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O ZEN E O ATOR

por David Feldshuh

O Zen tem sido chamado "a religião sem religião”. Ele é um ramo do budismo, ambos tendo origem num acontecimento singular: a iluminação do Gautama Sidarta que, após meditar durante seis anos, diz-se que acordou de um sonho, para se tornar o Iluminado; o Buda. É significativo que a origem do Zen Budismo não foi uma série de escrituras, nem um credo messiânico, mas o esforço de um único homem para conseguir maior percepção, dentro de sua própria natureza e da natureza da realidade através da meditação. A prática da meditação está no âmago do Zen e a palavra "Zen" se origina do chinês Ch´uan que significa "meditação". Baseado mais na experiência do que na crença, sem escrituras sagradas, códigos fixos ou ser divino, o Zen é a "não religião”. Seria mais um tipo de treinamento, destinado a favorecer uma presença especial, uma qualidade especial de consciência com que enfrentar o mundo. Em que consiste esta forma de consciência que o Zen traz como um ponto de contato com o mundo? No banheiro da Academia Londrina de Música e Arte Dramática, em 1966, diretamente na frente do toalete, estava rabiscado o grafite: "Vive o Momento”. Este preceito para uma atuação vital, magnética, tem sua correspondência no Zen, já que o Zen também insiste que você viva plenamente no "Eterno Agora". O quer que seja que esteja realizando, o Zen ordena que você o faça com todo seu ser. Se estivesse escrito num banheiro dum país oriental, o grafite poderia rezar: "Quando descascando batatas, não pense no Buda, apenas descasque as batatas”. O jogador profissional de futebol(Quarterback) John Brodie deu voz a um preceito semelhante:

“O jogador não pode se preocupar com o passado,o futuro,a multidão,ou algum outro acontecimento. Ele deve ser capaz de agir aqui e agora; acredito que todos nós tenhamos este faculdade inata; talvez a percamos à medida que crescemos" (Adam Smith, Psychology Today, oct. 1975).

Teóricos americanos desenvolveram numerosas técnicas para aumentar a capacidade do indivíduo em conhecer e participar do agora. Estas técnicas, geralmente encaradas como caminhos em direção a um aumento do potencial humano, estão unidas sob uma premissa comum: o indivíduo é capaz de mais e maior expressão, mais originalidade, mais liberdade. No seu treinamento corporal, por exemplo, Moshe Feldenkrais tenta criar um estado psicológico de máxima eficiência com esforço mínimo. Ele define este "estado potente" como:

um modelo especial de atividade nervosa,

com uma configuração muscular e um modelo correspondente de impulsos vegetativos, no qual a capacidade e a liberdade da estrutura de tentar e realizar qualquer ato está no seu máximo”. (Kristin Linklater T 53).

A técnica Alexander, Integração Estrutural, e Terapia Bioenergética, também tentam melhorar um funcionamento que é espontâneo, flexível e eficiente. Ainda que cada disciplina tenha sua técnica própria, todas tentam desenlear resistências entranhadas na estrutura humana. O Zen se aproxima de uma emancipação em direção a uma completa participação do momento presente, através dos caminhos da mente(a palavra mente é usada de maneira específica. Refere-se ao diálogo interno de palavras e imagens que o indivíduo possui). A experiênda do Zen sugere que existe um ''estado potente" menta, uma condição interna, muito favorável para um funcionamento criativo. Esta condição interna tem vários nomes, mas pode ser rotulada satisfatoriamente, usando a definição de Shunryu Suzuki como a ''Mente Zen”. A prática da Mente Zen é a Mente do Início. O que é a Mente do Início? É uma mente vazia e pronta. Se sua mente está vazia, ela está sempre pronta para qualquer coisa; está aberta para tudo(Shunryu Suzuki, Zen Mind, Beginner's Mind). Em "Zen na Arte de Manejar o Arco e Flecha" Eugen Herrigel descreve esta qualidade de consciência como a presença certa da mente”.

"Este estado no qual nada definido é pensado, planejado, no qual não se luta, deseja ou espera, que não tem nenhuma direção mas, ainda assim, sabe-se capaz do possível e do impossível, tão seguro está de seu poder, este estado que é, no fundo, sem objetivo e sem egoísmos, foi chamado pelo mestre de realmente "espiritual". Ele está, na realidade, carregado de consciênda espiritual e é deste forma chamado "Presença Certa da Mente".

