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Uma recolha e montagem de joraga.

net
Corroios 2014 10 – nos 100 anos da I GUERRA MUNDIAL



PORTUGAL na I GUERRA MUNDIAL
1914 – 1918

na VOZ de POETAS POPULARES
os CRIADORES / FAZEDORES de DÉCIMAS
a ARTE MAIOR da POESIA POPULAR



















Foto in HISTÓRIA COMPARADA, Dir. António Augusto Simões Rodrigues, Círculo de Leitores 1996, Vol. II, p.
251, – Partida de um contingente militar português para a Guerra, 1917

http://www.brasilescola.com/historiag/a-vida-nas-trincheiras.htm

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PORTUGAL NA I GUERRA MUNDIAL na VOZ de POETAS POPULARES

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PORTUGAL na I GUERRA MUNDIAL
1914 – 1918

na VOZ de POETAS POPULARES
os CRIADORES / FAZEDORES de DÉCIMAS
a ARTE MAIOR da POESIA POPULAR






























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Corroios 2014 10 – nos 100 anos da I GUERRA MUNDIAL




Recolha e montagem de joraga.net – 2014 10

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ficha técnica

TÍTULO - PORTUGAL na I GUERRA MUNDIAL, 1914 – 1918, na VOZ de POETAS POPULARES

Recolha e Montagem de joraga.net

Corroios – 2014 10

PORTUGAL NA I GUERRA MUNDIAL na VOZ de POETAS POPULARES

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dedicatória

aos que viveram os horrores da guerra no inferno das trincheiras

aos que, mesmo de longe… sofreram as consequências…

a DOR de ver partir os seus, sem saberem para onde nem por quê…

sem terem notícias… nem se os voltariam a ver…

as privações imposta por uma guerra…


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PORTUGAL NA I GUERRA MUNDIAL na VOZ de POETAS POPULARES

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apresentação

uma visão da GUERRA diferente da habitual que nos é dada pelos historiadores

e das versões oficiais…

nove Décimas de um soldado do Algarve, que esteve na linha da frente desde a carta de
despedida

à ‘guerra dos piolhos’

à saudade das festas da Páscoa…

ferido… e prisioneiro… e hospitalizado…

com autoridade para se dirigir aos SENHORES DA GUERRA…

uma do António Miguel Carmo…

quatro de Inocêncio de Brito

os dois de São Matias, Beja…

o primeiro que esteve mesmo na guerra e voltou…

o segundo, mais velho, andaria já pelos sessenta anos…

com as suas reflexões poderosas sobre a guerra…

mesmo ali, de longe, perdido no recôndito dos montes do Alentejo…

onde mal chegavam as notícias,,,

as duas versões de um desconhecido… que ficaram na memória de alguém…

e puderam ser recolhidas e reconstruídas…

mas talvez espelhem o essencial que o autor quis transmitir…

a metáfora da ENXADA, de Manuel de Castro, da Cuba, Beja, fica como reflexão final do que a
‘guerra’ traz à humanidade… a tudo o que pode ser útil e válido… e como mostra / modelo do
nível literário / artístico que pode ser atingido pela DÉCIMA, possivelmente o expoente máximo
da Poesia (dita) Popular…

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Notas para enquadramento no contexto:
«A Primeira Guerra Mundial (também conhecida como Grande Guerra ou Guerra das
Guerras) foi um conflito bélico mundial ocorrido entre 28 de Julho de 1914 e 11 de
Novembro de 1918.» in http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Mundial

«A 11 de Novembro de 1918 é assinado o armistício que põe fim à Primeira Guerra
Mundial. Nove milhões de soldados morreram, quatro grandes impérios foram
destruídos e o panorama geopolítico da Europa e do Médio Oriente alterou-se para
sempre.»
«Sete mil portugueses perderam a vida na Grande Guerra. Colocado na Frente
Ocidental, na Flandres, França, o Corpo Expedicionário Português participou na
decisiva batalha de La Lys. A 9 de Abril de 1918, 20 mil homens não conseguiram
travar os 50 mil soldados alemães, naquela que foi uma das mais sangrentas
batalhas da Primeira Guerra Mundial.»

Dados sobre os poetas:

Joaquim dos Santos Andrade, (o Pai Andrade):
Nascido em 16/11/1892, no sítio dos Murtais, Moncarapacho, Olhão, morreu em
Lisboa, 02/08/1971.
Participa aqui nesta recolha com NOVE DÉCIMAS. É assim o principal colaborador,
pelo número de versos, porque esteve na frente de combate, foi ferido e foi
prisioneiro… voltou para contar o que viu e viveu…

Um sodado desconhecido: uma DÉCIMA com duas versões, recolhidas por pessoas
e em lugares diferentes. É, em resumo, uma carta ditada por um soldado ferido que
mão pode escrever, pois fala de outras cartas mas esta é para relatar o que passou
no dia 9 de Abril… terá participado na tremenda batalha de La Lys…considerada a
mais sangrenta das batalhas da Primeira Guerra Mundial…

