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TEXTO

MARÍA ZARAGOZA

ILUSTRAÇÃO

DÍDAC PLÀ

BERÇO DE CORVOS

TTrraadduuççããoo

Ana Luisa Martins

TEXTO MARÍA ZARAGOZA ILUSTRAÇÃO DÍDAC PLÀ BERÇO DE CORVOS T T r r a a d

Para minha mãe e para Marta.

María Zaragoza

Para minha yaya, apesar de não gostar de desenhos de mortos D. Plà

TÍTULO ORIGINAL: CUNA DE CUERVOS

Projeto e produção Parramón Ediciones, S.A.

Editora: Pilar R. Súnico Texto: María Zaragoza Ilustração: Dídac Plà Projeto gráfico e desenho: Rebeca Podio Jiménez Projeto da coleção: Miquel Serratosa

Publicado originalmente em setembro de 2009

por Parramón Ediciones, S.A. © 2009 Parramón Ediciones, S.A.

Empresa do grupo Editorial Norma de América Latina

www.parramon.es

Diretor de produção: Rafael Marfil Produção: Manel Sánchez

Copyright © tradução Editora Arx

Diretor: Thales Guaracy Gerente editorial: Carla Fortino Editora: Fabiana Medina Assistente editorial: Carlos Renato Tradução: Ana Luisa Martins Revisão: Patrícia Vilar / Ab Aeterno Arte-finalização: Eduardo Amaral / Duligraf

2010

Direitos para o Brasil cedidos à Editora Arx,

um selo de Saraiva S.A. Livreiros Editores Rua Henrique Schaumann, 270, 8º andar CEP: 05413-010 – São Paulo – SP – Brasil

ISBN: 978-85-02-10106-7 Impresso na Espanha

BERÇO DE CORVOS
BERÇO DE CORVOS
Ficou, em suma, tão tomado pela leitura, que passava as noites lendo, do pôr ao

Ficou, em suma, tão tomado pela leitura, que passava as noites lendo, do pôr ao raiar do sol; e os dias também, do alvorecer ao anoitecer; e assim, de pouco dormir e muito ler, secou-lhe o cérebro e acabou perdendo o juízo. Sua fantasia preencheu-se das coisas que lia nos livros, encantamentos, desavenças, batalhas, desafios, ferimentos, namoros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e fixou-se de tal forma em sua mente que era verdade toda aquela maquinaria de invenções e sonhos que lia nos livros, que para ele não havia outra história mais verdadeira no mundo.

MIGUEL DE CERVANTES, em Dom Quixote.

Você escova o cabelo alaranjado que sai da metade sã do seu crânio, deixando que a escova penetre e deslize.

Alguns fios soltos vibram por um segundo no ar, por causa da

eletricidade estática.

Você lembra de quando ele disse que vinha para se suicidar. O quarto era alugado, não muito grande, e cheirava a decrepitude, como todos os quartos desse lugar que você chama de cidade em vez de povoado. Inclusive os mais novos.

Você nunca levou a sério as ameaças dele, quando chegou e disse:

Vou me matar. Vim aqui para me matar. Não quero morrer sozinho.
Vou me
matar.
Vim aqui para
me matar.
Não quero
morrer
sozinho.

Você fumava e ria como agora penteia o cabelo do lado são da sua cabeça, indolente. E chamava-o de Menino ou Garoto. Ou de qualquer outra coisa que passasse pela sua cabeça, como Coração, Querido ou Bem.

Prefiro Menino ou Garoto. É mais impessoal. Afinal de contas, vim para me matar.
Prefiro Menino
ou Garoto.
É mais impessoal.
Afinal de contas,
vim para me
matar.

Os moinhos são enormes, brancos, e parecem às vezes ameaçadores no alto da serra. Dominam tudo de lá. Você não sabe para que servem porque ninguém jamais se deu ao trabalho de te explicar.

Pensa que a cidade continuará onde está quando você morrer. Permanecerá de pé sem os que a habitam agora. Você sente medo de pensar que as coisas sobrevivem. Sente vertigem.

Dizem que certa vez isso que você chama de cidade acolheu um Louco. Mas você não leu esse livro. Nem sequer acredita que esse senhor tenha existido. Apenas olha os lugares que ele percorreu, lança em punho, e suspira. Se pergunta se todos os lugares serão eternos. Ou se as cidades também morrem.

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A pele do seu rosto brilha do lado direito. Foi queimada num acidente na sua mais tenra infância. Você prefere chamá-lo de acidente provocado, embora tenha sido mais a segunda palavra

do que a primeira.

Você acolheu o Garoto porque lhe pareceu doce. Porque era tão jovem e tão triste que lhe pareceu inofensivo. Disse que tinha dinheiro para pagar você por cinco dias. Que quando você partisse,

ele se enforcaria.