Isto significa que a mente ou espírito está presente em toda parte, porque não está, na verdade, ligado a nenhum lugar particular. E

pode permanecer presente porque, mesmo se relacionando a este ou aquele objeto, não se prende a nenhum pela reflexão, pois se assim fosse, perderia sua mobilidade original. Tal qual a água, que enchendo um tanque, está sempre pronta a refluir novamente, ele pode trabalhar seu poder inexaurível porque é livre, e estar aberto a tudo porque é vazio. Este estado é, "

essencialmente, um estado primordial

As artes japonesas do Karatê e Aikido referem-se a este estado da mente. Karatê significa "mãos vazias". Isto se refere não a uma mão vazia de armas, mas ao princípio de que, para ser bem sucedido no Karatê, deve-se aproximar da atividade do momento com "mãos vazias", o símbolo de uma mente vazia de pensamentos. No Aikido a qualidade da mente Zen foi descrita de muitas e coloridas maneiras:

''Se sua mente está aberta e receptiva, tal a calma superfície de um lago, que reflete em primeiro lugar a lua, e depois um pássaro que voa e deles não conserva nenhum traço, depois que passaram,mas está sempre pronta a captar mesmo a mais leve brisa, assim você será não apenas capaz de perceber qualquer movimento de seu oponente, mas também de acuradamente refletir o tom de qualquer movimento a seu redor. "

(Koichi Tohei, Aikido in Daily Ufe).

o treinamento Zen é destinado a aperfeiçoar a Mente Zen. Existem duas escolas principais de treinamento Zen, cada uma acentuando ênfases próprias; a escola Rinzai e a escola Soto. O âmago da Rinzai é o ''Koanque incorpora em si mesmo enigmas indecifráveis, tais como:

"Um dia, Unmon disse a seus discípulos: Se vocês não virem um homem por três dias, não pensem que ele é o mesmo homem. E quanto a vocês? Ninguém falou, assim ele disse: Mil”.

O paradoxo para a consciência ocidental é que o Koan não pode ser respondido com o pensamento. Ao contrário, a racionalização é um obstáculo para encontrara a resposta, e somente quando todos os caminhos do pensamento estão esgotados, quando o cálculo e a habilidade mentais são derrotados, quando a mente calculadora entra em "curto circuito", só então a resposta surgirá, num momento de iluminação, chamado "Satori”. O Koan possui sementes de choque a fim de romper a parte selada da consciência comum e deve ser respondido com o "não pensamento", com uma mente vazia. Pois o Koan é uma experiência de intuição (D.T. Suzuki em The World of Zen).

Na escola Rinzai a "meditação sentada" ou zazen é usada para despertar as capacidades

intuitivas do estudante "silenciando o ruído do regato" da consciência vigilante. A escola Soto

pratica o zazen como um fim em si mesmo. A influência desta escola é muito forte nos EUA, porque

seu mais importante porta voz, Shunryu Suzuki, fundou o primeiro mosteiro Soto Zen no condado

de Tassajara, Califórnia, bem como o centro Zen em São Francisco e a fazenda Verdes Ravinas no

condado de Marin, Califórnia. Suzuki não pensa absolutamente em iluminação. Seu objetivo é,

simplesmente, fazer zazen. Ele acredita que Zen é zazen e a iluminação consiste em trazer a zazen à

vida de todos os dias. No Zendo(Hall de Meditação) do centro Zen, em São Francisco, existem

aproximadamente sessenta pequenas esteiras negras, retangulares, de dois pés de largura e três de

comprimento, chamadas zanikus. Em cada zaniku existe uma pequena e compacta almofada,

redonda, para sentar, o zafu. Estes são os únicos atavios do zazen,além dos sinos e blocos de

madeira, tocados para assinalar o começo e o fim de cada período de 40 minutos de posição

sentada; algum incenso, um altar modesto e uma pequena bengala polida de aproximadamente três

pés de comprimento, usada para despertar mentes erradias, com uma forte pancada em cada

ombro, pancada que ressoa através do Hall vazio com um eco assustador. Sentar zazen, significa sentar de pernas cruzadas, ou na posição lótus ou semi-lótus, com seus joelhos no zaniku e seu traseiro no zafu. As mãos são conservadas numa posição chamada mudra cósmica" e o peso do corpo fica distribuído entre três pontos: ambos os joelhos e o traseiro. Kosho Uchiyama, chefe de um templo Zen em Kioto, dá esta descrição da postura zazen apropriada:

''Sente e endireite as costas como se estivesse empurrando seu traseiro para dentro do zafu. Conserve seu pescoço reto e puxe seu queixo para dentro. Sem deixar nenhuma bolsa de ar dentro, feche sua boca e coloque a língua firmemente de encontro ao céu da boca. Projete a sua cabeça como se fosse furar o teto. Relaxe os ombros. Ponha sua mão direita sobre seu pé esquerdo e ponha sua mão esquerda na palma da direita. Seus polegares devem se encontrar sobre as mãos

Suas orelhas devem estar na vertical, desde seus

ombros e seu nariz na vertical desde seu umbigo. Conserve os olhos abertos, como de costume, olhe para a parede e baixe sua linha de visão

ligeiramente

posição imóvel, respire silenciosamente pelo nariz.

o importante é deixar inalações longas serem longas e curtas serem curtas.

Assim que tenha assumido a

A postura zazen é comparada por Uchiyama com a posição do Pensador de Rodin. A posição

do Pensador é incômoda, difícil, entesada, uma postura que favorece a caçada atrás dos pensamentos, e um entrelaçamento de fantasia sobre acontecimentos no passado e no futuro. Esta postura dificulta a capacidade de clarear a mente. A postura vertical do zazen, por outro lado, permite ao sangue fluir desde o cérebro. Se você adormece quando na posição de zazen, você não está mais praticando zazen. Se você está pensando, tecendo fantasias, encontrando interessantes figuras na parede, ou considerando quão bem você conseguiu manter sua postura de zazen, você não estará mais praticando o zazen. Zazen é um estado de completo despertar, pura percepção sem

observação própria. Isto não quer dizer que durante o zazen os pensamentos não devam ocorrer. Eles ocorrem, mas você deve aprender a deixá-Ios vagar, como folhas flutuando correnteza abaixo num rio.

