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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(7/7 memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanga a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenca católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


~— Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questoes da atualidade
'} controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
! dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abencoar
este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
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S-V-i

K-\i
Ano xlii Agosto 2001

"...Para que sejamos também


glorificados" (Rm 8, 17)

A Ciencia e a Consciéncia de Jesús

A Quarta Pessoa da Ssma. Trindade?

"O Grande Tentador"

Adáo e Eva existiram verdaderamente?

.?-.■■■ O Mar Vermelho se abriu realmente?

O livro de Joñas: como o entender?

"Psicografia absolve Réu"

Eutanasia legalizada na Holanda

Por que viver? Que há depois da morte?


PERGUNTE E RESPONDEREMOS AGOSTO 2001
Publicagáo Mensal N8471

SUMARIO
Diretor Responsável
Estéváo Bettencourt OSB "...Para que sejamos também glorifica
Autor e Redator de toda a materia dos" {Rm 8, 17) 337
publicada neste periódico Quem pode perscrutar:
A Ciencia e a consciencia de Jesús 338
Diretor-Administrador:
María SSma...
D. Hildebrando P. Martins OSB A Quarta Pessoa da SSma. Trindade? . 345

Administracáo e Distribuicáo: Ser real ou ficcáo mental?


"O Grande Tentador" 346
Ed¡9óes "Lumen Christi"
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5o andar - sala 501 Novas interpretares:
Adió e Eva existiram verdaderamente?. 354
Tel.: (0XX21) 291-7122
Fax (0XX21) 263-5679 Milagre inédito?
O Mar Vermelho se abriu realmente?. 356
Enderezo para Correspondencia: Historia ou parábola?
Ed. "Lumen Christi" O livro de Joñas: como o entender? ... 361
Caixa Postal 2666 Praxe judiciária e psicografia:
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ "Psicografia absolve réu" 370
Óusada decisáo:
Visite o MOSTEIRO DE SAO BENTO
Eutanasia legalizada na Holanda 373
e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Perguntas básicas:
na INTERNET: http://www.osb.org.br
Por que viver? Que há depois
e-mail: lumen.christi@osb.org.br
da morte? 381

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

"Europa sem Deus" (VEJA). -"A invencáo do Cristianismo" (Revista GALILEU). - As


Obras Caritativas de Joáo Paulo II em 2000. - Poligamia nos Estados Unidos. - O
Caso Me Veigh. - Irmáos ou Primos?. -"O Fim do Mundo" (por Carlos Rae).

(PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATUR A: RS 35,00).


(NÚMERO AVULSO RS 3,50).

O pagamento poderá ser á sua escolha:

1. Enviar, em carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.

2. Depósito em qualquer agencia do BANCO DO BRASIL, para agencia 0435-9 Rio na


C/C 31.304-1 do Mosteiro de S. Bento/RJ, enviando em seguida por carta ou fax
comprovante do depósito, para nosso controle.

3. Em qualquer agencia dos Correios. VALE POSTAL, ende regado ás EDICÓES "LUMEN
CHRISTI" Caixa Postal 2666 / 20001-970 Rio de Janeiro-RJ

Obs.: Correspondencia para: Edicóes Turnen Christi"


Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ J
"PARA QUE SEJAMOS GLORIFICADOS."
(Rm 8,17)

Ao considerar a sorte final do cristáo, o apostólo o tem como co-


herdeiro do Pai com Cristo, á condicáo de passar pela via regia por que
passou o Senhor Jesús: a via da cruz."... contanto que compadecamos
para que sejamos também glorificados" (Rm 8, 17).

O Senhor Jesús quis fazer do padecimento e da morte (conse-


qüéncias do pecado) a estrada real que leva á gloria. Sofrer com Cristo é
configurar-se ao Filho e tornar-se co-herdeiro do Pai.

Tal designio de Deus tocou de mais perto o autor deste fascículo


nos últimos tempos. Eis por que ocorre o atraso deste caderno de PR.
Seja Deus assim glorificado!

Agradeco vivamente a todos que oraram por mim neste tempo de


recesso e peco a Deus que Ihes retribua na sua infinita liberalidade.

É minha intencáo continuar a publicar os números de PR, se for do


agrado de Deus. Aos amigos e leitores grato pela compreensáo, o servi
dor e irmáo saúda efusivamente em Cristo.

Estéváo Bettencourt, OSB

337
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XLII -N9 471 -Agosto de 2001

Quem pode perscrutar?

A CIENCIA E A CONSCIÉNCIA DE JESÚS

Em síntese: Jesús, a segunda Pessoa da SSma. Trindade feita


homem, nada perdeu do que compete a Deus. Como Deus e homem, Ele
ressuscitava morios e sabia tudo o que Deus sabe. Como homem, tinha
um intelecto que funcionava raciocinando como o de qualquer homem;
por conseguinte tinha um saber adquirido. Além deste, os teólogos afir-
mam que Jesús tinha um saber infuso, que Ihe dava a conhecer o seu
futuro doloroso e glorioso. Mais aínda: em sua consciéncia de verdadeiro
homem, Jesús devia tero conhecimento exato de sua identidade - o que
quer dizer que Ele sabia subsistir pela subsistencia da segunda Pessoa
da SSma. Trindade; nao podia crer que tinha urna pessoa (subsistencia)
humana, pois isto implicaría tremenda ilusáo a respeito de si mesmo.
* # #

A Redacáo de PR recebeu a seguinte carta:

«A pergunta é a seguinte:

Jesús tinha plena consciéncia de tudo o que ia Ihe acontecer; pri-


sáo, flagelo, tortura, morte de cruz etc. ?

Já ouvi as duas respostas: SIM e NAO. Quem diz que Ele nao ti
nha, baseia-se na expressáo de que 'Ele ia se revelando em graga etc.
diante de Deus e dos homens'. Portanto, foi urna revelagáo e descoberta
paulatina.

Mas, se Ele era Deus e Homem, Deus nao é onisciente? Entáo,


como Deus, sabia tudo que Ihe ia acontecer. Como homem nao. Mas até
esta separagáo nao deve ser feita. Como separar as duas naturezas de
Jesús? Se Ele nao sabia o que ia Ihe acontecer, por que a expressáo
'Pal, sepossfvel, afasia de mim este cálice?'»

A questáo é assaz delicada e complexa. Supóe o conhecimento de


"uniáo hipostática": em Jesús havia um só eu (o da segunda Pessoa da

338
A CIENCIA E A CONSCIÉNCIA DE JESÚS

SSma. Trindade) no qual subsistiam a natureza divina (desde todo o sem-


pre) e a natureza humana (assumida no seio de María SSma.). Ao fazer-
se hornern, Deus Filho nada perdeu do que é de Deus e adquiriu todo o
potencial da natureza humana, que é racional.

Comecaremos a nossa resposta propondo breve histórico da ques


táo.

1. A historia da questáo

A questáo do saber de Jesús parecía ter sido resolvida pelo Conci


lio de Calcedonia (451), que afirmava em Jesús urna só pessoa dotada
de todas as perfeicóes da natureza divina (o Filho de Deus nada perdeu
do que é de Deus, pelo fato da Encarnacáo). Todavía no século V veio á
tona urna sentenca que contradizia tal conclusáo.

1.1. Os Agnoetas

Por volta de 450, o diácono Temístio de Alexandria, que pertencia


a urna faccáo monofisita, comecou a ensinar que Cristo nao somente
assumiu as fraquezas corporais, mas também quis sofrer as limitacóes
do espirito e, por isto, foi sujeito á ignorancia, como todos os homens.
Deu assim origem á corrente agnoeta (em grego, agnoia = ignorancia),
que nao era propriamente monofisita. O fundamento de tal teoría era o
fato de que Jesús disse ignorar a data do juízo final (cf. Me 13, 32) e mais
de urna vez formulou perguntas aos seus interlocutores; cf. Me 6, 38; 8,
23; 9, 16.33; Jo 11, 341. - S. Gregorio I, Papa, em 600 rejeitou a teoría
agnoeta: explica a aparente ignorancia de Jesús que perguntava..., como
sendo um modo de falar humano, adaptado ao coloquio entre seres hu
manos. O próprio Deus, no Antigo Testamento, formula perguntas aos
homens2, sem que por isto devamos dizer que Deus ignora alguma coi-
sa. - Quanto ao dia do juízo final, S. Gregorio afirmava que Jesús, como
homem, sabia a respectiva data, mas nao a sabia pelas luzes da nature
za humana, e, sim, por revelacáo divina. O progresso do saber humano
de Jesús mencionado pelo Evangelho (cf. Le 2, 52) nao seria um pro
gresso real do saber, mas apenas um progresso da manifestacáo dése
saber; á medida que progredia em ¡dade, Jesús ia manifestando os te-
souros de seus conhecimentos. Ver a carta de S. Gregorio Magno ao
Patriarca Eulogio de Alexandria em: Denzinger-Schónmetzer3, Enquirídio
ne 474-476[248].

Esse modo de pensar se transmitLu as geracóes posteriores.

1 Quem estuda a Cristologia de Sao Mateus, verifica que Mateus omite as passagens
em que Jesús pergunta alguma coisa. Percebe-se já ai a inlengáo de afastar de
Jesús qualquer tipo de ignorancia.
2 Cf. Gn 3, 9: "Adáo, onde estás?"
Gn 4, 9: "Caim, onde está teu irmáo Abel?"
3 Citado adiante como DS.

339
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

1.2. A Teología medieval

No século XIII, grandes teólogos como S. Alberto Magno (t 1280),


S. Boaventura {t 1274), S. Tomás de Aquino (t 1274) atribuíram a Jesús
um ampio saber. Com efeito, além da onlsciéncia que Cristo possuía
como Deus, terá tido em sua natureza humana um tríplice saber:

- a ciencia da visáo, de que os justos gozam no céu, e que con


siste na ¡ntuicao de Deus face-a-face, tornando-se fonte de indizível bem-
aventuranca. Acontece, porém, que Jesús podía abstrair dessa visáo
beatífica, a fim de compartilhar todos os sofrimentos que acabrunham os
homens e sofrer realmente a sua Paíxáo dolorosa;

- a ciencia infusa, que os místicos recebem e que desvendava a


Jesús todo o designio do Pai e o desfecho de sua missao. Tal saber nao
é efeito do estudo nem de experiencia, mas de comunícacáo direta pro
veniente de Deus;

- a ciencia adquirida ou experimental, derivada do uso progressi-


vo dos sentidos e do raciocinio de Jesús.

A razáo pela qual táo ampio saber era atribuido a Jesús, era a
conviccáo de que Jesús é a fonte de todas as gracas concedidas aos
homens, quer peregrinos na térra, quer glorificados no céu; Cristo devia
possuir toda perfeicáo, por ser o homem por excelencia.

Tal doutrina tornou-se comum na Teología dos seguintes séculos


até nossos tempos. É professada por Pió XII ñas encíclicas Mystici
Corporis Christi n9 230 (DS ne 3812(2289]) em 1943 e Sempiternus
Rex {DS 3905[2334]) de 1951, sem que o Sumo Pontífice tenha intenci
onado definir dogmáticamente tal doutrina. Em nossos dias, porém, os
bons autores a reformulam, com o auxilio da psicología das profundida
des, embora de maneíras muíto diversificadas, visto tratar-se de assunto
complexo, do qual nenhum pensador tem experiencia. Dentre as muitas
teorías propostas, seja apresentada a que mais verossímil parece.

2. Como entender a temática

Distingamos o saber (a ciencia) e a consciéncia psicológica de Jesús.

2.1. A ciencia de Jesús

Os autores geralmente concordam entre si ao admitirem em Jesús


duas modalidades de saber:

1) o saber (ou a ciencia) experimental. Jesús, como homem,


possuía as faculdades de conhecímento (intelecto, sentidos) comuns a
todos os homens, e délas fazía uso, de modo que o Evangelho pode
dizer que "Jesús crescía em sabedoria" (cf. Le 2, 52);

340
A CIENCIA E A CONSCIÉNCIA DE JESÚS

2) a ciencia infusa, nao adquirida pelo estudo ou pela experien


cia, mas por comunicacáo direta de Deus. Com efeito; Jesús devia co-
nhecer o designio do Pai e o desfecho de sua missáo; nao pode ser
equiparado a um profeta que fosse conhecendo o plano de Deus aos
poucos ou á medida que os acontecimentos ocorressem. Jesús precisa-
va de proclamar a sua mensagem com seguranca; dizia Ele: "Eu falo do
que vi junto do Pai" {Jo 8, 38).

Observemos agora que em todo ser humano existem tres planos: o


plenamente consciente, o subliminarmente consciente e o inconsciente.
Todos nos sabemos muitas coisas que nao utilizamos conscientemente,
mas que podem ser trazidas á tona da consciéncia, como também po-
dem ser relegadas de novo para o plano inconsciente. - Aplicando isto a
Jesús, dizemos que, o plano de Deus, Jesús o podia ter ora lucidamente
em sua consciéncia, ora imerso no fundo do inconsciente; Jesús utilizava
a ciencia infusa segundo as necessidades da pregacáo; podia também
impedir, em conformidade com a vontade do Pai, que certos temas se
tornassem presentes á sua consciéncia.

Assim se explicariam, por exemplo, as palavras de Jesús a respei-


to do juízo final: "Daquele día e daquela hora ninguém sabe... nem o
Filho, mas somente o Pai" (Me 13, 32); com efeito, nao era do designio
do Pai que Jesús nos revelasse a data do juízo final; por isto Jesús dizia
ignorá-la, nao fazendo uso consciente da nocáo que a respeito Ele trazia
em seu inconsciente. - Nao se deve, porém, admitir que o nao uso da
ciencia infusa levasse Jesús a cometer erros, pois estes seriam incom-
patíveis com a dignidade do Verbo Encarnado e com a missao de Mestre
da verdade.

O fato de que Jesús podia prescindir da ciencia infusa, explica que


Ele pudesse somente usar suas faculdades humanas (a inteligencia es
pecialmente) para adquirir nocóes.

3) Além da ciencia adquirida e da ciencia infusa, há quem admita


em Jesús a visáo beatífica ou a intuicáo face-a-face de Deus que toca
aos justos no céu. Esta tese, porém, é discutida. Os que a professam,
apelam para o fato de que Jesús devia ter em si tudo o que toca aos
homens, quer peregrinos na térra, quer glorificados no céu; Ele é a fonte
de cuja plenitude recebemos graca por graca (cf. Jo 1,16). A visáo face-
a-face, porém, nao influiría sobre a sensibilidade de Jesús para nao ex
cluir as possibilidades da dor e do sofrimento; no momento da agonia Ele
se sentiu triste até a morte (cf. Mt 26, 38).
2.2. A consciéncia psicológica de Jesús

Visto que Jesús era verdadeiro homem e verdadeiro Deus, pergun-


ta-se: Jesús, como homem ou em sua consciéncia psicológica, sabia

341
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

que era Deus? Sabia que a sua natureza humana estava unida á divina e
subsistía pela segunda pessoa da SS. Trindade?

Eis a resposta mais plausível que a estas perguntas se possa dar:

1) Jesús tinha urna só pessoa, que era divina, ou a pessoa do Filho


de Deus. Encarnando-se, essa pessoa nada perdeu do que era e pos-
suía eternamente; por conseguinte mesmo peregrino na térra, o eu de
Jesús conhecia tudo o que Deus conhece: o misterio da SS. Trindade
com sua riqueza de atributos, e todas as coisas.

Além da sua natureza divina, Jesús tinha urna natureza humana.


Esta, embora nao tivesse um eu humano próprio, mas vivesse do eu do
Filho, tinha urna consciéncia psicológica, isto é, a faculdade de conhecer
a si mesmo (como todos nos a temos). É aqui que se coloca a pergunta:
como essa consciéncia humana de Jesús via a humanidade de Jesús? -
Respondemos:

A consciéncia humana de Jesús 1) sabia que Jesús era verdadeiro


homem e vivía como verdadeiro homem; 2) sabia que subsistía pela sub
sistencia da segunda pessoa da SS. Trindade. Nao podía crer que tinha
urna pessoa humana; isto implicaría em Jesús urna tremenda ¡lusáo a
respeito de si mesmo.

