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6 enfatizando a objegao de prazer. Podemos dizer que o aparelho mental serve ao propésito de dominar e eliminar as cargas de estimulo @ as somas de excitagao que incidem sobre ele, provenientes de fora e de dentro. E imediatamente ébvio que os instintos sexuals, do comego ao fim de seu desenvolvimento, atuam com Vistas obtengao de prazer; eles mantém inalterada sua fungao original. Os outros instintos, os instintos do go, tém, inicialmente, 0 mesmo objetivo. Sob a influéncia da instrutora Necessidade, porém, logo aprendem a substiuir & principio de prazer por uma modificagao do mesmo. Para eles, a tarefa de evitar desprazer vem a ser t4o importante como a de obter prazer. O ego descobre que Ihe & inevitavel renunciar a satisfagao imediata, adiar a obtengéio de prazer, suportar um pequeno desprazer ¢ abandonar inteiramente determinadas fontes de prazer, Um ego educado dessa maneira tornou-se ‘racional’; ndo se deixa mais govemar pelo principio de prazer, mas obedece ao principio de realidade que, no fundo, também busca obter prazer, mas prazer que se assegura levando em conta a realidade, ainda que seja um prazer adiado ou diminuido.A transi¢ao do principio de prazer para o principio de realidade ¢ um dos mais importantes passos na diregao do desenvolvimento do ego, Jé sabemos que € $6 tardia e relutantemente que 8 instintos sexuais se reuinem a essa parte do desenvolvimento, € mais adiante ouviremos falar nas consequéncias, para os seres humanos, do fato de sua sexualidade se contentar com lagos téo frouxos com a realidade extema. E agora, para terminar, um iiltimo comentario a respeito dessw assunto. Se 0 ego do homem tem seu préprio processo de desenvolvimento, assim como a libido tem o seu, os senhores nao se surpreenderdo ao ouvir que também ha ‘regressées do ego’, € estardo desejosos de saber também qual o papel que pode ser desempenhado, nas doengas neuréticas, por esse retorno do ego a fases anteriores de seu desenvolvimento, CONFERENCIA XXill OS CAMINHOS DA FORMAGAO DOS SINTOMAS SENHORAS E SENHORES: Para os leigos, os sintomas constituem a esséncia de uma doenca, ¢ a cura consiste na remogao dos sintomas. Os médicos atribuem importancia a distingao entre sintomas © doenga, ¢ afirmam que eliminar os sintomas no equivale a curar a doenga. A tinica coisa tangivel que resta da doenga, depois de eliminados os sintomas, é a capacidade de formar novos sintomas. Por esse motivo, no momento adotaremos a posigso do leigo e suporemos que decifrar os sintomas significa o mesmo que compreender a doenga. Os sintormas —e, naturalmente, agora estamos tratando de sintomas psiquicos (ou psicogénicos) e de doenga psiquica — so atos, prejudiciais, ou, pelo menos, initeis @ vida da pessoa, que por vez, deles se queixa como sendo indesejados ¢ causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside ro dispéndio mental que acarretam, ¢ no dispéndio adicional que se toma necesséiio para se lutar contra eles. Onde existe extensa formagao de sintomas, esses dois tipos de dispéndio podem resultar em extraordinario empobrecimento da pessoa no que se refere & energia mental que the pemanece disponivel ¢, com isso, na paralisagao da pessoa para todas as tarefas importantes da vida. Como esse resultado depende principalmente da quantidade da energia que assim & absorvida, os senhores verdo facimente que ‘ser doente’ & em Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 69 esséncia, um concelto pritico. Se, contudo, assumirem um ponto de vista teérico endo considerarem essa questo de quantidade, os senhores podem muito bem dizer que todos nés somos doentes — isto 6, neuréticos —, pols as precondigées da formagao dos sintomas também padem ser observadas em pessoas normals. Ja sabemos que os sintomas neurdticos sao resultado de um conflito, e que este surge em virtude de um novo método de salistazer a libido [ver em [tI]. As duas forgas que entraram em luta encontram-se novamente no sintoma e se reconelliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado. E por essa razéo, também, que 0 sintoma 6 téo resistente: 6 apoiado por ambas as partes em luta, Também sabemos que um dos componentes do confito € a libido insatisfeta, que foi repelida pela realidade e agora deve procurar outras vias para salisfazer-se, Se a realidade se mantiver intransigente, ainda que a libido esteja pronta a assumir um outro objeto em lugar daquele que the foi recusado, entao a mesma libido, finalmente, sera compelida a tomar © caminho da regressao e a tentar encontrar satisfagdo, seja em uma das organizagdes que ja havia deixado para trés, seja em um dos objetos que havia anteriormente abandonado. A libido & induzida a tomar © caminho da regressao pela fixagao que dexou apés si nesses pontos do seu desenvolvimento.0 caminho que leva a perversao se desiaca nitidamente daquele que leva & neurose, Se essas regressées no suscitam objego por parte do ego, ndo surgiré neurose alguma; e a libido chegara a alguma satisfago real, tembora néo mais uma satisfagéo normal. Entretanto, se 0 ego, que tem sob seu controle ndo s6 a consciéncia, mas também 0 acesso a inervagao motora e, por conseguinte, &realizagao dos desejos mentais, no concordar com essas regressées, seguir-se-é o conflto. A libido, por assim dizer, ¢ inlerceptada e deve procurar escapar em alguma diregtio na qual, de acordo com as exigéncias do principio de prazer, possa encontrar uma descarga para suas calexias de energia. Ela deve relirar-se do ego. Uma salda dessa espécie é-the oferecida pelas fixagées situadas na trajeléria do seu desenvolvimento, na qual agora entrou regressivamente — fixagées das quais 0 ego se havia protegido, no passado, por meio de repressées. Catexizando essas posig6es reprimidas, & medida que se desioca para trés, a libido se retirou