Pensar

em alguma coisa significa aprender esta mesma coisa com o pensamento. Mas durante o zazen, nós

abrimos completamente mão do pensamento que está tentando agarrar alguma coisa e não consegue apanhar nada. Isto é, "deixar fluir os pensamentos".

O que significa "deixar fluir os pensamentos"

nós pensamos em algumas coisas

Dogen Zenji

chama a isto "o pensamento do não pensamento”

(Kosho Uchiyama Approach to

Zen).

A sabedoria Aikido de como permitir à mente se acalmar, é semelhante à perspectiva Zen:

"Coloque água numa banheira e sacuda-a com violência. Depois, trate, com toda sua habilidade, de

aquietá-Ia com as mãos." Só o que conseguirá é agitá-la mais. Deixe-a, no entanto, em paz, durante algum tempo, e ela se acalmará por si mesma. O cérebro humano trabalha da mesma maneira. Quando você pensa, você produz ondas no cérebro. Tratando de acalmá-las, pensando, é somente perda de tempo. (Tohei) Ao treinar o artista que atua, é vital distinguir entre o conhecimento racional e o intuitivo. Conhecimento racional é o conhecimento sobre as coisas. Ele envolve deduções ou tira conclusões de informações acumuladas. Conhecimento intuitivo, por outro lado, não é conhecimento "sobre alguma coisa". É direto e experimental, conhecimento por familiaridade, não por descrição. Ao experimentar o conhecimento intuitivo, o artista não é um espectador, mas um participante. Esta espécie de conhecimento não pode ser adquirida através do intelecto.

O treinamento Zen, em contraste com a educação universitária se baseia na intuição, mais

do que no intelecto. Para Descartes, pensamento seria prova de existência cogito, ergo sumo. A

meditação Zen está claramente baseada na proposição oposta: ''Eu penso, logo, não existo”. É admitido, geralmente, que a intuição é um fator ilusório, uma força vaga, que parece evaporar-se sob a luz do escrutínio. Por esta razão, muitos professores se recusam a enfrentar o desafio de treinar a intuição, de qualquer forma direta: "Não falem sobre isto, apenas façam-no” é uma resposta, repetida e muitas vezes útil, dada a jovens estudantes de arte dramática que insistem em "entender” o processo de atuar. Não obstante, este preconceito contra ''falar, se é apenas uma negação, é apenas parcialmente útil. Não sugere qual o ''istosobre o qual não se deve falar. Nem esta injunção oferece uma maneira de aumentar a experiência e o conhecimento do jovem ator, com o ''isto”, que pode apenas ser tocado se formos além das fronteiras do ''falar sobre”. Assim, ''faça-o” conduz muitas vezes à ignorância, no que diz respeito a intuição. Abraham Maslow, um proeminente psicólogo, interessado em criatividade, afirma que ''isto'' :

pode acontecer, apenas se a profundidade da

mente de uma pessoa é acessível a ela própria, se ela não tem medo de seus processos primitivos de

pensamento.

inspiração ou a grande(primitiva) criatividade, "

vem em grande parte do inconsciente

os analistas concordam que a

(Toward a Psychology of Beinh)

O Zen também encara a criatividade como fluindo de uma região, além da mente consciente. Intuição, como uma torrente, está esperando para borbulhar através do artista. Ainda que esta torrente não possa ser forçada, o indivíduo pode aprender como retirar-se de seu caminho, como eliminar bloqueios, e com maior presteza, permitir o inconsciente criativo a se manifestar. Esta perspectiva é capturada na história Zen da gata, que é mestre em apanhar ratos. Quando os outros gatos lhe perguntam como consegue isto, ela, calmamente, ronrona. Não é que se recuse a responder, apenas ela não pode fazê-Io, já que sua habilidade não se origina da mente consciente. A mente criativa é decisiva, somente no sentido de que é um fator que limita o processo criativo. Pode ser representada como um túnel, através do qual fluem os processos criativos, ou uma tela, sobre a qual este impulsos agem. Quando a mente consdente está repleta, este túnel fica bloqueado e a tela se torna enevoada. A mente Zen é a condição mental excelente para o funcionamento da criatividade. Pois somente quando a mente consciente está vazia de pensamentos que distraem, estará o organismo permeável para fluir do impulso criativo. A fonte da ação criativa é chamada "O Inconsciente Zen”. O inconsciente não é uma esfera limitada, pessoal, mas em dimensões universais. Quando o artista acalma a sua mente e consegue transformar-se a si mesmo num títere, nas mãos do inconsciente, a criatividade se torna inevitável(Langdon Wainer, em The World of Zen). Porque está vida criativa está fluindo sob a superfície da mente consciente, o artista deve aprender, nas palavras de Heidegger, ''a se harmonizar com aquilo que quer se revelar e permitir que o processo aconteça através dele”. Quando a ação criativa ocorre, não é porque o artista tenha realizado algo