Em conseqüéncía, Jesús teve urna experiencia religiosa tal como


nenhuma criatura humana teve. Por isto podía dizer que ninguém conhe
ce o Pai senáo o Filho e ninguém conhece o Filho senáo o Pai (cf. Mt 11,
25s). Nao era possível que Jesús tivesse a consciéncia humana de si
mesmo sem conhecer que Ele tinha Deus como Pai,... Pai que é a pri-
meira pessoa da SS. Trindade.

Na conscíéncia de Jesús, o Divino tínha a supremacía; o principal


traco dessa consciéncia era saber-se Filho de Deus. Isto, porém, nao
atenuava em Jesús a nocáo de ser verdadeíro homem, portador do des
tino do mundo inteiro, chamado a urna vida auténticamente humana até
a morte, e morte de cruz.

Todavía nao é necessárío dizer que Jesús tinha sempre de modo


plenamente atual a consciéncía de ser o Fílho de Deus. Com outras pala-
vras: nao somos obrigados a crer que Jesús pensasse a todo momento:
"Eu sou o Filho de Deus"; podemos admitir que ele possuísse tal nocáo
como um hábito que nunca se apagava, mas que nem sempre emergía
das profundidades da sua consciéncia; paralelamente, um reí, embora
nunca ignore que é reí, nem sempre está a recordar que é rei da sua
nacáo.

2) Os textos do Novo Testamento mostram, com evidencia, que


Jesús sabia ser o Fílho de Deus. Esta autoconsciéncia

342
A CIENCIA E A CONSCIÉNCIA DE JESÚS

- manifesta-se no Evangelho, pela primeira vez, aos doze anos de


Jesús, quando foi encontrado no Templo, "sentado em meio aos douto-
res, ouv¡ndo-os e ¡nterrogando-os, e todos os que o ouviam ficavam
extasiados com a sua inteligencia e com as suas respostas..." Á sua Máe
que, preocupada; o procurava, respondeu o menino: "Por que me procu-
ráveis? Nao sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?"; cf. Le 2,46-49.

- A certeza de que é Filho do Pai Celeste de maneira única, per-


tence á autoconsciéncia de Jesús; nao é algo que tenha comecado a
existir em sua mente no decurso de sua existencia terrestre;

- é algo que acompanha toda a vida de Jesús, sem alteracáo, como


pertencente á esséncia do Mestre. Aponta-se em contrario o brado de
Jesús na Cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt
27, 46). Jesús teria imaginado, erróneamente, que o Pai o ¡sentaría do
suplicio da Cruz? - Respondemos negativamente; Jesús quis espontá
neamente mergulhar no abismo da dor; quis experimentar o que o ho-
mem experimenta quando peca, a ponto de exclamar na Cruz as pala-
vras citadas em Mt 27, 46 (que, alias, nao foram concebidas por Jesús,
mas, sim, pelo autor do SI 22, salmo que Jesús repetiu na Cruz). Ele quis
compartilhar a solidáo do pecador. Na verdade, porém, o Pai nao aban
donara Jesús nem Jesús perderá a consciéncia de ser o Filho bem-ama-
do: mas Cristo, durante a sua Paixáo, quis baixar um véu sobre a luz da
presenca do Pai, que brilhava somente no fundo mais íntimo do seu ser,
sem iluminar a sua inteligencia, a sua vontade e a sua sensibilidade,
imersas ñas trevas mais densas.

Jesús nao só conheceu, mas também quis, de antemáo, todo esse


sofrimento, pois sabia que isso transfiguraría a sorte do homem réu, aca-
brunhado pela dor. Ele mesmo dizia: "Devo receber um batismo, e quan-
to me angustio para que ele seja consumado!" (Le 12, 50). Ou ainda:
"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos"
(Jo 15,13). Mais: "O Filho do homem nao veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate pela multidao" (Me 10, 45).
3) Merecem atencáo ainda os textos em que Jesús afirma a sua
intimidade com o Pai.
"Ninguém viu o Pai; só aquele que vem de junto de Deus, viu o Pai"
(Jo 6, 46); "Em verdade te digo: falamos do que sabemos, e damos teste-
munho do que vimos" (Jo 3, 11).
Diz o Evangelista: "Ninguém jamáis viu a Deus; o Filho único, que
está voltado para o seio do Pai, o deu a conhecer" (Jo 1,18).
Como dito, a autoconsciéncia de Jesús, assim retratada no Evan
gelho, nao aparece como o resultado de urna reflexáo do homem Jesús
sobre si mesmo; nao é a consciéncia de urna busca progressiva que

343
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

Jesús faz de sua identidade, mas é a expressáo da realidade mais pro


funda de Jesús ou do seu Eu divino, que fala pela sua natureza humana.

O Concilio de Calcedonia (451) ensina que Deus Filho, ao assumir


a natureza humana, nada perdeu da riqueza de sua natureza divina: con-
servou a onipoténcia, que ressuscitou morios, converteu a agua em vi-
nho, multiplicou páes...; conseqüentemente, conservou também o pleno
saber de Deus, que passava pelas faculdades humanas de Jesús na
proporcáo em que Jesús o quisesse, man¡festando-se em sucessivas
declaracóes; cf. Jo 6, 46; 3, 11; Mt 11, 25s.

3. E a "ignorancia" de Jesús?

Consideremos tres passagens:

1) Me 10,18: Ao jovem que o chama "Bom Mestre", Jesús respon-


deu: "Por que me chamas bom? Ninguém é bom senáo Deus só". Com isto
quería Jesús negar a sua natureza divina? - Tal interpretacáo nao corres
pondería ao conjunto de afirmacóes do Novo Testamento sobre Jesús. A
explicacáo auténtica do texto é a seguinte: o jovem percebeu, na pessoa e
na pregacáo de Jesús, urna profundidade e um encanto que O exaltavam
ácima dos rabinos; por ¡sto deu-lhe um atributo que nao era conhecido aos
rabinos, mas caracterizava táo somente Deus. Jesús entao quis ajudá-lo a
completar a sua intuicáo: já que o jovem percebia em Jesús algo mais, a
ponto de Lhe atribuir um predicado exclusivo de Deus, compreendesse cla
ramente que bom é só Deus e que, por conseguinte, Jesús era Deus.

2) Mt 10, 23: "Em verdade eu vos digo que nao acabareis de per-
correr as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem".

Me 9,1: "Em verdade eu vos digo que alguns dos que estáo aqui
presentes nao provaráo a morte até que vejam o Reino de Deus".

O exegeta Prof. Pe. Francois Dreyfus comenta: "A explicacáo des-


tes textos, a melhor sem comparacáo, é a que vé neles o anuncio do
misterio pascal: Paixáo, Ressurreicao, Ascensáo, Pentecostés... Pois é
pelo misterio pascal que o Reino de Deus veio em toda verdade. O fim do
mundo apenas manifestará... o que estava, na realidade, presente e agin-
do poderosamente, mas só perceptível aos olhos da fé"1

Poder-se-iam entender os mesmos textos no sentido de que Jesús


se referia á queda de Jerusalém em 70 d.C, evento este que seria um
prenuncio do juízo final e da vinda do Filho do Homem em seu Reino. Tal
é, por exemplo, a interpretacáo adotada pela "Biblia de Jerusalém" em
notaaMt 10,23.

3) Me 13, 32: Jesús diz ignorar a data do juízo final porque nao
estava no ámbito da sua missáo revelá-la aos homens.

1 "Jesús sabia que era Deus?". Ed. Loyola, 1987, p. 132.

344
María SSma...

A QUARTA PESSOA DA SSMA. TRINDADE?

A revista TUDO, em sua edicao de 15/04/01, publicou o artigo


intitulado "CAMPANHA POR MARÍA", em que ridiculariza o Catolicismo
como se quisesse alterar o dogma trinitario, acrescentando María SSma.
á Trindade Divina. Eis o que ai se lé:

"Pormeio de abaixo-assinados queja conseguiram recolhero apoto


de quase 5 milhóes de católicos em todo o mundo, os fiéis estao pressi-
onandoopapa Joáo Paulo Upara concederá María de Nazaré o título de
co-redentora da humanidade. Isto significa que ela seria oficialmente re-
conhecida como a salvadora dos homens e, como tal, entronizada como
a quaría integrante da Santissima Trindade, que representa a figura de
Deus como Pai, Filho e Espirito Santo" (P. 42).

Que dizer a propósito?

Em resposta afirmamos:

1) Nunca os fiéis católicos pensaram (nem hoje pensam) em alte


rar o dogma da SSma. Trindade. A noticia portanto é tendenciosa e falsa.

2) Na verdade, trata-se de urna questáo ultrapassada desde 1997,


mas maldosamente restaurada por TUDO... Com efeito; ñas últimas dé
cadas registrou-se na Igreja um movimento em favor da definicáo de Maria
SSma. como Co-redentora da humanidade. Tal título estaría baseado no
importante papel desempenhado por María SSma. na obra da Reden-
gao; ela compartílhou muíto intimamente as dores de seu Filho. Esteve á
frente desse movimento o teólogo franciscano Mark Miravalle da Univer-
sídade de Beutenville (Ohio, U.S.A.).
Todavía, depois de bem examinada, a questáo foi posta de lado
por falta de fundamentacáo na Biblia e na Tradicáo. Ademáis o título de
Co-redentora é ambiguo, prestando-se aos mal-entendidos de que a re
vista TUDO, entre outras, se fez arauto. Por conseguinte, nao se pensa,
na Igreja, em definir Maria como Co-redentora; o assunto foi tido como
inoportuno pelo S. Padre baseado no parecer de sabios teólogos.

Explicacóes mais minuciosas encontram-se em PR 425/1997, pp.


445-450.

Mais urna vez se vé como é necessário ter senso crítico diante de


noticias religiosas veiculadas por certos meios de comunicacao.

345
Ser real ou ficcáo mental?

"O GRANDE TENTADOR"

Em síntese: O demonio é um ser real ou um anjo que Deus criou


bom, mas se fechou no pecado da soberba; o Senhor Ihe concede a
autorizagáo de tentar os homens para foríalecer-lhes a virtude ou a fide-
lidade a Deus. A propósito o Cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de
Genova, escreveu um livro intitulado "O Grande Tentador", em que acau
tela os fiéis contra a agáo do Maligno; tal obra pode ser resumida num
decálogo, que o presente artigo transcreve e comenta.
* * *

Por mais que tenha sido esclarecida, volta freqüentemente a per-


gunta: "Existe o demonio? É ser real ou ficcáo da mente? E a possessáo
diabólica é possível?".

Mais urna vez tais questóes foram trazidas á Redacao de PR. Va


mos responder-lhes sucintamente e expor o decálogo do Cardeal
Tettamanzi, que chama a atencao para a atuacáo do demonio nos dias
atuais.

1. A existencia do Maligno

Eis o que ensina o Catecismo da Igreja Católica:

328. "A existencia dos seres espirituais, nao corporais, que a Sa


grada Escritura chama habitualmente anjos, é urna verdade de fé. O tes-
temunho da Escritura a respeito é táo claro quanto a unanimidade da
Tradicao.

330. Enquanto criaturas puramente espirituais, sao dotadas de in


teligencia e de vontade; sao criaturas pessoais e ¡moríais. Superam em
perfeigao todas as criaturas visíveis. Disto dá testemunho o fulgor de sua
gloria".

Seguem-se textos bíblicos relativos aos anjos. Por último, alguns


incisos sobre a queda dos anjos:

391. Por tras da opgáo de desobediencia de nossos primeiros pais


há urna voz sedutora, que se opóe a Deus, e que, por inveja, os faz cair
na morte. A Escritura e a Tradigáo da Igreja véem neste ser um anjo
destronado, chamado Satanás ou Diabo. A Igreja ensina que ele tinha
sido anteriormente um anjo bom, criado por Deus! 'Diabolus enim et allí
daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sedipsi per se factisunt

346
"O GRANDE TENTADOR" 11

mali - Com efeito, o Diabo e outros demonios foram por Deus criados bons
em (sua) natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa'.

392. A Escritura fala de umpecado desses anjos. Esta 'queda'con


siste na opgáo livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e
irrevogavelmente a Deus e o seu Reino. Temos um reflexo desta rebeliáo
ñas palavras do Tentador ditas a nossos primeiros país: 'E vos seréis
como deuses' (Gn 3, 5). O Diabo é 'pecador desde o principio' (Uo 3, 8),
'pai da mentira' (Jo 8, 44).

393. É o caráter irrevogável da sua opgáo, e nao urna deficiencia


da infinita misericordia divina, que faz com que o pecado dos anjos nao
possa serperdoado. Nao existe arrependimento para eles depois da que
da, como nao existe arrependimento para os homens após a morte.

394. A Escritura atesta a influencia nefasta daquele que Jesús cha


ma de 'o homicida desde o principio' (Jo 8, 44), e que até chegou a tentar
desviar Jesús de sua missáo recebida do Pai. Para isto é que o Filho de
Deus se manifestou, para destruir as obras do Diabo' (Uo3, 9). A mais
grave dessas obras, devido as suas conseqüéncias, foi a sedugáo men
tirosa que induziu o homem a desobedecer a Deus.

395. Contudo, o poder de Satanás nao é infinito. Ele nao passa de


urna criatura, poderosa pelo fato de ser puro espirito, mas sempre criatu
ra; nao é capaz de impedirá edificagáo do Reino de Deus. Embora Sata
nás atue no mundo por odio contra Deus e o seu Reino em Jesús Cristo,
e embora a sua agio cause graves danos - de natureza espiritual e,
indiretamente, até de natureza física -para cada homem epara a socie-
dade, esta agáo é permitida pela Divina Providencia, que com vigor e
dogura dirige a historia, do homem e do mundo. A permissáo divina da
atividade diabólica é um grande misterio, mas 'nos sabemos que Deus
coopera em tudo para o bem daqueles que o amam' (Rm 8, 28)".

Concluindo este percurso de textos do magisterio da Igreja, pro


curemos condensar o seu conteúdo em cinco proposicóes:

+)-Os documentos citados convergem em supor a existencia dos


anjos como seres reais, ontologicamente bons, dotados de inteligencia e
vontade, capazes de agir no mundo. Este é um dado de fé. Nao podem
ser entendidos como personificacáo mitológica do bem ou do mal no
mundo.

2) Os anjos dependem de Deus Criador. Foram criados por Deus;


por conseguinte, foram criados bons. Se o diabo é mau, isto se deve ao
fato de que pecou. Afastou-se livremente de Deus condenando-se a es
tar privado de Deus para sempre, pois os seres espirituais (no caso, os
anjos) sao ¡moríais por sua própria natureza.

347
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

3) Por permissáo de Deus, o diabo atua astuciosamente, tentando


levar o homem ao mal, sem poder anular a liberdade humana. O homem,
ao pecar, entrega-se á influencia do Maligno.

4) Cristo Redentor nos resgatou do dominio do Maligno.

5) O Magisterio da Igreja nao se compromete com outras afirma-


cóes, como aquetas atinentes ao tipo de pecado dos anjos maus, ao
número e á hierarquia dos anjos bons e maus, as modalidades de sua
atuacao no mundo. Se alguém deseja ultrapassar os limites dos dados
fundamentáis propostos pelo magisterio da Igreja, "entra, como diz Paulo
VI, num mundo misterioso, marcado por um drama muito infeliz, do qual
pouca coisa conhecemos" (15/11/76).

2. O Decálogo do Cardeal Tettamanzi

Por ocasiáo da Quaresma do ano 2001 o Cardeal-arcebispo de


Genova, Mons. Dionigi Tettamanzi, publicou um livro de 40 páginas
intitulado "O Grande Tentador", em que explana a temática do demonio
em termos claros e simples, comecando pelo relato das tentacoes de
Jesús, lido no 1 ° domingo da Quaresma. Tal escrito causou impacto na
opiniáo pública italiana, que fora abalada por um episodio macabro ocor-
rido em Npvi Liguri: nessa cidade urna adolescente de 16 anos, com seu
noivo, massacrou sua mae e seu irmáo menor num ritual claramente sa
tánico.