ANTÓNIO MIGUEL CARMO:
(de S. Matias, Beja, nasceu em Junho de 1896... e morreu em Março de 1968)
Participa com uma DÉCIMA que é a carta de despedida, possivelmente ao partir para
a guerra, ainda em território português… Esteve 18 meses, segundo relato da Sua
filha, D. antónia Carvalho de São Matias, Beja. Estranho não ter deixado outras
cartas ou poemas sobre o que passou na guerra… Faleceu já com os seus 71 anos de
idade…

Inocêncio de Brito (Poeta Popular, S. Matias, Beja, 1854 - 1938
Quatro Décimas a respeito da I Grande Guerra Mundial 1914 / 18, ou prenúncio da
II, 1938 – 1945? Este Poeta Popular, terá aprendido a ler e a escrever, como se pode
verificar pelos manuscritos que deixou à família e já tinha feito algumas Décimas
comentando o regicídio e consta que terá recebido uma ‘tença’ de D. Amélia de
Orleães a quem também dedicou uma das Décimas… Com sessenta anos em 1914,
mesmo vivendo longe de tudo e com falta de meios de comunicação, era considerado
pelos seus, um ‘pensador’, um ´sábio’ que ia comentando os acontecimentos e a vida
nos seus versos… Estas quatro décimas são pois de alguém que não esteve na
‘guerra’, mas estava informado e sofria as consequências…

Manuel António de Castro – o Manuel de Castro da Cuba.
(Nasceu na vila de Cuba em 7 de Março de 1885. Faleceu em 1972).
Não consta que tenha sido mobilizado para a guerra, já teria 29 anos em 1914! Mas
deixamos aqui para finalizar esta profunda e saborosa metáfora da ENXADA,
certamente inspirada na observação da primeira e possivelmente também da
segunda guerra mundial…
PORTUGAL NA I GUERRA MUNDIAL na VOZ de POETAS POPULARES

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Índice
Índice
Nove DÉCIMAS de Joaquim dos Santos Andrade, (o Pai Andrade) ............... 11
ADEUS PORTUGAL ............................................................................................................................. 12
Adeus mulher que eu amei ................................................................................................................ 12
AOS ALTOS SENHORES DOS ESTADOS ................................................................................................ 13
COMBATENDO OS PIOLHOS ............................................................................................................... 14
A FESTA DA PÁSCOA PASSADA NA GUERRA ....................................................................................... 15
NAS TRINCHEIRAS .............................................................................................................................. 16
SAUDADES ......................................................................................................................................... 17
FERIDO NA FRENTE DE BATALHA........................................................................................................ 18
PRISIONEIRO NO HOSPITAL ................................................................................................................ 19
A PAZ! ................................................................................................................................................ 20
Duas / uma DÉCIMAs que fala/m da I GRANDE GUERRA 14/18, de um
soldado DESCONHECIDO… recolhida em locais diferentes… ....................... 21

ANTÓNIO MIGUEL CARMO ........................................................................... 22
ADEUS, MINHA QUERIDA AMADA, ..................................................................................................... 22
Inocêncio de Brito (Poeta Popular, S. Matias, Beja, 1854 - 1938................. 23
KAIZER DÉSPOTA ORGULHÔSO – (mn) - (“um sobrano entre sobranos” – seria um subtítulo?) ........ 25
A RAINHA DAS POTENCIAS – (mn) ...................................................................................................... 27
NO MUNDO PORQUE HAVERÁ - dc .................................................................................................... 29
FAZEM NAVIOS DE GUERRA - mn ....................................................................................................... 31
Manuel António Castro: ............................................................................... 32
FUI NOVA CORTANTE ENXADA ........................................................................................................... 32


Nota: Alguns manuscritos de Décimas de Inocêncio de Brito, guardados pela Família… (foram
inseridas nas páginas pares correspondentes à página ímpar seguinte com a transcrição da
respectiva décima, para cada um poder acompanhar a leitura, quando tiver oportunidade de
fazer a leitura em livro impresso em papel… nas páginas 26, 30 e 32.
Uma das décimas foi dactilografada por Jaime Curva (?), à falta do manuscrito, não encontrado…
na página 28.
As outras ilustrações são imagens retiradas de internet, com a indicação dos créditos…


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Nove DÉCIMAS de Joaquim dos Santos Andrade, (o Pai Andrade)
Nascido em 16/11/1892, no sítio dos Murtais, Moncarapacho, Olhão,
morreu em Lisboa, 02/08/1971
in HISTÓRIA DE PORTUGAL DOS TEMPOS PRÉ HISTÓRICOS AOS NOSSOS
DIAS, Dir. de João Medina, Clube Internacional do Livro, Edição e Comércio
de Livros e Crédito L.da., 1995, Vol. XI, REPÚBLICA II, pp. 297 - 302, com
breve biografia e notas de JM (João Medina).
Temos aqui a visão da guerra por um cabo miliciano que era poeta, ou, por isso mesmo, a visão que uma
geração teve de uma guerra? Ainda por cima a visão daqueles que não tiveram medalhas nem ficaram na
História!






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ADEUS PORTUGAL

MOTE

Adeus gente de Moncarapacho
Adeus concelho de Olhão
Adeus distrito de Faro
Meu Algarve do coração!

Glosas
1 3
Adeus casa onde nasci
Adeus mãe que me criou;
Adeus pai que trabalhou
Sempre tanto para mim!
Adeus mulher que eu amei
À beirinha do riacho;
Hoje eu contigo me acho
Amanhã, sozinha estais
Adeus sítios dos Murtais
Adeus gente de Moncarapacho!

