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Burguesia e liberalismo:

polÌtica e economia nos anos recentes

JORGE MIGLIOLI*

ìN„o se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenÁıes e que sua intervenÁ„o, atÈ o momento, salvou a civilizaÁ„o europÈia; o mÈrito que, por isso, o fascismo obteve para sÌ estar· inscrito na histÛriaî Ludwig von Mises, Liberalismo, Rio de Janeiro, 1987, p. 53; traduzido da ediÁ„o em inglÍs de 1985, que reproduz a ediÁ„o original em alem„o de 1927.

N„o se justifica a existÍncia do Estado a n„o ser para a intervenÁ„o na vida dos indivÌduos, seja em suas atividades econÙmicas, polÌticas, sociais e atÈ mesmo em seus relacionamentos privados. Assim, a existÍncia do Estado implica necessariamente a intervenÁ„o. Nesta linha de raciocÌnio, pode-se conceituar o liberalismo como constituindo uma situaÁ„o onde preponderam menores graus de intervenÁ„o, assim como a ditadura como sendo a aplicaÁ„o mais intensa da intervenÁ„o; È neste sentido que usaremos estes termos, reservando ‡ palavra intervencionismo o significado de uma situaÁ„o intermedi·ria entre liberalismo e ditadura. Conceitualmente È necess·rio separar a intervenÁ„o econÙmica e a intervenÁ„o polÌtica do Estado. Isto porque um mesmo Estado pode aplicar diferentes doses de intervenÁ„o a uma e a outra dessas duas atividades. … comum encontrar Estados politicamente liberais e fortemente intervencionistas na ·rea econÙmica (como, por exemplo, na Europa Ocidental apÛs a Segunda Guerra Mundial) ou, ao contr·rio, Estados economicamente liberais mas submetidos ‡ ditadura polÌtica (casos encontrados especialmente em paÌses subdesenvolvidos, dos quais o exemplo mais conhecido È o Chile do general Pinochet).

*Professor do Departamento de Sociologia, campus de Araraquara, SP, Unesp.

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AlÈm disto, n„o se pode considerar a intervenÁ„o do Estado, seja na ·rea econÙmica ou na polÌtica, como sendo sempre inteiramente coerente em termos de liberalismo ou de intervencionismo. Assim, por exemplo, um paÌs pode ser liberal nas atividades econÙmicas internas e restritivo em suas relaÁıes econÙmicas com o exterior (como os Estados Unidos, Jap„o e muitos outros), ou, na polÌtica, ser liberal no reconhecimento dos direitos de seus cidad„os mas fechado no processo de escolha dos ocupantes dos principais cargos executivos do governo (como na maioria dos chamados paÌses democr·ticos, onde a possibilidade de acesso a esses cargos È extremamente reduzida). Mas, para n„o complicar, deixaremos de lado esta quest„o da coerÍncia. O liberalismo, a ditadura e, entre os dois, o intervencionismo s„o formas alternativas de aÁ„o do Estado capitalista nas esferas econÙmicas e polÌticas em circunst‚ncias diferentes, visando sempre ‡ defesa dos interesses coletivos da classe dominante ou da fraÁ„o dominante do bloco no poder. Em linhas gerais, quando, num dado paÌs, a classe dominante È bastante homogÍnea (ou, pelo menos, n„o apresenta grandes rachaduras), est· segura de seu poder, n„o sofre ameaÁas do exterior, a economia funciona razoavelmente bem e os movimentos sociais (especialmente dos trabalhadores) est„o devidamente controlados, contidos ou adormecidos, ent„o o ambiente È propÌcio ao liberalismo em sua feiÁ„o tanto econÙmica como polÌtica. Mas quando n„o ocorrem essas condiÁıes, em menor ou maior n˙mero, ent„o abre-se espaÁo para o intervencionismo, em menor ou maior grau, o qual pode chegar, como ˙ltimo recurso, a uma ditadura ìcomumî ou atÈ mesmo ao fascismo ó que È um caso especial de ditadura da burguesia, com caracterÌsticas especÌficas. O fato È que, em face de ameaÁa externa (como guerra ou perda de mercado) e interna (forte oposiÁ„o da classe trabalhadora, das classes mÈdias ou atÈ mesmo de uma fraÁ„o descontente da classe dominante), a burguesia como um todo ou suas fraÁıes principais n„o tÍm escr˙pulos em recorrer ‡ ditadura a fim de impor sua vontade e assegurar seus interesses. Assim, na Europa, nas primeiras dÈcadas do sÈculo XX, com a ascens„o dos movimentos socialistas, a RevoluÁ„o Russa, as tentativas revolucion·rias na Alemanha, Hungria e outros paÌses, as economias desorganizadas pela Primeira Guerra Mundial e pelos erros governamentais, o poder fragmentado do Estado, etc., nada melhor do que apelar para as ditaduras a fim de pÙr ordem na casa e salvar a ìcivilizaÁ„o europÈiaî; daÌ o contentamento com o fascismo, manifestado por Ludwig von Mises (1881-1973), um dos mais destacados defensores do liberalismo neste sÈculo.

