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HANS KNEIFEL

AS VESPAS ASSASSINAS

Tradução de RICHARD PAUL NETO

Titulo do original: “DIE MORDWESPEN"

ERICH PABEL VERLAG — Rastatt, West Germany

Da tradução — EDITORA TECNOPRINT S.A., 1977

Todos os personagens deste livro são fictícios. Qualquer semelhança


com pessoas ou acontecimentos da vida real é mera coincidência.

HISTÓRIA ou ESTÓRIA?
As Edições de Ouro e o Coquetel grafam a palavra história e não
estória por julgar a primeira forma mais correta, conforme
dicionários mais categorizados, que julgam a segunda forma
imitação do inglês story, sem correspondente com raízes em
nossa língua.
1

O ÚNICO som que se ouvia era o zumbido da turbina conjugada,


movendo a hélice horizontal do helicóptero. Os gases de escapamento,
depois de passarem pela câmara de recombustão, tangiam a máquina
para a frente. Atrás da lâmina frontal aerodinâmica, cuja curvatura
lembrava a cabeça de uma vespa-selvagem, estavam sentados dois
jovens de rostos magros e cabelos desgrenhados. Shea disse alguma
coisa. Suas palavras foram transmitidas pelo microfone de laringe.
— Apesar da cobertura vegetal, a temperatura média não baixou.
Aliás, era o que eu esperava.
Seager tirou os olhos do painel de instrumentos.
— Devíamos cobrir toda a ilha de vegetação. Nesse caso, teríamos
uma gigantesca selva, Shea. Por enquanto não chegamos a esse ponto.
Shea fez um gesto afirmativo e olhou para fora. A sombra em
forma de libélula projetada pelo helicóptero corria sobre os gramados,
as florestas, os juncos negros, os arbustos e as cercas vivas, as matas
de d’Itvias. O sol dardejava sobre o solo. Mas, no mesmo lugar em
que há um milênio ressequia cada vez mais os desertos amarelos do
continente, existia hoje um dos parques naturais de Terra. Muito
embora tivessem sido instaladas fábricas subterrâneas, tal qual em
áreas extensas da Provence, sobre elas estendiam-se os parques. Em
cada continente havia reservas biológicas desse tipo.
— Onde pousaremos hoje? — perguntou Shea depois de algum
tempo.
— Em Avon Downs — respondeu Seager.
O parque natural de Camooweal era um dos maiores do planeta; e,
num prazo que quase chegava a um milênio, os gastos feitos atingiam
vários bilhões. Correspondia à concepção de Terra que um planeta de
estaleiros e centros administrativos se transformasse num mundo de
florestas, num lugar ao qual acorreriam todos os homens que viviam
na esfera espacial de novecentos parsec. Os limites do parque de
Camooweal seguiam acidentes bem definidos do terreno, e podiam ser
determinados com boa dose de aproximação. Esse areai tinha de ser
vigiado por Shea e Seager, juntamente com mais quarenta e oito
homens e mulheres.
A vespa de aço continuava a cortar os ares, em direção à
localidade de Avon Downs.
— Essas plantações de d’Itvia me deixam preocupado —
resmungou Shea de repente. — Tenho a impressão de que, com elas,
trouxemos animais daninhos que dificilmente poderão ser combatidos.
Seager apontou para o traçado projetado pelo radar, ressaltando
um ponto situado no terço superior da tela redonda colocada em
posição inclinada. A intensidade luminosa desse ponto mudava
segundo um ritmo codificado.
— É justamente por isso que nos encontraremos com dois colegas
nas proximidades de Avon Downs. Os mesmos realizaram
experiências com culturas.
A frente do helicóptero as abóbadas semitransparentes e as antenas
de Avon Downs começaram a tremeluzir no ar quente; no início
parecia uma miragem em meio a uma grande área verde.
— Está certo — disse Shea. — Michelle também comparecerá?
— Provavelmente. Não perderá a chance de dar uma olhada ligeira
no seu rosto marcante.
— Devo levar essa observação sarcástica a sério, ou será que a
mesma tem uma finalidade definida? — perguntou Shea.
— Tudo que digo tem uma finalidade definida — foi a resposta de
Seager.
Seager desceu com o helicóptero e reduziu a velocidade.
— O que pretende fazer hoje? Michelle é amicíssima de um
engenheiro de bordo da frota. Se você tiver alguma chance passageira,
isso acontecerá apenas porque, por um tempo reduzido, ela precisa de
um substituto. É o conselho que lhe posso dar nesta quinta-feira.
Trezentas máquinas diferentes, algumas delas equipadas com
direção eletrônica, realizavam os trabalhos exigidos pelo gigantesco
parque. Aplainavam o terreno, abriam buracos, transportavam árvores,
semeavam e cortavam a grama, providenciavam a remoção do lixo,
abriam e limpavam os caminhos que atravessavam o parque. Boa parte
da população australiana procurava e encontrava refúgio nesse lugar.
No parque de Camooweal havia piscinas, praças de esporte, pequenos
hotéis e poucas máquinas. Os visitantes vindos dos planetas coloniais
não se cansavam de admirar essa maravilha tão bem planejada.
— Aí está o laboratório; é aí que Michelle está esperando — disse
Seager, depois que o helicóptero descrevera uma curva e se
aproximava do conjunto de edifícios baixos, que quase desapareciam
entre os grupos de árvores d’Itvia. — Estraguei seu bom humor?
— Não. Provavelmente você tem razão, como sempre —
confessou Shea. — Mas, de qualquer maneira, isso me deixa
aborrecido.
Seager moveu a mão que segurava a complexa alavanca de
direção. O helicóptero deslizou três metros acima do nível do solo, em
direção ao redondo campo de pouso.
— Não há nenhum motivo para ficar aborrecido — disse Seager
em tom professora! Seu companheiro tinha alguns anos menos que ele
e por isso ainda não tivera oportunidade de acumular tantas
experiências. — Pode ser um motivo de definir sua posição global na
sociedade e entre as pessoas que o cercam... ou de encontrar a mesma.
Shea lançou-lhe um olhar de surpresa.
— Minha posição? Será que ainda não tenho uma posição
definida?
Seager pousou. Contou um total- de cinco helicópteros. Segundo
seus cálculos, isso correspondia a quinze pessoas, incluída a guarnição
dos laboratórios; ou, se incluísse os ocupantes de sua máquina,
dezessete pessoas.
— Você tem, mas ainda não a conhece. Só depois de termos cem
por cento de certeza do que podemos ou não podemos fazer
adquirimos a segurança que nos habilita a aceitar uma situação
desagradável, como a que você enfrenta em relação a Michelle com a
calma que esperam da gente.
A hélice foi parando. O uivo da turbina cessou.
— Será que um vigilante sempre se transforma num filósofo,
Seager? — perguntou Shea, enquanto fez com que a porta se abrisse e
pôs os pés nos dois degraus de cima.
— Nem sempre; mas é mais provável que em qualquer outro lugar.
Com exceção das naves espaciais, pois todos os astronautas são
filósofos.
Seager colocou o capacete cuidadosamente sobre o assento.
Shea permaneceu na sombra da vespa de aço enquanto aguardava
o companheiro. Caminhando juntos, aproximaram-se da entrada que
ficava a cerca de cem metros de distância, feita de aço, plástico e vidro
colorido, e protegida por uma barreira de fluxos luminosos que se
cruzavam em forma de grade.
— Está aludindo a Cliff McLane? — perguntou Shea.
— Entre outros. É um homem que conhece perfeitamente sua
posição e sabe manter-se na mesma com uma segurança admirável.
Tome-o por exemplo, companheiro.
Shea confirmou com um gesto resignado.
— Farei o possível. Se não fosse você... — deixou de completar a
frase.
À sua frente, placas de vidro deslizavam para o lado. Os dois
homens entraram e sentiram-se muito gratos ao constatar que o
sistema de condicionamento de ar estava funcionando. Ouviram vozes
confusas, enquanto eram atingidos por uma lufada de ar frio. O suor
de sua pele secou. Conheciam o edifício, e foram diretamente para a
sala de conferências.
As vozes não pareciam muito satisfeitas; as quinze pessoas que
aguardavam Seager e Shea discutiam um problema de certa
gravidade...
Dezessete pessoas, dez moças e sete homens, estavam reunidas na
pequena sala. Diante de uma das paredes havia uma mesa comprida de
laboratório com j aulas, um grande herbário e uma série de cubos de
vidro, ligados a mangueiras brancas.
— Se há quinze anos tivéssemos imaginado o que agora sabemos
— disse Chan, o dirigente do parque natural — teríamos escolhido
qualquer planta, menos a d’Itvias.
Estava encostado a um balcão, com uma xícara de café na mão
esquerda, e apontava para a planta. Achava-se atrás de uma divisória
de vidro formada por duas lâminas entre as quais corria um líquido
destinado à refrigeração, e fora colocada no pátio situado entre os
prédios.
— Você cheira à terra e a adubo — disse Seager, enquanto
apertava a mão de Chan.
— Não fique tão convencido por cheirar a combustível de
helicóptero — respondeu Chan. — Shea acaba de chegar. Seja bem-
vindo!
— Obrigado — disse Shea. Resolveu levar a sério o conselho de
seu companheiro e, dirigindo-se a Michelle: — Por São Teobromino,
Michelle! Qual é a posição social que um homem deve ocupar para
conseguir com você uma xícara de café? — disse em voz alta.
Seager sorriu disfarçadamente, para que Shea não o visse.
Michelle fitou Shea com uma expressão de surpresa e um sorriso
discreto surgiu em seus lábios.
— Será que em pleno Ano Galático você descobriu seu talento
para o sarcasmo, Shea? — perguntou.
Michelle era uma moça que tinha um cabelo de cor indefinida.
Várias apostas foram feitas; alguém teve a idéia de arrancar-lhe um fio
de cabelo a fim de realizar uma análise. Michelle mudava a cor do
cabelo com um intervalo médio de vinte dias. No momento, usava a
tonalidade cinza-prateado, e isso há mais de duas semanas.
Pegou uma xícara, colocou o concentrado de creme e açúcar e
abriu a torneira. O líquido preto e quente despejou-se no recipiente.
— Obrigado — disse Shea em tom indiferente e por pouco não
queima os dedos na xícara.
Observou-lhe comedidamente os olhos castanho-dourados. Depois
virou-lhe as costas, de maneira a colocar-se novamente em meio ao
pequeno grupo que cercava Chan, encostado ao balcão.
— Até parece — murmurou Seager em tom quase inaudível —
que você aprende muito depressa quando está interessado.
Um sorriso largo cobriu o rosto de Shea, que respondeu:
— Costumo seguir o conselho das pessoas inteligentes. O que foi
que Chan disse sobre as d’Itvias?
— Estava chorando suas mágoas.
Era uma reunião informal. Quase todos ocupavam a mesma
graduação, diferindo no seu campo de atribuições. O parque era
enorme, e, num trabalho como este, as diferenças de graduação
perdiam o sentido. As cinqüenta moças e homens do grupo de
Camooweal formavam uma equipe coesa. Chan, um homem cujo
cabelo embranquecera prematuramente, de olhos negros e rosto
anguloso, que usava uma capa de proteção contra o calor, emborcou a
xícara vazia, olhou para o relógio de pulso e voltou a colocar a xícara
no mesmo lugar.
— Vamos começar — disse a meia voz. Tirou a capa, que na
verdade era uma jaqueta feita de plástico branco com serpentinas
embutidas. Nos anéis que circundavam a articulação dos ombros,
havia pequenas máquinas refrigeradoras sem peças móveis. Um
conjunto térmico garantia a absorção do calor. A jaqueta foi atirada
sobre a poltrona, e com alguns passos Chan colocou-se junto à mesa
de laboratório. Parecia ter uma concepção bem definida. Sua voz
encheu o recinto, e trinta e dois olhos dirigiram-se sobre sua pessoa.
— Vamos começar, pois só assim teremos bastante tempo para a
discussão que esperamos.
Apontou para a planta que se encontrava do lado de fora.
— Acho que todo mundo sabe o que está acontecendo com esta
planta. Vou fazer um ligeiro resumo, para recapitular os dados. Há
quinze anos Terra, representada por uma nave cartográfica, descobriu
um planeta situado em Nove/Norte 206. Esse planeta recebeu o nome
d’Itvia, em homenagem ao astronavegador Sherby d’Itvia. A bordo da
nave-disco encontrava-se um biólogo. Esse homem é um dos culpados
do problema que estamos enfrentando hoje. Descobriu a ligação
existente entre os arbustos, as árvores menores e as gigantes sempre
verdes. Conforme sabemos, a evolução dessa planta se realiza em três
estágios. No estágio inicial, que dura três anos, é um arbusto em forma
de esfera. A d'Itvia lança um gigantesco entrelaçado de raízes, que lhe
permite armazenar quantidades enormes de água. A extensão enorme
que conseguimos dar ao parque Camooweal só se tornou possível
graças a esses arbustos. Todo mundo conhece suas flores. Durante a
florescência, apresentam dez cores diferentes e exalam um perfume
inebriador. Seager cochichou para Shea:
— Não sei por que está dizendo tudo isso. Todo mundo já sabe.
Shea deu de ombros e disse:
— Chan é um homem metódico. Além disso, vi um gravador de
fita.
Seager seguiu o olhar do colega mais jovem, virou ligeiramente a
cabeça e disse, falando depressa e baixinho:
— Mais tarde precisarão dessa fita. Aliás, Michelle o está olhando
com uma expressão muito pensativa.
— Acho que sua tática está dando certo — cochichou Shea.
— É a sua tática, desenvolvida segundo minhas recomendações,
companheiro.
Calaram-se e continuaram a acompanhar o resumo apresentado
pelo dirigente da reunião.
— As flores são a alegria dos insetos que estão à procura de pólen
e néctar. O aroma serviu de inspiração aos fabricantes de perfumes,
que usaram as células das plantas para criar novas combinações
olfativas. Tanto o mel como o cheiro são totalmente inofensivos para
qualquer ser que viva neste parque. Até aqui falamos a respeito do
arbusto que representa a primeira fase da vida dessa planta. A segunda
fase é formada por uma pequena árvore, que se desenvolve do arbusto
e produz um fruto: uma mistura entre a romã, o figo e o pêssego. O
sabor desse fruto é muito agradável e seu valor nutritivo é bem
considerável. Essa árvore é o encanto dos plantadores de frutas e dos
confeiteiros. Pelo que ouvi dizer, bombons caríssimos destinados à
exportação são recheados com o extrato.
"A árvore amplia as raízes, e, nas extremidades das mesmas,
voltam a surgir os arbustos de que já falamos. Essa é a segunda fase,
que dura cinco anos. A flora, que vingou tão bem, tanto no parque de
Camooweal como em todas as outras áreas de proteção natural do
planeta, não constitui o problema propriamente dito. Em cada área
foram criados os animais adaptáveis a esse tipo de planta, que muitas
vezes só foram conseguidos por meio de um sistema caro e
complicado de cruzamentos. Quer dizer que os parques foram
providos da respectiva fauna. Ao longo dos caminhos, foram
instalados sistemas de segurança, que repeliam todo e qualquer
animal, permitindo que se passeasse à vontade. Só as equipes que
operavam no campo corriam algum perigo.
"Depois de algum tempo, a árvore fornece os frutos e passa a
crescer numa velocidade fantástica. As árvores gigantescas que vemos
neste parque têm exatamente quinze anos e, em alguns casos, sua
altura é pouco inferior a oitenta metros. A sombra proporcionada por
suas enormes copas evita o ressecamento do solo. A cada ano que
passa, podemos reduzir a quantidade de água que tem de ser
dessalinizada para a irrigação deste parque. Depois de milênios sem
chuva, as florestas situadas ao longo do trópico de Capricórnio
criaram as condições para sua ocorrência. São estes os pontos
positivos que devem ser mencionados em relação ao planeta d’Itvia."
— Agora vai falar no problema — disse Michelle atrás das costas
de Shea. Este não se moveu; continuou a prestar atenção às palavras
do orador.
— As coisas seriam ótimas, se juntamente com essa planta de tão
múltiplas aplicações não tivessem sido introduzidos certos animais
daninhos. A planta é exótica, e os animais também o são. E dali
decorre uma conseqüência bastante triste. Temos que combater um
inimigo extraplanetário com meios terranos. Os animais daninhos são
um inimigo vindo de outro mundo.
Chan deu um estalo com os dedos. Uma imagem tridimensional
surgiu numa tela de videofone. Mostrava uma borboleta.
— Tortrix viridana extraterrestris. Viu-se uma borboleta verde-
escura com
asas verde-claras e um olho cor de ouro. Havia antenas longas e
elegantes que terminavam em pontinhas com o aspecto de prata pura.
— Este é nosso amigo voador. O tamanho do bichinho chega a
dois centímetros e meio. Às vezes, as larvas são tão abundantes que
chegam a devastar grandes extensões da floresta. Uma vez que não
tivemos o cuidado de importar no devido tempo o inimigo natural
desta borboleta, elas se reproduziram no ritmo ditado pela natureza.
Por dois anos atacamos com processos químicos e dizimamos os
animais, mas acabo de pedir ao centro de computação da Base 104 que
verifique o resultado. Segurem-se, companheiros!
Fez uma pausa e depois prosseguiu:
— Dentro de dez anos todo o planeta poderá ser atacado. Nessa
altura a população terá crescido tanto que qualquer folha encontrada
na superfície do planeta estará ocupada por esta borboleta de olho cor
de ouro. Tivemos de constatar que certos produtos químicos que em
outros casos exterminaram os insetos de uma hora para outra aqui não
produziram efeito. Certos produtos mais fortes fizeram efeito,
temporariamente. A geração seguinte adquiriu resistência ao produto.
E é ali que está nosso problema. Dentro de dois anos, precisamos de
alguma coisa que nos permita exterminar essa borboleta ou manter sua
quantidade sob controle. Se não conseguirmos, ficaremos
desempregados e em Terra não haverá uma única folha verde.
O quadro projetado na tela modificou-se. Mostrou ovos, larvas,
crisálidas e borboletas que acabavam de sair das mesmas. Os ovos
pareciam bolinhas presas a cabelinhos elásticos; a larva era uma figura
elipsóide verde-brilhante, capaz de grudar-se a qualquer planta sem
ser notada. As crisálidas pareciam semi-esferas com uma reentrância
no centro.
— Estou inclinado a acreditar que nossos conhecimentos não são
muito reduzidos — prosseguiu Chan. — Mas não posso deixar de
mencionar que perderemos, se dentro de um prazo curtíssimo não
descobrirmos um produto milagroso ou um inimigo natural que possa
fazer uma limpeza na raça das borboletas de olho dourado. Proponho
que nossos problemas sejam transmitidos ao governo terrano, e que
solicitemos a colaboração da frota.
Para alegria de Shea, fez uma ligeira pausa antes de proferir a
sentença final.
— Não sou de opinião que qualquer membro da frota,
isoladamente, possa prestar-nos auxílio. Acontece que a frota dispõe
de naves, e é bem possível que devamos procurar nossos meios de
defesa em outros planetas. É só, companheiros.
— Pois não — resmungou Seager em tom de aprovação.
Pôs as mãos nos bolsos e caminhou em direção aos estranhos
experimentos oferecidos na mesa de laboratório.
Atrás dele e de Shea, que se encontrava a seu lado, a assembléia
iniciou uma discussão encarniçada.
— Em todo lugar andam falando na frota — disse Shea. — Só
falta que Chan vá em companhia de McLane para d’Itvia, a fim de
procurar inseticidas.
Seager fitou Shea; seu rosto não demonstrava a menor surpresa.
— Companheiro — disse em voz baixa — isso não é nenhuma
fantasia estelar. Acredito que um homem como McLane seria o
colaborador ideal. Afinal, as plantas de Terra estão em jogo.
Shea sacudiu a cabeça e murmurou:
— Que alguém nos livre de vermos Michelle viajar em companhia
de McLane. Depois de entrar em contato com um astronauta desse
quilate, talvez eu a perca.
Seager espalmou as mãos e recomendou ao companheiro:
— Aguarde para ver se ela o chama. Se isso acontecer, faça o
possível para que o levem. Nesse caso, você terá a melhor chance de
sua vida para tirar de sua cabeça o lugar-comum segundo o qual um
astronauta sempre é mais homem que um jardineiro.
Shea começou a rir. Enquanto ria, percebeu que mais uma vez
Seager estava com a razão. Interrompeu-se e virou a cabeça. Atrás do
balcão, Michelle conversava com Chan.
— Malditos astronautas! — murmurou Shea. — Maldito McLane!
Viu caminharem em sua direção certos problemas que, embora
estivessem estreitamente ligados com a borboleta de olho dourado,
talvez pudessem ser resolvidos sem a mesma.
— Tolice! — resmungou, enquanto dedicava sua atenção aos
cubos de vidro nos quais animais daninhos nos mais diversos estágios
de desenvolvimento viviam em atmosfera saturada de inseticidas. Em
todos os casos, notava-se à primeira vista que os animais se haviam
tornado imunes a essas substâncias, ou haviam criado resistências
contra as mesmas. A discussão tornou-se cada vez mais acalorada.
Será que alguém tinha encontrado um caminho?
***
Não foi por puro altruísmo que os responsáveis pelos destinos de
Terra se dedicaram com grande esforço à criação de parques naturais,
e neles investiram somas enormes. O altruísmo era um sentimento
estranho a Terra. Provavelmente não ficariam em paz com a
consciência se os tivessem instalado apenas para a felicidade dos
cidadãos. Os verdadeiros motivos eram mais profundos e só aos
poucos foram sendo compreendidos. Tratava-se da sede do prestígio e
do poder, da tendência a uma valorização artificial.
As experiências custosas que permitiram a recriação de animais
terranos, julgados extintos, e seu cruzamento com raças exóticas,
descobertas em outros planetas, os gigantescos parques e florestas, as
margens e os leitos dos rios — tudo isso contribuía para fazer de Terra
um lugar sem par. Era a jóia incrustada no diadema de novecentos
parsec de diâmetro. Para o cidadão comum, as viagens aos outros
planetas ainda por muito tempo seriam um prazer inatingível. Por isso
não havia outro meio senão recriar no próprio planeta os elementos
exóticos. O parque de Camooweal era um dos exemplos dessa
recriação.
Num passado que em termos de história mundial devia ser
considerado recentíssimo, naquela área existia o deserto com
pequenos lagos salgados e rios periódicos. Agora, porém, se estendia
uma enorme floresta. Eram eucaliptos, acácias, capim spinifex e várias
árvores que se adaptavam ao clima, além de líquens importados de
outras zonas do mundo.
O parque de Camooweal era isso. Rios alimentados por tubulações
vindas do mar, cuja água era purificada e dessalinizada. Depois de
receber um tratamento que aumentava seu conteúdo de oxigênio, a
água descia das encostas de Barklytafel. Geralmente corria em calhas
de concreto, das quais saíam pequenos canais.
De início, o verde começou a espalhar-se junto a esses canais, mas
depois de algum tempo foi iniciado o florestamento sistemático. Uma
vez descobertas as d'Itvias, as mesmas se revelaram auxiliares
valiosíssimas, graças ao crescimento rápido. A população terrana —
aqui era a do continente australiano — vivia num regime de tranqüila
"contemplatividade". Nos últimos tempos não houvera crises políticas;
apenas vez por outra os extraterranos, os planetas em chamas ou
certos fanáticos os deixavam sobressaltados. Geralmente os homens
da frota conseguiam eliminar o perigo antes que os repórteres e as
agências de informações noticiassem a respeito. Uma vida livre de
riscos — era assim que se podia designar a existência no planeta
Terra.
A calma era perturbada a intervalos irregulares. Desta vez, era um
inseto daninho que poderia ser esmagado pelo dedo de qualquer
criança. Se dez mil borboletas põem trinta ovos cada uma, e se não
existe nenhum inimigo natural que mantém os sobreviventes dentro de
certos limites, o número de animais subirá para trezentos mil.
Trezentos mil vezes trinta são nove milhões. A cada ano que passava
poderiam surgir duas gerações de borboletas de olhos dourados. Suas
nuvens seriam tão densas que obscureceriam a luz do Sol. Quando
isso acontecesse, nenhuma folha continuaria viva na face de Terra.
Isso representaria a extinção dos elementos produtores de oxigênio.
Tratava-se de um erro minúsculo que poderia trazer conseqüências
tremendas.
Os pensamentos de Seager afastaram-se desse prognóstico sombrio
para voltar a dedicar-se às palestras travadas na sala de conferências.
Virou-se e fitou Shea, em cujo rosto havia uma estranha palidez.
Provavelmente acabara de entreter os mesmos pensamentos que ele.
— Ainda dispomos de algum tempo, antes que as nuvens se
tornem mortais. Devemos tomar providências imediatas.
Shea apontou para os grupos que discutiam.
— Será que se trata de uma solução final, Seager?
Seager sacudiu desesperadamente a cabeça.
— Ainda não — disse. — Mas sei quem somos. Encontraremos
um meio, custe o que custar.
Shea foi caminhando lentamente em direção a Chan, que se
encontrava em meio a um grupo que discutia violentamente. Michelle,
que se achava ao lado de Chan, olhou para Shea. Este se esforçou para
não olhá-la mais que o necessário.
— Chan! — disse Shea em tom enfático. O homem de olhos
fascinantes fitou-o.
— Pois não. O que houve?
Shea respondeu com um sorriso frio.
— Não houve nada. O problema é este. De corpo e alma sou
guarda do parque e um membro entusiástico da equipe de Camooweal.
Mas sei perfeitamente, da mesma maneira que todos sabem, embora
não queiram admiti-lo, que por enquanto só encontramos uma única
solução.
Um interesse súbito surgiu nos olhos da moça. Parecia que uma
pequena luz acabara de ser acesa atrás de suas pupilas. Shea percebeu
a estranha situação psicológica em que ele, a moça e o tal do
astronauta desconhecido se encontravam. Devia descobrir um meio de
despertar o interesse de Michelle. A moça era do tipo companheira de
herói; mal concebeu esta idéia, pôs-se a sorrir.
— Qual é a solução, Shea? — perguntou Michelle, atirando o
cabelo para trás.
— Saímos por aí e esmagamos toda borboleta, toda crisálida, toda
larva, todo ovo que encontrarmos. Isso resolveria o problema, ao
menos nas imediações do lugar em que nos encontramos.
Michelle empalideceu. Compreendeu que Shea descobrira um
meio de brincar com ela. A qualquer mulher, uma constatação desse
tipo seria praticamente arrasadora. Para sua surpresa, Chan respondeu
com a maior tranqüilidade:
— É isso mesmo, Shea. Não temos outra possibilidade. O assunto
deve ser submetido a uma autoridade superior. Precisaremos do apoio
da frota.
— Quem tratará disso? — perguntou Seager, que se colocara ao
lado de Shea.
— Eu — respondeu Chan. — Tenho encontro marcado com
Macauley para amanhã. Ainda hoje voarei para Groote Eylandt. Por
enquanto trabalharei sozinho. Farei o possível para trazer Macauley, a
fim de que o mesmo possa estudar o problema.
— Em outras palavras — insistiu Seager — podemos pegar nossos
helicópteros e ir embora, não é, Chan?
Chan sacudiu a cabeça.
— Peço-lhes que fiquem até amanhã. Suponho que alguns de nós
receberão incumbências especiais. Repito: apenas suponho. Nada
mais.
O silêncio tomou conta do grupo.
— Ainda bem que alguma coisa está acontecendo — disse Seager.
— Quer que o leve para lá, Chan?
Chan olhou para o relógio. Eram quinze horas.
— Seria muito gentil de sua parte. Daqui a uma hora. Combinado,
companheiro?
— Combinado, desde que alguém me dê alguma coisa para comer.
Neste caso, terei muito prazer em pôr minha geringonça amarelo-
prateada a funcionar — Seager fez um gesto afirmativo. Michelle
tocou seu braço e perguntou:
— Há mais alguém que esteja morrendo de fome?
Shea levantou o braço e respondeu com a maior indiferença:
— Há sim; sou eu.
— Venham — disse Michelle. Visivelmente abalada e insegura,
foi para trás do balcão e abriu a geladeira. Ruborizada, remexeu as
rações, que apenas precisaria colocar no forno de alta freqüência
juntamente com o envoltório de alumínio. Shea e Seager sorriram para
ela...
***
Depois de ter mudado de roupa, Shea saiu do quarto e voltou a
dirigir-se à sala de reuniões, onde pediu uma vodca. Outra moça,
Arlene, deu-lhe um copo alongado.
— Onde está Michelle? — perguntou Shea. — Viajou?
— Não — respondeu Arlene. — Está no parque, contemplando a
lua. Ou as estrelas; não sei.
Shea sorriu.
— Está contemplando alguma coisa que existe entre as estrelas,
mas só em sua imaginação. Se alguém perguntar por mim, estarei com
ela.
Saiu da sala e procurou localizar entre as árvores e os arbustos um
vulto esbelto de cabelos cinza-prateados. Não demorou em encontrá-
la.
— Está olhando as estrelas cadentes, para formular um desejo
assim que descobrir alguma? — perguntou em voz baixa.
A moça virou-se abruptamente, pois não o ouvira chegar.
— Shea!
— Sou eu mesmo — disse, cheirando o copo que trazia. — Será
que você ficou lunática, minha filha?
— Não — respondeu a moça. — Estou pondo meus pensamentos
em ordem.
— Faz muito tempo que está aqui — Shea sorriu. — Tem tantos
pensamentos assim?
Michelle virou-se e parou diante de Shea.
— Desde o meio-dia você parece bastante mudado, Shea. Está tão
estranho!
— Não — respondeu Shea. — Apenas não sou mais o jovem
capaz de destruir um helicóptero para ter o privilégio de contemplar
seus olhos. Acho que esses tempos não voltarão mais. Aliás, como vai
seu astronauta? Andou à sua procura, Penélope?
— Mais ou menos — respondeu Michelle bastante confusa. —
Para que descobrir onde está?
— O que me interessa é saber quando pousou aqui pela última vez
e quando a visitou. Quase chego a ter pena de você, minha pobrezinha.
Até parece uma freira que, vez por outra, recebe uma visita de
Belzebu.
Michelle respirou fundo. Shea sorveu tranqüilamente um gole de
vodca e contemplou o rosto da moça.
— Você está usando falas bastante estranhas — disse Michelle em
voz baixa.
— Foi tudo decorado nos livros — respondeu Shea em tom
indiferente. — Acho que consegui atingir o ponto fraco. Houve um
tempo em que fiquei com os pés machucados de tanto correr atrás de
você. Agora as coisas estão mudadas. Já sei que você conhece minha
oferta. E estou esperando para saber se quer aceitá-la. Por enquanto
ainda estou esperando. O planeta em que nos encontramos está cheio
de borboletas de olho dourado e moças bonitas. Acho que o tempo
está esfriando.
Virou as costas à moça e foi caminhando em direção a casa. Pouco
antes de chegar à porta de vidro parou e esvaziou lentamente o copo.
O gelo já estava derretido. Avançou mais um passo e ouviu o chiado
das duas lâminas de vidro. Entrou no corredor. Subitamente viu
Michelle a seu lado.
— Seria demais pedir sua preciosa compreensão? — perguntou.
Shea fitou seus olhos.
— Não seria demais — respondeu, falando devagar. — Mas pode
ser que daqui a pouco seja tarde, Michelle. Estou esperando. Ainda
estou.
Michelle engoliu em seco.
— Dê-me mais um pouco de tempo, companheiro.
Um sorriso cansado surgiu nos lábios de Shea.
— Dou-lhe um pouco mais de tempo. Mas não todo o tempo que
existe no mundo.
Afastou-se, foi ao quarto e mudou de roupa. Não demorou em
adormecer.
2