do ego e afastou-se de suas leis e, a0 mesmo tempo, renunclou a toda a educagéo que adquiriu sob influéncia do ego. Era décl somente enquanto a satisfagdo Ihe acenava; mas, sob a dupla pressao da frustragao externa e intema, torna-se refrataria e relembra 6pocas anteriores e mehores. Tal é 0 carater fundamentalmente imutavel da libido. As idéias, as quais agora transfere sua energia em forma de catexia, pertencem ao sistema do inconsciente e estéo sujeitas aos processos que ali s40 possiveis, sobretudo condensagao € desiocamento. Estabeleceu-se, assim, condigdes que se assemelham totalmente aquelas existentes na construgao onirica. © sonho propriamente dito, que fol completado no inconsciente © que & a realizag8o de uma fantasia inconsciente constituida de um desejo, enfrenta uma parcela de alividade (pré-)eonsciente que exerce o papel de censura e que, quando fol preservada, permite a formago do sonho manifesto em forma de um acordo. Do mesmo mado, aquilo que representa a libido no inconsciente tem de contar com a forga do ego pré-consciente. A oposi¢ao formada contra ela no ego persegue-a como se fora uma ‘anticatexia'e compele-a a escolher uma forma de expresso da propria oposigao. Assim, 0 sintoma emerge como um derivado miltiplas-vezes-distorcido da realizagao de desejo lbinal inconsciente, uma pega de ambiglidade engenhosamente escolhida, com dois signicados em completa contradigao miitua. Quando a esse iltimo aspecto, porém, hd uma distingao entre a construgao de um sonho e a de um sintoma. Isso porque, na formagao onirica, 0 propésito pré-consciente visa simplesmente a Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 70 reservar o sono, no permitir que algo que venha a perturbé-lo possa irromper na consciéncia; nao insiste em bradar claramente: ‘Nao, pelo contrario!’ ao impulso inconsciente pleno de desejos. Consegue ser mais tolerante porque a situago de alguém que dorme & menos perigosa. O estado de sono, por si mesmo, impede qualquer saida em diregao a realidade, Os senhores percebem, entéo, que 0 escape da libido, em condigées de conflito, se torna possivel pela presenca de fixagées. A catexia regressiva dessas fixagdes consegue contornar a repressao e leva a descarga (ou satisfagdo) da libido, sujeita as condigdes de um acordo a serem observadas. Pelo caminho indireto, via inconsciente e antigas fixagdes, a libido finalmente consegue achar sua safda até uma satisfagao real — ‘embora seja uma satisfagao extremamente restrita e que mal se reconhece como tal, Permitam-me acrescentar dois comentarios a essa conclusdo. Primeiro, gostaria que os senhores percebessem como aqui se mostram estreitamente interligados a libido e o inconsciente, de um lado, ¢, de outro lado, 0 ego, a consciéncia ea realidade, embora, de inicio, eles nao sejam da mesma espécie, absolutamente. E, segundo, devo solicitar-thes que tenham em mente que tudo quando eu disse a esse respelto e acerca do que vem a seguir, refere-se apenas a formacao dos sintomas na neurose de histeria, Onde, pois, encontra a libido as fixag6es necessarias para romper as repress6es? Nas atividades e experiéncias da sexualidade infantil, nas tendéncias parciais abandonadas, nos objetos da infancia que foram abandonados. E a estes, por conseguinte, que a libido retorna. A significagao desse periodo da infancia é dupla: por um lago, durante esse perfodo, pela primeira vez se tornam manifestas as tendéncias instintuais que ‘a ctianga herdou com sua disposigao inata; e, em segundo lugar, outros instintos seu so, pela primeira vez, despertados e postos em atividade pelas impressées externas e experiéncias casuais. Penso néo haver divida de que existe justificativa para estabelecermos essa diplice divisdo. A manifestagéo das disposi¢ées inatas realmente nao est sujeita a objegoes criticas, mas a experiéncia analitica de fato nos leva a supor que experiéncias puramente casuais, na infancia, so capazes de deixar atrés de si fixagées da libido. E nisto néo velo nenhuma dificuldade teérica. As disposigbes da constituigéio também so indubitavelmente efeitos secundarios de experiéncias vividas pelos ancestrais no passado; também elas, em alguma ocasiao, foram adquiridas. Sem essa aquisigéo, ndo haveria hereditariedade. E é concebivel que uma aquisico dessa espécie, que conduz @ heranga, chegaria ao fim justamente na geragdo que estamos considerando? A importancia das experiéncias infantis ndo deve ser totalmente negligenciada, como as pessoas preferem, em comparagao com as experiéncias dos ancestrais da pessoa e com sua propria maturidade; pelo contrério, as cexperiéncias infantis exigem uma consideragao especial. Elas determinam as mais importantes conseqtiéncias, porque ocorrem numa época de desenvolvimento incompleto e, por essa mesma razio, s4o capazes de ter efeitos traumaticos. Os estudos sobre os mecanismos do desenvolvimento, feitos por Roux e outros, tam mostrado que a picada de uma agulha em uma camada geminal de um embriéo no ato da divisao celular resulta em grave distirbio do desenvolvimento, A mesma lesdo inflgida a um animal larvar ou inteiramente desenvolvido nao causaria dano.A fixagao da libido de um adulto, que introduzimos na equagao etiolégica da heurose como representando o fator constitucional [ver em [1] e [2]], agora se desdobra, para nosso propésites, ‘9m mais dois componentes: a constituigdo herdade © a disposigdo adquirida no inicio da infancia. Como todos Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud n sabemos, um diagrama tem certamente uma acolhida simpatica junto aos estudantes. Por isso, vou resumir a situagao com um diagrama: A constituigao sexual hereditéria apresenta-nos uma grande variedade de disposigbes, conforme soja herdado, com particular intensidade, um ou outro dos instintos parciais, sozinho ou em combinagdo com os outros. A