. 

A  evolução  estonteante  das  técnicas  ligadas  à  Medicina  colocou  esta  área  de 
saber  num  patamar  muito  diferente  daquele  atribuído  usualmente  à  Medicina, 
enquanto  área  do  saber  especialmente  dedicada  à  diminuição  do  sofrimento 
humano  

A  descodificação  do  genoma  humano  abriu  horizontes  extraordinários  à 


compreensão da disfuncionalidade orgânica; os modelos teóricos alicerçam‐se no 
entanto  ainda  na  relação  causa‐efeito  do  mecanicismo  moderno  (Oliveira,  2004) 
enquanto  um  rasto  teleonómico  (geralmente  não  reconhecido)  percorre  as 
crenças/dogmas da Biologia molecular, decorrente da sua linhagem evolucionista 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 

darwinista  que  aponta  para  a  causalidade  final  (‘optimização  da  espécie’)  como 
princípio explanatório (Atlan, 1979)  

A adopção do modelo mecanicista newtoniano na explicação/compreensão dos 
fenómenos  vivos,  não  impediu  que  a  Biologia  e  a  Medicina  tivessem  descartado, 
contudo,  questões  filosóficas  perenes,  ainda  que  lhes  possamos  colocar  uma 
roupagem  mais  severa,  enfeitada  em  causalidades  formais  aparentemente 
infinitas. ”Science deals comfortably with mechanisms, and I admit that there is an 
undeniably  mechanical  aspect  to  our  structure  and  function.  So  is  your  thumb’s 
movement  the  movement  of  a  mechanism?  At  the  skeletal  and  muscular  level, 
perhaps it seems like that. However, the problem of what causes the movement in 
the first place remains. […] There seems to be no alternative to saying that it was 
the intention itself –an essential mental phenomenon” (Evans, in Evans, Louhiala e 
Puustinen, 2004:10).  

2. DIFICULDADES DA PROFISSÃO MÉDICA


O estatuto social actual do médico possui um carácter paradoxal: por um lado, 
pertence  a  uma  profissão  da  qual  se  desconfia  (muito  mais  do  que  há  um  século 
atrás),  sobretudo  devido  à  insensibilidade  que  alguns  médicos  demonstram  para 
com o sofrimento; por outro lado, aos médicos reconhece‐se a capacidade (e não 
tanto  o  conhecimento)  para  proporcionar  bem‐estar,  e  cura,  de  muitos  males 
dolorosos.  A  maior  parte  das  pessoas  nas  sociedades  ocidentais  contemporâneas 
atribui  o  sucesso  dos  médicos,  quando  se  verifica  cura,  especialmente  ao  acesso 
praticamente  exclusivo  que  eles  possuem  às  técnicas  de  diagnóstico,  e  que 
parecem  tornar,  por  vezes,  o  médico  ‘suplementar’.  “At  present,  the  medical 
profession  is  confronted  by  an  explosion  of  technology,  changing  market  force, 
problems  in  health  care  delivery,  bioterrorism,  and  globalization.  As  a  result, 
physicians find it increasingly difficult to meet their responsibilities to patients and 
society” (Blank et al., 2007: preâmbulo). 

Assim,  as  principais  reclamações  das  sociedades  contemporâneas  ocidentais, 


face à classe médica, referem‐se sobretudo à relação médico‐doente (ou ‘paciente’, 
palavra admirável, neste contexto). 