NAQUELA manhã, Cliff Allistair McLane tinha dois motivos


bastante poderosos para sentir-se mal-humorado.
Antes de mais nada, despertaram-no para transmitir-lhe a notícia
de que a Aztran Alpha finalmente pousara, com Spring-Brauner a
bordo. Embora as férias que, juntamente com boa quantidade de
Archer's Tears, constituíam objeto de uma aposta que ele, Cliff,
fechara com Wamsler, na presença de testemunhas, tivessem durado
muito, agora haviam chegado irremediavelmente ao fim.
O outro motivo era mais sutil.
Não se poderia dizer que McLane fosse um amante das flores, um
jardineiro amador ou botânico entusiasta. Todavia, estava em
condições de perceber eventuais desvios das normas. E esse desvio
consistia no fato de que uma combinação de árvores e arbustos
estrategicamente dispostos em torno de seu bangalô apresentava
grandes falhas.
Os arbustos, que constituíam exemplares de uma planta exótica,
tinham seu lugar entre a cerca e a piscina. Protegiam Cliff contra os
olhares dos curiosos, quando estava deitado à beira da água. Mas
agora, os arbustos redondos e geralmente cheios estavam "comidos".
Quase não tinham folhas e estavam cobertos de larvas de insetos que
Cliff achava repugnantes. Encontrava-se junto a uma grande
prateleira, contemplando as caixas de plásticos nas quais guardara os
restos de folhas e os insetos que conseguira recolher em torno dos
arbustos.
— Perguntarei a alguém que entenda do assunto! — murmurou e
apertou os fechos magnéticos das mangas. — Mas quem poderia
informar sobre quem estivesse em condições de informar?
Sorriu. A segunda parte do segundo motivo consistia nas árvores.
As copas estavam reduzidas a redes finíssimas, e a sombra resumia-se
a um traçado futurista sobre as pedras. As árvores também haviam
sido atacadas.
— Animais estúpidos! — resmungou Cliff e parou diante do
videofone. Conseguiu lembrar-se do número de informações e bateu
as respectivas teclas.
— Informações. Groote Eylandt e Base 104 — disse uma voz.
— Querida! — disse Cliff num sopro, como se estivesse nos seus
melhores tempos. — Sou o coronel McLane. Gostaria de ver seus
olhos enquanto lhe peço uma informação.
O setor de informações transmitiu a ligação para a moça de
plantão. A tela iluminou-se. Cliff viu uma jovem lindíssima. Um
sorriso quente iluminou seu rosto.
— Pois não, coronel McLane.
— Quero que a senhorita me dê uma informação toda especial.
A moça sacudiu a cabeça e retribuiu o sorriso.
— Lamento, coronel. Infelizmente tenho um compromisso para
hoje de noite.
Cliff não ocultou a alegria que lhe causou a resposta.
— Fico satisfeito em notar que a senhorita me interpretou mal —
disse a meia voz, aproximando-se da lente. — Estou à procura de um
endereço e do respectivo morador, homem ou mulher. Trata-se de um
problema de insetos, que danificam as plantas. Estou à procura de
alguém que possa mostrar-me um meio de eliminar quanto antes essa
praga de borboletas do meu arvoredo. É bom saber que adoro a
sombra.
Uma expressão pensativa surgiu no rosto da moça.
— Acho que há alguém no meu fichário. Groote Eylandt...
Ao que parecia, estava examinando um fichário eletrônico e lia os
dados numa tela, pois seu olhar se dirigia para além da lente.
Subitamente levantou a cabeça e disse:
— O senhor está procurando um entomólogo, coronel!
O termo não constava do vocabulário cotidiano de Cliff, mas este
confirmou com um gesto.
— É isso mesmo — disse. — Conhece algum.
— Do meu fichário consta um. É o professor Macauley, Groote
Eylandt, Shore 432143.
— Obrigado — disse Cliff. — Fico-lhe realmente muito grato.
Parou por um instante, em atitude pensativa, deu de ombros e
apertou as teclas do videofone. 4-3-2-1-4-3. Mais uma vez, a tela
ligeiramente abaulada iluminou-se. Viu o busto de um homem de seus
cinqüenta anos. Um par de olhos escuros fitou McLane, embaixo das
sobrancelhas hirsutas.
— Queira desculpar — disse Cliff. — Meu nome é McLane...
O homem acenou fortemente com a cabeça.
— O nome não me é desconhecido. Meu nome é Macauley.
— Poderia incomodá-lo com uma coisa sem importância?
Descobri uma praga no meu jardim.
O professor soltou uma risadinha.
— Acho que o senhor não me considera um matador de lesmas.
Por isso acredito que o problema deve ser um pouco mais complicado.
Cliff continuou sério e apontou para as caixas em que se debatiam
as borboletas, batendo constantemente contras as lâminas
transparentes e voltando a cair nas folhas entrecortadas.
— Não sou nenhum en... entomólogo. Será que é isso mesmo?
Acontece que nunca vi esse tipo de borboleta. É possível que meu
contato com o senhor possa ajudar a evitar um desastre, mas também é
possível que meu gesto não passe de um falso alarma. Não tenho
certeza. O senhor poderia dispor de alguns minutos...
Virou-se, apontou novamente para as caixinhas com os animais
daninhos e concluiu com uma interrogação:
— ...para dedicar-se aos meus queridinhos?
Depois de uma ligeira hesitação Macauley respondeu, falando
lentamente:
— Tenho um compromisso com o pessoal da equipe de
Camooweal, mas tentarei ajeitar a coisa. Poderia estar aqui dentro de
duas horas? Meu laboratório fica "junto à água".
Cliff concordou.
— Se não me engano, já conheço o lugar. Daqui a duas horas.
Fico-lhe muito grato, professor.
Macauley respondeu com um sorriso gentil.
— Não há por quê, coronel.
A tela apagou-se e Cliff afastou-se.
— Vejamos se existe uma possibilidade da árvore voltar a
proporcionar a minha piscina a sombra a que a mesma faz jus — disse
em voz baixa.
É claro que o coronel McLane nem imaginou a possibilidade de
que aquela borboleta pequena e verde, com pontos dourados e
brilhantes sobre as asas, pudesse interferir diretamente na vida da
tripulação da Orion. Como poderia ter uma idéia dessas?
***
Cliff parou diante da vidraça cor de mel e apertou o botão que
ficava abaixo da placa com o nome Gant Macauley. Um alto-falante
emitiu um clic e uma voz feminina disse:
— Aqui fala da parte de Macauley. O senhor tem hora marcada?
Ele respondeu em tom alegre:
— Tenho, sim. Meu nome é Cliff McLane.
A porta de vidro abriu-se com um zumbido e Cliff penetrou na
semi-escuridão do hall. Uma das portas abriu-se. Saiu uma moça que
envergava um uniforme bem justo no corpo. Trazia o distintivo do
destacamento biológico de Terra sobre o peito.
— Bem — respondeu a moça. — O professor está atendendo a
duas pessoas. São Chan e Seager, da equipe de Camooweal. O senhor
poderia aguardar um segundo?
— Posso — respondeu Cliff.
A jovem atravessou o hall e desapareceu atrás da porta acolchoada.
Quando esta se abriu por um segundo, Cliff ouviu três vozes que
falavam ao mesmo tempo. Dali a pouco, a moça voltou e examinou o
coronel e sua bagagem.
— Macauley manda perguntar se nessas caixas há pequenas
borboletas verdes com olhos dourados nas asas.
Cliff ficou espantadíssimo.
— Entre outras coisas, sim. São bichinhos alegres que comeram
toda a folhagem das minhas plantas e por isso perturbam meus banhos
de piscina.
A moça de jaqueta branca e curta olhou-o com uma seriedade
surpreendente.
— Nesse caso — disse em tom espantado — o professor Macauley
pede que entre imediatamente.
Abriu a porta. Cliff entrou numa sala quadrangular, recheada de
equipamento técnico, mesas e poltronas. Nela havia três homens. Uma
enorme vidraça panorâmica abria-se sobre a área verde, na qual se via
uma série de arbustos esféricos. Num dos cantos, notava-se uma
árvore cuja copa encobria quase toda a área. Depois que a porta se
fechou atrás dele, Cliff avançou mais alguns passos e parou diante da
mesa do professor.
— Já falei com o senhor, professor — disse em tom tranqüilo. —
Meu nome é McLane.
O professor levantou-se. Cliff notou que devia ter quase dois
metros de altura. Estendeu a mão direita para Cliff. O aperto de mão
era simpático: breve e vigoroso.
— Meu nome é Macauley. O senhor se envolveu numa situação
que talvez seja mais grave do que supomos.
Cliff respondeu em tom contrariado:
— Esta é uma das minhas especialidades, professor.
Macauley apontou para os dois homens que se mantinham calados
e contemplavam Cliff.
— Estes são Chan e Seager. Pertencem à equipe de Camooweal.
Sabe o que significa isso, coronel?
— Só sei que Camooweal é um lugar situado no parque natural
recém-inaugurado. Não sei o que isso tem a ver com as
borboletazinhas que tenho aqui.
Macauley pegou um dos cubos transparentes que se encontravam
sobre a mesa e levantou-o.
— Seager e Chan vieram por causa desta borboleta.
Cliff compreendeu imediatamente que havia uma ligação entre o
animal daninho surgido no parque natural e o que encontrara entre
suas árvores.
— Sugiro que se apertem as mãos. Dentro de poucas horas,
apresentarei uma exposição que lhe permitirá compreender toda a
seriedade da situação. E ainda compreenderá que a situação poderá
tornar-se muito mais séria, se não agirmos depressa. E, pelas
informações de que disponho, Cliff McLane será um dos participantes
da ação.
Cliff apertou as mãos dos dois homens. Logo simpatizou com eles.
Deixou-se cair numa poltrona.
— Ao contrário da atividade teórica, a ação tem uma vantagem
bem marcante: modifica as coisas. Às vezes, a modificação é para
pior, mas sempre é preferível fazer alguma coisa. Os senhores
escolheram o homem certo.
Os homens soltaram uma risadinha, mas o professor Macauley
logo recuperou o ar sério.
— Ainda mais que nós, os biólogos, chegamos a um beco sem
saída. Acho que os recursos de que podemos dispor estão esgotados.
— Que diabo! — disse McLane em voz alta.
— O senhor disse alguma coisa? — observou Seager com certa
ironia.
— Disse. Dei vazão ao meu espanto — disse Cliff em tom
tranqüilo. — Realmente, tudo parece processar-se segundo uma série
fatal. Sempre entro nas situações mais complicadas por um motivo
fútil. É de enlouquecer.
O professor Macauley sorriu com a sabedoria de um velho
filósofo.
— O senhor está exagerando, não está, coronel? Fale com
franqueza: se não fosse assim, o senhor não gostaria.
Cliff baixou a cabeça e um ligeiro sorriso aflorou aos seus lábios.
— Acho que o senhor tem razão, professor. Aliás, qual é mesmo o
problema?
Macauley apontou para o cubo transparente.
— Informe-nos primeiro sobre a experiência que fez com estas
borboletas. Se possível, forneça dados precisos.
Cliff respirou profundamente e ofereceu um relato detalhado.
Fazia onze dias que vira a primeira borboleta. Dentro de onze dias,
as folhas estavam quase todas roídas. Hoje era o décimo segundo dia.
Contou tudo isso e mais alguma coisa aos três homens, que ouviam
em silêncio. Finalmente recostou-se na poltrona e disse:
— É só. Mandei que os robôs limpassem a área de pedra em torno
da piscina e trouxe um pouco de cada tipo de material. Agora é sua
vez, Macauley.
O professor trocou um olhar com os dois jovens que se
encontravam em sua companhia e começou a falar. Tinha uma voz
grave:
— Sou entomólogo. Isso significa que passo a vida observando e
estudando os insetos. Existe uma infinidade de espécies de insetos. Só
neste planeta são cerca de um milhão, setecentos e cinqüenta mil.
Todos eles estão bem inseridos nos planos da natureza. Mas o
equilíbrio biológico não deve ser perturbado. E esse equilíbrio foi
perturbado quando há vários milênios deixaram de ser consideradas as
relações existentes entre a fauna e a flora, e mais recentemente,
quando tentamos restabelecer o estado anterior. Em outras palavras,
introduzimos em nosso planeta uma planta exótica de crescimento
muito rápido. Isso entre outras coisas. Com essa planta, veio a
borboleta de olhos dourados. Sua reprodução foi muito rápida, pois
não tem inimigos naturais. Não tivemos o cuidado de importar os
mesmos.
"Seu jardim fica a mais de mil quilômetros do parque natural.
Conclui-se que a tortrix já saiu do parque e começa a devastar outras
áreas. Os pássaros existentes na ilha não conseguirão dizimar as
fêmeas ovíparas em proporção suficiente para restabelecer o
equilíbrio. A situação é de perigo extremo, coronel."
McLane permitiu-se uma observação sarcástica.
— Queira desculpar — disse a meia voz. — Será que devo pegar a
Orion VIII para caçar borboletas, matando-as com o Overkill?
— Sua observação não é muito engraçada, astronauta — disse
Seager, que falava pela primeira vez. — Acho que teremos de fazer
algo parecido. Espalhamos inseticidas tão fortes que quase todas as
árvores e outras plantas estão envenenadas. E os animais também. Um
pássaro que come uma borboleta morre imediatamente. Não podemos
recorrer a inseticidas mais fortes, e os descendentes da tortrix sempre
são imunes ao veneno utilizado para atacar a geração anterior.
McLane cocou a orelha.
— Quem é imune? — perguntou, franzindo ligeiramente a testa.
— A tortrix viridana extraterrestris — respondeu Chan. — É o
nome científico da borboleta de olhos dourados. A única coisa que nos
resta é pedir à frota que no âmbito do Ano Galático forme quanto
antes um comando especial que nos ajude a encontrar o inimigo
natural dessa borboleta.
— Querem que eu os ajude nessa tarefa? — perguntou Cliff.
Macauley confirmou.
— Sim, queremos que o senhor ajude. O senhor entrou aqui por
acaso; seu problemazinho o fez defrontar-se com nosso grande
problema. Será que o senhor pode prometer-nos uma coisa, sob
reserva do consentimento de seus superiores e da ação de diversas
autoridades?
— O que é? — perguntou Cliff desconfiado.
— Fazer o possível para ajudar-nos juntamente com sua
tripulação.
Cliff fitou o rosto de um por um dos três homens. Teve de verificar
que falavam sério. Ao que tudo indicava, a borboleta de olhos
dourados representava um perigo para todas as plantas do planeta. Se
o professor Macauley resolveu pedir justamente a colaboração dele,
McLane, isso devia ter seu motivo. Cliff não demorou em tomar sua
decisão:
— Daqui a duas horas encontramo-nos no gabinete do marechal
Wamsler. Ele é quem decidirá se a Orion decola ou não.
Neste meio tempo, entrarei em contato com a tripulação.
Combinado? O professor levantou-se.
— O senhor concordaria em levar, além dos seus tripulantes, um
pequeno grupo de pessoas que entendem do assunto? Eu ficaria aqui,
para dirigir a operação. Devo confessar que ainda não sei exatamente
como organizá-la.
— Na Orion VIII temos lugar para mais cinco passageiros — disse
McLane. — Apenas pediria que designasse algumas jovens bonitas, a
fim de que meu imediato e meu astronavegador possam divertir-se
durante a viagem.
Seager e Chan trocaram um ligeiro olhar. Chan riu e disse:
— Não se preocupe, comandante. À equipe de Camooweal está
cheia de jovens bonitas.
— Muito bem. Isso não me diz respeito. Afinal, sou um velho que
já não precisa desse tipo de entretenimento. Dedico-me
exclusivamente às estrelas — concluiu Cliff.
Macauley apertou sua mão e respondeu:
— O senhor mesmo não acredita no que está dizendo, coronel.
Compareceremos pontualmente na Base 104, no gabinete de W.
Wamsler, não é?
— Claro. Até lá saberei preencher meu tempo.
O professor viu Cliff despedir-se dos dois membros da equipe.
Finalmente o entomólogo apontou para os cubos transparentes.
— Levaremos este material de demonstração. Tenho certeza de
que Wamsler nos ajudará. Afinal, a tarefa enquadra-se no Ano
Galático.
A porta acolchoada, à prova de som, fechou-se atrás do
comandante.
***
— Atenção! — disse Atan em tom penetrante. — Sua Majestade!
Wamsler aproximou-se lentamente da mesa, parou junto à mesma
e fitou a tripulação da Orion com a expressão de quem vê diante de
seus olhos uma víbora prestes a dar o bote. Notou mais três homens e
sacudiu a cabeça.
— É a mesma coisa de sempre — disse em tom ressentido. —
McLane e sua tripulação: um grupo insolente e convencido. Sinto
muito que com o pouso da Aztran Alpha suas férias tenham chegado
ao fim. O senhor receberá a bebida que lhe foi prometida. Acontece
que apostei com este sujeito — dirigiu-se ao professor Macauley e
apontou para Cliff. — Apostei e perdi.
McLane respondeu em tom mordaz:
— Isso me deixa bastante satisfeito, marechal.
Wamsler já havia chegado à sua poltrona de couro e sentou-se.
— Deixemos as gentilezas de lado — disse em tom cansado. — Os
senhores pediram uma entrevista, e concordei em concedê-la. Aqui
estou. Podem começar.
O professor Macauley levantou-se e principiou a falar a meia voz:
— A exposição que apresentarei é verídica, marechal Wamsler.
Pode ser provada, ponto por ponto, através de números e elementos
materiais. Apenas faço esta observação para eliminar qualquer laivo
de desconfiança que possa surgir em sua mente.
Depois passou a relatar em frases longas como a borboleta de
olhos dourados veio ter a Terra, com que rapidez se reproduziu e
como haviam fracassado todas as tentativas de mantê-las dentro de
limites bastante estreitos, para que não pudesse transformar-se num
perigo.
— Daqui a dez anos, não haverá uma folha verde neste planeta,
marechal. Mandei recalcular todos os dados, por iniciativa de Chan.
Wamsler fitou o professor em silêncio. O marechal respirava
pesadamente. Depois da aventura que tivera com os assaltantes
mentais vindos das profundezas da Via Láctea, seu sentimento de
segurança tornara-se ainda mais precário.
— Dez anos... onde foram cultivadas essas d’Itvias?
Macauley fez um gesto de resignação.
— Em tudo quanto é lugar, marechal. Em todos os parques
naturais, nos projetos de cultivo do deserto, até mesmo no jardim de
McLane. Não se exalte: até foram plantadas aqui embaixo, nos
corredores. A borboleta de olhos dourados vem se espalhando há
quinze anos.
— Que diabo! — resmungou Wamsler.
— É uma das poucas formas de expressão que nos restam — disse
o professor. — Chan e Seager podem testemunhar que as coisas
realmente estão mesmo ruins tal qual como acabo de explicar.
Seager disse em tom tranqüilo:
— Estamos dispostos a prestar qualquer juramento de que
realmente é assim, marechal.
Uma expressão de contrariedade surgiu no rosto de Wamsler.
Depois de algum tempo fitou os rostos dos tripulantes da Orion,
parando no de McLane. Sorriu e baixou os cantos da boca. Finalmente
disse em voz baixa:
— Deixemos de lado desta vez as discussões de sempre, coronel
McLane. Qual é sua sugestão?
Cliff deu de ombros.
— Até agora não me ocorreu nada. A sugestão de nos dirigirmos a
d’Itvia a fim de verificarmos quem consegue exterminar ou manter
dentro de certos limites a borboleta de olhos dourados já deve ter sido
feita, não é, professor?
— Já contemplamos esta possibilidade e receio que não tenhamos
outra alternativa. Se em d'Itvia não encontrarmos nada, deveremos
estender a pesquisa a outros planetas. É para isso que precisamos de
McLane.
— O senhor está disposto a colaborar, coronel? — perguntou
Wamsler sem olhar para Cliff. Era evidente que Wamsler estava
aborrecido.
— Terei muito prazer. Quanto tempo durará a missão?
Macauley respondeu.
— De quinze dias a um ano, comandante. Serão quinze dias se o
senhor e os entomólogos que o acompanharem forem favorecidos pelo
acaso.
Helga Legrelle observou:
— Se eliminarmos o fator acaso, poderá demorar um ano até que a
equipe encontre um inimigo natural que possa ser importado. Não foi
o que quis dizer, professor?
Macauley fitou os olhos da jovem radiofonista e respondeu:
— Exatamente; foi o que eu quis dizer. Na verdade, dependemos
mais do acaso que de um trabalho planejado. Apenas posso dizer que
alguma coisa deve ser feita.
— Isso vem a calhar — disse Wamsler. — Já estava preocupado
sobre o que fazer com a tripulação da Orion. No âmbito do Ano
Galático, ordeno-lhe em caráter oficial que pegue sua equipe e se
dirija a todo e qualquer lugar onde haja possibilidade de encontrar
uma solução.
— Aceito a incumbência — disse Cliff em tom cortês.
— Macauley exercerá o comando supremo da operação. Mandarei
instalar uma ligação direta da Estação Terrana do Espaço Exterior
para seu laboratório. McLane, o senhor será responsável pelo vôo e
pela vida dos cientistas. Macauley se encarregará da direção científica
da operação. Combinado, professor?
— Combinado. Estou surpreendido porque as coisas foram tão
rápidas. Quando poderá decolar, comandante? — Macauley fez uma
mesura.
Cliff olhou para o relógio.
— Amanhã ao meio-dia, desde que seus colaboradores sejam
pontuais. Precisamos de alguma literatura especializada sobre insetos.
Será que o senhor poderia fornecer as fitas de leitura?
— Macauley, não pense que as Divisões de Exploração Espacial
de Terra sejam um clube indolente e indeciso — disse o marechal
Wamsler em voz alta. — Muitas vezes nosso trabalho é rápido e
eficiente.
O professor respondeu em tom cortês:
— Especialmente quando o senhor pode contar com a colaboração
de elementos de primeira linha, como McLane e sua tripulação.
— Naturalmente, naturalmente... O senhor tem toda a razão —
apressou-se Wamsler em dizer, bastante aborrecido com o sorriso
irônico dos funcionários do Serviço de Proteção à Natureza.
— Posso convidar os participantes para um lanche reforçado em
meu laboratório? — perguntou Macauley.
Mario de Monti levantou-se e brindou a idéia do professor com um
gesto de admiração.
— Até lá estaremos de volta com todos os participantes —
prometeu Seager. — Daqui a meia hora, estarei voando no
helicóptero.
— Muito bem. Deixemos o resto para amanhã de manhã, no meu
laboratório.
Os tripulantes da Orion foram se despedindo do professor e dos
homens da equipe de Camooweal. Cliff fez continência para Wamsler
e repetiu:
— Então está combinado. Amanhã, depois do lanche e da
conferência no laboratório de Macauley, com a presença de todos os
participantes do Projeto Olhos Dourados, decolaremos às doze horas
em ponto. Entendido?
— Entendido — respondeu Wamsler, deixando perceber
claramente que estava satisfeito por ver-se livre da presença de
McLane, que o lembrava constantemente das duas derrotas sofridas.
— Prepararei tudo — prometeu Macauley.
— E eu irei buscar os participantes em suas residências e os levarei
pontualmente ao laboratório situado à margem de Groote Eylandt.
A barreira de fluxos luminosos fechou-se atrás de Cliff e de seus
amigos. Mario de Monti virou a cabeça e disse em tom irônico:
— Provavelmente Wamsler está interessado em nos ver tão
depressa na amplidão do espaço, pois só assim conseguirá um prazo
maior para a entrega da aguardente Archer's Tears.
Atan fez um rosto de quem sabe mais que os outros.
— Pelo que diz o tal do Seager, sua equipe é formada
principalmente por moças.
Hasso acenou de leve com a cabeça.
— Será um vôo fácil e alegre para todos os participantes — disse,
enquanto sorria para a ordenança que se encontrava na saída da ante-
sala.
Teria razão?
3

