Você está na página 1de 48
Ética no serviço Público

Ética no serviço Público

Ética no serviço Público Prof. Bruna Pinotti Garcia. Advogada e pesquisadora. Sócia da EPS&O Consultoria

Ética no serviço Público

Prof. Bruna Pinotti Garcia.

Advogada e pesquisadora. Sócia da EPS&O Consultoria Ambiental. Mestre em Teoria do Direito e do Estado pelo Centro Universitário Eurípides de Marília (UNIVEM) - bolsista CAPES. Membro dos grupos de pesquisa “Constitucionalização do Direito Processual” e “Núcleo de Estudos e Pesquisas em Direito e In- ternet”. Professora de curso preparatório para concursos. Autora de diversos artigos jurídicos publicados em revistas qualificadas e anais de eventos, notadamente na área do direito eletrônico.

1 ÉTICA E MOrAl

A ética é composta por valores reais e presentes na sociedade, a

partir do momento em que, por mais que às vezes tais valores apa-

reçam deturpados no contexto social, não é possível falar em convi- vência humana se esses forem desconsiderados. Entre tais valores, destacam-se os preceitos da Moral e o valor do justo (componente ético do Direito). Se, por um lado, podemos constatar que as bruscas transforma- ções sofridas pela sociedade através dos tempos provocaram uma variação no conceito de ética, por outro, não é possível negar que as questões que envolvem o agir ético sempre estiveram presentes no pensamento filosófico e social. Aliás, uma característica da ética é a sua imutabilidade: a mesma ética de séculos atrás está vigente hoje. Por exemplo, respei- tar o próximo nunca será considerada uma atitude antiética. Outra característica da ética é a sua validade universal, no sentido de de- limitar a diretriz do agir humano para todos os que vivem no mundo. Não há uma ética conforme cada época, cultura ou civilização. A ética é uma só, válida para todos eternamente, de forma imutável e definitiva, por mais que possam surgir novas perspectivas a respeito de sua aplicação prática.

É possível dizer que as diretrizes éticas dirigem o comporta-

mento humano e delimitam os abusos à liberdade, estabelecendo deveres e direitos de ordem moral, sendo exemplos destas leis o

respeito à dignidade das pessoas e aos princípios do direito natural, bem como a exigência de solidariedade e a prática da justiça 1 . Outras definições contribuem para compreender o que significa ética:

- Ciência do comportamento adequado dos homens em socieda-

de, em consonância com a virtude.

- Disciplina normativa, não por criar normas, mas por descobri-

-las e elucidá-las. Seu conteúdo mostra às pessoas os valores e prin- cípios que devem nortear sua existência.

- Doutrina do valor do bem e da conduta humana que tem por objetivo realizar este valor.

- Saber discernir entre o devido e o indevido, o bom e o mau, o bem e o mal, o correto e o incorreto, o certo e o errado.

- Fornece as regras fundamentais da conduta humana. Delimita

o exercício da atividade livre. Fixa os usos e abusos da liberdade.

- Doutrina do valor do bem e da conduta humana que o visa realizar.

1 MONTOrO, André Franco. Introdução à ciência do

Direito. 26. ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2005.

“Em seu sentido de maior amplitude, a Ética tem sido entendida como a ciência da conduta humana perante o ser e seus semelhantes. Envolve, pois, os estudos de aprovação ou desaprovação da ação dos homens e a consideração de valor como equivalente de uma me-

dição do que é real e voluntarioso no campo das ações virtuosas” 2 .

É difícil estabelecer um único significado para a palavra ética,

mas os conceitos acima contribuem para uma compreensão geral de seus fundamentos, de seu objeto de estudo. Quanto à etimologia da palavra ética: No grego existem duas vogais para pronunciar e grafar a vogal e, uma breve, chamada epsí- lon, e uma longa, denominada eta. Éthos, escrita com a vogal longa,

significa costume; porém, se escrita com a vogal breve, éthos, signi- fica caráter, índole natural, temperamento, conjunto das disposições físicas e psíquicas de uma pessoa. Nesse segundo sentido, éthos se refere às características pessoais de cada um, as quais determinam que virtudes e que vícios cada indivíduo é capaz de praticar (aquele que possuir todas as virtudes possuirá uma virtude plena, agindo estritamente de maneira conforme à moral) 3 .

A ética passa por certa evolução natural através da história, mas

uma breve observação do ideário de alguns pensadores do passado permite perceber que ela é composta por valores comuns desde sem- pre consagrados. Entre os elementos que compõem a Ética, destacam-se a Moral e o Direito. Assim, a Moral não é a Ética, mas apenas parte dela. Neste sentido, Moral vem do grego Mos ou Morus, referindo-se ex- clusivamente ao regramento que determina a ação do indivíduo. Assim, Moral e Ética não são sinônimos, não apenas pela Moral ser apenas uma parte da Ética, mas principalmente porque enquanto a Moral é entendida como a prática, como a realização efetiva e cotidiana dos valores; a Ética é entendida como uma “filo- sofia moral”, ou seja, como a reflexão sobre a moral. Moral é ação, Ética é reflexão. Em resumo:

- Ética - mais ampla - filosofia moral - reflexão - Moral - parte da Ética - realização efetiva e cotidiana dos valores - ação

No início do pensamento filosófico não prevalecia real distin- ção entre Direito e Moral, as discussões sobre o agir ético envolviam essencialmente as noções de virtude e de justiça, constituindo esta uma das dimensões da virtude. Por exemplo, na Grécia antiga, berço do pensamento filosófico, embora com variações de abordagem, o conceito de ética aparece sempre ligado ao de virtude. Aristóteles 4 , um dos principais filósofos deste momento históri- co, concentra seus pensamentos em algumas bases:

a) definição do bem supremo como sendo a felicidade, que ne- cessariamente ocorrerá por uma atividade da alma que leva ao prin- cípio racional, de modo que a felicidade está ligada à virtude;

b) crença na bondade humana e na prevalência da virtude sobre

o apetite;

c) reconhecimento da possibilidade de aquisição das virtudes

pela experiência e pelo hábito, isto é, pela prática constante; d) afas- tamento da ideia de que um fim pudesse ser bom se utilizado um meio ruim.

2 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2010.

3 CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005.

4 ArISTÓTElES. Ética a Nicômaco. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2006.

ArISTÓTElES. Ética a Nicômaco. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2006. Didatismo e Conhecimento 1

Didatismo e Conhecimento

1
1
Ética no serviço Público Já na Idade Média, os ideais éticos se identificaram com os

Ética no serviço Público

Já na Idade Média, os ideais éticos se identificaram com os re- ligiosos. O homem viveria para conhecer, amar e servir a Deus, di-

retamente e em seus irmãos. Santo Tomás de Aquino 5 , um dos prin- cipais filósofos do período, lançou bases que até hoje são invocadas quanto o tópico em questão é a Ética:

a) consideração do hábito como uma qualidade que deverá de-

terminar as potências para o bem;

b) estabelecimento da virtude como um hábito que sozinho é

capaz de produzir a potência perfeita, podendo ser intelectual, mo-

ral ou teologal - três virtudes que se relacionam porque não basta possuir uma virtude intelectual, capaz de levar ao conhecimento do bem, sem que exista a virtude moral, que irá controlar a faculdade apetitiva e quebrar a resistência para que se obedeça à razão (da mesma forma que somente existirá plenitude virtuosa com a exis- tência das virtudes teologais);

c) presença da mediania como critério de determinação do agir

virtuoso;

d) crença na existência de quatro virtudes cardeais - a prudên-

cia, a justiça, a temperança e a fortaleza. No Iluminismo, Kant 6 definiu a lei fundamental da razão pura prática, que se resume no seguinte postulado: “age de tal modo que

a máxima de tua vontade possa valer-te sempre como princípio de

uma legislação universal”. Mais do que não fazer ao outro o que não

gostaria que fosse feito a você, a máxima prescreve que o homem deve agir de tal modo que cada uma de suas atitudes reflita aquilo que se espera de todas as pessoas que vivem em sociedade. O filó- sofo não nega que o homem poderá ter alguma vontade ruim, mas defende que ele racionalmente irá agir bem, pela prevalência de uma

lei prática máxima da razão que é o imperativo categórico. Por isso,

o prazer ou a dor, fatores geralmente relacionados ao apetite, não

são aptos para determinar uma lei prática, mas apenas uma máxima, de modo que é a razão pura prática que determina o agir ético. Ou seja, se a razão prevalecer, a escolha ética sempre será algo natural. Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, percebeu-se o quão graves haviam sido as suas consequências, o pensamento filosófico ganhou novos rumos, retomando aspectos do passado, mas refor-

çando a dimensão coletiva da ética. Maritain 7 , um dos redatores da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, defendeu que o homem ético é aquele que compõe a sociedade e busca torná-la mais justa e adequada ao ideário cristão. Assim, a atitude ética deve ser considerada de maneira coletiva, como impulsora da sociedade jus- ta, embora partindo da pessoa humana individualmente considerada como um ser capaz de agir conforme os valores morais. Já a discussão sobre o conceito de justiça, intrínseca na do con- ceito de ética, embora sempre tenha estado presente, com maior ou menor intensidade dependendo do momento, possuiu diversos enfo- ques ao longo dos tempos. Pode-se considerar que do pensamento grego até o Renasci- mento, a justiça foi vista como uma virtude e não como uma carac- terística do Direito. Por sua vez, no Renascimento, o conceito de

5 AQUINO, Santo Tomás de. Suma teológica. Tradução

Aldo Vannucchi e Outros. Direção Gabriel C. Galache e Fidel García rodríguez. Coordenação Geral Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. Edição Joaquim Pereira. São Paulo: loyola, 2005. v. IV, parte II, seção I, questões 49 a 114.

6 KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. Tradução Paulo Barrera. São Paulo: Ícone, 2005.

7 MArITAIN, Jacques. Humanismo integral. Tradução

Afrânio Coutinho. 4. ed. São Paulo: Dominus Editora S/A, 1962.

Ética foi bifurcado, remetendo-se a Moral para o espaço privado e

remanescendo a justiça como elemento ético do espaço público. No entanto, como se denota pela teoria de Maquiavel 8 , o justo naquele tempo era tido como o que o soberano impunha (o rei poderia fazer

o que bem entendesse e utilizar quaisquer meios, desde que visasse

um único fim, qual seja o da manutenção do poder). Posteriormente, no Iluminismo, retomou-se a discussão da jus- tiça como um elemento similar à Moral, mas inerente ao Direito, por exemplo, Kant 9 defendeu que a ciência do direito justo é aquela que se preocupa com o conhecimento da legislação e com o contexto social em que ela está inserida, sendo que sob o aspecto do conteúdo seria inconcebível que o Direito prescrevesse algo contrário ao im- perativo categórico da Moral kantiana. Ainda, Locke, Montesquieu e Rousseau, em comum defendiam que o Estado era um mal necessário, mas que o soberano não pos-

suía poder divino/absoluto, sendo suas ações limitadas pelos direitos dos cidadãos submetidos ao regime estatal. Tais pensamentos iluministas não foram plenamente seguidos, de forma que firmou-se a teoria jurídica do positivismo, pela qual Direito é apenas o que a lei impõe (de modo que se uma lei for injusta nem por isso será inválida), que somente foi abalada após o fim trágico da 2ª Guerra Mundial e a consolidação de um sistema global de proteção de direitos humanos (criação da ONU + decla- ração universal de 1948). Com o ideário humanista consolidou-se o Pós-positivismo, que junto consigo trouxe uma valorização das normas principiológicas do ordenamento jurídico, conferindo-as normatividade. Assim, a concepção de uma base ética objetiva no comporta- mento das pessoas e nas múltiplas modalidades da vida social foi esquecida ou contestada por fortes correntes do pensamento moder- no. Concepções de inspiração positivista, relativista ou cética e po- líticas voltadas para o homo economicus passaram a desconsiderar

a importância e a validade das normas de ordem ética no campo da

ciência e do comportamento dos homens, da sociedade da economia

e do Estado. No campo do Direito, as teorias positivistas que prevaleceram a

partir do final do século XIX sustentavam que só é direito aquilo que

o poder dominante determina. Ética, valores humanos, justiça são

considerados elementos estranhos ao Direito, extrajurídicos. Pensa- vam com isso em construir uma ciência pura do direito e garantir a segurança das sociedades. 10 Atualmente, entretanto, é quase universal a retomada dos es- tudos e exigências da ética na vida pública e na vida privada, na administração e nos negócios, nas empresas e na escola, no esporte, na política, na justiça, na comunicação. Neste contexto, é relevante destacar que ainda há uma divisão entre a Moral e o Direito, que constituem dimensões do conceito de Ética, embora a tendência seja que cada vez mais estas dimensões se juntem, caminhando lado a lado. Dentro desta distinção pode-se dizer que alguns autores, entre eles Radbruch e Del Vechio são partidários de uma dicotomia ri- gorosa, na qual a Ética abrange apenas a Moral e o Direito. Contu-

8 MAQUIAVEl, Nicolau. O príncipe. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2007.

9 KANT, Immanuel. Doutrina do Direito. Tradução Edson Bini. São Paulo: Ícone, 1993.

10 KElSEN, Hans. Teoria pura do Direito. 6. ed.

Tradução João Baptista Machado. São Paulo: Martins Fontes,

2003.

pura do Direito. 6. ed. Tradução João Baptista Machado. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Didatismo e

Didatismo e Conhecimento

2
2
Ética no serviço Público do, para autores como Miguel Reale, as normas dos costumes e

Ética no serviço Público

do, para autores como Miguel Reale, as normas dos costumes e da etiqueta compõem a dimensão ética, não possuindo apenas caráter

secundário por existirem de forma autônoma, já que fazem parte do nosso viver comum. 11 Em resumo:

- Posição 1 - Radbruch e Del Vechio - Ética = Moral + Direito

- Posição 2 - Miguel Reale - Ética = Moral + Direito + Costu-

mes

Para os fins da presente exposição, basta atentar para o binô- mio Moral-Direito como fator pacífico de composição da Ética. Assim, nas duas posições adotadas, uma das vertentes da Ética é a Moral, e a outra é o Direito. Tradicionalmente, os estudos consagrados às relações entre o Direito e a Moral se esforçam em distingui-los, nos seguintes ter- mos: o direito rege o comportamento exterior, a moral enfatiza a intenção; o direito estabelece uma correlação entre os direitos e as

obrigações, a moral prescreve deveres que não dão origem a direitos subjetivos; o direito estabelece obrigações sancionadas pelo Poder, a moral escapa às sanções organizadas. Assim, as principais notas que distinguem a Moral do Direito não se referem propriamente ao conteúdo, pois é comum que diretrizes morais sejam disciplinadas como normas jurídicas. 12 Com efeito, a partir da segunda metade do século XX (pós- -guerra), a razão jurídica é uma razão ética, fundada na garantia da intangibilidade da dignidade da pessoa humana, na aquisição da igualdade entre as pessoas, na busca da efetiva liberdade, na reali- zação da justiça e na construção de uma consciência que preserve integralmente esses princípios. Assim, as principais notas que distinguem Moral e Direito são:

a) Exterioridade: Direito - comportamento exterior, Moral -

comportamento interior (intenção);

b) Exigibilidade: Direito - a cada Direito pode se exigir uma

obrigação, Moral - agir conforme a moralidade não garante direitos (não posso exigir que alguém aja moralmente porque também agi);

c) coação: Direito - sanções aplicadas pelo Estado; Moral -

sanções não organizadas (ex: exclusão de um grupo social). Em ou- tras palavras, o Direito exerce sua pressão social a partir do centro ativo do Poder, a moral pressiona pelo grupo social não organizado. ATENÇÃO: tanto no Direito quanto na Moral existem sanções. Elas

somente são aplicadas de forma diversa, sendo que somente o Direi- to aceita a coação, que é a sanção aplicada pelo Estado. O descumprimento das diretivas morais gera sanção, e caso ele se encontre transposto para uma norma jurídica, gera coação (es- pécie de sanção aplicada pelo Estado). Assim, violar uma lei ética não significa excluir a sua validade. Por exemplo, matar alguém não torna matar uma ação correta, apenas gera a punição daquele que cometeu a violação. Neste sentido, explica Reale 13 : “No plano das normas éticas, a contradição dos fatos não anula a validez dos preceitos: ao contrário, exatamente porque a normatividade não se compreende sem fins de validez objetiva e estes têm sua fonte na liberdade espiritual, os insucessos e as violações das normas condu- zem à responsabilidade e à sanção, ou seja, à concreta afirmação da ordenação normativa”.

11 REALE, Miguel. Filosofia do direito. 19. ed. São

Paulo: Saraiva, 2002.

12 PErElMAN, Chaïm. Ética e Direito. Tradução Maria

Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

13 REALE, Miguel. Filosofia do direito. 19. ed. São

Paulo: Saraiva, 2002.

Como se percebe, Ética e Moral são conceitos interligados, mas a primeira é mais abrangente que a segunda, porque pode abarcar outros elementos, como o Direito e os costumes. Todas as regras éti- cas são passíveis de alguma sanção, sendo que as incorporadas pelo Direito aceitam a coação, que é a sanção aplicada pelo Estado. Sob o aspecto do conteúdo, muitas das regras jurídicas são compostas por postulados morais, isto é, envolvem os mesmos valores e exteriori- zam os mesmos princípios.

2 ÉTICA, PrINCÍPIOS E VAlOrES

A área da filosofia do direito que estuda a ética é conhecida como axiologia, do grego “valor” + “estudo, tratado”. Por isso, a axiologia também é chamada de teoria dos valores. Daí valores e princípios serem componentes da ética sob o aspecto da exterioriza- ção de suas diretrizes. Em outras palavras, a mensagem que a ética pretende passar se encontra consubstanciada num conjunto de valo- res, para cada qual corresponde um postulado chamado princípio. De uma maneira geral, a axiologia proporciona um estudo dos padrões de valores dominantes na sociedade que revelam princípios básicos. Valores e princípios, por serem elementos que permitem a compreensão da ética, também se encontram presentes no estudo do Direito, notadamente quando a posição dos juristas passou a ser mais humanista e menos positivista (se preocupar mais com os valo- res inerentes à dignidade da pessoa humana do que com o que a lei específica determina). Os juristas, descontentes com uma concepção positivista, esta- dística e formalista do Direito, insistem na importância do elemento moral em seu funcionamento, no papel que nele desempenham a boa e a má-fé, a intenção maldosa, os bons costumes e tantas outras noções cujo aspecto ético não pode ser desprezado. Algumas dessas regras foram promovidas à categoria de princípios gerais do direito e alguns juristas não hesitam em considerá-las obrigatórias, mesmo na ausência de uma legislação que lhes concedesse o estatuto formal de lei positiva, tal como o princípio que afirma os direitos da defesa. No entanto, a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro é expressa no sentido de aceitar a aplicação dos princípios gerais do Direito (artigo 4°). 14 É inegável que o Direito possui forte cunho axiológico, diante da existência de valores éticos e morais como diretrizes do orde- namento jurídico, e até mesmo como meio de aplicação da norma. Assim, perante a Axiologia, o Direito não deve ser interpretado somente sob uma concepção formalista e positivista, sob pena de provocar violações ao princípio que justifica a sua criação e estrutu- ração: a justiça. Neste sentido, Montoro 15 entende que o Direito é uma ciência normativa ética: “A finalidade do direito é dirigir a conduta huma- na na vida social. É ordenar a convivência de pessoas humanas. É dar normas ao agir, para que cada pessoa tenha o que lhe é devido. É, em suma, dirigir a liberdade, no sentido da justiça. Insere-se, por- tanto, na categoria das ciências normativas do agir, também denomi- nadas ciências éticas ou morais, em sentido amplo. Mas o Direito se ocupa dessa matéria sob um aspecto especial: o da justiça”.

14 PErElMAN, Chaïm. Ética e Direito. Tradução Maria

Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

15 MONTOrO, André Franco. Introdução à ciência do

Direito. 26. ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2005.

