DÉCIMAS recolhidas por J.

LEITE DE VASCONCELLOS
In – CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por J. LEITE DE VASCONCELLOS,
coordenado e com introdução de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, II volume,
por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1979, pp. 441 – 485 e III, 1983, pp. 442 e 443

«Dado o apreço em que tinha estas décimas, o Prof. Leite de Vasconcellos conservavaas em maços à parte de outras composições. Versando vários assuntos, servem, na
maioria dos casos, de glosas a quadras.»
Nota de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES

Digitalização de José Rabaça Gaspar
ver mais sobre DÉCIMAS, em: http://www.joraga.net/cantodasdecimas/

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

Da introdução do Cancioneiro Popular Português
Coligido por J. Leite de Vasconcellos
Coordenado e com introdução de
MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES
I volume, por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1975, pp. XXXVIII e XXXIX
«Entre as cantigas compiladas, ocupam os ritmos uma incontestável proeminência
pela sua extraordinária beleza e nítido carácter de cantigas paralelísticas que maravilhosamente persistem com perene juventude, marca das verdadeiras obras de arte.
Numerosas décimas, por vezes glosas a motes podem ser curiosas por denotarem certa influência da poesia culta.
Mas mostram a marcada dificuldade da musa popular se espraiar A em longas tiradas
oratórias: há frequentes quebras na sequência do raciocínio e evidentes embaraços de
expressão. Estão bem longe da transparência cristalina e aliciante simplicidade verificáveis na maioria das outras cantigas, singelas e espontâneas.»
«As cantigas são valiosas nos seus aspectos literário, filológico e etnográfico. É o Cancioneiro importantíssimo documento para a revelação do povo português, encarado
tanto na sua vida psíquica como na material e na evolução do meio em que habita.
Conceitos de vida, sentimentos, usos e costumes tradicionais, frequentemente já obliterados nas classes evoluídas, tudo aí se espelha.
Não será insistência demasiada recordar que eminentes etnógrafos da actualidade são
concordes em que, para o perfeito conhecimento dum país, é imprescindível o estudo
das suas manifestações não só cultas mas também populares.*»
MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES.
CPP -- I volume, por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1975, pp. XXXVIII e XXXIX

*A presente Introdução é em parte baseada em dois artigos meus --O Cancioneiro inédito do Doutor
Leite de Vasconcelos e A Flor, Motivo Folclórico Português – respectivamente publicados nos n.ºs 3
e 13 da Revista de Pedagogia e Cultura Palestra, fundada no Liceu Normal de Pedro Nunes por um
dos seus reitores, o Dr. Francisco Dias Agudo.

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS
In – CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por J. LEITE DE VASCONCELLOS,
coordenado e com introdução de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, I volume, por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1975, pp. XXXVIII e XXXIX

«Dado o apreço em que tinha estas décimas, o Prof. Leite de Vasconcellos conservavaas em maços à parte de outras composições. Versando vários assuntos, servem, na
maioria dos casos, de glosas a quadras.»
Nota de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES

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Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

Ficha Técnica:
Título -- DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS -- In – CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por J. LEITE DE VASCONCELLOS, coordenado e
com introdução de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1975, volume I, XXXVIII e XXXIX; II pp. 441 a 485; e III pp. 442 e
443.
Digitalização e Organização – José Rabaça Gaspar
Data – 2015 07
Ver mais para complementar, em:
http://www.joraga.net/cantodasdecimas/index.htm
http://www.joraga.net/cantodasdecimas/pags/page_001.htm
http://pt.scribd.com/doc/86559072/Poetas-Populares-CBeja-Separata-Albernoa-2012-294p
http://pt.scribd.com/doc/81937134/Poetas-Populares-do-Alentejo-e-o-CANTE?in_collection=3516155
http://pt.scribd.com/doc/83326105/IACD-Congresso-Alentejo-1985-ANEXO-DECIMAS-de-ManuelVieira-e-Maria-do-Rosario-1840?in_collection=3516155
http://www.joraga.net/cantodasdecimas/pags/page_002_001_guerra1418.htm

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

dedicatória:
A minha HOMENAGEM
aos POETAS POPULARES
criadores desta Arte Maior da Poesia Tradicional…
que têm sido tão ignorados e menosprezados…

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

apresentação
Textos para reflectir:
«Numerosas décimas, por vezes glosas a motes podem ser curiosas por denotarem
certa influência da poesia culta.
Mas mostram a marcada dificuldade da musa popular se espraiar A em longas tiradas
oratórias: há frequentes quebras na sequência do raciocínio e evidentes embaraços de
expressão. Estão bem longe da transparência cristalina e aliciante simplicidade verificáveis na maioria das outras cantigas, singelas e espontâneas.»
Da introdução de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, CPP, volume I, XXXVIII e XXXIX.
«Dado o apreço em que tinha estas décimas, o Prof. Leite de Vasconcellos conservava-as em maços à parte de outras composições. Versando vários assuntos, servem, na
maioria dos casos, de glosas a quadras.»
Nota de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, CPP, volume II, cap. XXI, p. 441
COMUNICAÇÃO (a) apresenta(da)r nas II JORNADAS DA REVISTA ARQUIVO DE BEJA,
subordinadas ao tema: O ALENTEJO E OS OUTROS MUNDOS passado, presente e futuro a realizar em Beja, NERBE, 2.3.4 e 5 de Abril de 1998.
TEMA: AS DÉCIMAS populares? A MAGIA da POESIA POPULAR? Uma ligação mediática
com Outros Mundos?
Uma ARTE MAIOR praticada por POETAS populares (sobretudo ao Sul de Portugal) a
pedir um estudo sério e profundo a nível superior. É praticamente ignorada e/ou tida
em menos conta em todos os níveis do ensino em Portugal, o que é de lamentar.
Entretanto, podemos considerar a DÉCIMA um pequeno prodígio de ARQUITECTURA
FORMAL (da Métrica, ao Ritmo, à Rima, desde a Quadra Mote, à Glosa em quatro décimas espelhadas e de retorno a cada um dos quatro versos), como base e fundamento
de uma ARTE SIMBÓLICA plurissignificativa.
A mera exigência FORMAL (a que raros eruditos se atrevem) é PRATICADA COMO
EXERCÍCIO LÚDICO POR POETAS DO SUL, a maioria considerados analfabetos, por vezes em despiques ou descantes fortuitos em tabernas ou convívios sociais, pondo-a ao
serviço de temas que vão desde a pura diversão, aos temas do quotidiano, à história, à
crítica social ou política, até aos temas filosóficos da mais profunda sabedoria. (Beja,
Abril,1996.
Dizer uma Décima (os poetas que as dizem são conhecidos como "dezedores", entoá-la
ou cantá-la, é uma arte, tanto para aquele que a diz, como para aquele que a ouve ou
lê. Como arte, é algo que requer, muito de intuição e inspiração, aprendizagem e exercício.
Finalmente arriscamos afirmar que é uma Arte Superior, ou pode ser em princípio, só
acessível aos que têm o dom de contactar ou ter acesso a formas de comunicação
pouco comuns..., talvez uma certa magia..., algo só acessível aos deuses ou aos que

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Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

podem comungar com a divindade!!! Será uma afirmação exagerada? Pouco ortodoxa? Que sai fora dos instrumentos de estudo e análise usuais? Mas quem sabe definir o
que é a inspiração? O que são as "Tágides" ou as "Ninfas do Mondego" de Camões, as
"musas" e os "dons" de que falam os poetas? Onde estão os donos e os mestres da
Língua? E os da Poesia? É proibido inovar, ou não se deve falar daquilo que se não conhece? Arriscamos, enfim, a considerar as DÉCIMAS POPULARES como um PRODÍGIO
DE ARQUITECTURA POÉTICA a exigir um prodigioso exercício de ginástica mental, praticado muitas vezes por poetas considerados analfabetos!
AUTOR:
José Rabaça Gaspar, professor de Língua e Literatura Portuguesa, colocado na Escola
Secundária D. Manuel I Beja; e a exercer funções, por destacamento, na Escola Secundária João de Barros Corroios, com o encargo de dar apoio ao Conselho Directivo para
a Dinamização de Actividades Culturais.
http://www.joraga.net/cantodasdecimas/pags/page_000.htm#txt_02

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

Índice

Conteúdo
Assuntos vários versados em Décimas .......................................................................................11
1. Recusa de namoro ..............................................................................................................11
2. Uma «Função» ...................................................................................................................12
3. Amores ...............................................................................................................................13
a) Eu amo e vivo com gosto ................................................................................................13
b) Recebi o vosso mimo......................................................................................................14
c) Se eu numa guerra morrer, ............................................................................................15
d) Assim que os teus olhos .................................................................................................16
e) Décima feita por um pastor:...........................................................................................17
f) Um ganadeiro dá dois botões de rosa à namorada: ........................................................17
4. Infelicidades .......................................................................................................................18
a) Altos Céus que me roubastes .........................................................................................18
b) Já fui, agora não sou, ......................................................................................................19
c) Na frente desta prisão ....................................................................................................20
d) Ó homem, tu que dirás ..................................................................................................21
e) Sou mãe, não tenho filhos, .............................................................................................22
f) Tu és rico opulento, ........................................................................................................23
g) (Composição incompleta) ...............................................................................................24
5. Décimas de maldizer ..........................................................................................................25
a) Messejana de algum dia, ................................................................................................25
b) O mineiro traja bem: ......................................................................................................26
c) Poder do diabo, um dia ..................................................................................................27
d) Homem, tens tanto talento! ..........................................................................................28
6. Graças.................................................................................................................................29
a) Esta nôte que há-de vir ...................................................................................................29
b) Quando Judas teve sarampo, .........................................................................................30
c) Rapazes, quando eu morrer, ..........................................................................................31
d) Eu vi umas casas a boar ..................................................................................................32
e) Minha mãe já quer que eu use .......................................................................................32
f) Sou um rapaz muito pobre, .............................................................................................33
g) Décima solta ...................................................................................................................34
7. Décimas Geográficas ..........................................................................................................35
a) Fez sábado quinta-fêra ...................................................................................................35

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b) Pernes, terra de piratas, .................................................................................................36
c) Despique do Alentejo e do Algarve. ...............................................................................37
d) Torres, Pontena, Pedreira, .............................................................................................40
e) Duas Décimas .................................................................................................................40
8. Décimas Históricas .............................................................................................................41
a) Alegrai-vos, portugueses, ...............................................................................................41
b) Padre, Filho, Espírito Santo ............................................................................................42
9. Sobre a Morte ....................................................................................................................46
a) Com dinheiro de contado ...............................................................................................46
b) Pus um pé na sepultura ..................................................................................................47
10. Décimas Religiosas ...........................................................................................................48
a) Foi a maçã da ciência ......................................................................................................48
b) Senhora da Natividade ...................................................................................................49
c) Na hora de Deus começo: ...............................................................................................51
d) Ó Virgem Santa Maria, ...................................................................................................52
e) Quando Cristo faleceu ....................................................................................................53
f) Quando Deus Nosso Senhor............................................................................................54
f') Vou-te dar a relação .......................................................................................................55
g) Duas Décimas .................................................................................................................55
11. Filosofia da Vida ...............................................................................................................56
Eu vi o filho do rico .............................................................................................................56
12. Pragas ...............................................................................................................................57
És engrata p'ra comigo: ......................................................................................................57
13. Do Sal ...............................................................................................................................58
Eu sou fêmea de nação ......................................................................................................58
14. Aos 82 Anos do Calafate (na Noite da sua Festa) .............................................................59
Oitenta e dois hoje conta, ..................................................................................................59
15. Décima solta .....................................................................................................................59
Antiga Alfabetização ...........................................................................................................59
A Descida dum Avião numa Aldeia .........................................................................................60
Ficou-me isto na memória: .................................................................................................60

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

In – CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por J. LEITE DE VASCONCELLOS, coordenado e com
introdução de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, II volume, por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1979, pp.
441 a 485

XXXI

Assuntos vários versados em Décimas1
1. Recusa de namoro
Ele:
Eu sou das cabras cornel
Não me envergonho de o dezer.
Senhora, Venho ver
Cá dentro o seu quartel.
Se for amante fiel,
Fazemos logo um contrato:
Eu sempre trago bom fato,
Quando não trago ruim.
E, se me dexer que sim,
Dou-lhe dois chibos e um anaco.
Ela:
Dois chibos e um anaco
Me quer o senhor dar...
Pode-se já retirar,
Antes que leve co’um sapato!
Não seja maroto e velhaco,
Por não lhe dar uma or’lhada.
Que eu, em vendo gente espantada.,
Nunca lhe mostro calor.
P'ra casar com semelhante estapor,
Era melhor não ser casada!
Ele :
Que tem de ser muito alua o,
Já a senhora me arrima esse.
Pois eu tenho muito lête,
Já algum lhe tenho dado...
Mas então será errado
Eu dar-lhe maior' razões,
Que eu vejo nas suas acções
Que eu nada lhe meto graça.
Olhe que eu a dita cabaça
Hê-de levá-la no bolso dos calções.