CLIFF McLane tirou os olhos de cima da tela central e deixou-os


vagar pela sala de comando da Orion VIII. O elemento novo era
representado por aquelas jaquetas refrigeradas. Naquele momento, não
os envergavam. Cliff fitou-os um por um.
Havia uma moça esbelta com cabelo prateado e olhos castanho-
dourados. Seu nome era Michelle. Parecia sentir-se insegura. Dois
fatos eram a causa dessa insegurança: a circunstância de pela primeira
vez ver de perto uma nave com os respectivos astronautas, e a
presença do jovem que durante a decolagem e as primeiras horas de
vôo se mantivera constantemente em posição discreta. Seu nome era
Shea. Os tripulantes já conheciam Seager.
Havia uma africana que chegava a provocar algum espanto até
mesmo entre os membros menos "sensíveis" da tripulação. Seu nome
era Arlene e era entomóloga diplomada. O quinto homem — ou
melhor, o quinto elemento do grupo — usava o nome de Charger e,
como sinal exterior de sua mentalidade individualista, usava barbicha
e um enorme par de óculos com aro de tartaruga e vidros grossos.
Eram traços anacrônicos, que o tornavam inconfundível. Era um
homem alto e esbelto, sua altura regulava com a de Cliff e Mario.
— A coisa poderia ter sido pior — resmungou Cliff.
— A mocinha deve ser de outra opinião, comandante — disse
Charger em tom tranqüilo; encontrava-se perto de Cliff. Este levantou
a cabeça, bastante surpreso, mas não pôde deixar de sorrir.
— Talvez esteja com a razão. Acontece que qualquer pessoa se
torna menos atraente, depois que a conhecemos por algum tempo. Os
astronautas não têm nenhuma auréola.
— Tanto melhor — respondeu Charger. — O que pretendia dizer?
— Apenas algumas gentilezas.
Cliff levantou-se e ergueu a mão.
— Senhoras e cavalheiros da equipe de Camooweal, dou-lhes as
boas-vindas a bordo. Estamos no espaço há cem minutos e corremos
em direção ao destino, que é o planeta d’Itvia, situado no cubo
espacial Nove/Norte 206. Chegaremos lá dentro de nove dias. Neste
meio tempo, devemos familiarizar-nos uns com os outros. Não gosto
de que alguma questão em aberto ou algum problema de
relacionamento humano, que não tenha sido solucionado, prejudiquem
a boa atmosfera que deve reinar a bordo da nave. Nós, ou seja, meus
tripulantes e eu, estamos ao seu inteiro dispor a qualquer momento,
para responder a perguntas ligadas à nossa especialidade. E esperamos
que os senhores também nos digam algo. Afinal, queremos trabalhar
juntos para livrar Terra de uma situação fatal, e isso terá de ser feito
muito depressa. Nossa ocupação dos próximos dias consistirá num
intercâmbio constante de informações.
Michelle virou-se e fitou o jovem chamado Shea. Depois disse:
— Quanto tempo deverá durar nossa viagem?
Cliff adivinhou alguma coisa. Respondeu com um sorriso:
— Pode demorar bastante, minha cara. A senhora terá
oportunidade de sobra para travar conhecimento com todas as pessoas
a bordo, a fim de ficar sabendo dos pontos positivos e dos poucos
pontos fracos de cada um. Vai ainda familiarizar-se com as instalações
de uma nave-disco da série Orion. Conforme disseram Wamsler e
Macauley, é bem possível que só possamos voltar depois do fim do
Ano Galático. Mas também é possível que, dez minutos depois de
nosso pouso em d’Itvia, encontremos o inimigo natural da borboleta.
Sinto muito, mas não posso fornecer qualquer informação segura.
Michelle confirmou com um gesto.
— De qualquer maneira, é mais do que eu esperava — respondeu.
Mario de Monti sorriu, como se visse à sua frente mais uma de
suas "vítimas". Com uma voz que preocupava por sua profundidade e
timbre melodioso, disse:
— Paciência; os astronautas são assim. A senhora está em boa
companhia.
— Posso confirmar essa parte; esses cavalheiros são muito gentis.
— disse Helga em tom seco.
Por alguns segundos, as risadas e a alegria descontraída tomaram
conta da sala de comando.
— Começarei, proferindo uma conferência — disse Charger.
— Em princípio não tenho a menor objeção — respondeu Cliff. —
Qual é a opinião dos meus companheiros?
— Exatamente a mesma — disse Atan Shubashi. — Temos tempo
de sobra antes de penetrarmos no hiperespaço.
— Gostaria de saber por que decolamos para esta viagem? —
indagou Hasso Sigbjörnson na tela de videofone da intercomunicação
de bordo.
Helga fez um gesto de apoio, e Mario sentia-se tão distraído em
virtude das presenças de Arlene e Michelle que parecia ausente a tudo.
— No sério — disse Cliff. — Qual é o problema mais urgente que
devemos enfrentar?
— Nosso problema diz respeito ao equilíbrio biológico. Estamos à
procura de um animal cuja reprodução possa ser controlada sem
maiores problemas.
— De que espécie deve ser o animal? Um mamífero, um inseto,
um réptil? — perguntou Helga.
Charger espalmou as mãos, num gesto de dúvida.
— Não sabemos. O animal pode pertencer a qualquer espécie. A
solução ideal seria um pássaro grande e muito voraz, que tenha uma
prole muito reduzida.
— Não seria exatamente o ideal — objetou Shea. — Um animal de
grande porte não se adaptaria bem à fauna do parque.
Charger lançou-lhe um olhar difícil de ser interpretado e fez um
gesto pensativo.
— De qualquer maneira, aceitaremos o que encontrarmos. Não
teremos muita escolha.
A discussão prosseguiu.
Dali a nove dias e duas horas, a nave prateada e brilhante penetrou
na atmosfera de um planeta semelhante a Terra. Embaixo, estendiam-
se as enormes florestas de d’Itvias.
A primeira etapa da viagem acabara de ser cumprida.
Por sugestão de Cliff formaram-se três grupos. Sairiam numa
Lancet. Um dos grupos trabalharia nos arredores do pequeno
espaçoporto. Mario já retirara as duas naves auxiliares de dentro da
Orion e as colocara no lugar.
Sherill Mark, chefe da base, apertou a mão de Cliff.
— Não deixe que esta jovem o perturbe — disse, sorrindo para
Arlene.
— Nunca deixo que uma dama me perturbe — disse Cliff. — O
senhor acaba de dizer que o lugar onde pretendemos pousar é uma
mata virgem?
— Exatamente. Ali os terranos ainda não modificaram nada. A
fauna e a flora estão em equilíbrio. Por lá, encontrará o que está
procurando. Ou então não o encontrará em lugar algum.
— Está bem — disse Cliff, virando-se para Charger. — Vamos
decolar?
— Decolaremos imediatamente — respondeu Charger.
Seu grupo era formado por Arlene e Charger. Mario ia na outra
Lancet, em companhia de Shea e Michelle. Seager, Atan e Helga
trabalhariam nos arredores, utilizando um helicóptero da base, e
cuidariam da nave além de prestarem atenção a eventuais mensagens
recebidas. Tanto os tripulantes da nave como os cientistas usavam os
trajes dos expedicionários. O pessoal da Orion trazia as jaquetas de
segurança, usadas durante a experiência com a Aztran. Os cientistas
podiam ser reconhecidos pelas jaquetas refrigeradas, que no momento
não haviam sido ativadas. Os terranos entraram na Lancet. O ar era
suportável e respirável, independentemente de qualquer proteção.
As máquinas da nave auxiliar "acordaram". O espaçoporto
deslizou embaixo deles. Atingiram os arbustos que Cliff já conhecia,
as arvorezinhas e finalmente a mata. Haviam pousado logo após o
amanhecer. Agora o sol já rompia a neblina que cobria a superfície do
planeta.
— Como vamos agir, Charger? — perguntou Cliff, sem retirar os
olhos da tela de visão ótica ao lado dá qual estava afixado o mapa
geral do planeta. Comparou a rota com as marcas do terreno e a área
de destino.
— Vamos observar — disse Charger. — Antes de mais nada
precisamos encontrar um lugar em que haja muitas borboletas de
olhos dourados.
— Que tipo de terreno devo procurar? Arlene e Charger olharam-
se. Depois de algum tempo, a moça de pele negra disse com certa
hesitação:
— Não deve ser muito úmido; deve haver muito verde e muito sol.
Talvez seria preferível escolher uma faixa situada à beira da água.
O dedo de Cliff seguiu uma linha ramificada traçada no mapa.
— Pousarei aqui — disse.
Os dois cientistas concordaram com um gesto.
Por alguns minutos a Lancet sobrevoou as copas das árvores
d'Itvia, com as colunas de apoio escamoteadas. Subitamente baixou e
seguiu por um rio. Olhando através de uma das cúpulas semi-
esféricas, Cliff viu perfeitamente que aqui a natureza continuava em
estado virgem. Havia árvores tombadas, raízes apodrecidas, madeiras
carregadas pela corrente e folhagens levadas à margem. Mais adiante,
notou um pedregulho coberto de pequenas plantas d'Itvias cujas flores
brilhavam em todas as cores.
— Vamos pousar ali — disse Cliff, apontando para o lugar.
Cliff reduziu a velocidade e imobilizou a máquina acima do centro
do pedregulho de duzentos metros de comprimento. Finalmente a
Lancet foi descendo, e depois de alguns segundos, tocou o chão. Os
pés de apoio penetraram profundamente no pedregulho. Cliff desligou
todas as máquinas e instrumentos, com exceção do rádio, abriu a
escotilha e -soltou a escada.
— Sou responsável pelas suas vidas — disse, soltando os cintos
atados em cima de seu peito. — Peço-lhes cordial e encarecidamente
que não façam nada que não seja razoável.
Puxou para a frente do corpo o coldre de imitação de couro em que
estava guardada a pistola de gás.
— Estamos armados. Se houver um ataque, façam o favor de atirar
primeiro e assustar-se depois. E chamem imediatamente. Quando
necessário, sei ser muito rápido.
Saltou agilmente para o pedregulho e o ar puro do amanhecer
bateu em seu rosto.
— Onde pretendia procurar as larvas e borboletas? — disse,
dirigindo-se a Charger.
Este apontou uma objetiva curta com cabos pesados para a mata.
— Ali, comandante.
— Vá para lá. Os canos de suas botas são altos; não se molhará.
Ficarei por aqui e lhe darei cobertura. Além disso darei uma olhada
pelos arredores.
Os entomólogos atravessaram a água rasa e junto à margem
iniciaram sua busca. Cliff conheceria esse procedimento até fartar: não
havia outra possibilidade. A busca só podia ser realizada no lugar em
que viviam os insetos. Passou os olhos pelo pedregulho, pegou a arma
de gás e destravou-a. Foi lentamente em direção à margem, penetrou
na mata e, quando não pôde mais prosseguir, voltou. Caminhando pela
água, foi rio abaixo. Ouviu o estalo dos galhos e as palavras ligeiras
com que Charger e Arlene se comunicavam. Finalmente viu-se atrás
deles.
— Não se assustem! — disse a meia voz. Charger estremeceu, mas
Arlene tinha visto a sombra. Fez um sinal com a mão livre e dobrou
um galho para cima. Cliff aproximou-se com a maior tranqüilidade.
— Aqui o senhor poderá ver como será o parque de Camooweal
dentro de alguns anos e, dentro de mais alguns anos, Terra,
comandante — disse Arlene. Sua voz era um pouco aveludada.
Do chão e da copa de uma árvore saíam lagartas, a tortrix viridana
extraterrestris. Em alguns lugares, uniam-se e se espalhavam. Uma
das "correntes" havia chegado a um galho. Este estava reduzido aos
caules duros e às finas artérias das folhas. Não se via nenhuma
manchinha de verde. As lagartas haviam devorado tudo e agora se
retiravam. Vários galhos foram privados das folhagens.
— Psiu!
Charger repartiu a barbicha, enquanto encostava o dedo ao lábio.
Ouviram um ruído fraco e crepitante; parecia que alguém estava
dobrando folhas de papel. Eram os ruídos de mastigação de inúmeras
lagartas. Algumas borboletas verdes esvoaçavam entre os galhos
desnudados. O cheiro que impregnava o ar não era mais o perfume
inebriante das d’Itvias, mas o odor da podridão.
— É uma colônia. Os ovos foram depositados nesta árvore —
disse o entomólogo em voz baixa. — Todas estas lagartas se
transformarão em borboletas, a não ser que apareça um animal que as
devore.
— As borboletas de olho dourado são muito resistentes aos
inseticidas? — perguntou Cliff em voz baixa.
— São. Chegamos a usar doses tão fortes que alguém nos poderia
chamar de irresponsáveis.
— O que farão agora?
Arlene desligou um dos aparelhos e explicou:
— Vamos retirar-nos e esperar que apareça algum animal. Esta
colônia não pode ficar despercebida.
— Quer dizer que vamos esperar? — perguntou o comandante.
— Isso mesmo. Teremos de esperar. Durante horas, talvez até o
anoitecer.
Arlene teria razão. Ficaram na ilha de pedregulho durante nada
menos de nove horas. Apareceram alguns passarinhos negros que
saíram voando com lagartas no bico. Um pequeno animal com o
formato de um tamanduá devorou cerca de trinta lagartas. Algumas
vespas procuraram afastar-se com as mesmas. Os passarinhos
voltaram, mas não foram capazes de provocar uma redução
significativa no número dos insetos que atacavam a árvore.
Os membros da expedição comeram as provisões que tinham
levado, esquentaram café e continuaram a esperar, com os aparelhos
apontados para o tronco da árvore. Os lugares cobertos por folhas
continuavam cheios de lagartas verdes e alongadas.
— O resultado é vergonhoso — disse Cliff depois de algumas
horas.
— É verdade, Cliff. Acontece que, segundo tudo indica, por aqui o
equilíbrio biológico continua intacto. Será que, por uma questão de
precaução, devemos chamar os outros grupos?
Cliff ligou o rádio de pulso.
— Terei muito prazer. Também estou curioso.
— Dê recomendações minhas a Michelle — pediu Charger com
um sorriso estranho.
— Do senhor, Charger? — perguntou Cliff.
— De membro de equipe para membro de equipe.
Cliff levou o aparelho aos lábios e disse:
— Aqui fala o grupo de McLane. Chamamos o grupo dois
comandado por De Monti. Responda, por favor.
O outro trio operava numa área a duzentos e cinqüenta
quilômetros.
— Aqui fala De Monti — ouviu-se a resposta. — A recepção é
perfeita. Já conseguiram alguma coisa?
Cliff apresentou seu relato em tom indiferente.
— Não conseguimos nada. Até agora não podemos dizer que
tenhamos encontrado um inimigo natural cujo alimento principal
consista nas larvas da borboleta de olhos dourados. Vimos um
passarinho, um mamífero ou coisa parecida e algumas vespas
comedoras de lagartas. Só isso. Como estão as coisas por aí?
Girou o volume e a voz de Mario tornou-se mais forte quando
respondeu:
— Aqui o resultado é o mesmo. Observamos praticamente o
mesmo que vocês. O resultado é nulo. Ao que tudo indica, segundo
diz Michelle, por aqui as condições climáticas se harmonizam com o
sistema ecológico. As borboletas só se reproduzem na medida em que
podem ser absorvidas sem se transformarem numa praga.
— Dê-lhe lembranças dos colegas, Mario — pediu Cliff. — Vou
chamar o grupo três. Desligo.
— Aqui fala o grupo três — disse imediatamente a voz de Helga.
— Acompanhamos a palestra. Infelizmente, o resultado é o mesmo.
Não surgiu nada que possa ser considerado como progresso. Acho que
d’Itvia será um fracasso total. Mas este perfume é divino.
Cliff sorriu para Arlene enquanto respondia:
— Está aludindo às flores dos arbustos esféricos?
— Sim, comandante, estou aludindo a estas flores.
— Pois colha um ramalhete e leve-o à nave.
— Quando suspenderemos a tentativa? Cliff olhou para o relógio e
avaliou a posição do sol.
— Encontramo-nos daqui a três horas, junto à nave. Até lá deverá
começar o crepúsculo, e outros animais começarão a sair. Talvez
encontremos uma trilha de formigas que se alimentem exclusivamente
das borboletas de olhos dourados.
Helga respondeu:
— Não é possível, mas em princípio não é impossível. Desligo.
— Desligo — disse Cliff e girou o botão. Olhou para a tela na qual
estava projetada uma imagem ampliada do tronco da árvore. As
lagartas verdes continuavam a enxamear sobre o mesmo.
As horas foram passando. A escuridão aumentava, e os
entomólogos ligaram a luz infravermelha. A imagem da tela voltou a
tornar-se clara e nítida. As lagartas destacavam-se sob a forma de
linhas brancas que se moviam, passavam uma por cima das outras,
marchavam em colunas. Quem as observasse por um tempo mais
prolongado notaria que seu deslocamento obedecia a um sistema. Ao
anoitecer, quando apenas uns poucos raios de sol passavam por cima
das copas das árvores, aconteceu.
— Ali, comandante! — cochichou Arlene, apontando para cima.
Cliff levantou abruptamente a cabeça. Parecia um pé-de-vento
rodando por entre as árvores. Um véu em forma de espiral desfilou
contra o fundo do céu azul-pálido; vinha da direita e, curvando e
dobrando o eixo vertical, deslocava-se para a esquerda. Aproximava-
se cada vez mais e, "cambaleando" entre os troncos de d’Itvias, a parte
inferior daquele enxame, formado por miríades de pequenos seres,
corria em direção ao rio, quase tocando sua superfície.
— São borboletas! — disse Charger em voz alta. Arlene girou as
lentes, ajustou-as e apontou para a tela quadrangular.
— Peixes! — disse.
As borboletas formaram uma massa turbilhonante e cobriram a
água. Os peixes vieram à superfície e passaram a devorá-las.
A água teria de ter cem vezes mais habitantes, ou ainda mais, para
devorá-las todas. A "caravana" de borboletas de olhos dourados
passou pelos terrenos e prosseguiu, deslocando-se rio abaixo. Parecia
um objeto elástico pousado na água, cuja altura se reduzisse
progressivamente. Os insetos morriam afogados aos milhares, eram
devorados pelos peixes e se deixavam levar rio abaixo. Um gigantesco
suicídio em massa acabara de verificar-se.
— Que coisa estranha, Charger — disse Arlene. — Ao que tudo
indica levamos a variedade errada para Terra. Estas borboletas se
suicidam.
Charger respondeu:
— Provavelmente as fêmeas já devem ter desovado, motivo por
que se tornaram indiferentes aos planos da natureza. No parque de
Camooweal este fenômeno nunca foi observado ao curso de um
decênio.
Pegaram um caneco e retiraram alguns exemplares da massa que
passava preguiçosamente por eles. Charger logo realizou a
identificação.
— É isso mesmo — disse depois de algum tempo. — São fêmeas
que acabam de desovar.
— Mais uma vez não encontramos nada do inimigo natural! —
constatou Cliff. — A hora H chegou. Vamos guardar os instrumentos?
Os dois membros da equipe concordaram.
— Sinto-me faminto — disse Cliff. Dali a pouco menos de quinze
minutos, a Lancet voltou a decolar. Os faróis de aterrissagem
iluminavam a mata virgem, recheada de uma vida exuberante e
misteriosa. Todavia, não encontraram a espécie que Cliff e seu grupo
procuravam. Os dois outros grupos, juntamente com Sherill Mark, já
estavam esperando junto à Orion VIII.
— Foi um fracasso total — disse Mario em tom seco. — Não
encontramos nada.
— Também tenho de anunciar um insucesso — disse Helga
Legrelle. — Acho que o melhor método continua a ser matar as
borboletas uma por uma, a pedradas.
Cliff dirigiu-se a Sherill Mark e disse em tom seco:
— Acho que o melhor método será aceitarmos seu convite para
jantar e decolarmos quanto antes.
— Para onde iremos?
Atan Shubashi apontou para cima. A luz dos faróis das duas
Lancets e do pequeno helicóptero refletia-se no envoltório prateado da
nave.
— Para Jackhammer! — disse o astro-navegador em voz alta.
Cliff franziu a testa.
— Como é mesmo o nome? Jackhammer? Será que esse planeta
realmente existe?
Atan respondeu em tom exaltado.
— Não se trata de uma invenção de nosso amigo Pieter Paul Ibsen.
É claro que existe um planeta com esse nome, e ainda acontece que o
mesmo fica no cubo espacial em que nos encontramos. Nove/Norte
205. É um planeta desabitado, mas suas condições são semelhantes às
de Terra.
Cliff respondeu:
— Atan, seus conhecimentos me deixam envergonhado. Depois do
jantar consultarei o manual.
— Senhoras e cavalheiros — interveio Sherill Mark. — As mesas
quase estão quebrando de tanta comida, e as velas estão acesas.
Queiram comparecer para o jantar.
A base terrana colocara todo seu orgulho na festa organizada para
os recém-chegados. Naturalmente tudo girava em tomo das moças.
Dali a algumas horas, os grupos foram se retirando, para voltar à nave.
Por um simples acaso — se bem que posteriormente Cliff fosse
recriminar-se, pois não acreditava no acaso — McLane caminhava ao
lado de Arlene, enquanto se dirigiam à nave-disco. Arlene brincava
com uma das flores de d'Itvia que decoravam a mesa do jantar.
— Comandante, talvez um dia chegue a oportunidade... — disse a
moça em voz baixa.
— Que oportunidade?
— A oportunidade de vê-lo menos seguro de si. Acho que não há
nada que possa abalá-lo, não é?
Cliff aspirou o perfume da flor que Arlene encostara ao seu nariz.
— Existem várias coisas — disse Cliff. — Mas essas coisas são
muito raras. Só acontecem em determinados dias.
— Que dias são estes, Cliff? — perguntou a moça em voz baixa.
— Não sei exatamente. Deve haver a ocorrência simultânea de
várias circunstâncias.
— O que pretende fazer agora? — disse Arlene.
Cliff ajudou-a a entrar no elevador. O aperto de mão da moça foi
inesquecível.
— Decolar — disse Cliff.
— Decolar o quê?
Cliff voltou a sorrir e respondeu:
— Pretendo decolar com a nave, em direção a Jackhammer,
situado em Nove/Norte 205.
Arlene retirou-se para o camarote sem dizer uma palavra. Cliff
abaixou-se, levantou a flor e aspirou seu perfume. Depois subiu e
sentou em atitude provocante na poltrona do comandante.
4