Como  sabemos,  muitas  vezes  os  médicos  recebem  as  pessoas  executando 
apenas  uma  função,  como  qualquer  máquina  programada  o  poderá  fazer, 
verificando‐se uma inversão total dos princípios mais básicos do exercício médico, 
cuja  principal  missão  é  estar  ao  serviço  dos  doentes.  “When  the  person  is 
established  as  the  logically  central  point  of  concern  in  medicine,  then  scientific 
information  about  disease  and  technology  becomes  subservient  to  that  person’s 
own interests. Thus clinical theory needs to place the person (sick or well) at the 
centre  of  the  doctor’s  thoughts,  without  impairing  the  doctor’s  ability  to  think or 
act scientifically” (Puustinen, in Evans, Louhiala e Puustinen, 2004:22). 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
Existe  como  que  a  percepção  colectiva  crescente  de  que,  na  maior  parte  das 
consultas médicas, os pacientes ocupam um papel supérfluo, dado que os exames 
auxiliares se tornam cada vez mais importantes no diagnóstico empreendido pelos 
médicos. Devido a esta leitura social da eventual inutilidade da consulta médica, o 
papel  de  mero  intérprete  de  exames  laboratoriais  e  de  escrivão  de  receituário  é 
por  vezes  requisitado  pelos  próprios  doentes,  cabendo  aos  médicos  reagirem  a 
esta situação: “the individual […] is essentially replaceable and what we respond to 
it is not the individual, but the role, until or unless the individual departs from the 
required script some surprising a disruptive way, so that we are forced to confront 
this particular individual” (MacIntyre, 1991:149).   

O conhecimento privilegiado que se pode obter numa história de vida (onde se 
incluiria a dimensão clínica), obtida em contexto de confiança e respeito mútuos, 
acaba  por  vezes  em  ser  convertido  em  informação  descarnada  e  estandardizada 
resultante de inquéritos formais minimalistas a partir dos quais se preenche uma 
história  clínica.  Decorrente  deste  contexto  profissional,  algumas  questões  éticas 
podem  deixar  de  ser  colocadas,  como  tal,  aos  médicos,  ao  serem  convertidas  em 
meros procedimentos técnicos. 

O aumento de doentes crónicos nas sociedades ocidentais actuais obriga, porém, 
a prática clínica a reconhecer uma crescente importância à relação médico‐doente. 

A  formação  médica  terá  que  se  centrar  cada  vez  mais  na  relação  interpessoal 
conforme  diminui  a  morbilidade  de  doenças  de  índole  bacteriana  e  aumenta  o 
combate  a  agentes  difíceis  de  identificar,  de  controlar  e  sobretudo  de  vencer 
(como, por exemplo, no grande número de doenças auto‐imunes). Com efeito, um 
dos maiores desafios será compreender como prevenir, e melhorar, desequilíbrios 
decorrentes  de  factores  que  a  biologia  molecular  não  estuda,  como  o  stress 
profissional, emocional, etc. A tipologia de doenças crónicas tem vindo a aumentar, 
e o desconhecimento das suas causas é ainda muito grande. A ligação de factores 
sociais  à  dimensão  biológica  das  pessoas  exige  um  investimento  acrescido  na 
investigação clínica. 

Assim,  a  formação  médica  terá  que  estimular  cada  vez  mais  a  crítica  dos 
estudantes  face  à  universalidade  do  paradigma  em  que  ela  assenta,  pois  em 
algumas  doenças  crónicas  não  se  encontram  deformações  estruturais  nos  órgãos 
envolvidos,  decorrendo  elas  sobretudo  da  disfunção  funcional,  o  que  levanta 
problemas  quanto  ao  papel  explanatório  da  causalidade  formal  (ou  linear),  bem 
como  à  usual  confusão  em  se  tomar  o  efeito  pela  causa.  A  biologia  mecânica 
encontra  também  dificuldades  em  explicar  como  uma  disfunção  num  órgão 
desencadeia  disfunções  em  vários  outros  órgãos,  ou  mesmo  na  dimensão 
homeostática em geral do organismo.  

No  que  se  refere  às  doenças  crónicas,  quase  sempre  a  Medicina  negoceia 
medicação  de  carácter  paliativo,  dada  a  impossibilidade  de  cura,  sendo  a 
reabilitação encarada raramente como uma possibilidade real. Os doentes crónicos 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
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Universidade de Évora. 
 

não  estão  circunscritos  a  uma  enfermaria  hospitalar  durante  um  tempo 


determinado; pelo contrário, eles são “doentes ao longo da vida”, ocupando papéis 
sociais activos, tal como os doentes não crónicos, e até como os não doentes. “Ce 
sont  des  formes  de  chronicisation  du  mal  que  l’on  voit  à  travers  des  maladies 
vasculaires,  des  maladies  du  cancer,  un  certain  nombre  de  maladies  dues  à 
l’équilibre  bio‐chimique  que  sont  les  problèmes  posés  par  le  diabète,  certaines 
formes de chronicité de rhumatismes, etc”. (Vigarello: 2003, 24). 