Ele:
Era melhor não ser casada...
Desse modo fala a senhora!
Tinha-a como a lavardora
Na minha casa descansada,
Não lhe havera de faltar nada.
Eu pagom-me minha renda,
E bons vestidos d'incomenda,
Outras coisas que eu não lhe explico
Olhe que eu sou muito rico:
Tenho muita cabra e boa fazenda.
Ela:
Muita cabra e boa fazenda
Que tem o senhor moiral!
Não quero tanto cabedal,
Nem mereço tanta tenda.
Só merecia uma prenda
Para ser o meu namorado.
'Scute bem o meu recado
Visto ser rapaz solteiro:
Não no quero por ser cabreiro,
Que tem de ser muito aluado.

1

1 Dado o apreço em que tinha estas décimas, o Prof. Leite de Vasconcellos conservava-as em maços à
parte de outras composições. Versando vários assuntos, servem, na maioria dos casos, de glosas a quadras.
Notas de JRG: Começa com uma Décima sem mote e com uma extra além das 4 décimas habituais…

11

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

(Alandroal.)

2. Uma «Função»
Toca, toca, tocador,
P'ra que te dêem uma pinga;
Eu também bou a cantar
'Ma cantiga muito linda.
I
Boas noites, meus senhores,
Vim aqui sem ser 'sperado:
Vanho dar meu rocado
Òs: meus próprios superiores.
Dou-lhe honras e loivores
Aonde quer que eu estiver.
Eu não posso ter temor,
Porque é própria a minha idade,
A minha fim é cantar.
-- Toca, toca, tocador.

3
Hoje há aqui muita alegria
Porque andam a dançar,
Um tocador a tocar:
É hoje um rico dia.
Só Deus podia este fazer,
Este dia assinalar,
Eu não no posso negar:
O poder de Deus é tanto,
Valha-nos o Espírito Santo!
Eu também bou a cantar.

2
Vim aqui sem ser chamado,
P'ra ver aqui uma brincadeira.
Eu vim logo a carreira
Mas não era aqui esp'rado.
Vim aqui destinado
Só para me adevertir.
-- Toca lá uma moda linda
Para esta gente dançar;
Òs senhores faz a vontade
P'ra que te dêem uma pinga

4
Estas meninas donzelas
Gostam muito de dançar,
Só por via de casar
Andam todas amarelas. ~
Disseste bem, ó Palmela,
Eu quero acreditar:
Aqui está uma menina
Em que tu trazes o sentido.
Considero bem no que digo:
É esta uma cantiga bem linda.

(Figueira da Foz.)
Notas de JRG:
1 -- Figueira da Foz -- Beira Litoral mas sem concretizar mais…)
2 -- Uma «Função» -- Esta décima fala de um tocador que aparece, de surpresa, numa
festa popular… Na Figueira da Foz? Refere-se um «Palmela», alguém que vem do Sul,
onde as Décimas seriam mais divulgadas…?

12

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

3. Amores
-- (de a) a (f) serão 6 conjuntos de décimas sobre este tema dos “Amores”]
a) Eu amo e vivo com gosto

Esp'rando minha ventura:
Posso um dia ser feliz
Com a tua formosura.
I
Pensas que a minha alegria
É firme p’ra mais alguém?
Considera que o teu bem
Tem contigo simpatia.
Vem-me a dar a demasia,
Que eu a tudo estou disposto.
Eleva-me a esse rosto,
Não te posso fazer ver,
Tenho mais que te dizer,
Eu amo e vivo com gosto.

3
Adeus, ‘çucena amorosa,
Tua ausência foi meu fim,
Guarda sempre para mim
Do teu jardim uma rosa.
És a felor mais mimosa
Por quem eu excessos fiz.
Há um ditado que se diz,
Que eu tenho na lembrança:
-- Quem espera, sempre alcança Posso um dia ser feliz.

2
Se me quer's ouvir falar,
Dá-me uma ocasião.
Eu vou dar-te uma razão
P'ra te acabar de contar.
Eu tenho que conversar
Com a tua criatura.
Em te vendo à costura
Fico preso em vários laços,
Eu por ti dou muitos passos
Esp’rando minha ventura.

4
Com toda a delicadeza
Fui pôr a mão no altar,
Fiz protestos em te amar
Cada vez com mais firmeza.
Tu és a milhor princesa
Por quem eu fiz uma jura,
Ainda que eu vá p'rà sepultura,
Debaixo da terra fria.
Então morro de alegria
Com a tua formosura.

Notas de JRG:
Donde? De quem?

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Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

(jrg – uma série de Décimas não sujeitas a mote… trata-se de DÉCIMAS silvadas, que se
ligam pela repetição do último verso da décima anterior…
1
4
O coração, alma e vida
b) Recebi o vosso mimo
Que tudo eu por ti darei!
Com grande consolação
Mas vê tu o que eu farei
Dentro do meu coração,
Se te vir ofendida.
Como uma coisa que eu estimo.
Vós sois praça guarnecida
Por isso agora me alimo
Que a não vence o meu valor,
Dar de mim correspondência
Se houver outro vencedor
E como vivo na vossa ausência
De quem eu sou vencido e cativo,
Perdoai, se for mal fêta,
Eu sou amante que vivo
Ca mesma ausência me deta
Preso com laços de amor.
Letras ò meu coração.
Ando vário com paixão,
Não poderei pôr obra derêta.
(12 versos?)

2
Não poderei pôr obra derêta
Como é suficiente,
Mas visto vos ser tão corrente
Sempre espero de ser aceta
A vossa graça minha sujêta
E toda a minha inclinação.
Andais no meu coração
E vossas lindezas são laços;
Permita Deus como aos meus braços
Veja ainda essa prisão.

5
Preso com laços de amor
Nas prisões em que me eu vejo,
Só quem mata o meu desejo
É o nosso agrado actor. (?)
Linda rosa e linda flor,
O que crendes vós que te eu faça,
Que vós sois aquela fogaça
Tão nobre e ingrandecída?
Até me parece que estás vestida
Toda de dotes de graça.

3
Veja ainda essa prisão,
Quero duma tal sorte
Daqui ‘té que venha a morte
Não se quebre esse grilhão.
Quem te oferece o coração
E diz que nele faça a ferida,
Prenda desta alma querida,
Vê que ferida fará
Quem por ti ‘f'rece e dá
O coração, alma e vida.

6
Toda de dotes de graça
E de mil preparos reais,
E vós sondes a que brilhais
Na mais clara virdaça
E tudo quanto a terra abraça
É ao vosso semblante.
Não vi outro similhante
Notado em lindeza,
Que até o mesmo Sol lhe pesa
Não ser o vosso amante.

7
Não ser o Vosso amante
O mesmo Sol que tem pesar,
E eu inda tenho a dobrar.
E toda a hora e todo instante

Ainda vivo na esperança,
Claro afecto, lograr-te,
Nunca na Vida deixar-te,
Que sendes um amor perfêto.
Hê-de fazer em meu pêto
Uma cova e enterrar-te.

(Alandroal.)
14

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

c) Se eu numa guerra morrer,

Uma bala me dei fim,
Não deixarei de dizer:
Fostes engrata p'ra mim.
I
Apenas ouvi teus ditos,
Retraí as tuas palavras,
Abismei que me mandavas
Teus carinhos esquisitos
Por cartas ou por escritos.
A ver se podia ser,
Não sei o que hei-de fazer.
Já vou estando aborrecido
Só te perco o sentido
Se eu numa guerra morrer.

3
Tomei-te tal amizade
Logo assim que te vi!
Talveis por causa de ti
Não esteja em liberdade
A suciva saudade
Que eu tenho em te ver.
Ausente dum bem-querer,
Tu amas seja a quem for,
Tu já me não tens amor
Não deixarei de dizer.

2
No teu peito só se acha
Uma firmeiza constante.
Dizes como engnorante,
O soldado não quer baixa.
Ainda rompo uma marcha
Para te dizer que sim.
Nas esp’ranças em que me vi
Foi-te lograr, querida.
Só espero nesta vida
Que uma bala me dei fim.

4
De amor desabandonado
Triste sorte foi a minha,
Todo o amor que te tinha
Para mim tem-se acabado.
Sobre o que me tens contado
Eu vivo num fernesim.
Tu despedes-te em latim
Não te posso proibir.
Direi enquanto enxistir:
Fostes engrata p'ra mim.

15

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

Composição incompleta
d) Assim que os teus olhos

Nem mais te pude deixar
Jurei à lei do amor
Outra felor não amar.
I
És o meu encantamento,
Tu és a minha alegria,
Tu dás-me simpatia,
(Pois tu dás-me muito alento
Para meu contentamento…)
Ê não posso 'star sem ti;
Minha pena aliviei,
Minha alma presa ficou,
Meu coração te adorou
Assim que os teus olhos vi. 2

…?

2
Acredita que eu não posso
Passar sem teu rosto ver:
Mais valia eu morrer
Do que deixar-te, amor nosso.
Vem tratar do negócio,
Faço gosto em te gozar;
Se me queres namorar,
Dá-me, amor a tua mão.
Confesso do coração:
Nem mais te pude deixar.

…?

2

Aparece uma oitava, quando seria de esperar uma décima!

Jrg – Arriscámos colmatar a falha dos dois versos com estes:
«(Pois tu dás-me muito alento

Para meu contentamento…)
Faltam ainda as duas últimas décimas…

16

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

e) Décima feita por um pastor:

Fui de amores convencida,
Isso é o que tu não pensavas,
E fui adonde tu 'stavas
Arriscado a perde'la vida.
Vim como coisa fugida
E sem ninguém saber
E arriscado a perder
A fama e o concêto...
Quem faz isto a teu respêto
É porque é firme até morrer.
(Alandroal, 1892.)

f) Um ganadeiro dá dois botões de rosa à namorada:

Vi-te, roseira brilhando,
Co'os teus lindos botanitos,
Tão viçosos, tão bonitos.
Dois te colho e dois te mando:
Estes vão habituando,
Para as nossas perfeições.
'Stima-me estes dois botões,
Sem malícia, sem mistura,
Que eles fazem na figura
Dos nossos dois corações.
(Ameixial, c. de Estremoz.)

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Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

4. Infelicidades
a) Altos Céus que me roubastes

Minha doce companhia:
Uma mãe que Deus me deu
Tanto bem que me queria.