A NOITE pousava sobre Jackhammer como uma neblina


impenetrável. Não se via qualquer lua, nenhuma estrela. Os arbustos
que rastejavam pelo solo como se fossem cobras estranhas só se
tornavam visíveis nos visores das lâmpadas infravermelhas.
— Ligue os faróis de aterrissagem, Atan! — disse Cliff, baixando
o braço. — Mal acabamos de pousar, os aborrecimentos estão
começando! — resmungou.
— Por quê?
— Este zumbido — disse Cliff. — Não estão ouvindo?
Ficaram calados e imóveis. Agora também ouviram. Um zumbido
forte e sinistro enchia o ar; parecia uma abelha gigantesca que se
aproximasse em atitude furiosa. Ou um pequeno motor. Esta última
possibilidade devia ser eliminada, pois o planeta só seria colonizado
num futuro bem distante.
— Estou ouvindo — disse Seager. — Parece um inseto.
Haviam pousado depois de um vôo de dez horas e meia. Foi por
pura intuição que Cliff resolveu descer na face noturna do planeta. A
Orion pairava cem metros atrás deles sobre um areai entremeado de
débeis arbustos. Arlene dirigiu o dispositivo de observação ótica
infravermelha sobre a flor de uma trepadeira esparramada pelo chão.
O quadro adquiriu contornos nítidos no visor. Dentro da flor e em
torno dela as borboletas e as lagartas rastejavam numa bela harmonia.
Numa contagem rápida, Arlene constatou que deviam ser cerca de
cinqüenta. O perfume exalado pela flor, que no momento parecia
descolorida, era abafado e desagradável.
— Não são borboletas de olhos dourados — constatou em tom
tranqüilo. — Mas, de qualquer maneira, também aqui as pragas são
muito abundantes.
Mais uma vez ouviram o zumbido. Desta vez parecia mais
próximo e era mais intenso. Os três membros da equipe agacharam-se
lado a lado e contemplaram a tela ótica. A flor se abriu lentamente à
luz do farol de aterrissagem, pondo à mostra um número cada vez
maior de larvas e borboletas. O zumbido tornou-se mais forte; uma
mancha clara passou furtivamente pelo quadro e adquiriu contornos
nítidos.
— Outro inseto! — disse Seager.
— Parece uma vespa superdimensionada — constatou Charger.
Cliff aguardou para ver o que aconteceria. Tinha um
pressentimento, mas preferiu não dar expressão ao mesmo. A vespa
alojou-se no centro da flor. Executou uma série de movimentos
rapidíssimos. O ferrão se projetava em todas as direções, e com cada
movimento acertava o alvo. Penetrava nas borboletas e nas larvas. A
seguir, as mandíbulas da vespa entraram em atividade.
— Quase todos os exemplares foram paralisados pelo ferrão da
vespa — cochichou Seager. — Acho que já encontramos alguma
coisa. Está chupando a seiva...
A cabeça do animal com formato de vespa, que devia ter o
tamanho do punho fechado de uma criança, movia-se rapidamente. As
mandíbulas se fechavam, e o "conteúdo" dos corpos das borboletas e
das larvas era sugado. Tudo se passou com uma rapidez tremenda;
muitas vezes mal se conseguia acompanhar os movimentos. Dali a
alguns minutos, a vespa levantou vôo e afastou-se com o zumbido
característico.
— Será que estou imaginando? Parece que o zumbido da vespa já
não é tão zangado! — disse Arlene.
— O ronco do tigre saciado é mais satisfeito — disse Cliff.
— De qualquer maneira, o inseto foi embora.
As lentes desceram sobre a flor e captaram aquilo que a vespa
havia deixado.
— Contei cerca de sessenta larvas e borboletas mortas, com os
corpos sugados — disse a moça depois de algum tempo, levantando-
se. — Comandante McLane, acho que nossa viagem terá êxito —
disse em voz baixa.
Cliff sorriu e respondeu:
— Está aludindo à vespa? Arlene retribuiu o sorriso.
— Entre outras coisas, sim. Sugiro que prossigamos amanhã, à luz
do sol, com a busca organizada da grande vespa de rapina. O que
acha, Charger?
O homem de barbicha fez um gesto afirmativo e respondeu:
— Concordo com a sugestão. Partiremos dentro de sete horas.
Voltaram lentamente à nave. Atan saiu da Lancet, depois de ter
desligado os faróis. Acabavam de aproximar-se bastante de seu
objetivo.
***
Pouco depois do nascer do sol, tomaram um café reforçado a
bordo da Orion e os diversos grupos puseram-se a trabalhar. Desta vez
traziam, além do equipamento normal, um par de luvas, capacetes
leves, grandes óculos e uma faixa de pano que protegia a boca. As
vespas poderiam tornar-se perigosas. Atan e Hasso tiraram as redes do
interior da nave, além de grandes recipientes de plástico. Esse
equipamento foi colocado nas proximidades de cada grupo.
— Será que temos motivo para supor que essa vespa se alimenta
exclusivamente de insetos? — perguntou Cliff em voz alta, tornando-
se pouco audível em virtude da faixa de tecido.
Estendeu a mão. Na palma da luva de imitação de couro havia uma
borboleta morta e duas larvas murchas e ressequidas. Tanto as duas
larvas como a borboleta de olhos dourados eram quase totalmente
verdes.
Os olhos grandes de Arlene contemplaram o material. Os óculos
brilhavam à luz do sol.
— É bastante provável. Por aqui a escolha deve ser muito limitada.
O grande número de vítimas é outro indício que reforça sua suposição.
Cliff olhou para os instrumentos que trazia no antebraço. Haviam
sido regulados para a freqüência correspondente à vespa em vôo. Não
viu qualquer indicação.
— Como faremos para caçar as vespas?
— perguntou Seager.
— Procuraremos o ninho. É a única possibilidade — disse
Charger. Uma luzinha acendeu-se. Cliff levantou o braço.
— A vespa é grande. Logo, o percurso entre o ninho e o local da
busca de alimento deve ser extenso.
Viram a vespa. O inseto estava coberto de estrias amarelas e
prateadas, era de uma beleza que amedrontava. Viram os gigantescos
olhos salientes, as antenas estendidas, o ferrão encolhido, tudo isso
encimado por duas asas transparentes que batiam. Voando a dois
metros acima do solo, aproximou-se em ziguezague, descreveu
círculos em torno de Cliff e Arlene, envolvendo-os numa série de
curvas, e pousou num caule, junto a uma flor, a três metros do grupo.
— O senhor trouxe o paralisador, Cliff?
— perguntou a moça de tez escura.
— Naturalmente. Quer ver uma amostra?
Arlene soltou uma risada maliciosa.
— Para mim seus olhares bastam para provocar uma paralisia,
comandante. Deixe que este exemplar volte, para que possamos
localizar o ninho.
Continuaram a esperar. O planeta girou e o sol foi subindo. A
vespa cuidou demoradamente de sua higiene. Limpou as pernas, o
ferrão, as asas. A flor acabou de abrir-se por completo. As larvas
enxameavam entre o caule e o pólen. Não se via uma única borboleta.
As larvas que, segundo parecia, mal haviam adquirido capacidade para
isso, subiram pelas folhas em forma de cálice e passaram a devorá-las
com uma rapidez espantosa.
— São cerca de cinqüenta; a mesma coisa de ontem.
Os terranos cercaram a flor. A vespa subiu em vertical e, que nem
um meteoro, precipitou-se para o centro da flor, onde passou a
desenvolver sua atividade febril e mortífera. A intensidade da
indicação luminosa duplicou; eram mais duas vespas que se
aproximavam.
— Faça o favor de paralisar uma delas, Cliff — disse Charger. —
Precisamos de um exemplar para nossas pesquisas.
— Pois não! — disse Cliff.
Seager levantou o inseto, colocou-o sobre uma placa branca e
realizou uma identificação ligeira, que visava à determinação do nome
científico do animal.
— Chlorion ichneumoneum jackhammerii, é o que sugiro.
Cliff e o entomólogo puseram-se a correr. Saltaram sobre
trepadeiras, atravessavam os areais, procurando sempre não perder de
vista os insetos. Avançaram uns cem metros pela vegetação rasteira e
atingiram uma área coberta por arbustos que se agrupavam em torno
de meia dezena de rochas. Não havia qualquer ligação entre as
mesmas; pareciam crescer em meio ao chão arenoso coberto de
musgo.
— Cuidado! — disse Seager. — As picadas podem ser mortais.
Os homens avançaram com o corpo abaixado. Aproximaram-se
das rochas, segurando o recipiente pelas duas asas. Já não se ouvia o
zumbido dos dois insetos, que foi substituído por outro ruído. Parecia
um pequeno motor trabalhando num ambiente dotado de alta
ressonância.
— É o ninho!
Seager apontou para uma saliência que surgia na rocha mais
próxima.
— Vamos colocar o recipiente por cima, cortar o ninho e fechar a
tampa muito depressa — disse Cliff.
Aproximaram-se devagar. Várias vespas saíram do ninho e
passaram ruidosamente entre os homens. Estes estremeceram e
procuraram abrigar-se. O silêncio voltou a reinar. O ninho apresentava
um formato fantástico. Parecia uma pequena cidade, mais
precisamente, o modelo de um conjunto residencial formado por
inúmeras construções, transferido para o plano vertical. Todas as
construções eram de forma hexagonal. Os hexágonos grandes e
pequenos ligavam-se por uma espécie de tubo com uma placa de
apoio, penetravam uns nos outros, sobrepunham-se e eram negros
como breu, provavelmente para captar o calor muito reduzido do sol e
armazená-lo em seu interior.
— Usarei a HM-4 para cortá-lo da rocha — disse Cliff em voz
baixa. — Você cuidará para que a tampa seja fechada em tempo.
— Pode deixar, comandante. Colocaram o grande recipiente
abaixo do ninho. Este era feito de um material parecido com uma
espécie de papel reforçado por fibras vegetais. A tampa abriu-se; o
ninho estava pendurado um metro acima da abertura quadrangular.
— Quantas vespas poderão estar neste ninho? — cochichou Cliff,
voltando a levantar o pano que o protegia.
— Pelos padrões terranos poderia abrigar até quinze mil —
respondeu Seager.
Cliff sacou a arma esguia, regulou o raio e caminhou para o lado,
para poder efetuar um corte paralelo à rocha. Seager segurava a tampa,
pronto para deixá-la cair a qualquer momento. O raio produziu um
zumbido e cortou a tessitura negra junto à rocha. O ninho desprendeu-
se, efetuou um giro no ar e caiu no recipiente. Da área de corte desceu
um líquido oleoso, e centenas de vespas furiosas saíam de algumas
aberturas. A tampa fechou-se com um baque.
McLane guardou calmamente a arma e disse com um sorriso largo:
— Capturamos a primeira presa. Agora vamos dar o fora, para que
não sejamos atacados por eventuais retardatários.
Andando devagar, carregaram o recipiente que agora pesava uns
cinqüenta quilos, cuidando sempre para não expô-lo a movimentos
violentos. Os outros membros da equipe já haviam guardado seus
instrumentos e esperavam junto à nave. Ajudaram a colocar a presa na
nave e passaram a conferenciar sobre a área na qual deveriam
prosseguir com as buscas. Hasso Sigbjörnson sugeriu outra formação
rochosa, que vira da nave, a cerca de dois quilômetros.
— Quantos ninhos vamos capturar? — perguntou Cliff.
— Quanto mais, melhor — respondeu Charger. — Precisamos
capturar o maior número possível de enxames, que possam reproduzir-
se rapidamente. O ideal seria que levássemos um enxame da vespa
chlorion para cada parque natural.
— Quantos parques existem em Terra? — perguntou Atan
Shubashi.
— Vinte.
— Quer dizer que teremos de realizar mais dezenove corridas de
obstáculos atrás de vespas que não estejam com fome — disse. —
Nossa velha e boa nave está sendo rebaixada à categoria de veículo de
transporte de animais. Cliff suspirou.
— Está bem. Decolarei em direção ao primeiro objetivo — disse.
***
Hasso, Atan e Michelle apareciam na tela central diante da qual
Cliff estava parado. Carregando um dos recipientes, avançavam por
entre as rochas. Mario, Seager e Shea formavam o segundo grupo, que
seguira na Lancet I a um lugar situado três quilômetros ao oeste.
Charger e Helga que, segundo tudo indicava, concordavam na
avaliação da situação, haviam pegado a Lancet II e poucos segundos
atrás tinham comunicado seu pouso.
Cliff sorriu... Estava no interior da Orion, a sós com Arlene. Cliff
acomodou-se na confortável poltrona do comandante, colocou os pés
sobre o quadro de comando e fechou os olhos. Era uma posição que
favorecia seu raciocínio. Havia algum problema? A tela do interfone
de bordo iluminou-se e o rosto de Arlene surgiu na mesma.
— Cliff — disse a meia voz.
McLane levantou a cabeça e fitou seus olhos.
— O que houve? — perguntou.
— Instalei uma espécie de laboratório no meu camarote. Receio
que vá precisar de seu auxílio. Poderia dar um pulo até aqui?
Cliff nem sorriu ao responder:
— Esse truque é muito velho, moça. A senhora está me
provocando. De qualquer maneira descerei.
A moça sorriu.
— Se não viesse não seria um astronauta de verdade — disse. —
Agora já consigo compreender Michelle.
Cliff desligou o interfone de bordo, deu de ombros e entrou no
pequeno elevador. Comprimiu um botão e a porta do camarote abriu-
se. Lançou um olhar prolongado sobre as instalações padronizadas, os
instrumentos e a cadeira giratória presa ao solo. Finalmente encostou-
se à porta e disse em voz baixa:
— A senhora tem um lugar bem bonito, minha filha. Precisa de
mim?
Arlene tirara algumas das vespas assassinas do grande recipiente e
as colocara num pequeno cubo que se encontrava na mesa à sua frente.
Havia algumas peças delicadas de cutelaria, um microscópio, líquidos
e vários livros de registro que estavam espalhados pela mesa. A moça
virou-se na poltrona, exibindo ao coronel um par de joelhos
impecáveis que surgiam acima das botas brancas apertadas.
— Preciso do senhor. Como faço para ligar o microfone à rede?
Cliff pegou o fio com o contato e retirou da parede uma peça
retangular, na qual estava gravado um raio e a indicação da voltagem.
Com um movimento ligeiro, ligou o instrumento.
— É isso — disse. — Pode contar alguma coisa sobre essas
abelhas trabalhadoras?
O sorriso de Arlene era insinuante.
— Vespas não são abelhas, comandante — disse. — E nem todas
as moças são iguais.
Cliff não pôde deixar de sorrir.
— Acontece que algumas delas se parecem mais que as outras. A
que tipo pertence a senhora?
Arlene respondeu em tom resoluto:
— À classe daquelas para as quais os astronautas são um tipo
especial de homem.
Embora não se sentisse nada tranqüilo, Cliff respondeu com toda
calma:
— A senhora andou lendo demais esses romances, minha filha.
Peço-lhe que se dirija a Mario, que é especialista na matéria. Quanto a
mim, a situação é mais delicada. Digamos que estou comprometido. Já
não sou livremente "transferível"...
Arlene soltou uma gargalhada e levantou-se. Parou à frente de
Cliff, que só não executou uma retirada estratégica para não prejudicar
a imagem de sua masculinidade.
— É Tamara Jagellovsk? — perguntou Arlene.
— Realmente — disse Cliff. — Não há nada que a senhora não
saiba.
— Há muita coisa. Não existe algum caminho que leve ao seu
coração?
Cliff comprimiu as mãos contra a superfície fria da porta,
deixando-a ligeiramente embaçada.
— Não há nenhum caminho que não passe por cima dos cadáveres
de Helga Legrelle e Tamara. Às vezes, torno-me um homem débil,
que em certas situações não sabe defender-se.
Exalava um perfume inebriante de d'Itvia Nonchalance, e Cliff
acreditava que aquele momento...
— Neste momento, o senhor está numa situação dessas, não está?
— cochichou Arlene.
Cliff fez um gesto afirmativo. Beijaram-se em silêncio por cerca
de quinze segundos. Depois Cliff tirou as mãos dos ombros de Arlene,
pigarreou e disse em voz baixa:
— A senhora acaba de passar por um episódio agradável a bordo
de uma espaço-nave. Lembre-se para os dias da velhice e não deixe de
contar aos netos. Voltarei a cuidar das máquinas.
Arlene sorriu, acenou de leve com a cabeça e disse num tom
surpreendentemente seguro:
— Isto apenas foi o começo, coronel. No curso da operação vespa
assassina, ainda deveremos cruzar pelo caminho um do outro. Faço
votos de que não se esconda demais. Sou uma péssima caçadora.
Cliff subiu para cuidar dos instrumentos. Estava pensativo.
Realmente realizava um vôo de obstáculos. E os dias iam passando.
O problema da praga já podia ser considerado resolvido. Pouco
antes da decolagem, os membros da expedição reuniram-se na sala de
comando. Hasso Sigbjörnson surpreendeu a todos com duas garrafas
de Archer's Tears, que havia retirado de um esconderijo.
— Vivemos uma missão bastante arriscada — disse Hasso em voz
alta, levantando o copo. — Temos de levar para Terra uma quantidade
enorme de vespas. O que será feito por lá com esses animais
encantadores, que tanto gostam de picar?
O cheiro intenso de Archer's Tears encheu o recinto repleto de
instrumentos. Charger respondeu, falando devagar:
— Aumentaremos a fertilidade das vespas por meio de um
tratamento de radiações dirigidas. Isso por algum tempo. Depois,
quando as vespas tiverem liquidado praticamente todas as borboletas
de olhos dourados, o equilíbrio biológico estará restabelecido. As
vespas se extinguirão. Os poucos enxames, que sobreviverem,
poderão ser exterminados se começarem a incomodar-nos.
— Quem se encarregará da irradiação experimental? — perguntou
Cliff.
Arlene lançou-lhe por cima do copo um olhar que só ele saberia
interpretar e respondeu:
— O instituto do professor Macauley se incumbirá disso.
Provavelmente ajudarei nos trabalhos, e sem dúvida a opinião dos
membros da tripulação da Orion será tomada em consideração.
Helga, que estava sentada diante da mesa do rádio, entrou em
contato com a EA IV. Os canais continuavam fechados.
— Quem realizará o transporte aos diversos parques? — perguntou
Mario de Monti sem conseguir tirar os olhos de Michelle.
— Por certo, incomodaremos a tripulação desta nave com o
serviço — disse a moça de cabelos cinza-prateados e olhos castanho-
dourados.
— Quer dizer que teremos mais trabalho, Cliff!
Helga deixou livre o microfone diante do quadro de comando.
Cliff começou a falar:
— Comandante Cliff McLane, a bordo da Orion VIII, pousada no
momento na superfície do planeta Jackhammer. Por intermédio da EA
IV e E.T.E.E., ao professor Macauley. Temos a bordo vinte e dois
enxames de vespas da espécie chlorion ichneumoneum jackhammerii
e decolaremos dentro de dez horas, com destino à Base 104. Para
garantir a rápida execução da missão, pedimos que sejam adotadas
certas providências preparatórias. As vespas assassinas são do
tamanho de um punho de criança e seu alimento principal consiste nas
borboletas de olhos dourados. Solicito confirmação da mensagem.
Desligo.
— Meus respeitos — disse Arlene. — O senhor até sabe
pronunciar o nome científico, comandante.
Um sorriso insolente surgiu no rosto de Cliff.
— Haverá um dia que — disse — a senhora terá oportunidade de
mais um encontro comigo. Talvez nessa oportunidade possa mostrar-
lhe que sei muita coisa, além de lembrar-me de palavras estrangeiras.
Arlene retribuiu o sorriso e respondeu:
— Tomara que isso realmente aconteça, coronel McLane.
Cliff deu-se por vencido. Ouviu a confirmação e deu as costas para
as nove pessoas que se encontravam na sala além dele. Recolheu o
elevador central, fechou hermeticamente as três comportas, ativou o
campo defensivo e decolou, usando a pilotagem manual. A carga que
a nave transportava para Terra destinava-se a uma boa causa.
Acontece que, sem ninguém desconfiar, a nave levava a bordo o
germe de um perigo de proporções incalculáveis.
***
Os vinte e dois recipientes encontravam-se no extenso laboratório
do professor. Havia neles setecentos e cinqüenta mil insetos, que
devoravam as reduzidas provisões trazidas de Jackhammer. Cliff,
Arlene e o professor viram-se diante de um instrumental de aspecto
fantástico, do qual partiam grossos cabos que corriam para uma peça
contígua.
— Desenvolvemos um tipo de radiações que criará condições para
uma produção maior de ovos fertilizados no curso das próximas
quatro gerações. Essas radiações serão aplicadas aqui. O transporte
poderá ser iniciado hoje de noite, coronel.
Cliff baixou a cabeça e disse:
— Chega de honrarias, professor. Ligue seu aparelho de tortura.
O professor esperou que um robô colocasse o primeiro recipiente
embaixo dos instrumentos. Depois passou a controlar o pequeno
cérebro eletrônico, que fixava exatamente o comprimento das ondas e
a intensidade das radiações. Macauley moveu uma chave, e o aparelho
emitiu um zumbido. O som tinha uma semelhança fatídica com aquele
que as vespas assassinas costumavam produzir ao precipitar-se sobre
as borboletas indefesas.
— É isso. Como vê, é muito simples — disse o professor.
— Tudo que é simples é rápido — comentou Arlene como se
estivesse falando num oráculo. — Mas a criação dos pressupostos
para sua aplicação durou séculos e foi extremamente difícil.
Cliff limitou-se a um silêncio de sábio.
Macauley explicou a Cliff os processos que seriam desencadeados
durante as radiações. As rainhas das vespas adquiririam um grau de
fertilidade mais elevado, que lhes permitiria produzir maior número de
ovos. Desses ovos resultariam, face às leis que regiam a formação de
himenópteros, maior número de jovens rainhas, que por sua vez
formariam outros enxames. Pelos cálculos realizados no laboratório,
esse processo se estenderia por quatro gerações. Depois as condições
do meio ambiente e as limitações dos meios de subsistência
provocariam uma redução do número de criaturas. No meio tempo, as
vespas assassinas se espalhariam em quantidade suficiente e as
borboletas de olhos dourados seriam exterminadas. Cliff
compreendeu. Fez um movimento com os dedos polegar e indicador.
— A vespa é desse tamanho. Não pode acontecer que, além das
modificações do ciclo reprodutivo, haja alterações em outros instintos
dos bichinhos? É possível que as vespas nasçam com nove asas, ou
que passem a atacar apenas objetos que sejam vermelhos, redondos ou
sei lá o quê.
Parecia ter tocado num ponto sensível. Arlene e o professor
fitaram-se. Finalmente Macauley puxou os cantos da boca para baixo
e começou a falar em tom hesitante:
— Em princípio não é impossível que as radiações produzam
outras modificações de caráter transitório ou permanente. Mas
realizamos tantas experiências com esse tipo de emissões de curta
duração que posso garantir com uma segurança de oitenta por cento
que seus receios não têm fundamento. Nunca possuímos certeza
absoluta do que resultará de nossos atos. Porém, tenho dois motivos
para supor que a experiência iniciada neste instante seja inofensiva.
Enquanto Macauley falava, Cliff olhou de lado para a moça de tez
escura. Arlene era uma beleza exótica, e Cliff compreendia seu
procedimento nos minutos de fraqueza que passara a bordo da Orion
VIII. A moça continuava com a mão pousada em seu braço. Cliff não
se movia. Macauley estava mergulhado tão profundamente em suas
explicações que não viu ou não quis ver o gesto.
— Que motivos são esses, professor?
— Em primeiro lugar, trata-se de uma experiência cuja duração foi
fixada em dois anos. Nesse prazo teremos feito uma limpeza tremenda
entre as borboletas de olhos dourados. Além disso, a experiência que
estamos realizando é de dimensões bastante reduzidas, em
comparação com o equilíbrio ecológico estabelecido pela natureza.
Aconteça o que acontecer, os efeitos não serão tão graves como se
poderia recear.
Cliff viu o último recipiente passar pelos instrumentos.
— O senhor quase conseguiu convencer-me, Macauley — disse.
— Os robôs colocarão os recipientes na nave?
— Isso mesmo. Seager entregará o último vaso pessoalmente no
seu helicóptero ao parque de Camooweal. O senhor poderá levar
Arlene, que servirá de elemento de ligação com o pessoal dos diversos
parques. Combinado?
Cliff confirmou com um gesto, esforçando-se para não ver o brilho
que surgiu nos olhos grandes de Arlene.
— Combinado — disse.
Dali a uma hora, decolou com a Orion VIII. Ia sozinho, sem a
tripulação, pois um vôo realizado dentro do envoltório atmosférico do
planeta é a coisa mais banal, podendo até mesmo ser feita por um
cadete que se encontre no primeiro semestre. Para Cliff McLane, o
vôo seria muito perigoso. Nunca se esqueceria de certas etapas do
mesmo.
***
Canadá: Parque Natural de Nipigon.
Cliff realizava o vôo manual. A espaço-nave desceu lentamente
sobre o campo circular de pouso que ficava junto a uma estação
afastada dos guardas do parque. À frente de Cliff, Arlene estava
sentada na borda do painel de instrumentos, balançando em atitude
provocadora as pernas envoltas nas lindas botas brancas. Seus joelhos
eram uma preciosidade, e a moça não ignorava o fato. No momento
em que Cliff desligou os propulsores, Arlene afastou com um gesto
gracioso uma mecha de cabelos da testa. América do Sul: Colônia Las
Heras. Cliff dirigia a Orion VIII com uma das mãos. A outra
repousava sobre a de Arlene, que acabara de preparar café na cozinha
de bordo e mexia o concentrado de creme e o açúcar para Cliff. Este
segurou a mão de Arlene e, mesmo dirigindo a nave, procurou beijar
as pontas dos dedos da jovem cientista. A tentativa foi bem sucedida.
Mongólia: Khar Khoto, situado ao redor do lago de Goshun.
— Querida — disse Cliff — seria uma bobagem se eu dissesse que
você é leve, fácil de levar. De qualquer maneira, ficaria satisfeito se
você fosse por seus pés...
— Até onde?
— Pelo menos até a poltrona mais próxima.
No vôo que durou cerca de dezenove horas, Cliff Allistair McLane
levou vinte e um enxames de vespas assassinas para todos os cantos
do globo terrestre. Quanto a Arlene, foi uma das experiências
inesquecíveis de sua vida. McLane sentia-se arrastado por dois pólos
magnéticos opostos. Entre Tamara Jagellovsk, que amava, e Arlene,
pela qual estava sendo tentado. Aguardava ansiosamente o pouso
final, que o levaria de volta à paz de seu bangalô, onde teria condições
para chegar a uma decisão razoável. Por fim, chegou a hora do pouso
final na Base 104.
— Seja lá o que você pensa, moça — disse em voz baixa,
enquanto desciam pelo elevador central para o pavimento de concreto
da base — peço-lhe que não acredite que sou um homem sem força de
vontade, que costuma pôr as mãos em qualquer ombro bem formado
que veja à sua frente.
Abraçaram-se pela última vez.
— Não tenha medo, McLane — cochichou Arlene. — Conheço a
diferença entre um conto e um romance.
Cliff confirmou com um gesto e respondeu em tom seco:
— Eu sabia; a leitura instrui.
— As viagens também são bastante instrutivas — disse Arlene em
voz baixa. — E esta viagem mostrou-me uma coisa que Michelle
sabia há tempos em seu subconsciente, e conseguiu esquecer a favor
de Shea.
— Trata-se de planetas e estrelas? — perguntou Cliff com a voz
fraca.
Arlene sacudiu a cabeça.
— Não. A viagem me ensinou que os astronautas realmente são
homens encantadores, inteligentes e bastante ponderados.
Cliff concluiu o diálogo com as seguintes palavras:
— Nem tudo que é negro é espaço cósmico.
O elevador pousou no pavimento do espaçoporto, o sinal acendeu-
se, a escotilha da comporta abriu-se. Penetraram sob a luz dos
holofotes. Caminharam um atrás do outro, como se Cliff e Arlene
apenas tivessem sido companheiros durante um longo vôo. Um vôo
que parecia ter chegado ao fim...
5