As 40 páginas do livro podem ser sintetizadas no Decálogo que


vai, a seguir, transcrito e comentado:

"1. Nao esquecas que o diabo existe, que ele é mentiroso e que
sua primeira mentira consiste em te fazer crer que ele nao existe.

2. Nao esquecas que o diabo é tentador e que todos somos vulne


raveis.

3. Nao esquecas que o diabo é muito inteligente e astuto, como


ocorreu no caso de Adao e Eva, o primeiro homem e a primeira mulher,
que sucumbiram tentados pela serpente.

4. Sé vigilante e forte contra os espíritos do mal que habitam as


regioes celestes.

5. Cré firmemente na vitória de Cristo sobre o tentador, tal como a


descreve o Evangelho.

6. Lembra-te de que Cristo te faz participante da sua vitória pelos


sacramentos e pelos sinais sacramentáis, como a agua benta.

7. Entrega-te á escuta da Palavra de Deus como decorre das res-


postas de Jesús Cristo a Satanás durante os desafios no deserto.

348
"O GRANDE TENTADOR" 13

8. Para vencer a tentacao de escolher o caminho do egoísmo, sé


humilde e pratica a mortificacao, consciente da própria fragilidade, mas,
ao mesmo tempo, confiante no Senhor.

9. Reza sempre sem desfalecer, porque isto leva á Vitoria contra o


Maligno.

10. Adora o Senhor teu Deus e somente a Ele presta culto, intensi
ficando a adoracáo do Deus vivo e verdadeiro, que dará a forca para
vencer a tentacáo que nos atrai para o mal ou para os ídolos vaos e
vazios".

Este interessante texto sugere algumas reflexóes.

3. Comentando...

Procuremos seguir artigo por artigo do decálogo assim proposto.

1. A existencia do diabo é afirmada pela Escritura e a Tradicáo,


como visto atrás. Jesús o chama "o pai da mentira" - o que é muito signi
ficativo:

"Vos sois do diabo, vosso pai, e queréis realizar os desejos de vos-


so pai. Ele foi homicida desde o principio e nao permaneceu na verdade,
porque nele nao há verdade; quando ele mente, fala do que Ihe é próprio,
porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8, 44).

A mais recente mentira do diabo consiste em fazer crer que ele nao
existe, mas é mera ficcáo mental ou a personificagao poética da forca do
mal no mundo.

2.0 demonio é tentador, mas so pode agir por permissáo de Deus,


que tudo dispóe para o bem das suas criaturas; a tentacao pode e deve
fortalecer a fidelidade da pessoa tentada a Deus. Eis o que diz Sao Paulo:

"As tentagóes que vos acometeram tiveram medida humana. Deus


é fiel; nao permitirá que sejais tentados ácima das vossas forgas. Mas,
com a tentagáo, ele vos dará os meios de sairdela e a forga para a supor
tar" (1Cor 10, 13).

3. O demonio, sendo anjo sem corpo, é mais perspicaz do que o


homem. Sabe dissimular-se sorrateiramente e fazer crer que o mal é um
bem e, vice-versa, o bem é um mal. Os primeiros país foram tentados
pela perspectiva de serem ¡guais a Deus, arbitrando entre o bem e o mal.

4. É crenca dos antigos que os espíritos maus habitam o ar ou as


regióes celestes. Tal crenca deriva-se provavelmente da opiniáo dos an
tigos segundo a qual os espíritos governavam os astros e, por eles, todo
o universo. Sao Paulo faz alusáo a tal modo de ver, sem tencionar fazer
dele um artigo de fé. Assim:

349
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

"Vivíeis outrora conforme a índole deste mundo, conforme o Prínci


pe do poder do ar, o espirito que agora opera nos filhos da desobedien
cia" (Ef 2,2).

"Nosso combate... é contra os espiritos do mal que povoam as regi-


óes celestiais" (Ef. 6, 12).
O cardeal Tettamanzi retoma a linguagem de Sao Paulo sem pre
tender dar-lhe sentido dogmático.
5. Cristo venceu o tentador, como Ele mesmo dizia:

"É agora ojulgamento deste mundo, agora o príncipe deste mundo


será langado fora e, quando eu for elevado ácima da térra, atrairei todos
amim"(Jo12,31s).

6. Os sacramentos sao sete sinais sagrados que aplicam a obra da


Redencao a quem os recebe; por eles Cristo continua a exercer seu sa
cerdocio. Quanto aos sacramentáis, sao objetos sobre os quais a Igreja
ora, pedindo a Deus que aqueles que os usarem com fé e devocáo sejam
recobertos de grapas e béncáos; entre tais objetos estáo a agua benta,
que, usada devidamente, pode contar com a eficacia da oracáo da Igreja
(sempre agradável a Deus).
7. A Palavra de Deus é um sacramental; é muito oportuno utilizá-la
no momento da tentac.áo; para tanto muito se recomenda que o cristáo
saiba de cor alguns versículos da Biblia tidos como mais adequados para
afastar o mal da tentacáo.
8. A mortificagáo é muito importante para amortecer as paixóes
que a tentacáo procura despertar. Sao Paulo mesmo confessa:
"Nao sabéis que aqueles que correm no estadio, correm todos, mas
um só ganha o premio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os
atletas se abstém de tudo; eles, para ganhar urna coma perecível; nos,
porém, para ganhar urna coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que
corro, nao ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas nao como quem
fere o ar. Trato duramente o meu corpo e reduzo-o á servidáo, a fim de
que nao acontega que, tendo proclamado a mensagem aos outros, ve-
nha eu mesmo a ser reprovado" (1Cor 9, 24-27).

9. A exortacáo a rezar sem desfalecer nao é rara no Novo Testa


mento:

Le 18,1: "Contou-lhes aínda urna parábola para mostrara necessi-


dade de orar sempre sem jamáis esmorecer".
"Sem jamáis esmorecer" traduz o grego que diz: me enkakein, isto
é, nunca julgar que o kakón ou o mal já venceu, de modo que nada mais
haveria que fazer.

1Ts 5, 17: "Oraisem cessar"

350
"O GRANDE TENTADOR" 15

VeraindaRm1,10;12,12;Ef6,18; Fl 1, 3s; 4, 6; Cl 1, 3.

A oracáo é sempre o primeiro e o último recurso do cristáo.

10. Quem presta culto a Deus ou se familiariza com Deus, aviva


em si o sabor das coisas de Deus, que torna insossas as atracoes do
pecado. O amor do ato pecaminoso ou mau se vence mediante o amor
do bem. O ser humano foi feito para amar; se nao amar ardentemente o
bem, será colhido pelas seducóes do amor do mal.

Assim entendido, o decálogo do Cardeal Tettamanzi vem a ser urna


exortacáo á vigilancia e á sobriedade, para que o cristáo nao seja envolvido
pelas artimanhas do pecado, este se insinúa nem sempre de maneira decla
rada e patente, mas geralmente sob o verniz de urna justificativa "racional".

Á guisa de complemento, vai ainda abordado um aspecto contro


vertido da questáo:

4. Jesús e os exorcismos

Há quem julgue que Jesús e os Evangelistas, ao talar de posses-


sáo, se acomodaram aos conceitos simplórios do povo de sua época,
que atribuía as doencas á interven cao diabólica.

a) Observe-se, porém, que essa acomodacáo equivaleria a confir


mar um erro - e erro importante. Ora Jesús veio precisamente para dar
testemunho da Verdade: "Nasci e vim a este mundo, para dar testemu-
nho da verdade. Todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz" (Jo
18, 37; cf. 14,6).

Jesús se encarregava de dissipar as ilusóes de seus discípulos


nao só no tocante as expectativas messiánicas, mas também em outros
setores. Tenha-se em vista de modo especial o caso do cegó de nascen-
ca: os discípulos perguntaram ao Senhor se ele ou os país dele haviam
pecado, de modo a explicar a cegueira em foco; Jesús entáo dissipou o
erro comum segundo o qual toda doenca era conseqüéncia de um peca
do pessoal ou da familia do enfermo; cf. Jo 9,1-3. Ora Cristo, que em tal
caso assim procedeu, nao teria confirmado sistemáticamente urna cren-
9a popular errónea concernente á possessáo diabólica.

b) Mais ainda: quando os fariseus acusaram o Senhor de expulsar


demonios em nome de Beelzebul, Jesús, longe de replicar que a crenca
em exorcismos era coisa vá ou destituida de fundamento real, muito ao
contrario reivindicou para si o poder decisivo e absoluto de exorcizar; em
suas palavras, nada transpareceu que fosse atenuacao do estrito con-
ceito de exorcismo e, conseqüentemente, de possessáo diabólica (cf. Le
11, 17-22; Me 3, 23-27; Mt 12, 25-29).

c) Observemos também que Jesús procede muito diversamente


em presenca de um doente e em presenca de um possesso, mesmo

351
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

quando doentes e possessos apresentam os mesmos síntomas; tenha-


se em vista, por exemplo, a cura do surdo-mudo em Me 7, 32-35 e o
exorcismo aplicado ao possesso mudo em Me 9, 17-29. Ao doente o
Senhor se apresenta como médico compassivo, que Ihe dirige a palavra
e pratica gestos simbólicos sobre o mesmo (coloca-lhe os dedos nos
ouvidos e toca a língua do enfermo); vejam-se também o caso do cegó
de Betsaida em Me 8, 22-26 e do servo paralítico do centuriáo de
Cafarnaum em Mt 8, 5-13. Ao contrario, diante do possesso Jesús se
volta contra um ser malfazejo oculto, que é claramente designado como
causador do estado patológico (cf. Me 9, 25s). Em outros casos de pos
sessáo, Jesús é interrogado pelo Maligno (cf. Me 1, 24; 5, 6-8) e final
mente expulsa-o (cf. Me 1, 26; 5,13). As vítimas sofrem, pela última vez,
toda a furia impotente daqueie que as possui (cf. Me 1, 26; 9, 26), mas
esta tem que ceder á poderosa e definitiva ordem do Senhor.

Eis por que nao se poderia, sem trair as normas da exegese sere
na e objetiva, negar a realidade da possessáo diabólica nos Evangelhos:
"Todas essas afirmacóes dos Evangelhos tornam impossível ao exegeta,
e mesmo ao historiador consciencioso, por em dúvida a realidade da
possessáo diabólica" (J. B. Bauer, "Dicionário de Teología Bíblica", II, Sao
Paulo 1973, verbete "Possessáo", p. 874).

Parece oportuno transcrever também a posícáo de De Fraine no


verbete "Possessos" de "Dicíonário Enciclopédico da Biblia" de A. van
den Born, Petrópolis 1971, col. 1204:

"Os exegetas racionalistas tentaram dar urna explicagáo natural da


possessáo e dos exorcismos (como histeria ou epilepsia). Contra tal po-
sigao estabelecemos o seguinte:

As narrativas evangélicas sobre possessóes e exorcismos nao sao


religiosamente neutras; tém, pelo contrario, um significado importante na
soteriologia do Novo Testamento, conforme o próprio Jesús indica na
perfeope sobre Beelzebu (Mt 12, 22-30). Acusado de magia, como se
expulsasse os espíritos maus por urna alianga com Satanás (cf. também
Jo 8, 48; 10, 20), Jesús declara que os espíritos maus formam um Reino
organizado sob Satanás, contra Deus, mas que na sua pessoa apareceu
o Reino de Deus. Ele é mais poderoso do que Satanás e poe termo a seu
dominio imperturbado. As expulsoes de demonios inauguraram, portan-
to, o triunfo de Jesús sobre o 'Príncipe deste mundo'. Essas idéias per-
tencem, como hoje é umversalmente admitido, as carnadas mais antigás
da tradigáo sinótica".

É de grande peso também o testemunho do teólogo alemáo Michael


Schmaus, que em 1969 publicou um compendio de Teología Sistemática
intitulado "Der Glaube der Kirche" (A Fé da Igreja) em dois volumes. Nes-
ta notável obra, lé-se o seguinte:

352
"O GRANDE TENTADOR" 17

"Alguns quiseram entender o comportamento de Cristo (exorcista)


como adaptacáo as opinlóes do povo ou como sinal de falta de conheci-
mentos médicos. Na verdade, a possessáo diabólica em multos casos se
manifesta como certas doencas. Nao é possível constatar com certeza a
possessáo apenas mediante recurso a criterios naturais. Todavía, para o
fiel crlstáo, Cristo é o ponto de referencia do seu modo de pensar e julgar.
Por muito estranhos que, á prlmeira vista, Ihe parecam os exorcismos, o
cristáo submete seu juízo ao juízo de Cristo, que é o fundamento do seu
modo sobrenatural de ser, pensar e viver... Está fora de propósito tentar
entender o comportamento de Jesús como acomodacáo á mitología dos
demonios da época, pois a luta contra o demonio está Intimamente
entrelazada com a mlssáo de Jesús. Cristo afirma freqüentemente que
ele veio nao apenas ensinar urna nova doutrina, mostrar um caminho,
trazer nova vida, mas veio também quebrar urna Potencia pessoal má,
que é contraria a Deus. Nao se deve esquecer que Jesús nao aplicou
prátlcas de magia, mas imperou ao Maligno com urnas simples palavras"
(vol. I, 1§ ed., p. 428).

Em conclusáo, diremos: dentro das reservas que a prudencia ¡m-


poe, a S. Igreja admite casos de possessáo diabólica, os quais em geral
ocorrem associados a doencas nervosas mais ou menos declaradas. A
mesma S. Igreja reconhece que, em épocas passadas, houve quem, com
demasía facilidade, apelasse para intervencóes demoníacas a fim de
explicar fenómenos extraordinarios (tenham-se em vista principalmente
as "historias de bruxas", muito em voga nos fins da Idade Media). Em
nossos dias o demonio nao é menos atívo no mundo do que outrora;
somente sua acáo é mais dissimulante... Um de seus malores triunfos é
justamente o de fazer crer que ele nao existe; em conseqüéncia, ele age
de maneira mais livre e mais natural!
Estas reflexóes levam-nos a ver que os fiéis cristáos nao se devem
preocupar tanto com manlfestacóes extraordinarias do psiquismo huma
no, como se tivessem caráter sobrenatural ou teológico; geralmente tais
manifestacóes sao fenómenos parapsicológlcos ou psicopatológicos. O
que ao crlstáo deve importar, é o curso cotidiano da vida pessoal e social
em nossos dias; certas iniciativas e realizacóes que se váo tornando cada
vez mais naturais, tém, na verdade, um cunho satánico ou diabólico: te
nham-se em vista, por exemplo, a tendencia a relativizar e mesmo con
fundir o bem e o mal, a honestidade e a desonestidade, o respeito e o
deboche; o processo de Iavagem de cránio, os regimes dos campos de
concentracáo, o desafio do homem a Deus e aos valores mais arraiga
dos na natureza do homem (familia, fidelidade conjugal, amor entre pais
e filhos, etc.). Se a onda de satanismo que hoje atormenta muitas pesso-
as, tivesse por efeito alertar os cristáos para a necessidade de maior
vigilancia no setor da moral e dos bons costumes, essa onda seria um
mal que teria redundado para o bem!

353
Novas interpretares:

ADAO E EVA EXISTIRÁN! VERDADEIRAMENTE?

O livro do Génesis, em seus tres primeiros capítulos, usa de lin-


guagem figurada para enunciar verdades perenes. Visto que já temos
comentado tal materia repetidamente1, limitar-nos-emos abaixo a res
ponder estritamente á questáo do título deste artigo, questáo alias fre-
qüentemente formulada e nem sempre devidamente elucidada.