18

1
Dela me devo lembrar
Da cruel morte enganadora.
Eu peço a Nossa Senhora
Que a tenha em bom lugar!
Ó morte, me quisestes roubar,
A luz dos meus olhos luvastes.
Já descansada ficastes
Quando o duro golpe lhe destes
Repara bem o que fizestes,
Altos Céus, que me roubastes.

3
Vivo no mundo sem abrigo,
De ninguém sou estimado,
Choro continuado
Enquanto meu corpo for vivo.
Senti um sonho tão torcido
Uma tarde em que eu sonhava,
Veleros passos dava
Numa noite tão escura.
Padeço com tanta tornura
Por uma mãe que tanto amava.

2
Quando os seus olhos fichou
Na fatal hora de agonia,
Às onze horas do dia
Sua alma a Deus entregou,
O seu corpo à terra deitou.
Ai, que grande tirania!
Nem de noite nem de dia,
Nem a mim me há-de esquecer,
P’ra nunca mais tornar a ser
Minha doce companhia.

4
Era meia-noite sigura
Quando eu me fui deitar;
Para meu lado fui olhar
Abriu-se uma sepultura.
Eu vi aquela figura
Que daquela campa saía,
Meu corpo se estremecia
Isto a mim não me convém.
Eu vi que era minha mãe
Que tanto bem me queria.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

b) Já fui, agora não sou,

já mer’ci, já não mereço:
Já tive muita valia,
Agora dei abaixo no preço
1
Já tenho outros amores
E o que vou dizer,
E p'ra quem os quiser ver
Eles são como felores.
Menina, escute a rezão
Que eu dar-lhe bou:
Logo a noite a casa lá bou
Para com você falar,
Mas deve-me desculpar:
Já fui, agora não sou.

3
Já escolhi à minha vontade,
Agora não tenho por donde escolher;
Já nesta terra não tenho
Quem me possa agradar,
A minha fim é chorar.
Hei-de acabar com a vida!
Já tive muita alegria,
Agora ando sempre triste,
Já amor não me assiste,
já tive muita valia...

2
Algum dia tive amores com fartura,
Agora não sabem de mim;
Minha disgrácia foi assim,
Só eu tive pouca ventura.
Deus me leve nesta hora
Para eterna sepultura,
Eu muito isso conheço.
Ah, minha querida mãe,
Já não há no mundo ninguém!
Já mer'ci, já não mereço.

4
Já tive muita opinião
Caiu em mim a desgraça,
Ai de mim, não sei que faça,
Chora o meu coração.
Peço-te um favor...
Que eu já te conheço,
Muito te agradeço
Se tu mo fizeres:
De nunca a ninguém dizeres
Que já dei abaixo no preço.

(Figueira da Foz.) (Beira Litoral)

19

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

c) Na frente desta prisão

Vejo árvores balouçando,
Alegres os passarinhos
Sobre os seus ramos cantando.

20

1
Quando o véu da noite chega,
O firmamento escurece,
Quando a Lua aparece,
Minha alma então não sossega.
Quando vejo a dura enxerga
Estendida em negro chão,
O meu triste coração
Treme perante a desgraça.
Corro então a ver quem passa
Na frente desta prisão.

3
Lembra-me o Criador,
Dirijo os olhos ao Céu
E pergunto se esqueceu
Deste inocente a dor.
Contemplando a flor
Presa nos seus tronquinhos,
As árvores e os seus raminhos
Parece vê-los crescer.
Fico então contente em Ver
Alegres os passarinhos.

2
A brisa fresca e fagueira
É que meu peito invade.
Colando os lábios à grade,
Ali passo a noite inteira.
Quando a estrela derradeira
Seu brilho vai apagando,
Aurora vai arraiando,
Rende a Deus homenagem.
Ao bafo da fresca aragem
Vejo as árvores balouçando.

4
Como eles vivem contentes
Correndo para seus ninhos,
Ensinando os seus filhinhos
A serem também viventes!
São estes inocentes
Que me vão aleviando.
De ramo em ramo saltando,
As suas vozes intoam,
De árvore para árvore voam
Sobre os seus ramos cantando.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

d) Ó homem, tu que dirás

Se me vires no lupanar?
Só tu a. culpa tiveste
De eu à desgraça chegar.
1
Se me vires encostada
Entre as portas da desgraça,
Ouvirás dizer a quem passa:
-- És mais uma malfadada...
Sou por todos censurada,
Caso de mim ninguém faz.
Ó homem, se algum dia vás
Pela minha porta passando,
Em eu para ti olhando,
Ó homem, tu que dirás?

3
Por causa de ti perdi
Os abrigos de meus pais;
Agora, sem mais nem mais,
Falsidade te conheci.
Ao largo me derigi
Aonde reina o negro fado.
Só o homem mais desgraçado
Olha para mim com desdém;
Farás o mesmo também,
Tendo tu sido o culpado.

2
Não te lembras da miséria
Em que me deixastes cercada
Com a minha honra manchada
Entre a solidão mais séria.
O meu bem era quiméria
Era fraco o teu pensar,
Quisestes-me desfolhar,
Figestes grandes esforços.
Agora não tarás remorsos
Se me vires no lupanar.

4
Se tu não tinhas firmeza,
Para que atentastes na desonra?
Sabias que a minha honra
Que se não cobria com riqueza.
Eu, com a minha pobreza,
Tinha p'ra me arremediar
Com que a fome mantigar.
Sem ter aonde lançar mão,
Só hoje tens o galardão
De eu à desgraça chegar.

21

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

e) Sou mãe, não tenho filhos,

Causa-me ademiração
Ter um filho, não ser mãe
É meu legítimo irmão.
1
No meu ventre se gerou
Um filho que eu à luz dei.
Eu mano lhe chamarei
Porque mãe dele não sou.
A desgraça me arrastou
Porque sou mortal do trilho,
Com mais tristeza brilho
E é esta a minha luta
Mais valia ser prostituta
Que ser mãe, não ter um filho.

3
Quando alguém lhe perguntava:
-- Quem és tu, ó alma humana?
-- Sou filho da minha mana...
Ele nem resposta dava.
Com carinhos o tratava:
-- Não me deites ao disdém
Que um corpo bárbaro tem.
Foi um pai quem me criou
Que do meu corpo zumbou;
Sou mãe, não tenho filhos. (?)
(verso trocado… deve ser:

(Ter um filho, não ser mãe.)
2
Quando ao berço chegava:
-- Filha da desgraça sou,
Tu chamas ao pai avô...
Ele nem resposta dava.
Com carinhos o abraçava,
Não ‘stá mais na minha mão.
Já perdi a porteção
Que esperava de gozar;
Aos meus peitos a criar
Causa-me ademiração.

22

4
A minha mãe faleceu,
Só ao mundo me deixou.
Foi um pai que me criou
Se gozou do corpo meu.
Foi sorte que Deus me deu,
Deito ao largo o coração.
A negra prostituição
Por mim está a esperar
Assim que acabe de criar
Meu legítimo irmão.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

f) Tu és rico opulento,

Eu sou pobre sem vintém;
Dá-me aonde eu ganhe pão
P'ra me sustentar também.
1
Eu, cercado de filhinhos,
Sem ter da noite para o dia,
Dá-me aonde tire a valia
P’rós sustentar, coitadinhos.
Abre-me portos e caminhos
De onde eu tire o meu alimento,
De onde eu tire o meu sustento
P'ra alimento do meu cadáver,
Já que eu sou tão misarável.
Tu és rico e opulento.

3
Sou um pobre malfadado,
Vivo neste mundo de enganos,
Deito trinta mil pelanos
Ao fim tudo me sai errado.
Quando à noite vou cansado
Para aonde os meus filhos 'stão,
Até corta o coração
Vê-los sem nada que comer!
Tu me podes secorrer,
Dá-me aonde eu ganhe o pão.

2
Se me deito a roubar,
Dão-me título de ladrão;
Morrer de fome também não,
Que eu poder, posso trabalhar,
Quero meus filhos sustentar
Sem vergonha de ninguém.
Tu, rico, podes bem;
Val'-me, por Deus verdadeiro,
Já que tens tanto dinheiro.
Eu sou pobre sem vintém.

4
Muito custa Ver um homem
Os seus filhos a gritar
Ao pé da mãe a chorar
Dizendo: -- Ó mãe, tenho fome!
Esto até nos consome
O coração a uma pobre mãe,
Com misérias mais de cem,
Arrastada como a cobra.
Dá-me as migalhas que te sobra’
P'ra me sustentar também.

23

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

g) (Composição incompleta)

Como pode estar contente
Uma mãe que me criou?
Em toda a parte me precura
Sem saber aonde eu 'stou.

24

1
Dispois que criado me achei
Tomei uso da rezão,
Entreguei-me à relaxação,
Minha casa abandonei,
Pai e mãe, tudo deixei.
Dispois que era gente
Perdi o juízo de repente,
Segui a desgraça ao trilho.
Vendo uma mãe -- este é meu filho
Como pode estar contente?

Em toda a parte me precura

2
Se eu num momento pensasse
O que no mundo é uma mãe,
Não amava a mais ninguém.
Talveis só a ela amasse,
Se eu deveras pensasse
As dores que por mim passou.
A ser homem me ensinou;
Quantos amavios e afagos!
Não devia dar maus pagos
A uma mãe que me criou.

Sem saber aonde eu 'stou.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

5. Décimas de maldizer
a) Messejana de algum dia,

Tinhas tu, tanto brasão!
Agora estás desgraçada:
Sem relógio nem surjão.
1
Quando tinhas o convento
E as mais igrejas de pé,
Então ainda havia fé
Em Deus e no Sacramento.
Inda gozaste do tempo
Quando Cristandade havia,
Quando religião existia
Tinhas tudo em boa ordem:
Tinhas Câmara e Misericórdia,
Messejana de algum dia!

3
Quando tinhas o morgado
Tinhas pessoa real.
Na botica e hospital
Pobre e rico era curado.
Agora chegaste ao estado
De se não ouvirem horas na praça
Não há quem uma cura faça!
Estás mais rasa que uma aldeia...
Ferram bestas na cadeia,
Aí chegou a tua desgraça.

2
Chegaste a ter corregedor,
Juiz de fora e escrivão
Tinhas muito figurão
Que adoravam o Senhor.
Iam todos à confissão,
Agora nem à missa vão:
Já têm a fé perdida.
Aqui há uma ou duas vidas
Tinhas tu tanto brasão!

4
Agora vão ao moderno,
Deixam p'ra trás o antigo.
Estão vestidos no inferno,
Vendidos ao inimigo!
Lembrem-se do Padre Eterno
E da Virgem-Mãe de Assunção
Vão todos à confissão,
Confessar os seus pecados,
Que se vêem desgraçados,
Sem relógio, nem surjão!

(Messejana, c. de Aljustrel, 1890)

25

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

b) O mineiro traja bem:

Cas'mira, bota engraxada,
Usa chapéu de fivela.
Dinheiro, nunca tem nada
1
Enquanto as minas durar'
Vai a coisa assim, assim;
Mas, se chegam a ter fim,
O luxo há-de-se acabar.
Cada um se há-de tornar
Em vender aquilo que tem.
Eu falo de mim também,
Não me faço isento dos mais,
Porque, enquanto houver minerais,
O mineiro traja bem.

3
Até o ponto desta idade
É não costumei a mentir
E, senhores, que me estão a ouvir,
Digõ se isto é verdade:
Para que é tanta gravidade
Que eu vejo nesta famelga? (*)
Andaram sempre em Palmela
E nunca avezaram dez réis.
P’ra que s'rão tantos papéis
Usarem chapéu de fivela?
* «Famelga›› = família (de famélia)

2
Acho que é grande tortura
Usar o que lhe não ‘stá dado,
Muitas vezes andar empenhado
Por causa da grande loucura.
O luxo é p'ra quem tem fartura,
Não é p’ró pobre que não tem nada.
Passa a vida arrastada,
P’la semana trabalhando,
P'ró domingo andar trajando
Cas'mira, bota engraxada.

