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LEI DO FEMINICÍDIO: BREVES COMENTÁRIOS

Rogério Sanches Cunha Promotor de Justiça/SP Professor de Penal do CERS
(cursos online) Autor de obras jurídicas, destacando-se: Violência Doméstica e
Familiar Contra a Mulher (Ed. Revista dos Tribunais)
“Homicídio simples
Art. 121. (...)
Homicídio qualificado
§ 2o (...)
Feminicídio
VI - contra a mulher por razões da condição de sexo feminino:
(...)
§ 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o
crime envolve:
I - violência doméstica e familiar;
II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
(...)
Aumento de pena
§ 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o
crime for praticado:
I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto;
II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou
com deficiência;
III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima.” (NR)
Art. 2o O art. 1o da Lei no 8.072, de 25 de julho de 1990, passa a vigorar com
a seguinte alteração:
“Art. 1o (...)
I - homicídio (art. 121), quando praticado em atividade típica de grupo de
extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado
(art. 121, § 2o, I, II, III, IV, V e VI);
(...) ” (NR)
Art. 3o Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação.
COMENTÁRIOS:
A Lei 13.104/15 alterou o art. 121 do CP para nele incluir o “feminicídio”,
entendido como a morte de mulher em razão da condição do sexo feminino
(leia-se, baseada no gênero). A incidência da qualificadora reclama situação de
violência praticada contra a mulher, em contexto caracterizado por relação de
poder e submissão, praticada por homem ou mulher sobre mulher em situação
de vulnerabilidade1.
Com a novel Lei, o feminicídio passa a configurar a sexta forma qualificada do
crime de homicídio, punido com pena de reclusão de 12 a 30 anos, etiquetado
como delito hediondo, sofrendo os consectários da Lei 8.072/902.

além de repisar pressuposto inerente ao delito. I. seguimos a lição de Luiz Regis Prado: “Infere-se daí que o crime de homicídio tem como limite mínimo o começo do nascimento. para o mesmo parágrafo. ou seja. na unidade doméstica e familiar (ou em qualquer ambiente ou relação). desde que esteja presente o estado de vulnerabilidade caracterizado por uma relação de poder e submissão. É imprescindível que a conduta do agente esteja motivada pelo menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima. aumentando a pena do feminicídio em 1/3 até 1/2 se o crime for praticado: I .violência doméstica e familiar. § 2o. foi meramente topográfica. pressupõe violência baseada no gênero. além de inútil.” 3. Antes da Lei 13. 121. configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte. comportamento objeto da Lei em comento.O § 2o-A foi acrescentado para esclarecer quando a morte da mulher deve ser considerada em razão da condição do sexo feminino: I . já se pode falar em início do nascimento. Min. sem menosprezo ou discriminação à condição de mulher é FEMICÍDIO. Quando se inicia o parto (termo inicial do prazo de 3 meses configurador da causa de aumento)? A doutrina é divergente. por exemplo. cita alguns posicionamentos: “Alfredo Molinario entende que o nascimento é o completo e total desprendimento do feto das entranhas maternas. como ocorre em se tratando de cesariana. De semelhante. causa confusão. Da análise do dispositivo citado.104/15 essa forma do crime já qualificava o homicídio. no entanto. mas pela torpeza. pelas contrações uterinas. 5º da Lei 11. O esclarecimento.menosprezo ou discriminação à condição de mulher.561-AL. FERNANDO CAPEZ. migrando o comportamento delituoso do art. Recentemente. HC 277. independentemente do gênero do agressor. fomenta a confusão entre feminicídio e femicídio. Feminicídio. independentemente de coabitação. 4 1. A previsão deste (infeliz) parágrafo. Matar mulher.durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto. o início do nascimento é sinalizado pela execução efetiva da referida técnica ou pela intervenção cirúrgica (cesárea)”. Nessa mesma linha. Isso porque. entende a jurisprudência do STJ que o sujeito ativo do crime pode ser tanto o homem como a mulher. Diante da indisfarçável controvérsia. de acordo com o art. nas hipóteses em que as contrações expulsivas são induzidas por alguma técnica médica. 121 acrescetou mais um parágrafo (§ 7o). Nas hipóteses em que o nascimento não se produz espontaneamente. o começo do nascimento é determinado pelo início da operação.340/2006. portanto. ao tratar do tema. marcado pelo início das contrações expulsivas. pela incisão abdominal. o STJ admitiu a aplicação da Lei Maria da Penha (11. VI. julgado em 6/11/2014. A virtude dessa alteração está na . agressões que tenham como motivação a opressão à mulher. Magalhães Noronha. Alerto que o art. II . sendo igualmente rotulada como hedionda. sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial em qualquer relação íntima de afeto. na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida. inicia-se desde as dores do parto. aí sim temos FEMINICÍDIO. infere-se que o objeto de tutela da Lei é a mulher em situação de vulnerabilidade. mesmo não tendo havido desprendimento das entranhas maternas. Para E. não só em relação ao cônjuge ou companheiro. Rel. Explico. lesão. mas inc. 2 . com a dilatação do colo do útero. Se a conduta do agente é movida pelo menosprezo ou discriminação à condição de mulher. sofrimento físico. mas também qualquer outro familiar ou pessoa que conviva com a vítima.. Para Soler. A mudança. Jorge Mussi.340/06) numa agressão contra mulher praticada por outra mulher (relação entre mãe e filha).

