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Tecnologia
18 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Editora: Ana Paula Macedo //
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>> entrevista MICHEL LEVY


Presidente da Microsoft Brasil acredita que Windows 7 terá uma melhor receptividade graças aos avanços do controvertido Vista

» FERNANDO BRAGA além do esperado e esbarraram em tortuosas ques- novo Windows 7, previsto para ser lançado no mer- dial de tecnologia de informação espera recuperar a
tões de compatibilidade de drivers e alto poder de cado mundial em 22 de outubro. “Com o Vista, os imagem (trincada com o fiasco do Vista) entre os
Windows Vista chegou ao mercado, há três processamento, numa época em que os chips de nú- computadores tiveram que se adaptar e receber mais usuários e manter a larga hegemonia no segmento.No

O anos, com a difícil tarefa de ser o sucessor do


popular sistema operacional XP — num
momento em que a Microsoft dominava
95% dos computadores (de acordo com dados da
consultoria Net Applications). No entanto, as dificul-
cleo duplo ainda chegavam timidamente ao setor.
Porém, confiando justamente na colheita dos fru-
tos obtidos durante esse difícil período — em que o
sistema foi duramente criticado por usuários e ana-
listas do segmento — é que a Microsoft espera encon-
processamento e memória. Hoje vemos um parque
computacional mais maduro”, conta o presidente da
Microsoft Brasil, Michel Levy.
Firmemente crente nas melhorias alcançadas pela
nova versão do sistema operacional mais utilizado do
ano em que a empresa completa duas décadas de pre-
sença no Brasil, Levy recebeu o Correio para uma en-
trevista exclusiva, em que comenta não só o esperado
lançamento, mas também outras questões, como o re-
cente anúncio da união com a empresa Yahoo!,a bata-
dades encontradas pela atual plataforma foram trar um terreno mais amigável para a chegada do mundo, o chefe regional da maior companhia mun- lha com o Google e o potencial do mercado brasileiro.

