Você está na página 1de 308

A José Pardal [†],

a Clotilde Rosa Lima [†]


e a Elisa Torpes [†],
pela Vida.

Ao Gustavo Marques [†],


afinal tudo se deve a uma tarde passada em Oriola, no Ve-
rão de 1983, em casa de José Serrano [†],
No mundo para que há
Afronto guerra e vingança
O cemitério além está
Onde tudo em paz descança…

A Maria Aliete Galhoz,


pela Amizade.

Ao João Honrado,
pela Verticalidade e pela Luta.

Ao gato Ruskin pelo silêncio que sempre fez


sobre as visitas de Avelino de Sousa,
de João Black e de João França cá a casa.
— Arauto, toma! Dá esta talhada a Demódoco,
para que ele a coma. Apesar da minha aflição, quero
brindá-lo com isto, porque os aedos merecem da
parte dos homens, que vivem sobre a terra, honra e
reverência, pelos cantos que a musa lhes ensinou. Ela
ama a classe dos poetas.
HOMERO, ODISSEIA – RAPSÓDIA VIII [459-490].

Os poemas epicos escrevem-se para celebrar heroes;


os fados para archivar as alegrias e os desalentos do
povo.
LUIS AUGUSTO PALMEIRIM, 1891: 291.

Enquanto houver miséria, haverá poetas.


ANTÓNIO MARIA COELHO
[n. 1920 – m. 2003].
ÍNDICE

13 .......... E, de repente... - Daniel Gouveia


15 .......... Prefácio - Maria Aliete Galhoz
19 .......... Introdução
25 .......... Profeta - Neves Galhoz
27 .......... Aos revolucionários
PARTE I UM • A DÉCIMA NO ALENTEJO • 1.ª FASE: 1750-1880

31 .......... A décima na história da literatura


34 .......... Geografia da décima
38 .......... Primeiros testemunhos e sobrevivências da décima barroca no Alentejo contemporâneo
44 .......... Conclusão
DOIS • FADO: 1910

49 .......... Definição do objecto


50 .......... Do quarteto à sextilha: uma revolução textual na poesia popular
63 .......... A canção dos operários
69 .......... António Maria Eusébio e Manuel Alves: fadistas e protótipos dos poetas populares
do século xx português
75 .......... Conclusão
TRÊS • A DÉCIMA NO ALENTEJO • 2.ª FASE: 1880-1990

85 .......... Da escrita à oralidade


94 .......... A décima no Alentejo do século xx
102 .......... António Aleixo, Manuel de Castro, Josefa Inácia Prego e Jaime Velez, poetas ou fadistas?
108 .......... Conclusão
PARTE II QUATRO • MANUEL JOSÉ SANTINHOS, PROFANISTA DE SANTO ANDRÉ

115 .......... Breves considerações preliminares


116 .......... Nota biográfica
125 .......... Bibliografia disponível sobre Manuel José Santinhos
131 .......... O noivado do sepulcro, de Soares dos Passos
137 .......... As singulares estrofes do poeta do Tojal
PARTE III CINCO • NOTA FINAL

153 .......... Utopia


154 .......... Fontes e Bibliografia
PARTE IV SEIS • BREVE ANTOLOGIA DA OBRA POÉTICA DE MANUEL JOSÉ SANTINHOS

163 .......... Manuel José Santinhos, um poeta inspirado pela natureza - Manuel João da Silva
166 .......... Breve nota ao corpus
168 .......... Antologia poética
PARTE V SETE • TEXTOS CONSIDERADOS [QUASE] FUNDAMENTAIS

239 .......... Nota


241 .......... Irmandade do Menino de Jesus dos Homens Cegos de Lisboa: Os cegos e as notícias;
242 .......... Arquivo de notícias sobre poetas populares, Manoel de Almeida Margarida, José de Almeida
Candido, O Cantador de Setubal, José dos Reis, Antonio Augusto Monteiro, O Potra;
248 .......... Notícias de poetas e poesia populares do Alentejo, de Roda do lume Poetas Populares, Um
poeta popular alentejano do século XVIII, Decimas e oitavas feitas por José Lucio da Silva
Cardoso;
262 .......... Sistemas estróficos do Alentejo, Cantigas quadradas: nótulas etnográficas., Cantigas dobradas,
O ‘cante’ das ‘gralhas... à solta’, poesia popular, a história do povo contada pelo povo;
276 .......... O Fado, canção operária, O fado e os seus censores;
PARTE VI OBJECTOS IMPRESSOS

309 ..........
PARTE VII GUIA DE AUDIÇÃO

367 ..........
FOTOGRAFIAS • AUGUSTO BRÁZIO

373 ..........
13
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

E
, de repente, estava ali tudo! Fado que a décima alcançara o Alentejo. Que, a pá-
A décima, que há tantos anos me fascina- ginas tantas, me punha a capital desse mesmo Alen-
va como estrutura poética, que me intrigava tejo em Lisboa e os fadistas a politizá-lo. Que me
por quase ter desaparecido depois do séc. XVII e desvendava a terminologia alentejana da versifica-
reaparecido no séc. XIX, cantada no Fado de Lis- ção e os métodos iniciáticos desses génios da orali-
boa e recitada no Alentejo (c’os diabos, porquê no dade que foram os improvisadores de décimas.
Alentejo?), aparecia-me explicada nas suas origens, Ah! Como é rico Portugal, que tem Camões e uns
na sua evolução, nas suas variantes – eu que jul- camponeses semi-analfabetos a cultivar a palavra
gava existirem só dois esquemas rimáticos! – pelo na mesma metrificação e com a mesma eficácia!
Paulo Lima. Todas as dúvidas estavam respondi- Que tem uma música própria a apoiar a palavra
das e uma quantidade de nova informação palpita- e uma palavra tão forte que dispensa música, se o
va naqueles capítulos, enviados por correio infor- que importa é a mensagem!
mático, de um livro ainda por publicar... Que tem Paulo Lima.
Um Paulo Lima que me revelava Vicente Espinel,
que se metia pelo Fado dentro com o à-vontade do
antropólogo perspicaz, a pôr em relevo o que me ti-
nha passado ao lado na “Guitarra de Portugal”, na
“Canção do Sul” e noutras publicações afins. Que Daniel Gouveia
me explicava como, afinal, tinha sido pela via do Junho 2004
15
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

PREFÁCIO era um dos nossos campos de pesquisa. Foi nes-


tas circunstâncias, como investigadora do CTPP,
MARIA ALIETE FARINHO DORES GALHOZ que conheci Paulo Lima, fomos trocando impres-
Centro de Tradições Populares Portuguesas sões e dados de trabalho e assim viemos, depois,
“Prof. Manuel Viegas Guerreiros” da Universidade de Lis- a colaborar em iniciativas de trabalho e em pu-
boa blicações.
Paulo Lima conviveu ainda bastante com Prof.

P
AULO Lima pediu-me que escrevesse umas pa- Manuel Viegas Guerreiro (de 1993 até ao fim da
lavras para serem presentes, como “prefá- sua vida activa, Novembro de 1996) e este logo
cio”, neste seu trabalho: O fado operário no se apercebeu da sua excepcional aptidão para a
Alentejo [sécs. xix-xx] (o contexto do profanista pesquisa no terreno, da sua vivíssima curiosida-
Manuel José Santinhos). Considero o convite uma de pelo saber e estudo e do poder de análise críti-
honra para mim e aceitei-o com alegria mas tam- ca dos conhecimentos, nas áreas de pesquisa que
bém com alguma emoção: não era eu a pessoa in- pratica, e das conjunturas que os enformam. Pau-
dicada para o fazer mas devo fazê-lo por ser uma lo Lima mostrava-se capaz, e tem-no demonstra-
testemunha deste percurso da pesquisa de Paulo do!, de pôr de pé e levar a cabo um projecto, e vi-
Lima e desde há bastantes anos. Explico o por- venciando os objectivos que se propusesse com tal
quê e a relação de entreajuda que se foi formando projecto, com uma determinação e aplicação de
e que se mantém com sólida amizade. esforços notáveis desde que fortemente aí empe-
Paulo Lima apareceu-nos pelo Centro de Tra- nhado. O que se evidencia pela sequência de tra-
dições Populares Portuguesas (CTPP) em 1993, balhos vindos a público mais notoriamente e em
interessado em consultar livros da biblioteca do que os títulos são sempre indicadores do “objec-
Centro. Frequentava o ISCTE, curso de Antro- to” estudado e do objectivo prospectivo das aná-
pologia. Não era raro alunos do ISCTE procura- lises a que se aplica. Dilucido.
rem documentação do CTPP, quer pelo fundo de Em 1994 sai o livro Poetas de Cá – breve pa-
consultas bibliográficas que possibilitava (obras norama da poesia em Portel, recolha, organiza-
de referência, livros de consulta básica, edições ção e introdução de Paulo Lima, edição da Câ-
dificilmente encontráveis, em Etnografia, Etnolo- mara Municipal de Portel. A recolha maioritária
gia, Literatura Popular e publicações fundamen- e relevante é de “Quadras”. A introdução, uma
tais de Antroplogia) quer, também, pela riqueza abordagem de 27 páginas, focaliza como priori-
do contacto com Prof. Manuel Viegas Guerreiro, tária a atenção aos produtores e (re)utilizadores
Director do Centro. Prof. Manuel Viegas Guerrei- deste subgénero de poesia narrativa e estuda já a
ro, se se encontrava no Centro, nunca estava ocu- sua estrutura formal, o código rimático e a rit-
pado demais que não interrompesse para escutar mia, o léxico particular da sua poética, quer em
as pessoas e prestar a ajuda precisa ou pedir a um termos técnicos de composição, quer numa tipo-
de nós, seus colaboradores, que o fizéssemos, se logia temática.
16
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Em 1996, aquando do colóquio realizado pe- da Verdade/José Inácio Horta, título do próprio
lo CTPP/Câmara Municipal de Portel sobre “Ar- autor; na folha de rosto consta: José Inácio Horta/
tes da Fala”, em Portel, é lançado um CD, extra- Livro da Verdade/o dialogismo como processo de
ído dos arquivos das recolhas para Poetas de Cá, construção cultural/Paulo Lima/Fixação de texto,
intitulado No Jardim do Mundo (edição da Câ- notas e nota introdutória (Odivelas, Agir – Pro-
mara Municipal de Portel), a partir do primeiro duções gráficas, 2000). A enfocagem bakhtiniana
verso, “Vivo no jardim do mundo”, do mote de dos textos, seis páginas de nota introdutória, pre-
uma “quadra” de tema em enigma. O caderno cede um excelente tratamento do corpo textual do
de textos que acompanha o CD consolida a li- autor, quer para o discurso narrativo e dialógico,
nha de pesquisa de Paulo Lima sobre “Produtores quer para as 250 produções enversadas.
e (Re)utilizadores de Textos em Verso Circulan- Este excurso pelo que Paulo Lima já publicou re-
do a Sul do Tejo”. Igualmente a comunicação que mete-nos para a penetração do universo cultural,
apresenta nesse Colóquio, “Artistas da fala a Sul (em fontes, “objectos” de estudo e seu estudo) no
do Tejo” (publicada em 1997 nas actas, Artes da presente bloco de O fado operário no Alentejo [sécs.
Fala, Celta Editora, pp. 47-85) reitera uma pers- XIX-XX] (o contexto do profanista Manuel José
pectiva, além de antropológica, vincada pelo cru- Santinhos). Dez anos de pesquisa para além do fun-
zamento com uma leitura histórico/social de cau- do já atesourado em Poetas de Cá. Apresenta-se em
sas de tal produção e comércio. três painéis fortemente interligados pelo horizonte
Em 1999 surge um outro CD, coordenado por histórico da leitura consequente que iluminam. A
Paulo Lima e editado pela Câmara de Castro Ver- história da décima em Portugal e a sua aplicação
de. O caderno de textos que acompanha o CD in- pelos “quadristas” e os circuitos do seu comércio;
dicia uma abordagem tensa de rigor documental o problema do fado como definição de forma ou
e onde vem revelar-se um imaginário reconstruin- de uso, sua opção fulcral, determinante, pela letra
do modelos expectantes. O título do CD é uma em “quadra” e suas complexificações, a dissemina-
síntese de movência histórico-humana: No paraí- ção como meio de sensibilização nos meios assalaria-
so real – Tradição, revolta e utopia no Sul de Por- dos, também os rurais, dos ideais políticos/sociais
tugal. Ainda que levantando-se a partir da difu- que levaram à Primeira República e à pujança ide-
são de ideologias socio/políticas de filosofia mate- ológica das duas primeiras décadas do século XX,
rialista, afloram na assimilação popular dos mo- os modelos de persistência e itinerâncias na produ-
vimentos de renovação os parâmetros das utopias ção e oferta/”venda” no Sul do país; a apresentação
igualitárias e paradisíacas milenaristas. A selec- e estudo “de caso” do poeta profanista Manuel Jo-
ção dos textos e dos testemunhos feita por Paulo sé Santinhos (n. Santo André 1905 – m. Santo André
Lima direcciona para esta leitura. 2001), notável exemplo (história de vida e “obra” de
De 2000 é a vinda a público, passada injusta- “quadrista”), contextuado pelos dois densos e rigo-
mente despercebida, de um extraordinária “histó- rosos estudos precedentes no volume, da enfocagem
ria de vida”, escrita ao longo de dois anos pelo su- da “cultura popular” (saberes e produtos desses sa-
jeito e autor dela, José Inácio Horta (1913-2001), beres) ser resultado de uma forte miscigenação de
“pedreiro alvanel”, perito em “abobadilhas de tijo- instrução/prática oral, objectos impressos modeli-
lo” e “chaminés” e que redigiu o seu manuscrito zadores, iniciações quase codificadas no que respei-
depois dos 80 anos de idade. Também produtor e ta ao estatuto parental ou laboral dos mestres ini-
(re)utilizador de décimas e de “quadras”. O traba- ciadores e superação, nos “lideres” criadores, da es-
lho de Paulo Lima para a edição dos materiais de cassez ou impossibilidade de instrução escolar ins-
José Inácio Horta é exemplar. Volto à inteligência titucional.
que os títulos propõem para os objectos em estudo É impossível não afirmar que este trabalho de
e para o horizonte das abordagens do investigador. Paulo Lima é de fôlego longo, riqueza informati-
O protocolo do livro indica: na capa apenas Livro va forte, sólido, e levando avante hipóteses pros-
17
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

pectivas pioneiras que, ao fim, se confirmam vec- manuscritos ou gravações feitas pelo Prof. Viegas
tores vivos e actuantes. O bloco, na sua totalida- Guerreiro ou, a seu pedido, por familiares, no con-
de, reenvia-se, nos seus três textos (já não estou celho de Loulé). Integra, ainda, esse fundo, uma
falando dos painéis) um espelhamento mútuo de pequena mas significativa, pelo recorte histórico
documentário veraz sobre história/geografia de e temático dos princípios do século XX, colecção
habitat/e homem: o texto impresso, o texto sono- (de caderno manuscrito possivelmente elaborado
ro (tem dois CD’s) e o texto imagem (tem um por- nos anos 20 do século XX) de que foi dada cópia
te fólio com fotografias, retrato humano e retrato a Prof. Viegas Guerreiro, em 1982, em Ponta Del-
de alguns lugares) peregrinação e captação do ex- gada, São Miguel, Açores.
cepcional fotógrafo que é Augusto Brázio. Bastantes desses textos/letras (das recolhas mais
Volto, para terminar, à minha afirmação, no iní- antigas não há gravações) assumem-se, pelos pró-
cio do meu escrito, de que não sou a pessoa indica- prios autores proclamados, como fados ou “qua-
da para fazê-lo; é exacto. Se fosse possível prolon- dras” cantadas em fado; recorrentemente. Alguns
gar o ciclo de vida, e com sua força de madurez, se- textos/letras, sobretudo na cópia da colecção ma-
ria Prof. Manuel Viegas Guerreiro, que já não está nuscrita de São Miguel, referem, ou exaltam, de
connosco, que o faria. Salvo na inflexão que Paulo mistura com outros textos de recorte romântico e
Lima fez, no prosseguimento da sua pesquisa, pa- ultra-romântico, a catequese social renovadora le-
ra o “território” específico do fado, Prof. Manuel vada na difusão do “fado operário”. As linhas da
Viegas Guerreiro era quem mais conhecia e sabia afirmação do discurso analítico de Paulo Lima ex-
sobre “quadras” e a sua prática no Sul do Alente- pressas no seu título são pontualmente corrobora-
jo e no Algarve. Textos fundadores (que Paulo Li- das por tais testemunhos.
ma frequenta e cita como fundadores) são-lhe de- O eu ter tentado, e ter achado que devia fazê-lo,
vidos como, por exemplo, “Literatura Popular: uma viagem compreensiva ao universo científico
em torno de um conceito” (1986, Paris), “Poesia frequentado por Paulo Lima, e que eu só conhe-
Popular, Conceito, a redondilha, a décima. Dé- ço como “curiosa leitora”, é também um testemu-
cimas em poetas do Alentejo e do Algarve” (1992, nho: do meu aprender sempre com os trabalhos
Lisboa), ou o vivo testemunho na sua participa- de Paulo Lima e de trocarmos “saberes”. Aqui lhe
ção no Colóquio de Portel, “Literatura e Litera- refiro uma pequena fonte, mais, para seu fundo
tura Popular? Casos exemplares” (1996). Além de de investigação. No opúsculo Os Versos de Fran-
exemplo e mestre de trabalho no terreno que infa- cisco Martins Farias, poeta popular (n. 1861 – m.
tigavelmente praticou toda a sua vida, colector ri- 1930), da Freguesia de Querença (cuja Junta edita
goroso e ao mesmo tempo de uma empatia que se o pequeno livro em 1980) o meu amigo encontra
pode dizer carismática. a mão amiga do Prof. Manuel Viegas Guerreiro,
No CTPP temos um fundo, com que estou a tra- as itinerâncias de operários rurais (eventualmen-
balhar, de cerca de 500 espécimes de textos/letras te mineiros sem fixação) do Algarve para o Alen-
de “quadras”, de recolhas (não sistemáticas mas tejo e do sul alentejano para cá da Serra algarvia,
sempre persistindo) que vão de 1927 (colector o uma “história de vida” e, creio, um “sábio” das
jovem liceal Manuel Viegas Guerreiro, de 15 pa- “contas da mão” que, “analfabeto, tinha organiza-
ra 16 anos) em Querença, até 1992, num traba- do um calendário perpétuo que, como dizia, per-
lho de campo no concelho de Odemira (colecto- mitia-lhe saber, nem que fosse daqui a mil anos, o
res das “quadras” Prof. Manuel Viegas Guerreiro, dia do Entrudo e, em questões de datas não o en-
Dr. António Machado Guerreiro e Dr. Francisco ganava” (p. 6). Como o “Tio” Inácio Horta!
Melo Ferreira). A colecção incide em espécimes re- Aqui tem, Paulo Lima, para a “história”, do seu
colhidos no Sul do Alentejo (particularmente gra- livro, estas palavras e a nossa amizade.
vações feitas no concelho de Odemira pelo Dr. A.
Machado Guerreiro), e no Algarve (particularmente LISBOA, MAIO DE 2004
18
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
19
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

INTRODUÇÃO Em anexo, damos uma série de materiais que jul-


gamos de importância para sustentar algumas ideias
A ANTÓNIO BERNARDO [†], que aqui avançamos. Reproduzimos uma colecção
DA ALDEIA DAS AMOREIRAS, de folhetos que circularam pelo Alentejo. Apresen-
A PERPÉTUA MARIA [†], DA FUNCHEIRA, ta-se também uma antologia de textos que conside-
A ANTÓNIO ROSINHA [†], DA SONEGA, ramos fundamentais para o conhecimento da poesia
A INÁCIO HORTA [†], DE SANTANA. popular em Portugal e, em particular, do Alentejo,
assim como do fado. Damos também uma colecção
de poemas de Manuel José Santinhos, um corpus de
I. 120 textos respigados de uma recolha de cerca de
Este é um livro sobre a poesia popular da Região meio milhar de produções poéticas.
Histórica do Alentejo. Não sobre toda a poesia po- A par deste volume de enquadramento e de mostra
pular, mas apenas sobre uma certa expressão poé- poética, outros objectos aqui se inserem. Acom-
tica que repousa sobre determinada estrofe: a déci- panham este trabalho dois c. d.’s, cujo objectivo é
ma. Mas a poesia popular só existe porque há po- trazer as vozes de alguns dos poetas presentes ao
etas populares que a cultivam. Se este livro é sobre longo do texto.
a décima, é também sobre um poeta popular a to- No primeiro c. d., uma reedição2, intitulado «Vi-
dos níveis espantoso: Manuel José Santinhos, na- vo no Jardim do Mundo», introduz-se, na primei-
tural do município de Santiago do Cacém. Espan- ra parte, um conjunto de estrofes em uso, ou usa-
toso porque construiu uma obra sem paralelos na das, no Alentejo. Na segunda parte, apresentam-se
poesia popular desta região. uma série de testemunhos que poderiam ser usa-
O argumento está então implícito: criar um en- dos numa história oral pela importância dos fun-
tendimento sobre a obra de um poeta popular que damentos aí registados.
até agora tem resistido a todas as invasões expli- O segundo c. d., guarda a voz de Manuel José
cativas. Santinhos. Fragmentos de entrevistas, quadras, ver-
Para o entendimento de uma obra que foge aos sos e testemunhos gravados em cerca de vinte anos
cânones, colocámos em cena uma outra persona- de recolhas por diferentes colectores. Deu-se a este
gem. Essa personagem, quase oculta no Alentejo, é último o título de «Vai alta a Lua...», primeiro ver-
uma canção operária que se estruturou entre 1860 so de um fado que Santinhos terá aprendido por
e 1930 numa geografia que ocupou uma área que volta de 1920, e que considerava como uma das
vai de Setúbal à Porcalhota1 e desta até Santarém, coisas de maior valia que ouviu e aprendeu. Este
e que subiu depois até ao norte, após o que desceu c.d. fechará com uma outra voz, a de António Ro-
para sul. Essa canção operária, essa personagem sinha, que dirá um poema sobre zagais, atribuído
que colocamos agora em cena, chama-se fado. por ele a Antero de Quental. Após a qual se ouvi-
Será então o fado a personagem principal des- rá uma breve reflexão sobre poesia, testemunho do
te livro. Prof. Manuel Viegas Guerreiro.
20
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Os c. d.’s têm em comum uma questão, que se remota do fado. Pouco, ou nada, nos importa se
pode resumir no seguinte: existirá uma oralidade este é brasileiro, africano, português, de origem ur-
na cultura popular da Região Histórica do Alen- bana ou rural. Para nós, o fado, na sua fase moder-
tejo? na, inicia-se na década de sessenta do século xix.
Um portfólio fotográfico da autoria de Augusto É aí que ele se estrutura na letra e na música, su-
Brázio acompanham este livro. Desde 1994, este portado por uma classe social que também começa
fotógrafo tem vindo a percorrer o Alentejo, traba- a emergir: o operariado como indivíduo. É a esse
lhando com poetas e ambientes, captando o pro- mesmo operariado que, na segunda metade do sé-
fundo silêncio das palavras andantes3 que trans- culo xix, se deve, em grande parte, o espalhar desta
portam homens e mulheres por estradas e sítios, trova pelo país. Primeiro para o norte, onde quar-
guardando a profunda solidão que os envolve. teto prova tal afirmação; depois para o sul, onde a
décima como glosa tão bem o demonstra.
II. Mas o fado, entretanto, na cidade de Lisboa, en-
Importa, além da descrição do objecto e do argu- tre finais de oitocentos e princípios de novecentos,
mento que o sustenta, partilhar alguns princípios sofre uma série de experimentações. A estrutura
que orientaram a construção deste trabalho. musical enriquece-se e os textos sofrem uma pro-
O título Vai alta a Lua... fomos buscá-lo a um funda revolução: mudam-se as temáticas, e as es-
«fado» que Manuel José Santinhos tinha em al- truturas poéticas complexificam-se num processo
to valor. Assim se funda a grande razão do bap- sem paralelo na poesia popular portuguesa. E são
tismo deste livro. Mas outras razões estão aqui os operários fadistas o motor dessa alteração. O
esposadas. Este fragmento poético é retirado de fado entra, então, plenamente no seu quotidiano.
uma balada do poeta ultra-romântico Soares de Serve como veículo de educação, de memória e de
Passos intitulado «O noivado do sepulcro». Pa- elemento lúdico. Mas, fundamentalmente, é usado
ra quem deseja questionar uma oralidade primeva como espaço de construção social. É através dele
presente no Alentejo, este apresenta-se-nos como que os operários tentam produzir uma consciência
um bom título. de classe, unindo a costureira, o ferroviário, o ti-
Mas um outro motivo mais fundo encastra na pógrafo... a um só ideal revolucionário, socialista
escolha do nome. Na viragem do século xix pa- e anarquista, republicano, a um porvir melhor, que
ra o século xx, este poema era um dos textos mais afaste a exploração e a miséria do seu quotidiano,
popularizados em fado. Em resumo, não só se vai do duro e penoso dia-a-dia destes homens e destas
ao encontro de uma vida e de uma obra, a de Ma- mulheres. Ninguém melhor que Avelino de Sousa
nuel José Santinhos, como através dele se ilumina [n. Lisboa:1880 – m. Lisboa:1946] exporá a importância do
um conjunto de problemas que este trabalho in- fado para a classe operária
tenta inventariar.4
Se o título é algo pacífico, já o mesmo não se N’estas trovas faz-se propaganda contra a Reac-
poderá dizer do seu subtítulo, O fado operário no ção, stygmatiza-se o roubo legal comettido pe-
Alentejo [sécs. xix-xx], poderá revestir-se de uma lo honrado commerciante, disseca-se o ventre da
certa estranheza. Abundancia, cheio á custa do suor do pobre, da
Desde 1994 que afirmamos5 que alguma da poe- eterna besta de carga, jungida ao carro triumphal
sia da Região Histórica do Alentejo, em particular do Rei-Milhão!6.
a décima, é credora do fado, assumindo claramen-
te que o fado de que falamos tem como epicentro Serão, pois, estes homens, unidos pelos ideais so-
alguns bairros da cidade de Lisboa, onde a partir ciais, que o cantarão por toda a parte, e em espe-
da década de trinta de oitocentos se acantonam de- cial pelo Alentejo. João Black [n. 1872 – m. 1955], José
terminados grupos sócio-profissionais. Carlos Rates e outros transportarão estas trovas
Não nos interessa aqui a origem mais ou menos por toda esta geografia, espalhando textos e ideais.
21
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Estes fados vamos encontrá-los muito mais tarde reno, “construímos” uma definição que importa
nas antologias de poetas populares alentejanos.7 partilhar, pois é fundamento para se entender a
Mas um outro fenómeno será companheiro des- posição que tomámos neste livro. Na procura de
te. Uma certa industrialização agrícola, a partir da uma poesia oral, encontrámos uma poesia onde o
década de setenta de oitocentos, levará o Alentejo objecto impresso era nuclear. A rede de tipogra-
a ter como capital económica a região de Lisboa8. fias usada, os muitos textos impressos ou a circu-
Essa circulação de gentes, de cortiça, de minérios, lação de livros, a aprendizagem dos conteúdos des-
de gado, cereais e lã ajudará, também, a fixar essa tes por ouvir ler ou por ler directamente, os dife-
forma operária de cantar no sul de Portugal. rentes caminhos da aprendizagem da leitura e da
O fado será a expressão que sustentará a décima escrita, mostram uma presença do ler e do escre-
na província transtagana até à década de sessen- ver muito intensa. Muitos dos poetas populares
ta do século xx, quando, por razões várias, come- que entrevistámos sabiam ler e escrever; outros, a
ça a morrer. O redescobrir desta expressão, no pós esmagadora maioria, sabia ler. O maior exemplo
’74, levará a tomar-se esta poesia cantada por poesia disto é o pedreiro e poeta popular José Inácio Hor-
dita. Será a morte do fado operário no Alentejo e ta [n. Santana 1913 – m. Portel 2001], que organizou a sua
uma autonomização da décima em relação a este vida a partir de um livro do século xviii, O Tesou-
cantar. Então a palavra dita matará o fado, e com ro de Prudentes. Calculava as festas móveis a par-
a morte deste morrerá o elo de ligação com Lisboa tir de complexos cálculos matemáticos. Encontrá-
e com o movimento operário. mos depois ecos deste saber noutros que nunca ti-
É esta história que este volume tentará contar a nham visto tal livro, como é o caso de um poeta
partir da vida e da obra do poeta popular Manuel popular de Panóias, funcionário da Câmara Mu-
José Santinhos, para quem o fado era central no nicipal de Ourique, cuja aprendizagem tinha sido
seu quotidiano. feita com a mãe.9
Estas observações levaram-nos a não confundir
III. iletrado com oral, já que este último é redutível a
Importa avançar duas ideias que são fundamen- uma forma que não é possível localizar nas socie-
tais para a compreensão de todo este trabalho. A dades ocidentais da Época Moderna e Contempo-
primeira é o nosso entendimento da geografia a rânea.
que chamamos Alentejo. A outra é o entendimen- Assim, definimos cultura popular, na Região
to que fazemos da oralidade no sul. Histórica do Alentejo, como não caligráfica, antes
Comecemos pela última, a oralidade. tipográfica, e por isso letrada mas pouco escolari-
Muitos são os autores que, quando falam de po- zada, no sentido institucional. Significa isto que,
esia popular no Alentejo, referem que esta está li- para a entendermos, temos que ter algum conheci-
gada a uma profunda e ancestral oralidade; ligam- mento da história da imprensa, do objecto impres-
na ao universo da cultura oral. Não importa ago- so e das formas paralelas do ensinar e aprender a
ra analisar as premissas com que esses investiga- ler e a escrever, assim como dos hábitos de leitura
dores trabalham para chegar a essa conclusão. É dos homens e das mulheres que no Alentejo per-
necessário, isso sim, ver as suas conclusões, e essas tencem àquilo a que chamamos cultura popular.
estão sempre presas a algumas ideias que há mui- Ao contrário de muitos que atribuem uma ora-
to são pouco sustentáveis, não tomando em con- lidade primária, ancestral, e que está a ser destruí-
ta um amplo conjunto de reflexões que têm sido da, ou já foi destruída, pela escrita e pela televisão,
produzidas em torno da cultura popular e do ob- defendemos que a oralidade presente nesta região
jecto impresso. E o primeiro aspecto é a caracte- não é prístina, mas antes produto da cultura escri-
rização da cultura popular em relação à oralida- ta performatizada em fórmulas erradamente con-
de e à escrita. fundidas com a cultura oral. Isto não significa que
A partir da nossa experiência de trabalho no ter- a cultura escrita se subalternizou em relação a uma
22
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

oralidade, mas antes que o que encontramos nesta anos quarenta e cinquenta do século xx se dança-
região histórica é um sincretismo processual que se va o fado em Lisboa, assim como manteve uma re-
arrastou ao longo de cinco séculos e que só na se- lação profunda com os grupos sociais considera-
gunda metade do século xx se concluiu a favor da dos como marginais. Conhecemos imagens, data-
cultura escrita.10 das de 1940, onde ainda se vêem pessoas a execu-
Sabemos muito pouco sobre a circulação do ob- tar esta dança nas hortas, ou melhor, nos olivais. O
jecto impresso ao longo do século xx entre as classes segundo tipo, é aquele que poderemos classificar
populares; e para os dois séculos anteriores, que aqui como o fado de salão, onde se inclui o fado aristo-
nos interessam, Portugal não produziu ainda uma bi- crático. O terceiro é o fado operário. Este é o gran-
bliografia suficiente a que possamos recorrer para re- de responsável pela modernização desta canção. O
solver satisfatoriamente esta questão essencial para o último tipo é aquele que poderemos classificar co-
entendimento da oralidade com que trabalhamos. mo o fado profissional, o que gera capital. Inclui o
teatro, as casas de fado, emergentes a partir da dé-
Ao longo do livro, fixaremos Alentejo de diferen- cada de trinta, passando pelo disco e pela rádio.
tes formas. Duas coisas devem ser ditas sobre isto. A Neste livro só trabalho, embora de forma muito
primeira é o espaço que entendemos como Alentejo resumida, o fado operário. Espero ter oportunida-
ou como sul. De forma correcta, talvez devêssemos de de o trabalhar com mais acuidado.
fixar um território a seguir à Serra da Estrela. É aí Nenhum livro, por muito grande que o seja, es-
que começa o sul. Mas para este trabalho, o sul é o gota todos os materiais que vão sendo reunidos
território entre o Rio Tejo e o litoral algarvio e entre para a sua construção. Deixo de lado algumas in-
a fronteira com Espanha e o litoral alentejano. A se- formações que ao longo de duas décadas foi reu-
gunda é que, quer escrevamos província transtagana, nindo, mas que aqui não fazia sentido colocar.
Região Histórica do Alentejo ou simplesmente Alen- Toda a parte do fado retira materiais de um ou-
tejo, tomamos como certeza que este sul não é uma tro trabalho que estamos a construir sobre a can-
unidade cultural, mas antes uma realidade histórica, ção nacional, e que incide sobre um período que
e que os seus limites geográficos devem mais a um vai entre 1860 e 1930. Trabalho que intenta reunir
processo político-administrativo que a uma qualquer informações sobre os intervenientes neste amplo
razão genético-cultural. Traduz-se isto no seguinte: movimento de fundação do fado, assim como ela-
não encontrámos dados que nos permitam defender borar um tratado de versificação sobre os fados re-
a ideia de uma poesia alentejana, ou melhor, do Alen- gulares. Tais projectos serão sustentados por uma
tejo, fixada numa matriz cultural longínqua. E que se análise histórica deste aro temporal e por um di-
tivermos de caracterizar a poesia popular do Alente- cionário bio-bliográfico dos intervenientes (fadis-
jo, ela deve ser olhada pelo signo do movimento, da tas, jornalistas, tocadores…). Por isso, é fácil su-
abertura e do sincretismo. por que muitas das conclusões que aqui propomos
são passíveis de uma profunda revisão.
Deixámos de lado a definição de cultura popu-
lar. A sua delimitação coloca problemas e frontei- Todos os trabalhos são sempre devedores a mui-
ras de difícil resolução e demarcação. Neste traba- ta gente, embora a responsabilidade do que aqui
lho, serão os próprios objectos em estudo os defi- exponho seja inteiramente minha.
nidores da nossa posição. Devo, antes de mais, agradecer à Câmara Mu-
nicipal de Santiago quer a confiança, quer a paci-
IV. ência por um trabalho que demorou mais do que
Durante a feitura deste livro, penso ter identifi- se esperava. Para com Vítor Proença, primeiro co-
cado quatro, digamos, tipos de fado. O primeiro é mo vereador da cultura e depois como presidente
aquele que segue a tradição, quase que se pode di- desta autarquia, tenho uma dívida que espero es-
zer que está próximo à sua «origem». Ainda nos tar agora, em parte, saldada. A actual vereadora
23
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

da cultura, Dr.ª Margarida Santos, esteve sempre o acesso a diversa documentação. Agradeço, tam-
disponível para rever um projecto que parecia, e bém, ao Mestre de guitarra portuguesa António
parece, não ter fim. A Dr.ª Robertina Pinela, que Parreira a disponibilidade para responder às mui-
além de amiga, foi sempre uma interlocutora em tas, e por vezes disparatadas, perguntas que um
todos os problemas que ao longo destes anos se fo- novato nestas áreas sempre tem.
ram colocando. Muito lhe devo. Ao fotógrafo Pau- A Walter Reis devo a construção do c. d. «Vai al-
lo Chaves se deve o acesso à fabulosa documenta- ta a lua». Os dois dias que passei em sua casa fo-
ção fotográfica de José Benedicto Hidalgo Vilhena ram espantosos. Quer ele, quer a sua esposa, Lo-
[n. 1870 – m. 1943] que este livro divulga. O vereador reta, foram de uma simpatia extrema.
José Baguinho é o grande responsável pela exis- Agradeço a Daniel Gouveia a sua disponibilida-
tência este trabalho: a ele se deve o abrir de portas de, assim como a simpatia, para discutir algumas
que o possibilitou. ideias que este livro transporta. Espero que possa-
Mas para com duas pessoas desta Câmara Mu- mos continuar a almoçar para falar sobre fado, co-
nicipal tenho uma particular dívida. A primeira mida goesa e alcunhas.
é ao Professor Manuel João da Silva. A ele devo, Devo ao Professor Maximiano Trapero, da Uni-
além dos muitos ensinamentos, o acesso a infor- versidad de Las Palmas de Gran Canaria, a opor-
mações e pistas de trabalho de muito valor. Se a tunidade de contactar com improvisadores e déci-
sua morte me fez perder um mestre, separou-me madores cubanos, venuzuelanos, canarinos, mexi-
também do Amigo. Esta dívida é partilhada com canos, argentinos... e a Rui Arimateia, da Câma-
Dulcelina Santinhos Pereira, sua colaboradora. Es- ra Municipal de Évora, a oportunidade de traba-
pero que este livro corresponda a algumas das su- lhar com improvisadores brasileiros, açoreanos e
as expectativas. madeirenses.
Em Santiago do Cacém, muitas foram as pesso- Agradeço também a Domingos Fialho Barreto as
as que me ajudaram. Na impossibilidade de as tra- informações prestadas. Sei quanto penoso lhe foi,
zer aqui todas, não posso esquecer a poetisa Ma- assim como à sua esposa, receber-me em sua casa
ria Antónia, de Santo André, que no meio dos seus nas condições físicas em que se encontra11.
muitos afazeres culturais e familiares, sempre en- Ao Professor Rui Vieira Nery, a José Manuel
controu alguns minutos para me ouvir; Fernan- Osório, a Ruben de Carvalho e a Carlos do Car-
do Espada, de São Francisco da Serra, foi funda- mo agradeço a disponibilidade para falar sobre es-
mental neste trabalho, muito do que escrevi não te escrito, assim como as amáveis palavras.
existiria sem o seu conhecimento e amizade (es- Ao Victor Duarte Marceneiro tenho uma dívida
pero, sinceramente, que o seu neto venha a gos- que será impossível de saldar: devo-lhe a entrada
tar de fado!); a Albano Miguel devo a minha pri- no mundo do fado.
meira, e importante, lição de fado, assim como o A Dr.ª Ana Borges, mais uma vez, apoiou incon-
poder editar um fado cantado por Manuel José dicionalmente um trabalho sobre o Alentejo. Mais
Santinhos acompanhado à guitarra. Reservo um do que o apoio financeiro, estou-lhe grato pelas
agradecimento especial a Miguel Capitã, um dos palavras. Muito lhe deve o Alentejo.
tocadores que acompanharam Manuel José Santi- Ao Centro de Tradições Populares Portuguesas
nhos. Passei dois dias espantosos na sua compa- devo muito do caminho que percorri neste traba-
nhia, além de me ter dado a provar um bagaço... lho etnográfico. A Manuel Viegas Guerreiro devo
Devo também agradecer à Dr.ª Clarinda Pereira, saberes. Nunca lhe poderei pagar.
do centro de dia «O moinho» o tempo que dispo- Ao Amigo Neves Galhoz devo a possibilidade
nibilizou para conversar comigo. de divulgar um desenho que é os olhos de todas as
Devo agradecer à Dr.ª Sara Pereira todo o apoio utopias que encontrei.
prestado, assim como à Dr.ª Sofia Bicho, da Ca- Qualquer livro é muito mais do que texto e fo-
sa do Fado e da Guitarra Portuguesa, em Lisboa, tos. É também uma peça de arte. A Bibito se de-
24
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

ve o primeiro olhar que este trabalho transporta. vantaria. Pela sua tolerância e pelo seu Amor. Apenas.
Também ele é autor deste livro. Por fim, evocar a dívida e o medo maior. Espero
Sem a disponibilidade de Bernardo, Celestino, que o poeta do Tojal Manuel José Santinhos não
Eduarda e Glória Pereira Santinhos, filhos do po- se sinta, onde quer que esteja, decepcionado. A
eta do Tojal, grande parte deste trabalho não seria sua amabilidade, simpatia e disponibilidade para
possível. Espero que não se sintam defraudados. com aquele que vinha da terra da Zéfinha foi sem-
Ao Zé Caruca devo este livro. Construtor de uto- pre muito grande. Neste livro só tive um objecti-
pias em Abril, foi um Amigo sempre presente ao lon- vo: dar-lhe o tempo, o seu presente temporal. Não
go de milhares de quilómetros. Este livro é dele. tenho outra forma de lhe agradecer.
Este trabalho é também uma dívida que saldo pa- Por último, agradeço, da forma mais simples que
ra com o Amigo, e editor deste projecto, José Mo- sei, e posso, a todos aqueles que neste sul me rece-
ças, ele é devedor da sua paciência e amizade. Aliás, beram em sua casa e partilharam comigo poesia,
ele é, no respeitante às dívidas, um grande credor. cantes, memórias e, tantas vezes, a mesa (e eu sei
Mas três são as pessoas a quem muito particular- quanto vale partilhar o pouco que se tem!) ao lon-
mente gostaria de dedicar este trabalho. go dos últimos vinte anos. Na mão dura e amá-
A primeira é a Augusto Brázio, de quem fui com- vel desses homens e dessas mulheres, com quem
panheiro de dez anos de viagem. aprendi todas as utopias do Mundo, deposito este
A segunda pessoa é Maria Aliete Galhoz. Em todos livro. Foi para eles que o escrevi.
os caminhos que trilhei tive sempre a sua mão, quer na
partilha de saberes, quer como Amiga. Agradecer-lhe
o muito que lhe devo nunca é demais. PORTEL,
A terceira é a Ana. Sem ela este trabalho nunca se le- 12 DE NOVEMBRO DE 2003 – 11 DE ABRIL DE 2004.

NOTAS

1 Pequeno núcleo urbano do concelho ta por Alberto Lopes, e data da Pás- de Manuel José Santinhos.
de Sintra, que deu origem à cidade e coa de 1996, e contou com uma no- 5 Lima 1994: 15.
município da Amadora. ta introdutório da Professora Doutora 6 Sousa 1912: 6.
2 Edição da Câmara Municipal de Por- Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira. 7 A obra pioneira de Modesto Navar-
tel, de 1996, que contou com o apoio 3 Galeano & Borges 1994. ro, Navarro s. d., é um exemplo pa-
do Ministério da Cultura. Este c. d. fa- 4 Um pouco antes de fechar o livro, re- radigmático do que afirmamos.
zia parte de um trabalho que, além das solvemos alterar o título, deixando o 8 Fonseca 1996.
vozes, tinha um álbum fotográfico da subtítulo assumir-se como rosto deste 9 Horta 2000.
autoria de Augusto Brázio, e um tex- trabalho. Perdeu em poesia, ganhan- 10 Ong 1999; Hagège 1990: 63-86.
to de Paulo Lima. A recolha do som do em rigor. Mantivemos o «Vai alta 11 Fialho Barreto veio falecer antes do
e montagem do alinhamento foi fei- a lua» para o c. d. que prende a voz término deste livro.
Neves Galhoz
Profeta, 2001
Técnica mista
26
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
27
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

AOS REVOLUCIONÁRIOS
A REPÚBLICA MUITO DEVE
A ESSES BRAVOS OPERÁRIOS,
QUE DEIXARAM ‘SPOSA E FILHOS
SÓ P’RA SER REVOLUCIONÁRIOS.

Ao grito da liberdade Na Rotunda, com valor,


Dado na Feira d’Agosto, Sem receio ter à tropa,
Tudo correu ao seu posto, Mostraram à velha Europa
Na melhor fraternidade. Quanto vale o seu ardor.
Pugnando p’la igualdade, Tendo à República amor,
Seu valor não se descreve E seguindo novos trilhos,
Numa cantiga tão breve, Venceram, com grandes brilhos,
Mas sim em largos artigos; Do rei os seus partidários;
A essa ordem de amigos Honrai, pois, os operários
A REPÚBLICA MUITO DEVE. QUE DEIXARAM ‘SPOSA E FILHOS.

Escravos de um Ideal, A monarquia morreu


Prontos todos a combater, Neste abençoado solo,
Pensando em engrandecer E o país, de pólo a pólo,
O seu querido Portugal. Assim logo o concebeu.
Com ardor sem igual A República venceu
Correram co’os os salafrários, Devido aos esforços vários
Esmagaram os argentários, Desses homens temerários
Numa bendita romagem, Que o mundo deixaram mudo,
Num preito de homenagem E abandonando tudo
A ESSES BRAVOS REVOLUCIONÁRIOS. SÓ P’RA SER REVOLUCIONÁRIOS.

[De um caderno manuscrito, década de vinte do século passado.]

Ponta Delgada, 1983.


Colector: Manuel Viegas Guerreiro
Do fundo do Centro de Tradições Populares Portuguesas
“Prof. Manuel Viegas Guerreiro”
PARTE I
UM

A DÉCIMA NO ALENTEJO
1.ª FASE: 1750-1880
30
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
31
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

A DÉCIMA NA HISTÓRIA DA LITERATURA Não julgueis que o meu conceito


Vos faz a menor censura.

D
EFINIR a décima como uma estrofe de dez É só com doce brandura
versos e cujo pai literário é Vicente Espinel, E sem vos fazer agravo:
é demasiado redutor. Esta estrofe é muito Dar-vos pancada no cravo,
mais complexa do que aquilo que deixa adivinhar. O Sem tocar na ferradura.
verbete mais interessante que conhecemos sobre ela é (Abade de Jazente)
da autoria de Amorim de Carvalho, presente na sua
Teoria geral da versificação, levantando nele precio- A separação lógica – por ponto final, ou ponto e
sas questões. Importa lê-lo na íntegra vírgula, ou dois pontos, etc. – entre a quadra e a
sextilha, é a regra, para fazer distinguir as duas
A décima clássica consta de: uma quadra+sextilha, estrofes. A sextilha desenvolve o pensamento da
perfazendo, portanto dez versos, com transportação quadra numa dedução mais ou menos conceituo-
de uma das rimas da quadra para o primeiro verso da sa – processo que iremos encontrar, com estilo di-
sextilha, nos dois sistemas rimáticos que apresentam ferente, de outras características, na glosa e no vi-
os dois exemplos seguintes: lancete.
À décima tem-se dado tradicionalmente a disposi-
ção gráfica monostrófica (de uma só estrofe), mas
Soltai-me, Amor enganado, a estrutura lógica é a de duas estrofes, e como tal a
Que enganado me prendeis; dispomos graficamente.
Que em meu poder não tereis
a) a erudição literária tem ido até ver a origem da
Seguro o vosso cuidado. décima clássica nas décimas do poeta espanhol Fer-
rant Manuel de Lando:
Sou um pastor desprezado,
Que numa aspereza vivo, Anda el osso por la xara
A toda a brandura esquivo, Muy esquivo manzellero;
Sujeito a todo o rigor, El vestiglo carnicero
Não posso servir a amor Circunda la gran pyara:
Que estou da sorte cativo.
(Rodrigues Lobo) Está puesta em alcatara
Com façion rrepleta;
Tendes o cravo no peito? Pues fablad, gentil poeta,
O lugar impróprio é, Com vuestra lengua discreta
Pois se o tivésseis no pé, Pues esta leción secreta
Era o lugar mais perfeito. De turbia se forma clara.
32
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Vicente Martinez Espinel (1550-1624) teria feito dieval, e que foi usada até ao século xvi por poetas das
esta modificação na sextilha: substituiu a rima se- chamadas medida velha e da medida nova. Esta estro-
guida CCCC por duas rimas emparelhadas CCDD fe denominada falsa décima, é formada por duas quin-
e fez rimar a primeira rima emparelhada com o úl- tilhas, recorrendo a diferentes esquemas rimáticos. Ve-
timo verso da sextilha, como temos na décima do ja-se este exemplo de Bernardim Ribeiro, que a coloca
Abade de Jazente. na boca de um pastor de nome Silvestre
Outra tese da erudição literária dá as décimas de Bar-
tolomeu de Torres Naharro, outro poeta espanhol do Triste de mim, que será,
século XVI, como sendo a origem da décima clássica. ó coitado, que farei,
Naquelas, o segundo verso da segunda estrofe (sexti- que não sei onde me vá
lha) é um trissílabo; Espinel ter-se-ia limitado a substi- Com quem me consolarei’
tuir este trissílabo por um heptassílabo, igualando to- ou quem me consolará?
dos os versos – e assim se fixou a décima clássica, que Ao longo das ribeiras,
por isso, também se chamou espinela. Ao som das suas agoas,
Chorarei minhas canseiras,
b) O verso consagrado deste sistema estrófico é o minhas mágoas derradeiras
heptassílabo. A décima clássica, que é um sistema minhas derradeiras mágoas.
estrófico, não a devemos confundir com a décima [Écloga iii]2
como simples estrofe de 10 versos, bem que esta,
pelo grande número de versos que a compõem, ten- Portanto, a medieval é substituída por uma outra
da geralmente a tornar-se verdadeiramente um sis- que uma certa tradição literária diz ser obra de Vi-
tema estrófico composto cente Espinel, poeta espanhol do Siglo de Oro. Ali-
ás, será um seu discípulo, Lope de Vega, que identi-
[...] A divisão formal e lógica em quadra e sextilha, ficará esta estrofe com o nome de Espinel, embora
e as travações rimáticas como nos exemplos que este último a tenha denominado por redondilha de
demos, de Rodrigues Lobo e Abade Jazente, ca- dez versos. O novo esquema estrófico, um quarte-
racterizam a décima clássica como sistema estrófi- to e uma sextilha, ou, por vezes, um quarteto, um
co especial. É hoje pouco ou quase nada cultivado. verso de ligação e uma quintilha, tem uma só fór-
Damos, no entanto, como exemplo de um poeta de mula [ABBAACCDDC]3. Os primeiros quatro versos são
hoje esta linda décima o mote da restante composição; quando a décima é
glosa, são um submote, e os restantes versos o seu
Numa noite de beleza natural desenvolvimento e conclusão. O estudo da
sonhei com um’alma irmã, décima literária deixa antever, antes de mais, uma
mas acordei de manhã possibilidade plástica muito grande.
para um dia de tristeza. Devido a esta atribuição autoral, esta décima
é conhecida por espineliana, designação pouco
Ficou a minh’alma presa ou nada vulgarizada em Portugal4. Neste perío-
à sua meiga ternura, do, a décima era usada para poesias ligeiras: can-
e o que desde então procura tigas, glosas, vilancetes e esparsas. Vejamos, como
é dormir continuamente, exemplo, uma décima de Espinel
vivendo a vida presente
a sonhar com a futura. No hay bien que del mal me guarde,
(Edmar da Silva)1 temeroso y encogido,
de sinrazón ofendido,
Amorim de Carvalho deixa adivinhar uma outra y de ofendido cobarde.
fórmula anterior à espineliana, denominada por me- Y aunque mi queja, ya es tarde,
33
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

y razón me la defiende, nam m’aproveita co elas


que voy contra quien me agravia, fechar portas nem janelas.
como el perro que con rabia E pois nam dam por porteiro
a su mismo dueño ofende. antes que venha Janeiro,
[...]5 me mandai remedear,
ou fazei-lhes bem mostrar
A décima espineliana substituiu pois, gradualmen- Pero de Sousa Ribeiro.7
te, a medieval. Na obra de alguns poetas portugue-
ses dos séculos xvii e xviii, surgem décimas espinelia- O século xviii marca, por alteração de práticas
nas recorrendo à partição no quinto verso, como era e gostos culturais, mas também sócio-políticos, o
usual na medieval. Um dos poetas cujas poesias de- abandono, quase definitivo, da utilização da dé-
monstram esta transição é Curvo Semedo [N. 1766 – M. cima por parte daqueles a quem chamamos poe-
1838]. Veja-se, por exemplo, este seu epigrama tas de corte ou, mais tardiamente, poetas eruditos.
Esta centúria marca a vulgarização da décima na
Um beberrão de má fé, cultura popular.
Uma tasca amotinando,
Deu tamanho pontapé A décima espineliana é a composição que no sul de
N’um sábio que ia passando, Portugal recebia, e recebe ainda, embora em crescen-
Que deu com ele no chão. te desuso, o nome de quadra, designação até há pou-
Esperava-se função; cos anos quase absoluta entre os seus usantes.
Mas o sábio ergue-se e foi-se, O fim dos contextos sociais, económicos e cultu-
Dizendo para a taverna rais do pós II Guerra Mundial, levaram ao fim da
– Por dar uma besta um coice, décima e do corpus teórico que a suportava. A sua
– Devemos cortar-lhe a perna?6 redescoberta, depois de 1974, mostra não só o seu
enquistamento a um grupo etário, como as novas
Tais décimas seguem ainda o modelo medieval, décimas pouco ou nada têm a ver com uma cultura
recorrendo agora ao esquema da décima clássica, popular que se extingue, ou se vai extinguindo, na
nome que também designa a espineliana. Aliás, es- segunda metade do século xx no Alentejo.
te modelo rimático é muito anterior, como é o caso Agora, os novos corpus em construção são fru-
desta décima de Guerra queixando-se a El-Rei pre- to de um revivalismo que bebe nos manuais esco-
sente no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, lares e nas antologias de poetas portugueses, os
de 1516, também com a partição no quinto verso, quais as décadas de sessenta e setenta vulgarizam.
em tudo idêntica ao texto de Semedo, Até aqueles a quem chamamos poetas populares
são social, económica e culturalmente muito di-
Senhor, as vossas donzelas ferentes dos que a usavam em finais de oitocentos
eu já guardá-las nom posso, e primeira metade de novecentos, como adiante
que por ver est’homem vosso veremos8.

NOTAS

1 Carvalho 1987: 105-107. 5 Trapero 2000: 123. rária, embora enformada de uma visão
2 Ribeiro 1982: 63. 6 Curvo Semedo... 1988: 70. bastante «hispânica», veja-se Trapero
3 Popularmente podem surgir variantes. 7 Resende, vol. iii 1993: 334. & Ruiz 2001: 15-39 e também Lemus
4 Guerreiro 1997: 141-144. 8 Para uma mais detalhada descrição lite- 2001: 41-60 em Trapero 2000.
34
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

GEOGRAFIA DA DÉCIMA nárias e a América, em especial Cuba, existe um


grande trânsito de improvisadores – e é mercê des-
I. te trânsito que se iniciou a realização dos encon-

D
EVE-SE a Virgílio López Lemus e Maximia- tros-festivais da Décima e do Verso Improvisado.
no Trapero uma primeira tentativa de car- Na Espanha continental, a décima surge esporadi-
tografia extensiva dos territórios que a dé- camente em algumas áreas do Levante Sul, em Múr-
cima ocupa1, ou ocupou. Para o que nos propomos, cia, Granada e Almería, mas de forma muito loca-
tal cartografia torna-se suficiente, embora não pos- lizada. Esta presença é devedora a contactos com
samos deixar de apontar algumas fragilidades, no- Cuba. De notar que não é cantada, antes resada2.
meadamente tomando amplos territórios sem ver se Trapero e Lemus definem como Zona ii Portugal
há fracturas entre eles. Estes autores não referem se continental e Arquipélago dos Açores, consideran-
esta percorre toda a extensão ou se, pelo contrário, do o sul de Portugal, Alentejo e Algarve, como um
ocupa manchas geográficas de forma difusa; igual- «microcosmos» dentro do mundo hispânico, pela
mente não mencionam a sua constante tensão com sua diversidade no uso da décima: memorialista,
outros géneros estróficos, como acontece na região cordel e improviso. Referem que a décima aqui em
do Nordeste brasileiro. uso é própria da escrita, vulgarizada por cantado-
Estes dois investigadores, a quem muito se de- res ambulantes que a disseminaram3.
ve para o entendimento da décima e do verso im- Referem também a sua existência no Arquipéla-
provisado na Ibero-América, propõem-nos sete zo- go dos Açores, em particular nas ilhas de São Mi-
nas, a saber guel e Terceira, considerando a sua presença vi-
va e com alguma pujança. Voltaremos à Zona ii
ZONA I Espanha Peninsular e Ilhas Canárias; após percorrermos todas as zonas inventariadas
ZONA II Portugal Peninsular e Arquipélago dos por Trapero e Lemus.
Açores; O Caribe e Flórida são integrados na Zona iii.
ZONA III Caribe e a Flórida; Contempla territórios insulares, Cuba, Porto Rico
ZONA IV México e Sul-Oeste dos EUA; e República Dominicana, e continentais, as costas
ZONA V Costa do Pacífico; da Venezuela e Colômbia, e todos aqueles países
ZONA VI Cone Sul da América: da América Central, tais como Nicarágua e Cos-
ZONA VII Nordeste do Brasil. ta Rica, às quais se deve ligar o Estado da Flórida,
em particular Miami e áreas limítrofes, onde se fi-
Na Zona i, que compreende a Espanha peninsu- xou uma importante colónia de cubanos.
lar e Ilhas Canárias, a décima é usada como texto Deve-se salientar a diferença de géneros musicais
de improviso e muito pouco como texto narrativo que servem de suporte à décima cantada e improvi-
fixo. Nas Canárias, a décima compete em algumas sada, que vai desde o punto cubano ao galéron vene-
ilhas com o romanceiro; noutras suplantou-o. De- zuelano, passando pelo seis em Porto Rico, que con-
ver-se-á chamar a atenção que entre as Ilhas Ca- ta com mais de meia centena de variantes.
35
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Ainda é de realçar que nesta zona, mais do que la cantoria, ou seja, pelo improviso e muito ligada
em qualquer outra, a décima está presente nas ex- ao chamado «cordel». Pelos motivos descritos, pa-
pressões mais literárias e nas mais populares. ra estes autores, existe uma relação entre o sul de
A Zona iv condensa um imenso território: Mé- Portugal e esta Zona, podendo a sua introdução
xico e Sul-Oeste dos EUA. Esta poderá ser defini- em Portugal fazer-se a partir daquilo que se chama
do como a área da grande influência hispânica, e os textos de «torna-viagem»5.
que até há cerca de cento e cinquenta anos estava De forma sintética, tentámos resumir a presença
dependente – ou fortemente influenciada – por Es- geográfica da décima no mundo ibero-americano6.
panha: Califórnia, Novo México e costas do Golfo Importa agora descer criticamente à zona que nos
do México, Texas e Luisiana (aqui com forte pre- interessa, a Zona ii: Portugal peninsular e o Arqui-
sença de população de origem canária4). Mas de- pélago dos Açores.
vemos ter em conta que a designação décima, nes-
ta última região, poderá já cobrir outros tipos de II.
textos, como é o caso do corrido. Falar em poesia popular no Alentejo e Algarve, é
Em todo este território, é no México que a déci- fazer referência à décima, olhando-a como uma es-
ma predomina, literária e popularmente, associan- pecificidade transtagana. Tal afirmação é engana-
do muitas vezes performances ligadas à dança. dora, quer ao nível da geografia, quer da história,
A Costa do Pacífico integra a Zona v. Debaixo quer ainda das práticas sobreviventes.
desta designação coloque-se a Colômbia (excep- Hoje, a décima como glosa – porque é assim que
ção da costa caribenha), Panamá, Equador, Peru e ela essencialmente surge – existe no aro de Lisboa,
possivelmente o norte do Chile. A grande caracte- no Alentejo e no Algarve. Mas a sua expressão au-
rística parece ser a sua predominância na popula- menta nos municípios já afastados do Rio Tejo, pa-
ção afro-americana. ra sul. Surge também, muito esporadicamente, nos
A Argentina, o Uruguai, a parte sul do Chile, que municípios de Tentúgal7 e Montemor-o-Velho, aqui,
faz fronteira com a Argentina, e o estado brasileiro na freguesia de Carapinheira8. Isto no continente.
do Rio Grande do Sul, integram a Zona vi. A déci- Insularmente, surge apenas no arquipélago açoria-
ma ocupa aqui manchas e não um território exten- no, mais especificamente nas ilhas da Terceira e de
so. Na Argentina e Uruguai difunde-se em torno São Miguel, e com fortes ligações ao fado9.
de La Plata e liga-se ao contexto cultural gauches- Mas esta distribuição geográfica pode ser corri-
co da Pampa e do payador, que tem a sua figura gida se recuarmos cerca de cem anos. Até nos po-
exponencial literária na obra de José Hernández, demos situar num determinado ano, e 1910 é uma
Martín Fierro. Nesta zona, a décima tem-se vin- data muito sugestiva: marca não só a passagem do
do a atenuar em competição com outras fórmu- regime monárquico para o regime republicano, co-
las poéticas. mo foi um momento fundamental para alguns pro-
Em oposição a cantos «a lo humano», caso do motores dos poetas populares e para o fado.
Caribe, aqui os cantos «a lo divino» com recurso Em 1910, a décima em Portugal ocupava uma
à décima, têm uma forte expressão, em particular geografia bastante vasta. O seu território descia do
no sul do Chile, integrando o devocionário, a His- Porto por todo o litoral e ia-se alargando até tocar
tória Sagrada, Novo e Velho Testamento, ou ou- a zona montanhosa da serra da Estrela, onde pare-
tros factos religiosos. ce que nunca entrou(?), até atingir Lisboa e subir o
A última região contemplada por Trapero e Le- Tejo, e deste acidente caminhar até às águas quen-
mus é o Nordeste brasileiro. Esta zona, a vii, é con- tes do Algarve. Fora do continente, vamos encon-
siderada uma região à parte no desenvolvimento trá-la em São Miguel, associada ao teatro e ao fa-
da décima, embora de forma algo subjectiva. Li- do10, e na Terceira levada por soldados, que aqui
gam-na ao Caribe, devido a ser acompanhada por imprimiram folhetos, ou por homens ligados di-
uma guitarra(?). A décima aqui caracteriza-se pe- rectamente ao fado, embora mais tarde.
36
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

A sua presença nesta imensa geografia é atesta- vação, assim como, dado importante, uma afirma-
da em diversos textos e figuras mostrando que, até ção de João David Pinto Correia
um determinado momento, a décima foi uma estro-
fe que teve um espectro muito mais vasto do que ho- Desde o século XIX até hoje, essa geografia foi muito
je se supõe11. alargada – e reconheceremos que, se as zonas mais fe-
O seu desaparecimento em muitas partes do país de- cundas na tradição se podem situar em Trás-os-Mon-
veu-se a um variado leque de razões, levando a uma tes, Açores e Madeira, «três zonas laterais bastante ar-
lenta substituição por outras estrofes nos gostos po- caizantes em relação ao resto do País» [...], acrescentar-
pulares. Uma das razões mais fortes, a par da coinci- -lhes-emos as Beiras, o Algarve, o Alentejo [...], o Mi-
dência das grandes migrações no pós II Guerra Mun- nho e a Estremadura também como áreas a explorar.16
dial que levou a quebras geracionais de transmissão,
foi o aumento do acesso à rádio e à audição de gra- Em 1946-‘47, é lançado pelas várias(?) províncias
vações em disco, levando que a décima, texto longo, de Portugal um inquérito, tendo por objectivo pro-
fosse substituído, por textos mais curtos: a sextilha, a duzir um cancioneiro popular, dividido administra-
quintilha e o quarteto. Os objectos impressos, que an- tivamente, e um inquérito linguístico com o intui-
tes tinham décimas, vão agora ter as mesmas notícias to de, complementarmente, se produzir um trabalho
com recurso a outras estrofes, assim como os textos sobre a linguagem popular do povo português. Tal
impressos que se dispersam a partir de Lisboa e Por- projecto envolveu não só os chamados eruditos lo-
to, com os textos musicais dos filmes, dos discos e das cais, mas também a Junta Central das Casas do Po-
revistas, já não trazem décimas. A sua persistência até vo que, através de Luís Chaves, se envolveu na co-
aos dias de hoje no Alentejo deve-se a outros motivos, ordenação destes inquéritos. Este projecto teria co-
que se devem observar em separado. mo culminar a sua apresentação no Congresso Por-
tuguês e Brasileiro de Folclore, a realizar em Lisboa
III. aquando das comemorações da tomada desta cida-
Importa aqui introduzir uma outra questão: a opo- de aos mouros por Afonso Henriques. O congresso
sição entre áreas do romance e áreas da décima. É não se realizou, e o cancioneiro e a linguagem popu-
Trapero que coloca esta questão, possivelmente liga- lar do povo português nunca foram, na sua expres-
da à sua experiência de recolha romancística nas Ca- são nacional, editados.
nárias12. Para Trapero, onde existe décima não exis- Deste inquérito provincial sobrevivem, que conhe-
te romance13. çamos, pouco mais de cem respostas da província do
Em Portugal, uma certa tradição coloca nas zonas Baixo Alentejo, respostas que o Prof. Joaquim Ro-
montanhosas o “país” do romance, deixando a pla- que, seu responsável, tratou minimamente e que, de
nície, se o quisermos dizer, para a décima. De cer- forma preciosa, chegaram algo intactas até nós. Es-
ta forma, se traduzirmos para o espaço português a sas respostas enviadas por professores e regentes do
afirmação de Trapero, temos uma oposição entre re- ensino primário, entre o Outono de 1947 e a Prima-
giões mais conservadoras e outras menos resistentes, vera de 1948, cobrem todos os concelhos que à al-
ou mais abertas, às inovações, como é o caso das dé- tura se inseriam no Baixo Alentejo17. Essas respostas
cimas, que de facto parecem não penetrar no interior foram recolhidas maioritariamente por crianças jun-
centro e norte montanhoso de Portugal14. to de mulheres, facto que podemos afirmar com al-
Mas o facto é que não temos ainda uma cobertu- guma certeza, devido ao género usado na transcrição
ra efectiva de recolhas extensas e com introdução das respostas. Grande parte dos conteúdos são gran-
de novas problemáticas em Portugal, onde, de certa des listas de cantigas e modas, respostas às questões
forma, o paradigma do romance e da lírica mínima de linguagem colocada pelo inquiridor e, numa pe-
ainda surgem como nucleares. Basta ver a extensão queníssima parte, algumas indicações de usos e cos-
territorial ocupada pela guitarra portuguesa15 e pe- tumes. Na parte do cancioneiro, num sentido lato,
lo fado para colocar algumas dúvidas nesta obser- existem muito poucos romances, e quando existem
37
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

são fragmentos, à excepção de «Os três reis do Orien- os homens cultivam estrofes maiores, centrando-se,
te» e de «A vida de Jesus Cristo» (um amphiguri). As quase exclusivamente, na décima, e quando produ-
décimas ainda estão menos representadas. Partindo zem o quarteto, ligam-no ao cante às vozes.
deste inquérito, podemos caracterizar o Baixo Alen- Sendo as respostas ao inquérito dadas por mulhe-
tejo, na segunda metade da década de quarenta do res, é a lírica mínima que impera, em detrimento da
século xx, como uma província onde o romancei- décima. A presença destes dois romances no inquéri-
ro está em perda e as décimas quase não tinham ex- to de Joaquim Roque liga-se, quanto a nós, ao tem-
pressão. Mas a realidade mostra algo diferente. Tra- po da recolha, em torno do Natal: a concentração de
balhos de pesquisa na área do romanceiro mostram respostas dá-se no mês de Novembro.
uma persistência romancística nesta região18, assim A relação da décima em oposição ao romance não
como de cantigas narrativas. Neste período, a déci- nos parece muito clara para o território português,
ma viveu um momento de grande pujança. porque é provável que esta seja não um texto regio-
Há que trazer para aqui um outro dado. No Alen- nal, mas antes um texto de classe sócio-laboral que,
tejo, a poesia popular está mais ou menos dividida por motivos que adiante veremos, se fixou no uni-
por sexos: as mulheres produzem uma lírica mínima, verso masculino.