Vou a França combater
As forças desencadeadas,
 Vamos todos camaradas,
Liberdade defender!
Eu também desejo ser
Dos heróis de Santo Amaro.
Meu sentimento é tão raro
Que até choro de alegria
E dizendo:  Até um dia,
Adeus distrito de Faro!...
2 4
Adeus minha vizinhança,
Até que um dia, afinal,
Eu regresse a Portugal
Tenho nisso muita esperança
Isto é apenas mudança,
Não comovam o coração;
Tenho dever e obrigação
Como português de raiz,
De honrar o meu país;
Adeus concelho de Olhão!...
Adeus fértil lavradio
Das terras à beira-mar,
Onde eu ia passear
Numa lanchinha no rio;
Com as ondas ao desafio
Cantando a minha canção
Nas quentes noites do Verão!
Mas quando a guerra acabar
Eu a ti hei-de voltar
Meu Algarve do coração!...









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AOS ALTOS SENHORES DOS ESTADOS

MOTE

Se quereis saber o que custa a guerra
Altos Senhores dos Estados;
Venham passar um Inverno
Nas trincheiras dos soldados...

Glosas
1 3
Venham fazer a memória
Na luta contra os canhões;
Não é metido nos salões
Que se deixa nome na história.
Só quem luta merece glória,
Não é quem em casa berra;
Esses senhores da Terra
Que arquitectam a luta
Venham patrulhar de escuta
Se quereis saber o que custa a guerra!
Comei um quarto de pão
Tal como eu , todos os dias;
Saiam dessas regalias
Que ganhásteis sem razão.
Formai lestos um pelotão
Fazei o exercício moderno;
Com ar altivo e paterno
Ide já para as primeiras linhas;
Com as roupas iguais às minhas,
Venham passar um Inverno!
2 4
Esses grandes imperadores
Da Alemanha, Guilherme Segundo;
Dizem que é de todo o mundo
O mais herói dos lutadores;
Vinde mostrar esses valores
Junto dos vossos soldados.
Se quereis galões dourados
Ganhai-os pelo trabalho,
Passando frio sob orvalho,
Altos Senhores dos Estados!
As medalhas que trazeis pendidas
São minhas e dos camaradas;
Não queiram honras achadas
À conta das nossas vidas!
Essas pensões garantidas
Pertencem aos desgraçados.
Seriam por mim louvados
Se fizessem o que eu faço
Lutando de braço a braço,
Nas trincheiras com soldados!...










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COMBATENDO OS PIOLHOS

MOTE

Tenho uma divisão de piolhos
Já estou pronto a combater
No dia da ofensiva
É que se há-de poder ver!

Glosas
1 3
Para guardar a fronteira
Tenho as baterias postas
E no meio das minhas costas
Estão abrindo uma trincheira.
É soldadesca guerreira
E gordos como repolhos,
Mas é só abrir-lhes os olhos
Marcham com grande disciplina
De espingarda e carabina
Tenho uma divisão de piolhos!...
É tamanha a laboração
Que não posso dormir de noite,
Mesmo que me afoite
A meter alguns na prisão.
Tenho um alferes e um capitão
Com uma táctica muito viva
E uma prática tão activa
Que não param um poucochinho,
Como ficará o meu corpinho
No dia da ofensiva?...
2 4
Quartel-General, a camisa
Ceroulas, campo de instrução;
A camisola o barracão
Onde o plano se realiza!
Já mandei pedir à Galiza
Se me poderão socorrer
(Com munições ou comer)
Se me faltar em um período
Porque o mais eu tenho tudo
Já estou pronto a combater!...
Tenho tropas de vários anos
A mor parte mobilizada;
Uma é branca, outra encarnada,
Outra preta, de africanos.
Já deitámos os nossos planos
(Como se devia combater)
Para o inimigo prender
Sem haver grande baralha;
E no meio da batalha
É que se há-de poder ver!...






« Caçada sem fim: combate aos piolhos numa trincheira alemã…»
(http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/1916-julho-batalha-somme/piolhos-trincheiras-insetos-ratos-
cadaveres.shtml)

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A FESTA DA PÁSCOA PASSADA NA GUERRA

MOTE

Na Quinta-Feira de Endoenças,
Na Sexta-Feira de Paixão,
Aleluia sem alegria
Páscoa sem consolação!

Glosas
1 3
Eu sei que minha Mãe chora
E que meu Pai me lamenta,
E eu vejo-me nesta tormenta
Sem esperanças de me ir embora!
Se eu fosse a casa agora
As alegrias eram imensas;
Até as próprias crianças;
Que eu sei que me adoram,
Cantariam. Assim choram
Na Quinta-Feira de Endoenças!...
Devíamos também respeitar
Na guerra, os dias sagrados;
Dar licença aos soldados
Para a Deus irem orar.
Não os obriguem a trabalhar
Porque isso é cobardia,
Sujeitos à fuzilaria
Nesta tão medonha guerra;
Todos passam nesta terra
Aleluia sem alegria.
2 4
Eu também choro onde estou
E mais terei de chorar,
Enquanto não vá beijar
Essa mãe que me criou;
Esse pai que trabalhou
Para a minha educação;
Essa irmã e esse irmão
A quem amo ternamente
E dos quais estou ausente
Na Sexta-Feira de Paixão!...
Há ordens que não consigo
Encontrar no Regulamento;
Palavras que turvam a mente
Referindo-se ao inimigo.
E quantos sofrem comigo
Por essa mesma razão;
Porque sentem no coração
Frases que são punhaladas,
Memórias atraiçoadas
Páscoa sem consolação!...