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… preciso esclarecer um pouco mais estas questıes. Evidentemente o recurso da burguesia a um regime totalit·rio acontece sempre em condiÁıes

histÛricas especÌficas, de forma que cada um deles tem suas caracterÌsticas prÛprias; mesmo assim, È possÌvel encontrar elementos comuns. O primeiro

È a existÍncia de uma certa desorganizaÁ„o social (dificuldades

econÙmicas, insatisfaÁ„o popular, greves, constantes conflitos polÌticos, etc.); o segundo, estreitamente associado ao primeiro, È a fraqueza dos detentores do poder ó membros e representantes da burguesia em seu conjunto ou de suas fraÁıes principais. Como eles n„o tÍm forÁa suficiente para reorganizar a sociedade de acordo com as leis existentes ó porque est„o divididos ou porque sofrem forte oposiÁ„o de outras classes ou camadas sociais ó, ent„o socorrem-se do golpe de Estado e, se vencedores, da conseq¸ente imposiÁ„o de regime totalit·rio, contando com apoio das forÁas armadas convenientemente preparadas para isso e utilizando-se, como argumento justificador, de discursos patrioteiros. Quando os detentores do poder, apesar de seus esforÁos, perdem a confianÁa da burguesia ou de suas fraÁıes principais, ent„o eles È que s„o removidos de seus cargos com o golpe de Estado; para isto os golpistas contam ou com o apoio explÌcito ou com a n„o ingerÍncia das forÁas armadas e podem lanÁar m„o de apenas partes delas ou de grupos paramilitares (como na It·lia e na Alemanha fascistas) formados por grupos de desclassificados sociais e por membros descontentes da classe mÈdia, dos camponeses e atÈ dos oper·rios, prometendo melhorar-lhes a vida, reorganizar a sociedade, salvar a naÁ„o, restaurar a religi„o, a moralidade, a pureza da raÁa ou qualquer outra coisa desse tipo.

Quando a burguesia È suficientemente homogÍnea ou uma fraÁ„o dela

exerce incontest·vel hegemonia, seu domÌnio de classe se processa institucionalmente, sem recurso a regime totalit·rio, usualmente contando com a submiss„o das classes mÈdias satisfeitas (que lhe d„o votos nas decisıes parlamentares e fornecem membros para suas funÁıes executivas)

e atÈ mesmo com o apoio polÌtico de parcela da classe trabalhadora,

principalmente atravÈs de lideranÁas sindicais corrompidas (o exemplo mais conhecido È o norte-americano). Nessas circunst‚ncias, a burguesia n„o permite qualquer desorganizaÁ„o social; ela age antes que isso aconteÁa, atravÈs de mudanÁas na polÌtica do governo, freq¸entemente precedidas de mudanÁas dos partidos polÌticos no poder (o revezamento

de partidos no poder È parte importante desse mecanismo de ajuste, como

a altern‚ncia de democratas e republicanos nos Estados Unidos e de conservadores e trabalhistas na Inglaterra).

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Sentindo-se forte, a burguesia pode dar-se ao luxo de exercer seu

domÌnio despido de m·scara e instaurar polÌticas francamente favor·veis

a ela, como o liberalismo econÙmico ó cuja aplicaÁ„o pr·tica sempre

deu como resultado, na outra ponta, o prejuÌzo ‡ classe trabalhadora. Alguns exemplos s„o bem conhecidos. ComeÁamos com o prÛprio inÌcio do liberalismo: a Lei dos Pobres na Inglaterra ó estabelecida pela rainha Elizabeth I na passagem do sÈculo XVI para o XVII com o fim de minorar

a misÈria em seu reino ó foi reformulada em 1830, com base na doutrina

liberal difundida por Adam Smith e seus adeptos, e teve como resultado o inchaÁo da forÁa de trabalho industrial com os conseq¸entes aumento da concorrÍncia dos trabalhadores por emprego e reduÁ„o dos sal·rios. Segundo exemplo: em 1890, nos Estados Unidos, foi aprovada a Lei

Sherman para combater a aÁ„o dos monopÛlios e restaurar a livre concorrÍncia entre empresas, um dos postulados da doutrina liberal; entretanto, a justiÁa americana decidiu que a lei tambÈm se aplicava ‡ uni„o de trabalhadores; daÌ que, de 1890 a 1897, essa lei foi usada uma ˙nica vez contra a combinaÁ„o de empresas, mas vinte vezes contra a associaÁ„o de trabalhadores, com o argumento de que essa associaÁ„o restringia a competiÁ„o no mercado de trabalho. Na segunda metade de dÈcada de 1920 na Europa e nos Estados Unidos, nos alvores da grande crise econÙmica e durante a prÛpria crise, os defensores do liberalismo pregavam e executavam a reduÁ„o de impostos, de gastos governamentais,

de sal·rios, do poder dos sindicatos (que impedia a queda dos sal·rios); o resultado foi a profunda depress„o de 1929-1933, com enorme massa de desempregados e misÈria generalizada. Finalmente, nos dias de hoje, sob

o impÈrio do liberalismo econÙmico, novamente constatam-se elevadas

taxas de desemprego e baixos sal·rios. AtÈ hoje, para os trabalhadores dos paÌses capitalistas, o sistema mais favor·vel foi o do intervencionismo econÙmico. Nesse caso, em geral, a burguesia n„o chega a estar enfraquecida mas tambÈm n„o se sente segura no poder, e por isso precisa negociar para conquistar apoios ou evitar oposiÁıes; a negociaÁ„o se realiza entre as prÛprias fraÁıes da burguesia e entre elas (ou algumas mais proeminentes) e as outras classes ou camadas sociais, e envolve desde consultas diretas atÈ outros procedimentos polÌticos, como debates parlamentares, campanhas partid·rias etc. num jogo de avanÁos e recuos. Nesse processo, os detentores do poder de Estado se vÍem obrigados, ‡s vezes, a ceder, a fazer concessıes, o que implica correspondentes intervenÁıes do Estado em diversas ·reas. Se os trabalhadores contam com boas condiÁıes (sindicatos e partidos fortes,