in verbis: Art. nanismo. 1. com a melhor correção óptica. tais como: a) comunicação. tetraparesia.3 e 0. diferentemente do § 4o. 2. monoplegia. v. do art. II . 3º e 4º do Decreto 3. III – deficiência visual – cegueira. maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência.298. 4º É considerada pessoa portadora de deficiência a que se enquadra nas seguintes categorias: I – deficiência física – alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano. Esta causa de aumento. isto é. porém. Direito Penal – Parte Especial. paralisia cerebral. paraparesia. II – deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere. a baixa visão. hemiplegia. que o § 7o. parcial ou total. membros com deformidade congênita ou adquirida.05 no melhor olho. d) utilização dos recursos da comunidade.. fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade. 3.000Hz. acarretando o comprometimento da função física. de quarenta e um decibéis (dB) ou mais. que regulamentou a Lei 7. . apresentando-se sob a forma de paraplegia. II – deficiência auditiva – perda bilateral. Alerto.000Hz. na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0. amputação ou ausência de membro. e III – incapacidade – uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social. apesar de novos tratamentos. triparesia. monoparesia. exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções. considera-se: I – deficiência – toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica. com necessidade de equipamentos.05 no melhor olho. e) saúde e segurança. 11-12. 3º Para os efeitos deste Decreto. p.simbologia.853. f) habilidades acadêmicas. adaptações.. meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida. 121. aferida por audiograma nas frequências de 500Hz. A terceira figura contempla a vítima com deficiência (física ou mental). ostomia. c) habilidades sociais. com a melhor correção óptica. triplegia. que significa acuidade visual entre 0.000Hz e 3. no alerta que se faz da existência e necessidade de se coibir com mais rigor a violência contra a mulher em razão da condição do sexo feminino. ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores. de 24 de outubro de 1989. dentro do padrão considerado normal para o ser humano. b) cuidado pessoal. IV – deficiência mental – funcionamento intelectual significativamente inferior à média. com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas. os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60º. tetraplegia. de 20 de dezembro de 1999. Art. nas duas primeiras figuras (ofendida menor de 14 anos ou maior de 60 anos) repete o § 4o. permite um aumento variável de 1/3 até 1/2. 2.contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. hemiparesia. O conceito de pessoa portadora de deficiência é trazido pelos arts.

