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O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO
O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO

O DIREITO NA ORDEM DO DIA:

COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS”

O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO “DISPERSAR

Vol.

04

TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)

TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)

TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)

O DIREITO NA ORDEM DO DIA:

COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS” (Vol. 04)

Capa: Salvador Dalí, “Cabeça Rafaelesca explodindo” (Cap tafaelesc esclatant), 1951. Comissão Científica Tauã
Capa: Salvador Dalí, “Cabeça Rafaelesca explodindo” (Cap
tafaelesc esclatant), 1951.
Comissão Científica
Tauã Lima Verdan Rangel
Editoração, padronização e formatação de texto
Tauã Lima Verdan Rangel
Conteúdo, citações e referências bibliográficas
Os autores
É de inteira responsabilidade dos autores os conceitos aqui
apresentados. Reprodução dos textos autorizada mediante
citação da fonte.

APRESENTAÇÃO

O Projeto “Dispersar Direitos” substancializa uma proposta apresentada pelo Professor Tauã Lima Verdan Rangel, na ministração de suas disciplinas. O escopo principal do projeto supramencionado é despertar nos discentes do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo uma visão reflexiva e crítica sobre o universo jurídico. Trata-se de uma abordagem de temas tradicionais e contemporâneos do Direito, tal como suas implicações e desdobramentos em uma realidade concreta. Com o título “O Direito na Ordem do Dia”, a coletânea de Projetos de Trabalho de Curso busca explicitar para a Comunidade Acadêmica e o público interessado os esforços dos discentes do nono período do Curso de Direito na construção de um trabalho de curso contemporâneo e interdisciplinar. Para tanto, a proposta pauta-se na conjugação de diversos segmentos do conhecimento e a utilização de mecanismos de ensinagem que dialoguem conteúdo teórico com habilidades prática em conteúdos

jurídicos, despertando e aprimorando habilidades

imprescindíveis aos Operadores do Direito.

O leitor poderá observar que os temas são

heterogêneos, abarcando realidades locais e peculiares

do entorno da Instituição de Ensino Superior, tal como

questões mais abrangentes. Trata-se da

materialização do diferencial do Curso de Direito do

Centro Universitário São Camilo-ES, ao formar

Bacharéis em Direito capazes de atuar com o plural e

diversificado conhecimento inerente ao Direito, sem

olvidar da realidade regional, dotadas de

peculiaridades e aspectos diferenciadores que

vindicam uma ótica específica.

Boa leitura!

Tauã Lima Verdan Rangel Coordenador do Núcleo de Trabalho de Curso e Pesquisa do Curso de Direito

Í N D I C E

(In) Eficácia da medida socioeducativa de liberdade assistida no Município de Cachoeiro de Itapemirim ES, entre 2010 2014: entre a teoria da doutrina da proteção integral e a realidade estatal Cláudio

Contarini de Souza Filho

09

Lei de Segurança Alimentar e Nutricional: o desenvolvimento histórico do direito à alimentação adequada e os meios de garantia a sua aplicabilidade no Município de Muqui-ES - Paulo Sergio da Silva

Prucoli

27

Formação do Estado Socioambiental de Direito e a Justiça Ambiental: Paradigmas de violação ao mínimo

existencial socioambiental no distrito industrial de São Joaquim - Município de Cachoeiro de Itapemirim-

ES - Raquel Pizeta

47

A ocupação desordenada urbana e a destruição da vegetação de restinga como fator de agravamento da erosão marítima no litoral de Marataízes-E.S. - Jayme

Xavier Neto

66

O afeto como paradigma das constantes modificações nas formações familiares contemporâneas: uma abordagem do entendimento jurisprudencial do

Superior Tribunal de Justiça no reconhecimento de

uniões estáveis plúrimas - David Gomes Sodré

83

A Primeira Vara do Juizado Especial Cível da

Comarca de Cachoeiro de Itapemirim-ES em uma perspectiva observacional: impressões e críticas da ineficiência da conciliação na incidência local do microssistema da Lei Nº 9.099/1995 - Reynaldo Batista

Pereira

105

Morosidade processual como entrave ao acesso à Justiça na Região Sul-Capixaba: Um mapeamento das mazelas encontradas nas Comarcas de Vargem Alta, Iconha e Rio Novo do Sul - Edimar Pedruzzi Pizetta

120

O Direito Humano à Alimentação Adequada e o incentivo a agricultura familiar no cultivo de produtos orgânicos no Município de Muniz Freire, Espírito

Santo - Flávia Cassa Cabanez

136

O Patrimônio Histórico Tombado de Muqui e a Lei de

158

Acessibilidade - Naiara Benevenute

O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO

O DIREITO NA ORDEM DO DIA:

COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS”

O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE PROJETOS DE TRABALHO DE CURSO DO PROJETO “DISPERSAR

(IN) EFICÁCIA DA MEDIDA SOCIOEDUCATIVA DE LIBERDADE ASSISTIDA NO MUNICÍPIO DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM ES, ENTRE 2010 2014: ENTRE A TEORIA DA DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL E A REALIDADE ESTATAL

1 INTRODUÇÃO

Cláudio Contarini de Souza Filho 1

O presente projeto de pesquisa visa abordar o Direito da Criança e do adolescente em âmbito infracional, com foco na medida socioeducativa de Liberdade Assistida 2 , a fim de averiguar se a esta possui ou não eficácia, no Município de Cachoeiro de Itapemirim-ES e se sua aplicação está conforme o

1 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail:

contarini.claudio@gmail.com 2 Para o presente Projeto de Pesquisa o termo “Liberdade Assistida” será considerado como definição legal contida no artigo 118º da Lei nº 8.069, de 13 de Julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências, a saber: Art. 118º A liberdade assistida será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente.

idealizado na Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências 3 . Este trabalho tem a finalidade de apresentar a temática da futura Monografia, assim como traçar Objetivos Gerais, Objetivos Específicos, Problemática, Justificativa e Metodologia, a fim de direcionar, organizar e planejar como será feito o trabalho de fim de curso. Quanto à revisão literária, quatro livros foram fundamentais para delimitação do tema definido, sendo eles: Direitos da Criança e do Adolescente 4 , Estatuto da Criança e do Adolescente:

Doutrina e Jurisprudência 5 , Estatuto da Criança e do Adolescente comentado: Lei 8.069/1990 Artigo por

3 BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o

Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>. Acesso em

20 jun. 2015. 4 FONSECA, Antônio Cezar Lima da. Direitos da Criança e do Adolescente. 02.ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2012. 5 ISHIDA, Válter Kenji. Estatuto da Criança e do Adolescente: Doutrina e Jurisprudência. 09 ed. São Paulo:

Editora Atlas S.A., 2008.

em:

Artigo 6 e Liberdade Assistida no Estatuto da Criança e do Adolescente: aspectos da luta pela implementação de direitos fundamentais 7 .

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

Ineficácia da medida socioeducativa de Liberdade Assistida no município de Cachoeiro de Itapemirim ES, entre 2010 2014: entre a teoria da doutrina da proteção integral e a realidade estatal.

3 PROBLEMA

O Decreto nº 17.943-A de 12 de Outubro de 1927, que consolida as leis de assistencia e protecção a

6 ROSSATO, Luciano Alves; LÉPORE, Paulo Eduardo; CUNHA, Rogério Sanches. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: Lei 8.069/1990 Artigo por Artigo. 2 ed. São Paulo:

Editora Revista dos Tribunais, 2011. 7 FERREIRA, Eduardo Dias de Souza. Liberdade Assistida no Estatuto da Criança e do Adolescente: aspecto da luta pela implementação de direitos fundamentais. São Paulo: Editora PUC-SP, 2010.

menores 8 e a Lei nº 6.697 de 10 de Outubro de 1979, que institui o Código de Menores 9 anteriores a Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990 10 (Estatuto da Criança e do Adolescente) eram totalmente repressivos, o qual condutas atípicas ou ilícitas praticadas pelos infantes, eram tratadas com internação em Casas de Correção, FEBENS, entre outras instituições, classificadas pela doutrina como fábrica de delinquentes. Entretanto esta atitude foi abolida pelo Ecriad, que deixou de regular circunstâncias envolviam apenas menores abandonados e delinquentes, para abranger toda infância, ou seja, não mais distinguiu a infância classificada como “produtiva”, da infância dos menores em situação irregular.

8 BRASIL. Decreto nº 17.943-A de 12 de outubro de 1927.

Consolida as leis de assistencia e protecção a menores. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910- 1929/D17943Aimpressao.htm>. Acesso em 21 jun. 2015. 9 Idem. Lei nº 6.697 de 10 de outubro de 1979. Institui o

Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-

Código

de

Menores.

1979/L6697impressao.htm>. Acesso em 21 jun.2015. 10 Idem. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o

Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>. Acesso em

21 jun.2015.

em:

Com Estatuto Crianças e Adolescente, independentemente de classe social, cor, sexo ou qualquer outra distinção, passaram a ser reconhecidos como sujeitos de direito, sejam direitos fundamentais, sejam direitos inerentes a pessoas em desenvolvimento. No tocante à prática de atos infracionais, métodos preventivos e mais brandos, passaram a ser aplicado aos mesmos, isto não mais como medidas de correção, mas como medidas educativas. Um exemplo desta política contemporânea é a medida socioeducativa de Liberdade Assistida, que consiste em um acompanhamento do adolescente infrator, por pessoas capacitadas, entidades qualificadas ou programas de atendimento, pelo prazo mínimo de 06 (seis) meses. Neste período, o adolescente fica em liberdade, vivendo normalmente com seus pais, amigos, familiares e etc. Todavia cada vez mais cresce o número de notícias, o qual há envolvimento de adolescentes na prática de atos infracionais, principalmente nos últimos anos e na localidade do município de

Cachoeiro de Itapemirim ES. E pior vários são os casos em que fora aplicada a medida socioeducativa de liberdade assistidas e os adolescentes voltaram à prática criminosa. Com o retorno dos menores a atividades ilícitas surge certa insegurança quanto a real eficácia deste método no município de Cachoeiro de Itapemirim, gerando dúvida se o escopo de suas finalidades tem atingido a maioria dos adolescentes que praticaram atos infracionais do período de 2010 a 2014, fazendo com que os mesmo cessem com tais condutas após a imposição de tal medida. Tais fatos trazem um questionamento: A medida socioeducativa de liberdade assistida revelou-se eficiente, no município de Cachoeiro de Itapemirim-ES entre o período de 2010 a 2014?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar se a medida socioeducativa de Liberdade Assistida se mostra eficaz aos adolescentes que praticaram atos infracionais no Município de Cachoeiro de Itapemirim entre o período de 2010 a

2014.

4.2 Objetivos específicos

Analisar o processo histórico da proteção da

infância e da juventude no cenário nacional;

Caracterizar o ato infracional e a medida

socioeducativa em debate, além comparar a doutrina de proteção integral com o ocorrido na realidade brasileira;

Examinar processos da Vara da Infância e

Juventude da Comarca de Cachoeiro de Itapemirim- ES, correspondentes a atos infracionais, a qual fora

aplicada a medida socioeducativa de liberdade assistida entre 2010 a 2014 e criticar o cenário local trazendo a comparação entra a Teoria da Doutrina de Proteção Integral e a Realidade Estatal.

5 HIPÓTESES

A medida socioeducativa em análise pode se mostrar ineficaz, caso o índice de reiterações na prática de atos infracionais cometidos por adolescentes, aos quais já fora aplicada a Liberdade Assistida revelar-se superior a 50% dos casos estudados;

A análise do caso concreto pode revelar a real eficiência da medida socioeducativa de Liberdade Assistida e apontar se possíveis falhas tem ligação com os métodos estatais adotados;

A análise do cenário local pode mostrar a real distinção entre a Teoria Doutrina da Proteção Integral e os métodos utilizados no Município de

Cachoeiro de Itapemirim para a execução da medida socioeducativa de Liberdade Assistida.

6 JUSTIFICATIVA

A pesquisa que será realizada tem como finalidade comprovar a real efetividade da medida socioeducativa de Liberdade Assistida no Município de Cachoeiro de ItapemirimES. Por estagiar na Defensoria Pública de Cachoeiro de Itapemirim-ES, na área da Infância e Juventude, constatei que o número de reiterações em atos infracionais cometidos pelos mesmos adolescentes eram constantes. Assim resta a dúvida, a medida socioeducativa em destaque apresenta eficácia no Município de Cachoeiro de Itapemirim-ES? A importância dessa pesquisa para comunidade jurídica é apresentar se os princípios elencados no Estatuto da Criança e do Adolescente 11

11 BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>. Acesso em

20 jun.2015.

em:

têm sido concretizados na realidade local, principalmente no tocante ao metaprincípio 12 da Proteção Integral 13 . Como tratado no artigo 227º, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 14 , o Estado (latu senso) em responsabilidade

12 Para o presente Projeto de Pesquisa o termo “metaprincípio”

será considerado como princípios superiores, que possuem posição axiológica mais elevada, assim como afirma, ROSSATO; LÉPORE; CUNHA, 2011.p.79. 13 Para o presente Projeto de Pesquisa o Princípio da “Proteção Integral” é aquele que orienta a prescrição de direitos às pessoas em desenvolvimento, e impõe deveres à sociedade, de modo a consubstanciar um status jurídico especial às crianças e adolescentes. Mesmo sendo “pessoa em desenvolvimento”, tem, a criança e o adolescente, direito de manifestarem oposição e exercerem seus direitos em face de qualquer pessoa, inclusive seus pais. A proteção integral revela, pois, que crianças e adolescentes são “titulares de interesses subordinantes frente à família, à sociedade e ao Estado”, indicando-se um “conjunto de normas jurídicas concebidas como direitos e garantias frente ao mundo adulto”. Nesse sentido, as pessoas em desenvolvimento têm o direito de que os adultos façam coisas em favor delas, isso porque, “trata-se de uma situação real baseada em uma condição

existencial ineliminável: o filhote humano (

é incapaz de

crescer por si; [omissis]. Isto vale não apena no que tange à relação entre filhos menores e pais, os primeiros e mais diretos protetores, como também na relação entre crianças e outros adultos, de regra, os pais”, como afirma ROSSATO; LÉPORE;

CUNHA, 2011, p.77.

14 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil

de

em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaoco

mpilado.htm>. Acesso em 20 jun.2015. Art. 227º É dever da

família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao

)

1988.

Disponível

solidária com a sociedade e a família tem o dever de promover todas as garantias fundamentais inerentes a pessoa humana para os menores de idade, além de diretos especiais elencados no ECA 15 devidos à crianças e adolescentes por sua condição peculiar de pessoas em desenvolvimento. Sendo assim é obrigação municipal promover a eficácia da medida de Liberdade Assistida, pois dessa forma é possível socializar o adolescente excluindo a necessidade de uma medida grave como a internação, além de ser menos onerosa aos cofres públicos. Verificar se a medida esta tendo eficácia ou não é essencial para tomar qualquer atitude, por isso a importância do trabalho mencionado, pois caso seja constatada a ineficácia da Liberdade Assistida na

adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida,

à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização,

à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. 15 BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>. Acesso em

20 jun.2015.

em:

socialização dos adolescentes da localidade do Município de Cachoeiro de Itapemirim-ES, poderão a partir daí serem sugeridas ou apontadas possíveis soluções e adequações pera que seja efetivado o previsto na legislação menorista.

7 REVISÃO DE LITERATURA

O presente Projeto de Pesquisa é fruto dos ideais alguns Doutrinadores, pois sem eles termologias como Proteção Integral e o método de funcionamento da medida socioeducativa de Liberdade Assistida seriam obscuros, indecifráveis pelo leitor. Antônio Cezar Lima da Fonseca, em sua obra Direitos da Criança e do Adolescente, afirma que:

Dentre as medidas de meio aberto, a liberdade assistida é aquela que exige maior estrutura e aparato das entidades de atendimento, pois o adolescente deve ser acompanhado por orientadores e assistido pela sua família. Se o jovem descumpre as condições impostas na sentença ou mesmo as recomendações do orientador, corre o risco de ver substituída a liberdade assistida até pela internação, como a doutrina de Afonso

Kozen. Daí por que chegamos a vê-la como uma medida grave imposta ao adolescente, uma vez que outras medidas “não impõem ao adolescente infrator condições tão restritivas quanto as da liberdade assistida”. Para seu cumprimento, deve haver um “acompanhamento personalizado a partir do conhecimento da realidade do adolescente”, o que dificulta sobremodo sua efetividade diante das carências materiais de muitas entidades 16 .

Dessa forma, percebe-se que apesar da medida em destaque ser de meio aberto, está visa através de acompanhamento de entidades de atendimento, orientadores e da própria família promover a socialização do adolescente autor de ato infracional. Todavia aponta o autor acima citado a dificuldade que as respectivas entidades enfrentam, tendo em vista a limitação de seus recursos, deixando uma aparente impressão de que há um desinteresse estatal para o sucesso da respectiva medida. Ao tratar da eficácia da medida de Liberdade Assistida, Eduardo Dias de Souza Ferreira, em sua obra Liberdade Assistida no Estatuto da Criança e do

16 FONSECA, 2012. p.345.

Adolescente: aspectos da luta pela implementação de direitos fundamentais, aponta que um dos grandes fatores que motivam os Magistrados a aplicarem a medida socioeducativa de Internação é o fato do Brasil, ser carente de programas especializados de atendimento a adolescentes, em medidas de meio aberto 17 . Afirma ainda, que no país não há indicador nacional tratando sobre a eficácia da medida socioeducativa de Liberdade Assistida 18 , o que gera curiosidade e fundamenta o presente projeto de pesquisa. Quanto a Proteção Integral, afirma Válter Kenji Ishida, que o Estatuto da Criança 19 e do Adolescente perfilha a “doutrina da proteção integral”, baseada no reconhecimento de direitos especiais e específicos de todas as crianças e adolescentes 20 , sendo este positivado logo artigo 1º do respectivo dispositivo

17 FERREIRA, 2010. p.189.

18 Ibid. p.191.

19 BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o

Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>. Acesso em 20 jun.2015.

20 ISHIDA, 2008. p.01.

em:

legal 21 . Tal princípio foi inspirado em Tratados Internacionais, sendo os principais a Declaração Universal de Direitos humanos e Declaração Universal dos Direitos da Criança. Por fim, Luciano Alves Rossato; Paulo Eduardo Lépore e Rogério Saches Cunha declaram que o princípio da Proteção Integral é um metaprincípio que visa garantir direitos fundamentais, individuais, coletivos, entre outros, às crianças e adolescentes, e impor deveres a família, sociedade e ao Estado de garantir aos menores de 18 anos um sadio e perfeito desenvolvimento físico, mental, moral, como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento 22 . Vale frisar que este princípio permite as crianças e adolescentes se oporem contra adultos, até mesmo aos pais, caso os infantes estejam sendo ameaçados ou de alguma forma prejudicados.