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movimentos sociais expressivos, um ambiente polÌtico interno ou externo favor·vel, etc.), ent„o È nesses momentos que conseguem obter vantagens sociais. O melhor exemplo dessa situaÁ„o È o perÌodo seguinte ‡ Segunda Guerra Mundial: a burguesia estava abalada, era preciso reorganizar a economia (e atÈ mesmo recuperar o paÌs das destruiÁıes de guerra, no caso europeu), havia um inequÌvoco ambiente antiautorit·rio (afinal a guerra n„o fora contra o fascismo?), os exÈrcitos soviÈticos empurraram

as fronteiras ìsocialistasî atÈ o centro da Europa, os comunistas estavam

tomando o poder na China

O resultado de tudo isso foi um forte

intervencionismo econÙmico (do qual a implantaÁ„o do planejamento em alguns paÌses europeus foi sintom·tica) acompanhado por uma ampliaÁ„o dos direitos sociais. Ainda no fim da guerra (1944), alarmado com o intervencionismo e com as perspectivas de sua continuaÁ„o depois dela, outro expoente do liberalismo e, por isto mesmo, ganhador do prÍmio Nobel, Friedrich A. Hayek, em seu livro O caminho da servid„o, alertava para o possÌvel fim do capitalismo e da democracia. Contrariamente ao alerta, o que aconteceu foi uma jamais sonhada enorme expans„o do

capitalismo (sua ìidade de ouroî) com ampliaÁ„o dos direitos individuais

e sociais e a formaÁ„o dos chamados ìEstados de bem-estarî. * * * Durante o perÌodo de vinte e cinco anos apÛs o fim da Segunda Guerra,

a burguesia dos paÌses capitalistas centrais (agora incluindo o Jap„o) se

recompÙs do abalo e reforÁou seu poder. O fato novo foi e ainda È a intensificaÁ„o do processo de unificaÁ„o econÙmica da burguesia, em escala nacional e internacional: dentro dos paÌses eliminam-se as diferenÁas

entre as v·rias fraÁıes setoriais (rurais, industriais, comerciais, banc·rias)

e entre paÌses ocorre um fluxo recÌproco de investimentos entrelaÁando as

burguesias nacionais. Tal processo È possÌvel graÁas ‡ financeirizaÁ„o do capital e ‡s concomitantes expans„o e agilizaÁ„o das bolsas de valores.

Desde o final do sÈculo XIX, e aceleradamente depois da Segunda Guerra Mundial, um n˙mero crescente de empresas, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra, foi-se convertendo em sociedades anÙnimas,

com suas aÁıes vendidas nas bolsas e suas atividades gerenciais cada vez mais amplamente exercidas por um corpo de diretores formado por tÈcnicos

e administradores. A participaÁ„o dos acionistas na empresa se limita ‡

escolha de seus diretores e ‡ determinaÁ„o de sua linha geral de atuaÁ„o;

a partir daÌ todas as decisıes cabem aos diretores, cujo desempenho È

avaliado objetivamente com base em dois indicadores: a lucratividade da

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empresa (ou melhor, sua capacidade de distribuir dividendos aos acionistas)

e o valor de suas aÁıes nas bolsas. Um capitalista n„o precisa entender de

siderurgia, fabricaÁ„o de biscoitos, criaÁ„o e abate de gado, administraÁ„o banc·ria ou outra coisa qualquer para investir nessas atividades; basta-lhe comprar aÁıes de empresas que nelas atuam, e isto ele faz com base na an·lise do valor das aÁıes e das perspectivas de auferir lucros; se n„o quiser ou n„o puder fazer esse tipo de an·lise, tambÈm pode contratar algum especialista (indivÌduo ou firma) para fazÍ-lo e atÈ mesmo para se encarregar da tarefa de investimento. O capitalista se torna um propriet·rio de papÈis: as aÁıes (na verdade, n„o sÛ aÁıes mas tambÈm outros papÈis, como os tÌtulos de dÌvida p˙blica ou privada, mas isto n„o interessa aqui). O chamado ìcapital produtivoî (m·quinas, equipamentos, prÈdios, matÈrias primas etc.) È propriedade da empresa, uma pessoa jurÌdica, cujas aÁıes se distribuem entre os investidores: fundamentalmente capitalistas, mas tambÈm pessoas ìcomunsî, fundos de pens„o de trabalhadores (cuja

import‚ncia vem crescendo) e outros. … a este capital, materialmente constituÌdo de papÈis, que representam um direito de receber dividendos (lucros distribuÌdos) e um direito de votar nas assemblÈias de acionistas (quando se È possuidor de aÁıes ordin·rias) e que podem ser rapidamente convertidos em dinheiro atravÈs de suas vendas nas bolsas, que se d· o nome de capital financeiro. As bolsas de valores formam uma peÁa crucial desse mecanismo. Sua origem È antiga (final do sÈculo XVIII) mas sua import‚ncia sÛ comeÁou

a crescer com a expans„o das sociedades anÙnimas, atÈ atingirem a grandeza

que tÍm nos dias atuais, quando se tornaram popularmente conhecidas atravÈs de jornais, redes de televis„o e do cinema. As bolsas mais conhecidas s„o as de Nova York, Londres e agora tambÈm a de TÛquio, mas todo paÌs capitalista tem sua bolsa de valores, quando n„o tem mais de uma. GraÁas aos computadores, satÈlites de comunicaÁ„o e outros engenhos eletrÙnicos, h· uma estreita ligaÁ„o entre as bolsas de todo o mundo, de modo que em TÛquio pode-se saber a qualquer momento o valor da aÁ„o de uma empresa na bolsa de Nova York, e vice-versa, e de qualquer paÌs pode-se comprar aÁıes na bolsa de outro paÌs de forma instant‚nea. Isto permite um fluxo contÌnuo de investimento entre os paÌses, menos para construir novas empresas ou ampliar as existentes mas fundamentalmente para transferir a propriedade de aÁıes de uns capitalistas para outros. Mas isto promove tambÈm uma grande interdependÍncia financeira entre os paÌses: o que acontece numa bolsa importante repercute logo nas outras bolsas.