Ao nível da investigação científica, a biologia molecular tem investido bastante 
nestas enfermidades e, na maior parte das universidades de todo o mundo, o plano 
de estudos está compreensivelmente bastante focalizado nesta área.  

Se  queremos  ser  mais  eficazes  no  cuidado  dos  doentes  crónicos  convém  que 
cada vez mais nos debrucemos também no saber escutar, incentivando os futuros 
médicos a serem companheiros de alguém ao longo de (quase) toda uma vida. 

Assim, o maior desafio à classe médica actual talvez seja o sofrimento que este 
tipo  de  doenças  proporciona.  Ainda  que  as  dores  associadas  à  maior  parte  delas 
acentue  o  sofrimento,  elas  constituem  apenas  um  suplemento  de  algo  que  se 
encontra mais fundo interiormente, dado que se trata da sensação de desagregação 
identitária que os doentes crónicos possuem (Cassell, 2004; Oliveira, 2006). 

Daí  que,  na  Universidade  do  Minho  –  Portugal,  defendamos  que  o  futuro  da 
prática  clínica  assentará  sobretudo  na  dimensão  cuidadora  de  quem  sofre.  No 
entanto, não podemos esquecer que se o acompanhamento contínuo no cuidar dos 
doentes  ajuda  indubitavelmente  a  que  o  seu  sofrimento  seja  diminuído,  as 
patologias  bioquímicas  e  fisiológicas  devem  ser  sempre  regularmente  vigiadas, 
pois  constituem  um  dos  caminhos  possíveis  de  controlo  do  agravamento  destas 
doenças.  Exames  auxiliares  de  diagnóstico  são  especialmente  importantes  no 
desempenho desta dimensão paliativa. 

3. EM PROL DE UMA FORMAÇÃO MÉDICA UNITÁRIA


Acreditamos  que  as  Humanidades  fornecem  um  contributo  importante  para  a 
missão  de  a  profissão  médica  cumprir  a  sua  função  cuidadora  de  doentes  e 
familiares,  educando  as  pessoas  a  transformar  o  sofrimento  em  sabedoria. 
(Hafferty e Franks, 1994)  

Uma das preocupações fundamentais do curso de Medicina da Universidade do 
Minho (em funcionamento desde 2001) constitui necessidade de os curricula dos 
estudantes  integrarem  e  motivarem  à  unicidade  do  conhecimento.  Acreditando 
que “nada do que é humano, é estranho à Medicina” (Pinto‐Machado, 2006), criou‐
se uma área de formação especialmente dedicada à reflexão crítica dos estudantes 
e  ao  reconhecimento  da  Medicina  como  uma  área  científica  (também)  humana  e 
social: “Domínios Verticais – Tomar o Pulso à Vida”. 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
Outro dos  objectivos desta área que importa referir é orientar a formação dos 
futuros  médicos  para  a  saúde  propriamente  dita,  e  não  para  a  patologia 
(orientação a cargo de outras áreas do curso); para cumprimento deste objectivo, 
cooperam  com  a  área  “Saúde  Comunitária”  (que  inclui  várias  valências,  como 
‘Acompanhamento  de  uma  Família,  ‘Saúde  Pública’  e  ‘Residências  em  Centros  de 
Saúde, por exemplo).  