21 BRASIL. Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>. Acesso em 20 jun.2015.

22 ROSSATO; LÉPORE; CUNHA, 2011, p.77.

em:

8 METODOLOGIA

A metodologia empregada na pesquisa abrangerá revisão bibliográfica, analise processual para coleta de informações, a fim de elaborar dados estatísticos capazes de esclarecer a problemática proposta e entrevista com profissionais que atuam diretamente na Vara da Infância e Juventude da Comarca de Cachoeiro de Itapemirim-ES, além dos profissionais responsáveis pela aplicação da medida de Liberdade Assistida aos adolescentes infratores. Nos primeiros dois capítulos do trabalho monográfico serão utilizados somente revisões bibliográficas, sendo a maioria oriunda de artigos científicos, outros trabalhos monográficos ou dissertações de mestrado, pois as doutrinas não tratam de forma específica sobre tema mencionado, apenas ressaltam indiretamente sobre alguns tópicos que serão abordados. No terceiro capítulo, será realizada pesquisa de campo. No intuito de contextualizar o Município de Cachoeiro de Itapemirim-ES, serão entrevistados os

profissionais acima apontados, afim de obter resposta

destes sobre a real eficácia da Liberdade Assistida e se

o Município escolhido tem aplicado recursos

necessários para efetivação dos métodos propostos pelo

Estatuto da Criança e do adolescente.

Na segunda parte do terceiro Capítulo será

realizada analise processual dos autos

correspondentes aos anos de 2010 a 2014, momento

em que serão analisados processos em fora aplicada a

medida proposta, para só então, através dos dados

obtidos elaborar um conclusão sobre o tema proposto.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/cons

tituicaocompilado.htm>. Acesso em 17 jun.2015.

Decreto nº 17.943-A de 12 de outubro de

1927. Consolida as leis de assistencia e protecção a menores. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-

1929/D17943Aimpressao.htm>. Acesso em 21 jun.

2015.

Lei nº 6.697 de 10 de outubro de 1979. Institui o Código de Menores. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-

1979/L6697impressao.htm>. Acesso em 21 jun.2015.

Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990. Dispõe sobro o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm>.

Acesso em 20 jun.2015.

FERREIRA, Eduardo Dias de Souza. Liberdade Assistida no Estatuto da Criança e do

Adolescente: aspecto da luta pela implementação de direitos fundamentais. São Paulo: Editora PUC-SP,

2010.

FONSECA, Antônio Cezar Lima da. Direitos da Criança e do Adolescente. 02 ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2012.

ISHIDA, Válter Kenji. Estatuto da Criança e do Adolescente: Doutrina e Jurisprudência. 09 ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2008.

ROSSATO, Luciano Alves; LÉPORE, Paulo Eduardo; CUNHA, Rogério Sanches. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: Lei 8.069/1990 Artigo por Artigo. 2 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011.

LEI DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL: O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DO DIREITO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA E OS MEIOS DE GARANTIA A SUA APLICABILIDADE NO MUNICÍPIO DE MUQUI- ES

1 INTROODUÇÃO

Paulo Sergio da Silva Prucoli 23

O objetivo do presente é abordar, dentro de um conceito histórico e atual, o desenvolvimento do Direito Humano à Alimentação Adequada e Nutricional, de forma a pontuar e delinear, desde os primórdios da humanidade e, principalmente a partir do final da 2ª Guerra Mundial até aos dias atuais, o despertar de políticas públicas e normativas garantidoras da aplicabilidade desse direito fundamental.

23 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: pauloprucoli@hotmail.com

O contexto passa pelos problemas ocasionados pela escassez de alimentos e a forma desordenada de plantio, abordando, também, as medidas políticas implantadas pelos países a fim de mitigar o problema, tendo como exemplo, nesse período pós guerra, o incentivo a produção de alimentos em massa como forma de solucionar o déficit alimentar responsável pela fome em vários países, foi a chamada Revolução Verde, onde o foco estava direcionado a quantidade da produção e não na necessidade nutricional do homem e os meios econômicos para adquiri-los. Suprimir tal entrave foi objeto de várias convenções, uma delas e talvez a mais importante foi a Cúpula Mundial de Alimentação, organizada pela FAO 24 em 1996, onde se associou o papel fundamental do Direito Humano à Alimentação Adequada à Garantia da Segurança Alimentar e Nutricional. É a partir daí que o foco das políticas públicas começa a se modificar e passa do produto ao homem, alcançando, em 1999, no Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e

24 Sigla da expressão inglesa ¨ Food and Agriculture Organization¨, que significa ¨ Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura¨

Culturais do Alto Comissariado da ONU, o reconhecimento de que é dever do Estado implementar medidas que mitiguem e aliviem a fome. No Brasil foi sancionada a Lei 11.346/2006, que criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, elevando o DHAA ao status de direito fundamental do ser humano inerente a dignidade da pessoa humana e indispensáveis à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal. Diante disso é o presente projeto no sentido de analisar e dimensionar a transformação, ao longo do tempo, do DHAA e Nutricional, cominando com a fixação deste em normas constitucionais que garantam sua aplicabilidade, bem como, as formas de instrumentalização desse direito essencial pelo Poder Executivo e seu controle, através do Judiciário, em casos de omissão do Estado, no âmbito do Município de Muqui-ES.

2

DELIMITAÇÃO DO TEMA

O questionamento apresentado neste projeto

abordará as áreas de Direito Administrativo, Constitucional e Ambiental, bem como será realizado estudo de campo, compreendendo o Município de

Muqui-ES, que terá por finalidade identificar a aplicabilidade do disposto na Lei 11.346/2006.

O trabalho indicará, através de estudos e

análises, a evolução decorrida ao longo do tempo do DHAA, (Direito Humano à Alimentação Adequada), cominando com a fixação desse em normas constitucionais que garantam sua aplicabilidade, em especial no Município de Muqui-ES, bem como as formas de controle, através do Judiciário, em casos de omissão dos Órgãos Executivos.

3 PROBLEMA

O Direito Humano à Alimentação Adequada e Nutricional, como dito anteriormente, está normatizado na Lei Orgânica de Segurança Alimentar

e Nutricional (LOSAN - Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006), a qual institui diversas diretrizes e objetivos por meio dos quais o poder público, com a participação da sociedade civil organizada, deverá implementá-los. Tais diretrizes e objetivos, dispostos na LOSAN, foram ratificados em nossa Constituição Federal através da Emenda Constitucional nº 64 (sessenta e quatro) de 04 (quatro) de fevereiro de 2010, passando a ser incluído no capítulo II, que versa sobre os direitos sociais, especificamente no artigo 6º, o direito à alimentação. Contudo, para a implementação desse direito constitucionalmente garantido, são necessárias amplas análises e observações que vão desde a conservação da biodiversidade no manejo da produção de alimentos, até a indicação do consumo correto, feito através de nutricionistas, respeitando-se as múltiplas características culturais do País. Dessa forma, a problemática central desta pesquisa funda-se nas questões: Como se deu a construção histórica da concepção de segurança

alimentar e nutricional? Como se deu a judicialização da alimentação no ordenamento jurídico brasileiro? Como se inseriu no âmbito regional do município de Muqui-ES a aplicação desses direitos.

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar e dimensionar a transformação, ao longo do tempo, do DHAA, cominando com a fixação deste em normas constitucionais que garantam sua aplicabilidade, em especial no Município de Muqui-ES, sob formas de controle, através do Judiciário, em casos de omissão do Estado.

4.2 Objetivos específicos

Identificar as mazelas provocadas pela 2ª Guerra Mundial, com enfoque na escassez de alimentos, que levaram a adoção de medidas de espectro mundial fundadas na adoção de

políticas públicas e normativas que mitigassem o problema da fome em todo o planeta.

Analisar os reflexos dessa política mundial, de forma histórica, através dos convênios, obras e projetos implementados pelo Município de Muqui-ES, voltados a aplicação da Garantia Alimentar e Nutricional.

Identificar as formas possíveis de exigibilidade da implementação do DHAA diante do Poder Executivo, bem como do Poder Judiciário.

5 HIPÓTESES

A Lei 11.346/2006, que criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, garantiu status ao DHAA de direito fundamental do ser humano inerente a dignidade da pessoa humana e indispensáveis à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal. Dessa forma, para garantir a sua aplicabilidade, pode-se:

Implementar associações dentro de cada núcleo, produtivo ou de consumo, aos quais lhes são garantidos maiores poderes de negociação junto aos órgãos públicos, visando instituir políticas que fortaleçam a agroindústria alimentar, como pôr exemplo a implantação de microcréditos voltados a produção de alimentos.

A propositura de Projetos de Leis, no âmbito municipal, visando fomentar programas sociais de alimentação, não como função paliativa de redução de tensões sociais, mas sim como prioridade a serem atingidas.

Estímulo à implementação de Feiras ou Mercados populares nos quais se possam comercializar produtos das agroindústrias familiares, bem como a fomentação da importância do cultivo ecológico, para uma alimentação saldável sem agrotóxicos.

6 JUSTIFICATIVA

A análise das prerrogativas sociais que envolvem o DHAA, tanto em âmbito internacional quanto internamente, instituído através da Lei 11.346/2006, mostra-se de grande utilidade para a ciência do direito, uma vez que leva em consideração a modernização da sociedade no que se refere ao pensamento, ao agir e, principalmente o conhecimento de seus direitos. A título de exemplo, ao qual se expressa a importância temática, pode-se citar que com o final da primeira guerra mundial o problema da fome passou a ser tratado como assunto de segurança nacional por vários países, uma vez que, com a experiência vivida, especialmente nos países Europeus, tanto na primeira quanto na segunda guerra mundial, ficou claro que se poderia dominar outro país através do controle do fornecimento de sua alimentação. Ou seja, se um país não possuísse uma capacidade autossuficiente de produção de alimentos ficaria à mercê de outro que a fornecesse, à alimentação transformara-se em arma de

guerra capaz de comprar a independência de outro. Sobre o tema, Renato S. Maluf e Francisco Menezes assim o abordaram:

Claro está que fatores ligados à capacidade de produção também podem ser causadores de agudas crises de insegurança alimentar, como as situações de guerra e consequente desestruturação da capacidade de produção, como tem ocorrido em diversos países da África. Ou a situação de bloqueio econômico, sofrida geralmente por países que se recusam a se submeter às políticas das grandes potências econômicas e militares. Ou em situações de catástrofes naturais, em que a agricultura e a distribuição de alimentos nos países atingidos é, parcial ou totalmente, destruída 25 .

Atualmente, mesmo com as conquistas de vários

direitos sociais, ainda nos deparamos com um dos maiores desafios de um Estado Democrático de Direito, qual seja, além do reconhecimento ao Direito

25

MALUF,

Renato

S.;

MENEZES,

Francisco.

Caderno

Alimentar”.

Disponível

em:

“Segurança

<http://www.forumsocialmundial.org.br/download/tconferencias_

Maluf_Menezes_2000_por.pdf

>. Acesso em 26 mai. 2015, p.02

Humano à Alimentação Adequada e Nutricional, a efetiva aplicabilidade desse direito.

7 REVISÃO DE LITERATURA

O tema em análise é uma questão tão antiga quanto à própria existência humana. O Professor da Universidade de Paris e ex-Presidente do Conselho Executivo da FAO, André Meyer, ao prefaciar a obra “A Geografia da Fome” de Josué de Castro, assim se referiu ao problema da fome:

A fome eis um problema tão velho quanto a própria vida. Para os homens, tão velho quanto a humanidade. E um desses problemas que põem em jogo a própria sobrevivência da espécie humana, a qual, para garantir sua perenidade, tem que lutar contra as doenças que a assaltam, abrigar-se das intempéries, defender-se dos seus inimigos 26 .

26 FAO é a sigla da expressão inglesa ¨ Food and Agriculture Organization¨, que significa ¨Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura¨.

Apesar de tão antigo, raramente foi diretamente abordado na forma literária, explicação para isso é que o tema não agrada externamente e principalmente internamente aos países que padecem sob as mazelas da fome e, por isso, até mesmo como meio de se manter no poder, acabam por censurar, de várias formas, as explanações sobre o tema. Nas palavras de Josué de Castro:

foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente 27 .

Marco na quebra dessa política ufanista de censura aos problemas internos de uma sociedade foi a publicação da obra “Geografia da Fome”, em 1946, do médico brasileiro Josué de Castro, a qual foi traduzida em mais de 35 idiomas. O problema da escassez de alimentos não encontra como única barreira a ser

27 CASTRO, Josué. Geografia da Fome, 10 ed, Rio de Janeiro, Editora Antares, 1984.

superada a censura praticada pelos detentores do poder, encontra obstáculos também na falta de políticas públicas que garantam não só a oferta de alimentos de qualidade, mas também, políticas que permitam o acesso a esses. Atualmente, ainda que se trate de um direito recentemente conquistado no ordenamento jurídico brasileiro, conta-se com várias obras e artigos literários que abordam abertamente o tema, como por exemplo a obra “Direito Fundamental Social à Alimentação - Análise Com Ênfase no Ordenamento Jurídico Brasileiro” de Ney Rodrigo Lima Ribeiro, onde o autor enfatiza que o direito à alimentação não é um favor concedido pelo Estado e sim uma conquista social, ou seja, um direito fundamental a ser garantido pelos governantes.

O direito à alimentação, no ordenamento jurídico brasileiro, não deve ter a exegese de que seja um favor, nem uma concessão, tampouco faculdade; apenas traduz uma conquista que perdurou simplesmente mais de 185 anos desde a primeira Constituição de 1824 até o advento da EC nº 64, de 2010, para o Poder Constituinte derivado

expressamente incluí-lo como direito fundamental social 28 .

Também versa sobre o tema a obra “A Dimensão Cultural do Direito Fundamental à Alimentação”, do autor Dirceu Pereira Siqueira, nela se esclarece que nosso país possui dimensões multiculturais e que por isso estar alimentado não é simplesmente sanar a fome ingerindo certa quantidade de alimento, é também respeitar as características alimentares de cada região.

A alimentação não pode ser compreendida como mero ato de sanar a fome e atender as necessidades físicas. Ela tem outros contornos e pode ser vista como um ato com rituais próprios e importantíssimos, os quais devem ser respeitados, sendo diferentes de acordo com o contexto cultural em que estejam inseridos. Portanto, alimentação e cultura estão extremamente interligados 29 .

28 RIBEIRO, Ney Rodrigo Lima. Direito Fundamental Social à Alimentação - Análise Com Ênfase no Ordenamento Jurídico Brasileiro. Lumen Juris: Rio de Janeiro. 2013. p 238. 29 SIQUEIRA, Dirceu Pereira. A Dimensão Cultural do Direito Fundamental à Alimentação. Birigui: Boreal, 2013,

p.197.

Outro autor que em várias de suas obras aborda o tema da escassez de alimentos e o direito humano à alimentação é o professor e Coordenador do Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp, Walter Belik, que em um de seus artigos, intitulado “Perspectivas para Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil”, assim afirmou:

Os alimentos podem estar disponíveis, conforme pode ser registrado pelas estatísticas que a FAO levanta para o mundo de tempos em tempos, mas as populações pobres podem não ter acesso a eles, seja por problemas de renda, ou seja devido a outros fatores como conflitos internos, ação de monopólios ou mesmo desvios 30 .

Em reforço a esse entendimento, discorre a doutora em saúde pública Luciene Burlandy em uma de suas publicações, titulada de “Segurança Alimentar e Nutricional: Intersetorialidade e as Ações de Nutrição”, onde enfatiza que para se concretizar o

30 BELIK,Walter. Perspectivas para Segurança Alimentar e

Nutricional no Brasil. Saúde e Sociedade v.12, n.1, p.12-20,

<

http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v12n1/04.pdf>. Acesso em: 17

jan-jun 2003.

Disponível

em:

jun. 2015.

DHAA e Nutricional de forma saudável, acessível, de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis, respeitando as diversidades culturais e sendo sustentável do ponto de vista socioeconômico e agroecológico, como é prevista no conceito de SAN (Segurança Alimentar e Nutricional), se faz necessário a implementação de políticas públicas em diversas áreas sociais e econômicas.

A garantia desse direito impõe a implementação de políticas públicas em diferentes setores (saúde, educação, trabalho, agricultura etc.), envolvendo ações no âmbito da produção, da comercialização, do controle de qualidade, do acesso e da utilização do alimento nos níveis comunitário, familiar e individual 31 .

31 BURLANDY, Luciene. Segurança Alimentar e Nutricional:

Intersetorialidade e as Ações de Nutrição. Saúde em Revista (versão online). Disponível em: <http://www.unimep.br>. Acesso em: 17 jun. 2015.

Como se pode ver, o problema da fome deixou de ser um tema proibido, ao contrário disso, com o esforço de vários setores da sociedade civil, o conceito de SAN (Segurança Alimentar e Nutricional) deixou de ser abstrato para ser uma realidade discutida nas agendas políticas dos Estados, e, no Brasil, incluída na própria Carta Magna.

8 METODOLOGIA

Para a presente, será adotado método de pesquisa bibliográfica que enfocará a análise com base em aspectos históricos, jurídicos e atualidades sobre o tema. Para tanto, será realizada coleta de instrumentos textuais como legislação atualizada, doutrinas pertinentes, publicações de caráter técnico e atualizado do tema proposto, bem como pesquisas de campo, a fim de se verificar a instrumentalidade desse direito junto ao município de Muqui. Após a pesquisa bibliográfica e a análise de artigos sobre o assunto, bem como a coleta de dados in loco, serão realizadas leituras e será esposado o entendimento sobre o tema.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto nº 1.098, de 25 de março de 1994. Aprova o Regimento Interno do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA) e dá

nova redação ao parágrafo único do art. 3° do Decreto n° 807, de 24 de abril de 1993. Disponível em:

Decreto nº 7.272, de 25 de agosto de 2010. Regulamenta a Lei n o 11.346, de 15 de setembro de 2006, que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN com vistas a assegurar o direito humano à alimentação adequada, institui a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - PNSAN, estabelece os parâmetros para a elaboração do Plano Nacional de Segurança Alimentar

e Nutricional, e dá outras providências. Disponível em:

2010/2010/decreto/d7272.htm>. Acesso em 03 abr.

2015.

BELIK, Walter. Perspectivas para Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil. Saúde e Sociedade v.12, n.1, p.12-20, jan-jun 2003. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v12n1/04.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2015.

