Unidade II - Aspectos da filosofia Antiga e Medieval

Nesta unidade, discutiremos alguns aspectos da Filosofia no mundo Antigo, especialmente
entre os gregos e, em seguida, conheceremos alguns aspectos da Filosofia Medieval.
Contextualização
Trata-se de afresco de Rafael Sanzio, onde são representados diversos Filósofos gregos e a
escolha desse tema, por uma pessoa da influência de Rafael e do Papa Júlio II, reforça a
importância do estudo da Filosofia Antiga e sua importância na sociedade medieval e
moderna.
Observe o quadro e você vai reconhecer dois dos pensadores que vamos estudar!
Platão e Aristóteles
A Imagem
A escola de Atenas é um afresco de Rafael Sanzio, pintado entre 15091510. Ele faz parte da decoração de um conjunto de quatro quartos que o
Papa Julio II encomendou ao artista.
O afresco está localizado no Museu do Vaticano, no quarto conhecido
como Room of the Segnatura.
A Filosofia Grega
A Civilização grega foi uma das civilizações mais marcantes da tradição ocidental.
Seu legado pode ser rastreado em muitos aspectos da nossa cultura já que utilizamos:
prefixos e sufixos gregos para formar palavras; o conceito da democracia para definir a
participação política de um povo no governo; os conceitos desenvolvidos por Tales de
Mileto e por Pitágoras na Matemática e, finalmente, estudamos Filosofia.
Afinal, que preocupações eram centrais para os Filósofos gregos? Quem são os maiores
representantes da Filosofia desse povo brilhante?
Antes de iniciarmos a discussão da Filosofia grega, é necessário observarmos alguns
elementos importantes do processo histórico grego. O nascimento da Filosofia que
representa a transição do pensamento mítico para o pensamento racional, típico dessa
disciplina e está ligado ao surgimento da pólis, ou seja, a cidade-estado.
O Historiador Jean Pierre Vernant considera que a polis é o marco inicial da invenção da
cultura grega. A cidade–estado grega era marcada pela existência de uma praça central,
Ágora, onde se debatiam os assuntos de interesse comum, ou seja, os assuntos públicos e
onde a figura central era o cidadão. O cidadão é um participante dos destinos da cidade e

correm outras e novas águas. o Ser. Deve-se observar. Para os que entram nos mesmos rios. No caso da cosmologia. o séc. dentre eles destacam-se dois: Heráclito e Parmênides. somente 10% deles eram considerados capazes de exercer a cidadania e decidiam os rumos da cidade em nome de todos. E a Filosofia? O nascimento da filosofia grega é marcado pela transição da cosmogonia para a noção de cosmologia. Para Heráclito. as mulheres e os escravos.C) viveu em Eléia. a harmonia atingida pelo ser é a síntese dos contrários que compõem o ser. observe o gráfico: Cosmologia Arché = princípio fundamental de todas as coisas A procura do princípio fundamental das coisas vai marcar o pensamento da maioria dos filósofos conhecidos como pré-socráticos. onde hoje fica a Turquia. portanto. Sua maior questão era entender a multiplicidade do mundo real e.C) nasceu em Éfeso. ao contrário de seus contemporâneos. já que camadas importantes da sociedade. não via contradição nas mudanças constantes que atingem todos. O pensamento de Heráclito influenciou o desenvolvimento da lógica dialética que marca o pensamento de Karl Marx.” Parmênides Parmênides (530-460 a. ou seja. contudo. que a cidadania era privilégio de poucos indivíduos. Ele ocupou-se longamente em criticar as teorias de Heráclito. onde hoje é a Itália.C tinha cerca de meio milhão de habitantes. é Um. Segundo Heráclito. o ser é múltiplo e composto de uma série de contradições internas que marcam o seu desenvolvimento. o Não-Ser é nada. pois considerava inaceitável a noção da contradição e propunha a ideia de que um “ser é” ou um “ser não é”. o que vemos é um dado momento na trajetória de algo e esse momento não é igual ao anterior e o próximo será diferente do atual. na Jônia. não gozavam de nenhum direito. Considerando . A cosmogonia está ligada à explicação mítica e identificada com deuses e forças da natureza. na Magna Grécia. contudo. (Heráclito) Heráclito (544-484 a. O mundo é marcado pela instabilidade e pelo dinamismo. como os estrangeiros. “O que está fora do Ser não é Ser. V a. ele tem os mesmos direitos que qualquer outro cidadão e sua riqueza ou posição social não trazem nenhum privilégio perante a lei. a questão é diferente. Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. A cidade de Atenas no seu apogeu.goza de isonomia. nesse sentido.