novo. Na verdade, ele aprendeu a controlar uma força natural criativa. É por esta razão que o arqueiro Zen , recusando crédito, admoesta seu discípulo: "Não sou eu quem tem merecimento pelo lançamento”. ''Algo” atirou e ''algo feriu o alvo(Eugen Herriegel, Zen in the Art of Archery). T.S. Elliot fala da sombra que existe entre pensamento e ação. A mente Zen tenta eliminar a sombra da própria consciência, permitindo ao artista, como Da Vinci observou, a percorrer a túnel de costas, a criar sem ''mente predisposta”. Pois esta predisposição resulta em constante vacilação: ação seguida de correção. A mente não se entrega, a fim de permitir uma completa participação, mas, sim, continuamente, perturba um envolvimento criativo, observando e julgando.

O procedimento criativo, ainda que dentro de métodos rigorosos, deve tentar seu

instantâneo e não premeditado, sem interferência de mente ou pensamento, tal qual o som que

surge quando você bate palmas - não há separação entre a batida e o som. Este é o significado do

preciso Zen, que investe contra a hesitação entre os adversários, que recaem em ação consciente e

corretiva: ''Ao caminhar, caminhe; ao sentar, sente. Sobretudo, não vacile”. No Zen existe uma

palavra que define a divisão entre a mente e a atividade. Esta palavra é Suki, que significa "um

espaço entre dois objetos", ou "uma fenda, uma racha, uma abertura em um objeto sólido” (Allan

Watts, The Way of Zen). Toda separação entre o pensamento e a ação é uma forma de Suki e resulta

em uma palavra, que suspende o fluir da criatividade e da espontaneidade.

"Pois o homem soa como um sino partido quando

pensa e age com a mente dividida - parte colocada de lado, pronta a interferir com a outra a

fim de controlá-la, condená-la ou admirá-la

ao

invés de fluir

de um objeto para outro, a mente

faz "alto" e reflete no que vai fazer ou no que já

fez

isto interfere com o fluir da atividade da

mente e a rapidez fulminante de ação" (D.T. Suzuki, Zen and Japanese Culture).

O Suki tem como resultado também a expressão emocional consciente. Pois o sentimento bloqueia a si próprio como forma de ação, quando é surpreendido nesta mesma tendência para observar ou sentir indefinidamente, como quando em meio a um prazer que estou experimentando, e me questiono para verificar se estou extraindo o máximo da ocasião. Não contente em saborear a refeição, eu tento também provar minha língua. Não contente em me sentir {eliz, eu quero sentir a mim mesmo me sentindo feliz, para ficar certo de não perder nada(Watts).

Ao nível do movimento físico, o Suki impõe uma cobertura de pensamento, que pode

estorvar o movimento expressivo e espontâneo. Para recuperar a espontaneidade, o artista Zen

deve, novamente, criar, depois de longos anos de estudo de uma região que fica além do nível de

consciência e, igualmente importante, ele deve estudar para esquecer o estudo e a si mesmo.

Quando o artista não se identifica mais com a idéia do eu, a perfeita identificação pode resultar

entre a pessoa e o seu comportamento.

''Aquele que conhece, não mais se sente independente daquilo que é conhecido; o experimentador já não se

sente afastado da experiência

uma mudança ligeira no modo de

encarar as coisas, é tão fácil sentir que eu respiro como que eu sou respirado(Watts)

observando a própria

respiração

por

A capacidade para a identificação total, tão importante para o artista atualmente, é o resultado fundamental do zazen. Ainda que a teoria da arte de representar possa somente ser testada através da aplicação prática e da observação dos resultados, existem certos dados científicos, sugerindo que a prática do zazen pode ser valiosa para o ator. Em um estudo, usando testes psicológicos, uma tentativa foi feita para medir o efeito da prática do zazen, durante um mês (cinco vezes por semana, com sessões de 30 minutos cada), na habilidade de se projetar para fora de si mesmos. Estes indivíduos vinham sendo ensinados a se tornarem mais sensíveis a seus próprios processos psíquicos internos. Este treinamento era também uma tentativa para ajudar os conselheiros a parar de projetar, verificando a diferença entre imagens e idéias, nas suas próprias mentes, e estímulos vindos do cliente. Em termos de Zen, o indivíduo estava sendo treinado em ultrapassar a idéia do eu, a fim de entrar, de maneira mais plena, em contato com a realidade. Duas conclusões a que se chegaram, através destes estudos, foram:

1. O grupo que praticou zazen mais de quatro semanas, progrediu na sua habilidade de se projetar

para fora de si mesmo;

2. A meditação Zen tem um potencial bem maior para o crescimento individual e a investigação

científica do que se supunha previamente. (Terry V. Lech in Biofeed-Back and Self-Control)