Reflectir  criticamente  sobre  a  formação  que  lhes  é  proporcionada,  dando  a 


oportunidade  aos  alunos  de  conhecer  concepções  diferentes  da  abordagem  dos 
fenómenos  vivos,  ou  aprofundar  informação  obtida  noutras  áreas  do  curso,  são 
tarefas especialmente caras aos domínios “Filosofia”, “Religião” e “Ciência” na área 
“Domínios Verticais – Tomar o Pulso à Vida”, que assim se apelida pelo facto de os 
seus  domínios  percorrerem  os  curricula  do  curso,  do  1º  ao  5º  anos  de  formação 
académica.  A  contextualização  histórica  das  várias  áreas  do  saber  médico,  e  a 
inserção  destas  na  cultura  em  geral,  contribuem  também  para  aquele  propósito, 
com  o  domínio  “História  da  Ciência  e  da  Medicina”,  cujas  sessões  ocorrem 
embrenhadas  na  leccionação  académica  de  cada  uma  daquelas  áreas  de  saber. 
Assim,  por  exemplo,  “História  da  Biologia  celular  e  molecular”  ocorre  aquando  a 
aprendizagem de “Moléculas e células”. 

Reconhecer  a  prioridade  médica  a  dar  ao  sofrimento  humano,  promovendo  a 


compreensão da sua complexidade, é especialmente debatida nas várias sessões de 
Ética, leccionadas (sob a forma de debates a partir de casos concretos) também de 
modo integrado com as outras áreas; “Debates éticos em Pediatria”, por exemplo, 
ocorre  aquando  a  residência  hospitalar  de  Pediatria.  Em  continuidade  com  estas 
preocupações  encontramos  as  sessões  do  domínio  “Antropologia”  (com  sessões 
sobre  envelhecer  e  morrer,  com  visitas  a  instituições  de  acolhimento  de  doentes 
excluídos socialmente, etc.). 

Não  excluindo  nenhuma  das  finalidades  formativas  até  agora  mencionadas, 


encontramos  outro  domínio,  com  carácter  também  lúdico,  “Criação  Artística  e 
Literária”,  no  qual  os  estudantes  têm  oportunidade  de  frequentar  museus, 
aprender a apreciar obras plásticas e literárias, a comunicarem melhor, a relaxar e 
desenvolverem  o  seu  mundo  interior,  a  partilharem  entre  si  leituras,  filmes, 
músicas, etc, que apreciaram. 

Compreenderem  como  todas  estas  dimensões  se  integram  na  existência 


concreta das pessoas, é um dos desafios de um domínio especialmente querido aos 
estudantes (“Uma Pessoa Confessa‐se”), no qual têm a oportunidade de interrogar 
pessoas de mérito reconhecido (na política, nas finanças, na Medicina, na Arte, etc). 
Este  domínio  ocorre  sobre  um  formato  narrativo  por  parte  dos  oradores  face  às 
questões  que  os  alunos  lhes  fazem,  e  acreditamos  que  a  sensibilidade  para  a 
importância  da  narratividade  seja  um  factor  a  obter  com  estas  sessões, 
estimulando‐os a estarem atentos à constituição da história de vida (onde se inclui 
a clínica) das pessoas (Mota‐Cardoso, 2006; Charon, 2006; Nóvoa, 1989). 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 

Tornar  a  multiplicidade  integrada  dos  saberes  humanos  (onde  se  inclui  a 


Medicina, bem como todas as outras ciências) familiar aos futuros médicos ajudá‐
los‐á a serem médicos bons e, simultaneamente, bons médicos. 

Temos  encontrado  algumas  dificuldades  para  levar  adiante  esta  missão. 


Abordaremos algumas. 

A  maior  talvez  resida  no  contexto  cultural  das  sociedades  ocidentais 


contemporâneas  das  quais  emergem  os  nossos  estudantes,  nelas  integrados  e 
representando  o  sucesso  por  elas  proporcionado.  Tratam‐se  de  sociedades  com 
sistemas escolares fortemente centrados na memorização, no incentivo à debitação 
e  escrita  rápida  de  conteúdos  informativos.  Os  futuros  médicos  incorporam 
dificilmente  atitudes  de  escuta,  de  interiorização,  de  contemplação  e  de  reflexão; 
todas  elas  se  constituem,  no  entanto,  como  indispensáveis  à  formação  da 
sensibilidade de pessoas (MacIntyre, 1999). 