.essa noção. aliás.“O Homem é a medida de todas as coisas. Foram os sofistas que formaram um currículo de estudos. geometria. como Protágoras. da dialética. A Filosofia pré-socrática é marcada pela presença de diversos pensadores que ficaram conhecidos como sofistas. Os sofistas são contemporâneos de Sócrates.O conhecimento não é divino: O conhecimento é um exercício da razão humana. Sofista = sábio “Professor de Sabedoria” Protágoras . pois submetido ao crivo da razão e ao que vamos chamar posteriormente de princípio de identidade (algo é ou não é). Ele não deixou nenhum escrito e suas ideias foram divulgadas por seus discípulos. Górgias. ou seja. a noção percepção de mudança e movimento é uma ilusão que só existe no mundo sensível. especialmente Platão. portanto. pois se indispôs com pessoas muito poderosas e foi acusado de traição. . Os sofistas viveram o período áureo da cultura grega. em que se destacava o ensino da gramática.O conhecimento é fruto da razão humana.” . Hipias entre outros. ele conclui que o ser é único.C e sua maior contribuição foi a sistematização do ensino nas cidades gregas. além de matemática. Deve-se destacar que essa opinião foi difundida por seus opositores e muitos deles eram filósofos excelentes. Sócrates foi obrigado a cometer suicídio. Uma das consequências desse pensamento será a noção da identidade entre o ser e o pensar. O que é realmente verdadeiro só existe no mundo inteligível. foi por causa dessa oposição que os sofistas ficaram conhecidos como enganadores. o século V a. astronomia e música. infinito e imóvel. A Filosofia de Sócrates Só sei que nada sei! Sócrates (470-399 a. de corromper a juventude ateniense e de não acreditar nos deuses da cidade. da retórica. imutável.C) é considerado um dos maiores filósofos da antiga Grécia. que os combatia ferozmente. as coisas são idênticas ao meu pensamento. Ele parte do pressuposto de que o ponto inicial da construção do conhecimento é reconhecer a própria ignorância e só depois desse passo é que é possível iniciar a procura pelo saber. Os sofistas mais importantes foram Protágoras.

Para Platão. logos significa “conversa”. Reconhecer a ignorância. Mundo Ilusório. imutáveis e hierarquizadas. Construção do novo conhecimento. Conhecer é lembrar. Sócrates viveu um momento em que a Filosofia estava criando seus métodos e vocabulário próprios e. além de ser o discípulo mais famoso de Sócrates. o mito da caverna aponta para a característica do conhecimento. Aquele homem que conseguisse fugir de suas amarras poderia ver os objetos reais que estão fora da caverna. contudo. . Seu pensamento pode ser ilustrado pelo famoso “Mito da Caverna”. da qual é “sombra” Mundo Inteligível É o mundo das Idéias. a sua teoria das ideias. nessa posição. O Bem é a mais importante e mais geral de todas. A Filosofia de Platão O Filósofo se livrou das correntes da doxa (opinião) e passou a se orientar pela episteme (ciência) Platão (428-347 a. Maiêutica = parto. utilizava palavras comuns. ele desejava conhecer o conceito. a definição de algo. Ironia = pergunta. As ideias são unas. Teoria da Reminiscência: os sentidos despertam lembranças. Em grego. da multiplicidade. ou seja. Refere-se a uma intuição intelectual. ele a utiliza no sentido de conceito. a Academia. essa noção pode ser utilizada para explicar dois pontos de vista importantes de seu pensamento: o epistemológico e o político. Teoria das Ideias Mundo Sensível Acessível pelos sentidos. foi o fundador de uma importante escola. Quando Sócrates perguntava qual era o logos de algo. Platão imagina uma caverna onde todos os seres humanos estão acorrentados e voltados para o fundo da caverna.c) viveu em Atenas e.” Teoria da Participação: O Fenômeno só existe por fazer parte da ideia. No que diz respeito à epistemologia. que se encontra no livro VII de “A República” que é uma de suas mais importantes obras. É o mundo do movimento. em seus ensinamentos. atribuindo a elas um novo sentido. Desmontar o conhecimento anterior. Um exemplo dessa ressignificação é o que acontece com a palavra logos. Os objetos são “sombras dos objetos reais. ou seja. eles só enxergam um reflexo das coisas que existem no mundo fora dela.Ele ficou famoso por seu método de construção do conhecimento. É o mundo real.