Certo número de estudos revelam que imagens novas e originais podem se revelar a indivíduos quando eles estão na fronteira entre o sono e o despertar. Neste estado, como no zazen, a mente consciente acalmou, permitindo que imagens profundas aflorem à superfície. Uma segunda semelhança entre este estado e o zazen foi revelada através de aparelhos de Biofeed-Back. Leituras de eletroencefalogramas mostraram que estas imagens do quase-sono, são, muitas vezes, associadas com a produção de ondas cerebrais Alfa. Ondas cerebrais Alfa, ainda que geralmente evidentes, somente quando os olhos estão fechados, são produzidas durante o zazen(mesmo por experimentadores sem prática) com os olhos abertos e o indivíduo plenamente consciente(não em estado de modorra, próximo ao sono). Existe um ditado Zen, que diz que o homem que está praticando o Zen pode pode ouvir as

cinzas que caem na urna do altar. Isto enfatiza que o Zen não é uma sonolência semelhante a um transe. Experiências efetuadas pelo Dr. Tomio Hirai confirmam que:

1. O zazen traz consigo mudanças nas ondas do cérebro;

2. Os efeitos do zazen permanecem, mesmo quando ele acabou;

3. Mesmo os que possuem pouca experiência, podem produzir estes efeitos;

4. Zazen e sono são diferentes.

~A última conclusão foi alcançada usando instrumentos para medir as ondas cerebrais e as mudanças do potencial elétrico da pele(reação galvânica da pele). Na experiência, o indivíduo controlado, que não está meditando, se torna habituado com o som de um sino, de tal forma, que seu G 5 R diminui, finalmente desaparecendo. Com indivíduos praticando o zazen, consegue-se resultados completamente diferentes. O Dr. Hirai chegou às seguintes conclusões:

1. Como os testes G S R demonstraram, o cérebro nestas

condições reage rápido ao estímulo externo, mas, imediatamente após, retorna a seu estado de tranqüilidade;

2. Diferentemente de pessoas adormecidas, as pessoas

na meditação zazen são receptivas ao estímulo externo. Na verdade, são mais sensíveis a tais estímulos do que

as pessoas acordadas sob circunstâncias comuns;

3. A repetição dos estímulos externos, não tem como

resultado uma familiaridade, na qual a reação é anulada.

Ao contrário, a vigorosa sensibilidade das ondas do cérebro de uma pessoa em zazen permanece clara por longos períodos;

4. O exame das ondas cerebrais de pessoas em

meditação, mostram que a mente humana é realmente

capaz de permanecer calma e estática, ao mesmo tempo que tensamente consciente e receptiva àquilo que a

cerca

cerebrais Alfa, e encontra um estímulo externo, ela reage de modo ativo. Em termos de ondas cerebrais, o fenômeno consiste em bloqueio temporário das ondas

Quando a mente está emitindo calmas ondas

cerebrais Alfa e emissão de ondas Beta ativas. Além disso, no estado zazen de meditação, o bloqueio das ondas Alta sempre ocorre no encontro repetido de estímulos externos; isto é, o cérebro nunca se torna tão acostumado a um estímulo dado, que possa cessar de reagir a ele. No estado de meditação zazen, a mente manifesta sempre ambas as condições, ativa e estática.

Esta é a explicação científica para a condição Zen, que é descrita como união do ativo e do estático num só. (Tomia Hirai, Zen Meditation Therapy)

Os resultados discutidos acima possuem clara importância para o artista atuante e para o ator, em particular. O conselheiro, fracassando em distinguir entre sua própria imaginação, e as deixas fornecidas pelo cliente, se assemelha ao ator que vai para o palco com um Gestalt fixo, pré- concebido, uma determinada disposição mental que o impede de responder plenamente a novos estímulos do meio ambiente( a leitura de uma nova linha, a posição diferente de um apoio, etc). Quando Eugen Herrigel fala de "cálculo que é cálculo errado" ele reconhece que uma mente repleta de pensamentos pode bloquear ambos, estímulo que chega e impulso que parte. Por isso é que o estudante Zen é encorajado a despertar de sua consciência centrada em si mesmo, de modo a que não haja mais o "si mesmo". Existe só a realidade. Zazen, como acontece também com o estado próximo ao sono, permite ao indivíduo tornar-se ciente de novas fontes criativas, fontes que estão habitualmente submersas abaixo da consciência. Finalmente, as observações do Dr. Hirai sobre a unidade de calma e ação, uma união básica às artes marciais Zen, sugerem uma hipótese intrigante:

está o ator, quando mais criativo,produzindo comprimentos de ondas associadas com estados criativos semi-conscientes(Alfa), apesar do fato de seu comportamento ser obviamente ativo? Na verdade, será a interpretação brilhante um tipo de presença plena do zazen, despertar completo, integrado a um âmago calmo, . tranqüilo? Ainda que estas perguntas sejam irrespondíveis e, talvez, incapazes de serem provadas, elas são úteis, já que o zazen é uma técnica que pode ser avaliada e é prática. Além disso, a suposição que a mente Zen pode ser útil ao ator, que a mente Zen é a mente do ator( a condição interna excelente para a criatividade no processo de interpretação), pode preencher algumas lacunas, nos pontos de vista geralmente mais aceitos, no que diz respeito ao treinamento de atores, podendo também derramar luz no processo de interpretação. Muitos professores são testemunhas de quando um estudante de arte dramática, de repente, como que acorda, e exibe uma inesperada riqueza de talento. De onde surgiu esta repentina habilidade? O que aconteceu desta vez, que falhou nas outras vezes? A discussão anterior sugere que nenhuma atividade é, em si mesma, criativa ou não. Não é a espécie de atividade em que está empenhado o indivíduo, mas a qualidade de treino psicofisiológico, trazido a cada atividade, que é responsável por lançá-lo - como que de uma catapulta - desde o comum até o inspirado. Este ponto de vista também sugere que todos têm