BURLANDY, Luciene. Segurança Alimentar e Nutricional: Intersetorialidade e as Ações de Nutrição.

Saúde em Revista (versão online). Disponível em:

<http://www.unimep.br>. Acesso em: 17 jun. 2015.

CASTRO, Josué. Geografia da Fome. 10 ed. Rio de Janeiro: Antares, 1984.

FREITAS, Bispo Vanessa. O caminho para o reconhecimento do direito humano à alimentação adequada como um direito fundamental. Revista Âmbito Jurídico. Disponível em:

RIZZOLO, Pinheiro. Reflexões sobre o Processo Histórico/Político de Construção da Lei Orgânica De Segurança Alimentar e Nutricional. Disponível em:

Acesso em 03 abr. 2015.

MALUF, Renato S.; MENEZES, Francisco. Caderno “Segurança Alimentar”. Disponível em:

<http://www.forumsocialmundial.org.br/download/tcon ferencias_Maluf_Menezes_2000_por.pdf >. Acesso em 26 mai. 2015.

RIBEIRO, Ney Rodrigo Lima. Direito Fundamental Social à Alimentação - Análise Com Ênfase no Ordenamento Jurídico Brasileiro. Lumen Juris:

Rio de Janeiro. 2013.

SIQUEIRA, Dirceu Pereira. A Dimensão Cultural do Direito Fundamental à Alimentação. Birigui:

Boreal, 2013.

FORMAÇÃO DO ESTADO SOCIOAMBIENTAL DE DIREITO E A JUSTIÇA AMBIENTAL:

PARADIGMAS DE VIOLAÇÃO AO MÍNIMO EXISTENCIAL SOCIOAMBIENTAL NO DISTRITO INDUSTRIAL DE SÃO JOAQUIM - MUNICÍPIO DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM- ES.

Raquel Pizeta 32

1 INTRODUÇÃO

Pensar em justiça ambiental implica em acreditar que todo ser humano, independente de etnia ou posição social, tem direito a viver em um ambiente que propicie saúde e bem estar. Significa que toda população e não apenas algumas minorias mais privilegiadas economicamente tem o direito a uma qualidade de vida digna. No entanto, não se pode falar de dignidade humana quando os direitos básicos de proteção à saúde e bem estar de grande parte da população brasileira ainda não é respeitada. Para que

32 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: raquelpizeta@hotmail.com

os conceitos de justiça ambiental sejam legitimados, faz-se necessário que a ganância e os interesses individuais de um pequena parcela da sociedade, não se sobreponha aos direitos de muitos. Assim, o projeto de pesquisa e o Trabalho de Conclusão de Curso(TCC) com o tema “Formação do Estado socioambiental de direito e a Justiça Ambiental: Paradigmas de violação ao mínimo existencial socioambiental no Distrito Industrial de São Joaquim – Município de Cachoeiro de Itapemirim” estará apresentando dados que possam esclarecer se a construção do aterro sanitário no Distrito Industrial de São Joaquim interfere na qualidade de vida da população da comunidade local bem como se ocorreu a violação das garantias fundamentais normatizadas. O referencial teórico estará apresentando tópicos sobre o Histórico e conceitos de Justiça Ambiental, além de apresentar estudos sobre os direitos ao mínimo existencial socioambiental necessário à dignidade humana. Também estará sendo feito o estudo de caso, com ênfase nos impactos ambientais causados pela construção do distrito

industrial na comunidade de São Joaquim, analisando

as condições de vida e saúde da população local.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

Formação do estado socioambiental de direito e

a justiça ambiental: paradigmas de violação ao

mínimo existencial socioambiental no Distrito Industrial de São Joaquim - Município de Cachoeiro de

Itapemirim-ES.

3 PROBLEMA

Em uma sociedade em que se faz presente o capitalismo, a qual a exploração dos recursos naturais visa a satisfação de uma população consumista, verifica-se as desigualdades deste contexto, ou seja, a parcela da sociedade que explora não é a mesma que mais sofre com os resíduos gerados. Almeja-se que os encargos do desenvolvimento econômico não sejam dispensados a uma pequena parcela da população, que o tratamento

seja justo. Dessa premissa tem se um básico entendimento por justiça ambiental, o que é conceituado por Selene Herculano como:

Justiça Ambiental entenda-se o conjunto de princípios que asseguram que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos étnicos, raciais ou de classe, suporte uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas de operações econômicas, de políticas e programas federais, estaduais e locais, bem como resultantes da ausência ou omissão de tais políticas 33 .

A justiça ambiental não cuida exclusivamente das questões de redistribuição, mas também como ocorrem os processos que suscitam na má distribuição, visto que a distribuição dos recursos em si não provocaria isoladamente injustiça, mas como esses são utilizados e dispersados pelo homem. Neste sentido Acselrad, Mello e Bezerra dizem que:

33 HERCULANO, Selene. O clamor por justiça ambiental e contra o racismo ambiental. INTERFACEHS Revista de Gestão Integrada em Saúde o Trabalho e Meio Ambiente. 2008. n.1.

jan

http://www.revistas.sp.senac.br/index.php/ITF/article/viewFile/89

/114. >. Acesso em 26.mar.2015.p.2.

<

abril,

2008.

Disponível

em:

A noção de justiça ambiental implica, pois, o direito a um ambiente seguro, sadio e produtivo para todos, onde o “meio ambiente” é considerado em sua totalidade, incluindo suas dimensões ecológicas, físicas construídas, sociais, políticas, estéticas e econômicas. Referem-se, assim as condições em que tal direito pode ser livremente exercido, preservando, respeitando e realizando plenamente as identidades individuais e de grupo, além da autonomia das comunidades 34 .

A partir dessa realidade, o Estado deve assumir o compromisso com um meio ambiente ecologicamente equilibrado, visto que este é um direito humano de terceira dimensão e expressamente positivado pela Constituição Federal, o qual deve ser reconhecido e efetivado em sociedade. Assim a instalação de um aterro sanitário em uma área de grande possibilidade de crescimento, onde hoje está alocado um grande número de trabalhadores não seria mais um caso de (in) justiça ambiental? Seria compactuar com as ideias de

² ACSERALD. Henri; MELLO, Cecília C. A.; BEZERRA, Gustavo B. O que é Justiça Ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. p.23.

Lawrence Summers “os mais pobres, em sua maioria, não vivem mesmo o tempo necessário para sofrer os efeitos da poluição ambiental”?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Avaliar os critérios adotados para a implantação do aterro sanitário no Distrito Industrial de São Joaquim - Município de Cachoeiro de Itapemirim-ES, analisando deste modo se ocorreu violação a garantia ao mínimo existencial socioambiental, caracterizando assim a injustiça ambiental.

4.2 Objetivos específicos

Abordar os aspectos para a construção do estado socioambiental de direito;

Identificar as premissas para edificação do

mínimo existencial socioambiental à luz da dignidade

da pessoa humana;

Caracterizar

implicações

socioambiental;

para

o

justiça

suas

desenvolvimento do Estado

ambiental

e

Examinar o caso do aterro sanitário do Distrito

Industrial de São Joaquim - Município de Cachoeiro de

Itapemirim-ES, frente aos princípios da justiça ambiental.

5 HIPÓTESES

A possibilidade de ocorrência da má distribuição

dos encargos residuais, fazendo com que aquela comunidade suporte as consequências ambientais negativas, oriundas do desenvolvimento econômico e da omissão de políticas públicas.

A inviabilidade da instalação do aterro em outra

área visto que esta não é ato de injustiça ambiental,

haja vista que a população em torno não será prejudicada.

6 JUSTIFICATIVA

Há uma multiculturalidade na formação da sociedade brasileira, sendo que a população é constituída de pessoas vindas de vários países e regiões. E essa diversidade cultural que se estabeleceu ao longo das décadas fez também com que as desigualdades sociais se tornassem gritante. Grande parte da população menos favorecida econômica e socialmente está inserida em espaços físicos impróprios para viver. São locais em encostas, beiras de rios, locais sem saneamento básico e pavimentação e em áreas degradadas ambientalmente. E essa injustiça social é reforçada pela elite dominante da sociedade, que busca que a manutenção das riquezas permaneça em mãos de apenas uma pequena parte da população. Tudo isso com a falta de

políticas públicas que garantam os direitos de toda uma população, em nome do desenvolvimento econômico e sustentável. Assim, a partir das afirmações acima e dos estudos realizados, o Trabalho de Conclusão de Curso se justifica tendo em vista a necessidade de analisar se a construção de um aterro sanitário na localidade de São Joaquim, em Cachoeiro de Itapemirim, reforça as injustiças sociais e ambientais com a população local ou se a construção do aterro não estará prejudicando ambientalmente o espaço no qual a comunidade está inserida geograficamente.

7 REVISÃO DE LITERATURA

Para a realização do trabalho acadêmico, serão utilizados textos de apoio de diversos estudiosos do direito ambiental, de livros e sites acadêmicos, além de legislações específicas pertinentes ao tema justiça ambiental. O art. 225 da Constituição Federal de 1988 determina que todos tem direito ao meio ambiente

ecologicamente equilibrado, bem de uso comum e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo para as presentes e futuras gerações. O inciso IV do art. 225 determina ainda que se exige, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação ambiental, estudo prévio do impacto, resguardando a integridade da população 35 . Bullard, Johnson, Smith e King 36 enfatizam que a desigualdade ambiental, seja em termos de proteção desigual como de acesso desigual, demonstra que o que está em jogo não é a sustentabilidade dos recursos e do meio ambiente, mas sim as formas sociais de apropriação, do uso e mau uso destes recursos e do ambiente. Ainda segundo o autor

35 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em:

o.htm.> Acesso em 29 mai. 2015.

36 BULLARD, Robert D. et all. Living on the frontline of environmental assault: Lessons from the United States most vulerable communities. [Vivendo na linha de frente da luta ambiental: Lições das comunidades mais vulneráveis dos Estados Unidos] PUGGIAN, Cleonice (Trad.). Revista Educação, Ciências e Matemática. 2013. v.3, n.3. set.-dez,

2013.Disponível

<http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/recm/article/view

File/2546/1182>. Acesso em 13 jun.2015.

em:

a pobreza é um produto dos processos sociais. A

desigualdade ambiental nada mais é do que uma distribuição desigual das partes de um meio ambiente

injustamente dividido, no qual a desigualdade social e

de poder é o cerne da degradação ambiental.

Sarlet 37 destaca que o Relatório Nosso Futuro Comum (ou Relatório Bruntdland), datado de 1987, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas reconheceu a nossa dependência existencial em face da biosfera.

Segundo Alier 38 nos últimos anos a agricultura moderna e, em geral, a economia atual tem sido criticada porque implica um gasto de combustíveis fosseis, uma contaminação do meio ambiente e uma perda de biodiversidade maior que a agricultura tradicional e que a economia pré-

37 SARLET. Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Direito Constitucional Ambiental: constituição, direitos fundamentais e proteção do ambiente. 2 ed., rev. e atual.- São Paulo: editora Revista dos Tribunais, 2012, p. 97.

38 ALIER, Joan Martínez. O ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração. WALDMAN, Maurício (Trad.) 2 ed. São Paulo: Contexto, 2014.

industrial. Alier 39 ainda afirma que o incremento da agricultura capitalista moderna depende, além da infravalorização da energia dos combustíveis fosseis, do valor nulo ou escasso que se tem dado à contaminação por pesticidas e fertilizantes à perda da biodiversidade. Segundo Guerra e Cunha 40 os problemas ambientais não atingem igualmente todo o espaço urbano. Atingem muito mais os espaços físicos ocupados pelas classes sociais menos favorecidas economicamente do que os ocupados pelas classes mais elevadas.

Herculano 41 destaca as mobilizações em busca do equilíbrio entre desenvolvimento econômico e degradação ambiental e o caso Love Canal, que

39 Ibid. 40 GUERRA. Antônio José Teixeira; CUNHA. Sandra Baptista da.

Impactos ambientais urbanos no Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro.

2005.

41 HERCULANO. Selene. Justiça ambiental: de Love canal à Cidade dos Meninos, em uma perspectiva comparada. Justiça e Sociedade: temas e perspectivas. MELLO. Marcelo Pereira de (org.) São Paulo: Ltr, 2001. Disponível em:<

Meninos.pdf> Acesso em 01 jun.2015.

aconteceu em Niágara Falls, New York, EUA, onde a população mobilizou-se para impedir que sua comunidade recebesse dejetos químicos. Ainda sobre o caso Canal Love, o Environmental Protection Agency- EPA, órgão ambiental federal norte americano, em 1980, identificou que a população demonstrava enormes chances de desenvolverem câncer. Isso fez com que o presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter assinasse lei de evacuação permanente de todos os moradores. Em 1991, os 600 delegados presentes à 1ª Cúpula Nacional de Lideranças Ambientalistas de Povos de Cor, que aconteceu na cidade de Washington (EUA), aprovaram os “17 Princípios da Justiça Ambiental” 42 . Porém foi durante Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, que tal documento foi devidamente divulgado de

42 REDE BRASILEIRA DE JUSTIÇA AMBIENTAL. Princípios de Justiça Ambiental. Disponível em:

<http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.ph p?id=229.> Acesso em 20 jun.2015.

modo que movimento pela justiça ambiental ecoou mais uma vez em diversas partes do mundo. Na luta pela Justiça Ambiental destaca-se também a Rede Brasileira de Justiça Ambiental 43 , criada em 2001, no Rio de Janeiro, que defende que a injustiça ambiental resulta da lógica perversa de um sistema de produção, de ocupação do solo, de destruição de ecossistemas, de alocação espacial de processos poluentes, que penaliza as condições de saúde da população trabalhadora, moradora de bairros pobres e excluída pelos grandes projetos de desenvolvimento. Na década de 1990 a difusão do movimento por justiça ambiental tomou uma proporção internacional. Isso ocorreu com a divulgação do conteúdo de um memorando de circulação restrita aos quadros do Banco Mundial, que ficou conhecido por Memorando Summers, conforme destaca Alier 44 .

43 BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Manifesto de Lançamento da Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Disponível em : < http://www.mma.gov.br/assuntos-internacionais/item/8077. >. Acesso em 25 abr.2015. 44 ALIER, 2014, p.20.

Acserald, Mello e Bezerra 45 citam um dos itens do memorando Summers, que diz que os mais pobres, em sua maioria, não vivem mesmo o tempo necessário para sofrer os feitos da poluição ambiental. Tal conteúdo, entre outros, estimulou ainda mais que movimentos ambientalistas lutassem por justiça ambiental para todos. Há muitos anos já acontecem no Brasil movimentos que envolvem reivindicações bastante semelhantes aos movimentos ocorridos pelo mundo, buscando a justiça ambiental. Como exemplo é possível citar as lutas lideradas pelo ambientalista José Lutzemberger 46 , da Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural (Agapan), lutas estas que buscavam impedir a utilização de agrotóxicos na

45 ACSERALD; MELLO; BEZERRA; 2009, p.28. 46 José Antônio Lutzenberger, (Porto Alegre, 17 de dezembro de 1926 a 14 de maio de 2002), foi um agrônomo e ecologista brasileiro que participou ativamente na luta pela conservação e preservação ambiental. Na obra "Fim do Futuro: Manifesto Ecológico Brasileiro", que lançou em 1980, já previa o problema do aquecimento global (hoje um consenso científico, mas na época um assunto desconhecido da população), alertando por exemplo que "a Amazônia não é o pulmão do planeta, é o ar condicionado do planeta" ASSOCIAÇÃO DE AGRICULTURA ORGANICA. José Lutzenberg. Disponível em <http://aao.org.br/aao/jose- lutzenberger.php> Acesso em 02 jun.2015.

agricultura, por entender que tal prática implicava em riscos para o meio ambiente, contaminando o solo e as águas, bem como prejudicando a saúde do homem. Neste entendimento Acselrad, Mello e Bezerra 47 afirmam que o desenvolvimento com justiça ambiental requer a combinação de atividades no espaço de modo a que a prosperidade de uns não provenha da expropriação dos demais. Rammê 48 destaca que a forte preocupação social que emana dos Direitos Humanos de cunho ecológico, põe em marcha um novo paradigma de desenvolvimento, voltado tanto à sustentabilidade ambiental quanto à sustentabilidade social, visando a redução de desigualdades sociais e a promoção de valores como justiça, ética e equidade social.

47 ACSERALD; MELLO; BEZERRA; 2009, p.77.

48 RAMMÊ. Rogério Santos. Da justiça ambiental aos direitos

e deveres ecológicos: conjecturas político-filosóficas para uma nova ordem jurídico-filosófica. Caxias do Sul: Educa,

2012.

8 METODOLOGIA

A metodologia utilizada para a realização do

trabalho acadêmico inclui a seleção e sistematização

de referenciais teóricos de estudiosos em educação e

direito ambiental, além de legislações referentes ao

Direito de Justiça Ambiental e Educação Ambiental.

Também engloba estudo de caso sobre a construção do

aterro sanitário no Distrito Industrial de São Joaquim,

em Cachoeiro de Itapemirim ES, para análise da

viabilidade da construção do aterro e suas possíveis

consequências para a comunidade local.

REFERÊNCIAS

ACSERALD. Henri; MELLO, Cecília C. A.; BEZERRA, Gustavo B. O que é Justiça Ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

ALIER, Joan Martínez. O ecologismo dos pobres:

conflitos ambientais e linguagens de valoração. WALDMAN, Maurício (Trad.) 2.ed. São Paulo:

Contexto, 2014.

Da economia ecológica ao ecologismo popular. Blumenau: FURB, 1998. BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em:

aocompilado.htm.>. Acesso em 28 mai.2015.

Ministério do Meio Ambiente.Manifesto de Lançamento da Rede

Brasileira de Justiça Ambiental. Disponível em :

<http://www.mma.gov.br/assuntos-

internacionais/item/8077> . Acesso em 25 abr. 2015.

BULLARD, Robert D. et all. Living on the frontline of environmental assault: Lessons from the United States most vulerable communities. [Vivendo na linha de frente da luta ambiental: Lições das comunidades mais vulneráveis dos Estados Unidos] PUGGIAN, Cleonice(Trad.). Revista Educação, Ciências e Matemática. 2013. v. 3, n.3. set.-dez., 2013.Disponível em:

<http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/recm/ article/viewFile/2546/1182 >. Acesso em 13 jun. 2015.