4
Chega o mineiro ao armazém
Ou a outra qualquer panilha*:
-- Venha lá pão e morcilha **
É a canha ***, vai dando bem.
Pergunta vinho se tem:
-- Dête mais meia canada.
Ali se lhe vai a pionada ****
E passa a noite sem dormir.
E anda sempre co'a bolsa a tinir
Dinheiro nunca tem nada.
* Pamilha = «venda», tabema (calão).
** Morcilha = linguiça (esp.).
*** Canha = galeria.
**** Pionada = tempo de trabalho.

(Composição da autoria de um mineiro.)

26

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

c) Poder do diabo, um dia

Se ele a mim me concedesse,
Eu metia no inferno
Quantas mulher's conhecesse.
1
Com muita verdade e tino
Eu de jurar sou capaz:
São filhas de Satanás
Mulheres de senso fuminino.
Eu mesmo, de pequenino,
Quando alguma mulher via,
Comigo logo dizia:
É mais uma p'ra queimar,
Se eu chegar a alcançar
O poder do diabo um dia.

3
A mulher e a serpente
Têm todas más condições.
Eu, para envítar razões,
Delas qu’ria estar ausente,
Por via de algum repente,
Que eu com elas não me governo.
Mostram seu coração terno,
Têm toda a maldade enfinita;
Toda esta raça maldita
Eu metia no inferno.

2
Apronta-me no inferno as caldeiras
Que eu as quero acender;
Eu só qu'ria derreter
Mulheres falsas e traiçoeiras.
De pinho ardentes fogueiras
Se fosse eu que as aquecesse,
Eu só qu'ria ter o ent’resse
De ver queimar tanta mulher.
Dava uma a Lucifer,
Se ele a mim me concedesse.

4
Ó Maria da Conceição,
És de todos mais marcada,
És a mulher mais relaixada,
És de todos o maior cação.
Eu metia-te no coração
Um punhal, sem ter ent'resse.
Todo o homem que vendesse
Eu mandaria desterrar,
Também mandava enforcar
Toda a mulher que conhecesse.

(Figueira da Foz.) (Beira Litoral)

27

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

(Composição incompleta)
d) Homem, tens tanto talento!

Contigo estou a falar sério.
Quem contigo se meter,
Conte co'a casa do cemitério

28

1
Pôs Deus em ti todo o saber,
P’ra seres do saber tão teste;
Pareces filho da corte celeste,
Que queres a todos comer.
Por teres tal saber,
Estás pouco adiantado,
Com o teu grande fundamento
Ainda não deixaste de trabalhar
Tenho-te visto gavar;
Homem, tens tanto talento!

3

2

4

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

6. Graças
a) Esta nôte que há-de vir

Foram-me os ladrões ò monte
Roubaram-me o que ê não tinha
Puxaram-me fogo à fonte.
1
Quem se avezou a rôbos
Rôba tudo quanto acha,
Já me robaram na caxa
Donde cozia o jantar;
‘Stá um rôbo de admirar,
‘Stava a ver, pegui-me a rir,
‘Stava acordado a dormir,
Ouvi rasmalhar um ovo,
Foram fazer este rôbo
Esta nôte que há-de vir.

3
Rôbaram-me um coiro de batatas
Uma gorpelha de vinagre,
É um rôbo que todos sabem,
Ninguém me encobre estas faltas.
Rôbaram-me umas casas altas,
Um garrafão de sardinhas,
Rôbaram-me as vizinhas,
Um cesto velho sem asas.
Foram-se às minhas casas,
Levaram-me o que eu nã tinha.

2
Robaram-me um conto do mel,
Quatro canastras de azête,
Robaram-me um saco de lête,
E umas calças de papel.
Dexaram-me sem reel,
Inda me hê-de ir quexar onte.
De rôbos ninguém me conte,
Que eu desta não fiquê bem;
A quatro do mês que vem
Foram-me os ladrões ò monte.

4
Rôbaram-me e uma espingarda nova
Sem couce nem fecharia,
O cano não no trazia,
Porque era destas da moda;
Lá no campo de manobra,
Aonde eu sofri o desconto,
Alimenti o mê pranto.
Que desgraça a que é a minha!
Assim, como nada tinha,
Puxaram-me fogo à fonte.

(Elvas.) -- (Do Elvense, n.º 1033.

29

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

b) Quando Judas teve sarampo,

Herodes teve bexigas,
Pilatos teve sezões,
O Caifaz teve lombrigas.
1
O Judas, quando nasceu,
Do ventre duma velha gaiteira,
Foi a mãe do diabo a parteira;
Quando judas rescendeu,
Foi padrinho um judeu,
Para o livrar do cobranto.
A todos causou espanto
Esta figura tão horrenda,
Mas só o diabo se lembra
Quando Judas teve sarampo.

3
Casou uma filha do diabo
Com um oficial do inferno:
Usava botas de ferro
Num cavalo bem montado.
No dia do seu noivado
Houve diversas comidas:
Unhas de cabras cozidas
E com sumo de limão,
Deu ao noivo uma indigestão,
Quando Caifaz teve lombrigas.

2
Até o próprio Caifaz
Teve uma grande malina:
Deram-lhe por medicina
Água-forte e aguarrás.
Voltou a maleita atrás
Com picadelas de ortigas,
Umas poucas de brasas vivas
E uma grande porção de urina
Até lhe queimar a barriga,
Quando Herodes teve as bexigas

4
4
O diabo fez testamento
De tudo quanto ele tem:
Deixou o inferno à mãe
E quanto tinha lá dentro.
Também quis fazer assento
Das suas lindas feições
P'ra deixar em relações
Todas as suas comódias.
Morreu danado de almorródias.
Inda Pilatos teve sezões.

(Monte Real, Leiria, 1938)
(Composição dita por um indivíduo que a aprendeu, em 1901, de um outro de uns 30 anos, de Vieira;
cantava isto como fado em casamentos e bailes, entremeado de palavras espanholas: pero; bate, chico,
rico, chico; vaya cuño, etc. As décima: usavam-se mais nesse tempo do que agora.)

30

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

c) Rapazes, quando eu morrer,

Enterrem-me com jeitinho;
Façam-me uma cova de aguardente,
Por cima cubram-me com vinho.
1
Levem-me ò almazém de pinetra,
Direito ò cemitério.
P’ò interro ser mais sério
Levem-me às costas duma marreca,
Arranjem-me um tocador de rabeca
Para esta gente entreter,
Para quem passa dzer:
-O vinho é que alegra!
Metam-me à porta duma adega,
Rapazes, quando eu morrer.

3
Tenho-vos a pedir um pedido:
A esse bêbado fiel,
A cova dele seja um tonel,
Para lá ir conduzido.
Depois de eu lá estar metido,
Que esteja ò menos treze dias patente,
P'ra que diga a esta gente
Que não tenham dó de mim.
Para que não queiram assim,
Façam-me uma cova de aguardente.

2.
Levem uma guitarra enfeitada
E um bom tocador do fado.
Para o enterro ser bem falado,
Levem peixe frito e salada;
Ajudem toda a rapaziada
Para a venda do Portachinho,
Levem à irmandade de São Martinho,
Cada qual seu garrafão.
Não me atirem algum empurrão:
Enterrem-me com jeitinho.

4
Tenho-vos a pedir um favor,
Que vos faça benefícios
Para lhe fazer os ofícios:
Bamos ò almazém do regador.
Se a aguardente fosse licor,
Eu queria-me bem salgadinho;
Levem-me o borrascadinho,
Quero-me antão bem salpicado.
Depois de eu 'star enterrado,
Cubram-me por cima com vinho.

(Figueira da Foz.)

31

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

Composições incompletas
d) Eu vi umas casas a boar

Uma pombinha a lá pôr,
Realejos a dançar
Vi-me a suar calor.
I
Uma pescada com dragonas
Bem montada em mosquitos,
Mesmo muda deu um grito,
Queria matar as patronas.
Veio o rei das azeitonas
Com uma cantiga aventar,
Somente para cantar
O desafio com um caracol.
Nos palaiços da mãe do sol
Vi umas casas a boar.

III

II
Já ví uma praça de touros,
Uma beata a juntar pumpulha,
Lá no fundo duma agulha
Vi um castelo de moiros.

IV

e) Minha mãe já quer que eu use

Calças à boca de sino,
Porque lhe foram dizer:
-- É da moda o figurino.

32

1
Disse-lhe certo sujeito
Que a moda não era boa,
Mas disse-lhe certa pessoa
Que era uso más porfeito.
Vista ele com perceito,
Não quer que eu ainda recuse,
Bom sará que eu não me escuse
A dar-lhe um bom despacho.
A calça larga em baixo
Minha mãe já quer que eu use.

3

2

4

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III
f) Sou um rapaz muito pobre,

Não avezo nem real:
Se tivesse cinco tostões,
Era o rei de Portugal!
1
Só qu'ria ter esta riqueza:
Cinco tostões, nada mais.
Comprava muitos olivais,
Nunca mais tinha pobreza;
Comprava p'ra minha defesa
Uma espingarda de ouro ou cobre
E ainda p'ra ser mais nobre,
Uma cidade amuralhada;
Mas assim, como não tenho nada,
Sou um rapaz muito pobre.

3
Eu comprava um tesouro,
Isso sim, que era um morgado;
Mandava por um criado
Comprar a Rua do Ouro;
Comprava cento e um touro
P'ra divertir os cidades,
Comprava embarcações,
Isso sim, que era coisa boa,
Eu comprava toda a Lisboa,
Se tivesse cinco tostões.

2

4
Comprava navios de guerra
Carregados de póIv'ra e bala;
Ia vencer a Itália.
Fosse em mar ou fosse em terra,
De cima de qualquer serra
Faria fogo em geral;
Mandava pôr um edital
Por esse mundo inteiro.
Se eu tivesse este dinheiro
Era o rei de Portugal!

(Panóias de Ourique.)

33

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

g) Décima solta

P’ra vir a esta função
Arrendi esta jaqueta,
A minha num buraco está fêta,
É mais velha que o Mortigão...
Não tem lã nem algodão,
É mais fria do que as gangas,
Eu pela manhã tomo zangas
Quando a envergo a vestir.
Mas depois pranto-me a rir:
Não sei onde estão as mangas...
(Moura.)
(Versos feitos por um analfabeto de 45 anos, em sáfara.)
Jrg -- (Deve ser Safara, no c. de Moura)

34

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

7. Décimas Geográficas
Uma paródia
a) Fez sábado quinta-fêra

P'ra lá de Ev'ra três semanas,
Estive dez anos num V'rão
Lá nas Amér'cas romanas
1
Embarquei em dois ‘caleros
Na baía de Lesboa,
Arrebi e fui dar a Goa,
Desembarqui em Alímquer’s.
Casê com sete mulheres,
Falta uma p'rà primêra.
Fui dar à Ilha Tercêra,
Tive três dias numa hora,
Abali e vim-me embora
Fez sábado quinta-fêra.

3
Eu já 'stive em Era-pouca,
Numa ocharia empregado,
Sumiu-se um carro carregado
Dentro duma abobora canoca,
Um mosquito c'um boi na boca
Cem léguas em proporção.
Ateri-le um bofetão
Que pelo ar o fiz ir.
À 'spera dele cair
‘Stive dez anos no V'rão.

2
Agarri nos alforjinhos,
Pus um pão em quatro enxacas,
Uma gamela com duas vacas,
Uma borracha com toucinho,
Uma açafate com vinho,
Trinta metros de banana.
Dei passos à americana,
Fui passar a Ayamonte:
Abali hoje, chegui onte,
P'ra lá d'Évora três semanas.