As coisas são mais como as chamamos do que o que são. Às vezes, sobretudo
As coisas
são mais como
as chamamos
do que o
que são.
Às vezes, sobretudo em sonhos, você vê seu pai de novo,
como naquela vez, quando você tinha três anos, indo na sua direção
com a panelinha e jogando o leite em cima de você.
O leite tinha ficado muito tempo no fogo, e sempre acontece o mesmo: a pele se
queima, os tufos de cabelo caem, o olho direito para de enxergar e se atrofia.

7

A cidade se espalha a partir da serra em caminhos de branco e azul. Tem
A cidade se espalha a partir da serra em caminhos de branco e azul. Tem gente
que ainda vive nas cavernas, ou que nelas montou restaurantes e discotecas.
Eu nunca me diverti
nesta merda de
povoado que gosto
A única coisa boa
é a pedra. A pedra
nunca desaparece,
de chamar de
cidade.
nem foge, nem morre.
As pedras têm memória
e
isso é algo a se
levar em conta.
Você
acredita que
as coisas
têm vida?
Sim, uma vida
compartilhada
conosco. Têm a vida
dos que as olham
ou as tocam ou
delas desfrutam.
A vida dos que
falam sobre elas
ou contam suas
histórias ou delas
se lembram.
Então
também
podem
As cidades são efêmeras.
Nascem e morrem com
cada pessoa que nasce e
morre. Esta permanece
viva e morta ao mesmo
tempo apenas em você.
Como eu.
morrer?
Você deve
entender dessas
coisas melhor do
que eu, que não
sei nem escrever.
Sou muito
boba.
Inteligência não
é conhecimento,
mas sim saber
como utilizá-lo.
Era muito jovem. Mais tarde
você se perguntaria se teria
dezoito ou menos. Para você,
dava no mesmo, contanto que
pagasse. Essa era a magia ou
a miséria do que você fazia. Ele
pagava para estar com você.
Em breve se mataria. Você decidiu
não se apegar muito a ele.
Logo você dormiu e seu
pai voltou a queimar o
seu rosto com o leite.

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E, então, que

você a

pensava

cidade

frágil,

é

sua como que porta que queria você bateu dizendo

Garoto

e se o na

suicidar.

Ele disse que, desde criança, via você na rua, com essa sua cara queimada pela
Ele disse que, desde criança, via
você na rua, com essa sua cara
queimada pela metade e esse seu
cabelo vermelho que cobre só
metade da cabeça. E esse olho
morto e o outro, inteligente e vivo.
E achava que era
perfeita. Que poderia
entendê-lo porque
estava viva e morta
ao mesmo tempo.

Você se olha no espelho. A escova faz um som lamuriento ao penetrar seu cabelo. Ela também protesta pelo que está passando, como a sua metade viva, que não é capaz de entendê-lo.

Que a alma dela morre junto com cada pessoa que nela viveu e desaparece.

Que você é

irreal, como

uma imagem na

memória ou uma

história contada

por alguém.

Você pensa no Louco. O Garoto disse que ele lutou contra os moinhos. Você sente pena dos moinhos porque continua a vê-los o tempo todo. Fazem parte do cenário da sua existência. E não dá a mínima para o tal senhor porque não reconhece nada nele.

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E lá estavam as pessoas

sorrindo

umas com as outras, cumprimentando-se e dizendo:

quando

cruzavam

câncer

E o menino?

do

vai sua

esposa?

Como

Olá, vai? como

O Garoto disse que queria morrer porque já tinha passado muito tempo vivo e você não o levou a sério.

Por quê?

Às vezes nem a própria pessoa conhece as verdadeiras razões que a levam a se matar.

E você caminhava cabisbaixa, consciente de que mudavam de calçada ao ver você. Por causa do rosto queimado, ou porque é feia, ou porque é puta.

Você pegou uma garrafa de vinho, bebeu e riu, e depois perguntou se ele queria mesmo se suicidar e ele disse que sim, que não queria outra coisa.

Ou talvez por causa da crueldade dos meninos que jogaram pedras em você quando tentou frequentar a escola. Você desistiu imediatamente. Pelo mesmo motivo por que ninguém pergunta se você tem um filho com câncer.

10

Por que você nunca foi embora do povoado? Por causa da ligação Seu rosto queimado
Por que você
nunca foi
embora do
povoado?
Por causa da ligação
Seu rosto
queimado é a sua
parte morta.
Pertence mais à
entre a pedra e a alma e essas
coisas. Nunca sai destas ruas,
o branco e o azul fazem parte de
mim, como os meus dedos, o meu
nariz e o meu rosto queimado.
´
Morte do que a
você própria.
O Garoto até que tinha razão, porque não são só o branco, o azul e
os pesadelos com o leite fervendo que formam a sua vida. A Morte
também participa quando quer, e às vezes aparece para perguntar
quando você deixará que ela leve a sua parte esquerda também.
Você é
mais puta
do que eu.
Por isso você entendeu o Garoto depois, quando, passadas
algumas horas, você percebeu que a história de se enforcar era
séria. A Morte piscou um olho para você e você a insultou.

dizia

que, E deixa com

a Morte.

o de lado tivesse vê-la com

talvez

você

queimado,

razão,

o tampa

quando

a mão.

