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S8 sabático SÁBADO, 29 DE MAIO DE 2010

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O ESTADO DE S. PAULO

Crítica

O Guardador de Segredos , de Davi Arrigucci Jr., professor da USP, tenta desvendar como prosadores e poetas vinculam sua experiência pessoal à histórica

e poetas vinculam sua experiência pessoal à histórica O GUARDADOR DE SEGREDOS Autor: Davi Arrigucci Jr.

O GUARDADOR DE SEGREDOS Autor: Davi Arrigucci Jr. Editora: Companhia das Letras (280 págs., R$ 49,00)

UM MESTRE ATRÁS DO ESQUIVO OBJETO DA OBRA LITERÁRIA

KEINY ANDRADE/AE

ATRÁS DO ESQUIVO OBJETO DA OBRA LITERÁRIA KEINY ANDRADE/AE ANTONIO GONÇALVES FILHO S em vínculo ime-

ANTONIO GONÇALVES FILHO

S em vínculo ime-

diatamentereco-

nhecível,os21en-

saios de O Guar- dador de Segredos, escritos entre 1999 e o presente pelo professor aposentado de teoria literária da

USPDavi Arrigucci Jr., têm, no entanto, um tema em comum: a ligação da literatura com a experiência histórica. O que está por trás de uma obra literária não escapa à rigo- rosa análise desse crítico com vocação de entomologista – no bom sentido do radical grego da palavra, aquele do “entomos”, do segmentado.Comlente deaumentoeleana- lisa autores que a crítica prefere ignorar ou textos que acabam revelando o caráter con- flitivo da poesia de Carlos Drummond de Andradeou a problemáticaarquitetura poé- tica de João Cabral de Melo Neto, incapaz de admitir o convívio das palavras arte e

inspiração, sempre em campos opostos na arena do autor pernambucano. Arrigucci anda tão obcecado pela ligação

entre criação literária e construção históri-

ca que prepara para breve um outro livro,

cuja ousadia deverá ser tão grande quanto a

de

O Guardador de Segredos. Nele, vai juntar

diretor norte-americano John Fordo

o

(1894-1973), o escritor argentino Jorge Luis

Borges (1899-1986) e o escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967). O que o trio teria em comum? Um esforço conscien-

te de refletir sobre a história de seus países

partindo do território do indiferenciado – o Oeste, no caso de Ford, o pampa, no de Bor-conscien- te de refletir sobre a história de seus países ges, e o sertão, no de

ges, e o sertão, no de Rosa. Para quem explo-– o Oeste, no caso de Ford, o pampa, no de Bor- ra tão bem como

ra tão bem como Truffaut o universo de Hi-

tchcock no ensaio extra de O Guardador de Segredos , falar de John Ford vai ser fácil. De O Guardador de Segredos, falar de John Ford vai ser fácil. De

Borges, então, nem é preciso dizer. Arriguc- ci é tradutor do escritor argentino (História Universal da Infâmia ) e coordenador da edi- ção de sua obra completa pela História Universal da Infâmia) e coordenador da edi- ção de sua obra completa pela Companhia

das Letras. De Rosa, uma amostra do que poderá ser seu ensaio está página 113 de O

Guardador de Segredos. Trata-se de um texto

escrito para o suplemento especial publica-

do em 2006 pelo Estado para marcar os 50

anos de Grande Sertão: Veredas.

“Pensei em estudar três narradores de re- giões‘atrasadas’queestão permeadasdehis- tória, como o Oeste americano, o pampa ar-

gentino e o sertão brasileiro porque nos três aparece a dicotomia civilização versus bar- bárie”, justifica Arrigucci, observando que, embora fossem conservadores, homens co- mo Ford e Borges “tiveram uma visão aguda do papel dos vencidos” na constituição de suas respectivas nações.O professor, ao tra- duzir História do Guerreiro e da Cativa, um dos contos que integram o livro O Aleph, já havia percebido que Borges reinventava a nação argentina ao narrar o rapto de uma criança branca por índios e do guerreiro que

renegouseuexércitoparadefenderosinimi-

gos que antes atacara. “Borges se declarava

o menos histórico dos homens, mas isso é

uma falácia”, contesta Arrigucci, definindo como inconsistentes os estudos que levam em conta essa informação.

“O quemudou foi essa atitude que eles ado- taram diante da linguagem oral, penetran- do nela de corpo e alma, partindo de dentro da matéria que tinham para narrar”, obser- va o professor, concluindo que, no caso de Guimarães Rosa, o “atrasado” se rege pelo “moderno”.Também no sertão chega o dra- ma urbano, numa região em que o arcaico é identificado com oDiabo.Nos dois escrito- res, o conto oral, segundo Arrigucci, “é a matriz épica que faz vibrar toda a tradição da vasta poesia narrativa”. Na obra de Rulfo, a relação com o mito é ainda mais acentuadamente grega. A desci- da de Pedro Páramo em direção a Comala seria o equivalente da descida de Eneias (na Eneida) ao inferno para ouvir os mortos e reencontrar o pai Anquises. Rulfo contem- pla Comala e se pergunta sobre o futuro da terra arruinada (oMéxico). “Equivale a uma penetração no mito épico, do qual deriva o

romance, a travessia de um homem em bus- ca do seu destino”, explica Arrigucci,identi- ficando tanto em Pedro Páramo como em Grande Sertão traços de um Bildungsroman (romance de formação) subvertido, que iria na direção oposta do romance burguês por