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HERCULANO, Selene. O clamor por justiça ambiental e contra o racismo ambiental. INTERFACEHS Revista de Gestão Integrada em Saúde o Trabalho e Meio Ambiente. 2008. n.1. jan.-abr., 2008. Disponível em:

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Justiça ambiental: de Love canal à Cidade dos Meninos, em uma perspectiva comparada. Justiça e Sociedade: temas e perspectivas. MELLO. Marcelo Pereira de (org.) São Paulo: Ltr, 2001.Disponível em:< http://www.professores.uff.br/seleneherculano/images/

jun.2015.

REDE BRASILEIRA DE JUSTIÇA AMBIENTAL. Princípios de Justiça Ambiental. Disponível em: < http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/ pagina.php?id=229.> Acesso em 20 jun.2015.

ASSOCIAÇÃO DE AGRICULTURA ORGANICA. José Lutzenberg. Disponível em < http://aao.org.br/aao/jose-lutzenberger.php> Acesso em 02 jun.2015.

RAMMÊ, Rogério Santos. Da justiça ambiental aos direitos e deveres ecológicos conjecturas políticos-filosóficas para uma nova ordem jurídico-ecológica. Caxias do Sul : Educs, 2012.

SARLET. Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Direito Constitucional Ambiental: constituição, direitos fundamentais e proteção do ambiente. 2 ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012.

A OCUPAÇÃO DESORDENADA URBANA E A DESTRUIÇÃO DA VEGETAÇÃO DE RESTINGA COMO FATOR DE AGRAVAMENTO DA EROSÃO MARITIMA NO LITORAL DE MARATAÍZES-E.S.

1 INTRODUÇÃO

Jayme Xavier Neto 49

O presente projeto de pesquisa tem como escopo demonstrar o quão à inobservância das leis de proteção ao meio ambiente associado à ocupação desor- denada com construções imobiliárias na orla pode agravar o risco de erosão marítima no litoral de Marataízes- E.S, pois não havia um planejamento prévio, nem diretrizes urbanísticas pertinentes e se estabeleceram construindo sobre áreas geologicamente frágeis no que tange os aspectos ambientais e consequentemente acarretando vários problemas sociais, causando sérios danos ao meio ambiente,

49 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: jaymexavier@hotmail.com

principalmente a mata de restinga e com isso trazendo sérios danos, afetando o meio ambiente, a população local e até mesmo a economia da cidade, que é cediço ter grande vocação turística, mas com os últimos acontecimentos relacionados ao avanço da maré viu a gama de potenciais turistas sofrer um revés significativo.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

Serão abordados os aspectos da ocupação desordenada urbana e a degradação da mata de restinga à luz do plano diretor urbano de Marataízes- E.S, bem como sua legislação ambiental, o projeto orla do governo federal, amparado pelas Leis N°7.661 de 16 de maio 1988 50 , que institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, definindo seus princípios, objetivos e instrumentos e dá outras providencias e a

50 BRASIL. Lei nº 7.661, de 16 de maio de 1988. Institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro e dá outras providências. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 06 mai. 2015.

N° 9.636 de 15 de maio 1998 51 , que dispõe sobre a regularização, administração, aforamento e alienação de bens de domínio da União, altera dispositivos dos Decretos-Leis nos 9.760, de 5 de setembro de 1946, e 2.398, de 21 de dezembro de 1987, regulamenta o § 2º do art. 49 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e dá outras providências que tem como escopo o planejamento de ações estratégicas para integração de políticas publicas incidentes na zona costeira, buscando responsabilidades compartilhadas de atuação e estabelecimento o referencial acerca da atuação da união na região.

3 PROBLEMA

de

Marataízes, litoral sul do E.S vem gradativamente

Nas

ultimas

décadas,

a

cidade

51 BRASIL. Lei nº 9.636, de 15 de maio de 1998 . Dispõe sobre a regularização, administração, aforamento e alienação de bens de domínio da União, altera dispositivos dos Decretos-Leis nos 9.760, de 5 de setembro de 1946, e 2.398, de 21 de dezembro de 1987, regulamenta o § 2º do art. 49 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e dá outras providências.

Disponível em: < http://www.planalto.gov.br >. Acesso em 06 mai.

2015.

sofrendo com os impactos causados pela erosão marí- tima, ocasionando graves danos tanto a população que reside em áreas muito próximas ao litoral, bem como a economia da cidade, pois dispensa grandes investimentos e ações emergenciais de curto prazo para tentar evitar que a situação se agrave ainda mais e também a longo prazo, com estudo de impactos ambientais e possibilidades de amenizar e reverter o processo de erosão marítima. Como efeito, a inobservância das leis de proteção ao meio ambiente associado à inércia do poder publico por longos anos e ocupação desordenada com construções imobiliárias na orla podem ter contribuído para agravar o risco de erosão marítima no litoral de Marataízes- E.S, pois não havia um planejamento prévio, nem diretrizes urbanísticas pertinentes e se estabeleceram construindo sobre áreas geologicamente frágeis no que tange os aspectos ambientais e consequentemente causando sérios danos ao meio ambiente, principalmente a vegetação de restinga, sendo que a mesma contribui como fator de

contenção da erosão marítima. Sobre essa ocupação desordenada, Édis Milaré, explana:

Em ultima analise, muitas das edificações irregulares, especialmente favelas e construções subnormais, são expressões curiosas do direito de habitar, exercido de forma irregular, por vezes à revelia das normas urbanísticas visto que a um grande número de cidadãos faltam condições para fazê-lo regularmente 52 .

Já Tauã Lima Verdan Rangel assim define:

Verifica-se, em uma órbita urbanística, que os edifícios projetados pelos ar- quitetos e em consonância com os regulamentos, as cidades orientadas pelos planos urbanísticos e providas com plurais serviços públicos, as ruas, os parques etc. dizem respeito apenas a uma parcela da população. Doutro viés, a outra não está em condições de se servir deles e se organiza por sua própria conta em outros estabelecimentos, os quais são denominados “irregulares”, comumente em contato direto com os “regulares”, mas claramente distintos 53 .

52 MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: 9 ed, rev.,atual. e ampl. São Paulo: Ed. Rev. dos Tribunais,pg.989. 2014.

53 RANGEL, Tauã Lima Verdan. A natureza jurídica da favela à luz do meio ambiente artificial: breve painel do cenário urbanístico contemporâneo nas grandes cidades. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XVII, n. 120, jan 2014. Disponível em:

Mas, até que ponto a ocupação desordenada urbana e a destruição da vegetação de restinga influenciaram no agravamento da erosão marítima em Marataízes-E.S?Quais os instrumentos jurídicos necessários para ampliar a proteção das áreas ainda não afetadas pela erosão? Quais foram os impactos observados no que tange os moradores da área afetada?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Compreender como a inobservância e desrespeito às leis de proteção ao Meio Ambiente e aos preceitos constitucionais de tutela da orla marítima em todo território nacional pode atuar como fator de agravamento da erosão marítima no litoral da cidade de Marataízes-E.S.

<http://www.ambito-

juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=14

122>. Acesso em 17 jun 2015.

4.2 Objetivos específicos

Diante do exposto, o referido projeto de pesquisa irá:

Analisar como a especulação desordenada na

orla e consequentemente a destruição da vegetação de

restinga contribuiu como fator de agravamento da erosão no litoral de Marataízes.

Examinar o quanto a morosidade em

estabelecer critérios e positivar uma legislação apropriada pertinente auxiliaram para o agravante da erosão.

Analisar se a legislação atual é pertinente afim de se evitar que o quadro atual se agrave.

Avaliar o afetamento da economia local pelo agravamento das questões ambientais.

no

quantitativo de turistas devido ao agravamento da

Verificar

se

houve

um

decréscimo

erosão.

5 HIPÓTESES

É fato que o agravamento das questões

envolvendo a degradação ambiental do Município de Marataízes impactou diretamente no turismo local, baseado pela exploração dos atrativos naturais, em especial a orla, responsável por parcela considerável da economia do Município.

A legislação ambiental atual possui brechas que

permitem a ocupação desordenada na faixa litorânea

de Marataízes, E.S, e a destruição da mata de restinga.

6 JUSTIFICATIVA

O município de Marataízes, localizado no litoral sul do Espirito Santo que outrora já foi um dos balneários

mais badalados do Estado viu o quantitativo de turistas que frequentavam a cidade sofrer um revés significativo ao longo dos últimos anos, tendo como um dos fatores o agravamento da erosão marítima que vem gradativamente atingindo o litoral do município, causando inviabilidade ao acesso em alguns pontos das praias, destruindo ruas, avenidas e residências que tiveram suas construções feitas de forma inadequada, não levando em conta o quão isso poderia ser desastroso para o meio ambiente litorâneo. Esses atos foram paulatinamente efetuados ao longo dos anos, a margem de qualquer legislação pertinente.

dos anos, a margem de qualquer legislação pertinente. Figura 01. Construções desordenadas que agravam a erosão

Figura 01. Construções desordenadas que agravam a erosão no litoral de Marataízes.(fonte:www.robertomoraes.com.br)

Figura 02. Centro de Marataízes e uma obra de contenção que não surtiu efeito. Nas

Figura 02. Centro de Marataízes e uma obra de contenção que não surtiu efeito.

Nas ultimas décadas, houve um avanço no processo de erosão se acentuou, destruindo vias publicas, construções, quiosques, obrigando o município e o governo do Estado a ter que dispensar significativa parcela do seu orçamento para tentar deter o avanço. Somente na praia central de Marataízes o investimento foi na ordem de aproximados 45 milhões de reais. O trabalho de conclusão de curso tem como justificativa a eminente necessidade de analisar se a legislação tanto municipal, por meio do plano diretor

urbano, quanto a legislação ambiental do governo federal são capazes de deter e amenizar os impactos causados ao meio ambiente devido a essas construções irregulares e a destruição da vegetação de restinga e ainda que se tenha um plano a longo prazo para buscar a recuperar as áreas degradadas e impeça que futuras construções sejam feitas de forma sustentável, não impedido o crescimento do município, mas que esse crescimento ocorra de forma que o impacto ao meio ambiente seja minimizado.

de forma que o impacto ao meio ambiente seja minimizado. Figura 03. Obra do governo do

Figura 03. Obra do governo do Estado do Espirito Santo, com orçamento de 45.000.000,00 para conter a erosão na praia central de Marataízes.

7 REVISÃO DE LITERATURA

Com o escopo de embasar o presente projeto de pesquisa, serão utilizados materiais de apoio de doutrinadores do direito constitucional, direito ambiental, além de buscar um aporte teórico também na geografia e na geologia. Segundo Muehe 54 , cerca de 22% da população brasileira vive atualmente em municípios costeiros, isso mostra a grande atração que essas áreas despertam, seja no âmbito do lazer e qualidade de vida como no econômico. Infelizmente, a ocupação geralmente ocorre de forma desordenada acarretando interferências diretas e indiretas no balanço sedimentar e promovendo inúmeros casos de processos erosivos ao longo da costa brasileira. Já Silva 55 explana que O crescimento da ocupação do litoral pelo homem e a conseqüente

54 MUEHE, D. Critérios Morfodinâmicos para o Estabelecimento de Limites da Orla Costeira para fins de Gerenciamento. Revista Brasileira de Geomorfologia, V. 2, n. 1. 2001.

55 SILVA, J.A.; ERIKSEN, S.; OMBE, Z.A. Double exposure in Mozambique’s Limpopo River Basin. The Geographical Journal, London, v.176, n.1, p. 6-24, 2009.

pressão antrópica sobre essa zona, nem sempre foi, ou é,acompanhado de uma política clara de planos de gestão, de ordenamento e de desenvolvimento sustentado do litoral enquanto recurso natural. A resolução desses conflitos pode possibilitar a sustentabilidade ambiental de uma determinada área para que o problema não se torne mais grave no futuro.

O art. 225 da Constituição Federal de 1988 determina que todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo para as presentes e futuras gerações. O inciso IV do art. 225 determina ainda que se exige, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação ambiental, estudo prévio do impacto, resguardando a integridade da população 56 .

56 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em:

<www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilad

o.htm.>Acesso em 29 mai. 2015.

Fiorillo 57 esclareceu que a proteção do meio ambiente existe, antes de tudo, para favorecer o próprio homem e, senão por via reflexa e quase simbiótica, proteger as demais espécies. Novamente Silva 58 , relata que as praias do litoral brasileiro, associadas com outros ecossistemas como restingas, costões rochosos, terraços arenosos, recifes de corais e tabuleiros costeiros com falésias ativas, formam cenários de grande beleza natural que representam uma forte atração para atividades. Segundo Wiegel 59 atualmente o litoral é objeto de pressões urbana e turística, sendo que o afluxo de pessoas intensificou uma ocupação desordenada das áreas costeiras, pela implantação de infra-estruturas viárias, comerciais e de lazer, frequentemente avançando em direção ao mar. Essas atividades aceleram a expansão urbana irregular e todos os problemas sociais e ambientais dela

57 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. Saraiva, São Paulo, 2006.

58 SILVA, ERIKSEN.; OMBE, 2009.

59 WEIGEL, R., & Weigel, J. (1978). Environmental concern: The development of a measure. Environment and Behavior, 10, 3-

15.

decorrentes, como o lançamento de esgotos domésticos, e efluentes industriais, a exclusão das comunidades tradicionais, e a ocupação de áreas públicas e de ecossistemas naturalmente frágeis.

8 METODOLOGIA

Será realizada uma pesquisa de revisão bibliográfica com escopo de obter o aporte teórico no que tange a legislação pertinente ao assunto abordado no projeto de pesquisa, construindo fundamentação sólida, comparando-as com o caso concreto da cidade de Marataízes e também com processos parecidos ocorridos em outras cidades litorâneas. A metodologia empregada para a realização do projeto de pesquisa se dará por meio da seleção e sistematização de referenciais teóricos de doutrinadores do direito ambiental, direito constitucional, bem como uma analise do plano diretor urbano do município de Marataízes, E.S e sua eficácia frente às constantes agressões ao meio ambiente, utilização de imagens de satélite, fotos in loco dos locais que serão analisados,

entrevistas junto aos moradores das regiões afetadas e

dados de geologia.

REFERÊNCIAS

BRASIL.Constituição Federal de 1988.Disponível em:

<www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituic

aocompilado.htm.>Acesso em 29 mai. 2015.

Lei

nº 7.661, de 16 de maio de 1988. Institui

o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro e dá outras providências. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 06 mai. 2015.

Lei nº 9.636, de 15 de maio de 1998 . Dispõe sobre a regularização, administração, aforamento e alienação de bens de domínio da União, altera dispositivos dos Decretos-Leis nos 9.760, de 5 de setembro de 1946, e 2.398, de 21 de dezembro de 1987, regulamenta o § 2º do art. 49 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e dá outras providências. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br >. Acesso em 06 mai. 2015.

FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. Saraiva, São Paulo, 2006.

MILARÉ, Édis. Direito do Ambient. 9 ed, rev.,atual. E ampl.- São Paulo: Ed. Rev. dos Tribunais, 2014.

MUEHE, D. Critérios Morfodinâmicos para o Estabelecimento de Limites da Orla Costeira para fins de Gerenciamento. Revista Brasileira de Geomorfologia,Volume 2, Nº 1. 2001.

RANGEL, Tauã Lima Verdan. A natureza jurídica da favela à luz do meio ambiente artificial: breve painel do cenário urbanístico contemporâneo nas grandes cidades. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XVII, n. 120, jan 2014. Disponível em:

<http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revist a_artigos_leitura&artigo_id=14122>. Acesso em 17 jun

2015.

SILVA, J.A.; ERIKSEN, S.; OMBE, Z.A. Double exposure in Mozambique’s Limpopo River Basin. The Geographical Journal, London, v.176, n.1, p. 6-24,

2009.

WEIGEL, R., & Weigel, J. (1978). Environmental concern: The development of a measure. Environment and Behavior, 10, 3-15.

O AFETO COMO PARADIGMA DAS CONSTANTES MODIFICAÇÕES NAS FORMAÇÕES FAMILIARES CONTEMPORÂNEAS: UMA ABORDAGEM DO ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA NO RECONHECIMENTO DE UNIÕES ESTÁVEIS PLÚRIMAS

1 INTRODUÇÃO

David Gomes Sodré 60

O presente trabalho tem por objetivo a realização do projeto de pesquisa que servirá como base para a elaboração da Monografia necessária para a conclusão do curso de direito no Centro Universitário São Camilo-ES. A referida pesquisa conterá uma análise do afeto diante da caracterização das entidades familiares contemporâneas fazendo uma abordagem, em especial, quanto ao entendimento do

60 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: Sodré_14r@hotmail.com

Superior Tribunal de Justiça acerca do reconhecimento das células familiares concomitantes. No presente projeto, primeiramente, será feita a delimitação do tema escolhido para a elaboração da monografia, posteriormente será exposta a problemática do tema analisado, seguindo será demonstrado os objetivos gerais e específicos a fim de determinar exatamente os pontos a serem abordados na monografia. Adiante serão observadas as hipóteses, no qual apresentará as possibilidades existentes para solucionar a problemática do tema tratado, sendo, após, descrita a justificativa do presente trabalho, descrevendo as razões que ensejaram a produção da pesquisa em tela. Logo após, será disposta a revisão de literatura, no qual apresentará o que já está sendo escrito, pesquisado ou abordado acerca do tema escolhido, fazendo se valer de doutrinas, jurisprudências e legislações. Ademais, será apresentada toda a metodologia da pesquisa descrevendo os métodos que serão aplicados na

elaboração do trabalho. Por fim, será apresentado o sumário prévio, constando todos os tópicos a serem abordados na monografia.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

O afeto como paradigma das constantes modificações nas formações familiares contemporâneas: uma abordagem do entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no reconhecimento de uniões estáveis plúrimas.

3 PROBLEMA

Segundo a ótica do Superior Tribunal de Justiça (STJ) não é possível o reconhecimento de uniões estáveis simultâneas, tendo em vista que o Código Civil de 2002 não permite, preservando, assim, o principio da monogamia que prevalece nas relações constituídas pelo casamento, princípio este que é aplicado indiretamente às uniões estáveis, e também em função de um dos requisitos para o reconhecimento

da união estável ser a fidelidade. Diante disto em relações concomitantes a concubina não adquire direito algum, servindo como punição ao adultério cometido, salvo nos casos em que a concubina não saiba das demais relações do companheiro, ocasião que tais vínculos são alocados no direito obrigacional, sendo tratados como sociedades de fato. Porém, parte da doutrina entende que desse modo o único a ser beneficiado seria o companheiro infiel, haja vista que não sofreria nenhuma penalidade e ainda preservaria seu patrimônio, enquanto a concubina, que muitas das vezes, se dedica anos ao parceiro vivendo uma relação de afeto, sairia da relação sem direito algum. Segundo Maria Berenice Dias "a repulsa aos vínculos afetivos concomitantes não os faz desaparecer, e a invisibilidade a que são condenados só privilegia o "bígamo": concede ao infiel verdadeira carta de alforria, pois tudo pode fazer e nada pode lhe ser exigido" 61 .