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O que acontece com a burguesia nesse processo? Dentro de cada paÌs as burguesias setoriais v„o deixando de existir, cedendo lugar ‡ burguesia unificada. Um mesmo capitalista passa a ser detentor de aÁıes de empresas operando em setores diversos; ele faz isso n„o porque tenha alguma simpatia por esses setores (embora isso tambÈm possa acontecer), mas sim porque È um bom mÈtodo para reduzir o risco de seu investimento total: o desempenho de uma das empresas pode ser ruim, mas È compensado pelos bons resultados de outra. Essa unificaÁ„o n„o significa a completa eliminaÁ„o da concorrÍncia entre capitalistas: eles continuam a competir entre si na medida em que ìsuasî empresas (isto È, empresas em que investem) tambÈm est„o competindo, e a histÛria americana est· plena de exemplos disso; por outro lado, grupos de capitalistas que concorrem num setor podem estar associados em outro setor, e nada impede tambÈm que um capitalista invista atÈ mesmo em empresas que concorrem entre si. De qualquer modo, a crescente financeirizaÁ„o do capital patrocina a unificaÁ„o cada vez maior da burguesia dentro de um paÌs. O mesmo acontece em escala internacional, com o capital proveniente de um paÌs sendo aplicado em outros paÌses, associando-se ao capital desses mesmos paÌses. Mas essa histÛria n„o se esgota aÌ. TambÈm È preciso levar em conta a concentraÁ„o e a centralizaÁ„o do capital. A grande expans„o do capitalismo apÛs a Segunda Guerra Mundial, gerando enorme volume de capital, e a crescente organizaÁ„o de empresas como sociedades anÙnimas produziram uma concentraÁ„o do capital financeiro sob a forma de aÁıes (para n„o falar de outros tipos de papÈis); isto significa que a burguesia dispıe agora de monumental massa de recursos financeiros que circula pelo mundo. Grande parte desses recursos circula em atividades especulativas com aÁıes, mercadorias, moedas estrangeiras, etc. Mas outra parte aguarda o momento adequado para ìsentar-seî em alguma atividade produtiva, participando da criaÁ„o ou da ampliaÁ„o de empresas. Acontece que as novas oportunidades de investimento ó para criaÁ„o ou ampliaÁ„o de empresas ó s„o insuficientes para absorver os recursos financeiros disponÌveis para isso; assim eles se voltam tambÈm para a ìtomadaî de empresas existentes que oferecem boas oportunidades de lucros, tanto no setor privado como no estatal. Esta È a raz„o principal da campanha avassaladora em prol da privatizaÁ„o das empresas p˙blicas, que È um dos itens principais do programa do liberalismo atual. TambÈm a abertura ao capital estrangeiro nos paÌses menos desenvolvidos faz parte desse movimento, porque facilita a compra de empresas das burguesias locais ó que se tornam, cada vez mais, burguesias rentistas, apÍndices da grande burguesia internacional.

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Se a concentraÁ„o do capital financeiro È inquestion·vel, a centralizaÁ„o È mais problem·tica, difÌcil de comprovar com certeza. Em termos simples, ela significa que o capital se concentra cada vez mais em m„os de um n˙mero menor de propriet·rios. Algumas evidÍncias s„o apresentadas como apontando no sentido contr·rio ‡ centralizaÁ„o. Por exemplo: primeiro, a expans„o do capitalismo permite o acesso ‡ riqueza de um maior n˙mero de pessoas; segundo, a riqueza se descentraliza por meio da partilha decorrente da dissoluÁ„o do casamento e da heranÁa. Mas essas evidÍncias n„o s„o suficientes para negar a tendÍncia ‡ centralizaÁ„o. Deixando de lado a quest„o do divÛrcio e da heranÁa (em que tambÈm existem procedimentos para evitar ou reduzir a partilha do capital, como a constituiÁ„o de fundos profissionalmente administrados, cabendo aos herdeiros n„o a partilha desses fundos mas apenas dos benefÌcios deles advindos) h· que considerar uma outra evidÍncia: se È verdade que a expans„o do capitalismo gera o enriquecimento de maior n˙mero de pessoas, tambÈm se verifica o empobrecimento nas fases de depress„o. Mas o problema n„o È f·cil assim, quando colocado em termos de capital, em vez de riqueza em geral. Numa situaÁ„o de prosperidade, sem d˙vida camadas maiores de pessoas (atÈ mesmo da classe oper·ria) adquirem bens que antes n„o conseguiam ter: automÛveis e outros bens dur·veis de consumo classificados como riquezas. Mas isto n„o quer dizer que aumenta o n˙mero de pessoas detentoras de capital em geral e de capital financeiro em particular. Usualmente, nos perÌodos de prosperidade, surge uma mirÌade de pequenos negÛcios que duram apenas atÈ a prÛxima fase de depress„o, e os que conseguem sobreviver detÍm um montante inexpressivo do capital total. Numa economia capitalista estabelecida o que efetivamente cresce nas fases de prosperidade È o capital j· constituÌdo, o grande capital ó o resto È marginal e oscilante. Quanto ao capital financeiro ó que tem a ver com grandes empresas ó, ele n„o sofre a menor alteraÁ„o por causa do surgimento ou desaparecimento dos pequenos negÛcios. Ou ser· que o fato de um maior n˙mero de indivÌduos comprar uma d˙zia de aÁıes de grandes empresas os transforma em capitalistas (de acordo com a ideologicamente propalada imagem do ìcapitalismo popularî)? Passando ao que efetivamente tem import‚ncia, existem evidÍncias no sentido da centralizaÁ„o do capital financeiro, n„o necessariamente no sentido da concentraÁ„o em menor n˙mero de burgueses, mas no sentido relativo: o n˙mero de detentores de capital financeiro pode crescer, mas

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dentro dessa camada existe uma distribuiÁ„o cada vez mais desigual do capital ó ou seja, uma centralizaÁ„o. As evidÍncias est„o no grande movimento de compras, fusıes e tomadas (take over) de empresas (a tomada ocorre quando um capitalista ou um grupo deles assume, pela compra de um n˙mero suficiente de aÁıes no mercado, o controle de uma empresa).