CENTO e cinqüenta dias transcorreram em meio às ocupações


normais... A tripulação da Orion descansava.
O comandante achava-se deitado em posição descontraída na
cadeira de dobrar, colocada junto à piscina. Cliff não estava dormindo;
encontrava-se no estado intermediário entre a vigília e o sonho. Às
suas costas, as pedras refletiam os raios do sol. Parte do terraço
permanecia na sombra. Cliff abriu um olho.
Um zumbido!
Era um som armazenado em sua memória. Cliff abriu o segundo
olho e fitou os arredores, sem mover a cabeça. As árvores e os
arbustos de d’Itvias, que chegaram a ficar desfolhadas, encontravam-
se livres da praga depois que Cliff havia recorrido aos robôs. As
máquinas paralisaram os animais, recolheram-nos e os destruíram.
Cliff não levou mais de um segundo para identificar o zumbido.
Ligou-o a uma manhã passada no planeta de Jackhammer. Tratava-se
de uma vespa assassina. Perdera-se por aqui, tal qual seis meses atrás
as borboletas de olhos dourados. O zumbido mudava de tom, segundo
o local do parque em que se encontrasse o inseto.
Cliff continuou deitado e protegeu os olhos contra os raios do sol.
Finalmente viu a vespa. Foi uma visão que satisfaria o senso estético
de qualquer um.
O corpo era prateado e apresentava estrias amarelas. O movimento
das asas transparentes era tão rápido que as mesmas se tornavam
invisíveis. O inseto realizava um vôo de patrulhamento. Examinava,
uma por uma, as folhas e as flores da grande árvore d’Itvia. Vez por
outra, pousava num galho onde paralisava e sugava um inseto de
pequenas dimensões.
— Que animal bonzinho! — disse Cliff, fechou os olhos e voltou a
recostar-se.
Sentiu-se mais tranqüilo. Durante alguns segundos, não aconteceu
nada. Apenas se ouvia o zumbido da vespa assassina, o farfalhar
causado pela brisa leve do Golfo de Carpentaria que esfregava as
folhas umas contra as outras, o ruído produzido por uma noz que caiu
na piscina...
De repente, ouviu-se outro ruído. O pequeno rádio de pulseira
emitiu um zumbido. Estava preso à braçadeira da cadeira, à direita de
Cliff. Este soltou o grampo e ligou o aparelho.
— Aqui fala McLane — disse.
A vespa assassina desceu vertiginosamente da copa da d'Itvia e
descreveu uma curva junto à cabeça de Cliff. Este conseguiu dominar-
se. Não abateu o inseto e ouviu a voz que saía do alto-falante.
— Comandante, aqui fala o professor Macauley. Será que o senhor
poderia comparecer quanto antes ao meu laboratório?
— Com o maior prazer. Qual é o motivo?
Agora a vespa voou em direção à sua cabeça. Cliff desviou-a para
o lado e o animal bateu contra o tecido da cadeira. McLane levantou-
se de um salto, pois não estava com vontade de ser atingido pelo
ferrão. Segurou o rádio e disse:
— Queira desculpar. Uma chlorion procura picar-me e sugar meu
sangue.
O inseto escorregou no tecido liso, conseguiu controlar-se ao
atingir o assento e subiu furiosamente. Descobriu Cliff e tomou a
direção de sua cabeça. A voz continuava a sair do alto-falante. O
coronel lamentava não ter uma toalha ou outro objeto com que
pudesse repelir a vespa.
— ...pois é isso... efeito colateral indesejável... venha quanto
antes...
Cliff não prestou atenção a todas palavras de Macauley, embora
compreendesse algumas.
— Um momento — disse em voz alta.
Mais uma vez, a vespa aproximou-se furiosamente. Cliff atirou o
rádio para dentro da cadeira, tomou o impulso e, atingindo a vespa
com as costas da mão, arremessou-a para o jardim como se fosse uma
bola de tênis.
— ...reage a... não fale... — rangeu o rádio.
O inseto recuou cinco metros, controlou o vôo, executou uma
curva de cento e oitenta graus e voltou a precipitar-se sobre Cliff. Não
havia a menor dúvida: o alvo era a cabeça humana. As pernas do
inseto estavam encostadas ao corpo, as antenas tremiam e os olhos
pareciam telas de radar que não poderiam ser enganadas. O ferrão
achava-se virado para a frente e apontava para os olhos do
comandante como se fosse uma arma. Cliff negaceou, balançando o
corpo para a direita e para a esquerda, mas o inseto retificava o curso.
Cliff respirou profundamente, virou-se e abaixou-se.
— Esta vespa não deve ser anfíbia — disse.
O zumbido tornou-se mais malévolo. As palavras, que Cliff
acabara de pronunciar, pareciam ter irritado a vespa. Cliff abaixou-se,
e as solas dos pés descalços impeliram-no para a frente. Executou um
belo salto e mergulhou nas águas da piscina. Continuou mergulhado
por alguns segundos e emergiu na margem oposta. Sacudiu a água dos
cabelos, pronto para mergulhar a qualquer instante. O inseto havia
desaparecido. Ao caminhar num lugar mais raso, descobriu-o. Estava
reduzido à impotência, boiando no centro da piscina, onde revolvia a
água com as asas transparentes. Uma onda parecia ter atingido a
vespa, arrastando-a para dentro da piscina. Cliff deu algumas braçadas
vigorosas, atingiu a escada e saiu. Com alguns saltos, chegou até a
cadeira e pegou o rádio. O aparelho fora construído de maneira a
resistir às condições reinantes no espaço. Sendo à prova do ar e do
vácuo, um pouco de umidade não lhe poderia fazer mal.
— McLane de novo — disse Cliff, percebendo que seu coração
batia desesperadamente.
— Macauley continua no aparelho. O que houve?
Cliff relatou em poucas palavras.
— Foi justamente por isso que pedi seu comparecimento — disse
o professor a meia voz e em tom constrangido. — Cometemos um
erro lamentável. A segunda geração, ou seja, os descendentes
imediatos das vespas submetidas às radiações, além de serem dotados
de uma fertilidade extraordinária, são sensíveis ao som. Não existe
praticamente nenhum comprimento de ondas que não as incomode.
Mas o que mais as enfurece é a voz humana.
— Quer dizer que é a faixa situada aproximadamente entre
cinqüenta e quatorze mil hertz?
Cliff fez um gesto afirmativo. Ninguém poderia ter previsto um
resultado desses.
— Isso mesmo. Picam assim que alguém fala perto delas. E
existem bilhões de vespas assassinas.
Cliff ficou calado; sentia-se abalado.
— Isso significa que a forma de comunicação mais importante não
pode ser empregada mais em Terra?
— Certo. Aqui na Base 104, o perigo é relativamente reduzido.
Porém as coisas estão piorando. Venha logo ao meu laboratório; já
convoquei sua tripulação. O marechal Wamsler e o coronel Villa
também estão aqui.
— Terei que vestir um traje espacial? — perguntou Cliff com um
resquício de sarcasmo.
— Não. Basta levar um paralisador.
Cliff compreendera que o problema não se tornara menos grave.
Pelo contrário, passara à categoria de um perigo "agudo". Desligou o
rádio de pulso e caminhou para o interior da casa. Provavelmente
conseguira salvar-se porque a vespa fora um único exemplar. Sua
picada provocaria pelo menos uma paralisia temporária, e talvez até a
morte.
Uma porta de vidro fechou-se atrás dele. Parou no meio da sala e
dirigiu-se à mesa de programação que lhe permitia dirigir os robôs
domésticos. O primeiro botão que apertou transmitiu ordens e
informações dirigidas a todas as unidades. Cliff escreveu um
programa simples e, depois de gravá-lo em fita, deixou-o correr pela
instalação.
Traduzido em linguagem comum, esse programa dizia o seguinte:
"Manter fechadas sempre e em todas as condições as portas, janelas e
outras aberturas da casa. Qualquer inseto com o volume superior a 30
centímetros cúbicos que consiga penetrar na mesma terá um efeito
mortífero sobre os homens. Emergência grau três. Fim da
informação."
— Bem — murmurou. — O que pude fazer foi feito. O futuro será
bem mais interessante.
Teve uma visão. Qualquer pessoa que quisesse locomover-se fora
de vim recinto fechado teria de envergar um traje espacial. Face ao
número de habitantes de Terra, o número de trajes espaciais era muito
reduzido. Qualquer pessoa que falasse nas proximidades de uma
planta correria o risco de ser assassinada por insetos. Havia áreas
extensas cobertas de conjuntos residenciais que não eram tão
automatizados como certas casas situadas nesta ilha. Haveria um
pânico geral e um assassínio em massa. Sacudiu a cabeça e começou a
vestir-se.
***
Cliff já conhecia a sala do Instituto Biológico do professor, e
conhecia ainda melhor as pessoas reunidas na mesma. A tripulação da
Orion comparecera em peso, Macauley estava presente, tal qual o
coronel Villa e Wamsler, que estava sentado junto à escrivaninha, com
o rosto contraído.
— As vespas chlorion não demorarão em encontrar um meio de
penetrar em recintos fechados. Quando isso acontecer, deixaremos de
ouvir muita conversa fiada.
Hasso virou-se, sorriu e cumprimentou Cliff com um gesto.
Michael Spring-Brauner estava calado. Cliff começou a imaginar
como seriam as coisas quando todos os homens só pudessem
comunicar-se através de mensagens escritas. Seria uma situação
estranha. As cestas de papéis e os fornos de incineração não
conseguiriam realizar o trabalho que se exigiria deles.
— O problema da tortrix viridana extraterrestre está praticamente
resolvido. Já o problema da chlorion ichneumoneum jackhammerii
encontra-se na fase "aguda". Nosso procedimento terá de guiar-se por
uma lógica inflexível. Primeiro: o que pretendemos e quais são os
recursos com que poderemos contar? A segunda parte do problema
consiste no seguinte: de quanto tempo dispomos? E a terceira parte: o
que acontecerá se, dentro de determinado tempo, não encontrarmos
um meio de neutralizar a ação dessas vespas nefastas?
Levantou os braços e deixou-os cair; não tinha mais nada a dizer.
— Será que existe alguma arma ou instrumento com que possamos
exterminar esses insetos?
O marechal Wamsler levantou-se e lançou um olhar de súplica
para o grupo que cercava o professor Macauley. O professor sacudiu
lentamente a cabeça.
— Não. Podemos destruir alguns ninhos, o que já foi feito. Mas
não estamos em condições de examinar cada árvore, arbusto, moita ou
pedra, para verificar se nele não existe um ninho. Mesmo que
reuníssemos bilhões de homens, não conseguiríamos realizar essa
tarefa. É claro que nossas equipes matam toda vespa que apareça
diante dos seus olhos, tal qual foi feito com as colônias de borboletas.
— Quer dizer que não dispomos de qualquer arma — Wamsler
voltou a recostar-se na poltrona.
— Não — disse Cliff. — De resto, acho que esse procedimento
seria inútil. Existe outra possibilidade. Poderíamos importar um
animal que mate as vespas?
A risada de Arlene só poderia ser interpretada como uma
manifestação de cinismo.
— Primeiro vamos buscar plantas de que temos necessidade e com
elas trazemos uma praga, depois trazemos insetos que devem
exterminar a praga, depois disso vamos à procura de animais que
exterminem os insetos... No fim da história, estaremos trazendo
dinossauros e utilizando armas pesadas. A tese teria uma vantagem: a
frota poderia dar caça aos gigantes e destruí-los. Estou falando em
nome de todas as equipes de proteção à natureza. Não devemos pensar
em outro inimigo biológico. Devemos recorrer a alguma coisa
perfeitamente controlável.
— Quer dizer que também não contaremos com essa possibilidade
— disse Charger. — Precisamos de alguma coisa existente na natureza
das vespas, e que possa ser mantida perfeitamente sob controle.
— Seria um procedimento técnico — disse Atan Shubashi
levantando-se de um salto e apontando para o professor. — Já
procurou descobrir as causas da sensibilidade ao som desenvolvida
pelas vespas?
Macauley baixou a cabeça e respondeu em voz baixa:
— Já discuti o assunto com o comandante. Infelizmente McLane
tem razão. As radiações de tempo reduzido, que aplicamos para
aumentar a fertilidade das rainhas e das larvas específicas, fez entrar
em atividade um grupo de células situadas no cérebro dos animais.
Alguns filamentos nervosos ligam o grupo às patas dianteiras, onde
ficam as células auditivas, e com isso adquiriu uma sensibilidade toda
especial para os sons emitidos nessa freqüência. A culpa é
exclusivamente nossa, mas não havia como prever esse efeito
colateral.
— Esses cientistas! — resmungou Wamsler.
Charger respondeu em tom frio:
— Se os cientistas não tivessem construído as espaçonaves, não
haveria as Formações de Reconhecimento Espacial, nem o posto de
direção que está sendo ocupado pelo senhor, marechal.
Os dois homens trocaram um olhar penetrante. Finalmente,
Wamsler fez um gesto conciliador e disse:
— Deixe para lá, Charger.
— Deste jeito nos perdemos — disse Arlene com sua voz
aveludada. — Só existe uma possibilidade. Retornaremos ao planeta
Jackhammer e estudaremos as condições de vida dos animais. Só
assim descobriremos aquilo que estamos procurando: uma arma de
efeito muito rápido, a ser empregada contra as vespas.
***
— Chamei o controle de decolagem antes que o senhor chegasse,
coronel — disse Villa. — Pode decolar.
Cliff fez um gesto afirmativo.
— Amigos! Decolaremos daqui a duas horas. Acertem os relógios.
São dezessete horas e três minutos.
— Nossa bagagem já está preparada, Cliff — disse Arlene. A fala
íntima rendeu-lhe um olhar furioso de Helga Legrelle.
— Muito bem. Mais alguma observação relativa ao tema,
professor? — perguntou McLane.
— Em princípio não. Mas devo dar-lhes algumas recomendações a
serem seguidas durante a viagem.
— Seria um favor — disse Charger.
— Procurem estudar todos os aspectos da vida das vespas chlorion
que excedam aquilo que já sabemos a seu respeito. Todas as
observações realizadas no curso de seis meses e todos os
conhecimentos sobre os insetos de nosso planeta foram inter-
relacionados e processados em computador. Não encontramos
qualquer ponto de partida para um ataque. Provavelmente, em seu
habitai natural, os animais demonstram um comportamento social que
ainda não conhecemos. É por lá que devemos começar.
Mario de Monti fez um gesto afirmativo.
— Compreendo. Outros planetas, outros insetos, outros costumes.
Um sorriso leve e alegre cobriu o rosto preocupado do cientista.
— É isso mesmo, tenente De Monti.
— Vejam! O triste espetáculo já começou — disse Villa em tom
enérgico.
No quadro, surgiu uma larga ponte de atracação, que se destacava
contra os fundos de um pequeno porto pesqueiro ultramoderno. No
fim da ponte, estava deitado um homem de rosto para cima, que
envergava o traje típico dos pescadores. A sombra de uma pilha de
pneus gastos, que provavelmente serviriam de pára-choque, caía sobre
o peito do homem. O comentador disse:
— Um acidente lamentável, cujas causas ainda não foram
esclarecidas, aconteceu hoje neste local. O timoneiro de um barco de
pesca de atum foi atacado de insetos de tamanho descomunal; é o que
declaram as testemunhas.
A câmera aproximou-se e parou ao abranger a cabeça. Na testa,
nas bochechas e no espaço entre o lábio inferior e o queixo, os homens
apavorados viram o sinal de incisões finíssimas. Em volta dessas,
inchações pontudas, em cuja extremidade superior brilhava um
minúsculo hematoma. O rosto estava azulado e apresentava numerosas
manchas vermelhas. O alto-falante transmitiu a explicação:
— O homem procurou defender-se com as mãos e gritou por
socorro. Pelo que dizem, após isso os animais, que eram de quatro a
nove, reforçaram seus ataques. Paralisaram o homem, que caiu ao
chão antes que seus companheiros pudessem ajudá-lo. O médico,
chamado às pressas, constatou sua morte. A causa mortis foi a
cardiopatia aguda produzida por toxinas desconhecidas. Considera-se
como certo que foi morto pelos insetos. Ultimamente têm aumentado
as notícias sobre observações feitas não só nas imediações, como
também em regiões mais afastadas dos parques naturais terranos. Ao
que tudo indica, devemos contar com uma invasão dos insetos. Fala-se
em vespas superdimensionadas, cujo zumbido é ouvido até de noite...
Villa desligou.
— É o primeiro morto — disse em voz baixa. — Devemos agir
muito depressa.
— Na melhor das hipóteses, estaremos de volta em vinte dias,
coronel — ponderou Cliff.
Macauley disse:
— Instruímos todas as equipes para deslocarem-se em veículos
fechados e queimarem os ninhos das vespas onde quer que os
encontrem. Mas isso não será suficiente.
Villa levantou-se e atravessou o grupo das pessoas reunidas. Ao
chegar perto da porta, parou.
— Afinal, o Serviço de Segurança Galáctico é uma instituição de
grande porte. Utilizaremos todos os nossos funcionários para apoiar
seus esforços, professor. Prometo mantê-lo sempre a par.
Macauley apertou a mão do homem pequeno e magro de cabelos
grisalhos. Disse em voz baixa:
— Fico-lhe muito grato.
— Compreendemos suas preocupações — disse Cliff. — Vamos
decolar logo!
Despediram-se de Macauley. Poderiam entrar em contato com ele
a qualquer tempo, por intermédio da EA IV e da E.T.E.E.
Um carro para sete pessoas levou-os ao elevador, que não ficava
longe da Base 104. Ainda faltavam noventa minutos para a hora da
decolagem.
***
Centésimo décimo primeiro pavimento. O pequeno apartamento de
Tamara Jagellovsk ficava a quase trezentos e cinqüenta metros de
altura. Depois de um dia passado nos arquivos do SSG, tirara as botas
e descansava. Há pouco Cliff telefonara para despedir-se. Teve de
partir para Jackhammer numa missão urgente. Portanto, o raio que
acabara de ver bem poderia ser da Orion VIII. Tamara sacudiu os
ombros e voltou ao quarto.
Parou diante do aparelho estéreo e escolheu uma fita. Os alto-
falantes reproduziram a música de Thomas Peter, "Asas Mortais".
O videofone emitiu um som forte.
— Isso é um acontecimento atípico — constatou e levantou-se.
Com um movimento da mão, silenciou os alto-falantes e com outro
ativou a tela. As emissoras de televisão só chamavam a atenção dos
assinantes, por esse meio, quando havia uma mensagem da maior
importância. A tela iluminou-se, e nela surgiu em projeção
tridimensional o sinal do Governo Terrano.
— Caramba! — disse Tamara em voz alta. — Deve ser um aviso
de grande importância.
— O Governo Terrano pede a todos os cidadãos muita atenção a
esta mensagem e que a cumpram em todos os detalhes. Dentro de
alguns segundos, o locutor fará um comunicado de importância vital.
A desconfiança e a atenção de Tamara já haviam sido despertadas.
Surgiu um estúdio de televisão. No centro de uma área livre, viu-se
Von Wennerstein, Secretário do Governo, cujo rosto estava muito
sério.
— Senhoras e cavalheiros! — disse, falando devagar, e esperou as
câmeras se aproximarem.
"Prezados concidadãos. Peço a todos que prestem muita atenção. O
comunicado que será transmitido não tem por fim inquietá-los; visa
justamente o contrário. Há vários anos importamos certas plantas do
planeta d'Itvia, a fim de apressar o florestamento dos parques
naturais..."
Embora já conhecesse o problema, Tamara ouvia atentamente.
— ...essas vespas reproduziram-se com uma rapidez espantosa e
transformaram-se num perigo à vida. O marechal Woodrow Winston
Wamsler lhes dirá o que poderão fazer para proteger-se contra as
mesmas. Muito obrigado pela atenção.
Wamsler surgiu. As câmeras captaram a imponente esfera espacial
de novecentos parsec, passaram por cima da barreira de fluxos
luminosos, e voltaram a fixar-se no marechal.
— Fechem as janelas! — disse Wamsler sem o menor intróito.
Tamara sentiu-se tentada a correr imediatamente para a sacada,
mas lembrou-se da altura em que ficava sua residência e continuou
sentada.
— Procurem conseguir um paralisador e atirem imediatamente a
qualquer vespa dessa espécie. Aqui está um exemplar.
Wamsler apontou para trás e mostrou aos espectadores um cubo
transparente no qual estava encerrada uma vespa que se debatia contra
o vidro. Via-se perfeitamente o ferrão, no qual o veneno paralisante
brilhava sob a forma de cristal arredondado. Era um quadro
apavorante.
— Assim que ouvirem o zumbido deste animal, não falem, nem
concluam o que estiverem dizendo. Quanto mais alto falarem ou, pior
ainda, gritarem, tanto mais enfurecerão as vespas assassinas.
Os alto-falantes transmitiram o zumbido de um inseto que partia
para o ataque. Nos armários da pequena cozinha robotizada, os vidros
tilintavam de forma enervante. Tamara sentia-se alarmada, pois isso
não prenunciava nada de bom.
— A mensagem que segue destina-se a todos os funcionários do
SSG. Considerem-se em serviço a partir deste momento. A ordem é
matar imediatamente todo inseto que corresponda às especificações
que acabam de ser transmitidas. Quanto ao mais aplicam-se as
mesmas instruções de segurança que acabam de ser transmitidas.
A seguir, o locutor da estação pôs-se a falar, pediu desculpas pela
interrupção da programação, anunciou a atração. Antes desta ser
iniciada, avisou mais uma vez:
— Nunca se esqueçam — disse em tom enfático. — Não falem ao
ar livre, saiam de casa o menos possível, prestem atenção ao zumbido
e não dirijam os paralisadores sobre seres humanos, mas apenas contra
as vespas assassinas.
Tamara levantou-se. Precisava não apenas um café bem forte, mas
também um grande copo de Archer's Tears. Afinal, ajudara Cliff a
ganhar cerca de dez garrafas, das quais sete ainda estavam cheias.
— Tentem ensinar a um bando de crianças a não falar, a não gritar,
a não chorar! — murmurou.
Dirigiu-se à cozinha robotizada. Atrás dela, soaram os últimos
acordes das "Asas Mortais", de Thomas Peter.
6

PARQUE Natural de Camooweal.