NOTAS

1 Lemus & Trapero 2001: 179-195 em 7 Agradeço a José Craveiro, de Tentúgal, 11 O geógrafo Jorge Gaspar, ainda nos
Trapero 2000. todas as informações prestadas. anos de 1965 e 1966, na Beira Litoral,
2 No sentido de dizer, não cantadas. 8 Veja-se Monteiro 2001 e Oliveira encontrou cantadores de feira e vende-
3 Informações baseadas no nosso traba- 1992. dores de folhetos. Ver Est. X e Docu-
lho de 1996, Lima 1996, que aqui é pro- 9 Ver com atenção Díaz-Pimienta que, pa- mento V, onde Gaspar reproduz uns
fundamente revisto. ra o improviso e para a décima em Por- versos, décimas, de 1938, de Barcouço,
4 Veja-se Armistead 1992: 12-38, um ex- tugal, faz algumas confusões. Díaz-Pi- Aveiro [Gaspar 1986: 102, Est. V.].
celente estudo da presença hispânica na mienta 1998: 82-83. Sobre a décima e o 12 Trapero 1989.
literatura do Estado da Luisiana. fado em São Miguel ver Câmara 2003. 13 Trapero 1996.
5 Para uma crítica da relação entre os ob- 10 Em Guerreiro 1990, na página 415, sur- 14 Parece traduzir-se a divisão de Portugal
jectos impressos portugueses que teriam ge um quarteto glosado em quatro dé- proposta por Orlando Ribeiro na déca-
influenciado o chamado «cordel» brasi- cimas, com a indicação de «à Virgem da de quarenta do século xx, Ribeiro
leiro ver Márcia 1999. Esta autora nega Nossa Senhora da Bem aparecida/ que 1987. Em relação a este olhar, veja-se a
tal dependência, propondo antes uma se venera em S. Paulo, Estado do Bra- crítica feita pelo historiador José Matto-
autonomia do «cordel» como fenóme- sil», com a data de Janeiro de 1931, da so, Mattoso 2001; 29-54 e Mattoso em
no cultural particular na sua história autoria de Manuel José Dias. Na mes- Farinha & Carreira & Serrão 2001: 73-
criativa. mo obra, página 539, surge um conjun- 89.
6 Seguimos o trabalho de Trapero & Le- to de cinco décimas que se aproximam 15 Sardinha 2000: 414-444.
mus, que está editado em La décima: su mais da décima medieval do que da dé- 16 Pinto-Correia 2003: 52.
historia, su geografia, sus manifestacio- cima espineliana [ex.: ABBACADAED, 17 À altura, Sines, Santiago do Cacém,
nes, obra coordenada pelo próprio Ma- com partição no quinto verso, mas sur- Grândola e Alcácer do Sal integravam o
ximiano Trapero. Muita da informação gem também décimas espinelianas, em- distrito de Beja. É também a partir des-
dada não foi tomada em atenção, mas bora mal pontuadas]. As páginas 541- te inquérito, que, Manuel Joaquim Del-
é de muito interesse para aqueles que 567, contemplam uma peça intitulada gado, seu auxiliar, faz o Subsídio para o
sobre o tema se debrucem. Trata-se de «Décima de João de Calais», mas que é cancioneiro popular do Baixo Alentejo,
uma obra de referência, já que sintetiza formada por quartetos. Ou estamos na em dois volumes, que teve duas edições,
todo um conjunto de dados, além de fa- presença de sobrevivências, ou perdeu- 1955 e 1980.
zer um estado da questão. se a estrutura rimática. 18 Martins & Ferré 1988; Teiga 2000.
38
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

PRIMEIROS TESTEMUNHOS valho. Esta última (que localizámos na Biblioteca


E SOBREVIVÊNCIAS DA DÉCIMA BARROCA José Saramago, em Beja), conhecemo-la através de
NO ALENTEJO CONTEMPORÂNEO cópia dactilografada feita na década de cinquenta
ou sessenta do século xx e foi retirada, muito pro-

E
MBORA não possamos ter certezas relativa- vavelmente, de um manuscrito de princípios des-
mente à introdução da décima no Alentejo te mesmo século.
e dos factores que contribuíram para a sua Antes de as usarmos, devemos defender o crédi-
popularização, temos alguns dados que nos permi- to da sua fidedignidade. Embora tenham sido es-
tem assumir as últimas décadas de setecentos co- critas com uma diferença de cerca quarenta anos
mo um momento em que esta já se encontra está- umas das outras, e rebusquem memórias com mais
vel no uso popular, muito provavelmente apenas de cem anos tendo por base a tradição, e não a do-
como improviso. cumentação, e, no caso da de José Leite de Vascon-
Temos duas formas de aferir esta afirmação: a bi- celos, tenhamos buscado inutilmente um confron-
bliografia disponível e aquilo a que podemos de- to documental, existem demasiadas coincidências
nominar como sobrevivências dos primeiros tes- nas informações dadas para as não tomarmos co-
temunhos. mo próximas da realidade.
Duas levantam figuras e acontecimentos do Bai-
I. xo Alentejo (os textos de Vasconcelos e Carvalho);
As informações mais antigas que conhecemos so- uma refere uma figura, e alguns dados biográficos,
bre a décima e o seu uso na cultura popular foram do Alto Alentejo (Subtil).
escritas entre finais do século xix e princípios do Podemos datar com alguma certeza, se as fontes
século seguinte. Com estas informações podemos estiverem correctas, todos os acontecimentos entre
recuar até aos últimos anos de setecentos e avan- 1777 e 1834, havendo aqui alguma margem de er-
çar nas primeiras décadas de oitocentos. ro. Mas, como veremos, as situações narradas e o
Três são as fontes bibliográficas que vamos utili- que podemos inferir, dão-nos elementos em torno
zar1: a primeira data de 25 de Janeiro de 1904, e é destas datas, embora os acontecimentos se possam
de Pedro de Almada Pereira, dedicado a António estender até à segunda metade do século xix.
Lobo de Almada Negreiros, avô e pai, respectiva- Vejamos, então, cada um dos textos.
mente, do multifacetado José de Almada Negrei- O texto de Leite de Vasconcelos evoca um po-
ros2, sendo retirada da Revista Litteraria, Scien- eta popular da região em torno de Beja, conheci-
tifica e Artistica d’O Século e reeditada por Jo- do como Potra3. Vasconcelos arquiva esta notícia
sé Leite de Vasconcelos na Revista Lusitana, dois (publicada dois anos antes por Pedro de Almada
anos mais tarde; a segunda data de 31 de Janeiro no jornal O Século) na Revista Lusitana, integrada
de 1937, dada por Manuel Subtil e publicada no num seu projecto de reunir informações sobre va-
semanário de Estremoz Brados do Alentejo; a últi- tes populares portugueses4; sendo esta a última no-
ma não está datada e é da autoria de Ernesto Car- tícia que lhe conhecemos sobre o tema. Esta centra-
39
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

se em dois improvisos em que Potra esteve envol- cais levantados são: Messejana, onde se situam
vido: um com Frei Manuel do Cenáculo, em Beja, Costa Velhinho e Pedro da Moura, e onde passa,
e outro em Lisboa. para despique, Potra, de seu nome Brás Martins
O texto de Ernesto de Carvalho, também ele de Beirão, que é de Cuba e que faz um improviso em
Messejana, não tem data, mas deverá ser da vi- Beja e em Lisboa; para o Alto Alentejo, temos Va-
ragem do século xix para o século xx. O exem- le do Peso, terra natal de Ambrósio.
plar a que tivemos acesso está dactilografado, de- Assim, nesta geografia, temos informação de um
vendo basear-se em cópia manuscrita à qual, em aro entre os actuais municípios do Crato e de Al-
época posterior, foram acrescentadas novas infor- justrel. Ou seja, estão representados o Alto e o Bai-
mações5. Neste texto, Ernesto de Carvalho, evo- xo Alentejo.
cando memórias de algumas décadas atrás, recor- As estrofes utilizadas por estes poetas, todos ho-
da um conjunto de figuras que lhe trouxeram ou- mens, são a décima e as «cantigas de don-don».
tras figuras. Traça pequenas notas picarescas que As décimas em uso são a espineliana heptassi-
servem de explicação a alguns poemas. As figuras lábica, de dois corpos: quarteto e sextilha, usada
e situações evocadas não tratam apenas de gente por Ambrósio, Velhinho, Pedro da Moura e Brás
desta vila do município de Aljustrel, como é o ca- Martins Beirão.
so de Velhinho ou de Pedro da Moura, trata tam- O «don-don», um quarteto, onde três versos
bém o poeta Potra, de Cuba, que Pedro de Alma- são heptassilábicos e um pentassilábico [ABB/C//
da também refere. CDD/E etc.], criando um nonsense ao longo do texto,
O terceiro texto, da autoria de Manuel Subtil, de é usado por Ambrósio e Velhinho.
1937, é uma notícia publicada no semanário Bra- As décimas recorrem sempre a um mote de um
dos do Alentejo que fala de um poeta de finais do só verso, repetido no fecho da décima, como é o
século xviii, natural de Vale do Peso, município do caso do mote dado por Cenáculo, «Nós ambos
Crato, conhecido por Ambrósio de Vale do Peso. somos pastores», e que Brás Martins Beirão, de
Dá alguns dados biográficos, evoca situações on- Cuba, glosa com esta espantosa décima
de houve improvisos de textos deste vate e mostra
o desejo de que a sua terra, Vale do Peso, não se Senhor meu batei as palmas
esqueça dele6. Que nós não somos iguais
No aspecto cronológico, estes três textos situam Vós sois pastor de almas
um conjunto de personagens em finais de setecen- Eu sou pastor de animais
tos e primeira metade de oitocentos. Evocam situ- Sofro frio e sofro calmas
ações pós-Pombal, como é o caso do pedir pelas al- Sinto do tempo os rigores
mas de Ambrósio, ou o encontro de Potra com Frei Vós brilhais entre os doutores
Manuel do Cenáculo, que a dar-se só poderia ter Servindo aos sábios de exemplo
acontecido entre 1777 e 1802, datas que cobrem Eu no prado e vós no templo
a presença deste bispo no Paço de Beja. Nós ambos somos pastores7
A guerra civil, entre 1828 e 1834, opondo libe-
rais e miguelistas, durante a qual Ambrósio, já ve- Em nenhum dos contextos e improvisos que es-
lho, faz um improviso, deverá ser visto como a da- tes autores enumeram, onde são sempre produ-
ta mais recente. zidas décimas, é referido se estas são resadas, se
Assumimos, então, que estes poetas estão acti- cantados à capela ou se se recorre a instrumentos.
vos entre as últimas duas décadas de setecentos e Deve-se também chamar a atenção para o que pa-
as duas primeiras décadas de oitocentos. Importa rece ser uma fórmula ou protocolo entre o agen-
também fazer notar que as referências de Ernesto te do mote e o agente do improviso, «Venha de lá
de Carvalho vão até mais tarde. mote», que é dito em Ambrósio e em Brás Mar-
No que diz respeito ao espaço geográfico, os lo- tins Beirão8.
40
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

As cantigas de «don-don» surgem em Velhinho de expressão da poesia popular desta região. Em-
e em Ambrósio, e não parecem ser improvisadas; bora domine, existem algumas dissonâncias que
são antes memorialistas e carnavalizados ou chari- importa inventariar e estudar. As décimas que re-
varis. Veja-se a cantiga de despeito amoroso de Ve- correm a um só verso como mote ou as chamadas
lhinho ou o testamento de entrudo de Ambrósio. décimas silvadas, com ou sem leixa-pren, o teatro
Além destas estrofes, surge uma com sete versos em décimas ou as loas, também em décimas, são
[ABbCDCD ou ABCDEDE], para a qual não temos para- algumas dessas dissonâncias. Importa perceber al-
lelo, e nem sabemos se está completa ou se a li- gumas questões que lhe estão subjacentes e ver até
ção apresentada é correcta. Surge, também, em- que ponto nos poderão abrir perspectivas de leitu-
bora mais tardiamente, a referência a Sofia Frade ra para factos da cultura popular.
no texto de Ernesto de Carvalho, que improvisa-
va em quartetos, mas que também fazia quartetos No município de Arraiolos, freguesias de Igreji-
glosados em décimas9. É posterior a 1855, uma vez nha, Vale do Pereiro e Carrascal/São Gregório, ha-
que evoca a data da extinção do concelho, e não via a tradição de resar décimas em louvor a São Se-
pode ultrapassar a data de 1897, que é a data da bastião ou à Senhora da Consolação12.
sua morte. Os quartetos que Sofia Frade improvi- Esta prática quase desapareceu, sobrevivendo ape-
sava são designados por cantigas10, e são heptas- nas na aldeia de Igrejinha, onde, em Setembro de to-
silábicas [ABCB]. dos os anos, na noite de Sábado de festa, homens e
Existem demasiadas concordâncias entre os ex- mulheres sobem a um estrado, ou a um banco, e aí
tremos do aro geográfico para que estes não sejam resam as suas décimas, em número variável de es-
tomados em conta. Mesmo criticando as referên- trofes que, segundo o protocolo, deverá terminar
cias a Potra ou a qualquer outro poeta aqui pre- sempre com «Nossa Senhora da Consolação».
sente, é recorrente em todos eles o uso do mesmo Esta prática de louvar terminou há algumas dé-
tipo de estrofes e em contextos muito semelhantes. cadas nas outras duas freguesias, Vale do Pereiro
É claro que não encontrámos qualquer referência e Carrascal/São Gregório. O louvar nestas festas
nos papéis de Cenáculo, presentes na Biblioteca era em honra de São Sebastião, e terminava com
Pública de Évora, ou na bibliografia sobre ele que «Dou vivas ao [mártir] São Sebastião». Ambas as
nos diga que o seu encontro com Potra tenha efec- práticas desapareceram na segunda metade do sé-
tivamente acontecido. Mas a análise destes textos, culo xx.
aqui feita de forma algo sumária, deve ser tomada Importa referir que ambas as festas eram realizadas
com alguma veracidade. em igrejas cujo orago não era este santo. Em Carrascal/
Podemos então inferir o seguinte: por volta de São Gregório, era na Igreja Paroquial de São Gregório;
1800, a décima espineliana está perfeitamente es- em Vale do Pereiro, era na Igreja de Santa Justa. Este úl-
tabilizada no Alentejo, pois é usada em improvisos timo caso, deve-se a uma transferência de culto da pri-
e em despiques, desenvolvendo, no improviso, um mitiva capela de Vale do Pereiro, cujo orago era São Se-
só verso, que é fixado no verso dez desta estrofe. bastião, para a Igreja de Santa Justa. Em 1911-1913, o
A par da décima improvisada, parece surgir tam- templo, possivelmente de fundação medieval, foi trans-
bém o quarteto [ABCB]. Veja-se a situação de deso- formado em escola, e todas as alfaias religiosas, com a
briga que levou Brás Beirão a fazer um quarteto e transferência do culto, foram levadas para a igreja situ-
que é descrita por Ernesto Carvalho. O «don-don» ada junto ao cemitério desta freguesia, localizado a al-
acompanha a décima, mas é usado em textos car- guns quilómetros de distância. Esta, entretanto entrou
navalizados e pré-fixados11. em ruína, construindo a população há poucos anos
uma nova igreja junto à área urbana.
II. Na Igreja de São Gregório, a imagem escultórica
No Alentejo, durante todo o século xx, o quar- de São Sebastião encontra-se ao lado da imagem do
teto glosado em quatro décimas cobre e é a gran- santo padroeiro.
41
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Embora se trate de invocações diferentes, o pro- São Sebastião, o evento cai fora do dia em que se
tocolo da festa em Santa Justa e em São Gregório é festeja este Santo, já que nenhuma festa se reali-
idêntico: levantava-se uma estrutura virada para a za em Janeiro, mas todas durante o Verão, entre
fachada, onde a imagem era colocada no seu andor, Agosto e Setembro.
de costas para entrada da igreja; à noite, um a um Julgamos que a razão esteja numa outra faceta
dos pagantes, subia à estrutura em madeira, e aí re- deste santo, não profiláctica mas sim ao nível da
sava as suas décimas. Cada décima era entrecortada ligação santo-mester. Ele é também, além das be-
com a intervenção de uma banda filarmónica. Es- xigas e pestes, o padroeiro das actividades ligadas
ta prática era, e é, tanto masculina como feminina, à feitura de tapetes, havendo uma relação simbó-
facto de muita importância, já que a décima se ins- lica entre as setas, que prefiguram o martírio, e as
creve maioritariamente no universo masculino. agulhas, elemento de identificação do mester que
Mas, para melhor entendermos esta festa, é ne- os tapeteiros exercem15. Esta relação entre um san-
cessário juntar outros elementos. to, o São Sebastião, e uma actividade económica,
Durante o trabalho de campo que desenvolvemos a feitura de tapetes, tem aqui pertinência, pois em
em Arraiolos13, constatámos uma forte presença de Arraiolos esta actividade tem, desde há alguns sé-
esculturas representando São Sebastião, datáveis culos, uma forte expressão económica.
dos séculos xvii e xviii. Rara a igreja, dentro da A nossa hipótese é a seguinte: estamos na presen-
área do antigo concelho, que não tenha uma ima- ça da sobrevivência de uma festa de um mester, que
gem deste santo. Tal deixa adivinhar uma forte popularmente cultuava o seu santo padroeiro, São
presença cultual a São Sebastião, cuja festa se rea- Sebastião16. Daí a deslocação da festa para um ou-
liza a 20 de Janeiro. Na tradição portuguesa, este tro período que não o Inverno, onde o festejar de
santo liga-se à peste e às bexigas, estando a «Ben- um santo seria, em todos os aspectos, mais pobre
ção das laranjas», ou algumas orações contra a do que se se realizasse no Verão17, além de ganhar
peste, numa linha profiláctica de protecção contra uma individualidade.
aqueles males. Já o culto da Senhora da Consola- A ocorrência desta prática cultual na Igrejinha po-
ção liga-se a práticas de piedade popular e não po- derá dever-se a dois factores: a deslocação de popu-
pular, presentes a partir da Idade Moderna. lação ou a adaptação de um texto a um protocolo
As décimas em uso recorrem a um tipo de glo- de festa com um outro orago. Aliás, como dissemos,
sa corrente, como vimos, ao longo do século xviii, a povoação não deverá ser anterior ao século xviii, o
mas que não poderá ser muito anterior, pois a dé- que parece mostrar a sua arquitectura e o seu urba-
cima não se pode ter popularizado antes de 1700. nismo. Existe, inclusive, informação documental que
Importa, então, entender que prática cultual te- comprova uma deslocação populacional de Vale do
mos em Arraiolos, que grupos a mantiveram e por- Pereiro e de são Gregório para a Igrejinha.
que tem sobrevivido. Portanto, a presença da décima espineliana no
O louvar ou pagar promessas com canções é co- município de Arraiolos mostra um formulário mui-
mum a grupos de fracos recursos económicos, sen- to próximo ao que vimos ter sido utilizado por po-
do corrente a realização de romarias onde pasto- etas do mesmo período, o século xviii, em outros
res não detentores de rebanhos pagavam as inter- locais do Alentejo: um mote de um só verso desen-
cessões em versos. volvido por uma só décima. Fica em aberto se estas
É afirmado também, por historiadores locais, seriam memorizadas, como hoje, ou improvisadas,
que a origem da povoação da Igrejinha não é an- o que nos parece ser o mais provável.
terior ao século xviii, tendo sido formada por gen-
tes que se deslocaram das freguesias de São Gre- III.
gório e Vale do Pereiro14. Surgem, também, dois outros formulários que
Um elemento estranho é o porquê do culto a um empregam a décima. Falamos das décimas silvadas
santo que ou é secundário ou, nos dois casos de e do rol de quadras.
42
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

O rol de quadras é, simplesmente, um conjunto de A leitura desta fala, ou de outras, mostram uma
décimas, em número não inferior a quatro, e, quan- fixação que está, nos três primeiros versos, entre
do superior, deverá em ser múltiplos de quatro: oito, o romance e o texto não versado, o último ver-
doze, dezasseis... Trata-se de um conjunto de estrofes so. Só que esta fixação está errada. Muito do tex-
apenas relacionáveis ao nível do conteúdo, sem ne- to deste auto é construído em quartetos ou em dé-
nhuma outra obrigação. cimas. Vejamos o mesmo texto, mas agora fixado
Já as décimas silvadas, pelo contrário, não tendo correctamente
um limite ou um número certo de estrofes, têm que
obedecer a uma norma de construção: são obriga- Eu sou o Sol brelhante,
das ao uso de um ponto preso18. Ou seja, o último que a todo o Mundo dou luz,
verso da estrofe será o primeiro da estrofe seguin- Deu-me esse poder Jasus,
te, o que lhe dá também uma continuidade na rima. por eu ser o mais constante.
Significa isto que recorrem a uma técnica chamada Sou dos astros dominante,
leixa-pren. Uma silva. dou a tudo claridade.
Consiste m’nha vontade
IV. todos os astros e resplendores,
Vamos deixar de lado as chamadas «Brincas» ou todos os campos e flores
«Brincadeiras» – teatros populares feitos durante o estão por minha autoridade.22
Entrudo, que recorrem à décima como estrofe para
os seus fundamentos, e que não são mais do que as A correcta fixação da estrofe mostra que esta-
cegadas, localizáveis um pouco por todo o Alentejo, mos na presença de décimas espinelianas usadas
com ou sem contra-dança –, para nos centrarmos, em textos ligados ao teatro.
ainda que sumariamente, nos chamados «Bonecos Mas os bonecreiros de «Santo Aleixo» não re-
de Santo Aleixo», a mais representativa forma de corriam apenas à décima engajada no século xviii.
sincretismo entre os modelos de uso da décima do Eles vão recorrer também à décima em uso a par-
século xviii e de finais do século xix. tir de finais do século xix: a décima como glosa
Não queremos entrar na polémica das origens de quarteto.
materiais destes bonecos, que aqui pouco interes- Os autos e outras peças menores (como os «baili-
sa. Importa-nos, isso sim, os textos, que conside- nhos») eram entrecortados com improvisos acom-
ramos mal fixados ao nível das estrofes19. panhados à guitarra. E era desses improvisos, se-
Num dos mais belos autos representados por es- gundo António Joaquim Talhinhas, último mestre
tes bonecos, o Auto da criação do Mundo20, quan- bonecreiro, que vinha muito do dinheiro que ga-
do o Sol e a Lua entram em cena, o Sol diz nhavam23. Esses improvisos eram feitos a partir do
fado corrido(?), mas também no mouraria, sendo
Eu sou o Sol brelhante, que a todo o Mundo a estrofe usada a décima submetida ao quarteto e
[dou luz, não a décima solta ou submetida apenas a um só
Deu-me esse poder Jasus, por eu ser o mais verso, como seria usual se usassem um improviso
[constante. que se mantivesse desde o século xviii.
Sou dos astros dominante, dou a tudo claridade. Assim, os «Bonecos de Santo Aleixo» mostram
Consiste m’nha vontade todos os astros uma persistência e uma adaptação da décima, que
e resplendores, todos/ absorve dois momentos da história desta e do seu
os campos e flores estão uso: a presença arqueológica do teatro setecentis-
por minha autoridade.21 ta e a modernidade do fado.
43
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

NOTAS

1 Estas três fontes são dadas na ínte- Cada dia! ros, mas também sabemos que popular-
gra em anexo. Filho da Virgem Maria, mente a Senhora do Rosário é a invo-
2 Sobre as origens de Messejana da Que Deus Padre cá mandou, cação das confrarias ligadas aos negros.
família do lado paterno de Alma- E por nós na cruz passou Agradecemos ao Professor Doutor Ví-
da Negreiros, veja-se Paquete 1993- Crua morte. tor Serrão as informações prestadas.
1995: 11-17. Ver também Ambrósio [...] 17 Deve-se chamar a atenção para o fac-
1979: 17-21. Lima 1942: 102-104. to de serem as freguesias de Igreji-
3 Alcunha que lhe adviria de uma hér- nha e de São Gregório, na primei-
nia intestinal, ou quebradura. Ver também interessante nota de ra metade do século xix, as maiores
4 Conseguimos reunir seis destas notí- D.ª Carolina Michaelis de Vascon- produtoras de gado lanígero, o que
cias, que damos em anexo. Não pu- celos inserta no segundo volume do é relevante, sendo a lã a matéria-pri-
blicamos o texto original de Almada Cancioneiro da Ajuda [Vasconcelos ma fundamental na produção de ta-
Negreiros, porque Leite de Vascon- 1990 vol. ii: 907n1]. petes, Rivara 1985: 55.
celos o reproduz na íntegra, omitin- 12 Ver c. d. «No Jardim do Mundo», 18 Ponto significa verso.
do embora o autor. gravação feita em Igrejinha, 5. 19 Muito do teatro popular, ou para
5 Damos em anexo o capítulo que usá- 13 Em colaboração com a Dr.ª Ana Pa- bonecos, no século xviii recorria à
mos e que é sobre poetas populares. gará. Infelizmente, por desinteresse décima espineliana, à mistura com
6 Esta notícia foi incluída na mono- da autarquia de Arraiolos, este pro- outras estrofes, como o quarteto.
grafia de Vale do Peso, Subtil 2001: jecto foi abandonado. 20 Uma leitura deste auto poderá abrir
88-98. 14 Agradeço ao Dr. Manuel Branco as perspectivas de análise para os mo-
7 Alguns investigadores consideram informações prestadas. vimentos sociais nos campos do sul.
este improviso como um fragmento 15 Em Jorge Tavares, Tavares 1990: Sobre este assunto ver Lima 1999, em
de um quarteto de repetição glosado 213, surge : «Tapeçarias, Fabrican- particular os testemunhos 1, 2 e 3, em
por quatro décimas, o que é errado, tes de – S. Francisco de Assis; S. Lu- que damos especial atenção à expul-
ver Coelho 2002.Janeiro.28. ís, rei de França; S.ta Bárbara; S.ta são de Adão e Eva do Paraíso Real. A
8 Veja-se o entremez setecentista Gra- Genoveva; S. Sebastião (porque é re- religiosidade popular e os movimen-
de da freira, onde várias persona- presentado eriçado de flechas, que se tos sociais não foram até agora alvo
gens glosam motes de um só verso assemelham às agulhas de executar de uma relação profunda, e este auto
em uma só décima, e onde surgem tapetes).» é para tal da maior relevância.
protocolarmente as expressões «[...] Em Juan Ferrando Roig. PBRO en- 21 Recolha de Michel Giacometti, fixação
lá vai mote [...].» ou «[...] venha o contramos: «Patrocinio de los san- textual de Machado Guerreiro. Segui-
mote.», Barata 1983: 452-487. tos mos o c. d. Bonecos de Santo Aleixo,
9 Informação de muito interesse, já Agujeteros: San Sebastián, Nativi- vol. i, editado pela Strauss, em 2000,
que é raro encontrarem-se mulheres dad de la Virgen. com textos de Michel Giacometti e Fer-
a glosarem quartetos em décimas. [...] nando Lopes-Graça, com a colabora-
10 Nome dado aos quartetos que se Alfilereros: Cf. Agujeteros.» ção de Gustavo Marques e de Macha-
cantam nas modas. Por último, em Louis Réau é afirma- do Guerreiro. Infelizmente, esta reedi-
11 Veja-se Pires 1986: 12-15, onde sur- do: «Sébastien (20 Janvier) ção não recupera a beleza e informação
gem dois textos em «don-don», um [...] gráfica que as edições dos Arquivos So-
dos quais, “Pelo signal” de Junot, II. – Culte noros Portugueses deram aos seus tra-
deverá ser contemporâneo às inva- Les flèches, qui avaient été balhos. Veja-se o caso da reedição dos
sões francesas. Este texto sobreviverá l’instrument de son supplice et de- cinco volumes da Música Regional Por-
no Nordeste brasileiro, onde foi re- vinrent son attribut, lui ont valu le tuguesa, os famosos discos em capa de
colhido por Câmara Cascudo, Cas- patronage de nombreuses corpo- serapilheira.
cudo 1984: 99-100. Esta fórmula es- rations : les archers et arbalétriers, 22 Mas o texto está correctamente fixado
trófica é muito antiga no Brasil: o Pa- les tapissiers parce que les flèches em Bonecos de Santo Aleixo s. d.
dre José Anchieta [1530-1597] com- dont il était hérissé ressemblaient à 23 Sobre a obra memorialista e impro-
pôs uma Oração ao Santíssimo Sa- de grosses aigulles à tapisserie, les visada de António Talhinhas, ver o
cramento, na qual usa o «don-don» marchands de ferraille parce que les trabalho algo sui generis de José Ma-
points de flèches étaient en fer.» nuel Costa Coelho, Coelho 1997.
Oh que pão, oh que comida, 16 É claro que referenciámos a existência Sobre o fado ver a quadra editada
Oh que divino manjar da bandeira da Senhora do Rosário na na página 36. Ver também Passos
Se nos dá no santo altar Casa dos 24, identificadora dos tapetei- 1999: 172-173.
44
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

CONCLUSÃO certezas temos. Vimos a presença da décima na se-


gunda metade de setecentos usada em improviso,

A
décima, uma estrofe de suposta origem es- sempre ligada ao universo masculino. Estes impro-
panhola, marca presença na cultura popu- visos são sempre em uma só décima que desenvol-
lar do Alentejo desde a segunda metade do ve um mote de um só verso, fechando a estrofe.
século xviii. Rastreámos indícios físicos e documen- Esta fórmula, que se usa extensamente até finais
tais que atestam essa presença e o seu uso em dife- de oitocentos, ainda hoje é localizável um pouco
rentes contextos. por este Portugal meridional. Ainda se encontram,
Persistem, no entanto, aspectos por explicar. com alguma facilidade, textos antigos, quase to-
Como se introduziu a décima nos gostos popula- dos aprendidos, que recorrem a este modelo2.
res desta região? Foi o ficar fora de moda (noção Mas estes improvisos não esgotam o uso da dé-
problemática e eivada de nonsense) entre os poe- cima nesta região. As décimas em louvor a São Se-
tas ditos de corte que levou o pequeno soneto a bastião ou à Senhora da Consolação, em Arraio-
entrar nos gostos populares? Terá sido através de los, mostram um modelo que se encosta ao acima
textos de cordel, de temática charivaresca, ou por descrito, o que deixa antever possíveis protocolos
via de peças de teatro que tal sucedeu?, ou a partir de improviso nestas festas.
dos outeiros conventuais? Ou, por outro lado, de- Mas as dissonâncias não terminam aqui. O uso
veremos procurar essa emergência a partir de Es- da décima em grupos estróficos, com ou sem lei-
panha, acompanhando os movimentos artísticos e xa-pren, ainda localizáveis numa área cuja fron-
a feitura de encomendas a pintores espanhóis me- teira mais meridional não ultrapassa(?) a serra de
nores que decoraram as nossas igrejas nos sécu- Portel, abrem perspectivas de abordagem que im-
los xvii e xviii1? A poética popular sobrevivente porta tomar em conta. Um atlas que construa as
mostra que fomos influenciados pelo Siglo d’Oro áreas que ocupam diferentes tipos de estrofe e de
e não pelo modelo italiano. Designações como pé metro continua por fazer. Sem esta ferramenta de
para verso e verso para quarteto caminham nesta trabalho, muito do que é dito sobre poesia popu-
direcção. Mas este é um território que nunca foi lar não passa de um conjunto de afirmações sem
percorrido pelos investigadores em Portugal, pois grande sustentabilidade.
tem-se olhado a criação poética popular como al- Por último, os fabulosos «Bonecos de Santo
go tão natural que se tem esquecido a existência Aleixo». Falta ainda a edição de um trabalho pro-
de uma arquitectura teórica, cuja compreensão se- fundo sobre estes, que cruze a antropologia e a
ria fundamental para abrir perspectivas muito in- sociologia, a história das mentalidades, a geogra-
teressantes de trabalho. Aliás, seria axial pensar o fia... E a primeira coisa a fazer seria uma correcta
poeta e a poesia popular a partir de outros olhares fixação dos textos. Seria também importante ava-
disciplinares, como por exemplo da história da ar- liar as implicações destes textos na cultura popu-
te e da história agrária. lar. Veja-se o caso do trabalho editado há cerca de
Se muitas dúvidas nos acompanham, algumas cinco anos, da autoria de Alexandre Passos3, que
45
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

embora compile muita informação sobre estes bo- Nas últimas décadas de oitocentos, uma décima
necos, não consegue criar um sério entendimento renovada surge na região meridional. Mas agora
do fenómeno, além de deixar esquecidas figuras encontramo-la subalternizada ao quarteto que lhe
importantes neste processo de refolclorização, co- serve de mote e que a usa em grupos de quatro –
mo é caso do Arquitecto Gustavo Marques4. ficará localmente conhecida como quadra. Produ-
A importância dos «Bonecos» para a história da déci- to de uma experimentação poética feita por operá-
ma é grande. Neles se embebe, primeiro, o uso de uma rios na cidade de Lisboa, aqui chegará não só atra-
estrofe seguindo o modelo barroco e, depois, seguindo vés deles, mas será sempre a sua canção, uma can-
o modelo romântico, que importa agora seguir. ção de engajamento social. Falamos do fado.

NOTAS

1 Confronte-se o texto do historiador Mundo» a gravação número 4, on- cia de Alexandre Passos em Zurba-
de arte Vítor Serrão sobre a presen- de Joaquim Marques, de Selmes (Vi- ch 2002: 175, mas continua a deixar
ça de pintores espanhóis em Portu- digueira), desenvolve o mote “Cristo de lado figuras importantes, como é o
gal, particularmente no Alentejo, Ser- na ponta dum corno” numa só déci- caso Machado Guerreiro. Só a edição
rão 1986. Parece-nos que, ao nível do ma, que julgamos não ser da sua au- de um álbum fotográfico com as ima-
popular, se criou uma forte tradição toria, mas sim de Ambrósio de Vale gens do Arquitecto Gustavo Marques
enraizada nos modelos culturais espa- do Peso. – que pensamos estarem hoje no Mu-
nhóis tendo origem no Siglo d’Oro. 3 Passos 1999. seu Nacional de Arqueologia – seria
2 Veja-se no c. d. «Vivo no Jardim do 4 Claro que conhecemos a referên- um contributo importante.
PARTE I
DOIS

FADO: 1910
48
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
49
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

DEFINIÇÃO DO OBJECTO vos a fadistas – designação aqui tomada em senti-


do muito lato – mostram-se nucleares. Na sua larga

O
S cerca de vinte jornais dedicados ao fa- maioria, os intervenientes desta criação, ainda estão
do fundados a seguir a Abril de 19101 são vivos na década de dez de novecentos. Os que entre-
unânimes num aspecto: esta canção, na sua tanto morreram são testemunháveis por outros que
fase moderna, nasceu por volta de 1860. os conheceram, com quem cantaram ou tocaram.
Foram seus fundadores João Maria dos Anjos, na É nestes registos que é necessário centrar a investi-
guitarra, e José Maior, Damas, e outros, nos fados. gação sobre o fado. Sem uma investigação séria em
O primeiro abriu vastas possibilidades musicais à torno destas figuras, a história do fado estará sem-
guitarra. Os outros reformaram os fados, dando pre por fazer. No fundo, é imperativo retomar o tra-
importância aos textos memoriais e introduzindo balho de Pinto de Carvalho, Tinop, suportado pelo
outras temáticas nos poemas. método avançado por Alberto Pimentel.
A partir desta reformulação, para não chamar Uma análise dos textos usados e da sua evolução
fundação, o fado aperfeiçoa-se e torna-se a canção mostra que algo de único se passou entre 1877 e
da consciência da classe operária. Quase podería- 1918. Os poetas populares, ao mesmo tempo que
mos dizer que a sua reformulação foi propositada. deixam de usar exclusivamente o quarteto, passan-
A leitura dos periódicos parece indicar tal facto. do a incorporar a décima, iniciam um processo de
Intitular esta parte «Fado: 1910» prende-se a um complexificação textual, que ao nível do improviso
facto para o qual a leitura dos periódicos coevos é vertiginoso. Esta, se poderá ter tido na sua génese
nos alertou: a importância da implantação da Re- um acaso, em breve se tornou algo único no panora-
pública para a canção operária. Não só durante a I ma da poesia popular portuguesa. Não conseguimos
República se editam mais de uma vintena de jornais identificar paralelo algum para este fenómeno.
dedicados exclusivamente ao fado, como em todos Mas o fim da I República, em 1926, e o início da
eles é referido o significado desta trova para o des- Ditadura Militar, o advento do disco2, o início da
pertar da consciência operária, social. censura, e até mesmo a obrigatoriedade da profis-
Não importa aqui inventariar e contextualizar as sionalização, vão matar o fado como canção operá-
diferentes origens, mais ou menos arroladas, do fa- ria, levando a que esta fórmula se marginalize, as-
do. O nosso trabalho segue um caminho diferente: sim como ao término do que ele tinha de mais es-
assumimos que o fado é uma canção operária, e ire- pantoso: a experimentação textual.
mos fazer um levantamento de diferentes estrofes e
mostrar como houve, desde muito cedo, uma pes-
quisa com o objectivo de estruturar uma estrofe, ou NOTAS
estrofes, de grande perfeição ao nível da rima e do
metro, espelho de uma grande vontade de saber. 1 Data da fundação do primeiro(?) jornal dedicado ao fado, O Fa-
Para este trabalho, as obras clássicas sobre a cha- do.
mada trova nacional, quer a História do Fado, quer 2 As primeiras gravações datarão dos primeiros anos de novecentos
a Triste Canção do Sul, são fontes secundárias. Pre- e terão, possivelmente, como protagonistas actores de teatro e pro-
tendemos trazer à luz a voz daqueles que estiveram fessores de guitarra. Acreditamos que poucos nomes do movimen-
directamente ligados ao processo de criação do fa- to que trabalhamos tenham gravado. Basta confrontar os nomes
do. Assim, as diferentes entrevistas ou textos alusi- dos jornais com os nomes nas etiquetas.
50
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

DO QUARTETO À SEXTILHA: glosada em quatro décimas em sextilhas, cantan-


UMA REVOLUÇÃO TEXTUAL do-o no estilo do fado Bacalhau2, que segundo es-
NA POESIA POPULAR te romance era

Nesse tempo, o [...] que mais brilhava [...].3


I.

N
O jornal Canção Nacional, publicado entre Embora Barata Dias não nos apresente datas, tal
1927 e 1928, na última página de todos os actuação deverá passar-se em finais da década de
números editados (que foram muito poucos!) vinte do século passado4.
surge, entre vários anúncios, o de uma taberna. Diz Em Notas de música, o mestre de guitarra portu-
guesa António Parreira e o maestro Jorge Macha-
Este belo cantador, do, atribuem a autoria da música do fado Baca-
Hoje sócio de Deus Baco, lhau a José António da Silva, informando que este
Nunca perdeu o valôr é cantado em sextilhas5.
Nem foi vendido a pataco! Ruben de Carvalho, em Um Século de Fado (tex-
JOSÉ BACALHAU to que amplia um trabalho anterior de 19946), ao
Cantador e taberneiro – Fado e Vinho listar «Cento e trinta e sete fados clássicos» atri-
mais popular casa de Alcantara bui, também, a autoria deste, embora com interro-
preferida por toda a população do Bairro gação, a José António da Silva, explicando
Rua Gilberto Rola, 21 – Lisboa

A designação dever-se-á ao facto de ter sido dedica-


Este José Bacalhau, de seu nome José António do ao cantador José Bacalhau (eventualmente, José
da Silva [n. Oeiras 1880 – m. Lisboa 1935], era filho do António da Silva de seu nome completo). É por ve-
velho Bacalhau de Oeiras, foi impressor litográ- zes atribuído a Armandinho.
fico na Fábrica Metalúrgica de Oeiras, editor do
jornal O fado, do «Grupo de Solidariedade Pro- Em relação ao poema, de novo nos surge a in-
pagadores do Fado» e mais tarde taberneiro em formação das suas estrofes serem compostas em
Alcântara. sextilhas7.
A José Bacalhau se deve uma profunda altera- Ainda na mesma colecção, em Histórias do Fa-
ção do fado, o chamado fado do Bacalhau ou fa- do, Maria Guinot, Ruben de Carvalho e José Ma-
do Bacalhau. nuel Osório, no capítulo «Vidas», verbete «José
Bacalhau», informam
II.
No romance O fado do fado1, uma das persona- Deixou entre outros o Fado Bacalhau, que se man-
gens, a cantadeira Celeste, transforma numa das tém como um dos mais populares temas do reper-
actuações um fado cujas estrofes são um quarteto tório fadista tradicional8.
51
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Na “Cronologia” presente em Fado: vozes e som- Cantavam Fulvio ou Caleno,


bras, catálogo coordenado por Joaquim Pais de Junto às estátuas de Baccho,
Brito, referente à exposição do mesmo nome e que De Mercurio ou Sileno,
foi montada para a Lisboa ’94 no Museu Nacio- Erguiam a Plínio a glória.
nal de Etnologia, em Lisboa, ao dar-se a data da Entre os bosquetes de rosas,
morte de José António da Silva «Bacalhau» (1935), Soavam beijos e risória
refere-se De apaixonados amantes...
Estasia-se a nossa alma...
Morre José António da Silva «Bacalhau», autor do Por esses tempos distantes,
Fado do Bacalhau9. Ao desfolhar-mos a história!

Quando estes autores falam no fado Bacalhau Belos rostos femininos,


estão a referir-se a duas coisas distintas, feitas pos- Ao passarem nas liteiras,
sivelmente em tempos próximos: o texto e a músi- Colavam os eus sentidos...
ca. O texto terá sido o primeiro a ser construído. A Sorriam dos madrigaes,
música, por motivos óbvios, não interessa aqui. Que lhes eram dirigidos,
Mas tal paternidade textual não era, à época, as- Nos cânticos pompainos.
sim tão afirmativa. No semanário A Guitarra de Por entre Olayas e Tilias,
Portugal, em 1922, na secção «Correio», em res- Nos lagos alabastrinos,
posta a uma carta de um leitor, o jornal informa A lua as águas prateia.
Sob os chorões de lilazes,
Já lhe dissemos em carta particular, que o fado Ba- A era, o Deus cupido, enleia,
calhau a que nós chamamos fado canção, é um mo- Simbolisando amisade.
dernismo que uns atribuem a José Bacalhau e ou- Terra de amor e alegria!...
tros a João Mulato, já falecido; mas seja deste ou Que tristeza nos invade,
daquele, como é uma inovação que não tem regra Relendo o que foi Pompeia!
estabelecida, as produções podem ser rimadas ar-
bitrariamente sendo preferidas as que apresentam Via-se ao fundo o anfiteatro,
maior variedade de rima e maior tecnica poetica.10 Onde o formoso Glanco
Foi colocado ante a féra,
O modernismo referido é uma sextilha glosada Por amar a bela Jónia
em quatro estrofes de quinze versos, como é o caso Napolitana sincera
deste fado de Martinho d’Assunção, «Pompeia» Por quem ele andou tão atro
Quando a grande turba-multa
Ao desfolhar-mos a história Enchia esse vasto teatro
Que tristeza nos invade. No meio dum mau efluvio
Relendo o que foi Pompeia... Abre-se a grande cratéra
Sob a lava do Vesuvio, E começa o efluvio
Sumiram-se encantos mil, Num infernal desafôgo
Numa sinistra odisseia. Vendo-se já muita gente
Correndo envolvida em fogo
P’las noites do estio ameno, Sob a lava do Vesuvio
Ranchos, ao som de alaúdes,
Entoavam serenatas. Que tragica confusão!...
Por entre os jardins em flôr, A cratéra incendiária
Em redor das colunatas, Envolve em chama os vergeis
52
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

O tremor derruba estátuas Os infernaes feiticeiros.


Colunas e capiteis Que do demonio são filhos,
Sepultando a multidão Cantam tristes estribilhos,
Glanco, Jónia e a céga Nydia Ateiam seus brazeiros,
Fogem desses turbilhão Horripilam os berreiros
Que lume desencadeia, Que saiem d’esta lareira!
Nydia, a cega suicida-se Mas o rei vendo a maneira
E aqui finda a epopeia Como as almas se perdiam,
Duma cidade senil Vendo que mais appar’ciam,
Envoltos em rubra lava Mandou fazer a caldeira.
Sumiram-se encantos mil
Numa sinistra odisseia.11 É alli que tudo finda,
Ali tudo se consome:
É este tipo de mote, sextilha, com este tipo de es- De Pero lhe deram o nome
trofe, glosas de quinze versos, que na Guitarra de P’la sua crueza infinda.
Portugal recebe o nome de Fado canção em oposi- Quem para o céu se não guinda,
ção ao Fado velho, que recai sobre o quarteto glo- Attente bem n’este espelho:
sado em quatro décimas Pois quem segue mau conselho,
Ou caminha com cegueira,
Satanaz, rei do Averno, Vae acabar na caldeira
Reunindo o seu conselho, Do grande Pero Botelho.12
Mandou fazer a caldeira
Do grande Pero Botelho. Parece então que o modernismo referido é um
aumento de versos: o mote passa de quatro para
Clara ideia ninguém faz seis versos, e as glosas passam de dez para quin-
Da sua monstruosidade, ze versos.
Nem de quanta humanidade Mas este aumento esconde uma profunda revo-
Em suas fornalhas jaz. lução textual no fado, a qual importa entender.
Por ordem de Satanaz Segundo Frederico de Freitas(?)13, em 1918, Jo-
Foi posta ao meio do inferno, sé António da Silva introduz uma estrofe no fado
É á ordem do seu governo que não é redutível ao quarteto: a sextilha. Até es-
E ali tudo queimado, ta data todos os fados são redutíveis a quatro ver-
Depois de haver decretado sos, base dos primeiros fados, ou seja, são redutí-
Satanaz, rei do Averno. veis a dísticos. O que José António da Silva intro-
duz com a sextilha é o trístico.
As bruxas em volta d’ella Mas este modernismo não surge por acaso. Ele
Preparam enguirimanços, é fruto de uma longa experimentação textual, que
E os mais negros manipanços ao longo de cinquenta anos foi construindo o fa-
Vigiam-n’a, com cautella. do por dentro através do estudo da arte poética e
Ali cae desde a donzella dos seus programas.
Ao condemnado mais velho.
Há bem perto um apparelho, III.
Semelhante a uma lousa, Os diferentes trabalhos editados sobre a temáti-
Onde o diabo repousa ca do fado dizem muito pouco sobre a construção
Reunindo o seu conselho. das estrofes e da sua evolução. Aliás, para muito
autores, parece que estamos na presença de algo...
53
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

exótico. É esse mesmo exotismo que está presente Andar à chuva e aos ventos,
quando Guinot, Carvalho e Osório afirmam Quer de verão, quer de inverno
Parecem o proprio inferno
O Fado Duplicado e Triplicado, as glosas de ri- As tempestades!
ma cruzada, a aposição de versículos foram al- Don, don.
gumas das muitas «habilidades» que ao longo
do final de Oitocentos e primeiras décadas des- As nossas necessidades
te século entretiveram os poetas populares e de- Nos obriga a navegar,
ram origem a uma vastíssima produção de litera- A passar tempos no mar,
tura de cordel. Tratando-se embora as mais das E aguaceiros.
vezes de puros exercícios formais, há que não es- Don, don.
quecer que sobre estes exercícios de estilo impen-
dia a obrigação de se prestarem a ser cantados, o Passam-se dias inteiros
que introduzia obrigações do ponto de vista das Sem se poder cosinhar;
tónicas e das acentuações. A título de exemplo, Nem tão pouco mal assar
o verso alexandrino que desfrutou de grande po- Nossa comida!
pularidade até aos anos 30-40 é particularmente Don, don.
exigente: não basta que tenha as doze sílabas de
regra para poder ser cantado na melodia de um Arrenego de tal vida,
Fado alexandrino tradicional: é necessário que as Que nos dá tanta canceira!
tónicas estejam certas do ponto de vista poético, Sem a nossa bebedeira
pois só assim correspondem à melodia.14 Nós não passamos!
Don, don.
Importa, pois, rastrear esta transformação tex-
tual. Para tal, temos que recuar antes da nossa da- Quando socegados estamos
ta limite, o ano de 1860. No rancho a descançar,
Então é que ouço gritar:
IV. Oh! leva ariba!
Segundo diferentes autores, o fado mais antigo, Don, don.
sobre o qual foram decalcados todos os outros, é
«A vida do marujo». Aqui se funda a hipótese da O mestre logo se estriba,
génese do fado ser uma canção de marinhagem15. Bradando d’esta maneira:
Devemos ter em atenção que, quando se diz que é Moços, ferra a cevadeira
neste fado que está a origem da canção de Lisboa, E o joanete.
estamos a falar somente do aspecto musical, pois Don, don.
segundo diversos autores é sobre este fado que é
construído o corrido, considerado o pai de todos Também dá o seu falsete
os estilos. Não podendo mais gritar:
Mas o que é «A vida do marujo»? O texto é o Cada qual ao seu logar
seguinte Até ver isto.
Don, don.
Triste vida a do marujo,
Qual d’ellas a mais cansada. Mais me valera ser visto
Por’mor da triste soldada, Ë porta d’um botequim,
Passa tormentos, Do que ver agora o fim
Don, don.16 Da minha vida!
54
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Don, don. cimento a bordo, produz a este respeito algumas


Quando parece comprida affirmações muito aventuradas.18
A noite p’ra descançar
Então é que ouço tocar Mas nas década de trinta e de quarenta, temos
Certa matraca. notícia do uso de outra estrofe: o quarteto. São co-
Don, don. nhecidos quatro quartetos cantados por Onofria-
na Severa e um quarteto por um amigo do Conde
O somno logo se atraca de Vimioso. Esses textos são editados por Pinto de
Meu coração logo treme Carvalho e por Alberto Pimentel.
Em cuidar que heide ir ao leme Os quartetos atribuídos a Severa, e cuja lição é
Estar duas horas. editada por Tinop, são
Don, don.
A Chicória do Sarmento,
Lembram-se certas senhoras Que bate o fado tão bem,
Com quem eu tratei em terra, Quando «toureia» o Sedvem,
Que me estão fazendo guerra Chora de contentamento.
Ao meu dinheiro.
Don, don. Ó D. José cavaleiro,
Toma sentido na bola!
Foi um velho marinheiro Pode fazer-te em patola
Que inventou esta cantiga, Qualquer fino boi matreiro!
Embarcado toda a vida
Sem ter dinheiro. P’ra mim, o supremo gozo
Don, don.17 É bater o fado liró,
E ver combater c’um boi só
Carolina Michaëlis de Vasconcelos critica a ori- O conde do Vimioso.19
gem marítima destes textos, bem como o facto de
serem recentes, advogando uma maior antiguida- Comparemos com os seguintes divulgados por Pimen-
de para a palavra fado, pelo que questiona a posi- tel, sendo o primeiro contra Joaquina dos Cordões
ção de Pinto de Carvalho
Eu vi n’uma tourada
Applicado a uma especie da poesia popular – la- A Joaquina dos cordões,
mentação em que um marinheiro, uma freira, um Mal viu dar dois trambolhões
soldado, um cego, ou em parodias um cãozinho Ficar logo desmaiada.20
etc. chorava as magoas da sua existencia – o no-
me caracteristico de fado já existia no sec. XVI, e e o segundo, feito por um amigo de Vimioso, can-
talvez muito antes [...]. Na Historia do Fado on- tado ao som da guitarra da Severa
de o interessado encontra informações e aprecia-
ções abundantes, Pinto de Carvalho lembra esses Todos aquelles que são
exemplos antigos, para os quaes eu havia cha- Da nossa sucia efectiva
mado a atenção, mas sem dizer que pertencendo Lamentam a fugitiva
a outra época, constam, não de quadras, mas de Da rua do capelão.21
estrophes de tres versos e meio (quebrado), o que
os aproxima de sequëncias latinas, lamentações Todas as lições dadas (cinco quartetos) são idênti-
musicaes, e das triades populares da Galiza. O cas no aspecto da rima, numa construção que assen-
auctor, phantasiando-lhe origem maritima, nas- ta no seguinte: o primeiro verso rima com o quarto,
55
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

e o segundo e o terceiro são concordantes [ABBA]. A O fado perdeu seu rumo.


análise dos dois tipos de rima [ABBC//CDDE etc. e ABBA], Chorai, fadistas, chorai,
parece indicar que este último esquema é uma alte- Que a Severa se finou,
ração do anterior, sofrendo o quarto verso um au- O gosto que tinha o fado,
mento silábico, de cinco para sete, criando-se uma Tudo com ela acabou.24
dependência rimática do primeiro verso. Produzin-
do, assim, uma autonomia estrófica22. Embora este fado e outros do mesmo período (ou
Quando Maria Onofriana Severa morreu em de finais da década de quarenta ou já de cinquenta
1846, foram feitos, segundo a tradição, dois fa- de oitocentos) siga a mesma estrofe, o quarteto, o
dos que apresentam variantes nas lições conheci- sistema de rima torna-se diferente [ABCB].
das, não só nos versos como nas estrofes. Esses fa- Mas na década de sessenta, introduz-se no fado
dos são o «Fado da Severa» e o «Fado do Vimio- uma outra estrofe, que a partir de setenta será, até
so». Vejamos um dos fados, o chamado «Fado da aos anos vinte do século seguinte, o texto central
Severa», que segundo Tinop terá sido seu autor do fado: a décima espineliana.
Sousa do Casacão, e que deverá ser um pouco an- A décima será usada como glosa de forma diver-
terior a 1850. Seguindo a lição coimbrã dada por sa. Nos primeiros anos é usada como glosa de um só
Teófilo Braga23 verso. Este mote irá crescendo para dois e depois pa-
ra quatro versos, embora também vá surgir, de for-
Chorai, fadistas, chorai, ma clássica, como glosa de um quarteto, num con-
Que uma fadista morreu, junto de quatro.
Hoje mesmo faz um ano O uso de uma décima como glosa de um mote de nú-
Que a Severa morreu. mero variado de versos manter-se-á até ao século xx,
surgindo da seguinte forma: quando é um só verso, es-
Morreu, já faz hoje um ano, te surge no fim da décima; quando é um dístico, os ver-
Das fadistas a rainha, sos aparecem no quarto e no décimo verso; quando é
Com ela o fado perdeu, um quarteto, surgem, respectivamente, no quarto, sex-
O gosto que o fado tinha. to, oitavo e décimo verso. Veja-se este exemplo saído
n’O Pimpão, em 1897, da autoria de M. CACIR
O Conde de Vimioso
Um duro golpe sofreu, Quem gosta de mim é ella,
Quando lhe foram dizer: Quem gosta della sou eu.
Tua Severa morreu!
Quando Eufrasia da janella
Corre à sua sepultura, Me seguia a todo o panno,
O seu corpo ainda vê: Cá p’ra mim dizia ufano:
Adeus oh! minha Severa, «Quem gosta de mim é ella!»
Boa sorte Deus te dê! Mas desde que na esparrella
Bem seguro me prendeu,
Lá nesse reino celeste E lhe aguentei qual sandeu,
Com tua banza na mão, A albarda do matrimonio,
Farás dos anjos fadistas, Desde essa hora – que demonio! –
Porás tudo em confusão. Quem gosta della sou eu.25

Até o próprio S. Pedro, Mas na década de setenta, começamos ver dis-


Um sinal de negro fumo sonâncias associadas à décima: nos jornais O Pim-
Que diga por toda a parte: pão e A Lyra do Fadinho surgem alterações aos es-
56
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

quemas clássicos da décima. De ao retroceder | ceder.


Em 1877, em A Lyra do Fadinho, um poeta, as- Não quis pretender | ttender
sinando P. J. Mattos, edita o seguinte quarteto glo- P’ra ser excellente | lente:
sado em décimas Pois quem convincente | sente
Mostrar catadura | dura,
Por simples chimera | méra Da sua loucura | cura
Se vê quem contente | tente Junto d’int’ligente | gentte.26
Levantar quebrado | brado,
Junto d’int’ligente | gentte. Este texto é a primeira dissonância que rastreá-
mos. Embora se mantenha contido em versos hep-
No fado tomando | mando, tassilábicos, surge uma autonomização das duas
Sem temer rotunda | tunda... últimas sílabas, o que sugere uma espécie de eco,
N’esta barafunda | funda podendo indicar a possível existência de um coro.
Meu ecco vibrando | brando... A segunda dissonância vamos encontrá-la em Ti-
Irei desandando | dando, nop, que transcreve um fado publicado no n.º 149
(Com a primavera | vera de O Pimpão, de 187927. Este fado de Antino Vi-
Mil bens refrigera | gera gas (António Viana28) é de crítica política. Segun-
Que a terra amargosa | gosa,) do nota desse jornal, o habitual trolaró foi substi-
No verso espantosa | tosa, tuído por um quebrado, ou seja, deu-se a aposição
Por simples chimera | méra de um verso de cinco sílabas(?) no penúltimo verso
de cada estrofe. Tal alteração foi considerada uma
Co’a musa faminta | minta, inovação no fado corrido
Qual cédro derrama | rama;
Nas rimas d’escama | cama Com cantigas se governa
Como tal consinta | sinta. Muita gente amiga,
Se combem destinta | tinta E por isso a mal não leves, | Pois não deves,
Há quem realmente | mente, Que eu te largue esta cantiga
Sem mostrar pendente | dente
Por não ter preciso | ciso; Do estado o «catraio» amarra,
Qu’rer dár d’improviso | viso Que de «nau» vaidoso alcunhas,
Se vê quem contente | tente. Salta em terra e se tens unhas,
Vem p’ra aqui tocar guitarra.
N’esta contradansa | dansa O fadinho não mascarra
(Se quanto profira | fira) Os teus brasões; traça a perna,
Quem n’isto admira | mira E esta cantiga moderna
D’entoar romansa | mansa; Escuta c’o o teu descanso,
Na justa balança | lança Já que há muito o país manso | Mole e tanso
Seu bem malfadado | dado Com cantigas se governa.
Qu’inspira safado | fado
Como em recompensa | pensa, Escuta, pois: – p’ra que montes
Do que em desavevça | vença Do governo a burra manca,
Levantar quebrado | brado. Ralei-me a dar co’uma tranca
Nas duras costa do Fontes.
Se quis promover | mover É justo, pois, que tu contes
Quanto n’este enleio | leio, Co’a minha inane barriga;
No falso recreio | creio Não consintas que ela diga
57
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Que – ingrato – não largas nada, mesmo Artur Arriegas


Conforme já por i brada | Escamada Se o Padre Santo soubesse | se quisesse, | se aprendesse
Muita gente nossa amiga o gosto que o fado tem...
vinha de Roma a Lisboa, | vinha à toa, | à Madragoa
Por ti levei um tabefe cantar o fado também!31
Que inda parece que estoira,
Eu rejeitei uma «loira», Vinha cantar o fadinho | choradinho, tocadinho
Que me dava um cabo-chefe. nas guitarras sonorosas!...
O voto de um megarefe Cantaria às mariposas | mais formosas | e mimosas
Comprei na loja do Neves, um bom frade brejeirinho...
E paguei os almocreves Se bebesse muito vinho, | coitadinho, | pobresinho
Muito vinho que foi gasto. até que o entontecesse,
Tenho, pois, direito ao pasto, | Não me afasto, quando já torto estivesse | era um S | sem que desse
E por isso a mal não leves. que estava co’uma piela
Era uma grande bresundela | já com ela | lá na cela,
Com as provas que eu exibo, se o Padre Santo soubesse!
Mereço, por ser um «alho»,
Um lugar cujo trabalho Quando se ouvissem os fados | inspirados | e tocados
Seja passar o recibo. por tão alta Reverência,
Eu conheço enorme tribo tudo estava com decência | com prudência, | da eminência
Que assim vive sem fadiga ouvindo os garganteados!...
E já que por balda antiga Seus cantos eram bisados, | aclamados | e falados
Isto é roupa de franceses, d’aqui até Santarém;
Não esperes muitos meses, | Que mais vezes, não haveria ninguém | que com desdém, | dissesse além
Eu te largue esta cantiga.29 que el’cantava sem saber...
e amantes podia ter, | p’ra comprazer, | conhecer
A partir do que chamámos dissonâncias, inicia-se o gosto que o fado tem!...
uma complexificação estrófica e rimática, começa-
da, provavelmente, na viragem do século xix para o De alfacinha abusinada, | apertada, | bem ’sticada
século xx. Artur Arriegas, em 1918, numa entrevista e chapéu à fragateiro
intitulada “Novas ideias sobre o Fado”, dá uma im- ‘té lhe chamavam brejeiro... | desordeiro, | ou toureiro
portante informação quer para a cronologia quer pa- de usar gravata encarnada.
ra o autor destas alterações como acto reflectido Ia Às iscas e à dobrada, | co’a gajada | afadistada
que anda sempre assim na broa!
Foi o poeta Avelino de Souza, meu grande e ve- e se o beber não lhe enjoa, | era bem boa | essa loa,
lho amigo, o primeiro que sobre o Corrido inven- a que chamamos zurrapa!
tou o Fado Novo, ou O triplicado, como lhe cha- Se isto lá soubesse o Papa, | punha a capa | e à sucapa
mam por ahi. vinha de Roma a Lisboa.
Depois fez o Alexandrino e d’então para cá muito
se tem inventado, abandalhando o nome da canção Ia também ao café, | oli, olé! | que salsifré!
da minha terra.30 Até dançava à espanhola!
Cantava o Rebola a bola, | tendo tola, | tinha escola
Importa perceber estrófica e rimaticamente o que P’ra se meter num banzé!
são um e outro. Na naifa tinha filé, | metia pé, | com gajé,
O Fado triplicado é o acrescento de dois hemis- fadistava muito bem!
tíquios, alternadamente. Veja-se este exemplo do Mas, se lhe dissesse alguém: | – Oh Zé Ninguém, | Preso vem!
58
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Gritaria sem demora: Cá fora só o vento em fúria desabrida!


«Lá vou eu p’ra Boa Hora, | Ora, ora, | Por agora E no meio do furor da tempestade erguida
cantar o fado também!»32 Vagam almas sem lar... os filhos do mistério...

O chamado fado alexandrino, que é um me- E enquanto a procissão dos grilhetas da dor
tro e não uma estrofe, como erradamente alguns Desliza com horror, sem ter onde se acoite;
autores o definem, recorre a diferentes estrofes, Há forçados tambem que trabalham de noite
umas mais populares, outras menos, como é o Regando engenhos mil com bagas de suor.
caso do soneto. O que o diferencia é o núme- P’ra o escravo a noite é pranto e riso p’ra o Senhor
ro de sílabas: doze. Veja-se este exemplo de Ju- Porque tem oiro vil, carruagens, amantes!...
lio Guimarães São esmagados os bons e vencem os tratantes!...
Um lado oiro, alegria... outro a turba exaurida
Á noite, quando o céo é lugubre e funereo, Sorvendo todo o fel das botas cruciantes.33
Todo feito de sombra e estrelas vacilantes;
Vagam almas sem lar... os filhos do mistério Entretanto, outros tipos de estrofes e de esque-
Sorvendo todo o fel das botas cruciantes. mas rimáticos são introduzidos no fado. Um dos
exemplos mais interessantes é o fado com versícu-
A poalha do sol desfez-se em anciedade... lo, (o duplicado(?), e cujo autor é Avelino de Sou-
A noite estende o luto... um luto sem luar... sa) como é o caso deste fado de Luiz de Souza po-
Só ficam peitos mil, baixinho a soluçar pularizado por Alfredo Marceneiro
O éco de um gemido e a dor de uma saudade...
Fugindo loucamente a luz, a claridade, Naquele dia de Entrudo, | Lembro bem
O vicio, a podridão retomam seu império; Um intrigante “pierrot”, | Da cor dos ceus
As consciencias vis, mais negras que o siderio, Um ramo de violetas, | Pequeninas,
Começam na missão de manchar a pureza... Á linda morta atirou, | Como um adeus.
Campeia livre o mal, a miseria, a tristeza,
Á noite, quando o céo é lugubre e funereo! Passa triste o funeral, | É duma virgem
Mas ao povo que lhe importa | Aquele entêrro,
Quanto poeta assim faminto como eu sou Que a morte lhe passe à porta, | Só por êrro,
Tomba sem provar pão, com a ventura ausente; Em dia de Carnaval | E de vertigem.
Tristonho como um réo, que dolorosamente, A hora é de bacanal, | Côr’s a tingem,
Morre na própria cruz dos sonhos que sonhou!... Por isso se alheia a tudo; | Num vai-vem
Quanta mulher gentil que a precisão forçou Farto de estar carrancudo | E sem vintem
A leiloar amor... procura viandantes! Anda êle um ano inteiro, | Bem contado,
Quanta creança chora em gritos lacinantes E assim ‘stava galhofeiro | E tresloucado
Por sentir fome e dor no negro viver seu, Naquele dia de Entrudo. | Lembro bem
Viver ainda mais negro que o próprio céo,
Todo feito de sombra e estrelas vacilantes; O cortejo lá seguiu, | Tristonhamente,
Indif’rente aos mascarados | Foliões,
Mas como a vida tem contrastes poderosos; Que par’ciam vitimados, | Corações
Enquanto a legião dos pobres desgraçados Dum eterno desvariu, | Impenitente.
Chora na solidão... pelos salões doirados O meu olhar, então, viu. | Amargamente,
Dos palácios e clubs gargalham os ditosos... Um caso que o intrigou: | Oh! Olhos meus!
Lá dentro a vida a rir; cá fora angustiosos Quando o cortejo chegou | Entre plebeus
Labios a suplicar a paz de um cemiterio! Á porta do cemitério, | Taciturna,
Lá dentro Chopin geme em um velho psaltério, Seguia o carro funerário, | Junto à urna,
59
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Um intrigante “pierrot”, | Da côr dos ceus. Ë luz da tosca lanterna, | chora a esposa idolatrada;
Abaixo a másc’ra! – gritei | Com energia – Abraçada ao filho querido
Quem és tu grosseiro que ousas | profanar, Para casa se dirigia | já farto de trabalhar
Perturbar a paz das lousas, Tumular? Pensando na esposa querida
E o pierrot disse: – Nem sei! – | Que não sabia!– Quando no caminho encontra | um amigo que o convida
Sei apenas que a adorei | Um certo dia P’ra numa taberna entrar.
Num amor todo grilhetas | Assassinas. Instado pelo amigo, | em vão tenta recusar
SE não vim de vestes pretas | Em ruinas, Na espelunca cisterna
Visto negro o coração | Irresoloto. Esgota o copo e outro copo |até que esquece a esposa terna
E atirou sobre o caixão, | Como um tributo, Já depois de embriagado
Um ramo de violetas, | Pequeninas. Adormeceu encostado | ao repelente balcão
Da mais imunda taberna.
Os guardas não permitiram, | Com razão,
No cemitério a entrada | Triunfante A esposa em casa chora, | e enquanto isto se passa
Aquela dor mascarada, | Aquele amante, Num copioso lamento
Cujos soluços se ouviram | De paixão. Porque o marido não vem | p’ra comprar o alimento
Disseram-me então que o viram | Em aflição, Com a sua féria escassa
Que o pobre amante tirou | Dos olhos seus Vai procura-lo e encontra-o | no meio da gente devassa
A másc’ra que o disfarçou | E fê-los réus; Seu esposo estremecido
E num adeus, num temor, | Com humildade, Que esta servindo de escarneo, | ainda um tanto adormecido
Um casto beijo de amor, Todo saudade, Ë vil turba de devassos
Á linda morta atirou, | Como um adeus.34 Enquanto a esposa, chorando, | com o filhinho nos braços
Contempla o ébrio perdido,
Um pouco antes de 1920, é introduzido no fado
uma estrofe que vai marcar toda a década seguin- No meio dum atroz sussurro, | o ébrio acordou
te, a sextilha, dando a possibilidade de se passar E ao vê-la com o filhinho
do dístico para o trístico. Os dentes com raiva range, | e impelido pelo vinho
Esta inovação é atribuída a José António da Sil- Barbaramente a espancou
va, conhecido como Bacalhau. Até 1918, todos os Para fora da locanda, | p’los cabelos a arrastou
textos a que os fadistas recorrem são redutíveis a A pobre desventurada,
quartetos, logo a dísticos. A sextilha em uso vai re- Por fim cai na calçada | ao som duma gargalhada
duzir-se a trísticos, grupos de três versos. Tal alte- Da vil turba pouco séria
ração vai colocar problemas no acompanhamen- Enquanto ele gasta a féria | à luz da tosca lanterna
to musical, mas vai também provocar alterações Chora a esposa idolatrada
nas estrofes então mais tradicionais em uso pelos
fadistas. De novo torna a dormir | até que consegue curar
Conhecemos um texto denominado como “O A embriaguez pouco a pouco
Ébrio”, (não datado, mas será sempre posterior a Desperta, recorda a scena, | corre a casa como louco
1918) e que é retirado do que julgamos ser a capa de Quer sua esposa abraçar,
um livro de fados intitulado Oração ao vinho: ser- Mas oh! Cruel desengano, | em casa não pode entrar.
mão bachanal das festas de S. Martinho, editado pe- Seu bater não foi ouvido
la Livraria Barateira35. Esse fado, cujo autor se desco- Chama pela visinhança, | que ao vê-lo tão comovido
nhece, é apresentado como “Fado Bacalhau” O ajuda a abrir a porta.
Entrou e viu junto ao leito | a sua esposa já morta.
Ao repelente balcão, | da mais imunda taberna Abraçada ao filho querido36
Contempla o ébrio perdido
60
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Este fado é a adaptação do esquema estrófico Se Lindbergh chegou


introduzido por José António da Silva, o trístico, A Portugal e escutou
a um modelo estrófico tradicional, que recorre ao Da glória o lindo cântico;
dístico, aqui no caso da décima. Embora se possa Os portugueses choraram
aproximar, na aparência, ao fado triplicado, ele é P’los dois heróis que tombaram
substancialmente diferente. Deste modo, a décima, Nas águas do Atlântico.37
que na sua forma anterior desmultiplicar-se-ia em
múltiplos de dois, ou de quatro, vai com esta adap- ou era um conjunto formado por um mote em sex-
tação poder ser reduzida a grupos de três. No fun- tilha glosado em seis sextilhas, como é este fado de
do, adapta-se e extende-se uma inovação introdu- Carlos Conde, «Volta ao passado»
zida por Antino Vigas, trinta anos antes nas pági-
nas d’O Pimpão. Não lhe sejas tão cruel...
É nesta adaptação da décima ao trístico, aban- Vê como êle anda p’ra aí
donando o dístico, que tem origem o modernismo A carpir o seu amor...
do fado do Bacalhau ou fado Bacalhau acima re- Deixa-me e vai para êle:
ferido por Arriegas, passando, assim, o mote a ter Ele anda doido por ti,
seis versos e as décimas passam a glosas de quin- Eu tenho mais e melhor.
ze versos. Cada glosa repete, sequencialmente, um
verso, dois versos, um verso e dois versos do mo- Não o queiras olvidar,
te, agora transformado em sextilha. Sê calma, prudente e boa
Fica por explicar se as sextilhas introduzidas por P’ra quem a vida é só fel...
José António da Silva eram um conjunto de sex- Esquece-me e volta ao lar
tilhas sem mote, como este fado de Francisco dos Que êle tudo te perdôa,
Santos, «Lindbergh» Não lhe sejas tão cruel.

No mais profundo desejo, Por mim já pouco te quero,


Arrojado e destemido, Já demais te possuí
Que ao mundo se faz impôr; Com ardência, com fervor,
Poisou nas águas do Tejo, Ao passo que êle é sincero,
Lindbergh, o discutido Vê como êle anda p’ra aí
E famoso aviador. A carpir o seu amor...

Enquanto no espaço infindo Peço-te pois que me esqueças,


Do nosso País tão lindo Lembra-te bem que és mulher
Surge o «Albatroz», E um bem jamais repele;
Numa agitação confusa, A mim pouco me interessas,
No peito da gente lusa E como êle ainda te quer
Pairou uma angústia atroz. Deixa-me e vai para êle.

Angústia profunda e forte, Seguiste por mau caminho,


Porque lhe veio à ideia Mas como inda te sorri
Uma tragédia fatal: A luz dum queimado ardor,
Fazia anos da morte Volta a dar-me o teu carinho,
Do bravo Pinto Correia Ele anda doido por ti,
E Sacadura Cabral. Eu tenho mais e melhor.38
61
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

O que é certo é que, a partir da década de trin- – De bacalhau, gosto muito e de toda a maneira,
ta do século xx, a adaptação da décima ao fado com batatas ou com grelos. Mas, do fado, não gos-
Bacalhau vai desaparecer, dando lugar à sextilha to nada. Acho-o inestético, longo, maçador. Tudo
e ao quarteto. Tal deve-se a várias razões, sendo a que vejo fugir ás velhas décimas – exceção feita ao
fundamental a explosão e vulgarização do disco e duplicado e triplicado, variações interessantes cujos
da rádio, que vão standartizar o tempo de dura- versículos não adulteram as antigas glosas – enten-
ção de um fado. do que não está certo.
Desaparece, é certo, mas deixa um rasto de al- – Se o autor se antolhava necessário dizer mais, ti-
guma polémica. nha para isso o alexandrino. Escusado era pois,
Em 1922, o periódico Guitarra de Portugal fará fazer 66 versos, quando 44 já eram muitos. Não
uma série de entrevistas a figuras de interesse pa- compreendo o progresso assim, eu que me prezo
ra o mundo do fado. Nessas entrevistas, uma das de ser um homem moderno. Se um automóvel para
questões tinha a ver com as evoluções do fado. O me levar a Belem leva mais tempo do que um bur-
escritor Manuel Ribeiro, um dos entrevistados, à ro, então prefiro o jumento, visto que, a despeito
pergunta de primitivo, fica-me mais barato.40

– Conhece as evoluções do fado? A opinião de Avelino de Sousa não parece ser


partilhada por largos grupos de operários de am-
posta por Fernando Almira, responderá bos os sexos, já que Domingos Serpa escreve, tam-
bém em 1922, o seguinte
– Sei que é muito apreciado nas recitas operarias e
humanitarias. Ponderámos estas observações que julgamos aceitá-
Da sua evolução conheço o chamado fado do Ba- veis, porque um grande numero de operarias, culti-
calhau, que acho interessante. Ouvi-o no Limoei- vam presentemente o fado Canção mais conhecido
ro quando da minha estada lá. N’uma taberna que pelo fado Bacalhau, que pela vagarosidade, repeti-
havia em frente juntavam-se entre outras pessoas ções e numero irregular de versos, se torna monoto-
alguns reclusos que podiam sair, e então ahi can- no, aborrecido e por vezes incompreensivel devido
tavam o fado acompanhado á guitarra, porque lá á forma atrabiliaria da sua construção deficiente e
dentro não se podia tocar. Cantava-se só, mas bas- desconhecida. No entanto, a “Guitarra de Portugal”
tante. Foi ahi que eu tive ocasião de poder apreciar tem, pela pena de um dos seus directores, publicado
bem a nossa canção porque debaixo d’aquela im- varias produções nesses genero, acompanhando as-
pressão moral e naquele estado de espirito em que sim o espirito da epoca, mas, nunca advogando es-
me encontrava, o fado ecoou no fundo da minha sa inovação por não lhe conhecer leis a que o verso,
alma em toda a sua sentimentalidade.39 pela sapientissima autoridade dos mestres anda liga-
do há muitos anos. Mostram assim os directores a
Mas tal inovação, já embebida socialmente, não maxima imparcialidade, dando ao mesmo tempo, a
reúne aprovação geral. O então já ex-anarquista toda a gente, a liberdade de colaboração quando os
Avelino de Sousa, dirá ao poeta Linhares Barbosa, originaes tenham, embora modestos, um fundo edu-
quando colocado perante a mesma questão, embo- cador. Todo o nosso esforço consiste em destruir os
ra formulada com maior precisão velhos moldes do fado dos bordeis, dando aos nos-
sos versos um cunho de honestidade, acabando com
62
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

NOTAS

1 Dias 1954. 16 Esta primeira estrofe surge em Alberto 31 Este mote surge em Carvalho 1994:
2 Dias 1954: 152. Pimentel, Pimentel 1904: 104. 98, mas sem a aposição de hemistí-
3 Dias 1954: 127. 17 Neves 1893: 101. quios.
4 José Ramos Tinhorão também partilha 18 Vasconcelos 1990 vol. ii: 907, nota 1. 32 Guinot & Carvalho & Osório 1999:
esta cronologia, Tinhorão 1994: 123. 19 Carvalho 1994: 80. 242.
5 Parreira & Machado 1999: 90 20 Pimentel 1904: 153. 33 A Canção do Povo 1926.Setem-
6 Carvalho 1994. 21 Pimentel 1903: 155. bro.24.
7 Carvalho 1999:186. 22 As lições dadas não devem esconder as 34 Guitarra de Portugal 1929.Feverei-
8 Guinot & Carvalho & Osório 1999: dissonâncias. Luis Augusto Palmeirim, ro.20.
333. Palmeirim 1891: 286, ao descrever o 35 A que tivemos em acesso em cópia
9 Brito (coord.) 1994: 146. Em 1922, seu encontro com Severa, refere que digital na Casa do Fado e da Guitar-
o guitarrista Armando Freire, Ar- ela se acompanhava a cantar – o que ra Portuguesa.
mandinho, em entrevista à Guitarra era comum – e transcreve um quarteto 36 O texto foi impresso, na divisão das
de Portugal, à questão de se tinha fa- com a rima ABCB, que é o seguinte estrofes, de forma errada, surgindo
dos seus, responde «Sim, por exem- divididas na seguinte forma: primei-
plo o fado Armandinho que fiz há 12 Quem tiver filhas no mundo ra estrofe, seis versos; segunda estro-
anos que foi o meu primeiro fado, o Não falle das desgraçadas, fe, oito versos; terceira estrofe, no-
do civico que o sr. Bernardo Ferreira As que são hoje perdidas ve versos; quarta estrofe, 10 versos;
aplicou a uma revista, o fado Fontal- Tambem nasceram honradas. quinta estrofe, onze versos. Acontece
va oferecido ao conde d’este nome, e que a divisão está errada, pois se tra-
ultimamente um fado muito em vó- Este quarteto mostra a dificuldade ta de um quarteto glosado em quatro
ga para José Bacalhau cantar as suas em estabelecer padrões de versifica- décimas, como na lição mostramos,
produções poeticas.» [Guitarra de ção enquanto não houver um sério com a aposição de hemistíquios no
Portugal 1922.Novembro.04.] estudo sobre a poética do fado. mote no primeiro e terceiros versos e
10 A Guitarra de Portugal 1922. Se- 23 Carvalho 1994: 100. nas décimas na aposição de hemistí-
tembro. 02. 24 Carvalho 1994: 101. quios nos primeiros, terceiros, quin-
11 A Guitarra de Portugal 1923. Ju- 25 O Pimpão 1897.Janeiro.03. tos, sétimos e nonos versos, cons-
nho. 02. 26 A Lyra do Fadinho, n.º 13, 1877, truindo-se assim uma alternância en-
12 Pimentel 1904:128-129. pág. 19. tre versos curtos e longos.
13 Verbete Fado, da Grande Enciclopé- 27 Não conseguimos localizar este nú- 37 Guitarra de Portugal 1933.Dezem-
dia Portuguesa e Brasileira. mero na Biblioteca Nacional de Lis- bro.22.
14 Guinot & Carvalho & Osório 1999: boa. A colecção está incompleta, as- 38 Guitarra de Portugal 1933. Julho. 09.
336-337. sim como a de A Pimpona, esta a 39 Guitarra de Portugal 1922. Setem-
15 Carvalho 1994: 42-44. Aliás, esta ori- partir de 1876. bro. 02.
gem é puramente especulativa, nada 28 Ver referência em Pimentel 1904: 40 Guitarra de Portugal 1922. Agosto.
aponta a origem do fado como uma 69. 19.
primitiva canção de marinheiros, um 29 Carvalho 1994: 193-192. 41 Guitarra de Portugal 1922. Janeiro.
género portuário. 30 O Faduncho 1918.Junho.30. 17.
63
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

A CANÇÃO DOS OPERÁRIOS 1910, entrevistado por Luiz de Athaíde, reportando-


se há cerca de 45 anos atrás (circa 1865)
I.