constituigio sexual forma, portanto, junto com 0 fator da experiéncia infantil, uma ‘série complementar’ exatamente semethante aquela que ja sabemos existir entre disposigao e experiéncia casual do adulto [ver em [1]. Em ambas as séries complementares encontramos os mesmos casos extremos e as mesmas relagées entre os dois fatores considerados, E aqui levanta-se a questéo de saber se os mais marcantes tipos de regressées libidinais — os que se fazem aos primeiros estédios da organizagdo sexual — ndo poderiam ser predominantemente determinados pelo fator constitucional hereditario. Contudo, é melhor adiar a resposta a essa questdo, até havermos sido capazes de apreciar uma série mais ampla de formas de doenga neurética. Consideramos agora, detidamente, 0 fato de a investigagéo analitica mostrar que a libido dos euréticos esté ligada as suas experiéncias sexuais infantis, Assim, ela confere a essas experiéncias uma dimensdo de grande importéncia para a vida e a doenga dos seres humanos. Elas mantém, sem qualquer redugdo, essa importéncia, no que concerne ao trabalho terapéutico. Se, todavia, nos abstrairmos dessa tarefa, podemos, assim mesmo, ver facilmente que existe nesse ponto o perigo de um equivoco que poderia levar-nos a basear nossa viséo da vida, com demasiada unilateralidade, na situagao neurética. Devemos, afinal, deduzir da importéncia das experiéncias infantis 0 fato de que a libido a elas retornou regressivamente, apés haver sido expulsa de suas posigdes posteriores. Nesse caso, torna-se muito tentadora a conclusdo inversa — a de que esas experiéncias libidinais néo tiveram absolutamente nenhuma importancia na época em que ocorreram, € apenas regressivamente a adquiriram. Os senhores se recordardo de que ja consideramos uma altemativa similar em nossa discusséo sobre 0 complexo de Edipo [ver em [1] e [2].Outrossim, no acharemos dificil chegar a uma deciséo. A assertiva de que a catexia libidinal (e, portanto, a significagdo patogénica) das cexperiéncias infantis intensificou-se grandemente pela regressao da libido, 6 indubitavelmente correta, porém induziria a erro se fSssemos considerd-la, isoladamente, decisiva. Deve-se permitir também a apreciagdo de outras consideragoes. Em primeiro lugar, a observago mostra, de uma forma que exclui qualquer duivida, que as experiéncias infantis possuem uma importancia toda peculiar, @ disto elas dao provas j4 na infancia, Também as criangas tém suas neuroses, nas quais 0 fator do desiocamento para tras, no tempo, é necessariamente muitissimo reduzido ou até mesmo esta completamente ausente, pois nelas o inicio da doenca advém imediatamente apés as experiéncias traumaticas. O estudo dessas neuroses infantis protege-nos de mais um equivoco perigoso relativo as neuroses de adultos, na mesma medida em que os sonhos de criangas nos deram a chave da compreensao dos sonhos de adultos, As neurases de criangas sto muito comuns, muito mais comuns do que se supde. Multas vezes, elas deixam de ser notadas, so consideradas sinais de uma crianga ma ou arteira, muitas vezes, também, so mantidas em estado de sujeigdo pelas autoridades responsaveis pelas criancas; porém, sempre podem ser reconhecidas, retrospectivamente, com facilidade. Em geral, surgem sob a forma de histeria de angustia, Em ocasido subsequente, saberemos o que isto significa [ver em [1], adiante]. Se uma Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 2 neurose emerge posteriormente na vida, a andlise revela, regularmente, que ela 6 continuagao direta da doenca infantil, que pode ter aparecido como sendo apenas um indicio velado. Entretanto, conforme eu disse, ha casos fem que esses sinais de neurose na infancia continuam ininterruptamente numa doenga que dura toda a vida Pudemos analisar alguns exemplos dessas neuroses infantis na prépria infancia — quando estavam realmente presentes; muito mais amide tivemos, porém, de contentar-nos com o caso de alguém que adoeceu na vida adulta, possibilitando-nos obter uma compreensdo diferida de sua neurose da infancia. Em tals casos, nao devemos deixar de fazer algumas corregoes e de tomar determinadas precaug6es.Em segundo lugar, devemos pensar que seria inconcebivel a libido regredir de forma to regular ao periodo da infancia, a menos que haja ali algo que exerga sobre ela uma atragao, A fixagdo, que supusemos estar presente em determinados pontos do curso do desenvolvimento, s6 tem significado se considerarmos que ela consiste na retengao de determinada quantidade de energia libidinal. E, finalmente, posso assinalar-Ihes que, entre a intensidade e importancia Patogénica das experiéncias infantis © das experiéncias posteriores, existe uma relagéo complementar semelhante a série de que ja tratamos. Existem casos em que todo o peso da causagao recai nas experiéncias sexuais da infancia, casos em que esas impressées exercem um efeito definidamente traumatico e nao exigem enhum outro apoio, nessa ago patogénica, além do que thes pode proporcionar uma constituigéo sexual médica e a circunstdncia de seu desenvolvimento incompleto. Paralelamente a esses casos, existem outros nos uals todo 0 acento recai nos confltos posteriores; e verificamos, na anélise, que a énfase dada as impressoes da infancia aparece como sendo inteiramente obra da regressdo. Assim, temos extremos de ‘inibig&o de desenvolvimento’ e de ‘tegressao’, e, entre estes, todos os graus de combinagao entre os dois fatores.Esses fatos tm algum interesse do ponto de vista da educagao, que planeja a prevengao das neuroses intervindo hum estado inicial do desenvolvimento sexual das criangas. Contanto que se dia a ateng&o principalmente ara as experiéncias sexuais infantis, deve-se supor que se tem feito tudo pela profilaxia das doengas nervosas mediante o cuidado de se adiar o desenvolvimento da crianga ¢ de esta ser poupada de