Seu olho saudável se desloca na órbita de um lado para o outro, observando sua silhueta no espelho. O olho que parece uma uva-passa inerte fixa-se no vazio e, ainda assim, parece que enxerga. E parece que vê coisas diferentes do que não está cego.

Sua metade esquerda está se revelando quase imortal. E difícil. Tornou-se forte para compensar a
Sua metade
esquerda está se
revelando quase imortal.
E difícil. Tornou-se
forte para compensar a
sua parte morta. Está
viva pelas duas.
Isso lhe parece justo? Não, mas a vida não é justa. Só eu sou. O
Isso lhe
parece
justo?
Não, mas a vida
não é justa. Só
eu sou.
O
você
Garoto porque vê
Quero que o meu
lado queimado se
espalhe até me
matar.
Você terá que esperar.
Sua parte viva deve se
enfraquecer o suficiente
para que isso aconteça.
Tenha paciência. Você
se fortaleceu muito
esse tempo todo.

Enquanto isso, você continua escovando o cabelo neste quarto que não para de cheirar a podridão.

12

O Garoto era alto,

moreno e tinha um ar perdido que lhe dava uma

aparência inteligente. Encarava sempre você e valorizava a sua Você faz as horas escoarem com
aparência inteligente.
Encarava sempre você
e valorizava a sua
Você faz as horas escoarem
com facilidade, como se as
lubrificasse para que não
chiem. Minhas horas nunca
foram assim.
capacidade de ignorar
que ele queria se matar.
Você contou ao Garoto sobre o homem a quem você
mandou não tocá-la de novo e que disse
que só estava tentando ser amável.
Feia desse jeito
ninguém vai se
interessar por você
como eu. Melhor
aproveitar.
O Garoto afagava com carinho o seu cabelo alaranjado.
Dizia que você não era feia. Que nunca fora feia, apesar
do rosto queimado, ou talvez precisamente por causa dele.
Ele perguntou qual
era sua idade na
época. Você
respondeu que tinha
doze anos. Que o
homem chamava
você de feia.
Não há nada
mais belo do que
alguém que parece
que vai morrer a
qualquer momento
e não morre.
Você cedeu bem depressa às mãos do homem. Não fazia mais
de dois meses que ele chamava você de feia. O homem
penetrou você, cobrindo sua cabeça com um saco
de papel. Doeu muito, mas você emitiu um
protesto apenas. Ele pagou mal.
O Garoto disse que era uma história triste e que
queria ouvi-la de novo. Você contou outra vez, com
pequenas variações. Às vezes, o homem não
chamava você de feia, às vezes você
conseguia escapar das mãos dele, às
vezes a Morte não olhava o
seu rosto queimado.
.

13

Me conta a história dos meninos que gritavam com você no colégio. Mas a história
Me conta a
história dos
meninos que
gritavam com
você no colégio.
Mas a história mudou
e já não me atiram
pedras, inclusive
aprendi a ler e a
escrever.
Eu gostava mais
quando era uma
história triste.
Às vezes as
histórias só mudam
quando são
contadas, Querido.
Me chama
de Garoto.
.
Está bem,
Garoto.
A menina do
rosto queimado dessa
vez conseguiu não ter
medo dos outros.
E aprendeu muito.
Leu um livro em que ele
não recuperava o juizo
´
antes de morrer.
Deve ser porque
a história da
menina também
se tornou
piedosa.
Ela leu a
história do
Louco?
Leu então a
versão
piedosa.

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Nunca terei um filho com câncer. Não fique triste. Você tem a mim. Mas você
Nunca terei
um filho
com câncer.
Não fique triste.
Você tem a mim.
Mas você
não tem
câncer.
Não, mas
também
As pessoas se
compadecem da
desgraça dos
que sofrem com
a desgraça alheia.
Não
entendi.
vou morrer.
É, as pessoas têm mais pena da
mãe do menino com câncer do que
do próprio menino doente.
Ninguém tem pena da menina
com o rosto queimado.
Dessa vez a
história diz que
não chegou
a se queimar.
Ainda assim.
Sempre sentiram
mais pena do pai
que queimou do que
da filha queimada.

15

seus

chiado.

dó não tudo

chiado. dó não tudo A cidade em si é Morte e Vida ao mesmo tempo. A

A cidade em si é Morte e Vida ao mesmo tempo. A vida dos que contemplaram as pedras e a morte dos que as levaram para o túmulo. O Garoto dizia que só a Morte e a Pedra são incapazes de trair. Que são o que são e por isso são sinceras.

Você não

maldiz suporta ferindo

ouvidos,

Você

o leite o sem

que

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Numa está a alma dos defuntos; noutra, o olhar dos que estiveram vivos.

Penetra

o que nos toca. surda.

te

deixou