Outro fato relevante se refere n„o ‡ propriedade mas ao controle do capital financeiro, e aÌ a centralizaÁ„o È ineg·vel. J· foi mencionado que os capitalistas financeiros n„o precisam encarregar-se pessoalmente da administraÁ„o de seu capital: existem pessoas e principalmente firmas que fazem isso por eles, continuamente ou em ocasiıes especiais (por exemplo, para empreendimentos especÌficos). Como a administraÁ„o do capital financeiro se transforma numa atividade cada vez mais complexa, cresce a import‚ncia dos especialistas e cresce tambÈm o volume de recursos sob seu controle. Esse processo de unificaÁ„o da burguesia ó atravÈs da financeirizaÁ„o do capital e de sua concentraÁ„o e centralizaÁ„o ó n„o elimina todas as contradiÁıes internas dessa classe. Em escala nacional sobrevivem desacordos entre pequena e grande burguesia, interesses setoriais contrariados, concorrÍncias entre empresas na luta por mercado, competiÁıes entre grupos capitalistas pelo controle de empresas, divergÍncias acerca de alternativas de atuaÁ„o, etc., e em escala internacional ainda ocorrem contradiÁıes entre interesses localizados de burguesias nacionais. N„o resta d˙vida, contudo, que todo o processo anteriormente descrito promove, nacional e mundialmente, maior coes„o interna, maior compactaÁ„o, maior concentraÁ„o de poder da burguesia, em especial da grande burguesia ó que È a que efetivamente comanda os rumos da burguesia em geral.

A essas ampliaÁ„o e concentraÁ„o do poder econÙmico da burguesia

juntaram-se a ampliaÁ„o e concentraÁ„o de seu poder polÌtico, num processo gradual iniciado na segunda metade da dÈcada de 1970 e do qual tambÈm resultou a onda de liberalismo que atualmente cobre o mundo.

O ponto de partida desse processo foi a depress„o econÙmica da dÈcada

de 1970. Nos primeiros anos dessa dÈcada chegou ao fim a grande expans„o econÙmica do capitalismo comeÁada apÛs a Segunda Guerra Mundial e instaurou-se o perÌodo da chamada ìestagflaÁ„oî ó um neologismo para a estagnaÁ„o associada ‡ inflaÁ„o ó, um fenÙmeno inÈdito na histÛria do capitalismo e que contrariava os princÌpios da teoria econÙmica predominante, segundo os quais a estagnaÁ„o e a inflaÁ„o n„o

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podiam estar juntas por serem tendÍncias opostas. A partir daÌ foram montados os cen·rios materiais e ideolÛgicos propÌcios ao liberalismo.

O cen·rio ideolÛgico foi formado pelo avanÁo das doutrinas liberais

entre os teÛricos da economia e da polÌtica ó muitos dos quais eram ou passaram a ser assessores governamentais ó e atingiu a grande imprensa do mundo capitalista. Esse avanÁo comeÁou com uma discuss„o sobre polÌtica econÙmica. O uso dos costumeiros instrumentos para sair da crise n„o estava dando certo e isso foi interpretado pelos economistas das correntes liberais como sendo a comprovaÁ„o do esgotamento das propostas intervencionistas keynesianas que atÈ ent„o constituÌam a base da polÌtica econÙmica dos governos capitalistas; conseq¸entemente, propunham uma nova polÌtica econÙmica, de car·ter liberal. Seus fundamentos j· estavam

estabelecidos havia muito tempo mas, agora, alguns novos argumentos foram acrescentados (gerando mais prÍmios Nobel para seus formuladores). Despida de sutilezas, a polÌtica econÙmica proposta pelos liberais se concentra em uns poucos pontos: reduÁ„o do tamanho do Estado na economia (isto È, diminuiÁ„o dos gastos p˙blicos e da tributaÁ„o e privatizaÁ„o das empresas p˙blicas), desregulaÁ„o das atividades econÙmicas (isto È, liberdade de aÁ„o para as ìforÁas do mercadoî), livre fluxo de mercadorias e capitais entre os paÌses. Para que essas medidas possam ser realizadas, algumas condiÁıes s„o exigidas: estabilidades monet·ria e cambial (necess·rias para o ìc·lculo econÙmicoî) e

estabilidade polÌtica (para garantir a continuidade do processo, sem sustos);

e tudo isso requer as concomitantes reformas das leis dos paÌses n„o preparados para o liberalismo.

O cen·rio material tambÈm comeÁou a ser montado na fase da

ìestagflaÁ„oî. Por um lado, ao cair o nÌvel das atividades econÙmicas,

declinaram as taxas e os montantes de lucro ó o que predispÙs a burguesia ‡ mudanÁa da polÌtica econÙmica que vinha sendo praticada e, em seguida, levou-a ao liberalismo. Por outro lado, tambÈm as classes mÈdias e a trabalhadora foram prejudicadas, com perdas de sal·rios e empregos ó igualmente levando-as a aceitar alteraÁıes da polÌtica econÙmica, e tanto

È assim que elas foram convencidas a ajudar na eleiÁ„o de candidatos

conservadores em todo o mundo, comeÁando por Thatcher na Inglaterra (1979) e Reagan nos Estados Unidos (1980). Os lucros, principalmente para a grande burguesia, comeÁaram a se recuperar na dÈcada de 1980, com o aumento da produÁ„o, a reestruturaÁ„o empresarial (aÌ incluindo as falÍncias de empresas deficit·rias), os cortes de custos, os elevados ganhos especulativos e