N
O último quartel do século xix, um conjun- Até ahi haviam as cantigas de desafio sobretudo entre
to de poetas populares começam a proceder o Maximo dos Terramotos e o João Patusquinho. Pois
a alterações nos textos canónicos em uso no bem: mudamos tudo isso que era banal e principiei eu
fado, mercê de condições sociais, culturais, laborais e com o canto da moralidade, o canto às flores1, final-
políticas específicas, levando a que os textos se com- mente o canto que illustra o povo e que lhe abre os
plexifiquem. A partir da segunda metade dos anos olhos no meio da analphabetice em que chafurdeia...2
vinte, a dinâmica desta intervenção sofre uma inver-
são, também, por razões sociais, políticas e econó- Esta postura de educação do povo está presente
micas, encontrando-se na década seguinte morta ou em todas as entrevistas da década de dez e dos pri-
condenada à marginalidade. meiros anos da década seguinte. Avelino de Sou-
sa dirá em 1919
II.
Uma das características dos periódicos fadistas, [...] é a trova da demolição do Preconceito, a can-
que emergem a partir de 1910, é dedicarem gran- ção que é o simbolo da alavanca do Progresso, o
de atenção às figuras ligadas ao fado, dando rele- fado da propaganda social que só nos traz ensina-
vância à história deste poema e das sociabilidades mentos, preparando-nos o cerebro para as gran-
a ele inerentes. Procuram, pois, estruturar histori- des concepções do Ideal, educando-nos o espirito
camente a sociedade fadista. d’uma maneira ponderada e suasori[sic], sim, mas
A partir destas informações, ficamos a saber que de modo que acorde energias másculas, fortes, vi-
dividem a história do fado, até à altura, em três brantes, para a conquista do amanhã.3
momentos: o primeiro que vai até à morte de Se-
vera (1846); o segundo até cerca de 1860; e o ter- O mesmo Avelino de Sousa, em 1932, reafirma-
ceiro a partir de 1863, quando, em Cascais, João rá esta posição, mas agora numa forma mais inti-
Maria dos Anjos [n. 1836 – m. 1889] e João Patusqui- mista e devedora
nho [n. 1844 – m. 1922] actuaram. Considera-se essa
actuação como o momento da modernização do Tudo o que sou, tudo o que valho – pouco ou mui-
fado. A esta última data deverá ser acrescida uma to – devo-o ao fado. As minhas relações com os
outra, a apresentação de guitarras portuguesas em grandes artistas, com os grandes escritores, o meu
1873 no Casino Lisbonense. Assume-se aqui o ver- apêgo ao estudo, a ânsia sempre insatisfeita de lêr
dadeiro início do fado moderno. muito, de aprender, de aumentar os meus conheci-
Assim, a partir da década de sessenta, o fado inicia mentos, tudo nasceu com o Fado, dessa melódica e
uma revolução, não só musical, mas também poéti- sempre querida trova, que comecei a cantar dos 16
ca. Isto mesmo nos diz José Maior [n. 1847 – m. ?], em para os 17 anos, nas cégadas.4
64
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Discurso doce quando comparado com O Fado Bravos heroes do Progresso,


e os seus scensores, de 1912, onde, de forma com- ávante p’lo grande Ideal!
bativa, escreverá – A Republica não basta
p’ra esmagar o Capital!6
E o Fado, vindo do lôdo, transformou-se n’uma flôr
vicejante e bella, á custa de muito esforço e boa von- Cruzando o que diz José Maior com o que afir-
tade dos humildes poetas e trovadores populares, ma Avelino de Sousa, parece-nos estar na presença
que sentindo bem dentro d’alma toda a psychologia de duas gerações reformadoras, uma que a partir
da velha canção e quanto ela está arreigada no ani- de 1860/’70 começa o processo de modernização
mo do povo, a burilaram carinhosamente, retocan- do fado, iniciando a construção de poemas impli-
do-a, aperfeiçoando-a, fazendo d’ella a trova educa- cados socialmente, e uma outra, activa a partir da
dora, por meio da qual se confraternisa, se chora e segunda metade da década de ’90, que, na eferves-
ri, se combate pelo Ideal e se condemna e immorali- cência política e social, trata o fado como canção
dade, a tyrannia, a impudicia!5 social. A partir de 1910, com a implantação da Re-
pública, e até aos anos vinte, trava uma luta social
Desde os finais da década de sessenta do sécu- através desta canção.
lo xix, que o fado é considerado um elemento de Esta luta parece abranger três campos: a melho-
educação popular por um grupo implicado no que ria do texto; dos grupos sociais onde o fado é ac-
parece ser um programa de reforma social, per- tuante; contra os detractores do fado.
seguindo o objectivo de elevar o povo, numa pri-
meira fase aparentemente informe, mas depois de Isso não obsta a que essa trova se metamorphose-
uma forma objectiva, como dirá o mesmo Aveli- asse á luz vivificadora do Progresso e se tornasse
no de Sousa expondo a acção reformadora des- de há muito n’um elemento de propaganda para os
ta canção grandes ideaes! Que importa que o rufião ou a me-
retriz estropiem o Fado? Isso que prova? Simples-
V. Ex.ª sabe lá o que é o Fado! Quanta propagan- mente que essa bella trova está na alma popular, e
da, nos saraus das associações, na rua, na sala, na que, justamente porque é cantada do mais baixo ao
taberna, fez o humilde trovador em prol da Re- mais alto da escala social, é que tem fôros de can-
publica que hoje nos rege! E o povo rude, o povo ção nacional. Nasceu nas viellas? Embora! Tam-
operario, quedava-se recolhido a ouvil-o, entenden- bem – e cá temos o fado-destino – Emilio Zola nas-
do talvez melhor esses pobres versos – muitas ve- ceu em berço pobre e mourejou noite e dia como
zes sem metrica – do que os mirabolantes discursos simples caixeiro de uma livraria de Paris, passando
dos oradores de comicios! tantalisadoras e cruciantes miserias, até elevar-se, á
E’ que, talvez valha mais a palavra cantada, sug- força de estudo, de genio, de talento e de vontade,
gestiva e simples, afflorando aos labios rudes do á cathegoria do maior cerebro do seculo XIX.
rude productor, do que a palavra vibrante do his- E há tanta mais paridade n’esta comparação, quan-
torico Mirabeau!... Este, vendeu o talento e a lo- to é certo que, se esse colossal medico da penna
quella por um milhão de francos á vacillante mo- soube escalpelisar as podridões de uma sociedade
narchia dos Capettos; e aquele – o productor ru- deleteria, tambem o Fado já me serviu – como po-
de e simples – aluga o braço, mas não vende a eta humilde e trovador popular – para cantar a gi-
consciencia! gantesca obra d’esse altissimo espirito [...].
E porquê? Porque os humildes filhos do povo, No lôdo – metaphoricamente, é claro tambem nas-
após terem transitado do azul e branco para o ver- cem flôres! E o Fado, vindo do lôdo, transformou-se
de e vermelho, retemperaram o espirito, abriram os n’uma flôr vicejante e bella, á custa de muito esfor-
olhos – os que os tinham fechados, que não todos – ço e boa vontade dos humildes poetas e trovadores
e já hoje cantam ao som do Fado: populares, que sentindo bem dentro d’alma toda a
65
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

psychologia da velha canção e quanto ela está arrei- Chegaram a argumentar-me com essa espanto-
gada no animo do povo, a burilaram carinhosamen- sa incoerência dos Fados patrióticos, sem se lem-
te, retocando-a, aperfeiçoando-a, fazendo d’ella a brarem dos que já para aí correm, em quadras de
trova educadora, por meio da qual se confraternisa, redondilha e verso heróico, entrelaçados na foice
se chora e ri, se combate pelo Ideal e se condemna e e no martelo.10
immoralidade, a tyrannia, a impudicia!7
considerando que
Fazendo evoluir a letra, modificando a décima,
aperfeiçoando os conhecimentos de verso e metro, As costureiras dos Bairros de Lisboa, caixeiros
tornando assim os fados perfeitos, promove-se um e operários, todos reunidos à volta duma dessas
afastamento entre o que vão chamar fado canção personificações do sacrifício e da paciência que
e fado-alcouce é o «maestro» de córos, verão a pouco e pouco
iluminar-se o cérebro, aligeirar-se a alma, afor-
Ao Fado tudo se canta e tudo se diz! Há no seu mosear-se o espírito, só com a prática fraternal e
amago: Alma, Sentimento, Energia, Coração! (E’ bela do canto coral, com as noções de beleza mu-
bom não confundir este coração com outras miu- sical que a mesma prática faculta.
dezas que abundam no fado-alcouce...).8 Muitos são hoje os orfeãos espalhados por êsse
país fora. Lisboa também os vai formando, o que
O que vimos em torno do fado Bacalhau mostra essa é seguro indício de melhoria no grau da sua edu-
mesma necessidade de afastamento, que aliás será cen- cação popular. Mas isso não basta. Ao «sistema»
tral no fado como canção de intervenção social. de organização do Fado, dos seus periódicos e
«caldos de cultura», suas emissões radiofónicas,
Vemos, pois, o fado tornar-se numa expressão é necessário responder com o «sistema» da orga-
de grupo, numa fórmula cada vez mais ampla, po- nização do canto coral.11
sicionando-se aí a vontade de tornar o fado a can-
ção nacional, porque é cantada pelo povo e está ao Contra a prática fadista, associativa e politi-
serviço do povo. camente engajada, emerge um modelo educativo
Mas o fado será atacado como canção de venci- e germanófilo, aparentemente próximo de Anto-
dos, usando como mote uma conferência de An- nio Arroyo12, mas tão distante nos objectivos. E
tonio Arroyo feita em 1909 na universidade de não nos devemos esquecer que costureiras, cai-
Coimbra, intitulada O canto coral e a sua fun- xeiros e tipógrafos eram todos operários13.
ção social9. Importa trazer aqui o facto que Luis Moita,
Esta comunicação é fundamental para se enten- além de escritor e olisípógrafo, é um industrial
der todos os ataques que o fado sofrerá futura- tipográfico (o que acumula com a presidência
mente. Importa, inclusive, cruzar esta conferência do Anuário Comercial), pelo que está em cons-
com O fado e os seus scensores (1912), e com O tante contacto com um dos grupos mais empe-
Fado, canção de vencidos (1936). Nestes textos nhados no fado como canção social e onde as
não se discute somente o fado. O que se discute ul- ideias sociais imperam: os tipógrafos e litógra-
trapassa em muito este cantar. Discutem-se mode- fos. Para estes convém construir uma estraté-
los de sociedade e qual o papel do operário, e da gia de «sã» ocupação de tempos livres, posi-
sua formação, nesses mesmos modelos políticos, cionando-se a música como um óptimo meio
sociais e económicos. quer de ocupação, quer de manipulação social.
Luiz Jesus Moita [n. 1894 – m. ?], atento aos peri- O negativo disto será, mais tarde, a canção re-
gos políticos das ideias propagandeadas pela can- gional portuguesa e a actuação de Lopes Gra-
ção social para um estado emergente, ditatorial e ça junto do Coro da Academia dos Amadores
fascizante, alerta de Música.
66
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

III. camente a execução e começa-se a introduzir o


Vimos que duas gerações procederam à altera- fado em grupos e em sociabilidades não popu-
ção de um poema e que estas alterações se vão lares. Centralmente, também, a partir deste pe-
afirmando até à década de 1920. Importa ago- ríodo, os textos, verdadeiro cerne desta canção,
ra entender porque é que o fado de hoje está alteram-se. O quarteto é secundarizado em rela-
tão afastado, a diversos níveis, de um progra- ção à décima, e outros temas são introduzidos,
ma inicial. assim como o fado começa a contemplar textos
Vários factores terão que ser contemplados. A fixos. O canto a atirar compete com um impro-
partir de 1920, o fado começa a ter duas trajectó- viso mais literário, que começa a incluir temáti-
rias que obrigam, desde 1927, à profissionaliza- cas chamadas à escritura, à mitologia, à moral,
ção, as casas de fado e o teatro, que o vão ‘domes- ao social, etc.. Os poetas e cantadores iniciam
ticar’. Para além disto, há que ter em conta a ins- leituras que vertem em textos versificados pa-
tituição da censura em 1926. Associado a isto, ex- ra cantar em fado. Existe uma deslocação de um
plode e vulgariza-se a edição em disco, emergente quotidiano, cujo canto se perde, para um canto
a partir de 1904, e que vai limitar o tempo de du- que ganha funções educativas. Isto numa primei-
ração da execução de um fado. Veja-se o caso do ra geração, a de 1860, que na década de dez do
fado ‘O Pierrot’ cantado por Marceneiro, que na século seguinte, é vista como os que iniciaram a
gravação de 197214 é amputado da última estrofe, reforma do fado. Um outro aspecto importante
fenómeno, aliás, comum, mesmo entre os quarte- é o iniciarem-se preocupações formais, ou seja,
tos glosados em décimas. Por isso começa-se a pre- estudarem-se autores e métricas, que serão tra-
ferir estrofes mais curtas, de certa forma voltando- duzidas nos textos dos fados.
se à estrofe mais corrente antes de 1860, o quar- Por outro lado, esta geração, a de 1860, já her-
teto, embora tal não signifique que nos repertó- da uma expressão, embora incipiente, fadista de
rios fadistas pós-1940, não existam textos em es- profundas preocupações sociais, como mostra
trofes e modelos mais antigos. Mas tal será dora- Augusto C. de Sousa, em 1916, nos “Bons tem-
vante residual. pos do fado”
A alteração do fado e das suas vivências vê-se nu-
ma área não trabalhada, a ficção. Podem-se cruzar Os assuntos políticos já não eram estranhos ao fa-
três textos: A Severa, de Júlio Dantas, editado em do, e celebrando os vintistas, ouvi muitas vezes ata-
1901; Bairro Alto, de Avelino de Sousa, de 194415, carem as perfidas maquinações de Maria II e dos
e O fado do Fado, de Barata Dias, de 1954. seus acolitos. Já se abordavam os assuntos da His-
No primeiro, Júlio Dantas leva-nos aos primór- toria, mitologia e escritura sagrada.16
dios do fado e às suas sociabilidades. No segundo,
Avelino de Sousa mostra-nos o fado, as cegadas e o Esta geração acompanha a emergência do opera-
operariado em emergência, na redenção da prosti- riado em Lisboa. A grande maioria dos operários
tuição e na queda da aristocracia. No último, o fim situa-se em áreas que hoje definiríamos como ar-
do fado como canção popular, pois que a cantadei- tesanais. Mas é também esta geração que toma o
ra Celeste prefigura a domesticação do fado. fado como a sua canção e abre-lhe as portas como
trova de fortes implicações sociais, educativas, in-
IV. formativas e de afirmação na luta de classes.
Ao longo deste capítulo, tentou-se esboçar uma A esta sucede uma outra, quase toda nascida por
história do fado a partir dos poemas, entre os anos volta de 1880, que começa a ligar-se ao fado por
de 1860 e 1930. volta da segunda metade da década de noventa do
A partir de 1860, o fado na guitarra começa a século xix. É esta geração, também ela de fortes ra-
modernizar-se: inicia-se a fusão de fados tradi- ízes operárias, que fará a derradeira evolução do
cionais com trechos de ópera, melhora-se tecni- fado, assumindo-o como canção total.
67
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Eu, que á minha humilde mesa de trabalho tantas custa do suor do pobre, da eterna besta de carga,
trovas, mais ou menos incorrectas, tenho produzi- jungida ao carro triumphal do Rei-Milhão! Estas
do, é que posso, indubitavelmente, explicar-lhe to- são as canções sociaes, em redondilha ou em ale-
das as diversas cambiantes porque passa, á luz ce- xandrino, – que para tudo o Fado tem variantes
rebrina da inspiração, a mimosa trova. O Fado que o doutor desconhece – onde ha brados de re-
percorre toda a gamma social! volta, gritos de desespero, clamores d’alma, so-
Hoje, é o trovador humilde, que não escreve, e me breexcitações do espirito em que o protesto resal-
pede para fazer-lhe uma canção, que elle cantará na ta forte, viril, austero e justo, contra as torpezas,
festa a favor de uma viuva cheia de filhos; e n’este mais do que muito condemnaveis, do Existente!
caso, a musica é o Fado propriamente dito, dedi- Ao Fado tudo se canta e tudo se diz! Há no seu
lhado em tom menor, acompanhando o verso apro- amago: Alma, Sentimento, Energia, Coração! (E’
priado, que é um mixto de revolta e amargura pelas bom não confundir este coração com outras miu-
desegualdades sociaes. Ámanhã, é outro que deseja dezas que abundam no fado-alcouce...).17
cantar as delícias do hymineu e brindar os noivos,
Não devemos esquecer que estes operários e operá-
Um parsinho que ajoelha e que se vae casar rias estão implicados numa profunda transformação
social e são confrontados com um quotidiano onde
como diz Julio Dantas na Ceia dos Cardeaes. En- a revolução e a conspiração, a par de uma profun-
tão, a musica é um mixto de amor e alegria, e já pó- da miséria, estão em cada esquina. Avelino de Sou-
de cantar-se n’um lindo fado-marcha, saltitante e vi- sa, João Black ou José Carlos Rates18 empenham-se
vo, em que os tonicos ridentes do verso se harmoni- nessa mudança. Estudarão, cantarão, fundirão tex-
sam delicadamente com a alacre vibração da guitarra! tos, fórmulas e autores e farão do fado uma arma de
E, n’essa toada poetica, há beijos d’amor, há augurios combate social. Empenhar-se-ão para que o fado-al-
de felicidade, há a treva densa e emocionante da Vi- couce nada tenha a que ver com o fado como can-
da! Depois, é a festa do baptisado d’esse «pedacinho ção social. A alteração da construção textual faz par-
de carne nascido entre dois beijos» e que representa o te deste projecto19. E tal deve-se a profundos conheci-
fructo da união e do amor dos paes. Aqui, a trova é mentos de métrica e de rima – vimos como as trans-
marchetada das perclas delicadas e rutilas que nascem formações formais mostram uma clara intenção de
no mais recondito do coração das mães! busca de novas fórmulas estróficas.
Pensar que estamos perante apenas «habilida-
«Há lagrimas a rir, e risos a chorar» des» de uns tantos poetas ou cantadores, como
afirma Ruben de Carvalho, Maria Guinot e José
Mas que, a par da sentimentalidade natural, dei- Manuel Osório, é não entender o que aconteceu
xam vibrar a musica dentro d’alma, em tom maior, nos sessenta anos mais profícuos da história do fa-
de onde se filtra a alegria esfusiante, enternecedo- do. Talvez o único momento em que o fado, como
ra, perfumada! um todo ideológico, existiu.
Mais tarde, vem o humilde filho do povo, o de- A melhor síntese de todo este movimento que en-
sherdado da blusa – com eu, doutor – e esse quer contrámos é do punho do sapateiro Manoel Soa-
trovas energicas, dramatisadas, onde se concreti- res, o Intendente, redactor-principal do jornal O
se toda a sua discrepancia por tudo que é iniquo fado. Em 22 de Abril de 1923, no primeiro núme-
e revoltante, a dentro de uma sociedade infame e ro deste jornal, escreve
polluida, e de cujos poderosos detentores do Ca-
pital só o operario é victima! N’estas trovas faz- No momento psicológico que atravessamos, em
se propaganda contra a Reacção, stygmatiza-se que as questões mais fundamentais da nacionalida-
o roubo legal comettido pelo honrado commer- de, se nos apresentam envoltas na brumosa treva
ciante, disseca-se o ventre da Abundancia, cheio á do Amanhã.
68
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

No abjecto pântano em que a sociedade se contorce, dor não basta esterioriza-la com um tremor de voz,
preste a precipitar-se no abismo onde vegetam, numa nuns versos piegas. É necessário que esses versos sejam
promiscuidade aterradora, os sórdidos egoismos e os expressão fiel duma dôr sentida! Ou como diremos: Pe-
impulsivismos torpes dos que enformando duma cri- daços duma alma que se arrebata, porque a verdade lhe
minosa crise de caracteres, pretendem esmagar com a nasce expontanea do coração. É isto o fado. E nós de
pata férrea dos ódios tôrvos, o tradicional sentimen- há muito proclamamos a nossa revolta porque a ope-
talismo da raça. ra não é acessível às camadas populares, que tão neces-
Vem à luz da publicidade o nosso semanário. Não sário lhes é educar-lhes o sentimento, como poderemos
tem o nosso jornal a pretenção de levantar a canção nós consentir que aqueles que infelizmente por tara ou
nacional! Porque a nosso ver, o fado que a algumas inconsciência, ainda não abandonaram a taberna, se ve-
décadas de anos vem irradiando de geração em gera- jam privados do unico divertimento, ou gérmen educa-
ção, subindo das vielas turtuosas da Ribeira das Naus tivo que ali pode penetrar e que em versos persuasivos e
(onde julgamos teve a sua origem). E apoz um estudo sentimentais lhes recorde no seu declive moral a compa-
aturado nos mais cancerosos prostíbulos, aprendeu a nheira e os filhinhos? Não. Tal não consentiremos. Con-
chorar as dores das infelizes abandonadas duma so- tinuemos pugnando para que o fado seja mais alguma
ciedade madrasta. E subindo, subindo sempre, pene- cousa de que um val de lágrimas…
trou por fim nos mais luxuosos salões erguendo na Penetremos com ele nos mais recônditos meandros
sua instrutiva rotina o indestrutível facho da verdade. da sciencia, da arte e da filosofia. Mas levemo-lo de
O fado que, por assim dizer, se civilizou, não nega, mãos dadas, no amarfanhado dédalo de via sinuosas
nem poderia abandonar aqueles que o elevaram. E onde vejetam as mais baixas camadas da sociedade,
quem melhor de que as desgraçadas poderia sentir o agitando em nossa dextra em vez da navalha, o facho
fado? Quem poderia imprimir ao fado um sentimen- intangível da instrução»
talismo sincero, senão aqueles que o teem por confi-
dente?
Implicitamente ninguém. Porque para se transmitir uma

NOTAS

1 Tinop [Carvalho 1994: 171] dá a 10 Moita 1936: “Em guisa de...” 15 Romance que parte de uma peça le-
seguinte informação: «O Damas – 11 Moita 1936: 222-223. vada à cena em 1927.
cantador fino – cantava às flores, ti- 12 Curiosamente, no Alentejo será em 16 A Canção de Portugal 1916.Outu-
nha bonito estilo e bonita voz. Real- zona mineira que se formará o pri- bro.01.
çava o seu canto por estes dois predi- meiro grupo coral, Grupo Coral do 17 Sousa 1912: 5-6.
cados essenciais num bom cantador. Sindicato da Indústria Mineira do 18 Que será o fundador de um dos pri-
O Damas reformou o canto do fado, Sul, Mineiros de Aljustrel, fundado meiros jornais dedicados ao fado, O
foi o “Calcinhas” daquele tempo.» em 18 de Janeiro de 1926, assim co- fadinho.
2 O Fado 1910.Abril.23. mo serão as Casas do Povo a susten- 19 Veja-se Guinot & Carvalho &
3 A Canção de Portugal 1919.Janei- tarem os diversos grupos corais co- Osório 1999: 14, que, em nota,
ro.05. mo projecto. consideram curiosa a notícia sobre
4 Canção do Sul 1932.Março.16. 13 Veja-se o caso de Joana, costureira, a ocorrência de uma sessão de fa-
5 Sousa 1912: 4. apresentado em Almeida, 1993: 83- dos na Amadora, aquando da rea-
6 Sousa 1912: 8. 84. Sobre os caixeiros e as tensões lização do Congresso do PCP, em
7 Sousa 1912: 3. de classe por estes provocadas, veja- 1923. No interior da nossa hipó-
8 Sousa 1912: 6. se Sousa 1912. tese, tal sessão de fados é mais do
9 Arroyo 1909. 14 Valentim de Carvalho 1972. que significativa.
69
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

ANTÓNIO MARIA EUSÉBIO E MANUEL ALVES: uma Folha de Saudação. O poeta não esteve pre-
FADISTAS E PROTÓTIPOS DOS POETAS POPULARES sente para não se emocionar.
DO SÉCULO XX PORTUGUÊS No número dois do segundo(?) jornal sobre fa-
do, O Fadinho, fundado por José Carlos Rates
I. em Julho de 1910, a primeira página é-lhe dedica-

O
S fadistas hoje recordados são aqueles que da3. E nos jornais que lhe seguiram, Calafate sur-
emergem nas décadas de vinte e trinta do ge sempre como uma personagem importante na
século xx. Todos os outros foram quase es- história da canção nacional.
quecidos. Há apenas duas excepções: os improvisa- Pinto de Carvalho, no capítulo dedicado aos
dores Calafate, de Setúbal, e Cavador, de Anadia. Pe- cantadores do fado, na sua História do Fado, re-
las particularidades de que se revestiram, importa es- mata com uma referência aos cantadores provin-
boçar sobre eles algumas breves considerações, até cianos, escreverá
porque a sua presença no pensamento intelectual da
época vai ser importante para traçar o perfil dos fu- O primeiro, na ordem hierárquica e na ordem cro-
turos poetas populares portugueses e, particularmen- nológica, é António Maria Eusébio, o Eusébio Ca-
te, dos meridionais. lafate ou o Cantador de Setúbal. O provecto canta-
dor, que já conta oitenta e dois anos de idade, tor-
II. nou-se famoso pela sua admirável facilidade no
António Maria Eusébio [n. Setúbal:1819 – m. Setúbal: trovar, e pela originalidade das ideias satíricas, que,
19111] deve à profissão que exerceu, a de calafetar nos descantes, maravilhava os ouvintes pela justeza
barcos, o nome pelo qual será conhecido, Calafa- e pelo incisivo traço, quer nos versos que vinham
te. Mas um outro nome lhe será associado, o de de memória, quer nos improvisados ali, conforme
Cantador de Setúbal. Lia letra de forma, mas na explica o sr. Henrique das Neves nas linhas biográ-
de mão não entrava, como anotará José Leite de ficas que acompanhavam o livro do Cantador de
Vasconcelos em 19022, quando o conhece em Se- Setúbal, livro em que aquele ilustre escritor coligiu
túbal, na casa de Paulino de Oliveira. Este último algumas produções poéticas do trovador octoge-
está há muito empenhado na sustentação de Antó- nário4. Como amostra dos seus versos, onde, mui-
nio Eusébio e na projecção da sua obra. Em 1901, tas vezes, põe de manifesto a nota satírica, mas on-
o general Henrique das Neves organizará um livro de também, muitas outras, se espelha a bondade do
com os seus versos, juntando-lhe vários testemu- seu coração, damos a seguinte décima:
nhos. A edição foi acompanhada de um prefácio
do poeta coimbrão Guerra Junqueiro. O AUTOR
Quando completou 82 anos, foi-lhe feita uma
homenagem no velho teatro D. Amélia, em Setú- Nunca fui mal procedido,
bal, promovida pelo casal Paulino de Oliveira e Nunca fiz mal a ninguém,
Ana de Castro Osório, durante a qual foi vendida Se acaso fiz algum bem
70
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Não estou d’isso arrependido. O cantador Manuel Alves, o Cavador, trovista da


Se mau pago tenho tido Bairrada, um analfabeto a quem alguém coligiu as
São defeitos pessoais; poesias num livro intitulado Versos do Cavador
Todos seremos iguais morreu em 1901. A sua feição poética é antética da
No reino da eternidade, do Eusébio Calafate, porque se este vibra a nota
Na balança da igualdade satírica, mordaz, aquele vibra a nota amorosa pro-
Deus sabe quem pesa mais.5 fundamente elegíaca.7

Em 1968 o Rotary Club de Setúbal erguerá IV.


um monumento a António Maria Eusébio, da Quem consultar a bibliografia mais acessível so-
autoria do Arquitecto Castro e Lobo. Este bus- bre António Maria Eusébio e Manuel Alves não
to, oferecido à cidade, foi colocado no Parque verá grandes referências ao fado8, à excepção de
do Bonfim. breves e quase imperceptíveis notas, como é o ca-
so desta respeitante ao Poeta Cavador
III.
Quanto a Manuel Alves [n. Vale de Boi:1843 – m. Vale Quando voltava do Brasil, onde fora em busca de
de Boi:1901], será do seu mister que lhe advirá o no- fortuna, teve maus tratos na viagem, e, com ele, to-
me, Cavador. Mas um outro nome lhe será da- dos os outros imigrantes. Companhia inglesa. Se-
do, em complemento do primeiro, Poeta – Poe- veridade no comando, aspereza no trato, sovinice
ta Cavador. Será emigrante no Brasil, tornará à na mesa.
sua terra, onde morrerá de tísica pulmonar aos Ora uma tarde, – calmaria no mar, saudade nas al-
59 anos. mas, – um passageiro, sentado à proa, tocava, na
Será primeiramente conhecido na sua região, guitarra, o fado da sua terra. De repente, deitan-
Aveiro; depois a sua fama transbordará pelos do o olhar ao céu e o coração ao largo, improvisou,
meios intelectuais coimbrãos6. Guerra Junquei- em meio do assombro geral, a ousada canção cujo
ro e Tomás da Fonseca tudo farão para o real- mote começa:
çar. Este último publicará postumamente um li-
vro com improvisos seus e, em 1957, fará parte Peço ao senhor capitão,
de um grupo que erguerá um busto ao Poeta Ca- Em nome dos companheiros...9
vador, da autoria do Escultor Raul Xavier.
Uma comissão intitulada «promotora do monu- Ou a seguinte anotação a uma décima, o que nos
mento a Manuel Alves» organizará, ainda no ano permite aceder ao nome de um acompanhante des-
da morte do poeta, uma circular, à qual vão res- te fadista de Vale de Boi, Anadia
ponder Tomás da Fonseca, Lopes de Vieira, Rama-
lho Ortigão, Guerra Junqueiro, Fialho de Almei- Ao seu amigo Manuel Martins da Costa, famoso
da, Bernardino Machado, Mayer Garção, Vicen- guitarrista, que tanta vez lhe acompanhara os de-
te Arnoso, Elisée Reclus, Thommazzo Cannizaro, safios.
Barriobero y Herran, Justino de Moltalvão, João
Correia de Oliveira, Simões Ferreira, Domingos Se não fosse a referência que lhe faz Pinto de
de Castro, Dias de Oliveira, Afonso Lopes Viei- Carvalho, Manuel Alves nunca seria relacionado
ra, João de Barros, António Carvalhal, Santos Luz com o mundo do fado; tal apenas poderia ser infe-
entre outros. rido pelo uso da décima, então com grande popu-
O capítulo dedicado por Pinto de Carvalho laridade no universo fadista, já que à altura só os
aos cantadores do fado, na sua História do Fa- fados literários recorriam ao quarteto.
do, remata com uma referência aos cantadores Já em relação a Calafate, as referências são quase
provincianos nulas, se exceptuarmos Tinop e Avelino de Sousa.
71
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Este último, na polémica sobre fado que sustenta Eu sei que nasci chorando,
com Forjaz Sampaio, defende o Cantador de Setú- Coisa que não ignóro.
bal quando este é ridicularizado E ainda que às vezes chóro,
Talvez que morra cantado.
O velho respeitavel que se chamou Calafate, foi to- Não sei a hora nem quando
da a vida um famelico, um operario honesto, um Acabará meu viver,
fautor da riqueza publica, um escravo preso á gle- Que, segundo o meu parecer,
ba, como eu. Nunca aspirou a ter um pantheon Já perto estará o meu fim.
que lhe guardasse os ossos, aliás, tão veneraveis Não tenham pena de mim
como os de qualquer outro mortal que fosse, pe- Rapazes, quando eu morrer!
lo menos, trabalhador honrado como elle. Sem em-
bargo, se não teve um pantheon, gosou a felicida- Estrugiam as palmas, que o prestígio do Calafate
de suprema de ouvir da bocca de Guerra Junqueiro subia incessante nas noites de tertulia.11
palavras de infinita doçura, elogios de requintada
sinceridade, á sua obra, á sua intelligencia de anal- Nos trabalhos que saíram sobre estes dois fadis-
phabeto, que, n’um esforço supremo de cerebrisa- tas, a questão do fado foi continuamente secunda-
ção inculta, soube arrancar da Iyra d’alma – a mais rizada. O livro sobre Manuel Alves e os diferentes
honesta e rica de todas – maviosissimos sons, a que papéis e livros que sobre António Maria Eusébio
a prosa vil de v. ex.ª não chegará nunca! Guerra foram sendo dados à estampa, não referenciam o
Junqueiro ouviu o pobre Calafate, com aquelle re- fado. Temos que aceder a informações secundárias
colhimento proprio do seu altissimo espirito.10 para nos apercebermos que era em torno do fado
que a obra destes homens se estruturava. O melhor
deixando adivinhar que o sentido da polémica é exemplo está na edição de Os Versos do Cantador,
muito mais profundo e vasto do que esta deixa por onde o organizador, Rogério Claro, na introdução
vezes percepcionar. ao primeiro volume, a qual constitui um extenso
A mais interessante referência vamos encontrá-la texto biográfico e contextualizador, não faz uma
em Manuel Envia que, em Coisas de Setúbal, evo- única referência a esta canção12.
ca assim António Maria Eusébio
V.
Eh rapaziada! Vai cantar o Calafate! Não é, pois, o fado que interessa aos promotores
Assim rumorejava a assistência na Adega do Pauli- das homenagens aos poetas Manuel Alves e Antó-
no ali ao Largo da Conceição em noites de cantiga nio Maria Eusébio. Interessa, sim, um outro as-
de Fado. A rapaziada evocada era a dos marnotei- pecto, concordante nas duas homenagens, na vida
ros, chinchorreiros e descarregadores de sal que en- e na morte. Guerra Junqueiro sintetiza aquilo que
chiam por completo, o ambiente da casa amornado todos, de forma mais ou menos explícita, dão a en-
pelo fumo do tabaco e pelas emanações da aguar- tender quando se interessam por estes poetas
dente bagaceira.
O vozear continuava agitado como em disputa: Mas agora dou fé que, sem o querer, estou cantan-
- Eh rapaziada! Vai cantar o Calafate. do e não percebes o meu canto. Fallar-te-hei com
E, enquanto o Carga d’Ossos passava os dedos pe- simplicidade para que me entendas. Não sabendo
la guitarra num repenique preludioso, e o Josué es- lêr nem escrever, és um grande poeta, meu ignoran-
perimentava na viola a posição de dó maior para a te e ignorado cantador de Setúbal. Os grandes po-
modulação do fado, o Calafate, agitando a guizeira etas são os grandes homens, e a grandesa humana,
colocada entre fitas coloridas numa pequena vara aos olhos de deus mede-se pela virtude, pela ino-
e divagando o olhar pela assistência, entoava com cencia, pelo juiso verdadeiro da nossa alma, pela
vóz forte e arrastada. ternura infantil do nosso coração. Ora a tua bon-
72
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

dade, meu velho, exhala-se das tuas cantigas sem queiro. Para estes, a figura de Calafate e o uso
arte, como um aroma delicioso d’um matagal in- do improviso no fado, colocam-no na posição de
culto, que nasceu entre pedras. combatente pelo ideal revolucionário que a can-
O vicio não te manchou, o crime não te deshon- ção nacional incorporava para os operários, desde
rou. Ganhaste com o suor da fronte o pão de cada há cerca de trinta anos, como expressão da cons-
dia, com a alma em Deus abriste o olhar a todas as ciência social. Ou então, como entender este fado,
manhãs, e todas as noites, tranquillo, na misericor- publicado em 1901, de António Maria Eusébio, o
dia de Deus adormeceste. Arrancaram-te lagrimas Calafate, o Cantador de Setúbal?
piedosas os tormentos do mundo, – guerras, fomes,
flagellos, desastres, miserias, iniquidades. Amaldi- Prevalece o socialismo
çoaste a soberba, cuspiste no dolo e na tirania. Para bem da humanidade
Bondade ingenua, pobresa santa, alegria clara, eis P’ra não ver os desvalidos
o resumo simples da tua vida.13 Luctando com a necessidade.

A leitura deste excerto mostra que o Cantador de Jornaleiros e artistas


Setúbal aqui é apenas um meio para falar de uma Nós temos um bom ensaio,
outra coisa: do povo e de Portugal. Um Portugal Nos temos o 1.º de Maio
decadente que no palco das nações pouco mais Deu força aos socialistas.
tinha do que umas tantas colónias – que muitos Queremos ser reformistas
queriam vender – e uma história de grandes fei- P’ra acabar o vandalismo,
tos no passado, o que servia de aperto de cora- Porque a honra e patriotismo
ção no presente a muitos intelectuais portugueses. Já vae sendo um bem fecundo,
Esquecer o fado, que muitos começavam a achar Por varias partes do mundo
um mal da nação e um vírus na virilidade daque- Prevalece o socialismo.
le, o Povo, que deveria salvar a Pátria, era assim
óbvio. Mas nem todos alinhavam por este padrão. Há certas leis portuguezas
Fialho de Almeida, de Cuba, escreve o que pensa Que não ‘stão em harmonia,
sobre o poeta e sobre o monumento que lhe que- Trabalhar ao vir do dia
rem erguer. Sobre o poeta (ou poetas) não lhe en- Largar com luzes accezas.
contra luz, antes submissão ao Estado, ao destino, Agora algumas emprezas
à morte, sem o mínimo traço de revolta14. Quan- Já tem melhor egualdade;
to ao monumento, a sua amarga lucidez leva-o a Hoje qualquer sociedade
aconselhar Tem um plano que não falha,
Que o socialismo trabalha
Outra obra haveria a fazer, por mercê do morto, Para bem da humanidade
infinitamente mais proveitosa para os vivos. Não
deixou família, Manuel Alves? Tratem-lhe dela.15 Queremos ganhar jornaes
Ao que fôr justo e razão,
Mas dentro deste grupo, havia quem entendes- Ninguem tem obrigação
se de uma forma diversa estes poetas ou fadistas. De nos dar nada de mais.
O posicionamento de Paulino de Oliveira ou de P’ra sermos homens iguaes,
Carlos Rates terá que ser diferente e muito mais Pomos de pparte os partidos,
pragmático. São figuras envolvidos na mudança P’ra sermos homens unidos
radical da situação política, advogando a queda Faremos o que se possa,
da monarquia. O apoio que dão a Calafate não Não faremos vista grossa
se posiciona na forma esperançosa de Guerra Jun- P’ra não ver os desvalidos.
73
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Queremos que qualquer homem mens incompletos, a quem falta a educação para as-
Já na edade avançado cender a um patamar civilizacional superior, e, por
Tenha de pão um bocado outro, resíduo de esperança na renovação moral da
Para não morrer de fome. Pátria. De uma qualquer forma, sempre cegos co-
Se as privações o consome mo o aedo grego. Amputado o fado, poema incó-
Accuda-lhe a sociedade, modo, já inquinado pela higiene e foco, para mui-
Dê-lhe ao menos ametade, tos, do mal que corrompia a virilidade do Povo, fi-
Se ainda a pode ganhar, ca a palavra dita, ou cantada, sem a especificidade
P’ra que não o veja andar da forma. Manuel de Castro, de Cuba, Josefa Inácia
Luctando com a necessidade.16 Prego, de Portel, Jaime Velez, do Cano, e António
Aleixo, de Vila Real de Santo António, serão os her-
Mas não será esta a face iluminada pelo derramar deiros deste olhar. Serão poetas da palavra e nunca
de olhares futuros. Manuel Alves e António Maria vozes ligadas à trova da consciência social. Os inte-
Eusébio, não serão vistos como fadistas, mas só, e lectuais de oitocentos, já sem saber o que fazer com
apenas só, como pobres vates populares, homeros o fado, tornaram-no inexistente quando homenage-
de um país cego que foi muito e que em finais de aram Manuel Alves e António Maria Eusébio. Os
oitocentos não é nada. Mercê de um estado de coi- fadistas meridionais do século xx serão a face futu-
sas, os fadistas, ou os poetas, são, por um lado, ho- ra do olhar então construído.

NOTAS

1 Embora na base do busto que lhe é Além tendes, meus amigos, Além tendes meus amigos
Por onde haveis de passar; Por onde haveis de passar
dedicado estejam as seguintes datas:
Confunde-se o rico e o pobre, Confunde-se o rico com o pobre
1820-1912. A rectificação é feita em Tudo à terra vai parar. Mas tudo à terra vai parar
Mota s.d.
2 Vasconcelos 1903-1904: 45-48. Vós que passais, vede além Vós que passeis vezes além
Na sepultura deserta, A sepultura deserta
3 O fadinho 1910.08.04. E num dos
De fria terra coberta, De fria campa coberta
primeiros números do jornal Germi- A face da vossa mãe! As faixas do meio também
nal, também de José Carlos Rates, lo- Que poder a morte tem O poder que a morte tem
calizámos uma décima de Calafate. Sobre os reis, sobre os mendigos! Sobre marginais e mendigos
Olhai os vastos jazigos Olhai os vastos jazigos
4 Versos do Cantador de Setúbal
De tanta família honrada: Cheios de família honrada
acompanhados de um prefácio de Fria porta, escura entrada, Feia a porta negra entrada
Guerra Junqueiro e de «Algumas Além tendes, meus amigos. Além tendes meus amigos
palavras acerca da vida do autor»
Vede além a negra campa Tudo ali está por conta
pelo Coleccionador, que é o sr. Hen-
Cobrindo a corrupta ossada... Cada campa numerada
rique das Neves. Sobre a caveira mirrada Além uma caveira mirrada
5 Carvalho 1994: 245-246. Eis que uma cruz se levanta. Onde uma cruz se levanta
6 Em 1987, recolhemos em Santa- Porque chamais terra santa Chama-se à terra santa
A tão infame lugar, Aquele triste lugar
na, Portel, dita por João Rato, um
Onde a morte vai levar Onde a morte vai levar
quarteto glosado em quatro décimas Filhos, esposas, maridos?... Filhas e esposas e maridos
que é atribuída a Manuel Alves É uma estrada de gemidos É uma entrada de gemidos
Por onde haveis de passar. Por onde haveis de passar
74
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Em cima está o bronze santo Em cima o bronze santo


Que toca a fúnebre entrada, E que toca a fúnebre entrada
Chorando com voz magoada Chorando com voz magoada
Os crentes que amara tanto. E ver os entes que amaram tanto
Rola das faces o pranto Rola da fácie pranto
Sobre a terra que nos cobre... Junto à terra que nos cobre
Eis o sepulcro do nobre, Ei-lo o sepulcro do nobre
Junto à prateada salva; Junto à prateada salva
À sombra da murcha malva Assombra o dia murcha a malva
Confunde-se o rico e o pobre. Confunde-se o rico e o pobre

A terra diz: «Eu criei A terra diz eu criei


Tudo quanto é vegetal; Tudo quanto é vegetal
Tenho o direito legal: Mas tenho o direito legal
Quanto crio comerei. De tudo quanto comerei
É da terra o alto rei Do mais baixo ao alto rei
E em terra se há-de tornar; Em terra se há-de tornar
Eu não tenho outro manjar, Não tenho outro manjar
Foi Deus que mo autorizou. Foi Deus que me autorizou
Vós sois terra, eu terra sou: Vós sois da terra e eu da terra sou
Tudo à terra vai parar». E tudo à terra vai parar
Alves 1993: 121-123. Lima 1994: 311.

7 Carvalho 1994: 246. Para nos dar sempre queijo Porque é que o arroz com bichos
8 Fernando Cardoso que, na década de Peço ao senhor capitão! Tem dado por tantas vezes?
setenta e oitenta do século xx, publi- Os pobres dos portugueses
ca em quatro volumes uma antologia Dê bacalhau com batatas, Engolem bichos inteiros!...
de poetas populares portugueses, rela- Que assim manda a tabela: Recomende aos cozinheiros
ciona, de forma interessante Calafate e É p’ra tapar a taramela Que o bacalhau quer mais molho!
Cavador. Na nota biográfica referente A estes pataratas. Mande deitar mais repolho
a António Eusébio alude ao fado [Car- Tratem as coisas exactas, Na sopa dos passageiros!
doso 1990: 47-80], mas na de Manuel Sejam homens cavalheiros; Alves 1993: 183-185.
Alves [1989: 49-80], não existe a menor Demos os nossos dinheiros
referência a esta canção. P’ra viagem e alimento... 10 Sousa 1912: 32.
9 Alves 1993: 56. O improviso completo é Peço melhor tratamento 11 Envia 1947: 123-124.
Em nome dos companheiros. 12 Eusébio 1985: 7-27.
Peço ao senhor capitão, 13 Calafate 1901 : ix-x.
Em nome dos companheiros, Nestes que vem de terceira 14 Alves 1993: 263-266.
Mande deitar mais gordura Não ouço senão gemidos; 15 Alves 1993: 266.
Na sopa dos passageiros. Vejo-os tristes e encolhidos, 16 Eusébio 1901: 52.
Tudo a cair com fraqueira.
Mande retirar a abóbora Dão-nos abóbora porqueira,
Que no rancho nos manda dar, Tudo comer de impostura.
Que essa apenas dá lugar Tratem-nos com mais candura,
E origem a qualquer obra! Que a tabela assim o manda!
De bacalhau com mais sobra Prove o calda da caçamba,
Queremos mais ração; Mande deitar mais gordura.
E esse que fabrica o pão
Deite mais sal com mais sobejo; Se os capitães ingleses
Dizem ter tantos caprichos,
75
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

CONCLUSÃO II.
Sabemos que, quando se levanta a origem do fa-
I. do, estamos no plano das identidades. Veja-se ape-

O
fado, fadinho ou faduncho, tem sido, desde nas, como exemplo, as discussões e as edições sur-
há cerca de cem anos para cá, alvo de gran- gidas em 1994, em partidos muito claros: um cen-
de polémica. A partir dos textos fundado- trado na Lisboa ’94 que, numa certa ambiguidade,
res de Pinto de Carvalho, Alberto Pimentel e Luis tinha na centralidade lisboeta o princípio da ex-
Moita, construíram-se diferentes olhares, que mais cursão expositiva, para terminar no colportage pa-
não foram que espelhos dos momentos políticos e ra a expansão do fado; uma outra argumentação
sociais que os viram ser produzidos. em torno da presença escrava, transporte entre o
Desde o primeiro momento, dois aspectos foram Brasil e a metrópole, logo defendendo uma origem
essenciais: Maria Onofriana e a origem do fado. exógena desta canção, prefigurada no trabalho de
Traçar a biografia de Severa foi, e ainda contínua José Ramos Tinhorão1. Aliás, Joaquim Pais de Bri-
a ser, importante para alguns historiadores do fado. to ao construir a hipótese comparativa entre o fa-
Mas é sobre a origem desta canção urbana que mais do e a rebética de Atenas ou o tango de Buenos Ai-
se tem escrito. Para uns, o fado tem origem na antiga res, aparentemente mais não faz que recuperar as
colónia portuguesa do Brasil, a partir do sincretismo linhas de força aventadas pelos clássicos do fado.
cultural entre escravos negros e classes baixas de co- Mas o que ele recupera é uma geografia, o porto de
lonizadores; para outros, o fado vem do plang tro- mar, e não os grupos sociais, aproximando-se en-
vadoresco, rastreando-se a sua presença, depois, em tão mais de Tinop, e da sua teoria da marinhagem,
Camões; mas outros quiseram ver a sua origem em como génese do fado2, lateralizando a questão le-
fórmulas muito mais remotas, como cantares celtas. vantada por Pimentel dos grupos sociais.
Ainda há quem considere, também, a canção regio- A importância da Severa não se prende apenas
nal portuguesa como a raiz da canção nacional. aos trágicos amores de uma ‘cigana’ e de um no-
Não foi nenhum destes caminhos que intentá- bre. A questão é muito mais profunda e pretende
mos seguir. Limitámo-nos a perseguir o caminho ilustrar uma relação entre o fado dos aventais-de-
proposto pelos autores fundadores do fado – todos pau e a aristocracia, ou seja construir, e datar, um
são concordantes quanto à alteração profunda que momento na relação fado versus aristocracia, ou
o fado sofre por volta de 1860 no poema e na mú- seja, a subida do fado do alcouce para os salões.
sica – e pelos periódicos – que a partir de 1910 re- Pois que à Severa liga-se a primeira presença do fa-
ferem o fado como a trova da consciência social. do em salões da aristocracia lisboeta. A Severa e o
A escolha de um título como «Fado 1910» é as- fado mais não são do que a metáfora da decadên-
sim prenhe de significado. Data o primeiro jornal cia da nobreza portuguesa.
sobre fado e data também uma revolução em que A importância de Amália Rodrigues (o outro
os operários colocaram tantas esperanças, e pela ícone) para o fado no século xx mede-se pela re-
qual os fadistas e o fado tanto fizeram. volução que se dá com a introdução de outras so-
76
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

noridades e o uso de textos de poetas não oriundos III.


do meio fadista. É ela que canta, pela primeira vez, Para Joaquim Pais de Brito
de forma extensiva, poetas como Camões, Alexan-
dre O’Neill, David Mourão Ferreira... O fado é uma forma musical que se desdobra em
Por muito importantes que estas questões sejam modos de execução e de cantos variados, mas sem
– e são-no – não nos parece que sejam as únicas a romper um campo relativamente restrito de possibi-
merecer atenção. Um conjunto diverso de outros lidades harmónicas, rítmicas e instrumentais. O fado
aspectos deverão ser focados e alvo de uma maior é também uma expressão e enunciação de discursos
reflexão. que o seu intérprete quer comunicar ou fazer par-
Um primeiro aspecto a realçar é a inexistência de tilhar a quem o escuta. E a partir do lugar daquele
uma crítica bibliográfica que cruze periódicos ac- que o executa, que o canta, adquire as tonalidades
tuantes desde a década de setenta do século xix, as mais íntimas ou mais próprias modeladas por uma
monografias sobre o fado, que se começam a visu- voz que não é necessariamente trabalhada como ins-
alizar a partir de 1900, e a ficção (teatro, roman- trumento de canto. Mas o fado é também, e talvez
ce, novela e poesia). sobretudo, uma situação de interacções múltiplas
Um segundo aspecto, prende-se com a história entre várias pessoas em determinado espaço: os to-
da literatura, nomeadamente da literatura popu- cadores, o cantor (ou, como querem alguns, canta-
lar. Não conhecemos nenhum estudo sobre os as- dor), os ouvintes. Constituem uma unidade perfor-
pectos formais e conteudísticos do fado. Os capí- mativa, simultaneamente, espaço de execução, au-
tulos que em algumas obras lhes são dedicados são dição e avaliação e ainda de sociabilidades e quadro
de uma extraordinária pobreza, que, aliada a mui- de reprodução social de formas de expressão de uma
tos erros, impossibilitam os resultados que daí se cultura popular. É evidente que isto só pode ser dito
possam retirar. como modelo suficientemente genérico para abran-
Um terceiro aspecto, tem a ver com os grupos so- ger no tempo as fases e os contextos históricos da
ciais que recorrem ao fado ou sobre ele criam edi- evolução do fado, e ainda as várias situações espa-
fícios críticos. Avelino de Sousa e o seu O Fado e ciais e sociais, em que ele se produz.5
os seus censores é um caso paradigmático, vendo-
se aqui não só as tensões, mas também as solida- Definição extensa, mas vaga, e atribuível a qual-
riedades de grupo. Aliás, Avelino de Sousa é, en- quer expressão musical portuguesa. Assim como é
tre os seus congéneres, uma figura ímpar que não vaga e indefinível a sua origem, mergulhando num
tem merecido a legítima atenção. Defini-lo como in illo tempore. Atente-se a Eduardo Sucena, pa-
um tipógrafo anarquista que via o fado como veí- ra quem
culo das lutas sociais, como o definirá Pais de Bri-
to3, é demasiado estreito para caracterizar uma fi- [...] o fado constitui um fenómeno poético-musical
gura que foi alterando o seu pensamento a par das complexo, que não pode deixar de se relacionar,
transformações sofridas pelo fado, mantendo ao nas suas raízes longínquas, com os cantares pro-
longo da sua vida um posicionamento firme da vençais, e designadamente com o plang [...].6
canção nacional. Não só o seu livro Bairro Alto4,
onde na figura de Vitorino de Sousa se advinha o Isto quando não se relaciona com cantares cel-
próprio autor, serve para definir um momento do tas ou árabes, ou o chorar na Ribeira das Naus na
fado, a década de noventa de oitocentos, como os partida das caravelas ou com a chegada de escra-
diferentes testemunhos, entrevistas, polémicas e vos e dos seus lamentos, isto na lonjura; na proxi-
outras formas de intervenção mostram diferentes midade, temos os ritmos africanos vindos do Bra-
posições que pautaram cinquenta anos de serviço sil. Isto entre outras origens, onde uma raiz cigana
fadista. A sua intervenção é, assim, uma história é de quando em quando aflorada, mas de forma
do fado entre 1895 e 1945. muito marginal.
77
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Sobre a palavra fado, a sua etimologia bebe a raiz Isto porque


em Factum, destino ou sorte em latim, mas são apro-
ximações filológicas e não da área de uma sóciolin- O homem do mar é iminentemente imaginativo e
guística que torne claro porque é que fado designa contemplativo. A sua vida precária, toda repassa-
um grupo social considerado baixo7. No fundo, mo- da de ideologismo e de saudade, torna-o idealista,
vemo-nos no mundo da gíria e do calão. Levanta-se inoca-lhe o vírus rábico da poesia. O seu espírito
a seguinte questão: se é o fado que dá o nome a um perde-se nos êxtases do Sonho e na embriaguez do
grupo social, os fadistas, ou se é este grupo que dá além. Todo o marinheiro verseja [...].11
nome a um poema, pois no século xix, mais do que
música, fado significa texto em verso. Este é um as- Assim, explica que o fado mais antigo (e único
pecto de interesse primordial para os estudos sobre que existia) era o «Fado do marujo»12, permitin-
fado, mas que tem sido muito pouco valorizado nas do defender que o fado só posteriormente a 1840
diversas abordagens realizadas. se passeia pelas ruas de Lisboa13, o que nos leva a
Mas o mais interessante é a ligação do fado não só perguntar o que cantaria a Severa.
a cantares provençais, mas também a alguns grandes É esta origem marítima do fado que conduz à
poetas portugueses, como Camões ou Bocage, con- sua importância e à sua permanência entre nós
fundindo-se, de forma por vezes rudimentar, um la- pois
mento poético com um poema e um cantar apenas
definível a partir da segunda metade do século xix. [...] ele nasceu no mar, no mar onde fomos gran-
Veja-se, a título de exemplo, a afirmação do fadis- des, no mar onde conquistámos as glórias que fize-
ta João Braga, em resposta a uma questão levantada ram da pátria portuguesa um elemento funcional
por Baptista-Bastos sobre a origem do fado no mundo moderno, e a fizeram subir triunfalmen-
te os degraus da História.14
É tudo por suposições e se, por suposições, o fado
nasceu no século passado, acho um bocado estranho E numa expressão de rara beleza
que Camões tenha escrito versos como: «Com que
Voz cantarei Meu Triste Fado», e coisas do género. É a imensa e profunda tristeza do nosso litoral, é
E fala o fado como uma coisa cantada e, sobretudo a frescura verde dos nossos campos em que se fun-
na sua lírica, fala o fado como uma coisa cantada.8 dem aromas, é o borbotão férvido do nosso Tejo,
que desce, de terras de Espanha, sem uma tara, é o
Mais do que a definição são as origens e os aspec- reflexo do nosso céu em todos os seus aspectos: de
tos identitários de grupo que têm caracterizado a sua um anil imaculado no Estio, plúmbeo no Outono,
abordagem. Dois são os trabalhos clássicos sobre o gridefe no Inverno, azul-safira na Primavera, quan-
fado. Um é de 1903, da autoria de Pinto de Carvalho, do Maio pulveriza de ouro a Natureza, põe topes
e um outro, de 1904, de Alberto Pimentel. de prata no arvoredo e diz, alegremente, que todos
Ambos se preocupam com as origens. Tinop afirma os lustres estão acesos.15

Para nós, o fado tem uma origem marítima, origem Mas Alberto Pimentel, após recusar a filiação
que se lhe vislumbra no seu ritmo onduloso como árabe, defendida por Teófilo Braga16, tenta apro-
os movimentos cadenciados da vaga [...].9 ximações, digamos, de carácter sociológico. Para
este autor, não é no mar, mas antes em terra, que
Afirmando, peremptoriamente, mais adiante devemos procurar a origem da canção

O fado nasceu a bordo, aos ritmos infinitos do O facto de termos encontrado nos Mysterios do Li-
mar, nas convulsões dessa alma do mundo, na em- moeiro a palavra fadista (como termo de calão e
briaguez murmurante do que dizemos.10 por isso graphada em italico) sem que até essa epo-
78
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

ca (1849) appareça qualquer vestigio do vocabu- tre uma certa tradição arreigada a um certo núme-
lo Fado ou Fadinho na acepção de cantiga popular, ro de bairros de Lisboa e uma presença difusa nas
leva-nos á conjectura de que foi da moderna no- décadas entre quarenta e sessenta do século xix,
menclatura da classe que derivou o nome da can- num aro geográfico nuclear que vai da Porcalho-
ção, em vez de da canção que proviesse o nome á ta a Setúbal, subindo quase até Santarém, e esten-
classe.17 dendo-se, depois, até ao Porto.
O inventário dado quer por Pimentel, quer por
Estas duas posições opostas, embora Pimentel Tinop, e também presente nas diferentes memó-
também afirme rias publicadas pelos diversos periódicos, enu-
meram cantadores, poetas e tocadores que não
O marinheiro é muito mais fadista do que o solda- podem estar isolados nos locais onde vivem;
do: talvez porque a guitarra de bordo seja o traço apenas poderão ser os expoentes locais de uma
de união que o põe em constante communicação expressão cuja história está ainda por fazer. Se
espiritual com os outros fadistas.18 antes de 1900, já Manuel Alves, na Mealhada,
ou Calafate, em Setúbal, eram famosos, susten-
escondem, no entanto, duas abordagens distintas. tando localmente improvisos com outros poetas,
Na referência ao mar, Tinop liga-se ao movimento é um facto que mostra uma presença que impor-
republicano que, em 1880 e 1890, eleva a epopeia ta realçar e perceber. É necessário também en-
dos Descobrimentos a um êxtase de pátria perdida tender as estruturas de versificação que usavam,
e que urge reencontrar19. Pimentel, mais sociológi- assim como a teoria poética que possuíam, já
co, mais retraído, é um homem na esteira de Her- que existe um corpus que importa levantar e en-
culano, preocupado com o rigor histórico. Veja- tender, pois só assim teremos acesso aos aspec-
se o cuidado colocado na nota à pág. 2820 sobre o tos criativos particulares e gerais.
«Nascemos de um grupo de lusitanos»21, ou a bre- Existem indícios elucidativos de que antes de
ve incursão sobre o municipalismo e a sua deca- 1860/’70, o fado transpõe a península de Lisboa
dência22. Mas a marca fundamental entre os textos em direcção ao norte do país – se é que a cidade
é também pessoal. Tinop desenvolve um discurso do Porto, por outro lado, não constituiu também
onde emerge a nostalgia de uma Lisboa que vai de- um pólo difusor de fado25. Os quartetos, estrofe es-
saparecendo, que descreve numa alma camiliana truturante do fado no norte de Portugal, mostram
transposta para uma linguagem queiroziana, em isso mesmo. Será só após esta data que vamos en-
oposição a um Pimentel mais científico, que com- contrar a décima no sul de Portugal, embora tam-
para o fado com as canções da província, opondo bém a vamos localizar no litoral norte, o que mos-
os espaços abertos, mundo rural, aos espaços fe- tra uma contínua leva e renovação de estrofes. Fi-
chados, o mundo urbano ca por explicar a desgarrada no sul, que é feita em
quartetos, o que poderá ter ocorrido tardiamente.
O povo de Lisboa, limitado ás ruas e ás tabernas Esta cronologia de dispersão geográfica é ainda
da cidade23, e, uma vez por outra, quando muito, muito embrionária, e deixa grandes espaços por
ás hortas dos arrabaldes, encontra na guitarra, nas explicar. Voltaremos a ela mais adiante quando en-
cantigas do Fado, a sua melhor distracção.24 trarmos na história da décima no século xx no sul
de Portugal.
IV.
Um aspecto de grande importância, é como é V.
que o fado transpõe Lisboa e, nos alvores do sécu- Sabemos apenas que o fado usou, em fórmulas
lo xx, ocupa uma parte substancial do país. Ou- antigas, o que Maria Aliete Galhoz denominou co-
tro, é como é que se vai alterando a sua cartogra- mo «cantigas de don don», expressão retirada do
fia presencial, mostrando aspectos dissonantes en- «Fado do marujo» que, segundo Tinop e Pimentel,
79
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

seria o fado mais antigo, e cujos sistemas estrófico verá ser olhado na horizontal e na vertical. Bas-
e rimático parecem já estar popularizados a partir ta comparar este objecto, o fado, com um outro
da segunda metade do século xviii, já que o encon- que é, de uma forma genérica, o improviso em
tramos em diversos pontos do Alentejo, nomeada- Portugal. Debaixo de um nome generalizado de
mente, Messejana, Cuba/Beja e Crato. despique, localizável em bastantes locais, escon-
A partir da segunda metade do século xix, o fado de-se uma outra realidade, e embora estejamos
recorre apenas a dois sistemas estróficos: o quar- sempre a falar de improvisos, o despique do Bai-
teto, num uso mais antigo, e o quarteto glosado xo Alentejo não é o mesmo do Alto Alentejo, e
em décimas, numa fórmula mais contemporânea e estes são diferentes dos da Madeira ou dos Aço-
mais próxima do século xx. res. Parece-nos, pois, que a designação de fado
Mas os autores clássicos, Tinop e Alberto Pi- esconde um indeterminado número de variantes
mentel, deixam antever uma arquitectura poética que poderão ser, ou não, recorrentes a outros sis-
muito mais complexa, que os textos que nos che- temas de improviso que com ele coabitaram, en-
garam não mostram na sua totalidade. costaram ou se misturaram.
Segundo Tinop, o canto à desgarrada foi prete- O caso do «don don» é paradigmático: mais do
rido pelos cantadores em relação ao canto ao fan- que um fado estabilizado, estamos a falar de um
dango, e este abandonado quando surgiu o can- modelo de improviso ainda há poucas décadas em
to do fado, assim como aconteceu com a dança uso na área de Peroguarda28 e que, segundo os in-
do fandango em relação à dança do fado. Mas em formantes com quem trabalhámos, era cantado,
que é que consistiam estes improvisos, já que, até uma estrofe por improvisador, a partir do que de-
muito tarde, o fado era feito na base do improviso? nominaram como fado corrido. O «don-don» é
Tinop dá-nos uma breve informação quando fala uma cantiga de pé-quebrado, ou seja, uma estrofe
de Bernardino Ferreira Saldanha, da Porcalhota, e de quatro versos, três em redondilha maior e um,
na altura com 80 anos de idade (terá nascido por o último verso, em redondilha menor. O primeiro
volta de 1820) e o quarto verso são soltos e o segundo é concor-
dante com o terceiro – dando a intenção de uma
Principiou por cantar à desgarrada e ao fandango, carnavalização poética –, embora o último verso
canto que é feito de improviso, por ter de se cin- vai servir de rima com a estrofe seguinte. Foi for-
gir à deixa do adversário, e, na resposta a dar-lhe, ma vulgarizada no Nordeste brasileiro, recebendo
ter de fazer rima com a palavra com que este ter- aí a designação de Pelos sinais29.
minou.26 Importa também entender que os cantadores
que vamos conhecendo através dos livros de Ti-
informando também que nop e Pimentel, assim como aqueles que são referi-
dos nos periódicos entre as décadas de dez e trinta
Quando se principiou a cantar o fado, foi posto de do século xx, embora tenham preferência pelo fa-
parte o canto do fandango, e o Bernardino Salda- do, mostram de quando em vez a possibilidade de
nha abandonou este para encetar aquele, que co- terem cantado outras fórmulas, sobre as quais na-
meçou a moda popular.27 da sabemos. Por volta de 1870, Calafate, em res-
posta a uma injustiça de trabalho, faz um impro-
Sobre estas formas de cantar não sabemos nada. viso em dois quartetos ligados por leixa-pren30. Es-
Podemos ter textos versados, mas estes muitas ve- tamos na presença de fado, de um modismo, ou de
zes são ilusórios já que ter, por exemplo, um quar- textos da tradição?
teto, não implica que tenhamos acesso à sua forma Um outro dado com algum interesse é a forma
de construção durante o improviso. a que Tinop recorre para descrever cada modelo:
Cremos não ser possível ver a alteração de gos- uns são versos, outros motes e outros quadras – e
to apenas como uma sequência evolutiva, tal de- está sempre a referir-se a quartetos.
80
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

VI. Mas o que queríamos mostrar é que os textos do


É no campo do texto que o fado tem um dos fado tinham em si um percurso de complexificação
capítulos mais interessantes da sua história como e de perfeição, com as rimas e as sílabas nos sítios
canção operária. E se as diferentes evoluções são certos. Quem estudar os fados publicados nos di-
de grande interesse para o conhecimento da poesia ferentes periódicos será confrontado com esta ver-
popular portuguesa – pois vão também desestrutu- dade. A busca de poemas correctos era uma ambi-
rar fórmulas tradicionais –, o fado Bacalhau, com ção dos fadistas do período em estudo.
a sextilha, vem marcar uma profunda alteração no Esta ambição não pode ser encontrada nou-
texto e na música da canção nacional. tras áreas da poesia popular em Portugal. Isso
Existe, no entanto, uma aparente dissonância demonstra o carácter excepcional do fado. Se
que vamos encontrar na obra publicada de Ma- este fenómeno foi localizado, implicava identi-
nuel Alves. Se é verdade que se deve a António Jo- ficar quem o produziu. O compulsar da biblio-
sé da Silva a introdução da sextilha no fado, como grafia disponível e dos periódicos desta épo-
entender que na obra publicada de Manuel Alves ca só conduz a um grupo sócio-profissional: os
se encontrem sextilhas, embora redutíveis a dísti- operários. Durante duas décadas, 1910-1930,
cos31? Este, tal como muitos outros aspectos, mos- dezenas de entrevistados, centenas de artigos
tra que existe um largo terreno na história do fado ou opiniões são concordantes entre si. Todos
e da poesia popular a desbravar. eles identificam personagens do mundo operá-
A sequência por nós dada da transformação estró- rio. Afirmar que a década de vinte não deixou
fica e rimática deve ser vista como algo aproximada, vingar um fado operário, um fado anarquista
que necessita de um rigoroso inventário, impossível ou comunista, é um erro. O que aconteceu foi
de compilar neste trabalho: cairia fora dos seus ob- que o fado de engajamento social, fotografia do
jectivos. Falta fazer um estudo sobre a técnica poéti- quotidiano operário, foi esmagado por um con-
ca em uso no fado entre 1860 e 1930 (e também an- junto de alterações políticas, sociais, económi-
tes). Esse trabalho seria de uma extrema importância cas e culturais. Mas essa experiência não mor-
e iria desocultar aspectos fundamentais da história da reu ali. Ela vai continuar marginal e clandesti-
canção nacional. Tentámos, de forma muito lacunar, namente associada ao PCP e à oposição popu-
mostrar diferentes recursos poéticos usados pelos fa- lar a Salazar. Essa é uma outra história que de-
distas. Muitas das fórmulas experimentais levantadas verá um dia ser contada.
durante este trabalho ficaram de fora. Fórmulas que Mas esta experiência sobreviverá até aos nos-
poderemos considerar como exóticas, talvez não o sos dias noutras regiões do país: Alentejo e Al-
sejam. As composições do sapateiro Manoel Maria, garve. Importa persegui-la, não só para entender
que na década de trinta será encontrado morto em Vi- uma parte substancial da cultura popular meri-
la Franca de Xira, e que se caracterizam pela pulveri- dional, como também para perceber os olhares
zação do mote nas glosas, são disso exemplo. Seguir que sobre os poetas e sobre a sua poesia foram
cada texto seria de grande riqueza informativa32. sendo construídos ao longo do século xx.

NOTAS

1 Tinhorão 1994. 7 No século xix, fadim designava uma que uma perda de letras da palavra fa-
2 Carvalho 1994: 15-16. moeda de cobre de baixo valor.. Aliás, dista, técnica algo comum nas gírias
3 Carvalho 1994: 10. falta uma análise sóciolinguística sobre (fadista=faia).
4 Sousa 1944. a terminologia em uso no fado. Veja-se 8 Baptista-Bastos 1999: 220.
5 Brito 1993: 159. o caso da palavra faia como auto-deno- 9 Carvalho 1994: 42.
6 Sucena 2002:12. minação de fadista; faia mais não é do 10 Carvalho 1994: 42.
81
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

11 Carvalho 1994: 43. da. Informação dada por Agostinho por ter a companha
12 Carvalho 1994: 44. e Virgínia Dias, a quem agradece- de barrete encarnado
13 Carvalho 1994: 44. mos todas as informações.
14 Carvalho 1994: 288. 29 Cascudo 1984: 95-101; Pires 1986: De barrete encarnado
15 Carvalho 1994: 288. 12-15. tudo berra e grita
16 Braga 1987: 559-560. 30 O improviso é o seguinte - Como está danado
17 Pimentel 1904: 43. o patrão Zé da Rita.
18 Pimentel 1904: 54. Eu já cá sabia Envia 1947: 78-79,
19 França 2002: 33-45. que eras malaio
20 Pimentel 1904: 300. a mim não me enganas embora se afaste do improviso de
21 Veja-se Herculano 1853: 11-13. a quatro de maio. Calafate, pois dobra nos dois últi-
22 Pimentel 1904: 36-37. mos versos.
23 Seria de muito interesse, investigar A quatro de maio 31 Exemplo
um conjunto de detracções ao fado a não me enganas, não,
partir do conceito panóptico de Mi- que eu d’aqui não vou Vejam o que pode sair
chel Foucault, Foucault 2001. sem dinheiro na mão. Debaixo duma mantana:
24 Pimentel 1904: 26. Eusébio 1908: 110-111. Monteiro, deita a fugir,
25 Veja-se de Camilo, Eusébio Macário Tu, Pimentel, vai p’rá cama...
e A corja, ou de Eça de Queiroz, A Manuel Envia edita também um texto cha- E esse que aí está a grunhir,
ilustre casa de Ramires. rivaresco construído no mesmo modelo Vá p’rá mãe que lhe dê mama!
26 Carvalho 1994: 175. Alves 1993: 241.
27 Carvalho 1994: 175. Ólha o Zé da Rita
28 Beja. Ferreira do Alentejo: Peroguar- como está danado 32 Não desenvolvemos aqui a proposta
PARTE I
TRÊS

A DÉCIMA NO ALENTEJO
2.ª FASE: 1880-1990
84
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
85
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

DA ESCRITA À ORALIDADE nhece António Eusébio, então já com 81 anos.