Eis o que se deve guardar a propósito:

1) O Senhor Deus criou o ser humano masculino e femihino (sem


que esteja excluida a evolucáo da materia preexistente até chegar ao
grau de complexidade do corpo humano);

2) o Senhor concedeu aos primeiros pais urna especial graca espi


ritual chamada "justica original", que conferia ao homem eminente digni-
dade;

3) conseqüentemente o Criador indicou aos primeiros pais um


modelo de vida, figurado pela proibicáo de comer a fruta da árvore da
ciencia do bem e do mal. Já que o homem era elevado a especial comu-
nháo com Deus, devia comportar-se nao simplesmente de acordó com
seu bom senso ou suas intuicoes racionáis, mas segundo as normas
correspondentes á sua dignidade de filho de Deus;

4) o homem, por soberba, disse Nao a esse modelo de vida ou ao


convite do Criador, perdendo assim a justica original.

Pois bem. Adáo e Eva representam o ser humano assim tratado


por Deus. Sao táo reais quanto é real o género humano. Deus se apre-
sentou ao homem ñas suas origens, ... ao homem real e nao a um ser
ficticio. Verdade é que Adao e Eva sao nomes de origem hebraica; nao
podem ser os nomes dos primeiros seres humanos, mas representam os
primeiros seres humanos.

Há quem indague a respeito do aspecto físico dos primeiros ho-


mens: eram belos, como dáo a entender certos quadrinhos e filmes
catequéticos?

1 VerPR 390/1994, pp. 521 ss; 343/1995, pp. 55s; 425/1997, pp. 442ss.

354
ADÁO E EVA EXISTIRÁN/! VERDADERAMENTE?

Respondemos que a tradicáo judaico-cristá sempre julgou que os


primeiros pais eram dotados de harmonía ou beleza física corresponden
te as riquezas sobrenaturais de sua alma; teráo perdido esse encanto
após o pecado, gerando entáo urna estirpe caracterizada por traeos
somáticos primitivos e cultura rudimentar; tal é, sim, a linhagem de que
nos falam os fósseis. - Contudo nao há necessidade de admitir que Adáo
tenha sido físicamente maís belo e culturalmente mais evoluído do que
os demais homens da pré-hístória; pode-se muito bem conceber que os
dotes de alma que ele possuía, nao se espelhavam sobre o seu corpo; a
manifestacao desses dons estava condicionada á perseveranca de Adáo
no estado de inocencia. O primeiro pai, porém, nao perseverou; por ¡sto,
nao se terá diferenciado, no plano meramente natural, dos demais ho
mens pré-hístóricos.

Nao se deve acentuar exageradamente a perfeicáo do estado pri


mitivo da humanidade dito "de justica original". Terá sido um estado dig
no de todo apreco, mas do ponto de vista religioso e moral apenas, nao
sob o aspecto da civilizacáo ou da cultura. Os primeiros homens de que
fala o Génesis, podem muito bem ter tido a configuracáo rudimentar e
grosseira de que dáo indicios os fósseis da pré-história; nao é necessá-
rio que hajam vivido de modo diferente daquele que conjeturam as cien
cias naturais. Mesmo as idéias religiosas de Adáo poderáo ter sido pu
ras, sim, mas sob a forma de intuicóes concretas semelhantes as dos
povos primitivos e das enancas; nao se tratava de altos conhecimentos
teológicos. - Vé-se, pois, que as clássicas descricoes do "paraíso terres
tre" nao devem em absoluto ser identificadas com a doutrina da fé.

355
Milagre inédito?

O MAR VERMELHO SE ABRIU REALMENTE?

Em síntese: A passagem de Israel pelo Mar Vermelho ao fugir do


Egito é explicada hoje em día com os recursos da arqueología. Com efei-
to; sabe-se atualmente que no Norte do Mar Vermelho havia outrora um
vau ou um trecho raso transitável a pé enxuto quando a maré baixava.
Ora pode-se crer que o Senhor Deus tenha provocado a abertura desse
vau precisamente na noite em que os israelitas fugiam dos egipcios e o
terá fechado logo após a passagem de Israel. A sadia exegese ensina
que, antes de procurar explicagóes milagrosas, devemos levar em conta
os dados das ciencias naturais para explicar os textos bíblicos.
* * *

Um jovem leitor pergunta a PR se o Mar Vermelho se abriu real


mente para deixarpassaros israelitas. Os desenhos de livros catequéticos
apresentam urna estrada entre duas paredes de agua, pela qual teria
passado o povo de Israel.

A seguir, proporemos objetivamente o teor de Ex 14,5-31, ao qual


se seguiráo comentarios.

1. O texto bíblico (Ex 14, 5-31)

O texto sagrado refere que, após a décima praga, Faraó, aterrori


zado, nao somente permitiu, mas ordenou, deixassem os israelitas o Egito.
Estes, pois, levando mulheres, criancas, gado e demais haveres, se reti-
raram em caravana na direcáo do Oriente. Chegando, porém, as mar-
gens do mar Vermelho, viram-se em graves apuros, que Ihes teriam acar-
retado a morte, nao fóra urna intervencáo extraordinaria de Deus.

Com efeito, após as primeiras etapas dos emigrantes, Faraó, arre-


pendido da concessáo, resolveu ir-lhes ao encalco. Alcanijou-os perto do
Mar, de sorte que a multidáo israelita se viu comprimida entre as aguas,
de um lado, e as tropas inimigas, do outro.

Como escaparía ao perigo ¡mínente?

O Senhor fez que a coluna de nuvem que antecedía Israel, se colo-


casse entre este e o exército egipcio, causando opacidade entre os dois
acampamentos. A seguir, Moisés, a mandado de Javé, estendeu a máo
sobre o mar; um vento impetuoso de leste pós-se a soprar durante urna
noíte inteira, de modo a formar no meío das aguas um corredor. Era a

356
O MAR VERMELHO SE ABRIU REALMENTE? 2M

oportuna válvula de salvacáo...; sem demora, os israelitas por ele enve-


redaram, passando o mar a pé totalmente enxuto! Quando os soldados
de Faraó perceberam que os fugitivos se haviam lancado na direcáo do
mar, seguiram-lhes as pegadas, entrando no corredor aberto. Eis, po-
rém, que ao despontar do dia, Moisés, por nova ordem do Senhor, mais
urna vez estendeu a máo sobre as aguas, que entáo se fecharam sobre
a tropa de egipcios, fazendo perecer os perseguidores.

Como se há de entender essa narrativa?

Do texto sagrado se poderia inferir que o Senhor, dividindo o Mar


Vermelho, realizou um prodigio totalmente insólito ou alheio á natureza
dos elementos.

Pergunta-se, porém, se o texto bíblico insinúa de fato táo extraordi


naria ¡ntervencáo da Onipoténcia divina.

2. A exegese contemporánea

Competentes estudiosos afirmam que nao somente o livro sagra


do, mas também os vestigios de arqueología levam a concluir que a divi-
sáo do Mar Vermelho se deve a urna concatenacáo de causas naturais,
só tendo de extraordinario as circunstancia (hora, duracáo...) em que se
verificou. Eis como se explicam tais autores:

Nos tempos pré-históricos comunicavam entre si os Mares Medi


terráneo e Vermelho, os quais só aos poucos foram sendo separados
pelo istmo de Suez. Na época de Moisés (ca. 1240 a.C), julga-se que o
Mar Vermelho se prolongava ainda até os Lagos Amargos e talvez o Lago
de Timsah (situados hoje no referido istmo); o porto de Colzum, donde na
Idade Media partiam as naves para a india, é hoje um acervo de ruinas
situadas a dez quilómetros do litoral. Nesta sua extremidade setentrional
o mar, que tendía a recuar, nao devia ser muito profundo. Há decenios
atrás, Bourdon, oficial de marinha francés encarregado durante muitos
anos do servio do canal de Suez, descobriu vestigios de urna estrada
que, passando pelo Egito, desembocava num vau ainda hoje existente
na parte meridional dos Lagos Amargos, e se prolongava do outro lado
das aguas; em territorio egipcio, ou seja, ao pé do Djebel (monte) Abu
Hasa, o mesmo explorador encontrou as ruinas de um edificio que, con
forme as ¡nscricóes, era simultáneamente templo religioso e fortim mili
tar; esta construcáo, situada ñas proximidades da estrada e do vau refe
ridos, devia servir para proteger a fronteira, impedindo entrassem na tér
ra do Faraó invasores indesejáveis, e reabastecer as caravanas que do
Egito se dirigiam as minas do Monte Sinai.1

Ver o mapa á p. 360.

357
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

Tais descobertas levam a admitir que, nos tempos de Moisés, ha-


via urna passagem através das aguas que entáo constituíam o Mar Ver
melho, passagem cuja utilizacáo dependía das circunstancias de ventos,
mares, etc. Ora o texto bíblico insinúa que o éxodo dos israelitas se fez
por um vau. Sim; o fato de que os egipcios se precipitaran! aguas a den
tro, supóe que nao tinham a travessia na conta de coisa ¡mpossível; devi
am julgar que a passagem se tornara praticável naquela ocasiáo; e com
razáo, visto o vento impetuoso que, de leste soprando sobre as aguas,
era bem capaz de nelas abrir um corredor.1 O que os egipcios ignoravam
- ¡ncorrendo por isto num erro fatal - era o modo maravilhoso como se
tornara transitável o vau: o vento fora suscitado por Deus no momento
favorável a Israel, e deixaria de soprar logo que o povo eleito o pudesse
dispensar (sabe-se, alias, que o sirocco da Arabia, o vento quadim, co-
meca de imprevisto e cessa também repentinamente).

A seguinte observacáo parece do seu modo insinuar que a traves


sia se fez pela parte setentrional do mar, parte que atualmente já nao
existe: o texto bíblico fala de passagem do "Mar dos Juncos", nao do
"Mar Vermelho", em trechos como Js 2, 10; SI 105, 7.9.22; 135, 13. Ora
as margens do Mar Vermelho nao se encontra o arbusto do junco; disto
se poderá deduzir que se desenvolvía outrora junto ás aguas que prolon-
gavam o hodierno Mar Vermelho e deviam constituir propriamente o Mar
dos Juncos.2

Nao se creia que no desastre hajam perecido todo o exército do


Egíto e o Faraó. O texto de Ex 14, 7 refere ter-se feito urna selecáo de
armas e guerreiros para constítuírem a tropa perseguidora; talvez pouco
mais de mil carros armados hajam sido tragados pelas aguas. Quanto ao
monarca, é possível que tenha tomado parte na expedicáo; o texto bíbli
co, porém, nao o diz (cf. Ex 14, 23.26.28; 15, 4).

1 Eis verbalmente o parecer de Bourdon:


"Julgamos que em tempos históricos, mais precisamente: na época do éxodo, ha-
via entre o leito atual dos Lagos Amargos e o fundo do golfo de Suez urna comunica-
gao precaria sem dúvida, interminente talvez conforme a altura media das aguas do
mar - o que basta para que a travessia dos israelitas conserve todo o seu caráter
milagroso -, suficiente para criar entre ó Egito e o deserto de leste um obstáculo
importante. Nao existia passagem através dessa rede de lagos, lagunas, cañáis e
pantanos senáo pelo vau de Suez (entre Tell Colzum e a cidade de Suez contempo
ránea), vau aínda utilizado em nossos tempos (é a passagem principal), ou pelos
vaus do pequeño Lago Amargo na vizinhanga da atual extremidade meridional deste
último." Texto citado por G. Ricciotti, Histoire d'lsrael, I, 220s.
2 Cf. W. Ketler, Unddie Bibelhat doch Recht! (Dusseldorf, 1955), 120.

358
O MAR VERMELHO SE ABRIU REALMENTE? 23

Um ou outro exegeta1 tenta de certo modo ilustrar a passagem,


recordando o seguinte episodio da historia profana:

Ñas famosas guerras púnicas entre Roma e Cartago (264-146 a.C),


o chefe romano Cipiáo dito "o Africano" conseguiu entrar em Cartago por
um lado da cidade contiguo a urna laguna; já que as aguas pareciam
constituir obstáculo natural aos invasores, os cartagineses nao se preo-
cuparam com a defesa dessa zona. Ora aconteceu que um vento inespe
rado removeu as aguas e permitiu que quinhentos soldados romanos
tivessem acesso a Cartago (cf. Tito Livio, Historiar. 1.26,46; Políbio 10
4s).

O episodio é significativo; contudo nao se Ihe pode atribuir grande


peso na exegese do Éxodo, se se tém em vista os termos muitos sobrios
com que os historiadores greco-romanos se referem ao assunto.

APÉNDICE
MAPA ILUSTRATIVO DA TRAVESSIA DO MAR VERMELHO

Eis como o Comandante Bourdon reconstituí a serie dos aconteci-


mentos concernentes á passagem do Mar Vermelho explícitamente assi-
nalada no quadro da p. 359:

Os israelitas, deíxando Ramsés, cidade situada sobre um dos bra


cos orientáis do Nilo, dirigiram-se para Etham, com a intencáo de seguir
a estrada direta para a Palestina (Canaá). O Senhor, porém, deu-lhes
ordem para que retrocedessem (cf. Ex 13,17; 14,2). Desceram entao ao
longo da margem ocidental do Grande Lago Amargo, passando ao pé do
Djebel (Monte) Geneffeh, e acamparam junto ao fortim ou Migdol, posto
diante de Beelsephon e do Djebel Abu-Hasa. O exército egipcio se apro-
ximou, visando cortar aos israelitas o caminho para o Sul. Em conseqü-
éncia, a nuvem que acompanhava o povo de Deus, se colocou entre os
dois acampamentos e os filhos de Israel entraram pelo Pequeño Lago
Amargo, que naquela época era um prolongamento do Mar Vermelho.
Seguiram-nos através das aguas os egipcios, mas debalde...

Cf. R. P. Tellier, Atlas historique de i'Anden Testament (Paris, 1937),


24.

1 Cf. Heinisch, Das Buch Exodus, 120, autor que apela para H. H. Scullard, "The
passage ofthe RedSead", em Expository Times, 42 (1930-31), 55-61.

359
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

360
Historia real ou parábola?

LIVRO DE JOÑAS: COMO O ENTENDER?

Em síntese: A exegese católica contemporánea vé serias razóes


para atribuir ao livro de Joñas as características de urna parábola; na
verdade, o livro é urna tessitura de prodigios tais e táo numerosos que
parecem fugir aos sabios trámites da Providencia Divina. Conseqüente-
mente o livro é tido como urna parábola, na qual Joñas representa o ju-
deu nacionalista posterior ao exilio (587-538 a.C), que espera a puni-
gáo, e nao a salvagáo, para os povos pagaos; Deus corrige Joñas levan-
do-o a pregar aos ninivitas, que se convertem; Joñas pranteia tal conver-
sáo, mas o Senhor Ihe explica que Ele a quer, porque é misericordioso.
* * *

O livro de Joñas suscita varias ¡ndagacóes, dado o seu caráter al


tamente portentoso; será que Joñas esteve realmente tres dias no ventre
de urna baleia, cantando e louvando ao Senhor?

Em vista das hesitacóes existentes a respeito de tal livro, passa-


mos a analisar o problema, as principáis solucóes que se Ihe tém propos-
to e o significado perene do livro.

1. Os dados do problema

O opúsculo de Joñas, embora colocado entre os escritos proféti-


cos, nao contém oráculos como estes, mas a seguinte narrativa:

Joñas (= Pomba), israelita filho de Amati, foi pelo Senhor enviado a


pregar penitencia em Nínive, cidade paga. Intencionando, porém, tugir a
esta missáo {já que nao quería promover a conversáo dos gentíos), em-
barcou para Tarsis, cídade situada nos confins do mundo entáo conheci-
do (1, 1-3). Durante a viagem, excitou-se violenta tempestade; os tripu
lantes, entáo, por meio de sortes, chegaram á conclusao de que Joñas
Ihes atraía a cólera de Deus e, com o consentimento do profeta mesmo,
o atiraram ao mar (1, 4-16). Tragado por um peixe. Joñas julgou-se salvo
do naufragio e cantou ao Senhor um hiño de acáo de grapas; após tres
dias, foi, de fato, restituido incólume á térra pelo monstro (2, 1-11). A voz
divina, entáo, enviou-o de novo a pregar penitencia em Nínive; ao que
Joñas, desta vez, obedeceu. Tal sucesso teve que toda a cidade paga se
converteu e foi poupada dos castigos que a ameacavam {3, 1-10). O
pregador irritou-se com isto e pediu ao Senhor Ihe tirasse a vida; Deus,
porém, o repreendeu por meio de um episodio simbólico: em urna noite

361
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

fez crescer por sobre a cabeca de Joñas deitado um pé de hera, trepa-


deira que, durante o dia, o protegía contra os raios do sol; em outra noite
0 Altíssimo destruiu a planta; com esta perda Joñas se entristeceu, e da
sua tristeza valeu-se o Senhor para lembrar-lhe o pesar que poderia o
próprio Deus conceber pela perda de Nínive (4, 1-11).