Franco. Introdução à ciência do Direito. 26. ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2005. Didatismo e

Didatismo e Conhecimento

3
3
Ética no serviço Público A formação da ordem jurídica, visando a conservação e o pro-

Ética no serviço Público

A formação da ordem jurídica, visando a conservação e o pro- gresso da sociedade, se dá à luz de postulados éticos. O Direito criado não apenas é irradiação de princípios morais como também força aliciada para a propagação e respeitos desses princípios. Um dos principais conceitos que tradicionalmente se relaciona

à dimensão do justo no Direito é o de lei natural. lei natural é

aquela inerente à humanidade, independentemente da norma impos- ta, e que deve ser respeitada acima de tudo. O conceito de lei natural foi fundamental para a estruturação dos direitos dos homens, fican- do reconhecido que a pessoa humana possui direitos inalienáveis e imprescritíveis, válidos em qualquer tempo e lugar, que devem ser respeitados por todos os Estados e membros da sociedade. 16

O Direito natural, na sua formulação clássica, não é um conjun-

to de normas paralelas e semelhantes às do Direito positivo, mas é

o fundamento do Direito positivo. É constituído por aquelas normas

que servem de fundamento a este, tais como: “deve se fazer o bem”, “dar a cada um o que lhe é devido”, “a vida social deve ser conser- vada”, “os contratos devem ser observados” etc., normas essas que são de outra natureza e de estrutura diferente das do Direito positivo, mas cujo conteúdo é a ele transposto, notadamente na Constituição Federal. 17

Importa fundamentalmente ao Direito que, nas relações sociais, uma ordem seja observada: que seja assegurada individualmente

cada coisa que for devida, isto é, que a justiça seja realizada. Pode- mos dizer que o objeto formal, isto é, o valor essencial, do direito é

a justiça. No sistema jurídico brasileiro, estes princípios jurídicos funda- mentais de cunho ético estão instituídos no sistema constitucional, isto é, firmados no texto da Constituição Federal. São os princípios constitucionais os mais importantes do arcabouço jurídico nacional, muitos deles se referindo de forma específica à ética no setor públi- co. O mais relevante princípio da ordem jurídica brasileira é o da dignidade da pessoa humana, que embasa todos os demais princí- pios jurídico-constitucionais (artigo 1°, III, CF). Claro, o Direito não é composto exclusivamente por postulados éticos, já que muitas de suas normas não possuem qualquer cunho valorativo (por exemplo, uma norma que estabelece um prazo de 10 ou 15 dias não tem um valor que a acoberta). Contudo, o é em boa parte. A Moral é composta por diversos valores - bom, correto, pru- dente, razoável, temperante, enfim, todas as qualidades esperadas daqueles que possam se dizer cumpridores da moral. É impossível esgotar um rol de valores morais, mas nem ao menos é preciso: bas- ta um olhar subjetivo para compreender o que se espera, num caso concreto, para que se consolide o agir moral - bom senso que todos os homens possuem (mesmo o corrupto sabe que está contrariando

o agir esperado pela sociedade, tanto que esconde e nega sua condu-

ta, geralmente). Todos estes valores morais se consolidam em prin- cípios, isto é, princípios são postulados determinantes dos valores

morais consagrados.

16 lAFEr, Celso. A reconstrução dos direitos humanos:

um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo:

Cia. das Letras, 2009.

17 MONTOrO, André Franco. Introdução à ciência do

Direito. 26. ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2005.

Segundo Rizzatto Nunes 18 , “a importância da existência e do cumprimento de imperativos morais está relacionada a duas ques- tões: a) a de que tais imperativos buscam sempre a realização do

Bem - ou da Justiça, da Verdade etc., enfim valores positivos; b)

a

possibilidade de transformação do ser - comportamento repetido

e

durável, aceito amplamente por todos (consenso) - em dever ser,

pela verificação de certa tendência normativa do real”. Quando se fala em Direito, notadamente no direito constitucio- nal e nas normas ordinárias que disciplinam as atitudes esperadas da pessoa humana, percebem-se os principais valores morais con- solidados, na forma de princípios e regras expressos. Por exemplo, quando eu proíbo que um funcionário público receba uma vantagem indevida para deixar de praticar um ato de interesse do Estado, con-

solido os valores morais da bondade, da justiça e do respeito ao bem comum, prescrevendo a respectiva norma. Uma norma, conforme seu conteúdo mais ou menos amplo, pode refletir um valor moral por meio de um princípio ou de uma

regra. Quando digo que “todos são iguais perante a lei [

caput, CF) exteriorizo o valor moral do tratamento digno a todos os homens, na forma de um princípio constitucional (princípio da

igualdade). Por sua vez, quando proíbo um servidor público de “So- licitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem” (art. 317, CP), estabeleço uma regra que traduz os valores morais da solida- riedade e do respeito ao interesse coletivo. No entanto, sempre por trás de uma regra infraconstitucional haverá um princípio constitu- cional. No caso do exemplo do art. 317 do CP, pode-se mencionar o princípio do bem comum (objetivo da República segundo o art. 3º, IV, CF - “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação) e

o princípio da moralidade (art. 37, caput, CF, no que tange à Admi-

]” (art. 5°,

nistração Pública). Conforme Alexy 19 , a distinção entre regras e princípios é uma distinção entre dois tipos de normas, fornecendo juízos concretos para o dever ser. A diferença essencial é que princípios são normas de otimização, ao passo que regras são normas que são sempre satis-

feitas ou não. Se as regras se conflitam, uma será válida e outra não. Se princípios colidem, um deles deve ceder, embora não perca sua validade e nem exista fundamento em uma cláusula de exceção, ou seja, haverá razões suficientes para que em um juízo de sopesamento (ponderação) um princípio prevaleça. Enquanto adepto da adoção de tal critério de equiparação normativa entre regras e princípios, o jurista alemão Robert Alexy é colocado entre os nomes do pós- -positivismo. Em resumo, valor é a característica genérica que compõe de

alguma forma a ética (bondade, solidariedade, respeito

) ao passo

que princípio é a diretiva de ação esperada daquele que atende certo valor ético (p. ex., não fazer ao outro o que não gostaria que fosse

feito a você é um postulado que exterioriza o valor do respeito; tratar

a todos igualmente na medida de sua igualdade é o postulado do

princípio da igualdade que reflete os valores da solidariedade e da justiça social).

18 NUNES, luiz Antonio rizzatto. Manual de introdução

ao estudo do direito. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.

19 AlEXY, robert. Teoria dos direitos fundamentais.

Tradução Virgílio Afonso da Silva. 2. ed. São Paulo: Malheiros,

2011.

fundamentais. Tradução Virgílio Afonso da Silva. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011. Didatismo e Conhecimento 4

Didatismo e Conhecimento

4
4
Ética no serviço Público Por sua vez, virtude é a característica que a pessoa possui

Ética no serviço Público

Por sua vez, virtude é a característica que a pessoa possui co- ligada a algum valor ético, ou seja, é a aptidão para agir conforme algum dos valores morais (ser bondoso, ser solidário, ser temperan- te, ser magnânimo). Ética, Moral, Direito, princípios, virtudes e valores são elemen- tos constantemente correlatos, que se complementam e estruturam, delimitando o modo de agir esperado de todas as pessoas na vida social, bem como preconizando quais os nortes para a atuação das instituições públicas e privadas. Basicamente, a ética é composta pela Moral e pelo Direito (ao menos em sua parte principal), sendo que virtudes são características que aqueles que agem conforme a ética (notadamente sob o aspecto Moral) possuem, as quais exterio- rizam valores éticos, a partir dos quais é possível extrair postulados que são princípios.

3 ÉTICA E DEMOCrACIA:

EXErCÍCIO DA CIDADANIA

Historicamente, nota-se que por volta de 800 a.C. as comuni- dades de aldeias começaram a ceder lugar para unidades políticas maiores, surgindo as chamadas cidades-estado ou polis, como Tebas, Esparta e Atenas. Inicialmente eram monarquias, transformaram-se em oligarquias e, por volta dos séculos V e VI a.C., tornaram-se democracias. As origens da chamada democracia se encontram na Grécia antiga, sendo permitida a participação direta daqueles poucos que eram considerados cidadãos, por meio da discussão na polis. Democracia (do grego, demo+kratos) é um regime de governo em que o poder de tomar decisões políticas está com os cidadãos, de forma direta (quando um cidadão se reúne com os demais e, jun- tos, eles tomam a decisão política) ou indireta (quando ao cidadão é dado o poder de eleger um representante). Com efeito, é um regime de governo em que se garante a soberania popular, que pode ser conceituada como “a qualidade máxima do poder extraída da soma dos atributos de cada membro da sociedade estatal, encarregado de escolher os seus representantes no governo por meio do sufrágio universal e do voto direto, secreto e igualitário” 20 Uma democracia pode existir num sistema presidencialista ou parlamentarista, republicano ou monárquico - somente importa que seja dado aos cidadãos o poder de tomar decisões políticas (por si só ou por seu representante eleito). ATENÇÃO: a principal classificação das democracias é a que distingue a direta da indireta - a) direta, também chamada de pura, na qual o cidadão expressa sua vontade por voto direto e indivi- dual em casa questão relevante; b) indireta, também chamada re- presentativa, em que os cidadãos exercem individualmente o direito de voto para escolher representante(s) e aquele(s) que for(em) mais escolhido(s) representa(m) todos os eleitores; c) semidireta, tam- bém conhecida como participativa, em que se tem uma democracia representativa mesclada com peculiaridades e atributos da democra- cia direta (sistema híbrido). A democracia direta tornou-se cada vez mais difícil, conside- rado o grande número de cidadãos, de modo que a regra é a de- mocracia indireta. Na Grécia Antiga se encontra um raro exemplo de democracia direta, que somente era possível porque embora a

federal

20

anotada. São Paulo: Saraiva, 2000.

BUlOS,

Uadi

lammêngo.

Constituição

população fosse grande, a maioria dela não era composta de pessoas consideradas como cidadãs, como mulheres, escravos e crianças, e somente os cidadãos tinham direito de participar do processo demo- crático. Contemporaneamente, o regime que mais se aproxima dos ide- ais de uma democracia direta é a democracia semidireta da Suíça. Uma democracia semidireta é um regime de democracia em que existe a combinação de representação política com formas de de- mocracia direta. Democracia é um conceito interligado à Ética no que tange ao elemento da justiça, valor do Direito. Pode-se afirmar isto se considerados os três conceitos de Aristóteles sobre as dimensões da

justiça (distributiva, comutativa e social), dos quais se origina a di- mensão da justiça participativa. Por esta dimensão da justiça participativa, resta despertada a consciência das pessoas para uma atitude de agir, de falar, de atuar, de entrar na vida da comunidade em que se vive ou trabalha. Enfim, busca despertar esta consciência de que há uma obrigação de cada um para com a sociedade de participar de forma consciente e livre e de se interar total e habitualmente na vida social que pertence. Quem deve participar é quem vive na sociedade, é o cidadão, aquele que pode ter direitos. Participar é ao mesmo tempo um direito e um dever. O cidadão deve participar, esta é uma obrigação de todo aquele que vive em sociedade. E o cidadão deve ter espaço para participar, o fato de não participar em si já é uma injustiça. Com a ampliação do conceito de soberania e cidadania e, consequentemen- te, da responsabilidade do cidadão, se torna ainda mais evidente esta necessidade de participar. A referência à justiça participativa, corolário do conceito de ci- dadania, é de fundamental importância para o elemento moral da noção de ética, no sentido de possibilitar um agir voltado para o bem da sociedade. Ninguém é obrigado a suportar desonestidades. A cidadania tem um compromisso com a efetivação da democracia participativa.

E participar não é votar a cada eleição, não se interessas pelo anda-

mento da política e até se esquecer de quem mereceu seu sufrágio. Com efeito, participar é um direito de todo aquele que é cida-

dão, consolidando o conceito de democracia e reforçando os valores éticos de preservação do justo e garantia do bem comum. Mas, afi- nal, quem é cidadão? Inicialmente, é preciso levantar alguns conceitos correlatos:

a) Nacionalidade: é o vínculo jurídico-político que liga um in-

divíduo a determinado Estado, fazendo com que ele passe a integrar

o povo daquele Estado, desfrutando assim de direitos e obrigações.

b) Povo: conjunto de pessoas que compõem o Estado, unidas

pelo vínculo da nacionalidade.

c) População: conjunto de pessoas residentes no Estado, nacio-

nais ou não. cidadão, por sua vez, é o nacional, isto é, aquele que possui o

vínculo político-jurídico da nacionalidade com o Estado, que goza de direitos políticos, ou seja, que pode votar e ser votado. Na disciplina constitucional, os direitos políticos garantidos àquele que é cidadão encontram-se disciplinados nos artigos 14

e 15. Direitos políticos são os instrumentos por meio dos quais a

Constituição Federal permite o exercício da soberania popular, atri-

buindo poderes aos cidadãos para que eles possam interferir na con- dução da coisa pública de forma direta ou indireta 21 .

constitucional

esquematizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

21

lENZA,

Pedro.

Curso

de

direito

esquematizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 21 lENZA, Pedro. Curso de direito Didatismo e Conhecimento

Didatismo e Conhecimento

5
5
Ética no serviço Público A respeito da democracia brasileira, expõe Lenza 2 2 : “estamos

Ética no serviço Público

A respeito da democracia brasileira, expõe Lenza 22 : “estamos diante da democracia semidireta ou participativa, um ‘sistema híbri- do’, uma democracia representativa, com peculiaridades e atributos da democracia direta. Pode-se falar, então, em participação popular no poder por intermédio de um processo, no caso, o exercício da soberania que se instrumentaliza por meio do plebiscito, referendo, iniciativa popular, bem como outras formas, como a ação popular”. Destaca-se o caput do artigo 14:

Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio uni-

versal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

I - plebiscito;

II - referendo;

III - iniciativa popular.

A democracia brasileira adota a modalidade semidireta, porque possibilita a participação popular direta no poder por intermédio de processos como o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular. Como são hipóteses restritas, pode-se afirmar que a democracia in- direta é predominantemente adotada no Brasil, por meio do sufrágio universal e do voto direto e secreto com igual valor para todos. Sufrágio universal é o direito de todos cidadãos de votar e ser votado. O voto, que é o ato pelo qual se exercita o sufrágio, deverá ser direto e secreto. O que diferencia o plebiscito do referendo é o momento da con- sulta à população: no plebiscito, primeiro se consulta a população e depois se toma a decisão política; no referendo, primeiro se toma a decisão política e depois se consulta a população. Embora os dois partam do Congresso Nacional, o plebiscito é convocado, ao passo que o referendo é autorizado (art. 49, XV, CF), ambos por meio de decreto legislativo. O que os assemelha é que os dois são “formas de consulta ao povo para que delibere sobre matéria de acentuada rele- vância, de natureza constitucional, legislativa ou administrativa” 23 . Na iniciativa popular, confere-se à população o poder de apre- sentar projeto de lei à câmara dos Deputados, mediante assinatura de 1% do eleitorado nacional, distribuído por 5 Estados no mínimo, com não menos de 0,3% dos eleitores de cada um deles. Em com- plemento, prevê o artigo 61, §2°, CF:

Art. 61, § 2º A iniciativa popular pode ser exercida pela apre- sentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles.

Art. 14, § 1º O alistamento eleitoral e o voto são:

I - obrigatórios para os maiores de dezoito anos;

II - facultativos para:

a) os analfabetos;

b) os maiores de setenta anos;

c) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos.

Embora os analfabetos não possam se candidatar, possuem a

faculdade de votar.

22

lENZA,

Pedro.

Curso

de

direito

constitucional

esquematizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

23

lENZA,

Pedro.

Curso

de

direito

constitucional

esquematizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

Art. 14, § 2º Não podem alistar-se como eleitores os estrangei- ros e, durante o período do serviço militar obrigatório, os conscri- tos.

Conscritos são os convocados para serviço militar.

Art. 14, § 3º São condições de elegibilidade, na forma da lei:

I - a nacionalidade brasileira;

II - o pleno exercício dos direitos políticos;

III - o alistamento eleitoral;

IV - o domicílio eleitoral na circunscrição;

V - a filiação partidária;

VI - a idade mínima de:

a) trinta e cinco anos para Presidente e Vice-Presidente da Re-

pública e Senador;

b) trinta anos para Governador e Vice-Governador de Estado

e do Distrito Federal;

c) vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Estadual

ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz;

d) dezoito anos para Vereador.

O parágrafo descreve os requisitos para que uma pessoa possa ser eleita.

Art. 14, § 4º São inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos.

Art. 14, § 5º O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedi- do, ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subsequente. Não poder se eleger, não significa não poder votar.

Art. 14, § 6º Para concorrerem a outros cargos, o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal e os Prefeitos devem renunciar aos respectivos mandatos até seis meses antes do pleito.

Art. 14, § 7º São inelegíveis, no território de jurisdição do titu- lar, o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República, de Governador de Estado ou Território, do Distrito Federal, de Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição. Entre outras coisas, visa impedir que se burle a vedação à ree- leição daquele que já ocupou algum destes cargos por 2 mandatos.

Art. 14, § 8º O militar alistável é elegível, atendidas as seguin- tes condições:

I - se contar menos de dez anos de serviço, deverá afastar-se da atividade;

II - se contar mais de dez anos de serviço, será agregado pela

autoridade superior e, se eleito, passará automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade.

Art. 14, § 9º Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e legi- timidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.

ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta. Didatismo

Didatismo e Conhecimento

6
6
Ética no serviço Público O §9° é disciplinado pela LC n° 64/90 (Alterada pela LC

Ética no serviço Público

O §9° é disciplinado pela LC n° 64/90 (Alterada pela LC n°

135/10 - Lei da Ficha Limpa).

Art. 14, § 10 O mandato eletivo poderá ser impugnado ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação, instruída a ação com provas de abuso do poder econômico, corrup- ção ou fraude.

Art. 14, § 11 A ação de impugnação de mandato tramitará em segredo de justiça, respondendo o autor, na forma da lei, se temerá- ria ou de manifesta má-fé.

Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de:

I - cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado;

II - incapacidade civil absoluta;

III - condenação criminal transitada em julgado, enquanto du-

rarem seus efeitos;

IV - recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação

alternativa, nos termos do art. 5º, VIII;

V

- improbidade administrativa, nos termos do art. 37, § 4º.

O

inciso V se refere à ação de improbidade administrativa, que

tramita para apurar a prática dos atos de improbidade administra- tiva, na qual uma das penas aplicáveis é a suspensão dos direitos políticos.

Obs: os direitos políticos somente são perdidos em dois casos, quais sejam cancelamento de naturalização por sentença transitada em julgado (o indivíduo naturalizado volta à condição de estrangei- ro) e perda da nacionalidade brasileira em virtude da aquisição de outra (brasileiro se naturaliza em outro país e assim deixa de ser con- siderado um cidadão brasileiro, perdendo direitos políticos). Nota-se que não há perda de direitos políticos pela prática de atos aten- tatórios contra a administração Pública por parte do servidor, mas apenas suspensão.