Deste encontro, já referido anteriormente, o que
I. nos interessa é a nota leitiana às décimas, à sua geo-

J OSÉ da Silva Picão, no seu Através dos campos,


descreve, de forma muito bela, uma noite en-
tre criados e assalariados na casa da malta, num
qualquer monte da zona de Elvas,
grafia e à posição que sobre elas toma. Escreve

Nas terras do Sul do Tejo estão muito em voga, no


povo, décimas feitas por cantadores. Ha mesmo ca-
dernos manuscritos com ellas, que passam de mão
Noutras noites não há artemages, nem touradas, em mão, e de casa para casa. As décimas [...] ser-
nem jogos, nem desenhos; mas o serão passa-se di- vem de glosa a uma quadra que tem a fórmula ab-
vertido, se não de alegria ruidosa, pelo menos com o cb; esta quadra é extremamente simples, e as déci-
prazer suavíssimo que disfrutam as almas simples ao mas, em que já fica assim havendo versos conheci-
ouvirem narrações estranhas, maravilhosas. Nestas dos, tornam-se um pouco mecânicas.3
noites os papeis invertem-se: são os velhos que dis-
traem os novos. Aqueles, tomando ares de superiori- E, em nota, acrescenta
dade paternal, propõem adivinhações, recitam déci-
mas, narram contos de princesas e mouras encanta- Convém não confundir as décimas, ou décemas, co-
das, casos de bruxedos, e até episódios das guerras mo dizem os Transtaganos, com a verdadeira poesia
da primeira metade do século, de que eles ou os as- popular. Esta é tradicional, muita antiga, e não se lhe
cendentes foram testemunhas oculares.1 conhece auctor; as décimas, pelo contrário, são rela-
tivamente modernas, e muitas vezes sabe-se ainda o
O recitar de décimas descrito deve correspon- nome de quem as fez. A poesia popular nunca reveste
der ainda à décima barroca, ou seja, uma persis- a fórma de décimas, e só a de quadras, disticos e pou-
tência do modelo anteriormente descrito. Infeliz- cas mais (e essas muito raro). As décemas constituem
mente, Silva Picão não nos dá os pormenores que uma especialidade da ethnographia transtagana. Fóra
desejaríamos. d’ella encontrar-se-hão apenas esporadicamente.4
Esta referência, ainda do século xix, não pode
ser relacionada com uma outra dada por José Leite Estas referências são de extraordinário interesse.
de Vasconcelos um pouco mais tarde. O Verão de Leite de Vasconcelos diferencia poesia tradicional
1902, é passado por Leite de Vasconcelos em Se- de poesia popular, colocando as décimas no segun-
túbal. Uma tarde, Paulino de Oliveira, jornalista, do caso. A razão reside não só no facto destas se-
panfletário e republicano, marido da escritora Ana rem o que podemos chamar um modismo, como
de Castro Osório2, envia um recado a Vasconcelos, na sua relação com o universo da escrita
convidando-o a ir a sua casa porque o Cantador de
Setúbal estava lá. O sábio doutor, desejoso de co- Ha mesmo cadernos manuscritos com ellas, que
nhecer pessoalmente Calafate, desloca-se aí e co- passam de mão em mão, e de casa para casa.5
86
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Ao anotar a recente feitura das décimas, o que per- conhecido principalmente entre a gente do campo.
mitia saber muitas vezes o autor, Leite de Vasconce- 3.ª Nenhum livro ou escripto anterior ao actual se-
los, refere-se não à décima barroca, em uso no Alen- culo (XIX) faz a menor referencia a esta musica
tejo e já perfeitamente popularizada (embora em popular.
competição com outras estrofes, como vimos), mas 4.ª A poesia com que, invariavelmente quasi, se
sim à décima vulgarizada pelo fado. Devemos cha- canta o Fado é uma quadra glosada em decimas,
mar a atenção para o facto de que estas informações forma poetica d’uma antiguidade pouco remota, de
surgem na construção de uma nota explicativa às uma origem nada popular e sem relação alguma
obras de Calafate. Embora o Cantador de Setúbal se- com a poesia arabe.6
ja um fadista que sedimentou diferentes fórmulas, no
texto só surgem décimas como glosas de quarteto. Neste verbete do Diccionario musical, publica-
O que nos importa fazer notar no texto deste fi- do em 1880, encontram-se informações de muito
lólogo, é não só a referência à décima como uma interesse para a história do fado e para a história
característica da província transtagana bem como da décima. Primeiro, o assumir-se que a décima
a sua modernidade. não é um texto popular. Segundo, o enquistamen-
Dois aspectos devem ser, contudo, relevados. Jo- to desta canção fora dos grupos considerados tra-
sé Leite de Vasconcelos não desconhece certamen- dicionais. Terceiro, um desconhecimento quase to-
te o que se passa com o fado e o uso da décima mas, tal no sul do fado. Quarto, a assunção que a estro-
prendendo-se estes a uma cultura urbana e operá- fe mais usada no fado é a décima como glosa.
ria, o filólogo não os tomou como objecto privile- Cruzando esta informação com a que Leite de
giado nas suas pesquisas, centradas nos costumes Vasconcelos dá, podemos inferir que a décima, co-
e nas tradições do povo português. mo glosa de um quarteto, sustentada musicalmen-
O outro aspecto é a pouca dispersão que tem a te pelo fado, não pode estar no Alentejo em data
décima no resto do país, o que mostra que, muito muito anterior à data da edição do dicionário, isto
provavelmente, o fado no norte, ou não conseguiu com todos os cuidados cronológicos com que nos
implementar a décima, depois de se ter associado podemos precaver. Vasconcelos, ao afirmar a mo-
ao quarteto, ou José Leite de Vasconcelos não as- dernidade desta no Alentejo, assim como quando a
similou o fenómeno recente de expansão desta es- liga ao universo da escrita, fundamenta, pois, esta
trofe. De qualquer maneira, estes aspectos mos- afirmação. Situando na década de setenta e oitenta
tram o carácter tardio da décima como glosa de do século xix a introdução e expansão da décima
um quarteto nos gostos da cultura popular. como glosa de quarteto, assim como do fado, pa-
rece não ser uma hipótese de grande risco.
II.
Quando Alberto Pimentel recusa a hipótese ára- III.
be da origem do fado, recorre a Ernesto Vieira e No livro Resistências populares ao Liberalis-
ao seu Diccionario musical, retirando deste as se- mo (1834-1844)7, Maria de Fátima Sá e Melo
guintes conclusões Ferreira faz uma caracterização económica das
províncias do sul que, pela síntese e riqueza in-
1.ª O Fado só é popular em Lisboa: para Coim- formativa, interessa seguir de perto, na medida
bra foi levado pelos estudantes, e nem nos arredo- em que caracteriza esta região até ao momento
res d’estas duas cidades elle é usado pelos campo- anterior à introdução do fado, década de sessen-
nezes, que teem as suas cantigas especiaes e muito ta do século xix.
differentes. Por volta desta altura, a percentagem de superfície
2.ª Nas provincias do sul, onde os arabes se conser- inculta no Alentejo rondaria os 60% do total do ter-
varam por mais tempo e os seus costumes e tradi- ritório provincial, traduzindo-se provavelmente num
ções são ainda hoje mais vivos, o Fado é quasi des- alargamento em relação ao século xviii,
87
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

A extensão dos incultos ia de par com uma fra- Lisboa abastecia-se de trigo e bovinos meridio-
ca densidade da população: 11 habitantes/km2, o nais. O Algarve era também abastecido pelo tri-
que correspondia a um terço da média nacional. A go transtagano. A lã escoava-se não só nas manu-
grande concentração do habitat acentuava ainda o facturas locais, Portalegre ou Reguengos de Mon-
seu aspecto desértico. saraz, ou regionais, as manufacturas da Covilhã,
Em algumas das suas aglomerações, em particular mas também era exportada para os mercados eu-
nas vilas e cidades do norte da província, reunia-se ropeus.
contudo uma população numerosa. As cidades de
Évora, Portalegre, Elvas e Beja e as vilas de Estremoz A dinâmica comercial da agricultura e da criação
e Castelo de Vide contavam mais de cinco mil habi- de gado alentejanas estiveram na base de uma pre-
tantes no início do século XIX, o que era verdadeira- coce afirmação do individualismo agrário na pro-
mente importante em termos nacionais; na realidade, víncia e do recuo do colectivismo agrário, o que é
estas seis aglomerações representavam um quarto das particularmente válido para o centro e sul da re-
localidades do país que ultrapassavam este marco. gião correspondendo grosso modo aos distritos de
A concentração dos habitantes nas cidades, em vilas Évora e de Beja.9
urbanizadas e em grandes aldeias não excluía a exis-
tência de uma população dispersa, ainda que menos Complementarmente a esta análise, no livro inti-
numerosa, vivendo nos «montes», as habitações das tulado O Alentejo no século XIX: economia e ati-
herdades que constituiam, como se sabe, as principais tudes económicas, Helder Adegar Fonseca afirma
unidades de exploração agrícola da região, explora-
ções caracterizadas na maior parte dos casos pelas su- [...] a partir de Oitocentos, o Alentejo enveredou
as vastas dimensões, o que não significava que a pe- por uma experiência económica baseada na ex-
quena propriedade e sobretudo a pequena exploração ploração das possibilidades produtivas não ape-
não tivessem lugar assinalável no panorama da agri- nas agrícolas mas também industriais, diversifi-
cultura alentejana. Com efeito, nos finais do Antigo cou a oferta que dirigiu tanto para o mercado in-
Regime explorações de dimensões modestas tinham terno como externo. Este processo atingiu o seu
uma parte importante na estrutura agrária da provín- auge na década de 1880 que marcam uma vira-
cia, situando-se tanto nos arredores das aglomerações, gem fundamental para uma economia mais es-
em terrenos destinados à cultura intensiva, como nas pecializada sectorialmente (agricultura) e essen-
zonas mais afastadas em que se praticava a agricultu- cialmente empenhada em produtos destinados ao
ra dos cereais e a criação de gado. mercado interno. Isto significa que o efeito pola-
Convém recordar que apesar do carácter desértico rizador de Lisboa sobre a região económica que
da sua paisagem e do isolamento das suas aglomera- veio a liderar foi lento e é provável que, na vi-
ções a economia alentejana estava longe de ser uma ragem para Novecentos, com o pacote reformis-
economia fechada nos finais do Antigo Regime.8 ta que marcou a política agrícola e industrial do
país (1889-1900), tenham sido dados passos tão
Esta extensa citação mostra-nos que, ao contrá- decisivos no processo de integração como aque-
rio de uma imagem de deserto tantas vezes dada les que se promoveram durante o terceiro quartel
como certa, o Alentejo possuía uma economia de- do século XIX.
senvolvida, onde a agricultura e a produção de ga- Finalmente, se tivermos em conta o que se passou
do apostava quer nos mercados internos, quer nos com actividades como a mineração, a moagem e
externos, a par de uma forte concentração urbana, a industria corticeira ou a forma como evoluiu o
característica das regiões mediterrâneas. produto agrícola na Área de Évora, é difícil aceitar
Os principais produtos desta economia comer- a ideia de uma economia pouco dinâmica, caracte-
cial eram o trigo, a lã e, numa percentagem me- rística que deve ser reconhecida independentemente
nor, o gado. do sucesso obtido, que foi limitado.10
88
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Temos assim uma região economicamente dinâmi- depois de 1890 a inovação de debulhas à máquina,
ca, que se vai estruturar em torno de três produtos embora agradasse como novidade, circunscreveu-se
agrícolas, a cortiça, o trigo e os suínos, a par da pro- apenas a algumas zonas. Só pegou a valer do ano de
dução de rebanhos lanígeros, que vão alimentar in- 1896 em diante. Desde então, em cada nova colheita,
dustrialmente todo um conjunto de sectores de trans- vêem-se aumentar os maquinismos de debulha. No
formação, tanto internos como externos. As minas e último verão (1911) funcionaram na região elven-
a indústria conserveira (esta em particular no Algar- se vinte e cinco debulhadoras, construidas nas casas
ve) vão ser pólos económicos de grande importância. Clayton, Ruston, Marshall e Garrett, predominando
As minas de São Domingos, em Mértola, cuja explo- as Ruston de tipo mediano e as Clayton, grandes.12
ração se inicia por volta de 1860, serão um centro
operário de grande importância, assim como Aljus- IV.
trel. Estes coutos mineiros são o expoente máximo Nas décadas de setenta e oitenta do século xix,
de uma constelação de zonas mineiras espalhadas pe- mercê da circulação de matérias-primas e de gen-
lo Alentejo e que hoje se invisibilizam na paisagem. tes, o quarteto glosado em décimas sustentado mu-
Todos estes produtos necessitam de escoamento: sicalmente pelo fado começa a entrar no Alentejo,
é também antes de 1900 que se inicia a estrutura- substituindo nos gostos populares meridionais o
ção do caminho-de-ferro. uso da décima de tradição barroca, e secundari-
Escorados pelas afirmações anteriores, podemos zando o uso de outras estrofes.
considerar o Alentejo como palco de um processo Não existe documentação directa que tal nos di-
de industrialização. A paisagem agrícola que hoje ga, por isso importa “fazer mão” de todos os da-
nos envolve quando percorremos o sul, deve mais dos disponíveis.
ao século xix do que à sedimentação de períodos Nos jornais da década de dez e vinte do século xx
históricos anteriores. Esta forte industrialização te- dedicados ao fado, quando se faz menção às várias
ve de ter gente que, mais do que camponeses, são o figuras importantes no universo desta canção, refe-
que poderíamos qualificar como assalariados, logo re-se o seu papel importante quer na defesa do fado,
mais próximos do mundo operário. Uma visita a quer nas suas deambulações pelo país a espalhar a
São Domingos não deixa dúvidas relativamente ao trova. Quando o fado é atacado, um dos argumen-
duro e sofrido quotidiano em que esta gente vivia. tos utilizados é a sua importância na divulgação dos
Interessa também fazer salientar a forte depen- ideários socialistas e republicanos. Veja-se as pala-
dência económica desta região da cidade Lisboa vras de Avelino de Sousa, datadas de 1911
como consumidora e como zona portuária, colo-
cando em relevo o movimento de gentes, elemento V. ex.ª sabe lá o que é o Fado! Quanta propaganda,
fundamental para o transporte das diferentes ma- nos saraus das associações, na rua, na sala, na ta-
térias-primas11. berna, fez o humilde trovador em prol da Republi-
Podemos, assim, perceber de uma outra forma a ca que hoje nos rege! E o povo rude, o povo ope-
afirmação de José da Silva Picão ao falar da depen- rario, quedava-se recolhido a ouvi-lo, entenden-
dência dos lavradores elvenses em relação às má- do talvez melhor esses pobres versos – muitas ve-
quinas para debulha zes sem metrica – do que os mirabolantes discursos
dos oradores de comicios!13
[...] a primeira debulha a vapor efectuada nos cam-
pos de Elvas e vizinhanças, fez-se no ano de 1879, chamando a atenção para um dos aspectos mais
na herdade da Gromicha, por iniciativa do lavrador ignorados da história do fado: o seu gesto propa-
Joaquim Lúcio do Couto. Mas isto foi um ensaio gandístico. No verbete «João Black», Guinot, Car-
passageiro. As debulhadoras só funcionaram eficaz- valho e Osório escrevem
mente aí por 1890, quando o governo as adquiriu e Com Júlio Janota, peregrinou pelo Alentejo defen-
as facultou de aluguer aos lavradores [...]. Mesmo dendo a justiça social, na esteira do famoso cantor
89
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

social Isidoro Pataquinho, de forma porém mais dá-me aonde eu tire a valia
contundente no ataque ao regime monárquico.14 para os socorrer coitadinhos
abre-me fortes caminhos
É da sua autoria o seguinte mote, que depois se aonde eu tire o meu sustento
espalhará autonomamente no cancioneiro popu- dá-me o fruto e o alimento
lar do Alentejo e aumenta a minha féria
que eu vivo na miséria
Se o trabalho ao bem conduz, e tu és rico e opulento
Em que consiste esse bem?
Tudo tem quem não produz Para me deitar a roubar
E quem produz nada tem!15 pões-me o nome de ladrão
para morrer de fome também não
Esta catequética fadista contra a monarquia, fei- e para pedir posso trabalhar
ta por homens engajados política e socialmente, é quero os meus filhos criar
dos momentos mais desconhecidos quer na histó- sem vergonha de ninguém
ria do fado, quer na história da poesia popular me- pois tu rico podes bem
ridional, e cujos efeitos, fora da décima, ainda mal e vale-me pelo Deus verdadeiro
se podem calcular: não sabemos quais as alterações eu sou pobre sem vintém
que o fado provocou nas estrofes em uso nesta re-
gião no período referido. Sou um pobre e mal fadado
Outros, de certeza, cruzaram o sul neste período, que ando neste mundo de enganos
em momentos posteriores. O cantador a atirar João deito mais de mil planos
Patusquinho, José Carlos Rates, fundador de um dos e todos me saem errados
primeiros jornais dedicados ao fado, também circu- quando à noite sou chegado
laram neste sul urbano composto de trabalhadores onde os meus filhinhos estão
assalariados. Mas os alentejanos também cruzaram até corta o coração
o sul levando mercadorias, e concerteza eram con- sem ter que lhes dar de comer
frontados com o fado junto ao mar da Palha, onde mas para os poder socorrer
frequentariam tabernas e casas de pasto, como a do dá-me aonde eu ganhe o pão
famoso cantador Ginguinha no Barreiro. Também
os revolucionários que se espalhavam pelo sul atra- Que tristeza é para um homem
vés do caminho-de-ferro o devem ter usado. quando os filhos chego a avistar
Destas prédicas fadistas ficaram no Alentejo fa- ao pé da mãe a chorar
dos que influenciaram a construção de outros. A todos coitadinhos com fome
obra de Modesto Navarro Poetas populares alente- mas tudo isto consome
janos reúne um número considerável destes textos. o interior à pobre mãe
O poeta Gil Quintas, de Montoito, dirá, por volta miséria há mais de cem
de 1976, a seguinte quadra e anda arrastada como a cobra
e dá-me as migalhas que sobram
Tu és rico opulento para meu sustento também16
e sou pobre sem vintém
dá-me aonde eu ganhe o pão Sobre estas glosas dirá
para meu sustento também
Esta é antiga, já não se sabe quem a fez. Bom, mas
Estou cercado de filhinhos é uma obra dedicada à pobreza, assim a uns estar-
sem ter da noite para o dia mos tão mal e outros tão bem.17
90
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Mas muitos outros textos poderiam servir de exem- ë verdadeira morada


plo. Como é o caso deste resado por João Francis- vou-te fazer uma enxada
co Golaio Beringela a Modesto Navarro, em Cam- para o teu corpo sepultar
po Maior para os teus ossos encerrar
hei-de fazer-te um jazigo
Sendo tu rico e eu artista já sem ter contas contigo
sem mim não podes passar hei-de para ti trabalhar18
enquanto eu tiver vigor
hei-de para ti trabalhar Mas o exemplo mais interessante surge quan-
do este escritor faz referência a Valentim Adolfo
Quando no mundo me achei João
de miséria reduzido
com ela tenho aprendido Quando do atentado contra Salazar, em 1933, Va-
este pouco que hoje sei lentim Adolfo João, na altura presidente do Sin-
sempre para ti trabalhei dicato dos Mineiros de Aljustrel, foi acusado pela
ainda não tive outra vista PVDE (aquela que viria a ser a PIDE) de ter forne-
tu hoje és capitalista cido o dinamite. Sabe-se hoje que os fascistas apro-
mas é com a força do meu braço veitaram esse acontecimento para perseguirem e
e tudo o que precisas te eu faço prenderem muitos democratas.
sendo tu rico e eu artista A partir daí, Valentim Adolfo João andou com um
nome suposto (José Dias) até 1946, data em que
Quando no mundo me viste foi reconhecido em Setúbal. Condenado a 28 anos
logo de mim precisaste de prisão, foi libertado quase no fim da década de
fiz o berço onde te embalaste 1960/70, já completamente destruído. Veio a mor-
e a cama onde dormiste rer por volta de 1971.
fiz-te o fato que vestiste É seu irmão, o sr. Patrício, quem nos diz estas déci-
e as botas para calçar mas em Aljustrel, explicando que, na altura em que
para te ensinar a andar Valentim Adolfo João as fez, organizava o Sindica-
fiz-te um carrinho com rodas to com outros mineiros. Namorava uma moça com
e tenho-te feito tantas modas a sua idade, dezanove anos, e um dia ela queixou-
sem mim não podes passar se da pouca atenção que ele lhe dedicava: – «Passa-
se uma noite, passa-se outra, e tu sem apareceres...»
Fiz-te os prédios para habitares Ao que Valentim Adolfo João respondeu:
fabrico-te o pão para comeres
faço-te os livros para aprenderes Não tenho vagar amor
e as leis para me castigares para te dar atenção
faço-te os barcos para embarcares tenho muito que fazer
sou navegante sou pescador na minha Associação
sou hortelão sou lavrador
fabrico-te o vinho que bebes É meu desejo transformar
e tudo quanto tens me deves esta pobre sociedade
enquanto eu tiver vigor que semeia a iniquidade
para nos escravizar
Já não te faço mais nada temos muito que lutar
vou-te fazer um caixão com força audácia e valor
para te levarem à mão para extinguimos a dor
91
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

a miséria e o sofrimento contramos algumas décimas, quase todas retira-


e por isso neste momento das de folhetos, mas sempre ocupando um lugar
não tenho vagar amor secundário.
Os colectores activos durante o Estado Novo
Se a vida fosse a sorrir pouca importância deram a esta estrofe, embora os
se de encantos fosse o viver poetas populares tenham sido alvo de interesse pa-
e se num breve alvorecer ra alguns deles. António José Pombinho Júnior ou
a luta nos redimir Joaquim Baptista Roque são dois dos casos mais in-
então poder-te-ei garantir teressantes. O primeiro trabalhou Josefa Inácia Pre-
imorredoira afeição go, a Ceguinha de Portel, quando estudou o cante
mas enquanto a escravidão das gralhas, dedicando-lhe, inclusive, esse texto. O
produzir mal e desgosto segundo, utilizou Joaquim da Rosa, cego de Pero-
não posso fugir do posto guarda, como resador(?) de décimas e cantador de
para te dar atenção despique, aquando da visita do júri durante o con-
curso da Aldeia mais Portuguesa, em Setembro de
Olha para todo o mundo 1938.
verás tanta dor tanta desgraça Mas estes são casos algo raros, aos quais pode-
eu amo a beleza, amo a graça mos juntar mais algumas notícias. A norma foi cons-
amo o bem-estar profundo truir-se uma invisibilidade em torno desta estrofe. De-
o capital iracundo ve-se, possivelmente, a Manuel Joaquim Delgado
procura nos perverter a maior colecção de décimas editada no segundo
mas nós havemos de vencer volume de Subsídio para o cancioneiro popular do
apeando os comodistas Baixo Alentejo20.
e amando os idealistas Será preciso esperar por 1976, para que as glo-
tenho muito que fazer sas em décimas surjam como um texto central na
poética meridional. Tal trabalho deve-se a António
Sociedade corrompida Modesto Navarro, que percorrerá nesse ano os três
teus erros são vis e sicários distritos alentejanos, inventariando e ouvindo po-
aleivosos, argentários etas populares durante cerca de três meses, a partir
que nos negam o direito à vida de um convite do CENDREV (Évora).
e eis porque minha querida Será o seu trabalho o motor de um interesse pela
distraio a atenção poesia popular transtagana. A edição deste livro,
e para acabar a escravidão em 1978, irá iniciar um conjunto de actividades li-
eu prego por toda a parte terárias, de mostra de poetas e de poesia popular.
construindo um baluarte O lançamento de concursos pela então Direcção
a minha associação19 Geral de Educação de Adultos ou pelo Centro Cul-
tural Popular Bento de Jesus Caraça, de Vila Viço-
Da presença e assimilação destes fados é que nasce sa, que em 1981 e 1982 fará encontros de poetas,
um topos tão presente na poesia popular meridional dos quais resultam os dois volumes de Há tanta
que é o operário/artista versus burguês/rico. ideia perdida, são exemplo deste momento.
Na década de oitenta, as câmaras municipais
V. vão recolher e editar poetas e poesia popular, as-
Quem compulsar os diferentes cancioneiros po- sim como promover encontros de variada dimen-
pulares do Alentejo, verá que a décima não assu- são. O surgimento do fenómeno da rádio-pirata
me aí grande expressão nos interesses dos colec- será fundamental neste processo de dinamização
tores. Por outro lado, o quarteto é marcante. En- da poesia popular.
92
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Mas no final desta década, este processo institu- José Leite de Vasconcelos, em 1904, chamará a
cional está agonizante. Nos anos noventa, um ou- atenção para o facto de ainda se saberem alguns
tro interesse substitui o dos poetas populares: o pa- dos autores dos textos manuscritos ou editados em
trimónio arqueológico, arquitectónico e artístico. circulação. Durante as décadas seguintes, as glosas
Não obstante, a semente estava deitada e frutificou. surgem sempre associadas a um autor, textos mui-
Os poetas populares iniciaram um processo editorial tas vezes retirados de folhetos impressos.
autónomo, que na década de noventa foi de autên- Navarro, ao editar o seu livro, vai preocupar-
tica explosão. Dezenas e dezenas de livros de poesia se com dois aspectos fundamentais: um peque-
são editados por todo o sul. Com ou sem apoio, vá- no escorço biográfico do poeta (aqui em sentido
rios poetas editam, por vezes com saídas de dois ou lato, englobando poetas e dizedores) e anteceder
de três mil exemplares que vendem em dois ou três cada poema com um pequeno excerto da entre-
anos, para se abalançarem a nova edição. Há, inclusi- vista, para ser perceptível o sentido deste. Algu-
ve, autores que em poucos anos publicam dois ou três mas antologias ainda vão na esteira deste traba-
livros de que são vendedores-distribuidores, viajando lho, destacando-se o livro de Carlos Curto, Um
um pouco por toda a região. Estas edições têm uma poema chamado Grândola, de 1982, mas tam-
solidariedade económica de muitas das tipografias, fa- bém não devemos esquecer o excelente trabalho
zendo os poetas contratos de pagamento, muitas ve- sobre a obra de Francisco Passinhas, de 1988,
zes orais, à medida das vendas. Em alguns casos recu- editado pela Câmara Municipal de Reguengos
peram velhos compromissos do tempo em que edita- de Monsaraz.
vam folhetos. No entanto, estas fórmulas pouco duram. O olhar
Mas não são já só os homens que editam ou ape- de individualização e de contextualização que esta-
nas os poetas populares. Muitas mulheres desco- va a ser construído, não resistiu à alteração políti-
brem-se como poetas e muitos autores são oriundos ca que atravessou o Alentejo nos finais da década
de grupos sócio-profissionais que nunca cultivaram de oitenta. O trabalho de engajamento de esquer-
esta arte popular. De alguma forma, nos anos no- da associado ao Partido Comunista Português mor-
venta, mercê do interesse que recaiu sobre a poesia reu no final desta mesma década. O antigo olhar do
popular, esta popularizou-se, alargando os seus li- anonimato do criador tradicional sobrepôs-se ao
mites, tornando-se espaço de construção de todos indivíduo, com rosto e com biografia reconhecida.
aqueles que de alguma maneira se sentiram identi- A par desta desindividualização textual, estes
ficados com esta forma de criação artística. começam a ocupar o lugar que os quartetos antes
ocupavam, passando as décimas de poesia popu-
VI. lar, escrita, impressa e cantada, para poesia tradi-
Os primeiros olhares que se construíram sobre a cional, alma de um povo, cerne de uma tradição. A
décima como glosa viram-na como um texto não poesia popular (no sentido de tradicional) em dé-
tradicional, antes popular, e ligado ao mundo da cimas e o cante alentejano serão doravante a mar-
escrita e da tipografia. Por estar associada ao fado, ca da cultura popular meridional.
com tudo o que este arrastava de contestação, os Em 1994, Monarca Pinheiro publicará uma an-
colectores, mais interessados no quarteto – olhado tologia de poesia popular do Alandroal. A esmaga-
como a verdadeira alma do lirismo do povo portu- dora maioria dos poetas publicados fazem ou sa-
guês – pouca atenção lhe deram. Será a revolução bem quartetos glosados em décimas. No texto in-
de 1974 que irá focalizar o interesse nesta poesia trodutório Monarca Pinheiro escreverá
e naqueles que a sabiam ou faziam. O escritor An-
tónio Modesto Navarro, que percorrerá o Alente- O concelho de Alandroal é uma das áreas interio-
jo na segunda metade da década de setenta, reco- res de Portugal, um dos últimos redutos europeus
lhendo testemunhos e poesia popular, terá aqui um onde a poesia oral-popular tem cultores em núme-
papel fundamental. ro e em mérito [...].
93
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Com vestígios milenares da presença humana a aproximação a este cantar. A palavra afirma-
(construções megalíticas, povoados castrejos[...]) e se dita e raramente cantada, só em despique ou
com uma paisagem árida, de xistos, azinheiras e es- em desgarrada, esta última sempre sustentada
tevas, bordejada pela frescura do Guadiana, esta pelo corrido.
terra guardou no seu seio durante tempos infindos Em 25 anos a décima ocupou o lugar do quarte-
o segredo da poesia oral-popular. to e o fado, aparentemente, morreu. Os estudiosos
As raízes desta tradição afundam-se na memória cortaram a ligação que havia entre as experimenta-
colectiva dos ditos e cantares poéticos, talvez desde ções e o uso operário, domesticaram o movimento e
os cantares guerreiros dos povos autóctones até aos a subversão deste com a localidade e o lamento.
cânticos sagrados dedicados aos deus luso-romano Mas se a realidade bibliográfica é esta, a reali-
Endovélico que teve [...] santuário no alto do outei- dade vivencial é outra. O fado continua vivo e in-
ro de S. Miguel da Mota, perto de Terena.21 delevelmente mantém-se viva a presença da cida-
de operária. O fado e os fadistas no município de
Nem uma referência ao fado, expressão úni- Santiago do Cacém, desde o poeta Manuel José
ca de as cantar, o que é reconhecido por estes Santinhos aos fadistas Fernando Espada e Albano
poetas, ou fadistas. Nem a alusão à guitarra do Miguel, passando pelos guitarristas António Chai-
tocador Sebastião Grilo22 ou a inclusão daqui- nho e António Parreira, são a prova viva desta pro-
lo que poderemos classificar como cegada23 faz funda, frutuosa e contínua ligação.

NOTES

1 Picão 1947: 19 11 Luis Chaves, em 1939, chama a aten- 327.


2 Envia 1947: 19-20. ção para o facto de ser o cancionei- 15 Sucena 2002: 73.
3 Vasconcelos 1902: ro da província alentejana o que tem 16 Navarro s/d: 55.
4 Vasconcelos 1903-1904. maior representatividade da conste- 17 Navarro s/d: 55.
5 Vasconcelos 1903-1904. lação Lisboa no seu corpus, Chaves 18 Navarro s/d: 141-142.
6 Pimentel 1904: 21. 1961: 83-128. 19 Navarro s/d: 173-174.
7 Ferreira 2002: 96-97. 12 Picão 1947: 350, ver também pági- 20 Delgado 1955: 98-122, 126-127.
8 Ferreira 2002: 96-97. nas 225-229. 21 Pinheiro 1993: 8-9.
9 Ferreira 2002: 96. 13 Sousa 1912: 8. 22 Pinheiro 1993: 167.
10 Fonseca 1996: 167. 14 Guinot & Carvalho & Osório 1999: 23 Pinheiro 1993: 201-205.
94
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

A DÉCIMA NO ALENTEJO DO SÉCULO XX1 ção de textos e comentários sobre poesia no renas-
cimento e maneirismo espanhol se trata de uma
I. fonte inesgotável para a compreensão da nossa po-

A
O contrário do que se afirma, a poesia popu- esia popular3. A provar esta afirmação, Juan d’El
lar não é isenta de uma teoria, que importa le- Encina [n. 1469 – m. 1529] e o seu El arte de poesía cas-
vantar2. Para tal, temos que retomar alguns tellana, texto datado de 1496, que é uma das ba-
aspectos já referidos. ses para se compreender as técnicas e as denomi-
A décima resulta de uma experimentação e de nações de uso popular no Alentejo.
uma renovação da poesia espanhola, num período Isto mesmo nos diz, de forma sintética, um dos
a que se deu o nome de Siglo de Oro, que ocor- grandes estudiosos da nossa literatura, Georges Le
reu entre finais do século xv e meados do século Gentil [n. 1875 – m. 1953].
xvii, em oposição a toda a corrente latinista e ita-
liana que os novos modelos culturais renascentis- L’influence de l’Espagne, au XVIIe siècle, est indénia-
tas tinham espalhado na Península Ibérica. Este Si- ble. On peut se demander si elle ne modifie pas
glo de Oro da poesia, teatro e literatura espanhola jusqu’aux manières de penser ou de sentir. Certes
foi produto de uma expansão territorial e económi- le fait n’est pas nouveau. On le constatait déjà
ca de um império que se estendia da Polónia às Fili- au temps du Cancioneiro de Resende. Les poètes
pinas. Portugal esteve durante pouco mais de meio ont continué, sauf de très rares exceptions, à
século sob domínio da Coroa castelhana, domínio employer concurremment les deux langues.[...]
político bem como de gostos e de práticas cultu- Par les migrations saisonnières de travailleurs, les
rais, não sendo assim difícil de entender a introdu- romances ont passé les frontières. Maintenant le
ção e o uso da décima em Portugal. Essa introdu- peuple lui-même est contaminé.
ção, em muito, é devedora da imprensa espanhola,
que através dos pliegos sueltos espalhou modelos e Falta um trabalho que estude as formas de cons-
textos por toda a Europa dos séculos xvi e xvii. trução da poesia popular, à semelhança de estudos
Foram séculos de forte circulação de ideias entre que existem no Brasil sobre a poética nordestina4. A
as camadas literatas e ligadas à Corte e as cama- quase inexistência de trabalhos deste género pren-
das populares. Necessário se torna referir que é du- de-se, inevitavelmente, a dois motivos: pensar que
rante estes séculos que se dá a explosão do uso da quem faz este tipo de texto, fá-lo espontaneamente
imprensa, embora os cadernos manuscritos conti- e de improviso; olhar para quem produz textos ex-
nuem a circular, cheios de poesia. Conhecem-se pe- tensos, como é o caso da décima, como possuindo
didos de cortesãos e poetas castelhanos que solici- quebras de raciocínio, já que incapaz de se expandir
tavam a poetas portugueses poesia de seu punho, em largas tiradas poéticas. Olham-se, pois, as déci-
no sentido literal da expressão, e vice-versa, para mas como algo anómalo dentro do “espírito criati-
juntar às suas colecções. vo do povo”, já que a pretensa tradição poética em
Assim, não é de estranhar que a visita à produ- Portugal assentaria na lírica mínima [ABCB ou ABAB]5.
95
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

A décima é o texto versificado mais populariza- g) no litoral alentejano, os quartetos que glosam
do no sul de Portugal e é também aquele a que se um quarteto são denominados quadras curtas;
dá mais valor. Surge-nos, regularmente, em con- h) em muitos locais a designação décima é desco-
juntos de quatro, desenvolvendo um mote de qua- nhecida e em seu lugar utiliza-se quadra; a palavra
tro versos, um quarteto. Este grupo de cinco com- décima ainda é tão recente que muitas vezes se diz
posições recebe em muitos locais a designação de uma quadra de décimas;
quadra. Quem tem vindo a interessar-se por este i) quando as décimas desenvolvem o fundamento
tipo de textos versificados, assume que a designa- dado pelo mote, diz-se que quadram com o mote.
ção de quadra vem de o mote ser uma quadra ou
de as décimas serem em número de quatro. O que significa então quadra?6 Designa a pró-
A explicação para quadra como proveniente do pria décima, pois esta quadra, enquadra-se, com o
número quatro, não nos parece convincente, pois mote e com o fundamento. Não existe no sul, co-
apenas designaria o mote que, glosado, daria o no- mo fizemos notar, a relação entre quarteto e qua-
me a toda a composição, além de que a designação tro versos, excepto numa questão formal de cons-
de quadra como equivalente a quarteto era prati- trução aquando da necessidade de rima entre o
camente desconhecida no sul até à década de seten- primeiro e o quarto verso e entre o sétimo e o dé-
ta do século passado. A aplicação performativa do cimo verso. Para além disso, designando a décima
quarteto denominava-se por verso, letra (também por quadra, os poetas afastam-se de uma estrutu-
letrinha) ou cantiga. ra apenas formal e aproximam-se do entendimen-
O que vamos aqui defender é o produto de um to do conteúdo. A décima/quadra é assim a exten-
trabalho sobre aquilo que designámos, provisoria- são e a mostra do entendimento do fundamento
mente, como Poética do popular. Muitos dos ter- que muitas vezes o mote não mostra – um mote
mos e expressões com uso na construção da ver- dado tem que ser acompanhado por uma explica-
sificação são de uma extraordinária fragilidade. ção. Vemos assim que, para lá da forma, o que in-
Uma expressão num contexto pode ser totalmente teressa é o que se quer dizer, ou seja, o conteúdo
diferente num outro. O termo quadra é um exem- discursivo.
plo maior da dificuldade de apreender o sentido de
uma designação. Vejamos II.
Mas como se constrói uma quadra?
a) quando, na décima, o primeiro verso rima com o Primeiro, o autor, o artista, o quadrista ou o dé-
quarto verso diz-se que quadra ou os pontos quadram, cimador, tem que ter um fundamento, um porquê,
assim como quando o sétimo verso rima com o décimo; uma razão, que pode ter por base uma estória do
b) quando na décima todos os versos – o verso é quotidiano, irónica ou não, o querer fazer uso de
chamado ponto, palavra ou linha – têm uma rima um mote alheio, fixar um acontecimento, um dra-
perfeita, diz-se que os pontos quadram, logo tem- ma, uma notícia de jornal...
se uma boa quadra ou uma boa obra; Tendo-se o fundamento, faz-se o mote. Este po-
c) se o quarteto que serve de mote tem uma rima de ser de quatro pontos ou de um só ponto. O
perfeita [ABAB/ABBA] diz-se que o mote é quadrado; mote de quatro pontos é aquele onde todos os
d) existem conjuntos de quatro, oito ou doze déci- versos são diferentes; o de um só ponto é aque-
mas, multiplicações do número quatro, que rece- le que repete um só verso quatro vezes. Este úl-
bem a designação de um rol de quadras; timo não é muito apreciado, já que, obrigando
e) existem, também, décimas sem recurso a mote a pontos simples, como o ponto do ar (palavras
que fazem uso do leixa-pren, chamam-se décimas cuja última sílaba seja em ...ar, como andar, tra-
ou quadras silvadas. balhar...) ou o ponto do chão (palavras cuja últi-
f) muitos folhetos com quatro décimas que glosam um ma sílaba seja em ...ão, como carvão, pão...), pro-
mote têm a indicação de «Umas Lindas Quadras»; voca na décima uma monotonia sonora. O mo-
96
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

te divide-se em dois dísticos, sendo o segundo o rima forçada, como aquela que há entre as pala-
mais importante. vras mãe e também. Quando não existe rima, a
Ponto é entendido como designando o verso, quadra é furada.
embora por vezes também surja palavra ou linha Na décima, os pontos mais importantes são os
– uma quadra tem quarenta (ou quarenta e qua- quatro primeiros e os dois últimos. No primeiro
tro se se contar com os quatro do mote) pontos grupo de versos tem que se procurar encaminhar
ou quarenta palavras. Até às primeiras décadas o «sentido da conversa» para o último ponto. No
do século xx, a designação ponto diferenciava- segundo grupo de versos, o mais importante na dé-
se de palavra. Palavra designaria o verso e pon- cima, e onde está o ponto do mote, procura-se o
to a última sílaba desse verso. Hoje, ponto tan- atenuante, ou seja, a inexistência de quebra frási-
to designa o verso como a última sílaba. O ter- ca e de sentido entre a primeira parte da décima e
mo linha não parece ser muito usual e provavel- os últimos versos. Isto é muito importante na dé-
mente tem origem na observação do número de cima; torna-se necessário que esta gire sempre em
linhas que a quadra possui, quando impressa ou torno de um mesmo discurso e que nunca se afas-
manuscrita. te por obrigação de rima. Muitas vezes o quadris-
Após a construção do mote, começam-se a fazer ta desmancha o seu texto porque não possui mais
as décimas, em número de quatro. Pode haver uma palavras do fundo sinonímico e de conteúdo a que
quinta estrofe, uma décima, uma oitava, uma sex- possa “jogar mão”, pois não se deve repetir uma
tilha, uma quintilha ou um quarteto que recebe o palavra usada na rima. O atenuante é a utiliza-
nome de remate ou cantigo, a finda literária. ção prática, num determinado momento da ver-
Para ser bem feita e memorizada, a quadra nun- sificação (o nono e o décimo verso) de um outro
ca é de improviso, pois raramente sai perfeita termo complexo que é o consoante7, ir ao..., que
quando assim construída, e esta forma não per- mais não é que enquadrar todos os quarenta ver-
mite a sua memorização. A quadra tanto pode ser sos no tema proposto que o mote deixa em aber-
feita numa noite ou num dia, como levar uma se- to. Assim, a existência de consoante no texto ver-
mana ou um mês. Cada décima tem que terminar sificado é o perfeito equilíbrio entre um atenuante
com um dos pontos do mote – o último verso da frásico e de sentido ao nível da décima e a perfeita
décima denomina-se como o ponto do mote. A pri- relação desta no interior da quadra, aqui entendi-
meira décima fecha com o primeiro ponto do mo- da no seu conjunto.
te, a segunda décima com o segundo e assim suces- A fórmula de versificação e o seu ensino de-
sivamente até à última estrofe. Estas tanto podem monstram um claro entendimento desta por par-
ser feitas continuamente, do primeiro verso até ao te do poeta popular. Se existe um conhecimen-
último, como podem ser feitas do décimo verso, to teórico, também existe um método de ensi-
ponto do mote, para o primeiro verso. no. Este método encontra-se nas mãos. Com as
A rima da décima é explicada da seguinte for- mãos demonstra-se como versam os pontos. Es-
ma: o primeiro ponto quadra com quarto pon- tendendo os dedos da mão esquerda, com a pal-
to e quinta com o quinto; o segundo ponto ver- ma para cima, a mão direita agarra o mínimo, o
sa com o terceiro; o sexto ponto versa com o sé- anelar e o polegar, deixando livres os outros dois
timo e quinta com o ponto do mote; o oitavo dedos, indicador e médio; esses dois grupos de
ponto versa com o nono ponto. Os versos sexto pontos/dedos são os que têm que versar com os
e sétimo recebem a designação de os pontos que mesmos pontos; cinco pontos da décima estão
puxam o ponto do mote. explicados, os outros cinco são iguais, só que ao
Todos os versos da quadra têm que ser versan- contrário, agora com a palma da mão esquerda
tes, não podendo haver toantes. Significa que tem para baixo. Ou seja, na fórmula o verso A é o
que existir uma rima perfeita e concordante entre polegar e o A’ e A’’ são o anelar e o mínimo, o B
os versos. Considera-se toante quando existe uma e B’ são os outros dois dedos, etc.
97
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Palma da mão esquerda para cima Não é nosso objectivo discutir ou apresentar um
A – polegar da mão esquerda; esquema tipológico alternativo. Com base na poé-
B – indicador da mão esquerda; tica inventariada no sul, pretende-se apenas dar a
B’ – médio da mão esquerda; conhecer os diferentes tipos de quadras e como es-
A’ – anelar da mão esquerda; tas são divididas localmente.
A’’ – mínimo da mão esquerda. As décimas, numa tipologia de formas, podem
surgir das seguintes maneiras
Palma da mão esquerda para baixo
C – mínimo da mão esquerda; a) quadras ou décimas soltas, uma só décima de-
C’ – anelar da mão esquerda; senvolve um mote de um só verso;
D – médio da mão esquerda; b) quadras ou décimas silvadas, décimas em con-
D’ – indicador da mão esquerda; juntos de número indeterminado recorrendo à téc-
C’’ – polegar da mão esquerda. nica do leixa-pren;
c) rol de quadras, décimas sem mote em conjuntos
Mas este método não existe à superfície, é ne- de quatro ou em múltiplos deste número;
cessário ser recortado dos diálogos com os poetas, d) quadras com mote de quatro pontos, quatro dé-
pois só existe a posteriori. Tal levantamento per- cimas desenvolvem um quarteto [ABCB];
mite percepcionar as suas prováveis origens. e) quadras com mote quadrado, quatro décimas
A primeira origem será uma arte de versificar ga- desenvolvem uma quarteto de rima perfeita [ABAB
laico-portuguesa8, em pouco número e patente nos ou ABBA];
termos palavra, como sinónimo de verso, e dobra, f) quadras com mote de um só ponto, quatro décimas
que mais não é que o «dobre» medieval9. desenvolvem um quarteto cujos versos são iguais [AAAA].
A segunda origem será o Siglo de Oro. Termos
como verso, sinónimo de quarteto, ou pé, desig- Quanto ao fundamento, numa tipologia temáti-
nando verso, mostram-nos esta aproximação, que ca, as quadras dividem-se em
El arte de poesía castellana deixa a descoberto na
seguinte explicação a) quadras de fundamento, quando dedicadas ao
sol, à lua, às estrelas, a Deus, à Virgem...;
Toda la fuerza de trobar está en saber hazer y conocer b) quadras ao profano, quando dedicadas às coisas
los pies, porque dellos se hazen las coplas y por ellos da vida, ao trabalhador e ao patrão, à miséria...;
se miden, y pues asi es sepamos qué cosa es pie. Pie c) quadras à campa, quando dedicadas à morte11;
no es otra cosa en el trobar sino un ayuntamiento de d) quadras ao namoro, quando dedicadas às rapa-
cierto número de sílabas: y llamase pie porque por élo rigas e ao casamento; dentro deste fundamento po-
se mide todo lo que trobamos, y sobre los tales pies demos incluir as quadras de algibeira, composições
corre y roda el sonido de la copla. [...] escatológicas, que recebem esta designação devido
[...] los latinos llaman verso á lo que nosotros à proibição de venda de folhetos com este tipo de
llamamos pie: y nosotros podemos llamar verso textos, levando o vendedor a escondê-las nas algi-
a donde quiera que ay ayuntamiento de pies que beiras.
comunmente llamamos coplas, que quiere decir [Existe um outro tipo de texto em décimas, as
cópula ó ayuntamiento.10 chamadas quadras de 120 pontos, nas quais cada
verso nomeia geralmente três objectos, três no-
A terceira origem será a cidade de Lisboa, como mes masculinos ou femininos.... São uma possí-
centro impressor, e o fado. Estilo, música, e ter vel transformação dos antigos abecedários, que
obra, muitos textos para cantar ou dizer, são al- no Nordeste brasileiro são conhecidos por ab-
guns dos exemplos dessa influência. cês12.]13
III. IV.
98
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

É vulgar afirmar-se que o poeta popular é uma for- Já se escutava da manada a choca
ça da natureza e a sua arte espontânea, o que signi- Ao longe da campina: da outra banda
fica a existência de um inatismo no ser-se poeta, tra- Alli punha a serrana a lã na roca,
duzindo-se tal afirmação na expressão «é uma coisa Aqui pastava a cabra a relva branda;
com que se nasce». Um guardador além a flauta toca,
Muito do que se escreve sobre os poetas popula- Quando a beber o gado á fonte manda:
res encosta-se à ideia do bom selvagem, que começa Ouvia-se alternada em seus amores
a ser construída a partir do século xvi, reforçando- A sincera cantiga dos pastores.17
se a partir dos séculos xviii e xix (fruto do confron-
to com o outro, aquele que está para além do espa- O uso de mapas genealógicos produzidos durante o
ço europeu)14. trabalho de campo e o estudo feito dos percursos bio-
Este facto coincide, nos séculos xvi e xvii, com a se- gráficos de alguns poetas – juntando-se, ainda, a reco-
paração definitiva de gostos culturais entre os grupos lha de informação obtida que visava saber a posição
sócio-económicos europeus e com a construção so- ocupada por estes na estrutura complexa, hierárqui-
cial daquilo que denominamos como cultura popu- ca, social, laboral e económica – em vez de reforçar
lar15. Se se juntar a este esforço de análise compara- tais ideias, veio, pelo contrário, torná-las pouco con-
tiva uma outra que entronque entre esta noção, a do sistentes.
bom selvagem, e a ideia de tradição greco-romano Importa salientar que, maioritariamente, todos
renascentista, recuperada nos séculos xvi a xix, que estes poetas são assalariados ou pequenos proprie-
a chamada poesia popular surge em meios campone- tários. O seu acesso à terra ou se faz enquanto mão-
ses, logo pastoris, teremos o quadro mental que gerou de-obra, especializada ou não, ou (ainda há alguns
muitos dos olhares que moldam as formas correntes anos) como seareiros e pequenos rendeiros, permi-
de pensar a poesia dita tradicional, arcaica, oral-po- tindo, pois, demarcar este grupo. Fora deste não
pular ou ancestral. Isto mesmo nos diz Margit Frenk existe o gosto por este tipo de texto versificado,
nem o gosto de participar na sua performance18.
[...] uno de los aspectos claves de la ideologia
renacentista es la idealización del hombre primitivo, V.
al que se creía cercano aún a Dios, libre de los vicios Ao nível profissional, já se referiu, devemos sa-
que la civilización en la humanidad. De ahí nacen a lientar a quase ausência de pastores. No percurso
la vez mitos como el de la “Edad de Oro” o el del da inserção laboral, mais ou menos idêntico pa-
“Buen salvaje” y el aprecio por los brotes del ingenio ra todos os assalariados do sul – e veremos co-
y la fantasia del vulgo (refranes, cantares, juegos mo este percurso é de extrema importância para
infantiles). Toda Europa pasa entonces por esa misma o entendimento do valor que estes textos versifi-
experiencia vital. Parece, sin embargo, que en España cados desempenhavam na sociabilidade e na inte-
ella se produjo de manera más honda y prolongada gração social dos poetas populares –, um dos pri-
que en los demás países. Toda la literatura hispánica meiros trabalhos que a criança do sexo masculi-
de la gran época, desde la Celestina hasta Caldéron, no desempenhava era a de ajuda de gado; é, assim,
está atravesada por una veta popularizante, sin la normal que a uma pergunta directa sobre que tra-
cual no sería lo que es.16 balhos desempenhou, o trabalho de pastoreio se-
ja referido.
Foram assim os camponeses e os pastores pen- Vejamos, genericamente, o percurso laboral.
sados como poetas, pois estes são, em muito, o ar- Até cerca dos sete ou oito anos, as crianças brin-
quétipo perfeito da relação entre o poeta bucólico cavam ou frequentavam, se possível, a escola. A
e o bom selvagem. Veja-se esta oitava de João Xa- frequência variava conforme o sexo. Um rapaz po-
vier de Mattos [n. ? – m. 1789] deria ir até à antiga 4.ª classe, a rapariga raras ve-
zes a terminaria, sendo normal a frequência só até
99
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

à 3.ª. A instrução escolar feminina era, portanto, um vizinho; alteração social ou política, como, por
pouco valorizada. exemplo, o 25 de Abril de 1974. Podemos tam-
Isto não significava uma total disponibilidade bém incluir neste subgrupo aqueles que, embora
para este universo de aprendizagem, muito pelo pertencendo ao subgrupo dos que iniciando a sua
contrário. Este fazia-se parcialmente, complemen- aprendizagem de textos versificados21 antes dos 22
tando pequenas tarefas de pouca exigência técni- anos, nunca produziram texto algum e que, devido
ca. Os rapazes ajudavam em trabalhos não espe- a razões acima mencionadas, construíram um ou
cializados: ajuda de gado, quase sempre, ou agua- mais textos. Quando questionados sobre a razão
deiros. As raparigas ajudavam em casa, tornando- que os levou a fazer uma quadra ou uns versos, a
se particularmente importantes quando existiam resposta dada é, invariavelmente, a necessidade de
crianças de menor idade. Entre os sete e os do- uma recordação.
ze anos desenhava-se toda a repartição sexual do Todos aqueles que começaram a produzir ou a
trabalho. decorar textos versificados antes dos 22 anos, po-
Entre os 14/15 e os 17 anos, os jovens do se- dem dividir-se em três patamares etários
xo masculino iniciavam a aprendizagem dos tra-
balhos agrícolas. Até serem considerados traba- I. aqueles que começaram entre os 6/7 anos e os
lhadores e poderem ter um salário igual aos mais 11/12 anos, quando eram ajudas de gado. O fazer
velhos, o ganho era à mulher. A passagem de um ou o aprender quadras está quase sempre ligado a
grupo para outro era feita após a aprendizagem uma aprendizagem da leitura e da escrita, cujo en-
de um trabalho do campo – a limpeza de árvores sino é feito pelo moiral que ajudam e que muitas
ou o tirar da cortiça – para o qual arranjavam um vezes também é poeta. Quase sempre este moiral é
padrinho, muitas vezes um tio, que os passava de um familiar; no Baixo Alentejo predomina o lado
ruça a trabalhador. paterno, no Alto Alentejo não encontrámos uma
Cerca dos 20 anos, os jovens iam tirar as sor- clara definição, mas os elementos recolhidos pare-
tes (apresentação na inspecção militar), e, se não cem indiciar que será o lado materno que apoia o
tivessem nenhum problema, cumpriam o serviço jovem na primeira fase do seu ciclo laboral;
militar. Posteriormente, casavam-se ou juntavam- II. na sua grande maioria começam o seu percurso
se, a situação mais frequente (ela quase sempre um de produção ou aprendizagem poética entre os 14
pouco mais nova); quando acontecia o juntamen- e os 17 anos. A razão que nos é dada prende-se ao
to era na casa dos pais da jovem que residiam, até namoro, a poder frequentar as vendas, porque al-
fundar um novo fogo19. guém na família fazia, a tentativas de experimen-
Resumindo, temos três divisões no ciclo laboral tação ou porque viram alguém nos trabalhos do
e biográfico: um primeiro que vai dos sete aos 12 campo a fazer quadras;
anos; um segundo que vai dos 14 aos 17; e um ter- III. existe, por fim, um grupo que se inicia no universo
ceiro que se dá por volta dos 20 anos20. poético por volta dos 20 anos, quando cumpre o ser-
Os poetas que entrevistámos, em cerca de seten- viço militar. Os locais ou momentos de maior influên-
ta locais do Alentejo e Algarve, iniciaram a feitu- cia foram: o prestar serviço militar no forte de Elvas,
ra de poemas ou a sua aprendizagem antes dos 22 a ida para os Açores durante a II Guerra Mundial e
anos ou num momento posterior não generalizá- a presença na Guerra Colonial. Os textos ligados ao
vel a todo este subgrupo. forte de Elvas falam de sofrimento e de desumanida-
O subgrupo dos que iniciaram a sua produção de e os textos ligados quer aos Açores, quer à Guerra
poética depois dos 22 anos, compreende apenas Colonial, falam de saudade e de lonjura22.
uma pequena minoria dos entrevistados. A razão
dada para o início da sua produção liga-se a fac- É visível a relação que existe entre o ciclo la-
tores de ordem biográfica: doença, sua, de fami- boral masculino e o momento que marca o início
liar ou de um vizinho; morte, de um familiar ou de da aprendizagem ou feitura dos primeiros versos.
100
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Muitos dos futuros poetas utilizam ou recorrem à provisador e vendedor de folhetos, natural de Santa
quadra de forma bastante notória para uma rápi- Bárbara de Padrões, Almodôvar, residente entre o Al-
da socialização e integração nas redes sócio-labo- garve e Corte Vicente Anes, Aljustrel, o mapa gene-
rais. Assim, o ano em que se começa a trabalhar, alógico mostra um percurso idêntico: filho segundo
as primeiras frequências nas vendas, os pedidos que herda de um tio, irmão do pai, o fazer poesia.
de namoro, o marcar na memória a passagem pe- Para o Alto Alentejo interior, a alteração faz-se,
lo serviço militar, são os momentos importantes em muitos dos casos analisados, ao contrário. Não
que estão intimamente ligados aos primeiros pas- existe uma referência ao lado paterno, mas sim
sos deste universo. ao lado materno. Em ambos os casos, os parentes
A construção de mapas genealógicos dos poetas nomeados são, na sua maioria, um avô ou tio se-
populares permitiu levantar algumas hipóteses. gundo. Em algumas biografias, este tio segundo foi
Durante as conversas que mantivemos, foi cor- muito importante no ciclo laboral do poeta.
rente afirmarem que a poesia nasce com as pessoas. No Alto Alentejo interior nomeiam-se, maiorita-
Quando lhes perguntávamos se não tinham algum riamente, os parentes maternos; no Baixo Alentejo,
parente que fizesse quadras ou cantasse de impro- Alentejo Litoral e Algarve nomeiam-se, sobretudo,
viso, havia quase sempre uma alteração no discur- os parentes paternos.
so. Os nomes surgiam e fazia-se referência a algo O levantamento da posição que o poeta ocupa
que era explicado como as linhas que puxavam a na hierarquia económica e social, permite construir
geração. Foram estas informações que nos leva- uma divisão entre estes: ou ocupam um espaço de re-
ram à aplicação do método biográfico, acedendo levo social ao nível local (mestres de ofício, seareiros,
a dois campos de informação: que lugar ocupa o feitores...), ou o espaço de menor valoração social ao
poeta no seu grupo familiar e que lugar ocupam, nível local (o bêbado, o aleijado, o trabalhador de
em relação a este, os parentes que também fazem, pouca valia económica…). É deste último grupo que
ou faziam, textos versificados. têm origem os que vendem folhetos e cantam por fei-
A maior parte dos poetas nunca são primeiros fi- ras e mercados, muitas vezes ligados a redes de pros-
lhos e geralmente não herdam, no caso de existir, tituição de barraca, de tiro ou às putas de manta.
a profissão do pai. Álvaro Pedro (filho de Manuel A produção de textos versificados possui, entre es-
Pedro, quadrista e improvisador famoso), um dos tes dois grupos, grandes diferenças ao nível do con-
maiores poetas e vendedores de folhetos do Bai- teúdo, permitindo-nos aceder a uma posição ideoló-
xo Alentejo, natural de Gomes Aires, Almodôvar gica que os seus produtores ocupam. Existia, antes
– hoje acoitado junto à vila de Ourique –, não che- de 1974, uma menor crítica nos que ocupavam uma
gou a aprender o ofício do pai, que era albardeiro. hierarquia mais elevada, e uma maior crítica naque-
Por morte de Manuel Pedro, o ofício foi herdado les que ocupavam os lugares mais baixos dessa mes-
pelo seu filho mais velho, que se recusou a ensinar ma hierarquia, além de que estes últimos pareciam
a este a arte. Este irmão mais velho nunca produ- estar muito melhor informados das condições sociais
ziu um único verso (existe mais uma irmã que ape- e laborais que o país atravessava antes da data referi-
nas foi referida como tendo casado). Este exemplo, da. Muitos dos poetas populares que vendiam folhe-
a que outros se podem juntar, possibilita a percep- tos mantiveram, antes da Revolução, algumas liga-
ção de um certo controlo por parte do grupo fami- ções com a clandestinidade do PCP, o que os levou,
liar de quem acede a certas partes do património nos anos que se seguiram a Abril de 1974, a ocupar
disponível. Os mais velhos herdam as técnicas do lugares políticos de relevo ao nível local. Veja-se os
ofício; os mais novos, herdam outras possibilida- casos de António Maria Coelho, de Corte Vicente
des de subsistência, como, por exemplo, cantar e Anes (Aljustrel), Francisco Bentes, de Pedrógão (Vi-
vender folhetos por feiras e mercados23. digueira), que embora encarregado de minas sempre
Em casos de inexistência de especialidades laborais, frequentou feiras e mercados, ou Francisco Melri-
como é o caso de António Maria Coelho, poeta, im- nho, do Alandroal24.
101
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

NOTAS

1 Todo este capítulo é retirado, com ligei- 11 Para uma breve discussão deste funda- ses. Para o contexto do sul de Portu-
ras alterações, de Lima 1996. mento ver Lima, 1994: 693-694. gal ver Cutileiro 1977: 57-117 e Bar-
2 Manuel Viegas Guerreiro afirmava em 12 Para uma análise e estudo dos A. B. C. ros 1986: 191-283.
1992: «Está, porém, por fazer um es- ver Cascudo 1984: 82-94. Não se abordará aqui o percurso biográ-
tudo aprofundado da poética popu- 13 Os recursos estilísticos não são aqui fico e o ciclo laboral-feminino, pois
lar: variedade de ritmos, complexi- estudados. Embora nas suas denomi- não é relevante na análise aqui desen-
dade de rimas, estrutura das estrofes, nações locais exista matéria para pro- volvida. Todo este texto se move no
peculiaridades de estilo e sintaxe, com fundas reflexões, inclusive ao nível das interior do masculino na poesia. De-
repetições que se ordenam ora parale- dissonâncias, como é o caso das qua- ve-se acentuar que todo um trabalho
listicamente, ora em certos lugares e dras de vir’ó-verso. nesta área está por fazer: estudando a
com alternâncias por conhecer. Vol- 14 Frenk 1987: v-xxvi. sua relação com o universo masculino
ta-se ao princípio, repete-se o que está 15 Burke 1989. da poesia e procurando saber como se
no meio, segundo determinadas prá- 16 Frenk 1994: 16. posiciona a mulher num espaço que
ticas de comunicação. Uma arte de 17 Vasconcelos 1891-1896: 22. aparentemente não lhe é aberto nem
compor, em suma, cujas leis se igno- 18 Esta observação não contempla aque- favorável, considerando-se social-
ram.» Guerreiro 1997: 141. O itáli- les que, regional e localmente, se inte- mente muito negativa a participação
co é nosso. ressaram pelas recolhas do cancioneiro de mulheres nestas unidades perfor-
3 Para uma excelente análise deste período dito tradicional e pelas chamadas tradi- mativas. A mulher, quando nos surge,
ver Mayo s. d.: 19-82. ções do povo, já que os eruditos locais ou está relacionada com a prostituição
4 Batista 1982. posicionam-se como observadores/ de feira, ou possuía problemas físicos,
5 Escreve Zaluar Nunes: «Numerosas dé- estudiosos, construindo uma relação ou transportava algo que socialmen-
cimas, por vezes glosas a motes podem vertical entre o informante e o inquiri- te a inferiorizava em relação ao que a
ser curiosas por denotarem certa influ- dor. Também aqui não se contemplam mulher deveria ser na “norma” moral
ência da poesia culta. Mas mostram a os padres, professores ou proprietá- (embora seja uma “norma” conceptu-
marcada dificuldade da musa popular rios, que localmente dinamizaram e al, logo manipulável).
se espraiar em longas tiradas orató- apoiaram grupos, quer femininos, 21 Este subgrupo é geralmente denomi-
rias: há frequentes quebras de sequên- quer masculinos, de folclore, em muito nado nas bibliografias por ‘dizedo-
cia do raciocínio e evidentes emba- baseados no «Concurso da Aldeia res’ e localmente por homens que
raços de expressão. Estão bem longe mais Portuguesa», ou alicerçados só sabem obra alheia; embora sejam
da transparência cristalina e aliciante em disputas locais de obtenção de (re)utilizadores de textos pré-existen-
simplicidade verificáveis na maioria status ou sob a influência estética de tes, isto não significa que não façam
das outras cantigas, singelas e espon- promoção cultural das províncias pelo alterações nos versos, que julguem
tâneas.», Nunes 1975: XXXVIII. Estado Novo. não estarem bons, das composições
6 Embora não saibamos quando se come- 19 Para uma informação mais detalhada versificadas que decoram.
ça a denominar assim. da escolha de um novo fogo na socie- 22 Sobre uma «certa» amnésia social em
7 No Cancioneiro de Resende consoan- dade camponesa alentejana na vira- relação a referências à violência du-
te denomina a resposta que um ou- gem do século ver a descrição apre- rante a Guerra Colonial ver Conner-
tro, ou um ‘outro’ transfigurado, o sentada em Picão 1947: 125-190. ton 1993: 16-26.
próprio poeta, dá a uma composição, 20 Para uma análise mais detalhada da so- 23 Em pequenos povoados a pulverização
utilizando o mesmo sistema de versifi- ciedade camponesa, na primeira me- de mestres de ofício provocaria um ex-
cação e a mesma rima. tade deste século, do sul da Penínsu- cesso de oferta em relação à procura
8 Gonçalves & Ramos 1985: 64-70. la Ibérica ver Mintz 1982: 33-61, em- existente.
9
Uma estranha sobrevivência! bora sobre um caso andaluz, pode ser 24 Navarro s. d.: 71-76, 151-170, 173-
10 Batista 1982: 3. utilizada noutros contextos campone- 212.
102
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

ANTÓNIO ALEIXO, MANUEL DE CASTRO, una casualidad el hecho de que el «descubrimiento» de


JOSEFA INÁCIA PREGO E JAIME VELEZ, los textos de la Edad Media por eruditos románticos
POETAS OU FADISTAS? coincidiera con el que ellos mismos hicieron de las
«poesias populares» de su tiempo. De hay la cándida
I. aplicación, por los medievalistas del siglo XIX, a este

P
OR volta de 1900, a décima cobre todo o sul. antiguo conjunto, de una clasificación en elementos
Nas décadas seguintes, virá a ser visível um ou- «sábios» o «eruditos», y hasta «cortesanos». Es
tro fenómeno, que hoje ligamos imediatamen- cierto que todavía al principio de nuestro siglo varios
te a esta estrofe e às diferentes formas de cantar nes- rasgos de nuestras «culturas populares» procedían
ta região: os cantadores ambulantes e os vendedores formalmente de tradiciones medievales: el hecho
de objectos impressos. esta demostrado por muchos cuentos y canciones
Poderá parecer estranho não termos feito até campesinas, tanto en Europa como en América. Pero
agora qualquer alusão a este grupo, embora, de eso nos es más que una apariencia de continuidad;
quando em vez, tenhamos feito referência ao col- funcionalmente, no ay nada que vincule entre sy
portage. Eles, os cantadores e vendedores, tornar- los términos de esas falsas analogías. Los universos
se-ão responsáveis pelo transporte do fado e da dé- románticos en los que respectivamente se inscriben
cima no Portugal meridional, depois de 1900. Se- apenas son comparables y no podemos, en el plano
rão a espuma que ficou na praia depois da onda documental, interferir gran cosa entre ellos.1
ter recuado para o mar.
Nesta breve incursão sobre a palavra em movi-
II. mento, dita, cantada, escrita, impressa, vamos fe-
Não vamos aqui estabelecer um paralelismo en- char um círculo aberto quando abordámos Ma-
tre este fenómeno do colportage e o universo tro- nuel Alves e António Maria Eusébio.
vadoresco, tão apetecível a alguns autores que se Não consideramos os cantadores ambulantes e
têm debruçado sobre o fenómeno da palavra anda- os vendedores de folhetos os introdutores do fado
rilha. Simplesmente, não são relacionáveis. Qual- e da décima no sul. Esta hipótese há muito que de-
quer esforço resulta infrutífero após as primeiras veria estar afastada, pois mais não faz do que rein-
e simples correlações. Sobre este jogo apetecível, troduzir uma velha teoria de Teófilo Braga2.
Paul Zumthor faz uma análise histórica de gran- Estes cantadores têm particular importância na
de interesse alimentação de textos impressos e na continuidade
de um gosto introduzido pelos fadistas operários
[...] la inmensa mayoría de los textos cuya vocalidad oriundos da região de Lisboa e pela intensa circu-
interrogo son anteriores a la aparición de esta «cultura lação de gentes entre o sul e a capital.
popular», distinta – unas veces menospreciada y otras Segundo o nosso entender, o que estes andarilhos
alabada por su encanto anticuado – y consecutiva a da palavra – ou filhos de Caim – vão fazer é ocupar
la ruptura social, política, ideológica, del 1500. No es um determinado lugar deixado vazio ou que estes pe-
103
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

regrinadores da consciência social abriram. No fun- O poeta António Aleixo, cauteleiro e guarda-
do, o que os homens e mulheres que viviam das pa- dor de rebanhos, cantor popular de feira em fei-
lavras fazem, é seguir um gosto da moda que a re- ra, pelas redondezas de Loulé, é um caso singu-
alidade sócio-económica permitia. A mudança ope- lar, bem digno de atenção de quantos se interes-
rada em Portugal no pós 1945 culminou com o fim sam pela poesia.
do universo do colportage. Este universo estará mor- Embora não totalmente analfabeto – sabe ler e tem
to na década de sessenta do século xx. E o que vai lido meia dúzia de bons livros – não é capaz, po-
acontecer na década de oitenta e noventa do sécu- rém de escrever com correcção e a sua preparação
lo passado, com a venda de livros de poesia popu- não lhe dá certamente qualificação para poder ser
lar, não deve ser confundido com o fenómeno que considerado um poeta culto.3
aqui é referido.
E nem uma única referência ao fado. Mais uma
III. vez. Será preciso ir visitar a obra de Martinho Ri-
Quando se fala em poesia popular, um nome é ta Bexiga, amigo de Aleixo, organizada por Jo-
imediatamente associado: António Aleixo. Mas es- sé Ruivinho Brazão, para termos referências ao
te poeta é apenas um entre vários da primeira me- fado, mas mesmo assim de forma não explícita4.
tade do século xx meridional. Outros, porventura Nem Fernando Cardoso, no seu inventário de po-
até mais famosos, deverão ser recordados: Manuel etas populares, faz alguma alusão à forma de can-
de Castro, Josefa Inácia Prego e Jaime Velez. tar de Aleixo5. Curiosamente, será um poema de
Todos estes poetas populares são fotografias po- Joaquim Magalhães, feito no ano em que o poeta
bres de uma outra poesia, a culta ou erudita, sendo morreu, a melhor prova de que o fado era central
por isso que se realça tanto o facto de serem analfa- na obra de Aleixo. Uma das sextilhas diz
betos e a pobreza que arrastam. Não estamos longe
dos princípios que nortearam Guerra Junqueiro, To- Improvisador sem par
más da Fonseca ou Paulino de Oliveira. Da guitarra acompanhado,
António Fernandes Aleixo [n. Vila Real de Santo Antó- Andava de feira em feira,
nio:1899 – m. Loulé 1949] foi criador de cabras, vendedor E era capaz de levar
de cautelas e folhetos, a um escudo, pelas feiras e A cantar a noite inteira
mercados do Algarve, Beira-Serra e Baixo Alente- As suas quadras no fado.6
jo. Também enviava o seu filho a vender papéis im-
pressos a sítios como a feira de Ferreira do Alen- A este gosto das quadras cantadas em fado – e
tejo. Improvisador famoso de versos, pelos quais não esqueçamos que quadras aqui tem um senti-
ficou conhecido, glosava quartetos em décimas, do ambíguo, pois tanto pode indicar quartetos co-
cantava o fado e era exímio tocador de guitarra. mo a glosa em décimas – não poderá ser estranho
Os seus livros, com textos recolhidos e editados o seu pai, o tecelão José Fernandes Aleixo, que
por outros, vão fazer dele a imagem populariza- também fazia e dizia(?) quadras populares, e que
da de um Camões sofredor e que encarna todos os integrava
males que um poeta transporta: a desgraça, o gé-
nio, a incompreensão... Livros que importa revisi- [...] as comissões de trabalhadores que acolhiam
tar criticamente, dando particular atenção ao pa- em Loulé deputados republicanos e fortemente an-
pel dos intermediários culturais, aspecto que é visí- ticlericais. Afonso Costa terá sido um dos políti-
vel na fórmula dos seus quartetos [ABAB], fenómeno cos que José Fernandes Aleixo conheceu no âmbito
algo estranho na poesia popular do sul. Sobre ele dessas actividades parapolíticas.
escreverá o Prof. Joaquim Magalhães, na introdu- Aliás [...], José Fernandes Aleixo [...] terá sido cor-
ção que fez à recolha de quadras feitas pelo relojo- relegionário no Centro Socialista de Loulé, inaugu-
eiro e arqueólogo amador José Rosa Madeira rado no dia 1 de Maio de 1919.7
104
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Joaquim Palminha da Silva, na nota biográfica autoria, mas o qual, entre outros, tem a marca da
a Manuel António de Castro [n. Cuba:1885 – m. Cuba: presença do movimento operário dos alvores do
1972], escreve século xx