61 BERENICE, Maria Dias. Manual de Direito das Famílias. 9 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013, p. 47.

Neste diapasão, surge a seguinte indagação:

Relações duradouras constituídas pelo afeto mútuo, mesmo que concomitantes, devem ser ignoradas aos olhos da sociedade?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar como o afeto vem sendo tratado diante das constantes modificações das formações familiares, atentando-se especialmente, as situações de uniões estáveis concomitantes, realizando uma abordagem do entendimento do Superior Tribunal de Justiça.

4.2 Objetivos específicos

Definir o conceito de família, e realizar uma

interpretação do artigo 226 da Constituição Federal de

1988.

Abordar

formação das relações contemporâneas.

o

afeto

como

paradigma

para

a

Caracterizar as uniões estáveis plúrimas.

Analisar o afeto como paradigma das constantes

modificações nas formações familiares contemporâneas: uma abordagem do entendimento jurisprudencial do superior tribunal de justiça no reconhecimento de uniões estáveis plúrimas.

5 HIPÓTESES

O reconhecimento das uniões estáveis plúrimas como entidades familiares, observando principalmente o vínculo afetivo existente entre os companheiros, não importando assim o conhecimento do impedimento da existência de outro convivente, independentemente de boa-fé, desencadeando na concessão de direitos equivalentes a eles, dando prioridade aos princípios da dignidade da pessoa

humana e pluralidade das entidades familiares em face do princípio da monogamia.

O não reconhecimento das uniões estáveis

concomitantes, preservando assim o princípio da monogamia, característica fundamental do casamento que é aplicado também indiretamente às uniões estáveis, porém é necessário que seja imposto algum tipo de penalidade ao convivente infiel pela prática de tal ato de infidelidade, a fim de coibir o cometimento dessas práticas demasiadamente sem que quaisquer consequências lhe sejam impostas.

6 JUSTIFICATIVA

A situação abordada no presente trabalho,

ou seja, o afeto como base estrutural das relações familiares contemporâneas, juntamente com uma análise quanto ao entendimento do Superior Tribunal de Justiça, quanto às famílias paralelas, no qual é uma célula familiar bastante comum na sociedade, que ainda não possui total atenção pelo ordenamento jurídico, chama bastante atenção dentro do âmbito

familiar. Tendo em vista, que a maioria da sociedade condena tais relacionamentos, visto que contraria o princípio da monogamia regente no casamento, no qual determina fidelidade entre os nubentes, princípio este que também deve existir no caso das uniões estáveis, para que possam ser reconhecidas. Conforme pode ser visto no artigo 1566, inciso I, da Lei 10.406, de janeiro de 2002, que institui o Código Civil, o qual dispõe que são deveres de ambos os cônjuges:

fidelidade recíproca 62 . O reconhecimento das famílias paralelas, pela ótica do Superior Tribunal de Justiça não pode ser reconhecida, por contrariar o disposto no Código Civil de 2002, que visa preservar o principio da monogamia que prevalece nas relações constituídas pelo casamento, princípio este que é aplicado indiretamente às uniões estáveis, e também em função de um dos requisitos para o reconhecimento da união estável ser a fidelidade. No entanto, faz-se necessário

62 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de Janeiro de 2002. Institui o

Código

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>.

Acesso em 16 jun. 2015.

Disponível em:

Civil

de

2002.

realizar uma análise sobre essa inobservância por parte do ordenamento jurídico quanto essas relações familiares, que há bastante tempo já existem na sociedade, e que necessitam também de amparo legal. Vale ressaltar, que recentemente o Direito de Família vem passando por constantes mutações, no qual elevou a afetividade a posição de destaque na caracterização das formações familiares, passando assim, o ordenamento jurídico a realizar uma interpretação extensiva do artigo 226 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 63 , haja vista que tal dispositivo constitucional determina como entidades familiares apenas a família matrimonial, a decorrente de união estável e a família monoparental. Tal interpretação extensiva, já pode ser observada no ordenamento jurídico, como pode ser visto na recente decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJ-DF):

63 Idem. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 16 jun.

2015.

Ementa: Agravo de instrumento. Civil. Família. Antecipação de tutela. Regime de visitas. Restrição de visitas do pai. Quadro tangível de alienação parental. Promoção do melhor interesse da criança. Família mosaico. Convivência familiar. Canais de diálogo. Crescimento sadio da criança. Possibilidade de restrição das visitas do pai até a realização do estudo psicossocial 64 .

E também em decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ): “Ementa: civil. Processual civil. Recurso especial. Adoção póstuma. Validade. Adoção conjunta. Pressupostos. Família Anaparental. Possibilidade” 65 , no qual reconheceram como entidades

64 DISTRITO FEDERAL. Tribunal de Justiça do Estado do Distrito Federal e dos Territórios. Acórdão proferido no Agravo de Instrumento nº 20130020083394. Agravo de instrumento. Civil. Família. Antecipação de tutela. Regime de visitas. Restrição de visitas do pai. Quadro tangível de alienação parental. Promoção do melhor interesse da criança. Família mosaico. Convivência familiar. Canais de diálogo. Crescimento sadio da criança. Possibilidade de restrição das visitas do pai até a realização do estudo psicossocial. Órgão Julgador: Primeira Turma Cível. Relatora: Desembargadora Simone Lucindo. Julgado em 10 jul. 2013. Publicado em 15 jul. 2013. Disponível em <http://tj-df.jusbrasil.com.br>. Acesso em 17 de jun. 2015. 65 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão proferido no Recurso Especial: REsp 1217415 RS 2010/0184476-0. Civil. Processual civil. Recurso especial. Adoção póstuma. Validade. Adoção conjunta. Pressupostos. Família anaparental. Possibilidade. Órgão Julgador: Terceira Turma. Relatora:

Ministra Nancy Andrighi. Julgado em 19 jun. 2012. Publicado em

familiares, famílias diferentes das hipóteses previstas no texto constitucional. Diante disso, verifica-se que os núcleos familiares paralelos também são relacionamentos pautados na afetividade, precisando, portanto, de regulamentação, visando proteger aqueles indivíduos que muitas vezes se relacionam por anos com outra pessoa que já constitui outra célula familiar, porém quando findam o relacionamento saem totalmente desamparados, enquanto o membro da outra família não sofre qualquer tipo de penalidade por seu ato. Diante do exposto, fica evidente a importância do tema em questão no direito contemporâneo, despertando, assim, o interesse de pesquisar a respeito deste assunto no presente trabalho, visando analisar tal situação, verificando se realmente tais relacionamentos devem ser ignorados aos olhos da sociedade, bem como do ordenamento jurídico, deixando um dos companheiros integrante de uma relação, contínua, duradoura e pautada na

28 jun. 2014. Disponível em <http://stj.jusbrasil.com.br>. Acesso em 17 jun. 2015.

afetividade, sem qualquer amparo legal, como ocorre atualmente.

7 REVISÃO DE LITERATURA

Ao longo da história pode-se observar que a família passou por diversas transformações. Antigamente os grupamentos familiares eram voltados para o instinto de sobrevivência, estando o afeto condicionado a um patamar de inferioridade, conforme vislumbra Pablo Stolze ao dizer que “na antiguidade, os grupamentos familiares eram formados, não com base na afetividade, mas sim na instintiva luta pela sobrevivência (independentemente de isso gerar, ou não, uma relação de afeto)” 66 . Ademais, no aludido período histórico, os núcleos familiares eram constituídos apenas pelo casamento, sendo caracterizado pelo modelo patriarcal, hierarquizado e monogâmico, estando o pai no topo da hierarquia familiar e, portanto, era quem

66 STOLZE, Pablo. Novo Curso de Direito Civil: Direito de Família: As famílias em perspectiva constitucional. v. VI. 2 ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2012, p. 58.

possuía e tomava todas as decisões dentro do núcleo familiar. A célula familiar estava mais preocupada com o aspecto patrimonial que seria conquistado em função dela, não importando o vínculo afetivo existente entre seus membros. Neste diapasão, Maria Berenice Dias, diz que

família possuía uma formação

extensiva, verdadeira comunidade rural, integrada por todos os parentes,

formando unidade de produção, com amplo incentivo à procriação. Como eram patrimonializada, seus membros representavam força de trabalho. O crescimento da família ensejava melhores condições de sobrevivência a todos. O núcleo familiar dispunha de perfil hierarquizado e patriarcal 67 .

]a [

Neste mesmo sentido, vislumbram Cristiano Chaves de Farias Nelson Rosenvald que "as pessoas se uniam em família com vistas à formação de patrimônio, para sua posterior transmissão aos

67 BERENICE, Maria Dias. Manual de Direito das Famílias. 9 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013, p. 28.

herdeiros, pouco importando os laços afetivos" 68 . No entanto, percebe-se que no Direito de Família moderno essa antiga estrutura de família hierarquizada e patriarcal caiu por terra, ganhando as relações de afetividade grande expressão dentro do direito de família, sendo priorizada nas formações de uma entidade familiar, em razão das diversas transformações que o Direito de Família passou no decorrer dos anos. Neste sentido, Cristiano Chaves de Farias Nelson Rosenvald afirma que

A arquitetura da sociedade moderna impõe um modelo familiar descentralizado, democrático, igualitário e desmatrimonializado. O escopo precípuo da família passa a ser a solidariedade social e demais condições necessárias ao aperfeiçoamento e progresso humano, regido o núcleo familiar pelo afeto, como mola propulsora 69 .

Ocorre que a Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 05 e outubro de

68 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil: Famílias. v. 6. São Paulo: Editora Atlas S.A, 2015, p. 5.

69 FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 6.

1988 70 dispõe em seu artigo 226 que família é a entidade constituída apenas pelo casamento civil entre homem e a mulher; pela união estável entre homem e mulher e também pela relação monoparental entre o ascendente e qualquer de seus descendentes. Porém, tal fato não pode vedar o reconhecimento de outros tipos de entidades familiares, no qual também são pautadas no afeto. Nesta ótica, entende Roberto Senise Lisboa ao expressar que o fato do texto constitucional abordar apenas três espécies de entidades familiares não pode inibir o reconhecimento de outros núcleos familiares, visto que o sistema jurídico brasileiro ao abordar tal assunto, não extinguiu a possibilidade de existir outras espécies 71 . Um grande marco que destacou a importância do afeto nas relações familiares contemporâneas foi o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal

70 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República

Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 20 jun.

2015.

71 LISBOA, Roberto Senise. Manual de Direito Civil: Direito de Família e Sucessões. v. 5. 8 ed. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 37.

Federal no julgamento da Ação de Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, que ocorreu no ano de 2011, confirmando a nova concepção da palavra família no ordenamento jurídico brasileiro, que tem como pilar o afeto entre seus membros.

Desse modo, verifica-se que o entendimento do Supremo Tribunal Federal é a favor das formações de entidades familiares constituídas, fundamentalmente, na afetividade de seus membros, realizando, dessa forma, interpretação extensiva do artigo 226 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, reconhecendo outras formas de entidades familiares, além das previstas no texto constitucional. Apesar dessa nítida evolução no âmbito do Direito Familiar, existem relações familiares que mesmo pautadas no afeto entre seus membros, são ignoradas aos olhos da sociedade e do ordenamento jurídico brasileiro, como é caso das famílias paralelas, no qual não possuem proteção pelas normas vigentes.

Tal entidade familiar fica caracterizada naquelas situações em que um indivíduo possui relacionamentos afetivos concomitantes, como por exemplo, mantém duas uniões estáveis ao mesmo tempo. Ou então, é casado, mas também possui uma união estável com outra pessoa paralelamente ao casamento, prática que é chamada de concubinato. Não obstante, haver algumas corajosas decisões no sentido de reconhecer essas relações familiares concomitantes, como o julgado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS):

Ementa: Apelação. União estável

concomitante

casamento. Possibilidade. Divisão de

“triação”.

Viável o reconhecimento de união estável paralela ao casamento. Precedentes jurisprudenciais. Viável o reconhecimento de união estável paralela ao casamento. Precedentes jurisprudenciais. Caso em que a prova dos autos é robusta em demonstrar que a apelante manteve união estável com o falecido, mesmo antes dele se separar de fato da esposa. Necessidade de dividir o único bem adquirido no período em que o

bem.

ao

casamento foi concomitante à união estável em três partes. "Triação".

Precedentes jurisprudenciais. Deram provimento, por maioria 72 .

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), não reconhece a existência dessas relações paralelas. Conforme pode ser visualizado na maioria de suas decisões, como por exemplo:

Ementa: Agravo regimental. Agravo de instrumento. Civil. Direito de família. Uniões estáveis simultâneas. Impossibilidade. Requisitos legais. Equiparação a casamento. Primazia da monogamia. Relações afetivas diversas. Qualificação máxima de concubinato. Recurso desprovido 73 .

72 RIO GRANDE DO SUL (ESTADO). Tribunal Regional do Rio Grande do Sul. Acórdão proferido na Apelação Cível nº 70024804015. Apelação. União Estável concomitante ao casamento. Possibilidade. Divisão de bem. "triação". Viável reconhecimento de união estável paralela ao casamento. Precedentes jurisprudenciais. Órgão Julgador: Oitava Câmara Cível. Relator: Desembargador Rui Porta Nova. Julgado em 13 set. 2013. Publicado em 03 de out. 2009. Disponível em <http://www.tjrs.jus.br>. Acesso em 19 de jun. 2015.

73 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acórdão proferido no Agravo de Instrumento nº 1.130.816-MG(2008/0260514-0). Agravo regimental. Agravo de instrumento. Civil.Direito de família. Uniões estáveis simultâneas. Impossibilidade. Requisitos legais. Equiparação a casamento. Primazia da monogamia. Relações afetivas diversa. Qualificação máxima de concubinato. Recurso desprovido. Órgão Julgador: Terceira Turma. Relator:

Ministro Vasco Della Giustina. Julgado em 19 de ago. 2010.

Neste diapasão, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem se manifestado no mesmo sentido, não reconhecendo tais células familiares, como pode ser visto em suas recentes decisões, tais como:

Ementa: Previdenciário. Concessão de pensão por morte. União estável. Paralela à família oficial. Impossibilidade. Concubinato” 74 . Entretanto, as famílias paralelas são relações familiares, corriqueiras no meio social, estruturadas com base no requisito fundamental da afetividade entre seus membros, devendo, portanto, serem reconhecidas pelo ordenamento jurídico, ao invés de serem ignoradas pela sociedade e pelo sistema jurídico vigente. Desse modo, observa-se que o direito vem passando por modificações necessárias, porém tais mudanças ocorrem muito lentamente,

Publicado em 27 de ago. 2010. Disponível em <https://www.stj.jus.br>. Acesso em 19 de jun. 2015. 74 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Decisão monocrática proferida no Recurso Extraordinário com agravo nº 645762 / RS. Previdenciário. Concessão de pensão por morte. União estável. Paralela à família oficial. Impossibilidade. Concubinato. Relator:

Ministro Gilmar Mendes. Julgado em 22 de jun. 2011. Publicado em 28 de jun. 2011. Disponível em <http://www.stf.jus.br >. Acesso em 19 de jun. 2015.

deixando muitas das vezes relações sociais cotidianas por um longo período sem qualquer tipo de regulamentação, bem como de garantia por parte do Estado.

8 METODOLOGIA

A metodologia a ser empregada no meu projeto abrangerá revisão bibliográfica, oriundas de doutrinas, artigos científicos, dissertações de mestrado e jurisprudências, com o objetivo de analisar como o afeto vem sendo tratado no âmbito familiar, dando uma atenção especial ao entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) quanto às células familiares concomitantes, que é uma situação bastante polêmica na sociedade contemporaneamente. O trabalho será composto por quatro capítulos, contendo três subtópicos cada um, com exceção do último capítulo que não conterá divisões. No primeiro capítulo será demonstrada a definição do conceito de família, além de ser realizada uma interpretação do artigo 226 da Constituição Federal de

1988. No segundo capítulo conterá uma abordagem acerca da importância da afetividade nas relações familiares contemporâneas. Já o terceiro capítulo realizará a caracterização das uniões familiares plúrimas e, por fim, no quarto e último capítulo será realizado pesquisas jurisprudenciais de decisões proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a respeito de sua visão quanto a essa espécie de célula familiar. Além de destacar a importância que o afeto possui atualmente no âmbito familiar. Ao final da pesquisa, no qual, basicamente, será pautada em doutrinas, artigos científicos, jurisprudências, legislações, acervos virtuais, dentre outros, poderá se tecer as considerações finais acerca do tema observado, podendo vislumbrar as hipóteses possíveis para questionamentos decorrentes da situação abordada no presente trabalho. Ademais, também poderá ser realizada uma pesquisa de campo por meio de um questionário, que será elaborado futuramente, com intuito de obter o posicionamento da sociedade acerca do tema abordado.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 20 jun. 2015.

Lei nº 10.406, de Janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: <

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>.

Acesso em 16 jun. 2015.

Superior Tribunal de Justiça. Disponível em: <www.stj.jus.br>. Acesso em 18 jun. 2015.

Supremo Tribunal Federal. Disponível em: <www.stf.jus.br>. Acesso em 18 jun. 2015.

BERENICE, Maria Dias. Manual de Direito das Famílias. 9 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil: Famílias. v. 6. São Paulo: Editora Atlas S.A, 2015.

HIRONAKA, Giselda. Famílias Paralelas. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, v. 108. 2013.

LISBOA, Roberto Senise. Manual de Direito Civil:

Direito de Família e Sucessões. v. 5. 8 ed. São Paulo:

Saraiva, 2013.

STOLZE, Pablo. Novo Curso de Direito Civil: Direito de Família: As famílias em perspectiva constitucional. v. VI. 2 ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2012.