4
Fui soldado, assenti praça
No quinze de sapadores,
Maquenista de vapores
Na carrêra de Alcobaça;
Venci o forte da Graça,
Também a vila de Trena
E as províncias arraianas;
Venci toda nobrezia,
Bati-me com a Turquia
Lá nas Amcr'cas romanas.

(Elvas.) -- (Do Elvense, n.º I033.)

35

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

b) Pernes, terra de piratas,

Vaqueíros dos jogadores,
Alcanena; terra de coiros
Minde é dos cardadores.
1
Contra Pernes vou bramar,
Não posso ver coisas tais:
Muitas mães e muitos pais
Deixam os filhos luxar;
Enquanto a linha de água durar,
Não há ali senão manaças.
Não têm senão batatas,
Nas algibeiras não têm nada.
É ‘ma terra tão desgraçada...
Pernes, terra de piratas.

3
Alcanena é uma tulha.
Tem dinheiro como palha,
Pois ali nada lhe falha
Porque estão sempre tumba, tumba
Como ela não há segunda
De peles, Vacas e toiros;
Cabelinhos pretos e loiros
Ali é tudo rapado.
Está tudo endinheirado
Alcanena, terra de coiros.

2
Salta Vaqueiros num pronto,
Com um pai de família a falar.
Apanham filhos a jogar,
Até nada lhe mete afrontas:
Até lhe querem tomar por contas,
Fazendo-se senhores e altores.
Até lhe pedem por favores
De alguma coisa lhe dar.
Estão sempre, sempre a jogar;
Vaqueiros é dos jogadores.

4
Temos Minde num soeco,
As tecedeiras num tear
‘Stão sempre de noite e dia a trabalhar
Estão sempre treco, treco.
Ali fazem surubeco,
Mantas e cobertores,
Tecidos de todas as cores.
É uma terra das primeiras!
As velhas são fiandeiras,
Minde é dos cardadores.

Torradas, novas torradas,
Eu não nego a minha nação;
Eu sei que sou de Minde,
Não digo a ninguém que não.
(Décimas feitas por Domingos da Silva Estevães Pelancho (pele ancho), cardador de
Minde, analfabeto.)

36

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

c) Despique do Alentejo e do Algarve.

I
Alentejo:

Algarve:

Sou o Alentejo opulento,
Tenho gado e cereais;
Algarve, quero saber
Qual de nós valerá mais.

Cá na minha pequenez
Sou todo uma povoação;
Tu, com a tua grandeza,
És um verdadeiro sertão.

1
Sou na verdade crescido,
Que a todos meto cobiça;
Tenho montanhas de cortiça
Que a muitos têm enriquecido
Tenho p'ra fora vendido
Cereais de valimento;
Tu, Algarve, toma tento
Em quem já te socorreu,
Porque tu sabes que eu
Sou o Alentejo opulento.

1
P'ra que te estás a abanar?
Que és muito rico eu bem sei,
Mas defeitos te porei
Que tu não hâs-de gostar.
Eu tenho praias no mar,
Não acreditas talvez,
Que eu dou banhos mais dum mês.
Sou o recreio do teu povo
E sou cheio como um ovo
Cá na minha pequenez.

2
Eu sou em tudo abundante:
Tenho muitas azinheiras,
Com a lande das sobreiras
Engordo gado bastante;
Tenho muito negociante,
Tenho muitos olivais,
Eu tenho de tudo mais
Do que tu nunca hás-de ter;
Contudo deves saber
Tenho gado e cereais.

2
És mui grande e muito forte,
Mas és pouco povoado,
És muito desabitado,
Só tens charnecas e mato.
Por isso tu toma tacto:
Se muito valor te dão,
Eu, por mim, digo que não
Na explicação que te faço.
Mas, em meu pequeno espaço
Sou todo uma povoação.

3
Eu tenho em mim celeiros
Cheios de trigo até mais não;
Sou abundante de pão
Tenho em mim muitos dinheiros
Até os teus corticeiros
Ajudo-os bem a viver,
Dou-te tudo p'ra comer
Em toda a minha grandeza.
E qual é a tua riqueza?
Algarve, quero saber.

3
Se tu tens tanta valia
Como estás a apresentar,
P'ra que vens a mim buscar
P'ra ti tanta pescaria?
Não passa nem um só dia
Nem um sequer, com certeza,
Que eu não mande com franqueza
Peixe para a minha vizinha;
Não pescas nem uma sardinha,
Tu, com a tua grandeza.

37

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

4
Eu tenho muito toicinho
E o precioso presunto,
Eu tenho de tudo munto.
Sou a fama do bom vinho,
Sou da riqueza o beijinho,
Porque tenho coisas tais.
Até as pessoas reais
Em mim têm arvoredo.
Responde, não tenhas medo,
Qual de nós valerá mais?

4
Quem em ti tem passeado
O que vem p'ra cá dizer?
Que és um país de temer
P'los lobos que tens criado.
Eu sou todo cultivado
P'la minha população.
Pois na estação de Verão
Sou de Portugal o beijo.
E tu, ó Alentejo,
És um verdadeiro sertão.

II

38

Alentejo:

Algarve

Cala-te, Algarve faminto,
Que me estás a provocar!
Se te mostro o meu valor
Hás-de ter que te calar.

De tudo o que tens em ti
Tenho eu cá um pouquechinbo
Eu tenho coisas em mim
Que tu não tens, amiguinho.

1
Tu decerto tens desejo
De ser rico como eu sou
E dar, assim como eu dou,
Muita cera, mel e queijo.
Eu por todo o modo almejo,
Que sou poderoso o sinto
Tenho muito homem distinto,
Senhor's de propriedades.
Escuta muitas verdades,
Cala-te, Algarve faminto.

1
Eu tenho navegações
Que tu lá não podes ter,
Pois, p'ra melhor te dizer,
Tenho muitas armações.
De fábricas tenho milhões,
Tudo que é rico há aqui.
A riqueza que te vi
Mais tarde dizer-te venho:
No Algarve também tenho
De tudo o que tens em ti.

2
Os homens que tens em ti,
Coitados, como andarão?
Esp’rando que venha o V'rão
P'ra virem ceifar p'ra aqui:
Se eu o teu peixe comi,
Tenho pão para te dar
Ou tenho, p'ra te pagar,
Muito oiro, prata e cobre.
Cala-te, faminto e pobre,
Que me estás a provocar.

2
Embora menos porção
Eu tenha de olivais,
Mas também tenho olivais,
Tenho cortiça e pão;
Em mim tenho o bom feijão,
Tenho o grão e o bom vinho,
Também tenho algum toicinho
Para te imitar um dia;
De tudo o que lá se cria
Tenho eu cá um puquechinho.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III
3

Se te mostro o meu valor

3
Eu tenho alfarrobeiras
Que tu nunca tens criado,
Tenho bom figo passado,
Estou coberto de figueiras
E milhar's de amendoeiras
Que tu não lhe vês o fim.
Por isso te digo assim,
Se ainda bem não me ouviste,
Que tu nunca possuiste,
Eu tenho coisas em mim.

4
Nos meus matos tu verás
Gados de lã a Valer
Que dão p’ra roupa fazer,
Que tu muito pouco dás.
P'ra que é que falando estás,
Se estás somente a errar?
Tu não devias falar
P'ra não caíres no laço;
Olhando aos favor’s que te faço,
Hás-de ter de te calar.

4
Tenho tido vultos meus
Da ilustração comum,
Como há pouco morreu um:
O ilustre João de Deus.
Mostra então os vultos teus,
Alentejo, um instantinho.
Tu chamas-me pobrezinho,
Dizes que não tenho nada
Mas tenho gente ilustrada,
Que tu não tens, amiguinho.

(Décimas feitas por Marcelino Ramos, de Lisboa. Com outro homem andava ele cantando estes versos
por várias terras.)

39

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

d) Torres, Pontena, Pedreira,

Covões, Labrengos, Marvão,
Chifar, Quinta da Alegria,
Samel, Quinta do Perdigão.

1
Murtede, Antes, Murtosa,
Ferreiros, Moita e Vale de Abim,
São Lourenço, Espairo e Aguim,
Mogafores, Arcos, Pampilhosa,
Bustos, Trouviscal e Marnarrosa,
Nariz, Palhaça e Feiteira,
Gesta, Perens e Silveira,
Oiã, Silveiro e Cercal,
Venda Nova do Bolho, Casal,
Torres, Pontena, Pedreira.

3
Seixo, Gatöes, Arazede,
Cadima, Tocha, Amieiro,
Vila Nova de Outil, Zambujeiro,
Pena, Portinhos, Leinede,
Coimbra, Ançã, Cantanhede,
Tamengos, Luso, Anadia,
Arins, Póvoa de Santa Luzia,
Alfeles, Avelãs e Pereiro,
Pocariça, Escumalha e Boeiro,
Chinfar, Quinta da Alegria.

2
Vagos, Ílhavo e Aveiro,
Eirós, Taipa e Requeixo,
Fermentelos, Travassô e Eixo,
Póvoa, Costa e Mamodeiro,
Oliveirinha e Salgueiro,
Mira, Portomar e Calvão,
Gafanha e Lombomeão,
Sanchequias, Sousa e Parada,
Verdemilho, Quinta do Picado e [Achada,
Covões, Labrengos, Marvão.

4
Ouca, Boco e Carregosa,
Águas Boas, Malhapão,
Sarnadelo e Grande Alpalhão,
E também a Pedricosa,
Ovar e mais a Murtosa,
Ervedal e o Fundão,
Rio Tinto e São Romão
Fazem todos 'ma caçada;
Para não me faltar nada
Samel, Quinta do Perdigão.

(Décima: de um cantador da Bairrada.)
e) Duas Décimas

1
Ao alto da Serra cheguei,
Eu vinha da de Penados,
Vi lugar's bem situados,
Como Palhais não achei.
Falar bem ou mal não sei,
É provável que diga mal:
No concelho do Cadaval
Não há lugar como Palhais
Digo mil vezes e mais
Que é o lugar mais central.
(Estremadura)
40

2
O primeiro é o Pereiro,
Terrinha de pouca graça,
A Tojeira, quem por lá passa,
Fala da mesma maneira.
'Stá o Carvalhal em carreira,
Vila Nova p'ra defesa,
A Ventosa em boniteza,
Arrebalde é mais bonito
Digo outra vez repito:
Palhais é o mais bonito.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

8. Décimas Históricas
a) Alegrai-vos, portugueses,

Que é feliz Portugal;
Já Dona Maria Pia
Deu à luz um príncipe real
1
Esta nobre nação,
Península lusitana,
Unida é à italiana
De todo o seu coração.
Feita esta união,
Desejada tantas vezes
Para evitar os reveses
Que Portugal tem sofrido
Hoje é restabelecido,
Alegrai-vos, portugueses!

3
Tem sido tão desejada
P’ra aumento a prosperidade!
Pois a nossa felicidade,
Portugueses, é chegada:
Vai a ser aumentada
De Portugal a denastia.
Já chegou o feliz dia
Em que a nação pode brilhar,
Podemos-nos regozigar
Já, Dona Maria Pia.

2
Alto dinasta reinante
Da nobre casa de Bragança
À de Sabóia fez aliança
Pelo comércio brilhante.
Esta nação é amante
Do seu monarca real,
Pois um Deus celestial
Sempre nos tem protegido.
Esta a razão por que eu digo
Que é feliz Portugal.

4
Artistas e a nobreza
Quando troou o canhão
Fizeram a Deus oração,
Pedindo-lhe com presteza
Que a nação portuguesa
Especialmente a capital,
Dê graças a Deus em geral
Todo o seu povo fiel,
Porque a filha de Vítor Manuel
Deu à luz um príncipe real.