4 ÉTICA E FUNçãO PúBlICA

Adentrando no estudo da ética relacionada à função pública, vale destacar que, se a Ética, num sentido amplo, é composta por ao menos dois elementos - a Moral e o Direito (justo); no caso da disciplina da Ética no Setor Público a expressão é adotada num sen- tido estrito. Ética corresponde ao valor do justo, previsto no Direito vigente, o qual é estabelecido com um olhar atento às prescrições da Moral para a vida social. Em outras palavras, quando se fala em ética no âmbito do Estado não se deve pensar apenas na Moral, mas sim em efetivas normas jurídicas que a regulamentam, o que permite a aplicação de sanções. Veja o organograma:

que permite a aplicação de sanções. Veja o organograma: As regras éticas do setor público são

As regras éticas do setor público são mais do que regulamentos morais, são normas jurídicas e, como tais, passíveis de coação. A desobediência ao princípio da moralidade caracteriza ato de impro- bidade administrativa, sujeitando o servidor às penas previstas em lei. Da mesma forma, o seu comportamento em relação ao Código de Ética pode gerar benefícios, como promoções, e prejuízos, como censura e outras penas administrativas. A disciplina constitucional é expressa no sentido de prescrever a moralidade como um dos princí- pios fundadores da atuação da administração pública direta e indire- ta, bem como outros princípios correlatos. Logo, o Estado brasileiro deve se conduzir moralmente por vontade expressa do constituinte, sendo que à imoralidade administrativa aplicam-se sanções. Assim, tem-se que a obediência à ética não deve se dar somente no âmbito da vida particular, mas também na atuação profissional, principalmente se tal atuação se der no âmbito estatal, caso em que haverá coação. O Estado é a forma social mais abrangente, a socie- dade de fins gerais que permite o desenvolvimento, em seu seio, das individualidades e das demais sociedades, chamadas de fins particu- lares. O Estado, como pessoa, é uma ficção, é um arranjo formula- do pelos homens para organizar a sociedade de disciplinar o poder visando que todos possam se realizar em plenitude, atingindo suas finalidades particulares. 24 O estado tem um valor ético, de modo que sua atuação deve se guiar pela moral idônea. Mas não é propriamente o Estado que é aético, porque ele é composto por homens. Assim, falta ética ou não aos homens que o compõe. Ou seja, o bom comportamento profis- sional do funcionário público é uma questão ligada à ética no ser- viço público, pois se os homens que compõe a estrutura do Estado tomam uma atitude correta perante os ditames éticos há uma amplia- ção e uma consolidação do valor ético do Estado. Alguns cidadãos recebem poderes e funções específicas den- tro da administração pública, passando a desempenhar um papel de fundamental interesse para o Estado. Quando estiver nesta condição, mais ainda, será exigido o respeito à ética. Afinal, o Estado é respon- sável pela manutenção da sociedade, que espera dele uma conduta ilibada e transparente. Quando uma pessoa é nomeada como servidor público, passa a ser uma extensão daquilo que o Estado representa na sociedade, devendo, por isso, respeitar ao máximo todos os consagrados pre- ceitos éticos. Todas as profissões reclamam um agir ético dos que a exercem, o qual geralmente se encontra consubstanciado em Códigos de Ética diversos atribuídos a cada categoria profissional. No caso das profis- sões na esfera pública, esta exigência se amplia.

24 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed.

São Paulo: Método, 2011.

se amplia. 24 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Método, 2011. Didatismo e Conhecimento

Didatismo e Conhecimento

7
7
Ética no serviço Público Não se trata do simples respeito à moral social: a obrigação

Ética no serviço Público

Não se trata do simples respeito à moral social: a obrigação éti- ca no setor público vai além e encontra-se disciplinada em detalhes na legislação, tanto na esfera constitucional (notadamente no artigo 37) quanto na ordinária (em que se destacam o Decreto n° 1.171/94 - Código de Ética - a Lei n° 8.429/92 - Lei de Improbidade Adminis-

trativa - e a Lei n° 8.112/90 - regime jurídico dos servidores públicos civis na esfera federal).

a profissão, como exercício habitual de uma

tarefa, a serviço de outras pessoas, insere-se no complexo da socie- dade como uma atividade específica. Trazendo tal prática benefícios recíprocos a quem a pratica e a quem recebe o fruto do trabalho, também exige, nessas relações, a preservação de uma conduta con- dizente com os princípios éticos específicos. O grupamento de pro- fissionais que exercem o mesmo ofício termina por criar as distintas classes profissionais e também a conduta pertinente. Existem aspec- tos claros de observação do comportamento, nas diversas esferas em que ele se processa: perante o conhecimento, perante o cliente, pe- rante o colega, perante a classe, perante a sociedade, perante a pátria,

perante a própria humanidade como conceito global” 25 . Todos estes aspectos serão considerados em termos de conduta ética esperada. Em geral, as diretivas a respeito do comportamento profissional ético podem ser bem resumidas em alguns princípios basilares. Segundo Nalini 26 , o princípio fundamental seria o de agir de acordo com a ciência, se mantendo sempre atualizado, e de acordo com a consciência, sabendo de seu dever ético; tomando-se como princípios específicos:

- Princípio da conduta ilibada - conduta irrepreensível na vida pública e na vida particular.

- Princípio da dignidade e do decoro profissional - agir da me-

lhor maneira esperada em sua profissão e fora dela, com técnica, justiça e discrição.

- Princípio da incompatibilidade - não se deve acumular fun- ções incompatíveis.

- Princípio da correção profissional - atuação com transparên- cia e em prol da justiça.

- Princípio do coleguismo - ciência de que você e todos os de-

mais operadores do Direito querem a mesma coisa, realizar a justiça.

- Princípio da diligência - agir com zelo e escrúpulo em todas funções.

- Princípio do desinteresse - relegar a ambição pessoal para

buscar o interesse da justiça.

- Princípio da confiança - cada profissional de Direito é dotado

de atributos personalíssimos e intransferíveis, sendo escolhido por causa deles, de forma que a relação estabelecida entre aquele que

busca o serviço e o profissional é de confiança.

- Princípio da fidelidade - Fidelidade à causa da justiça, aos valores constitucionais, à verdade, à transparência.

- Princípio da independência profissional - a maior autonomia

no exercício da profissão do operador do Direito não deve impedir o caráter ético.

- Princípio da reserva - deve-se guardar segredo sobre as infor- mações que acessa no exercício da profissão.

- Princípio da lealdade e da verdade - agir com boa-fé e de forma correta, com lealdade processual.

25 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

26 NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. 8. ed.

São Paulo: revista dos Tribunais, 2011.

Em verdade, “[

]

- Princípio da discricionariedade - geralmente, o profissional do Direito é liberal, exercendo com boa autonomia sua profissão. - Outros princípios éticos, como informação, solidariedade, ci-

dadania, residência, localização, continuidade da profissão, liberda- de profissional, função social da profissão, severidade consigo mes- mo, defesa das prerrogativas, moderação e tolerância.

O rol acima é apenas um pequeno exemplo de atitudes que po-

dem ser esperadas do profissional, mas assim como é difícil delimi-

tar um conceito de ética, é complicado estabelecer exatamente quais as condutas esperadas de um servidor: melhor mesmo é observar o caso concreto e ponderar com razoabilidade. Em suma, respeitar a ética profissional é ter em mente os prin- cípios éticos consagrados em sociedade, fazendo com que cada atividade desempenhada no exercício da profissão exteriorize tais postulados, inclusive direcionando os rumos da ética empresarial na escolha de diretrizes e políticas institucionais.

O funcionário que busca efetuar uma gestão ética se guia por

determinados mandamentos de ação, os quais valem tanto para a esfera pública quanto para a privada, embora a punição dos que vio- lam ditames éticos no âmbito do interesse estatal seja mais rigorosa. Neste sentido, destacam-se os dez mandamentos da gestão ética nas empresas públicas:

PRIMEIRO: “Amar a verdade, a lealdade, a probidade e a res- ponsabilidade como fundamentos de dignidade pessoal”. Significa desempenhar suas funções com transparência, de forma honesta e responsável, sendo leal à instituição. O funcioná- rio deve se portar de forma digna, exteriorizando virtudes em suas ações.

SEGUNDO: “Respeitar a dignidade da pessoa humana.” A expressão “dignidade da pessoa humana” está estabelecida na Constituição Federal Brasileira, em seu art. 3º, III, como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Ao adotar um significado mínimo apreendido no discurso antropocentrista do hu- manismo, a expressão valoriza o ser humano, considerando este o centro da criação, o ser mais elevado que habita o planeta, o que justifica a grande consideração pelo Estado e pelos outros seres hu- manos na sua generalidade em relação a ele. Respeitar a dignidade da pessoa humana significa tomar o homem como valor-fonte para todas as ações e escolhas, inclusive na atuação empresarial.

TERCEIRO: “Ser justo e imparcial no julgamento dos atos e na apreciação do mérito dos subordinados.” Retoma-se a questão dos planos de carreira, que exteriorizam a imparcialidade e a impessoalidade na escolha dos que deverão ser promovidos, a qual se fará exclusivamente com base no mérito. Não se pode tomar questões pessoais, como desavenças ou afinidades, quando o julgamento se faz sobre a ação de um funcionário - se agiu bem, merece ser recompensado; se agiu mal, deve ser punido.

QUARTO: “Zelar pelo preparo próprio, moral, intelectual e, também, pelo dos subordinados, tendo em vista o cumprimento da missão institucional.” A missão institucional envolve a obtenção de lucros, em regra, mas sempre aliada à promoção da ética. Na missão institucional se- rão estabelecidas determinadas metas para a empresa, que deverão ser buscadas pelos funcionários. Para tanto, cada um deve se preo- cupar com o aperfeiçoamento de suas capacidades, tornando-se pau- latinamente um melhor funcionário, por exemplo, buscando cursos e estudando técnicas.

pau- latinamente um melhor funcionário, por exemplo, buscando cursos e estudando técnicas. Didatismo e Conhecimento 8

Didatismo e Conhecimento

8
8
Ética no serviço Público QUINTO: “Acatar as ordens legais, não ser negligente e tra- balhar

Ética no serviço Público

QUINTO: “Acatar as ordens legais, não ser negligente e tra- balhar em harmonia com a estrutura do órgão, respeitando a hie-

rarquia, seus colegas e cada concidadão, colaborando e aceitando colaboração.” Existe uma hierarquia para que as funções sejam desempenha- das da melhor maneira possível, pois a desordem não permite que

as atividades se encadeiem e se enlacem, gerando perda de tempo e

desperdício de recursos. Não significa que ordens contrárias à ética devam ser obedecidas, caso em que a medida cabível é levar a ques- tão para as autoridades responsáveis pelo controle da ética da insti- tuição. Cada atividade deve ser desempenhada da melhor maneira possível, isto é, não se pode deixar de praticá-la corretamente por ser mais trabalhoso (por negligência entende-se uma omissão perigosa). No tratamento dos demais colegas e do público, o funcionário deve ser cordial e ético, embora somente assim estará contribuindo para a gestão ética da empresa.

SEXTO: “Agir, na vida pessoal e funcional, com dignidade, de- coro, zelo, eficácia e moralidade.”

O bom comportamento não deve se fazer presente somente no

exercício das funções. Cabe ao funcionário se portar bem quando estiver em sua vida privada, na convivência com seus amigos e fa-

miliares, bem como nos momentos de lazer. Por melhor que seja como funcionário, não será aceito aquele que, por exemplo, for visto frequentemente embriagado ou for sempre denunciado por violência doméstica. Dignidade é a característica que incorpora todas as demais, significando o bom comportamento enquanto pessoa humana, tra- tando os outros como gosta de ser tratado. Decoro significa discri- ção, aparecer o mínimo possível, não se vangloriar com base em feitos institucionais. Zelo quer dizer cuidado, cautela, para que as atividades sempre sejam desempenhadas do melhor modo. Eficácia remete ao dever de fazer com que suas atividades atinjam o fim para

o qual foram praticadas, isto é, que não sejam abandonadas pela

metade. Moralidade significa respeitar os ditames morais, mais que jurídicos, que exteriorizam os valores tradicionais consolidados na sociedade através dos tempos.

SÉTIMO: “Jamais tratar mal ou deixar à espera de solução

uma pessoa que busca perante a Administração Pública satisfazer um direito que acredita ser legítimo.”

O bom atendimento do público é necessário para que uma ges-

tão possa ser considerada ética. Aquele que tem um direito merece ser ouvido, não pode ser deixado de lado pelo funcionário, esperan- do por horas uma solução. Mesmo que a pessoa esteja errada, isto deve ser esclarecido, de forma que a confiabilidade na instituição não fique abalada.

OITAVO: “Cumprir e fazer cumprir as leis, os regulamentos, as instruções e as ordens das autoridades a que estiver subordinado.”

O Direito é uma das facetas mais relevantes da Ética porque

exterioriza o valor do justo e o seu cumprimento é essencial para que

a gestão ética seja efetiva.

NONO: “Agir dentro da lei e da sua competência, atento à fi- nalidade do serviço público.” Não basta cumprir o Direito, é preciso respeitar a divisão de funções feitas com o objetivo de otimizar as atividades desempe- nhadas.

DÉCIMO: “Buscar o bem-comum, extraído do equilíbrio entre a legalidade e finalidade do ato administrativo a ser praticado.” Bem comum é o bem de toda a coletividade e não de um só indivíduo. Este conceito exterioriza a dimensão coletiva da ética. Maritain 27 apontou as características essenciais do bem comum:

redistribuição, pela qual o bem comum deve ser redistribuído às pessoas e colaborar para o desenvolvimento delas; respeito à auto- ridade na sociedade, pois a autoridade é necessária para conduzir a comunidade de pessoas humanas para o bem comum; moralidade, que constitui a retidão de vida, sendo a justiça e a retidão moral ele- mentos essenciais do bem comum.

5 ÉTICA NO SETOr PúBlICO

O paradigma da Ética Pública parte da noção de liberdade so- cial, envolta nos valores da segurança, igualdade e solidariedade. Neste sentido, cada pessoa deve ter espaço para exercer individu- almente sua liberdade moral, cabendo à ética pública garantir que os indivíduos que vivem em sociedade realizem projetos morais individuais. A Ética Pública pode ser vista sob o aspecto da moralidade crí- tica e sob o aspecto da moralidade legalizada: quando estuda-se a lei posta ou a ausência de lei e questiona-se a falta de justiça, há uma moralidade crítica; quando a regra justa é incorporada ao Direito, há moralidade legalizada ou positivada. Sobre a Ética Pública, explica Nalini 28 : “Ética é sempre ética, poder-se-ia afirmar. Ser ético é obrigação de todos. Seja no exercício de alguma atividade estatal, seja no comportamento individual. Mas pode-se falar em ética realçada quando se atua num universo mais amplo, de interesse de todos. Existe, pois, uma Ética Pública, e apu- ra-se o seu sentido em contraposição com o de Ética Privada. Um nome pelo qual a Ética Pública tem sido conhecida é o da justiça” Assim, ética pública seria a moral incorporada ao Direito, con- solidando o valor do justo. Diante da relevância social de que a Éti- ca se faça presente no exercício das atividades públicas, as regras éticas para a vida pública são mais do que regras morais, são re- gras jurídicas estabelecidas em diversos diplomas do ordenamento, possibilitando a coação em caso de infração por parte daqueles que desempenham a função pública. Os valores éticos inerentes ao Estado, os quais permitem que ele consolide o bem comum e garanta a preservação dos interesses da coletividade, se encontram exteriorizados em princípios e regras. Estes, por sua vez, são estabelecidos na Constituição Federal e em legislações infraconstitucionais, a exemplo das que serão estudadas neste tópico, quais sejam: Decreto n° 1.171/94, Lei n° 8.112/90 e Lei n° 8.429/92. Fato é que todas as diretivas destas leis específicas partem da Constituição Federal, que estabelece alguns princípios fundamentais para a ética no setor público. Em outras palavras, é o texto constitucional do artigo 37, especialmente o caput, que permite a compreensão de boa parte do conteúdo das leis específicas, porque possui um caráter amplo ao preconizar os princípios fundamentais da administração pública. Estabelece a Constituição Federal:

27 MArITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei

natural. 3. ed. rio de Janeiro: livraria José Olympio Editora,

1967.

28

NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. 8. ed.

São Paulo: revista dos Tribunais, 2011.

José Renato. Ética geral e profissional. 8. ed. São Paulo: revista dos Tribunais, 2011. Didatismo e

Didatismo e Conhecimento

9
9
Ética no serviço Público Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos

Ética no serviço Público

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Mu- nicípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: [ São princípios da administração pública, nesta ordem:

legalidade impessoalidade Moralidade Publicidade eficiência Para memorizar: veja que as iniciais das palavras formam o vo- cábulo LIMPE, que remete à limpeza esperada da Administração Pública. É de fundamental importância um olhar atento ao significa-

do de cada um destes princípios, posto que eles estruturam todas as regras éticas prescritas no Código de Ética e na Lei de Improbidade Administrativa, tomando como base os ensinamentos de Carvalho Filho 29 e Spitzcovsky 30 :

a) Princípio da legalidade: Para o particular, legalidade signi-

fica a permissão de fazer tudo o que a lei não proíbe. Contudo, como

a administração pública representa os interesses da coletividade, ela se sujeita a uma relação de subordinação, pela qual só poderá fa- zer o que a lei expressamente determina (assim, na esfera estatal,

é preciso lei anterior editando a matéria para que seja preservado o

princípio da legalidade). A origem deste princípio está na criação do Estado de Direito, no sentido de que o próprio Estado deve respeitar

as leis que dita.

b) Princípio da impessoalidade: Por força dos interesses que

representa, a administração pública está proibida de promover dis-

criminações gratuitas. Discriminar é tratar alguém de forma diferen-

te dos demais, privilegiando ou prejudicando. Segundo este princí-

pio, a administração pública deve tratar igualmente todos aqueles que se encontrem na mesma situação jurídica (princípio da isonomia ou igualdade). Por exemplo, a licitação reflete a impessoalidade no que tange à contratação de serviços. O princípio da impessoalidade

correlaciona-se ao princípio da finalidade, pelo qual o alvo a ser al- cançado pela administração pública é somente o interesse público. Com efeito, o interesse particular não pode influenciar no tratamento das pessoas, já que deve-se buscar somente a preservação do inte- resse coletivo.

c) Princípio da moralidade: A posição deste princípio no ar-

tigo 37 da CF representa o reconhecimento de uma espécie de mo-

ralidade administrativa, intimamente relacionada ao poder público.

A administração pública não atua como um particular, de modo que

enquanto o descumprimento dos preceitos morais por parte deste particular não é punido pelo Direito (a priori), o ordenamento jurí-

dico adota tratamento rigoroso do comportamento imoral por parte dos representantes do Estado. O princípio da moralidade deve se fazer presente não só para com os administrados, mas também no âmbito interno. Está indissociavelmente ligado à noção de bom ad- ministrador, que não somente deve ser conhecedor da lei, mas tam- bém dos princípios éticos regentes da função administrativa. TODO ATO IMORAL SERÁ DIRETAMENTE ILEGAL OU AO MENOS IMPESSOAL, daí a intrínseca ligação com os dois princípios ante- riores.

]

29 CArVAlHO FIlHO, José dos Santos. Manual de

direito administrativo. 23. ed. rio de Janeiro: lumen juris, 2010.

30 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed.