A PRIMEIRA VARA DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DA COMARCA DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM-ES EM UMA PERSPECTIVA OBSERVACIONAL: IMPRESSÕES E CRÍTICAS DA INEFICIÊNCIA DA CONCILIAÇÃO NA INCIDÊNCIA LOCAL DO MICROSSISTEMA DA LEI Nº 9.099/1995

1 INTRODUÇÃO

Reynaldo Batista Pereira 75

É de notório saber que os Juizados Especiais Cíveis incluído no sistema jurídico brasileiro tem como objetivo principal atender as demandas movimentadas pela população, demanda que carecem de apreciação, mesmo sendo menos complexas, ao lado disso nota-se, que o microssitema da Lei 9.099/1995 vem sofrendo com dilemas que prejudicam e muita das vezes impede o cidadão de ter seu direito apreciado de forma eficaz, encontrando em seu caminho, a falta de preparo dos

75 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro

E-mail:

reynaldobpereira@gmail.com

Universitário

São

Camilo-ES.

profissionais envolvidos no sistema, a morosidade decorrente da litigiosidade latente nas veias do brasileiro e problemas com a própria formação psicológica da pessoa envolvida na ilide. Outrossim, é de fundamental importância o estudo e aplicação de teorias que identificam o que é o verdadeiro acesso à justiça, pondo esse em contraponto com teorias que apontam o que é o movimento de jurisdificação existente nos Tribunais, para assim, chegar-se a conclusão do que existe no atual sistema, pegando como amostragem o 1º Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim ES, com o fim de descolar o entendimento teórico, trazendo-o dessa forma para a aplicação fática através de uma observação empírica do mesmo.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

A pesquisa tem como campo espacial a 1ª Vara do Juizado Especial de Cachoeiro de Itapemirim ES, sendo essa analisada através de coleta de dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) entre o período

de 2013 a 2014, será analisada sobre o prisma do direito tendo como afunilamento o estudo do acesso à justiça no Juizado supramencionado, será buscado evidenciar o que consiste o verdadeiro Acesso à Justiça, o acesso à justiça através dos JEC’s e a (in)eficiência dos Juizados Especiais Cíveis a partir de uma observação empírica através de estudos observacionais do Primeiro Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim ES.

3 PROBLEMA

Os Juizados especiais cíveis foram criados como uma das respostas as ondas renovatórias de acesso à justiça de Mauro Cappelletti, que evidenciaram a falência e precariedade do acesso à justiça pelos menos favorecidos e cidadãos com falta de representação, o principal objetivo é atender a população carente dando-os acesso à justiça de qualidade, aliado ao Juizado especial encontra-se uma ferramenta muito útil e eficaz ao acesso à justiça, que é a conciliação, está é um método de tratamento de

lide, ao se falar de acesso a justiça, permitindo que as partes formulem um acordo e não uma decisão que beneficia apenas uma parte, com a conciliação se tem uma construção de uma solução e todos saem ganhado, o legislador brasileiro uniu a conciliação uma forma extrajudicial de tratamento de lide com o Juizado Especial que tem como objetivo a ampliação do acesso à justiça, entretanto nota-se que existem problemas na questão supramencionada: No juizado especial existe acesso à justiça como foi o planejado ou acesso ao judiciário? A conciliação é um importante meio de solução de conflito e foi aliado ao Juizado Especial, mas será que a conciliação está sendo utilizada de maneira efetiva e correta ou “pro-forma”?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar a situação do Acesso à Justiça no Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim ES, verificar ainda uma possível falência do mesmo.

4.2 Objetivos específicos

Apontar

o

verdadeiro

 

conceito

de

acesso

à

justiça;

 

Diferenciar

o

acesso

à

justiça

de

acesso

ao

judiciário comumente confundido pelo homem médio;

Analisar se conciliação no JEC’s esta sendo

utilizada de maneira correta ou apenas na maneira

pro-forma;

Examinar o 1º Juizado Especial Cível de

Cachoeiro de Itapemirim ES e verificar se ocorre a (in)eficiência.

5 HIPÓTESES

É fato que o Juizado Especial esta abarrotado

fazendo com que mens legis da lei 9.099/95 não seja

materializada na pratica, sobre tudo com o desvirtuamento do instituto da conciliação, o que

tende a resumir esse a mais uma fase processual, frustrando a possibilidade de autonomia das partes em se conscientizar e administrar maduramente seus problemas.

A falha do conciliador resultante do excesso de

demanda que o 1º Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim ES tem, fazendo com que esse atue de maneira pro-forma entregando ao cidadão números e não resultados, o que tende a descontruir a concepção originaria do conciliador como um agente que auxiliaria na cidadania emancipatória do individuo.

6 JUSTIFICATIVA

O estudo do 1º Juizado Especial Cível é de suma importância para a comunidade jurídica, tendo em vista que, o instituto criado em 1995 visava a ampliação da viabilidade do acesso à justiça. Com o prosseguir dos tempos verifica-se que a aplicação dos conceitos e ferramentas necessárias para a efetivação de tal instituto vem sendo

negligenciada. Tal fato faz com que o juizado seja diariamente bombardeado com inúmeras demandas, que muitas das vezes são apreciadas por profissionais despreparados, que buscam apenas a produção de números. Deste modo, a apreciação da demanda de forma que seja efetivado o acesso à justiça propriamente dito dá lugar à figura do acesso ao poder judiciário, desvirtuando assim um direito fundamental e inerente à prerrogativa dos cidadãos.

7 REVISÃO DE LITERATURA

O estudo em questão já é tema de vários pesquisadores do mundo jurídico, que discorrem sobre o tema com grande maestria. Acerca do assunto pode- se destacar Mauro Cappelletti e Bryant Garth 76 que trilharam os primeiros passos para a conquista da efetivação do acesso à justiça em um brilhante projeto denominado florence project, que mostrou para o mundo como olhar as questões que impediam o acesso

76 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. NORTHFLEET, Ellen Gracie (trad.). Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 1988, passim.

à justiça a varias camadas da sociedade, cerceando assim um direito tão fundamental quanto os outros, tendo em vista que, o não conseguir o acesso à justiça culmina no cerceamento de um direito. Nessa toada Cappelletti e Garth desenvolveram três teorias que ajudaram a caracterizar e implementar o acesso à justiça, que são as famosas ondas renovatórias de acesso à justiça. Em breve analise as ondas renovatórias de acesso à justiça de Cappelletti e Garth consiste em, o acesso à justiça garantido aos pobres quebrando barreiras financeiras; na segunda onda caracterizada por implementação de esforços com o fim de garantir o acesso à justiça a direitos difusos que são de difícil defesa na esfera judicial, tendo em vista o caráter individual das tradicionais demandas; e por fim a terceira onda renovatória de acesso à justiça caracterizada pela defesa de meios alternativos de resolução de conflitos. Caracterizado o que consiste o acesso à justiça propriamente dito, é necessário fazer menção do que consiste o acesso ao poder judiciário, que é

normalmente confundido pelo homem médio quando analisa a questão da justiça. Nesse limiar cabe destacar o pronunciamento de Luiz Rodrigues Wambier, Flávio Renato Correia de Almeida e Eduardo Talamini que diz:

apenas

assegurar o acesso, o ingresso, ao controle jurisdicional. Os mecanismos processuais (i.e., os procedimentos, os meios instrutórios, as eficácias das decisões, os meios executivos) devem ser aptos a propiciar decisões justas, tempestivas e úteis aos jurisdicionados assegurando-se concretamente os bens jurídicos devidos àquele que tem razão 77 .

(grifo nosso)

[

]

não

se

trata

[

]

de

Em linhas correlatas será abordado a visão de Jürgen Habermas que demonstrará como foi o desenvolvimento da sociedade em relação a busca da resolução dos conflitos através do Estado. Em breve

77 WAMBIER, Luiz Rodrigues; ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo civil:

teoria geral do processo e processo do conhecimento. v. 1, 8 ed., rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p. 68.

síntese Jürgen Habermas 78 aponta para as barreiras estruturais do poder que surge no interior da esfera pública, e posteriormente diz sobre um paradigma que o existente no direito, que consiste em, conseguir ou não a materialização da igualdade de fato e a de direito, ou seja, entregar ao cidadão o que lhe é conferido pela lei no mundo real. Sendo assim, após analise de duas correntes definidoras, qual seja, a teoria de acesso à justiça e a visão de Habermas em relação a estruturação do Estado, uma das hipóteses a se chegar seria que, o acesso justiça consiste muito mais em entregar ao cidadão uma prestação jurisdicional efetiva do que dar-lhe apenas o direito de acessar o poder judiciário. Prosseguindo, nesse contexto, Kazuo Watanabe 79 menciona que a cultura do brasileiro está baseada na solução adjudicada dos conflitos, ou seja,

78 HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: Entre factilidade e validade. SIEBENEICHLER, Flávio Beno (trad.). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997, passim. 79 WATANABE, Kazuo. Política Pública do Poder Judiciário Nacional pra tratamento adequado dos conflitos de interesses. Disponível em : <http://www.cnj.jus.br>. Acesso em 22 jun. 2015.

baseada na resolução do conflito por meio da sentença judicial, que na maioria das vezes congestiona e atrapalha a prestação jurisdicional do Estado, sendo assim, necessária uma transformação social com a mudança de mentalidade da população. O ativismo judicial provocado pela cultura adjudicada abre espaço para a prestação da justiça de uma maneira pura e simplesmente formal, dando inicio assim ao terceiro ponto central do estudo, a forma de atuação do Estado no Juizado Especiais Cível com especial enfoque na Comarca de Cachoeiro de Itapemirim ES. Leslie Sherida Ferraz 80 aponta no mesmo sentido de Kazuo Watanabe, demonstrando que a mentalidade dos juízes envolvidos no sistema do Juizados Especiais Cíveis são cômodas, inexistindo números de juízes vocacionados que normalmente tem uma mentalidade diversa da realidade brasileira atual, que apenas espera a lide chegar e sentencia sem grande conhecimento da questão, ao invés de trata-la

80 FERRAZ, Leslie Shérida. Acesso à Justiça: Uma análise dos Juizados Especiais Cíveis no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p. 59.

como é aconselhável, aplicando como mencionado por Watanabe a cultura da sentença. Nesse contexto o trabalho evolui para a compreensão e observação da atuação do 1º Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim, onde será feito através de pesquisa observacional o diagnostico do instituto, buscando correlacionar a realidade fática com a realidade bibliográfica mencionada que rodeia a questão do acesso à justiça, verificar-se-á como a Lei 9.099 de 26 de setembro de 1995 81 está sendo aplicada, principalmente em relação ao disposto no art. 2º da lei, que visa a prestação jurisdicional de maneira oral, simples, informal, econômica e principalmente célere e consequentemente a atuação do principal envolvido na resolução do conflito no Juizado Especial que é o conciliador.

81 BRASIL. Lei nº 9.099 de Setembro de 1995. Dispõe sobre os

Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências.

Disponível

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm>. Acesso em 19 jun. 2015

em:

8 METODOLOGIA

Em um primeiro momento será feito a analise e levantamento de danos fornecidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que disponibiliza para a sociedade os números da justiça no Brasil, demonstrando a quantidade de demandas apreciadas e o quantitativo de decisões proferidas pelo Juizado, ou seja, a carga processual que o sistema tem e consequentemente sua atuação para o fomento do acesso à justiça do 1º Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim. Tais dados serão coletados e posteriormente será feito a elaboração de gráficos. Posteriormente será feito uma observação do 1º Juizado Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim ES, com o intuito de caracterização do campo de estudo da pesquisa, assim como, também, observar a atuação das pessoas envolvidas no processo, como sua atuação na resolução da lide, com o intuito de observar se o Estado (leia-se conciliador), age de forma correta na construção do acesso à justiça,

ou é feito apenas uma apreciação formal da lide. Está

etapa irá se perfazer até o final de estudo.

Prosseguindo com a pesquisa será feito o

estudo bibliográfico do tema escolhido, destacando os

pontos cruciais como a caminhada histórica do

instituto até sua afirmação, construção legislativa

acerca do tema, base doutrinaria como o intuito de

demonstrar o campo de estudo escolhido.

Ao final serão trazidas as possíveis

conclusões acerca do tema, como se o conciliador age

de maneira correta assim como a Lei de Juizados

Especiais exige, as eventuais consequências de uma

má utilização do instituto e a (in)eficiência do Juizado

Especial Cível de Cachoeiro de Itapemirim ES em

relação a sua efetivação do acesso à justiça no Brasil.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm>.

Acesso em: 06 mai. 2015.

CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. NORTHFLEET, Ellen Gracie (trad.). Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 1988.

FERRAZ, Leslie Shérida. Acesso à Justiça: Uma análise dos Juizados Especiais Cíveis no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.

FONTAINHA, Fernando de Castro. Acesso à Justiça: da Contribuição de Mauro Cappelletti à Realidade Brasileira. Rio de Janeiro RJ: Lumem Juris Editora, 2009.

HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: Entre factilidade e validade. v. 2. SIEBENEICHLER, Flávio Beno (trad.). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.

MATTOS, Fernando Pagani. Acesso à Justiça: Um princípio em busca de efetivação. Curitiba: Editora Juruá, 2011.

WAMBIER, Luiz Rodrigues; ALMEIDA, Flávio Renato Correia de; TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo civil: teoria geral do processo e processo do conhecimento. v. 1, 8 ed., rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006

MOROSIDADE PROCESSUAL COMO ENTRAVE AO ACESSO À JUSTIÇA NA REGIÃO SUL- CAPIXABA: UM MAPEAMENTO DAS MAZELAS ENCONTRADAS NAS COMARCAS DE VARGEM ALTA, ICONHA E RIO NOVO DO SUL.

1 INTRODUÇÃO:

Edimar Pedruzzi Pizetta 82

A prestação jurisdicional no Brasil vem caracterizando-se por ser pouca efetiva, sendo incapaz de satisfazer as pretensões sociais cada vez mais complexas, deixando claramente que a estrutura do poder judiciário não acompanhou as mudanças sociais ocorridas nos últimos 40 anos, alavancadas principalmente por uma Constituição Cidadã e uma sociedade com avanço intelectual. Baseando-se nessa problemática vivenciada por todos brasileiros, o presente projeto de pesquisa busca trabalhar de forma

82 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro

E-mail:

edimarpizetta@hotmail.com

Universitário

São

Camilo-ES.

objetiva pontos ligados a esse déficit jurisdicional do sistema jurídico brasileiro. O estudo, por sua vez, divide-se em dois momentos, sendo o primeiro baseado em um apanhado teórico onde o objetivo concentra-se em apresenta posições doutrinarias decorrentes do que passa a ser acesso à justiça. Nesta faze, doutrinadores como Mauro Cappellette e Garth, Bryant, por meio de sua obra Acesso à Justiça, possibilita um estudo aprofundado a respeito das ondas de acesso à justiça. No mesmo sentido visando agregar maior conhecimento doutrinário, trabalham-se as ondas de jurificação de Jurgen Habermas, por meio do qual, busca-se demonstra a abrangência cada vez mais crescente do poder judiciário nas matérias legislativa e executiva, colocando-se dessa forma o Judiciário como superego da sociedade. Por sua vez, o segundo momento relata dados da prestação jurisdicional dos anos de 2011 a 2013 das Comarcas de Vargem Alta, Iconha e Rio Novo do Sul. Dados esses apresentados via tabelas e gráficos sendo todos apresentados conforme os

relatórios apresentados pelo Conselho Nacional de Justiça CNJ, como também as principais mazelas enfrentadas na prestação jurisdicional nas referidas Comarcas interioranas. Ao final, com o objetivo de trazer a realidade enfrentada por esses jurisdicionados interioranos, será realizado uma pesquisa campal, abrangendo um por cento da população de cada município pesquisado, buscando principalmente obter a visão desse jurisdicionados frente ao trabalho apresentado pelo judiciário.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

Decorrente do quadro atual de baixa efetividade da entrega jurisdicional em todo o país, onde ao final de uma demanda oferecida ao Poder jurídico, quase sempre todos os envolvidos podem apontar algum tipo de perca extra causa proporcionado quase sempre pelo efeito da delonga processual, ensejou-se apresentar qual é a real jurisdição prestada nas comarcas de pequeno porte do sul do Estado do Espirito Santo supracitadas.

Assim, o tema do presente projeto passa por apresenta de forma objetiva as principais barreiras do sistema jurisdicional, com o título: Morosidade Processual Como Entrave ao Acesso à Justiça na Região Sul-Capixaba: Um Mapeamento Das Mazelas Encontradas Nas Comarcas de Vargem Alta, Iconha e Rio Novo do Sul.

3 PROBLEMA

Com efeito, o Estado tomou para si o poder decisório dos litígios, visando prevenir que a sociedade busque a resolução dos conflitos via autotutela, garantindo a todos o direito de pleitear a prestação jurisdicional estatal. Portanto não cabe ao Estado ser somente detentor do monopólio de resolução dos conflitos, mas propor meios que sejam capazes de assegurar os princípios constitucionais, como: devido processo legal, razoável duração do processo, visando assim atingir de forma positiva o princípio da dignidade da pessoa humana.

Tratando especificamente das comarcas interioranas citadas, levanta-se as seguintes questões: qual é a real situação vivenciada pelos jurisdicionado frente a prestação jurisdicional aplicada nas comarcas supra elencadas? Há o cumprimento dos princípios constitucionais e o nível dessa prestação se iguala a de um grande centro?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar a prestação jurisdicional e a promoção de acesso à justiça em municípios enquadrados, na administração do Poder judiciário do Estado do Espirito Santo, como comarcas de vara únicas, partindo como base de estudos os municípios de Vargem Alta, Iconha e Rio Novo do Sul, ambos localizados na região sul-capixaba.

4.2 Objetivo especifico:

Analisar, via estudos das ondas de acesso à

justiça de Mauro Cappellette, a construção histórica do direito fundamental de acesso à justiça.

Analisar por meio das ondas de juridificação de Jurgen Habermas, o entendimento do fenômeno de juridificação.

Pesquisar os motivos impulsionadores do

fortalecimento do poder judiciário perante a sociedade e o fomento do demandismo judicial.

Analisar a atuação da prestação jurisdicional

nas comarcas de Vargem Alta, Iconha e rio Novo do

Sul.

5 HIPÓTESES

Tornar-se-á possível, apontar a desigualdade da

prestação jurisdicional entre as comarcas de grande e

médio porte em face das interioranas, visto que as primeiras dispõem de maiores recursos humanos e físicos, e em contra partida as menores estudas, dispõe de uma impermanência do magistrado e ineficiência estrutural.

Decorrente dos levantamentos quantitativos e

qualitativos, permitirá demonstrar de forma clara a visão da população local, fazendo-se assim necessário

uma reestruturação do sistema, sucumbindo toda burocratização desnecessária.