“Pagamos o preço
da inovação”
Qual o balanço que o senhor faz desses
Euler Junior/EM/D.A Press - 12/3/09
Microsoft. Quando falamos de pirataria
20 anos da empresa no Brasil? estamos falando desde de falsificação
Quando olhamos a evolução da tec- de música e roubo de propriedade inte-
nologia, 20 anos é um tempo bastante lectual, por trás dos quais age o crime
representativo. O que aconteceu nos úl- organizado, até invasão de impostos.
timos 20, 30 anos foi, de fato, uma revo- Então estamos falando de uma coisa
lução. Vale lembrar que, nesses últimos que prejudica a cadeia como um todo.
15 anos, o país é outro, pela estabiliza- Para nós, obviamente, isso também
ção econômica e pela valorização da tem um impacto. Afinal, são 58% dos
tecnologia. A Microsoft se desenvolveu computadores rodando cópias piratas,
junto com o país e, acredito eu, causan- ou seja, todo um mercado que não está
do um impacto significativo no desen- sendo atendido, que não está com-
volvimento do Brasil. Estamos muito prando, que não está gerando impostos
satisfeitos em chegar nesses 20 anos ou emprego.
tendo criado uma economia forte em
torno da Microsoft, já que nosso mode- E o brasileiro já está mais maduro
lo de negócio é completamente basea- para perceber as diferenças de se
do em parceiros. Aqui no Brasil não comprar um produto original ou não?
vendemos um alfinete sequer direta- Eu acho que sim. Mesmo que lenta-
mente (ao consumidor). Então temos mente, estamos avançando nessa área.
um ecossistema enorme, de quase 20 Tanto que a pirataria caiu de 65% para
mil empresas que, de uma forma ou de 58% nos últimos cinco anos. É um longo
outra, estão relacionadas com a gente. processo. Nós temos várias ações em
Desde pequenos desenvolvedores de conjunto com o Ministério da Justiça,
ferramentas até grandes corporações. com a Polícia Federal, com a Polícia Civil
para colaborar nesta questão, é claro, ca-
Steve Ballmer, CEO da empresa, da uma no seu papel.
esteve no Brasil no fim do ano
passado. Que impressão ele A crise econômica mexeu profundamente
teve do país e do mercado nacional? com a indústria de TI. No entanto,
A decisão de vir para o Brasil, há 20 o Brasil sofreu menos que outras
anos, era porque o país já estava no ma- potências. Como a Microsoft está vendo
pa dos principais mercados de TI. Essa este momento, em que a crise parece
percepção foi crescendo e, hoje, eu diria,
O senhor acredita que a empresa está que de máquinas foi atualizado com as momento em que fizemos o acordo com estar ficando para trás? Com cautela
o país está entre os cinco principais mais confiante agora do que na época novas tecnologias. Então o novo sistema o Yahoo! e definimos o search (pesquisa) ou como um momento de oportunidade?
mercados para a Microsoft, com uma do lançamento do Vista? vai poder rodar na grande maioria de má- como uma de nossas prioridades. Não Vemos esse momento além da crise.
grande importância estratégica. A pre- Há três anos, estávamos muito con- quinas que é vendida hoje. O cliente vai tenha dúvida de que a publicidade onli- A crise talvez seja apenas um dos sinto-
sença do Steve Ballmer no país só fez re-fiantes com as inovações que o Vista sentir imediatamente os benefícios do ne é uma das grandes estratégias de cres- mas através do qual essa grande trans-
fletir ainda mais isso. trazia. Aliás, o sucesso do Windows 7 só novo sistema. cimento da Microsoft. Olha, isso funcio- formação na economia se fez sentir.
existe porque a Microsoft passou pelo na muito bem para o usuário final, mas Sem dúvida, o Brasil estava mais prepa-
O Google declarou que a recente união Vista. Pagamos o preço da inovação. Inicialmente, nem mesmo a Microsoft não imaginamos uma cor- rado para esse novo mo-
da Microsoft com o Yahoo! pode gerar Muitos dos problemas que o Vista teve planejava lançar o Windows 7 ainda poração usando produtos mento da economia mun-
um monopólio no setor de buscas. foram superados rapidamente. Mas é em 2009. A antecipação do sistema de softwares baseados na dial e conseguiu fazer essa
Como a empresa viu essa declaração? óbvio que ficou essa percepção. Acho operacional se deve mais às qualidades publicidade. Muitas vezes o transição de uma forma
Como essa união afeta o Brasil? que o Windows 7 traz todas os benefí- do produto ou aos problemas tidos usuário final não sente por- mais suave, e também saiu
Com a parceria com o Yahoo!, esta- cios de tecnologia que estão embuti- com o Vista? que não é ele quem coloca a mais fortalecido do que en-
mos buscando imprimir mais inova- dos no Vista e resolve uma série de Quando lançamos o Windows Vista, o mão no bolso para pagar. E controu. De fato, os negó-
nosso compromisso era que, em até três normalmente ele não paga
O conceito cios deram uma retraída
ções ao nosso buscador. Pudemos ver, questões que foram levantadas, como
inclusive, que o Bing foi lançado com a necessidade de um sistema operacio- anos, lançaríamos uma nova versão e, de até um certo ponto, porque do grátis durante alguns meses, acho