já que a norma visa tão somente à repressão e prevenção da violência doméstica contra a mulher. evitando-se responsabilidade penal objetiva. como bem ressaltam Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald. e h) trabalho. descarta. 62. intersexual ou mesmo com o travesti. entendendo que o transexual. o agressor (ou agressora) delas tenha conhecimento. Se o Poder Judiciário. v. III . já que a união estável também se encontra sob o manto protetivo da lei. para a incidência das circunstâncias majorantes enunciadas nos incs. para a hipótese. p.g) lazer. depois de cumprido o devido processo legal. Admite-se que o sujeito ativo seja tanto homem quanto mulher. Quanto ao sujeito passivo abarcado pela lei. já para uma corrente mais moderna. Nesse quadro. II e III. 6 Nesse sentido. aliás. os . não é mulher (apenas passa a ter órgão genital de conformidade feminina). inclusive o penal”. exige-se uma qualidade especial: ser mulher. decidiu o TJ/MG. aplicando as Lei Maria da Penha não apenas para a mulher. isso não acontece quando estamos diante de uma decisão transitada em julgado.na presença de descendente ou de ascendente da vítima. deve ser encarada de acordo com sua nova realidade morfológica. bastando a existência de relação familiar ou de afetividade. geneticamente. V – deficiência múltipla – associação de duas ou mais deficiências. O transexual é aquele que sofre uma dicotomia físico-psíquica. não importando o gênero do agressor. bissexual. Parece óbvio que. conservadora. Ao exigir que o comportamento criminoso ocorra na “presença”. bastando que esse familiar esteja vendo (ex: por skype) ou ouvindo (ex: por telefone) a ação criminosa do agente. distinto de sua conformação sexual psicológica. a cirurgia de mudança de sexo pode se apresentar como um modo necessário para a conformação do seu estado físico e psíquico”. explica: “Se existe alguma dúvida sobre a possibilidade de o legislador transformar um homem em uma mulher. não sem razão. compreendidas como tal as lésbicas. retificação de registro civil. portanto. Rogério Greco. inclusive. mas também transexuais e travestis: “Para a configuração da violência doméstica não é necessário que as partes sejam marido e mulher. parece dispensável que o descendente ou o ascendente da vítima esteja no local da agressão. e que. Encerro estas primeiras impressões da Lei fazendo algumas perguntas: Pode figurar como vítima do feminicídio pessoa transexual? Inicialmente.5 Em eventual resposta à indagação inicial podem ser observadas duas posições: uma primeira. 4. possuindo um sexo físico. a proteção especial. desde que a pessoa portadora de transexualismo transmute suas características sexuais (por cirurgia e modo irreversível). determinar a modificação da condição sexual de alguém. eis que a jurisprudência admite. 4. Tratado de Direito Penal Brasileiro. nem que estejam ou tenham sido casados. I. tal fato deverá repercutir em todos os âmbitos de sua vida. “o transexual não se confunde com o homossexual.

513119-9/000. o menosprezo ou a discriminação à condição de mulher.2010. 115. O STF. inclusive dos Tribunais Superiores. Júlio Cezar Gutierrez). coexistindo com a forma privilegiada do crime? É claramente subjetiva. Reconhecido o privilégio pelos senhores jurados (ex: domínio de violenta emoção). pressupondo motivação especial.0000. avó ou qualquer outra parente que mantém vínculo familiar com ele podem integrar o polo passivo da ação delituosa” (TJMG. Em resumo: reconhecendo o Conselho de Sentença a forma privilegiada do crime. III e IV). tratando-se de qualificadora de caráter objetivo (meios e modos de execução do crime). a qualificadora do feminicídio é subjetiva. da mesma forma: “Admite-se a figura do homicídio privilegiado-qualificado. a propósito. Diante desse quadro preliminar. qual seja. não só as esposas. apesar da sua posição topográfica.02. j.transgêneros. Noutro dizer. . O STJ. Nesse sentido. com qualificadoras de natureza objetiva (§ 2º. p. pode o juiz quesitar (perguntar) o feminicídio? É sabido que. as transexuais e as travestis. aliás. Ademais. mostra-se perfeitamente possível a coexistência das circunstâncias privilegiadoras (§ 1º do art. automaticamente. no particular. Não há incompatibilidade entre circunstâncias subjetivas e objetivas. rel. pelo que o motivo de relevante valor moral não constitui empeço a que incida a qualificadora da surpresa” (RT 680/406). Direito civil – Teoria geral. é possível o reconhecimento do privilégio (sempre de natureza subjetiva)” 7. que tenham identidade com o sexo feminino. fica afastada. Também as filhas e netas do agressor como sua mãe. desde que não haja incompatibilidade entre as circunstâncias do caso. sendo fundamental.09. ou objetiva. a natureza das circunstâncias. 121). todas de natureza subjetiva. companheiras. incompatível com o privilégio. namoradas ou amantes estão no âmbito de abrangência do delito de violência doméstica como sujeitos passivos. já decidiu: “A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no sentido da possibilidade de homicídio privilegiado-qualificado. HC 1. a tese do feminicídio. sogra. é firme a jurisprudência. 24. 5 .

vol. III. HC 97. p. Curso de direito penal. 530.6 . 7.034/MG. DJe 07/05/2010 .