São Paulo: Método, 2011.

d) Princípio da publicidade: A administração pública é obri-

gada a manter transparência em relação a todos seus atos e a todas informações armazenadas nos seus bancos de dados. Daí a publica- ção em órgãos da imprensa e a afixação de portarias. Por exemplo, a própria expressão concurso público (art. 37, II, CF) remonta ao ide- ário de que todos devem tomar conhecimento do processo seletivo de servidores do Estado. Diante disso, como será visto, se negar in-

devidamente a fornecer informações ao administrado caracteriza ato de improbidade administrativa. Somente pela publicidade os indiví- duos controlarão a legalidade e a eficiência dos atos administrativos. Os instrumentos para proteção são o direito de petição e as certidões (art. 5°, XXXIV, CF), além do habeas data e - residualmente - do mandado de segurança.

e) Princípio da eficiência: A administração pública deve man-

ter o ampliar a qualidade de seus serviços com controle de gastos. Isso envolve eficiência ao contratar pessoas (o concurso público

seleciona os mais qualificados ao exercício do cargo), ao manter tais pessoas em seus cargos (pois é possível exonerar um servidor público por ineficiência) e ao controlar gastos (limitando o teto de remuneração), por exemplo. O núcleo deste princípio é a procura por produtividade e economicidade. Alcança os serviços públicos

e os serviços administrativos internos, se referindo diretamente à conduta dos agentes. Além destes cinco princípios administrativo-constitucionais diretamente selecionados pelo constituinte, podem ser apontados

como princípios de natureza ética relacionados à função pública a probidade e a motivação:

a) Princípio da probidade: um princípio constitucional inclu-

ído dentro dos princípios específicos da licitação, é o dever de todo o administrador público, o dever de honestidade e fidelidade com o Estado, com a população, no desempenho de suas funções. Possui contornos mais definidos do que a moralidade. Diógenes Gasparini 31 alerta que alguns autores tratam vêem como distintos os princípios da moralidade e da probidade administrativa, mas não há caracterís- ticas que permitam tratar os mesmos como procedimentos distintos, sendo no máximo possível afirmar que a probidade administrativa é um aspecto particular da moralidade administrativa.

b) Princípio da motivação: É a obrigação conferida ao admi-

nistrador de motivar todos os atos que edita, gerais ou de efeitos concretos. É considerado, entre os demais princípios, um dos mais importantes, uma vez que sem a motivação não há o devido pro- cesso legal, uma vez que a fundamentação surge como meio inter- pretativo da decisão que levou à prática do ato impugnado, sendo verdadeiro meio de viabilização do controle da legalidade dos atos da Administração. Motivar significa mencionar o dispositivo legal aplicável ao caso concreto e relacionar os fatos que concretamente levaram à aplicação daquele dispositivo legal. Todos os atos administrativos

devem ser motivados para que o Judiciário possa controlar o méri- to do ato administrativo quanto à sua legalidade. Para efetuar esse controle, devem ser observados os motivos dos atos administrativos. Em relação à necessidade de motivação dos atos administrativos vinculados (aqueles em que a lei aponta um único comportamento possível) e dos atos discricionários (aqueles que a lei, dentro dos li- mites nela previstos, aponta um ou mais comportamentos possíveis, de acordo com um juízo de conveniência e oportunidade), a doutrina

é uníssona na determinação da obrigatoriedade de motivação com

relação aos atos administrativos vinculados; todavia, diverge quanto

à referida necessidade quanto aos atos discricionários.

31 GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 9ª ed.

São Paulo: Saraiva, 2004.

31 GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2004. Didatismo e Conhecimento 10

Didatismo e Conhecimento

10
10
Ética no serviço Público Meirelles 3 2 entende que o ato discricionário, editado sob os

Ética no serviço Público

Meirelles 32 entende que o ato discricionário, editado sob os li- mites da Lei, confere ao administrador uma margem de liberdade para fazer um juízo de conveniência e oportunidade, não sendo ne- cessária a motivação. No entanto, se houver tal fundamentação, o ato deverá condicionar-se a esta, em razão da necessidade de obser- vância da Teoria dos Motivos Determinantes. O entendimento ma- joritário da doutrina, porém, é de que, mesmo no ato discricionário, é necessária a motivação para que se saiba qual o caminho adotado pelo administrador. Gasparini 33 , com respaldo no art. 50 da Lei n. 9.784/98, aponta inclusive a superação de tais discussões doutriná- rias, pois o referido artigo exige a motivação para todos os atos nele elencados, compreendendo entre estes, tanto os atos discricionários quanto os vinculados.

5.1 DECRETo Nº 1.171/1994 (CóDIGo DE ÉTICA PrOFISSIONAl DO SErVIDOr PúBlICO CIVIl DO PODEr EXECUTIVO FEDErAl).

Considerados os princípios administrativos basilares do art. 37 da CF, destaca-se a existência de um diploma específico que estabe- lece a ação ética esperada dos servidores públicos, qual seja o De- creto n° 1.171/94. Trata-se do chamado Código de Ética do Servidor

Público, o qual disciplina normas éticas aplicáveis a esta categoria de profissionais, assemelhando-se no formato aos Códigos de Ética que costumam ser adotados para variadas categorias profissionais

(médicos, contadores

caráter jurídico, logo, coativo.

mas diferenciando-se destes por possuir o

),

A respeito dos motivos que ensejam a criação de um Código de Ética, tem-se que “as relações de valor que existem entre o ideal moral traçado e os diversos campos da conduta humana podem ser reunidas em um instrumento regulador. Tal conjunto racional, com o propósito de estabelecer linhas ideais éticas, já é uma aplicação desta ciência que se consubstancia em uma peça magna, como se uma lei fosse entre partes pertencentes a grupamentos sociais. Uma espécie de contrato de classe gera o Código de Ética Profissional e os órgãos de fiscalização do exercício passam a controlar a execução de tal peça magna. Tudo deriva, pois, de critérios de condutas de um indi- víduo perante seu grupo e o todo social. O interesse no cumprimento do aludido código passa, entretanto, a ser de todos. O exercício de uma virtude obrigatória torna-se exigível de cada profissional [ ], mas com proveito geral. Cria-se a necessidade de uma mentalidade ética e de uma educação pertinente que conduza à vontade de agir, de acordo com o estabelecido. Essa disciplina da atividade é antiga, já encontrada nas provas históricas mais remotas, e é uma tendência natural na vida das comunidades. É inequívoco que o ser tenha sua individualidade, sua forma de realizar seu trabalho, mas também o é que uma norma comportamental deva reger a prática profissional no que concerne a sua conduta, em relação a seus semelhantes” 34 .

32 MEIrEllES, Hely lopes. Direito administrativo

brasileiro. São Paulo: Malheiros, 1993.

33 GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 9ª ed.

São Paulo: Saraiva, 2004.

34 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

Logo, embora se reconheça que o indivíduo tem particularida- des no desempenho de suas funções, isto é, que emprega algo de sua personalidade no exercício delas, cabe o estabelecimento de um rol de condutas padronizadas genericamente, as quais correspondem ao melhor desempenho profissional que se pode ter, um desempenho ético. “Para que um Código de Ética Profissional seja organizado, é

preciso, preliminarmente, que se trace a sua base filosófica. Tal base deve estribar-se nas virtudes exigíveis a serem respeitadas no exer- cício da profissão, e em geral abrange as relações com os utentes dos serviços, os colegas, a classe e a nação. As virtudes básicas são comuns a todos os códigos. As virtudes específicas de cada profissão representam as variações entre os diversos estatutos éticos. O zelo, por exemplo, é exigível em qualquer profissão, pois representa uma qualidade imprescindível a qualquer execução de trabalho, em qual- quer lugar. O sigilo, todavia, deixa de ser necessário em profissões que não lidam com confidências e resguardos de direitos” 35 . Por exemplo, o servidor público tem o dever de zelo, genérico, e o dever de sigilo, específico, já que tem acesso a informações privilegiadas no exercício do cargo. Tomadas estas premissas, vale lembrar que o Código de Ética foi expedido pelo Presidente da República, considerada a atribuição da Constituição Federal para dispor sobre a organização e o fun- cionamento da administração pública federal, conforme art. 84, IV e VI da Constituição Federal: “IV - sancionar, promulgar e fazer publicar as leis, bem como expedir decretos e regulamentos para sua

VI - dispor, mediante decreto, sobre: a) organiza-

ção e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos; b) extinção de funções ou cargos públicos, quando vagos”. Exatamente por causa desta atribuição que o Código de Ética em estudo adota a forma de decreto e não de lei, já que as leis são elaboradas pelo Poder Legislativo (Congresso Nacional). O Decreto n° 1.171/94 é um exemplo do chamado exercício de poder regulamentar inerente ao Executivo, que se perfaz em decre- tos regulamentares. Embora sejam factíveis decretos autônomos 36 , não é o caso do decreto em estudo, o qual encontra conexão com diplomas como as Leis n° 8.112/90 (regime jurídico dos servidores públicos federais) e Lei n° 8.429/92 (lei de improbidade adminis- trativa), além da Constituição Federal. Assim, o decreto nº 1.171/94 não é autônomo! Ainda assim, inegável que o decreto impõe normas de condu- ta, o que gera controvérsias sobre o nível de obrigatoriedade dele. Autores como Azevedo 37 se posicionam pela inconstitucionalidade do Decreto: “O Decreto 1171 é inconstitucional, na medida em que impõe regras de condutas, ferindo a Constituição. Esta Lei Máxima diz, no seu art. 5º, diz que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” e que “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação le- gal”. Esta lei citada pelo art. 5º é a norma primária, não podendo ser confundida com a possibilidade de ser imposta normas de conduta

pela norma secundária.

fiel execução; [

]

35 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

36 lENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado.

15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

37 AZEVEDO, Márcio. Ética no serviço público federal.

Disponível em: <http://portal.damasio.com.br/Arquivos/ Material/AulasOnline_MarcioAzevedo1.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2013.

Material/AulasOnline_MarcioAzevedo1.pdf>. Acesso em: 12 ago. 2013. Didatismo e Conhecimento 11

Didatismo e Conhecimento

11
11
Ética no serviço Público Assim, não poderia ser imposta nenhuma norma de conduta a alguém

Ética no serviço Público

Assim, não poderia ser imposta nenhuma norma de conduta a alguém via Decreto, que é uma norma secundária, porque só a nor- ma primária tem esta capacidade constitucional. Atualmente, com a nova redação do art. 84, inciso VI, dada pela Emenda Constitu- cional nº 32, de 11 de setembro de 2001, é possível falar em De- creto Autônomo. Isto é: é possível falar em Decreto como norma primária, para fins de dispor sobre organização e funcionamento da Administração Pública Federal, quando não houver aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos, e também para extinguir funções ou cargos públicos, quando vagos. Somente uma grande força de interpretação, que chegaria a ultrapassar os limites constitucionais do art. 84, VI, da CF/88, poderia aceitar que a cria- ção de normas de conduta para servidores públicos estaria inserta na organização e funcionamento da Administração Pública Federal. Apesar disto, o fato é que o Decreto Autônomo só apareceu verda- deiramente no ordenamento jurídico nacional em 11 de setembro de 2001, e o Decreto nº 1.171 é de 22 de junho de 1994, quando não havia no ordenamento jurídico o Decreto como norma primária. Por isso, o Decreto nº 1.171 não impõe coerção quanto às normas materiais nele indicadas; impõe tão somente em relação às normas processuais, como a obrigação de criação de Comissão de Ética por todas as entidades e órgãos públicos federais”. Não se corrobora, em parte, o entendimento. O fato dos de- cretos autônomos terem surgido após o Decreto nº 1.171/94 não o transforma em norma primária, realmente. Contudo, trata-se de uma norma secundária que encontra bases em normas primárias, quais sejam a Lei nº 8.112/90 e a Lei nº 8.429/92: na prática, todas as diretrizes estabelecidas no Código de Ética são repetidas em leis federais e decorrem diretamente do texto constitucional. Assim, a adoção da forma de decreto não significa, de forma alguma, que suas diretrizes não sejam obrigatórias: o servidor público federal que desobedecê-las estará sujeito à apuração de sua conduta perante a respectiva Comissão de Ética, que enviará informações ao proces- so administrativo disciplinar, podendo gerar até mesmo a perda do cargo, ou aplicará a pena de censura nos casos menos graves. Não obstante, o respeito ao Código gera reconhecimento e é verificado para fins de promoção. Isso sem falar na total efetividade das regras determinantes da instituição de Comissões de Ética.

DECRETO N° 1.171 DE 22 DE JUNHO DE 1994 Aprova o Código de Ética Profissional do Servidor Público Ci- vil do Poder Executivo Federal. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso das atribuições que lhe confere o art. 84, incisos IV e VI, e ainda tendo em vista o dis- posto no art. 37 da Constituição, bem como nos arts. 116 e 117 da Lei n° 8.112, de 11 de dezembro de 1990, e nos arts. 10, 11 e 12 da Lei n° 8.429, de 2 de junho de 1992, DECRETA:

Art. 1° Fica aprovado o Código de Ética Profissional do Servi- dor Público Civil do Poder Executivo Federal, que com este baixa.

Art. 2° Os órgãos e entidades da Administração Pública Fe- deral direta e indireta implementarão, em sessenta dias, as provi- dências necessárias à plena vigência do Código de Ética, inclusive mediante a Constituição da respectiva Comissão de Ética, integra- da por três servidores ou empregados titulares de cargo efetivo ou emprego permanente.

Parágrafo único. A constituição da Comissão de Ética será co- municada à Secretaria da Administração Federal da Presidência da república, com a indicação dos respectivos membros titulares e suplentes.

Art. 3° Este decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 22 de junho de 1994, 173° da Independência e 106° da República. ITAMAR FRANCO Romildo Canhim

Os principais elementos que podem ser extraídos do preâmbulo do Código de Ética são:

Trata-se de um diploma expedido pelo Presidente da República

à época e, como tal, permanece válido até que seja revogado, isto

é, até sobrevir outro de conteúdo incompatível (revogação tácita) ou até outro decreto ser expedido para substituí-lo (revogação ex- pressa). O decreto aceita, ainda, reformas e revogações parciais: no caso, destaca-se o Decreto n° 6.029/07, que revogou alguns incisos do Código e que será estudado oportunamente. Parâmetros para o conteúdo do decreto: os incisos do artigo 84, já citados anteriormente, remetem ao poder regulamentar o Executi-

vo; os artigos da Lei n° 8.112/90 referem-se aos deveres e proibições do servidor público federal; os artigos da Lei n° 8.429/92 tratam dos atos de improbidade administrativa.

A partir da aprovação do Código de Ética, ele se tornou obri-

gatório a todas as esferas da atividade pública. Daí a obrigação de instituir o aparato próprio ao seu cumprimento, inclusive mediante

criação das Comissões de Ética, as quais não podem ser compostas por servidores temporários.

O decreto conferiu um prazo para cada uma das entidades da

administração pública federal direta ou indireta para constituir em seu âmbito uma comissão de Ética que irá apurar as infrações ao Código de Ética. Com efeito, não há nenhuma facultatividade quan- to ao dever de respeito ao Código de Ética, pois ele se aplica tanto

na administração direta quanto na indireta. A Comissão de Ética será composta por: três servidores ou empregados titulares de cargo efe- tivo ou emprego permanente. A constituição (quando foi criada) e a composição (quem a compõe) da Comissão deverão ser informadas

à Secretaria da Administração Federal da Presidência da República.

ANEXO

CÓDIGO DE ÉTICA PrOFISSIONAl DO SErVIDOr PúBlI- CO CIVIl DO PODEr EXECUTIVO FEDErAl

CAPÍTUlO I SEçãO I DAS rEGrAS DEONTOlÓGICAS

O Direito como valor do justo é estudado pela Filosofia do Di-

reito na parte denominada Deontologia Jurídica, ou, no plano em- pírico e pragmático, pela Política do Direito 38 . Deontologia é uma das teorias normativas segundo as quais as escolhas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas. Portanto inclui-se entre as te- orias morais que orientam nossas escolhas sobre o que deve ser

feito, considerada a moral vigente.

38 REALE, Miguel. Filosofia do Direito. 19. ed. São

Paulo: Saraiva, 2002.

a moral vigente . 38 REALE, Miguel. Filosofia do Direito. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

Didatismo e Conhecimento

12
12
Ética no serviço Público Por sua vez, a deontologia jurídica é a ciência que cuida

Ética no serviço Público

Por sua vez, a deontologia jurídica é a ciência que cuida dos deveres e dos direitos dos operadores do Direito, bem como de seus fundamentos éticos e legais, conoslidando o valor do justo. Por isso, os incisos que se seguem traduzem o comportamento moral espera- do do servidor público não só enquanto desempenha suas funções, mas também em sua vida social. Deontologia é, assim, a teoria do dever no que diz respeito à moral; conjunto de deveres que impõe a certos profissionais o cum- primento da sua função. Pode-se dizer ainda que a deontologia con- siste no conjunto de regras e princípios que regem a conduta de um profissional, uma ciência que estuda os deveres de uma determinada profissão. O profissional brasileiro está sujeito a uma deontologia própria a regular o exercício de sua profissão conforme o Código de Ética de sua classe. O Direito é o mínimo de moral para que o homem viva em sociedade e a deontologia dele decorre posto que trata de direitos e deveres dos profissionais que estejam sujeitos a especificidade destas normas. O Código de Ética cria regras deontológicas de ética, isto é, cria um sistema de princípios e fundamentos da moral, daí porque não se preocupa com a previsão de punição e processo disciplinar contra o

servidor antiético, apesar de, na maioria das vezes, haver coincidên- cia entre a conduta antiética e a necessidade de punição administrati- va. A verdadeira intenção do Código de Ética foi estimular os órgãos e entidades públicas federais a promoverem o debate sobre a ética, para que ela, e as discussões que dela se extrai, permeie amiúde as repartições, até com naturalidade. “Muitas são as virtudes que um profissional precisa ter para que desenvolva com eficácia seu trabalho. Em verdade, múltiplas exigências existem, mas entre elas, destacam-se algumas, básicas, sem as quais se impossibilita a consecução do êxito moral. Quase sempre, na maioria dos casos, o sucesso profissional se az acompa- nhar de condutas fundamentais corretas. Tais virtudes básicas são

Virtudes básicas profissio-

comuns a quase todas as profissões [

nais são aquelas indispensáveis, sem as quais não se consegue a re- alização de um exercício ético competente, seja qual for a natureza do serviço prestado. Tais virtudes devem formar a consciência ética estrutural, os alicerces do caráter e, em conjunto, habilitarem o pro- fissional ao êxito em seu desempenho” 39 . Para bem compreender o conteúdo dos incisos que se seguem, é importante pensar: se eu fosse a pessoa buscando atendimento no ór- gão público em questão, como eu gostaria de ser tratado? Qual o tipo de funcionário que eu gostaria que fosse responsável pela solução do meu problema? Enfim, basta lembrar da regra de ouro da moralida- de, pela qual eu somente devo fazer algo se racionalmente desejar que todas as pessoas ajam da mesma forma - inclusive em relação a mim, ou seja, “age de tal modo que a máxima de tua vontade possa valer-te sempre como princípio de uma legislação universal” 40 .

].

I - A dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência dos princípios morais são primados maiores que devem nortear o ser- vidor público, seja no exercício do cargo ou função, ou fora dele, já que refletirá o exercício da vocação do próprio poder estatal. Seus atos, comportamentos e atitudes serão direcionados para a preser- vação da honra e da tradição dos serviços públicos.

39 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

40 KANT, Immanuel. Crítica da razão Prática. Tradução

Paulo Barrera. São Paulo: Ícone, 2005, p. 32.

Primeiramente, vale compreender o sentido de algumas pala- vras do inciso: por dignidade, deve-se entender autoridade moral; por decoro, compostura e decência; por zelo, cuidado e atenção; por eficácia, a produção do efeito esperado. Na verdade, tudo isto abrange o que o inciso chama de consci- ência dos princípios morais: sei que devo agir de modo que inspire os demais que me rodeiam, isto é, exatamente como o melhor cida- dão de bem; no desempenho das minhas funções, devo me manter sério e comprometido, desempenhando cada uma das atribuições recebidas com o maior cuidado e atenção possível, evitando erros, de modo que o serviço que eu preste seja o melhor que eu puder prestar. Não basta que o funcionário aja desta forma no exercício de suas funções, porque ele participa da sociedade e fica conhecido nela. O desempenho de cargo público, por sua vez, faz com que ele seja visto de outra forma pela sociedade, que espera dele uma conduta ilibada, ou seja, livre de vícios e compulsões. Discrição é a palavra-chave para a vida particular do servidor público, preser- vando a instituição da qual faz parte. Por exemplo, quem se sentiria bem em ser atendido por um funcionário que é sempre visto embria- gado em bares ou provocando confusões familiares, por mais que os serviços por ele desempenhados sejam de qualidade? O comportamento ético do servidor público na sua vida particu- lar só é exigível se, pela natureza do cargo, houver uma razoável exi- gência do servidor se comportar moralmente, como invariavelmente ocorre nas carreiras típicas de Estado. O que dizer então do Decreto nº 1.171, de 1994, que impõe o comportamento ético e moral de todo e qualquer servidor, na sua vida particular, independentemente da natureza do seu cargo? Quando tal Código estabelece, logo no Capítulo I do Anexo, algumas “Regras Deontológicas”, quer dizer que o servidor público está envolto em um sistema onde a moral tem forte influência no desenvolvimento da sua carreira pública. Assim, quem passa pelo serviço público sabe ou deveria saber que a promo- ção profissional e o adequado cumprimento das atribuições do cargo estão condicionados também pela ética e, assim, pelo comportamen- to particular do servidor.