talento(a capacidade de sentir mais plenamente), ainda que alguns estorvem sua natural criatividade mais efetivamente do que outros.

É objetivo do treinamento de um ator tornar o indivíduo dente de suas enormes

capacidades, de como ele próprio impede sua completa realização, e de técnicas que podem ajudá- lo a conseguir uma presença criativa mais rica. Esta espécie de treinamento do ator, requer um

ponto de vista duplo:

1. Construir a habilidade externa necessária à interpretação;

2. Treinar uma preparação interna, que permite ao ator integrar totalmente esta habilidade e

traze-Ia ao serviço do impulso criativo momentâneo.

Um problema em relação à grande parte do treino do ator, é que existe pouco treinamento, de como esquecer este treinamento. Existe pouco treino em como relaxar nos ensaios, como

esquecer que é noite de estréia, ou que os críticos estão na audiência, como relaxar o "eu calculista", libertando o "eu que sabe sem saber”. Mas este é o passo derradeiro no comportamento de qualquer ator: permitir ao presente afetá-Io da maneira mais expressiva, estar-aqui-agora, naquilo que deve acontecer no texto que está interpretando. O ator deve ser treinado em muitas técnicas, mas sem a mente do ator, estas técnicas não podem ser completamente verdadeiras, legítimas.

A mente do ator é a condição interna necessária para integrar qualquer técnica ao ato

criativo, ato que vai além das fronteiras do controle consciente ou da inteligência analítica, requerendo a capacidade de entregar-se ao momento presente e viver plenamente nele. Esta qualidade de consciência lembra um estado animal, em sua confiança na sabedoria do organismo integrado. Neste estado, o pensar se torna uma reação instantânea, não deliberada. A mente não se torna limitada, a atenção não se atem a apenas um dos aspectos. A consciência própria desaparece, porque não existe divisão na consciência vigilante. Não existe recuo, nem vacilação, porque a mente é fluida.

Ainda que o ator tenha ensaiado o movimento, ou fala, diversas vezes, cada criação é nova, nascendo e morrendo a cada momento, em frente à audiência. Ao desenvolver a capacidade da mente do ator o indivíduo está aumentando sua habilidade para se abrir na direção de um estado de consciência de maior expansão. A seguinte descrição, de um mestre Zen, apreende a qualidade de existência que emana da condição da mente do ator, e sugere que atuação brilhante e vida brilhante, são imagens num espelho. O mestre Zen é:

uma pessoa que trouxe à realidade, aquela perfeita

liberdade, que é a potencialidade de cada ser humano. Ela existe livremente, na plenitude de todo o seu ser. O fluxo de sua consciência não é constituído de imagens

fixas, repetitivas, como as de nossa consciência,

geralmente centrada em nós mesmos, mas, ao contrário, nasce espontaneamente e naturalmente das reais

circunstâncias do presente

testemunha o que significa viver na realidade do presente ”

Seu ser completo,

(Suzuki)

Em vários campos, os indivíduos podem testemunhar a respeito deste estado de consciência de maior expansão, quando o medo do fracasso, de repente desaparece, e é substituído por uma injeção de tranqüilidade criativa e flexibilidade. Charlotte Doyle, uma psicóloga, deu a esta etapa do fenômeno criativo um nome, o período da total concentração:

"É o período, para o escritor, quando os personagens parecem assumir vida própria, quando as melodias fluem sem esforço, quando a pintura parece pintar a si mesma. O artista se sente totalmente absorvido em seu trabalho. Toda a falta de graça, que vem de alguém que se observa a si mesmo no trabalho pelo receio de que aquilo que está fazendo não seja bom, pela seleção crítica cuidadosa, já não constitui uma parte do fluxo do pensamento e ação. A cabeça, as mãos do artista, seus lábios, são totalmente dirigidos pelas forças que foram geradas pelo senso de direção e pelas idéias, ao vivo, à medida que ele trabalha com elas. Todos os recursos intelectuais e emocionais, todas habilidade e experiências, se tomam parte da capacidade do artista, e do seu movimento em direção ao objetivo final. Esta total concentração é uma

forma especial de consciência. "

(Em Essays frem Sarah Lawrence Faculty September 1975)

No Zen, este tipo de experiência é uma oportunidade para a iluminação ou Satori.