6 JUSTIFICATIVA

A promoção do acesso à justiça é, sem sombra de dúvida, o principal objetivo a ser trabalhado e alcançado pelo Poder Judiciário. Porém, infelizmente não se trata de um trabalho simples o provimento de justiça em seu sentido real da palavra, mas de um trabalho conjunto dos poderes estatais embasados na formulação de políticas de inclusão e efetivação dos direitos, principalmente direcionadas a

atender a população mais carente, buscando assim, a superar os óbices existentes no sistema atual que resulta em um crescimento do número dos processos que se arrasta pelos anos. Quando o olhar é direcionado a nível de Brasil, os desafios à efetivação do pleno acesso à justiça torna-se mais robustos, principalmente pela sua grandeza territorial, conjuntamente com as grades e profundas disparidades sociais. Como não se basta tudo isso, ocorre entre a classe dos magistrados a busca de maior representação, sendo assim as grandes comarcas as mais visadas pelos mesmos, ficando a mercê de titulares as comarcas de menor porte, que por sinal já convivem com problemas estruturais físicos e humanos. Tratando do Estado do Espírito Santo, ocorre um agravamento ainda maior no cenário da prestação da jurisdição estatal, onde as disparidades são gritantes entre as comarcas de maiores representatividade como da região metropolitana de Vitória, juntamente com as de médio porte como de São Mateus, quando comparadas com as muitas

comarcas interioranas maioria no Estado. Pois o que se ver, é uma má divisão dos bens físicos e humanos na justiça capixaba, onde um número pequeno de comarca desfruta de estrutura e magistrado inexistente na grande maioria das demais comarcas do Estado do Espírito Santo. Assim, o presente projeto busca edificar um mapeamento regional de acesso à justiça, apresentando as principais dificuldades encontradas, mazelas observadas e os possíveis mecanismos aplicados ou de possível aplicação, visando a mudança desse quadro, principalmente nos municípios pequenos que sofrem de forma direta com a centralização de políticas voltadas para atender os grandes centros. Sendo ainda possível, mediante os levantamentos dos dados quantitativos, o estudo e desenvolvimento de instrumentos e condutas que objetivem assegura de maneira efetiva o acesso ao Poder judiciário, notadamente direcionado a uma prestação jurisdicional proveitosa e com resultados positivos, permitindo a concretização dos direitos constitucionais.

7 REVISÃO DE LITERATURA:

Para a elaboração desse trabalho acadêmico, ocorrerá a utilização de doutrinas de nobres estudiosos, os quais dedicaram e ainda dedicam seu valioso tempo para debruçassem sobre o tema acesso à justiça, como também a apresentação de construções normativa do direito pátrio. Portanto, é notável que, o acesso à justiça tem como marca ser propulsor de fortes debates no

universo jurídico. Não obstante, devido à importância

desse direito, a Constituição da República Federativa

do Brasil de 1988, reservou em seu artigo 5º, inciso

XXXV 83 , o princípio da inafastabilidade da jurisdição,

o qual assegura a todos brasileiros, independente dos aspectos diferenciadores existentes, o direito de ser propositor de uma demanda judicial, e mais que isso,

83 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 25 fev. 2015. Artigo 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [omissis] XXXV- a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;

que tenha a tutela jurisdicional prestada em um período razoável, observando-se, obviamente, as peculiaridades inerentes às situações concretas. Cappelletti e Garth 84 , afirma que acesso à justiça não pode ser entendido como um direito material positivado apenas. Ao reverso, requer a estruturação de uma ótica mais robusta, compreendendo aquele como o mais ilustre dos direitos e materializando uma fonte insanável de lutas por uma igualdade capaz de abranger um todo, sendo este o requisito fundamental de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos. Para Antônio Carlos de Araújo Cintra, Ada Pellegrini Grinover e Candido Rangel Dinamarco 85 , entendendo o acesso à justiça como princípio elementar, explicitam quatro momentos interdependentes de promoção. O primeiro momento está calcado no ideário de ofertar a mais ampla

84 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Ellen Gracie Northfleet (trad.). Porto Alegre: Fabris, 1988, p. 12. 85 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo, GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23 ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2007, p 40.

admissão de pessoas e causas ao processo, na medida em que promove a universalidade de jurisdição. O segundo momento debruça-se em garantir a todas as causas, tanto cível quanto criminal, a observância dos regramentos que materializam o devido processo legal. Em íntima relação, o terceiro momento preconiza a intensa participação das partes processuais no convencimento do juiz que irá julgar a causa, exercendo o princípio do contraditório. Por derradeiro, as partes podem exigir do juiz a efetividade de uma participação em diálogo, objetivando preparar uma solução que seja justa, apta a eliminar todo resíduo de insatisfação. Cappelletti e Garth 86 , buscando demonstrar os obstáculos dos altos custo e a capacidade das partes em suporta-los descreve que pessoas ou organizações que possuam recursos financeiros consideráveis a serem utilizados têm vantagens óbvias ao propor ou defender demandas. Em primeiro lugar, elas podem pagar para litigar. Podem, além disso, suporta as delongas do litígio. Cada uma dessas capacidades, em

86 CAPPELLETTI; GARTH, 1988, p. 21.

mãos de uma única das partes, pode ser uma arma poderosa; a ameaça de litígio torna-se tanto plausível quanto efetiva. Carlos Alberto Álvaro de Oliveira 87 , trabalhando sobre a carga de formalismo que recai nos atos do judiciário alerta que, como não fosse bastasse a questão natural das diferenças processuais, o excesso de formalismo tornou o procedimento burocrático, sendo Infelizmente parte da cultura processualística brasileira. Portanto, a crítica se faz referente ao excesso, pois conforme entendimento, o formalismo utilizado na medida correta na ótica processualista transforma-se em uma barreira ao arbítrio das entidades que exercem o poder do Estado. O desafio encontra-se na quebra do formalismo desnecessário, pois a partir desse passo, buscar-se-á uma justiça capaz de resolver os litígios de forma mais objetiva, tendo como caminho para essa pretensão, uma releitura dos procedimentos judiciais, visando sempre manter a segurança jurídica, mas abrindo novos

87 OLIVEIRA, Carlos Alberto Álvaro de. Do Formalismo do Processo Civil. 2 ed.São Paulo: Saraiva. 2009, p. 08.

caminhos para uma justiça célere e próxima da sociedade.

Vinícius Romanini 88 demonstra de forma clara a rotatividade dos magistrados nas comarcas de pequeno porte descrevendo que, atrelado ao número reduzido de magistrados, encontra-se o rodizio desses profissionais, buscando desenvolver seus trabalhos nas comarcas dos grandes centros, por proporcionar maior visibilidade e encontra-se próximo a suas residências e familiares. Buscando garantir acesso à justiça a parcela mais pobre da população brasileira a Lei 1060/50 89 veio inovar o sistema judiciário brasileiro derrubando a barreira econômica, fazendo chega a jurisdição estatal a brasileiros que infelizmente ainda hoje não são capazes de suporta as custa de sua família, muito menos os ônus de um processo judicial.

88 ROMANINI, Vinícius. Justiça. Revista Super Interessante,

em:

<http://super.abril.com.br/ciencia/justica-442839.shtml>. Acesso

23 mar. 2015, s.p.

89 BRASIL. Lei nº 1060 de 05 de fevereiro de 1950. Dispõe

em:

sobre

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/7.347.htm>. Acesso em:

02 mar. 2015.

abr.

2002.

Disponível

a

concessão

da

justiça

gratuita.

Disponível

8 METODOLOGIA

O trabalho acadêmico será realizado por meio de análise de bibliografias de bases jurídicas, bem como das construções normativas pertinentes, sendo selecionadas a atender o propósito da problemática trabalhada, buscando sempre que possível ver seu enquadramento na realidade das comarcas interioranas capixabas por meio da pesquisa de campo a qual será aplicada especialmente nos fóruns dos municípios de Vargem Alta, Iconha e Rio Novo do Sul. Sendo concluído este levantamento, em um segundo momento da pesquisa ocorrerá apreciação da opinião local da prestação jurisdicional por meio de uma entrevista a sociedade local.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. 39. Ed. São Paulo: Rideel, 2012.

Lei Nº 1060/50, de 05 de fevereiro de 1950. Estabelece normas para a concessão de assistência

judiciária aos necessitados. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l1060.htm>.

Acesso em: 23 mai. 2015.

CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Ellen Gracie Northfleet (trad.). Porto Alegre:

Fabris.

CINTRA, Antônio Carlos de Araújo, GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23 ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2007.

OLIVEIRA, Carlos Alberto Álvaro de. Do Formalismo do Processo Civil. 2 ed.São Paulo:

Saraiva. 2009.

ROMANINI, Vinícius. Justiça. Revista Super Interessante, abr. 2002. Disponível em:

<http://super.abril.com.br/ciencia/justica-

442839.shtml>. Acesso 23 mar. 2015.

O DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA E O INCENTIVO A AGRICULTURA FAMILIAR NO CULTIVO DE PRODUTOS ORGÂNICOS NO MUNICÍPIO DE MUNIZ FREIRE, ESPÍRITO SANTO

1 INTRODUÇÃO

Flávia Cassa Cabanez 90

A alimentação é parte natural e fundamental da vida humana, dela depende a vida. Garantir que todas as pessoas tenham acesso a uma alimentação adequada, envolve não só ter o que comer, mas ter qualidade e quantidade suficiente para uma alimentação saudável. O Projeto de Pesquisa e o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “O Direito Humano à Alimentação Adequada e o Incentivo a Agricultura Familiar no Cultivo de Produtos Orgânicos no Município de Muniz Freire, Espírito Santo.”, faz uma

90 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: flaviacassa@hotmail.com

revisão bibliográfica sobre o Direito Humano à Alimentação Adequada e pretende analisar sua implantação no Município de Muniz Freire-ES, visando, por meio de uma pesquisa de campo, relatar a melhoria de vida da população relacionada ao acesso à alimentação adequada.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

O Direito Humano à Alimentação Adequada

e o Incentivo a Agricultura Familiar no Cultivo de Produtos Orgânicos no Município de Muniz Freire,

Espírito Santo.

3 PROBLEMA

A Constituição Federal de 1988 91 traz como

um “superprincípio”, a dignidade da pessoa humana,

que deve ser sempre observado para reconhecer, em cada ser humano, seu merecimento ao respeito e

91 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 02 jun. 2015.

consideração por parte do Estado e da comunidade, e, assim, tenha seus direitos e deveres garantidos a fim de que possua as condições mínimas existenciais para uma vida saudável e para que se torne autor de seu próprio destino 92 . O artigo 6º da Constituição Federal de 1988 93 estabelece como um direito social, entre outros, o Direito Humano e Fundamental à Alimentação. Ocorre que, com a evolução das sociedades, o modo de produção capitalista associado ao aumento da população urbana, a falta de incentivos à produção agrícola, às mudanças climáticas, dentre tantos outros fatores, contribuíram para a escassez de alimentos, principalmente, de alimentos com qualidade. Essa escassez acabou por afetar, drasticamente às populações mais pobres. 94

92 MORAIS, Alexandre de. Direito Constitucional. 26.ed. São Paulo: Atlas, 2010.

93 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 02 jun. 2015.

94 BELIK, Walter. Perspectivas para a segurança alimentar e nutricional no Brasil. Saúde e Sociedade. 2013, n. 1, Jan.-Jun. 2003. Disponível em:<http://www.scielo.br>. Acesso em 02 Jun.

2015.

A alimentação é uma necessidade fisiológica do ser humano, e, portanto inerente à vida. O Estado tem o dever de garantir que todos tenham acesso à Alimentação adequada, de qualidade e quantidade suficientes ao seu bem estar, uma vez, que é assim estabelecido pela Lei 11.346/2006:

Art. 2 o A alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população. § 1 o A adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as dimensões ambientais, culturais, econômicas, regionais e sociais. § 2 o É dever do poder público respeitar, proteger, promover, prover, informar, monitorar, fiscalizar e avaliar a realização do direito humano à alimentação adequada, bem como garantir os mecanismos para sua exigibilidade 95 .

95 BRASIL. Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 07 mai. 2015.

Nesse diapasão, a agricultura familiar representa um instrumento relevante para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada, uma vez que está intimamente ligado ao abastecimento de alimentos e, através da venda dos alimentos produzidos, o pequeno produtor adquirirá renda, contribuindo para o desenvolvimento social. Ao reconhecer a importância da agricultura familiar, o Governo Federal vêm desenvolvendo vários programas, como por exemplo, o PRONAF, com o intuito de fornecer o incentivo necessário para sua existência.

Nas duas últimas décadas a expressão “agricultura familiar” se consolidou no contexto econômico e social brasileiro. Em grande medida, esse processo representa a conjunção da luta política dos movimentos sociais rurais capitaneados pelas organizações dos agricultores familiares em prol de uma política pública específica para este setor; a própria legitimação desta bandeira de lutas por parte do Estado quando criou o PRONAF em 1996 e, mais recentemente, quando promulgou a Lei da Agricultura Familiar (2006); e a retomada dos estudos e debates acadêmicos com distintos olhares sobre a ruralidade brasileira, fato que auxiliou

na ampliação do escopo temático tradicional. É justamente esta forma de produção que se encontra em evidência atualmente no meio rural brasileiro, ao agregar famílias, propriedades agrícolas, trabalho na terra, ao mesmo tempo em que se cultuam valores e tradições. Isto tudo conforma uma grande diversidade econômica, social e cultural que dinamiza os processos sociais rurais. 96

O que se pretende responder com o presente trabalho é se o Município de Muniz Freire garante aos seus habitantes o acesso à alimentação adequada?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar se o Município de Muniz Freire incentiva, através de políticas públicas, a agricultura familiar e o cultivo de produtos orgânicos, e, se garante o acesso à alimentação adequada aos seus habitantes.

96 MATTEI, Lauro. O Papel e a Importância da Agricultura Familiar no Desenvolvimento Rural Brasileiro Contemporâneo. Rev. Econ., 2014. Abr.-Mai. 2014. Disponível em:<http://www.bnb.gov.br> Acesso em 19 Jun. 2015.

4.2 Objetivos específicos

Explanar

Alimentação Adequada, seu surgimento e aplicação no Brasil.

à

sobre

o

Direito

Humano

Dissertar sobre a Lei Orgânica de Segurança

Alimentar e Nutricional LOSAN, como elemento de promoção da Segurança Alimentar e Nutricional, por meio de Políticas Públicas.

Relatar qual o papel desempenhado pelo

pequeno agricultor no desenvolvimento da segurança

alimentar e nutricional.

Analisar, no Município de Muniz Freire-ES, a

existência e a eficiência das políticas públicas garantidoras da Segurança Alimentar e Nutricional.

5 HIPÓTESES

O Município de Muniz Freire estabeleceu

projetos de desenvolvimento, inserindo políticas públicas que incentivam a agricultura familiar, inclusive com a produção de orgânicos, e, que, através

destes projetos, todas as famílias têm acesso a alimentação adequada, bem como há incentivo para que a população crie hábitos saudáveis de alimentação, que vem trazendo bons resultados.

Apesar de o Município desenvolver projetos

para incentivar a agricultura familiar e o cultivo de

produtos orgânicos, o acesso à alimentação adequada ainda encontra obstáculos, pois os mencionados projetos são insuficientes para criar na população o hábito em consumir produtos saudáveis.

O Município não se preocupa em desenvolver

projetos para tornar viável o acesso da população à alimentação adequada, somente desenvolve os programas já criados pelo Poder Público Federal, que,

acredita ser o suficiente para garantir que a população tenha acesso à alimentação adequada.

6 JUSTIFICATIVA

Toda pessoa tem direito a uma vida digna, onde lhe seja assegurada saúde e bem-estar. Porém, muitas pessoas ao redor do mundo vivem com algum grau de insegurança alimentar, ou seja, não têm acesso à alimentação em qualidade, quantidade e regularidade necessárias. Algumas pessoas chegando a passar ou estar na iminência de passar fome. O combate à fome não se resolve apenas com a doação de alimentos, mas é necessário se criar mecanismos para que a fome seja erradicada de uma vez por todas, a fim de que ninguém mais passe pela experiência de não ter o que comer. Para tanto é preciso garantir que as famílias que se encontram nessa situação tenham trabalho, renda, educação e lazer, para que não se tornem dependentes de doações, mas que possam ter uma vida digna.

Segundo Comparato 97 a responsabilidade primordial de criar condições nacionais e internacionais favoráveis à realização do direito ao desenvolvimento é de todos os Estados, que devem tomar atitudes que assegurem a igualdade de oportunidades a todos, tornando acessíveis os recursos básicos à educação, aos serviços de saúde, à alimentação, ao emprego e, promovendo uma justa distribuição de renda. O Município de Muniz Freire está localizado no Sul do Estado do Espírito Santo, há 169 km da Capital, Vitória 98 . É um pequeno Município brasileiro, com área de 679.323 km² e população estimada em 2014 em 18.994 habitantes 99 , tendo como principal atividade econômica a cultura de café 100 . É extremamente importante para toda a população

97 COMPARATO, Fabio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2015.

98 MUNIZ FREIRE. Prefeitura Municipal de Muniz Freire Estado do Espírito Santo. Disponível em:

<http://munizfreire.es.gov.br>. Acesso em 23 Jun. 2015.

99 IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em:<http://www.cidades.ibge.gov.br> Acesso em 23 Jun. 2015. 100 MUNIZ FREIRE. Prefeitura Municipal de Muniz Freire Estado do Espírito Santo. Disponível em:

<http://munizfreire.es.gov.br >. Acesso em 23 Jun. 2015.

muniz-freirense o fortalecimento da agricultura familiar, uma vez que, a atividade agrícola representa fonte de renda para os agricultores e, garante à população o acesso a alimentos saudáveis. O presente Trabalho de Conclusão de Curso se justifica pela necessidade de garantir à população o acesso a uma alimentação adequada, de modo que todos vivam dignamente, sendo que o Município é parte inteiramente responsável para que esta garantia se efetue.

7 REVISÃO DE LITERATURA

O Trabalho de Conclusão de Curso está embasado no pensamento de vários estudiosos das áreas do Direito Humano e do Direito Ambiental, cujas doutrinas nos ensinam a respeito do Direito Humano à Alimentação Adequada. Está fundamentado, também, em artigos científicos e em leis específicas relativas ao tema proposto. Piovesan relata que,

O processo de universalização dos

direitos humanos permitiu a formação de um sistema internacional de proteção

destes direitos. Este sistema é integrado

por tratados internacionais de proteção

que refletem, sobretudo, a consciência ética contemporânea compartilhada pelos Estados, na medida em que invocam o consenso internacional acerca de temas centrais aos direitos humanos, na busca da salvaguarda de parâmetros protetivos mínimos - do “mínimo ético irredutível. 101

Assim, internacionalmente, o Direito a Alimentação, embora seja clara sua relevância para a vida humana, só passou a ser visto como um direito a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos,

que traz em seu artigo XXV: “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação,

vestuário, habitação [ ]”

102

.

