Você está na página 1de 2

17/01/2016

17/01/2016 .:RenatoCoheneacriaçãocênicaemprocesso:Versãoparaimpressão:. voltar à página anterior

.:RenatoCoheneacriaçãocênicaemprocesso:Versãoparaimpressão:.

17/01/2016 .:RenatoCoheneacriaçãocênicaemprocesso:Versãoparaimpressão:. voltar à página anterior

Overblog

Renato Cohen e a criação cênica em processo

Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte (MG) · 5/5/2007 11:44 · 108 votos

Há um livro que sempre indico para as pessoas que desejam conectar‐se com as pesquisas cênicas contemporâneas, tais como a de um teatro contaminado pelas outras mídias (dança, música, artes‐plásticas), tomado pelo hibridismo e que foge às categorizações: Working in progress na cena conteporânea, de Renato Cohen.

O autor, que encantou‐se em 2003, é um pensador‐criador do teatro experimental, que ele

denominava nos últimos escritos de pós‐teatro: um plano de criação intermídias, processual

e instável. Cohen traçou caminhos em zig‐zag, desnorteando referências por demais fixas,

avizinhando‐se de zonas fronteiriças, imprimindo um teatro gestual, de forte impacto visual

e sonoro.

Trouxe para a cena o mito e o ritual, não de modo ilustrativo, mas sim ao modo de uma produção desejante, de um agora carregado de passado e futuro.

Cohem aponta para um procedimento de criação cênica que não se faz mais como obra acabada, mas como obra em processo. Isso não quer dizer que ela seja mal‐acabada, mas sim que, em ressonância com o espírito de época, sua incompletude passa a ser a sua virtude. A obra em processo rompe com séculos de tradição artística ocidental, instaurando uma arte corroída pelo seu próprio discurso. Paul Virilio mostra, a respeito da contemporaneidade, que a arte torna‐se acidente. Porém, acrescenta, as obras de arte caminham, em sua maioria, sem saber desse fato. Não se trata de uma visão catastrófica ou apocalíptica. Virilio mostra que tudo já é acidente – só falta tomar conhecimento disso. E tal fato deveria ser visto como uma positividade. Nesse sentido, a obra processual de Renato Cohen incorpora as vicissitudes do trajeto, a incompletude dos significados, o atravessamento de multiplicidades, produzindo uma cena outra, na qual o acidente configura uma realidade existencial.

A pesquisadora de artes cênicas, Sílvia Fernandes, aponta alguns dos procedimentos

utilizados por Cohen: a) narrativas sobrepostas; b) noção de obra progressiva a partir do corso‐ricorso, tomado de James Joyce; c) variáveis abertas num fluxo livre de associações, evitando assim o fechamento do sistema, como ocorreria, por exemplo, com o texto dramático; e d) leitmotive condutores. Tais procedimentos substituem o desenvolvimento dramático, procedimento clássico do teatro. Cohen cita, constantemente, a arte

minimalista, com suas fases e defasagens, com o uso de repetição que varia na sua diferença

e que instaura planos meditativos.

Para os atores e performers, Cohen faz uso de diversos instrumentos, desde aqueles que foram transmitidos no âmbito da atividade artística, quanto daqueles que vêem do ritual, como o caso do xamanismo. A performance, para Cohem, é tanto um campo sombrio e sinistro, carregado de ironia, quanto uma viagem de iniciação – daí suas constantes referências na obra do artista e performer Joseph Beuys. Uma iniciação que não se dá em moldes pré‐estabelecidos, mas a partir das próprias mitologias pessoais dos performers no encontro com as forças que atravessam a sensibilidade contemporânea.

Renato Cohen fez vários espetáculos que fundiram na cena tais princípios e procedimentos:

à

Tive a oportunidade de assistir a uma conferência e oficina de Renato Cohen, no Centro de

Babel (1997)e posteriormente, Gothan SP (2001).

17/01/2016

.:RenatoCoheneacriaçãocênicaemprocesso:Versãoparaimpressão:.

Cultura de Belo Horizonte, em 2001, no projeto Seminário. Perguntei, então, a Renato, como ele definia a dramaturgia (que não se limita ao teatro dramático, incluindo o chamado teatro pós‐dramático), ele responde na velocidade de um raio: é hipertexto, você entra num lugar e já cai em outro. Porém, posso entender que ele não dizia simplesmente de uma alternância de paisagens, mas sim de uma coexistência não linear e não hierárquica das diversas imagens, que não tem a função de se explicar ou de se traduzir mutuamente.

O

o

cênica. A sua pesquisa mais recente, interrompida pela sua morte, referia‐se à Performance

e tecnologia na era da técnico‐cultura. Working in progress na cena contemporânea, o seu

último livro, é um caixa de ressonâncias e conexões com os pensamentos criativos e com os procedimentos das vanguardas históricas, perpassando informações preciosas e dicas muito interessantes.

Aqueles que se interessam pela criação intermídias e processual, bem como desejam adentrar nos caminhos do pós‐teatro, encontrarão no livro de Renato Cohen, Working in progress na cena contemporânea, fontes de pesquisa e inspiração.

Referências:

COHEN, Renato. Working in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva, 2004 Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 2004. VIRILIO, Paul and LOTRINGER, Sylvère. The accident of art. MIT Press: Cambridge, Mass and London, England, 2005. tags: São Paulo SP teatro performance‐art working‐in‐progress arte‐contemporanea artes‐ cenicas extraído de: http://www.overmundo.com.br/overblog/renato‐cohen‐e‐a‐criacao‐cenica‐em‐ processo

campo da performance art, abrindo perspectivas sobre estética contemporânea e criação

seu livro de estréia nos anos 80 (reeditado em 2004), Performance como linguagem, trouxe

Creative Commons Alguns direitos reservados