experiéncias de tal espécie. Entretanto, j4 sabemos que as precondigbes para a causagSo das neuroses so complexas @ nao podem ser influenciadas em seu todo, se tomarmos em considerago apenas um dos fatores. Uma protegao estrita da crianga carece de validade por ser impotente contra o fator constitucional. Ademais, efetuar essa protecdo 6 mais dificil do que a imaginam os educadores, e encerra dois novos perigos que nao devem ser subestimados: 0 fato de ela pode ir fundo demais — de encorajar um excesso de repressdo sexual com resultados prejudicials — @ 0 fato de ela poder enviar a crianga ao encontro da vida sem qualquer defesa contra a avalanche de exigéncias sexuais que sdo de se esperar na puberdade. Assim, continua sendo extremamente duvidoso saber até onde a profilaxia na infancia possa ser execulada com vantagens, e se uma modificagao de atitudes para com a situagao imediata nao poderia oferecer um melhor angulo de abordagem a prevengao das euroses Retomemos agora aos sintomas. Estes criam, portanto, um substituto das satisfagao frustrada, realizando uma regress da libido a épocas de desenvolvimento anteriores, regresso a que necessariamente se vincula um retomo a estadios anteriores de escolha objetal ou de organizagao. Descobrimos, ha algum tempo, que os neuréticos estdo ancorados em algum ponto do seu passado; agora sabemos que esse ponto & um periodo do seu pasado, no qual sua libido nao se privava de satisfacao, no qual eram felizes. Buscam na historia de sua vida, até encontrarem um periodo dessa ordem, ainda que tenham de retroceder tanto, que Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 3 atinjam a época em que eram bebés de colo — tal como dela se lemibram ou a imaginam, a partir de indicios posteriores, De algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfagao, deformada pela censura que surge no conflto, via de regra transformada em uma sensagao de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doenga, O tipo de satisfagdo que o sintoma consegue, tem em si muitos aspectos estranhos ao sintoma,Podemos desprezar o fato de que o sintoma se constitui em algo irreconhecivel para 0 individuo que, pelo contrario, sente a suposta satisfagiio como sofrimento e se queixa deste. Essa transformagao 6 uma fungao do conflto psiquico sob pressao, do qual o sintoma veio a se formar. Aquilo que para o individuo, em determinada época, constitula uma satisfagéo, na realidade passa, hoje, necessariamente a originar resisténcia e repugndncia, Conhecemos bem um modelo banal, porém instrutivo, de uma tal mudanga de atitude. A mesma crianga que em determinada época sugava com avidez o seio matemo, alguns anos depois, provavelmente, mostrara uma intensa aversao a tomar leite, 0 que causa dificuldade na sua criagao. A aversao aumenta até a repugnancia, no caso de se formar uma pelicula sobre o leite ou sobre a mistura que contenha leite, Talvez nao possamos excluir a possibilidade de a pelicula reviver a lembranga do seio matemo, outrora tao ardentemente desejado, Entretanto, entre as duas situagées coloca-se a experiéncia do desmame, com seus efeitos trauméticos.Existe algo mais, além disso, que faz com que os sintomas nos parecam estranhos ¢ incomprensiveis como meio de satisfagao libidinal. Eles nao se parecem absolutamente com nada de que tenhamos 0 habito de normalmente auferir satisfagdo. Em geral, eles desprezam os objetos e, com isso, abandonam sua relacdo com a realidade externa, Podemos verificar que esta 6 uma consequéncia de se haver rejeitado o principio de realidade se haver retornado ao principio de prazer, Também 6, contudo, um retorno a Um tipo de autoerotismo difuso, do tipo que proporcionava o instinto sexual nas primeiras satisfagées. Em lugar de uma modificagdo no mundo externo, essas satisfagdes substituem-na por uma modificago no proprio corpo do individuo: estabelecem um ato interno em lugar de um extemo, uma adaptagao em lugar de uma ago — uma vez mais, algo que corresponde, filogeneticamente, a uma regressdo altamente significativa. Isto somente compreenderemos em conexéo com algo novo que ainda teremos de aprender das pesquisas analiticas da formagao dos sintomas. Ademais, devemos lembrar que os mesmos processos pertencentes ao inconsciente tém seu desempenho na formagéo dos sintomas, tal qual o fazem na formagao dos sonhos — ou seja, condensagao ¢ desiocamento. Um sintoma, tal qual um sonho, representa algo como ja tendo sido satisteito: uma satisfagéo & maneira infantil, Mediante uma condensagéo extrema, porém, essa satisfagdo pode ser comprimida em uma sé sensago ou inervagio, ¢, por meio de um deslocamento extremo, ela pode se restringir @ apenas um pequeno detalhe de todo o complexo libidinal. Nao ¢ de causar surpresa se também nés, muitas vezes, temos dificuldade em reconhecer num sintoma a satisfacdo libidinal, de cuja presenca suspeitamos € que invariaveimente se confirma.Eu os avisei de que ainda tinhamos algo novo para aprender; trata-se realmente de algo surpreendente e desconcertante. Por meio da andlise, conforme saben, partindo dos sintomas chegamos ao conhecimento das experiéncias infantis, as quais a libido esta fixada e das quais se formam os sintomas. Pois bem, a surpresa reside em que essas cenas da infancia nem sempre s8o verdadeiras. Com efeito, no sdo verdadeiras na maioria dos casos, ¢, em alguns, so 0 posto direto da verdade histérica. Conforme os senhores verdo, essa descoberta esta fadada, mais que qualquer outra, a desacreditar tanto a andlise, que chegou a tal resultado, como os pacientes, em cujas declaragées se Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 74 fundamentam a andlise € todo 0 nosso entendimento das neuroses. Existe, contudo, mais alguma coisa singularmente desconcertante em tudo isso, Se as experiéncias infantis trazidas luz pela andlise fossem