Os Nvros sagrados nada ma¡s referem sobre a vida deste israelita.


Apenas em 1 Rs 14,25 encontra-se a mencáo de um profeta chamado Joñas,
filho de Amati, que predisse ao re¡ JeroboSo II (787-46), da Samaría, as suas
vítórias sobre os povos vizinhos; parece ser o herói da historia ácima.

A respeito, pois, do episodio de Joñas, pergunta-se, desde antigos


tempos, qual o sentido que se Ihe deve atribuir. Já no séc. V Santo Agos-
tinho referia que os fiéis ¡ndagavam "o que devemos pensar de Joñas, do
qual está dito que passou tres dias no ventre de um peixe; coisa... a que
nao se pode dar crédito". E acrescentava: "Observei que esta questáo é
escarnecida pelos pagaos com veeméncia e muita galhofada."1

2. As diversas sentencas

2.1. A interpretado estritamente histórica

A tradicáo dos judeus e de numerosos escritores cristáos afírmava


a plena historícidade do livro de Joñas, por muito maravilhoso que pare-
9a o seu conteúdo. Nao seriam nem a índole nem o número dos prodigi
os descritos que levariam o cristáo a duvidar da verossimilhanca do epi
sodio; Deus os pode muito bem ter suscitado, visto nao ¡ncluírem absur
do em si mesmos. Pelo que S. Agostinho acertadamente dizia: "Ou se
deve negar fé a todo e qualquer milagre de Deus ou nao se tem motivo
para a denegar a este (episodio de Joñas)"2.

Aínda hoje intérpretes católicos, com alguns protestantes, mantém


esta sentenca. Levam-nos a isto o estilo narrativo, aparentemente histó
rico, do livro, também a autoridade dos Padres antigos, e ainda, de modo
particular, as palavras de Cristo em Mt 12, 39-42 assim concebidas:

"Urna geragáo má e adúltera pede um sinal;1 nao Ihe será dado


outro sinal senáo o do profeta Joñas. Como Joñas esteve tres dias e tres
noites no ventre do peixe, assim o Filho do homem estará tres dias e tres

1 Epístola 102, 30.


S. Jerónimo, no prefacio ao seu comentario de Joñas refere:
"Sei que os antigos homens da Igreja, tanto os latinos como os gregos, disseram
muita coisa sobre este livro; com tantas sutilezas, nao esclareceram, mas, ao contra
rio, dificultaram o entendimento do livro, de sorte que as ¡nterpretagóes quepropuse-
ram, ainda precisam de interpretagáo; acabando de lé-las, o leitorse acha em maio-
res dúvidas do que antes" (PL 25, 117).
2 Epístola 102, 31.
3 A saber, da Divindade de Jesús (Nota da Redagáo).

362
LIVRO DE JOÑAS: COMO O ENTENDER? 27

noites no seio da térra. Os Ninivitas se levantaráo no dia dojuízo contra


esta geracáo e a condenaráo, porque fizeram penitencia á pregagáo de
Joñas, e eis que aqui está mais do que Joñas. A rainha do Meio-Dia
(Sabá) se levantará no dia dojuízo contra esta geragáo e a condenará..."
(cf. Le 11, 29-32).

Deste testemunho concluem que, assim como o sepultamento de


Cristo no seio da térra constituí um fato real, assim a permanencia de
Joñas no ventre do peixe, tipo para o qual aceña Jesús, deve ter sido um
acontecimento histórico. A conclusao parece corroborada pela circuns
tancia de que o Senhor, logo após o episodio de Joñas, menciona o da
rainha de Sabá em vista ao rei Salomáo, episodio este de cuja realidade
nao resta dúvida.

Todavía os modernos fautores da historicidade do livro de Joñas


usando de sadio senso crítico, nao deixam de fazer algumas observa-
cóes á exegese anterior:

a) o canto de agradecimento de Joñas no ventre do peixe, (c. 2),


dadas as estranhas circunstancias em que é apresentado, pode ser sim-
plesmente urna ¡nterpolacáo literaria ou, caso de fato se deva a Joñas,
terá sido proferido depois que este saiu do mar;

b) a conversáo da opulenta cidade de Nínive, a respeito da qual


guardam inexplicável silencio as outras fontes da historia, terá sido de
pouca duracáo e facilitada por fenómenos extraordinarios que afetaram
a Assíria em meados do séc. 89 (época de Joñas): a peste de 765 a 759,
um eclipse total do sol em 763, freqüentes guerras, revolucóes;

c) o autor do livro nao é o próprio Joñas,1 mas um redator bem


posterior ao exilio babilónico {séc. 69 a.C). Com efeito, o estilo de Joñas
é de época tardía; apresenta aramaísmos e neologismos, á semelhanca
dos últimos livros do Antígo Testamento. Em 3, 3 lé-se: "Nínive era urna
grande cidade... de tres dias de marcha, e nao: "Níníve é...", o que supóe
a destruicáo da capital assíria em 612 e as hipérboles com que a imagi-
nacáo popular ornamenta feítos ou objetos passados. O redator, porém,
terá utilizado algum documento mais antigo, pois, após a queda de Nínive,
difícil seria chegar ao conhecimento do episodio, caso nao tivesse sido
consignado por escrito.

Pode-se notar ainda que alguns exegetas querem ¡lustrar a


historicidade do livro de Joñas, evocando a seguinte narrativa:

Em fevereiro de 1891, o baleeiro Star of the East achava-se ñas


proximidades das ilhas Malvinas ou Falkland, quando os pescadores

1 Embora Joñas venha enumerado numa serie de escritos que tém por autores os
profetas que os intitulan).

363
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

perceberam a existencia de urna baleia a cinco quilómetros de distancia.


Na caca entáo dada ao animal, verificou-se o desaparecimento de um
dos homens, a saber, James Bartley. Após algumas horas de combate,
porém, a baleia morta cala em poder dos marujos, que logo se puseram
a dissecá-la. Grande foi a sua surpresa quando, dentro do estómago da
presa, encontraram o companheiro encolhido e desmaiado! Com a devi
da medicacáo, este recuperou os sentidos, mas ainda sofreu das facul-
dades mentáis por duas semanas. A pele Ihe fora alterada pela acáo dos
sucos digestivos do animal; rosto, pescoco e máos eram semelhantes a
pergaminho muito alvo. Bartley mais tarde contou suas ¡mpressoes: lem-
brava-se de que, do bote em que se achava, caira no mar; ouviu um
tremendo sibilar, que Ihe parecía devido á percussáo das aguas pela cauda
da baleia; e sentiu-se envolvido por densas trevas; a seguir, teve a ¡m-
pressáo de ser impelido por um canal escorregadio, nao muito longo,
que o levou a um recanto mais ampio; procurava agarrar-se as paredes,
mas de cada vez topava com urna massa que se encolhia ao contato. Por
fim, percebeu que a baleia o havia tragado, e foi tomado de espanto;
podia respirar, sim, mas o calor incomodava-o terrivelmente (o sangue
da baleia é dois graus e meio Celsius mais quente que o do homem); os
poros pareciam rebentar-lhe e deixar evaporar-se a vida do corpo. Sem
esperanca de escapar, contava com a morte certa, quando perdeu os senti
dos, só os recuperando a bordo, na cabine do capitáo, onde estava sendo
medicado. Bartley, após urna cura de tres semanas, voltava ao trabalho.

Transcrevemos este caso da revista Theologisch-praktische


Quartalschríft 85 (1932) 829-32, sendo o autor da comunicacáo Joachim
Mayr. Este, por sua vez, a deve ao livro de famoso engenheiro inglés
Francis Fox: Sixty-three years of Engineering, pp. 295ss, publicado em
1924. Fr. Fox assegura existirem dois relatos do episodio: um devido ao
capitáo do navio, outro a um de seus oficiáis; acrescenta que o caso foi
examinado por dois dentistas peritos, um dos quais era M. de Parville, de
cujos documentos Fox hauriu as informagóes que transmite.1

1 Eis como um autor do século passado procurava comprovar a verossimilhanca da


historia de Joñas:
"Pode-se imaginar que Joñas tenha podido viver tres días e tres noites sem comu-
nicagáo alguma com o ar? Ainda que pouco adiantada nessa direcao, a ciencia nos
fornece os elementos para afirmar que isto nao era impossível. A posigáo de Joñas
pode ser comparada á de urna crianga no seio materno. A posigáo de Joñas também
pode ser comparada, com grande verossimilhanca á dos sapos que permanecem
dentro de fendas depedras muito duras e que podemos versair vivos após centenas
ou milhares de anos. Um episodio desse tipo muito memorável foi submetido ao
jutgamento da Academia das Ciencias e foi, na sessáo da segunda-feira 4 de agosto
de 1851, o tema de um solene relatório" (Moligno, Les splendeurs de la foi III,
1881).

364
LIVRO DE JOÑAS: COMO O ENTENDER? 29

2.2. A ¡nterpretacáo parabólica

Reconsiderando os dados do problema, autores recentes, entre os


quais católicos de reconhecido valor, preferem entender o livro de Joñas
como urna parábola, ou seja, narrativa ficticia com finalidade didática.
Este género literario é justamente regido pela tendencia a acentuar cer-
tos tragos, exagerar a dificuldade das situacoes, por vezes mesmo além
do verossímil, em vista da impressáo final e da licáo moral a serem
inculcadas.

E quais os argumentos para que apelam tais estudiosos?

a) Aos católicos nao é certamente o receio do sobrenatural que


impele a tal tese; é apenas o caráter artificioso da narrativa que os leva a
duvidar da historicidade da mesma. Com efeito, os portentos narrados
em Joñas nao Ihes parecem proporcionados á finalidade que Deus por
meio deles intencionaria. A Providencia costuma dirigir a vida dos ho-
mens utilizando o curso ordinario da natureza e só derrogando a este por
motivos proporcionalmente graves. Ora, de um lado, observa-se que os
milagres constituem como que a trama do livro de Joñas: a tempestade
se levanta subitáneamente, as sortes designam justamente o profeta como
culpado, o mar se acalma logo depois que este é atirado ás ondas; o
peixe é enviado por Deus, o herói preservado ñas entranhas do monstro,
onde canta poéticamente ao Senhor; a seguinte pregacáo de Joñas ob-
tém extraordinario resultado; o pé de hera surge em urna noite sobre a
cabeca do profeta e em outra noite perece. De outro lado, porém, nao se
vé a razáo de ser de tantas intervencóes extraordinarias da Onipoténcia
Divina na missáo de Joñas; principalmente os milagres produzidos no
mar, por seu caráter mais gratuito, se deixam difícilmente conciliar com a
Sabedoria de Deus. Quanto á conversáo de Nínive, tal como narrada,
seria um dos acontecimentos mais estupendos da historia religiosa: difí
cilmente se poderia imaginar terreno menos acessível á verdadeira reli-
giáo do que a populacáo da capital assíria; nao obstante, reí e súditos
(inclusive o gado) subitáneamente se haveriam sujeitado a rígida peni
tencia, ouvindo a pregacáo de um estrangeiro recém-vindo. E disto nada
teria ficado consignado nem na literatura israelita (fora de Joñas) nem na
assíria!

b) Além disto, a consideracáo das fontes do livro de Joñas insinúa


aos intérpretes que um bom conhecedor das Escrituras escolheu nos
livros sagrados anteriores os traeos marcantes com os quais forjou a
historia de Joñas, a fim de inculcar urna tese teológica preconcebida. As
principáis destas fontes seriam:

1Rs 18s: Elias, depois do morticinio dos profetas de Baal, fugiu


para o deserto, a fim de evitar a vinganca de Jezabel; desanimado, dei-

365
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

tou-se debaixo de urna árvore e pediu ao Senhor a morte; o que se repro-


duz com tragos semelhantes em Joñas (cf. 1Rs 19, 4 e Jn 4, 3). Notem-
se aínda os paralelos: a árvore de junípero (1 Rs 19,4) e a hera (Jn 4, 6),
sob as quais se assentam os dois heróis; a caverna (1 Rs 19,9) e a tenda
(Jn 4,5), em que se refugiam; a resposta encorajadora do Senhor a cada
um dos dois profetas (1Rs 19, 7.11.15-18; Jn 4, 4.10s);

Jr 18, 7s; 26, s. 13.19; 36,2s; 42, 10: o Senhor murtas vezes afirma
se disposto a castigar tremendamente, prometendo, porém, poupar, caso
os culpados facam penitencia. Ora é justamente esta proposicao teológi
ca que a historia de Joñas ilustra em cores vivas (cf. principalmente o
cap. 3). Em Jeremías e em Joñas, Deus dá a entender que somente a
contragosto e constrangido castiga os homens.

Ademáis as mesmas expressóes ocorrem em Jn 1, 2; 3, 2 e Jr 2,


29; 4, 5; 7, 2; 11, 6; 19, 2; 20, 8; em Jn 3, 7s; 4, 11 e Jr 7, 20; 11, 6; 27, 5;
31, 27; 33, 10; 36, 29; em Jn 3, 9 e Jr 4, 8.26; 25, 37s; 30, 24; 49, 37
("ardor da cólera do Senhor", expressáo característica em Jr);

Ez27,25-28: urna nave de Tarsis, com seus marujos e pilotos, urna


tempestade, clamores e um lancamento no mar sao evocados, como em
Jn. Comparem-se também Ez 26,16 e Jn 3, 6;

O Salterio: cada versículo da oracáo de Joñas (2, 3-10) repete um


ou mais textos de salmos ou a eles alude; assim:

3: S117, 7; 29, 3s; 119, 1; 129, 1s (numeracáo dos LXX)


4: SI 41, 8
5: SI 30, 23

6: SI 68, 2
7: SI 29, 4; 102,4
8: SI 141,4; 17,7

9: SI 30, 7

10: SI 49, 14; 115,17-19; 3, 9.

Estas múltiplas analogías, de conteúdo e de forma, seriam, poís,


indicios de que o episodio de Joñas foi composto com liberdade literaria
para transmitir um ensinamento religioso, nao historíográfíco.

c) A interpretacao parabólica também apela para precedentes de


autores antigos: S. Gregorio de Nazianzo (t 390), por exemplo, refere
que em certas regióes se abandonava a ¡nterpretacáo histórica do livro
de Joñas para dar-lhe urna exegese únicamente religiosa ou moral;1 a

1 Oragáo 2, 106-9. S. Gregorio de Nazianzo parece mesmo aderir a interpretagáo


alegórica.

366
LIVRO DE JOÑAS: COMO O ENTENDER? 31_

mesma noticia encontra-se no comentario de Teofilato.1 Nao se pode,


pois, dizerque a tradicao seja unánime em favor da historicidade de Joñas.