um conjunto muito grande de novida- nal mais leve. Naquele momento do fato, vamos cumprir isso. Isso é intrínse- se ele quiser se aprofundar não existe. que muito mais fruto da
des. Com isso, temos a intenção de tra- Windows Vista, tivemos que fazer uma co da tecnologia. Temos que estar sem- e desejar mais serviços, uma cautela do mercado, que
zer uma escala maior de negócios para série de decisões em prol do usuário — pre renovando. hora ele vai ter que pagar No final, não sabia o que poderia
que isso seja mais relevante, inclusive relacionadas à segurança e a uma série por isso. alguém acontecer. Companhias co-
para os usuários. de coisas que mudavam a arquitetura Mas o Windows XP teve um período Agora tem a questão do mo a Microsoft consegui-
do produto — e isso fez com que hou- mais longo até sair uma nova versão software livre. Uma coisa é sempre vai ram se posicionar muito
Falando no Bing, quando vamos ter a vesse uma adaptação de todo o ecos- do sistema operacional… o modelo de venda de li- pagar a conta” bem nesse momento, sen-
ferramenta em português? sistema — os fornecedo- Sim, mas isso foi porque o Vista atra- cenças de softwares comer- do uma excelente alternati-
As inovações que res de hardware e softwa- sou um pouco mais para chegar ao mer- ciais e outra coisa é o con- va para empresas melhora-
ocorreram nesse primei- res. Por isso, durante o cado. Mas o ciclo que a gente espera ter é ceito do código aberto. São rem sua produtividade e re-
ro momento no Bing lançamento do Vista, o mais parecido com esse que estamos dois modelos diferentes. Um que cobra duzirem seu custo. Então, houve um pe-
atingiram apenas a lín- sistema não estava 100% vendo agora (diferença de três anos a ca- pela licença e outro que dá o código ríodo de baixa de vendas? Houve, para
gua inglesa. Como os Es- pronto. Então houve esse da lançamento) com o Windows 7. aberto, mas que cobra pela manutenção, todo mundo, e nós não fomos exceção.
tados Unidos são o maior Quanto à problema de percepção. pela assistência técnica e que, no fim da
mercado, é lá que a gente Mas, ao longo dos primei- Hoje, a oferta de serviços grátis cresce história, acaba cobrando uma mensali- Que papel tem o Centro de Inovação
precisa competir primei- pirataria, não a ros meses, os drivers fo- cada vez mais no mercado. dade. Então, em vez de o cliente pagar li- da Microsoft no Senac de Brasília?
ro, para depois levar es- considero um ram aparecendo, os pro- É difícil para uma empresa que optou, cença, vai pagar serviço. Então, o grátis O centro de inovação tem um papel
sas inovações para o res- historicamente, pela venda de licenças não existe, é só uma forma de você con- muito grande naquilo que a gente cha-
to do mundo. Nesse mo-
empecilho, mas dutos foram atualizados e
quem depois comprou proprietárias de seus produtos lidar seguir uma outra remuneração. ma de interoperabilidade, que é a for-
mento, estamos focados ela é um câncer uma máquina com o Vista com esse período de transição? ma que a gente trata a necessidade do
no mercado norte-ame- para o mercado teve um índice de satisfa- O conceito do “grátis” não existe. No Com o que é mais difícil lidar: com a pira- cliente de conviver com mais de uma
ricano e em alguns outros ção muito grande. final, alguém sempre vai pagar a conta. A taria ou com os altos encargos fiscais plataforma. Se o governo opta por ter
poucos países. A gente como um todo” Um outro dado interes- forma de remunerar aquele serviço em que incidem sobre os produtos de TI? uma plataforma de software aberto,
ainda não tem nenhuma sante é que, naquela época, que o usuário não está pagando é feita Nós não consideramos esses fatores nós vamos lá e o ajudamos a se integrar
data para falar quando o quando o Vista foi lançado, por meio do anunciante, que arca com o como entraves. A parte fiscal faz parte com os clientes privados. O centro de
Bing vai estar em portu- as máquinas que eram ven- custo. Nesse negócio, a Microsoft está da regra do jogo e cada país tem a sua. inovação do Senac tem essa tarefa de
guês, mas certamente isso vai acontecer. didas não tinham as configurações ade- agindo intensamente, monetizando os Cabe a nós adaptar o nosso modelo de pesquisar e criar tecnologias que per-
quadas para utilizar o sistema. Então a serviços online por meio da publicidade negócio para jogar dentro das regras mitam essa conversa. Esse centro já
A Microsoft vem de uma experiência gente ingressou com um produto na pon- online. Estamos nesse negócios há 10 (legais, tributárias e regulatórias). existe, mas faremos uma reinaugura-
não muito exitosa com o Windows Vista. ta de um mercado. Hoje, o Windows 7 tem anos, tendo uma participação expressiva Quanto à pirataria, não a considero um ção, ainda neste mês, focando apenas
No entanto, agora há uma expectativa requisitos de hardware iguais aos do Vista, no mercado mundial. Isso é cada vez empecilho, mas é um câncer para o essa questão, atendendo as necessida-
muito boa para a chegada do Windows 7. com uma performance melhor, e o par- mais reforçado, principalmente neste mercado como um todo, não só para a des do mercado.

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