Decorria o ano de 12, a grande jornada de luta de Além vem no carro da morte
trabalhadores contra a República burguesa, a grande A tumba de um indigente;
«tournée» de organização dos Rurais do sul, realizava- Lutou na vida, sem sorte,
se em Agosto – 25/26 – Évora o PRIMEIRO CON- Desce à vala pobremente!
GRESSO DOS TRABALHADORES RURAIS estan-
do representados 39 sindicatos e 12 525 trabalhado- Mais um pobre que morreu
res, presente, MANUEL ANTÓNIO DE CASTRO No catre de um hospital;
delegado dos trabalhadores de Cuba. Cansado de passar mal,
A questão da guerra era já claramente abordada e Não resistiu, faleceu;
os próprios trabalhadores rurais a discutiram no seu Apenas tinha de seu
Congresso, revelando posições diferentes face à even- As fúrias do vento norte,
tual compra de material de guerra pelo Governo. Tem agora este transporte
Castro foi um dos oradores que defendeu «esse objec- Por geral conveniência,
tivo do governo em termos patrióticos». Com toda a sua indigência,
No último dia do Congresso os trabalhos são dirigidos Além vem, no carro da morte!
por Manuel António de Castro, que intervindo a pro-
pósito dos assuntos tratados, ele, que na véspera defen- É um carro funerário,
dera posições nacionalistas e belicistas quando as dis- De aparência taciturna;
cussão do orçamento militar do governo, repudiava Não conduz pomposa urna,
agora a sua anterior posição. Afirmou que quando ali Traz a tumba de um operário;
entrou tinha uma pátria muito estreita: Chama-se Por- Se fosse a de um milionário,
tugal. Hoje tem outra mais ampla: Chama-se Terra.8 O aspecto seria diferente,
Vinha a colcha refulgente
Manuel de Castro, mais conhecido como Castro E a capela de flores,
da Cuba, será dos cantadores de feira mais famosos Assim só traz, meus senhores,
do Baixo Alentejo, cuja fama só é ultrapassada por A tumba de um indigente.
Josefa Inácia Prego. Grande cantador de despique,
será respeitado pelas suas quadras e por «ter uma A tumba que tem servido
arca cheia de livros». Dizia-se que tinha o 5.º ano Em diversos funerais
dos liceus. Pombinho Júnior, em 1962, escreverá o P’ra centenas de mortais
seguinte sobre ele Como este desprotegido;
Embora tivesse sido
Parece que este Manuel de Castro fora sargento do Prestável, de braço forte,
Exército e, dado o seu feitio boémio, andava tam- De limpo e correcto porte,
bém por feiras e romarias como cantador popular.9 Verdadeiro homem de bem,
Seja quem for, lá vem,
Os seus improvisos em décimas ficarão na me- Lutou na vida sem sorte!
mória de muitos que com ele cantaram ou o ou-
viram cantar. Deve ser um infeliz
Cristovão Enguiça, no livro As deixas de Ma- Vivendo em contínuo empeço,
nuel António de Castro, atribui-lhe o que consi- Como tantos que eu conheço
deramos um fado e que dificilmente será de sua De quem a sorte maldiz.
105
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

E não foi porque quis, das ou não, nos desafios a «ponto solto» ou «preso»,
Deserdado e padecente, «simples» ou «dobrado»; conhece a maioria das can-
O destino irreverente ções e «modas» mais em voga no riquíssimo folclore
É que o talhou malfadado do Baixo Alentejo, onde, sem dúvida, mais e melhor se
E como tal, abandonado, canta em Portugal. É autora de muitas «décimas», que
Desce à vala pobremente.10 tem publicado e vendido nas suas peregrinações, «dé-
cimas» a que chamam «quadras populares» ou «canti-
A mais importante e famosa figura do cantar gas», focando sobretudo casos tristes (suicídios, assas-
andarilho e da venda de papéis impressos é Jose- sínios, crimes passionais, etc.), que infelizmente ainda
fa Inácia Prego [n. Portel:1889 – m. Portel:1966], também são vulgares na vasta região alentejana.13
conhecida por Ceguinha de Portel, Cega da Prega
ou Zéfinha de Portel, epítetos que lhe servirão pa- De Josefa Inácia, Ceguinha, conhecemos um fo-
ra assinar os folhetos que vendia. lheto intitulado «A vida duma Ceguinha», que só
As bexigas, que a atacam por volta dos seis, oito poderia ser cantado no fado Bacalhau, composto
meses, provocar-lhe-ão a cegueira. Entre os anos por Armandinho, já que é em sextilhas divisíveis
dez e os anos quarenta, cinquenta, do século pas- em dois corpos de três versos cada, trísticos. As
sado, percorrerá todo o Baixo Alentejo, Algarve, primeiras estrofes são
Alentejo Litoral, indo até junto de Lisboa. Travará
tenções com os mais famosos poetas e cantadores, O português canta a trova,
saindo geralmente vencedora. Tem feito da velha nova
Morará em diversos locais: Aljustrel, Beja, Pe- Em muitas ocasiões.
drógão, Portel... de onde sairá sempre em Mar- Também eu às vezes canto,
ço para só voltar nos primeiros dias de Dezem- E envôlto o amargo pranto
bro, após a feira de Santo André. Tocará diversos Com quem grinaldo paixões.
instrumentos, gaita-de-beiços, concertina11, mas o
instrumento da sua preferência é a guitarra a que A trova do portugês
chamará «Bandurra, minha bandurra»12. Aquela que muita vez,
Sobre ela, Pombinho Júnior escreverá Nos faz maguas disfarçar.
O que canta e alivia,
Esta pobre cega tem calcorreado, pelo braço do mari- Esse, pode ser que um dia,
do e dos filhos, vales e montes, vilas e aldeias de qua- Sinta a alma aliviar.
se todo o Baixo Alentejo, cantando e tocando guitar-
ra por festas, feiras e romarias, “batendo--se” ao desa- Tem-se passado comigo
fio noites inteiras, nas barracas de comes-e-bebes, com Tenho a paixão por castigo,
os mais afamados cantadores do Sul, que a temem mas Essa que alivio chorando.
procuram para os seus despiques, por ela cantar muito Só o cantar me distrai.
bem, ter bonita voz e mostrar sempre bom agrado pa- Emquanto o coração vai
ra todos, sendo por isso muito estimada. As máguas contemplando.
Nos desafios, de que ordinàriamente sai vencedora, faz
largo uso do género satírico, muito da simpatia dos Se alguém dos meus versos rir,
cantadores e do seu numeroso auditório, com tal mor- Quem os ler ou os ouvir,
dacidade que chega a ser contundente, daí muitos an- Pense primeiro do que ri.
tagonistas abandonarem o desafio, vencidos e enver- Descorra pela memória
gonhados... Verseja bem e com a maior facilidade; tem Que a minha vida é uma história
grande memória, pelo que sabe de cor centenas e cen- Que eu mandei escrever aqui.
tenas de quadras populares, que aproveita, modifica- [...]
106
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Jaime Velez [n. Benavila:1894 – m. Sousel:1955], conheci- vai morrendo lentamente.


do como Jaime da Manta Branca, cantará por fei- A fraqueza o põe doente
ras e mercados do Alto Alentejo. Sobre ele escre- e a miséria o atrapalha.
verá Fernando Cardoso Leva no “pêto” a medalha
que ganhou à chuva e ao vento.
Salvo umas tantas quadras soltas, Jaime da Manta E morre à falta de alimento
Branca exprimia-se em décimas glosadas a partir das Quem produz e quem trabalha.
quadras-mote. E à semelhança de outros poetas tro-
vadores e repentistas – nomeadamente dos seus con- Feliz de quem é patrão
temporâneos – Manuel Alves, “O Calafate” e Morei- e pobre de quem é criado,
ra da Silva – o nosso poeta-ganhão cantava em tom que até dão por mal empregado
de fado e acompanhado à guitarra, precisamente es- o poucochinho que dão.
sas glosas de quatro estrofes de sua autoria.14 Quem semêa e colhe o pão
não tem aonde se “dête”;
É da sua autoria o seguinte fado só tem quem o “assujête”
p´ra que toda a vida chore.
Não vejo senão canalha E em paga do seu suor
De banquete para banquete Come açordas sem “azête”.15
Quem produz e quem trabalha
Come açordas sem “azête” Cujo fundamento

Ainda o que mais me admira Consta que esta quadra, assim como as respectivas dé-
e penso vezes a “miúdo”: cimas, brotaram naturalmente do poeta na própria ca-
dizem que o Sol nasce para tudo sa do patrão Eduardo Magalhães e frente a várias in-
mas eu digo que é mentira. dividualidades lisboetas entre as quais se encontrava
Se o pobrezinho conspira um Ministro – o Prof. Dr. Pinto da Costa Leite (Lum-
O burguês com ele ralha, brales). O abastado lavrador teria então insistido com
Até diz que o põe à calha, o poeta-ganhão para que este, com seus “improvisos”,
Nem à porta o pode ver. divertisse o banquete oferecido na Herdade dos Barros
A não trabalhar e só comer aos seus convidados, após uma grande caçada.16
Não vejo senão canalha.
IV.
Quem passa a vida arrastado, Este inventário, que poderia ser muito maior, mos-
por se ver alegre um dia tra até que ponto o fado e os temas operários dos fi-
logo diz a burguesia nais de oitocentos e princípios de novecentos, perma-
que é muito mal governado, neceram nos poetas meridionais, nas suas atitudes e
que é um grande relaxado, na sua obra. É claro que cantavam outros estilos e
que anda só no bote e “dête”. modelos de estrofes que não o fado, mas o mais im-
Antes que o pobrezinho “respête”. portante era a trova da consciência social. Embora
tratam-no sempre ao desdém. provocatório, não será de mais chamar a estes ho-
E vê-se andar quem muito tem mens e mulheres fadistas, não apenas porque canta-
De banquete para banquete vam o fado, e faziam fados, mas porque incorpora-
ram toda a catequética que litógrafos, tipógrafos, fer-
É um viver tão diferente! roviários, socialistas, republicanos fizeram em pere-
Só o rico tem valor grinação social pelos campos do sul nos finais do sé-
e o pobre trabalhador culo xix e no dealbar do século seguinte.
107
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

NOTAS

1 Zumthor 1989: 33-34. 9 Pombinho Júnior 1962. ram sempre nos negaram o saber to-
2 Nogueira 2003: 14. 10 Enguiça 1987: 23-24. car tal instrumento, referindo-nos
3 Aleixo 1960: 7. 11 José Alberto Sardinha informa ter re- sempre que o seu instrumento era
4 Brazão 1993: 47. colhido testemunhos de que Josefa a guitarra. Tal não significa que a
5 Cardoso 1989: 17-28. Prego tocava viola campaniça, Sar- informação de Sardinha não este-
6 Duarte 1999: 161. dinha 2001: 107-119. Os diferentes ja correcta.
7 Duarte 1999: 27-28. informantes, familiares, moço de ce- 12 Lima 1994: 189.
8 Silva 1997: 15-16. go e cantadores que a acompanha- 13 Pombinho Júnior 1962.
108
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

CONCLUSÃO e de subsistência. Mas também de combate. Ou


de tudo. Muitos destes cantadores, que ficarão
I. no imaginário, têm raízes no movimento de de-

N
O sul mediterrâneo, urbano e assalaria- fesa dos interesses dos trabalhadores agrícolas,
do, o fado começa a insinuar-se depois mineiros ou gente de fábricas. Todos operários.
de 1860. As décadas de setenta e oiten- A máquina será uma companheira em todas es-
ta deverão corresponder a uma penetração lenta, tas actividades.
que se torna mais rápida após 1890. Este cantar e estas estrofes vieram sobrepor-se,
Esta lenta penetração nos gostos da cultura adaptar-se ou levar a adaptar modelos existentes
popular deverá ter sido feita nas áreas urbanas de cantar e de construir estrofes. Enfim, um efeito
e industriais. As minas, as fábricas de cortiça de contaminação cultural.
e de conserva, assim como os caminhos-de-fer- Num trabalho pioneiro sobre o baldão, Maria
ro, terão sido espaços onde uma canção operá- José Barriga refere que este é mais recente que
ria iniciou a mancha que em breve se espalharia o despique, e aponta o seu surgimento para fi-
por todo este território. nais do século xix1. Seria de extraordinário in-
Mas o movimento de gentes e mercadorias, de teresse ver até que ponto as novas glosas e es-
há muito presente no Portugal meridional, deverá trofes não vão obrigar a alterações e a modis-
também ter sido de grande importância neste es- mos nas práticas poéticas e musicais do Alente-
palhar da décima e do fado. jo e Algarve. Um exemplo de muito interesse é
Os objectos impressos em Lisboa, os fadistas o texto de Pombinho Júnior sobre o cante das
operários – e a sua prédica social – e o movimen- gralhas... à solta
to gerado pela economia alentejana, terão sido os
responsáveis por esta disseminação da trova social Segundo me disse numa tarde de Outubro de 1947,
e dos seus conteúdos. o nome de Gralhas à solta foi posto na Cuba, ia
Os cantadores andarilhos e vendedores de pa- para 35 anos, por Manuel de Castro, outro apaixo-
lavras ditas, cantadas e impressas, conscientes nado dos cantes populares, especialmente do despi-
de um novo espaço aberto nos gostos populares, que, quando pela primeira vez o cantou e lhe pedi-
alimentarão, durante cinco ou seis décadas, os ra para ele lhe pôr o nome.2
gostos das populações rurais e operárias do sul
de Portugal. Pensamos que os velhos modelos em uso no sul
vão ser confrontados ou com a extinção, ou com a
II. complexificação. O despique, o baldão ou as gra-
A décima e o fado irão fazer parte integrante lhas poderão ser efeito e produto disso mesmo.
das sociabilidades dos rurais desta região. Serão
um património a que «jogarão mão» e que pa- III.
ra muitos será uma forma de criação de status Mas o mais importante não é os modismos es-
109
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

tróficos que o fado transporta. São os modelos Em mísero estado me vejo


de vida e de luta que vão calar fundo nas popu- Uma esmola implorando
lações rurais. O exemplo mais paradigmático é Eu vos peço que em jantando
a transformação de um romance, baseado nu- Me dêem o vosso sobejo
ma parábola inscrita no Novo Testamento, em E o rico sem ter pejo
fado. Este pobre não ouviu
Na década de sessenta, Maria Aliete Galhoz re- E o pobre repetiu
colhe, em Boliqueime (Loulé), o romance «O ri- E tenha piedade de mim
co avarento» Mas para matar a necessidade
Entrou um pobre e pediu
Levantou-se o pobrezinho em caso de necessidade,
Pois foi a casa do rico que esmola não lhe quis dar; Responde o rico avarento
E ele, como era soberbo, os cães lhe foi assegar; Suma-se já daqui para fora
A criada, como humana, os cães lhe foi enxotar. Que eu não tenho troco agora
O rico e o pobrezinho morreram todo no dia, Nem que cuidar do seu sustento
O rico pela manhã e o pobre pelo meio-dia; Gritando ao mesmo tempo
Do rico nasceu um fogo, um fogo infernal, Para o guarda-portão
Do pobre nasceu uma fonte, uma fonte celestial. Deite-me fora o ladrão
– Quem me dera tu, ó pobre, dares-me uma gotinha d’água, E sendo o pobre aleijadinho
Para eu molhar o meu dedo polegar para este fogo abrandar. Por ir pedir coitadinho
– Deixa-te lá estar, ó rico, nesse fogo infernal, Onde estava um cidadão
As sobras da tua mesa nunca mas quiseste dar;
Tu, como soberbo, os cães me foste assegar; Saiu o pobre coitado
A criada como humana, os cães foi enxotar. Da casa do malfeitor
– Quem me dera ir ao mundo, quem me dera lá voltar, Encontrou um pobre trabalhador
Para dizer aos meus filhos que nunca fizessem tal. Da mesma casa criado
– Deixa lá estar os teus filhos, acabando-se de criar, Senta-te aqui a meu lado
Lá estão os padres pregadores, se lhes quiseram ensinar.3 Põe-te aqui a meu par
Que a fome te quero matar
Este romance, retirado do Evangelho de São Lu- Pobre estou e pobre fico
cas, [16] 19-31, era cantado nas saídas petitórias Nunca mais peças ao rico
dos trabalhadores e dos mendigos. Como deveria Uma esmola a chorar
ser terrível para os ricos ouvirem-no, cantado ao
coberto da noite, chamando-lhes a atenção para Trataram de se sentar
os castigos divinais, após a morte, se não prote- Um ao outro deu de comer
gessem os pobres.... E o rico por muito ter
Em 1984, recolhemos junto ao poeta de obra Esmola ao pobre não quis negar
alheia José Serrano [n. Oriola:1907 – m. Oriola:1986] o se- Mas Deus sabe castigar
guinte fado, que dizia ser da autoria de um poe- Qualquer rico ou varão
ta com o mau-nome de Arremelgado, de Vila No- Faz sua opinião
va da Baronia E diz que nada precisa
Mas pode-se ver sem camisa
Entrou um pobre e pediu Com o seu chapéu na mão4
Onde estava um cidadão
Uma esmola a chorar Anos mais tarde, Joaquim Paulino Paixão [n. Reguen-
Com o seu chapéu na mão fará uma resposta a esta quadra
gos de Monsaraz:1926]
110
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Ó rico tu bem podias Logo lá na eternidade


Repartir com quem não tem Paga Deus a quem faz bem
Logo lá na outra vida
Paga Deus a quem faz bem Mas Manuel de Jesus Silveira [n. Vale de Vargo:1930]
saberá uma quadra, variante da primeira, que, pe-
Para que te serve tanta riqueza gando em todo este fundo neotestamentário, o
E outros com fome a morrer modificará profundamente
Dá esmola podendo ser
Compadece da pobreza Chegou o pobre e pediu
Junta à tua mesa à porta de um cidadão
Os inválidos todos os dias uma esmola a chorar
Nas noites chuvosas e frias com o seu chapéu na mão
Dás albergue aos desgraçados
Compadecer dos pobres coitados Em miserável estado me vejo
Ó rico tu bem podias uma esmola por aí vou engrenando
e pedindo de quando em quando
A saberes que direito à vida ao rico o seu sobejo
Todos temos neste mundo olha o rico tem se tem pejo
Mas como Deus não há segundo fez que o pobre não ouviu
Nos trouxe esta medida e o pobre lhe repetiu
Não te a deus para ti mais comprida eu peço por caridade
Nem mais curta o pobre porém para matar a necessidade
Lembra-te que o Pedro Cem chegou o pobre e pediu
De rico passou a pobre
Não foi por coração nobre Veio o rico lá de dentro
De repartir com quem tem ponha-se daqui para fora
que eu não tenho pão agora
Despreza os grandes salões para lhe dar o sustento
Deste deslumbrante gozo e bradando ao mesmo tempo
Será o eterno repouso pelo seu guarda-portão
Das sonebras solidões até lhe chamou ladrão
Cumpre com as tuas obrigações ao desgraçado pobrezinho
Que a lei de Deus está estabelecida por ir pedir coitadinho
Essa igualdade constituída à porta do cidadão
Ama os pobres para te respeitar
Vê as contas que há-des dar Foi-se o pobre apaixonado
Logo lá na outra vida da porta do lavrador
encontrou um trabalhador
Ali naquele casarão que era da casa criado
Está um velho cego artista senta-te aqui a meu lado
Com fome falta de vista que a fome te vou matar
Não pode ganhar o pão não quero que andes a penar
Está deitado no duro chão que eu sou pobre e pobre fico
Sem arrumo de ninguém nunca peças ao rico
Vai-lhe lá dar algum vintém uma esmola a chorar
Mata-lhes a necessidade
111
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Fica-te rico malvado O ponto é a natureza


com a tua soberba louca Contra-regra o sol divino
tua sorte virá a ser pouca A direção o destino
serás por nós castigado Guarda roupa a avareza
tens o lugar separado O diretor da empreza
para ti mais para o teu irmão E um vilão ao teatro
deitaste-te à maldição Comparsas uns trez ou quatro
e ainda me vens com a risa Tem o clero por divisa
hás-de pedir sem camisa Para o povo sem camisa
com o teu chapéu na mão5 Este mundo é um teatro

A alteração é profunda. Se os dois primeiros po- O que aqui se apresenta


etas ainda se movem dentro de um texto de recor- Tem quadros de lindo efeito
te religioso, a parábola torna-se, na voz destes ho- É descripta com preceito
mens, numa descrição do quotidiano alentejano: o Pela mísera cruenta
rico passa a cidadão, o pobre a trabalhador, qua- O cerebro apresenta
se que se adivinha um artista sem trabalho ou um Vegetais e lindas flores
trabalhador já velho e esgotado. O rico continua a Por alados trovadores
pagar na outra vida, mas é o pobre que lhe aponta A orchestra é dividida
o dedo. O pobre terá recompensas, mas o seio de No melodrama da vida
Abraão desapareceu, dando lugar a uma solidarie- Os homens são os atores
dade social e profissional.
A quadra de Jesus Silveira corta com tudo isso. A peça que sobe á scena
O castigo divino desaparece e é aos homens que Traduzida por Loyola
compete mudar os males do mundo: «Serás por E os artistas pedem esmola
nós castigado», expressão terrífica na voz daque- Que a sociedade o ordena
les que de seu apenas tinham «todas as veredas e Essa que tudo condena
eram de Santa Maria de todo o Mundo». Vive em fausto e alegrias
A obra de Jesus da Silveira é herdeira dos fa- Há função todos os dias
dos revolucionários cantados pelo Portugal meri- P’ra vos senhores do capital
dional por fadistas operários como, entre outros, D’este palco original
Avelino de Sousa, Júlio Janota, João Black, João As ruas são as coxias
Patusquinho ou Izidoro Pataquinho. Deste último,
temos um fado da década de oitenta de oitocentos, O elenco da companhia
exemplo máximo da catequização a que estes ho- Tem um quadro magistral
mens deram corpo nos alvores do século xx É a revolta social
A queda da monarchia
Este mundo é um teatro A sublime anarchia
Os homens são os atores Está em scena meus senhores
As ruas são as coxias Atenção trabalhadores
Os predios os bastidores Sobe o pano notem bem
O palco é a terra mãe
Os predios os bastidores6
NOTAS

1 Barriga 2003. Esta investigação etno- é nada mais do que um quarteto do- de desafio. Tal denominação não é
musicológica é uma viragem nos es- brado, ou seja dois quartetos, cuja úl- muito correcta, já que a forma in-
tudos meridionais sobre as formas de tima estrofe repete dois dos versos da ternacional é improviso e em Portu-
cantar e é o melhor contributo para primeira, técnica de larga difusão no gal o termo que percorre todo o país
o conhecimento destas práticas dos cancioneiro popular do sul. Aliás, pa- é despique. Usar uma denominação
últimos anos. Pena é que esta inves- rece-nos que a origem do baldão tem específica do norte não parece ser de
tigadora não tenha desenvolvido al- mais a ver com uma técnica de impro- grande precisão.
gumas das propostas ou aspectos que viso no cante às vozes do que noutras Por último, nada nos autoriza ai-
se adivinham no seu trabalho. Infeliz- explicações mais rebuscadas – era co- dentificar estas estrofes como quar-
mente, e aí influenciada pelo trabalho mum entre a repetição da moda cons- tetos. Muito do que denominamos
de Fialho Barreto, Barreto 1991, so- truírem-se cantigas de improviso. Se como estrofes de quatro versos em
bre as formas de improviso no Alen- analisarmos os estilos em que o bal- grupos de dois, poderão ser estrofes
tejo, tenha chamado ao fado cante em dão é cantado, vemos que este usa o de cinco, seis, sete, oito versos e que
décimas. Sobre a definição que dá de mesmo modelo estrófico que a moda em nada têm a ver com os quartetos.
baldão, parece-nos que este não tem a na tradição lhe é correspondente. So- São uma ilusão dos colectores.
ver com a simplicidade estrófica, mas bre a demografia, raiz de uma divisão 2 Pombinho Júnior 1962.
antes com a possibilidade de ser can- entre as formas de cantar da planície 3 Galhoz 1988: 731. Ver também, des-
tado sem recurso a um instrumento. e da serra, parece-nos difícil de sus- ta investigadora, o excelente traba-
Cantar à balda é cantar sem acom- tentar tal ideia sem estudos monográ- lho em torno desta parábola publi-
panhamento instrumental. Temos di- ficos específicos sobre estas mesmas cado no c. d. No Paraíso Real.
ficuldade em entender o que é que o formas de cantar. 4 Lima 1994: 347.
despique tem a ver, estroficamente, Um outro aspecto a críticar é de- 5 Navarro s. d.: 253-254.
com o baldão, pois este último não nominar esta forma de cantar com 6 O Fado 29 de Abril de 1923
PARTE II
QUATRO

MANUEL JOSÉ SANTINHOS


PROFANISTA DE SANTO ANDRÉ
114
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
115
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

BREVES CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES


I. II.
Esta Parte ii conclui a nossa viagem pela poesia

A
Parte ii deste livro é sobre o poeta popular, popular meridional dos séculos xix e xx. Ou melhor,
ou fadista?, Manuel José Santinhos, profa- por um segmento dessa mesma poesia. Essa viagem,
nista natural de Santo André. Na poesia po- algo extensa, era necessária para entendermos como
pular meridional, especialmente em torno da cons- surge e como se desenvolve a obra de um poeta como
trução de uma poética da quadra, dividem-se quan- é a de Manuel José Santinhos. É na proposta assen-
do ao sentido, de forma claramente encostada ao fa- te nessa viagem que se encontra a nossa explicação
para o «ruído» que é o corpus reunido deste poeta.
do, as obras em quatro grandes temas: fundamento,
Os seus textos enversados não cabiam até agora em
prostitutas (ou namoro), campa e profano. Enten- nenhuma tentativa explicativa. Ficavam sempre sem
da-se, pois, profanista como aquele que faz obras ao arrumo. Sem apressar conclusões, podemos afirmar
profano, «às coisas da vida». que não temos a «cadeia de ADN» completa – reco-
A Parte i serviu para dar contexto à obra poética nhecemos este facto, e nem todas as peças encaixam!
deste lavrador de Santo André, e também para, isola- –, mas o que fica de fora é agora muito menos. Acre-
damente – e de forma sumária – traçar uma história ditamos que resolvemos parte do exotismo que o po-
do fado e da décima, o que em muitos pontos é uma eta do Tojal apresentava e representava.
e a mesma coisa. Sem esta excursão não seria possível Com esta chave explicativa, o movimento operário
criar, pela primeira vez, um entendimento sério sobre e o fado, este poeta surge-nos agora como um poeta
a obra de um poeta que poderia ser visto como uma da modernidade, presente no grande movimento de
perturbação no espectro da poesia popular alenteja- renovação da poesia popular de que nos alvores de
na e, particularmente, do litoral. novecentos submergiu o fado, transformando-o na
Na Parte ii deste trabalho iremos fazer um escor- canção nacional, na trova da consciência social. Ma-
ço biográfico do poeta. Faremos, seguidamente, uma nuel José Santinhos viveu essa transformação (muito
abordagem comparativa entre os textos que sobre ele e provavelmente, sem o saber), legando-nos uma obra
sobre a sua obra foram escritos1. Os textos comparados que marca de forma indelével a presença desse mo-
serão os dois textos do Dr. Carlos Teiga, um datado do vimento no Alentejo. Esse é o seu maior contribu-
ano de 2000 e outro do ano de 2002, e um texto de Ví- to. Metaforicamente, Manuel José Santinhos, o poe-
tor Bastos, de 1991, que constitui a primeira reflexão ta do Tojal, tem a importância que o celacanto teve
feita sobre a vida e a obra deste poeta, bem como da para a história da evolução: foi o elo que nos faltava
sua contextualização. A partir deste embasamento, ire- para encontrar a ligação entre a poesia popular me-
mos analisar separadamente – e propor algumas solu- ridional, o fado e as gentes que circularam nesta pai-
ções dentro do argumento que temos vindo a perseguir sagem a sul do rio Tejo.
neste trabalho – as duas dissonâncias maiores existentes
na obra de Manuel José Santinhos: a presença de uma
balada ultra-romântica, «O noivado do sepulcro», do NOTAS
poeta portuense Soares de Passos, e as singulares estro- 1 A impressa periódica não será trabalhada, pois não acarreia
fes localizadas na obra deste poeta popular. dados novos.
116
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

NOTA BIOGRÁFICA1 não destruírem o montado de sobro, ocupavam


a charneca até ao mar. Gonçalves, reparando nas
I. cinzas que ficavam depois das grandes queimas

P
OR volta de 1900, Delfina Santinhos [n. Santo An- feitas para destruir o mato e produzir um mato
dré:1860 – m. Santo André:19422],
residente no monte fino para as cabras comerem (os chamados «re-
Tojal de Baixo e foreira dos 120 hectares que novos» do mato), tem a ideia de experimentar a se-
compõem a propriedade do Tojal3 – aforamento fei- mear trigo nestas areias «gordas». A terra, «que
to à condessa de Alenquer, cuja paga anual monta- estava folgada» – pois nunca tinha sido até aí se-
va em três alqueires de cereal(?), vertidos em dinhei- meada – dá uma boa seara. Vendo o resultado,
ro, e numa galinha poedeira sem estar choca – fica José Joaquim Gonçalves divide a propriedade do
viúva de José Luís, de Ribeira da Ponte, que morreu Tojal em courelas e dá-as a semear – para «rom-
jovem, «entrevou», deixando três filhos, um rapaz e per» as terras – ficando o seareiro obrigado a pa-
duas raparigas. Esta propriedade do Tojal tem como gar um molho de cereal por cada dez. Estas lavras
limites a ribeira de Baleizão, o monte Maria da Ma- serão feitas com bois, em juntas de quatro ani-
ta e Terras do Concelho (faixa de terreno não afora- mais por charrua, já que na terra, até então nun-
do que ia até ao mar). ca cultivada, as raízes do mato tornavam difícil o
Algum tempo depois, Delfina Santinhos contrai rasgar da terra.
um segundo casamento com José Joaquim Gonçal- A charneca, até aí espaço de pastoreio, começa
ves [n. Margavél:1870 – m. Santo André:1915]. Este Gonçal- a produzir milho, cevada, centeio, trigo – o trigo
ves, vendedor de bombazina pelos montes, é con- mocho – e arroz. Estamos em 1908, 1909, e Ma-
trabandista de cortes de fazenda, que vai «a salto» nuel José Santinhos tem agora três ou quatro anos.
buscar a Espanha. Para este casamento, muito te- É interessante salientar que esta alteração ecológi-
rá contribuído o marido4 de uma irmã mais velha ca, findando os matos compostos por estevas, ma-
de Delfina Santinhos, aconselhando Gonçalves a ta salgadeira, trovisco, tojo, mato durázio, etc., e
casar com a irmã da mulher, pois esta estava so- dando lugar ao resmono, mato branco e outros, a
zinha e tinha uma propriedade para administrar. par da transformação das terras incultas em ter-
Desta união, nasceram cinco filhos. Manuel José ras agrícolas, leva ao recuo da presença caprina e
Santinhos [n. Santo André:1905.Dezembro.27 – m. Santo André: a uma substituição destes por ovinos.
2001.Outubro.05], o poeta do Tojal, será o primeiro da Mas José Joaquim Gonçalves morrerá aos 45
prole deste segundo matrimónio. anos, e Delfina Santinhos contrairá ainda um ter-
Joaquim Gonçalves será o primeiro(?) a seme- ceiro casamento, agora com Dâmaso Mendes [n. San-
ar pão nesta charneca, cerca de três décadas antes to André:1860 – m. Santo André:19405], também viúvo, que
do plantio de pinheiros. Até essa altura, o pasto- trará para o Tojal de Baixo os seus filhos, qua-
reio de ovelhas e porcos, assim como das grandes tro rapazes e uma rapariga. Desta terceira e últi-
cabradas que desciam das serras de Santa Cruz e ma união de Delfina Santinhos, já não nascerá fi-
de São Francisco, para aqui trazidas de modo a lho algum.
117
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

II. Tem um ramo de pinhal


Enquanto criança, Manuel José Santinhos será Na altura das camarinhas
primeiro pastor, tomando conta de «um gadinho», Propriedades vizinhas
e depois, quando a idade já o permite, aprende a Não têm assim igual
lavrar com bois. Torna-se lavrador, criando tam- Esta chama-se o Tojal
bém ovelhas, vacas e bois. Mas também dá árvores fruteiras
Do Tojal, onde trabalha, temos uma excelente descrição Vê-se do lado das Pereiras
dada numa quadra feita ainda na infância do poeta Estas casinhas quase rasas
Onde há perto das casas
O TOJAL É UM JARDIM MEIA DÚZIA DE FIGUEIRAS
COM FLORINHAS ÀS CARREIRAS
TEM UMA BONITA VINHA Por este tempo, andavam pelos campos ho-
E MEIA DÚZIA DE FIGUEIRAS mens e mulheres que, a troco de comer, ensina-
vam os filhos dos lavradores – e quem quisesse
É uma boa herdade aprender – os rudimentos do ler, do escrever e
Sem ser em alta escala do contar.
Isto não é lá gabá-la Manuel José Santinhos terá uma mestra que lhe
Mas é dizer o que é verdade ensinará esses rudimentos. Esquecerá o escrever,
Dá milho e feijão-frade ficando apenas com a possibilidade de assinar o
A charneca é que é mais ruim nome, e lerá letra de imprensa; na outra, na de
Mas dá tojeiros e alecrim mão, não entrará.
E também tem terras de pão Frequentará as feiras e mercados de Aljustrel,
E à vista de Baleizão Ferreira, Grândola, São Domingos, Garvão, Abe-
O TOJAL É UM JARDIM la, do Monte, Santo André e outras, com seu pa-
drasto Dâmaso Mendes, levando bois amansados
Com um lavadouro e uma fonte para vender, que serão aí comprados para traba-
Uma várzea e uma beirada lharem na lavoura. Nestas feiras e mercados co-
Dois palheiros uma arramada nhecerá cantadores e vendedores de folhetos. Jo-
E com três casinhas o monte sefa Inácia Prego ou Álvaro Pedro serão, para ele,
E se querem que eu mais lhe conte figuras de referência.
Há cabaças às enfieiras Em 1931, casará com Luísa Pereira [n. Azinhal
E tem as moitas salgadeiras 1908.Abril.11 – m. 1991.Agosto.01:Santo André]. Este namo-
Que na Primavera do Verão ro é devedor das idas de Santinhos ao Azinhal,
Representam-se em botão onde se encontra com Parral, detentor de uma
COM FLORINHAS ÀS CARREIRAS guitarra e fazedor de quadras, o qual, em sua
casa, junta amigos para as seranadas de can-
Gado manso e gado bravo te ao fado. O encontro com Luísa Pereira fica-
De cabelo e de gadelha rá marcado na poesia de Manuel com este fa-
Onde há tal bicho ovelha do canção
Que anda sempre a dar ao rabo
Porcos de alferce sem cabo EU NUM DOMINGO PASSADO
Que é qualidade daninha FUI AO AZINHAL PASSEAR
Também há muita galinha POR SER UMA ALDEIA TÃO BELA
Comem de arroz grande teca ONDE FIQUEI ENCANTADO
E entre a várzea e a charneca POR VER UMA ROSA BRILHAR
TEM UMA BONITA VINHA NO PEITO DUMA DONZELA
118
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Eu pensava em vida alheia POR VER UMA ROSA BRILHAR


Já mais que na minha vida Rosa a mais linda flor
E senti o cérebro doente Do jardim de mocidade
Com a ideia iludida Em primavera de amantes
Andava perdidamente E no ramo desigualdade
Visitando aquela aldeia Há lindas e semelhantes
Por uma moça bem parecida Para o mundo se compor
Quem eu não achava feia E eu alcancei liberdade
E tinha olhos de cativar De escolher para meu amor
E eu com as minhas paixões Das mais lindas da parcela
Já não podia negar E em hora deliciosa
Que andava hipnotizado Em voz dobrada e singela
E cheio de amor e ilusões Soam esperanças que renascem
EU NUM DOMINGO PASSADO E meu coração cor-de-rosa
FUI AO AZINHAL PASSEAR Só brilhava se o colocassem
N O PEITO DUMA DONZELA
Eu ouvia lá no Tojal
Era as rãs na lameira Deste casamento, nascerão dez filhos6.
E na charneca as cotovias Na década de setenta do século xx, o Gabinete da
E ali uma voz aldeeira Área de Sines, no interior do grande projecto petro-
Me animava muitos dias lífero que tinha para esta região, expropria Manuel
Quando eu ia ao Azinhal José Santinhos – como a muitos outros –, embora
Para meu gosto era a primeira possa continuar a trabalhar parte desta propriedade,
Era um primor divinal mas agora à renda. Vila Nova de Santo André é er-
Aonde um amor se revela guida nestas terras. Esta profunda alteração provo-
E eu para comigo pensava cará no poeta a feitura destes fados
Se a minha fosse aquela
Ainda eu no mundo era alguém SINES SE TENS GABINETE
E doutras terras não gostava NAS GALAS DO BRILHANTISMO
Ali é que eu estava bem PARA RESOLVER PROBLEMAS
P OR SER UMA ALDEIA TÃO BELA NÃO QUEIRAS QUE O POVO ACEITE
ACÇÕES AO USO FASCISMO
Roseira perto da fonte E ARAME FARPADO ÀS EXTREMAS
Que dava gosto de se ver
Cheia de flores mimosas Se tu com fome estivesses
Dava à aldeia prazer Perto de muita fartura
E o aromado das rosas E não pudesses lá chegar
Perfumava o horizonte Saboreavas a amargura
Nascente de água a correr E as grandes pilhas de azar
E fresca ribeira defronte Que dás a quem tu esqueces
As donas iam lavar A pouca esperança futura
E borboletas da campina Que eu tenho se tu tivesses
Ali vinham ondear Cismava como eu cismo
Ao pôr-do-sol dourado E não deixavas a marmir
Nesta aldeia pequenina O grupo do realismo
ONDE EU FIQUEI ENCANTADO Onde enfias o barrete
119
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Estuda o verbo dividir Tu do calor não te queimas


SINES SE TENS GABINETE E nem andas com os pés à rojo
NAS GALAS DO BRILHANTISMO Quer-se é as propriedades
Ao meio com silvas e tojo
Por ser mal organizada E ARAME FARPADO ÀS EXTREMAS
A sociedade selvagem
Há queixumes e zunzuns e
Por existir coragem
De querer-se os bens só para uns NO SÍTIO DE BALEIZÃO
E ao passo que a outros nada HÁ UM BAIRRO COM PERFEIÇÃO
Esta vida é uma passagem QUE ALGUÉM ADORA COM FÉ
Ingrata e complicada ESTÁ SITUADO PORÉM
Onde há traições e fleumas NA RIBEIRA DO CACÉM
O que o ponto tem referência NA FREGUESIA DE SANTO ANDRÉ
É que há bons pauis e ademas
Era para fartura haver Por destino ou natureza
Haja alguém com consciência Por favor ou fineza
Concentrado no poder Há alguém condescendente
PARA RESOLVER PROBLEMAS E o que era a alguns pertencente
Agora é para outra gente
Não tens pena de dizer Por soberba ou avareza
A um produtor velhinho A consciência foi presa
E que não usa acções más Mas há futuro luz acesa
Você está tão pobrezinho Que é onde nem todos vão
Arrede-se lá para trás Vai quem tiver o condão
Para vir um rico comer Da boa orientação
Põe-se o pobre em mau caminho Sobre as esperanças que vêm
Pouco direito ao viver E para os que abrigo não têm
Porque aumentou o cinismo NO SÍTIO DE BALEIZÃO
É sempre escravo e baixante HÁ UM BAIRRO COM PERFEIÇÃO
Do mais pequeno algarismo
E tu triunfal e cadete A ilustre sociedade
Por quereres ser galo cantante Sem usar de lealdade
NÃO QUEIRAS QUE O POVO ACEITE Sabe que todos a merecem
ACÇÕES AO USO FASCISMO Mas os que à baixa não descem
Parece que até se esquecem
Quem quiser cultivar terra Que há quem tenha necessidade
É bom não pensar em tal Se o povo é uma irmandade
Que essa intenção não é boa Haja dó e piedade
Haver fome e não faz mal Na turba que anda a pé
A fartura é que enjoa Quem embarca em má maré
E ao Gaspar não se faz guerra Vê que neste bairro assim é
Tu tens peixe nas lagoas A moda do modernismo
E tens cortiça na serra Com galas de brilhantismo
Não te moas e não te espremas E puxando o uso fascismo
Não ligues às necessidades Que alguém adora com fé
120
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Como pode haver sossego Para eu entrar de vontade


Uns terem casa e emprego Pensei se a promessa vale
E UNS NEM BARRACA NEM NADA Confiei na sociedade
Minha gente portuguesa
Há charrua e há enxada Não queriam ser maus para mim
Não há covato nem rego Porque eu não tenho defesa
Tanto milhano e morcego Só se um tristonho perdão
E uns sem terem aconchego Não me castiguem assim
Outros há flor do bem AMIGOS DO CORAÇÃO
Dos pobres não vai ninguém POR EU ESTAR COM A ALMA PRESA
Esses ficam lá para além
Assim quase desprezados Não paga a despesa a vinha
E um bairro para retornados Aos altos céus vai o meu pranto
ESTÁ SITUADO PORÉM São fracos estes terrenos
NA RIBEIRA DO CACÉM Porque é que eu pago tanto
Meus vizinhos pagam menos
A área hoje Petrogal Com courela igual à minha
Em tempos foi cabanal Sou Santinhos não sou santo
Era dos trabalhadores E a promessa da sardinha
Pequenos agricultores Ainda canta em meu ouvido
Que representavam amores E encontro-me desprezado
Da nação de Portugal Em noção de amor perdido
Hoje só ficamos mais mal No meio desta embrulhada
Se este bairros for rival Sendo eu próprio um despropriado
Por vir de Angola e Guiné Quem deu terra quase dada
De Cabo Verde e São Tomé NÃO ME OLHEM COM MAU SENTIDO
Onde há camelo e chimpanzé
Aqui fiquei sem camisa
E povo mal encaminhado Por uma lei autorizada
Mas com bairro fixado Que era obrigatória a venda
N A FREGUESIA DE S ANTO A NDRÉ Deixei os meus filhos sem nada
E a minha linda fazenda
e Fui dar a quem não precisa
Ensinaram-me a má estrada
AMIGOS DO CORAÇÃO Fiquei de barriga lisa
POR EU ESTAR COM ALMA PRESA Curvado aos pés da grandeza
NÃO ME OLHEM COM MAU SENTIDO Trafulhices não conheço
TENHAM DE MIM COMPAIXÃO Joguem cartas para a mesa
NÃO ARRASTEM PARA A TRISTEZA Que eu pus-lhe o jogo na mão
QUEM TÃO FRANCO LHES TEM SIDO E se as acções más eu não mereço
TENHAM DE MIM COMPAIXÃO
Vendi minha propriedade NÃO ARRASTEM PARA A TRISTEZA
Sem discutir tribunal
Aceitei o que me deram Ainda ficou um bocado
Não pensei ficar tão mal Dependente da courela
Com promessas que fizeram Que eu tinha lá noutro lado
121
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Que eu queria pegado àquela Pela vaidade atraídos


Que me arrendassem um bocado Cansados de andar à toa
Para ter para lá um caminho Hoje são corações unidos
Puseram-me a dar à trela Que a natureza abençoa
E arrendaram a um vizinho Pelo destino forçados
O que me foi prometido Esses amantes queridos
Dispensaram-me um barrete Um do outro são amados
Já velhinho e descosido Consideram-se uns pombinhos
Bom para espantar charnecas É lindo vê-los a par
Obrigado ó Gabinete É raro verem-se sozinhos
Deixas um parvo em cuecas Não pesam vidas alheias
QUEM TÃO FRANCO LHES TEM SIDO E enquanto a vida durar
Em vez de ouvir falas feias
Após a morte de Luísa Pereira, vende os ani- GOZAR MIMOS E CARINHOS
mais e deixa de trabalhar. Em 1993, começa a
frequentar o Centro de Dia «O Moinho», situ- Caminhos de uma amizade
ado em Vila Nova de Santo André, onde conhe- Que surgiu de uma loucura
ce Adélia Maria [n. Relíquias: 1909 – m. Santiago do Ca- Dos encantos de um sorriso
cém: 2000], viúva, com a qual, dois anos mais tar- Onde houver beldade pura
de, contrai uma união de facto, como ele fixa em A vida é um paraíso
texto memorialista E pode ter fim à vontade
Há períodos de amargura
AMANTES ESTAVAM À ESPERA São variações da idade
DE SER FELIZES UM DIA O que a natureza cria
GOZAR MIMOS E CARINHOS O mundo está bem composto
E EM NOVENTA E CINCO A ERA Com a esperança e a mania
CASOU ADÉLIA MARIA E a ilusão campanera
COM MANUEL JOSÉ SANTINHOS E em dia primeiro de Agosto
DE NOVENTA E CINCO A ERA
Dos arbustos do caminho CASOU ADÉLIA MARIA
O lindo resplendor
Inspira o bem aos doentes Maria e Manuel
E sendo estes uma flor Foram os nomes primeiros
Dos idosos padecentes Que a nossa história conhece
Do Centro de Dia O Moinho São amantes verdadeiros
Com força de um grande amor Com amor que nunca esquece
Ambos como aves sem ninho E qual deles o mais fiel
Com alma a pedir folia Por sua honra prisioneiros
Pensaram sendo um casal Pelo seu amor novel
Que houvesse mais alegria Querem brandura nos passinhos
Mesmo a sorte sendo bera E a minha ideia prefere
Na casa de oitenta e tal Que eu vá bebendo uns copinhos
AMANTES ESTAVAM À ESPERA Já que o destino é assim
DE SER FELIZES UM DIA E dar-se vivas à mulher
Que quis passar o seu fim
Um dia de namorados COM MANUEL JOSÉ SANTINHOS
122
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

III. E está sempre da cor do pez


Entre os sete e os dez anos, Manuel José Santi- Eu tenho ido lá tanta vez
nhos, o futuro poeta do Tojal, descobre a poesia Nunca vim da cor da cal
e o fado. Venho sempre tão negral
Um dia, uma das irmãs mais velhas leva-o a Que só os dentes a luzir
passar um serão na cabana de Jacinto do Ou- E é tão má de resistir
teirão, cabana com paredes de caniço, coberta A CHARNECA DO TOJAL
de palha fina e muito negra no interior devido à
falta de chaminé. Instado pela irmã de Manuel Quem lá vai sofre um castigo
José, Jacinto do Outeirão tira de dentro de uma Quando o calor se deslumbra
arca a guitarra e mostra-lha. É a primeira vez No Verão não há uma sombra
que Manuel José vê este instrumento. Depois, E de Inverno não tem abrigo
Jacinto do Outeirão canta uma quadra, um ver- Quem se arrisca a este perigo
so(?), em fado Mais valia estar quedo
Porque aponta-se com um dedo
Guitarra minha guitarra Para aonde se ouve um assobio
Diz-me aonde foste feita[fe’ta] E sede e fome e calma e frio
Tens as vozes maviosas METE UM BOCADO DE MEDO
E tua madeira é preta
Sem ter bota nem sapato
Para Santinhos, este serão «foi muito importan- A farpela esfarrapada
te». Teria oito, nove anos... ou nem tanto. A pele dos pés rasgada
Na mesma altura, ia com outros moços da sua Dos tarouquinhos do mato
idade brincar para a aldeia do Giz, na rua onde E lembro o barro do meu prato
ficava a venda. Jogavam ao enrola a bicha e ao Aonde eu era tratado
vai--te a ele. Após os jogos, estando já cansados, Quando eu guardava no prado
o pequeno Manuel José pedia silêncio aos com- Porcos cabras e ovelhas
panheiros e dizia um verso. Certa vez, iam pas- E de fome e pó nas orelhas
sando uns homens que o ouviram, indo comen- EU VOU LÁ VENHO CARREGADO
tar ao balcão da venda que estava lá fora um ra-
pazinho a dizer versos. Santinhos é chamado ao Dava para encher uma deca
balcão da venda, e em troca de um rebuçado, Onde eu me ia sacudir
disse os versos que tinha feito. Ganha «ceguei- O pó que eu ia adquirir
ra» de os fazer e dizer, e também de rebuçados, Muitos dias na charneca
e por volta dos dez anos começa a fazer quadras. Piolhos eram uma teca
Esta será uma das primeiras, sendo dos textos Misturados com pulguedo
mais antigos que o poeta do Tojal recorda E eu já falava em segredo
As minhas palavras feias
A CHARNECA DO TOJAL Porque usava as goelas cheias
METE UM BOCADO DE MEDO DE TERRA E DE ESPOREDO
PORQUE EU VOU LÁ VENHO CARREGADO
DE TERRA E ESPOREDO Mas no monte do Tojal de Baixo, onde tinha
nascido e onde morava, era costume fazer-se se-
Acontece a um freguês ranadas de fado. O padrasto Dâmaso Mendes
Que lá tem que trabalhar tocava harmónio de duas escalas. Vinha também
Leva o tempo em se lavar para estas serenadas um vizinho, de nome Gre-
123
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

gório que embora tivesse pouca obra, tinha boa Nesta bela maravilha
voz; vinha Jacinto do Outeirão com a sua gui- O LINDO BAIRRO HORIZONTE
tarra, e vinha também a tia Luísa Santinhos, ir-
mã mais velha da mãe, da aldeia do Giz, que fa- Existiu neste local
zia quadras e cantava o fado, «o fado antigo»7. Habitações cabanal
Comiam-se filhós, que Delfina Santinhos frita- É bem que isto se conte
va, e bebia-se vinho. Lá está que mete cobiça
Santinhos nunca aprenderá a tocar instrumen- Uma casa feita em cortiça
to algum. Ainda tenta aprender a tocar gaita-de- E TEM UMA RUA DEFRONTE
beiços, realejo, mas não irá longe nesta aprendiza-
gem: «ficava com os lábios esfolados». Em Baleizão situado
Aos 86 anos, Vítor Bastos e Maria Celeste Ro- Pelas brisas bafejado
drigues editam um primeiro livro com os seus tex- Que levantam da maré
tos, e aos 95 anos, Carlos Teiga editará uma se- Os prédios todos em linha
gunda antologia dos seus poemas. Entretanto, será E sita numa chapadinha
convidado para participar em encontros de poesia E COM UMA VÁRZEA AO PÉ
popular, terá entrevistas em jornais locais e regio-
nais, em diversas rádios locais, vindo também a ser Calhou nesta região
entrevistado pela RTP. Meninas de estimação
Em 2001, a Junta de Freguesia de Santo André As delícias de quem ama
dará o seu nome a uma rua desta aldeia, Entre os tojais e a lezíria
Há povo que se admira
RUA TI MANEL DO TOJAL COMO O SEU NOME TEM FAMA
Manuel José Santinhos, Poeta Popular
nascido a 24 de Dezembro de 1905 Esta é que é bem iluminada
JFSA, 2001/04/21 Serve de rua e de estrada
E às vezes serve de cama
acto integrado numa homenagem intitulada «O Aonde se passa à vontade
canto do Tojal» que decorrerá entre 21 de Abril Retiro da mocidade
e 22 de Maio, contando também com uma ex- A DITA RUA SE CHAMA
posição que esteve patente na Escola Básica do
1.º Ciclo da Aldeia de Santo André. Sobre es- O querer agradar quem vem
sa homenagem, comporá Santinhos as seguin- Seu nome quis mostrar bem
tes sextilhas Quem cá houve em Santo André
Foi um grande amor do Fado
O LINDO BAIRRO HORIZONTE Que hoje tem o seu nome gravado
TEM UMA RUA DEFRONTE POETA MANUEL JOSÉ
E COM UMA VÁRZEA AO PÉ
COMO O SEU NOME TEM FAMA Em Outubro de 2003, a Liga de Amigos de Vila
A DITA RUA SE CHAMA Nova de Santo André (LASA) promove a primeira
POETA MANUEL JOSÉ edição do prémio de poesia «Ti Manel do Tojal».
Hoje, existe um movimento, constituído por
Quem parte da marginal amigos e admiradores, que pressiona a Câmara
Com direcção ao Tojal Municipal de Santiago do Cacém para dar o no-
Como quem quer ir à fonte me de Manuel José Santinhos à futura biblioteca
Vê bem como o sol brilha de Vila Nova de Santo André.
124
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

IV.
Mas os melhores relatos biográficos são constru- Fui logo assim de criança
ídos pelo próprio Manuel José Santinhos. Uma das De criança fui logo assim
mais sugestivas quadras é esta dita e retornada Alguém tinha esperança em mim
Em mim alguém tinha esperança
S OU O M ANUEL J OSÉ DO TOJAL Tinha moral e lembrança
D O TOJAL M ANUEL J OSÉ Lembrança tinha e moral
D E S ANTO A NDRÉ NATURAL E ao depois fui parcial
E NATURAL DE S ANTO A NDRÉ Parcial fui ao depois
E natural de Santo André sou hoje
Quem por bem me assome eu abraçado H OJE SOU DE S ANTO A NDRÉ NATURAL
Eu abraçado a quem por bem me assome
E baptizado para ter nome Não nasci para ser fingido
E para ter nome baptizado Para ser fingido eu não nasci
No Azinhal fui registado Conto o sucedido até aqui
Registado no Azinhal Até aqui conto o sucedido
A quem me amou eu amo igual Com o que é isto é parecido
Amo igual a quem me amou Parecido isto com o que é
E do Tojal Manuel José sou Sou quem apareceu nesta maré
S OU M ANUEL J OSÉ DO TOJAL Nesta maré sou quem apareceu
E natural de Santo André sou eu
Aos que leais me querem falar E U SOU NATURAL DE S ANTO A NDRÉ
Aos que me quiserem falar leais
É perguntar não têm mais
Não têm mais que é perguntar
Que eu até gosto de explicar
De explicar eu gosto até
Com a Primavera eu tive fé
Tive fé com a Primavera
E Manuel José do Tojal era
E RA DO TOJAL M ANUEL J OSÉ

NOTAS

1 Baseada em entrevistas, em DAT, renos desta propriedade. Pereira Santinhos [1945], Silvério Pe-
efectuadas em Dezembro de 1994, 4 Este tio, e também padrinho, de reira Santinhos [1948], Eduarda Ma-
e em Maio e Julho de 2000. Manuel José Santinhos poderá ser o ria Pereira Santinhos [1951], Glória
2 Datas aproximadas. quadrista Parral. Pereira Santinhos [1956].
3 Na década de setenta estas terras serão 5 Datas aproximadas. 7 Oposição ao fado moderno, que se-
expropriadas pelo Gabinete da Área 6 Bernardo José Pereira [1932], Ce- rá cantado por Santinhos. Possível
de Sines, como muitas outras proprie- lestino Pereira [1934], José Pereira referência à primeira expansão do
dades desta região. Hoje, parte de Vila [1936], Vitalina Pereira [1938-1956], fado, ainda ligado quer ao corrido,
Nova de Santo André ergue-se nos ter- António Pereira [1940 - ?], António quer ao quarteto.
125
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

BIBLIOGRAFIA DISPONÍVEL pológicas e Etnológicas, que na década de oitenta


SOBRE MANUEL JOSÉ SANTINHOS foi professor do ensino secundário em Santiago do
Cacém; além de estar ligado a jornais locais, era
I. também radialista) e de Maria Celeste Matias Ro-

A
PARTIR da década de oitenta, Manuel José drigues (licenciada em Línguas e Literaturas Mo-
Santinhos desperta o interesse de investiga- dernas e professora na Universidade de Lisboa, on-
dores e colectores. Rastreámos a sua pre- de, à altura, era docente na cadeira de Fonologia
sença em: periódicos locais; no trabalho de Vítor e Morfologia do Português). Celeste Rodrigues é
Bastos e de Celeste Rodrigues, que lhe é inteira- também sobrinha do poeta do Tojal. Este livro foi
mente dedicado1; numa antologia de poetas alen- editado em 1991, pela Câmara Municipal de San-
tejanos e algarvios, produto de um encontro em tiago do Cacém, e é uma produção da Editorial
Monchique organizado pela radialista da Rádio Caminho.
Fóia Idalete Marques, onde se publica um poe- Esta publicação é o resultado de uma profunda
ma seu2; numa antologia de poetas de Santiago do relação de amizade entre o poeta e Vítor Bastos,
Cacém, onde parte substancial lhe é dedicada, or- que transparece nas cerca de vinte cassetes áudio
ganizada pelo Dr. Carlos Teiga3; e, também, nu- que sobreviveram das suas recolhas e que se en-
ma antologia dedicada a dois poetas grandolen- contram à guarda na Câmara Municipal de San-
ses, José Pedro Guerreiro, o Rei dos Malhadais ou tiago do Cacém, gravadas entre meados dos anos
Rei do carvão, e a seu irmão Manuel Guerreiro, oitenta e os finais da mesma década.
o Bruxo, organizada por este último autor4. Exis- O livro é composto por um prefácio, pelo corpus
tem ainda algumas brochuras que repetem dados recolhido e por um pequeno glossário.
retirados do trabalho de Vítor Bastos e de Celes- O glossário é um léxico, ou melhor, uma lista-
te Rodrigues. gem de palavras e expressões retiradas dos textos
Na nossa breve análise, iremos apenas apresen- enversados. Este é de interesse variável.
tar criticamente três referências bibliográficas: o O corpus reúne pouco mais de centena e meia
trabalho de Vítor Bastos e de Celeste Rodrigues, de textos, divididos morfologicamente: quadras,
de 1991, e os dois trabalhos do investigador local quintilhas, sextilhas, quadras de 40 pontos e qua-
Dr. Carlos Teiga, de 2000 e 2002. dras de 60 pontos.
O prefácio indica ser da autoria de Vítor Bastos,
II. pois que evoca, na primeira pessoa, uma experiên-
A primeira grande referência feita à vida e obra cia de ensino em Moçambique, assim como o de-
de Manuel José Santinhos encontra-se no livro sencadear do seu interesse por esta poesia. Tal ex-
Memória das Gentes do Lugar. Manuel José San- periência de contacto com culturas orais, leva-o,
tinhos, poeta popular, cujo trabalho de campo e após a presença numa tertúlia de poetas em San-
tratamento paraeditorial é de Vítor Manuel Bas- tiago do Cacém, a ficar sobressaltado pela perda
tos (licenciado em filosofia e em Ciências Antro- irreparável deste tipo de poesia,
126
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

[...] numa noite de convívio com poetas iletrados, dar-se, expressamente, poetas locais de nomeada.7
numa tertúlia a céu aberto de um 1986 distante
e quase anónimo, o conteúdo dos poemas recita- Esta ancoragem leva-o a estruturar, após um traba-
dos, no respeito pelo melhor da tradição oral, nos lho de cinco anos com o poeta do Tojal – e com ou-
colocasse na senda do sobressalto e do receio pe- tros poetas da região –, os seguintes postulados
la perda inglória de tal riqueza. Colette Magny dis-
se um dia: «Quando em África morre um velho [...] Trata-se de um indicador importante de uma afir-
é como se um fogo consumisse uma biblioteca.». mação cultural autónoma de profundo recorte socio-
De facto, África inculcou-me o gosto pela tradição lógico, psicológico e cultural.
oral. Mas, desta vez, o entusiasmo transbordou na [...] É um indicador importante do interesse das gen-
espectativa[sic] duma recolha que não se afigurava tes do lugar pelos seus usos, costumes, práticas e tra-
fácil nem cómoda.5 dições.
[...] Pela sua estrutura melódica e rítmica, as compo-
Após um ano de trabalho, e com cerca de trinta sições desta literatura oral são concebidas para uma
composições poéticas, Vítor Bastos iniciou um con- memorização durável e uma repetição frequente. Pela
junto de reflexões, que se prefiguraram em torno de sua forma estabilizada e pouco dada a modismos é de
qual fácil assimilação e retenção.
[...] Pelo seu conteúdo e linguagem facilmente com-
O papel social da tradição oral e da literatura po- preensíveis, pelos apreciadores, agrega cultores e
pular no âmbito da problemática estudada.6 apreciadores em número importante e suscita a iden-
tificação e adesão das populações aos seus conteúdos,
Caminho que o leva a interrogar a bibliografia e sua reprodução e preservação. Ainda que de forma
os usantes, tentando encontrar qual o espaço so- assistemática e pouco fiel.
cial que ocupa a poesia e o que é a «literatura po- [...] É um tipo de composição que encontra na memó-
pular», assim como esta se constrói, e, em última ria no[sic] seu veículo de divulgação e de conservação
análise, se a designação é correcta. Tal reflexão le- privilegiado. Por isso, ao longo da sua evolução tem-
va-o a concluir se adaptado às exigências que o registo mnésico-repe-
titivo impõe.8
Portanto, esta literatura cumpre, ainda, uma função
de registo, não dos Homens grandes da História, mas Após esta entourage, apresenta de forma breve
dos homens grandes das estórias. Daqueles que por o corpus do poeta do Tojal e descreve sucintamen-
mor da sobrevivência vão escrevendo os episódios de te o trabalho que desenvolveu ao longo de cinco
que se fazem as estórias e história do homem do sen- anos, o que lhe permitiu aceder a cerca de cento
do comum – e por que não de bom senso? – que as e cinquenta composições (a estas outras se devem
vive e protagoniza, nessa tarefa difícil que é a vida somar, embora incompletas. Neste caso Santinhos
das pequenas localidades onde o tempo se rege pe- já não consegue uma recuperação efectiva, como
los grandes ritmos naturais, mais do que pelos da ci- o mostram as cassetes áudio.).
vilização urbana. Não é, pois, difícil de conceber que Um aspecto que importa relevar é a questão da
nestas circunstâncias o povo veja nas quadras da «li- memória e das variantes textuais
teratura popular» o seu reflexo ou o reflexo de si.
A sua produção ocorre, frequentemente, no local de Trabalhando com o autor, pudemos assistir a prodí-
trabalho: pastoreio, sementeira, monda, colheitas, fim gios de criatividade operados na recuperação de ex-
dos trabalhos agrícolas, e, como já dissemos, nas ven- certos esquecidos. Frequentes vezes, ao estudar as no-
das, nas funções ou funçanadas, no terrado da feira, tas das nossas recolhas, nos confrontávamos com a
no arraial, em casamentos, baptizados, aniversários, perplexidade de saber acerca das composições reco-
etc. Para algumas destas actividades chegam a convi- lhidas qual era a versão original e qual era a varian-
127
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

te. Quando junto do autor procurávamos destrinçar sem a presença visível desses sinais gráficos, a apreen-
entre original e variante obtínhamos um sorriso con- são do sentido dos textos só será possível – e mesmo as-
descendente e a esperança que um dia mais soalheiro sim com algumas dificuldades e não menos deficiências
permitiria ajudar a restabelecer a ordem nas dúvidas – mediante leituras várias, um grande esforço de concen-
que o nosso trabalho suscitava. Não obstante, a me- tração e um afincado trabalho de análise o que, como é
mória prodigiosa que o poeta Manuel José Santinhos óbvio, está fora do alcance do leitor comum!10
revela é, em nosso entender, um caso excepcional.9
Mas é no «Prefácio» ao corpus poético que Tei-
III. ga explana toda a pesquisa desenvolvida em tor-
No ano de 2000, Dr. Carlos Teiga, edita, em edi- no da vida e obra do poeta em causa, chamando
ção de autor, o livro Poesia popular de terras de a atenção para o
Santiago, onde divulga um corpus textual que cor-
re entre o romanceiro e a poesia popular. Das cerca [...] aliciante pelo que ela ressuma a diferente e a
de 360 páginas, 200 são dedicadas ao poeta Ma- novo.11
nuel José Santinhos.
O Dr. Carlos Teiga é professor de português apo- Tal novidade é, em grande parte, motivada pelo
sentado e desde há alguns anos que dedica-se à re-
colha e ao estudo da literatura tradicional do su- [...] “achamento” de estruturas poéticas novas, di-
doeste alentejano. ferentes, e que são, em muito, criação do nosso po-
A parte referente ao poeta do Tojal divide-se entre eta do Tojal. Estão neste caso as quadras ou déci-
uma advertência, um prefácio, o corpus reunido, um mas de 40 pontos em verso longo – 10 a 14 sílabas
glossário e um anexo onde respiga de um caderno métricas – e que apresentam (imagine-se!) dupla ce-
manuscrito algumas composições. O corpus é divi- sura e triplo esquema rimático, e ainda, as quadras
dido da seguinte forma: quadras sem mote, quadras de 60 pontos que exibem um esquema rimático que
com mote (em verso curto), quadras com mote (com é pura criação sua! E, como se isto não bastasse,
dupla cesura e triplo esquema rimático), quintilhas vai aplicar o esquema dos versos longos com dupla
sem mote, sextilhas sem mote, sextilhas com mote, cesura e triplo esquema rimático a uma sequência
quadras de 40 pontos (em verso curto), quadras de de quatro quadras ou de quatro estrofes de 4 pon-
40 pontos (e em verso longo com dupla cesura e tri- tos sujeitas a mote! Não admira, pois, que esta sen-
plo esquema rimático), quadras de 60 pontos. sação de novidade e de diferença se consolide e se
Na «Advertência», Carlos Teiga define o méto- aprofunde quando confrontamos a poesia do nosso
do de trabalho que empregou poeta com a dos outros poetas populares – poesia
essa que pulula por aí, saída da boca ou da pena
[...] interessou-nos sobretudo revelar os poemas en- de tantos e tantos poetas populares, antigos e mo-
quanto textos literários, admitindo, no entanto, que es- dernos, já falecidos ou ainda vivos, e que, de facto,
ses mesmos textos possam ser objecto de miradas dife- não ombreiam com o nosso poeta no tocante às ex-
renciadas, segundo critérios específicos das várias disci- celências da sua arte de poetar: nem quanto à lírica
plinas das ciências humanas. Por isso, não nos repugna singeleza do seu pensamento poético nem quanto
aceitar a impressão tipográfica dos poemas tal como eles à novidade das estruturas formais únicas, ímpares,
apareceram numa edição saída há poucos anos atrás, que o seu talento de artista forjou!12
embora cientes e convictos de que esse procedimento é,
de facto, fortemente redutor quanto à possibilidade da Perante tal observação e após uma análise do cor-
clara e integral compreensão deles. Assim, só alguém, pus, Teiga conclui
munido de alguma competência literária, estará apto a
captar o sentido pleno dos poemas sem que haja, como [...] ficou-nos a convicção de que estamos perante
suporte de leitura, um único sinal de pontuação! Ora, o poeta popular mais autêntico e mais talentoso de
128
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

quantos alguma vez proliferaram por estas terras se estes dois exemplos: em Janeiro de 1963, dá-
alentejanas. Poeta popular que o é no sentido me- se uma tragédia na Lagoa de Santo André. Uma
dular do termo porque campesino por nascimento, onda causa a morte de dezassete pescadores, na
por vivências e por cultura; porque se expressa a praia. Tragédia terrível numa pequena comunida-
si próprio e ao mundo que o rodeia dando apenas de piscatória. Manuel José Santinhos faz – ou pe-
voz à sua cultura de raiz, às emanações expontâne- lo menos sobreviveram – dois textos: um é uma
as dum atavismo rural secular, “às murmureias” fi- quadra de 40 pontos com cesura e o outro é uma
losóficas da aceitação agrilhoada a um destino que quadra de 60 pontos. Vítor Bastos separa-os for-
não pediu mas que lhe calhou em sorte.13 malmente. A quadra de 40 pontos relata o aconte-
cimento18. A quadra de 60 pontos evoca os nomes
Dois anos depois, o mesmo investigador, em «No- dos pescadores afogados19. Ora, a separação des-
tas breves» à recolha dedicada aos dois irmãos poe- tes dois textos faz perder o sentido que motivou a
tas grandolenses de nome Guerreiro, aproveita pa- sua construção.
ra não só construir uma crítica ao livro Poetas de O segundo exemplo é o suicídio de Vitalina San-
cá14 e à atribuição autoral de alguns textos a poe- tinhos [n. Santo André:1938 – m. Santo André:1957], filha de
tas de Portel15, como para voltar ao poeta do To- Manuel José Santinhos e de Luísa Pereira. Manuel
jal, ajuntando-lhe mais algumas informações, on- José Santinhos faz a este propósito alguns dos mais
de a mais importante é a ligação ao fado como su- pungentes poemas, as chamadas quadras à campa.
porte construtivo das quadras de 40 pontos (e em A sua pulverização leva a que a força que o con-
verso longo com dupla cesura e triplo esquema ri- junto lhes dava se reduza20. Mas a estes exemplos
mático)16. poderíamos ajuntar os textos relativos à expro-
priação das terras pelo Gabinete da Área de Sines,
IV. ou aqueles outros que se referem à sua estada no
Não importa, agora, analisar as conclusões a que Centro de Dia «O Moinho».
chegou Carlos Teiga, uma vez que é o único que in- Um outro aspecto que importa reter é a diferen-
tentou desenvolver algumas hipóteses explicativas te estratégia em relação à edição dos textos. A an-
sobre a obra deste poeta; importa, antes, perceber tologia de 1991 assume
algumas premissas base que estão nos trabalhos de
1991 e de 2000. A ausência de pontuação fica a dever-se ao facto de
A leitura da organização do corpus mostra que o Poeta, que é iletrado, não a praticar.21
houve em ambos os trabalhos um arrumo por estro-
fes e por tipos de glosas. No trabalho de Bastos e Ro- Criticando esta posição, Carlos Teiga escreve
drigues, entre cada tipo houve um arrumo alfabético.
No trabalho de Teiga houve um arrumo cronológico, Ora, sem a presença visível desses sinais gráficos,
ficando para o fim os textos não datados. a apreensão do sentido dos textos só será possível
A inexistência de critérios organizativos por con- – e mesmo assim com algumas dificuldades e não
teúdos e a não inclusão dos fundamentos, premissa menos deficiências – mediante leituras várias, um
fundamental postulada no livro de Modesto Navar- grande esforço de concentração e um afincado tra-
ro17, levou à perda de informação, sofrendo os tex- balho de análise o que, como é óbvio, está fora do
tos um alinhamento que os retira das constelações alcance do leitor comum!22
a que pertencem. Claro que é complexo a organi-
zação de um corpus, mas é na sua estruturação, e Quer a organização do corpus, quer a forma de
nas chamadas de atenção, que está o princípio cla- o editar, importa. De interesse é também reflectir
rificador da obra. sobre as posições que cada um toma em relação
Nos corpus publicados, localizam-se textos que não só à importância da salvaguarda das obras dos
fazem parte de uma mesma constelação. Vejam- poetas populares, e em particular do poeta do To-
129
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

jal, como do olhar que sobre este é construído em Um outro ponto a que importa fazer referência é
ambos os autores. a pontuação. Se Vítor Bastos e Celeste Rodrigues
A leitura mostra que ambas as posições são optaram pela não inclusão de qualquer sinal orto-
coincidentes. Manuel José Santinhos surge sem- gráfico, Carlos Teiga procurou construir uma pon-
pre como analfabeto, preso a uma cultura oral tuação. A discussão em torno do acto de pontuar
que o amarra a um sítio que é imóvel e estanque textos recolhidos oralmente é antiga, tendo já da-
às transformações e possui uma aceitação abnega- do azo a alguma polémica em Portugal23. Torna-se
da do que o destino lhe ditou. Não estamos, pois, antes necessário pensar nos objectivos que se pre-
distantes do que, cem anos antes, Tomás da Fon- tendem atingir e naquilo com que o colector se jul-
seca ou Guerra Junqueiro pensaram e escreveram ga apetrechado.
sobre António Maria Eusébio, de Setúbal, ou Ma- A análise da localização ortográfica usada por
nuel Alves, de Vale do Boi. Não queremos com is- este último investigador, mostra uma perturbação
to afirmar que os contextos não se alteraram. A textual profunda, pois afasta estes textos quer do
visão permanece idêntica devido, não só, à pouca sentido, quer da norma de construção que lhe esta-
expressão de trabalhos sobre poetas e poesia po- va subjacente. O caso mais paradigmático é a pon-
pular que procuram novas abordagens, mas tam- tuação usada nas quadras de 60 pontos, onde os
bém porque se manteve um determinado olhar ain- trísticos praticamente desaparecem, dando lugar a
da muito enquistado em fórmulas românticas de uma grande confusão conteudística. E tal pontua-
analisar estas formas de construção textual. Os ção, inclusive, afasta-se das normas de dicção que
aspectos político-culturais são diferentes, mas o Santinhos lhe dava ou que informava quem lia: de-
olhar manteve-se em muito idêntico: constrói-se ver-se-iam ler de três em três pontos, e depois pro-
uma hipótese e modela-se a realidade para que es- ceder a uma paragem. Aliás, encontrámos em al-
ta se adapte a ela. gumas destas estrofes uma marca gráfica, um pon-
Quanto aos suportes que cada um usou nessa to, de três em três versos. Julgamos, pois, muito
mesma recolha, as edições mostram diferentes es- mais honesto, a não inclusão de pontuação, e jun-
tratégias. Vítor Bastos e Celeste Rodrigues usa- tar a informação de como se dividem estas estro-
ram extensamente o gravador, até porque não ha- fes no momento da verbalização, já que existem re-
via muitos textos manuscritos ou dactiloescritos. gras bastante fixas e que se repercutem (e são re-
Carlos Teiga, terá usado – pensamos – muito pou- percussão!) na sua feitura.
co o método da gravação áudio, recorrendo exten- É necessário, também, chamar a atenção para o
samente a cadernos manuscritos onde, ao longo da facto de Manuel José Santinhos ter mais de oiten-
década de noventa, amigos e admiradores fixaram ta anos quando começa a ser território de trabalho
os poemas do poeta do Tojal. A revisitação por nós para colectores, pelo que, também por isso, gran-
efectuada aos textos de Manuel José Santinhos e de parte da sua obra estava já irremediavelmente
a sua confrontação com os possíveis originais evi- perdida ou parcialmente esquecida. Por outro la-
dencia isto mesmo. A forma de fixação textual pe- do, muitos dos contextos ou poetas e cantadores
la qual um e outro optaram é de variável confian- com quem partilhou estas performances já tinham
ça. Muitos dos textos recolhidos e publicados por morrido ou estavam afastados por diversos moti-
Vítor Bastos mostram uma demasiada rapidez na vos. E estamos a falar de um homem velho, que
fixação e edição. Por outro lado, Teiga trabalha os embora ainda estivesse intelectualmente apto, as
poemas com mais cuidado, embora não tenha em suas capacidades poéticas tinham há muito perdi-
conta uma crítica muito atenta dos textos que re- do o exercício quotidiano.
colheu, e que estão alterados, muitas vezes, por um Torna-se também importante referir que as cam-
intermediário. Do mesmo modo, não entendendo panhas de recolha na década de oitenta e na dé-
algumas vezes as letras, ou seja o texto escrito, co- cada de noventa caem em momentos biográficos
loca palavras sem sentido entre aspas. muito diferentes. Na década de oitenta, Manuel
130
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

José Santinhos é ainda um lavrador. Na década de v.


noventa, o poeta do Tojal já é viúvo e não trabalha A obra de Manuel José Santinhos resistiu até hoje a
a terra, passando o seu tempo no Centro de Dia«O uma explicação, devido não só à extrema particulari-
Moinho». E isto implica outros factores, pois não zação e encerramento da construção que foi feita so-
só a sua poesia torna-se diferente como passa a ser bre o poeta, mas também porque o método de abor-
suportada pela escrita e não pela memória. dagem que sobre ele foi sendo produzido não se re-
Aliás, é durante a década de noventa que Santi- novou. Construções e olhares herdados do século xix
nhos cria uma rede de «escribas» que lhe vão fi- e banalizados a partir de uma vulgata científica im-
xando os textos em papel. Saliente-se o papel de pediram um olhar crítico que, em vez de o puxarem
uma funcionária deste Centro de Dia (Alzira), cuja para o presente e para algo dinâmico, o empurra-
função era muitas vezes escrever os poemas do po- ram para o passado, para uma noção de imóvel, pa-
eta. ra uma versão simplista da tradição e de cultura po-
Se reflectirmos sobre os corpus reunidos, pode- pular. De alguma forma, através de Santinhos, estes
mos considerar que as questões acima referidas autores mais não fizeram do que projectar uma vi-
mostram até que ponto o momento biográfico in- são empírica da paisagem agrícola alentejana no po-
flui nos textos que o poeta nos legou. O espaço de eta do Tojal: a oralidade prístina de Santinhos mais
Santinhos deixa de ser aberto, algo que é profundo não é do que a metáfora do atraso da nossa econo-
no primeiro corpus, para ser fechado, o que cons- mia agrícola.
titui uma presença constante no segundo corpus. É Importa, então, analisar os «ruídos» ou disso-
entre este «aberto» e «fechado» que oscila a obra nâncias que estão presentes na obra de Manuel Jo-
reunida em 1991 e em 2000. sé Santinhos, o poeta do Tojal.