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tambÈm com as ajudas governamentais, entre elas a reduÁ„o da carga tribut·ria incidente sobre os ganhos do capital. Mas os trabalhadores n„o conseguiram recuperar a posiÁ„o que tinham atÈ o princÌpio da dÈcada de 1970. Pelo contr·rio, sua situaÁ„o piorou. Seus sal·rios reais, quando n„o caÌram ainda mais, foram mantidos em nÌveis reais baixos. O aumento do desemprego, que comeÁou como conjuntural, isto È, decorrente de uma fase de depress„o, tornou-se estrutural, provocado por uma crescente incorporaÁ„o de tÈcnicas produtivas poupadoras de forÁa de trabalho, de modo que muitos paÌses passaram a ter taxas de desemprego superiores a 10% e, em alguns casos, prÛximas de 20%. O desemprego e o endurecimento da postura da burguesia diretamente e atravÈs dos governos no relacionamento com os trabalhadores os levaram a uma polÌtica de submiss„o ou, pelo menos, de acomodaÁ„o, que se expressa na fraqueza dos movimentos sindicais e na grande queda do n˙mero e da extens„o das greves. AlÈm disso, algumas conquistas sociais dos trabalhadores ao longo de muitos anos (seguro desemprego, aposentadoria, assistÍncia mÈdica, etc.) foram ou est„o sendo revistas no sentido de reduzi-las.

O fortalecimento do poder da burguesia em relaÁ„o aos trabalhadores

se ampliou com o colapso do ìmundo soviÈticoî (incluindo, alÈm da Uni„o

SoviÈtica, os outros paÌses sob sua influÍncia), a desagregaÁ„o da Iugosl·via

e a d˙bia polÌtica chinesa. Os movimentos socialistas, que vinham decaindo desde a dÈcada de 1960, perderam seus pontos de apoio e seus rumos e entraram numa fase de depress„o. Para a burguesia, sÛ a derrubada do ìmundo soviÈticoî (para n„o falar dos acontecimentos na Iugosl·via e na China) representou uma estrondosa vitÛria: abria-se um mercado de 330 milhıes de pessoas, eliminava-se um inimigo polÌtico e militar e, ideologicamente, ìdemonstrava-seî a superioridade do capitalismo.

… nesse cen·rio, aqui descrito resumidamente, que o liberalismo

econÙmico se espalhou pelo mundo, pondo em pr·tica se n„o a totalidade de suas propostas, pelo menos parte delas.

* * *

Algumas (ou muitas) pessoas interpretam o domÌnio do liberalismo econÙmico na atualidade como sendo um fenÙmeno ideolÛgico: a vitÛria do pensamento liberal sobre o intervencionista. Mas isto n„o È suficiente.

O liberalismo econÙmico como teoria e como doutrina comeÁou com Adam

Smith (A riqueza das naÁıes È de 1776), consolidou-se nas primeiras dÈcadas do sÈculo XIX, e de l· para c· sempre teve adeptos fervorosos e influentes; contudo, poucas e limitadas foram as vezes em que foi aplicado

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na pr·tica. Isto provoca duas perguntas: primeira, por que sÛ agora, no final do sÈculo XX e a segunda, por que o liberalismo? N„o havia outra alternativa? Estas perguntas nos levam de volta ‡s questıes discutidas no inÌcio do presente ensaio. Com relaÁ„o ‡ primeira quest„o e seguindo os argumentos j· apresentados, o atual domÌnio do liberalismo se explica pelo fato de que a burguesia jamais esteve t„o unida nacional e internacionalmente e jamais teve tanto poder como agora. Ela tem n„o sÛ o poder econÙmico mas tambÈm o controle incontest·vel dos aparelhos do Estado, principalmente dos paÌses capitalistas mais avanÁados e ó atravÈs deles ou diretamente ó controla tambÈm os organismos internacionais, como pode ser observado pelas aÁıes destes. Por exemplo, a OrganizaÁ„o das NaÁıes Unidas ó que, como o nome indica, deveria ser uma entidade plurinacional e j· teve importante papel na resoluÁ„o de conflitos entre paÌses ó foi convertida numa agÍncia diplom·tica dos Estados Unidos e seus aliados mais prÛximos, enquanto o Fundo Monet·rio Internacional, o Banco Mundial e a OrganizaÁ„o Mundial do ComÈrcio (sucessora do Gatt) pıem em pr·tica as diretrizes econÙmicas da burguesia (e desde o inÌcio j· haviam adotado o liberalismo, antes que este se convertesse em doutrina dominante). Resta a segunda pergunta. O fato de a burguesia dispor de enorme poder n„o È suficiente para esclarecer a raz„o de ter optado pelo liberalismo; ela poderia ter adotado qualquer outra doutrina. Obviamente as alternativas socialistas est„o excluÌdas; sobram as alternativas liberais e as intervencionistas, as quais podem ter variantes. Assim, por que n„o uma variante do intervencionismo, diferente daquela (alegadamente de cunho keynesiano) que se esgotara no inÌcio da dÈcada de 1970? Dois motivos podem ser citados. Primeiro, o cansaÁo da burguesia com o intervencionismo em geral, que a obrigava ao exercÌcio constante de negociar e alterar suas propostas de polÌtica econÙmica em funÁ„o das circunst‚ncias; por isto, o ideal era ter uma ˙nica polÌtica econÙmica, que pudesse ser permanente, e o liberalismo supostamente oferecia essa vantagem. Segundo, a maciÁa campanha ideolÛgica a favor do liberalismo, convencendo a burguesia. Mas essa explicaÁ„o È controvertida: pode uma doutrina que representa os interesses de uma classe social ser criada e aprimorada fora dessa classe e sÛ ent„o ser levada a ela? Existem dois tipos de ìsimî para esta pergunta: dos que atribuem aos intelectuais (os formuladores da doutrina) uma autonomia com relaÁ„o ‡ classe social, ou ent„o dos que acreditam ser possÌvel formular uma doutrina econÙmica