As enormes asas da hélice horizontal giraram cada vez mais
devagar e pararam por completo. Um casal desceu do helicóptero.
Fitas negras cobriam as plantas que se moviam sob as botas dos
dois membros da equipe. Depois que três deles haviam sido picados,
os guardas do parque preferiam não assumir mais nenhum risco.
Michelle estacou em meio ao movimento.
— Cuidado — cochichou.
— Destrua! — resmungou Shea.
A resposta veio sob a forma de ataque furioso lançado por
centenas de vespas. As ondas sonoras irritavam-nas ao máximo, e
atacavam com uma fúria cada vez maior. As telas de arame ofereciam
proteção suficiente, mas naquele momento Shea estava cego.
— Ainda consegue enxergar alguma coisa? — perguntou a
Michelle enquanto com o braço afastava algumas dezenas de insetos,
que caíram ao solo como frutos maduros. Esmagou alguns deles com
os pés.
— Mal e mal! — disse Michelle.
Outra vez, Shea limpou o visor e depois atirou. Atingido pelo raio
cantante, o ninho caiu ao chão e Shea dirigiu o paralisador sobre o
mesmo. Os exemplares que se encontravam presos entre as fitas de
papel negro foram imobilizados. Depois as duas armas passaram a
empenhar-se na destruição sistemática do ninho. O que restou foi um
montão fumegante e malcheiroso, do qual caíam animais
chamuscados. Shea agia sem a menor contemplação.
— Este ninho está liquidado — disse em voz alta.
Mais uma vez, algumas vespas aproximaram-se e bateram nos
animais paralisados. Um cheiro adocicado de mel gosmento surgiu,
além de um bafo que lembrava uma galeria de fermentação.
— Agora é minha vez! — gritou Shea. — Não posso mais.
Michelle caminhou pesadamente em sua direção. A cada passo
dado, os insetos caíam do tecido liso da jaqueta refrigerada, eram
pisados ou levantavam vôo. Michelle regulou o foco do paralisador
para uma área menor, aproximou-se do homem e puxou o gatilho. O
raio invisível passou junto do rosto, rente da máscara. Os insetos
paralisados escorregavam para o chão. Dessa forma, limpou a roupa e
os ombros de Shea. Este dirigiu a arma de radiações para o círculo de
vespas que se estendia em torno dela como se fosse um amontoado de
terra e matou os animais.
— Agora dedique a mim seus serviços de bom samaritano, Shea
— disse Michelle.
Shea pegou o paralisador e "varreu" os animais das vestes e da
máscara da moça. Depois apontou o cano da HM-4 para baixo e
queimou as vespas. Finalmente abriu os lábios, respirou
profundamente e gritou:
— Alô! Há mais alguém por aí? Será que nos esquecemos de
algumas das encantadoras vespas?
Algumas retardatárias precipitaram-se das árvores, dos arbustos e
dos buracos que havia nos arredores e reuniram-se em torno dos dois
guardas. Mais uma vez, o paralisador e o radiador entraram em
atividade.
— Pronto! Este setor está limpo — disse Shea. — Já se apurou que
a maior distância que uma vespa pode percorrer é de mil quilômetros.
Ao que parece, existe um grande foco em Groote Eylandt, pois do
contrário a ilha não estaria sofrendo sob a ação da praga, conforme
dizem as últimas informações do coronel Villa.
O perigo espalhava-se cada vez mais. Não só os homens eram
atacados, mas também os animais. Em parte isso acontecia porque se
aproximavam demais dos ninhos, em parte porque emitiam sons
situados na mesma faixa de freqüência dos seres humanos.
— O uso de substâncias químicas selecionadas não adiantou nada
— disse Michelle enquanto caminhavam lado a lado — e os vírus
especialmente cultivados também se revelaram incapazes de dizimar
as vespas. O único recurso eficaz é o ataque direto, praticado por nós.
Shea respondeu com uma expressão amarga.
— São cinqüenta homens da equipe... ou melhor, quarenta e oito,
uma vez que Charger e Arlene estão na Orion. São ajudados por um
total de cem voluntários contra milhões e milhões de vespas
espalhadas pelo parque natural. É uma tarefa inútil.
Michelle deixou que Shea a ajudasse a sentar; depois este fechou a
porta.
— Não posso concordar com o que você acaba de dizer — disse,
puxando a faixa de plástico que cobria a nuca e o princípio da
máscara. — No mínimo, conseguimos impedir que as vespas
continuem a multiplicar-se em progressão geométrica. Conseguimos
eliminar alguns milhões de ninhos em potencial, antes que o perigo se
tornasse agudo. Foram colocadas grades de tela na frente de todas as
entradas de ar! Até os helicópteros são derrubados, pois alguma peça
produz vibrações desse tipo maldito. Foi mesmo uma bela idéia
pousar em Jackhammer.
— Você tem motivo para queixar-se?
— Eu não. Mas milhões de seres humanos têm.
O helicóptero decolou e voltou a pousar quinhentos metros
adiante, junto ao limite norte do parque natural. A luta prosseguia...
***
Base 104; no gabinete de Wamsler.
Wamsler estende a mão para pegar o bilhete que Spring-Brauner
lhe empurrou por cima da mesa negra e lê:
Ainda não há notícias de McLane e dos entomólogos que se
encontram em sua companhia?
Wamsler fitou Apoio com uma expressão martirizada e sacudiu a
cabeça. No interior das cavernas da Base 104, as picadas das vespas já
haviam feito dez vítimas; felizmente não houvera nenhuma morte.
Aguardo seu regresso dentro de dez dias, escreveu.
Spring-Brauner leu e perguntou sob as palavras de Wamsler:
Nem mesmo uma notícia pelo rádio?
Wamsler sacudiu a cabeça sem dizer uma palavra. Por duas vezes,
já derrubara vespas com o paralisador no interior de seu gabinete.
Seria difícil ou impossível dizer de onde tinham vindo. Não poderiam
ter entrado pelas galerias de renovação de ar, que foram protegidas
com finas telas de arame. Subitamente Spring-Brauner apontou para a
frente, num gesto apavorado.
A dez metros da mesa, um sinal iluminou-se abaixo da tela do
videofone.
— Aqui fala o laboratório do professor Macauley — disse o
assistente em voz alta. — Quero falar com o marechal Wamsler.
Um zumbido cortou sua voz como se fosse uma faca.
— Silêncio! — berrou Wamsler. — cale-se!
Seu interlocutor calou-se, perplexo. Spring-Brauner apontou o
paralisador para uma vespa e apertou o gatilho. Atingido em pleno
vôo, o animal caiu sobre a mesa. O ferrão comprido ainda executou
alguns movimentos, mas logo imobilizou-se. Mais quatro vespas
saíram do revestimento de uma tela visual situada nas proximidades
da barreira de fluxos luminosos e espalharam-se. Dirigiram seu ataque
tanto contra Wamsler como contra Apoio.
— Cuidado, marechal — gritou Michael e voltou a disparar.
Mais vespas saíram de outro esconderijo e concentraram seus
ataques sobre o ajudante. Spring-Brauner atravessava o gabinete em
ziguezague, parou e atirou. Wamsler não conseguiu colocar-se numa
posição em que pudesse usar o paralisador sem correr o risco de
atingir seu ajudante. Correu em torno do canto da mesa e gritou:
— Pare, homem!
O grito desencadeou um ataque concentrado de cerca de quinze
vespas assassinas. Todas se precipitaram sobre o marechal. Spring-
Brauner atirava incessantemente e acertava sempre, mas não havia
dúvida de que agora o maior perigo pesava sobre Wamsler. O ajudante
compreendeu e soltou alguns gritos mal articulados; naquela
emergência, não se lembrou de outra coisa. Imediatamente as vespas
orientaram-se pela nova fonte de ondas sonoras. Enquanto Wamsler
disparava, já se precipitavam sobre Spring-Brauner. O ajudante atirava
ao acaso em todas as direções e por pura sorte atingiu duas vespas.
Wamsler derrubou mais três e viu que Spring-Brauner perdeu o
autocontrole e pôs-se a correr em direção à barreira de fluxos
luminosos.
— Fique aqui, homem! — gritou Wamsler em voz rouca. Mais
uma vez as vespas mudaram de direção. O homem que se encontrava
no videofone assistiu ao drama que se desenrolava no gabinete sem
poder fazer nada.
Spring-Brauner não o ouviu. Faltavam cinco metros, quatro...
Wamsler não pensou mais nas vespas; refletiu instantaneamente.
Não haveria tempo para colocar-se atrás da escrivaninha e desligar a
barreira de fluxos luminosos. Três metros. Wamsler levantou o
paralisador, fez pontaria rápida e disparou contra as pernas do
ajudante. Depois apontou a arma para cima e puxou o gatilho; atirava
e atirava. As vespas esvoaçavam em torno dele e, via de regra, eram
atingidas pelo raio. O zumbido tornava-se cada vez mais fraco.
Michael Spring-Brauner cambaleou, dobrou os joelhos; faltavam dois
metros para atingir o mortífero fluxo eletrônico. Atirou os braços para
cima e tombou. Apoiou-se no solo e, pouco antes da barreira,
estatelou-se no chão. Virou-se, permanecendo deitado. Imediatamente
moveu o braço que segurava a arma e atirou num inseto vindo de
cima, que se dispunha a atacar Wamsler.
— Foi a última vespa — disse, falando com dificuldade.
— Parece que sim — disse Wamsler.
Os cadetes que se encontravam na ante-sala, todos armados com
paralisadores, assustaram-se quando viram o rosto do marechal.
— Façam o favor de chamar um médico para cuidar de Michael
Spring-Brauner — disse em tom apático. — E providenciem uma
maça. Tive que atirar nele. Tentei atingir uma vespa assassina e acabei
acertando nele.
Perplexos, os cadetes obedeceram.
— E mandem um robô de limpeza — prosseguiu Wamsler,
respirando com dificuldade. — Quero que levem esses malditos
insetos, senão acabo vomitando.
— Naturalmente, marechal.
Não se via mais nenhuma vespa. Mas isso só permaneceria assim
por um instante. Wamsler voltou lentamente ao gabinete e, exausto,
encostou-se à mesa. Olhou para a tela do videofone e fez um gesto.
— Agora pode continuar — disse em tom seco. — Diga logo o
que houve.
O homem, que falava do laboratório e coletava as informações
vindas da Grande Austrália e as transmitia para Villa e Wamsler,
respirou profundamente e disse:
— Quero dar-lhe as últimas notícias. No sul do continente, uma
fazenda foi destruída quase por completo. Trata-se...
Wamsler ouvia e compreendeu que a situação se tornava cada vez
mais séria.
***
Wilkinson Lades, Austrália Central.
Reunindo as últimas forças, o homem corria pelo caminho de areia
que ligava o edifício da administração aos abrigos construídos quase
completamente embaixo do solo. O ar começava a ficar escasso, os
pulmões davam mil pontadas, e ele se sentia como alguém que
estivesse morrendo afogado. As vespas o perseguiam.
No momento em que havia vencido metade da distância, alguém o
chamara da sala de comando junto ao abrigo, que estava grudado a
meia altura da fachada de concreto, como se fosse um púlpito.
Cometeu um erro imperdoável: respondeu. Depois vieram as vespas.
Às centenas. E agora corria para salvar a vida.
Com as pisadas, a areia era atirada para o alto. O homem fungava.
E esse ruído irritava ainda mais os insetos. Tornava-se mais forte, à
medida que diminuía a distância que o separava da pesada porta da
eclusa de climatização e da barreira de fluxos luminosos.
Os animais, que ali eram criados, entre as paredes maciças do
abrigo estavam habituados a determinado grau de luminosidade
artificial e a uma temperatura fixa; só assim produziam a quantidade
desejada.
Continuou a correr, cambaleando e fungando. O fungar
transformou-se num soluço, num gemido entrecortado. Nunca fora um
desportista.
A alavanca!
A porta girou ao seu encontro. Abriu-a o necessário para entrar.
Viu-se num recinto escuro, em forma de cubo.
"Aqui é mais fresco", pensou. Soltou um grito forte quando o
ferrão atingiu seu rosto. No mesmo instante, sua mão atingiu o contato
que abria a porta interna da eclusa. Outra vespa o picou, e ele gritou
mais uma vez. Depois caíram sobre ele. Gritava cada vez mais alto.
Quando seus gritos cessaram, a quantidade de veneno paralisante
havia atingido todo o sangue em circulação e chegado ao coração.
Retesou-se sob o peso de cerca de mil vespas chlorion, estremeceu
duas vezes e morreu.
De repente, houve um rebuliço...
A calculadora digital, cujos elementos externos mediam as
variações de temperatura e regulavam a incidência da luz, deram o
alarma. Os animais começaram a cacarejar e a soltar gritos estridentes.
Eram quarenta mil galinhas. Contagiaram-se umas às outras,
tornaram-se cada vez mais barulhentas; uma psicose coletiva irrompeu
em meio às mesmas. No momento em que os primeiros gritos das
poedeiras moribundas se misturavam aos gritos de protestos das
demais, os insetos ficaram ainda mais exaltados, disparavam com
maior rapidez pelos corredores feitos de aço e arame. Os animais
batiam as asas, picavam os ovos... A reação das vespas foi imediata;
esgueiraram-se pelas malhas da tela e picaram as galinhas.
Outro alarma soou em toda a extensão das instalações.
As faixas condutoras de rações pararam, as fitas transportadoras e
os classificadores de ovos também. O desempenho dos ventiladores
aumentou. A gigantesca granja, que tinha uma produção de vários
milhões de ovos por ano, transformou-se num verdadeiro inferno, no
espaço de quinze minutos. As penas voavam, os insetos zumbiam e
enfiavam os ferrões, as galinhas esvoaçavam em pânico, batiam com a
cabeça nas paredes e morriam. Os recipientes de comida e água
encheram-se de penas, sangue e excrementos. As galinhas, que
pertenciam a uma excelente raça de poedeiras, morreram sob os
efeitos do veneno paralisante, do pânico e das feridas que produziram
em si mesmas.
Dali a quinze minutos, alguns insetos saíram do pavilhão,
passando pelas portas abertas. A maior parte deles foi atingida pela
sucção poderosa dos ventiladores e esmagada pelas pás das turbinas.
Morreram sufocados embaixo das galinhas mortas, uma vez que a
água, o sangue e a clara dos ovos entupiam as traquéias pelas quais os
insetos absorviam o oxigênio. Foram carregados para as rodas das
fitas, antes que estas se imobilizassem. Depois o silêncio passou a
reinar na granja.
Pouquíssimas das quarenta mil galinhas continuavam vivas, e estas
ficariam inutilizadas pelo resto de suas miseráveis vidas; teriam de ser
sacrificadas. Naquele dia, a produção de ovos da granja havia chegado
ao fim. Só depois de terminada a obra destrutiva chegaram os homens
nos trajes protetores improvisados. O administrador da granja sofreu
um enfare que o matou. As vespas assassinas haviam feito mais duas
vítimas.
Um drama igual ou semelhante a este se desenrolava em todas as
partes do mundo. Sob a pressão da necessidade, a humanidade
aprendia muito depressa. Não falava, não tossia, só saía de casa ou do
local de trabalho quando isso se tornasse absolutamente necessário.
As palestras só podiam ser mantidas em recintos hermeticamente
fechados. Consumiram-se quantidades imensas de papel para
transmitir ao menos as mensagens mais urgentes. Sem que o
quisessem e sem que nisso vissem uma vantagem, os surdos-mudos
viram chegar sua grande hora. Em certas oportunidades serviam de
parceiros em comunicações visuais concebidas com grande precisão,
cujo "funcionamento" seria absolutamente silencioso. Linguagens
mímicas primitivas ou mais desenvolvidas passaram a ser usadas ou
inventadas.
As máquinas só eram utilizadas quando o operador não se expunha
a qualquer risco. A venda de fios ia de vento em popa. Fábricas que
estavam prestes a encerrar suas atividades, porque suas máquinas
eram obsoletas, vestiam seus trabalhadores com trajes especiais e
produziam... telas de metal. Buracos, cujo tamanho não excedia um
centímetro, constituíam o modelo preferido em todos os lugares
imagináveis, onde nem mesmo a fantasia mais arrojada os julgasse
possíveis. Os donos de residências subaquáticas recebiam visitas que
há anos não esperavam mais. E muita coisa parou de funcionar de uma
hora para outra...
Outras coisas voltaram à moda. Era uma época sem igual. Uma
época de silêncio...
***
Groote Eylandt, numa escola situada no centro da ilha.
Evidentemente era impossível educar bilhões de criaturas humanas
no espaço de vinte dias.
Como fazer, por exemplo, com que uma escola ficasse à prova de
vespas?
Tamara Jagellovsk, equipada com dois paralisadores, dos quais
segurava um na mão direita, encontrava-se entre as quatro lâminas de
vidro que fechavam o hall de entrada. Eram nove horas da manhã;
algumas classes já estavam funcionando, enquanto os ônibus escolares
traziam mais crianças. A direção da escola elaborara, num espaço
brevíssimo, um plano destinado a evitar que grandes multidões de
crianças se acotovelassem aos gritos nas entradas da escola.
— Que diabo! Dois ônibus de uma só vez!
As autoridades haviam feito uma distribuição generosa do
equipamento existente nos depósitos. Cada motorista dos ônibus, que
buscavam e levavam as crianças, tinha um rádio de pulso. Tamara
ligou seu aparelho e disse em tom enfático:
— Aqui fala do hall da escola, agente do SSG. Estou chamando o
motorista do segundo ônibus que está chegando neste momento.
O motorista respondeu imediatamente.
— O que houve, mocinha?
— Antes de mais nada, não ande tão depressa. Pare atrás do
primeiro ônibus... sim, é o branco... e deixe as portas fechadas até que
a última criança do ônibus da frente tenha passado pela porta da
escola. Entendido?
O motorista parecia sorrir enquanto respondia:
— Naturalmente, mocinha! Não sou nenhum idiota.
Tamara respondeu em tom seco:
— Não o conheço há bastante tempo para formar um juízo sobre
isso. Faça o favor de seguir as instruções que acabo de lhe dar.
— Naturalmente, mocinha.
— Não sou nenhuma mocinha — disse Tamara e desligou.
Entre a porta de vidro e o lugar em que se encontravam os ônibus,
havia uma construção de tela de arame e lona, cuja funcionalidade
compensava a feiúra. Formava um corredor em semicírculo, de cerca
de vinte e cinco metros de comprimento. Em virtude dos muros e das
estátuas, os ônibus não conseguiam chegar mais perto. No segundo
pavimento, uma turma treinava em voz alta. A ladainha feriu o ouvido
da funcionária do SSG.
— Eu durmo, tu dormes, ele dorme, ela dorme...
A voz da professora encerrou o coro, constatando em tom objetivo:
— Você realmente está dormindo, Giralee!
A resposta da menina não pôde ser entendida.
Tamara procurou recordar. A vinte e cinco metros do lugar em que
se encontrava, a porta do veículo abria para o corredor. O motorista
havia aproximado o ônibus da grade de tela a tal ponto que entre a
borracha da mesma e a carroçaria do veículo não havia nenhum lugar
por onde pudesse passar uma vespa. A porta abriu-se com um chiado.
As cinqüenta crianças não tiveram nenhuma dificuldade em atrair
dentro de trinta segundos um enxame de vespas composto de mais de
cento e cinqüenta exemplares. Tamara viu que nenhum inseto
penetrou no corredor de tela e acionou o contato. A porta do edifício
abriu-se. Dentro de três minutos os estudantes do primeiro veículo
foram conduzidos para as respectivas salas. Tamara suspirou aliviada.
— Segundo ônibus. Aproxime-se com cuidado — disse.
O ônibus vermelho, que era um veículo gigantesco movido por
uma pequena turbina, aproximou-se da barreira, seguindo o rastro do
primeiro. As chapas da carroceria esfregaram a espuma de borracha e
o motorista parou.
— Excelente! — comentou Tamara e abaixou-se para dar uma
olhada no corredor.
Ainda desta vez, o espaço entre o ônibus e a porta do edifício
estava livre de vespas. Os insetos atraídos pela algazarra batiam
ruidosamente contra as vidraças e contra as lâminas protetoras dos
ventiladores e condicionadores de ar, instaladas apressadamente, mas
com o necessário cuidado.
Depois de certificar-se de que tudo estava em ordem, disse
laconicamente:
— Abra a porta!
Viu o mesmo espetáculo repetir-se diante de seus olhos. Umas cem
crianças entre cinco e onze anos corriam aos gritos e empurrões.
Atraíram imediatamente as vespas assassinas e chegaram à porta do
edifício.
— Vá embora — disse Tamara, desligando o rádio.
Depois que a última criança havia entrado na escola, fechou a
porta de vidro. Guardou o paralisador e dirigiu-se ao gabinete do
diretor. Até a hora do recreio, seu serviço estaria encerrado ou, pelo
menos, mais facilitado. Tomou um lanche e iniciou sua ronda.
Caminhava lentamente, pensando em Cliff, que a nove setores de
distância dali andava à procura de um meio radical que permitisse
exterminar as vespas assassinas. Ouviu o som de vidro partido.
A reação de Tamara foi de uma rapidez incalculável. Localizou o
ruído; vinha do pavilhão de ginástica. Tirou o paralisador e saiu
correndo. Dentro de quinze segundos, abriu a porta do pavilhão,
fechou-a ruidosamente atrás de si e parou no interior do recinto.
Dezenas de crianças estavam assistindo a um jogo de beisebol. Uma
menina com um taco na mão olhava para cima.
Uma pequenina clarabóia, de uns cinqüenta por cinqüenta
centímetros, estava estilhaçada. A bola havia desaparecido.
O professor de ginástica correu ao encontro de Tamara, e esta
levantou a arma. Seria praticamente impossível comunicar-se em meio
ao ruído provocado pelas cordas vocais de cem crianças. O volume de
som fatalmente... E vieram!
Tamara puxou o gatilho e disse ao professor que retirasse as
crianças o quanto antes. Este compreendeu e berrou algumas ordens.
Tamara só movia a arma por alguns milímetros. O raio se
deslocava em meio à abertura e os insetos paralisados caíam ao solo,
no meio das crianças que gritavam desesperadamente. O professor
berrava, procurando fazer com que as crianças passassem mais
depressa pelo "gargalo", mas a demora parecia infinita. Tamara
apontava e atirava quase sem parar.
As vespas chlorion com suas estrias amarelas e prateadas caíam
lentamente. As crianças conheciam o perigo e desviavam-se. Não
olhavam para o caminho que tinham de percorrer, mas para o ar.
Algumas delas começaram a empurrar as outras, corriam e
tropeçavam. Choravam e voltavam a pôr-se de pé.
Uma delas esbarrou em cheio em Tamara. O raio invisível foi
desviado e três insetos conseguiram entrar. Tamara recuperou o
equilíbrio e tirou o segundo radiador. Seu dedo encontrou a trava e
empurrou-a. Os insetos que vinham atrás foram atingidos, mas o
zumbido de três vespas parecia encher o pavilhão como uma música
de órgão. Tamara ficou desesperada; olhou em torno e notou que
havia poucas crianças no pavilhão. Quase todas estavam correndo pela
porta. Um menino sardento de nariz achatado parou e levantou a mão.
A gigantesca luva de beisebol era maior que a cabeça dele.
— Eu a pego; pego mesmo! — disse.
Tamara não respondeu. Percebeu que não entravam mais vespas
pela abertura da clarabóia. Provavelmente os três insetos que
conseguiram penetrar se desorientaram face à confusão de vozes e não
conseguiram descobrir um objetivo definido. Fez pontaria, moveu o
cano da arma e atingiu uma vespa. As outras duas estavam zumbindo
atrás dela.
Tamara virou-se apavorada. Derrubou uma vespa a menos de vinte
centímetros de uma cabeça loura. Subitamente, ouviu uma voz que
falava a seu lado.
— Venha cá, sua vespa estúpida!
O último inseto levantou vôo bem à frente das últimas crianças e,
voando em ziguezague, tomou a direção de Tamara, que a seguia com
o cano do paralisador. Embora soubesse que conforme as
circunstâncias os efeitos dos raios podem ser mortais para uma
criança, não teria a menor dúvida em assumir esse risco.
— Peguei! — gritou o menino a plenos pulmões.
Tamara sentiu o coração falhar. O inseto foi parar bem no centro
da luva de beisebol, com o ferrão em riste. O menino dobrou a luva.
Ouviu-se um ruído desagradável. Tamara olhou para cima. Ouviu um
barulho vindo da porta. De repente, um silêncio total enchia o
pavilhão. A voz do professor parecia vir de longe.
— Acho que o perigo passou — disse. Tamara guardou um dos
radiadores e foi saindo, com a mão sobre a cabeça do menino. O
garoto fechou a porta e girou o botão-ferrolho. Tirou do bolso um
pedaço de giz e escreveu: Sala de ginástica fechada. Abertura no teto!
— Você é um menino valente — disse Tamara com a voz débil.
Seus joelhos tremiam. — Como é seu nome?
O pequeno respondeu com um orgulho evidente:
— Meu nome é Murmel.
Tamara estava exausta demais para pensar no ridículo do nome.
Caminhando pelo longo corredor, fazia votos de que Cliff não
demorasse em voltar com alguma solução para o problema. Embora os
insetos fossem destruídos ininterruptamente, pareciam brotar de fontes
misteriosas, pois nunca diminuíam. A mesma coisa passava-se em
todo o planeta. Com exceção das áreas muito frias ou úmidas, ou
daquelas em que não havia vegetação, acontecimentos como estes se
verificavam desde a Terra do Fogo ao Japão.
E as pessoas que defendiam a humanidade começavam a ficar
cansadas.
7

O TERCEIRO dia em Jackhammer.