NOTAS

1 Bastos Rodrigues 1991. balhar séria e extensamente com poe- são de nomes de montes idênticos ou
2 Marques 1993: 145. tas populares, será confrontado cons- de variantes desse mesmo nome. Por
3 Teiga 2000: 7-210. tantemente com a difícil atribuição de último, não são as quadras que defi-
4 Teiga 2002: 34-39. um texto a um autor, e sem falar dos nem o autor, mas sim os fundamen-
5 Bastos & Rodrigues 1991: 15. textos que se entroncam noutros, as- tos, experiência de vida que muitas
6 Bastos & Rodrigues 1991: 16. sim como é errado transportar noções vezes utiliza textos alheios para vei-
7 Bastos & Rodrigues 1991: 18. autorais rígidas para estes grupos so- cular uma dor, uma perda, uma pai-
8 Bastos & Rodrigues 1991: 19. ciais, onde a noção individual de au- xão, um carinho, uma revolta. No
9 Bastos & Rodrigues 1991: 20. tor é, em muitos aspectos, inexistente fundo, um esqueleto de palavras on-
10 Teiga 2000: 8. ou bastante fluida. Se o entrevistado de se agarra a carne do quotidiano,
11 Teiga 2000: 11. assume o texto como seu, o colector, prenhe vivencial que a edição textual
12 Teiga 2000: 11. por respeito, deverá assumir essa po- mata quando amputa a estes textos os
13 Teiga 2000: 26. sição, não invalidando isto a constru- fundamentos.
14 Lima 1994. ção de uma crítica textual com refe- 16 Teiga 2002: 37-39.
15 O Dr. Carlos Teiga critica uma atri- rências à dispersão desse mesmo tex- 17 Navarro s. d.
buição feita por nós a dois textos, to. Por fim, ter uma resposta a uma 18 Bastos & Rodrigues 1991: 74.
fazendo uma referência muito pou- quadra não implica ser o autor de am- 19 Bastos & Rodrigues 1991: 176.
co educada: «Infelizmente há sempre bas as quadras, assim como uma re- 20 Bastos & Rodrigues 1991: 44, 94 ou
quem queira engalanar as suas pobres ferência toponímica não é por si ele- 174.
penas de gralho, vestindo, despudora- mento redutor da propriedade textu- 21 Bastos & Rodrigues 1991: 11.
damente, penas de pavão de talentos al: basta consultar o Reportório topo- 22 Teiga 2000: 8.
alheios!» Teiga 2002: 39. Quem tra- nímico de Portugal para ver a disper- 23 Sousa 1997: 141-156.
131
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

O NOIVADO DO SEPULCRO, Não interessa aqui criticar o método de trabalho (nem


DE SOARES DE PASSOS os conceitos que o suportam) utilizado por Teiga nesta
análise; importa antes perceber como surge tal balada.
I. Deve-se também a este investigador a descrição da recep-

A
S dissonâncias presentes na obra de Manuel Jo- ção desta balada ultra-romântica pelo poeta do Tojal
sé Santinhos são duas: a primeira é um núcleo
de textos que podemos situar como românti- [...] sendo ele jovem aí pelos 15/16 anos, na feira de San-
cos ou ultra-românticos; a segunda é o tipo de estro- to André, comprara uma dessas folhas que os vendedo-
fes e de esquemas rimáticos a que este recorre para as res ambulantes negociavam a preço de pataco e, nela
suas composições poéticas. impressa, o poema “O Noivado do Sepulcro” de Soares
Iremos, por agora, analisar a primeira dissonância: de Passos; e o nosso poetazito do Tojal pediu a alguém
os textos românticos ou ultra-românticos. que o lesse e logo ali, ouvindo-o extasiado, o gravou, e
para sempre, na memória. E ainda hoje diz os versos ini-
II. ciais do poema e já lá vão quase oitenta anos!3
Ao percorrer-se o corpus reunido deste poeta, mui-
tos são os textos de difícil atribuição. Não porque ele Numa das entrevistas efectuadas4, Manuel José Santi-
conferisse paternidade a obras alheias1, mas porque nhos resou e cantou com batida de fado(?) sete dos deza-
nunca houve um verdadeiro inquérito sobre a origem nove quartetos de «O noivado do sepulcro». O contex-
de cada texto versificado ou sobre os fragmentos que to da aquisição deste folheto recolhido por nós é em tudo
ele entroncou em obras suas. E se há textos em que fa- idêntico, nos traços gerais, ao recolhido por Carlos Teiga,
cilmente podemos percepcionar uma aprendizagem, embora este, infelizmente, não o descreva de forma muito
noutros tal será muito difícil, pois surgem-nos como minuciosa. Sabemos que o folheto (ou folhetos) foi adqui-
fragmentos entroncados em poemas que sabemos es- rido por um grupo de jovens moirais, entre os quais esta-
tarem ligados à sua biografia. va Santinhos, e que, aquando da compra, não estava a ser
O exemplo mais interessante é o «O noivado do se- cantado. Santinhos ouvirá posteriormente este texto can-
pulcro», pelo que se pode desocultar para a história tado por um desses moirais e será nessa batida que a can-
do fado e do objecto impresso no Alentejo. tará oitenta anos depois. Importa referir que este não rete-
Deve-se a Carlos Teiga a chamada de atenção pa- ve a identidade do vendedor de folhetos.
ra a presença desta balada na obra Santinhos. A par- Infelizmente, Teiga não recolheu (ou pelo menos
tir de um inventário do vocabulário praticado por es- não editou) o fragmento que ouviu a Santinhos, em-
te poeta nas suas composições, este investigador deu- bora nos informe que este só se recordava do início.
se conta de Não sabemos, assim, quantos quartetos ouviu.
A lição dada por Santinhos, cujo fragmento fixámos,
[...] uma área vocabular muito diferente, por mais es- e a 2.ª edição desta balada, datada de 1858, que consul-
peciosa e mais culta: a área vocabular ultra-romântica támos, são praticamente idênticas, basta cotejá-las nas
dos fins do século passado inícios do presente século!2 estrofes que Santinhos ainda retinha em 2000
132
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

NOIVADO DO SEPULCRO O NOIVADO DO SEPULCHRO BALLADA


[lição de Manuel José Santinhos]

Vai alta a lua na mansão da morte Vae alta a lua! na mansão da morte
Já meia noite com vagar soou Já meia noite com vagar soou;
Que paz tranquila nos vaivéns da sorte Que paz tranquilla dos vaivens da sorte
Só tem descanso quem ali baixou Só tem descanço quem alli baixou.

Que paz tranquila mas ao longe ao longe Que paz tranquilla!... mas eis ao longe, ao longe
Funérea campa com fragor rugiu Funerea campa com fragor rangeu;
Branca fantasma semelhando em monge Branco phantasma, semelhando um monge,
Entre os sepulcros a cabeça ergueu D’entre os sepulcrhos a cabeça ergueu.

[...] Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste


Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cypreste,
O mocho pia na marmorea cruz.

Ergueu-se ergueu-se com sobre espanto Ergueu-se, ergueu-se! Com sombrio espanto
Olhou em roda não achou ninguém Olhou em roda... não achou ninguem...
Por entre as campas arrastando o manto Por entre as campas, arrastando o manto,
Em lentos passos caminhou além Com lentos passos caminhou alem.

E chegando perto duma cruz alçada Chegando perto d’uma cruz alçada,
Que entre os sepulcros alvejava ao fim Que entre os cyprestes alvejava ao fim,
Parou-se sentou-se com voz magoada Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim Os echos tristes acordou assim:

Mulher formosa que adorei na vida «Mulher formosa que adorei na vida,
A que na tumba não cessei de amar «E que na tumba não cessei d’amar,
Porque atraiçoas desleal desmentida «Porque atraiçôas desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar «O amor eterno que te ouvi jurar?

Amor engano que na campa finda «Amor! Engano que na campa finda,
Entre os antigos[?] da ilusão falaz «Que a morte despe da illusão fallaz:
Quem de entre os vivos se lembrará ainda «Quem d’entre os vivos se lembrára ainda
Do pobre morto que na terra jaz «Do pobre morto que na terra jaz?

Abandonado neste chão repousa «Abandonado n’este chão repousa


Há já três dias e não vens aqui «Há já tres dias, e não vens aqui...
Ai que pesada me tem sido a lousa «Ai quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti «Sobre este peito que bateu por ti!
133
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

[...] «Ai quão pesada me tem sido!» e em meio,


A fronte exhausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

[...] «Talvez que rindo dos protestos nossos,


«Goses com outro d’infernal prazer;
«E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos
«Na fria terra, sem vingança ter!

[...] — «Oh nunca, nunca!» de saudade infinda


Responde um echo suspirando alem...
«Oh nunca, nunca!» repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

[...] Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas,


Longas roupagens de nevada côr;
Singela c’rôa de virgeneas rosas
Lhe cerca a fronte d’um mortal pallor.

[...] «Não, não perdeste meu amor jurado:


«Vês este peito? Reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
«Mas inda pulsa com amor por ti.

Feliz que pude acompanhar-te até fundo «Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
[...] «Da sepultura, succumbindo á dôr:
Deixei a vida... que importava o mundo, «Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do mundo «O mundo em trevas sem luz do amor?

[...] «Saudosa ao longe vês no céu a lua?


— «Oh vejo, sim... recordação fatal!
— «Foi á luz d’ella que jurei ser tua,
«Durante a vida, e na mansão final.

[...] «Oh vem! Se nunca te cingi ao peito,


«Hoje o sepulchro nos reúne emfim...
«Quero o repouso do teu frio leito,
«Quero-te unido para sempre a mim!»

[...] E ao som dos pios do cantor funereo,


E á luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio
Foi celebrado, d’infeliz amor.
134
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

[...] Quando risonho despontava o dia,


Já d’esse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vasia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

[...] Porém mais tarde, quando foi volvido


Das sepulturas o gelado pó,
Dous esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados n’um sepulchro só.

Prova, pois, que o texto a que este teve acesso O «povo» adoptava (e adaptava) a poesia ultra-ro-
através de um folheto por volta de 1920, na feira mântica e, ao mesmo tempo, fazia seus os temas. E
de Santo André, era a balada de Soares de Passos não apenas o «povo»: «o ultra-romantismo propa-
na versão original, e não um apócrifo ou uma ver- gou-se das letras para as famílias burguesas dando-se
são carnavalizada. na nação o singular fenómeno da perda do senso do
Santinhos considerava que este fado tinha ver- ridículo» – informa-nos ainda Teófilo.
sos muito bonitos e o seu autor seria um poeta de Pois o «Noivado do Sepulcro» encontra o seu cor-
grande valor. Fundamentava, depois, a razão da respondente, com outro escandir de versos, no lú-
compra do folheto no desejo de querer saber o que gubre, amoralhudo e inconcebível «Fado do Rol-
os outros poetas diziam, lamentando, por fim, ter dão», que sobrelevaria o mais conseguido humor
«deixado esquecer os versos». negro surrealista se não fosse apenas uma perver-
A importância da localização deste texto no cor- são alambicada.
pus de Santinhos é fundamental: mostra que até à
década de vinte, pelo menos, a balada de Soares Nas frias e negras campas
de Passos circulou, e circulou impressa; que embo- onde tudo é cinza e pó
ra o não ouvisse cantado, imediatamente foi asso- ouviam-se os esqueletos
ciada ao fado; e, também, que é um texto funda- cantando o fado liró.
mental na vida criativa deste autor, como bem su-
blinha Carlos Teiga. [...]

II. Debaixo das tuas asas


Esta balada, da autoria daquele que é considera- meu anjo presta-me abrigo!
do por muitos o único poeta ultra-romântico por- quando ao céu te remontares,
tuguês, o portuense António Augusto Bernardo quero também ir contigo.5
Soares de Passos [n. Porto:1826 – m. Porto:1860], será, por
finais do século xix e inícios do xx, um dos fados Mas também os estudantes coimbrões parodia-
à campa de maior circulação, cantado e impresso, ram esta balada. César das Neves divulga uma ver-
com graus de maior ou menor fidelidade ao tex- são que corria por volta de 1860 pela universida-
to original de

O «Noivado do Sepulcro» de Soares dos Passos, reve- Vae alta a noite na mansão do estudo,
la-nos Teófilo Braga, era cantado numa melopeia que Triste relogio duas horas dá!
o vulgarizou entre o povo, pelas ruas, em noites de Oh! que saudade do folgar das ferias
luar, deturpado «pelos mais deploráveis plebeismos». Soffre o que em livros sepultado está!
135
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Oh! que saudades... mas não há remedio Trataram eles de responder


Que já do exame o cruel mez volveu: Nós não vamos a seu mando
Um pobre cabula esfregando os olhos Dançando de quando em quando
Por entre livros a cabeça ergueu! E cada vez com mais parota[?]
Hoje aqui ninguém nos derrota
Ergueu-se, ergueu-se, sobre a vasta meza Só se for do céu o Senhor
Onde um candieiro reflecte a luz; Cada vez com mais valor
Um leito fôfo que se ostenta proximo DANÇANDO A POLCA JANOTA
Ao meigo somno tentador seduz!
[...]6 Quando a aurora rompeu
Veio um anjo à chegada
A transformação da balada em texto de fado te- Tocando à retirada
ve grande sucesso, não só na sua difusão como nas Tudo à campa desceu
paródias fadistas que sobre ela se construíram. Ve- Ficou o coveiro mais eu
ja-se este fado recolhido junto de João Rato, em Ficámos muito admirados
Santana (Portel) Antes ficámos pasmados
Por ver tão linda brincadeira
DEBAIXO DAS CAMPAS SURGINDO Dançando uma noite inteira
VI DOIS ESQUELETOS MIRRADOS SOBRE A TERRA DOS FINADOS7
DANÇANDO A POLCA JANOTA
SOBRE A TERRA DOS FINADOS III.
A presença desta balada na obra memorialista
Ó Alto de São João de Manuel José Santinhos, e a referência explícita
E já lá passei uma noite só a ser cantada em fado(?), mostra não só a circula-
E ouvi bailar o solidó ção de objectos impressos e a sua importância no
Ali naquela ocasião mundo considerado oral, como permite uma dis-
Eu disse para mim então cussão em torno dos intermediários culturais. Veja-
Aqui são mais dias findos se este fado, que mostra sem reticências uma ori-
Vendo os defuntos saindo gem lisboeta e fadista
Das sepulturas celestes
Nas sombras dos ciprestes NUMA DAS MINHAS VIAGENS
DEBAIXO DAS CAMPAS SURGINDO PASSEEI NUMA CIDADE
E QUIS IR À RUA DA SORTE
O coveiro que acordou MAS ENGANEI-ME NAS PASSAGENS
Ao som da música bela DEIXEI O LARGO DA SAUDADE
Assomando pela janela E FUI PARA A TRAVESSA DA MORTE
Esperam lá que eu já lá vou
Hão-de saber quem eu sou Tive um prazer de encantar
Ó defuntos malcriados Quando por meu encontrei
Agora vão ser fechados Bom sol e boas aragens
Debaixo da terra fria E pus-me então a apreciar
Dançando com alegria As delícias que eu gozei
VI DOIS ESQUELETOS MIRRADOS NUMA DAS MINHAS VIAGENS

O coveiro se foi aproximando Ainda tenho lembranças


Para no jazigo os ir meter De estar na estação da espera
136
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

E no templo da Virgindade Vão moças de sul a norte


E passar aos Campos da Esperança Namorei virgens das dores
Quando em minha primavera Atraído pela desgraça
PASSEEI NUMA CIDADE E FUI PARA A TRAVESSA DA MORTE

Estive em pensão Terra e Mar A afirmação deste texto, a balada de Passos, na


Na freguesia Defeso construção futura de outros poemas deste poeta
E no cruzamento Mau Porte popular, mostra até que ponto a circulação de ob-
Vim do bairro do Azar jectos, em voz ou impressa, é fundamental. Impor-
Na calçada do Desprezo ta, pois, analisar este incorporamento textual nou-
E QUIS IR À RUA DA SORTE tras dimensões que não só os desvios da substância
de sentido que as palavras transportam como faz,
Num restaurante Maré infelizmente, Carlos Teiga. É na manipulação, na
No cimo de uma tribuna procura e na nova construção que reside uma das
Vi as mais lindas imagens potencialidades da obra poética. E aí Santinhos
Quis ir ao Retiro da Fé mostrou ser um grande poeta.
E ao mosteiro da Fortuna Mas a localização desta balada permite, tam-
MAS ENGANEI-ME NAS PASSAGENS bém, reflectir sobre o fado. Situá-la no universo
deste mostra como se «fez mão», muito antes de
Nessa viagem que vim Amália Rodrigues, de textos que não foram escri-
Avistei muitos haveres tos para fado, adossando a este autores ditos eru-
Mas não vi sinceridade ditos, e muitas vezes parodiando-os. No fundo,
Para o hospital Bom Fim tornando-os populares.
E o cemitério dos Prazeres Mas a presença do fado não se faz apenas atra-
DEIXEI O LARGO DA SAUDADE vés da incorporação desta balada em Santinhos,
pois que, à excepção(?) do despique, todas as
Estive na fonte dos Amores composições estróficas têm como matriz a can-
A essa fonte e à praça ção nacional.

NOTAS

1 Importa clarificar que a noção de 3 Teiga 2000: 14. 6 Neves 1893: 124.
autoria na poesia popular está por 4 Entrevista, em DAT, de 1 de Julho de 7 Lima 1994: 324.
trabalhar. 2000, feita no Monte do Tojal.
2 Teiga 2000: 13-14. 5 Osório 1974: 56-57.
137
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

AS SINGULARES ESTROFES aí, saída da boca ou da pena de tantos e tantos poetas


DO POETA DO TOJAL populares, antigos e modernos, já falecidos ou ain-
da vivos, e que, de facto, não ombreiam com o nosso
I. poeta no tocante às excelências da sua arte de poetar:

O
que mais tem prendido a atenção daqueles nem quanto à lírica singeleza do seu pensamento po-
que ouviram, leram ou estudaram a obra de ético nem quanto à novidade das estruturas formais
Manuel José Santinhos é a sua singularida- únicas, ímpares, que o seu talento de artista forjou!2
de. A poesia popular no Alentejo e Algarve caracteri-
za-se pelo quarteto ou pela glosa em décimas, à par- É então necessário inventariar com alguma mi-
te de uma ou outra variante, geralmente enquistada núcia estas estruturas formais.
no improviso.
A maior parte das estrofes do poeta de Santo An- II.
dré, pelo contrário, segundo os autores que o estu- As estruturas formais que Manuel José Santinhos
daram ou que sobre ele redigiram alguma notícia recorre ao longo da sua obra percorrem um aro que
fogem a todos os modelos conhecidos. vai dos modelos mais comuns aos modelos mais sin-
Carlos Teiga, aquele que mais o estudou1, e cujo gulares e complexos. Importa descrevê-las
texto é o mais extenso, não cala este espanto ao
escrever ESTROFES GLOSADAS
I. QUARTETO GLOSADO EM QUATRO DÉCIMAS [qua-
Outro aspecto há que prende e suspende a nossa dras de quarenta pontos ou de ponto cheio, quadra
atenção de leitores habituais de poesia popular: é o de 40 pontos com mote de um só ponto]. O quar-
“achamento” de estruturas poéticas novas, diferen- teto-mote pode surgir em três formas rimáticas: du-
tes, e que são, em muito, criação do nosso poeta do as rimas cruzadas [ABAB], uma só rima cruzada [AB-
Tojal. Estão neste caso as quadras ou décimas de 40 CB], repetindo o mesmo verso [AAAA]; a glosa é a dé-
pontos em verso longo – 10 a 14 sílabas métricas – e cima [ABBAACCDDC]
que apresentam (imagine-se!) dupla cesura e triplo es-
quema rimático, e, ainda, as quadras de 60 pontos LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
que exibem um esquema rimático que é pura criação LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
sua! E, como se isto não bastasse, vai aplicar o esque- LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
ma dos versos dos versos longos com dupla cesura e LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
triplo esquema rimático a uma sequência de quatro
quadras ou de quatro estrofes de 4 pontos sujeitas a Filhos meus olhem por mim
mote! Não admira, pois, que esta sensação de novi- Que eu já por vocês olhei
dade e de diferença se consolide e se aprofunde quan- Ganharão o que eu ganhei
do confrontamos a poesia do nosso poeta com a dos Que a nossa vida é assim
outros poetas populares – poesia essa que pulula por Tem que haver princípio e fim
138
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Ninguém sabe o sim ou não SOU INFELIZ CAÇADOR | DE CAÇA BRAVA


E esses que eu beijava a mão O SEU DESTINO É CAÇAR | SOFRE MARTÍRIOS
Sempre o hei-de lembrar ASSIM PASSA OS SEUS DIAS | TRISTEMENTE
Não haja que murmurar PELOS CAMPOS A ANDAR | DANDO SUSPIROS
LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
Sendo muito envicionado | em ir à caça
A sua graça me ilude Eu emprego muito dia | neste fim
O seu abraço e o beijo Já vou tendo agonia | mesmo a mim
E dos pais o maior desejo Com respeito a resultado | é uma desgraça
É que os filhos tenham saúde A esse vício malvado | não sei que faça
Como eu já fiz o que pude Se não fosse este traidor | não me maçava
Seria a minha obrigação Tanto frio tanto calor | eu não apanhava
Lavrei e cavei o chão Se não fosse a ilusão | atentadeira
Mas esse tempo já lá vai Como esta triste ambição | de cegueira
Nunca esqueçam mãe e pai SOU INFELIZ CAÇADOR | DE CAÇA BRAVA
LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
Enfluído na caçada | sai o fulano
Foram todos pequeninos Doutro governo não quer saber | abala cedo
Quando à luz apareceram A ver se consegue fazer | o gosto ao dedo
Dos seus pais tanto sofreram Mas volta para a casa sem nada | grande engano
Para criarem seus meninos Com sua enorme espingarda | só dum cano
Sem condições para os ensinos Que o seu gosto é atacar | e soltar tiros
Ës vezes nem um tostão Muitas vezes sem vagar | e neste giros
A mais necessidade era o pão E às vezes um bom patrício | perde-se aqui
E o leite da mãe e do gado Porque o maldito vício | manda em si
Ao recordar o passado E COMO O SEU DESTINO É CAÇAR | SOFRE MARTÍRIOS
LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
Um homem ouve falar | lebres de fama
Houveram lágrimas choradas Mas só vê esta caçazinha | que anda baixa
Quando não se fiavam dele Faz fogo a alguma rolinha | ou cartaxa
Pediu a este e àquele Porque isso de lebre é má de empiolar | sem ser na cama
E perdendo algumas passadas Se um homem dá em errar | exclama
Um pai que lhe não deu pancadas Ao depois das heresias | é que sente
Talvez não tenham razão Perde as suas alegrias | de repente
Quem lutou de Inverno e Verão Sua mágoa e fraqueza | o condena
Ao querer-lhe indicar bom caminho E em momentos de tristeza | dá-lhe pena
Não lhe neguem seu carinho QUE ASSIM PASSA OS SEUS DIAS | TRISTEMENTE
LEMBREM-SE DA CRIAÇÃO
Gasta os seus capitais | em chumbo e pólvora
II. QUARTETO COM CESURA GLOSADO EM QUATRO Em tirar os seus documentos | para ter fiança
DÉCIMAS COM CESURA. O quarteto é composto por Sem ter porte de armamentos | e licença
dois hemistíquios por verso e surge na seguinte De sair com os seus animais |
forma: uma só rima cruzada [AA’BB’CC’BB’] ; a glo- São umas roubalheiras tais | que não aprova
sa é a décima espineliana com cesura, permi- Para quem não pode alcançar | outros delírios
tindo duas rimas espinelianas [AA’BB’BB’AA’AA’C E sem poder empregar | esses viros
C’CC’DD’DD’CC’] E não podendo resistir | tanta lida
139
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Quando sai para distrair | pensa a vida Eu não sei | se sou sério | ou se há pecados
E VAI PELOS CAMPOS A ANDAR | DANDO SUSPIROS Eu querer bem nosso | estar vivendo | será ruim
Não posso | ficar sabendo | o meu fim
IIA. QUARTETO DE DUPLA CESURA GLOSADO EM QUA- CHOREI | NO CEMITÉRIO | DOS FINADOS
TRO DÉCIMAS DE DUPLA CESURA [quintilhas]. O quar-
teto é composto por três hemistíquios por verso e A querer perdão | dos bravos perigos | desta rota
pode surgir nas seguintes formas: duas rimas cru- Que se não cala | é porque a vasa | não contenta
zadas, permitindo três rimas [AA’A’’BB’B’’AA’A’’BB’B’’], Quem lhe fala | é da casa | dos noventa
uma só rima cruzada [AA’A’’BB’B’’CC’C’’BB’B’’]; a glosa é Atenção | caros amigos | tomem nota
a décima espineliana com dupla cesura, permitin- Ter compaixão | pelos antigos | é que importa
do três rimas, sempre espinelianas [AA’A’’BB’B’’BB’B’’A Com os sarilhos | e enganos | casuais
A’A’’AA’A’’CC’C’’CC’C’’DD’D’’DD’D’’CC’C’’] Perdendo os brilhos | e os planos | divinais
Eu sofri tanto | mas quero | ir disfarçando
VISITEI | OS MEUS DEFUNTOS | SEPULTADOS Hoje eu canto | mas com o coração | chorando
LACRIMOSO | DEI-LHE SUSPIROS | E AIS POR MEUS FILHOS | MEUS MANOS | E MEUS PAIS
CHOREI | NO CEMITÉRIO | DOS FINADOS
POR MEUS FILHOS | MEUS MANOS | E MEUS PAIS III. QUARTETO GLOSADO EM QUATRO QUARTETOS
[quadras curtas]. O quarteto-mote pode surgir nas
Do que me ilude | antes do corte | é minha lida seguintes formas: duas rimas cruzadas [ABAB], uma
Em pensares meus | a consciência | é pequenina só rima cruzada [ABCB]; o quarteto-glosa apresenta
Graças a Deus | e à Providência | Divina sempre uma rima cruzada [ABAB]
Tenho saúde | e tenho sorte | de ter vida
Que Deus me ajude | em meu transporte | | na corrida A LUA É NOSSA SENHORA
Porque eu sei | que há muitos | apagados DEUS É O SOL SUPERIOR
Passei | onde estão juntos | agachados A TERRA É MÃE CRIADORA
Pude saber | pelas mudanças | do sino E O MAR É O NOSSO AMOR
Por dever | ou lembrança | do destino
VISITEI | OS MEUS DEFUNTOS | SEPULTADOS As nuvens são passarinhos
A voar sobre a lavoura
Quis ver alguém | que já não brilha | estão nas lousas As estrelas são anjinhos
Três defuntas | todas calmas | lá no fundo A LUA É NOSSA SENHORA
Repousam juntas | como almas | do outro mundo
Minha mãe | minha filha | e minha esposa O tempo é a nossa sorte
Não há porém | uma maravilha | bonançosa Quem nos dá frio e calor
Para um repouso | para os retiros | dos mortais O Diabo é a nossa morte
Eu saudoso | por delírios | naturais DEUS É O SOL SUPERIOR
E com receios | desta eterna | morada
Visitei-os | sem que pudesse | dar nada Saúde é a colcha estendida
LACRIMOSO | DEI-LHE SUSPIROS | E AIS Ao pé de água superiora
A esperança é a nossa vida
Quem isto fez | sabe que dá | para acabar A TERRA É MÃE CRIADORA
Já há poucos | desta santa | geração
Era um dos loucos | que se levanta | num serão O astro formoso e cheio
Qualquer vez | ela virá | para me levar Não se demuda de cor
Um português | que cá está | a querer cantar O vento é o nosso recreio
Não sabe a lei | do mistério | dos condenados E O MAR É O NOSSO AMOR
140
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

IV. QUARTETO DE DUPLA CESURA GLOSADO EM QUA- O primeiro a aprender


TRO QUARTETOS DE DUPLA CESURA [quadras curtas]. Para pôr no mundo a brilhar
O quarteto é composto por três hemistíquios por Mas concerteza chorou
verso, e pode surgir nas seguintes formas: duas ri- Quando se expôs a dizer
mas cruzadas [AA’A’’BB’B’’AA’A’’BB’B’’], uma só rima cru- A LINDA PALAVRA AMAR
zada [AA’A’’BB’B’’CC’C’’BB’B’’]; o quarteto-glosa segue o
uso de três hemistíquios, quase sempre com duas Quem gosta a amar se obriga
rimas cruzadas [AA’A’’BB’B’’AA’A’’BB’B’’] Encantado num abismo
E palavras maravilhadas
DE DESGOSTO | PORQUE CHORAS | QUERO-TE A RIR E foi esta palavra amiga
A TEU OUVIDO | A VOZ FIEL | POR TI BRADAR Para as galas do brilhantismo
É SOL POSTO | JÁ SÃO HORAS | DE DORMIR POR PERTENCER ÀS AMADAS
MEU QUERIDO | MANUEL | VAMOS DEITAR
Para andar no mundo em fama
Se o futuro de beleza | e prazer | para nós não vem Junto à palavra verdade
Não há encosto | para melhoras | para seguir É sempre bem recebida
E se a tristeza | não dá comer | a ninguém É usada por quem ama
DE DESGOSTO | POR QUE CHORAS | QUERO-TE A RIR E quando há laços de amizade
É SAUDOSA E CONDOÍDA
Como quem diz | olho sem favor | alma querida
Que o vestido | e o meu anel | são para amar Na fogueira de ciúmes
É feliz | quem tem algum amor | na vida Imaginações e cuidados
A TEU OUVIDO | A VOZ FIEL | POR TI BRADAR Que é dos amantes manjar
E no murmúrio de queixumes
Não são pecados | querer voltar | nossa alegria E martírio dos namorados
Esse rosto | que namoras | quero-te ouvir FOI TALVEZ DITA A CHORAR
Estamos cansados | de namorar | todo o dia
É SOL POSTO | JÁ SÃO HORAS | DE DORMIR Quem ama sofre mas goza
Quando a vai dizer sem medo
És quem eu vi | como proceder | encantador Nas horas mais desejadas
Em meu sentido | és meu novel | para me animar Esta palavra amorosa
Gosto de ti | Quero-te oferecer | prova de amor Tanta vez dita em segredo
MEU QUERIDO | MANUEL | VAMOS DEITAR POR BOCAS APAIXONADAS

V. SEXTILHA GLOSADA EM SEIS SEXTILHAS. A sextilha- Quem sofre a pena e a dor


mote apresenta uma única forma, três rimas cru- Faz lembrar a ave sem ninho
zadas [ABCABC]; a sextilha-glosa segue o mesmo ti- E sem ter casa nem guarida
po de rima [ABCABC] E quem ama sem ter amor
Quem chora sem ter carinho
A LINDA PALAVRA AMAR E QUEM NÃO TEM AMOR NA VIDA
POR PERTENCER ÀS AMADAS
É SAUDOSA E CONDOÍDA VI. SEXTILHA GLOSADA EM QUATRO ESTROFES DE
FOI TALVEZ DITA A CHORAR QUINZE VERSOS [quadras de sessenta pontos]. A
POR BOCAS APAIXONADAS sextilha-mote apresenta rima emparelhada e
E QUEM NÃO TEM AMOR NA VIDA cruzada [AABCCB]; a estrofe é de quinze versos e
Devia ser um que amou a glosa é uma variante da décima, desmultipli-
141
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

cando os versos da décima espineliana [AABBBA- Se não fossem de más falas


AACCCDDDC] Fingidas e enganosas
Além de serem gulosas
MAIS VALE HAVER UMA GOTEIRA E ainda tão vaidosas
A PINGAR UMA NOITE INTEIRA Para aí de qualquer maneira
ÁGUA PARA CIMA DA GENTE Para ir à festa ou à feira
DE QUE OUVIR A COMPANHEIRA Dizem para aí tanta asneira
NUM DIA DE MOIDEIRA E algumas não têm troco
A FALAR CONSTANTEMENTE É melhor talvez ser mouco
DO QUE OUVIR A COMPANHEIRA
Um homem sério e honrado NUM DIA DE MOIDEIRA
Merece ser respeitado
Para não fazer-se homem mau Ës vezes sem ter razão
Perdido faz-se um marau E bate o pé e bate a mão
Desses que agarram num pau Estendendo a língua comprida
Para acertarem o fado E ainda de venta torcida
Depois dum homem enganado Numa mentira fingida
E ainda ser chateado Negam parte da acção
Depois de tanta canseira E mesmo assim têm perdão
Se lhe entortarem a carreira São ceguinhas de paixão
Numa hora traiçoeira E o homem é consciente
Dá-se um espectáculo de horror Dá-lhe pão frio e pão quente
Mas para suportar essa dor Dá-lhe vinho e aguardente
MAIS VALE HAVER UMA GOTEIRA E mais tanta coisinha boa
A PINGAR UMA NOITE INTEIRA E ela com ditos à toa
No romance da enjoa
É melhor uma teoria A FALAR CONSTANTEMENTE
Que a terrível agonia
De aturar uma chatice VIA. SEXTILHA GLOSADA EM QUATRO ESTROFES DE
Porque há palavras com malícia[*ice] QUINZE VERSOS [quadras de sessenta pontos]. A sex-
Que calham com aldrabice tilha-mote apresenta a seguinte fórmula: três rimas
Do azar ou má maresia cruzadas [ABCABC]; a glosa, uma estrofe de quinze
Fazem irritar a energia versos, é mais complexa, recorrendo a uma só for-
Perturbar a voz macia ma de rima [ABCBCABADEDFEFD], embora possam sur-
De quem andava contente gir ligeiras variantes, que se devem ou a dificulda-
A pessoa impertinente des de rima ou a falha nas transcrições
Faz um são andar doente
Traído pelo sofrer FUI DE OITO FILHOS DOTADO
Talvez desse mais prazer AINDA MAIS TREZE NETINHOS
Uma nuvem escura a chover SINTO-ME ASSIM ORGULHOSO
ÁGUA PARA CIMA DA GENTE QUANDO OS TENHO A MEU LADO
LAVAM-ME A CARA COM BEIJINHOS
Que pena são tão jeitosas PARA EU FICAR MAIS FAMOSO
Tão bonitas e formosas
Que mete cobiça amá-las Sendo eu em falas fiel
Era bom saboreá-las E com feitio duma maneira
142
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Não gosto de estar sozinho Gozam de amor a beleza


O meu Celestino Pereira Futuros que não se adivinha
E a minha nora Cheinho Deram-me então por surpresa
Deram-me António Manuel Uma bonita Laurinha
Sendo avô a vez primeira E um Rui travesso e ladino
Foi nome escrito em papel Amando-os de natureza
Quem descendeu duns velhinhos Nunca esqueço esse menino
E eu assim me sinto bem Por ele ser estudioso
Gozando os primeiros carinhos Trago-os todos em memória
Da Mariana e do Bernardo Mas não sou ambicioso
E por no mundo ser alguém O que me ofertaram eu quis
FUI DE OITO FILHOS DOTADO Deram-me o António e Glória
E AINDA MAIS TREZE NETINHOS Dois gémeos Pedro e Luís
P ARA EU FICAR MAIS VAIDOSO
Helder e Nelson o seu destino
É andar com o estudo em dia ESTROFES NÃO GLOSADAS
Tenho neles boa fé
Estes deram-nos o António Jacinto e a Maria VII. QUARTETO [cantiga, letra, letrinha]. Apresen-
Quando a Custódia e o José ta duas rimas [ABAB ou ABCB]
Deram o Paulo e o Vitorino
Gosto de estar deles ao pé O cemitério tristes vindas
Por eles meu nome assino É casa dos falecidos
E é para mim o melhor gozo Onde caras tão lindas
Essa amizade me obriga Onde se ouvem ais sentidos
A ir num gesto saudoso
Beijar-lhes o rosto e a mão VIII . Q UARTETO COM CESURA NO SEGUNDO E NO
Em boa hora eu o diga QUARTO VERSO . Quarteto com rima cruzada
Com esta satisfação e com dois hemistíquios no segundo e quar-
SINTO-ME ASSIM ORGULHOSO to verso, havendo rima externa e interna en-
tre o primeiro hemistíquio e o verso anterior
António e Alice é casal sério [AAB’CCB’]
E mesmo na vida malandra
Usam seu projecto em linha Nasceu um rapaz no Tojal
Estes deram o André e a Sandra E é natural | de Santo André
A Liliana e a Joaninha E as lindas damas que o amam
Deu-me a Orange e o Silvério Todas lhe chamam | Manuel José
Tudo isto é gente minha
Enquanto eu vou para o cemitério Preza-se em ser popular
Vão eles noutros caminhos E dedicar | suas poesias
Todos fazem seus projectos Com prazer muito altivo
Sobre a harmonia dos ninhos De acordar vivo | todos os dias
Aonde quem nasce é criado
Em amando filhos e netos Com seus ditos naturais
QUANDO OS TENHO A MEU LADO E ser mais do que os mais | já lhe não cabe
LAVAM-ME A CARA COM BEIJINHOS Vive numa esperança vã
A Eduarda e o Celestino E o amanhã | ninguém o sabe
143
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Chora ao recordar lembrança Para a vida ter mau porte


Que não alcança | o que foi outrora Em ninguém ter amor
Ele passar por entre os sábios Vestem-se da mesma cor
E beijar os lábios | da fresca aurora Engraço mais com a Dor
Mas devo de ser para a Morte
Sente a alma apaixonada
Por sua amada | que era tão linda A Morte leva-me ao fundo
Dava tudo para a ir ver Sem ver do sol as luzernas
E podendo ser | beijá-la ainda Não quero saber das modernas
Namoro as que são eternas
Nossas almas lá no céu Últimas noivas do mundo
De déu em déu | com devoção
Mostram querer flores amanhar X. SEXTILHA. Sextilha com um sistema de rima
Para enfeitar | o meu caixão emparelhada e cruzada [AABCCB]

Foi por Deus que houve a beleza Achava bem e perfeito


Da natureza | me querer salvar Se houvesse amor e respeito
Mocidade primavera Nosso viver era lindo
Ai quem me dera | poder voltar Ver-se o povo estimado
O que é bom fosse aumentado
IX. QUINTILHA. Surge de duas formas: um verso E o que é mau diminuído
branco, uma rima cruzada e uma emparelhada [ABC-
CB] ou rima cruzada e emparelhada [ABAAB ou ABBBA] Assim deixam-me aflito
Eu não acho bonito
A Dona Morte maldita Não haver consideração
Quis Dona Dor para seu lar Se a chofer anda danada
Nenhuma é esquisita Sou descarregado na estrada
Mas a Dor é mais bonita Desprezado como um cão
E eu com ela quis dançar
Quem tem um pensar tão mau
Não querendo eu ser ruim Merecia levar com um pau
Nas danças e nas balouças Para ter melhor pensamento
Ao lembrá-la perco as forças Não há dó do meu sofrer
Por saber que aquelas moças Mesmo que esteja a chover
As duas gostam de mim Sou posto à chuva e ao vento

Em qualquer ocasião A causa das acções más


Por pequenas bagatelas Já vem picada de trás
Solto lágrimas singelas Dalguns mal encaminhados
Por saber que alguma delas Aos maus fazem-se piores
É a minha perdição E talvez fossem melhores
Com a saúde perdida Se não fossem empurrados
Em momentos de agonia
Falta às vezes alegria Hoje já se houve dizer mal
Por saber que elas um dia Da Assistência Social
Darão fim à minha vida Porque exploram os velhinhos
144
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Em vez de lhe dar carinhos sura glosados em décimas de dupla cesura, ou se


Vai-se destruindo os ninhos quisermos fazer uma fusão, quadras de três hemis-
E não lembram o seu funeral tíquios, tomando como variante desta, o que não é
certo, as quadras curtas de três hemistíquios.
Quem quase não pode andar É aqui que radica grande parte do interesse que se
Alistou-se neste Lar tem derramado sobre o poeta do Tojal. Importa ver o
Para ficar amparado que os diferentes colectores disseram sobre tal.
Com a lembrança numa esmola Vítor Bastos e Maria Celeste Rodrigues4, não fa-
Ao sofrer esta esfola zem referência a este pormenor, embora seja claro
Está tudo desanimado que detectaram as anomalias que as composições de
Santinhos transportavam. Não só registam correc-
Quase não valia a pena tamente as glosas de quinze versos como assinalam,
Numa vida tão pequena nalgumas composições, as cesuras, mas apenas a úl-
E ser tão amargurada tima, correspondente ao último hemistíquio5.
Ninguém pense no ruim Deve-se a Teiga a primeira análise deste exotismo po-
Porque isto no triste fim ético6. O seu trabalho ao nível do ritmo e da gramática
Vai acabar tudo em nada não interessa aqui nesta nossa abordagem. Tal terá que
ser realizado num outro trabalho sobre poética popular,
XI. DÉCIMA. Uso da décima como improviso e a partir das premissas levantadas por Manuel Viegas
com rima espineliana [ABBAACCDDC] Guerreiro7. Interessa, isso sim, o que este autor levan-
ta das entrevistas que efectuou para explicar a presença
É do líquido mais fino destas estranhas estrofes e as suas conclusões
Que o homem pode tomar Sobre as quadras de sessenta pontos, o Dr. Car-
Só Deus poderia formar los Teiga esclarece
Deste sangue um corpo divino
É um remédio cristalino [...] não podemos deixar e focar as quadras de 60 pon-
Que a bebê-lo Deus me ajude tos que ele, Manuel José Santinhos, ouviu, há mais de
Ao peito dá virtude cinquenta anos, a um tal José Muleta, de Setúbal. Esses
E alegra o coração poemas constituem outra das facetas criativas do nos-
E à vista de quantos estão so poeta [...]. Para já estas quadras de 60 pontos, pela
Cá vai à nossa saúde sua extensão, pelo que elas exigem de fôlego discursivo
e poético, não estão, na verdade, ao alcance de todos –
De uma forma genérica, são estas as estrofes3 a que Ma- que digo eu! – de ninguém, pois, de facto, não as encon-
nuel José Santinhos recorre para construir a sua obra. A tramos em nenhum outro poeta santiaguense!8
construção é aqui entendida como o que aprendeu, o que
produziu e o que entroncou. É provável que tenha recor- A quadra ouvida é dedicada a Luís Vaz de Camões.
rido a outras estrofes ou a outros esquemas rimáticos, mas A rima utilizada nesta quadra é um desenvolvimento
o que nos chegou foram estes modelos e é sobre eles que da décima espineliana, como adiante veremos, e co-
temos que procurar o entendimento. É esse entendimento mo o seu colector, julgamos, também viu.
que possibilita caracterizar ou como exótica esta obra ou Para a outra estrutura estrófica, a quadra de três
a sua integração num movimento mais vasto, que a parti- hemistíquios, Teiga desenvolve, dois anos depois
cularização dada a Santinhos possa ter encoberto. do primeiro trabalho, a seguinte explicação

III. E já agora aproveita-se a oportunidade para referir


As estrofes mais complexas são as sextilhas glo- algo de novo acerca do que dissemos há dois anos
sadas em quinze versos e os quartetos de dupla ce- ao estudarmos as quadras de quarenta pontos com
145
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

dupla cesura e triplo esquema rimático da autoria jo», lição dada atrás quando analisámos a modifi-
do Manuel José Santinhos, o ti Manel Zé do Tojal. cação dos textos usados no fado. Aliás, esta desig-
Dizia-nos ele, na altura, que ao elaborar essas suas com- nação de «don don» é retirada do estribilho desse
posições longas tinha sempre em mente, subjacente à mesmo fado, e nunca foi até agora publicada – é
palavra, o ritmo do fado, nunca explicitando, contudo, apenas uma designação de trabalho utilizada por
qual o ritmo em causa nem o tipo de fado que lhe ser- esta investigadora para simplificar a designação
via de suporte musical. Parece-nos (embora neste domí- destes amphiguris formais.
nio da musica tenhamos de confessar honestamente que Parece-nos, pois, que a explicação terá que ser pro-
nos movemos nela com grande desconforto tal a nos- curada noutro território. E esse território é o fado, não
sa ignorância a respeito de tudo o que se refere à música como Carlos Teiga o refere, pois não se trata de ritmos
dita popular), parece-nos, hoje, contudo, que esse ri- mas antes de textos. Vimos que na década de setenta
tmo seria ou poderia eventualmente ser o do “fado dom- de oitocentos se inicia a aposição de um hemistíquio
dom”, dado que essas composições longas de dupla ce- nas estrofes mais correntes à altura, o quarteto glosado
sura e triplo esquema rimático possuem um corpo de 7 em décimas, e que nos princípios do século xx é atri-
a 8 sílabas métricas, acrescido dum segmento rítmico fi- buído a Avelino de Sousa a introdução do alexandrino
nal, um quebrado de 3 a 4 sílabas, tal como a estrutura e do triplicado, assim como começaram a surgir fados
dos versos do “fado dom-dom” apresenta.9 com versículo, o duplicado?, dos quais o mais conheci-
do é «O Pierrot», cantado por Alfredo Marceneiro. A
Resumindo. Segundo Carlos Teiga, as origens complexificação dos fados no campo textual é acom-
destas estrofes estão, uma, as estrofes de quinze panhada pela construção de um xadrez mais elabora-
versos, na audição de um possível cantador de fei- do desenvolvido por alguns excelentes improvisadores,
ra, José Muleta, que depois Santinhos complexifi- como é o caso do sapateiro e propagandista da canção
cou; a outra, na adaptação de um fado, o “fado nacional Manoel Maria.
do dom-dom”, à décima espineliana, no caso das Parece-nos, então, que é no fado que deve ser
quadras com triplo hemistíquio. localizada a origem desta estrofe. Num primeiro
olhar, poderíamos adiantar que estamos na pre-
IV. sença de um cruzamento entre o alexandrino – o
Carlos Teiga defende, em relação às quadras de que vai permitir versos mais longos –, o fado tripli-
três hemistíquios, que denomina como quadras de cado e o fado com versículo, estando, então, aqui a
quarenta pontos com dupla cesura e triplo esque- génese das quintilhas de Manuel José Santinhos.
ma rimático, e a que José Manuel Santinhos cha- Mas tal explicação parece-nos demasiado rebus-
mava de quintilhas (cada verso era composto por cada. Vejamos, de novo, o que em 1922 diz Ave-
cinco pontos), que a sua origem está no “fado do lino de Sousa
dom-dom”. Quanto a ele este fado é, como as es-
trofes de Santinhos, composto de Tudo que vejo fugir ás velhas décimas – exceção
feita ao duplicado e triplicado, variações interes-
[...] um corpo de 7 a 8 sílabas métricas, acrescido santes cujos versículos não adulteram as antigas
dum segmento rítmico final, um quebrado de 3 a 4 glosas – entendo que não está certo [...].11
sílabas [...]10.
O duplicado é a aposição de um hemístiquio em
Não existe, que saibamos, nenhum fado deno- cada verso da estrofe, e o triplicado seria a aposi-
minado como “fado de dom-dom”. A única desig- ção de dois hemístiquios em versos alternados. No
nação que se lhe aproxima é a de «cantigas de don primeiro caso, que começa a surgir na primeira dé-
don», dada por Maria Aliete Galhoz às estrofes cada de novecentos, a rima poderia ser interna e ex-
de três versos heptassilábicos e um pentassilábico terna ou só externa. No segundo caso, a rima faz-se
[ABB/C//CDD/E...], cujo exemplo é o «Fado do maru- nos dois hemístiquios por eco. Aqui surge uma di-
146
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

ficuldade: não encontrámos, possivelmente por fa-


lha nossa, exemplos de triplicados nos periódicos POR DEDICAR GRANDE AMOR MARIA NÃO SENDOS MINHA
anteriores a 1930, mas Guinot, Carvalho e Osório Ë MULHER DO SEU IDEAL TENHO DE TI COMPAIXÃO
editam um triplicado de Artur Arriegas, editado na A QUEM QUERIA DAR O SEU NOME TENHO DE TI COMPAIXÃO
Guitarra de Portugal em 1932, extraído da Trova O MAIS SUBLIME CANTOR DESEMPREGADA E SOZINHA
portuguesa.12. DAS GLÓRIAS DE PORTUGAL E COM DOIS FILHOS NA PRISÃO
O duplicado deverá ser anterior ao triplicado. DEIXARAM MORRER À FOME E COM DOIS FILHOS NA PRISÃO
Mas não existe, ao nível da versificação, uma
correspondência que, julgamos, deveria existir, Camões poeta e soldado Tanto me tem acontecido
pois partimos do princípio que Avelino de Sou- Foi o mais apreciado Numa vida tão pequena
sa terá construído estas variações a partir do es- Dos poetas dessa era Numa vida tão pequena
tudo das estruturas poéticas. Por isto, o triplica- Natércia que o conhecera Já bastava a triste cena
do seria uma evolução do duplicado, o que não Por ele se envaidecera De um mau viver sem marido
acontece nos exemplos que temos. Esta evolu- E fê-lo seu namorado De um mau viver sem marido
ção seria simplesmente a aposição de mais um Mas ao ser por ele amado Eu tenho em meu sentido
hemístiquio na estrofe e não uma alteração na Foi por alguém invejado Que hás-de ser sempre a Zézinha
estrutura que o triplicado apresenta. Aliás, o Porque encontrou um rival Que hás-de ser sempre a Zézinha
texto dado por Guinot, Carvalho e Osório mais Cujo ambecil[sic] mortal Para uma linda sardinha
parece uma carnavalização da complexificação O causador do seu mal Sempre há-de haver pão de trigo
textual. Se tal estiver correcto, é provável que as Fizeram com que o cantor Sempre há-de haver pão de trigo
quintilhas de Manuel José Santinhos sejam o tri- Perdesse todo o valor E divides pena comigo
plicado13. Mas esta questão só poderá ter uma POR DEDICAR GRANDE AMOR MARIA NÃO SENDOS MINHA
cabal resolução quando se construir um trata- Ë MULHER DO SEU IDEAL MARIA NÃO SENDOS MINHA
do de versificação do fado, e da poesia popular Etc.15 Etc.
em Portugal, trabalho de extrema importância e
que está por fazer. De qualquer forma, acredi- O esquema rimático vai, pois, ser o seguinte
tamos que o que Santinhos chama de quintilhas
é o verdadeiro triplicado. Aliás, quem consultar Esquema apresentado no
[AABBBAAACCCDDDC]
texto dito de José Muleta
os periódicos sobre fado verá que cada jornal, e
as pessoas que o sustentavam ao nível da escrita,
constrói uma arquitectura poética diferente. Esquema com repetição,
[ABBBAAACCCDDDCC]
cantada por Amélia Ameixa
Sobre as quadras de sessenta pontos ou déci-
mas quintadas, o que nos informa Teiga é em tu- Embora não sejam coincidentes na totalidade da
do semelhante com o que nos contou Manuel Jo- rima, é fácil perceber que a origem desta estrofe de
sé Santinhos, confirmado pelo testemunho do fa- 15 versos está na décima espineliana, e desta rima
dista Fernando Espada, de São Francisco da Ser- temos variados exemplos no corpus reunido.
ra (Santiago do Cacém): é do contacto com um Mas esta hipótese tem uma dissonância: nas
cantador de nome José Muleta, de Setúbal, que quadras de 60 pontos, Manuel José Santinhos uti-
Santinhos aprendeu o modelo estrófico e rimá- liza, regularmente, um outro esquema rimático
tico. O modelo em causa é o desenvolvimento [ABCBCABADEDFEFD] .
da décima espineliana, que em vez de compor- Recordemos, de novo, Domingos Serpa, e o
tar uma repetição no cantar, constroem-se novos que ele escreve em 1922 na Guitarra de Por-
versos. Veja-se, a título de exemplo, a lição de tugal
Muleta e a adaptação de uma quadra de 40 pon-
tos de Manuel José Santinhos numa das fórmu- Ponderámos estas observações que julgamos aceitá-
las de a cantar14 veis, porque um grande numero de operarias, culti-
147
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

vam presentemente o fado Canção mais conhecido contexto da sua aprendizagem: no universo do fa-
pelo fado Bacalhau, que pela vagarosidade, repeti- do e do objecto impresso.
ções e numero irregular de versos, se torna mono- Os textos que o poeta do Tojal aprendeu e a for-
tono, aborrecido e por vezes incompreensivel de- ma como os ouviu provam claramente este facto.
vido á forma atrabiliaria da sua construção defi- Todos os textos que Santinhos memorizou, cons-
ciente e desconhecida. No entanto, a “Guitarra de truiu ou entroncou, são suportados pelo fado, o
Portugal” tem, pela pena de um dos seus directores, que não é o mesmo que Teiga afirma quando es-
publicado varias produções nesses genero, acompa- creve
nhando assim o espirito da epoca, mas, nunca ad-
vogando essa inovação por não lhe conhecer leis Dizia-nos ele, na altura, que ao elaborar essas suas
a que o verso, pela sapientissima autoridade dos composições longas tinha sempre em mente, subja-
mestres anda ligado há muitos anos.16 cente à palavra, o ritmo do fado, nunca explicitan-
do, contudo, qual o ritmo em causa nem o tipo de
Portanto, parece-nos que as singulares estrofes fado que lhe servia de suporte musical.17
do poeta popular Manuel José Santinhos não são
mais do que uma variante do fado Canção ou fado Santinhos não verte os seus poemas num qual-
Bacalhau, como vimos anteriormente. Fica é por quer estilo de fado. Ele copia um formulário es-
explicar a existência de duas variantes do fado Ba- trófico e rimático, sabendo de antemão a forma
calhau, uma, produto da transformação da décima de o cantar, pois todas as composições deste po-
espineliana, e outra, com uma rima diferente, mas eta são para serem cantadas nos diferentes fados
que segue o mesmo molde: uma sextilha que se di- que suportam estas estrofes (o corrido, o menor,
vide por quatro estrofes, numa sequência de dois, o mouraria, fados marcha...) Todas à excepção(?)
um, dois, um. Já vimos como é que a sextilha, ou do despique. Por isso, era no fado que tinha de
melhor, o trístico, origina uma composição de 15 ser encontrada a chave para as singulares estrofes
versos. Necessitamos é de entender como é que es- presentes na obra do poeta do Tojal Manuel José
ta alteração origina duas rimas muito diferentes. Santinhos.
Estes fados extensos, atribuídos a José Bacalhau Além do fado, o objecto impresso marca tam-
ou a João Mulato, são subsidiários de uma altera- bém forte presença. Santinhos aprende a balada
ção nas letras, que depois teve consequências na «O noivado do sepulcro» a partir de um folheto;
parte musical, passando os textos de redutíveis a também aprenderá o texto de José Muleta através
dois, ou quatro, a redutíveis a três, ou seis versos. de folha impressa. Para quem considera o mundo
Tal leva a que se procure adaptar as estrofes clás- de há cem anos fechado, esta é uma lição profun-
sicas a este novo modelo. O que na obra do poeta da da abertura e da modernidade que atravessava
do Tojal nos surge são os dois modelos diferentes esse mesmo mundo.
dessa adaptação. Um sabemos que é introduzido Santinhos participou nesse amplo movimen-
através de um tal José Muleta (veja-se alguma se- to de circulação operária, ouvindo fados, apren-
melhança entre José Muleta e João Mulato); outro dendo com eles, construindo a sua obra poética à
que resulta da evolução, e simplificação, desse mo- sua semelhança. Recusando a tradição, presente
delo que evolui da décima, onde em vez de se repe- em fórmulas mais simples, Manuel José Santinhos
tirem versos, se constroem novos pontos. Quanto opta por uma obra que, à parte da complexidade,
a este, não sabemos onde e como o poeta do To- é marcada por essa mesma modernidade.
jal o aprendeu.
VI.
V. Em Fevereiro de 1923, Domingos Serpa en-
Mas como é que Santinhos tomou contacto com trevista João Black para a Guitarra de Portugal.
estas inovações? A resposta está subjacente no Transcrevemo-la na íntegra
148
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Não há que vêr. O João Barbosa18 jurou que dava a casa onde estava empregado. Das glorias alcan-
comigo em doido e enquanto o não conseguir não çadas pelos propagadores do fado, cabe-me uma
descança. grande parte porque muito trabalhei para que á
Agora embirrou que eu seria quem entrevistasse o lusa-canção fosse dada outra feição. Se bem que
Black e não houve meio de o dissuadir de tal cousa. o Izidoro Pataquinho provocou inovações muito
Como se encontra na posse d’uma actividade cerebral aproveitaveis no fado, o que é verdade é que o Ave-
extraordinaria, esquece que eu estou gasto e sem von- lino, o Rosa e eu creamos-lhe alicerces indestruti-
tade propria, mas como toda a sua vida e perseveran- veis e creio que muito ganharam as classes traba-
ça pertence á «Guitarra de Portugal», não perdoou a lhadoras com tal facto.
minha caturrice e lá me fez ir até ao Val de Santo An- Foi tão grande o nosso trabalho que levou o Aveli-
tonio, ao Club dos Sempre Unidos onde o distinto e no de Sousa a exclamar n’uma frase feliz o seguinte:
modesto poeta costuma passar alguns bocados. «Nós somos portadores de cantigas aos domicilios».
Assim que transponho a porta do Club, vêjo a um Era tal a febre do nosso entusiasmo que um be-
canto sentado, o Sebastião Eugenio, figura inapaga- lo dia, depois de termos cantado em trez partes,
vel de luctador e antigo camarada dos tempos idos. chegamos a um sitio onde nos esperavam ainda e
Aguarda a chegada do Black para a constituição d’um cheios de fome e de cansaço, comemos uma caldei-
jury de que ambos fazem parte. Nas salas mal se res- rada em cima d’uma carroça e com tal rapidez o fi-
pira, tal é a aglomeração de influentes que esperam zemos que procurando as espinhas, estas tinham
um concurso poetico que breve tem realisação. desaparecido. Não sei se tiveram a sorte dos seus
Sinto que alguem me abraça, fico atonito. Era o malogrados possuidores.
João Black Devo ao fado o grau de cultura que tenho, mas
Sem mais preambulo atiro-lhe com esta – Já sei que não ao fado que anavalha consciencias e prostitue
fazes parte do jury? a densa [deusa(?)] dileta dos nossos sonhos, a esse
– É verdade, meu caro Serpa, escolheram mal. Es- nem sequer o conheço.
tou neurastenico, esquecido, não aceito convites, Que saudades eu tenho, meu velho amigo, dos tem-
não escrevo, não faço versos e apenas me satisfaz pos idos e quando ia para espraiar sobre qualquer as-
o repouso. sunto é levado para a mesa do jury no meio de mui-
– Outro tanto vai cá por casa e sem que o Black pen- tos dos seus amigos. E assim á traição consegui ou-
sasse que o entrevistava, perguntei-lhe: Há quantos vir o meu velho e querido amigo; escutar-lhe a voz
anos cantas o Fado? auctorisada e recordar n’esse momento os seus con-
– Há mais de trinta anos; mas as minhas peregrina- ceituosos alexandrinos, as suas soberbas redondilhas
ções semanaes pelas sociedades de recreio, datam quando elas cahiam como chuveiro educador sobre
de 25 anos. Tu lembras-te que eu, o Avelino e o Ro- as massas ignaras e ao vê-lo velho como eu, pensei
sa, constituimos um terceto, que foi alguma cousa e o então n’esta tragedia de todos os dias e sahi deixan-
que não conseguimos nas associações de classe, apro- do essa inconfundivel figura entre amigos, muitos dos
veitamos em Clubs de variada ordem. Conhecia-mos quais terão bebido o nectar saborosissimo da educa-
a indole do nosso povo e sabendo-o falho de educa- ção que o distinto poeta distribuiu cantando o fado.19
ção, mas muito inclinado ao fado, resolvemos fazer
pelo verso cantado uma intensa propaganda de socio- João Salustiano Monteiro, mais conhecido por João
logia. Assim passamos muitos anos sem outro premio Black, evoca o período que se segue a 1890, quan-
que não fossem os aplausos dos que nos ouviam e a do, em catequética fadista e libertária, percorreu o
satisfação da nossa vontade. Alentejo. Nos inícios da segunda década do século
– Tu nasceste na vila d’Almada? xx esta acção fadista está agonizante. Sabemos que
– É verdade, foi ali que vi o sol da minha primeira no princípio da década de trinta, o sapateiro e impro-
madrugada e foi ainda d’ali que abalei para o Ale- visador Manoel Maria ainda deambula pela provín-
mtejo com o Julio Janota, perdendo n’essa ocasião cia, até ser encontrado morto junto a Vila Franca de
149
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Xira. Mas esta circulação em prole da canção nacio- nées de propaganda sindical, tendo por objectivo a
nal já há muito tinha deixado de ter a base política constituição de associações rurais, que contaram em
que a sustentava. Ela acompanha o desaparecimen- Agosto desse mesmo ano, com a presença de António
to das associações de classe rurais, aí por meados da Henriques e de José Carlos Rates20, o mesmo Carlos
década de dez. Rates que dois anos antes tinha fundado em Setúbal,
E não deixa de ser interessante saber que à altura em Julho de 1910, O fadinho, um dos primeiros pe-
em que Santinhos inicia os seus primeiros passos no riódicos dedicados ao fado e que dez anos antes no
universo da poesia e do fado, aí por 1912, percorrem seu Germinal tinha publicado um texto de António
Santiago do Cacém, vindas de Lisboa e Setúbal, tour- Maria Eusébio, O Calafate21.

NOTAS

1 Infelizmente, o Prof. Manuel João POR DEDICAR GRANDE AMOR Rival do mais adorado
da Silva nunca publicou, que conhe- À MULHER DO SEU IDEAL Fez com que o enamorado
çamos, nenhum estudo sobre este A QUEM QUERIA DAR O SEU NOME Fosse pelo rei desterrado
poeta. O MAIS SUBLIME CANTOR Pela inveja que lhe tinha
2 Teiga 2000: 11. DAS GLÓRIAS DE PORTUGAL De Camões a amiguinha
3 Existem outras estrofes, caso do des- DEIXARAM MORRER À FOME Adoeceu coitadinha
pique ou do baldão, que Manuel Jo- Pelo desgosto fatal
sé Santinhos também conheceu, mas Camões poeta e soldado Catarina era leal
estas não estão ligadas, pelo menos Foi o mais apreciado Pelo vate imortal
directamente, à discussão que se tem Dos poetas dessa era Até que morreu de amor
construído em torno da obra do po- Natércia que o conhecera Ao saber chorou de amor [dor?]
eta do Tojal. Por ele se envaidecera O MAIS SUBLIME CANTOR
4 Bastos & Rodrigues 1991. E fê-lo seu namorado DAS GLÓRIAS DE PORTUGAL
5 Bastos & Rodrigues 1991: 88, 96, Mas ao ser por ele amado
97101, 104, 117, 118, 119. Foi por alguém invejado Desterrado em Macau
6 Teiga 2000: 11- 27, 34-39. Porque encontrou um rival Não subiu ao alto grau
7 Guerreiro 1997: 141. Cujo imbecil mortal Que merecia em nobreza
8 Teiga 2000: 20; que confirma em O causador do seu mal Mas descreveu com beleza
Teiga 2002: 34. Fizeram com que o cantor A epopeia portuguesa
9 Teiga 2002: 37. Perdesse todo o valor E amava o escravo Jau
10 Teiga 2002: 37. POR DEDICAR GRANDE AMOR Naufragou caiu da nau
11 Guitarra de Portugal 1922.Agos- À MULHER DO SEU IDEAL E o mar apesar de mau
to.19. As Lusíadas não corcome
12 Guinot & Carvalho & Osório 1999: No Paço em nobres salões Essa obra cujo nome
242. Mas confrontando com o livro Suas melhores produções Que o tempo jamais consome
de Artur Arriegas, Arriegas 1922, Os poetas recitavam É de grande merecimento
nenhum dos fados tem esta denomi- Todas as damas que estavam Mas votado ao esquecimento
nação de fado triplicado. O que mais apreciavam Um homem de tanto talento
13 E não nos devemos esquecer que Era a obra de Camões DEIXARAM MORRER À FOME
Santinhos conhecia o duplicado, ou Entre aplausos e ovações Teiga 2000: 20-21.
fado com versículo, pois localizámos Eram só suas canções
um texto destes na sua obra. E o poe- Considerado de renome 16 Guitarra de Portugal 1922.Janei-
ta do Tojal mostra um perfeito en- Para que bom lugar não assome ro.17
tendimento da sua construção, pois Fazem com que o rei o tome 17 Teiga 2002: 37.
que informa Vítor Bastos das regras Por um homem de má sina 18 Referência a João Linhares Barbosa,
que enformam a sua construção. Só por amar Catarina poeta e director deste jornal.
14 Cantada por Amélia Ameixa, de Aquela excelsa menina 19 Guitarra de Portugal 1923.Feverei-
Portel, respeitando os modelos A QUEM QUERIA DAR SEU NOME ro.24
cantados pelos vendedores de fo- 20 Madeira 1988: 19; ver também Ven-
lhetos. Um vate Pedro Caminha tura 1977: 58-60.
15 Cujo texo completo é De inspiração mesquinha 21 Germinal 1903. Outubro. 18.
PARTE III
CINCO

NOTA FINAL
152
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
153
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

UTOPIA operariado. Muito cedo acompanhou as tournées de


socialistas, republicanos e anarquistas. Através do fa-
Na brancura da cal o traço azul do tentou-se catequizar o povo trabalhador. No sul de
Alentejo é a última utopia. Portugal as marcas foram profundas e, cem anos de-
pois, ainda as podemos ver.
Todas as aves partem para o sul É claro que entre o tipógrafo, o litógrafo ou o revo-
todas as aves: como a poesia. lucionário de Lisboa ou Setúbal e o assalariado rural
alentejano havia uma diferença cultural enorme, em
MANUEL ALEGRE, 1996. muitos aspectos intransponível. Mas o que importa
relevar é que, através do fado, puderam comunicar e

M
ANUEL José Santinhos viveu entre 1905 e os trabalhadores meridionais tiveram à sua disposi-
2001. Foram quase 96 anos de vida. En- ção, resultado de uma catequética social cantada, um
tender a sua obra é entender a história da formulário para articular poeticamente uma vivência.
décima e, sobre estas, a história do fado. Se é em Lisboa que todo o processo se constrói, é
Tentei, ao longo deste livro, mostrar como estas se ali também que ele é destruído. E vai ser o Alentejo
encontram ligadas. o depositário dessa experiência.
A décima é das estrofes mais interessantes e belas que E, em todo o Portugal meridional, será Manuel Jo-
temos em Portugal, infelizmente pouco ou nada estu- sé Santinhos, o poeta do Tojal, o elo que permitirá re-
dada. Quem quiser sobre ela trabalhar em Portugal ain- constituir toda a cadeia entre a poesia popular alen-
da tem que recorrer a três autores, que continuam hoje tejana e o fado de Lisboa. Será esse o seu grande mé-
a ser fundamentais: José Leite de Vasconcelos, António rito: ter mantido intacto o legado fadista operário,
Modesto Navarro e Manuel Viegas Guerreiro. anarquista, socialista e republicano.
O pequeno soneto, como muitas vezes foi apelida- Entender, pois, a poesia, ou melhor, os fados do
da, é talvez a marca maior da relação cultural ibe- poeta do Tojal é entender uma parcela da história
ro-americana. Ouvir um brasileiro, um cubano, um não só do fado, mas também deste imenso sul por-
português, um venezuelano, um mexicano ou um ca- tuguês.
narino improvisar nesta estrofe é algo de inesque-
cível. E em Portugal, a décima ainda tem cultores Há umas semanas atrás morreu com silicose An-
em grande número. Importava fazer um inventário/ tónio Maria Coelho. Tinha 83 anos. Foi mineiro em
dicionário de poetas populares, assim como um estu- Aljustrel e na Panasqueira, foi preso e espancado pe-
do dos métodos de versificação e a sua dispersão. Is- la PIDE, andou por feiras, mercados e tabernas ven-
to, com o suporte da musicologia, seria de um valor dendo a voz e folhas com quadras impressas. Um
informativo incalculável. Sem tal, continuamos a fa- dia, vínhamos de Loulé, perguntei-lhe o que era isso
lar de poesia popular, ou tradicional, de forma muito da poesia. Respondeu-me com uma frase que nunca
pobre e, queira-se ou não, muito pouco sustentada. esquecerei, Enquanto houver miséria, haverá poetas.
O fado, canção operária, é fruto de uma experimen- Esta resposta encerra tudo o que quis dizer neste li-
tação intelectual única no panorama da poesia popu- vro. Para os homens e mulheres empenhados nesta
lar. Muitas das discussões em torno da sua origem, de poesia popular a que chamamos décimas, mas que
Maria Severa ou da importância de Amália Rodrigues seria muito mais correcto chamar fado, era necessá-
não são, que me perdoem, mais de que fait divers. Fru- rio combater essa mesma miséria com fados, que de-
to do trabalho de um conjunto de homens ao longo de vemos entender como fundamentos, e palavras im-
60 anos, o fado entre 1860 e 1930 não tem qualquer pressas. Se pudéssemos sintetizar tudo aquilo que es-
paralelo na poesia popular. A trova nacional, a can- crevemos numa pequena frase, a resposta do meu
ção da liberdade ou a canção da consciência foi cons- Amigo António Maria Coelho seria a mais forte, a
truída para que pudesse também ela contribuir para a mais triste e a mais sincera síntese.
formação de um grupo social e da sua consciência: o P0RTEL, FEVEREIRO DE 2004
154
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

FONTES isleño folkliterature. Newark, Delaware: Juan de la Cuesta.