Contudo. . o que garantiu que Aristóteles fosse mandado a Atenas para estudar. . Sua filosofia se baseia em três distinções fundamentais: . Forma é aquilo que faz com que uma coisa seja o que é.” Acidente: Os atributos que a substância pode ou não ter sem deixar de ser o que é. acidente. “Sem eles a substância não seria o que é.C. procura definir a ciência como o conhecimento verdadeiro. uma região dependente da Macedônia. . Aristóteles (384-322 a. Aristóteles faz uso dos conceitos de ato e potência.É pura passividade. Aristóteles retornou a Atenas onde fundou o Liceu. forma. sua própria escola. Todo o ser tende a tornar atual a forma que tem em si como potência e. potência. Seu pai era médico na corte de Felipe II e gozava de grande influência. essência. Aristóteles retornou a Macedônia e passou a educar o futuro rei: Alexandre Magno. ele se destacou como um dos alunos mais brilhantes do mestre e.É um principio inelegível.C) nasceu em Calcídica. Matéria é o princípio indeterminado de que o mundo físico é composto. pois procura conhecer as causas e superar os enganos da opinião e compreender a natureza do devir. Aristóteles recorre às noções de forma e matéria. fundindo o mundo sensível e o inteligível ao conceito de substância.Ato. nesse momento. . Na Academia de Platão. por isso.É caracterizada pela indeterminação. o suporte dos atributos. Ao retomar a problemática do conhecimento. Essência: Os atributos essências da substância.Como é possível observar. pois para cada “sombra” que existe no mundo sensível. Aristóteles rejeita o mundo das ideias de Platão. esses conceitos não explicam as transformações que os seres/coisas podem sofrer e. que tinha esse nome por ser próxima ao templo de Apolo Lício. contendo forma em potência. .Substância. . A substância é aquilo que é em si mesmo. depois de sua morte. . há uma essência imutável no mundo das ideias.Matéria. A Filosofia de Aristóteles Aristóteles traz as ideias do céu para a terra.É a essência comum aos indivíduos de uma mesma espécie. ou seja. Platão privilegia o mundo das ideias e confere a ele uma existência real. Em 340 a. Substância: aquilo que é em si mesmo.

. precisa da ação de um ser já em ato. se pensar é lidar com conceitos universais. A Alta Idade Média é o primeiro momento. Durante muito tempo. tomada pelos turcos em 1453. A Filosofia Medieval A Idade Média é marcada por dois processos históricos relacionados ao império Romano. diversos pensadores. ligados à Igreja. Ao utilizar esses conceitos. a uma época de “trevas” em que circulação de ideias era restrita e o pensamento artístico e filosófico era inexistente. Outra questão da filosofia aristotélica que merece destaque é a ideia do Ato Puro ou da Causa Primeira. é a potência se atualizando.O movimento é a passagem da potência em ato. Aristóteles supera pensadores como Platão e Parmênides.O movimento é o ato de um ser em potência enquanto tal. é também pensar a coisa individual e suas transformações. ele observa que em um determinado momento a razão de existência de algo não pode ser encontrada em si mesma.. entende-se do século X ao século XV. O ser que inicia tudo é considerado imóvel. Embora a cultura medieval fosse impregnada pela mentalidade religiosa. . Por questões didáticas.Potência é a ausência de perfeição. novas ideias e novas práticas levaram à decadência as instituições feudais. quando Roma foi tomada pelos germanos: trata-se da derrubada do Império Romano do Ocidente. a ideia de Idade Média foi associada a atraso. Foi convencionado que seu início seria o ano de 476. costuma usar-se uma subdivisão temporal entre Alta e Baixa Idade Média. por não ser potência. como se pode observar na arquitetura das grandes catedrais. e o poder da Igreja floresceu. pois aponta que. entre os séculos V e X e trata-se do período em que se formaram os feudos. pois não pode ser movido por nada é puro ato. Já o período da Baixa Idade Média. . em especial a de Aristóteles. A partir dessa época. Já o fim da era medieval foi marcado pela queda da capital do Império Romano do Oriente. Da mesma maneira. Isso acontece porque as coisas são contingentes e todo o ser contingente precisa ser produzido por outro ser. a cidade de Constantinopla. ela floresceu. se esforçaram para conciliar a religião cristã com a filosofia grega. para isso. Ao analisar a relação entre as coisas.Potência é a capacidade de tornar-se algo e. . criaram-se as relações de suserania e vassalagem.