Os exemplos mais caricatos desta dificuldade são talvez o modo de selecção de 
candidatos  a  médicos  e  o  exame  de  internato,  que  se  realiza  logo  após  o  6º  ano, 
situações  para  as  quais  as  universidades  têm  sido  pouco  escutadas  Constituem 
case  studies  para  investigação  de  pedagogia  bancária  e  opressora  (Freire,  1975; 
Pellanda, 1992). 

Outra grande dificuldade prende‐se com a estranheza que esta área constitui na 
formação dos estudantes, nomeadamente com o tipo de inferências lógicas de tipo 
abdutivo (Bateson, 1972) e holista que lhes é solicitado, face às crenças científicas 
instaladas,  vinculadas  e  propagandeadas  ao  longo  dos  seus  estudos 
(nomeadamente  ao  nível  da  educação  obrigatória),  e  que  abordámos 
anteriormente. A sectorização académica dos saberes tende a ser ultrapassada no 
estabelecimento  de  pontes  que  todas  as  áreas  da  formação  médica  podem 
estabelecer com as Humanidades ao serviço da Medicina (Marinker, 1997). 

Ligada  às  limitações  acima  mencionadas,  queríamos  ainda  lembrar  a  usual 


incapacidade  (e  tabu)  em  os  futuros  médicos  lidarem  com  situações  de 
incurabilidade  e  de  confronto  com  a  morte  de  seus  doentes  (Groopman,  2004)., 
bem  como  no  apoio  a  fornecer  aos  familiares  dos  pacientes,  que  constitui  uma 
obrigação  deontológica,  numa  palavra:  dificuldade  em  atribuir  significado  ao 
sofrimento  humano;  daí  o  contacto,  e  acompanhamento  ao  longo  de  toda  a 
formação  académica,  com  famílias  (inseridos  na  área  de  Saúde  Comunitária,  na 
Universidade do Minho). Para ajudar este tipo de aprendizagem contínua, tem‐se 
revelado  especialmente  útil  o  treino  de  competências  comunicacionais  (verbais  e 
não  verbais)  realizadas  ao  longo  de  dois  anos  curriculares  nas  “Oficinas  de 
Comunicação”  (inseridas  na  mesma  área).  “This  doctoring  business  isn’t  about 
heroics. It’s about taking care of people” (Evans, Louhiala e Puustinen, 2004:134). 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 
 
5. PROPOSTAS PARA O FUTURO DA FORMAÇÃO MÉDICAS
A  área  que  aqui  apresentamos  como  especialmente  humanista  no  curso  da 
Medicina da Universidade do Minho, possui a expressão “Tomar o Pulso à Vida” na 
sua denominação, sendo que tal pretende indicar que a Medicina se relaciona com 
todas  as  dimensões  da  existência  humana.  Essa  vertente  holista  constitui  uma 
opção  epistemológica  que  acreditamos  favorecer  a  integração  dos  saberes 
(formais,  não  formais  e  informais)  dos  estudantes,  bem  como  a  unicidade  do 
conhecimento.  

O  trabalho  de  pendor  holista  em  que  temos  investido  é  devedor  de  opções 
epistemológicas,  antropológicas  e  éticas  dos  responsáveis  pela  área.  Uma  das 
influências  epistemológicas  radica  na  dimensão  transdisciplinar  proporcionada 
pelo Movimento da Auto‐Organização (MAO), que favorece a compreensão de que 
entre  todos  os  seres  vivos  existe  continuidade,  para  além  de  descontinuidade,  e 
que  ambas  fazem  parte  do  metapadrão  formal  que  constitui  o  mundo  vivo 
(Bateson, 1972) em qualquer uma das suas manifestações, ainda que em diferentes 
níveis de complexidade.  