O terceiro de vinte e quatro horas, durante os quais os sete terranos
não haviam feito outra coisa senão observar insetos. Observavam as
vespas do gênero chlorion ichneumoneum jackhammerii enquanto
voavam, descansavam, atacavam, e depois que estavam saciadas.
— É de enlouquecer, Cliff! — disse Arlene em voz baixa.
Encontravam-se deitados lado a lado numa grande coberta. Diante
deles, estavam montados aparelhos científicos cujo valor devia ser
enorme. Eram conjuntos de lentes, equipamentos de som e telas
amplificadoras. A grande objetiva de filtro azul com o tubo de
proteção puxado bem para a frente dirigia-se sobre uma das flores já
conhecidas.
— Tenho a impressão de que dentro em breve faremos uma
descoberta bastante vantajosa ou arrasadora — disse Cliff.
Arlene manteve-se em silêncio. Puxou os óculos por cima dos
olhos e fitou a pequena tela do aparelho reprodutor, que mostrava uma
vespa adulta, do tipo inofensivo, já que não havia sido submetida às
radiações. Passeava sobre uma trepadeira e parava junto a cada um
dos espinhos pontudos.
— Parece que esse animal está procurando alguma coisa.
Cliff observou a vespa. O animal parou, suas longas pernas
apalparam o tronco em torno do espinho e depois prosseguiu. Estava
com o ferrão encolhido. Finalmente o inseto chegou à extremidade
inferior da flor.
— Está transmitindo uma mensagem — disse Arlene.
À frente deles, encontrava-se um aparelho capaz de captar o som e
transformá-lo em figuras óticas. A freqüência das vozes de Cliff è
Arlene provocava ondulações longas na tela esverdeada, enquanto os
sinais da vespa eram registrados sob a forma de linhas angulosas e
curtas.
Um microfone direcional estava ajustado para a planta e as
adjacências da mesma. Cliff procurou descobrir um ritmo, mas a
seqüência dos sinais era completamente desordenada. Parecia que a
vespa procurava de forma mais ou menos aleatória resolver algum
problema...
Na tela, surgiu uma terceira linha, que apresentava uma série de
abaulamentos na parte superior. Era um ritmo conhecido: o dos passos
humanos.
Uma sombra caiu sobre a areia. Cliff deitou de lado e olhou para o
sol. Reconheceu o perfil de Helga Legrelle. A gola do uniforme de
serviço estava bem aberta; era meio-dia e fazia muito calor. No
interior da nave o equipamento de condicionamento de ar estava
funcionando.
— Helga! Veio para ajudar?
O rosto de Helga mostrava de forma inequívoca o que estava
pensando. Sentou ao lado de Cliff e tirou da manga da jaqueta uma
larga fita de plástico enrolada. O coronel logo viu que se tratava de
uma mensagem de rádio impressa pela máquina.
— De onde veio? — perguntou laconicamente e começou a
desenrolar a fita.
Embora Arlene e Helga se entendessem muito bem, parecia haver
uma ponta de ciúmes entre elas. Há muito tempo Helga estava
apaixonada de uma maneira estranha por Cliff. Sabia que uma ligação
entre eles seria absurda e impossível, mas desconfiava de qualquer
criatura do sexo feminino que se aproximasse de Cliff. Inclusive de
Tamara Jagellovsk.
— É de Terra. De Wamsler.
Cliff empurrou os óculos para a testa e começou a ler.
F.R.E.T. para McLane na Orion VIU por intermédio da Estação
Terrana do Espaço Exterior e retransmissor. Situação em Terra
continua desesperadora. Quantidade de vespas assassinas não se
reduziu. Até agora trinta mortos em diversas partes do planeta.
Equipes e inúmeros colaboradores lutam contra bilhões de insetos.
Comunicação falada impossível; até animais são atacados e mortos.
Prejuízo atinge milhões. Peço informar se jã foi descoberto algo, em
caso negativo queira intensificar buscas. O caso é urgente, McLane.
Ass. Wamsler. Fim.
Cliff leu o texto em voz baixa e fitou as duas moças.
— Estamos procurando há três dias. São três equipes que
trabalham em torno da nave e se deixam fritar ao sol. Não
encontramos nada. O que devemos fazer?
— Já não sei mais nada. Já martirizamos a cabeça de tanto refletir
— disse Arlene, dando de ombros.
Helga enxugou o suor da testa e levantou-se; Cliff ofereceu-lhe a
mão, e ela apoiou-se na mesma.
— Preferi não falar pelo rádio de pulso para não causar um
"desarranjo" nos aparelhos — disse.
Helga voltou à nave, deixando Cliff e Arlene para trás. As três
equipes trabalhavam em lugares diferentes. A Orion ficava
aproximadamente no centro de um triângulo isósceles. O disco
prateado dominava a paisagem, que consistia principalmente de areia
e pequenas rochas, de trepadeiras compridíssimas e camadas de
musgo, de manchas de juncos e feixes de capim tão consistente quanto
o couro. Geralmente uma névoa cobria o quadro; naquele momento, o
sol dardejava seus raios que nem na Austrália. A única vantagem até
então constatada era o moreno tostado que os sete participantes da
expedição haviam adquirido.
— Em que está pensando? — perguntou Arlene.
Continuava a fitar a tela. A vespa acabara de chegar à extremidade
superior da flor e examinava as pétalas.
— Estou pensando que a situação é um tanto grotesca. Um inseto
que aqui não costuma incomodar ninguém conseguiu transformar
Terra num planeta do silêncio. Arlene apontou para a tela. A vespa
passava rapidamente pelas hastes da flor e emitia uma série de sons
rápidos e agudos. O som estridente, que não podia ser captado pelo
ouvido humano, situava-se numa freqüência de 180 mil a 190 mil
vibrações. O aparelho estava ajustado para essa freqüência.
— Estes insetos são bem barulhentos. Se pudéssemos ouvi-los,
provavelmente nos convenceríamos de que é exatamente o contrário
do que você acaba de dizer. Terra transformou-se num planeta
dominado pelo ultra-som.
— Isso não nos ajuda em nada — ponderou Cliff.
Enquanto observavam as telas e procuravam buscar significado em
qualquer dos movimentos executados pelos insetos, suas mãos
descansavam uma sobre a outra. Ambos sabiam que tudo se resumiria
às viagens espaciais; depois do pouso em Terra, cada um seguiria seu
caminho.
Subitamente os movimentos da vespa tornaram-se inquietos.
Acabara de contornar a flor e equilibrava-se sobre quatro pernas na
extremidade da pétala superior. Parecia saciada com o que conseguira
capturar de pequenas larvas e borboletas encontradas no interior da
flor. Abriu as quatro asas translúcidas como se estivesse bêbeda,
executou alguns movimentos com a parte anterior do corpo e saiu
voando. Uma das articulações de seu corpo ficou presa à pétala, e o
vôo terminou numa queda.
O oscilógrafo passou a registrar linhas confusas e entrecortadas,
que corriam da esquerda para a direita. A vespa, que tombou durante o
vôo, teve as asas estraçalhadas por um espinho. Bateu na trepadeira de
casca áspera, tremeu em desespero e atirou o ferrão para a frente.
Ficou deitada de costas e os restos das asas estraçalhadas trabalhavam.
Executavam movimentos rápidos, que faziam a vespa girar como um
pião. Depois de algum tempo, ficou quieta; só as pernas tremiam. As
linhas projetadas na tela transformaram-se em retas horizontais.
— As vespas chlorion não são seres solitários; formam grupos. É
possível que as outras venham ajudá-la — disse Cliff sem muita
convicção.
Continuaram a esperar, imóveis. Mais alguns minutos se passaram.
O quadro ampliado projetado na tela era de uma nitidez fascinante.
A imagem tridimensional constituía uma reprodução impressionante
da realidade. Imóvel e deitada de costas, a vespa parecia concentrar
suas forças. Cliff não conseguia livrar-se da idéia de que refletia sobre
a maneira de sair da situação difícil em que se encontrava.
"A idéia não passa de tolice", pensou, "mas é bem possível que
agora entrem em atividade certos instintos que ajudem a encontrar
uma solução. A solução para o problema existencial dela, não para o
de Terra."
— Olhe o oscilógrafo! — disse Arlene.
O inseto curvou as pernas, segurou um pedaço da casca áspera e,
com três dos seus membros, puxou-se para um lado. Auxiliado pelo
ferrão, numa questão de segundos estava de pé sobre o tronco. Viam-
se perfeitamente as asas estraçalhadas.
— Será que se trata de sinais? — indagou McLane.
O inseto emitia um ultra-som de freqüência muito elevada. Uma
série de sinais desfilou pela tela. Esses sinais estavam separados por
traços horizontais. Desta vez, notava-se um ritmo perfeito. Rápido,
lento, rápido... eram sinais com uma seqüência impossível de ser
acompanhada. Ao que tudo indicava, a vespa pedia socorro.
— Existem duas possibilidades — afirmou Arlene.
— Quais são? — perguntou Cliff, arrastando-se sobre os cotovelos
para junto da tela visual.
— A série de sinais pode não ter qualquer significação para os
seres da mesma espécie, ou então tem por fim chamá-los. Pela força
dos traços você vê que a energia é relativamente elevada e o alcance
deve ser grande.
Cliff deu de ombros.
— E se aparecer um enxame de vespas? O que farão?
— Provavelmente ainda nesse caso haverá duas possibilidades.
Socorrerão a vespa incapaz de voar ou...
Arlene sorriu. Cliff fitou seus olhos.
— Ou...? — perguntou.
— Ou matam o indivíduo incapacitado.
Depois de algum tempo, os sinais cessaram, mas logo
prosseguiram. Mais uma vez, a tela encheu-se de linhas trêmulas, que
desapareceram dentro de meio segundo. Tratava-se de um ultra-som
que atingia até cento e noventa mil vibrações por segundo.
— Estão chegando! — avisou Cliff.
O zumbido característico dos insetos encheu o ar. Dez vespas
aproximaram-se. Formaram um círculo em torno da "colega" ferida e
estenderam as antenas vibrantes. A tela não captava todas as vespas, e
Cliff reduziu a ampliação. Conseguiu ver todos os insetos, mas a
imagem tornou-se menos nítida.
— Estão trocando mensagens. Trata-se de informações, do
relatório do acidente — constatou Arlene no tom seco de cientista.
As dez vespas, que Cliff contara, "apalparam" os restos da asa da
chlorion ferida e tocaram os anéis do corpo e das pernas.
Quatro delas levantaram vôo e pairaram em cima da trepadeira. As
seis restantes formaram dois grupos de três insetos e seguraram as
pernas longas da vespa ferida. O zumbido cresceu, tornou-se mais
intensivo, mais zangado. As seis vespas subiram ao ar, levando o ser
de sua espécie.
Foram desaparecendo. O zumbido cessou. A flor branco-
amarelada ficou solitária à luz do sol, cheia de larvas e borboletas
mortas.
— Sempre conseguimos ver alguma coisa! — disse Cliff.
— Sinto-me perplexa — comentou Arlene a meia voz. Com uma
expressão pensativa, contemplou as curvas produzidas por suas
palavras. — Nunca acreditaria que isso fosse possível. Conheço os
inúmeros padrões de conduta dos exemplares terranos, mas nem
mesmo nos livros mais avançados li qualquer coisa sobre a expedição
de uma mensagem de socorro cuja resposta consiste no envio de um
comando.
Olharam-se. Cliff espalmou as mãos, num gesto de perplexidade.
Rolou até ficar deitado de costas e levantou-se com um movimento
rápido. Suava por todo o corpo.
— Desisto! — disse em tom abalado.
— Um astronauta que bate em retirada? — perguntou Ar Iene.
Não havia a menor ironia em sua voz. — Não acredito que tenha de
assistir a uma coisa dessas.
Encostou-se ao seu corpo...
Cliff sabia que possivelmente as lentes da nave estavam dirigidas
sobre eles, pois Helga era uma vigilante incorruptível, que se
preocupava com todas as equipes. Mas isso pouco lhe importava.
Sentia-se esgotado, sem forças. Haviam tentado tudo quanto era
possível; e não encontraram nada que pudesse ajudá-los a remover o
perigo que ameaçava Terra.
— Deixemos isto aqui mesmo e vamos até a nave — disse,
soltando os ombros de Arlene e levantando-se num gesto resoluto. —
É possível que o ambiente refrigerado ajude. Uma xícara de café
também não faz mal a ninguém.
— Sinto a necessidade de me colocar embaixo do chuveiro —
disse a moça. — Vamos andando.
Caminharam em direção à nave pela trilha pisada que passava pelo
grupo de rochas, junto às raízes da trepadeira e à coberta sobre a qual
se encontravam as telas e os instrumentos óticos. Atingiram o
elevador, que estava aberto. No momento em que pretendiam entrar, a
voz de Charger os chamou.
— Encontraram alguma coisa?
Cliff encostou-se ao metal que ficava na sombra da nave e por isso
não estava muito aquecido e respondeu.
— Não; e vocês?
Charger e Hasso vinham do lado oposto e entraram no elevador.
— Nada, além de algumas vespas que até chegam a ser um insulto
de tão normais que são... E um calor daqueles!
Charger passou as mãos pela testa e cocou a cabeça um tanto
calva. Os quatro fitaram-se.
— Dá vontade de chorar. Não sabemos mais o que fazer. Não
sabemos mesmo, comandante!
— Não gosto de confessar isto, mas o fato é que até eu fracassei —
disse Cliff no momento em que o elevador parou. — Já posso
imaginar o rosto de meu amigo Wamsler. E o pior é que estará com a
razão quando começar a esbravejar.
— Não se preocupe, coronel — disse Arlene em tom
tranqüilizador. — Isso não depende do senhor nem de nós, mas das
circunstâncias.
Subiram à sala de comando sem dizer uma palavra.
Atan e Mario já se encontravam presentes, e Helga estava
executando as funções de cozinheira de bordo. Cliff atirou-se na
poltrona do piloto, levantou as pernas e ouviu Arlene relatar as
observações que haviam feito.
— ...por causa de uma única vespa ferida vieram dez outras que
ouviram os sinais emitidos pela mesma e a carregaram.
Ouviram-se alguns murmúrios de espanto. Cliff agradeceu com um
gesto e tirou o copo e a xícara que se encontravam na bandeja que
Helga lhe estendia em silêncio. Sorveu a bebida alcoólica. Nem se deu
conta de que estava bebendo Archer's Tears. Depois tomou o café
quente e adoçado.
— ...por causa de uma vespa ferida vieram dez outras...
Dez outras... dez!
Cliff colocou a xícara cautelosamente sobre a tela central que
retratava a imagem da natureza e recostou-se na poltrona. Respirou
profundamente por três vezes e um sorriso largo espalhou-se por seu
rosto.
— Charger! — disse em voz alta.
O entomólogo barbudo colocou os óculos e virou-se abruptamente;
parecia assustado.
— O que houve? — perguntou. — Será que alguém disse algo que
não deveria ter dito?
— Absolutamente — respondeu Cliff. — Apenas tive uma idéia.
Pode parecer absurda e fantástica, mas acho que vai funcionar. Ainda
penso que os astronautas não são de se desprezar.
— Principalmente certos exemplares. Conte logo comandante —
disse Arlene.
Cliff sacudiu a cabeça.
— Não. Ouçam. Vou fazer algumas perguntas aos cientistas que se
encontram a bordo. Hasso e Mario, seria possível construir um
aparelho capaz de registrar ondas sonoras de 190 mil hertz, ou adaptar
para esse fim um dos aparelhos existentes? A gravação deve ser muito
exata.
Mario não hesitou em dar resposta afirmativa.
— Basta pegar um dos nossos gravadores e colocar outro conjunto
receptor. Os microfones direcionais não nos faltam; além de tudo,
encontram-se entre o equipamento de nossos amigos.
Apontou para Charger, que confirmou com um gesto vigoroso.
— Pretende gravar os sinais emitidos pelos insetos, coronel? —
perguntou Charger, e mordeu os lábios.
Mais uma vez, Cliff sorriu e sacudiu a cabeça.
— Não é isso.
— Ora essa! — disse Charger num tom que quase chegava a ser de
admiração. — O senhor realmente sabe revestir as coisas mais simples
de uma dramaticidade que as transforma em peças de teatro. Quais são
suas intenções?
Cliff dirigiu-se a Mario.
— Ainda seria possível irradiar a mesma freqüência por um dos
nossos transmissores?
— Seria perfeitamente possível — disse Mario, piscando para
Hasso. — Basta montar as peças de um transmissor de emergência.
Este transmissor destina-se às duas Lancets. Com isso, poderemos
captar os sinais e retransmiti-los com uma potência maior.
Arlene soltou uma gargalhada.
— O senhor custa a entender, Charger — disse em voz alta. —
Cliff... Cliff McLane pretende gravar os sinais emitidos por uma vespa
ferida, a fim de atrair as outras. Já imaginou o que poderá acontecer
quando esta nave expedir o mesmo sinal como se fosse uma vespa
superdimensionada?
Charger já havia compreendido no momento em que Arlene
começara a falar. Também sorriu e bateu com o punho no bíceps de
Mario de Monti; tratava-se de um gesto de camaradagem.
— Todas as chlorion ichneumoneum do planeta Jackhammer vão
se reunir aqui para tentar levar-nos a um dos seus ninhos. Um viva
para o comandante McLane!
Cliff retificou em tom seco:
— Basta dizer comandante.
Voltou a ser o velho Cliff McLane, que sua tripulação conhecia
desde os dias das grandes missões já cumpridas. Era frio e tinha um
raciocínio rápido e preciso. Transmitiu uma série de instruções.
— Antes de tudo, vamos tomar mais uma em homenagem à idéia.
Depois disso Mario e Hasso começarão a construir um gravador
portátil. Arlene e Charger sairão para trazer os instrumentos e pegar
algumas vespas. Helga tirará a louça, e Atan e eu iremos buscar os
equipamentos dos outros dois grupos. Combinado?
— Trabalharemos em tempo recorde — asseveraram Mario e
Hasso.
— E nós correremos a toda, comandante — concluiu Charger.
Arlene lançou mais um olhar impregnado de respeito e de
admiração infinita para Cliff e desceu pelo elevador em companhia de
Charger.
Subitamente viram a situação de forma mais otimista.
***
Num recipiente aberto, uma vespa estava deitada de costas. Um
bastão de vidro fino e comprido, que se encontrava numa das mãos de
Arlene, comprimia o inseto cautelosamente contra o chão. O
microfone direcional do gravador estava preso a um suporte e
apontava para o grande cubo de material transparente, no qual havia
minúsculos buracos. O gravador encontrava-se sobre uma mesa
pequena, e um cabo fino e branco vinha da nave.
— Tudo preparado?
Cliff McLane estava de pé junto a Arlene e olhou para dentro do
recipiente. O inseto movia lentamente as pernas e expeliu o ferrão
trêmulo. Mario colocou o dedo sobre a tecla de entrada do gravador.
— Acho que podemos começar — murmurou. Sua voz projetou
curvas sobre o oscilógrafo.
— Façam o favor — disse Cliff. Arlene levantou o bastão de vidro
e procurou virar o inseto. A vespa tentou agarrar-se ao mesmo, mas
suas pernas escorregaram. Arlene empurrou a extremidade do bastão
para baixo do corpo da vespa e deu-lhe uma ligeira pancada; o inseto
girou no ar e pôs-se de pé. Moveu-se lentamente e brincou com as
antenas. O bastão foi retirado do recipiente e os participantes da
operação recuaram alguns metros.
— Ainda tenho de acostumar-me à idéia de que as vespas deste
planeta só costumam picar quando alguém as irrita.
Cliff fez um gesto afirmativo. As asas, que Charger havia separado
com o escalpelo, só tinham um centímetro. O inseto não poderia voar
mais.
— É agora! — gritou Helga. — Está emitindo sinais!
Mario tirou o dedo de cima da tecla. Demorou cerca de dois
minutos até que a vespa suspendesse os "gritos" de socorro.
— Agora só resta esperar — disse Charger.
Logo ouviram o zumbido de algumas vespas vindas da mesma
direção da qual viera a coluna de socorro de três horas antes. Dentro
de poucos segundos, as vespas passaram a esvoaçar em torno do
recipiente. O fato de encontrarem um objeto não pertencente à
paisagem parecia irritá-las. Helga cochichou:
— Como será que as vespas emitem o ultra-som?
Charger falou tão próximo ao seu ouvido que lhe fazia cócegas:
— Passam as pernas por uma lâmina de córnea dotada de
saliências. É como se uma serra fosse arrastada por cima de uma peça
de metal flexível. O processo é tão rápido que via de regra nem se vê o
movimento.
Helga enfiou um dedo no ouvido.
— Compreendi — disse. — Muito obrigada.
Neste meio tempo, os insetos já haviam "apalpado" os objetos.
Mais uma vez, dez dos insetos levantaram vôo e descreveram círculos
em torno da abertura do recipiente. As seis restantes subiram como se
fossem uma formação de helicópteros em miniatura e carregaram a
vespa incapacitada. O cortejo desapareceu ao longe.
— É incrível! — disse Hasso, desligando o gravador. — Leve isso
até a nave.
O cabo já havia sido colocado.
— E nós colocaremos o emissor aqui — disse Atan, que correu
para a nave juntamente com Mario.
Dali a pouco, os dois voltaram com o emissor montado ali mesmo.
Outro cabo foi colocado e os contatos foram completados às pressas.
— Você e eu retiraremos o material, Arlene — disse Charger.
Dali a quinze minutos o transmissor, protegido por um balão de
plástico cheio de ar pressurizado, encontrava-se junto à nave. O
material translúcido do balão permitia reconhecer os contornos do
aparelho. O controle de som e os cabos condutores de energia
desapareciam no interior da nave. Estavam ligados a um contato
especial colocado junto à comporta do elevador central. Os sete
terranos achavam-se reunidos na sala de comando, onde haviam
ligado todas as telas e sistemas que mostravam a imagem das
adjacências.
— Deixe correr a fita.
— Psiu! — fez Atan e soltou uma risadinha.
A mais atípica das mensagens radiofônicas jamais transmitida pelo
emissor de uma nave saiu da antena. Era inaudível, mas os
instrumentos a tornavam visível. A transmissão durou dois minutos.
Helga Legrelle fez retroceder a fita com uma velocidade tremenda e
mais uma vez reproduziu o pedido de socorro da vespa ferida. Dali a
quinhentos segundos:
— Meu Deus! — disse Arlene fora de si. — Não é possível!
As vespas vinham de todos os lados. Aproximavam-se às centenas,
aos milhares, sempre em grupos de dez. Voavam baixo e encontraram
a fonte que emitia o som. Batiam contra o balão de plástico e ficavam
penduradas que nem as uvas num cacho.
— São dezenas de milhares — disse Charger.
Entre a nave e o emissor, uma multidão de vespas ondulava de um
lado para o outro. Os animais formavam vários desenhos. Eram véus,
nuvens e faixas, que se mantinham num movimento constante. Em
torno do balão, que já não podia ser visto, reuniu-se uma gigantesca
esfera feita de insetos. E outros continuavam a chegar, vindos de todas
as direções. Lá fora o zumbido dos insetos, que se reforçava
mutuamente, devia ter atingido uma intensidade capaz de derrubar um
homem.
— Aí está a prova — disse Charger, atravessou a sala de comando
e parou à frente de Cliff. Estendeu-lhe a mão. — Comandante, meus
parabéns! O senhor teve classe.
— Faço votos de que depois de concluída a operação o senhor e
todos nós tenhamos motivo para felicitar-nos. Ainda não terminamos.
Cliff fez um gesto ligeiro. Helga levantou a mão.
— Quer que entre em contato com as F.R.E.T.?
Cliff exibiu o sorriso mais encantador que guardara na memória.
— Helga, minha filha — disse em tom cativante — se você tiver
um pouquinho de amor por mim, mesmo que seja apenas um amor
fraternal, faça o favor de conseguir uma comunicação audiovisual com
Wamsler através das diversas estações retransmissoras. Está certo?
— Farei o possível — disse Helga e começou a manipular suas
teclas e chaves.
Dali a quinze minutos, a comunicação foi completada. Cliff estava
sentado na poltrona, e atrás dele os tripulantes e os dois cientistas
mantinham-se de pé. O rosto de Wamsler surgiu numa tela retangular
que ficava bem à frente de Cliff. A enorme distância e o fato de que a
mensagem foi transmitida pelo hiper-rádio espacial distorceram a
imagem e fizeram com que o som não fosse perfeito.
— Aqui fala McLane — disse Cliff. — Pode falar sem ser
"espetado"?
Wamsler reagiu com um atraso adequado de dois segundos,
provocado pelas diversas retransmissões efetuadas pelos satélites.
— Posso — disse. — Espero que tenha uma notícia positiva.
— Tenho — respondeu Cliff. — Decolarei assim que concluirmos
nossa palestra. Tenho de pedir-lhe que cumpra meus desejos sem
discutir. Precisamos de uma porção de coisas.
— O registro está funcionando — disse Wamsler. — Pode falar.
Realmente conseguiu alguma coisa?
— Nós conseguimos, marechal, mas é possível que no último
instante algo não dê certo. Pelos meus cálculos as chances são de
noventa e cinco por cento.
— Isso é suficiente — disse Wamsler. — De que precisa?
Cliff começou sua enumeração.
— Antes de mais nada, preciso de oitenta comandantes de elite
com oitenta naves modernas. Convoque-os. Dentro de oito dias
deverão estar prontos para decolar. Ainda preciso de cento e sessenta
emissores do tipo Lancet, que estejam em condições de irradiar numa
freqüência de 190 mil hertz.
— Repito — disse Wamsler. — Um, nove, zero, ponto, zero, zero,
zero.
— Esses emissores devem ser colocados em áreas abandonadas,
em praias ou outros pontos onde não haja nada que possa ser
destruído. Escolha oito áreas desertas situadas no interior ou nas
imediações de cada parque natural para cada grupo de quatro naves.
Todos os emissores devem ser supridos diretamente a partir da EA IV.
Certamente serão destruídos no curso da operação. Além disso, arranje
uma boa dose de presteza.
Wamsler sacudiu a cabeça, perplexo; parecia esgotado.
— Precisa de mais alguma coisa? — perguntou em voz alta.
Os alto-falantes, forçados em excesso, começaram a tinir.
— Não. Asseguro-lhe que não se trata de brincadeira; realmente
precisamos de tudo isso. Assim que pousar, comparecerei à sua
presença juntamente com o material coletado.
A comunicação foi interrompida. Cliff virou-se e deparou-se com
o sorriso suave de Hasso Sigbjörnson.
— Comandante para todos os postos — disse Cliff. —
Aguardaremos até que os insetos se afastem e depois decolaremos.
Combinado?
"Não houve qualquer objeção. Por que será que Cliff aludiu a uma
chance de noventa e cinco por cento?", pensou Arlene. Logo se
lembrou, mas concluiu que esse ponto não representava uma
dificuldade insuperável.
Dali a cinqüenta minutos, a Orion VIII estava correndo pelo
espaço, em direção a Terra, o planeta silencioso.
8