II - O servidor público não poderá jamais desprezar o elemento ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto, consoante as regras contidas no art. 37, caput, e § 4°, da Constituição Federal. Este inciso traz alguns binômios abrangidos pelo conceito de ética que se contrapõem. Com efeito, o servidor deve sempre esco- lher o conveniente, o oportuno, o justo e o honesto. No caso, par- te-se das escolhas de menor relevância para aquelas fundamentais, que envolvem a opção pelo justo e honesto. Estes são os principais valores morais exigidos pelo inciso. Quando se fala que é preciso escolher acima de tudo entre honesto e desonesto, evidencia-se que o Código busca mais do que o respeito à lei, e sim a efetiva ação conforme a moralidade. Vale destacar o artigo 37 da Constituição Federal, ao qual o inciso em estudo faz remissão e que foi estudado em detalhes na introdução ao tópico.

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Mu- nicípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade,

moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: [

]

legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: [ ] Didatismo e Conhecimento 13

Didatismo e Conhecimento

13
13
Ética no serviço Público § 4º Os atos de improbidade administrativa importarão a sus- pensão

Ética no serviço Público

§ 4º Os atos de improbidade administrativa importarão a sus- pensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indispo- nibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e grada- ção previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.

Nota-se que o inciso faz referência ao §4°, que traz as conse- quências dos atos de improbidade administrativa, que poderão variar conforme o grau de gravidade (uma das sanções possíveis é a de obrigar o servidor a devolver o dinheiro aos cofres públicos, o que se entende por ressarcir o erário).

III - A moralidade da Administração Pública não se limita à

distinção entre o bem e o mal, devendo ser acrescida da ideia de

que o fim é sempre o bem comum. O equilíbrio entre a legalidade e a finalidade, na conduta do servidor público, é que poderá consolidar a moralidade do ato administrativo. Bem e mal são conceitos que transcendem a esfera particular.

O servidor público não deve pensar por uma pessoa, mas por toda a

sociedade. Assim, não se deve agir de uma forma para beneficiar um

particular - ainda que isso possa ser um bem para ele, é injusto para com a sociedade que uma pessoa seja tratada melhor que a outra.

O fim da atitude do servidor é o bem comum, ou seja, o bem da

coletividade. O coletivo sempre deve prevalecer sobre o particular. Por isso, o servidor deve equilibrar a legalidade, que é o res- peito ao que a lei determina, e a finalidade, que é a busca do fim da preservação do bem comum. Assim, o respeito à lei é fundamental, mas a atitude do servidor não pode cair numa burocratização sem sentido, ou seja, o respeito às minúcias da lei não pode prejudicar o bem comum, sob pena de violar a moralidade.

IV - A remuneração do servidor público é custeada pelos tribu-

tos pagos direta ou indiretamente por todos, até por ele próprio, e por isso se exige, como contrapartida, que a moralidade adminis- trativa se integre no Direito, como elemento indissociável de sua aplicação e de sua finalidade, erigindo-se, como consequência, em fator de legalidade.

O servidor público deve colocar de lado seus interesses egoís- ticos e buscar a aplicação da moralidade no Direito, lembrando que quem paga pelos seus serviços é a sociedade como um todo. “Parece ser uma tendência do ser humano, como tem sido objeto de refe- rência de muitos estudiosos, a de defender, em primeiro lugar, seus interesses próprios, quando, entretanto, esses são de natureza pouco recomendável, ocorrem seriíssimos problemas. Quando o trabalho é executado só para auferir renda, em geral, tem seu valor restrito. Por outro lado, nos serviços realizados com amor, visando ao benefício de terceiros, dentro de vasto raio de ação, com consciência do bem comum, passa a existir a expressão social do mesmo. O valor ético do esforço é, pois, variável de acordo com seu alcance em face da comunidade. Aquele que só se preocupa com os lucros, geralmente, tende a ter menor consciência de grupo. Fascinado pela preocupação monetária, a ele pouco importa o que ocorre com a sua comuni-

O egoísmo desenfreado

dade e muito menos com a sociedade. [

pode atingir um número expressivo de pessoas e até, através delas,

influenciar o destino de nações, partindo da ausência de conduta vir- tuosa de minorias poderosas, preocupadas apenas com seus lucros.

] [

Sabemos que a conduta do ser humano tende ao egoísmo, repe-

timos, mas, para os interesses de uma classe, de toda uma socieda- de, é preciso que se acomode às normas, porque estas devem estar apoiadas em princípios de virtude.

]

Como só a atitude virtuosa tem condições de garantir o bem comum, a Ética tem sido o caminho justo, adequado, para o bene- fício geral” 41 .

V - O trabalho desenvolvido pelo servidor público perante a co- munidade deve ser entendido como acréscimo ao seu próprio bem- -estar, já que, como cidadão, integrante da sociedade, o êxito desse trabalho pode ser considerado como seu maior patrimônio. O cidadão paga impostos e demais tributos apenas para que o Estado garanta a ele a prestação do melhor serviço público possível, isto é, a manutenção de uma sociedade justa e bem estruturada. O mesmo dinheiro que sai dos bolsos do cidadão, inclusive do próprio servidor público, é o que remunera os serviços por ele prestados. Por isso, agir contra a moral é insultante, mais que um aproveitamento da máquina estatal, é um desrespeito ao cidadão honesto que paga parte do que recebe ao Estado. Assim, para bem aplicar o Direito é preciso agir conforme a moralidade administrativa, sob pena de mais que violar a lei, tam- bém desrespeitar o bem comum e prejudicar a sociedade como um todo - inclusive a si próprio. No mais, chama-se atenção à vedação de que o servidor rece- ba do particular qualquer verba extra: sua remuneração já é paga pelo particular, por meio dos impostos, não devendo pretender mais do que aquilo. Isto não significa que o patrimônio do servidor seja apenas o seu salário - há um patrimônio inerente à boa prestação do serviço, proporcionando a melhoria da sociedade em que vive.

VI - A função pública deve ser tida como exercício profissional e, portanto, se integra na vida particular de cada servidor público. Assim, os fatos e atos verificados na conduta do dia-a-dia em sua vida privada poderão acrescer ou diminuir o seu bom conceito na vida funcional. Reiterando o que foi dito no inciso I, o Código de Ética lembra que um funcionário público carrega consigo a imagem da adminis- tração pública, ou seja, não é servidor público apenas quando está desempenhando suas funções, mas o tempo todo. Por isso, não im- porta ser o melhor funcionário público da repartição se a vida parti- cular estiver devassada, isto é, se não agir com discrição, coerência, compostura e moralidade também na vida particular. Isso implica em ser um bom pai/mãe, uma pessoa livre de vícios, um cidadão reservado e cumpridor de seus deveres sociais.

VII - Salvo os casos de segurança nacional, investigações poli- ciais ou interesse superior do Estado e da Administração Pública, a serem preservados em processo previamente declarado sigiloso, nos termos da lei, a publicidade de qualquer ato administrativo consti- tui requisito de eficácia e moralidade, ensejando sua omissão com- prometimento ético contra o bem comum, imputável a quem a negar. Como visto, a publicidade é um princípio basilar da adminis- tração pública, ao lado da moralidade. Como tal, caminha lado a lado com ela. Não cabe ao servidor público negar o acesso à infor- mação por parte do cidadão, salvo em situações especiais. Nota-se que “quando benefícios morais se fazem exigíveis, especificamente, para um desempenho de labor, forçoso é cumpri-los; só podemos justificar o não cumprimento quando fatores de ordem muito su- perior o possam impedir, pois o descumprimento será sempre uma lesão à consciência ética” 42 .

41 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

42 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

9. ed. São Paulo: Atlas, 2010. 42 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Didatismo e Conhecimento

14
14
Ética no serviço Público ATENÇÃO: O dispositivo autoriza que os atos administrativos não sejam públicos

Ética no serviço Público

ATENÇÃO: O dispositivo autoriza que os atos administrativos não sejam públicos em situações excepcionais, quais sejam segu- rança nacional, investigações policiais e interesse superior do Esta- do e da Administração Pública.

VIII - Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria

pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação. Mentir é uma atitude contrária à moralidade esperada do ser- vidor público, ainda mais se tal mentira se referir à função desem- penhada, por exemplo, negando a prática de um ato ou informando erroneamente um cidadão. Não existe uma hipótese em que mentir

é aceito: não importa se dizer a verdade implicará em prejuízo à

administração Pública. Se o Estado errar, e isso pode acontecer, não deverá se eximir de seu erro com base em uma mentira, pois isto ofende a integridade dos cidadãos e da própria Nação. Para ser um bom país, não é preci- so se fundar em erros ou mentiras, mas sim se esforçar ao máximo para evitá-los e corrigi-los.

IX - A cortesia, a boa vontade, o cuidado e o tempo dedicados ao serviço público caracterizam o esforço pela disciplina. Tratar mal uma pessoa que paga seus tributos direta ou indiretamente significa causar-lhe dano moral. Da mesma forma, causar dano a qualquer bem pertencente ao patrimônio público, deteriorando-o, por descuido ou má vontade, não constitui apenas uma ofensa ao equipamento e às instalações ou ao Estado, mas a todos os homens de boa vontade que dedicaram sua inteligência, seu tempo, suas esperanças e seus esforços para construí-los. Quem nunca chegou a uma repartição pública ou cartório e recebeu um tratamento ruim por parte de um funcionário? Infeliz- mente, esta é uma atitude comum no serviço público. Contudo, o esperado do servidor é que ele atenda aos cidadãos com atenção e boa vontade, fazendo tudo o possível para ajudá-lo, despendendo o tempo necessário e tomando as devidas cautelas. O instituto da responsabilidade civil é parte integrante do di- reito obrigacional, uma vez que a principal consequência da prática

de um ato ilícito é a obrigação que gera para o seu auto de reparar

o dano, mediante o pagamento de indenização que se refere às per-

das e danos. Afinal, quem pratica um ato ou incorre em omissão que gere dano deve suportar as consequências jurídicas decorrentes, restaurando-se o equilíbrio social. 43 A responsabilidade civil, assim, difere-se da penal, podendo re- cair sobre os herdeiros do autor do ilícito até os limites da herança, embora existam reflexos na ação que apure a responsabilidade civil conforme o resultado na esfera penal (por exemplo, uma absolvição por negativa de autoria impede a condenação na esfera cível, ao pas- so que uma absolvição por falta de provas não o faz). Genericamente, os elementos da responsabilidade civil se en- contram no art. 186 do Código Civil: “aquele que, por ação ou omis- são voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Este é o artigo central do instituto da responsabilidade civil, que tem

Paulo: Atlas, 2010.

responsabilidade

43 GONçAlVES,

Carlos

roberto.

Civil. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2005.

como elementos: ação ou omissão voluntária (agir como não se deve

ou deixar de agir como se deve), culpa ou dolo do agente (dolo é a vontade de cometer uma violação de direito e culpa é a falta de dili- gência), nexo causal (relação de causa e efeito entre a ação/omissão

e o dano causado) e dano (dano é o prejuízo sofrido pelo agente, que

pode ser individual ou coletivo, moral ou material, econômico e não econômico). Prevê o artigo 37, §6° da Constituição Federal: “As pessoas

jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nes- sa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”. Este artigo deixa clara a formação de uma relação jurídica autônoma entre o Estado e

o agente público que causou o dano no desempenho de suas funções.

Nesta relação, a responsabilidade civil será subjetiva, ou seja, caberá

ao Estado provar a culpa do agente pelo dano causado, ao qual foi

anteriormente condenado a reparar. Direito de regresso é justamente

o direito de acionar o causador direto do dano para obter de volta

aquilo que pagou à vítima, considerada a existência de uma relação obrigacional que se forma entre a vítima e a instituição que o agente compõe. Assim, o Estado responde pelos danos que seu agente causar aos membros da sociedade, mas se este agente agiu com dolo ou culpa deverá ressarcir o Estado do que foi pago à vítima. O agente causará danos ao praticar condutas incompatíveis com o comporta- mento ético dele esperado. 44 A responsabilidade civil do servidor exige prévio processo ad- ministrativo disciplinar no qual seja assegurado contraditório e am- pla defesa. Trata-se de responsabilidade civil subjetiva ou com culpa. Havendo ação ou omissão com culpa do servidor que gere dano ao erário (Administração) ou a terceiro (administrado), o servidor terá

o dever de indenizar. Mais do que incômodo, maltratar um cidadão que busca aten- dimento pode caracterizar dano moral, isto é, gerar tamanho abalo emocional e psicológico que implique num dano. Apesar deste dano não ser econômico, isto é, de a dor causada não ter meio de com- pensação financeiro que a repare, o juiz estabelecerá um valor que a compense razoavelmente. Por sua vez, deteriorar o patrimônio público caracteriza dano material. No caso, há um correspondente financeiro direto, de modo que a condenação será no sentido de pagar ao Estado o equivalente ao bem destruído ou deteriorado.

X - Deixar o servidor público qualquer pessoa à espera de so- lução que compete ao setor em que exerça suas funções, permitindo a formação de longas filas, ou qualquer outra espécie de atraso na prestação do serviço, não caracteriza apenas atitude contra a ética ou ato de desumanidade, mas principalmente grave dano moral aos usuários dos serviços públicos. Este inciso é um desdobramento do inciso anterior, descreven- do um tipo específico de conduta imoral com relação ao usuário do serviço público, qual seja a de deixá-lo esperando por atendimento que seja de sua competência. Claro, a espera é algo natural, notada- mente quando o atendimento estiver sobrecarregado. O que o inciso pretende vetar é que as filas se alonguem quando o servidor enrola no atendimento, enfim, age com preguiça e desânimo.

44 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed.

São Paulo: Método, 2011.

e desânimo. 44 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Método, 2011. Didatismo e Conhecimento

Didatismo e Conhecimento

15
15
Ética no serviço Público XI - O servidor deve prestar toda a sua atenção às

Ética no serviço Público

XI - O servidor deve prestar toda a sua atenção às ordens legais de seus superiores, velando atentamente por seu cumprimento, e,

assim, evitando a conduta negligente. Os repetidos erros, o desca- so e o acúmulo de desvios tornam-se, às vezes, difíceis de corrigir

e caracterizam até mesmo imprudência no desempenho da função

pública. Dentro do serviço público há uma hierarquia, que deve ser obedecida para a boa execução das atividades. Seria uma desordem se todos mandassem e se cada qual decidisse que função iria de- sempenhar. Por isso, cabe o respeito ao que o superior determina, executando as funções da melhor forma possível. “A razão pela qual se exige uma disciplina do homem em seu grupo repousa no fato de que as associações possuem, por suas na- turezas, uma necessidade de equilíbrio que só se encontra quando a autonomia dos seres se coordena na finalidade do todo. É a lei dos

sistemas que se torna imperiosa, do átomo às galáxias, de cada indi-

Cada ser, assim como a somatória deles

em classe profissional, tem seu comportamento específico, guiado pela característica do trabalho executado. Cada conjunto de profis- sionais deve seguir uma ordem que permita a evolução harmônica do trabalho de todos, a partir da conduta de cada um, através de uma tutela no trabalho que conduza a regularização do individualismo perante o coletivo” 45 . Negligência é a omissão no agir como se deve, isto é, é deixar de fazer aquilo que lhe foi atribuído. As condutas negligentes devem ser evitadas, de modo que os erros sejam minimizados, a atenção seja uma marca do serviço e a retidão algo sempre presente. im- prudência, por sua vez, é o agir sem cuidado, sem zelo, causando prejuízo ao serviço público.

víduo até sua sociedade. [

]

XII - Toda ausência injustificada do servidor de seu local de

trabalho é fator de desmoralização do serviço público, o que quase sempre conduz à desordem nas relações humanas.

O servidor público tem obrigação de comparecer religiosa-

mente em seu local de trabalho no horário determinado. Todas as

ausências devem ser evitadas e, quando inevitáveis, devem ser jus- tificadas.

Os demais funcionários e a sociedade sempre ficam atentos às

atitudes do servidor público e qualquer percepção de relaxo no de- sempenho das funções será observada, notadamente no que tange a

ausências frequentes.

XIII - O servidor que trabalha em harmonia com a estrutura or-

ganizacional, respeitando seus colegas e cada concidadão, colabo- ra e de todos pode receber colaboração, pois sua atividade pública

é a grande oportunidade para o crescimento e o engrandecimento

da Nação. O bom desempenho das funções a o agir conforme o esperado pela sociedade implica numa boa imagem do servidor público, o que

permite que ele receba apoio dos demais quando realmente precisar.

“É inequívoco que o trabalho individual influencia e recebe in-

fluências do meio onde é praticado. Não é, pois, somente em seu grupo que o profissional dá sua contribuição ou a sonega. Quando adquire a consciência do valor social de sua ação, da vontade vol- vida ao geral, pode realizar importantes feitos que alcançam reper- cussão ampla” 46 .

45 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

46 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

SEçãO II DOS PrINCIPAIS DEVErES DO SErVIDOr PúBlICO

XIV - São deveres fundamentais do servidor público:

Embora se trate de outra seção do Código de Ética, há conti- nuidade no tratamento do agir moral esperado do servidor público. No caso, são elencados alguns deveres essenciais que devem ser obedecidos. “Todas as capacidades necessárias ou exigíveis para o desem- penho eficaz da profissão são deveres éticos. Sendo o propósito do

exercício profissional a prestação de uma utilidade a terceiros, todas as qualidades pertinentes à satisfação da necessidade, de quem re- quer a tarefa, passam a ser uma obrigação perante o desempenho. Logo, um complexo de deveres envolve a vida profissional, sob os ângulos da conduta a ser seguida para a execução de um trabalho” 47 .

a) desempenhar, a tempo, as atribuições do cargo, função ou

emprego público de que seja titular; Cabe ao servidor público desempenhar todas as atribuições ine- rentes à posição de que seja titular.

b) exercer suas atribuições com rapidez, perfeição e rendimen-

to, pondo fim ou procurando prioritariamente resolver situações procrastinatórias, principalmente diante de filas ou de qualquer outra espécie de atraso na prestação dos serviços pelo setor em que exerça suas atribuições, com o fim de evitar dano moral ao usuário;

O desempenho de funções deve se dar de forma eficiente. Si- tuações procrastinatórias são aquelas que adiam a prestação do ser- viço público. Procrastinar significa enrolar, adiar, fugir ao dever de prestar o serviço, lerdear. Cabe ao servidor público não deixar para amanhã o que pode fazer no dia e agilizar ainda mais o seu serviço quando houver acúmulo de trabalho ou de filas, inclusive para evitar dano moral ao cidadão.

c) ser probo, reto, leal e justo, demonstrando toda a integridade

do seu caráter, escolhendo sempre, quando estiver diante de duas opções, a melhor e a mais vantajosa para o bem comum;

Honestidade, retidão, lealdade e justiça são valores morais con- solidados na sociedade, refletindo o caráter da pessoa. O servidor público deve erigir tais valores, sempre fazendo a melhor escolha para a coletividade.

d) jamais retardar qualquer prestação de contas, condição es-

sencial da gestão dos bens, direitos e serviços da coletividade a seu cargo;

Prestar contas é uma atitude obrigatória por parte de todos aqueles que cuidam de algo que não lhe pertence. No caso, o servi- dor público cuida do patrimônio do Estado. Por isso, sempre deverá

prestar contas a respeito deste patrimônio, relatando a sua situação e garantindo que ele seja preservado.

e) tratar cuidadosamente os usuários dos serviços aperfeiçoan-

do o processo de comunicação e contato com o público; A atitude ética esperada do servidor público consiste em exer-

cer suas funções de forma adequada, sempre atendendo da melhor forma possível os usuários.

f) ter consciência de que seu trabalho é regido por princípios

éticos que se materializam na adequada prestação dos serviços pú- blicos; Os funcionários públicos nunca podem perder de vista o dever ético que eles possuem com relação à sociedade como um todo, que

é o de respeito à moralidade insculpida no texto constitucional.

Paulo: Atlas, 2010.