Arriegas, Artur. (1922). A trova portugueza. Lisboa: Livra-
Alma (A) do Fado 1910 ria Barateira.
Alma de Portugal 1924 Arroyo, António. (1909). O canto coral e a sua função social.
Coimbra: França Amado.
Canção (A) de Portugal 1928-1929
Barata, José Oliveira. (1983). António José da Silva: criação e rea-
Canção (A) de Portugal – O Fado 1916-1919
lidade. (Apêndice documental). Volume ii. Coimbra: Serviço de
Canção (A) do Povo 1926
Documentação e Publicações da Universidade de Coimbra.
Canção (A) Portuguesa 1921 Barata, José Oliveira. (1985). António José da Silva: criação e
Canção do Sul 1923-1934 realidade. Volume i. Coimbra: Serviço de Documentação e
Canção e fado 1975 Publicações da Universidade de Coimbra.
Canção Nacional 1927-1928 Baroja, Julio Caro. (1990). Ensayo sobre la Literatura de Cor-
Fadario (O) 1916 del. Madrid: Istmo.
Fadinho (O) 1910 Barrento, João. (2003). António Aleixo. «A dor também faz
cantar...». Lisboa: Apenas Livros.
Fado (O) 1910
Barreto, Mascarenhas. (s. d.). O Fado: origens líricas e motiva-
Fado (O) 1923-1926
ção poética. Lisboa: Aster.
Fado (O) Novo 1876
Barriga, Maria José. (2003). Cante ao Baldão: uma prática de
Faduncho (O), 1917-1918 desafio no Alentejo. Lisboa: Colibri.
Germinal 1903 Barros, Afonso de. (1986). Do Latifundismo à Reforma Agrá-
Guitarra de Portugal 1922-1933 ria. O caso de uma freguesia do Baixo Alentejo. Oeiras:
Lira (A) do Fadinho 1878 Fundação Calouste Gulbenkian.
Barthes, Roland. (1997). O grau zero da escrita. Lisboa: Edi-
Lira do Fado 1870
ções 70.
Lyra do Fado 1910
Bastos, Vítor Manuel & Maria Celeste Matias Rodrigues.
Pianinho (O), 1882
(1991). Memórias das gentes do lugar. Santiago do Cacém:
Pimpão (O), 1876 Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
Pimpona (A) 1892-1893 Batista, Sebastião Nunes. (1982). Poética popular do Nordeste.
Trova (A) Popular 1919-1921 Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui de Barbosa.
Trovas de Portugal 1933-1934 Braga, Teófilo. (1987). História da poesia popular portugue-
sa. Lisboa: Vega.
Branco, Camilo Castelo. (1980). A corja. Porto: Lello & Irmão.
BIBLIOGRAFIA Branco, Camilo Castelo. (1991). Eusébio Macário. Lisboa:
Ulisseia.
Abreu, Márcia. (1999). Histórias de cordéis e folhetos. Campi- Bringel, Maria Manuel & Maria Amélia Caetano (coordena-
nas: Mercado das Letras. ção). (2002). Mafra e seus Poetas. Mafra: Câmara Muni-
Alegre, Manuel. (1996). Alentejo e ninguém. Lisboa Caminho. cipal de Mafra.
Alegria, Maria Fernanda. (1990). A organização dos transpor- Brito, Joaquim Pais de. (1993). Fado. Portugal Moderrno – En-
tes em Portugal (1850-1910): as vias e o tráfego. Lisboa: ciclopédia temática. Tradições. Lisboa: Pomo. 159-165.
Universidade de Lisboa-INIC. Brito, Joaquim Pais de. (1994).Fado: vozes e sombras. Lis-
Aleixo, António. (1960). Quando começo a cantar.... Lisboa. boa: Fado vozes e sombras. Lisboa: Museu Nacional de
Almeida, Fernando António. (1994). Operários de Lisboa: na Etnologia/Lisboa Capital da Cultura ‘94. 15-36.
vida e no teatro (1845-1870). Lisboa: Caminho. Brito, Joaquim Pais de. (1999). O fado: etnografia na cidade.
Ambrósio, António. (1979). Almada Negreiros africano. Lis- Velho, Gilberto (organização). Antropologia Urbana. Cul-
boa: Editorial Estampa. tura e sociedade no Brasil e em Portugal. Rio de Janeiro:
Armistead, Samuel G. (1992). The spanish tradition in Louisiana. I - Jorge Zahar Editor. 24-42.
155
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Burke, Peter. (1989). Cultura popular na Idade Moderna: Eu- Connerton, Paul. (1993). Como as sociedades recordam. Oei-
ropa 1500-1800. São Paulo: Companhia das Letras. ras: Celta.
Cabral, Pedro Caldeira. (1999). A guitarra portuguesa. Ama- Cordeiro, Graça Índia. (1995). Um bairro no coração da cida-
dora: Ediclube. de: estudo antropológico sobre a construção social de um
Camacho, Brito de. (s. d.). Gente rústica. Lisboa: Guimarães & C.ª. bairro típico de Lisboa. Lisboa: ISCTE. (Tese de doutora-
Câmara, José Bettencourt da. (2003). Poetas populares açoria- mento em Antropologia Social).
nos i. Lisboa: Salamandra. Cortez, Maria Rita Ortigão Pinto. (1994). Cancioneiro de Ser-
Cardoso, Fernando. (1982). Poetas populares. 3.º volume. Li- pa. Serpa: Câmara Municipal de Serpa.
vraria Portugalmundo Editora. Costa, António Firmino da & Maria das Dores Guerreiro.
Cardoso, Fernando. (1989). Poetas populares. 1.º volume. Li- (1984). O trágico e o contraste: O Fado no bairro de Alfa-
vraria Portugalmundo Editora. ma. Lisboa: Dom Quixote.
Cardoso, Fernando. (1990). Poetas populares. 2.º volume. Li- Cruz, Francisco Ignacio dos Santos. (1984). Da prostituição na
vraria Portugalmundo Editora. cidade de Lisboa (1841). Lisboa: Dom Quixote.
Cardoso, Fernando. (s. d.). Poetas populares. 4.º volume. Li- Curvo Semedo, textos escolhidos. (1988). Almansor. N.º 6.
vraria Portugalmundo Editora. Montemor-o-Novo: Câmara Municipal de Montemor-o-
Carvalho, Amorim de. (1991). Tratado de versificação portu- Novo.
guesa. Coimbra: Almedina. Cutileiro, José. (1977). Ricos e pobres no Alentejo (uma socie-
Carvalho, Amorim. (1987). Teoria geral da versificação. A me- dade rural portuguesa). Lisboa: Sá da Costa.
trificação e a rima. Volume i. Lisboa: Editorial Império. Dantas, Júlio. (1994). A Severa. Porto: Porto Editora.
Carvalho, Amorim. (1987). Teoria geral da versificação. As es- Decimas e oitavas feitas por José Lucio da Silva Cardoso.
trofes, os sistemas estróficos e a história da versificação. (1939.Setembro.17). Brados do Alentejo. Estremoz.
Volume ii. Lisboa: Editorial Império. Delgado, Manuel Joaquim. (1955). Subsídio para o cancionei-
Carvalho, Ernesto de. (s. d.). De roda do lume: coisas do Alen- ro popular do Baixo Alentejo. 2 volumes. Lisboa: Revis-
tejo. (Dactilografado). ta de Portugal.
Carvalho, Pinto de (Tinop). (1994). História do fado. Lisboa: Dias, Barata. (1954). O fado do fado. Coimbra: Coimbra Edi-
Dom Quixote. tora.
Carvalho, Ruben de. (1994). As músicas do fado. Porto: Cam- Díaz-Pimienta, Alexis. (1998). Teoria de la improvisación. Pri-
po das Letras. meras páginas para el estúdio del repentismo. Oiartzun:
Carvalho, Ruben de. (1999). Um século de fado. Amadora: Sendoa Editorial.
Ediclube. Duarte, António de Sousa. (1999). António Aleixo: o poeta do
Cascudo, Luis da Câmara. (1984). Vaqueiros e cantadores. São povo. Lisboa: Âncora.
Paulo: Itatiaia. Duarte, Vítor (Marceneiro). ( 2001). Alfredo Marceneiro... os
Castelo-Branco, Salwa El-Shawan. (1997). Voix du Portugal. fados que ele cantou. Lisboa: Clássica Editora.
Paris: Cite de La Musique/ Actes Sud. Duarte, Vítor. (1995). Recordar Alfredo Marceneiro. Venda
Bonecos de Santo Aleixo. Textos tradicionais. I. (s. d.). Évora: Nova: Sistema J. [Inclui c. d.].
Centro Cultural de Évora. (Texto policopiado). Durão, Susana. (2003). Oficinas e tipógrafos: cultura e quoti-
Chartier, Roger (direcção). (1998). As utilizações do objecto dianos de trabalho. Lisboa: Dom Quixote.
impresso (Séculos XV-XIX). Algés: Difel. Eisenstein, Elizabeth. (1983). La revolucion de la imprenta en
Chaves, Luís. (1961). Lisboa nas auras do povo e da história la Edad Moderna Europea. Madrid: Universitaria. Akal
– ensaios de etnografia. Volume i. Lisboa: Câmara Muni- ediciones.
cipal de Lisboa. Envia, Manuel. (1947). Coisas de Setúbal (prosas regionais).
Coelho, Costa. (2002.Janeiro.28). Cenáculo, Pôtra e Talhi- Setúbal: Edição de Autor.
nhas – pastores de palavras e poetas de rebanhos… Diá- Eusebio, Antonio (Calafate). (1908). O Cantador de Setúbal.
rio do Sul. Évora. Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira.
Conde, Paulo. (s. d.). Fado: vida e obra do poeta Carlos Con- Eusebio, Antonio (O Calafate). (1901). Versos do Cantador de
de. Alpiarça: Garrido Editores. Setúbal. Lisboa.
156
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Eusébio, António Maria (O Calafate). (1985). Versos do can- Lisboa: Centro de Estudos Geográficos / Instituto Nacional
tador de Setúbal. Volume i. Lisboa: Ulmeiro. de Investigação Científica.
Fado (s. d.) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Vo- Galhoz, Maria Aliete. (1988). Literatura popular - cantigas
lume x. Lisboa-Rio de Janeiro: Editora Enciclopédia. 823- narrativas. Revista Lusitana, (Nova Série). 9. Lisboa Insti-
826. (Verbete possivelmente da autoria do maestro Frede- tuto Nacional de Investigação Científica. 151-172.
rico de Freitas.) Gaspar, Jorge. (1981). A área de influência de Évora. Sistema
Farinha, António Dias & José Nunes Carreira & Vítor Serrão (co- de funções e lugares centrais. Lisboa: Instituto Nacional de
ordenação). (2001). Uma vida em história. Estudos em homena- Investigação Científica.
gem a António Borges Coelho. Lisboa: Editorial Caminho. Gaspar, Jorge. (1986). As feiras de gado na Beira Litoral. Lis-
Ferreira, Joaquim. (s. d.). Líricas de Diogo de Bernardes. Por- boa: Livros Horizonte.
to: Domingos Barreira. Gaspar, José Rabaça (organização e estudo). (1987). Poetas po-
Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo. (2002). Rebeldes e insub- pulares de Beja. Beja: Câmara Municipal de Beja.
missos. Resistências populares ao liberalismo (1834-1844). Gaspar, José Rabaça. (1998.Agosto). Décimas – uma lingua-
Porto: Afrontamento. gem comum Ibero-Americana. Arquivo de Beja. Volumes
Fonseca, Helder Adegar. (1996). O Alentejo no século XIX: vii/viii. Série iii. Beja: Câmara Municipal de Beja. 95-141.
economia e atitudes económicas. Lisboa: Imprensa Nacio- Gaspar, José Rabaça. (1999.Dezembro). Décimas de Inocêncio
nal-Casa da Moeda. de Brito: gritos na solidão. Arquivo de Beja. Volume xii. Sé-
Fontaine, Laurence. (1993). Histoire du colportage en Europe rie iii. Beja: Câmara Municipal de Beja. 89-133.
(XVe-XIX siècle). Paris: Albin Michel. Le Gentil, Georges. (1995). La littérature portugaise. Paris:
Fortes, José Maciel Ribeiro (s. d.). O Fado: ensaio sobre um Editions Chandeigne - Librairie Portugaise. Série Lusitane.
problema etnográfico-folclórico. Porto: Companhia Portu- (Ouvrage complété par Robert Bréchon pour la période
guesa Editora. contemporaine.)
Foucault, Michel. (1997). A ordem do discurso. Lisboa: Reló- Ginzburg, Carlo. (1991). O queijo e os vermes. São Paulo:
gio D’Água. Companhia das Letras.
Foucault, Michel. (2001). Vigiar e punir. Nascimento da pri- Gomes, Paulo Alexandre P. N.. (2000). Ermidas-Sado: história
são. Petrópolis: Vozes. de uma povoação contemporânea. Ermidas-Sado: Junta de
França, José-Augusto. (1989). Lisboa: Urbanismo e Arquitec- Freguesia de Ermidas-Sado.
tura. Lisboa: ICALP. Gonçalves, António José. (1998). Santo André em poesia. San-
França, José-Augusto. (1990). A arte em Portugal no Século to André: Edição de Autor.
XIX. Volume ii. Venda Nova: Bertrand. Gonçalves, António José. (1999). Um olhar sobre a Lagoa.
França, José-Augusto. (2002). Lisboa 1898: estudo de factos Santo André: Edição de Autor.
socioculturais. Lisboa: Livros Horizonte. Gonçalves, António José. (2000). Minha terra é o Alentejo.
Franquezas, Sebastião. (1990). 150 poesias de Sebastião Fran- Santo André: Edição de Autor.
quezas. Santiago do Cacém: Edição de Autor. Gonçalves, António José. (2001). O Alentejo e o mar. Santo
Freitas, Frederico de. (1984). “O fado, canção da cidade de Lis- André: Edição de Autor.
boa: suas origens e evolução”. Colóquio sobre música po- Gonçalves, António José. (2001a). Como olhar o Alentejo.
pular portuguesa. INATEL. 9-24. Santo André: Edição de Autor.
Frenk, Margit. (1987). Corpus de la Antigua Lírica Popular Gonçalves, Elsa & Ana Maria Ramos. (1985). A lírica gale-
hispánica (siglos XV a XVII). Madrid: Editorial Castalia. go-portuguesa (textos escolhidos). Lisboa: Editorial Co-
(Foi publicado em 1992 um suplemento). municação.
Frenk, Margit. (1994). Lírica española de tipo popular. Edad Gorani, Giuseppe. (1989). Portugal: a Corte e o País nos anos
Media y Renacimiento. Madrid: Ediciones Catedra. de 1765 a 1767. Lisboa: Lisóptima Edições.
Galeano, Eduardo (textos) & J. Borges (gravuras). (1994). As Guerra, Maria Luísa. (2003). Fado – Alma de um Povo (Ori-
palavras andantes. Porto Alegre: L&PM. gem Histórica). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Mo-
Galhoz, Maria Aliete (organização, introdução, notas e biblio- eda.
grafia). (1988). Romanceiro popular português. Volume ii. Guerreiro, António Machado. (1990). São Miguel, fonte de te-
157
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

atro popular. Volume i. Lisboa: Instituto Nacional de In- ge Freitas & Paulo Lima. Artes da Fala. Oeiras: Celta Edi-
vestigação Científica. tora. 47-85.
Guerreiro, Manuel Viegas & João David Pinto-Correia. (1986. Lopes, Modesto Martins. (1988). A minha poesia: vi, pensei...
Agosto-Dezembro). Almanaques ou A Sabedoria e as Tarefas escrevi. Santiago do Cacém: Câmara Municipal de Santia-
do Tempo. ICALP. N.º 6. Lisboa: Instituto de Cultura e Lín- go do Cacém & Edição de Autor.
gua Portuguesa.43-52. Lord, Albert Bates. (1991). Epic singers and oral tradition.
Guerreiro, Manuel Viegas. (1983). Para a história da literatura Ithaca & London: Cornell University Press.
popular. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa Lord, Albert Bates. (1997). The singer of tales. USA: Harvard
/ Ministério da Educação. University Press.
Guerreiro, Manuel Viegas. (1991). Uma excursão à serra do Machado, Álvaro Manuel. (1986). Les romantismes au
Algarve. Loulé: Câmara Municipal de Loulé. Portugal: modeles etrangers et orientations nationales.
Guerreiro, Manuel Viegas. (1992). Poesia popular: conceito, a Paris: Fondation Calouste Gulbenkian / Centre culturel
redondilha, a décima; décimas em poetas do Alentejo e Al- Portugais.
garve. Literatura popular portuguesa. Lisboa: ACARTE. Madeira, João. (1988). As associações de classe dos trabalha-
Fundação Calouste Gulbenkian. 191-237. dores rurais em Santiago do Cacém (1910-1914)... Setúbal:
Guerreiro, Manuel Viegas. (1997). Povo, povos e culturas (Por- Associação para a Salvaguarda do Património Cultural e
tugal – Angola – Moçambique). Lisboa: Colibri. Natural da Região de Setúbal (SALPA).
Guimarães, Ana Paula. (2000). Conversas a cantar (sobre can- Madeira, João. (1993). Santo André no século xix: o homem
tares ao desafio). Nós de vozes: acerca da Tradição Popular e a Lagoa. Encontro sobre a Lagoa de Santo André. San-
Portuguesa. Lisboa: Edições Colibri. 217-252. tiago do Cacém: Associação Cultural de Santiago do Ca-
Guimarães, Paulo Eduardo. (2001). Indústria e conflito no cém. 45-64.
meio rural: os mineiros alentejanos (1858-1936). Lisboa: Malta, Joaquim Pinto (recolha). (1988). As cegadas no conce-
Edições Colibri & CIDEHUS-UE. lho do Seixal. Seixal: Câmara Municipal do Seixal.
Guinot, Maria & Ruben de Carvalho & José Manuel Osório. Marques, Idalete (recolha) & Pinto, José A. Teixeira (selecção)
(1999). Histórias do Fado. Amadora: Ediclube. & Serápio, António (promoção). (1993). Alameda dos po-
Gurevitch, Aron L.. (1990). As categorias da cultura medieval. etas. Monchique: Rádio Fóia.
Lisboa: Editorial Caminho. Massignon, Geneviève. (1994). Trésors de la chanson populaire
Hagège, Claude. (1990). O homem dialogal. Lisboa: Edições française. Autor de 50 chansons recueillies en Acadie, 1-
70. textes. Paris: Bibliothèque Nationale de France.
Herculano, Alexandre. (1853). Historia de Portugal. Volume i. Matos, Maria Joaquina. (1998). As décimas da Ribeira do Sa-
Lisboa: Em Casa da Viuva Bertrand e Filhos. do. (Dissertação de mestrado na Universidade Nova.)
Horta, José Inácio. (2000). Livro da verdade. O dialogismo co- Mattoso, José (2001). Identificação de um País. Oposição. Vo-
mo processo de construção cultural. (Fixação de texto, no- lume i. Lisboa: Círculo de Leitores.
tas e nota introdutória de Paulo Lima). Odivelas: Agir Pro- McCormick, John & Bennie Pratasik. (1998). Popular puppet
duções Gráficas. theatre in Europe, 1800-1914. Cambridge: University Press.
Jiménez de Báez, Yvette (editora). (1998). Voces y cantos de la Mestre, Francisco. (1988). Vida e obra. Santiago do Cacém &
tradición. México: El colegio de México. Odemira: Câmara Municipal de Santiago do Cacém & Câ-
Leite, Orlando. (1994.Dezembro.9). Tudo isto existe. Vida, jor- mara Municipal de Odemira.
nal semanário Independente. Lisboa. 50. Mintz, Jerome R. (1982). The anarchists of Casas Viejas.
Lima, Augusto C. Pires de. (1942). A poesia religiosa na litera- Chicago: The University of Chicago Press.
tura portuguesa. Porto: Domingos Barreira. Miranda, Sacuntala de & Pedro Cardim (organização). (s. d.). A
Lima, Paulo. (1994). Poetas de cá. Volume i. Portel: Câmara revolução industrial britânica (antologia). Lisboa: Teorema.
Municipal de Portel. Moita, Luiz. (1936). O fado, canção de vencidos. Lisboa.
Lima, Paulo. (1996). No Jardim do Mundo. Textos. Portel: Câ- Morais, António Manuel. (2003). Fado e Tauromaquia no Séc.
mara Municipal de Portel. XIX. Lisboa: Hugin.
Lima, Paulo. (1997). Artistas da fala a sul do Tejo. Branco, Jor- Mota, Arlindo (organização). (s. d.). António Maria Eusé-
158
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

bio “O Calafate”, o Cantador de Setúbal: poesia. Setú- The collected papers of Milman Parry. New York &
bal: SALPA. Oxford: Oxford University Press.
Mota, Arsénio. ( 1990). Letras bairradinas. Anadia: Associa- Passos, A. A. (1858). Poesias. Porto. 14-18.
ção de Jornalistas e Escritores da Bairrada. Passos, Alexandre. (1999). Bonecos de Santo Aleixo. As mario-
Mullett, Michael. (1990). La cultura popular en la Baja Edad netas em Portugal nos séculos XVI a XVIII e a sua influên-
Media. Barcelona: Editorial Crítica. cia nos Títeres Alentejanos. Évora: CENDREV.
Navarro, António Modesto. (1980). Poetas populares alente- Passos, Soares de. (1983). Poesias. Lisboa: Vega.
janos. Lisboa: Vega. Pellerin, Agnès. (2003). Le fado. Paris: Chandeigne. [Inclui
Negrão, Albano Zink. (s. d.). O Parque Mayer. Lisboa. c. d.].
Neves, Cesar das. (1893). Cancioneiro de musicas populares. Picão, José da Silva. (1947). Através dos campos. Lisboa: Ne-
Porto: Typographia Popular. ogravura.
Noda Gómez, Talio. (1999). La música tradicional en la isla Pimentel, Alberto. (1904). A triste canção do sul (subsidios pa-
de La Palma. La Palma: Excmo. Cabildo Insular de La ra a historia do fado). Lisboa: Livraria Central.
Palma. Pina, Luís de. (1986). História do cinema português. Mem
Nogueira, Carlos. (2000). Literatura oral em verso. A poesia Martins: Publicações Europa-América.
em Baião. Vila Nova de Gaia: Estratégias Criativas. Pinheiro, José Manuel Monarca. (1993). Cantadores de ale-
Nogueira, Carlos. (2002). O essencial sobre O Cancionei- grias, mágoas e mangações, Alandroal: Câmara Munici-
ro narrativo tradicional. Lisboa: Imprensa Nacional-Ca- pal de Alandroal.
sa da Moeda. Pinheiro, Magda. (2000). O Liberalismo nos espaços públi-
Nogueira, Carlos. (2003). Literatura de cordel portuguesa: his- cos. Oeiras: Celta.
tória, teoria e interpretação. Lisboa: Apenas Livros. Pinto-Correia, João David. (1992). Para uma teoria do texto da
Nunes, Maria Zaluar. (1975). Cancioneiro popular português literatura popular tradicional. Literatura popular portuguesa.
coligido por José Leite de Vasconcelos. Volume i. Coim- Lisboa: ACARTE. Fundação Calouste Gulbenkian. 101-128.
bra: Acta Universitatis Conimbrigensis, Por Ordem da Uni- Pinto-Correia, João David. (2003). Romanceiro oral da tradi-
versidade. ção portuguesa. Lisboa: Edições Duarte Reis.
Oliveira, António Resende de. (2001). O trovador galego-por- Pires, António Tomás. (1986). Cancioneiro popular político.
tuguês e o seu mundo. Lisboa: Editorial Notícias. Lisboa: Editorial Labirinto.
Oliveira, Ernesto Veiga de. (1982). Instrumentos musicais Pizarroso Quintero, Alejandro (coordenador). (1996). História
populares portugueses. Lisboa: Fundação Calouste Gul- da imprensa. Lisboa: Planeta Editora.
benkian. Pombinho Júnior, José António. (1942). Cantigas dobradas.
Ong, Walter J. (1999). Oralidad y escritura: tecnologías de la Ethnos. Volume ii. Lisboa: Instituto Português de Arqueo-
palabra. México: Fondo de Cultura Económica. logia, História e Etnografia. 391-409.
Os cegos e as notícias. (1942.Abril.14). Brados do Alentejo. Pombinho Júnior, José António. (1962). O ‘cante’ das
Estremoz. ‘gralhas...à solta’. Almanaque Alentejano. Ano xxiv. Lis-
Osório, António. (1974). A mitologia fadista. Lisboa: Livros boa. 194-195.
Horizonte. Porqueras Mayo, A. (s. d.). La teoria poetica en renaciamiento
Paias, João Chouriço. (1992). Tenho pena de saber. Moura: y manierismo españoles. Barcelona: Puvill Libros.
Câmara Municipal de Moura. Portela, Manuel. (2003). O comércio da literatura: mercado &
Palmeirim, Luis Augusto. (1891). Os excentricos do meu tem- representação. Lisboa: Antígona.
po. Lisboa: Imprensa Nacional. Porto da Cruz, Visconde do. (1954). Trovas & cantigas do ar-
Paquete, Francisco Soares Victor. (1996.Agosto). Almada Ne- quipélago da Madeira. Aveiro: Edição de Autor.
greiros / Messejana e Aljustre. Cadernos Culturais iii, 1993- Praça, Afonso. (2001). Novo dicionário de calão. Lisboa: Edi-
1995. Messejana: Junta de Freguesia de Messejana. torial Notícias.
Parreira, António (recolha) & Machado, Jorge (transcrição). Queirós, Eça de. (2001). A ilustre casa de Ramires. Lisboa: Te-
(1999). Notas de música. Amadora: Ediclube. mas e Debates.
Parry, Adam (edited). (1987). The making of Homeric verse. Quintas, Maria da Conceição & Chagas, Soledade Brites &
159
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Contreiras, Élia Almada. (1981). Greves-sindicalismo – Se- do Cacém: breve inventário. Santiago do Cacém: Edições
túbal 1910/’13. Setúbal: Assembleia Distrital de Setúbal. Colibri & Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
Raposo, Eduardo M. (s. d.). Canto de intervenção: 1960-1974. Sousa, Ana Teresa Santos de Sousa. (1997). Vida, obra e espó-
Lisboa: Biblioteca Museu República e Resistência. lio de J. A. Pombinho Júnior. Notas acerca de um trabalho
Réau, Louis. (1959). Iconographie de l’art chrétien. Tomo iii, em curso. Branco, Jorge Freitas & Paulo Lima (organizado-
vol. ii. Paris: PUF. 1191. res). Artes da fala. Colóquio de Portel. Oeiras: Celta.
Reckert, Stephen & Macedo, Hélder. (1996). Do cancioneiro Sousa, Avelino de & Júlio Guimarães. (1946). Cantigas ao fa-
de amigo. Lisboa: Assírio & Alvim. do. Lisboa: Edição de Autor.
Reis, Maria da Conceição. (2002). O monte alentejano – a Sousa, Avelino de. (1912). O Fado e os seus scensores. Lisboa:
transformação no século xx – o caso da Amoreira de Cima. Edição de Autor.
Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. Sousa, Avelino de. (1944). Bairro Alto (romance de costumes
Resende, Garcia de. (1993). Cancioneiro geral de... Volumes i, populares). Lisboa: Livraria Popular.
ii, iii e iv. (Fixação do texto e estudo por Aida Fernandes Sousa, Maria Clementina Pires de Lima Tavares de. (1942).
Dias.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Folclore musical. Porto: Portucalense editora.
Ribeiro, Aquilino & M. Marques Braga (prefácio e notas). Souza, Liêdo Maranhão de. (1976). Classificação popu-
(1982). Bernardim Ribeiro, obras completas. Volume ii. lar da literatura de cordel. Petrópolis: Vozes.
Lisboa: Sá da Costa Editora. Subtil, Manuel. (1937.Janeiro.31). Um poeta popular alenteja-
Ribeiro, José Luiz (Pepe Luiz). (1945). Fado, mulheres e toiros. no do século XVIII. Brados do Alentejo. Estremoz. 20-21.
Lisboa: Livraria Popular. Subtil, Manuel. (2001). Vale do Peso: história e tradição. Vale
Rodrigues, Edgar. (1977). Breve história do pensamento e das do Peso: Junta de Freguesia de Vale do Peso.
lutas sociais em Portugal. Lisboa: Assírio & Alvim. Sucena, Eduardo. (2002). Lisboa, o Fado e os Fadistas. Lis-
Rodrigues, Edgar. (1982). A oposição libertária em Portugal: boa: Vega.
1839-1974. Lisboa: Sementeira. Süssekind, Flora & Rachel Teixeira Valença. (1983). O Sapateiro
Roig. PBRO.,Juan Ferrando. (1950). Iconografia de los santos. Silva. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa.
Barcelona: Ómega. Talhinhas, António Joaquim & José Manuel Costa Coelho. (1997).
Roseiro, António. (s. d.). Fados tradicionais. 1.º volume. Ma- Contos versados versus Versos contados. Évora: CENDREV.
fra: Edição de Autor. Tavares, Jorge Campos. (1990). Dicionário de Santos. Porto:
Roseiro, António. (s. d.). Fados tradicionais. 2.º volume. Ma- Lello & Irmão. 213.
fra: Edição de Autor. Teiga, Carlos. (2000). Poesia popular de Terras de Santiago.
Roseiro, António. (s. d.). Fados tradicionais. 3.º volume. Ma- Santiago do Cacém: Edição de Autor.
fra: Edição de Autor. Teiga, Carlos. (2002). Poesia popular do sudoeste alentejano:
Santos, J. J. Carvalhão. (1991). Literatura e política: pombalis- José Pedro Guerreiro (o Rei dos Malhadais ou o Rei do
mo e antipombalismo. Coimbra: Livraria Minerva. Carvão) e Manuel Guerreiro (o Bruxo). Grândola: Câmara
Saraiva, Arnaldo. (1980). Literatura marginal izada. Novos en- Municipal de Grândola.
saios. Porto: Edições Árvore. Thompson, E. P.. (1991). The making of english working class.
Sardinha, José Alberto. (2000). Tradições musicais da Estrema- London: Penguin.
dura. Vila Verde: Tradisom. Tinhorão, José Ramos. (1988). Os negros em Portugal. Uma
Sardinha, José Alberto. (2001). Viola campaniça: o outro Alen- presença silenciosa. Lisboa: Editorial Caminho.
tejo. Vila Verde: Tradisom. Tinhorão, José Ramos. (1994). Fado, dança do Brasil, cantar
Serrão, Vítor Manuel Guimarães Veríssimo. (1986). Relató- de Lisboa: o fim de um mito. Lisboa: Editorial Caminho.
rio – ii-iii. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. (Poli- Trapero, Maximiano & Santana Martel, Eladio & Márquez
copiado). Montes, Carmen (edición). (2000). Actas del VI Encuentro-
Soares de Passos (António Augusto). (1978). Grande Enciclo- Festival Iberoamericano de la Décima y del Verso
pédia Portuguesa e Brasileira. Volume xxix. Lisboa-Rio de Improvisado. I. Estudios. Las Palmas de Gran Canaria:
Janeiro: Editorial enciclopédia. 354-355. Universidad de Las Palmas de Gran Canaria & ACADE.
Sobral, Carlos et alii. (2001). Património edificado de Santiago Trapero, Maximiano (coordinador). (2001). La décima. Su historia,
160
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

su geografía, sus manifestaciones. Gran Canaria & Évora: Centro Ventura, António. (1977). O sindicalismo no Alentejo. A
de Cultura Popular Canaria & Câmara Municipal de Évora. «tournée» de propaganda de 1912. Lisboa: Seara Nova.
Trapero, Maximiano. (1989). Cultura popular y tradicion oral: Vernon, Paul. (2000). A History of thePortuguese Fado.
en busca de romances por La Gomera. Centro de la Cultu- Burlington: Ashgate. [Inclui c. d.].
ra Popular Canaria. Vieira, Ernesto. (1899). Diccionario musical ornado com gra-
Trapero, Maximiano. (1996). El libro de la décima. La poesía vuras e exemplares de musica. Lisboa: Lambertini.
improvisada en el mundo hispánico. Las Palmas de Gran Vilhena, M. Assunção. (1997). Gente do monte: recordação da
Canaria: Universidad de Las Palmas de Gran Canaria & infância. Santiago do Cacém: Edição de Autor.
Cabildo Insular de Gran Canaria & UNELCO. Zumthor, Paul. (1989). La letra y la voz de la «literatura» me-
Valente, Vasco Pulido. (1999). O poder e o povo: a revolução dieval. Madrid: Cátedra.
de 1910. Lisboa: Gradiva. Zurbach, Christine (coordenação). (2002). Teatro de marione-
Valverde, Paulo. (1999). O fado é coração: o corpo, as emo- tas: tradição e modernidade. Évora: Casa do Sul Editora.
ções e a performance no fado. Etnográfica. Volume i. N.º
1. Lisboa: Celta. 5-20.
Vansina, Jan. (s. d.). La tradición oral. Barcelona: Editorial C. D.
Labor. Alfredo Marceneiro (Biografias do fado). (1997). Pracana, José
Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (edição). (1990). Cancio- (compilação) & Daniel Gouveia (texto). Lisboa: EMI.
neiro da Ajuda. Volume ii. Lisboa: Imprensa Nacional-Ca- Bonecos de Santo Aleixo. Auto da criação do Mundo.
sa da Moeda. (2000).Giacometti, Michel & Fernando Lopes-Graça. Vo-
Vasconcelos, José Leite de. (1891-1896). Ensaios Ethnogra- lume i. Lisboa: Strauss.
phicos. Volume i. Espozende: Colecção Silva Vieira. 27- No paraíso real. Tradição, revolta e utopia no Sul de Portugal.
31, nota 7. (1999). Lima, Paulo (coordenação). Castro Verde: Câmara
Vasconcelos, José Leite de. (1903-1904). Poetas populares por- Municipal de Castro Verde.
tugueses. I - O Cantador de Setubal. Revista Lusitana. Vo-
lume 8. N.º 1. Lisboa: Antiga Casa Bertrand. 45-48. CRÉDITOS FOTOGRÁFICO
Vasconcelos, José Leite de. (1903-1904). Poetas populares por- pág. 31 Bonecos de Santo Aleixo (Orada), Augusto Brázio
tugueses. II - José dos Reis. Revista Lusitana. Volume 8. N.º pág. 48 Cego e acompanhante, Hidalgo Vilhena, CMSC
1. Lisboa: Antiga Casa Bertrand. 48-49. pág. 84 Tocador de guitarra, Hidalgo Vilhena, CMSC
Vasconcelos, José Leite de. (1903-1904).Poetas populares portu- pág. 114 Manuel José Santinhos, Augusto Brázio
gueses. III - Antonio Augusto Monteiro. Revista Lusitana. Vo- pág. 152 Manifestação de trabalhadores de Santo André em
lume 8. N.º 1. Lisboa: Antiga Casa Bertrand. 50-51. frente ao jornal Semeador, Santiago do Cacém, 1912,
Vasconcelos, José Leite de. (1906). Poetas populares portugue- Hidalgo Vilhena, CMSC
ses. IV - O Pôtra. Revista Lusitana. Volume 9. N.º 1-2. Lis- pág. 162 Manuel José Santinhos e Miguel Capitã (guitarra),
boa: Imprensa Nacional. 139-141. Rui Chaves
Vasconcelos, José Leite de. (1916). Cantigas quadradas: nótulas pág. 238 Fadista, postal ilustrado (finais do séc. xix)
etnográficas. Separata do Correio Elvense. Nº 1659, de 29 de pág. 310 Fotógrafo de feira, Feira do Monte, Santiago do Ca-
Abril de 1916. Elvas: António José Torres de Carvalho. cém, Hidalgo Vilhena, CMSC
PARTE IV
SEIS

BREVE ANTOLOGIA DA OBRA POÉTICA


DE MANUEL JOSÉ SANTINHOS
162
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO
163
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

MANUEL JOSÉ SANTINHOS, podemos criar outras semelhantes, que nos pare-
UM POETA INSPIRADO PELA NATUREZA cem mais razoáveis:
Olhemos para o nosso Mundo, esta máquina
PROF. MANUEL JOÃO DA SILVA maravilhosa em todas as manifestações da vida e

Q
até nas coisas inanimadas.
UEM teria ensinado os primeiros “músicos” Quem rege toda esta “engrenagem” que nenhum
da palavra, a quem os falantes determina- homem pode igualar, mas que muitos, infelizmen-
ram chamar poetas? O que é certo é que te, se esforçam por destruir?
Homero compôs os seus poemas há perto 3 mil anos, Assim, para descanso da nossa mente, temos de
e antes dele outros poetas teriam existido. “criar” um Deus-Natureza, um Deus-Científico,
Recuemos, ainda mais, no tempo: sublime, inconsciente ou possuidor duma consci-
Quem teria ensinado os homens primitivos a de- ência transcendente que nenhuma mentalidade hu-
senhar e pintar as figuras cheias de força e reali- mana pode compreender; um Deus que distribui
dade, que se vêem nas grutas existentes em vários os dotes pelos humanos tal como distribui a chu-
lugares da Terra? E além destas, outras manifesta- va pelos vários lugares da Terra, ficando uns com
ções da arte primitiva? mais quantidade do que outros. Um Deus que bem
Certamente ninguém. Será a resposta pronta e pouco tem a ver, com o Deus tradicional que nos
impensada. é apresentado.
Então serão essas obras maravilhosas, quer se- Todo este preâmbulo não foi mais que um en-
ja no aspecto físico ou intelectual, um produto do saio, para tentar explicar o inexplicável, isto é,
acaso, sem haver um “Mestre” invisível que orien- atribuir a uma “inspiração divina” (para não lhe
tasse esses artistas? chamarmos outro nome) ao aparecimento da obra
Os gregos, com um sentido muito prático, cria- do Poeta, que ora apresentamos.
ram os deuses, que superintendiam em todos os A História classificou Camões como Príncipe
actos da vida dos homens. As deusas, com a ca- dos poetas portugueses. Num sentido mais res-
tegoria de musas, estavam encarregadas de inspi- trito, classificamos Manuel José Santinhos como
rar os poetas. Príncipe dos poetas populares desta e doutras re-
Segundo a mitologia grega, o Olimpo era a mo- giões, tão grande e excelente é a sua obra.
rada dos deuses, e estava situado nas altas monta- Neste artigo, que pretendemos não alongar mui-
nhas da Grécia. to, não nos move qualquer outro objectivo, senão
Num aparte, apetece-nos perguntar: Qual seria fazer justiça ao Poeta, pelas suas excepcionais qua-
a musa que voou do Olimpo e veio pousar no te- lidade, como homem de bem, como pessoa inteli-
lhado do monte do Tojal, e inspirou o Poeta Ma- gente, e principalmente pela sua inspiração poé-
nuel José Santinhos? tica com que foi dotado pela tal musa partida do
Como pensantes que somos, hoje não podemos Olimpo.
aceitar as teorias dos antigos gregos. No entanto, Os seus admiradores contam-se entre todos
164
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

aqueles que o ouvem recitar suas poesias. E, caso sociais e tudo quanto fazia sofrer os deserdados da
curioso: o auditório que o escuta, pode ser cons- sorte. Este rol de desventuras provocava situações
tituído por pessoas que já ouviram as suas “qua- que muito impressionavam os poetas.
dras” dezenas de vezes, mas, pela harmonia dos Mas tal qual como a vida das pessoas, nem tu-
seus versos, recitados com sua voz suave mas cheia do é sempre um mar de rosas nem um poço de so-
de força na sua expressão poética, é coisa que nin- frimento.
guém quer perder a oportunidade de os ouvir mais Neste aspecto, já temos observado que o poeta,
uma vez. quando recita umas poesias que fazem chorar a as-
A obra de Manuel José Santinhos, além da po- sistência, se não com os olhos mas sim com o senti-
esia, encerra outro valor: Pela facilidade e clareza mento, ele apresenta a seguir umas poesias humo-
da comunicação, ela é ainda um documento valio- rísticas ou brejeiras, e dum momento para o outro
so, pela quantidade dos temas tratados pelo poeta, todo o auditório ri. Com esta habilidade a boa dis-
ao longo da sua longa existência. posição volta novamente.
É como uma verdadeira reportagem sobre os A propósito das cantigas brejeiras onde se nota
usos e costumes da região, onde se mencionam os certas doses de erotismo, não ferem a sensibilidade
acontecimentos mais importantes da freguesia, os de quem quer que seja porque em poesias deste gé-
usos e costumes da população, a vida difícil dos nero, o Autor usa sempre linguagem figurada.
pequenos e médios agricultores a cuja classe o au- Outro tema que o poeta se refere largamente, é
tor pertence. o Amor. Usa este tema referindo-se ao amor entre
os membros da mesma família e não só. Nas su-
Se passarmos pelo vasto conteúdo da obra de as poesias encontramos algumas dedicadas às su-
Manuel José santinhos, temos a impressão que es- as apaixonadas, certamente compostas quando o
tamos perante um filme em que as imagens se su- Autor era rapaz.
cedem conforme a imaginação e a descrição do É interessante notar que até na obra do Poeta
Autor. Manuel José Santinhos, a História da poesia an-
Se bem pensarmos, o Poeta é também um “histo- tiga se repete. Pois tal como no tempo do nosso
riador” do meio e da época em que vive, visto que rei D. Dinis, aqui as cantigas de “amigo” tam-
talvez sem dar por isso, nos apresenta os aconte- bém aparecem quando o Autor as dedica aos seus
cimentos, os usos e costumes, fazendo o “retrato” colegas e outras pessoas que estima. Também na
das pessoas conforme as suas boas ou más quali- continuação do tema que vem de longe, como
dades. dissemos, os maus vizinhos são “contemplados”
Nem só as pessoas, mas também as coisas da fre- com as “cantigas de maldizer” dedicadas a indi-
guesia nos são apresentadas. E será ouvindo uma víduos que dalguma forma prejudicaram o Poe-
“cantiga” que o Poeta dedicou à feira de Santo An- ta, ou faltaram ao respeito à sua vizinhança, co-
dré, composta ainda quando o Autor era um rapaz, mo era o caso dos donos de valados de piteiras
há cerca de setenta e cinco anos, que nós podemos nas azinhagas.
fazer uma ideia sobre as características duma feira Apesar disso, o Autor como pessoa pacífica que
desta época. Por esta “quadra” soubemos da exis- é não descompõe nem cita os nomes dessas pes-
tência da barraca de Maria José Preta, cuja dona soas. Pelo contrário, lamenta o seu procedimento
tocava guitarra e cantava ao despique com os fre- como que fazendo um apelo para o bom compor-
gueses, causando certa admiração e prazer aos po- tamento, de modo que a paz reine no lugar onde
etas de santo André por ser coisa que até ali nun- todos vivem.
ca tinham visto. No princípio da década de setenta deste sécu-
Depois, os temas sucedem-se, ora dramáticos, se lo, implantou-se o Gabinete da Área de Sines nes-
tratam de assuntos relacionados com a morte, com te Concelho e em parte da freguesia de Santo An-
a mendicidade, com as doenças, com as diferenças dré. Nas poesias que o Autor dedica a este aconte-
165
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

cimento, descrevendo a forma despótica como es- Em nosso entender, mesmo que o Autor não ti-
sas expropriações foram realizadas, podemos co- vesse composto outras cantigas além desta, pa-
nhecer o descontentamento que esta medida cau- rece-nos que ela seria suficiente para o tornar
sou nos pequenos e médios agricultores, grupo a célebre.
que pertence Manuel José Santinhos.
Outro tema predilecto do Poeta era a sua vida de A PROPÓSITO DO “POETA POPULAR”
agricultor, tanta vez cheia de dificuldade. No en-
tanto, como humorista de fino quilate que é, des- Na verdade, não simpatizamos muito com es-
creve a sua vida, muitas vezes atribulada, recitan- te termo, por nos parecer que ele foi criado pa-
do as suas poesias a esse respeito com um sorriso ra diferençar o poeta erudito que vive na cidade,
nos lábios, fazendo desta forma, sorrir também os rodeado de cultura, com o seu colega de poucas
seus ouvintes. ou nenhumas letras, que até há poucos anos vi-
Neste capítulo, consideramos uma poesia genial via rodeado de analfabetismo nas aldeias e nos
da qual transcrevemos o mote: campos. No entanto, as “musas” podem ter vi-
sitado uns e outros. E neste caso, o poeta a que
Lá anda o velho campónio fazemos referência neste trabalho, é disso um
Labutando com a vida exemplo flagrante. Daí o nosso desacordo em
“Enludido” pela esperança pôr “rótulos” nas pessoas antes de analisar as
São João e Santo António suas obras.
Trazem-lhe a ideia “enludida” É certo que, a obra dum poeta ilustrado, alcan-
De morrer não tem lembrança çará maior prestígio que aquela produzida por ou-
tro poeta que não recebeu qualquer embelezamen-
A apreciação à Obra de Manuel José Santinhos to da educação.
não teria fim, mas já vai longo o nosso trabalho, Por outro lado, não é menos verdade que há flo-
e nós vamos terminar um tanto abruptamente fa- res silvestres que cresceram espontâneas nos cam-
lando da sua poesia mais conhecida, que como a pos, e apesar disso, se bem olharmos para elas, ve-
anterior transcrevemos o mote: rificamos que a sua beleza singela rivaliza com as
mais perfeitas flores modernamente tratadas nos
A água da minha fonte jardins, em que algumas vezes, pouco perfume elas
Dou eu a quem a vá buscar exalam para o ambiente.
Nunca por mim foi vendida
E há queixumes lá no monte Terminamos sem palavras rebuscadas, dando as-
Que a têm ido comprar sim a nossa simples opinião como simples é a gran-
Em nome de outra bebida deza da Obra de Manuel José Santinhos.
166
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

BREVE NOTA AO CORPUS da parente Manuel José Santinhos. Vejamos um


exemplo de um texto do poeta do Tojal aproveita-

E
RA nossa primeira intenção editar todos os do por Nicolau
textos que recolhemos de José Manuel Santi-
nhos. Essa edição seria crítica. Motivos vários AO LADO DE NOSSO [Quadra curta de Manuel José
impossibilitaram a edição dos cerca de 500 textos SENHOR Santinhos]
versificados. A estes juntar-se-iam aqueles que lhe fo-
A lua é Nossa Senhora A lua é Nossa Senhora
ram sendo dedicados por vários poetas. De qualquer Que está no seu altar Deus é o sol superior
forma, todo o corpus recolhido e tratado foi deposi- Ao lado de Nosso Senhor A terra é mãe criadora
A terra mãe criadora E o mar é o nosso amor
tado na Câmara Municipal de Santiago do Cacém, Ao mar se vai buscar
assim como todas as gravações efectuadas. Muito carinho e amor!
Não devemos ter a veleidade de imaginar que As nuvens são passarinhos As nuvens são passarinhos
algum dia teremos um livro onde se reúnam todas Formando um grande bando A voar sobre a lavoura
as composições do poeta do Tojal. Grande parte Voando sobre a lavoura As estrelas são anjinhos
As estrelas são os anjinhos A lua é Nossa Senhora
desta era feita em improvisos ou ia sendo altera- Para se irmos aproximando
da, transformada, substituída por outras compo- A lua é Nossa Senhora
sições. O que ficou na sua memória são textos de Deus está na Igreja
há muitos aprendidos ou que de alguma forma Que existe em tudo o mundo
E gosta de lá estar
marcaram, pelo seu fundamento, um momento O bem a todos deseja
importante na sua história de vida. Ainda assim, Com um sentimento profundo
juntámos uma das maiores colecções já há algu- Que está lá no seu altar

ma vez reunidos de um só poeta. Esperamos, no O tempo é a nossa sorte O tempo é a nossa sorte
futuro, vir a poder editar criticamente todo es- O saber dá nos luz Quem nos dá frio e calor
E também muito calor O Diabo é a nossa morte
te corpus. O destino é muito forte Deus é o sol superior
Alguns destes textos já foram publicados quer Maria mãe de Jesus
Al lado de Nosso Senhor
por Vítor Bastos e Celeste Rodrigues quer por Car-
los Teiga. Embora coloquemos a referência biblio- Saúde é toalha estendida Saúde é a colcha estendida
gráfica em cada texto, há algumas diferenças entre Ao pé da fonte a correr Ao pé de água superiora
Que mata a sede duradoura A esperança é a nossa vida
os textos já editados e os que aqui divulgamos: se- A esperança é a nossa vida A terra é mãe criadora
guimos sempre as gravações da década de oitenta É o que há a dizer
A terra mãe criadora!
feitas por Vítor Bastos, as nossas ou os manuscri-
tos em posse de Glória e de Eduarda Santinhos; só Há um ser que nos conduz
Sem ninguém se aperceber
a inexistência – casos raros – de versões é que nos Mas põe tudo a andar
fez seguir as já anteriormente dadas. Tudo de bom se produz
Os textos vão organizados por temas, em parte E o peixe para se comer
Ao mar se vai buscar!
relacionados com a história de vida de Manuel Jo-
sé Santinhos. Temos consciência de que se o poeta Há o astro que não é feio O astro formoso e cheio
Com um azul clarinho Não se demuda de cor
do Tojal estivesse vivo, as daria de uma outra for- E nunca muda de cor O vento é o nosso recreio
ma, mas o contacto de quatro anos com a sua obra E na hora do recreio E o mar é o nosso amor
Recebemos devagarinho
dá-nos, por vezes, a vertigem de uma partilha que Muito carinho e amor!1
é apenas uma ilusão.
Seria de extremo interesse aprofundar a ques-
tão autoral. Durante o processo de trabalho, fo- Mas esta estratégia de construção também é
mos confrontados com a obra do poeta «Nico- localizável em muitos textos de Santinhos. Ele
lau». Este, de seu nome António José Gonçalves, aproveita versos, adágios, fragmentos de déci-
parece em muitas composições plagiar o seu ain- mas… para as suas quadras. O confronto com
167
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

a obra de António José Gonçalves levanta-nos Tilintando em todo o prado


a questão do autor na poesia popular, questão Das bonitas ovelhinhas
axial que não teve até agora investigação entre Que ele com o seu cajado
nós. Olha-as com grande amor
De qualquer forma, o corpus aqui fica. Para uma Entre abelhas e andorinhas
mais fácil leitura dos textos, que aqui são dados E aquele resplendor
sem pontuação, as regra são muito simples: as sex- Do azul verde e castanho
tilhas devem ser lidas de três em três versos, com As cores das flores
uma pausa entre o terceiro e o quarto verso; as dé- Ele deita-se olhando para o céu
cimas devem ser lidas de dois em dois versos, dan- Que bons dias que eu apanho
do mais ênfase nos quatro primeiros versos e nos Onde fico imenso agradecido
dois últimos; as quadras de sessenta pontos, de- Canta tirando o chapéu
vem-se ler de três em três versos; as décimas com Por se encontrar distraído
cesura devem-se ler de dois em dois versos, com A O LADO DO SEU REBANHO
pausas entre os hemistíquios.
Manuel José Santinhos é um grande poeta. Tem Mas o vício do tabaco
textos de uma rara beleza. Entre eles existem dois Que começa a convencer
que sempre nos fascinaram: um é aquele que en- Para a noite ir passear
cerra este corpus, o outro é É o vício de beber
E se não beber nem fumar
Dá saltos como um macaco
MUITO GOZA O PASTORINHO Começam a entender
POR ENTRE FLORES MIMOSAS Que ele neste pensar é fraco
AO LADO DO SEU REBANHO E dão-lhe então em dizer prosas
MAS LEMBRA-SE AGUARDENTE E VINHO E este armado em chatarrão
E VAI PARA AS TABERNAS GULOSAS Dando respostas maldosas
VENDER BABACEIRA E RANHO Mostra aspecto dum anjinho
Deixa a sua obrigação
Embora zangado às vezes PORQUE LEMBRA-SE AGUARDENTE E VINHO
Por uma fala ruim E VAI PARA AS TABERNAS GULOSAS
Que ao ouvir de uns males infernais
Ainda é julgado por mim Terrincando a dentadura
Talvez dos que gozem mais Põe-se de parte sozinho
Destes pobres camponeses E chora pela testa acima
Ao ver do inverno o fim A ver se cai mais um copinho
Esperançado em ter nalguns meses Porque ele tem esta esgrima
Umas manhãs amorosas Mas triste de quem o atura
E terem relva sempre à espera Já não vê o seu caminho
De bocas apetitosas Ainda esta pobre pendura
Que peguem no seu raminho Quer copos de alto tamanho
Isto é nos tempos da primavera Pelo tabaco e aguardente
MUITO GOZA O PASTORINHO Faz teias como um aranho
POR ENTRE FLORES MIMOSAS E o fedor tem enfara
Com isto enjoa toda a gente
Em brio é o lindo pastor Quando se lhe avista a cara
Soam lindas campainhas A VENDER BABACEIRA E RANHO
168
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 001 › › 002 ›
MANUEL JOSÉ DO TOJAL N AS CAMPINAS ME CRIEI
NATURAL DE SANTO ANDRÉ Q UANDO HAVIA LIBERDADE
NO TOJAL JÁ SE NÃO CRIA D OS TEMPOS QUE EU JÁ PASSEI
OUTRO RAPAZ COMO ELE É A INDA SINTO SAUDADE

Quem este nome lembrou Lembro os meus tempos primeiros


Teve boa descrição Que a vida era uma delícia
Mas quem conhece o meu brasão Numa charneca planícia
Já todos sabem quem eu sou Quando não havia pinheiros
Que o meu nome se registou Só camarinhas e resmoneiros
Lá no registo geral O que hoje já pouco se vê
E na câmara municipal E árvores como manda a lei
Quando alguém por mim procura Só lembro o pinheiro do brinco
Está a minha assinatura E sou de mil novecentos e cinco
MANUEL JOSÉ DO TOJAL E NAS CAMPINAS ME CRIEI

Estou no sítio da criação Ali no sítio do Tojal


Na minha freguesia me acho Da freguesia de Santo André
Nascido no Tojal de Baixo Apareci nessa maré
Da ribeira de Baleizão E eu daqui sou natural
Tenho boa protecção Do gado eu era moiral
Para a família ali do pé Logo desde tenra idade
Confesso na boa-fé E nem um terço e nem metade
A estes que me querem bem Das coisas que eu vejo agora
Pertenço ao concelho de Santiago do Cacém E passeei por campos fora
SOU NATURAL DE SANTO ANDRÉ Q UANDO HAVIA LIBERDADE

Eu fui sempre verdadeiro As calhandras e as cotovias


Quando digo o que é verdade Tão lindamente cantavam
Gozei minha mocidade E as rãs acompanhavam
No tempo que fui solteiro Com suas lindas poesias
Ainda estou por bom cavalheiro Era festa todos os dias
Ali na minha freguesia Que hoje não há será porquê
Não conto por avaria Eu já nisto reparei
Porque eu em falas sou fiel Perdeu-se coisas tão lindas
Mas rapaz como o Manuel E as saudades são infindas
NO TOJAL JÁ SE NÃO CRIA DOS TEMPOS QUE EU JÁ PASSEI

Ao tomar certas idades Eu passeei num jardim


Dei em gostar de raparigas Que as moças eram flores
Dançar e fazer cantigas E os jovens eram amores
Diversas variedades E havia o não e o sim
Diz mentiras e verdades E havia o princípio e fim
Quando estando de maré E enxada e charrua e grade
E chegando a uma soaré E com carinho e amizade
Diverte-se a versar Voltar atrás quem me dera
E não é fácil encontrar Desse tempo primavera
O UTRO RAPAZ COMO ELE É AINDA SINTO SAUDADES
Bastos & Rodrigues 1991: 21, 93.
169
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 003 › Das penas que eu tenho tido


POR TER AMOR AO GAJEDO Davam para eu me matar
PERDIÇÃO DE HOMEM MADURO Se nelas penso eu choro
FIZ MEU DEVER MUNDIAL Os meus bens foram ao ar
EU PLANTEI ARVOREDO Já não sei onde moro
FIZ LIVRO E FILHOS E FURO Estou como um doido varrido
E FIZ MEU NOME IR AO JORNAL Eu padeço e ignoro
Poder ter-me acontecido
Quando eu era pequenino Tanto martírio infernal
Avistei com meu olhar É preciso ter coragem
Meninas que eram flores Antes do meu funeral
Sofri ilusão de amar Enfrentar tanta enleaça
Estudei a história de amores Quando eu vi que a minha imagem
Forçado pelo destino É pára-raios da desgraça
Tive um prazer de encantar E FIZ MEU NOME IR AO JORNAL
Um mandamento divino
Mandou inspirar ar puro › 004 ›
Quero o primor dessa era FUI DE OITO FILHOS DOTADO
Quando eu dormia ao escuro AINDA MAIS TREZE NETINHOS
E não pude acordar mais cedo SINTO-ME ASSIM ORGULHOSO
Para seres flor primavera QUANDO OS TENHO A MEU LADO
POR TER AMOR AO GAJEDO LAVAM-ME A CARA COM BEIJINHOS
PERDIÇÃO DE HOMEM MADURO PARA EU FICAR MAIS FAMOSO

O nosso espaço é deserto Sendo eu em falas fiel


Para a vida ser mais suave E com feitio duma maneira
E haver no mundo algum brilho Não gosto de estar sozinho
O homem plantou uma árvore O meu Celestino Pereira
E fez e criou um filho E a minha nora Cheinho
E deixou um seu livro aberto Deram-me António Manuel
De expansão não tem a chave Sendo avô a vez primeira
E sem ter ilusão de esperto Foi nome escrito em papel
Nem pensar em portar-se mal Quem descendeu duns velhinhos
Seu cante é com estilo vário E eu assim me sinto bem
E a base mais principal Gozando os primeiros carinhos
É ter ideia finória Da Mariana e do Bernardo
Por querer ser humanitário E por no mundo ser alguém
E deixar seu nome na história FUI DE OITO FILHOS DOTADO
FIZ MEU DEVER MUNDIAL E AINDA MAIS TREZE NETINHOS

Plantei um cento de oliveiras Hélder e Nelson o seu destino


Quando eu tinha em meu poder É andar com o estudo em dia
A herdade Guadiana Tenho neles boa fé
E ainda com mais prazer Estes deram-nos o António Jacinto e a Maria
Em charneca alentejana Quando a Custódia e o José
Pus quatrocentas figueiras Deram o Paulo e o Vitorino
Para ter vinho para beber Gosto de estar deles ao pé
Três mil pés de parreiras Por eles meu nome assino
Laranjal pus sem seguro E é para mim o melhor gozo
De arroz produtor Essa amizade me obriga
Tive que fazer muito muro A ir num gesto saudoso
Na lavra do arrozal Beijar-lhes o rosto e a mão
E quando eu era lavrador Em boa hora eu o diga
Na azinheira do Tojal Com esta satisfação
FIZ LIVRO FILHOS E FURO SINTO-ME ASSIM ORGULHOSO
170
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

António e Alice é casal sério › 005 ›


E mesmo na vida malandra O MEU NINHO É QUE EU PROCURO
Usam seu projecto em linha MINHA ESPOSA É MEU ABRIGO
Estes deram o André e a Sandra FILHA MINHA É MINHA FLOR
A Liliana e a Joaninha O MEU FILHO É MEU FUTURO
Deu-me a Orange e o Silvério O MEU NETO É MEU AMIGO
Tudo isto é gente minha O MEU BISNETO É MEU AMOR
Enquanto eu vou para o cemitério
Vão eles noutros caminhos Minha casa é os oitenta
Todos fazem seus projectos Minha folga é a descida
Sobre a harmonia dos ninhos Meu suspiro é o ar puro
Aonde quem nasce é criado Quando o azar frequenta
Em amando filhos e netos Ao relento sem guarida
QUANDO OS TENHO A MEU LADO O MEU NINHO É QUE EU PROCURO
LAVAM-ME A CARA COM BEIJINHOS
Da enchente da maré
A Eduarda e o Celestino Veio o prazer que me encanta
Gozam de amor a beleza De ser um jovem antigo
Futuros que não se adivinha A crença traz-me de fé
Deram-me então por surpresa A saúde é minha manta
Uma bonita Laurinha MINHA ESPOSA É MEU ABRIGO
E um Rui travesso e ladino
Amando-os de natureza Minha sorte é a comida
Nunca esqueço esse menino Tigela prato e colher
Por ele ser estudioso Alimento é meu doutor
Trago-os todos em memória Para poder brilhar na vida
Mas não sou ambicioso Enquanto a vida tiver
O que me ofertaram eu quis FILHA MINHA É MINHA VIDA
Deram-me o António e Glória
Dois gémeos Pedro e Luís Para a distracção me inclino
P ARA EU FICAR MAIS VAIDOSO O cantor é meu conforto
Bastos & Rodrigues 1991: 152. A tristeza é meu escuro
Ser alegre é meu destino
A poesia é meu desporto
O MEU FILHO É MEU FUTURO

Andam em minha lembrança


Feições de uma minha neta
Esquecê-las não consigo
As noras são a minha esperança
A avó minha predilecta
O MEU NETO É MEU AMIGO

Preparo-me com lindas bóias


Para nadar em águas paradas
Neste mar encantador
As filhas são minhas jóias
Minhas netas são amadas
MEU BISNETO É MEU AMOR
171
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 006 › › 007 ›
FUI À FESTA DE SANTA CRUZ EU NUM DOMINGO PASSADO
COISA LINDA E DISTINTA FUI AO AZINHAL PASSEAR
NO DIA CINCO DO CINCO POR SER UMA ALDEIA TÃO BELA
DE MIL NOVECENTOS E TRINTA ONDE FIQUEI ENCANTADO
POR VER UMA ROSA BRILHAR
Tinha saúde e prazer NO PEITO DUMA DONZELA
Determinei em ir à festa
Pensei hoje a vida é esta Eu pensava em vida alheia
Gozar quando puder ser Já mais que na minha vida
O gosto dos olhos é ver E senti o cérebro doente
Foi o que a pensar me pus Com a ideia iludida
E enquanto eu viver à luz Andava perdidamente
Quero deitar os meus planos Visitando aquela aldeia
E para honrar vinte e quatro anos Por uma moça bem parecida
FUI À FESTA DE SANTA CRUZ Quem eu não achava feia
E tinha olhos de cativar
Depois de à ermida chegar E eu com as minhas paixões
Pus o meu chapéu na mão Já não podia negar
Respeitando a procissão Que andava hipnotizado
E a santa que ia a passar E cheio de amor e ilusões
Fui ouvir moças cantar EU NUM DOMINGO PASSADO
Como rouxinóis numa quinta FUI AO AZINHAL PASSEAR
Digo à família que se pinta
Em obras que eu oiço e vejo Eu ouvia lá no Tojal
Assisti a esse festejo Era as rãs na lameira
COISA LINDA E DISTINTA E na charneca as cotovias
E ali uma voz aldeeira
Essa dita segunda-feira Me animava muitos dias
Quando eu gozava assim Quando eu ia ao Azinhal
Com a mocidade no fim Para meu gosto era a primeira
Mas tinha boa maneira Era um primor divinal
Na mocidade solteira Aonde um amor se revela
Com alegria ainda brinco E eu para comigo pensava
E na orgia ainda me afinco Se a minha fosse aquela
Com muitos gostos de vida Ainda eu no mundo era alguém
Fui visitar a ermida E doutras terras não gostava
NO DIA CINCO DO CINCO Ali é que eu estava bem
POR SER UMA ALDEIA TÃO BELA
O gozo é conforme as marés
E que a gente ir não se aborreça Roseira perto da fonte
E eu tinha um boné para a cabeça Que dava gosto de se ver
E umas lindas botas nos pés Cheia de flores mimosas
E um fato de duzentos mil réis Dava à aldeia prazer
Que eu tinha da cor de tinta E o aromado das rosas
Para estrear uma linda cinta Perfumava o horizonte
Hoje da minha casa saio Nascente de água a correr
Foi no dia cinco de Maio E fresca ribeira defronte
D E MIL NOVECENTOS E TRINTA As donas iam lavar
Bastos & Rodrigues 1991: 85. E borboletas da campina
Ali vinham ondear
Ao pôr-do-sol dourado
Nesta aldeia pequenina
ONDE EU FIQUEI ENCANTADO
POR VER UMA ROSA BRILHAR
172
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Rosa a mais linda flor Vida mas sem estar doente


Do jardim de mocidade A qual passava-se a rir
Em primavera de amantes Sendo eu teu amor segundo
E no ramo desigualdade Eu queria-me distrair
Há lindas e semelhantes Nada me alegra no mundo
Para o mundo se compor Só contigo estou contente
E eu alcancei liberdade Não quero mais martírios sentir
De escolher para meu amor E nem viver de ti ausente
Das mais lindas da parcela Se eu para te amar nasci
E em hora deliciosa Nossa esperança é tão linda
Em voz dobrada e singela Não morreste e eu não morri
Soam esperanças que renascem Deus nos dará salvação
E meu coração cor-de-rosa Nossa amizade é infinda
Só brilhava se o colocassem E O MEU POBRE CORAÇÃO
N O PEITO DUMA DONZELA NÃO PODE VIVER SEM TI
Teiga 2000: 153.
São vidas de aves sem ninhos
› 008 › Que por amor se adoram
FIQUEI ENTREGUE À PAIXÃO Ambos numa conta alta
ASSIM QUE OS TEUS OLHOS VI Enquanto sofrem e choram
CATIVEI MINHA ALMA E VIDA Estremecem porque lhe faltam
O MEU POBRE CORAÇÃO Os mimos e os carinhos
NÃO PODE VIVER SEM TI Murmuram e ignoram
Ó ADORADA QUERIDA Terem que dormir sozinhos
Receando a partida
Minha ideia hoje só pensa E diz ele em voz magoada
Que és excelente senhora Com a alma entristecida
Brilhas e dás ousadia Restam suspiros e ais
Mesmo não sendos doutora Cala-te não digas nada
Possuis a sabedoria Limpa o rosto não chores mais
Para curar minha doença Ó ADORADA QUERIDA
Quero que sejas sabedora Teiga 2000: 167.
Que és jóia da minha crença
E és por quem eu me perdi › 009 ›
Sendos tu a minha sorte UMA CASA NESTA ALDEIA
Irei ficar por aqui QUE NÃO TEM OUTRA IGUAL
Caído na tua mão NA MARGEM DESTA RIBEIRA
E até à hora da morte FOI CONSIDERADA A MAIS FEIA
FIQUEI ENTREGUE À PAIXÃO DO SÍTIO DO AZINHAL
ASSIM QUE OS TEUS OLHOS VI E A DONA É LUÍSA PEREIRA

O que à ideia me vem Com uma rua pequenina


É jurar enquanto vivo Confronta pelo poente
Que te hei-de amar com vontade Onde o martírio não tem fim
Sinto o coração cativo E pela parte do nascente
Na prisão desta amizade Com terras de Zé Joaquim
Não me lembra mais ninguém E herdeiros de Dona Virgínia
Tens um poder tão altivo Quem é que abriu a porta
Só ao pé de ti estou bem Esta casa infelizmente
A palpitar nossa lida Pertenceu-lhe uma esquina
Nas frases mais radiantes De um pequenino quintal
Minha alma convencida E por isso a paixão é forte
Põe-me todo ao teu dispor E mesmo estacionando mal
E na cadeia dos amantes Não se importa vida alheia
Me obriguei à lei do amor Por destino ou por má sorte
CATIVEI MINHA ALMA E VIDA HÁ UMA CASA NESTA ALDEIA
QUE NÃO TEM OUTRA IGUAL
173
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Consulta do sul com Pereiras › 010 ›


Do norte casa Simões ... pancada que eu ainda apanhei foi vê-la
Esta humilde vivenda pendurada a uma corda, maneira que andei
Mas não tem vista para longe[lões] aí desnorteado uns tempos.
Sita em estreitinha fenda Há quando foi… isso foi há muitos…
Numa calçada ladeiras Pois já ela tinha… teria dezoito anos, ainda não
Rua perigosa a peões os tinha bem feitos, eu é que não me lembra, fiz
Estreita e com ruins maneiras uma quadra também por causa disso, mas se eu me
Termina em arco peneira lembrasse…
Está entre as mais entalada Foi uma que o senhor, que o tio Manuel disse lá
Faz lembrar uma bilheteira na escola uma vez?
Anunciando gavetas Não. Eu essa, a quadra que eu fiz da mor-
Sendo a mais arrevesada te da minha filha, não disse lá. Eu pouca vez
Das casas que foram feitas digo isso. Não gosto de dizer e mesmo como
NA MARGEM DESTA RIBEIRA digo pouco vez…

Anos da aldeia o brasão QUAL NÃO FOI O SEU PENAR


O colosso da censura PARA OS PAIS AO VER A MÁ SORTE
A feínha apaixonada QUE A SEU LADO SE DESTINA
Aonde se ouve a murmura QUANDO FORAM ENCONTRAR
Quando a aroma anda enrolada JÁ ENTREGUE À NEGRA MORTE
E que infecta a respiração SUA FILHA VITALINA
Na triste rua amargura
Aonde passa a paixão No monte aonde habitava
Quando há qualquer funeral Era a jovem mais formosa
Lá está a pobre feínha A filha de um lavrador
No seu martírio infernal Era bonita e jeitosa
Só ali vai quem rodeia E tinha modo encantador
E só por ser tão pobrezinha Que a toda a gente agradava
FOI CONSIDERADA A MAIS FEIA Certa hora desditosa
DO SÍTIO DO AZINHAL O seu futuro lhe faltava
Só a campa era seu norte
Metida nesta enleaça Encontrou-se apaixonada
E de existir não está repesa Sua paixão foi tão forte
Mesmo na vida tristonha Quis sua vida findar
Sofre consigo a tristeza Quando a viram pendurada
E ainda encara risonha QUAL NÃO FOI O SEU PENAR
Faz cortesia a quem passa PARA OS PAIS AO VER A MÁ SORTE
Em haveres está sempre tesa
Numa situação escassa Hoje encontram-se os caminhos
E leva tudo em brincadeira Que ele tinha lá do monte
Só a vizinhança a contenta Tristes e silenciosos
O sorrir da rua inteira Onde passava para a fonte
Que um prazer lhe destinou Cantando versos mimosos
Esta casinha azarenta Em conjunto aos passarinhos
Onde a miséria entrou As brisas do horizonte
A DONA É L UÍSA P EREIRA Já não lhe rendem carinhos
Bastos & Rodrigues 1991:174. Através da neblina
Sujeitou-se à multidão
A sua morte termina
Sem nada a poder salvar
Choram os pais com compaixão
Ao verem que o grande azar
A SEU LADO SE DESTINA
174
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Depois da filha criada › 011 ›


Quase com dezoito anos NÃO CHORES PELA VITALINA
E setenta e oito quilos MARIA DA CONCEIÇÃO
Houveram pensares tiranos QUE OUVIR-TE CHORAR POR ELA
Esta para não mais ouvi-los AINDA ME DÁ MAIS PAIXÃO
Chorou matou-se enforcada
Assustou seus pais e manos Esquece a grande saudade
Em tragédia desgraçada Que sentes da tua prima
Sofrendo um terrível corte Tirando essa dor de cima
Sem ninguém pensar no mal Chegarás a mais idade
A sua honra e bom porte Tinhas-lhe muita amizade
Era a alegria do lar Logo desde pequenina
Sofreram golpe fatal Mas distrais com outra menina
QUANDO A FORAM ENCONTRAR Que tu tenhas confiança
JÁ ENTREGUE À NEGRA MORTE E quando eu estiver na presença
NÃO CHORES PELA VITALINA
As jovens da sua infância
Como esta perdeu a vida Foi para a eterna morada
Todas ficaram chorosas Quem era a nossa alegria
E nesta triste despedida E a sua fotografia
Oferecem flores mimosas Está em memória gravada
E lágrimas com abundância Essa moça apaixonada
Ficando a esperança perdida Foi para debaixo do chão
Sem haver uma tolerância Era quem te apertava a mão
Para salvação desta sina Com instintos naturais
E lembrando o grande alvoroço Limpa o rosto e não chores mais
Que entristeceu a campina MARIA DA CONCEIÇÃO
Uma paixão que a alma corta
Verem com uma corda ao pescoço Não bastava serem primas
Pendurada e já morta Senão vizinhas e amigas
S UA FILHA VITALINA Mas ainda há mais raparigas
Bastos & Rodrigues 1991:174. Quem tu adoras e estimas
Peço que vejas se te animas
Não chores mais pela donzela
Que era tão linda e tão bela
E morreu sem ter amor
E faz aumentar minha dor
OUVIR-TE CHORAR POR ELA

Não ver o teu rosto enxuto


Grande é o meu sofrimento
Não sabes quanto eu lamento
Ver-te vestida de luto
As tuas queixas escuto
Sei que tens muita razão
E eu com as dores no coração
Aos altos céus vai meu pranto
Sabendo que choras tanto
AINDA ME DÁ MAIS PAIXÃO
Bastos & Rodrigues 1991:94.
175
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 012 › Eu uma paixão suportando