(Figueira da Foz

41

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

b) Padre, Filho, Espírito Santo

1
Padre, Filho, Espírito Santo,
Digo eu p’ra começar;
Começo a ouvir sofar.
Minha vista ao Céu levanto
P'ra pedir a Quem dá tanto
Sentido e capacidade
E p'ra que a minha borlidade
Desempenhe a minha pessoa
Olhando p’ra aquela c’roa
Que além pôs sua majestade.
2
Que além pôs sua majestade
Num dia santificado.
Naquele sítio assinalado
Houve grande impiedade
Faltou a humanidade
E apareceu a ambição.
A mesma santa religião
Está dizendo a todo o instante
Quem ofende o seu similhante
Causa grande escuridão.
3
Causa grande escuridão
Quem os seus males considera;
As contas que cá fizerem
Sabe Deus se as darão,
Pois de as darem perto estão,
Se ainda as não tiverem dado.
Nem fidalgo, nem morgado,
Que sua riqueza o permita,
A morte em vindo não respeita
Nem paisano nem soldado.
4
Nem paisano nem soldado
Nem alferes nem capitão
Nem médico nem cerurgião
Nem juiz nem letrado
Nem homem bem amado,
Seja com que arma for,
Nem general nem governador
Nem coronel nem brigadeiro
Nem casado nem solteiro
Nem vigário nem prior.

42

5
Nem vigário nem prior
Nem bispo na sua igreja
Resiste, ainda que seja
Um ministro, embaixador,
El-rei, imperador...
Toma a mesma confiança,
Leva-os a mesma balança
Aonde leva o peregrino,
O velho, o moço e o menino,
Viva na mesma esperança.
6
Viva na mesma esperança...
E que somos iguais ao nascer
E somos iguais ao morrer
E só no viver é que há mudança
Quem não morre em criança,
Não cuide que sempre veve.
Que urna lembrança leve
A uma atenção natural
Para aquela memória real
Diz o caleiro que se deve.
7
Diz o caleiro que se deve
Para aquele pedrão olhar
E nós devemos calcular
Em quanto nele se percebe.
Ele calcula, o mano escreve
Os que ali foram atacados.
Deus lhe perdoe os seus pecados
A todos que ali morreram!
Vai: aqui o que sofreram
Os nossos antepassados.
8
Os nossos antepassados
Da nossa antiguidade,
Veis aqui a crueldade
Com que foram castigados
Os que caíam despedaçados,
Destruídos pelo chão.
Por essa mesma razão
Enquanto o mundo durar
Sempre havemos de falar
Naquela serra do pedrão.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

9
Naquela serra do padrão
Houve grande assassino,
Morreu gente sem destino
Naquela ocasião.
Ih! Jesus, que aflição
Que sofreram daquela vez
Caindo aos cinco e aos seis!
Enquanto de pé estiveram
Grandes gritos se ali deram
Em seiscentos e sessenta e três
10
Em seiscentos e sessenta e três
No dia oito de Junho *
Morreu ali gente a punho
No lugar em que ali vês.
Só pessoas reais vieram três
Com um ................ ..
Para que esta memória fique
Nas vistas de quem passeia.
E o primeiro que se alumeia
Vei de Castela a D. Filipe.

13
Deixou-se ele por vencedor
Ganhando nas artilharias
E vinham os outros há três dias,
Fugindo com grande temor.
Dom Afonso, el-rei senhor,
Detrás os vinha seguindo.
Vinham os de Évora fugindo
Àquela grande fortaleza,
Cada vez com mais basteza
Castelhanos vinham caindo.
14
Castelhanos vinham caindo
Sempre lá continuamente,
Dom Afonso, de contente,
P'ra Dom Sancho se estava rindo.
Cada vez mais oprimindo
Tão inconstante batalha,
Diz Afonso: -- Aqui trabalha
Hoje tudo a ferro frio,
Que, no fim do desafio,
Cada um tem uma medalha.

*Batalha do Ameixial, em 8 de Junho de 1665

11
Vei de Castela a Dom Filipe
Em quarto a sua divisão,
E vei de Áustria Dom João
Com seu filho, pôr-se a pique.
Não tenho mais que lhe explique
Enquanto a esta história.
Na frente desta memória
Veio o rei dos Castelhanos
Junto com dois austrianos;
Todos três perderam a vitória.
12
Todos três perderam a vitória
Suas armas, suas riquezas,
Vieram ali grandes nobrezas
Ganhar morte, perder a glória.
Luvaram co'a palrnatória
Do Conde de Vila Flor *,
Que ele era o governador
Nas armas de Portugal.
E lá no campo do Ameixoal
Deixou-se ele por vencedor.

15
Cada um tem uma medalha
Se à força de armas ganharmos.
Vamos a ver se acabamos
Co’a raça desta canalha.
Aqui nem pólvora nem metralha
Aqui tem em seu poder.
Se eu a c'roa não perder,
Antes da vitória ganhar,
Prometo de aqui o prantar
Para toda a gente ver.
16
Para toda a gente ver
O pedrão servir de texto.
A coroa de Dom Afonso sexto
Esta mesma é que há-de ser,
Que ele veio-se aqui bater
Com duas nações estranjeiras
E com palavras verdadeiras,
O que faço não desmancho.
Em companha de Dom Sancho
Veio aqui ganhar bandeiras.

* D. Sancho Manuel, Conde de Vila Flor

43

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

17
Veio aqui ganhar bandeiras
Em assassino de guerra
Corria o sangue pela terra
Como a água pelas ribeiras.
Senhor, peço-te que queiras
Com estes mortos socorrer
Que elles vieram aqui morrer
Gritando por Deus e santos,
Que os gritos seriam tantos
Que mais não podiam ser.
18
Que mais não podiam ser
Os gritos, os ais e os gemidos
Aqueles que caíam feridos,
Que se não podiam valer,
De pé se não podiam ter,
Uns com pernas partidas,
---------------------------Outros com braços quebrados,
Outros para além passados,
Acabaram com as vidas.
(Estrofe de 9 versos)

19
Acabaram com as vidas
Numa morte afrontosa;
Qual seria a mais custosa
De todas a escolhida,
Nem pesadas nem medidas
No meio destas aflições.
Pedimos nas nossas orações
A um Deus omnipotente
Que perdoe a esta gente
Que nós todos somos irmãos.
20
Que todos somos irmãos
E da mesma terra feitos:
Tanto os brancos como os pretos
E os mouros como os cristãos.
Serão duros os corações
Que passem por esta estrada
Que ao menos não rezem nada
A tanto morto que ali foi.
Pedimos a Deus que perdoe
Por esta gente desgraçada.

44

21
Por esta gente desgraçada
Todos devemos pedir,
Que podemos vir a cair
No golpe da mesma espada.
E esta obra bem considerada
Como foi e como seria?
Que gritos ali não haveria
Caindo como passarinhos!
Para eles coitadinhos
Muito triste foi o dia.
22
Muito triste foi o dia
E foi custoso na verdade
E temos deles piedade
Com uma Avé-Maria.
Desgraçada mãe que cria
Filhos para armas do rei!
E não há mal nenhum que não dei
Ao pobre e triste soldado:
Morre em bichos gafado.
E muitas vezes não come,
Passa muita sede e fome
E morre assim desgraçado! (12 versos?!)
23
E morre assim desgraçado.
E mais lhe valia morrer
Acabado de nascer
E depois de baptizado,
Do que Ver-se desalvorado
E longe de sua gente
---------------------E dalguns amigos seus
Sem poder dizer adeus
Ao mais chegado parente.
24
Ao mais chegado parente,
Que é sua mãe e seu pai.
A desgraça é de quem vai
Ver-se co'a morte na frente.
Naquela hora temente,
Nas ânsias de morte metidos,
Os pais perdem os filhos
------------------------------------------------------------E as casadas seus maridos.
(8 versos?)

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

25
E as casadas seus maridos
E as solteiras seus mancebos,
Ali se perdem os enlevos
Do mundo mais conhecidos;
Os homens mais entendidos
Ali perdem o saber.
Eu digo e hei-de dizer
Que ali não há filho por pai
E a desgraça é de quem vai
Àquele lugar gemer.
(Vimieiro, c. de Arraiolos, 1863 – bicentenário da batalha do Ameixial)
Ver in https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_Ameixial
A Batalha do Ameixial foi travada, em Santa Vitória do Ameixial, a 8 de Junho de 1663, entre o exército
espanhol e o exército português.
O exército espanhol, comandado por D. João José de Áustria, invadiu Portugal saindo de Badajoz e pôs
cerco a Évora que se rendeu. Era composto por 26,000 homens e pretendia dirigir-se depois a Alcácer do
Sal para dividir Portugal em dois e alcançar a sua capital Lisboa.

45

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

9. Sobre a Morte
a) Com dinheiro de contado

Ninguém a morte comprou
Por ser fruto precioso
Que no mundo se pagou.
1
De que serve a um avarento
Tanta riqueza e cobiça,
Se uma recta justiça
‘Stá sempre em seu seguimento?
É este um fatal tormento
Para quem se acha culpado
Ser da justiça julgado
Sem agravo nem apelo,
Nem comprar o seu zelo
Com dinheiro de contado.

3
A vida é fruta outonada,
Nunca tem muita doçura:
Quando está quase madura
P’la mão da morte é cortada.
Depois da vida acabada
Fica o corpo desditoso,
Medonho e pavoroso,
Como árvore denegrida
Que inda chora pela vida,
Por ser fruto precioso.

2
Oh! justiceira sentença,
Que tudo à morte condena,
Por ser a terrível pena
Que a Parca deu à nascença!
Homem que o contrário pense
Nunca bem ajuizou:
Se a Parca o fio cortou,
Não vale prata nem ouro!
Nem co'o mais rico tesouro
Ninguém a morte comprou!

4
O fruto que esta árvore deu
No mundo se pôs à venda;
Se o comprou a Morte horrenda
Foi a Parca que o vendeu.
Até’quí disputei eu
E agora perguntar vou
-- Se algum sabio me escutou,
Responda p'ra seu produto! -Qual foi o mais caro fruto
Que no mundo se pagou?

(De António Eusébio, «o Calafate». Poeta popular de Setúbal, analfabeto.)

46

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

Composição incompleta
b) Pus um pé na sepultura

Uma voz me assim falou.
Não desprezes a quem te amava
Aqui tens a quem tc amou.
1
Eu tinha dezasseis anos
Amava uma infeliz,
A morte apartar quis
Nossos corações humanos.
Ó negros golpes tiranos,
Que me causavam ternura!
Eu amava-te co’a fé pura,
Como os anjos no viver,
Se te quis tornar a ver
Pus um pé na sepultura.

3
Meu corpo se arrepiava,
De medinho dava ais,
De ouvir palavras mortais
Sem saber quem falava.
Era o meu bem que ali estava
Debaixo da terra dura.
Levantei-me e fui à procura,
À internidade fui ter...
Pus o pé na sepultura,
Pisei meu bem sem saber.

2
Pus um pé na sepultura
Onde estava o corpo humano
Ouvi uma voz dizendo:
-- Não me calques, ó tirano!
-----------------------------

4
---------------------

47

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

10. Décimas Religiosas
a) Foi a maçã da ciência

O fruto que Deus proibiu
Só se pagou com a morte
Bem cara a todos saiu!
1
Adão foi o que se via
Rei, senhor de todo o mundo:
Não tinha rival segundo,
Tinha tudo quanto qu'ria.
Até Deus lhe aparecia
Com a sua omnipotência:
No jardim da inocência
Toda a ventura lhe deu;
Somente o que não foi seu
Foi a maçã da ciência.

3
P’rò nosso pai desgraçado
Nada mais lhe foi preciso
P'ra sair do Paraíso,
A mil males condenado,
À morte sentenciado
Por esta pena tão forte!
E toda a adversa sorte
Sofre Adão com paciência,
Porque a desobediência
Só se pagou com a morte.