47 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

Atlas, 2010. 47 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2010. Didatismo

Didatismo e Conhecimento

16
16
Ética no serviço Público “A consciência ética busca ser cidadã e, por isso, faz da

Ética no serviço Público

“A consciência ética busca ser cidadã e, por isso, faz da hones- tidade pessoal um caminho certo para a ética pública. Vivendo numa República, estamos tratando da ‘coisa pública’, do que é de todos;

isso requer vida administrativa e política transparente, numa dispo- sição a colocar-se a serviço de toda a coletividade” 48 .

g) ser cortês, ter urbanidade, disponibilidade e atenção, res-

peitando a capacidade e as limitações individuais de todos os usu- ários do serviço público, sem qualquer espécie de preconceito ou distinção de raça, sexo, nacionalidade, cor, idade, religião, cunho

político e posição social, abstendo-se, dessa forma, de causar-lhes dano moral; Para bem atender os usuários, é preciso tratá-los com igual- dade, sem preconceitos de qualquer natureza. Vale lembrar que o tratamento preconceituoso e mal-educado caracteriza dano moral, cabendo reparação.

h) ter respeito à hierarquia, porém sem nenhum temor de repre-

sentar contra qualquer comprometimento indevido da estrutura em que se funda o Poder Estatal;

i) resistir a todas as pressões de superiores hierárquicos, de

contratantes, interessados e outros que visem obter quaisquer fa- vores, benesses ou vantagens indevidas em decorrência de ações imorais, ilegais ou aéticas e denunciá-las;

O respeito à hierarquia é algo necessário ao setor público, pois

se ele não existisse as atividades seriam desempenhadas de forma desorganizada, logo, ineficiente. Isso não significa, contudo, que o servidor deva obedecer a todas as ordens sem questioná-las, nota- damente quando perceber que a atitude de seu superior contraria os interesses do bem comum, nem que deva ter medo de denunciar atitudes antiéticas de seus superiores ou colegas.

São atitudes que não podem ser aceitas por parte dos superiores ou de pessoas que contratem ou busquem serviços do poder públi- co: obtenção de favores, benefícios ou vantagens indevidas, imo- rais, ilegais ou antiéticas. Ao se deparar com estas atitudes, deverá denunciá-las. j) zelar, no exercício do direito de greve, pelas exigências espe- cíficas da defesa da vida e da segurança coletiva;

O Supremo Tribunal Federal decidiu que os servidores públicos

possuem o direito de greve, devendo se atentar pela preservação da sociedade quando exercê-lo. Enquanto não for elaborada uma legis- lação específica para os funcionários públicos, deverá ser obedecida a lei geral de greve para os funcionários privados, qual seja a Lei n° 7.783/89 (Mandado de Injunção nº 20).

l) ser assíduo e frequente ao serviço, na certeza de que sua

ausência provoca danos ao trabalho ordenado, refletindo negativa- mente em todo o sistema;

m) comunicar imediatamente a seus superiores todo e qualquer

ato ou fato contrário ao interesse público, exigindo as providências cabíveis;

n) manter limpo e em perfeita ordem o local de trabalho, se-

guindo os métodos mais adequados à sua organização e distribui- ção;

Os três incisos acima reiteram deveres constantemente enume- rados pelo Código de Ética como o de comparecimento assíduo e pontual no local de trabalho, o de comunicação de atos contrários ao interesse público (inclusive os praticados por seus superiores) e o de preservação do local de trabalho (mantendo-o limpo e organizado).

48 AGOSTINI, Frei Nilo. Ética: diálogo e compromisso.

São Paulo: FTD, 2010.

o) participar dos movimentos e estudos que se relacionem com

a melhoria do exercício de suas funções, tendo por escopo a reali- zação do bem comum; Frequentemente, são promovidos cursos de aperfeiçoamento pela própria instituição, sem contar aqueles disponibilizados por faculdades e cursos técnicos. Cabe ao servidor público participar sempre que for benéfico à melhoria de suas funções. “O valor do exercício profissional tende a aumentar à medida que o profissional também aumentar sua cultura, especialmente em ramos do saber aplicáveis a todos os demais, como são os relativos às culturas filosóficas, matemáticas e históricas. Uma classe que se

sustenta em elites cultas te garantida sua posição social, porque se habilita às lideranças e aos postos de comando no poder. A espe- cialização tem sua utilidade, seu valor, sendo impossível negar tal

evidência [ ]” p) apresentar-se ao trabalho com vestimentas adequadas ao exercício da função;

A roupa vestida pelo servidor público também reflete sua au-

toridade moral no exercício das funções. Por exemplo, é absurdo

chegar ao local de trabalho utilizando bermuda e chinelo, refletindo uma imagem de descaso do serviço público. As roupas devem ser sóbrias, compatíveis com a seriedade esperada da Administração Pública e de seus funcionários.

q) manter-se atualizado com as instruções, as normas de ser-

viço e a legislação pertinentes ao órgão onde exerce suas funções;

A regulamentação das funções exercidas pelos órgãos admi-

nistrativos está sempre mudando, cabendo ao servidor público se manter atualizado.

r) cumprir, de acordo com as normas do serviço e as instruções

superiores, as tarefas de seu cargo ou função, tanto quanto possível, com critério, segurança e rapidez, mantendo tudo sempre em boa ordem.

A alínea reflete uma síntese do agir moral esperado do servidor

público, refletindo a prestação do serviço com eficiência e respeito à

lei, atendendo ao bem comum. s) facilitar a fiscalização de todos atos ou serviços por quem de direito; As atividades de fiscalização são usuais no serviço público e, por isso, os ficais devem ser bem atendidos, cabendo ao servidor

demonstrar que as atividades atribuídas estão sendo prestadas con- forme a lei determina.

t) exercer com estrita moderação as prerrogativas funcionais

que lhe sejam atribuídas, abstendo-se de fazê-lo contrariamente aos

legítimos interesses dos usuários do serviço público e dos jurisdi- cionados administrativos; Prerrogativas funcionais são garantias atribuídas pela lei ao ser- vidor público para que ele possa bem desempenhar suas funções.

Não cabe exercê-las a torto e direito, é preciso ter razoabilidade, moderação. Assim, quando invocá-las, o servidor público será le- vado a sério.

u) abster-se, de forma absoluta, de exercer sua função, poder

ou autoridade com finalidade estranha ao interesse público, mesmo que observando as formalidades legais e não cometendo qualquer violação expressa à lei;

O servidor público deve agir conforme a lei determina, obser-

vando-a estritamente, preservando assim os interesses da sociedade.

49 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

49

.

49 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2010. 49 . Didatismo

Didatismo e Conhecimento

17
17
Ética no serviço Público v) divulgar e informar a todos os integrantes da sua classe

Ética no serviço Público

v) divulgar e informar a todos os integrantes da sua classe so-

bre a existência deste Código de Ética, estimulando o seu integral cumprimento.

O Código de Ética é o principal instrumento jurídico que tra-

ta das atitudes do servidor público esperadas e vedadas. É preciso obedecer suas diretrizes e aconselhar a sua leitura àqueles que o des- conheçam.

SEçãO III DAS VEDAçõES AO SErVIDOr PúBlICO

XV - É vedado ao servidor público; Nesta seção, são descritas algumas atitudes que contrariam as

diretrizes do Código de Ética. Trata-se de um rol exemplificativo, ou seja, que pode ser ampliado por um juízo de interpretação das regras éticas até então estudadas. ATENÇÃO: não será necessário gravar todas estas regras se o candidato se atentar ao fato de que elas se contrapõem às atitudes corretas até então estudadas. Por óbvio, não agir da forma estabele- cida caracteriza violação dos deveres éticos, o que é proibido.

a) o uso do cargo ou função, facilidades, amizades, tempo, po-

sição e influências, para obter qualquer favorecimento, para si ou

para outrem;

O cargo público é para a sociedade, não para o indivíduo. Por

isso, ele não pode se beneficiar dele indevidamente. A esta descrição corresponde o tipo criminal da corrupção passiva, prescrito no Có- digo Penal em seu artigo 317 nos seguintes termos:

Corrupção passiva Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

b) prejudicar deliberadamente a reputação de outros servido-

res ou de cidadãos que deles dependam; Causar intrigas no trabalho, fazer fofocas e se negar a ajudar os demais cidadãos que busquem atendimento é uma clara violação ao dever ético.

c) ser, em função de seu espírito de solidariedade, conivente

com erro ou infração a este Código de Ética ou ao Código de Ética de sua profissão; Como visto, é dever do servidor público denunciar aqueles que

desrespeitem o Código de Ética, bem como obedecê-lo estritamente. Não deve pensar que cobrir o erro do outro é algo solidário, porque todos os erros cometidos numa função pública são prejudiciais à sociedade. d) usar de artifícios para procrastinar ou dificultar o exercício regular de direito por qualquer pessoa, causando-lhe dano moral ou material;

O trabalho não deve ser adiado, mas sim prestado de forma rá-

pida e eficaz, sob pena de causar dano moral ou material aos usuá- rios e ao Estado. Na esfera penal, pode incidir no crime de prevaricação (art. 319, CP):

Prevaricação Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfa- zer interesse ou sentimento pessoal:

Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

e) deixar de utilizar os avanços técnicos e científicos ao seu alcance ou do seu conhecimento para atendimento do seu mister; A incorporação da tecnologia aos serviços públicos, aproxi-

mando-o da sociedade, é chamada de governança eletrônica. Cabe ao servidor público saber lidar bem com tais tecnologias, pois elas melhoram a qualidade do serviço prestado.

f) permitir que perseguições, simpatias, antipatias, caprichos,

paixões ou interesses de ordem pessoal interfiram no trato com o público, com os jurisdicionados administrativos ou com colegas hierarquicamente superiores ou inferiores; O funcionário público deve agir com impessoalidade na presta-

ção do serviço, tratando todas as pessoas igualmente, tanto os usuá- rios quanto os colegas de trabalho.

g) pleitear, solicitar, provocar, sugerir ou receber qualquer tipo

de ajuda financeira, gratificação, prêmio, comissão, doação ou van-

tagem de qualquer espécie, para si, familiares ou qualquer pessoa, para o cumprimento da sua missão ou para influenciar outro servi- dor para o mesmo fim; A remuneração do servidor público já é paga pelo Estado, fo- mentada pelos tributos do contribuinte. Não cabe ao servidor buscar

bônus indevidos pela prestação de seus serviços, seja solicitando (caso que caracteriza crime de corrupção - art. 317, CP), seja exigin- do (restando presente o crime de concussão - art. 316, CP). Caso o faça, se sujeitará às penas cíveis, penais e administrativas.

h) alterar ou deturpar o teor de documentos que deva encami-

nhar para providências; Caso o faça, além das sanções cíveis e administrativas, incorre na prática do crime de alterar ou deturpar (modificar, alterar para pior; desfigurar; corromper; adulterar) dados de documentos pode configurar o crime previsto no artigo 313-A, do Código Penal:

Inserção de dados falsos em sistema de informações Art. 313-A. Inserir ou facilitar, o funcionário autorizado, a inserção de dados falsos, alterar ou excluir indevidamente dados corretos nos sistemas informatizados ou bancos de dados da Admi- nistração Pública com o fim de obter vantagem indevida para si ou para outrem ou para causar dano: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

i) iludir ou tentar iludir qualquer pessoa que necessite do aten- dimento em serviços públicos; Como visto, o funcionário público deve atender com eficiência o usuário do serviço, prestando todas as informações da maneira mais correta e verdadeira possível, sem mentiras ou ilusões.

j) desviar servidor público para atendimento a interesse par-

ticular; Todos os servidores públicos são contratados pelo Estado, de- vendo prestar serviços que atendam ao seu interesse. Por isso, um servidor não pode pedir ao seu subordinado que lhe preste servi-

ços particulares, por exemplo, pagar uma conta pessoal em agência bancária, telefonar para consultórios para agendar consultas, fazer compras num supermercado.

l) retirar da repartição pública, sem estar legalmente autori-

zado, qualquer documento, livro ou bem pertencente ao patrimônio público;

legalmente autori- zado, qualquer documento, livro ou bem pertencente ao patrimônio público; Didatismo e Conhecimento 18

Didatismo e Conhecimento

18
18
Ética no serviço Público Os bens que se encontram no local de trabalho pertencem à

Ética no serviço Público

Os bens que se encontram no local de trabalho pertencem à má- quina estatal e devem ser utilizados exclusivamente para a prestação do serviço público, não podendo o funcionário retirá-los de lá. Se o fizer, responde civil e administrativamente, bem como criminalmen- te por peculato (art. 312, CP).

 

CAPÍTUlO II DAS COMISSõES DE ÉTICA

 

XVI

- Em todos os órgãos e entidades da Administração Públi-

ca Federal direta, indireta autárquica e fundacional, ou em qual- quer órgão ou entidade que exerça atribuições delegadas pelo po-

 

Peculato

der público, deverá ser criada uma Comissão de Ética, encarregada de orientar e aconselhar sobre a ética profissional do servidor, no tratamento com as pessoas e com o patrimônio público, competin- do-lhe conhecer concretamente de imputação ou de procedimento suscetível de censura. “Estabelecido um código de ética, para uma classe, cada indi- víduo a ele passa a subordinar-se, sob pena de incorrer em trans- gressão, punível pelo órgão competente, incumbido de fiscalizar o

Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, va- lor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem

a

posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou

alheio:

Pena - reclusão, de dois a doze anos, e multa. § 1º - Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, em- bora não tendo a posse do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona a qualidade de fun- cionário.

Peculato caracteriza-se pela subtração ou desvio, por abuso de confiança, de dinheiro ou de coisa móvel apreciável economicamen- te, para proveito próprio ou alheio, por servidor público que o admi- nistra ou guarda.

exercício profissional. [

]

A fiscalização do exercício da profissão

pelos órgãos de classe compreende as fases preventiva (ou educacio- nal) e executiva (ou de direta verificação da qualidade das práticas). Grande parte dos erros cometidos derivam-se em parte do pouco conhecimento sobre a conduta, ou seja, da educação insuficiente, e outra parte, bem menor, deriva-se de atos propositadamente pratica- dos. Os órgãos de fiscalização assumem, por conseguinte, um papel relevante de garantia sobre a qualidade dos serviços prestados e da conduta humana dos profissionais” 50 . Com efeito, as Comissões de Ética possuem função de orien- tação e aconselhamento, devendo se fazer presentes em todo órgão ou entidade da administração direta ou indireta. A Comissão de Ética não tem por finalidade aplicar sanções disciplinares contra os servidores Civis. Muito pelo contrário: a sua atuação tem por princípio evitar a instauração desses processos, mediante trabalho de orientação e aconselhamento. A finalidade do código de ética consiste em produzir na pessoa do servidor público a consciência de sua adesão às normas ético-profissionais preexis- tentes à luz de um espírito crítico, para efeito de facilitar a prática do cumprimento dos deveres legais por parte de cada um e, em conse- quência, o resgate do respeito ao serviço público e à dignidade social de cada servidor. O objetivo deste código é a divulgação ampla dos deveres e das vedações previstas, através de um trabalho de cunho educativo com os servidores públicos federais.

m) fazer uso de informações privilegiadas obtidas no âmbito interno de seu serviço, em benefício próprio, de parentes, de amigos ou de terceiros; As informações que são acessadas pelo funcionário público so- mente devem ser aproveitadas para o bom desempenho das funções. Não cabe fazer fofocas, ainda que sem nenhum interesse de obter privilégio econômico, ou seja, apenas para aparentar importância por mera vaidade pessoal. É possível que caracterize crime de vio- lação de sigilo funcional pois utilizar-se de informações obtidas no âmbito interno da administração, nos casos em que deva ser guarda- do sigilo pode caracterizar crime, previsto no artigo 325, do Código Penal:

Violação de sigilo funcional Art. 325 - Revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que deva permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelação:

 

XVII

- Revogado pelo Decreto n° 6.029/07 (art. 25).

Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa, se o fato não constitui crime mais grave.

XVIII - À Comissão de Ética incumbe fornecer, aos organismos encarregados da execução do quadro de carreira dos servidores, os registros sobre sua conduta ética, para o efeito de instruir e funda- mentar promoções e para todos os demais procedimentos próprios da carreira do servidor público. Além de orientar e aconselhar, a Comissão de Ética fornecerá as informações sobre os funcionários a ela submetidos, tanto para instruir promoções, quanto para alimentar processo administrativo disciplinar.

 

n)

apresentar-se embriagado no serviço ou fora dele habitual-

mente;

Trata-se de ato típico de falta de decoro e retidão, valore morais inerentes à boa prestação do serviço público.

 

o)

dar o seu concurso a qualquer instituição que atente contra

a

moral, a honestidade ou a dignidade da pessoa humana;

p) exercer atividade profissional aética ou ligar o seu nome a empreendimentos de cunho duvidoso.

 

XIX

a XXI - Revogados pelo Decreto n° 6.029/07 (art. 25).

XXII

- A pena aplicável ao servidor público pela Comissão de

O servidor público, seja na vida privada, seja no exercício das funções, não deve se filiar a instituições que contrariem a moral, por exemplo, que incitem o preconceito e a desordem pública. Afinal, o servidor público é um espelho para a sociedade, devendo refletir seus valores tradicionais.

Ética é a de censura e sua fundamentação constará do respectivo parecer, assinado por todos os seus integrantes, com ciência do fal- toso.

50

SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

 
SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2010.   Didatismo e Conhecimento

Didatismo e Conhecimento

19
19
Ética no serviço Público A única sanção que pode ser aplicada diretamente pela Comis- são

Ética no serviço Público

A única sanção que pode ser aplicada diretamente pela Comis- são de Ética é a de censura, que é a pena mais branda pela prática de uma conduta inadequada que seja praticada no exercício das fun- ções. Nos demais casos, caberá sindicância ou processo administra- tivo disciplinar, sendo que a Comissão de Ética fornecerá elementos para instrução.

Censura é o poder do Estado de interditar ou restringir a livre manifestação de pensamento, oral ou escrito, quando se considera que tal pode ameaçar a ordem pública vigente.

XXIV - Para fins de apuração do comprometimento ético, entende-se por servidor público todo aquele que, por força de lei, contrato ou de qualquer ato jurídico, preste serviços de natureza permanente, temporária ou excepcional, ainda que sem retribuição financeira, desde que ligado direta ou indiretamente a qualquer ór- gão do poder estatal, como as autarquias, as fundações públicas, as entidades paraestatais, as empresas públicas e as sociedades de economia mista, ou em qualquer setor onde prevaleça o interesse do Estado.

Este último inciso do Código de Ética é de fundamental impor- tância para fins de concurso público, pois define quem é o servidor público que se sujeita a ele.

“Uma classe profissional caracteriza-se pela homogeneidade do

trabalho executado, pela natureza do conhecimento exigido prefe- rencialmente para tal execução e pela identidade de habilitação para

o exercício da mesma. A classe profissional é, pois, um grupo dentro da sociedade, específico, definido por sua especialidade de desem- penho de tarefa” 51 .

Elementos do conceito de servidor público:

a) instrumento de vinculação: por força de lei (por exemplo,

prestação de serviços como jurado ou mesário), contrato (contra- tação direta, sem concurso público, para atender a uma urgência ou emergência) ou qualquer outro ato jurídico (é o caso da nomeação por aprovação em concurso público) - enfim, não importa o instru- mento da vinculação à administração pública, desde que esteja real- mente vinculado;

b) Serviço prestado: permanente, temporário ou excepcional

- isto é, ainda que preste o serviço só por um dia, como no caso do

mesário de eleição, é servidor público, da mesma forma que aquele que foi aprovado em concurso público e tomou posse; com ou sem retribuição financeira - por exemplo, o jurado não recebe por seus serviços, mas não deixa de ser servidor público;

c) Instituição ou órgão de prestação: ligado à administração di- reta ou indireta, isto é, a qualquer órgão que tenha algum vínculo com o poder estatal. O conceito é o mais amplo possível, abrangen- do autarquias, fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista, enfim, qualquer entidade ou setor que vise atender o interesse do Estado.