invariavelmente reais, deveriamos sentir estarmos pisando em chao firme; se fossem regulatmente falsificadas © mostrassem nao passar de invengdes de fantasias do paciente, seriamos obrigados a abandonar esse terreno movedigo e procurar salvacéo noutra parte. Mas, aqui, néo se trata nem de uma nem de outra coisa pode-se mostrar que se esta diante de uma situagéio em que as experiéncias da inféncia construidas ou recordadas na andlise S40, 4s vezes, indiscutivelmente falsas e, as vezes, por igual, certamente corretas, @ na maior parte do casos so situagées compostas de verdade e de falsificagao. As vezes, portanto, os sintomas representam eventos que realmente ocorreram, @ aos quais podemos atribuir uma influéncia na fixagdo da libido, e, por vezes, representam fantasias do paciente, nao talhadas para desempenhar um papel etiolégico, E dificil achar uma saida nesses casos. Talvez possamos iniciar por uma descoberta semelhante — ou seja, a de ue lembrangas infantis isoladas, que as pessoas tém possuido conscientemente desde os tempos imemoriais @ antes que houvesse qualquer coisa semelhante @ andlise [ver em [1], acimal, podem igualmente ser falsificadas, ou, pelo menos, podem combinar verdade e adulteragdo, em abundancia, No caso destas, raramente existe qualquer dificuldade em demonstrar sua inexatidéo; assim, ao menos temos a garantia de saber que a responsabilidade por esse inesperado desapontamento nao esté na andlise, ¢ sim, de algum modo, nos pacientes. Apés alguma reflexao facilmente poderemos entender o que 6 que existe nessa situagao que tanto nos confunde. E 0 reduzido valor concedido a realidade, ¢ a desatengdo a diferenga entre realidade e fantasia, Somos tentados a nos sentir ofendidos com o fato de 0 paciente haver tomado nosso tempo com historias inventadas. A realidade parece-nos ser algo como um mundo separado da invengao, ¢ Ihes atribulmos um valor muito diferente. Ademais, também o paciente enxerga as coisas por esse prisma, em seu pensar normal. Quando apresenta o material que conduz desde os sintomas as situag6es de desejo modeladas em suas experiéncias infantis, ficamos em divida, no inicio, se estamos lidando com a realidade ou com fantasias. Posteriormente, determinadas indicagdes nos possibilitam chegar a uma concluséo, € nos defrontamos com tarefa de transmit-la ao paciente. Isto, porém, invariavelmente causa dificuldades. Se comegarmos por dizer-ine diretamente que agora esté disposto a trazer & luz as fantasias com as quais deturpou a histéria de sua inféncia (assim como toda nagdo adultera sua pré-histéria esquecida, construindo lendas), podemos observar que 0 interesse do paciente em continuar a desenvolver o assunto subitamente diminui de uma forma indesejavel. Ele, também, quer experimentar as situagdes reais e desdenha tudo aquilo que & simplesmente ‘imaginario’ Todavia, se até a conclusdo dessa parte do trabalho o deixarmos na crenga de que estamos ocupados em investigar os eventos reais de sua infancia, corremos a risco de, posteriormente, ele acusar-nos de estarmos equivocados e de rir-se de nés, por nossa aparente credulidade. Levard um bom tempo até pode assimilar a nossa proposi¢ao de que podemos igualar fantasia e realidade; e nao nos importaremos, em principio, com qual seja esta ou aquela das experiéncias da infancia que estéo sendo examinadas. Ademais, esta 6, evidentemente, a Unica atitude correta a adotar para com esses produtos mentais. Também eles possuem determinada realidade. Subsiste 0 fato de que o paciente criou essas fantasias por si mesmo, e essa circunstancia dificimente terd, para a sua neurose, importancia menor do que teria se tivesse realmente cexperimentado 0 que contém suas fantasias. As fantasias possuem realidade psiquica, em contraste com a Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 75 realidade material, ¢ gradualmente aprendemos a entender que, no mundo das neuroses, a realidade psiquica 6 a realidade decisiva. Entre as ocorréncias que aparecem repetidamente na historia dos anos iniciais da vida dos neuréticos — recordagées que raramente estéo ausentes — existem algumas de especial importancia, as quais, por esta razao, penso, merecem maior relevo que 0 restante, Como exemplos dessa categoria, enumero as sequintes: observagao do coito dos pais, sedugdo por um adulto e ameaga de ser castrado. Seria um erro supor que essas recordagées nunca se caracterizam pela realidade material; ao contrério, amilide esta 6 omprovada de modo inconteste por meio de indagagao junto a membros mais velhos da familia do paciente. Por exemplo, nao é nada raro que um menininho que comega a brincar de modo arteiro com seu pénis @ ainda do tem nogio de que se deve esconder tal atividade, seja ameagado, por um dos pais ou pela baba, de Ihe serem cortados 0 pénis ou a mao pecaminosa. Os pais, quando Ihes perguntam a esse respeito, admitem haver-se passado esse fato, pois pensam haver realizado algo de uti ao fazerem tal ameaga; numerosas pessoas tém uma meméria consciente correta de tal ameaga, sobretudo se foi feta em period um tanto posterior. Quando a ameaga parte da mae, ou de alguma outra pessoa do sexo feminino, esta geralmente diz que sua execugto ficaré a cargo do pal — ou do médico. Em Struwwelpeter, a famosa obra de Hoffamann, pediatra de Frankfurt, (a qual deve sua popularidade justamente @ compreensao dos complexos sexuais ¢ de outros complexes da Infancia), os senhores verde a castragdo atenuada em amputagdo dos polegares, como castigo peta obstinagao em sugé-tos. E altamente improvavel, porém, que as criangas sejam ameagadas com castragéo com tanta freqiéncia como aparece na andlise de neuréticos. E-nos suficiente perceber que a crianga, em sua imaginagao, capta uma ameaga desse tipo, com base em indicios @ com a ajuda de um vago Conhecimento de que a satisfago auto-erdtica