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5ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS E CRIMINAIS DA BAHIA.

PROCESSO Nº 0005421-10.2013.8.05.0063 CLASSE: RECURSO INOMINADO RECORRENTE: EMBASA – EMPRESA BAIANA DE ÁGUAS E SANEAMENTO S/A RECORRIDO(A): MARIA ANGÉLICA DA SILVA DAMIAO CAR- NEIRO ORIGEM: JEC DA COMARCA DE CONCEIÇÃO DO COITÉ RELATOR: JUIZ WALTER AMÉRICO CALDAS

EMENTA

RECURSO INOMINADO. SERVIÇO DE ÁGUA. REITERAÇÃO DE REGISTRO DE CONSUMO ACIMA DA MÉDIA HISTÓRICA. AUSÊNCIA DE PROVA, A CARGO DA FORNECEDORA, DA REGULARIDADE NA MEDIÇÃO. SENTENÇA QUE, RECONHECENDO A ATIVIDADE ILÍCITA DA FORNECEDORA, CANCELOU A DÍVIDA IMPUTADA, ORDENANDO O REFATURAMENTO COM BASE EM MÉDIA DE CONSUMO ANTERIOR, FIRMANDO AINDA CONDENAÇÃO PELOS DANOS MORAIS CONFIGURADOS, EM VALOR MODERADO. MANUTENÇÃO INTEGRAL DO JULGADO. NÃO PROVIMENTO DO RECURSO.

Dispensado o relatório nos termos do artigo 46 da Lei n.º

9.099/95 1 .

Circunscrevendo a lide e a discussão recursal para efeito de registro, saliento que a Recorrente EMBASA – EMPRESA BAIANA DE ÁGUAS E SANEAMENTO S/A pretende a reforma da sentença lançada nos autos que, ante a ausência de prova da regularidade da medição do consumo de água, a seu cargo, cancelou a dívida total imputada à Recorrida MARIA ANGÉLICA DA SILVA DAMIAO CARNEIRO, ordenando o refaturamento do período discutido com base na média de consumo

1 Art. 46. O julgamento em segunda instância constará apenas da ata, com a indicação suficiente do processo, fundamentação sucinta e parte dispositiva. Se a sentença for confirmada pelos próprios fundamentos, a súmula do julgamento servirá de acórdão.

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praticado, condenando-lhe, ainda, ao pagamento do valor de R$ 1.600,00 (mil e seiscentos reais) a título de indenização por danos morais.

Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o, apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual submeto aos demais membros desta Egrégia Turma.

VOTO

A sentença recorrida, tendo analisado corretamente todos os aspectos do litígio, merece confirmação integral, não carecendo, assim, de qualquer reparo ou complemento dentro dos limites traçados pelas razões recursais, culminando o julgamento do recurso com a aplicação da regra inserta na parte final do art. 46 da Lei nº 9.099/95, que exclui a necessidade de emissão de novo conteúdo decisório para a solução da lide, ante a integração dos próprios e jurídicos fundamentos da sentença guerreada.

A título de ilustração apenas, fomentada pelo amor ao debate e para realçar o feliz desfecho encontrado para a contenda no primeiro grau, alongo-me na fundamentação do julgamento, nos seguintes termos:

Discutindo-se a prestação defeituosa de serviço, cabia a Recorrente superar a responsabilidade civil objetiva consagrada no art. 14, caput 2 , do CDC, que impõe ao fornecedor o ônus de provar causa legal excludente (§ 3º do art. 14 3 ), algo que ela não se desincumbiu, já que não comprovou a regularidade dos registros do consumo de água no período discutido, que gerou as faturas questionadas pela parte recorrida, por se encontrar muito acima do consumo histórico.

Com isso, reputando-se inválida a medição do consumo no período precisado, por ausência de prova da regularidade, mostra-se correta a ordem de refaturamento do período informado.

De igual modo, mostra-se incensurável a condenação da Recorrente ao pagamento de indenização pelos danos morais sofridos pela parte recorrida.

Encontrando previsão no sistema geral de proteção ao consumidor inserto no art. 6º, inciso VI, do CDC 4 , com recepção no art. 5º,

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Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.

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§ 3º. O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:

I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste; II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. 4 Art. 6º. São direitos básicos do consumidor:

VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;

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inciso X 5 , da Constituição Federal, e repercussão no art. 186, do Código Civil 6 , o dano eminentemente moral, sem consequência patrimonial, não há como ser provado, nem se investiga a respeito do animus do ofensor.

Consistindo em lesão de bem personalíssimo, de caráter subjetivo, satisfaz-

se a ordem jurídica com a demonstração do fato que o ensejou. Ele existe

simplesmente pela conduta ofensiva, sendo dela presumido, tornando prescindível a demonstração do prejuízo concreto.