51 SÁ, Antônio Lopes de. Ética profissional. 9. ed. São

Paulo: Atlas, 2010.

5.2 LEI Nº 8.112/1990 E ALTERAçõES:

rEGIME DISCIPlINAr (DEVErES E PrOIBIçõES, ACUMUlAçãO, rESPONSABIlIDADES, PENAlIDADES)

TÍTUlO IV DO rEGIME DISCIPlINAr

O regime disciplinar do servidor público civil federal está es- tabelecido basicamente de duas maneiras: deveres e proibições. Ontologicamente, são a mesma coisa: ambos deveres e proibições são normas protetivas da boa Administração. Nas duas hipóteses, violado o preceito, cabível é uma punição. Deve-se notar, porém, que os deveres constam da lei como ações, como conduta positiva; as proibições, ao contrário, são descritas como condutas vedadas ao servidor, de modo que ele deve abster-se de praticá-las. Os deveres estão inscritos no artigo 116, não de modo exaustivo, porque o ser- vidor deve obediência a todas as normas legais ou infralegais, e o próprio inciso III do referido dispositivo é, de certa maneira, uma norma disciplinar em branco 52 . “Estes dispositivos prevêem, basicamente, um conjunto de nor-

mas de conduta e de proibições impostas pela lei aos servidores por ela abrangidos, tendo em vista a prevenção, a apuração e a possível punição de atos e omissões que possam por em risco o funciona- mento adequado da administração pública, do posto de vista ético, do ponto de vista da eficiência e do ponto de vista da legalidade. Decorrem, estes dispositivos, do denominado Poder Disciplinar que é aquele conferido à Administração com o objetivo de manter sua disciplina interna, na medida em que lhe atribui instrumentos para punir seus servidores (e também àqueles que estejam a ela vincu- lados por um instrumento jurídico determinado - particulares con-

disposto no Título IV da lei nº

tratados pela Administração). [

8.112/90 prevê basicamente um conjunto de obrigações impostas aos servidores por ela regidos. Tais obrigações, ora positivas (os denominados Deveres – art. 116), ora negativas (as denominadas Proibições – art. 117) uma vez inadimplidas ensejam sua imediata apuração (art. 143) e uma vez comprovadas importam na responsa- bilização administrativa, a desafiar, então, a aplicação de uma das sanções administrativas (art. 127). Não é por outra razão que o art. 124 declara que a responsabilidade administrativa resulta da prática de ato omissivo (quando o servidor deixa de cumprir os deveres a ele impostos) ou comissivo (quando viola proibição) praticado no desempenho do cargo ou função” 53 .

]“O

CAPÍTUlO I

DOS DEVErES

Art. 116. São deveres do servidor:

52

lIMA,

Fábio

lucas

de

Albuquerque.

O

regime

disciplinar

dos

servidores

federais.

Disponível

em:

<http://

www.sato.adm.br/artigos/o_regime_disciplinar_dos_servidores_ federais.htm>. Acesso em: 11 ago. 2013.

dos

Servidores Públicos da União. Disponível em: <http://www.

canaldosconcursos.com.br/artigos/almirmorgado_artigo1.pdf>.

Acesso em: 11 ago. 2013.

53 MOrGATO,

Almir.

O

regime

Disciplinar

Acesso em: 11 ago. 2013. 53 MOrGATO, Almir. O regime Disciplinar Didatismo e Conhecimento 20

Didatismo e Conhecimento

20
20
Ética no serviço Público Os deveres do servidor previstos na Lei n° 8.112/90 são em

Ética no serviço Público

Os deveres do servidor previstos na Lei n° 8.112/90 são em muito compatíveis com os previstos no Código de Ética profissio-

nal do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal (Decreto n° 1.171/94). Descrevem algumas das condutas esperadas do servi- dor público quando do desempenho de suas funções. Em resumo,

o servidor público deve desempenhar suas funções com cuidado,

rapidez e pontualidade, sendo leal à instituição que compõe, respei- tando as ordens de seus superiores que sejam adequadas às funções que desempenhe e buscando conservar o patrimônio do Estado. No tratamento do público, deve ser prestativo e não negar o acesso a informações que não sejam sigilosas. Caso presencie alguma ilega- lidade ou abuso de poder, deve denunciar. Tomam-se como base os ensinamentos de Lima 54 a respeito destes deveres:

I - exercer com zelo e dedicação as atribuições do cargo; “O primeiro dos deveres insculpidos no regime estatutário é o

dever de zelo. O zelo diz respeito às atribuições funcionais e tam- bém ao cuidado com a economia do material, os bens da repartição

e o patrimônio público. Sob o prisma da disciplina e da conserva-

ção dos bens e materiais da repartição, o servidor deve sempre agir com dedicação no desempenho das funções do cargo que ocupa, e que lhe foram atribuídas desde o termo de posse. O servidor não é

o dono do cargo. Dono do cargo é o Estado que o remunera. Se o

referido cargo não lhe pertence, o servidor deve exercer suas fun- ções com o máximo de zelo que estiver ao seu alcance. Sua eventual menor capacidade de desempenho, para não configurar desídia ou insuficiência de desempenho, deverá ser compensada com um maior esforço e dedicação de sua parte. Se um servidor altamente prepa- rado e capaz, vem a praticar atos que configurem desídia ou mesmo falta mais grave, poderá vir a ser punido. Porque o que se julgará não é a pessoa do servidor, mas a conduta a ele imputável. O zelo não deve se limitar apenas às atribuições específicas de sua ativida-

de. O servidor deve ter zelo não somente com os bens e interesses imateriais (a imagem, os símbolos, a moralidade, a pontualidade,

o sigilo, a hierarquia) como também para com os bens e interesses patrimoniais do Estado”.

II - ser leal às instituições a que servir; “O servidor que cumprir todos os deveres e normas adminis-

trativas já positivadas, consequentemente, é leal à instituição que lhe remunera. Sob o prisma constitucional é que devemos entender

a norma hoje. Sendo assim, o dever de lealdade está inserido no

Estatuto como norma programática, orientadora da conduta dos ser- vidores”.

III - observar as normas legais e regulamentares; “A função desta norma é de não deixar sem resposta qualquer que seja a irregularidade cometida. Daí a necessária correlação nes- ses casos que temos de fazer do art. 116, inciso III, com a norma violada, e já prevista em outra lei, decreto, instrução, ordem de ser- viço ou portaria”.

IV - cumprir as ordens superiores, exceto quando manifesta- mente ilegais;

54

lIMA,

Fábio

lucas

de

Albuquerque.

O

regime

disciplinar

dos

servidores

federais.

Disponível

em:

<http://

www.sato.adm.br/artigos/o_regime_disciplinar_dos_servidores_ federais.htm>. Acesso em: 11 ago. 2013.

“O servidor integra a estrutura organizacional do órgão em que presta suas atribuições funcionais. O Estado se movimenta através dos seus diversos órgãos. Dentro dos órgãos públicos, há um es- calonamento de cargos e funções que servem ao cumprimento da vontade do ente estatal. Este escalonamento, posto em movimento, é o que vimos até agora chamando de hierarquia. A hierarquia existe para que do alto escalão até a prática dos administrados as coisas funcionem. Disso decorre que quando é emitida uma ordem para o servidor subordinado, este deve dar cumprimento ao comando. Po- rém quando a ordem é visivelmente ilegal, arbitrária, inconstitucio- nal ou absurda, o servidor não é obrigado a dar seguimento ao que lhe é ordenado. Quando a ordem é manifestamente ilegal? Há uma margem de interpretação, principalmente se o servidor subordinado não tiver nenhuma formação de ordem jurídica. Logo, é o bom senso que irá margear o que é flagrantemente inconstitucional”.

V - atender com presteza:

a) ao público em geral, prestando as informações requeridas,

ressalvadas as protegidas por sigilo;

b) à expedição de certidões requeridas para defesa de direito

ou esclarecimento de situações de interesse pessoal;

c) às requisições para a defesa da Fazenda Pública.

“Este dever foi insculpido na lei para que o servidor público trabalhe diuturnamente no sentido de desfazer a imagem desagradá- vel que o mesmo possui perante a sociedade. Exige-se que atue com presteza no atendimento a informações solicitadas pela Fazenda Pú- blica. Esta engloba o fisco federal, estadual, municipal e distrital. O servidor público tem que ser expedito, diligente, laborioso. Não há mais lugar para o burocrata que se afasta do administrado, dificul- tando a vida de quem necessita de atendimento rápido e escorreito. Entretanto, há um longo caminho a ser percorrido até que se atinja um mínimo ideal de atendimento e de funcionamento dos órgãos pú- blicos, o que deve necessariamente passar por critérios de valoriza-

ção dos servidores bons e de treinamento e qualificação permanente dos quadros de pessoal”.

VI - levar as irregularidades de que tiver ciência em razão do cargo ao conhecimento da autoridade superior ou, quando houver suspeita de envolvimento desta, ao conhecimento de outra autorida- de competente para apuração; “Todo servidor público é obrigado a dar conhecimento ao chefe da repartição acerca das irregularidades de que toma conhecimento no exercício de suas atribuições. Deve levar ao conhecimento da chefia imediata pelo sistema hierárquico. Supõe-se que os titulares das chefias ou divisões detêm um conhecimento maior de como corrigir o erro ou comunicar aos órgãos de controle para a devida apuração. De nada adiantaria o servidor, ciente de um ato irregular, ir comunicar ao público ou a terceiros. Além do dever de sigilo, há assuntos que exigem certas reservas, visando ao bem do serviço pú- blico, da segurança nacional e mesmo da sociedade”.

VII - zelar pela economia do material e a conservação do pa- trimônio público; “Esse deve é basilar. Se o agente não zelar pela economia e pela conservação dos bens públicos presta um desserviço à nação que lhe remunera. E como se verá adiante poderá ser causa inclusive de demissão, se não cumprir o presente dever, quando por descumpri- mento dele a gravidade do fato implicar a infração a normas mais graves”.

por descumpri- mento dele a gravidade do fato implicar a infração a normas mais graves”. Didatismo

Didatismo e Conhecimento

21
21
Ética no serviço Público VIII - guardar sigilo sobre assunto da repartição; “O agente público

Ética no serviço Público

VIII - guardar sigilo sobre assunto da repartição; “O agente público deve guardar sigilo sobre o que se passa na repartição, principalmente quanto aos assuntos oficiais. Pela Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, hoje está regulamentado o acesso às informações. Porém, o servidor deve ter cuidado, pois até mesmo o fornecimento ou divulgação das informações exigem um procedimento. Maior cuidado há que se ter, quando a informação possa expor a intimidade da pessoa humana. As informações pesso- ais dos administrados em geral devem ser tratadas forma transparen-

te e com respeito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais, segun- do o artigo 31, da Lei nº 21.527, 2011. A exceção para o sigilo existe, pois, não devemos tratar a questão em termos de cláusula jurídica de caráter absoluto, podendo ter autorizada a divulgação ou o acesso por terceiros quando haja previsão legal. Outra exceção é quando há

o consentimento expresso da pessoa a que elas se referirem. No caso de cumprimento de ordem judicial, para a defesa de direitos huma-

nos, e quando a proteção do interesse público e geral preponderante

o exigir, também devem ser fornecidas as informações. Portanto, o

servidor há que ter reserva no seu comportamento e fala, esquivan- do-se de revelar o conteúdo do que se passa no seu trabalho. Se o assunto pululante é uma irregularidade absurda, deve então reduzir

a escrito e representar para que se apure o caso. Deveriam diminuir

as conversas de corredor e se efetivar a apuração dos fatos através do processo administrativo disciplinar. Os assuntos objeto do serviço merecem reserva. Devem ficar circunscritos aos servidores desig-

nados para o respectivo trabalho interno, não devendo sair da seção ou setor de trabalho, sem o trâmite hierárquico do chefe imediato. Se o assunto ou o trabalho, enfim, merecer divulgação mais ampla, deve ser contatado o órgão de assessoria de comunicação social, que saberá proceder de forma oficial, obedecendo ao bom senso e às leis vigentes”.

XI - tratar com urbanidade as pessoas; “No mundo moderno, e máxime em nossa civilização ociden- tal, o trato tem que ser o mais urbano possível. Urbano, nessa acep- ção, não quer dizer citadino ou oriundo da urbe (cidade), mas, sim, educado, civilizado, cordato e que não possa criar embaraços aos usuários dos serviços públicos”.

XII - representar contra ilegalidade, omissão ou abuso de po-

der.

Parágrafo único. A representação de que trata o inciso XII será encaminhada pela via hierárquica e apreciada pela autorida- de superior àquela contra a qual é formulada, assegurando-se ao representando ampla defesa. Caso o funcionário público denuncie outro servidor, esta repre- sentação será encaminhada a alguém que seja superior hierarquica- mente ao denunciado, que terá direito à ampla defesa. “O servidor tem obrigação legal de dar conhecimento às auto- ridades de qualquer irregularidade de que tiver ciência em razão do cargo, principalmente no processo em que está atuando ou quando o

fato aconteceu sob as suas vistas. Não é concebível que o servidor se defronte com uma irregularidade administrativa e fique inerte. Deve provocar quem de direito para que a irregularidade seja sanada de imediato. Caso haja indiferença no seu círculo de atuação, i.e., no seu setor ou seção, deverá representar aos órgãos superiores. Assim

é que o dever de informar acerca de irregularidades anda de braço

dado com o dever de representar. Não surtindo efeito a notícia da

irregularidade, não corrigida esta, sobrevém o dever de representar.

O dever de representação não deixa de ser uma prerrogativa legal,

investindo o servidor de um múnus público importante, constituindo

o servidor em um curador legal do ente público. O mais humilde

servidor passa a ser um agente promotor de legalidade. É claro o in- ciso XII do art. 116 quando diz que é dever do servidor “representar

contra ilegalidade, omissão ou abuso de poder”. De modo que tam- bém a omissão pode ensejar a representação. A omissão do agente que ilegalmente não pratica ato a que se acha vinculado pode até configurar o ilícito penal de prevaricação. O dever de representação deve ser privilegiado, mas deve ser usado com o devido equilíbrio,

não podendo servir a finalidades egoísticas, político-partidárias, in- duzido por inimizades de cunho pessoal, o que de pronto trespassará

o representante de autor a réu por prática de abuso de poder ou de- nunciação caluniosa”.

CAPÍTUlO II

DAS PrOIBIçõES

Art. 117. Ao servidor é proibido:

Em contraposição aos deveres do servidor público, existem di- versas proibições, que também estão em boa parte abrangidas pelo Decreto n° 1.171/94. A violação dos deveres ou a prática de alguma das violações abaixo descritas caracterizam infração administrativa disciplinar. “Nas Proibições – art. 117, constata-se, desde logo, sua objeti-

vidade e taxatividade, o que veda sua ampliação e o uso de interpre- tações analógicas ou sistemáticas visto serem condutas restritivas

de direitos, sujeitas, portanto, ao princípio da reserva legal. O des-

cumprimento dessas proibições podem inclusive, ensejar o enqua- dramento penal do servidor, pois muitas das condutas ali descritas, configuram prática de delito penal” 55 .

55 MOrGATO,

Almir. O regime Disciplinar dos
Almir.
O
regime
Disciplinar
dos

IX - manter conduta compatível com a moralidade adminis- trativa; “O ato administrativo não se satisfaz somente com o ser legal. Para ser válido o ato administrativo tem que ser compatível com a moralidade administrativa. O agente deve se comportar em seus atos de maneira proba, escorreita, séria, não atuando com intenções

escusas e desvirtuadas. Seu poder-dever não pode ser utilizado, por exemplo, para satisfação de interesses menores, como realizar a prá- tica de determinado ato para beneficiar uma amante ou um parente. Se o agente viola o dever de agir com comportamento incompatível com a moralidade administrativa, poderá estar sujeito a sanção dis- ciplinar. Seu ato ímprobo ou imoral configura o chamado desvio de poder, que é totalmente abominável no Direito Administrativo

e poderá ser anulado interna corporis ou judicialmente através da

ação popular, ação de ressarcimento ao erário e ação civil pública se

o ato violar direito coletivo ou transindividual”.

X - ser assíduo e pontual ao serviço; “Dois conceitos diferentes, porém parecidos. Ser assíduo sig- nifica ser presente dentro do horário do expediente. O oposto do assíduo é o ausente, o faltoso. Pontual é aquele servidor que não atrasa seus compromissos. É o que comparece no horário para as reuniões de trabalho e demais atividades relacionadas com o exercí- cio do cargo que ocupa. Embora sejam conceitos diferentes, aqui o dever violado, seja por impontualidade, seja por inassiduidade (que ainda não aquela inassiduidade habitual de 60 dias ensejadora de demissão), merece reprimenda de advertência, com fins educativos

e de correção do servidor”.

22
22
merece reprimenda de advertência, com fins educativos e de correção do servidor”. 22 Didatismo e Conhecimento

Didatismo e Conhecimento

Ética no serviço Público I - ausentar-se do serviço durante o expediente, sem prévia au-

Ética no serviço Público

I - ausentar-se do serviço durante o expediente, sem prévia au- torização do chefe imediato; Violação do dever de assiduidade.

II - retirar, sem prévia anuência da autoridade competente,

qualquer documento ou objeto da repartição; Violação do dever de zelo com o patrimônio público.

III - recusar fé a documentos públicos;

É dever do servidor público conferir fé aos documentos públi-

cos, revestindo-lhes da autoridade e confiança que seu cargo possui. Violação do dever de transparência.

IV - opor resistência injustificada ao andamento de documento

e processo ou execução de serviço; Não cabe impedir que o trâmite da administração seja alterado por um capricho pessoal. Violação ao dever de celeridade e eficiên- cia, bem como de impessoalidade.

V - promover manifestação de apreço ou desapreço no recinto

da repartição; Violação do dever de discrição.

VI - cometer a pessoa estranha à repartição, fora dos casos

previstos em lei, o desempenho de atribuição que seja de sua res-

ponsabilidade ou de seu subordinado; Quem é designado para o desempenho de uma função pública deve desempenhá-la, não podendo designar outra pessoa para pres- tar seus serviços ou de seu subordinado.

VII - coagir ou aliciar subordinados no sentido de filiarem-se a

associação profissional ou sindical, ou a partido político; O direito de associação é livre, não podendo um funcionário forçar o seu subordinado a associar-se sindical ou politicamente.

VIII - manter sob sua chefia imediata, em cargo ou função de

confiança, cônjuge, companheiro ou parente até o segundo grau civil;

É a chamada prática de nepotismo. Do latim nepos, neto ou

descendente, é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes (ou amigos próximos) em detrimento de pessoas mais qua- lificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos. O Decreto nº 7.203, de 4 de junho de 2010 dispõe sobre a vedação do nepotismo no âmbito da administração pública federal. súmula vinculante nº 13: “A nomeação de cônjuge, compa- nheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica, investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de con- fiança, ou, ainda, de função gratificada na Administração Pública direta e indireta, em qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido o ajuste median- te designações recíprocas, viola a Constituição Federal.” Obs.: se o concurso pedir pelo entendimento jurisprudencial, vá pela súmula, mas se não mencionar nada se atenha ao texto da lei, visto que há pequenas variações entre o texto da súmula e o da lei.

Servidores Públicos da União. Disponível em: <http://www.

canaldosconcursos.com.br/artigos/almirmorgado_artigo1.pdf>.

Acesso em: 11 ago. 2013.

IX - valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de ou-

trem, em detrimento da dignidade da função pública;

O cargo público serve apenas aos interesses da administração

pública, ou seja, da coletividade, não aos interesses pessoais do ser-

vidor.