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NAS TRINCHEIRAS

MOTE
METIDO EM MÍSERA TRINCHEIRA,
OUVINDO O TROAR DO CANHÃO
VOU RESPONDER À TUA CARTA
QUERIDA ESPOSA DO CORAÇÃO.


Glosas
1 3
Não sei quando há-de terminar
Esta ausência tão custosa
E venha a hora ditosa
De te tornar a abraçar
Só quando rebentar
O eixo desta barreira,
E desapareça a cegueira
Desta luta - o tirano autor;
Que me causa tanto horror,
Metido neste trincheira!...
Mas sempre há uma esperança
É nessa crença que eu vivo
Porque não vejo nenhum motivo
De morrer assim criança,
A saudade é uma lança
Que risca o espaço de prata
Oh! que vida tão ingrata
Estou próximo da sepultura
E vivendo na amargura
Vou responder à tua carta!...
2 4
Eu ouço zumbidos estranhos
Atravessando a atmosfera;
Eu vejo revolver-se a terra
Com os morteiros tamanhos;
Cercado de fogos medonhos
Se vê o meu coração;
Eu peço a Deus perdão
E à Virgem Maria socorro
A ver se ainda não morro
Ouvindo troar o canhão!...
Escrevo-te com mil carinhos,
Já que não pode ser mais,
Dá saudades aos nossos pais
E recebe ternos beijinhos
Roga a Deus e aos anjinhos
E ao Santo João
Que me leve em salvação,
P’ra minha terra natal
(de regresso a Portugal)
(falta aqui um. Verso. Este é meu.)
Querida esposa do coração!...







http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-correspondencia-do-desassossego-e-da-saudade-1666362

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SAUDADES

MOTE

OH! MEU QUERIDO PORTUGAL
SANTA TERRA ONDE NASCI
MINHA PÁTRIA TÃO SAUDOSA
COMO EU ME LEMBRO DE TI!...

Glosas
1 3
Como estranho tua paisagem
E dos pássaros, a harmonia;
Como eu grito de alegria
Ao recordar a tua imagem,
Ao encontrar de passagem
O teu nome num jornal;
Oh, que saudade mortal,
Que me vem ao pensamento,
Por não te ver há muito tempo
Oh, meu querido Portugal!
Já lá vem o sibilar
O Inverno no seu espaço,
E eu desejo o teu regaço
Sem me poder abrigar;
E, assim, tenho a esperar
Uma noite triste, invernosa,
Na trincheira tão custosa,
O inimigo façanhudo,
mas por ti eu farei tudo
Minha Pátria, tão saudosa!...
2 4
É verdade que me sinto bem
Nesta terra de pergaminhos,
Ai... mas faltam os carinhos
Dessa Pátria  minha mãe.
Mas que fazer, porém,
Se a sorte me trouxe aqui?
Se te vim defender a ti
Ou a tua causa aliada,
Defender-te-ei minha amada,
Santa Terra onde nasci!...
Meu Algarve, doce brinquedo
De mar quente e assimétrico,
Teu clima atmosférico
Perpassando no arvoredo,
Faz um lar tão brando e meigo
Não é como aqui, “Compris”?
Onde se diz “beaucoup, merci”
Muito obrigado em português;
Com saudade e honradez
Como eu me lembro de ti!...









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FERIDO NA FRENTE DE BATALHA

MOTE

Fui ferido, fui prisioneiro
Perdi minha liberdade,
Quem me pode salvar é Deus
E a Senhora da Piedade!...

Glosas
1 3
Oh, guerra tirana e vil
De génio feroz, agreste,
Repara no que fizeste
No dia 9 de Abril!
Como eu há mais de mil
Do vil golpe, teu herdeiro,
Teu orgulho traiçoeiro
Que me ia roubando a vida
Tão longe da terra querida
Fui ferido e prisioneiro!...
Quando contra a um velho muro
Olhava o inferno em redor,
Veio um ferro abrasador
Derramar meu sangue puro,
O canhão soava duro
Ecoando até aos céus,
Parecia rasgar os véus
Tecidos pela Natureza.
Se esta vida é incerteza,
Quem me pode salvar é Deus!...
2 4
Era triste o panorama
Com a atmosfera nublada
Vinha perto a madrugada
Quando começou o drama.
Rebentou a terrível chama
Que avulta a crueldade
Daqueles que sem piedade
Fazem as vítimas sofrer,
E é causa de hoje dizer:
 Perdi a minha liberdade!...
Vendo meu sangue verter
Só pedia a Deus a vida;
Para que minha mãe querida
Ainda me tornasse a ver!...
Que pena eu já morrer
Na flor da tenra idade,
Sem gozar a mocidade
Na terra que tão longe está
Mas Deus me salvará
E a Senhora da Piedade!...