2
Seu rival foi Satanás,
P’ra acabar co’a felicidade
Por ser da humanidade
Um inimigo sagaz.
Com a astúcia perspicaz
A nossos pais seduziu,
Mas Adão não engoliu:
Ficou-lhe o nó na garganta,
Porque era a maça santa
O fruto que Deus proibiu.

4
O mundo todo se encheu
De uma glória vã.
Por causa duma maçã
Que nem toda Adão comeu
Tudo o que é vivo morreu'
À morte ninguém fugiu!
Se o fruto que Deus proibiu
É ferro que a todos mata.
Sendo a maçã tão barata,
Bem cara a todos saiu!

(De Antónia Eusébio, «o Calafate». Poeta popular de Setúbal, analfabeto.)

48

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

b) Senhora da Natividade

1 -- Jacob em bom lo siso
Disse que mui ‘scrito está
Que, no cepto de Ajudá,
Pagando o estranho senhorio
O poder de home gentio,
Era próxima brebidade
Da divina Majistade,
Para completá’la escritura,
Nascer duma virgem pura,
A Senhora da Natividade.
2 -- Assim no profetizou Isaías,
Fundando em boa aurigem
Que, do ventre duma virgem
Nasceria o divino Messias.
Escolheu entre as Marias
O puro sol da castidade
E, p'ra nos dar claridade,
Ele seu berba encarnar
Foi, no ventre sem par
Da Senhora da Natividade.
3 -- O Anjo São Graviel
Veio à Virgem anunciar.
E a Virgem veio visitar
Sua prima Isabel.
Pelo Alcanjo fiel
Vir-lhe conferir a verdade,
Enchera-a a santa vontade
De santificar o João
Co'a santa visitação
Da Senhora da Natividade.
4 -- Nasceu da Virgem Maria,
Em a noite do Natal,
Um filho de Deus ugal
Revestido de alegria.
É a estrela que nos guia
A nossa triste emanidade.
Para nos dar claridade
Tomou, humilde, a carne humana
O filho da Mãe soberana,
Senhora da Natividade.

5 -- Niquéas profetizou
O nascimento em Belém.
Jesu Cristo, nosso bem,
Assim no verificou.
Quando o Anjo anunciou
Òs pastores a novidade,
Vierom cheios de humildade
Adora’lo Rei dos Senhores,
Cantando mil louvores
A Senhora da Natividade.
6 -- Os Santos Reis do Oriente,
Divinamente inspirados,
Pol’uma estrela guiados
Vierom aniformamente
Adorá’lo Omnipotente,
Nascido de tenra idade
Com divina autoridade
Sob prencípio do enterno,
Como filho do Padre Aterno
E da Senhora da Natividade.
7 -- Viram nos Santos entre véus,
Em um presépio por encosto
E em uma menjedoura exposto
O que não cabe nos Céus.
Renderam-lhe seus troféus
Com humilde orbanidade.
Ofereceram-lhe quantidade
De ouro, mirra e encenso;
Louvaram a Deus emenso
E à Senhora da Natividade.
8
Sujeitou-se à circuncisão;
O berbo devino humanado
Foi no templo apresentado,
Aonde o Santo Semião
Profetizou a Paixão,
Para os bos felicidade.
Houve uma tal casualidade
Que deixaram uma espada
À alma santa trespassada,
A senhora da Natividade.

49

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

9
A Virge e São José fugiram
Para terras do Engipto
Co'o Salvador bendito.
E lá, assim que a Jesus viram,
Logo por terra caíram
Os deus da gentilidade
Vendo aquela padridade
Que era divina e humana,
Filho da Mãe soberana,
Senhora da Natividade.
(Alandroal, 27-6-1891.)

50

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

c) Na hora de Deus começo:

Padre, Filho, Espírito Santo
É esta a primeira cantiga
Que eu neste alditório canto
1
Senhores, dai-me atenção,
Eu quero principiar.
Ainda em primeiro lugar
Uso da minha oração.
Eu sou humano, sou cristão,
Das leis de Deus professo.
Quantas e quantas vezes, peço
À virgem Santa Maria!
Co'a minha cantadoria
Na hora de Deus começo.

3
Há um só Deus verdadeiro,
A quem devemos temer:
É Senhor e tem poder,
Governa o mundo inteiro.
Adorá-lo está primeiro,
A lei assim nos obriga.
Não se me dá que o mundo diga
Sou pecador, também devo.
Qualquer parte aonde eu chego
É esta a primeira cantiga.

2)
Quem penas tanto penou,
Tantos tromentos padeceu,
Na sexta-feira morreu
Ò sábado ressicitou
Que Deus ò mundo deitou,
Aonde emprego os meus prantos
Os meus pecados não são tantos
A minha ideia sem luz,
Quando faço o sinal da cruz
Padre, Filho, Espírito Santo.

4
Os anjos me dão glória
Para me influir;
Canto por me adevertir
Não para ganhar vitória.
Trago a Deus na mimória,
Não me pode dar cobranto.
Das minhas falas não ‘spanto,
O meu canto é resoluto
Para alegrar quem me iscuto*
Que neste alditório canto.
*iscuto -- para rimar com resoluto, devem estar estropiados.

(Figueira da Foz.)

51

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

d) Ó Virgem Santa Maria,

E mãe nossa e mãe de Jasus,
Era meia-noite em ponto
Quando destes vosso Filho à Luz
1
Virgem da corte celeste,
Como vosso poder não há segundo
Veio o Redentor ao mundo,
No vosso ventre o trouxestes.
Mas que graça concedestes
Cheia de tanta alegria!
Só no vosso ventre andaria
Aquele pai dos pecadores,
Só Vós o paristes sem dores,
Ó Virgem Santa Maria!

3
Por obra do Espírito Santo
O verbo divino se jarou,
Ele por graça se emanou*
O poder de Deus é tanto!
Se eu ofreço amor quanto **
Formasse o bento num pronto
Faziam-se festas sem conto,
Pois o nosso Salvador
Veio ao mundo, o Redentor,
Era meia-noite em ponto.
*emanou – Humanou.
**quanto… -- Este verso e o seguinte devem estar estropiados

2
Ó Virgem pura imaculada,
Rainha de Céus e terra,
Livrai-nos da peste e guerra
Mais de toda a tempestade.
Ó Virgem que estás sagrada,
Eu me entrego à vossa luz,
Meu coração me conduz.
Dai-me agora a vossa mão,
Virgem-Mãe da Conceição
E mãe nossa e mãe de Jesus.

52

4
Cristo nasceu em Belém,
Jarado da Virgem pura,
Reza a sagrada escritura,
Igual ao mundo não vem
Rezai por nós, Virgem Mãe,
Que o vosso filho é bom Jasus,
Pelo que padecestes na cruz,
Pelas vossas divinas lágrimas;
Só para salvar tantas almas
Destes vosso Filho à luz.

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

e) Quando Cristo faleceu

Quobram-se as pedras duras,
Tremeu o Céu e a terra
Abriram-se as sepulturas.
1
Houve uma grande tempestade
Na hora em que Ele jazeu,
Houve uma nuvem que encobreu
Planetas co’uma claridade.
Um Deus de tanta humildade
Seu duro golpe sofreu.
Ele a todos converteu
P’ra nos dar a salvação
Sexta-feira de Paixão,
Quando Cristo faleceu.

3
A Pilatos foi luvado
Numa escolta de fariseus;
O próprio filho de Deus
Dos homens foi açoitado.
Foi preso, foi amarrado,
Suas leis lhe causaram guerra.
Sabemos que Deus que não erra.
O Seu poder é tão exacto!
Quando ele saíu do seu nato,
Tremeu o céu e a terra.

2
Houve um sinal no céu,
Todo o povo se assombrou;
Sanduro* a lança quobrou,
O mesmo tempo** rasgou seu véu,
Rezando este tronfeu
Por alma das criaturas.
Vinde ver suas aberturas
Que eu tanho nos pés e braços.
Fizeram-se os tempos*** òs pedaços
Quobraram-se as pedras duras.

4
Òs seus discípulos deixou
Grande enfado e alegria.
Quando foi o terceiro dia
Quando Cristo ressuscitou,
Foi quando São Tomé falou.
-- Dizei-me, porque murmuras?
Tu não vês minhas aberturas
Que eu tanho nos pés e braços?
Fizeram-se os tempos* òs pedaços,
Abriram-se as sepulturas.

*Sanduro -- Por centúrio?
**tempo -- Por «templo»
***tempos -- Cfr. nota anterior

(Figueira da Foz.)

53

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f) Quando Deus Nosso Senhor

Adão e Eva formou?
Desta idade em que estou
Ainda ninguém explicou.
1
Formou o céu e a terra,
Que todos devemos crer,
Por isso estamos a ver
Que só Deus é e não erra.
Todo este poder se encerra
No celeste criador.
Era o demónio atentador,
Que era o anjo Lucifer,
Queria ter tanto poder
Como Deus nosso Senhor

3
Ele fez o mar sagrado,
Sol e Lua e firmamentos
E luzes e os próprios ventos,
Tudo por Deus foi mandado.
Nesta matéria têm errado
Muitos mestres do desenho;
Eles faziam grande empenho
De seu segredo saber.
Nunca tal ouvi dizer
Desta idade que eu tenho.

2
O malvado não sabia
Que Deus era rei dos anjos,
P’ra causar tantos desarranjos
Senhor de toda a monarquia.
Os pelanestas* que ele fazia
Tantas almas desgraçou...
Foi quando Deus o expulsou
Da sua corte celestial.
No paraíso terreal
Adão e Eva formou.

4
Eu tenho ouvisto falar
Na Escritura Sagrada,
Pois eu dela não sei nada
Que te possa explicar.
Só me basta considerar
Nos tormentos que Deus passou:
Foi quando Judas o falseou
Seu corpo, sangue vendeu.
Porém segredo seu
Ainda ninguém explicou.

* pelanestas -- por «planos›› ?

(Figueira da Foz.)

54

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

f') Vou-te dar a relação

Com o meu pouco saber;
Podes fiar na certeza
Qui eu que te sei responder (Respostas à composição anterior)
1
Olha, que depois de pecar,
Dois viventes no Paraíso
Prepararam o que era preciso
P'ra seus trabalhos começar,
Que lhe foi Deus abençoar
Com a Sua própria mão.
Foi abençoar o próprio chão
Para obras fabricar.
A quem me isto preguntar
Vou-te dar a relação.

3
Deus formou o homem do pó
À sua imitação;
A terra é mãe de Adão
E da nossa Virgem; só
Deus com o seu fôl’go, só,
Sustenta esta grandeza;
É o Autor da Natureza
Que o homem formou,
Uma enxada lhe entregou,
Podes ficar na certeza.

2
Só Deus é que podia
Certas coisas arranjar,
Visto no mundo se achar
Só um homem que existia.
Esse mesmo não sabia
Certas obras fazer
Se não fosse aprender
Com o seu devino autor,
Só Ele era lavrador
Cá no meu fraco saber.

4
Quantos me estão a óvir
Cuidarão que isto é oca*.
Deus deu a Eva uma roca
Com linho p'ra se vestir;
Logo ensinou a seguir
A regra do bom viver.
Mais coisas lhe ensinou a fazer
A pôr-se à chuva e ò frio.
Considerem bem no meu brio,
Que eu te sei responder!
*Expressão empregada apenas para rimar com «roca»?

(Figueira da Foz.)
g) Duas Décimas

1
Imaculada Conceição
Foi das mulheres a mais ditosa,
Foi a Virgem vitoriosa,
Mãe de todo o fiel cristão;
Em qualquer ocasião
Pelos filhos se desvela.
Dizem os mouros que ela
Virgem pura que não é,
Mas diz o cristão que tem fé
Que pariu e ficou donzela.
(Figueira da Foz.)