Com isso, uma vez constatada a conduta lesiva e definida objetivamente pelo julgador, pela experiência comum, a repercussão negativa na esfera do lesado, surge à obrigação de reparar o dano moral.

Na situação em análise, a parte recorrida não precisava fazer prova da ocorrência efetiva dos danos morais decorrentes do evento informado. Os danos dessa natureza se presumem pela reiteração de cobranças indevidas, já apuradas em duas outras ações judiciais, onde a Recorrente admitiu as exigibilidades de pagamentos indevidas, não havendo como negar que, em razão dos fatos, ela sofreu angústia, desconforto e transtornos, tendo a esfera íntima agredida ante a atividade ilícita da Recorrente.

Quanto ao valor da indenização, entendo que, não se distanciando muito das lições jurisprudenciais, deve ser prestigiado o arbitramento do juiz de primeiro grau que, próximo dos fatos, pautado pelo bom senso e atentando para o binômio razoabilidade e proporcionalidade, respeita o caráter compensatório e inibitório-punitivo da indenização, que dever trazer reparação indireta ao sofrimento do ofendido e incutir temor no ofensor para que não dê mais causa a eventos semelhantes.

In casu, entendo que o julgamento de primeiro grau respeitou as balizas assinaladas, tendo fixado indenização em valor moderado, que, assim, não caracteriza enriquecimento sem causa da parte recorrida e não provoca abalo financeiro à Recorrente ante ao seu potencial econômico, valendo lembrar que não é a primeira vez que a Recorrente responde por

fatos semelhantes no Sistema de Juizados Especiais da Bahia, o que realça

os traços de negligência no desenvolvimento de sua atividade econômica e o

pouco caso em alterar suas práticas comerciais, sendo, portanto, necessária a admoestação compatível com a situação apurada, especialmente para que não persista nos comportamentos desrespeitosos aos consumidores.

Assim sendo, ante ao exposto, voto no sentido de CONHECER

e NEGAR PROVIMENTO ao interposto pela Recorrente EMBASA – EMPRESA BAIANA DE ÁGUAS E SANEAMENTO S/A, para confirmar

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“São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

6 “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.

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todos os demais termos da sentença hostilizada, condenando-a ao pagamento das custas e honorários advocatícios que arbitro em 20% (vinte por cento) da condenação pecuniária imposta, atentando, especialmente, para a natureza, a controvérsia construída, o zelo e o bom trabalho do profissional que patrocinou a causa da Recorrida.

Salvador, Sala das Sessões, 08 de setembro de 2014

Walter Américo Caldas

Juiz Relator

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COJE – COORDENAÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS TURMAS RECURSAIS CÍVEIS E CRIMINAIS QUINTA TURMA - CÍVEL E CRIMINAL

PROCESSO Nº 0005421-10.2013.8.05.0063 CLASSE: RECURSO INOMINADO RECORRENTE: EMBASA – EMPRESA BAIANA DE ÁGUAS E SANEAMENTO S/A RECORRIDO(A): MARIA ANGÉLICA DA SILVA DAMIAO CAR- NEIRO ORIGEM: JEC DA COMARCA DE CONCEIÇÃO DO COITÉ RELATOR: JUIZ WALTER AMÉRICO CALDAS

EMENTA

RECURSO INOMINADO. SERVIÇO DE ÁGUA. REITERAÇÃO DE REGISTRO DE CONSUMO ACIMA DA MÉDIA HISTÓRICA. AUSÊNCIA DE PROVA, A CARGO DA FORNECEDORA, DA REGULARIDADE NA MEDIÇÃO. SENTENÇA QUE, RECONHECENDO A ATIVIDADE ILÍCITA DA FORNECEDORA, CANCELOU A DÍVIDA IMPUTADA, ORDENANDO O REFATURAMENTO COM BASE EM MÉDIA DE CONSUMO ANTERIOR, FIRMANDO AINDA CONDENAÇÃO PELOS DANOS MORAIS CONFIGURADOS, EM VALOR MODERADO. MANUTENÇÃO INTEGRAL DO JULGADO. NÃO PROVIMENTO DO RECURSO.

ACÓRDÃO

Realizado julgamento do recurso do processo acima epigrafado, a QUINTA TURMA, composta dos Juízes de Direito, WALTER AMÉRICO CALDAS, EDSON PEREIRA FILHO e ÁLVARO MARQUES DE FREITAS FILHO, decidiu, à unanimidade de votos, CONHECER e NEGAR PROVIMENTO ao recurso interposto, confirmando, consequentemente, todos os termos da sentença hostilizada, com a condenação da Recorrente ao pagamento das custas e honorários advocatícios arbitrados em 20% (vinte por cento) da condenação pecuniária imposta.

Salvador, Sala das Sessões, 08 de setembro de 2014

JUIZ(A) WALTER AMÉRICO CALDAS Relator/Presidente

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