the € proibida, e sob a impressdo de sua descoberta dos genitais femininos. [ver em [1], acima.] Nao apenas em familias proletarias 6 perfeitamente possivel que uma crianga, enquanto ainda nao se julga possuir compreensao ou meméria, soja testemunha do ato sexual dos pais ou de outras pessoas adultas; e no se pode rejeltar a possibiidade de que a crianga sera capaz de entender @ reagir a essa impressao retrospectivamente. Se, entretanto, 0 colto & descrito em seus minimos detalhes, os quais seriam diffceis de observar, ou como sucede muito amiiide, se se revela como sendo um colto por trés, more ferarum (a maneira dos animals], néo pode subsistr qualquer divida de que a fantasia se baseia numa observacao do coito de animais (como 0 de ces) © que 0 motivo foi a escopofilia insatisfeita da crianga, durante a puberdade. O maximo de realizagao nesses assuntos é uma fantasia de observar o coito dos pais quando a pessoa ainda era crianga nao nascida, no iitero. As fantasias de ser seduzido encerram interesse especial, de vez que muito frequentemente nao sao fantasias, mas recordagées reals. Felizmente, apesar de tudo elas ndo so reais, como pareceu tantas vezes, no inicio, ser demonstrado pelas descobertas da andlise. A sedugao por uma crianga de mais idade ou por alguém da mesma idade 6 ainda mais frequente do que por tum adulto; €, no caso de meninas, que relatam um evento dessa ordem na sua infancia, no qual o pal figura com muita regularidade como 0 sedutor, nao pode haver divida alguma quanto @ natureza imaginaria da acusagao, nem quanto ao motivo que levou a formulé-la, Uma fantasia de ser seduzido, quando nao ocorreu sedugo nenhuma, geralmente é utlizada por uma crianga para encobrir o period auto-erdtico de sua atividade sexual. Fantasiando retrospectivamente dentro dessas épocas mais primitivas um objeto desejado, a crianga se oupa da vergonha de se haver masturbado. No entanto, os senhores néo devem supor que o abuso sexual de Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 76 uma crianga por algum dos parentes masculinos mais préximos pertenga inteiramiente ao reino da fantasia. A maioria dos analistas tera tratados casos nos quais esses eventos foram reais © poderiam ser constatados inquestionavelmente; o mesmo em tais casos, contudo, esses fatos se referiam a anos posteriores da infancia tinham sido transpostos para épocas mais precoces.A Unica impress que nos fica é esses eventos da infancia serem de certo modo exigidos como uma necessidade, inclulrem-se entre os elementos essenciais de uma neurose. Se ocorreram na realidade, nao hd o que acrescentar; mas, se no encontram apoio na realidade, sao agregados a partir de determinados indicios ¢ suplementados pela fantasia. O resultado & 0 mesmo, ¢, até 0 presente, ndo conseguimos assinalar, por qualquer diferenga nas conseqdéncias, se foi a fantasia ou a realidade aquela que teve a participagdo maior nesses eventos da infancia, Aqui, de novo temos simplesmente uma das relagdes complementares que mencionei tantas vezes; ela, principaimente, € a mais estranha de todas que ja encontramos. De onde procede a necessidade dessas fantasias, © o material para elas? Nao pode haver diivida de que suas fontes situam-se nos instintos; contudo, esta ainda por ser explicado or que sempre sdo geradas as mesmas fantasias com o mesmo contetido, Tenho pronta uma resposta, a qual sei que Ihes parecerd audaciosa. Acredito que essas fantasias primitivas, como prefiro denomind-las, e, sem divida, também algumas outras, constituem um acervo filogenético, Nelas, o individuo se contacta, além de sua propria experiéncia, com a experiéncia primeva naqueles pontos nos quais sua propria experiéncia foi demasiado rudimentar. Parece-me bem possivel que todas as coisas que nos so relatadas hoje em dia, na anélise, como fantasia — sedugo de criangas, surgimento da excitagao sexual por observar 0 coito dos pais, ameaga de castragao (ou, entdo, a propria castragao) — foram, em determinada época, ocorréncias reais dos tempos primitivos da familia humana, ¢ que as criangas, em suas fantasias, simplesmente preenchem os claros da verdade individual com a verdade pré-histrica. Repetidamente tenho sido levado a suspeitar que a Psicologia das neuroses tem acumuladas om si mais antiguidades da evolugao humana do que qualquer outra fonte.As coisas que acabei de descrever, senhores, compelem-me a examinar mais de perto a origem ¢ a significagao da atividade mental que se classifica como ‘fantasia’ [ou ‘imaginagao']. Conforme os senhores saber, ela desfruta de uma reputacao universalmente elevada, sem que sua posi¢o na vida mental tenha sido esclarecida. A seu respeito tenho observagées a fazer. O ego humano, como sabem, é, pela presséo da necessidade externa, educado lentamente no sentido de avaliar a realidade e de obedecer ao principio de Tealidade; no decorrer desse processo, & obrigado a renunciar, temporéria ou permanentemente, a uma Vatiedade de objetos e de fins aos quais esté voltada sua busca de prazer, ¢ ndo apenas de prazer sexual. Os homens, contudo, sempre acharam dificil renunciar ao prazer; néo podem deixar-se levar a fazé-lo sem alguma forma de compensacao. Por isso, retiveram uma atividade mental na qual todas aquelas fontes de prazer € aqueles métodos de conseguir prazer, que haviam sido abandonados, tém assegurada sua sobrevivéncia — uma forma de existéncia na qual se livram das exigéncias da realidade e aquilo que chamamos ‘teste de realidade’. Todo desejo tende, dentro de pouco tempo, a afigurar-se em sua propria realizagao; nao ha davida de que ficar devaneando sobre imaginarias realizagdes de desejos traz satisfagao, embora nao interfira com 0 conhecimento de que se trata de algo ndo-real. Desse modo, na atividade da fantasia, os seres humanos continuam a gozar da sensagao de serem livres da