2
Padece muita gente
Pelo castigo infalível,
Mas nada é impossível
A um Deus omnipotente.
Castiga todo o vivente
Que da sua lei se desfaça.
Que dela venha a desgraça,
Castiga todas as vezes.
Tende dó dos portugueses,
Maria, cheia de graça!

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11. Filosofia da Vida
Eu vi o filho do rico

Em lindo berço embalado;
Eu vi o filho do pobre
Em tristes palhas deitado.

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1
Entrei numa grande sala,
Vi o filho da nobreza
Coberto co’imensa grandeza
Rodeado de grande gala.
A minha ideia se rala,
Meu pensar mortifico,
Sem inveja justifico
Que sou pobre sem tesouro
Em lindo berço de ouro
Eu vi o filho do rico.

3
O pobre é diferençado
Pela infelicidade que tem:
Apenas ao mundo vem
Sigue logo cruel fado,
Depois é desprezado
Pela desgraça que o cobre,
Porque o rico não encobre
A infeliz criatura.
Criado sem ter ventura
Eu vi o filho do pobre.

2
Sofre a mãe golpes fatais
Quando é ao seu nascimento
Porque nesse triste momento
Todos nós somos iguais.
Ao som dos aflitos ais
É co’o pobre comparado
E depois é regalado
Ao ver o seu galardão,
Por ter sua criação
Em lindo berço embalado.

4
A pobreza envergonhada
Só em si teme percauços.
O rico em lindos palaços
Passa a vida regalada.
Em uma triste morada
Vive o pobre apoquentado,
Co' coração magoado
Coberto com negro véu.
Cria uma mãe um filho seu
Em tristes palhas deitado!

DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

12. Pragas
És engrata p'ra comigo:

Contra ti o tempo veijas,
A fortuna de ti fuja,
Não logres o que deseijas.
1
Permita o Céu vingá'la sorte
Dos danos que me tens feito!
Astrução tenhas no peito,
Não haja faca que corte,
Uma pinga de água-forte
Te dê alguém por castigo,
Quando comer's algum figo
Te arrebente a boca logo,
P'rô fato te salte o fogo,
Já que és engrata comigo!

3
Quando for's a ferir lume,
Mil pancadas dês nos dedos,
Sobre ti chovam [penedos],
Cases com homem que fume
A casa te desarrume,
Andes sempre porca e suja,
A todos pareças c'ruja,
Tão feia te vás fazendo!
Digam todos em te vendo:
A fortuna de ti fuja!

2
De mesa te fuja o prato,
A panela se te apegue,
Nunca a soldada te chegue
Piolhos tragas no fato,
A loiça te quebre o gato,
Sempre malfadada sejas!
Quando comeres cireijas,
Te dê logo uma degestão,
Em qualquer ocasião
Contra ti o tempo veijas!

4
Quando tiver's alguns pensares
Tos tirem do pensamento,
Quando tu fores, o vento
A roupa que tiver's, levar,
Quando fores alguém chamar
Um par de surdos tu vejas,
Sempre malfadada sejas!
Comas sempre o pão de rala,
Uma rouquidão te dê na fala,
Não logres o que desejas!

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13. Do Sal
Eu sou fêmea de nação

Macho me querem fazer.
Hei-de-me deitar a afogar
P'ra fêmea tornar a ser.
(Tem esta composição o interesse particular de vir o mote expresso à maneira de adivinha.)

1
Em tempos fui água pura,
Fui coalhada ao calor,
No comer deito sabor
Mesmo assim em pedra dura.
Nos olhos ninguém me atura:
Causo grande aflição.
Rendo conto, rendo milhão
No reino de Portugal.
já me a mim vendem por sal
E eu sou fêmea de nação.

3
Tenho navios ingleses
Que me levam lá p'ra fora;
Levem-me já sem demora
Para acudir aos fregueses.
Paguem bem aos portugueses
Que me sabem fabricar,
Peçam bom tempo no mar,
Meu navio não vá ao fundo.
Perde-se o tempero ao mundo,
Se me deixam afogar.

2
Por comportas tive entrada,
Nunca mais tive saída
E p'ra fazê'la fugida
Logo fiquei imprisíonada.
Fiquei em pedra formada
Que se deita no comer.
Quando me levam a vender
P'ra esses reinos 'strangeiros
É por falta de dinheiro.
Macho me querem fazer.

4
Eu vou a meus arraiais
Onde estão duques, marqueses.
Donde eu falte algumas vezes
O comer insonso achais.
Dão por mim tantos metais
Donde me levam a vender!
Logo me põem a derreter
Dentro de algumas caldeiras,
Debaixo fazer fogueiras
P'ra fêmea tornar a ser.

(Composição ouvida a um velho, em Silves.)

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

14. Aos 82 Anos do Calafate (na Noite da sua Festa)
Oitenta e dois hoje conta,

Oitenta e dois bem contados;
Todos à uma proclamam:
Que anos tão bem empregados!
1
3
Vem de longe e a caminhada
Sem fazer mal a ninguém,
Não foi de cantos somente;
Sem queixa dos próprios f'ridos,
Fizeram-no velho e doente
Oitenta e dois anos idos
As inclemências da estrada.
Combatendo e rindo bem,
Alma p'ra cantar fadada,
-- Tal força o génio contém! -Como a ave sempre pronta,
Contra ele não reclamam
Repartiu-se sem afronta
E até lhe querem, o aclamam,
Na mais trabalhosa lida.
Tal sua graça e bondade!
De rude e afanosa vida
Pura glória da cidade,
Oitenta e dois hoje conta.
Todos a uma proclamam.
2
4
Por milagre sem segundo,
Vai já seu corpo a dobrar,
A sua vida tão vasta
Mas o estro -- menos 'scasso
De trovador e sarcasta
Do que a força do seu braço -Não o fez um vagabundo.
Muito ainda há-de vibrar.
Andou cantando p'lo mundo
Nem a morte o há-de calar,
Mas castigando em seus fados
Pois seus versos afamados
Coisas, factos, potentados…
P'las gerações decorados
Lutou de várias maneiras
Ecoarão além da morte.
Anos de riso e canseiras,
Que longa e gloriosa sorte!
Oitenta e dois bem contados.
Que anos tão bem empregados!
(De Paulino de Oliveira.) -- (Setúbal, 15-12-1902.)

15. Décima solta
Antiga Alfabetização

Diz’, menino, a lição,
Logo cuidarás no brinco:
As letras vogais são cinco
E as mais consoantes são.
Não saltes ao «ba» e «bão»,
Se ainda as bem não lês.
Vai lendo e vai dizendo
As três regras da lição que dás.
Lê aqui; vês onde vás?
Tá, té, ti, tó, tu, não vês?

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A Descida dum Avião numa Aldeia
In – CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS, coligido por J. LEITE DE VASCONCELLOS,
coordenação de MARIA ARMINDA ZALUAR NUNES, III volume, por ORDEM DA UNIVERSIDADE, 1983, pp. 442 e 443.
O povo da pequena localidade de Vila Nova da Baronia ficou espantado e depois entusiasmadíssimo quando, pela primeira vez, lá aterrou um Junkers que, mais tarde, descolou para Espanha entre vivas, foguetes e música. O facto inspirou um velho pastor
de 70 anos, Joaquim António Mira, que sobre o raso compôs uma quadra e a glosou
em décimas.
Mote
Ficou-me isto na memória:

O dia de São Sebastião
Aterrar o aeroplano
Ao pé do Monte Barão.
Glosas
1
Eu nunca vi tanta gente
A cavalo, outros a pé.
Mas com tão boa maré
Que tudo ficou contente,
A música a tocar a frente.
Ai ganharam vitória.
Eu também tive a glória
De os ir acompanhar'
Para agora saber contar.
Ficou-me isto na memória.

3
Fez-me isto admirar
Depois de ver tudo bem,
Seis mil quilos de peso tem
E andar suspenso no ar.
Eu vi-o primeiro voar,
Parecia-me, além, um milhano.
Depois vi em chão plano
Aquela grande armação.
Mas que grande admiração
Aterrar o aeroplano.

2
Vi lá muito trabalhador
E vi muito ganadeiro,
Também vi muito carreiro
E vi muito lavrador.
Também vi o senhor doutor
C’uma bengala na mão.
Vi muito coxo e muito são
E velhos sem poder andar.
Toda a vida me há-de lembrar
O dia de São Sebastião.

4
A vinte e dois de Janeiro
Seguiu a sua jornada;
Estava ao pé uma lebre deitada,
Ia-a matando primeiro.
À vista dum povo inteiro,
Que não pode dizer que não,
Eu vi-o levantar do chão,
Deu primeiro uma carreira.
Aquilo parecia uma feira
Ao pé do Monte do Barão.

(Do Diário de Lisboa de 27-2-1928.)
1 Há numerosas décimas que servem de glosas a quadras no Cancioneiro Popular
Português, vol. II, cap. XXXI. (pp. 441 a 485)
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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

trabalho realizado
por @ JORAGA
Vale de Milhaços, Corroios, Seixal
2015 JULHO

JORAGA

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DÉCIMAS recolhidas por J. LEITE DE VASCONCELLOS – in CPP, Volume I, II e III

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Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar – 2915 07

Alandroal. p. 11
Figueira da Foz. p. 12
Alandroal. p. 6
Ameixial, c. de Estremoz. p. 17
(Figueira da Foz.) (Beira Litoral) p. 19
Messejana, c. de Aljustrel, 1890) p. 25
Composição da autoria de um mineiro. p. 26
Figueira da Foz. Beira Litoral p. 27
(Elvas.) -- (Do Elvense, n.º 1033. -- p. 29
Monte Real, Leiria, 1938 -- (Composição dita por um indivíduo que a aprendeu, em 1901, de um outro de
uns 30 anos, de Vieira; cantava isto como fado em casamentos e bailes, entremeado de palavras espanholas: pero; bate, chico, rico, chico; vaya cuño, etc. As décima: usavam-se mais nesse tempo do que
agora.) p. 30
Figueira da Foz. p. 31
Panóias de Ourique. p. 33
Versos feitos por um analfabeto de 45 anos, em sáfara. -- Jrg -- (Deve ser Safara, no c. de Moura) p. 26
Elvas. -- Do Elvense, n.º I033. p. 35
Décimas feitas por Domingos da Silva Estevães Pelancho (pele ancho), cardador de Minde, analfabeto. p.
36
Despique do Alentejo e do Algarve. p. 37
Décimas feitas por Marcelino Ramos, de Lisboa. Com outro homem andava ele cantando estes versos
por várias terras.) p. 39
Décima: de um cantador da Bairrada. p. 40
Estremadura p. 40
Figueira da Foz p. 41
Vimieiro, c. de Arraiolos, 1863 – bicentenário da batalha do Ameixial p. 45
António Eusébio, «o Calafate». Poeta popular de Setúbal, analfabeto.) p. 46
Antónia Eusébio, «o Calafate». Poeta popular de Setúbal, analfabeto p. 48
(Alandroal, 27-6-1891.) p. 50
(Figueira da Foz.) p. 51
(Figueira da Foz.) p. 53
(Figueira da Foz.) p. 54
(Figueira da Foz.) p. 55
(Figueira da Foz.) p. 55
(Composição ouvida a um velho, em Silves.) p. 58
Paulino de Oliveira -- (Setúbal, 15-12-1902.) p. 59
Joaquim António Mira, um velho pastor de 70 anos, Vila Nova da Baronia (Do Diário de Lisboa de 27-21928.) p. 60

Digitalização de José Rabaça Gaspar
ver mais sobre DÉCIMAS, em: http://www.joraga.net/cantodasdecimas/

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