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acima dos interesses de classe. Para outros a resposta pode ser ìsimî ou ìn„oî dependendo do que se entenda por ìfora da classe socialî: os intelectuais ligados ideolÛgica ou politicamente a uma classe social, mesmo que econÙmica e socialmente n„o fazendo parte dela, podem ser considerados como estando ìforaî dela? Eis um tema para longa discuss„o. Apesar dos possÌveis mÈritos explicativos dos dois motivos apresentados (cansaÁo da burguesia com o intervencionismo e existÍncia de uma doutrina pronta e ‡ disposiÁ„o), a raz„o fundamental da adoÁ„o do liberalismo pela burguesia È o fato de este ser a doutrina econÙmica natural dessa classe social, com a vantagem de ter sido depurada e aprimorada ao longo de seus duzentos anos de existÍncia, e que sÛ n„o tinha sido aplicada mais consistentemente como agora porque a burguesia ainda n„o tinha a forÁa necess·ria para isso. O adjetivo natural empregado aqui tem dois propÛsitos. Primeiro, o de assinalar a ligaÁ„o histÛrica do liberalismo econÙmico com o capitalismo, ou seja, o primeiro nasceu quando o segundo consolidava sua existÍncia, quando o feudalismo chegava ao fim, quando a vida econÙmica deixava de ser regida pela tradiÁ„o ou pela autoridade e passava

a seguir regras prÛprias: as leis do mercado, sem as quais È impossÌvel

imaginar o surgimento da teoria e da doutrina liberais. O segundo, e mais importante, propÛsito È o de ressaltar o fato (insistentemente explicado pelos economistas e polÌticos liberais) de que o funcionamento da

economia capitalista n„o requer a existÍncia do Estado. Evidentemente que, em sua histÛria, a burguesia se utilizou (e ainda se utiliza) dos serviÁos do Estado, porque este j· existia e porque a burguesia n„o tem escr˙pulos em lanÁar m„o de qualquer meio que lhe possa ser ˙til; mas, do ponto de vista econÙmico, o Estado pode ser substituÌdo por agÍncias privadas na prestaÁ„o desses serviÁos; por exemplo, do mesmo modo como os liberais propıem a independÍncia dos bancos centrais em relaÁ„o ao Estado (como

j· acontece em muitos paÌses), tambÈm È possÌvel imaginar a privatizaÁ„o

de organismos internacionais como o FMI, o Banco Mundial e a OrganizaÁ„o Mundial do ComÈrcio ó os quais, diga-se de passagem, j· s„o controladas pela grande burguesia internacional. Para a burguesia o Estado sÛ È necess·rio para a defesa de seus interesses em face de interesses

contr·rios, do exterior ou de outras classes sociais; ou seja, como seu instrumento armado para uso externo e interno. Os liberais menos radicais aceitam tambÈm que o Estado possa ou deva ser usado para prestar serviÁos sociais, como os de sa˙de, educaÁ„o, seguranÁa p˙blica, dentro de limites. Mas mesmo essa aÁ„o assistencialista È combatida pelos liberais

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ìfundamentalistasî, ‡s vezes com argumentos semelhantes aos usados contra a ìLei dos Pobresî na Inglaterra do sÈculo XIX: o auxÌlio aos mais pobres os acostuma a n„o trabalhar, leva-os ao Ûcio e ao vÌcio, induz ‡ indisciplina no trabalho (porque, se perder o emprego, o trabalhador sabe que contar· com a ajuda estatal), etc. Em suma, como escreveu Ayn Rand, uma ilustre representante do liberalismo contempor‚neo (mas, pelo que sei, ainda n„o ganhou o prÍmio Nobel): ìOs fundamentos do capitalismo est„o sendo golpeados por uma torrente de altruÌsmo, que È a causa do colapso do mundo modernoî(Capitalism: the unknown ideal, Nova York, 1979, p. viii). O presente ensaio n„o tem por objetivo discutir a teoria e a doutrina liberais. Mas isto n„o exclui uma tentativa de avaliar alguns dos resultados

alcanÁados em sua aplicaÁ„o. A palavra tentativa est· realÁada para assinalar

o fato de que a avaliaÁ„o È complicada. Avaliar significa determinar o

valor de alguma coisa ou atribuir um valor a alguma coisa; logo, trata-se de fazer um juÌzo de valor, que, como todo mundo sabe, È um juÌzo subjetivo, e, portanto, vari·vel de um sujeito para outro, sujeito que pode ser um indivÌduo ou um ser coletivo. A possibilidade da existÍncia de juÌzos coletivos ou sociais de valor pode ser questionada por certas correntes teÛricas individualistas, mas vamos ignorar esta discuss„o e assumir que cada classe social tem um conjunto especÌfico de valores, embora certos valores possam ser comuns a todas as classes. Logo, o que

È bom para a classe trabalhadora pode n„o ser para a burguesia, e vice-

versa. No caso dos fenÙmenos econÙmicos, o bom pode ser definido como aquilo que È considerado ˙til ou benÈfico. De acordo com este princÌpio, diversos resultados do funcionamento da economia s„o avaliados de forma oposta: o desemprego da forÁa de trabalho, ao produzir uma queda dos sal·rios e, conseq¸entemente, uma elevaÁ„o dos lucros, e ao provocar um aumento da disciplina dos trabalhadores empregados, È avaliado como bom pela burguesia e como pÈssimo pelos trabalhadores; a inflaÁ„o, ao gerar uma redistribuiÁ„o de renda a favor dos propriet·rios de capital, È boa para a burguesia e ruim para os trabalhadores, mas se for constante e elevada pode impossibilitar os c·lculos econÙmicos e criar empecilhos para a produÁ„o, passando a ser avaliada como ruim tambÈm pela burguesia. E isto nos leva ‡ conclus„o de que certos resultados econÙmicos podem ser avaliados de forma igual

pela burguesia e pela classe trabalhadora, embora por motivos diferentes.