Assim expostos os fundamentos da sentenca parabólica, aínda é


preciso verificar se se concilia com as palavras de Cristo que evocam o
sinal de Joñas como tipo de um acontecimento futuro. - Os propugnadores
da tese nao hesitam em afirmá-lo. Eis a melhor das solucóes dadas á
questáo:

Jesús, ao referir-se a Joñas e aos ninivitas, nao os considerava em


sua realidade histórica, mas únicamente em sua realidade literaria; visa-
va-os táo sonriente enquanto sao sujeitos da determinada funcao que o
livro de Joñas Ihes atribuí. A linguagem cotidiana vai, sim, freqüentemen-
te pedir a narrativas ficticias exemplos, que cita em fórmulas categóricas,
sem que por isto os leitores se iludam sobre o sentido ficticio que tém tais
exemplos. Ora este uso nao deve ser julgado estranho as Escrituras nem
indigno da Paiavra de Deus, como se percebe claramente de textos quais
2Tm 3, 8; 1 Cor 10,4; Jd 9s.14; nestas passagens S. Paulo e S. Judas se
referem a narrativas da tradícáo oral judaica ou do livro apócrifo de
Henoque (Jd 14), sem intencionar defini-las como históricas, mas, nao
obstante, utilizando-as como termos de comparacáo, instrumentos aptos
á instrucao religiosa de leitores cristáos. De forma semelhante, lé-se a
respeito de Melquisedeque em Hb 7, 3: "Sem pai, sem máe, sem
genealogía, nao tendo nem comego de seus dias nem fim de sua exis
tencia..."; o que evidentemente é apregoado de Melquísedeque nao con
forme a realidade histórica, mas segundo a figura que dele traca o Génesis,
onde o rei de Salém entra em cena e desaparece bruscamente, á seme-
Ihanca de um meteoro (cf. Gn 14, 18-20). Destas consideracoes se de-
duz que Cristo podía muito bem proceder de forma análoga em relacao a
Joñas e aos ninivitas.2 Em conseqüéncia, as passagens de Mt 12, 40; Le
11, 30 deixam de constituir argumento dirimente contra a ¡nterpretagáo
parabólica do livro de Joñas.

Fundada nestes itens, a sentenca que entende Joñas em sentido


meramente religioso ou moral é plenamente aceitável.

2.3. Outras sentencas

Vistas as dificuldades que o livro de Joñas oferece aos exegetas,


nao é de admirar que ainda existam outras maneiras de entendé-lo; enu-
meram-se mesmo dezessete sistemas de ¡nterpretagáo do opúsculo.

1 In Jonam prophetam 4.
2 De resto, também a Igreja usa de tal modo de falar na liturgia dos defuntos: "E te
seja dada a tua parte de repouso juntamente com Lázaro, que era outrora pobre!" A
Igreja, embora nao intencione fazer do mendigo da parábola de Le 16, 19-31 um
personagem histórico, cita-o como tipo, desejando ao defunto o repouso real que a
parábola atribuí ao mendigo bem-aventurado.

367
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

Há quem queira derivar o livro bíblico de lendas pagas. Assim, da


mitología grega lembram um episodio atribuido a Hércules: este libertou
Hesione de um monstro marinho que estava para devorá-la, penetrando
pela goela do animal até o ventre, onde travou um combate de tres dias;
voltou sao e salvo, mas decalvado. Recordam também Perseu, que sal-
vou Andromedes petrificando perto de Jope o monstro que a ameacava.
Estas e outras analogías da literatura paga com Joñas se apresentam
assaz remotas e acidentais, principalmente se se considera a mentalida-
de que perpassa o texto bíblico e as narrativas pagas: o autor israelita e
os mitólogos se norteavam por concepcóes bem diversas (o hagiógrafo
visava um problema típico do judaismo posterior ao exilio!), de sorte que
nao se pode pensar seriamente em derivar Joñas da literatura paga.

Aínda pede especial mencáo, pela certa autoridade de que goza, a


interpretagáo histórica mitigada. Exegetas de renome, ponderando os
argumentos aduzidos pelas duas principáis sentencas, querem ver no
livro de Joñas um núcleo histórico livremente ornamentado a fim de me-
Ihor servir ao ensinamento religioso. Assim Sellin julga que a missáo de
Joñas em Nínive foi provavelmente histórica; o hagiógrafo, porém, aterá
narrado com traeos ficticios. - A esta sentenca pode-se opor a seguinte
observacao: a distincáo entre elementos reais e ficticios no livro de Joñas
carece de base sólida; pois que a trama do livro é toda mais ou menos
portentosa, qual o criterio que permite separar prodigios históricos de
outros meramente artificiáis? A unidade literaria do livro parece pedir
unidade de interpretacáo.

Dito isto, resta-nos verificar o ensinamento válido que o livro de


Joñas apresenta ao leitor moderno.

3. A mensagem do livro de Joñas

O livro de Joñas é, dentro dos moldes da literatura judaica, como


que urna mensagem antecipada do Evangelho: em cores vivas, ensina
que Deus quer salvar todos os homens (cf. 1Tm 2, 4), nao sonriente os
judeus, mas também os pagaos; mais aínda: dessa obra de restauracáo
há de participar (em sua linha própria) mesmo a natureza irracional (os
animáis, conforme 3, 7; 4, 11; os vegetáis, segundo 4, 9s).'

Em Israel, após o exilio (séc. 6B a.C), predominava urna mentali-


dade assaz estreita, particularista: os judeus aguardavam ansiosamente
a punicáo violenta das nacóes pagas e a instauracáo gloriosa do reino
messíánico em Israel. Ora urna tal mentalidade é visada pelo autor de
Joñas: o herói da narrativa representa o judeu egoísta, nacionalista (que

1 A participagáo da natureza inteira na Redengáo do homem é afirmada porS. Paulo


aos Romanos 8, 20s.

368
LIVRO DE JOÑAS: COMO O ENTENDER? 33

mais tarde seria o fariseu); afirmándose como tal, Joñas e, com ele, os
seus correligionarios particularistas sao repreendidos em nome de Deus;
como atributo essencial do Senhor, é inculcada a misericordia, e miseri
cordia para com todos os homens, todas as criaturas (o que ressoa tam-
bém nos salmos 35, 7-9; 144, 9.15s).' É, de modo especial, bela a con-
clusáo do Hvrinho, que exprime claramente o sentido do episodio, a licáo
intencionada pelo hagiógrafo:

4,10 "E o Senhor disse: 'Tu te compadeces da hera, pela qual nao
te deste trabalho e que nao fizeste crescer, que em urna noite surgiu e em
urna noite pereceu. 11 E eu nao me compadecería de Nínive, a grande
cidade, na qual há mais de cento e vinte mil homens que nao distínguem
a sua direita da esquerda2 e urna multidáo de animáis?!'".

Sem dúvida, o espirito largo, magnánimo, que perpassa todo o


opúsculo pondo em realce um dos mais confortadores atributos de Deus,
faz de Joñas "urna das pérolas da literatura hebraica".

Independentemente, pois, das elucubracóes sobre a índole históri


ca ou parabólica da narrativa, o livro de Joñas ainda hoje a nos, cristáos,
transmite urna profunda teología: a mensagem do Deus misericordioso,
que quer salvar todos os homens, usando, para isto, dos variados recur
sos de sua sabedoria.

1 Deus se compadece dos ninivitas pecadores e de seus animáis (c. 3), dos tripulan
tes pagaos da nave ameagada (c. 1), de Joñas judeu renitente, mas benignamente
salvo e repreendido (ce. 2.4).
2 Isto é, que nao distínguem entre o bem e o mal, nao tém culpa. (Nota da Redagáo).

369
Praxe judiciária e psicografia:

"PSICOGRARA ABSOLVE RÉU"

Em sin tese: A imprensa publicou o caso de um pretenso réu que


foi absolvido por causa de urna carta psicografada em que a vítima de
ceño acídente inocentada o criminoso suspeito. - Ora contestase o valor
da psicografia, que a ciencia parapsicológica demonstra nada ter que ver
com o além, pois na verdade é mera expressáo do psiquismo do médium.

O jornal EXTRA em sua edicáo de 19/4/01 publicou urna noticia


redigida pelo sr. Gerson Simóes Monteiro, Presidente da Uniao das Soci
edades Espiritas do Estado do Rio de Janeiro, noticia que vai, a seguir,
publicada e comentada.

I. O TEXTO

«Psicografia absolve réu

A imprensa brasileira divulgou que no dia 8 de maio de 1976 José


Divino Nunes matou involuntariamente seu inseparável amigo Mauricio
Garcés Rodrigues. Levado a julgamento, o acusado foi absolvido pelo
juiz da 63 Vara Criminal da Comarca de Goiánia, Dr. Orimar de Bastos,
com base em prova inédita.

A absolvigao se deu em virtude da carta da vítima inocentando o


amigo, escrita através da psicografia do conhecido médium Chico Xavier,
na qual Mauricio pede desculpas aos pais por ter brincado com a arma
de fogo e inocenta José Divino Nunes, pois, segundo diz, ele na carta diz
'meu tiro me alcangou, sem que a culpa fosse do amigo ou minha mesmo'.

Em sua sentenga, tres anos depois da morte de Mauricio, o magis


trado afirma: 'Temos que dar credibilidade á mensagem psicografada por
Francisco Cándido Xavier, anexada aos autos, na qual a vítima relata o
fato e isenta de culpa o acusado, discorrendo sobre as brincadeiras com
o revólver e o disparo da arma. Este relato coincide com as declaragóes
prestadas por José Divino, quando de seu interrogatorio'.

A carta do 'moño'foi recebida pelo médium em liberaba e enviada


a seus pais em Goiánia. O mais impoñante é o exame grafotécnico da
assinatura do espirito Mauricio Garcés Rodrigues, psicografada por Chico
Xavier e que conferiu exatamente com a da carteira de identidade de
Mauricio quando aínda encarnado.

370
"PSICOGRAFIA ABSOLVE RÉU" 35

Acreditamos que este acontecimento, além, é claro, de absolver o


jovem ¡nocente, veio despertar os meios jurídicos para urna realidade,
pois é bom que se repita: a carta psicografada foi urna prova concreta
para convencer os jurados e o magistrado. O exame grafotécnico, feito
por um perito criminal, foi por isso mesmo aceito pelo juiz como prova
legal nos autos do processo.

Vale aqui lembrar que esse nao foi o primeiro caso de comprova-
gáo de identidade de falecidos' através de suas assinaturas pela
psicografia de Chico Xavier. Sobre esse assunto recomendamos o livro
'A psicografia a luz da grafoscopia', do perito no assunto doutor Carlos
Augusto Perandréa.
Ai está o valor da mediunidade praticada gratuitamente por Chico
Xavier, com abnegagáo e desprendimento. É a mediunidade com Jesús.
Socorre as vítimas; salva as criaturas do erro; conforta coragoes; ilumina
consciéncias; promove a paz; levanta os caídos; ajuda a justiga da Térra,
servindo como instrumento da Justiga Suprema para absolver inocentes
na Térra».

II. QUE DIZER?

Antes de qualquer outra observado, convém perguntar: se o espi


rito de Mauricio estava desencarnado, nao tinha máo; como entáo terá
assinado a carta ditada a Chico Xavier?... e assinado exatamente como
fazia com sua máo quando estava na térra?
Passemos agora á consideracáo do fenómeno "psicografia".

Comecaremos por expor um

1. Caso típico

Eis urna ocorréncia muito ¡mpressionante de psicografia:

Dioclécio, médium residente em Belo Horizonte, senté de repente


um impulso estranho e involuntario na máo. Toma entáo urna cañeta,
coloca a máo e a cañeta sobre urna folha de papel. A máo póe-se a
escrever nervosamente, sem que o médium tenha consciéncia do que
está fazendo. Finalmente lé-se a seguinte mensagem: "Tua máe está
gravemente enferma. Jerónimo".
Ora a máe de Dioclécio mora em Brasilia; ainda ontem ele recebeu
carta da familia comunicando o bom estado de saúde de todos! Jerónimo,
que assina a mensagem, é o espirito 'guia" de Dioclécio. Este, muito
assustado, vai ao telefone e liga para Brasilia; de lá um párente Ihe res
ponde que realmente a máe do médium está passando mal.
Querñ ouve tal historia, pode ficar táo surpreso que dirá: o fenóme
no é inexplicável por vias meramente humanas; só se entende por inter-

371
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

vencáo de um espirito "guia", como diría Alian Kardec, segundo os limita


dos conhecimentos da Psicología do sáculo passado.

Na verdade, porém, os estudos de Psicología moderna elucídam


bem o caso, como passamos a ver:

O fenómeno apresentado é complexo, podendo ser decomposto


em quatro partes:

1) o movimento impulsivo e nao-programado da máo do médium


com a cañeta;

2) o escrever inconsciente, mas lógico, de uma mensagem;

3) a mensagem imprevista, mas verídica, que o médium nao podia


conhecer por informacóes normáis;

4) a assinatura do recado com um nome estranho, atribuido a um


espirito do Além.

Estes quatro subfenómenos sao hoje explicáveis pela


Parapsicología como expressóes das faculdades naturais da alma hu
mana. Analisemos cada um de per si.

2. Automatismo psicomotor

Automatismo em Psicología é um ato complexo exercido inconsci


entemente. O exemplo mais obvio e fácil de se perceber é o chamado
"reflexo patelar" ou "da rótula": se alguém se senta cruzando as pernas,
fica um joelho mais á vista; dé-se entáo uma pancada seca no tendáo
situado logo abaixo da rótula, e a perna saltará. Por qué? - Porque o
tendáo percutido enviou uma mensagem á medula cerebral e esta exer-
ceu uma resposta motora ¡mediata, que foi o movimento automático da
perna. O cerebro apenas assistiu ao ato, sem tomar parte no movimento.

Existem automatismos mais complexos, e também mais freqüen-


tes, do que este. Com efeito; falar, andar, escrever, ler, nadar, dirigir car
ros... sao, em última análise, atos automáticos. Verdade é que a pessoa
tem que aprender tais coisas e as aprende a duras penas, gravando no
córtex cerebral os esquemas necessários a esses atos; por isto a crianca
balbucía, tropeca, soletra...; depois de aprender, quase nao presta aten-
cáo a muitos de seus atos.

Pensemos também na datilógrafa: no comeco de sua carreira, rea


liza, de modo deliberado e consciente, os diversos atos de sua arte; com
o tempo, porém, passa a executar muitos deles de maneira mais ou me
nos mecánica, automática ou inconsciente. Algo de semelhante se dá
com quem dirige um carro... Geralmente as pessoas andam automática
mente, mas, ao pisarem em solo escorregadio, comecam a prestar aten-

372
"PSICOGRAFIA ABSOLVE RÉU" 37

cao aos lugares onde pisam, de modo que perdem algo do seu
automatismo. O sonámbulo é alguém que, em estado de sonó ou de
maneira inconsciente, se levanta da cama, anda, fala, e escreve; faz tudo
isto porque a sua fantasía trabalha ou sonha durante o sonó e, sonhan-
do, impele os músculos das pernas, das máos, da língua... a traduzir em
atos concretos e perceptíveis aquilo que passa pela imaginacao do paci
ente.

O automatismo é dito "psicomotor" quando ele se deriva de urna


idéia, urna sensacáo ou urna imagem existente no psiquismo do sujeito.
Citemos a lei de Bain: Todo fato da consciéncia determina um movimento, e
este movimento se irradia por todo o corpo e por cada urna de suas partes".

Está assim explicado, também o segundo subfenómeno do caso


apresentado, ou seja, a redacáo inconsciente, mas lógica e inteligente,
de urna mensagem. O médium Dioclécio concebeu em sua mente a no
ticia de que sua máe estava enferma e este conhecimento provocou o
impulso da escrita automática. Resta investigar como Dioclécio pode saber
de fato táo imprevisível e misterioso quanto a doenca de sua máe. Antes,
porém, de o fazer, convém notemos o seguinte:

3. O copo e a mesa que giram

Há pessoas que, sentadas em torno de urna mesa sobre a qual há


um copo, lancam perguntas ao ar (ao Além?) e obtém a resposta Sim ou
Nao ou nomes ou coisas semelhantes mediante a movimentacáo do copo
(copo dancante) ou da mesa {mesa girante) ou ainda de urna prancha
colocada sobre a mesa {owi-ja). Em tais casos, nao há espirito do Além
impulsionando os objetos da térra, mas deve-se dizer, na base de expe
riencias seguras, que as próprias pessoas sentadas em torno da mesa
comunicam a tais objetos os impulsos correspondentes as idéias, inten-
cóes, aspiracoes que elas trazem dentro de si de maneira consciente ou
inconsciente. O copo, a mesa, a prancheta dáo como resposta tao so-
mente aquilo que urna ou algumas das pessoas que os cercam, sabe(m),
pensa(m), as vezes de maneira inconsciente. A prancheta costuma ter
um lápis na extremidade de urna plataformazinha móvel. O lápis escreve
diretamente, nao colocado entre os dados como usualmente acontece,
mas pelo fato de aderir á pequeña plataforma sobre a qual se colocam as
máos; estas, movidas automáticamente pelas idéias das pessoas que as
tocam, movem por sua vez a plataforma e o lápis.