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PRISIONEIRO NO HOSPITAL

MOTE

JÁ NÃO TENHO QUEM ME ALEGRE
VIVO TRISTE E SEM ALENTO
SOU UM POBRE PRISIONEIRO
CHEIO DE MÁGOA E SOFRIMENTO!

Glosas
1 3
Em vão, eu tento sorrir,
Quando vejo um passarinho,
Andar de ramo em raminho
Seu trinado fazendo ouvir!...
Parece até repetir:
 Ditoso é o que consegue
Ter uns lábios que lhe regue
O seu rosto em toda a hora,
Depois voa e vai-se embora,
Já não tenho quem me alegre!
Já vai alta a madrugada
E eu sem adormecer
Pois não me posso esquecer
Dessa Pátria, minha amada!
Minha família adorada
De quem era companheiro;
Hoje só, no cativeiro,
Outros sofrendo pena igual,
Com tantos ais, tanto mal,
Sou um pobre prisioneiro!...
2 4
Vem a noite e vã ternura
Vai-se o dia moribundo,
E eu fico meditabundo
Pensando na sepultura,
Repensando a desventura
Que me traz o sofrimento,
Ouvindo o rugir do vento
Em noites de frio Inverno,
E tão longe do lar paterno
Vivo triste e sem alento!...
Quando ia principiando
Uma nova felicidade,
A má sorte sem piedade,
De tudo me está privando,
Por meus pais sempre chorando
Este triste desenlace,
Correm-me lágrimas pela face
Pela forma como vivo,
Neste hospital cativo,
Cheio de mágoa e sofrimento!...









https://www.icrc.org/por/resources/documents/photo-gallery/2013/150-years-detention-07-01.htm

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A PAZ!

MOTE

EM 11 DE NOVEMBRO SOOU
ESSA NOVA TÃO DESEJADA
ALEGREM-SE, Ó PRISIONEIROS
TEMOS A GUERRA ACABADA!...

Glosas
1 3
Qual não foi a alegria
Que todos nós sentimos
Quando essa nova ouvimos
Em explosão de alegria,
Haja paz e harmonia
Quando a Presidência assinou
Fez saber e publicou
A folha do armistício,
Terminou o sacrifício,
Em 11 de Novembro soou.
Terá sua liberdade
Todo o prisioneiro de guerra,
Cada qual p’rá sua terra
Marchará com brevidade!
Irá matar a saudade
Desses tempos traiçoeiros
Que nos fizeram herdeiros
Desta fúria mundial,
Que teve hoje o seu final,
Alegrem-se , ó prisioneiros!...
2 4
Esses tristes semblantes
Pela guerra envelhecidos,
Tornaram-se coloridos
Mesmo alegres e radiantes,
E até os agonizantes
De alma dilacerada
Tão longe da terra amada
Se mostram de bom agouro,
Para todos foi um tesouro
Essa nova tão desejada!...
Nossos campos se vestirão
De flores e belos frutos,
O povo despirá os lutos
Que envergava com paixão,
Nossos pais do coração
E toda a família amada
Ao verem a hora chegada
Do fim da guerra atroz,
Gritarão com todos nós:
 Temos a guerra acabada!...

http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/1918-novembro-guerra-acabou/indice.shtml

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Duas / uma DÉCIMAs que fala/m da I GRANDE GUERRA 14/18, de um soldado
DESCONHECIDO… recolhida em locais diferentes…

A pedido da professora de Educação Visual, na Escola Secundária de
Rio Maior, no ano lectivo de 1976/77, para que os alunos
trouxessem para as aulas Cantares Populares, o aluno do 7º D, n.º
91 (150) Mário António Carvalho dos Santos, escreveu na contra
capa do caderno e na primeira folha, tudo seguido, o que ouviu
cantar a Júlia Jejuína da Cruz. Depois de várias tentativas para
decifrar, conseguimos descobrir que era com certeza uma Décima
que a senhora tinha ouvido e decorado e adaptado à sua maneira.

In Compact Disc Artes da Fala, Portel, 1996?, recolha em Santiago
de Rio de Moinhos (Borba/Évora), informante: Lino do Fado,
cantado um texto aprendido, aparece esta quadra de Décimas,
recolhida por Paulo Lima da OFICINA DO PATRIMÓNIO, Portel, Rua
do Álamo, 36, Câmara Municipal de Portel, 7220 PORTEL, tel.
611334:
Soldado ferido dita uma carta em 1917…
)http://www.blogblux.net.br/2014/08/o-que-essas-30-fotos-historicas-revelam.html)

Ao te escrever estas linhas
Muito chora meu coração
Porque as palavras são minhas
Só as letras as não são.

São nove de Abril meu amor
triste dia em que ditei
tudo quanto por ti passei
ó minha adorada flor
pedaços da minha dor
fatalidades da vida
não sabes nem adivinhas
quanto padeço querida
estou entre a morte e a vida
ao te escrever estas linhas.

numa horrorosa batalha
ao fim de tanto cansaço
estou ferido perdi um braço
numa chuva de metralha
adeus meu amor passa bem
que eu por ti fico chorando
pela amizade que te tenho
sempre amor me estás lembrando
todo o meu corpo está sangrando
muito chora meu coração.

olha leva à minha mãe
muitos beijos e carícias
diz-lhe que estou vivo estou bem
e que de mim tens notícias
depois desengana também
a minha pobre irmãzinha
que lá está coitadinha
e sente como tu sentes
porque és tu que não me mentes
porque as palavras são minhas.