X - participar de gerência ou administração de sociedade pri- vada, personificada ou não personificada, exercer o comércio, exce- to na qualidade de acionista, cotista ou comanditário; Não cabe ao servidor público administrar sociedade privada, o que pode comprometer sua eficiência e imparcialidade no exercí- cio da função pública. No princípio, ou seja, na redação original do Estatuto era proibida apenas a participação do servidor como sócio gerente ou administrador de empresa privada, exceto na qualidade de mero cotista, acionário ou comanditário. Atualmente, a empresa pode até não estar personificada, por exemplo, não estar devidamen- te constituída e registrada nos órgãos competentes (Junta Comercial, fisco estadual, municipal, distrital e federal, e órgãos de controle:

ambiental, trabalhista etc.). Comprovada detidamente a gerência ou administração da sociedade particular em concomitância com a pretensa carga horária da repartição pública, deve ser aplicada a pe- nalidade de demissão.

XI - atuar, como procurador ou intermediário, junto a reparti-

ções públicas, salvo quando se tratar de benefícios previdenciários ou assistenciais de parentes até o segundo grau, e de cônjuge ou companheiro; Não cabe atuar como procurador perante repartições públicas de forma profissional. Daí a limitação à atuação como representante de parente até segundo grau (irmãos, ascendentes e descendentes, cônjuges e companheiros).

XII - receber propina, comissão, presente ou vantagem de

qualquer espécie, em razão de suas atribuições; A percepção de vantagem indevida gerando enriquecimento ilí- cito também caracteriza ato de improbidade administrativa de maior gravidade, bem como crime de corrupção passiva.

XIII - aceitar comissão, emprego ou pensão de estado estran-

geiro; Trata-se de indício da intenção de praticar atos contrários ao interesse do Estado ao qual esteja vinculado.

XIV - praticar usura sob qualquer de suas formas;

Usura significa agiotagem, que é o empréstimo de dinheiro a particulares obtendo juros abusivos em troca. As atividades de em- préstimo somente podem ser desempenhadas com fim lucrativo por instituições credenciadas.

XV - proceder de forma desidiosa;

Desídia é desleixo, descuido, preguiça, indolência.

XVI - utilizar pessoal ou recursos materiais da repartição em

serviços ou atividades particulares;

O aparato da administração pública pertence ao Estado, não ca-

bendo ao servidor utilizá-lo em atividades particulares.

XVII - cometer a outro servidor atribuições estranhas ao cargo que ocupa, exceto em situações de emergência e transitórias;

estranhas ao cargo que ocupa, exceto em situações de emergência e transitórias; Didatismo e Conhecimento 23

Didatismo e Conhecimento

23
23
Ética no serviço Público Cada servidor público tem sua atribuição legal, não cabendo designá-lo para

Ética no serviço Público

Cada servidor público tem sua atribuição legal, não cabendo designá-lo para desempenhar funções diversas salvo em caso de ex- trema necessidade.

XVIII - exercer quaisquer atividades que sejam incompatíveis com o exercício do cargo ou função e com o horário de trabalho; O exercício de atividades incompatíveis propicia uma violação ao princípio da imparcialidade.

XIX - recusar-se a atualizar seus dados cadastrais quando so- licitado. A atualização de dados cadastrais é necessária para manter a administração ciente da situação de seu servidor.

Parágrafo único. A vedação de que trata o inciso X do ca- put deste artigo não se aplica nos seguintes casos:

I - participação nos conselhos de administração e fiscal de em-

presas ou entidades em que a União detenha, direta ou indireta- mente, participação no capital social ou em sociedade cooperativa constituída para prestar serviços a seus membros; e

II - gozo de licença para o trato de interesses particulares, na

forma do art. 91 desta Lei, observada a legislação sobre conflito de interesses. Nestes casos, é possível participar diretamente da administra- ção de sociedade privada, pois o interesse estatal não será compro- metido.

CAPÍTUlO III DA ACUMUlAçãO

Art. 118. Ressalvados os casos previstos na Constituição, é ve- dada a acumulação remunerada de cargos públicos. Estabelece o artigo 37, XVI da Constituição Federal:

É vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, ex-

ceto, quando houver compatibilidade de horários, observado em qualquer caso o disposto no inciso XI.

a) a de dois cargos de professor;

b) a de um cargo de professor com outro técnico ou científi-

co;

c) a de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de

saúde, com profissões regulamentadas;

Segundo Carvalho Filho 56 , “o fundamento da proibição é im-

pedir que o cúmulo de funções públicas faça com que o servidor não execute qualquer delas com a necessária eficiência. Além disso, porém, pode-se observar que o Constituinte quis também impedir a cumulação de ganhos em detrimento da boa execução de tarefas

Nota-se que a vedação se refere à acumulação remune-

públicas. [

rada. Em consequência, se a acumulação só encerra a percepção de vencimentos por uma das fontes, não incide a regra constitucional

proibitiva”.

]

§ 1 o A proibição de acumular estende-se a cargos, empregos

e funções em autarquias, fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista da União, do Distrito Federal, dos

Estados, dos Territórios e dos Municípios.

56 CArVAlHO FIlHO, José dos Santos. Manual de

direito administrativo. 23. ed. rio de Janeiro: lumen juris, 2010.

administrativo. 23. ed. rio de Janeiro: lumen juris, 2010. Didatismo e Conhecimento A proibição vale tanto

Didatismo e Conhecimento

A proibição vale tanto para a administração direta quanto para a indireta.

§ 2 o A acumulação de cargos, ainda que lícita, fica condiciona-

da à comprovação da compatibilidade de horários. Se o Estado pretende que o desempenho de atividade cumulada não gere prejuízo à função pública, correto que exija a comprovação de compatibilidade de horários;

§ 3 o Considera-se acumulação proibida a percepção de venci-

mento de cargo ou emprego público efetivo com proventos da ina- tividade, salvo quando os cargos de que decorram essas remunera- ções forem acumuláveis na atividade. Exterioriza-se, por exemplo, a proibição de que o agente se apo- sente do serviço público e continue o exercendo, recebendo aposen- tadoria e salário.

Art. 119. O servidor não poderá exercer mais de um cargo em comissão, exceto no caso previsto no parágrafo único do art. 9 o , nem ser remunerado pela participação em órgão de deliberação coletiva. Cargo em comissão é aquele que não exige aprovação em con- curso público, sendo designado para o exercício por possuir um vín- culo de confiança com o superior. Somente é possível exercer 1, salvo interinamente. Da mesma forma, não cabe remuneração por participar de órgão de deliberação coletiva.

Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica à re- muneração devida pela participação em conselhos de administra- ção e fiscal das empresas públicas e sociedades de economia mista, suas subsidiárias e controladas, bem como quaisquer empresas ou entidades em que a União, direta ou indiretamente, detenha par- ticipação no capital social, observado o que, a respeito, dispuser legislação específica. O exercício de função em determinados conselhos de adminis- tração e fiscais aceita remuneração. Trata-se de exceção ao caput.

Art. 120. O servidor vinculado ao regime desta Lei, que acu- mular licitamente dois cargos efetivos, quando investido em cargo de provimento em comissão, ficará afastado de ambos os cargos efetivos, salvo na hipótese em que houver compatibilidade de horá- rio e local com o exercício de um deles, declarada pelas autoridades máximas dos órgãos ou entidades envolvidos. Se o servidor já cumular dois cargos efetivos e for investido de um cargo em comissão, ficará afastado dos cargos efetivos a não ser que exista compatibilidade de horários e local com um deles, caso em que se afastará de somente um cargo efetivo. “Os artigos 118 a 120 da lei nº 8.112/90 ao tratarem da acumu- lação de cargos e funções públicas, regulamentam, no âmbito do ser- viço público federal a vedação genérica constante do art. 37, incisos VXI e XVII, da Constituição da República. De fato, a acumulação ilícita de cargos públicos constitui uma das infrações mais comuns praticadas por servidores públicos, o que se constata observando o elevado número de processos administrativos instaurados com esse objeto. O sistema adotado pela lei nº 8.112/90 é relativamente bran- do, quando cotejado com outros estatutos de alguns Estados, visto que propicia ao servidor incurso nessa ilicitude diversas oportuni- dades para regularizar sua situação e escapar da pena de demissão. Também prevê a lei em comentário, um processo administrativo simplificado (processo disciplinar de rito sumário) para a apuração dessa infração – art. 133” 57 .

57 MOrGATO,

Almir. O regime Disciplinar dos
Almir.
O
regime
Disciplinar
dos
24
24
Ética no serviço Público CAPÍTUlO IV DAS rESPONSABIlIDADES Art. 121. O servidor responde civil, penal

Ética no serviço Público

CAPÍTUlO IV DAS rESPONSABIlIDADES

Art. 121. O servidor responde civil, penal e administrativa- mente pelo exercício irregular de suas atribuições. Segundo Carvalho Filho 58 , “a responsabilidade se origina de uma conduta ilícita ou da ocorrência de determinada situação fáti- ca prevista em lei e se caracteriza pela natureza do campo jurídico em que se consuma. Desse modo, a responsabilidade pode ser civil,

penal e administrativa. Cada responsabilidade é, em princípio, inde- pendente da outra”.

É possível que o mesmo fato gere responsabilidade civil, penal

e administrativa, mas também é possível que este gere apenas uma

ou outra espécie de responsabilidade. Daí o fato das responsabilida- des serem independentes: o mesmo fato pode gerar a aplicação de qualquer uma delas, cumulada ou isoladamente.

Art. 122. A responsabilidade civil decorre de ato omissivo ou

comissivo, doloso ou culposo, que resulte em prejuízo ao erário ou a terceiros.

§ 1 o A indenização de prejuízo dolosamente causado ao erário

somente será liquidada na forma prevista no art. 46, na falta de

outros bens que assegurem a execução do débito pela via judicial.

§ 2 o Tratando-se de dano causado a terceiros, responderá o

servidor perante a Fazenda Pública, em ação regressiva.

§ 3 o A obrigação de reparar o dano estende-se aos sucessores

e contra eles será executada, até o limite do valor da herança re- cebida. O instituto da responsabilidade civil é parte integrante do di- reito obrigacional, uma vez que a principal consequência da prática

de um ato ilícito é a obrigação que gera para o seu auto de reparar

o dano, mediante o pagamento de indenização que se refere às per-

das e danos. Afinal, quem pratica um ato ou incorre em omissão que gere dano deve suportar as consequências jurídicas decorrentes, restaurando-se o equilíbrio social. 59

A responsabilidade civil, assim, difere-se da penal, podendo re-

cair sobre os herdeiros do autor do ilícito até os limites da herança, embora existam reflexos na ação que apure a responsabilidade civil conforme o resultado na esfera penal (por exemplo, uma absolvição por negativa de autoria impede a condenação na esfera cível, ao pas- so que uma absolvição por falta de provas não o faz). Genericamente, os elementos da responsabilidade civil se en- contram no art. 186 do Código Civil: “aquele que, por ação ou omis- são voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar

dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. Este é o artigo central do instituto da responsabilidade civil, que tem como elementos: ação ou omissão voluntária (agir como não se deve ou deixar de agir como se deve), culpa ou dolo do agente (dolo é a vontade de cometer uma violação de direito e culpa é a falta de dili- gência), nexo causal (relação de causa e efeito entre a ação/omissão

e o dano causado) e dano (dano é o prejuízo sofrido pelo agente, que

pode ser individual ou coletivo, moral ou material, econômico e não

econômico).

Servidores Públicos da União. Disponível em: <http://www.

canaldosconcursos.com.br/artigos/almirmorgado_artigo1.pdf>.

Acesso em: 11 ago. 2013.

58 CArVAlHO FIlHO, José dos Santos. Manual de

direito administrativo. 23. ed. rio de Janeiro: lumen juris, 2010.

59 GONçAlVES, Carlos roberto. responsabilidade

Civil. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2005.

Prevê o artigo 37, §6° da Constituição Federal:

As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o di- reito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa.

Este artigo deixa clara a formação de uma relação jurídica au- tônoma entre o Estado e o agente público que causou o dano no desempenho de suas funções. Nesta relação, a responsabilidade civil será subjetiva, ou seja, caberá ao Estado provar a culpa do agente pelo dano causado, ao qual foi anteriormente condenado a reparar. Direito de regresso é justamente o direito de acionar o causador di- reto do dano para obter de volta aquilo que pagou à vítima, conside- rada a existência de uma relação obrigacional que se forma entre a vítima e a instituição que o agente compõe. Assim, o Estado responde pelos danos que seu agente causar aos membros da sociedade, mas se este agente agiu com dolo ou culpa deverá ressarcir o Estado do que foi pago à vítima. O agente causará danos ao praticar condutas incompatíveis com o comporta- mento ético dele esperado. 60 A responsabilidade civil do servidor exige prévio processo ad- ministrativo disciplinar no qual seja assegurado contraditório e am- pla defesa. Trata-se de responsabilidade civil subjetiva ou com culpa. Havendo ação ou omissão com culpa do servidor que gere dano ao erário (Administração) ou a terceiro (administrado), o servidor terá o dever de indenizar.

Art. 123. A responsabilidade penal abrange os crimes e con- travenções imputadas ao servidor, nessa qualidade. A responsabilidade penal do servidor decorre de uma conduta que a lei penal tipifique como infração penal, ou seja, como crime ou contravenção penal. O servidor poderá ser responsabilizado apenas penalmente, uma vez que somente caberá responsabilização civil se o ato tiver causado prejuízo ao erário (elemento dano). Os crimes contra a Administração Pública se encontram nos artigos 312 a 326 do Código Penal, mas existem outros crimes espa- lhados pela legislação específica.

Art. 124. A responsabilidade civil-administrativa resulta de ato omissivo ou comissivo praticado no desempenho do cargo ou função. Quando o servidor pratica um ilícito administrativo, a ele é atribuída responsabilidade administrativa. O ilícito pode verificar-se por conduta comissiva ou omissiva e os fatos que o configuram são os previstos na legislação estatutária. Por exemplo, as sanções apli- cadas pela Comissão de Ética por violação ao Decreto n° 1.171/94 são administrativas.

As sanções civis, penais e administrativas poderão

cumular-se, sendo independentes entre si. Se as responsabilidades se cumularem, também as sanções se- rão cumuladas. Daí afirmar-se que tais responsabilidades são inde- pendentes, ou seja, não dependem uma da outra.

60 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed.

São Paulo: Método, 2011.

Art. 125.

60 SPITZCOVSKY, Celso. Direito Administrativo. 13. ed. São Paulo: Método, 2011. Art. 125. Didatismo e Conhecimento

Didatismo e Conhecimento

25
25
Ética no serviço Público Art. 126. A responsabilidade administrativa do servidor será afastada no caso

Ética no serviço Público

Art. 126. A responsabilidade administrativa do servidor será afastada no caso de absolvição criminal que negue a existência do fato ou sua autoria. Determinadas decisões na esfera penal geram exclusão da res- ponsabilidade nas esferas civil e administrativa, quais sejam: absol- vição por inexistência do fato ou negativa de autoria. A absolvição criminal por falta de provas não gera exclusão da responsabilidade civil e administrativa. A absolvição proferida na ação penal, em regra, nada prejudica a pretensão de reparação civil do dano ex delicto, conforme artigos 65, 66 e 386, IV do CPP: “art. 65. Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito” (excludentes de antiju- ridicidade); “art. 66. não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a ação civil poderá ser proposta quando não tiver sido, ca- tegoricamente, reconhecida a inexistência material do fato”; “art. 386, IV – estar provado que o réu não concorreu para a infração penal”. Entendem Fuller, Junqueira e Machado 61 : “a absolvição dubita- tiva (motivada por juízo de dúvida), ou seja, por falta de provas, (art. 386, II, V e VII, na nova redação conferida ao CPP), não empresta qualquer certeza ao âmbito da jurisdição civil, restando intocada a possibilidade de, na ação civil de conhecimento, ser provada e re- conhecida a existência do direito ao ressarcimento, de acordo com o grau de cognição e convicção próprios da seara civil (na esfera penal, a decisão de condenação somente pode ser lastreada em juízo de certeza, tendo em vista o princípio constitucional do estado de inocência)”.

Art. 126-A. Nenhum servidor poderá ser responsabilizado ci- vil, penal ou administrativamente por dar ciência à autoridade su- perior ou, quando houver suspeita de envolvimento desta, a outra autoridade competente para apuração de informação concernente à prática de crimes ou improbidade de que tenha conhecimento, ainda que em decorrência do exercício de cargo, emprego ou função pública. Este dispositivo visa garantir que os servidores públicos de- nunciem os servidores hierarquicamente superiores. Afinal, todos teriam receio de denunciar se pudessem ser responsabilizados civil, penal ou administrativamente por tal denúncia caso no curso da apu- ração se verificasse que ela não procedia.

CAPÍTUlO V DAS PENAlIDADES

Art. 127. São penalidades disciplinares:

I - advertência; II - suspensão;

III - demissão;

IV - cassação de aposentadoria ou disponibilidade;

V - destituição de cargo em comissão;

VI - destituição de função comissionada.

A advertência é a pena mais leve, um aviso de que o funcionário se portou de forma inadequada e de que isso não deve se repetir.

61 FUllEr, Paulo Henrique Aranda; JUNQUEIrA,

Gustavo Octaviano Diniz; MACHADO, Angela C. Cangiano. Processo Penal. 9. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. (Coleção Elementos do Direito)

A suspensão é uma sanção intermediária, fazendo com que o

funcionário deixe de desempenhar o cargo por certo período. Na demissão, o funcionário não mais exercerá o cargo, sendo assim san- ção mais grave. Outras sanções são cassação da aposentadoria ou disponibilidade, destituição do cargo em comissão, destituição da função comissionada.

Art. 128. Na aplicação das penalidades serão consideradas a natureza e a gravidade da infração cometida, os danos que dela provierem para o serviço público, as circunstâncias agravantes ou atenuantes e os antecedentes funcionais. Parágrafo único. O ato de imposição da penalidade mencio- nará sempre o fundamento legal e a causa da sanção disciplinar. De forma fundamentada, justificada, se escolherá por uma ou outra sanção, conforme a gravidade do ato praticado.

Art. 129. A advertência será aplicada por escrito, nos casos de violação de proibição constante do art. 117, incisos I a VIII e XIX, e de inobservância de dever funcional previsto em lei, regulamen- tação ou norma interna, que não justifique imposição de penalidade mais grave. Vide comentários aos incisos I a VII e XIX do art. 117. A norma é genérica, envolvendo ainda qualquer outra violação de dever fun- cional que não exija sanção mais grave.

Art. 130. A suspensão será aplicada em caso de reincidência das faltas punidas com advertência e de violação das demais proi-

bições que não tipifiquem infração sujeita a penalidade de demis- são, não podendo exceder de 90 (noventa) dias.

A suspensão é uma sanção administrativa intermediária, aplicá-

vel se as práticas sujeitas a advertência se repetirem ou em caso de infração grave que ainda assim não gere pena de demissão.

§ 1 o Será punido com suspensão de até 15 (quinze) dias o ser-

vidor que, injustificadamente, recusar-se a ser submetido a inspe-

ção médica determinada pela autoridade competente, cessando os efeitos da penalidade uma vez cumprida a determinação.

Trata-se de hipótese específica em que será aplicada suspensão.

§ 2 o Quando houver conveniência para o serviço, a penalidade

de suspensão poderá ser convertida em multa, na base de 50% (cin-

quenta por cento) por dia de vencimento ou remuneração, ficando o servidor obrigado a permanecer em serviço.

Se for inconveniente para a administração pública abrir mão do

servidor, poderá multá-lo em 50% de seu vencimento/remuneração diário pelo número de dias de suspensão. O servidor não poderá se recusar a permanecer em serviço.

Art. 131. As penalidades de advertência e de suspensão te- rão seus registros cancelados, após o decurso de 3 (três) e 5 (cin- co) anos de efetivo exercício, respectivamente, se o servidor não houver, nesse período, praticado nova infração disciplinar.

Parágrafo único. O cancelamento da penalidade não surtirá efeitos retroativos.

O bom comportamento posterior do servidor faz com que o re- gistro de advertência (após 3 anos) ou suspensão (após 5 anos) seja apagado de seu registro, o que não significa que o servidor poderá requerer, por exemplo, o pagamento referente aos dias que ficou sus- penso.

servidor poderá requerer, por exemplo, o pagamento referente aos dias que ficou sus - penso. Didatismo

Didatismo e Conhecimento

26
26