compulsao externa, qual ha muito tempo renunciaram, na realidade. Idearam uma forma de alternar entre permanecer um animal que busca 0 prazer, e ser, igualmente, Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 7 uma criatura dotada de razdo. Na verdade, os homens nao podem subsistir com a escassa satisfago que podem obter da realidade. "Simplesmente nao podemos passar sem construgdes auxiliares’, conforme disse, certa vez, Theodor Fontane. A criag&o do reino mental da fantasia encontra um paralelo perfelto no estabelecimento das ‘reservas’ ou ‘reservas naturals’, em locais onde os requisites apresentados pela agricultura, pelas comunicagées ¢ pela industria ameagam acarretar modificagées do aspecto original da terra que em breve o tornardo irreconhecivel. Uma reserva natural preserva seu estado original que, em todos os demais lugares, para desgosto nosso, foi sacrificado a necessidade, Nesses locais reservados, tudo, inclusive que & indlil € até mesmo nocivo, pode crescer e proliferar como the apraz. O reino mental da fantasia exatamente uma reserva desse tipo, apartada do principio de realidadeAs mais conhecidas produgées da fantasia sdo os chamados ‘devaneios’, que ja examinamos [ver em [1], satisfagées imaginarias de desejos ambiciosos, megalomaniacos, eréticos, que florescem com tanto mais exuberéncia, quanto mais a realidade aconselha modéstia ¢ contengao. A esséncia da felicidade da fantasia — tomar a obtengao de prazer, mais, uma vez, livre da aprovagao da realidade — mostra-se inequivocamente nesses desejos. Sabemos que tals devaneios so 0 nticleo e 0 protétipo dos sonhos notumos, Um sonho notumo é, no fundo, nada mais do que um devaneio que se tornou aproveitavel devido a liberag4o dos impulsos instintuais & noite, ¢ devido ao fato de haver sido distorcido pela forma que assume a atividade mental a noite. J& nos familiarizamos com a idéia de que mesmo um devansio nao 6 necessariamente conscients — de que ha também devaneios inconsciontes [ver em [1]. Tais devaneios inconscientes so, assim, a fonte ndo apenas dos sonhos noturnos, mas também dos sintomas neuréticos.A importancia do papel que desempenha a fantasia na formagao dos sintomas tornar- se-4 evidente para os senhores através disso que tenho a dizer-thes. Expliquei [ver em []] como, em caso de frustragao, a libido reveste de catexias, regressivamente, as posigdes que abandonou, as quais, porém, Permaneceram aderentes determinadas parcelas da mesma libido. O que ja expliquei, nao retire nem corrijo: porém, devo inserir, aqui, um elo de ligagdo. Como encontra a libido 0 caminho para chegar a esses pontos de fixagao? Todos os objetos e tendéncias que a libido abandonou, ainda nao foram abandonados em todos os sentidos. Tais objetos e tendéncias, ou seus derivados, ainda sao mantidos, com alguma intensidade, nas fantasias. Assim, a libido necessita apenas retirar-se para as fantasias, a fim de encontrar aberto o caminho que conduz a todas as fixagSes reprimidas. Essas fantasias gozaram de determinado grau de tolerancia: nao entraram em conflto com 0 ego, por mais fortes que possam ter sido os contrastes entre ele, desde que seja observada uma certa condi¢éo. Essa condigéo & de natureza quantitativa e € agora perturbada pelo deslocamento da libido para tras, em dirego as fantasias. Em conseqiiéncia desse acréscimo, a catexia de energia das fantasias é de tal modo aumentada, que elas comecam a estabelecer exigéncias e desenvolvem uma pressao no sentido de se tornarem realizadas. Mas isto toma inevitavel um conflto entre elas e 0 ego Tendo sido anteriormente pré-conscientes ou inconscientes, agora estéo sujeltas a repressao por parte do ego @ ficam & mercé da atragao por parte do inconsciente, Partindo daquilo que, agora, so fantasias inconscientes, a libido movimenta-se para trs, até as origens dessas fantasias no inconsciente — aos seus proprios pontos de fixagdo.A retragao da libido para a fantasia é um estédio intermediario no caminho da formagao dos sintomas @ parece que ela requer um nome especial. C.G. Jung introduziu © nome apropriado de ‘introversao mas depois, muito desacertadamente, deu-Ihe também um outro significado, Continuaremos a considerar que a Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud ot introversdo denota o desvio da libido das possibilidades de satisfagdo real e a hipercatexia das fantasias que até entao foram toleradas como inocentes. Um introvertido nao ¢ bem um neurético, porém se encontra em situagdo instdvel: seguramente desenvolverd sintomas na préxima modificagdo da relagdo de forga, a menos que encontre algumas outras saidas para sua libido represada, © carater irreal da satisfagao neurética © a desatencdo a diferenca entre fantasia e realidade ja so, por outro lado, determinados pelo fato de ter havido uma demora no estadio de introversdo. Sem duvida, terdo observado que, nessas tikimas explanagées, introduzi lum fator novo na estrutura da série etiolégica — ou seja, a quantidade, a magnitude das energias em questa. Ainda temos de levar em conta esse fator em tudo 0 mais. Nao basta uma anélise puramente qualitativa dos determinantes etiolégicos. Ou, expressando-o de outra maneira, & insuficiente uma visio simplesmente dinamica desses processos mentais; requer-se também uma linha de abordagem econdmica. Devemos dizer para nés mesmos que o conflito entre duas tendéncias nao irrompe seno quando foram atingidas determinadas intensidades de catexias, ainda que por muito tempo tenham estado presentes os fatores determinantes do confit ¢ referentes ao seu préprio tema. Da mesma forma, a significagao patogénica dos fatores constitucionais deve ser avaliada em relagao ao quanto mais de um esta presente na disposigéo herdada. Pode-se mesmo supor que a disposi¢go de todos os seres humanos é qualitativamente semelhante e apenas difere em