"Os caracteres chineses para Satori compõem-se do sinal para ''mente'' e do sinal para "mim mesmo". Quando "mim mesmo" e ''mente'' estão

completamente unidos, existe o Satori

"

(Ruth Sasaki in The World of Zen)

D.T. Suzuki vê o Satori como uma compreensão intuitiva, que fornece uma nova perspectiva,

uma inversão da percepção, de tal forma, que ocorre "o desdobramento de um novo mundo até

no momento do Satori, o homem

aqui desapercebido na confusão de uma mente dualista". "

"pensa com seu coração e ama com seu cérebro". Estas duas funções já não são diferentes e, na

realidade, elas nunca o foram. Satori é a inteligência do coração."

Em termos de sensação, o Satori foi descrito como:

" uma serena pulsação que pode ser elevada até

um sentimento somente experimentado em sonhos

raros, de extraordinário brilho e certeza enlevada

de ser capaz de despertar energias em todos os

sentidos

"

(Robert Linssen, Living Zen)

Da perspectiva do Zen, a criatividade pode resultar em Sator; artístico ou parcial. Esta experiência é mais limitada que o Satori do homem Zen, que "cobre a totalidade do seu ser” (Herrigel). Mas ela é, não obstante, o momento supremo do artista. Esta espécie de experiência, ainda que rara e inesquecível, não é incomum. O jogador de futebol(Quarterback) Brodie relata:

"Algumas vezes, no calor de um jogo, a percepção do jogador melhora dramaticamente. As vezes, eu experimento uma espécie de claridade que nunca vivi descrita em qualquer história de futebol:

algumas vezes, tudo parece afastar-se vagarosamente, como se todos estivessem se movendo em câmara lenta. Parece, a mim, que possuo todo tempo do mundo para observar os outros jogadores correrem em suas posições, e, ainda assim, eu sei a linha defensiva, digo, e sei

que a linha defensiva corre para mim tão rapidamente quanto sempre, mas não obstante, toda a coisa parece um filme ou uma dança em câmara lenta. É belo." (Smith)

Muitos atores podem relembrar situações nas quais eles "se abandonaram", somente para verificar que suas atuações tiveram mais originalidade e vida do que nunca. Isto lembra a experiência de Jean Belmonte, o matador, e sugere que o Satori pode sugerir quando o artista está no fim de seus recursos e esgotou todos os esforços para "pensar' numa saída. Ele, então, explode, e abandona idéias e memória, confiando em alguma coisa além de seu pequeno eu.

"Eu me senti vencido pelo desespero. De onde havia tirado a idéia que era um toureiro? Você esteve enganando a si mesmo, eu pensei. Porque teve sorte em algumas novilhadas sem picadores, você pensou que poderia fazer tudo Eles disseram que meus passos com a capa e meu trabalho com a muleta, aquela tarde, haviam sido uma revelação na arte da tourada. Eu não sei, e não me considero competente para julgar. Simplesmente lutei, como acredito que se deva lutar, sem um instrumento além de minha própria fé (D.T. Suzuki acha que esta palavra significa Zen inconsciente) no que eu estava fazendo. Com o último touro, eu consegui, pela primeira vez na minha vida, me entregar, corpo e alma, à pura "

alegria da luta

(D.T. Suzuki)

A integral instantaneidade, na experiência do Satori, apresenta ao ator que atua, um desafio

difícil. Ele deve ser aberto à espontaneidade, e, ainda assim, esta espontaneidade deve ser filtrada

através do método. Isto parece obrigar a uma divisão(Suki) no ator, entre a consciência que julga e o

envolvimento na atividade em que está tomando parte, o que lança o ator no dilema do paradoxo

de Diderot:

"Um coração quente, mas uma cabeça fria, observadora. O Zen prevê uma saída para este paradoxo, ao enfatizar que existe uma espécie de conhecimento,que não requer o controle consciente. Através da prática e da repetição, o indivíduo pode aprender a "conhecer sem ter

conhecimento” sem deliberação e sem memória consciente. O ator não é controlado, nem está fora de controle. Pois sua criatividade emana de um organismo unificado e de uma região anterior a qualquer espécie de separação interna. Tal interpretação, é uma negação viva da

duradoura,

ainda que enganosa, dualidade entre técnica e emoção. O Zen aponta para esta conclusão no seguinte poema: Controle ou não controle?

O mesmo dado exibe duas faces - não controle ou

controle. Ambos um erro cruel. " (Paul Reps, Zen Flesh, Zen Banes)

entregar

extravagante" é como uma fogueira festiva. O preceito Zen diz:

O

ator

que

aprendeu

a

relaxar,

e

a

se

à

"espontaneidade,

sem

capricho

"Quando você faz algo, você deve se deixar consumir inteiramente, tal qual uma fogueira festiva, não deixando traços de si próprio. "

Na atuação criativa, o ator se deixa consumir completamente, dentro do método determinado pelo texto e produção. Para que isto aconteça, o ator deve estar na condição de mente

do ator. Porque, sem a mente do ator,

traços. Nossa atividade é ensombrada por idéias pré concebidas

No Zen, a metáfora da criança, exemplifica a capacidade do não-pensamento, que é necessária para a espontaneidade e instantaneidade:

de agir, nós pensamos, e este pensar deixa alguns

antes

(Shunryu Suzuki).

