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Milhões de chineses sem noiva para levar ao altar

Por Dulce Furtado


Público 2010-01-12

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/12-01-2010/milhoes-de-chineses-sem--noiva-para-levar-ao-altar-18563965.htm

Uns 24 milhões de homens chineses não vão ter mulher com quem casar pelo final
desta década. Em piores lençóis ficam os mais pobres, oriundos das zonas rurais,
onde é mais acentuado o aborto selectivo de meninas, conclui um estudo da
Academia de Ciências Sociais

O desequilíbrio populacional entre sexos na China é já um dado sociológico


consolidado, mas agora um novo estudo que recebeu o apoio do Governo de
Pequim vem prever que mais de 24 milhões de homens chineses em idade de casar
vão muito provavelmente ver-se em dificuldades para encontrar uma mulher com
quem fazê-lo por 2020.
Esta investigação, conduzida pela Academia Chinesa de Ciências Sociais, sublinha
os impactos nefastos do que é descrito como o "mais sério problema demográfico"
da população chinesa de 1,3 mil milhões de pessoas, encontrando as causas de raiz
na "extremamente comum" prática de abortos selectivos, sobretudo nas regiões
rurais, e na tendência em crescendo de os jovens casais urbanos optarem por não
ter filhos.
Os factores que conduziram à situação de baixa fertilidade e, em especial, à prática
de abortar bebés do sexo feminino são, porém, "de natureza muito complexa", é
ainda sublinhado no extenso estudo agora publicado em livro por aquele think tank
patrocinado pelo Estado. Para este cenário contribuem como "factores principais" o
deficiente planeamento familiar do país - restringindo o número de filhos que os
chineses podem ter -, assim como o "imaturo" sistema de segurança social.
Neste enquadramento, as pessoas tendem a querer ter apenas filhos do sexo
masculino (quando desejam tê-los), os quais oferecem um maior potencial de
ganhos na idade adulta e assim aumentam as possibilidades de poderem assistir os
pais na velhice.
Os responsáveis pelo estudo instam o Governo chinês a suavizar a chamada política
de um só filho, implementada em 1979 (com excepções dadas aos agricultores,
minorias étnicas e outros pequenos grupos populacionais) para conter a explosão
demográfica então verificada - avaliam os sociólogos que esta política impediu pelo
menos 400 milhões de nascimentos. E urgem igualmente as autoridades a
estudarem a possibilidade de encorajar "casamentos com pessoas de outros
países", para tentar evitar o impacto social e económico negativo do desequilíbrio
entre sexos.
Menina não nasce
A prática abortiva de fetos femininos, sublinha o estudo, intitulado Estrutura Social
Contemporânea da China, é particularmente incidente nas áreas rurais da China,
onde persiste uma "preferência cultural" centenária por filhos do sexo masculino e
onde, de resto, a introdução da ecografia pelos finais da década de 1980 veio
aumentar ainda mais o número de gravidezes a serem interrompidas quando é
detectado um bebé do sexo feminino.
As estatísticas oficiais mais recentes, de 2005, dão conta de que nascem apenas
100 raparigas por cada 119 rapazes no país - desequilíbrio que se acentua para um
rácio de 100/130 em algumas das províncias chinesas -, levando os cientistas
sociais a crerem que muitos homens, sobretudo nas zonas mais pobres, vão
permanecer solteiros durante toda a vida. A Comissão Nacional para a População e
Planeamento Familiar chinesa define como "normal" uma diferença de nascimentos
nas 100 raparigas para 103 a 107 rapazes.
"A hipótese de um homem com mais de 40 anos numa região rural casar será
raríssima. E o problema é particularmente grave nestas áreas, onde os agricultores
idosos dependem quase exclusivamente dos filhos. O que vai acontecer é que estes
homens tornar-se-ão mais dependentes da segurança social conforme
envelhecerem e terão menos recursos familiares nos quais confiar", avaliava um
dos responsáveis pelo estudo, Wang Guangzhou, ao jornal chinês sino-anglo-
saxónico Global Times.
O investigador considerou também que, em consequência, é de contar que a
diferença de idades entre membros do casal tenda a alargar, registando-se cada
vez mais casamentos intergeracionais ou em que a mulher é bem mais velha do
que o homem, algo actualmente incomum no país.
Outro sociólogo envolvido no estudo, e igualmente ouvido por aquele diário,
avançou ainda que os homens oriundos das regiões mais pobres da China ver-se-ão
forçados a resignar-se a permanecer solteiros: isto poderá levar à "quebra das
linhas familiares", apontou Wang Yuesheng.
Prostituição e tráfico
O Global Times, citando dados da Comissão Nacional para a População e
Planeamento Familiar, apontava ainda uma outra brutal consequência do já
existente desequilíbrio demográfico: os raptos e o tráfico de mulheres são
"galopantes" nas regiões do país em que há excedente no número de homens.
Casamentos ilegais e prostituição forçada são outros dois fenómenos problemáticos
nestas zonas da China, frequentemente atribuídos à diferença nos números de
homens e mulheres na população. Em muitas regiões do país houve um esforço por
parte das autoridades para reduzir o número de abortos selectivos, tendo sido
banido o recurso às ecografias ou a divulgação do sexo do feto quando estas são
realizadas.
O Governo chinês lançou também, há dez anos, a campanha "cuidar das raparigas",
oferecendo incentivos monetários às famílias rurais sem filhos do sexo masculino -
mas viria em 2007 a reconhecer que o programa não fora bem sucedido.