Perguntamos agora:

4. Donde o psicógrafo tira as suas idéias?

Muitos dizem que o psicógrafo recebe suas idéias de um mensa-


geiro desencarnado (Chico Xavier as receberia de Augusto dos Anjos,

373
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

Humberto de Campos, Antera de Quental, Sao Joáo da Cruz, Santa Te


resa de Ávila...). Tal explicacáo nao se sustenta aos olhos da ciencia
contemporánea.

Alguém pode conhecer o que está no íntimo de outra pessoa medi


ante leitura inconsciente. Ora as diversas modalidades de conhecimento
natural, mas imprevisível e misterioso, sao hoje reconhecidas pela cien
cia e englobadas sob o título geral "percepcáo extra-sensorial" (percep
cáo por via diferente dos dois sentidos externos que temos1 ou Psi-gama2).

A existencia da Percepcáo Extra-Sensorial (PES ou, em inglés, ESP,


de Extra-Sensory Perception) foi comprovada definitivamente por vari
os pesquisadores, entre os quais J. B. Rhine. Este utilizou um baralho de
25 cartas, com cinco series de cinco cartas diferentes. Cada serie trazia
um dos seguintes desenhos: cruz, estrela, quadrado, círculos e linhas
onduladas. Foram chamadas "cartas ESP" ou "baralho de Zener" (pois
foi Zener quem imaginou essas cartas). As 25 cartas sao bem baralha-
das por meio de um aparelho especial de modo que fiquem numa ordem
totalmente imprevisível. Pede-se entáo a urna pessoa dotada (percipiente)
que indique os símbolos das cartas observando a ordem em que elas
estáo sobrepostas. Deve-se cuidar bem de que o percipiente nao possa
descobrir a figura das cartas por via ordinaria e nunca saiba se as suas
respostas estáo certas ou nao, a fim de que nao fique perturbado. Em
tais condicoes, a pessoa testada tem probabilidade de um acertó sobre
cinco ou cinco probabilidades sobre vinte e cinco. A lei das probabilida
des reconhece que ela alguma vez possa acertar um pouco mais ou um
pouco menos, mas a media geral de acertos, segundo o cálculo estatís-
tico, será sempre de 1 sobre 5.

Ora as experiencias realizadas por Rhine na década de 1930 leva-


ram a resultados surpreendentes: certa vez, numa serie de 700 jogadas,
0 percipiente acertou urna media geral de 8 sobre 25, portanto 3 pontos a
mais do que o provável. Com outras palavras, em 700 jogadas o
percipiente acertou 5.600 lances em vez de 3.500)! Este extraordinario
excesso de acertos nao pode ser explicado pelo acaso. Rhine continuou
suas experiencias: de 1934 a 1940, a sua escola efetuou 2.966.348 en-
saios, sempre com resultados ácima da media estatística. Foram conce
bidas hipóteses múltiplas para explicar o fenómeno, como também to
madas rigorosas medidas de precaucao e controle para evitar fraudes e
engaños. Todavía nao foi possível fugir a esta conclusáo: existe no ser
humano urna via extra-sensorial de conhecimento.

1 Visáo, audigáo, olfato, paladar, tato (que se divide em sentido da temperatura e


sentido da dureza).
5 Psi é a silaba inicial de psyché = alma, em grego. Gama corresponde á nossa letra
g, inicial da palavra gnosis = conhecimento.

374
"PS1C0GRAFIA ABSOLVE RÉU" 39

Outros pesquisadores se aplicaram ao estudo de tal fenómeno,


realizando milhares de experiencias ñas condigóes mais variadas possí-
vel e chegaram á mesma convicio, que hoje é geralmente aceita: a
percepgáo Psi-gama é urna realidade.

Aprofundando o fato, puderam os estudiosos definir aínda o se-


guinte:
a) A percepcáo extra-sensorial nao depende das leis do espago:
pouco importa a distancia entre o experimentador e o percipiente; podem
estar um diante do outro, como em casas distintas, em cidades ou até em
continentes (Europa, América) diferentes.

b) O conhecimento extra-sensorial nao depende das leis comuns


do tempo. Isto quer dizer: o percipiente é capaz de dar informagóes so
bre acontecimentos passados, que ele nao conheceu quando se realiza-
ram, nem pode perceber normalmente na hora em que dá tais informa
góes. Mais: verificou-se que existe também a precognigáo paranormal ou
a PES do futuro: para comprová-lo, utilizou-se, entre outros muitos recur
sos, o baralho de Zener: o percipiente devia predizer cartas que só de-
pois seriam descobertas; os resultados obtidos foram muito além do que
se poderia imaginar. A PES é sempre mais fácil e freqüente quando incide
sobre um objeto carregado de valores existenciais, com ressonáncia
afetiva (doenga, morte, desastre de um ente querido...).
Urna das experiencias mais interessantes para comprovar a
precognigáo é descrita por J. Ricardo Musse no livro En los limites de la
Psicología, Buenos Aires 1954, pp. 315ss. O percipiente Conrado Castiglioni
foi levado á sala do Teatro de Buenos Aires. Urna hora antes de comegar o
espetáculo, os experimentadores escolheram lugares pela sorte e pediram
a Castiglioni que indicasse as características das pessoas que ocupariam
tais assentos. Terminado o espetáculo, fez-se o exame dos espectadores
que haviam ocupado essas poltronas; o exame protraiu-se durante alguns
días pela coleta de informagóes de diversas fontes. O percipiente só soube
do tipo de experiencia no momento de iniciá-la e foi vigiado constantemente.
Suas predigóes foram consignadas em ata devidamente protocolada. O re
sultado foi de 37 acertos sobre 45 predigóes. A probabilidade de obter, por
estatísticas, este resultado é de 1 para 1.000.000 - o que é quase nulo.1

1 A precognigáo é um fato. Mas está ionge de ser explicada claramente. A escola do


Pe. Osear Quevedo afirma que podemos conhecer fatos passados numa faixa de
cem anos e fatos futuros também numa faixa de cem anos; nos nos moveríamos
numa faixa de dois séculos ou de cinco geragdes. "Assim, por exemplo, urna pessoa
paranormal poderia captar no inconsciente de sua avó fatos que acontecem á avó
desde que esta nasceu. Essa mesma pessoa poderia captar nos netos o que Ihes
acontecerá até morrerem. Este periodo compreende cinco geragdes; avós, pais,
SUJEITO, filhos, netos...". Todavía esta teoría é discutível. O conhecimento do futuro
versa sobre o livre e imprevisível comportamento humano.

375
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

c) A PES é comum a todos os homens, mas em alguns é mais


aguda. Pode ser intensificada por fatores extrínsecos: álcool, cafeína...
que estimulam o organismo. A concentracáo do percipiente sobre o obje
to é importante. As drogas deprimentes prejudicam seriamente. O com-
portamento paranormal de um mesmo individuo é inconstante, variando
o seu acume de dia para dia.

Voltando ao caso proposto no comeco desta explanacáo, pode


mos agora dizer que o médium Dioclécio psicografou urna mensagem
que ele mesmo colheu por PES á distancia, reconhecendo que sua máe
estava doente em Brasilia. Nao houve interferencia do Além.

5. A personificagáo da mensagem

Quando urna noticia misteriosa ou inconsciente aflora a conscién-


cia de alguém ou se exterioriza por um automatismo, o sujeito é levado a
crer que tal fenómeno nao provém de sua pessoa (pois Ihe é estranho e
misterioso). Por isto tende a atribuir o fenómeno a um outro eu. O eu
consciente e normal do sujeito nao se reconhece como autor da mensa
gem nem do automatismo; por isto ele concebe um novo sujeito mental
com eu próprio, ao qual é atribuido o efeito estranho. Este novo eu deve
ter seu nome próprio, diferente do nome pelo qual o eu normal se conhe-
ce. É freqüente, nos doentes mentáis, este surto de "nova personalidade"
ou, como se diz, o "desdobramento da personalidade". O novo eu pode
até coexistir com o eu normal; revezam-se ñas expressoes da única per
sonalidade do médium.

No caso da psicografia, o eu normal, tomado de surpresa pela


mensagem psicografada, nao a reconhece como sua; procura entáo um
autor para ela dentro da sua cosmovisáo ou das suas conviccoes mais
profundas; dirá que é um "espirito", ou um demonio... No episodio inicial
destas ponderacóes era Jerónimo, o "espirito guia" de Dioclécio; se este
fosse umbandista, a mensagem seria atribuida ao "Pai Joáo".
Assim se explica o fenómeno da psicografia em suas diversas
modalidades: escrita, movimentacáo de objetos e até pintura... Há, sim,
médiuns que se concentram e, com incrível rapidez, pintam quadros que
eles atribuem a Picasso, Rembrandt, Leonardo da Vinci... As obras as
sim produzidas tém certa semelhanca com as dos famosos pintores, mas
o exame crítico e apurado das mesmas revela que nao Ihes podem ser
atribuidas. O fenómeno se explica pelo fato de que o médium conhece
telas de grandes pintores; sugestiona-se no sentido de que será movido
por eles para pintar; essa sugestáo desencadeia o movimento nervoso
das máos, que, movidas pelo inconsciente do médium, reproduzem, com
maior ou menor fidelidade, aquilo que eles guardam na memoria. Tam-
bém nesses casos nao há intervencáo do Além, mas um fenómeno
parapsicológico assaz complexo.

376
"PSICOGRAFIA ABSOLVE RÉU" 41

6. Voltando ao caso da absolvicáo do réu

Visto que a psicografia nao póe os mortais da térra em contato com


o além, vé-se que nao pode ser levada em conta nos processos crimi
náis. Seria obscurantismo e infantilismo querer apelar para mensagens
psicografadas a fim de emitir algumas sentenca judiciária. O caso ocorri-
do em Goiás deu-se há vinte e cinco anos e foi esporádico, sem similar
subseqüente, pois realmente foi um episodio falho, que chama a atencáo
para "como nao se deve proceder". Na verdade, o ser humano está sem-
pre aprendendo...

377
Ousada decisáo:

EUTANASIA LEGALIZADA NA HOLANDA

Em sintese: A Holanda é o primeiro país do mundo a legalizar a


eutanasia. Contraria assim nao somente principios cristáos, mas a pro-
pria lei natural, inserida no íntimo de todo homem e que manda nao matar
o inocente. O abandono da lei natural, á qual se deveriam conformar os
legisladores, acarreta o perigo de arbitrariedades ideológicas e totalita
rismos. Talperígo é reforgado pelo pragmatismo da vida contemporánea,
que qualifica o ser humano táo somente pela sua capacidade de produ-
zir, entreter urna vida inútil tornase, no caso, inconcebível. O ser huma
no é equiparado a urna máquina.
* * *

A ¡mprensa noticiou a legalizacáo da eutanasia direta na Holanda.


O caso é rumoroso e abre precedente que pode originar nova jurispru
dencia ou fazer escola; a Bélgica, país vizinho da Holanda, parece que
rer seguir o mesmo caminho.

A seguir, seráo propostas algumas reflexóes sobre a temática.

1. A Noticia

Aos 11/4/01 escrevia o JORNAL DO BRASIL, p. 10:

«Haia, Holanda - A Holanda se tornou o primeiro país do mundo a


legalizara eutanasia, com a aprovagáo pelo Senado de urna lei que regu-
lamenta a prática. Foram 46 votos a favor e 28 contra a lei, que, segundo
pesquisas, tem o respaldo de 85% da populacáo, ejá havia sido aprova-
da, em novembro, pela Cámara dos Deputados. Para a lei entrar em vi
gor, falta apenas a aprovagáo da Rainha Beatriz e a publicagáo em Diario
Oficial holandés, urna formalidade que deve ocorrer no segundo semes
tre do ano.

Houve protestos antes e durante a votagáo. Cerca de oito mil mani


festantes se concentraram em frente do Parlamento. Alguns colegios cris
táos suspenderam as aulas para que seus alunos pudessem protestar
contra a lei. Organizagóes Náo-Governamentais entregaram abaixo-as-
sinados contra a lei e milhares de cartas foram enviadas aos senadores.
- Na prática, a lei nao muda muita coisa. Já no ano passado, foram
registrados 2.123 casos de eutanasia na Holanda, que era, por lei, con-
denável a 12 anos de prisáo, mas tolerada com base em urna circular
ministerial de 1997, que tinha por base urna jurisprudencia da Suprema
Corte holandesa de 1994.

378
EUTANASIA LEGALIZADA NA HOLANDA 43

A lei aprovada segué a circular ministerial e regulamenta que os


médicos só podem atender uma soiicitagao de eutanasia em pacientes
que estejam sofrendo de "maneira insuportável" e sem perspectiva de
sobreviven sempre e quando o enfermo tiver feito o pedido de maneira
voluntaria e deliberada. Os menores entre 16 e 18 anos podem fazera
soiicitagao independente da opiniáo dos pais. Entre 12 e 16 anos, a apro-
vagáo dos pais é obrigatória.
Os que sao contra a prática acusam a Holanda de comegar uma "rea-
gao em cadeia" pela eutanasia. A vizinha Bélgica está debatendo uma lei
similar, mas que ainda terá de ser aprovada por deputados e senadores».
2. Que diz a Moral católica?
Em poucas palavras, eis o pensamento católico:
Distinga-se entre eutanasia direta ou positiva e eutanasia indi-
reta ou negativa.

A eutanasia direta é o ato de matar o paciente. Vem a ser um


homicidio ilícito. Nem mesmo a compaixáo para com o enfermo justifica
a eliminacáo de sua vida, pois o fim nao justifica os meios. Para minorar
as dores do paciente, podem-se-lhe aplicar analgésicos, ainda que estes
tenham como efeito colateral abreviar a duragáo da vida terrestre. De
resto, sob o rótulo de compaixáo podem esconder-se motivos espurios,
como seriam o desejo de por fim a uma situacáo incómoda e trabalhosa,
o de evitar gastos pesados, o de repartir quanto antes a heranca... -
sentimentos estes mais egoístas do que altruistas.
A eutanasia indireta consiste em subtrair ao paciente os meios de
subsistencia. Estes podem ser ordinarios (soro, alimentacáo, injecóes...)
ou extraordinarios (desproporcionáis). - Nao é lícita a suspensáo de
meios ordinarios, pois equivale ao homicidio indireto. Quanto aos meios
extraordinarios, observe-se o seguinte: quando os recursos extraordina
rios (maquinaria tecnológica dos CTI) nao produzem efeitos proporcio
náis á parafernália aplicada, é lícito desligá-los, desde que os médicos
nao vejam probabilidade de melhora da parte do paciente; esta probabi-
lidade deve ser criteriosamente avaliada, de modo a evitar precipitacáo
ou tendencias egoístas. Assim se evita a distanásia (a morte dolorida
artificialmente) como também se evita a eutanasia direta. Pratica-se en-
táo a ortotanásia. A propósito ver PR 420/1997, pp. 213ss.
Sumariamente exposta a doutrina católica, passamos a ulteriores
reflexoes.

3. Refletindo...

A Moral católica está fundamentada na lei natural, que é a lei do


Criador impregnada no íntimo de todo ser humano. É anterior as normas
379
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

de qualquer legislador governamental, e deve ser observada como base


para qualquer lei estatal.