ó mãe da minha alma
pai do meu coração
por muitos anos que eu viva
não lhes pago a criação
o que em nome de deus começo
em nome de deus acabo
sem dizer seu nome em vão
nesta minha condição
porque as palavras são minhas
só as letras as não são.
Ao escrever-te destas linhas
Só chora o meu coração
Que estas palavras são minhas
Só as letras é que não.

A nove de Abril meu amor
E triste dia em que ditei
E tanto que eu cá em ti pensei
Minha adorada flor
Pedaços de minha dor
Oh minha lembrança de Aninhas
Tu não pensas tu nem adivinhas
Oh minha adorada querida
Eu estou entre a morte e a vida
Ao escrever-te destas linhas.

Numa horrorosa batalha
E no fim de um grande cansaço
Olha já cá fui ferido e perdi um braço
Numa chuva de metralha
Vês tu enquanto a nossa esperança falha
Ou por acaso ou por maldição
Já nem sequer possui braço nem mão
Para depois te dar em casamento
Com horror e estremecimento
Só chora o meu coração.

Olha leva à minha mãe
Muitos beijos e carícias
E diz-lhe que tens de mim notícias
Que eu sou vivo e que estou bem
Depois enganas também
Minhas queridas irmãzinhas
Inocentes, coitadinhas
Que sentem como tu sentes
E diz-lhe que não és tu que mentes
Que estas palavras são minhas.

Enquanto tudo esvaece
Trata aí doutro namorado
Porque um pobre inutilizado
Que condições é que oferece
Nosso amor desaparece
Fica comigo a paixão
Recebe ainda como recordação
Ainda mais esta cartinha
Junta às outras que aí tens minhas
Só as letras é que não.


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ANTÓNIO MIGUEL CARMO
(de S. Matias, Beja, nasceu em Junho de 1896... e morreu em Março de 1968)

ADEUS, MINHA QUERIDA AMADA,

ADEUS MINHA QUERIDA AMADA,
ESCUTA, DÁ-ME ATENÇÃO:
EU CÁ VOU JÁ DE ABALADA
COM PENAS NO CORAÇÃO

Cá levo uma saudade
Que não a posso deixar.
Não me deixas de lembrar,
Acredita que é verdade.
Não me percas a amizade,
Fica de mim bem lembrada.
Cá te levo retratada
Dentro do meu coração
E aceita um aperto de mão
Adeus, minha querida amada.
Se soubesses, meu amor,
A dor que o meu peito sente!
Tu hás-de me lembrar sempre,
Ó minha branca flor.
Para mim tens todo o valor,
Ó minha doce adorada.
Sempre serás minha amada,
Se eu não chegar a morrer...
E agora é que tem de ser,
Eu cá vou já de abalada.

Vê lá, se tens sentimentos,
Ó minha rosa tão querida...
Vou-te dar a despedida.
Acaba-se o nosso bom tempo...
Cá vais no meu pensamento,
Ó minha rosa em botão,
Amor do meu coração...
Já te não posso falar.
Não faço senão chorar,
Escuta, dá-me atenção.

Com a esperança de não voltar
De ti me vou despedir,
Mas se ainda tornar a vir,
Eu lá te irei visitar...
Eu desejava falar
Contigo com atenção.
Levo uma grande paixão
Causada a teu respeito
E cá vai, meu leal peito,
Com penas no coração.

Esta DÉCIMA é de ANTÓNIO MIGUEL CARMO,
pai de D. Antónia Carvalho e dita por ela, em 6 de Abril de 1996.
Esteve 18 meses, nas linhas de fogo, da 1ª GRANDE GUERRA MUNDIAL, de 1914/18.
(?Ver ??) Nasceu em Junho de 1896 (faria 100 anos neste ano de 1996 ) e faleceu em 25 de
Março de 1968.
Talvez tenha sido esta DÉCIMA e outros poemas que ela recorda, que deixaram à filha esta
inclinação ou vocação para a poesia.







(http://zelmar.blogspot.pt/2011/10/regina-zilberman-entrevista.html)
(http://letrasdespidas.blogspot.pt/2014/06/em-paz-os-filhos-enterram-seus-pais.html)

PORTUGAL NA I GUERRA MUNDIAL na VOZ de POETAS POPULARES

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Inocêncio de Brito (Poeta Popular, S. Matias, Beja, 1854 - 1938
4 Décimas a respeito da I Grande Guerra Mundial
1914 / 18 ou prenúncio da II, 1938 – 1945?

1. Kaizer déspota orgulhoso (com manuscrito)
2. A rainha das potencias (com manuscrito)
3. No Mundo p’ra que haverá (dactilografada por?)
4. «Fazem navios de guerra» (com manuscrito)



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Manuscrito – do próprio Inocêncio de Brito – guardado pela família…

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KAIZER DÉSPOTA ORGULHÔSO – (mn) - (“um sobrano entre sobranos” – seria um subtítulo?)