Foi pela fatalidade da morte da minha filha e olhe eu Que os meus olhos não sustinham
conhecia como elas eram companheiras, elas sofreram Temia de andar sozinho
também essa paixão. E muita vez olhei chorando
As mulheres que andavam trabalhando? Para as lindas moças que vinham
Pois que andavam todas na monda do arroz e eu en- A LÉM NAQUELE CAMINHO
tão fiz esses versinhos também para se passar o tempo.
A gente alguma coisa havera de dizer e então eu… eu E na freguesia de Santo André
então disse… como elas todas Marias eu disse… havia Do grande ao mais pequenino
umas que eram seis mondinas e eram todas Marias e... Tudo dizia em geral
enfim... e eu fiz uma quadra a respeito daquilo, era O rancho do Manuel José
Lá vêm no seu destino
JUNTARAM-SE SEIS MARIAS D IREITO À VÁRZEA DO TOJAL
TODAS NO MESMO RANCHINHO Bastos & Rodrigues 1991: 44.
PARA MONDAR O MEU ARROZAL
PASSAVAM TODOS OS DIAS › 013 ›
ALÉM NAQUELE CAMINHO VIU - SE CERCADO DE ROSAS
DIREITO À VÁRZEA DO TOJAL U M PRODUTOR JÁ VELHINHO
S ENTIU PRAZER DIVINAL
Dos ranchos era a flor A O VER CEIFEIRAS FORMOSAS
Mas se fossem Vitalinas R EUNIDAS NUM RANCHINHO
Teria eu alegrias C EIFANDO O SEU ARROZAL
Mas para aliviar minha dor
No meu rancho de mondinas Goza distracções na vida
JUNTARAM-SE SEIS MARIAS Ao ouvir sons de gargantas
Nas expansões grandiosas
Conhecendo o meu sofrer E um dia na sua lida
Elas de pena aflitas Por milagre dumas santas
Cantavam devagarinho VIU - SE CERCADO DE ROSAS
E eu apaixonado em ver
Seis Marias tão bonitas Dos ranchos maravilhosos
TODAS NO MESMO RANCHINHO Cantam mesmo a trabalhar
Só por lembranças do vinho
Gostei das ouvir falar Cantavam versos mimosos
Porque eram destas pessoas Alegres por festejar
Que de ninguém diziam mal U M PRODUTOR JÁ VELHINHO
E eu não pensei de encontrar
Umas mondinas tão boas Guarda beldade em seu seio
PARA MONDAR O MEU ARROZAL Esqueceu suas desditas
Neste brilho triunfal
Ali nunca houve um ralho Quando ele se viu no meio
Por jogarem erva aos molhos De ceifeiras tão bonitas
E nem por outras judiarias S ENTIU PRAZER DIVINAL
E seguindo para o meu trabalho
Por entre a luz dos meus olhos Teve que dar ao seguro
P ASSAVAM TODOS OS DIAS A quantia de novenas
Foices são armas perigosas
E foi respirar ar puro
E disfarçou amargas penas
AO VER CEIFEIRAS FORMOSAS
176
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Seu projecto continua Nesse dia fiquei sem jantar


Sente alegrias infindas Foi só levantar carradas
E vai seu futuro a caminho Já via as bestas cansadas
Viu andar por conta sua E eu farto de trabalhar
Doze ceifeiras tão lindas Mas castigado do azar
REUNIDAS NUM RANCHINHO Não ia nenhuma ao fim
Ao correr as coisas assim
Já receava o maior perigo
Andavam apaixonadas Sem merecer tal castigo
Por sofrerem precisão C ORREU GRANDE AZAR POR MIM
Ganhar algum capital
Meteu dó vê-las curvadas Por ser um pouco descuidado
TODAS COM A FOICE NA MÃO Não é carreiro bem perfeito
Isto quem faz as coisas sem jeito
› 014 › Nunca dão bom resultado
Era... era... era o gado mais fraco que lá andava, Eram eles que diziam
e... as minhas carradas eram a mais pequenas, que Já me não davam por desculpado
eles com os bois levavam carradas maiores. E então, Ao ver aquele mau porte
ao depois, ele... ele palpitou logo que eu que fazia E soltavam risada forte
uma cantigota para dizer no dia da adiafa. Dois dias E com ditos divertidos
antes da acabada do trabalho mandou-me embora. Mas não sabiam eles que eram casos acontecidos
Para o acicatar!?! PELA MINHA POUCA SORTE
Eu não... ele lembrou-se logo! E... então... eu dis-
se Em que caminhos sem encalhos
Largam-se animais fiéis
N UM DIA DE SEXTA - FEIRA Mas às vezes debaixo dos nossos pés [péis]
C ORREU GRANDE AZAR POR MIM Se levantam os trabalhos
P ELA MINHA POUCA SORTE As pernas são uns bandalhos
F UI CONSIDERADO RUIM Curvam-se sem se dar motim
E eu nessa viagem que vim
No caminho dum pinhal Dei passos fora do tom
Onde deixava a pele e o fato Pois sendo eu um carreiro bom
Da onde eu carregava o mato E FUI CONSIDERADO RUIM
Para um grande forno da cal
Ao puxar as bestas mal
Encalho a carrada primeira
E a segunda na ladeira
Tombou-se numa azinhaga
Sendo eu homem fui uma chaga
N UM DIA DE SEXTA - FEIRA

A primeira tinha que passar por entremeio


de dois pinheiros, pois que a carrada não ca-
bia.
Caiu?
Teve que cair logo, e ao depois... aquilo... aqui-
lo tinha dois carros, caiu aquela, mas eles tinham a
outra quase pronta, fomos engatar a outra.
Chego de lá, larguei as bestas adiante, Aquilo en-
contra para ali uma raiz, pumba!, ficou a azinhaga
tapada, não se podia passar!
[Risos.]
Nem para trás nem para diante Ao depois
eu disse
177
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 015 › › 016 ›
Mas ao depois a outra era … trazer a cortiça. E então aquilo é uns chapadões,
é uma coisa que é assim quase empinado, mas lá à
Q UANDO PENSO A MINHA SORTE roda do barranco sempre ajeitou e descobriu lá uma
M INHA ALMA NO PEITO CHORA fonte. E ao depois fez lá uma festa e vieram-me bus-
P OIS GANHANDO EU MENOS QUE AOS MAIS car para ir lá, a essa festa, e então ele disse-me, Fazer
E O PATRÃO MANDOU - ME EMBORA uma obrasinha também dedicada a isto, e eu fiz.
Pois quando fui um dia lá ao Parral, fui lá levar a
Senhor Arsénio Sobral obra, quer dizer, fui lá dizer a cantiga. Ele deu-me cin-
Eu sou muito seu amigo co litros de azeite! Encheu um garrafão de cinco litros
Mas desculpe eu sempre lhe digo e disse, Leve lá, que é a melhadura da cantiga.
Não se portou natural Foi a obra mais importante que fiz foi esta.
Porque eu fui pelo seu forno da cal Mais bem paga?!?
Um interessado bem forte Sim senhor, mas eu é que não sou capaz
Eu desforcei quase à morte Não está lembrada dela agora.
Os animais que eu exploro Dizia
Por isso eu às vezes choro
QUANDO PENSO A MINHA SORTE SURGISTE DO SEIO DA TERRA
LINDA FONTE APAIXONADA
Eu vinha para cá de madrugada DÁS ÁGUA DO TEU NASCENTE
E abalava de serão ÉS O ENCANTO DA SERRA
A ver se contentava o patrão NASCESTE PARA SER AMADA
E nunca me serviu de nada E FAZER BEM A MUITA GENTE
Levantava-me para fazer palhada
Da meia-noite à uma hora Tens dote da natureza
E quando rompia a aurora Senhora da perfeição
Seguia para o meu encargo Trouxeste o nosso bem
E hoje ao receber mal pago És tu quem regas o chão
MINHA ALMA NO PEITO CHORA E fazes curas a alguém
E não me lembra mais nada!
Não me acontecia coisas destas Mostras amor e beleza
Se não viesse ao seu trabalho Tens a boa fresquidão
Eles fazerem de mim bandalho A mais linda clareza
Dizerem vai-te embora que não prestas És de todos invejada
Ficarem fazendo festas És tu a dona do fundo
Soltando risos brutais A filha da mãe sagrada
E os senhores chegando a pontos finais Quem seus caminhos não erra
Ouvir verdades deste Manuel E para dar alegria ao mundo
Que ainda me ficou devendo um quartel S URGISTE DO SEIO DA TERRA
E GANHANDO EU MENOS QUE AOS MAIS LINDA FONTE APAIXONADA

Eu não olhava por grande preço Tu matas a necessidade


Além de eu ser pobrezinho A todos que se debruçam
Como o meu gado é fraquinho A tua água fresquinha
Não quero o que eu não mereço Os teus vertentes soluçam
Mas por o que sou bem me conheço Anunciando a mezinha
Minha ideia isto ignora Desde a velha antiguidade
Eles dizerem Enquanto os males se expulsam
Tão ele posto do trabalho fora És tu mãe da caridade
Dois dias antes do fim A salvar tanto doente
E eu ter que dizer Só tu sabes essa cura
Tão eu fui dos carreiros o mais ruim Curarás eternamente
O PATRÃO MANDOU-ME EMBORA E manténs a esperança verde
E para regar toda a verdura
E alguém que tenha sede
DÁS-LHE ÁGUA DO TEU NASCIMENTO
178
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Uma linda forneirinha Quando alguém à fonte vinha


Logo foi fazer o ninho Sem lá estar muro nem parede
Na tua margem sombria A fonte ao longe não se via
É esse alegre passarinho Hoje ver-se tão clarinha
Quem fornece a ousadia Para quem chega ali com sede
A quem por ali caminha É UM VASO DE ALEGRIA
Entoa devagarinho
Sua inspiração mesquinha A junta paroquial
Por entre a penha dourada Da freguesia de Santo André
Festejando o horizonte Fez na fonte opinião
Com a sua voz entoada Só do caminho se diz mal
Ao azar fazendo guerra Toda a gente molha o pé
Murmurando perto da fonte ALI NAQUELA REGIÃO
ÉS O ENCANTO DA SERRA
NASCESTE PARA SER AMADA Vive-se sofrivelmente
Ninguém amanha caminhos
És formosa linda e bela Mas é uma família unida
Dás pena remorso e dó A fonte é para toda a gente
Maravilha de encantar Ali mesmo os pobrezinhos
Por viveres num bosque só BEBEM DA MELHOR BEBIDA
Quiseram-te baptizar
Por fonte da Filomena Dos sítios bons para viver
Não sei se ainda tens avó Se a vida tem pormenores
Pareces ainda donzela É dos de mais simpatia
Usas linda permanente Ali existe o prazer
Tens gracinha de menina De haver fonte e das melhores
Teu brilho é sorridente QUE HÁ DENTRO DA FREGUESIA
Todos te acham engraçada Bastos & Rodrigues 1991:37.
És providência divina
Talvez por Deus ordenada › 018 ›
A FAZER BEM A TANTA GENTE MORO NA ZIMBREIRA DO TOJAL
Bastos & Rodrigues 1991:185. O MEU NOME É MANUEL [*n’el]
E QUEM ORDENHA A MINHA VACA
› 017 › É UMA FORMOSA ISABEL
A FONTE DE BALEIZÃO
DESDE QUE FOI RECONSTRUÍDA Prezo-me em ser português
É UM VASO DE ALEGRIA E de Santo André natural
ALI NAQUELA REGIÃO Sou um velho camponês
BEBE-SE A MELHOR BEBIDA MORO NA ZIMBREIRA DO TOJAL
QUE HÁ DENTRO DA FREGUESIA
Minha fama simpatiza
Ouvem-se as moças cantar Quando me tocam na pele
Dando ousadia pelos montes Minha mulher é Luísa
Com tão grande animação O MEU NOME É MANUEL [*n’el]
Cantam versos a gabar
Que é a rainha das fontes Não quero que ninguém me gabe
A FONTE DE BALEIZÃO E nem que cortem na casaca
Porque muita gente sabe
Vai ali muita pessoa QUEM ORDENHA A MINHA VACA
Mas hoje ninguém exclama
Que a água lhe estraga a vida Para a casa ter alegrias
Tem sido sempre tão boa E ter festa alegre e fiel
E agora ganhou mais fama Quem lá vai todos os dias
DESDE QUE FOI RECONSTRUÍDA É UMA FORMOSA ISABEL
179
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 019 › › 020 ›
SINTO PRAZER AO TRATAR O CARRO DO MEU ANIMAL
MEUS ANIMAIS POBREZINHOS DEU-SE AO LUXO EM SER PINTADO
MANTÊ-LOS SINTO-ME BEM É PENA É SER CHIADEIRO
LEMBRO QUE ASSIM VOU PAGAR SABENDO QUE POUCO VALE
OS MIMOS E OS CARINHOS DIZ-ME EM SERMÃO MAGOADO
QUE LOGREI DE MINHA MÃE LEVA-ME PARA O CARPINTEIRO

Se o fazer bem tem virtude Abrilhantando o caminho


E se são eles o meu encante Por lugares onde tem ido
Estou pronto a reanimar Alveja o seu fachadão
Quando os tenho com saúde Onde ele é mais conhecido
E se a comida é abundante Olham-no com atenção
SINTO PRAZER AO TRATAR Pensam de ele ser novinho
Apresenta-se fingido
Que faça frio ou calor E além de já ser velhinho
Que seja Inverno ou Verão Traz algum povo enganado
Cá vou eu em meus caminhos Os que o olham à distância
Sou eu humilde pastor Fica tudo admirado
A tratar com devoção Chamam-lhe a flor do Tojal
MEUS ANIMAIS POBREZINHOS E para entrar na vigilância
O CARRO DO MEU ANIMAL
Falo com eles a rir DEU-SE AO LUXO EM SER PINTADO
Quando para o bem contribuo
Deixo a maldade para além Seu brilho mete cobiça
São bons para me distrair A apresentação é nobre
Os animais que possuo Mostrando as jantes pintadas
MANTÊ-LOS SINTO-ME BEM A sua pintura encobre
As fendas que estão tapadas
Eu por eles faço empenho Com pedaços de cortiça
Cheios de amor e gratidão Rodeia em vida o pobre
Trato-os mesmo por gostar Com traje de ir à missa
E essa dívida que eu tenho Parece um rapaz solteiro
Do tempo da criação Declinando sua falência
LEMBRO QUE ASSIM VOU PAGAR Não pode com um madeiro
Mas imita o modernismo
Esta vida é um engano E na sua linda aparência
Que se transforma em paixão Tem primores de brilhantismo
Na perda de amores e ninhos É PENA É SER CHIADEIRO
E para o viver do ser humano
É a saúde e distracção Para que ninguém exclame
E OS MIMOS E CARINHOS De eu ir para o campo vadio
Com o meu carrinho amarelo
Na minha triste partida Levo comigo um avio
Quero um simples caixote Serra alicate e martelo
Para quem vai e já não vem Pregos e rolos de arame
Eu despeço-me da vida E pelo sons do assobio
Cantando por ser um dote Vou-lhe fazendo o exame
Q UE LOGREI DE MINHA MÃE Sei quando ele vai cansado
Teiga 2000: 199. Tem cantar com fala presa
É comigo comparado
Nosso sofrer é igual
E em queixumes de tristeza
SABENDO QUE POUCO VALE
DIZ-ME EM SERMÃO MAGOADO
180
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Os pintores em brincadeira Para com o tempo te ires formando


Fazem dum carro estragado Haja saber no domínio
Uma viatura afamada Força e paz e amor
O que é bom para ser queimado Vais à mercê do destino
Numa manhã de geada Português trabalhador
Dava uma boa fogueira Que fazes as obras cantando
Eu não estou desanimado Sines era pequenino
A farinha desta madeira Mas se fores ajudando
Dava para mais um merendeiro Teu nome vai progredindo
Não é em tudo ruim Deu brado tua lembrança
É bom para gastar dinheiro Uns descendo outros subindo
E dedicar lindas poesias E com talento e com vontade
Chiando diz-me em latim E com fé e com esperança
Se queres ter carro alguns dias DE MAIS TARDE SERES CIDADE
L EVA - ME PARA O CARPINTEIRO TUAS OBRAS VÃO SEGUINDO
Bastos & Rodrigues 1991:163.
Andas a construir ninhos
› 021 › Nos campos da liberdade
SINES DE VELHA ANTIGUIDADE Aonde havia agricultura
TENS UM PLANO TÃO LINDO Queres pôr a humanidade
MOSTRAS PRAZER MUNDIAL A gozar a aragem pura
PARA MAIS TARDE SERES CIDADE E ao cantar dos passarinhos
TUAS OBRAS VÃO SURGINDO A quem tiver necessidade
A RENOVAR PORTUGAL Não negues os teus carinhos
Lembra um amor fraternal
Os ilustres pensadores Nós muito nos lisonjeia
Em maravilhas do mundo Teu nome ser triunfal
Querem-te em lugar primeiro Cidade nova e cachopa
Já tens um muro no mar fundo És maravilha europeia
Dá prazer ao mundo inteiro Maravilhando a Europa
A pátria cheia de flores A RENOVAR P ORTUGAL
Não há primeiro nem segundo Bastos & Rodrigues 1991:181.
Planos com mais valores
E fica-te a maré sorrindo › 022 ›
Por orgulhos dessa fama SINES SE TENS GABINETE
Nosso povo vai-se unindo NAS GALAS DO BRILHANTISMO
Todos te amam com saudade PARA RESOLVER PROBLEMAS
E em honra de Vasco da Gama NÃO QUEIRAS QUE O POVO ACEITE
SINES DA VELHA ANTIGUIDADE ACÇÕES AO USO FASCISMO
TENS UM PLANO TÃO LINDO E ARAME FARPADO ÀS EXTREMAS

Das Salvas houve uma santa Se tu com fome estivesses


Que o mar beijou comovido Perto de muito fartura
E murmura em voz magoada E não pudesses lá chegar
E faz queixume ao povo unido Saboreavas a amargura
Que a sua terra sagrada E as grandes pilhas de azar
Só tão tarde se levanta Que dás a quem tu esqueces
Não tendo o futuro perdido A pouca esperança futura
Ainda ri e ainda canta Que eu tenho se tu tivesses
A canção universal Cismava como eu cismo
E vai à terra dando beijinhos E não deixavas a marmir
Ela é a sua marginal O grupo do realismo
E mãe de toda a maioria Onde enfias o barrete
E em virtude dos caminhos Estuda o verbo dividir
Irem para a categoria SINES SE TENS GABINETE
MOSTRAS PRAZER MUNDIAL NAS GALAS DO BRILHANTISMO
181
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Por ser mal organizada › 023 ›


A sociedade selvagem SANTO ANDRÉ É FREGUESIA CAMPESINA
Há queixumes e zunzuns QUE EM SANTIAGO TINHA GRANDE ESTIMAÇÃO
Por existir coragem FOI ONDE SINES CONSTRUIU A VILA MINA
De querer-se os bens só para uns E TIROU A ESPERANÇA AO CULTIVADOR DO CHÃO
E ao passo que a outros nada
Esta vida é uma passagem Da alentejana fazem bobo e tratam mal
Ingrata e complicada Mas ela entre as alheias freguesias
Onde há traições e fleumas Tem a mais bela das aldeias concelhias
O que o ponto tem referência E é membrana do globo universal
É que há bons pauis e ademas Esta fulana sente o roubo de seu rival
Era para fartura haver Linda maré linda maresia e neblina
Haja alguém com consciência Ao dar a fé e a alegria a custo assina
Concentrado no poder E Sines abismo sem supremo chama seu
PARA RESOLVER PROBLEMAS E no brilhantismo do extremo europeu
SANTO ANDRÉ É FREGUESIA CAMPESINA
Não tens pena de dizer
A um produtor velhinho Situado este Santo em boa área
E que não usa acções más Mostrando a costa que em beldade ultrapassa
Você está tão pobrezinho O povo gosta de novidade pesca e caça
Arrede-se lá para trás O que é tirado deste canto de Lagoa
Para vir um rico comer Expropriado o seu pranto ao longe soa
Põe-se o pobre em mau caminho Sofre o mal pago e há quem mande esta evolução
Pouco direito ao viver Ficar sem bago para haver sandes e haver pão
Porque aumentou o cinismo E dando as faias e as areias tão catitas
É sempre escravo e baixante E perdendo as praias europeias mais bonitas
Do mais pequeno algarismo QUE EM SANTIAGO TINHA GRANDE ESTIMAÇÃO
E tu triunfal e cadete
Por quereres ser galo cantante Se és entroncho ambicioso ou mau vizinho
NÃO QUEIRAS QUE O POVO ACEITE Não trafulhes o que tens era de honrados
ACÇÕES AO USO FASCISMO Não te orgulhes com bens que foram tirados
A um coxo tão bondoso e já velhinho
Quem quiser cultivar terra Sinto frouxo és criminoso para o Santinho
É bom não pensar em tal Não arruínes quem cumpriu a sua sina
Que essa intenção não é boa Não domines quem fugiu sempre à ruína
Haver fome e não faz mal Se és dos piores andas com febre queres é praia
A fartura é que enjoa E nos arredores do Talegre e Atalaia
E ao Gaspar não se faz guerra FOI ONDE SINES CONSTRUIU A VILA MINA
Tu tens peixe nas lagoas
E tens cortiça na serra Consideram viciosa em tua vinda
Não te moas e não te espremas Não te queixes se o Gaspar levar-te a menos
Não ligues às necessidades E não deixes de cultivar esses terrenos
Tu do calor não te queimas Que a fizeram grandiosa e tão linda
E nem andas com os pés à rojo Já souberam que a formosura era infinda
Quer-se é as propriedades E sem balanço para os valores da situação
Ao meio com silvas e tojo Só descansa quando fores para a conclusão
E ARAME FARPADO ÀS EXTREMAS Sem vida escassa haver o puro em igualdade
Bastos & Rodrigues 1991:182. Porque a desgraça é que o luxo e a vaidade
TIROU A ESPERANÇA AOS CULTIVADORES DO CHÃO
182
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 024 › A área hoje Petrogal


NO SÍTIO DE BALEIZÃO Em tempos foi cabanal
HÁ UM BAIRRO COM PERFEIÇÃO Era dos trabalhadores
QUE ALGUÉM ADORA COM FÉ Pequenos agricultores
ESTÁ SITUADO PORÉM Que representavam amores
NA RIBEIRA DO CACÉM Da nação de Portugal
NA FREGUESIA DE SANTO ANDRÉ Hoje só ficamos mais mal
Se este bairros for rival
Por destino ou natureza Por vir de Angola e Guiné
Por favor ou fineza De Cabo Verde e São Tomé
Há alguém condescendente Onde há camelo e chimpanzé
E o que era a alguns pertencente
Agora é para outra gente E povo mal encaminhado
Por soberba ou avareza MAS COM BAIRRO FIXADO
A consciência foi presa N A FREGUESIA DE S ANTO A NDRÉ
Mas há futuro luz acesa Bastos & Rodrigues 1991:160.
Que é onde nem todos vão
Vai quem tiver o condão › 025 ›
Da boa orientação A COURELA QUE EU DEI AO ESTADO
Sobre as esperanças que vêm CONTÉM UM LINDO PINHAL
E para os que abrigo não têm E SEU NOME POR MIM GRAVADO
NO SÍTIO DE BALEIZÃO É A ZIMBREIRA DO TOJAl
HÁ UM BAIRRO COM PERFEIÇÃO
Foi pena eu trabalhar
A ilustre sociedade Para esta hoje ser fruteira
Sem usar de lealdade Então eu dessa maneira
Sabe que todos a merecem Fiz lume para me queimar
Mas os que à baixa não descem Tal não foi o meu azar
Parece que até se esquecem Não ter sido amalandrado
Que há quem tenha necessidade Sem merecer indemnizado
Se o povo é uma irmandade Por essa pingas de suor
Haja dó e piedade Hoje brilha com alto valor
Na turba que anda a pé A COURELA QUE EU DEI AO ESTADO
Quem embarca em má maré
Vê que neste bairro assim é Aqui não há outra assim
A moda do modernismo Com agrado a todo o povo
Com galas de brilhantismo Dando acesso ao Bairro Novo
E puxando o uso fascismo Com estrada orçada por mim
QUE ALGUÉM ADORA COM FÉ Só quem passeia neste jardim
Pode dizer quanto vale
Como pode haver sossego Deu escola e hospital
Uns terem casa e emprego E para distracção a quem venha
E uns nem barraca nem nada E na parte mais charnequenha
CONTÉM UM LINDO PINHAL
Há charrua e há enxada
Não há covato nem rego Dádiva mal empregada
Tanto milhano e morcego Que nem foi agradecida
E uns sem terem aconchego O Gabinete ajeita a vida
Outros há flor do bem É aos que não deram nada
Dos pobres não vai ninguém Fiquei em sorte malvada
Esses ficam lá para além Assim quase desprezado
Assim quase desprezados Gabam-se de ter-me enganado
E um bairro para retornados Que eu fiquei mal na chapa
ESTÁ SITUADO PORÉM Mas esta encontra-se no mapa
NA RIBEIRA DO CACÉM E SEU NOME POR MIM GRAVADO
183
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

De expandir tive a preferência Para ali me apalpa e arranha


Queixumes do meu sofrer O que ela quer já não apanha
Desejava no poder Desse prazer que era nosso
Homens de amor e prudência Muitas noites não lhe roço
Na balança da consciência E ela sabe que eu não posso
Para todos ser peso igual Porque murchou a castanha
E não se troçar de um velhal Comigo já não se amanha
Que é filho da freguesia Não estranha e não desdenha
E que hoje só tem para moradia Já se deu em conformar
A ZIMBREIRA DO TOJAL Para nós foi grande azar
Bastos & Rodrigues 1991:58. Não poder continuar
Um prazer que nos encanta
› 026 › E como ela se fez uma santa
A MULHER COM QUEM CASEI[cas’i] SEM APRENDER A REZAR
QUE EU ENGRACEI E ESCOLHI E É SÓ POR DAR EM JEJUAR
PARA SER MINHA COMPANHEIRA
SEM APRENDER A REZAR Entre silêncio e banzé
MAS SÓ POR DAR EM JEJUAR E eu saber que santa é
ESTÁ UMA SANTA DE PRIMEIRA À natureza agradeço
Não sei bem o que mereço
Eu tinha ilusão de amar Tantas santas que eu conheço
E de a abraçar e beijar E só naquela tenho fé
E só estava bem ao pé dela Quando estou dela ao pé
Achava-a linda e bela E sempre em boa maré
E se a minha fosse aquela Cama e mesa e cadeira
Era um primor de agradar Por entre a vida inteira
Cativou-me o seu olhar E queira a sorte ou não queira
Nem mais a pude deixar Existe esta devoção
Assim que os seus olhos vi Trata-me da refeição
Disse logo anda para aqui E sofre comigo a paixão
Que eu gosto muito de ti E STÁ UMA SANTA DE PRIMEIRA
Amizade é infinda Bastos & Rodrigues 1991:126.
Tinha uma cara tão linda
A MULHER COM QUEM CASEI[cas’i] › 027 ›
QUE EU ENGRACEI E ESCOLHI ADEUS ESPOSA QUERIDA
TRISTE ABALAS-TE DAQUI
Para mim era uma rosa PARTISTES POR MAU CAMINHO
Bondosa e maravilhosa QUANDO FOI TUA PARTIDA
E que me ficava tão bem FIQUEI CHORANDO POR TI
Com ela eu era alguém A GUARDAR O NOSSO NINHO
Com os lindos olhos que tem
Na sua cara formosa Por pormenores do teu mal
Sempre muito caprichosa És uma pobre padecente
Vistosa e astuciosa E pareces-me uma flor
E para mim muito cavalheira E eu saber que estás doente
E eu a estudar a maneira A suportar uma dor
De poder mandar a pêra Tão dura e infernal
E envolver certa tramóia Penso em ti tão tristemente
Quando deixei a rambóia Temendo o golpe fatal
Preferi essa linda jóia Sem mulher tudo perdi
PARA SER MINHA COMPANHEIRA Meu pobre coração chora
Sem poder sair dali
Por uma melhor saída
E tu lá vais por estrada fora
ADEUS ESPOSA QUERIDA
TRISTE ABALASTES DAQUI
184
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Se voltares és uma valente › 028 ›


Se acertarem com a cura POR SER VIÚVO TRISTONHO
Ainda esperas por mim. GRANDE TRISTEZA ME INVADE
Eu estou em fraca figura PERDI MINHA ESPOSA QUERIDA
A pender assim-assim SOFRENDO A PERDA DUM SONHO
E pertencia-me ir à frente. QUE TIVE NA MOCIDADE
Deixas suave amargura NÃO SOU NINGUÉM NESTA VIDA
No coração de quem sente
E que chora sem ter carinho. A flor que eu mais
O nosso azar é que fez Como quem é novo anseia
Tu deixas-me aqui sozinho Ela era linda e formosa
E com saúde já pouca. Era o enlevo da aldeia
E tu por estada invalidez Tão lindo botão de rosa
Numa corrida tão louca Que o tempo maravilhava
PARTISTE POR MAU CAMINHO. Quem eu não achava feia
O seu brilho realçava
Já vivemos separados E eu perdido de amizade
Tanta noite e tanto dia Hoje sem o meu rosto enxuto
Por essa deusa má Como a paixão desagrade
Sem poder ter alegria Se nela a pensar me ponho
Esta vida só nos dá Fiquei vestido de luto
Sofrimentos e cuidados POR SER VIÚVO TRISTONHO
Quanta gente gostaria GRANDE TRISTEZA ME INVADE
Voltar aos tempos passados
Eu ver-te como te vi Na perdição desses brilhos
Sem queixumes da má sorte Do asseio passei para o nojo
Cada um saber de si Ninguém me beija bochechas
Porque em nós só há uma vida Vêem-me com os pés de rojo
Com receio da tua morte Revelando amargas queixas
QUANDO FOI TUA PARTIDA A enjoar os meus filhos
FIQUEI CHORANDO POR TI A ter que abandonar o estojo
Os engenhosos sarilhos
Foste meu maior desejo Que enfrentava em minha lida
E eu gostei de ser amado Como a força se esgota
De uma das lindas amadas Já não posso ir à corrida
Passo as noites acordado Estou de guarda ao nosso ninho
Já levo as horas contadas
E os dias que te não vejo A precisar de carinho
Sentem contar a meu lado E PERDI MINHA ESPOSA QUERIDA
Não tenho a quem dar um beijo
Nem quem roce o focinho Em Agosto de noventa e um
Luísa Pereira partiste
Com as vacas e o bezerrinho Oitenta e dois a quantia
Galinhas coelhos trato Eu fiquei só sempre triste
Além da cabra e a mula Com falta de companhia
Eu e o cão e o gato E sem ter amor mais nenhum
A GUARDAR O NOSSO NINHO O coração não resiste
Só se houver recurso algum
Que da situação me arrede[arrade]
O meu destino assim quis
Que eu reduzisse a metade
Neste viveiro enfadonho
Serei sempre um infeliz
SEREI SEMPRE A PERDA DUM SONHO
QUE TIVE NA MOCIDADE
185
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Foi-se embora a vida bela


Eu possuía mulher minha Por morte ela fez ausência
Que eu lembro de quando em quando Nunca mais se lhe ouviu trela
O viveiro lindo que eu tinha Afogou-se a voz fagueira
De dia andar trabalhando Ele então sonha com ela
E à noite dormir com ela Dá beijos na travesseira
Habitar nossa casinha Perdido numa aparência
Azul branca e amarela Lembra os tempos de donzela
E por mim foi construída Quando ele alcançou preferência
Mas a má sorte só quer Por uma flor querer amá-lo
Que eu fique em esperança perdida No brilho dos seus retratos
E com viver desanimado Mostrou pena de deixá-lo
Se eu nasci duma mulher Seu amor não tem partilhas
Sem ter uma a meu lado Mula vaca cão e gatos
NÃO SOU NINGUÉM NA VIDA HOJE SÃO VIDAS CAMPILHAS
Teiga 2000: 154. QUE ELE TEM PARA ACOMPANHÁ-LO

› 029 › Em Agosto de noventa e um


UMA MULA E DUAS NOVILHAS Houve das tristes cenas
DEZ GALINHAS E UM GALO Que mais deu remorso e dó
UM CÃO QUATRO BICHANINHOS Suportando amargas penas
SÃO ESTAS VIDAS CAMPILHAS Ficou ele a viver só
QUE ELE HOJE TEM PARA ACOMPANHÁ-LO Sem ter amor mais nenhum
O MANUEL JOSÉ SANTINHOS Se entre arbustos e novenas
Houvesse recurso algum
Sobe e desce uma ladeira Para recuperar carinhos
Leva o gado para a beirada Nada no mundo o encanta
Quando há lá pastoria Os queixumes vão baixinhos
E da carroça mal untada Perdeu-se amor e engraço
Chiados dão ousadia Na falta daquela santa
Que entoam a área inteira Que em tempos deu tanto abraço
Passa família na estrada AO MANUEL JOSÉ SANTINHOS
Que existe perto da eira Teiga 2000: 155.
Uns a pé outros a cavalo
Os que me olham com amor › 030 ›
Falam-me eu também lhe falo FUI VISITAR MINHA CASA
Em comprimidos ou pastilhas QUE EU FIZ COM TANTO PRIMOR
E continuando um pastor QUERENDO-A FICAR HABITANDO
DE UMA MULA E DUAS NOVILHAS FUI AO LAR NÃO VI UMA BRASA
E DEZ GALINHAS E UM GALO OLHEI NÃO VI MEU AMOR
DESMORECI FIQUEI CHORANDO
Recorda os anos passados
Quando cantava ao serão Sou volante infelizmente
Enquanto hoje padece e chora Vejo o tempo do avesso
Nos tempos que já lá vão Reduzi-me à poda rasa
Houve na casa em que mora Tendo eu de andar ausente
Mulher filhos e criados Nas vindas do meu regresso
Sonha as tábuas do caixão F UI VISITAR MINHA CASA
Onde hão-de findar os fados
Que chorou pelos caminhos Onde ocultava a mobília
Na perda da companheira Que era um migalheiro que eu tinha
Ele e os animais sozinhos Das pingas do meu suor
Em sofrimento pesado E dizia à minha família
Andam sempre à sua beira Nós temos nossa casinha
Manda de rabo alçado Q UE EU FIZ COM TANTO PRIMOR
UM CÃO E QUATRO BICHANINHOS
186
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Eu possuía um gabão Formada em tempos de outrora


Cinta barrete e jaqueta E existe em dias de agora
E na agricultura lidando Demonstrando antiguidade
Era essa a minha intenção Que eu lembro com saudade
Inspirava casa feita Onde eu brincava à vontade
E QUERENDO - A FICAR HABITANDO Numa campestre flora
Indo-se a beldade embora
Dos meus olhos fiz um rio Parece ela que até chora
Minha mulher falecida E prefere um pouco de alento
Filhos bateram a asa Ao ver seu fim azarento
Vindo eu com fome e frio Esse tristonho aposento
Encontrei mesa varrida É hoje vivenda perdida
F UI AO LAR E NÃO VI UMA BRASA Aonde minha mãe fez vida
Nesta casinha tão querida
Só nela eu estava à vontade ONDE FOI MEU NASCIMENTO
O meu destino era amá-la
Seu brilho era encantador Julga-se de ser primeira
Vinha com tanta saudade Quando a lida era inteira
Fui aos quartos fui à sala Do nascer do sol ao pôr
O LHEI E NÃO VI MEU AMOR Houve pingas de suor
Mas fez-se obras de valor
De mim mesmo tive dó Com importante maneira
Tanta beldade havia Tenho trabalho e canseira
E eu só penas suportando Para na hora derradeira
Dentro dela eu vi-me só Ir reduzir-se no pó
Sem ter nada de ousadia Hoje enfeita-se a bisavó
DESMORECI FIQUEI CHORANDO Em flores de moita sem nó
Teiga 2000: 68. Saudosa recordação
Tenham dela compaixão
› 031 › E OLHEM PARA ELA COM DÓ
AQUELA POBRE CASINHA QUE É TÃO TRISTE VÊ-LA SÓ
À QUAL EU CHAMAVA MINHA
ONDE FOI MEU NASCIMENTO Ao quem me dera voltar
OLHEM PARA ELA COM DÓ A esse modesto lar
QUE É TÃO TRISTE VÊ-LA SÓ Onde feliz me criei
AOS BRAVOS SOPROS DO VENTO Abraçar quem adorei
E quem tristemente deixei
Há-de ser sempre o Tojal Sem mais os poder salvar
Seu nome não é mortal Estou na missão de esperar
Mantém-se sempre em vigor Que ela me venha buscar
E só por não ter morador Para a turba do regimento
Já vai demudando a cor Da morte não estou isento
E perdendo o brilho da cal E irei ficar ao relento
Foi abrigo de casal Aonde não há cuidados
Mas por destino fatal Jazer no rol dos deitados
A ela ninguém se aninha No cemitério dos finados
Mesmo comprida e baixinha AOS BRAVOS SOPROS DO VENTO
E ficar no campo sozinha Bastos & Rodrigues 1991:132.
O seu nome ainda reina
Deixei-a com tanta pena
AQUELA POBRE CASINHA
À QUAL EU CHAMAVA MINHA
187
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 032 › › 033 ›
EXISTE UM VELHO MOINHO Ó CENTRO MODESTO LAR
NA VILA DA FREGUESIA ÉS PAI DO POVO VELHINHO
DE SANTO ANDRÉ MARGINAL DÁS-LHE TRANSPORTE E COMIDA
SÓ MÓI PARA O POVO VELHINHO QUEM NÃO POSSA TRABALHAR
E QUEM BAIXOU AO CENTRO DE DIA LÁ TEM CONFORTO E CARINHO
DA ASSISTÊNCIA SOCIAL NOS DIAS DO FIM DA VIDA

A ambição desmedida Ninguém quebre este ovo


Era vê-lo a toda a hora Aos altos céus vai um pranto
Mostrando amor e carinho Que maravilha formosa
Movendo a roda da vida Foi milagre dalgum santo
Por moer tempo de agora Ou lembrança carinhosa
EXISTE UM VELHO MOINHO Do nosso governo novo
Sou eu quem a voz levanto
És património do Estado Vamos alegrar meu povo
Brilha como um lindo espelho Quem há quem nos dê pão e vinho
Nas margens desta baía Estou tão de acordo contigo
De Setúbal comarcada Por não quereres ninguém sozinho
De Santiago concelho Sem assistência a brilhar
DA VILA FREGUESIA Estás-te a mostrar tão amigo
Ó CENTRO MODESTO LAR
Este povo humilde e meigo ÉS PAI DO POVO VELHINHO
Tão afável e amigo
Goza este amor fraternal Lar de pessoas idosas
Agradece o aconchego Socorre as almas aflitas
Deste carinhoso abrigo Com jeitinho e paciência
DE SANTO ANDRÉ MARGINAL As empregadas bonitas
Que abrilhantam assistência
Nesta vila campesina Faz lembrar flores mimosas
Os da Área metem dó Esqueço as minhas desditas
Vêem tão mal seu caminho Por ver moças carinhosas
A Providência Divina Na minha entrada ou saída
Introduzida na mó E ainda temos um carrinho
SÓ MÓI PARA O POVO VELHINHO Para nos levar na corrida
Seja a que lado for
Ouve-se tanta canção Não és centro és um santinho
E uma risada forte A quereres dar provas de amor
Nos sopros da ventania DÁS-NOS TRANSPORTE E COMIDA
E na tristonha solidão
Só tem esperança na vida Houve alguém com consciência
QUEM BAIXOU AO CENTRO DE DIA Que ainda nos quis valer
Grande importância nos liga
Quando o moinho chiou Devemos agradecer
Com um som em estilo vário Porque essa lembrança amiga
Disse a todos em geral É divina providência
É mui feliz quem baixou Inspiramos o prazer
Ao centro comunitário De não haver decadência
DA ASSISTÊNCIA SOCIAL Queremos seguir bom caminho
Teiga 2000: 64. Vamos adorar com fé
Este mimoso cantinho
Onde há flores de encantar
Na freguesia de Santo André
QUEM NÃO POSSA TRABALHAR
LÁ TEM CONFORTO E CARINHO
188
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Vieram uma porta abrir › 035 ›


Para abrigar da tristeza ANDAS VESTIDA DE LUTO
A qual tanto nos invade E EU DE LUTO ANDO VESTIDO
Para poder da natureza A MIM MORREU-ME A MULHER
Sempre há-de haver caridade E A TI MORREU-TE O MARIDO
Enquanto mundo existir
Sem saúde e sem beleza Eu sinto as tuas tristezas
Ninguém vai cantar nem rir Sabendo o que me acontece
Com a ideia esmorecida Gostaria se pudesse
Enquanto a paixão se atrasa Nossas paixões serem presas
A qual não será vencida Aprecio tuas belezas
Ele vai conformando E sem ver o teu rosto enxuto
E nesta abençoada casa As tuas queixas escuto
Lentamente vai passando Sei que tens muita razão
OS DIAS DO FIM DA VIDA E com a dor no coração
Teiga 2000: 147. ANDAS VESTIDA DE LUTO

› 034 › Há festas de Carnaval


DUAS CONCEIÇÕES DUAS GUIDAS Nós só tristeza nos resta
TURÍBIA E JULIETINHA Cantam tanto nessa festa
AS TRÊS TERESAS BEM PARECIDAS Que é para nós tão infernal
REBECA E A SARINHA Recordando um funeral
Onde o futuro foi perdido
A turma das cozinheiras E mesmo em tempo já volvido
Sorriem agradecidas Ainda as paixões são amenas
Por terem por companheiras E num fardamento de penas
DUAS CONCEIÇÕES DUAS GUIDAS EU DE LUTO ANDO VESTIDO

As de mais linda aparência Não adoras eu não adoro


É Dona Alzira e Serrinha Retiras e eu retiro
E as de mais alta potência Suspiras e eu suspiro
TURÍBIA E JULIETINHA Tu choras eu também choro
Não namoras eu não namoro
Catarina e Madalena Já nenhum amor preferes
Lidam e andam nas corridas A nossa sorte não quer
E murmuram cheias de pena Cada um sofre por si
AS TRÊS TERESAS BEM PARECIDAS Morreu-te o esposo a ti
E A MIM MORREU-ME A MULHER
As da paciência branda
Clarinda e a Carminha Já não há nada a fazer
E célebre Dona Fernanda Sofrimento é prolongado
R EBECA E A S ARINHA E eu à paixão abraçado
Teiga 2000: 40. Terei sempre até morrer
Pensar bem é um dever
O nosso tempo é desmorecido
Com as paixões no sentido
Não podemos ter bom fim
Morreu-me a esposa a mim
E A TI MORREU - TE O MARIDO
Teiga 2000: 92.
189
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 036 › Maria e Manuel


AMANTES ESTAVAM À ESPERA Foram os nomes primeiros
DE SER FELIZES UM DIA Que a nossa história conhece
GOZAR MIMOS E CARINHOS São amantes verdadeiros
E EM NOVENTA E CINCO A ERA Com amor que nunca esquece
CASOU ADÉLIA MARIA E qual deles o mais fiel
COM MANUEL JOSÉ SANTINHOS Por sua honra prisioneiros
Pelo seu amor novel
Dos arbustos do caminho Querem brandura nos passinhos
O lindo resplendor E a minha ideia prefere
Inspira o bem aos doentes Que eu vá bebendo uns copinhos
E sendo estes uma flor Já que o destino é assim
Dos idosos padecentes E dar-se vivas à mulher
Do Centro de Dia O Moinho Que quis passar o seu fim
Com força de um grande amor C OM M ANUEL J OSÉ S ANTINHOS
Ambos como aves sem ninho Teiga 2000: 173.
Com alma a pedir folia
Pensaram sendo um casal › 037 ›
Que houvesse mais alegria GOSTO TANTO DO MEU LAR
Mesmo a sorte sendo bera NÃO ESQUECENDO A MINHA CAMA
Na casa de oitenta e tal AONDE EU GOSTO DE ESTAR
AMANTES ESTAVAM À ESPERA BRINCANDO COM QUEM ME AMA
DE SER FELIZES UM DIA
Sinto a alma agradecida
Um dia de namorados De ainda andar em viagem
Pela vaidade atraídos E eu com alguma coragem
Cansados de andar à toa Para andar nesta corrida
Hoje são corações unidos Noventa e um anos de vida
Que a natureza abençoa Aonde eu não pensei chegar
Pelo destino forçados Dá para me pôr a cantar
Esses amantes queridos Esquecer o meu queixume
Um do outro são amados Para aquecer os pés ao lume
Consideram-se uns pombinhos GOSTO MUITO DO MEU LAR
É lindo vê-los a par
É raro verem-se sozinhos Há três com muita amizade
Não pesam vidas alheias Mesa cama e lareira
E enquanto a vida durar A mesa sendo a primeira
Em vez de ouvir falas feias Que me acode à necessidade
GOZAR MIMOS E CARINHOS Ainda lembro com saudade
Aonde minha mãe me deu mama
Caminhos de uma amizade Vou para onde a mulher me chama
Que surgiu de uma loucura Ou para a mesa ou para um canto
Dos encantos de um sorriso Da mesa e lar gosto tanto
Onde houver beldade pura NÃO ESQUECENDO A MINHA CAMA
A vida é um paraíso
E pode ter fim à vontade A ambição que me ilude
Há períodos de amargura A casinha de meus pais
São variações da idade É às duas que eu gosto mais
O que a natureza cria É a mulher e a saúde
O mundo está bem composto Só peço a Deus que me ajude
Com a esperança e a mania Na grande ilusão de amar
E a ilusão campanera Que eu gosto muito de andar
E em dia primeiro de Agosto No volteio com esta tropa
DE NOVENTA E CINCO A ERA E ao lado de uma cachopa
CASOU ADÉLIA MARIA É ONDE EU GOSTO DE ESTAR
190
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Estar na posição de amor Estão cumprindo a penitência


Ser da classe mais alta Esses amores desgraçados
Querendo tapar uma falta Caídos na perdição
Que havia numa flor Antes de fazerem ausência
Chorei como um cavador Para o calvário dos pecados
Cavei areia e lama A MBOS DOIS SOFREM PAIXÃO
Meu olhar já não derrama Teiga 2000: 81.
Para o rosto lágrimas frias
Que eu passo o fim dos meus dias › 039 ›
BRINCANDO COM QUEM ME AMA AO DEIXAR O MEU OITAVÁRIO
FICAR ENTREGUE ÀS NOVENAS
› 038 › QUE APONTAM MEU TRISTE FIM
NO CENTRO DE DIA O MOINHO NEM TÚMULO NEM CAMPANÁRIO
DA VILA DE SANTO ANDRÉ BASTA-ME A CAPA DE PENAS
ONDE OS REFORMADOS VÃO QUE DESCAEM SOBRE MIM
SEPAROU-SE UM CASALINHO
ADÉLIA E MANUEL JOSÉ Fui um ser bom nesta vida
AMBOS DOIS SOFREM PAIXÃO Deus fez de mim alguém
No mundo muito falado
O mais custoso é ouvir Estou sendo um homem de bem
Queixas de amizade preza Feliz sério e honrado
Faltando amor e carinho E com a imagem bem parecida
Em vez de esperança a sorrir Será que a morte só vem
Entrou a dor e tristeza Lá mais para o fim da corrida
NO CENTRO DE DIA O MOINHO Vou marcar nove dezenas
O que há mais para vir não sei
Tentando laços cortar Tenho experiências pequenas
De amizade duns amores Não vejo o mundo ao contrário
Que se amam com boa fé E qual santa adorarei
E o dever era estimar AO DEIXAR O MEU OITAVÁRIO
Sendo estas duas flores E FICAR ENTREGUE ÀS NOVENAS
DA VILA DE SANTO ANDRÉ
Amá-los é meu desejo
Gozam delícias de amar Só por vós minha alma chora
Encantado num abismo Esses que bem me tratarem
Deus lhe queira dar perdão Mas quando chegando a hora
Para terem prazer de entrar Dos meus olhos se fecharem
Nas galas do brilhantismo É que eu nunca mais os vejo
ONDE OS REFORMADOS VÃO Meu espírito ao ir-se embora
Só inspirava um beijo
Já não andam de vontade Para esquecer sorte ruim
Que um amor sem camarada E eu penso de quando em quando
É como uma árvore sem ninho Por destino eu sou assim
Grande tristeza os invade Com ideias amadoras
E como tudo acaba em nada E em dias que vão passando
SEPAROU-SE UM CASALINHO São setas indicadoras
QUE APONTAM MEU TRISTE FIM
Casal que já está a mais
Só a sofrer ais sentidos
E sabem como a vida é
Nos livros dos hospitais
Seus nomes estão reunidos
ADÉLIA E MANUEL JOSÉ
191
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Sou uma árvore aparecida Para abraçar Jesus eu


Criou-se o meu esqueleto Tenho um dote de beleza
Os tempos eram felizes Jesus deu-me uma costela
E um rato branco e outro preto E por poder da natureza
Quebraram as minhas raízes Eu nasci na noite bela
E a árvore fica vencida Em que o bom Jesus nasceu
Para passar o porto estreito[*tre’to] A lua era a luz acesa
Só vai quem for estendida Nome de Manuel é meu
Por entre as tristonhas cenas Fui eu que abri um sinal
Quando eu chorar com remorsos Ainda não veio o despacho
Pelas brancas e morenas Para ser o meu funeral
E as canções de estilo vário Ainda me podem beijar
Não quero para cobrir meus ossos Lancem joelhos abaixo
NEM TÚMULO NEM CAMPANÁRIO Ponham as mãos vão rezar
BASTA-ME A CAPA DE PENAS QUE APROXIMA-SE O NATAL

Meus martírios todos juntos Natal é nosso festejo


Formam um volume forte Vem alegrar toda a gente
Representam boas mantas E faz lembrar a mãe querida
E na mansão da minha morte E eu nasci fiquei contente
A turba das almas santas Com saúde alma e vida
Rezam pelos meus defuntos E uma manhã dar-me um beijo› be’jo ›
A minha honra e bom porte O sol brilhou sorridente
Tocando em sérios assuntos E aquece em nosso protejo
São flores deste jardim No céu azul e cinzento
Como eu não me portei mal E eu amei selva frondosa
O resmono e o alecrim Onde há ciência e talento
Protegem-me o frio e calma Para ficar livre de enganos
E só quero em meu funeral Tenho idade grandiosa
As penas da minha alma JÁ FAZ NOVENTA E UM ANOS
QUE DESCAEM SOBRE MIM QUE FOI O MEU NASCIMENTO
Teiga 2000: 165.
A cerimónia que nos resta
› 040 › O que eu aprender pude
QUERIDOS AMIGOS E MANOS Foi palavras a preceito
QUER-SE UM BOCADO DE ALENTO E para a oração ter virtude
QUE APROXIMA-SE O NATAL Fazer-se uma cruz no peito
JÁ FAZ NOVENTA E UM ANOS E outra na boca e na testa
QUE FOI O MEU NASCIMENTO Para que Deus nos ajude
LÁ NO MONTE DO TOJAL A passar Natal em festa
Sem dar baixa ao hospital
Minha mãe quis ser amada Só receando alguns perigos
Do meu extremoso pai Mas a festa é mundial
Que era um cravo encantador Passa-se a noite cantando
E de uns amantes o que sai Para alegrar os antigos
Eu um fruto desse amor Cantar que eu nasci chorando
Quem antes não era nada L Á NO MONTE DO TOJAL
Nesta vida que se esvai Teiga 2000: 176.
Fui eu uma prenda achada
Num leve sopro de vento
Foram ver era um menino
Que nasceu a seu contento
E já querer deitar planos
Vai-se à mercê do destino
QUERIDOS AMIGOS E MANOS
QUER-SE UM BOCADO DE ALENTO
192
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 041 › › 042 ›
AO MEU CELESTINO E AO MEU JOSÉ MANUEL JOSÉ DO TOJAL
PEÇO OFERTA AGRADECIDA HOJE NA SUA FREGUESIA
ANTES DE EU IR PARA SANTO ANDRÉ FAZ LEMBRAR FLORES DE ABRIL
FESTEJEM A MINHA VIDA É DE SANTO ANDRÉ NATURAL
E TEM PRAZER E ALEGRIA
Antes que haja uma paixão DE ENTRAR NO ANO DOIS MIL
Que a vida desfaça em nada
Da minha família amada Na vida ainda me afinco
Quero-lhe fazer despedição Considerado amor querido
Beijá-los apertar a mão E da sociedade me lembro
O braço a perna e o pé No Tojal fui nascido
Cortesia como é Em vinte e quatro de Dezembro
O dever dum pai querido De mil novecentos e cinco
Quero fazer este pedido Dizem os que têm ouvido
AO MEU CELESTINO E AO MEU JOSÉ Minha poesia um brinco
Em alta categoria
Umas pingas da adega Sou jóia de altos valores
Fazem um festejo bonito Mantendo o meu porte em dia
O Zé fornece o cabrito Minha fama é mundial
E o Celestino uma borrega E quero ser membro dos cantores
E falar-se ao que a gente chega MANUEL JOSÉ DO TOJAL
Esperança quase perdida HOJE NA SUA FREGUESIA
Como eu folha caída
A tristeza que me invade Já subiu ao raro grau
Para esta infelicidade Noventa e mais além
PEÇO OFERTA AGRADECIDA E com vida às mil maravilhas
A tratarem do seu bem
A Pereira e o Azinhal Doutores e filhos e filhas
Prontos a contribuir O seu belíssimo amparo
Para a gente se reunir Para que eu seja um alguém
Na Zimbreira do Tojal O combustível é tão caro
Antes que haja um funeral Para o meu tacho ou barril
Que se perca esperança e fé E quando eu sentindo vontade
O dois mil é boa maré De dar emprego ao funil
A dar início ao meu festejo Para as minhas regalias
Satisfaçam o meu desejo E quando de na sociedade
ANTES DE EU IR PARA SANTO ANDRÉ EXPANDE AS SUAS POESIAS

Devora-me esta saudade Prezasse em ser bisavô


Familiares meus engodos Filhos netos e bisnetos
Só depois de os ver a todos É tudo família sua
Posso morrer à vontade Todos fazem seus projectos
Acreditem por verdade E a vida continua
Sinto a alma desmorecida Que a morte ainda não chegou
Antes da minha partida Entre todos os aspectos
De me ausentar deste jardim Todos sabem quem eu sou
Antes do meu triste fim Lembram-me a fisionomia
FESTEJAM A MINHA VIDA Há uma imagem tão linda
Teiga 2000: 128. E tirou uma fotografia
Apresenta-se um velhal
Este ser convida ainda
É DE SANTO ANDRÉ NATURAL
E COM PRAZER E ALEGRIA
193
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Tem penas com abundância › 043 ›


E como tudo acaba em nada VISITEI OS MEUS DEFUNTOS SEPULTADOS
Há queixas por não poder LACRIMOSO DEI-LHE SUSPIROS E AIS
Os olhos gostam de ver CHOREI NO CEMITÉRIO DOS FINADOS
E mesmo em idade avançada POR MEUS FILHOS MEUS MANOS E MEUS PAIS
As moças da sua infância
Na descida desta estrada Do que me ilude antes do corte é minha lida
Talvez em curta distância Em pensares meus a consciência é pequenina
Para se chegar ao passil Graças a Deus e à Providência Divina
Tudo quer ir na corrida Tenho saúde e tenho sorte de ter vida
Em estação primaveril Que Deus me ajude em meu transporte na corrida
Uns no ar outros no chão Porque eu sei que há muitos apagados
E é um regalo na vida Passei onde estão juntos agachados
A grande satisfação Pude saber pelas mudanças do sino
DE ENTRAR NO ANO DOIS MIL Por dever ou lembrança do destino
VISITEI OS MEUS DEFUNTOS SEPULTADOS

Quis ver alguém que já não brilha estão nas lousas


Três defuntas todas calmas lá no fundo
Repousam juntas como almas do outro mundo
Minha mãe minha filha e minha esposa
Não há porém uma maravilha bonançosa
Para um repouso para os retiros dos mortais
Eu saudoso por delírios naturais
E com receios desta eterna morada
Visitei-os sem que pudesse dar nada
LACRIMOSO DEI-LHE SUSPIROS E AIS

Quem isto fez sabe que dá para acabar


Já há poucos desta santa geração
Era um dos loucos que se levanta num serão
Qualquer vez ela virá para me levar
Um português que cá está a querer cantar
Não sabe a lei do mistério dos condenados
Eu não sei se sou sério ou se há pecados
Eu querer bem nosso estar vivendo será ruim
Não posso ficar sabendo o meu fim
CHOREI NO CEMITÉRIO DOS FINADOS

A querer perdão dos bravos perigos desta rota


Que se não cala é porque a vasa não contenta
Quem lhe fala é da casa dos noventa
Atenção caros amigos tomem nota
Ter compaixão pelos antigos é que importa
Com os sarilhos e enganos casuais
Perdendo os brilhos e os planos divinais
Eu sofri tanto mas quero ir disfarçando
Hoje eu canto mas com o coração chorando
POR MEUS FILHOS MEUS MANOS E MEUS PAIS
Teiga 2000: 139-140.
194
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 044 › › 045 ›
VAI TÃO LONGE A MINHA IDADE PLANTEI UMA FIGUEIRA
SINTO TÃO PERTO O MEU FIM PARA RECURSO FUNÉRIO
ÀS VEZES ME DÁ VONTADE DAS ALMAS DO OUTRO MUNDO
DE VESTIR LUTO POR MIM QUE JAZEM NO CEMITÉRIO

Traído pelo sofrer Mostrei com minha lembrança


Perdendo a força e a vista Que as almas apaixonadas
E o belo dote de artista Sepulturas são beijadas
Já não tenho em meu poder Da brisa que corre mansa
Nasci tenho que morrer Quem sofreu morte descansa
Fica para sempre a saudade Nesta mansão derradeira
Já vou a mais de metade É no vão da marcha ligeira
Não são trinta nem quarenta As tristezas vão aos figos
Estou na casa dos noventa É eu por me lembrar de amigos
VAI TÃO LONGE A MINHA IDADE PLANTEI UMA FIGUEIRA

Saiu-me a tristeza à frente Turma de almas esquecidas


Meu futuro ficou perdido Por motivos da má sina
E entrou em meu ouvido No lugar que se destina
Estás enganado parente Acabamento das vidas
Fui alegre e sorridente Sepulcros de almas perdidas
Fui flor neste jardim Neste aposento tão sério
Passei do bom para o ruim E neste horroroso mistério
O tempo lançou-me um corte Sepultaram amizade
E por murmureias da morte E ficou para sempre a saudade
SINTO TÃO PERTO O MEU FIM PARA RECURSO FUNÉRIO

Começou tem que acabar Um velhote já cansado


Vou morrer nesta descida Quase nem andar podia
E as mais tragédias da vida E quis fazer a travessia
Não vale a pena chorar Com amparo do seu cajado
Já dei o que tinha a dar Quando soube estava deitado
Há mentira e há verdade Teve um desgosto profundo
Perdendo a tudo amizade Como se fosse um vagabundo
Vou correr o meu destino Caído num arneiro
E de ser de mim assassino Já sendo um companheiro
ÀS VEZES ME DÁ VONTADE DAS ALMAS DO OUTRO MUNDO

Tenho de ir como os demais Aproxima-se-lhe o fim


Para não ser murmurado Já com a idade avançada
Por onde é que tens andado Como tudo acaba em nada
Ó camelo dum cabrão Nosso destino é assim
Vai já para debaixo do chão Sei o que se passou por mim
Não queremos já mais chinfrim No tempo que foi galdério
E a esquila tlim-tlim-tlim Se o meu nome fosse Rogério
Dando notícia moderna Eu tinha valores e palmas
E acaba a saudade eterna Só por ter pena das almas
DE VESTIR LUTO POR MIM QUE JAZEM NO CEMITÉRIO
195
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 046 › › 047 ›
AO LEMBRAR HÉLDER MEU NETO SOU O MANEL ZÉ DO TOJAL
E ESPOSA DONA PAULINHA DIZEM FAMÍLIAS AMIGAS
NOS BRILHOS DO SEU PROJECTO E DA BOCA DOS QUE NÃO PRESTAM
HÁ UMA FILHA E BISNETINHA SOU O MANEL DAS CANTIGAS

Essa excelsa menina Uns que eu lhe alegro o ouvido


Veio dar o início à vida Meu nome não tem rival
Em dez de Março nascida Sou estimado e conhecido
Merece ser Marcelina SOU O MANEL ZÉ DO TOJAL
A natureza destina
No mundo mais um afecto Sou um dente desta grade
No seu ritmo tão recto Sem ofensas nem intrigas
Onde há princípio e fim Um amor da sociedade
Olhei para ele e para mim DIZEM FAMÍLIAS AMIGAS
AO LEMBRAR HÉLDER MEU NETO
Para que bom lugar não assome
Hajam laços de amizade Uns só escárnios me restam
Para no mundo haver alguém O Cantigas é meu nome
Acções que surgem do bem NA BOCA DOS QUE NÃO PRESTAM
E tanto à minha vontade
Frutos da humanidade Uns que não valem o cu de um cão
Parabéns querida mãezinha Merecem pulgas e formigas
Eu ver brilhar gente minha Lembram-se deste brasão
É para mim o maior gozo SOU O MANEL DAS CANTIGAS
Sendo Hélder o esposo Teiga 2000: 42.
E ESPOSA A DONA PAULINHA
› 048 ›
Enchem o mundo de alegria SURGIU DO SEU PESSOAL
Deus mostra grande poder NO LOCAL DO TOJAL
Festejamos este ser COM UMA IDEIA DISCRETA.
O que ainda não havia DIZEM QUE O MANUEL JOSÉ
Vamos ver se ela se cria QUASE QUE É EM SANTO ANDRÉ
Neste ritmo tão recto O MAIS CÉLEBRE POETA.
Haver se eu assim dou credo[*éto]
Que há desvio nalguns azares Quando ele se lembrou
E gozam seus familiares Inventou e decorou
NOS BRILHOS DO SEU PROJECTO Uma poesia bonita.
De se lembrar teve a dita
Sorriu-te os lábios da aurora Tão catita e infinita
E o cheirinho do jardim Que uma vez apresentou.
No mundo há princípio e fim Lembrar tempo que passou
E chegas tu vou-me eu embora Foi avô e bisavô
Enquanto um cantar outro chora E com seu coração legal.
O futuro não se adivinha Com decadência e moral
Essa inspiração mesquinha Parcial e natural
É o primor mais profundo É para alguém um encante.
E veio florear no mundo E para ser estrela brilhante
UMA FILHA E BISNETINHA SURGIU DO SEU PESSOAL
NO LOCAL DO TOJAL.
196
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Não tinha lembrado ainda › 049 ›


Como brinda a sua vinda MANUEL JOSÉ DO TOJAL
Na sua alegre chegada. DA FREGUESIA DE SANTO ANDRÉ
Uma figura lembrada DE SANTIAGO DO CACÉM
Tão estimada e adorada QUE PENA CANTAR TÃO MAL
Essa imagem tão linda. O POVO PERDEU-LHE A FÉ
A sua prima Almerinda ELE NÃO SABE CANTAR BEM
E a Rosinha e Deolinda
Qual será mais predilecta. Muitas vezes acontece
Enfrentar em linha recta Eu cantar sem ter vontade
Com a seta que não infecta E faltar pontos principais
Um lugar desaurído. E em qualquer sociedade
Onde ainda não tinha ido Há sempre uns que sabem mais
Um rapaz tão divertido Dão-lhe o valor que merece
E COM UMA IDEIA DISCRETA. Para não faltar à verdade
Se ele cantar bem soubesse
Criado ali nos Tojais Seria sempre quem é
A ouvir do sino os sinais Mesmo assim deram flores
Que entoam pelas campinas. Por virem boa maré
Essas vozes pequeninas Deixar fama mundial
Dão notícias campesinas Quis ser dos membros dos cantores
Nos campos florestais. MANUEL JOSÉ DO TOJAL
Onde as almas vão dar ais DA FREGUESIA DE SANTO ANDRÉ
E que os animais desiguais
Murmuram nesta maré. Com seu pequeno saber
Sabe quem tiver ao pé Sua voz não levanta
Que os gritos desse balé Muitas vezes fica calado
Não podem entoar longe[lões] . Está num silêncio e não canta
E o recorde dos campeões E as melodias do fado
DIZEM QUE O MANUEL JOSÉ Com tendência para esquecer
QUASE QUE É EM SANTO ANDRÉ. A sua pobre garganta
Faz queixas por não poder
Deixa o povo admirado Deitar uns sons mais além
Por ele ter lembrado Da poesia tem paixão
Da família distrair. E foi considerado um alguém
Mesmo penas a sentir Que dá valor às memórias
Gostam do ouvir expandir Seu nome é recordação
As melodias do fado. Está num livro de glórias
Ninguém se encontra enjoado EM SANTIAGO DO CACÉM
De se entreter um bocado
Para ver quem chega à meta. Um cantor já bisavô
E a sua adorada neta Que às vezes canta e chora
Não se cala e não está quieta Ao lembrar suas tristezas
Quando ouvindo o bom cantor. Quando a pena o devora
Fica em lugar superior E sente as alegrias presas
Que os seus ditos dão valor Não canta como cantou
O MAIS CÉLEBRE POETA . Uma vez em tempos de outrora
Não pôde cantar chorou
Num brilhante soaré
Por não achar no pensamento
Firmeza para pôr um pé
E que não deixasse um sinal
Um homem de tanto talento
QUE PENA CANTAR TÃO MAL
O POVO PERDEU-LHE A FÉ
197
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Não canta com o rosto enxuto Venham os cantores de fama


Mesmo alcançando a delícia Tragam só obra apurada
Que por destino apareceu Mas vejam se a trazem pensada
Se ouvirem a má notícia Que eu cá lhes farei a cama
Manuel José morreu Como Camões já cá não se chama
Vistam o cante de luto Deixe-me lá descansado
Um cantor sem ter malícia Venham os que tenho chamado
É da natureza um fruto E que sigam este destino
Manjar que a todos convém Quero dar uma mão de ensino
E depois do futuro perdido AOS MELHORES CANTORES DE FADO
E que se acaba o desdém Bastos & Rodrigues 1991: 81.
E já nada mais o condena
A esses que o têm ouvido › 051 ›
Todos murmuram de pena O CANTAR DA MADRUGADA
E ELE NÃO SABE CANTAR BEM É UM CANTAR EXCELENTE
Teiga 2000: 183. ACORDA QUEM ESTÁ DORMINDO
E MELHORA QUEM ESTÁ DOENTE
› 050 ›
EU SEI CANTAR E TU NÃO Gargantas a expandir
O MEU CANTE É APOIADO Cantando em voz entoada
SOU CAPAZ DE DAR LIÇÃO Que lindo é a gente ouvir
AOS MELHORES CANTORES DO FADO O CANTAR DA MADRUGADA

Tenho a certeza no cante Quando a fé não está perdida


Ninguém me há-de vencer E quando alguém canta para a gente
Só se estiver para nascer E para quem tenha amor à vida
Algum cantor importante É UM CANTAR EXCELENTE
Eu tenho obra bastante
Canto com opinião Quem canta dá alegria
Canto com satisfação A quantos estão ouvindo
E já tu não cantas assim Desses sons a melodia
ACORDA QUEM ESTÁ DORMINDO
EU SEI CANTAR E TU NÃO
Quem canta abre sem chave
Eu já tenho ido cantar O coração de quem sente
A alguns lugares principais E essa ousadia suave
Aqui e noutros locais MELHORA QUEM ESTÁ DOENTE
O meu canto é de pasmar Bastos & Rodrigues 1991: 29.
Eu não é para me gabar
Mas onde eu tenho cantado
O meu canto é invejado
Sempre ganhei a vitória

O MEU CANTO É APOIADO

Todos gostam de me ouvir


Como eu me explico
Pede-me o pobre e o rico
Para meu canto repetir
Chegam-me até a pedir
Para eu ir a muito serão
Cantar a muita função
Eu só canto por empenho
Por fundamento que tenho
SOU CAPAZ DE DAR LIÇÃO
198
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

› 052 › Talvez ficasses melhor


Ó BARREIRINHAS DE ERMIDAS Sem te dar essa maçada
CRIADO NAS SERRANIAS Desculpa as minhas razões
NÃO TE VER É TÃO CUSTOSO Que no fim desta embrulhada
TEMOS IDEIAS PARECIDAS Para disfarçar as paixões
E LEMBRAR TUAS POESIAS Não sei se cante se chore
PARA MIM É MARAVILHOSO Sei que tudo acaba em nada
Estou receando o pior
Minha alma não vai sozinha E acho tão pequeno gozo
Com aragem sol e lira Não há esperança nem virtude
E inspiração de beleza Eu vivo aqui desgostoso
Desejo encontrar a tua Só distraio se tu cantares
Com essa alegre surpresa E eu saber se tens saúde
Talvez entrasse na linha E todos os teus familiares
A saudade continua P ARA MIM É MARAVILHOSO
E a tua sem a minha Bastos & Rodrigues 1991: 161.
Encontra frases vazias
Para a gente distrair › 053 ›
Horas noites ou dias ÉS COM PRAZER MEU PERTENCENTE FRATERNAL
Com paixões mais esquecidas TEMOS LINHAS DE ENERGIA E BOA-FÉ
Gosto imenso de te ouvir SE QUERES VER O TEU PARENTE DO TOJAL
Ó BARREIRINHAS DE ERMIDAS BARREIRINHAS VEM UM DIA A SANTO ANDRÉ
CRIADO NAS SERRANIAS
Estava a querer uma hora querida a teu lado
Um rapaz de um agrado Esquecendo assim as nossas vidas não há meio
Não sei se é morto se é vivo De eu ir daqui a Ermidas em passeio
Que eu tanto adoro o talento Não pode ser porque eu levo a vida a guardar gado
Não sei qual é o motivo Para me meter nessa corrida estou cansado
De tão grande esquecimento E sem eu ter transporte urgente sem capital
Silêncio tão prolongado E sem poder de repente dar o sinal
Se o que eu digo é ofensivo Isto é uma coisa sem rima sem rotunda
Desculpa se eu for culpado Se se a tua esposa é minha prima segunda
Que o dever é rigoroso ÉS COM PRAZER MEU PERTENCENTE FRATERNAL
Mesmo sem mudar de cores
O destino é melindroso Para minha graça és tu e eu e o Valentino
E varia dentro de nós A vossa poesia deixa-me entusiasmo
Sei que és membro dos cantores E qual a causa de um silêncio prolongado
E eu recordar tua voz O tempo passa e ninguém se lembra de mim
E NÃO TE VER É TÃO CUSTOSO Nem por graça me dizem que eu sou ruim
Nas adivinhas ou poesia em soaré
Não querer vir dizer adeus As falas da minha voz macia soa ao pé
Abraçar este esqueleto Evidente que quem passa possa ter preferência
Que a saúde te deseja Felizmente ainda em nossa descendência
Mas eu fico satisfeito TEMOS LINHAS DE ENERGIA E BOA-FÉ
Ao menos que mais não seja
Manda-me um dos versos teus Se a exigência bem me cai o saber gozo
Eu ir aí não me ajeito Categoria sem engodos em geral
Prendem-me tormentos meus Sabedoria em todos é igual
Quando atravesso agonias Paciência o que lá vai não é nosso
Saudades não são novenas A decadência eu registar ainda posso
Verem-se as fisionomias Aparecer e estar presente em meu local
São ambições desmedidas A saber que mais à frente há o sinal
Em sofrimentos e penas Deste perigo ninguém se evita em activo
TEMOS IDEIAS PARECIDAS Se és amigo dá visita enquanto vivo
AO LEMBRAR TUAS POESIAS SE QUERES VER O TEU PARENTE DO TOJAL
199
O FADO OPERÁRIO NO ALENTEJO

Antes da campa como eu queira um abraço Só quem cabe irá no trilho da glória
Eu já contei anos e meses tempo passado E tem que amar uma Maria bem formosa
Já me encontrei algumas vezes assombrado Para galar uma melancia bem gostosa
Da sulipampa de eira e beira e do ameaço Tem que atingir a assembleia sobre a lavoura
A minha estampa derradeira eu é que a faço E possuir uma ideia adamastora
Com patinhas de folia e estrondação PARA DEDICAR UMA POESIA VALOROSA
E com talhadinhas de melancia da chaminé
Se preferes vir dar-me uma distracção › 055 ›
E se quiseres apertar a minha mão É TRISTE A INFELICIDADE
BARREIRINHAS VEM UM DIA A SANTO ANDRÉ NUM FADISTA QUE DEU FAMA
Bastos & Rodrigues 1991: 77. QUEM TÃO LINDAMENTE CANTAVA
E AGORA CHORA NA CAMA
› 054 ›
A S ESPERANÇAS TUDO EU DIGO AO MEU VIZINHO Foi um homem parcial
POR GOSTAR DA OUSADIA EM SUA PROSA Com o seu préstimo fiel
POR TER LEMBRANÇAS DUM AMIGO JÁ VELHINHO Todos conheciam o Manuel
PARA DEDICAR UMA POESIA VALOROSA Dâmaso Pereira Parral
Com decadência e moral
Eu só estava à espera com vigor Foi um amor da sociedade
Duns arredios apaixonados do serão Gozou a probabilidade
E os elogios que foram dados na canção Como um cravo num jardim
Eu pensava que não era merecedor Num homem que foi assim
Não esperava de nesta era ter valor É TRISTE A INFELICIDADE
Para as almas mansas neste artigo de São Martinho
Entrar nas danças de pão de trigo e carne e vinho