virtude dessas condigées quantitativas. O fator quantitative stinto parcial, do que de outro, nao @ menos decisivo no que respeita a capacidade de resisténcia a doenga neurética. E uma questao de saber que quota de libido nao-utiizada uma pessoa é capaz de manter em suspenséo, e uma questao do tamanho da fragdo de libido que a pessoa é capaz de desviar dos fins sexuais para os fins sublimados. O objetivo fundamental da atividade mental, que pode ser descrito qualitativamente como um esforgo para obter prazer evitar desprazer quando examinado do ponto de vista econémico, surge como tarefa que consiste em dominar as quantidades de excitagao (massa de estimulos) que atuam no aparelho mental e em conter sua acumulagao, capaz de gerar desprazer.Era isto, pois, o que eu desejava dizer-lhes acerca da formagao dos sintomas nas neuroses. Nao posso, contudo, deixar de mais uma vez acentuar expressamente 0 fato de que tudo aqullo que disse, aqui, aplica-se apenas a formagao dos sintomas na histeria. Na prépria neurose obsessiva existe muita coisa diferente — excetuando aspectos fundamentais que permanecem inalterados — que sera encontrada. As anticatexias que se opdem as exigéncias dos instintos (que também j4 abordamos, no caso da histeria [ver em [1]}) tornam-se proeminentes na neurose obsessiva e dominam o quadro clinico, assumindo a forma daquilo que se conhece como ‘formagées reativas’. Nas demais neuroses descobrimos divergéncias semelhantes e de maior profundidade ainda, e nelas nossas investigagdes dos mecanismos de formagao dos sintomas ainda nao esto concluidas em ponto algum.Antes de deixé-los ir, gostaria, conludo, de chamar-lhes um pouco mais a atengao para um aspecto da vida de fantasia que merece o mais amplo interesse. Isto porque existe um caminho que conduz da fantasia de volta 4 realidade — isto &, 0 caminho da arte. Um artista é, certamente, em prin instintuais demasiado intensas. Deseja conquistar honras, poder, riqueza, fama e o amor das mulheres; mas faltam-the os meios de conquistar essas satisfagées. Conseqllentemente, assim como qualquer outro homem insatisfeito, afasta-se da realidade @ transfere todo 0 seu interesse, @ também toda a sua libido, para as construgées, plenas de desejos, de sua vida de fantasia, de onde o caminho pode levar & neurose. Sem duivida, um introvertido, uma pessoa nao muito distante da neurose, & uma pessoa oprimida por necessidades Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud 79 deve haver uma convergéncia de todos os tipos de coisas, para que tal ndo se torne o resultado completo de sua evolugao; na verdade, sabe-se muito bem com quanta frequéncia os artistas, em especial, sofrem de uma Inibigo parcial de sua eficléncia devido A neurose. Sua constituiggo provavelmente conta com uma intensa capacidade de sublimacao © com determinado grau de frouxidao nas repressées, 0 que 6 decisive para um Conflito. Um artista encontra, porém, © caminho de retorno a realidade da maneira expressa a seguir. A dizer a verdade, ele nao é 0 dnico que leva uma vida de fantasia, O acesso a regido equidistante da fantasia e da realidade 6 permitido pelo consentimento universal da humanidade, @ todo aquele que sofre privagao espera obter dela alivio e consolo. Entretanto, para aqueles que ndo so arlistas, é muito limitada a produgdo de prazer que se deriva das fontes da fantasia, A crueldade de suas repressées forga-os a se contentarem com esses estéreis devaneios aos quais é permitido 0 acesso a consciéncia, Um homem que é um verdadeiro artista, tem mais coisa a sua disposigéo. Em primeiro lugar, sabe como dar forma a seus devaneios de modo tal que estes Perdem aquilo que neles & excessivamente pessoal ¢ que afasta as demais pessoas, possibilitando que os outros compartihem do prazer obtide nesses devanelos. Também sabe como abranda-los de modo que nao traiam sua origem em fontes proscritas, Ademais, possui o misterioso poder de moldar determinado material até que se tome imagem fiel de sua fantasia; e sabe, principalmente, pér em conexéo uma tdo vasta produgao de prazer com essa representagio de sua fantasia inconsclente, que, pelo menos no momento considerado, as repress6es sao sobrepujadas © suspensas. Se 0 artista 6 capaz de realizar tudo isso, possibilita a outras pessoas, novamente, obter consolo e alivio a partir de suas proprias fontes de prazer em seu inconsciente, que para elas se tornaram inacessivels; granjeia a gratidéo e a admiragao delas, e, dessa forma, através de sua fantasia conseguiu 0 que originalmente alcangara apenas em sua fantasia — honras, poder e o amor das mulheres, CONFERENCIA XXIV (© ESTADO NEUROTICO COMUM SENHORAS E SENHORES: Agora que eliminamos essa parte dificil de nosso trabalho, em nossa iiimas explanagbes, proponho que, por algum tempo, abandonemos o assunto e nos voltemos para os senhores mesmos. Isto porque estou ciente de que os senhores esto insatisfeltos, Imaginaram uma ‘Introdugao a Psicandlise’ muito diferente. O que esperavam ouvir eram exemplos vividos, néo teoria, Em determinada ‘ocasiao, dizem os senhores, quando thes contei a parabola ‘No Subsolo no Primeiro Andar [ver em [1] (21) os senhores apreenderam algo da forma como so causadas as neuroses; as observagées deveriam ter sido, porém, observagées reais, e nao histérias inventadas, Ou quando, no inicio, descrevi-thes dois (esperemos que desta vez nao tenham sido inventados), e sua solugao e sua relagdo com a vida das pacientes [ver em [1], 0 ‘sentido’ dos sintomas se revelou aos senhores. Os senhores esperavam que eu prosseguisse nessa linha. Em vez disso, contudo, apresentei-ihes teorias prolixas, dificeis de compreender, que jamais estiveram completas e sempre tiveram algo de novo a ser acrescentado; operei com determinados conceitos Conferéncias Introdutérias sobre psicanalise (Parte ll) - Sigmund Freud