Kaizer déspota orgulhôso
Mau progéto concebêstes
Deos da terra ser quizestes
Julgastes subir decêstes

Dinheiro, munições e tropa
Deram-te um altivo porte
Que intentou teu braço fórte
Conquistar toda a Europa
Nunca envergastes a ópa
Dum cristão que é piedôso
Com lusbel ambicioso
Isso sim qu és comparado
E como êle és castigado
Kaizer déspota orgulhôso
Imitar o supremo Ente
Querias Guilherme segundo
E sêres adorado no mundo
Como um onipotente
Coitado pobre inocente
Baldado esfôrço fizestes
Um sonho ilusorio tivestes
Tão illudido sonhastes
Que quando louco acordastes
Deos da terra ser quizestes

Cego por uma ambição,
Vencido dum máo pensar
Tanto quizéste abarcar
Que não te coube na mão
Enganos da illusão!
Tão sabio e não percebestes
Ao contrario te convencêstes
Seres milagrôso seres santo
Quando avançastes a tanto
Máo progeto concebêstes

Um soberano entre os soberanos
Um distinto Imperador
Quis mais ser conquistador
Conquistou paixões e danos
Errados foram teos planos
Quando tanto pertendestes
Pensastes ganhar perdêstes
Saiute a sorte fatal
Meu Deus artificial
Julgastes subir decêstes

Nota: Ortografia conferida pelo manuscrito. Não se vê a assinatura na fotocópia.
(Dedicada a: Kaiser, Oficial Alemão, na Guerra 1914/18) É uma nota que vem na cópia, já escrita à
máquina, pelo Senhor Jaime Curva e que me chegou às mãos através do Senhor Manuel Aleixo. É evidente
que no decorrer da Décima, Inocêncio de Brito se refere a Guilherme Segundo, Imperador alemão (1859-
1941) que, com o seu espírito militarista e expansionista veio a provocar a I Grande Guerra, 1914/18 e se
exilou, nos Países Baixos, desde 1918.
Numa primeira leitura, para as pessoas que conhecem mais a Segunda Guerra Mundial e o que com ela
está relacionado, tudo nos levava a crer que se referia a Adolfo Hitler, mas a II Grande Guerra só foi
desencadeada em 1938, ano da morte de Inocêncio de Brito, embora a Guerra já estivesse como que
desenhada e preparada desde há muito, como aliás se pode ver bem neste poema.
A palavra “progéto”, com acento, no segundo verso do Mote e “progeto”, sem acento, no final da segunda
décima, deixámos como estava uma vez que não impede uma leitura correcta.

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A RAINHA DAS POTENCIAS – (mn)

A rainha das potencias
Morreulhe o óstentamento
A primeira a sciencias
Vestiu-se de sentimento
A excéta entre as nações
Jogou sem necessidade
Perdeu por fatalidade
Homens armas seus brazões
Das soberbas ambições
Provem-em as decadencias
Funestas consequencias
Suporta o muito exigente
Dá disto prova evidente
A rainha das potencias
Duma febre padeceu
Quatro anos meses e tal
Não apòs remédio ao mal
Com febre o delirio morreu!
Esta febre procedeu
Das erradas conferencias
Erradas experiencias
E por tanto erro talvêz
Errou a conta que fez
(«A rainha das potências» no mn.)
A primeira a ciências

Pena é que huma Rainha
Que entre as mais foi exaltada
Se veja agora tornada
A tão humilde e mesquinha
Morreu-lhe o brilho que tinha
Tudo quanto era opulento
A pátria do espavento
Soberba, rica orgulhósa
Com febre contagiosa
Morreu-lhe o ostentamento

Fez uma conta coitada
Pondo néla confiança
Sonhada foi sua esperança
A conta saiu-lhe errada
Éla então envergonhada
Por seu nulo atrevimento
Elevou seu pensamento
Pedindo perdão a Christo
E com vergonha e paixão disto
Vestiu-se de sentimento

Esta Décima parece referir-se directamente ao final da Grande Guerra...
«Até o final da guerra, quatro grandes potências imperiais — os impérios Alemão, Russo, Austro-
Húngaro e Otomano — deixaram de existir…»
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Mundial)
excéta – Esta palavra que em princípio não existe, foi inventada por Mestre Inocêncio, com
certeza a partir de “excepto” que pode ser prep.: com sentido de “fora” “salvo”; adj.: que quer
dizer “excepcional”, “exceptuado”, “excluído”; e até s.m.: no sentido de “Aquele contra quem se
aduz excepção em justiça”.
Parece que podemos entender que este adjectivo poderá querer dar a ideia de “excepcional” ou
excelsa ou que se tornou excluída ou mal vista entre as outras...
É de ter em conta este fenómeno de procurar criar palavras novas, a partir de uma palavra que
se não conhece bem, para exprimir uma ideia e que sirva para resolver os problemas de métrica
e em muitos casos, de rima...