Em nossos días há forte tendencia a ignorar a lei natural {Nao ma


tar, Nao roubar, Nao adulterar, Nao caluniar...) para dar valor exclusivo as
decisoes dos governantes de urna nació. A conseqüéncia evidente disto
sao arbitrariedades (racismo, aborto, casamentos gays...) ou mesmo re-
gimes totalitarios, em que a vontade de um homem ditador é o único
referencial da vida do país. O nacional-socialismo e o comunismo sao ex-
pressóes contundentes da desgraca decorrente do abandono da lei natural.

Tais aberracóes sao reforcadas pelo pragmatismo da vida contem


poránea, que qualifica o ser humano segundo a sua capacidade de pro-
duzir, de modo que urna pessoa invalidada é equiparada a urna máquina
irremediavelmente estragada; seja entao eliminada! Sejam citadas pala-
vras de Jacques Attali na obra Le Futur de la Science, pp. 274s:

"A eutanasia será um dos meios essenciais da nossa sociedade


futura. Numa lógica socialista, o problema se apresenta nestes termos: a
lógica socialista é a Iiberdade, e a Iiberdade fundamental é o suicidio. Em
conseqüéncia, neste tipo de sociedade o direito ao suicidio direto ou indi-
reto é um valor absoluto. Numa sociedade capitalista, será de uso cor-
rente urna máquina para matar, urna profese que permitirá tirar a vida
quando esta se torne insuportável ou custosa demais. Pensó, pois, que a
eutanasia será urna das prescrigoes do futuro ou como afirmagáo de Ii
berdade ou por motivos de mercado" (coletánea organizada por Michel
Salamon, Ed. Seghere, París 1981).

Quanto á Holanda em particular, vem ao caso o proverbio holan


dés: "Deus criou o mundo, mas os holandeses criaram a Holanda". Estes
dizeres refletem a ufanía do povo holandés, que arrancou ao mar a maior
parte do seu territorio, também chamado "Países-Baixos". Certas correntes
do povo holandés tém consciéncia da superioridade de sua gente e se sen-
tem chamadas a desempenhar papel messiánico na sociedade européia.

Durante séculos os holandeses se orientaram pelo Decálogo ou os


dez mandamentos bíblicos. Todavía esta fidelídade á lei do Senhor tem-
se atenuado progressivamente a partir de Hugo Grotius (t 1645) e princi
palmente o filósofo panteísta Baruch Spinoza (t 1677). A própria tradi-
cáo calvinista, muito rigorosa nos Países-Baixos, tem-se apagado aos
poucos. Hoje a tolerancia naquele país pode chegar as raias de rejeitar
todo principio perene de Ética. Esboca-se a tendencia a praticar a euta
nasia nao somente em adultos termináis, mas também em enancas defi
cientes física ou mentalmente, mongolóides, aidéticos...

A tal ponto leva o abandono da lei natural, que é a lei do Criador...

380
Perguntas básicas:

POR QUE VIVER? QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

Um jovem de 24 anos enviou á Redacáo de PR as seguintes per


guntas:

Que é a vida?

Que significa viver?

Por que viver?

Por que a morte serve como bisturí para separar o corpo e o espi
rito?

Que há depois da morte?

Responderemos ao questionário agrupando as tres primeiras pergun


tas numa só. As duas últimas seráo consideradas cada qual de per si.
1. Que é a vida? Por que viver?
Meu caro jovem, é sumamente oportuno formular as perguntas que
vocé propóe. Todo ser humano tem necessidade de saber por que vive,
para que vive, donde vem, para onde vai... Consideremos, pois, tais que-
sitos.

A vida nesta térra parece ser urna incessante demanda de valores


que nao se encontram plenamente em lugar algum: assim a verdade, o
amor a felicidade, a bondade, a justica... A procura de tais valores e algo
de inato. em todo ser humano; nao depende de tal ou tal tipo de cultura.
Em conseqüéncia, se a natureza mesma (ou Deus) nao responde
a tais demandas na vida presente, deve haver outra vida (postuma) na
qual sejam plenamente preenchidas as nobres aspiracóes ¡natas da pes-
soa humana. Se assim nao fosse, o homem seria um absurdo,... um ser
dotado de anseios congénitos fadados a ser frustrados. Ora admitir este
absurdo no contexto de um mundo em que o macrocosmos e o
microcosmos sao altamente harmoniosos é incoerente ou inviável. Deve
haver outra vida, em que seráo satisfeitos os anseios espontáneos do
ser humano.

Estas proposicoes podem ser ilustradas mediante a verificacáo de


certos fenómenos ocorrentes na natureza. Esta parece excluir a frustra-
cáo e o absurdo; com efeito,

381
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001

se tenho olhos, é porque existe a luz para a qual o olho foi feito;
se tenho ouvidos, é porque existem sons e melodías;
se tenho pulmóes, existe o ar que Ihes corresponde;

se tenho fome e sede, existem os alimentos de que preciso;

se a mulher tem o senso da maternidade e aspira a ser máe, existe


para ela a maternidade ou o poder de tornar-se máe.
Mais aínda:

se as aguas do mar sobem por ocasiáo das mares, tornando-se


agitadas e inquietas, sei que essa agitacáo nao é casual, mas se deve ao
atrativo sobre elas exercício pela Lúa;

se a agulha magnética se agita dentro da bússola, posso estar cer-


to de que existe um polo Norte (invisível, sim, mas muito real) que a atrai
e só permite que repouse quando devidamente voltada para o seu Norte.
Assim análogamente, se verifico em mim (anteriormente a qual-
quer refiexáo filosófica ou religiosa) a sede de certos valores ou mesmo
do Infinito, posso estar certo de que tais valores e o Bem infinito existem
no Além, em correspondencia a tais aspiracoes.

Com outras palavras ainda, pode-se dizer que esta vida é urna ca-
minhada em direcáo de Grande Meta ou da Meta definitiva. Tal imagem é
muito espontánea, já que freqüentemente se fala de curso de vida. Se
no desenrolar da marcha, há desafios e obstáculos, estes nao intimidam
o caminheiro, pois é através das dificuldades que alguém cresce. Os
desafios obrigam a descobrir e mobilizar energías que, em outras cir
cunstancias, ficaríam latentes. O bom viandante nao recua nem capitula.

É claro que ninguém caminha a sos; caminha com seus semelhan-


tes, dos quais recebe ajuda e aos quais dá ajuda numa atitude de solida-
riedade amiga. Infeliz é aquele que se ¡sola.

2. E a morte?

O ser humano é um composto de corpo material e alma espiritual.


Esta faz as vezes de principio vital que anima a materia (H, O, Ca, Fe,
H2O...) do corpo. Urna vez desgastada a materia pela molestia ou pela
idade, ela já nao oferece condicoes para ser vivificada pela alma huma
na. Esta entáo se retira do corpo (que se torna cadáver) e vai colher os
frutos da semeadura feita na térra: frutos proporcionados aos esforcos
de cada um; quem muito semeou, muito colherá; quem pouco semeou,
pouco colherá.

382
POR QUE VIVER? QUE HÁ DEPOIS DA MORTE? 47

A morte bem entendida nao é um espantalho, mas a consumacáo


da vida terrestre; é o ponto de chegada da caminhada. Os Santos sem-
pre a consideraram com anseio, pois faz passar do provisorio ao Defini
tivo, da penumbra á plena luz, da fé á visáo. As pessoas sabias nao
recusam pensar na morte, mesmo quando ela parece estar Ionge, pois é
precisamente quando a pessoa está sadia que ela pode refletir sobre a
consumacáo de sua vida, sem os empecilhos da arteriosclerose, da per-
da de memoria ou de visáo ou de audicáo... Diz-se alias que cada qual
morre como vive; nao se improvisa a preparagáo para a morte, mas faz-
se oportuno té-la regularmente ante os olhos.

Para quem tem fé, a morte é o Sim definitivo dito a Deus, que
chama a sua criatura para o regago da sua bem-aventuranca. É o total
despojamento do que é velho para que a alma humana seja unida a novo
corpo no fim dos tempos.

3. E que há depois da morte?

Existe continuidade entre a vida presente e a futura. Esta será a


plenitude da vivencia terrestre. Haverá entáo a colheita dos frutos decor-
rentes da semeadura terrestre. Os justos entáo veráo quáo tola terá sido
a mesquinhez ou pusilanimidade e quáo sabio terá sido aturar corajosa
mente as provacoes da vida presente.

Segundo a fé católica, haverá para os justos o encontró face-a-


face com a Beleza Infinita, que é também a Verdade, o Amor, a Bonda-
de... Diz S. Agostinho (t 430): "Serás insaciavelmente saciado". Seráo
preenchidas todas as aspiracóes inatas do coracáo humano, de modo tal
que o olho jamáis viu, o ouvido jamáis ouviu e o coracáo jamáis perce-
beu. Será o Inefável...

Segundo a fé católica, haverá a grande frustracáo para quem tiver


vivido na iniqüidade sem se arrepender. Nao é Deus quem condena o
reprobo, mas é o próprio pecador quem lavra sua sentenca ao dizer um
Nao consciente e voluntario ao Sumo Bem. Deus quer a salvacáo de
todos os homens, mas nao forca ninguém a amá-Lo. Ele acompanha
cada criatura até o último instante de sua vida com a graca generosa
mente oferecida; se a criatura o recusa, terá seus "ídolos" para sempre
em lugar do verdadeiro Deus.

Para ilustrar o fato de que é o homem mesmo (acompanhado pela


graca) quem forja seu destino final e o deve forjar com generosidade e
coragem, vai aqui proposta urna lenda hindú muito significativa:
Certo mendigo, sentado á margem da estrada, viu certa vez a car-
ruagem do rei aproximar-se. Imediatamente pós-se a pensar que chega-

383
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 471/2001 '

ra o seu grande dia, pois o monarca haveria de tirá-lo da sua miseria.


Aconteceu, porém, que descendo da carruagem, o rei se Ihe chegou e
pediu-lhe um pouco de trigo! O mendigo sentiu terrível decepcáo, mas
nao se pode furtar ao soberano; catou, pois, entre os graos da sua bolsa
o menor de todos, e o entregou ao rei... Todavía, quando o pobrezinho,
no fim do dia, abriu a sacóla para fazer o balanco da jornada, verificou
que, entre os seus graos de trigo, havia um de ouro; era o menor de
todos! Compreendeu entáo que fora mesquinho e que, se ele tivesse
dado tudo ao rei, estaría rico de ouro e livre de apuros. Imediatamente
entáo pós-se a repudiar o egoísmo e a ¡ncompreensáo, purificou-se dos
mesmos, prometendo a si nunca mais ceder aos maus sentimentos.

Para aqueles que marcham na dírecáo certa, mas cedem a negli


gencia, omissao, egoísmo... a ponto de morrerem com tais paixóes des-
regradas, existe a ocasiáo de se purificarem, que é o chamado "purgato
rio". Este vem a ser um estágio em que a alma se arrepende radicalmen
te de haver sido superficial ou leviana na térra.

Eis, meu caro jovem, um pouco do muito que se pode dizer a res-
peíto da temática proposta por vocé. Possam estas linhas ser-Ihe úteis! E
disponha da sua revista PR.

384
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vida e obra de SAO BERNARDO DE CLARAVAL. - Pe. Luis Alberto Rúas Santos
O. Cist. Musa e Edicoes Lumen Christi. 2001. 200 pp RS 26,00.

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res: Claudio Pastro. "Este livro pretende evocar Deus nos ambientes de trabalho.
Suas oracóes nos proporcionarlo momentos de louvor, alegría e graca. De coragáo
aberto, poderemos, entáo, refletír sobre nosso relacionamento com os companhei-
ros de jornada".
Saga Editora e Mosteiro Nossa Senhora da Paz. 2001.160 pp RS 19,00.

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mos partilhar com os irmáos e as irmas um dos nossos preciosos tesouros de fami
lia: as poesías de Ir. Inés, esta coluna de nossa comunidade..."
Mosteiro da Virgem- Petrópolis - RJ. 2001.170 pp R$ 19.00-
- TRATADO SOBRE A ORACÁO: TERTULIANO, S. CIPRIANO, ORÍGENES.
Tres grandes mestres da espirítualidade crista dos primeiros séculos, comentam
magistralmente o Pai-nosso.
Ed. Mosteiro da Santa Cruz de Juiz de Fora - MG. 2001. 2* ed. 216 pp... R$ 19,00.

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guesa dos Monges de Singeverga. 682 págs RS 40,25.
- JESÚS CRISTO NOS SEUS MISTERIOS, Dom Columba Marmion, OSB. - Confe
rencias Espirituais. 3a edigáo portuguesa pelos monges de Singeverga.
540 págs RS 40'25-
- JESÚS CRISTO VIDA DA ALMA, Dom Columba Marmion, OSB. Quarta edigáo por
tuguesa pelos Monges de Singeverga, Portugal. 1961, 544 págs R$ 40,25.
- POEMAS E ENSAIOS - RAÍSSA MARITAIN. TRADUgÁO E COMENTARIOS DE
CESAR XAVIER BASTOS.
Edicáo CXB - Juiz de Fora - MG. 2000. 200 paginas R5 2O,ou.

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Sumario:
• Nada mais importante que Cristo, André Borias (Saint-Wandrille, Franca).
• Sao Bento e sua Regra, Lin Donnat {Saint-Benoit-sur-Loire, Franca).
• Visáo geral da historia benedítina, Daniel Misonne (Maredsous, Bélgica).
• Pequeño sumario da historia beneditina no Novo Mundo, Mauro Matlei (Viña del Mar, Chile).
• Sao Bento, padroeiro da Europa: por qué?, Phílippe de Lignerolles (En Calcat, Franca).
• Nocoracáo da comunidade benedilina: o Oficio Divino, Denis Hubert (En Calcat, Franca)
• A oracáo pura segundo a Regra de Sao Bento, Terrence G. Kardogn (Abadia da Assuncao Estados Unidos)
• A leilura orante da Escritura, Daniel Rees (Downside, Reino Unido).
• O equilibrio beneditino, Michael Casey (Tarrawara, Australia).
• Adimensáocomunitáriada vida beneditina, Basilio Penido(Abade Pres. da Congr. Brasileira)
• Qual espiritualidade?, M. Bernard de Soos (Secretario geral da A.I.M.).
• A educacáo para a liberdade na Regra, Charles Hélie (Fundadora de Toffo, Bénin).
« O monge beneditino na Europa hoje, Jean-Pierre Longeat (Sao Martinho de Ligugé, Franca)
• O monge beneditino na América do Sul, Joél Rippinger (Abadía de Marmion, Estados Unidos)
• A vida monástica, um desabrochar da vida batismal, Mawulawoe Yawo (Dzogbegan. Togo).
• A idéia da ordem e da posicao na comunídade cenobítica e sua relacáo com os valores filipinos de ordem e
posicáo na familia, Eduardo P. África (Malaybalay, Philipinas).
• Que pensam os jovens argentinos sobre a Regra de Sao Benlo, Um grupo de monjas da Abadia Santa
Escolástica (Buenos Aires, Argentina).
Édítions du Signe (Franca). Em PORTUGUÉS. 1994.
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esclarecer as dúvidas mais freqüentes que se levantam ao leitor de boa vontade, trazen-
do-nos criterios claros e levando-nos a compreender que todas as palavras de Cristo sao
de aplicacáo perene e universal), 2- edicáo. 1993, 47 págs RS 7,00.

CONVITE

Vira ao Rio deJaneiro, em Setembro deste ano, Pe. Bernardo Bonowitz O. C. S. O., monge trapista, prior
do Mosleiro N. S. do Novo Mundo em Campo de Teñen te, Paraná.
Sua agenda, em nossa cidade, será a seguíate:
' entrevista no programa VoxPopuli, Radio Catedral 106,7 FM, dia 19 as 18:10h;
participagao no programa "Deus éDez" na mesma Radio días 20,21, 24 e 25 as '8:30h;
palestra aberta ao público no auditorio do Colegio San to Antonio María Zacaria, á rúa do Catete 113
(metro Catete) no dia 20 as 18:30h com o tema: "Thomas Merton e a Ascensao para a Verdade."
Convidamos a todos interessados aparticipar e comparecer.
i,, (Sociiíimui; Fkati-kno.s ni; Thomas Miíioon)

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