Dentro  do  MAO  existem  três  teorias  biológicas  amplamente  reconhecidas  e 


difundidas  academicamente:  a  teoria  da  autopoiesis  (de  H.  Maturana  e  de  F. 
Varela),  a  da  teoria  da  complexidade  de  H.  Atlan  e  as  concepções  de  Stuart 
Kaufman. Além de ser possível articularem‐se entre si, cada uma delas proporciona 
reflexão fundamentada para algumas questões contemporâneas da ciência actual, 
como sendo a compreensão dos seres vivos como sistemas fechados, do ponto de 
vista  termodinâmico,  auto‐regulados  ao  nível  da  produção  de  processos  e 
componentes, do ponto de vista cibernético, e aceitando as teorias evolucionistas 
de Darwin como interessantes do ponto de vista observacional mas também como 
teorias  suplementares  de  uma  grande  rede  de  teorias  interconectadas  no  que  se 
refere  à  compreensão  dos  fenómenos  dos  seres  do  mundo  da  creatura  (Bateson, 
1979). 

Em  qualquer  destas  teorias,  o  mundo  humano  existe  como  uma  unidade 
complexa,  sendo  que  as  comunidades  (de  qualquer  tipo,  desde  que  significativas 
para  as  pessoas  em  questão)  fazem  parte  da  sua  dimensão  biológica,  já  que 
contribuem para as suas identidades (Oliveira, 1999). A existência humana de um 
doente  pode  então  ser  explicada  em  contextos  diferenciados  e  sem  continuidade 
lógica,  conforme  a  estudemos  do  ponto  de  vista  celular  ou  de  um  ponto  de  vista 
espiritual,  por  exemplo.  Todas  elas  precisam  de  ser  cuidadas,  sendo  que  a  sua 
diferenciação  só  possui  sentido  ao  nível  observacional,  e  não  no  que  respeita  ao 
existencial (Oliveira, 1999 e 2003). 

O  MAO  assegura  facilmente  a  ligação  entre  o  mundo  físico  e  o  mundo  celular, 


proporcionando  uma  continuidade  explanatória  formal  que  inclui  as  dimensões 
comunitárias.. 

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OLIVEIRA,  C.  &  Pinto‐Machado,  J.  (2007)  A  unicidade  do  conhecimento  na  formação  médica. 
In,  V.  Trindade,  N.  Trindade  &  A.A.  Candeias  (Orgs.).  A  Unicidade  do  Conhecimento.  Évora: 
Universidade de Évora. 
 

O  jogo  de  linguagem  da  biomecânica  actual  pode  passar  a  ser  enquadrado  na 
rede compreensiva do que significa ser humano na sua unicidade, e não apenas no 
que significa ser um ser físico‐químico com capacidade de replicação de DNA. 

A dimensão holista deste paradigma não se reduz à soma explicativa dos vários 
níveis  de  actuação  humana,  não  se  identificando  contudo  apenas  com  uma 
perspectiva  “global”  da  qual  se  omite  aquilo  que  ocorre  no  funcionamento  das 
partes, quer em termos processuais, quer em termos de produção de componentes. 
O holismo epistemológico contemporâneo, nomeadamente o praticado no MAO, há 
um século que assume a articulação destas duas vertentes observacionais (down­
top e top­down, simultaneamente, como diria Paul Weiss) (Oliveira, 2000). 

O paradigma patogénico investigou com bastante sucesso as vertentes parciais 
dos organismos, tendo tal sido possível devido à descoberta das estruturas físicas 
existentes nos seres vivos, e que se acredita serem totalmente regidas pelas leis da 
física mecanicista. 

O MAO pode ajudar a instalar um paradigma salutogénico nas ciências da saúde 
(e  não  da  doença,  como  até  agora)  apostando  sobretudo  na  prevenção  terciária, 
nela  incluindo  o  cuidado  dos  doentes  crónicos,  e  das  dores  de  alma  que  o 
sofrimento  nos  traz,  mesmo  quando  não  existe  nenhum  desequilíbrio  de  tipo 
bioquímico. 

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