Sobre esta décima, que terá sido feita depois de 1918 e do fim da Primeira Grande Guerra, não
sabemos quando terá sido passada a escrito. Isto para perceber que o Poeta trocou a Primeira
com a Segunda décima, na ordem que costuma dar e no final da terceira décima escreveu o
primeiro verso do mote a que nós substituímos pelo terceiro…
É uma das poucas alterações que, por evidente, nos atrevemos a fazer.
(http://www.joraga.net/iBrito/pags/04decimas30_24.htm )

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(À falta de manuscrito, esta é uma das várias versões que parentes e amigos têm de algumas das DÉCIMAS
de Inocêncio de Brito. Esta é de


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NO MUNDO PORQUE HAVERÁ - dc

No mundo porque haverá
Afronta guerra e vingança
Se o cemitério além está
Onde tudo em paz descansa
Para que luta a humanidade
Sem ter repouso um momento
Para que luta o pensamento
Com tanta adversidade
Se a crua realidade
Com a guerra findará
Porque a paz não reinará
Nos dias de existência
Causa guerra tal tendência
No mundo porque (pra que)haverá
O desejo de mandar
A cegueira de conseguir (possuir)
A ambição de possuir (conseguir)
Manda vencer e tomar
A (Mas a) morte manda largar
Chega e diz largue lá
Em chegando não há
Ambições a conce(d)ber
Para que é (quê) contares com viver
Se o cemitério além está

Pr’a que é a luta incessante
(Porquê o ódio incessante)
Nos dois momentos da vida
P’ra que é (Porquê) a luta renhida
Sem ter repouso um instante
Na guerra grita-se avante
Sem na vitória haver esperança
Em vez de uma ira mansa
Remediável e prudente
Só reina constantemente
Afronta guerra e vingança


Além está onde terás
A tua eterna morada
Onde há-de ser assinada
Santa União Santa Paz
Pensa quem és Quem serás
Que diferença que mudança
Aqui onde a guerra avança
Onde o descanso é nenhum
Além a vala comum
Onde tudo em paz descansa

Não conferida pelo manuscrito original. Os parêntesis indicam algumas das variantes
encontradas nas várias cópias.


«Troupes portugaises débarquant à Brest (1917)»
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugal_na_Primeira_Guerra_Mundial)


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FAZEM NAVIOS DE GUERRA - mn

Fazem navios de guerra
Maquinas pra trabalhar
Não aparece um artista
Que faça chover e escampar

É pena que a sepultura
Oculte bens preciosos
Os feitos maravilhosos
Que illustrão a creatura
Devido à architetura
Que os primôres da arte encerra
Os architetos na terra
Fazem obras especiais
E os architetos navais
Fazem navios de guerra
Milhares de artistas têmos
Que maquinas fazem mover
E a carreira suspender
Muito bem o conhecêmos
Mas esta em que nós vivêmos
Aparente ou imprevista
Se a move o seu maquinista
Com raios, trovões, chuva ou vento
Que lhe impéssa o movimento
Não aparece um artista.

As grandes inteligencias
Os eminentes talentos
Elevão seus pensamentos
Ao alto grau das sciencias
As marítimas experiencias
Fazem vapôres pro mar
E pra na terra se tornar
A lide mais vantajosa
Faz a classe industriosa
Máquinas pra trabalhar

Um que explique a combustão
Com que a máquina se move
Com causa justa que aprove
Se é lenha gaz ou carvão
O summo poder na mão
Se o tem pode mostrar
Faça o tempo moderar
Nem muito frio nem muito quente
Um artista finalmente
Que faça chover e escampar

Nota: Ortografia conferida pelo manuscrito. Não se vê a assinatura na fotocópia.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Mundial)


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Manuel António Castro:
«…nasceu na vila de Cuba em 7 de Março de 1885. Finalmente, ignoto, o seu
corpo «baixa à terra fria» em 1972»
http://ebicuba.drealentejo.pt/ebicuba/jornal/jornal07/pagina-personalidade/manuel_antonio_castro.htm

FUI NOVA CORTANTE ENXADA
DESBRAVEI, CAVEI O CHÃO,
FUI SUCATA ABANDONADA,
ANDO GORA NUM CANHÃO!
Quase me lembro de ser
A pedra dum mineral
E lembro-me a luta fatal
Do braço p’ra me colher;
Levaram-me a derreter,
Fui em ferro transformada,
Fui depois à martelada
Numa bigorna estendida,
Deram-me a forma devida
Fui nova, cortante enxada.
Começava de manhã
Sempre em luta vigorosa,
Mesmo em terra pedregosa,
Cada vez com mais afã,
Resisti enquanto sã
A poder ser consertada,
Já rasinha e dilatada,
Deixei de ser ferramenta,
Fui p’ró canto ferrugenta,
Fui sucata abandonada.

Comprou-me um moço possante,
Pôs-me um cabo de madeira
E lá vou na segunda-feira
Nos braços desse gigante;
Desde esse dia em diante
Foi a minha profissão
Desbravar terras de pão,
Relvas, vinhas olivais,
Vinte anos, talvez mais,
Desbravei, cavei o chão.

Passei anos sem valor
Com velhos ferros como eu,
Até que um dia apareceu
Lá por cassa um comprador;
Meteram-me num vapor,
Fui a nova fundição,
Por meu destino ou condão
Nunca mais cavei na terra,
Mandaram-me para a guerra,
Ando agora num canhão!


















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trabalho realizado
por @ JORAGA
Vale de Milhaços, Corroios, Seixal
2014 OTUBRO






JORAGA










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http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/1918-novembro-guerra-acabou/indice.shtml


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