O melhor exemplo disto È a recess„o econÙmica, quando reduz tanto os

lucros como os sal·rios.

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Outro problema da avaliaÁ„o, agora relacionado com a aplicaÁ„o de uma determinada doutrina econÙmica, È o de saber se um dado fenÙmeno (bom ou mau) È efetivamente conseq¸Íncia da implantaÁ„o das regras propostas pela doutrina. Nesta quest„o È not·vel a capacidade dos liberais de isentar o livre funcionamento da economia de mercado de qualquer responsabilidade por resultados considerados ruins. Vamos tomar como exemplo um liberal acima de qualquer suspeita, o professor Milton Friedman (sumo pontÌfice dos economistas da ìescola de Chicagoî, guru dos economistas neocl·ssicos contempor‚neos, tambÈm ganhador do prÍmio Nobel e assessor do governo do general Pinochet). Os economistas favor·veis ‡ intervenÁ„o do Estado assumem esta posiÁ„o por encontrar uma sÈrie de efeitos indesej·veis no livre funcionamento da economia de mercado: tendÍncias ‡ superproduÁ„o relativa (ou crise econÙmica) e ao desemprego, formaÁ„o de monopÛlios, concentraÁ„o de renda, injustiÁa social, etc. Pois bem, o professor Friedman, em seu livro Capitalismo e liberdade (cuja ediÁ„o original È de 1962), inverte essas acusaÁıes: o respons·vel È o Estado e n„o o mercado. Apenas para ilustrar: ìO fato È que a Grande Depress„o, como muitos outros perÌodos de grande desemprego, foi produzida mais pela m· administraÁ„o governamental do que por qualquer instabilidade inerente ‡ economia privadaî (Capitalism and freedom, Chicago, 1962, p. 38). A principal fonte do poder monopolista È o apoio do Estado; quanto aos monopÛlios ou cartÈis privados, ìeles geralmente s„o inst·veis e de breve duraÁ„o, a menos que possam contar com a ajuda governamentalî (idem, p. 131). E assim por diante, de modo que a economia de mercado livre È apresentada como estando desprovida de erros e efeitos indesej·veis. Depois dessas consideraÁıes, vamos simplificar as coisas e assumir que o mundo capitalista contempor‚neo, em especial em seus paÌses mais importantes, seja de fato regido pelos princÌpios do liberalismo ou, pelo menos, por grande parte deles (embora sempre haja um liberal para negar isso, se n„o der certo essa experiÍncia). Isto posto, quais as conclusıes a respeito de seus resultados? Os dados disponÌveis assinalam uma queda acentuada da inflaÁ„o, maior equilÌbrio do orÁamento governamental, taxas moderadas de crescimento da produÁ„o e do comÈrcio internacional, enorme circulaÁ„o de capital especulativo, concentraÁ„o de renda, desemprego, etc. A burguesia, ou pelo menos a grande burguesia, deve estar satisfeita com esses resultados (para n„o falar tambÈm dos resultados polÌticos), porque continua levando adiante as propostas liberais. Para as classes trabalhadora e mÈdias ó isto È, para todos os que dependem de

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seu prÛprio trabalho ó a situaÁ„o È ruim: baixos sal·rios, desemprego, reduÁ„o dos serviÁos sociais prestados pelo Estado. Essa situaÁ„o n„o parece ser apenas transitÛria, mas permanente com tendÍncia ao agravamento: a diminuiÁ„o dos gastos sociais do Estado È n„o somente um meio de equilibrar o orÁamento p˙blico mas tambÈm uma quest„o de princÌpio; com as r·pidas inovaÁıes dos processos produtivos, o desemprego continuar· crescendo e os sal·rios diminuindo. Membros da alta burguesia juntamente com muitos de seus prestigiados intelectuais e polÌticos, em reuni„o realizada em setembro de 1995, previram que, no decorrer do sÈculo XXI, somente 20% da populaÁ„o apta ao trabalho estar· efetivamente ocupada (segundo informam os jornalistas Hans-Peter Martin e Harald Schumann em A armadilha da globalizaÁ„o, traduzido do alem„o, S„o Paulo, 1997, cap. 1). Na verdade, antes que a situaÁ„o chegue a esse ponto ó que corresponde n„o sÛ a um enorme distanciamento entre a burguesia e as outras classes sociais mas tambÈm a um empobrecimento absoluto destas ˙ltimas ó, alguma coisa deve acontecer. Como no mundo real a economia de mercado livre n„o obedece as regras dos manuais dos economistas

neocl·ssicos (liberais), novos e velhos problemas v„o aparecer e se agravar,

e em algum momento as classes que dependem de seu prÛprio trabalho

v„o acordar de seu torpor atual e comeÁar a reagir. Quando isso acontecer

a ponto de assustar ou ameaÁar a burguesia, ela procurar· uma das duas

soluÁıes usuais: o intervencionismo ou a ditadura, dependendo do balanÁo das forÁas polÌticas, das condiÁıes de cada paÌs e das possibilidades de alternativas nacionais num mundo globalizado. O intervencionismo significar· uma tentativa de conciliaÁ„o da burguesia com as outras classes na busca de uma polÌtica econÙmica que, sem prejudicar os interesses da primeira, promova uma melhora nas condiÁıes de vida das outras classes. Com a ditadura a burguesia tentar· preservar todos seus interesses (com ou sem liberalismo econÙmico), reprimindo qualquer tentativa de mudanÁa e, em alguns paÌses, poder· atÈ mesmo recorrer novamente ao fascismo para ìsalvar a civilizaÁ„oî; mas isso n„o pode ser duradouro, a menos que, como na ficÁ„o cientÌfica, imaginemos ser possÌvel um mundo formado por uma paradisÌaca ilha burguesa cercada por um mar de misÈria.

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