“canalizaraépicaoralparacontarumahistó-

ria individual”. A histó- ria de Pedro ou de Rio- baldo deixa de ser a da travessia de desgarra-

dos,adaeducaçãosenti-

mental de deserdados, para sintetizar a histó- ria de uma nação. Pres-

tando tributo ao mes- tre Antonio Candido, Arrigucci lembra que, em ambos os casos, a reinvenção do roman- cepassapela tentativa delidarcom umgêne- ro importado, adaptando-o a um terreno bruto – como o sertão, que tem todos os caminhos e nenhum, onde a sintaxe é o pró- prio labirinto.“Em Grande Sertão: Veredas , a

linguagem instaura o mundo, é uma espécie de nebulosa poética com muito arcaísmo e uma poesia verbal que se impõe à própria sintaxe, como se fosse o volteio de um rio.” O ensaio O Guardador de Segredos, que dá título ao livro de Arrigucci, trata mesmo do caminho espinhoso que os poetas enfren- tam “para dar forma estética particular a uma experiência histórica mais ampla”. No caso,ele fala dopoetaSebastiãoUchoaLeite (1935-2003), a quem dedica a obra. O curio- so é que Uchoa Leite sempre foi lido como

Faroeste. Ford, diz ele, não era igualmen-

te o reacionário que pintam por ter dirigido

JohnWayne eminúmeros faroestes sobre a relação conflituosa entre brancos e índios.

“Seu sentido de história é inegável”, justifi- ca. Os filmes de Ford, segundo o professor, estariam impregnados deelementos que rejei-

tam a visão simplista do índio como o selva- gem que deve ser des- terrado. Já o sertão, por ser o lugar do reen- contro do narrador

consigo mesmo – caso de Rosa –, é o lugar em que o escritor penetra para refletir sobre a ambiguidade do Brasil. “Nosso problema é entender como é que o romancede repente renasce no sertão brasi- leiro de dentro das formas da narrativa oral”, observaArrigucci, aproximandoGui- marães Rosa do amigo mexicano Juan Rul- fo (1917-1986), autor doclássico Pedro Pára- mo (1955), filmadoesteano pelo diretorMa- teo Gil. Rulfo é contemplado no livro com um ensaio publicado há seis anos na revista Fragmentos e agora reescrito. Arriguccidestaca a proximidadeentre Pe- droPáramo e GrandeSertão:Veredas nãoape- nas pelo uso do monólogo interior – distin- to do de Faulkner ou James Joyce. Nas duas obras-primas dos escritores, eles se valem

da oralidade do campesino de Jalisco e do jagunço do centro-norte de Minas Gerais .

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“Nosso problema é entender como o romance renasce no sertão brasileiro pela narrativa oral”

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um poeta radicalmente individualista, um escritor na contramão da história, que viaja- vano tempopara resgatarumaouduasmalu- quices góticas. Satírico, rabelaisiano, o poe- ma de Uchoa Leite, segundo o professor, “não se constrói como o espaço em que a poesia se dá a ver, mas onde ela tende a se ocultar”. Com a matéria biográfica, ele aca- bou erguendo um monumento à qualidade literária que em tudo contrasta com a preca- riedade estética do país em que viveu.

Rebelde. Outro poeta pouco compreendi- do tem sua obra analisada por Arrigucci em dois ensaios, o paulistano Roberto Piva,

cujo “individualismo anárquico” o mante- veafastado da sala de visitas dacríticaliterá- ria desde que foi publicado por Massao Oh- no, em 1963. Rebelde com causa, pastor vir- giliano em busca de prazeres exóticos na metrópole, Piva fez poemas de um “erotis- mo desbragado”. A crítica brasileira, lem- bra Arrigucci, “fez que não viu e voltou as costas para uma obra poética de quase meio século”.Mas, na direçãocontrária dos críticos que analisaram seu trabalho, Arri- gucci ousa filiá-lo a uma tradição que inclui os nomes de Murilo Mendes e Jorge de Li- ma,mostrandocomo o surrealismoe o cato- licismo deram as mãos para receber o filho pródigo, cuja “agressividade” e “desregra- mento dos sentidos” o teriammantido lon- ge desses visionários poetas. “Pouco se es- tuda a renovação católica de Jorge de Lima

e a mistura sui generis da religião com o

surrealismo de Murilo Mendes, mas ela te-

ve uma importância enorme no contexto estético e ideológico brasileiro.” Homem de corrigir injustiças, Arrigucci também cruzou fronteiras como paladino

literário. Idealizador da coleção Prosa do Observatório, daeditoraCosacNaify,ele pu- blicou autores confinados aos sebos, como

o uruguaio Felisberto Hernández (1902

-1964) e o peruano Julio Ramón Ribeyro (1929-1994). Agora, acaba de editar Facun- do ou Civilização e Barbárie para a mesma editora, a obra máxima do argentino Do- mingoF. Sarmiento (1811-1888) sobre ocau- dilho de mesmo nome. Compartilhar bons livros é com ele mesmo.

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Leia trecho do livro no site

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Atenção. Arrigucci em seu escritório de trabalho: no livro, poetas rebeldes, que a academia mal analisa; na pauta, ensaio sobre Rosa, Borges e o diretor John Ford