SIR Arthur passou a mão pelo cabelo grisalho e disse, depois de


olhar cautelosamente em torno:
— Ficamos-lhe muito gratos, comandante. Quando poderá decolar
de novo?
Cliff viu os rostos cansados dos tripulantes, olhou ligeiramente
para Arlene e Charger, e respondeu:
— Dentro de uma hora, desde que tenha sido providenciado tudo
que solicitamos.
Kublai-Krim levantou-se, contornou a mesa de reuniões e ligou
uma tela visual.
Nela, surgiu uma imagem de dois metros por quatro do planeta
Terra em projeção Mercator. Os lugares em que ficavam os parques
naturais recém-inaugurados estavam assinalados em verde.
— São vinte parques — disse Kublai-Krim. — Quatro naves do
modelo mais recente estão esperando há duas horas em cada um
desses parques.
Charger levantou a mão.
— Poderia fazer o favor de ligar a ampliação da Austrália? —
perguntou em voz baixa.
Kublai-Krim concordou com um gesto. Subitamente as pessoas
reunidas na sala viram a paisagem do continente. De Groote Eylandt
até o extremo sul estava reproduzido cada rio, cada montanha. A
imagem baseava-se numa série fotográfica e correspondia à situação
mais recente. As plantas estavam trancadas nos cofres secretos do
governo terrano. Os espaços marrons ou amarelos da paisagem iam
sendo conquistados lenta mas seguramente pelo verde. No centro do
quadro, ficava o Parque de Camooweal. Era uma área gigantesca,
quase perfeitamente quadrangular.
— Quais são as posições?
A Orion voara com a potência máxima das máquinas. Cliff
realizara os saltos de transição sem a menor demora. Felizmente
nenhuma máquina falhara. Hasso Sigbjörnson passara quase todo o
tempo de vôo na sala de máquinas, examinando os instrumentos a fim
de eliminar qualquer fonte de perigo assim que surgisse. Uma segunda
palestra radiofônica, mais detalhada, foi mantida logo que a nave se
aproximou de Terra, ou seja, quando penetrou no segundo setor de
distanciamento. Quatro pontos iluminaram-se no quadro.
— Aqui estão as naves, amigos — disse Kublai-Krim.
Ele, Sir Arthur e Wamsler demonstravam uma amabilidade
extraordinária, pois sabiam que precisavam de McLane mais do que
nunca. Além disso, até então havia conduzido toda a operação com
aprovação das autoridades e não infrigira qualquer norma. Além disso
ainda havia o medo de não dominar a praga das vespas. Outros pontos
iluminaram-se em cores diferentes. Charger levantou-se e foi até a
tela. Finalmente fez um gesto de concordância.
— As áreas vazias foram bem escolhidas — disse. — Aqui não
vive ninguém; só existem pântanos salgados e secos.
Helga fez a anotação num pequeno bloco. A nave pousara há meia
hora, e seus sete ocupantes foram recebidos na Base 104. Relataram
sobre a maneira pela qual tiveram conhecimento da possibilidade que
se oferecia e sobre o que pretendiam fazer nas próximas horas. Lydia
van Dyke, Wamsler e Kublai-Krim haviam feito um trabalho em
conjunto, preparando tudo aquilo que Cliff solicitara há oito dias.
— Charger, voe o mais depressa possível para o laboratório
situado no parque. Peça que alguém lhe dê uma máquina rápida. É
muito importante. E faça o favor de ficar sempre nas proximidades do
aparelho de rádio. Já sabe por quê.
— Compreendi — disse Charger. Colocou a mão sobre o ombro
de Arlene, murmurou:
— Faça um trabalho bem feito, minha filha! — cumprimentou
ligeiramente, e retirou-se.
— Não poderia dizer-nos o que pretende fazer? — perguntou
Wamsler.
Ao que parecia, não se arriscava a usar um tom mais áspero para
com Cliff. O que estava em jogo era muito importante, e o
comandante era o dono da idéia de salvação. Além disso, Wamsler
estava tão cansado que preferia não discutir.
— Não — disse Cliff. — Sabe perfeitamente que usarei outras
naves na tentativa de exterminar as vespas. A brincadeira ainda lhe
dará muito serviço, pois só poderei destruir os insetos capazes de voar;
e isso mesmo se a sorte nos favorecer.
— Faça o que quiser — disse Wamsler. — Mas não venha me
dizer que todo o trabalho foi em vão — concluiu Wamsler com
rispidez.
Cliff levantou-se e fez um gesto afirmativo.
— Empenharei toda minha capacidade — prometeu. — Vamos
decolar.
Wamsler conseguiu realizar uma atitude monumental. Apertou
cordialmente a mão de Cliff e bateu no ombro do mesmo com a pose
de tio rico e benevolente.
O último vôo começou. Cliff Allistair McLane, Helga Legrelle,
Arlene, Hasso Sigbjörnson — todos tentariam destruir as vespas por
meio de um conjunto de manipulações de controles bem dosadas com
ordens precisas e fixadas no tempo. Atravessaram a ante-sala sem que
qualquer inseto os atacasse. Ao que parecia, todas as galerias e
cavernas da Base 104 haviam sido vedadas.
O torvelinho começou a girar, e os enormes campos energéticos
abriram-se. A Orion VIII subiu verticalmente ao longo das paredes de
água verde-escura e, ao atingir a altura de cem metros acima do Golfo
de Carpentaria, tomou a direção norte. O disco foi correndo, cada vez
mais veloz, e o estouro provocado pela ruptura da barreira do som fez
com que as vidraças estremecessem nas ilhas e nas áreas litorâneas.
Alguns minutos depois: os tripulantes estavam sentados em seus
lugares. À frente do dispositivo de introdução de dados, uma poltrona
estava vazia, tal qual a do astro-navegador. Cliff não precisava desses
tripulantes. Hasso Sigbjörnson encontrava-se na câmara de mira.
"Primeira fase", pensou Cliff.
— Cavalheiros — disse em voz bem audível. — Aqui fala
McLane, comandante da Orion VIII. Já conhecem o objetivo final da
operação. Queremos destruir as vespas. Dentro de poucos minutos, o
comando preciso será enviado oportunamente, os cento e sessenta
emissores expedirão uma transmissão de ultra-som. Nos locais em que
foram instalados os emissores, um número enorme de vespas se
reunirá. Caberá aos senhores destruí-las. Overkill. Tentem não
danificar os emissores. As respectivas instalações estão assinaladas
por um balão amarelo que as envolve e protege. Caso seja necessário,
o emissor poderá ser destruído. Entendido? Solicito confirmação.
— Entendido... entendido...
Cliff acompanhou a contagem. Todas as unidades responderam.
A segunda fase teve início.
— Helga. Entre em contato com a EA IV. O funcionário de
plantão.
— Um instante. Pronto; o microfone está livre.
A operadora de rádio também ligou a tela. Arlene, que estava
sentada perto de Cliff, sentiu-se impressionada pelo nível de
cooperação. Acontece que subestimava os resultados de uma formação
prolongada resultante de muitas experiências conjuntas da tripulação.
— Aqui fala a Orion VIII, que chefia a operação — disse McLane
e cumprimentou seu interlocutor. — Logo após o presente contato
deixaremos correr uma fita. O conteúdo dessa fita deve ser transmitido
imediatamente para os emissores. Antes disso, estes deverão ser
ligados e regulados para o volume máximo. Está preparado?
Um sorriso ligeiro surgiu no rosto do homem, que usava fones e
microfone de laringe.
— Há muito tempo. Pode começar, coronel.
— A fita está correndo — anunciou Helga.
Cliff levantou a mão.
A aparelhagem de rádio da nave tangeu o grito de socorro de uma
vespa ferida do planeta Jackhammer para a EA IV. Dali os impulsos
foram irradiados instantaneamente para os cento e sessenta emissores.
Estes começaram a funcionar a plena potência, soltando uma
saraivada de "gritos de socorro" sobre as matas, sobre as savanas
queimadas pelo sol e as faixas negras situadas junto às massas
aquáticas.
Cliff estacionou a Orion junto à nave Fomalhaut. Embaixo dos
dois discos, o solo estava coberto de neblina, que começava a
dissolver-se. Nessa área uma vegetação de débeis gramíneas
alternava-se com um deserto cor de tijolo, onde se via perfeitamente o
balão que abrigava o emissor correspondente ao tipo Lancet. Ao lado
dele, encontrava-se a respectiva célula energética. Um receptor
especial mostrou às pessoas que aguardavam ansiosamente no interior
da Orion que os sinais estavam sendo irradiados perfeitamente, sem a
menor distorção. Eram cinco horas da manhã na Austrália Central.
Arlene olhou para o relógio de bordo.
— As primeiras vespas já deviam aparecer — disse. — Já
esperamos bastante.
Cliff olhou primeiro para ela, depois para Hasso, que se
encontrava de sobreaviso na câmara do Overkill, visando toda a área
em torno do balão. Os projetores situados embaixo da nave apontavam
para o terreno.
— Parece que as vespas não querem aparecer — disse Hasso em
tom tranqüilo. — Será que houve algum erro de transmissão?
— Não. Conferi tudo. Para fins de controle mandei rodar uma
duplicata da fita. Os emissores ali embaixo irradiaram exatamente
aquilo que gravamos em Jackhammer — disse Helga em voz alta.
— Estamos chamando a Orion. Onde estão as vespas, coronel?
Uma vez que as comunicações entre um total de oitenta e uma
naves permaneciam intactas, várias vozes começaram a falar no
mesmo canal.
— Silêncio! — gritou alguém.
— A transmissão dos sinais foi perfeita. Onde estão as chlorion?
— Alô, coronel McLane. Queira responder. Estamos esperando.
— Que porcaria!
Cliff olhou para Arlene e deu de ombros. Quinze minutos já se
haviam passado desde que foram irradiados os primeiros sinais, e a
essa hora milhões de vespas gigantes deviam estar esvoaçando em
torno dos emissores. McLane respirou profundamente, pegou o
microfone e disse em voz alta:
— Aqui fala a Orion VIII. Foi uma pane. Peço que continuem a
esperar. Dentro de alguns minutos, terei aquilo de que precisamos.
— Precisamos de vespas!
— E de um pouco de paciência — disse Cliff. — Peço-lhes que
não usem seus transmissores até que eu volte a chamar. Isto é muito
importante.
Cliff girou a poltrona.
— Rápido, Helga. Faça uma ligação com o laboratório do Parque
de Camooweal. Quero falar com Charger.
Helga sacudiu a cabeça e perguntou:
— Antes de mais nada, quero saber por que a operação falhou até
aqui. Você permanece calado e quer que nós adivinhemos o que se
passa no seu juízo incrivelmente sofisticado. Fale logo!
Cliff tamborilou com os dedos sobre a tela.
— Pois não! — disse.
Pegou a alavanca de pilotagem manual. A Orion deu um salto e
disparou para o norte. Cliff aumentou a velocidade e a altitude.
Mantinha os olhos presos na paisagem sobrevoada. Foram penetrando
no Parque de Camooweal e viram as raríssimas ruas largas, as
coberturas abobadadas do túnel onde corriam os trens expressos e os
largos caminhos cobertos de areia. Tudo isso deslizava
vertiginosamente embaixo da nave.
— É a probabilidade de cinco por cento a que aludi. Captamos
bem direitinho a mensagem de uma vespa ferida e fizemos uma
reprodução impecável da mesma. O que pretendíamos fazer
funcionou...
— ...mas em Jackhammer! — opôs Helga.
— Dali se conclui — prosseguiu Arlene em tom sério — que as
ondas sonoras das vespas que se encontram em Terra e que passaram
por um processo de mutação não são as mesmas. Todavia, não há
dúvida de que ainda assim conseguiremos destruí-las.
— Será que Charger poderá ajudar-nos? — perguntou Helga com
um sorriso.
— Isso mesmo — disse Arlene. — Seu amigo tentará. Talvez até
já captou o pedido de socorro de uma vespa terrana submetida ao
processo de mutação e o gravou em fita. É para lá que estamos
voando.
— E com isso voamos em direção à chance que será com toda
certeza a última — concluiu Cliff.
Helga completou a ligação. Quem respondeu ao chamado foi
Chan.
— Coronel McLane — disse com um gesto de cumprimento. —
Estou falando na qualidade de substituto de meu companheiro
Charger, que deverá regressar a qualquer momento. Já ouvimos falar
no fracasso, inclusive por via oficial, ou seja, através da freqüência da
frota.
Cliff fez um gesto para o homem que aparecia na tela.
— O raio vetor dezessete corresponde ao que pedimos?
— Corresponde. Pousem junto aos laboratórios. Estamos cercados
de vespas. Aguarde a chegada de um homem em traje protetor. Ou
então saiam nos seus trajes espaciais.
Cliff correu velozmente, seguindo o raio vetor em direção aos
laboratórios, sem desviar-se um metro sequer de sua rota direta.
Olhando de lado para o indicador de distância acoplado com um
registro de energia de transmissão, percebeu que se encontravam nas
imediações da estação situada na mata. Os alto-falantes emitiram um
estalido.
— Ei, Cliff! Consegui.
Charger surgiu na tela, atrás de Chan. Abanava uma fita cassete e
sorria.
— Logo após o pouso saí por aí e repeti o mesmo processo
realizado em Jackhammer. Os resultados estão aqui. Posso garantir
que por duas vezes veio um grupo de vinte vespas para salvar um
exemplar. E isso dentro de quatro minutos.
Cliff sentiu uma tremenda carga de medo e responsabilidade.
— Pousarei dentro de dez segundos — disse, aproximando a nave-
disco dos edifícios.
Viu o heliporto e parou a Orion. A sombra projetada pelo disco
estava imóvel, um pouco adiante da nave. A placa de apoio do
elevador central tocaria o solo na periferia do campo de pouso.
— Mande um homem num traje protetor — ordenou Cliff. Hasso
respondeu pelo alto-falante e apareceu na tela. Sua voz parecia rouca e
cansada.
— Estou sofrendo um ataque de claustrofobia na solidão desta
cabine de mira — disse.
Cliff sorriu e levantou-se. Os cintos ficaram pendurados de cada
lado da poltrona.
— Daqui a quinze minutos, você terá mais uma oportunidade de
dar prova de sua capacidade, caro Hasso. Procure dormir um pouco.
Hasso riu, e Cliff pegou o pequeno elevador e saiu da sala de
comando. Passou velozmente pelo corredor circular e tomou o
elevador central. Acionou o botão. A escada hidráulica aproximou-se
devagar da superfície e apoiou-se na mesma. Comprimiu
simultaneamente o botão abre e o botão fecha. A escotilha da
comporta abriu-se ligeiramente, permaneceu um instante na mesma
posição e voltou a fechar-se.
Cliff vira o suficiente. Do edifício vinha correndo um homem com
a estranha jaqueta refrigerada e uma máscara de tela de arame em
torno da cabeça. Segurava a preciosa fita e corria diretamente para o
elevador. Algumas vespas esvoaçaram em torno de sua cabeça.
McLane procurou avaliar o tempo do percurso e comprimiu o botão.
A escotilha da comporta abriu-se lentamente. O mensageiro
encontrava-se bem à frente da mesma. Cliff estendeu a mão e pôs um
dos dedos da outra nos lábios. Segurou a fita com o pedido de
"socorro" de uma vespa assassina terrana. O homem recuou alguns
passos, sempre rodeado pelas vespas. Respirava com dificuldade.
Quando a abertura da porta só era de cinqüenta centímetros, Cliff
disse em voz alta:
— Obrigado, companheiro.
As vespas precipitaram-se imediatamente em sua direção. Quando
o elevador já havia entrado em movimento, Cliff ouviu o som
produzido por oito ou nove insetos que batiam contra o metal.
— Muito bem! — disse Cliff. — Vamos à segunda batalha.
Chegou à sala de comando e deixou-se cair pesadamente no
molejo da poltrona.
— Vamos voltar para o limite sul do Parque de Camooweal —
disse e segurou a alavanca de comando.
Durante o vôo, Cliff transmitiu os impulsos do segundo volume
para a EA IV. A moça de plantão na salinha escura da estação voltou a
ativar os 160 emissores e deixou correr ininterruptamente a fita. Em
vinte regiões e em 160 posições situadas nessas áreas, partes das quais
se localizava no interior dos parques naturais, os emissores Lancet
retransmitiam os impulsos. O ultra-som espalhou-se. As vibrações de
ondas extremamente curtas, emitidas numa potência bastante elevada,
espalhavam-se cada vez mais.
As respectivas áreas de influência, delimitadas num mapa,
formavam círculos geometricamente perfeitos. Os círculos
sobrepunham-se, para que todos os insetos fossem atingidos pelas
vibrações. Praticamente todas as vespas que possuíam a capacidade de
voar captaram o pedido de socorro de uma "irmã" ferida. Os instintos
e padrões de conduta gravados num condicionamento milenar, e que já
formavam parte da conduta inconsciente delas, começaram a entrar
em ação. As vespas puseram-se a caminho da fonte de ultra-som mais
próxima, a fim de socorrer o ser de sua espécie.
Formavam grupos de dez. Muitos grupos. Centenas, milhares,
milhões de vespas saíram voando. Abandonaram suas vítimas,
retiraram-se das áreas produtoras de sons e saíram em disparada.
Percorriam mais de cento e cinqüenta quilômetros por hora e seguiam
pela rota mais curta.
Concentraram-se em cento e sessenta pontos. Sempre em torno dos
balões amarelos. Vinte minutos depois de emitido o primeiro sinal, as
vespas chlorion continuavam a chegar de todas as direções. As duas
naves, a Orion VIII e a Fomalhaut, esperavam. Agora tinham tempo.
Tempo de sobra para ver como os milhões de insetos cobriam a
superfície do balão amarelo. Os "pedidos de socorro" continuavam a
ser emitidos. E um número cada vez maior de vespas aproximava-se
dos balões. Os insetos ficaram extremamente nervosos, pois não
encontravam nada. Voavam de um lado para o outro, subiam e
desciam nesse trecho do deserto salgado entrecortado em fendas e
blocos. O sol transformava o sal e a pedra arenosa em pedregulho
abrasador.
Os movimentos de um número imenso de insetos passaram a
coordenar-se. Formaram uma espécie de mangueira que começou a
girar como um pé-de-vento. A parte mais larga ficava embaixo, dois
metros acima do solo. A "mangueira", cujo diâmetro diminuía à
medida que aumentava a altitude, balançava de um lado para outro e
circulava lentamente em torno do balão, ou melhor, do lugar em que
ficava o mesmo, pois era impossível vê-lo.
— Estou chamando o comandante da Fomalhaut — disse Cliff. —
Vamos decolar. Destruiremos os insetos que se encontram no ar. O
senhor se encarregará de destruir os que escaparem à nossa ação.
Peço-lhe que poupe o transmissor e, principalmente, nossa nave.
Cliff olhou para Hasso e fez um sinal resoluto com a cabeça.
Hasso deu o sinal de entendido.
— Aqui comando de operações da nave Orion — disse Cliff,
falando com a boca próxima do microfone. — Vamos começar.
Conforme devem ter notado, existem insetos de sobra. Peço-lhe que
destrua apenas os animais que se encontram no ar. Ainda precisaremos
do emissor.
O tempo de silêncio dos rádios havia chegado ao fim. Os
comandantes das naves comentavam sobre as impressões que surgiam
diante deles. Todas as naves-disco, que operavam na escuridão, viam
os insetos nas telas infravermelhas.
— São massas fantásticas!
— Devem ser milhões.
— E outros insetos continuam a chegar de todas as direções, em
quantidades surpreendentes!
— Vamos partir para o ataque!
— Cuidado! Não tenha tanta pressa. Cliff sorriu. A Orion saiu
devagar, subiu a trezentos metros e deslocou-se para o sul. Na
gigantesca tela central, Cliff viu os turbilhões de insetos que se
agitavam abaixo da nave. Era um quadro que dificilmente poderia ser
mais ameaçador.
— Hasso!
— Tudo preparado, Cliff.
— Acione o Overkill!
Hasso fez pontaria e ligou o projetor por três segundos. Um campo
esférico de raios destruidores dirigiu-se ao solo e destruiu vários
milhões de insetos. A intensidade era tremenda: uma cratera de
duzentos metros de profundidade surgiu no terreno ressequido. O
balão encontrava-se a trezentos metros da borda da cratera.
— Acertou em cheio, Orion! — gritou o comandante da outra
nave.
Os enxames e os indivíduos isolados continuavam a chegar de
todas as direções. Os insetos atingidos pelo raio esférico do Overkill
simplesmente desapareceram.
— Hasso, a aproximação seguinte será realizada próximo ao solo,
com o eixo horizontal inclinado — disse Cliff.
— Não — objetou o engenheiro da nave. — Desta vez, a boa idéia
é minha. Faça 0 favor de manter a posição atual, que é a mais.
favorável.
— Está certo, Hasso.
A outra nave-disco prateada entrou em movimento. O comandante
optou pela posição sugerida por Cliff. Colocou a nave quase em
posição vertical e disparou o raio do Overkill quase na horizontal. O
artilheiro era um mestre na sua arte. Atingiu insetos que se
encontravam a apenas vinte metros do balão. A nave descreveu uma
curva fechada, deslocando-se muito devagar e "limpou" as áreas
adjacentes do balão amarelo.
— Excelente! — comentou Cliff.
Em poucos segundos, milhões de vespas foram destruídas nesse
local. Eram muito mais que aquelas que os funcionários do parque, os
inúmeros particulares e os funcionários do SSG conseguiram aniquilar
no espaço de vários dias.
— Atenção. Comando da operação Orion dirigindo-se a todos! —
disse Cliff.
O murmúrio das conversas, transmitido pelos alto-falantes, cessou
repentinamente.
— Aqui fala McLane — disse Cliff. — Temos um total de oitenta
e uma naves.
Cada nave terá de encarregar-se de dois transmissores. Peço-lhes
que se dirijam ao segundo dos lugares que lhes foram designados.
Façam o possível para não deixar escapar um único inseto. Desligo e
passo a dedicar-me às minhas tarefas. Felicidades para todos nós!
— Entendido. Obrigado — foram repetindo os comandantes.
— Estou chamando a Fomalhaut — disse Cliff.
— Pronto!
— Ocuparei a segunda posição, que caberia aos senhores. Ficarei
por lá enquanto os insetos continuarem a chegar. Se tiver alguma
dúvida, não hesite em chamar-me pelo canal sessenta e um.
— Entendido, coronel McLane. Fim da mensagem.
Em cento e sessenta pontos diferentes, espalhados pelas zonas
temperadas e pela área equatorial do planeta, desenvolvia-se uma luta
quase totalmente silenciosa. Havia apenas o terrível zumbido que
assinalara o começo da batalha, e que se tornava cada vez mais débil.
Dali a algumas horas, só havia uma única vespa, cujas asas haviam
sido estraçalhadas pelos ferrões das companheiras, em meio à
confusão que se formara em torno dos balões.
Zumbia e esfregava as pernas contra o tronco.
Emitia mensagens em vibrações ultra-rápidas. Mas não havia mais
nenhuma vespa que pudesse levá-la à proteção do ninho.
***
Caminhou com os pés descalços sobre o grosso tapete branco. Ao
chegar à porta, refletiu ligeiramente. Abriu. Sorriu para Cliff McLane
que, segurando uma embalagem elegante, encontrava-se à frente da
porta.
— Suponho que Arlene e você tenham trocado o último beijo de
despedida à sombra da Orion VIII, depois que esta pousou. Será que
estou enganada?
Cliff entrou.
— Quer dizer que você sabe? — perguntou, embora devesse ter
adivinhado.
Tamara deixou que ele a beijasse na face.
— Afinal, trabalho no SSG. Ou você acha que sou funcionária do
Ministério do Florestamento? — perguntou Tamara em tom agressivo
e fechou a porta.
Cliff entrou na sala impregnada de um agradável frescor e tomada
pelos sons de "Asas Mortais" de um compositor moderno. Estava
escuro, mas nenhuma das luzes da sala fora acesa.
— É claro que você trabalha para o Serviço de Segurança Galático.
Antes que me expulse de vez de sua residência, queria entregar-lhe um
presentinho.
Cliff foi sentando na poltrona vazia. Tamara parou à sua frente.
Sorria.
— Está com a consciência pesada? — perguntou.
Um sorriso embaraçado surgiu no rosto de Cliff.
— Um astronauta nunca tem a consciência pesada — disse. —
Tome, por favor.
Estendeu o pacote em sua direção. Tamara pegou-o. Seu sorriso
tornou-se intenso e foi abrindo o embrulho muito devagar. Ao tomar
conhecimento do conteúdo, seus olhos se arregalaram. Era um
perfume incrivelmente caro, feito das flores de d’Itvia.
— Se a profundidade da afeição documentada através deste gesto
corresponder à altura do preço... — disse Tamara com um ligeiro
sorriso. Deixou a frase no ar.
— Posso considerar-me seu convidado, ou prefere que me retire?
— perguntou Cliff.
Tamara ficou parada à sua frente. Colocou o precioso líquido sobre
uma mesa e enlaçou o pescoço de Cliff com os braços.
— Evidentemente pertenço à classe de mulheres que podem
conformar-se com uma constatação moderna — disse.
— Que constatação é essa?
— Trata-se da constatação de que os astronautas são um tipo
especial de homens. Especialmente os homens audazes que se
encontram entre os planetas, as estrelas e as entomólogas.
Cliff olhou para a janela bem aberta. Apesar de tudo, ainda
esperava ouvir um zumbido.
— Você tem razão — disse.
— Além do mais não me arriscarei a perder a simpatia de um
homem de quem Villa faz um conceito tão elevado.
Cliff quase chegou a assustar-se, de tão surpreso que ficou.
— Por que diz isso? — perguntou em tom de desconfiança.
— Villa tem um plano maluco. Procura encontrar um meio de
fazer uma criação dos insetos sensíveis ao som para fins de
policiamento. Pretende utilizá-los quando ocorrerem motins. Já
imaginou o efeito dessa arma?
— Não preciso imaginar — disse Cliff em tom amargo. — E não
consigo compreender mais o mundo. Trazemos as vespas, matamo-
las, e depois vamos criá-las... É uma loucura!
Tamara Jagellovsk sacudiu a cabeça.
— Não é nenhuma loucura, mas um planejamento inteligente.
Você não compreende, querido.
Cliff conformou-se. O que Tamara acabara de afirmar era verdade.
E ele não compreendia mais nada. Fechou os olhos e recostou-se na
poltrona estofada.
Ouviu um zumbido.
Não vinha da janela aberta, mas surgiu dentro de sua cabeça. A
culpada era Tamara Jagellovsk.
***
Em Os Astronautas Drogados, título do próximo volume, o coronel
Cliff enfrenta novas ameaças estelares...
*
**

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