como uma criancinha segura o dedo oferecido. Ela se agarra tão firmemente, que surpreende a força de seu, pequeno punho. E quando solta o dedo, é sem a mínima sacudidela. Sabe por quê? Porque uma criança não pensa: eu, agora, vou largar o dedo para apanhar alguma outra coisa. Completamente inconsciente, sem propósito, ela se volta de uma coisa para outra, e nós diríamos que ela está brincando com as coisas, se não fosse igualmente verdadeiro que as coisas estariam brincando com

a criança. " (HerriegeJ)

"Você deve sustentar o arco estirado

A criança também ilustra um segundo pré-requisito de atuação brilhante, que é a capacidade

de deixar as coisas acontecerem. Qualquer atividade é orgânica, na medida em que o organismo

inteiro participa dela. Falta esta qualidade orgânica, à medida que o organismo fica de fora, e é um

espectador ao ato do momento. Para deixar as coisas acontecerem através dele, o ator deve

aprender a perder o medo de abandonar. O mestre arqueiro observa:

você não se abandona

plenitude, mas se prepara para a derrota. Já que é assim, você não tem escolha, a não ser fazer uso de alguma coisa, que deve acontecer independentemente de você, e assim que você a usa, sua mão não se abrirá da maneira certa - tal qual a mão de uma criança: também não abrirá como a pele de uma fruta madura. (Herrigel)

você não espera pela

Presença completa, identidade com outros atores e a audiência, e a experiência de atuar de uma região, além do controle consciente, são todas marcas de uma atuação, no seu ponto mais elevado de eficiência. Estas qualidades são ilustradas, na prática de ambos, Aikido e Karatê. Elas são, não obstante, mais vitalmente demonstradas por uma arte irmã, a arte japonesa de habilidade nas espadas, ou Kendo. O Kendo se assemelha a ambos, Karatê e Aikido, mas com uma importante diferença: a inegável possibilidade da morte. Oprimido por esta possibilidade, o esgrimista, mais que qualquer outro artista, é impelido a viver plenamente no presente. Em face da possibilidade da morte, o esgrimista se sente livre de todo respeito humano. Ele não precisa fingir viver no momento, já que sabe que o momento talvez seja tudo que lhe reste para viver. Paradoxalmente, a consciência da morte permite a plena presença da vida. Quando a habilidade na esgrima atinge o nível do Satori, o artista não sente que exista separação entre ele mesmo e a espada. Como sugere a citação que se segue, o esgrimista e seu oponente se sentem fundidos num só:

" eu, como arqueiro, não vejo oponente a me

confrontar, ameaçando me ferir. Eu sinto que me transmuto no oponente e, cada movimento que ele faz, bem como cada pensamento concebido por ele, são como se fossem meus, e eu, intuitivamente, sei quando e como feri-lo. Tudo parece tão natural. "

(Takano Shigeyoshi, in The World of Zen)

No estado Satori, o esgrimista parece reagir a uma força maior, e além dele próprio:

“A espada não se move por si mesma. De maneira semelhante, a espada do esgrimista, incluindo o

homem por trás dela, não se move por si; isto é, ele está livre de todos os motivos centrados em si

mesmo. É o seu inconsciente, não sua inteligência analítica, que controla seu comportamento. Por causa disto, o esgrimista sente que a espada é controlada por algum agente desconhecido, e também não relacionado com ele. Toda a técnica que ele adquiriu conscientemente e com tão grandes esforços, agora flui diretamente da

vertente do inconsciente (D.T.Suzuki)

A lição do esgrimista é simples e direta: o artista que atua deve ser capaz de arriscar-se totalmente. Ele deve estar disposto a ser capaz de dissolver-se no processo de interpretação; de render-se, de morrer a cada momento e renascer plenamente no momento seguinte. O esgrimista sabe que deve arriscar tudo. O ator deve convencer a si mesmo. É óbvio que o Zen não é realizado somente no Zendo. Ele não é somente uma forma de meditação, mas um modo de vida, um estado da mente. Qualquer atividade humana, à medida que o indivíduo se entrega plenamente a ela, é uma fonna de zazen.

O processo de atuar, em si, é uma forma de zazen, de continuamente trazer a si mesmo de

volta ao presente, e aprender a estar-aqui-agora. Mas, no zazen, este problema de viver-aqui-agora

é isolado. Desta forma, o zazen oferece a oportunidade, de sentir um aspecto essencial do processo de atuar com primitiva intensidade. "Quando você entende uma coisa completamente” diz Shunryu Suzuki "Você entende tudo.O zazen ensina que a significação das coisas se origina da qualidade da presença dada a qualquer esforço, e que fazendo algo plenamente você chega a um entendimento de você mesmo. Isto traz a todas atividades da vida diária, um novo senso de valores. Como no pensar de Stanislavsky, não existem "papéis menores", no Zen:

"Não existem ações que podemos considerar como COMUNS, em contraste com outras, que consideramos como EXCEPCIONAIS ou extraordinárias. O Zen nos pede para trazer à mente a intensidade de uma atenção extraordinária, no meio de circunstâncias consideradas COMUNS. " (Linssen)