101 PIOVESAN, Flávia. Ações afirmativas e direitos humanos. Revista USP, 2006. n. 69, Mar.-Mai. 2006. Disponível em:

<http://www.usp.br>. Acesso em 23 jun. 2015.

102 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Resolução 217 A (III). Assembleia Geral das Nações Unidas, 10 de dezembro de 1948. Genebra: ONU; 1948. Disponível em: <http://www.dudh.org.br> Acesso em 17 jun. 2015

Contudo, no Brasil, somente após a Emenda Constitucional nº. 64 de 2010, o artigo 6º da Constituição Federal de 1988, incorporou em seu texto o Direito à Alimentação, passando a ter a seguinte redação:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. 103

Destarte, foi inserido no ordenamento pátrio o Direito Humano à Alimentação Adequada, passando a ser exigível que cada pessoa tenha o mínimo de segurança alimentar. No pensamento de Almeida 104 , a segurança alimentar se traduz no acesso a alimentos seguros, ou seja, não contaminados

103 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.ht

m>. Acesso em 02 jun. 2015. 104 ALMEIDA, Daniela Lima de. Alimentação adequada como direito fundamental: desafios para garantir a efetivação. Revista Internacional de Direito e Cidadania. 2010, n. 8, Out.-Out. 2010. Disponível em: <http://www.reid.org.br/arquivos/00000206- 05-danela_almeida.pdf>. Acesso em 16 Jun. 2015.

biológica ou quimicamente, que tenham qualidade nutricional, biológica, sanitária e tecnológica, e que tenham sido produzidos de forma sustentável, equilibrada e de maneira culturalmente aceitável, além de permitir a informação. A ideia de segurança Alimentar envolve muito mais que a fome, segundo Maya Takagi:

O conceito de segurança alimentar envolve pelo menos quatro dimensões. A primeira, que é mais visível, é a dimensão de quantidade. É necessário um consumo mínimo de calorias, proteínas e vitaminas para uma vida ativa e saudável. A segunda, não menos visível, é a dimensão da qualidade. A população deve ter acesso a alimentos nutritivos. A terceira dimensão é da regularidade: comer pelo menos três vezes por dia. É tomar café da manhã, almoço e jantar todos os dias. E uma quarta, não menos importante, é a dimensão da dignidade. Uma pessoa que se alimenta de restos de restaurantes ou de lixões não possui segurança alimentar, embora possa até não se enquadrar na categoria de subnutridos pelo critério biológico. A insegurança alimentar possui diversas facetas, todas bastante graves. Engloba aqueles que comem pouco por falta de renda; comem inadequadamente porque não ingerem os nutrientes necessários para uma vida saudável, embora possam até ingerir a

quantidade necessária de calorias e proteínas (muitos, especialmente crianças, podem ter doenças associadas

que impedem a absorção dos nutrientes);

e também os que comem

demasiadamente, necessitando de uma

reeducação alimentar. O problema da

fome crônica é o mais visível, o mais

premente. Afeta biologicamente e psicologicamente o indivíduo e suas gerações. O conceito de insegurança alimentar engloba-o, mas é mais amplo e

permite vislumbrar políticas preventivas

para evitar que as famílias cheguem a

tal estado. 105

Em nível nacional, o governo federal tem dado grandes incentivos e desenvolvido programas que visam a erradicação da pobreza, e, assim, a eliminação da fome no território brasileiro. Segundo Costa e Maluf 106 é de extrema importância que os Municípios também desenvolvam uma política de segurança

105 TAKAGI, Maya. Implantação da política de segurança alimentar no Brasil: seus limites e desafios. Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Economia da Unicamp para a obtenção do título de Doutor em Economia Aplicada, sob a orientação do Professor Doutor Walter Belik. Campinas, 2006 106 COSTA, Christiane e MALUF, Renato. Diretrizes para uma política municipal de segurança alimentar e nutricional. São Paulo: Pólis, 2001. Disponível em:<http://www.polis.org.br> Acesso em 17 jun. 2015.

alimentar, uma vez que devem ser levados em conta os hábitos culturais de cada região.

Assim, cabe às administrações municipais, individualmente ou agrupadas em consórcio, e às organizações sociais com atuação em âmbito local e regional, exercer um papel ativo na promoção do desenvolvimento

do próprio município e da região em que

estão inseridos, incorporando o objetivo da segurança alimentar entre os eixos ordenadores das iniciativas nesta direção. Particularmente promissoras

são as possibilidades oferecidas pelos municípios de pequeno e médio porte, ponto de destino de boa parte dos atuais fluxos migratórios. É nesses municípios, também, que são mais estreitos e mais evidentes os vínculos entre os espaços urbano e rural. 107

Para Costa e Maluf 108 ,

O apoio à agricultura de base familiar

deve levar em conta os dois tipos de relações por ela mantida com os mercados dos seus produtos. Ao lado de sua participação em cadeias agroalimentares integradas, nacional e internacionalmente controladas por agentes de grande porte (redes de

107 COSTA; MALUF, 2001, s.d.

108 Ibid.

supermercados e indústria alimentar), a agricultura familiar insere-se ou está na base de constituição de circuitos regionais de produção, distribuição e consumo de alimentos, que se organizam no âmbito dos centros urbanos antes referidos. Nesses circuitos, pequenos e médios agricultores articulam-se com um grande número de empreendimentos de pequeno e médio porte ligados à transformação, distribuição e consumo de produtos alimentares. Enquadram se neste caso diversos tipos de produtos como, por exemplo, embutidos de carne, farinhas, derivados lácteos, conservas e condimentos, frutas e hortaliças, pescados frescos, etc. 109

A agricultura familiar é um importante instrumento para garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada, além de permitir o desenvolvimento social das famílias envolvidas, e, por isso, o Município deve aprimorar e moldar os programas já desenvolvidos de forma a permitir que as famílias rurais se interessem e participem deles, para, produzindo seus alimentos de forma saudável, os insiram na alimentação de toda a população.

109 COSTA, MALUF, 2001, s.d.

Oliveira 110 enquadra o Estado como um dos atores principais para a proteção do Direito Humano à Alimentação Adequada, sendo sua principal contribuição a criação de políticas que melhorem o acesso a recursos destinados a produção ou aquisição, seleção e consumo de alimentos. Para tanto, é necessária a “implementação de políticas, programas e ações, que promovam a progressiva realização do direito humano à alimentação para todos, definindo claramente metas, prazos, indicadores, e recursos alocados para este fim.” 111 .

8 METODOLOGIA

Inicia-se a pesquisa por meio de revisão bibliográfica a respeito do tema, com a seleção de doutrinas e artigos científicos que exponham o

110 OLIVEIRA, Anelise Rizzolo de. A alimentação saudável e a promoção da saúde no contexto da segurança alimentar e nutricional. Saúde em Debate. Revista do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde. 2005, n. 70, mai.-ago. 2005. Disponível

em:<https://caemilioribas.files.wordpress.com/2009/09/a-

alimentac3a7c3a3o-saudc3a1vel-e-a-ps.pdf> Acesso em 18 Jun.

2015.

111 OLIVEIRA, 2005.

surgimento do Direito Humano à Alimentação

Adequada como direito fundamental e sua inserção no

ordenamento jurídico Brasileiro, explorando sua

importância para a garantia do princípio da Dignidade

Humana.

Na sequência, prossegue com a análise da

Lei de Segurança Alimentar e Nutricional,

comentando suas principais contribuições para que

haja concretamente a garantia do Direito Humano à

Alimentação Adequada.

Por fim, a realização de pesquisas por meio

de questionários respondidos pela população da cidade

de Muniz Freire-ES, para demonstrar a ciência sobre a

existência do Direito Humano à Alimentação

Adequada, sua importância e, principalmente, se o

Município o garante, por meio de políticas públicas, de

modo que sua população tenha livre acesso a

alimentos de qualidade e em quantidades suficientes.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Daniela Lima de. Alimentação adequada como direito fundamental: desafios para garantir a

efetivação. Revista Internacional de Direito e Cidadania. 2010, n. 8, Out.-Out. 2010. Disponível em:

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GAMBA, Juliane Caravieri Martins. MONTAL, Zelia Maria Cardoso. O Direito Humano à Alimentação Adequada: revisitando o pensamento de Josué de Castro. Revista Jurídica da Presidência. 2009, n. 95, Out.-Jan. 2009/2010. Disponível

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O PATRIMÔNIO HISTÓRICO TOMBADO DE MUQUI E A LEI DE ACESSIBILIDADE

1 INTRODUÇÃO

Naiara Benevenute 112

O Projeto de Pesquisa ora confeccionado visa esclarecer os procedimentos traçados na Lei 070/1999, que dispõe sobre o Tombamento do Patrimônio Histórico e Artístico do Município de Muqui e dá outras providências, sob a ótica do Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009 que promulga a Convenção Internacional sobre o direito das pessoas com deficiência e seu protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. A pesquisa permeará as áreas de Direito Constitucional, Administrativo e Ambiental, com foco na organização e proteção do patrimônio histórico e artístico nacional de forma a assegurar os critérios

112 Graduando do Nono Período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: nbenevenute@yahoo.com.br

básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. A problemática central da questão é como resguardar o patrimônio histórico e cultural de Muqui sem interferir nos Princípios Constitucionais Fundamentais dos cidadãos com mobilidade reduzida? O objetivo geral é analisar o Patrimônio Histórico Cultural Tombado de Muqui e as deficiências que tal instituto causa aos portadores de mobilidade reduzida, no aspecto ambiental constitucional e administrativo, de forma a encontrar suas máculas e possíveis soluções. Em seguida, passando pelos objetivos específicos, serão analisados o direito a cultura sob a vertente do direito ambiental constitucional; a Lei Municipal e Estadual do Tombamento de Muqui sob a ótica do Decreto de Acessibilidade; para ao final, abordar a aplicação dos institutos normativos aplicando a real atualidade do Município de Muqui, fazendo um paralelo entre as leis que tombaram o Município com o Decreto que versa sobre a

Acessibilidade, apontando as máculas, se houver, e possíveis soluções.

2 DELIMITAÇÃO DO TEMA

A indagação apresentada neste projeto abordará as áreas de Direito Constitucional, Direito Ambiental e Direito Administrativo, com foco na organização e proteção do patrimônio histórico e artístico nacional de forma a assegurar os critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. O trabalho tem por escopo demonstrar o verso e o anverso do patrimônio tombado de Muqui, para isso, serão analisadas as leis municipais e estaduais que instituíram o Tombamento de Muqui como Patrimônio Histórico bem como o Decreto de Acessibilidade, aplicando os dispositivos pertinentes.

3 PROBLEMA

De grande valor histórico, os cidadãos muquienses procuram preservar o contexto histórico que esses casarões representam, sendo que a maioria deles foi construída durante a época de ouro do café e contando a história de muitas famílias ainda residentes neste torrão. Contando hoje com cerca de duzentos casarões tombados pelo Estado, Muqui constitui um sítio histórico que engloba cerca de 60% do conjunto arquitetônico tombado pelo Estado. A problemática central desta pesquisa funda-se na seguinte questão: como resguardar o patrimônio histórico e cultural de Muqui sem interferir nos Princípios Constitucionais Fundamentais dos cidadãos com mobilidade reduzida?

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar o Patrimônio Histórico Cultural Tombado de Muqui e as deficiências que tal instituto causa aos portadores de mobilidade reduzida, no aspecto ambiental constitucional e administrativo, de forma a encontrar suas máculas e possíveis soluções.

4.2 Objetivos específicos

Analisar o direito a cultura sob a vertente do direito ambiental constitucional;

Analisar a Lei

Tombamento de Muqui;

Municipal

e

Estadual

do

Analisar o Decreto de Acessibilidade;

Abordar a aplicação dos institutos normativos

aplicando a real atualidade do Município de Muqui,

fazendo um paralelo entre as leis que tombaram o Município com o Decreto que versa sobre a Acessibilidade, apontando as máculas, se houver, e possíveis soluções.

5 HIPÓTESES

O Município de Muqui reclama por normas que

visem a implantação de meios para a uniformização das calçadas, construção de rampas de acesso bem como todos os meios garantir as pessoas com mobilidade reduzida a terem seus direitos constitucionalmente garantidos sem que isso interfira na estrutura arquitetônica.

Faz-se necessário uma ponderação para que a

intervenção do estado na propriedade em bens imóveis que são preservados por conta de suas particularidades arquitetônicas não se sobressaia ao direito fundamental à acessibilidade.

6 JUSTIFICATIVA

A ideia para a realização deste estudo veio de um atendimento realizado no Ministério Público Estadual do Município de Muqui, no qual uma pessoa com mobilidade reduzida procurou aquele Órgão a fim de solucionar um problema que já perdurava há vários anos. Em razão do município ser tombado, as calçadas não podem ser alteradas devido ao grande valor cultural que elas apresentam. Todavia, as mesmas calçadas apresentam um desnivelamento, ou seja, a maioria delas foram construídas de formas e materiais diferentes e, é por essa razão que as pessoas com mobilidade reduzida possuem grandes dificuldades de locomoção. O que mais chama atenção é que no Município de Muqui até então não tinha se dado conta do “prejuízo” do tombamento para essas pessoas que mesmo sendo minoria também possuem direitos a serem preservados. A justificativa deste projeto encontra fundamento na análise do da Lei 070 promulgada em 06 de outubro de 1999, que dispõe sobre o

Tombamento do Patrimônio Histórico Artístico do Município de Muqui e dá outras providências, sob a ótica do Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009 que promulga a Convenção Internacional sobre o direito das pessoas com deficiência e seu protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. Aliado a isso, o tombamento tem sido tema de grande relevância para os cidadãos muquienses, muitos são favoráveis outros nem tanto. Por isso, faz-se necessário uma análise das duas posições para verificar se existe um possível conflito de direitos fundamentais quais sejam: o Direito ao Patrimônio Cultural e o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.

O art. 225 da Carta Suprema demonstra claramente a preocupação do constituinte originário em preservar o meio ambiente, de maneira que foi destinado um capitulo exclusivamente para tratar do referido tema. Neste artigo pode se observar um direito fundamental em que “todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado”, entendendo meio ambiente como sendo o conjunto de condições,

leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Além do art. 225 da Carta Suprema, existem outros dispositivos que cuidam do meio ambiente que também fazem parte do objeto deste estudo, dentre eles destacam-se os artigos 215 e 216. O artigo 215 garante ao estado o dever de garantir o acesso às fontes culturais bem como sua valorização e preservação fato este que demonstra a natureza jurídica de direito difuso, claramente evidenciado pelo doutrinador Celso Fiorillo, in verbis:

Ao estabelecer como dever do Poder Público, com a colaboração da comunidade, preservar o patrimônio cultural, a Constituição Federal ratifica a natureza jurídica de bem difuso, porquanto este pertence a todos. Um domínio preenchido pelos elementos de fruição (uso e gozo do bem objeto do direito) sem comprometimento de sua integridade, para que outros titulares, inclusive os de gerações vindouras, possam também exercer com plenitude o mesmo direito. 113

113 FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 12 ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

O Texto Constitucional também menciona o meio ambiente como forma de proteção ao patrimônio cultural, o artigo 216 conceitua o patrimônio cultural como sendo bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. O doutrinador Paulo Affonso Leme Machado ilustra brilhantemente o patrimônio cultural como parte integrante do conceito de meio ambiente.

O patrimônio cultural representa o trabalho, a criatividade, a espiritualidade e as crenças, o cotidiano e o extraordinário de gerações anteriores, diante do qual a geração presente terá que emitir um juízo de valor, dizendo o que deverá conservar, modificar ou até demolir. Esse patrimônio é recebido sem mérito da geração que o recebe, mas não continuará a existir sem seu apoio. O patrimônio cultural deve ser fruído pela geração presente, sem prejudicar a possibilidade de fruição da geração futura. 114

114 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo. Malheiros. 2014 (p. 154)

No que tange ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, este ganhou grande destaque após a Segunda Guerra Mundial com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em seu texto pode-se observar no preâmbulo a preocupação em evidenciar o que é considerado como “Princípio dos Princípios”, in verbis.

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da

liberdade, da justiça e da paz no mundo

Considerando ser essencial que os

) (

direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão. 115

No mesmo sentido do Preâmbulo, o artigo 1º da declaração também menciona a Dignidade da Pessoa Humana, em que consta “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e

115 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/>. Acesso em 27 mai. 2015.

direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. Dentre os princípios constitucionais oriundos do direito fundamental à Dignidade da Pessoa Humana está o direito ao meio ambiente cultural, o qual fundamenta que para se ter o mínimo dos direitos constitucionais garantidos é necessário que se tenha um meio ambiente sadio, inclusive o meio ambiente cultural. Celso Antônio Pacheco Fiorillo também corrobora destes pensamentos, fundamentando que a Dignidade da Pessoa Humana tem o escopo de garantir a tutela mínima dos direitos constitucionais, adaptando tal fato ao direito ambiental. E é por todo o exposto que o tema em questão chama a atenção, como conciliar dois princípios tão importantes no ordenamento jurídico brasileiro, para isso é necessário haver uma ponderação de interesses no qual todos os cidadãos muquienses, sejam os principais beneficiários.

7 REVISÃO DE LITERATURA

Com relação ao tombamento do Município de Muqui existe a Lei 070/1999 bem como o Decreto 040 promulgado em 03 de novembro de 2000, que regulamenta a lei supracitada e, com base na doutrina e jurisprudência será feita uma análise do referido diploma normativo, apontando os princípios que regem o tombamento e os principais julgados referentes ao tema. Tudo é claro, sob a ótica do Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009.

8 METODOLOGIA

Para a presente pesquisa, será adotado o método de pesquisa bibliográfica que enfocará a pesquisa com base em aspectos históricos, jurídicos e atualidades sobre o tema. Para tanto, será realizada coleta de instrumentos textuais como legislação atualizada, doutrinas pertinentes e publicações de caráter técnico e atualizado do tema proposto.

Após a pesquisa bibliográfica e a análise de

artigos sobre o assunto, serão realizadas leituras e

será esposado o entendimento sobre o tema, bem como

será realizada entrevista com as principais

autoridades envolvidas com o Patrimônio Histórico de

Muqui.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 05 de Outubro de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 27 mai. 2015.

Decreto nº 6.949 publicado em 25 de agosto de 2009 que Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinado em

Nova York, em 30 de março de 2007. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ >. Acesso em: 22 de junho de

2015.

Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. Organiza a Proteção do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/>. Acesso em: 27 mai.

2015.