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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS Escola de Design

Programa de Pós-Graduação em Design PPGD

SUSTENTABILIDADE NA PRODUÇÃO ARTESANAL COM RESÍDUOS VEGETAIS:

UMA APLICAÇÃO PRÁTICA DE DESIGN SISTÊMICO NO CERRADO MINEIRO

NADJA MARIA MOURÃO

Belo Horizonte

2011

Rio São Francisco Fonte: MOURÃO, 2011

2 SUSTENTABILIDADE NA PRODUÇÃO ARTESANAL COM RESÍDUOS VEGETAIS: UMA APLICAÇÃO PRÁTICA DE DESIGN SISTÊMICO NO

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SUSTENTABILIDADE NA PRODUÇÃO ARTESANAL COM RESÍDUOS VEGETAIS:

UMA APLICAÇÃO PRÁTICA DE DESIGN SISTÊMICO NO CERRADO MINEIRO

NADJA MARIA MOURÃO

Belo Horizonte

2011

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NADJA MARIA MOURÃO

SUSTENTABILIDADE NA PRODUÇÃO ARTESANAL COM RESÍDUOS VEGETAIS:

UMA APLICAÇÃO PRÁTICA DE DESIGN SISTÊMICO NO CERRADO MINEIRO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais

como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre

em Design, na área de concentração em Design,

Inovação e Sustentabilidade.

Orientadora: Profª. Lia Krucken Perreira, Drª

Coorientadora: Profª. Rira de Castro Engler, Drª

Belo Horizonte

2011

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M929s

Mourão, Nadja Maria Sustentabilidade na produção artesanal com resíduos vegetais: uma aplicação prática de design sistêmico no Cerrado Mineiro / Nadja Maria Mourão -- Belo Horizonte, 2011. 219 p. : il. color. fots. maps.

Orientadora: Lia Krucken Pereira Coorientadora: Rita de Castro Engler

Dissertação (Mestrado) Universidade do Estado de Minas Gerais/ Escola de Design / Mestrado em Design, 2011.

1. Desenho (Projetos) Teses. 2. Desenho Industrial Desenvolvimento Sustentável. 3. Artesanato Minas Gerais Aspectos Ambientais. 4. Desenho Industrial Recursos Naturais Conservação. 5. Turismo Desenvolvimento Econômico Aspectos Ambientais. I. Krucken, Lia Pereira. II. Engler, Rita de Castro. III. Universidade do Estado de Minas Gerais. IV. Título.

CDU: 7.05

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Ofereço:

Aos meus filhos presentes de Deus.

Dedico:

A todos que amo e que deixaram saudades:

meu pai, José Maria Mourão,

meus avós, familiares e amigos,

em especial Prof. D.Sc. Edir Tenório

(que nos deixou, antes da conclusão da 1ª Turma do PPGD).

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AGRADECIMENTOS

Ao Poder Superior, Deus: por mim, por todos e por tudo.

À minha mãe, Ieda Mourão: pelo amor ilimitado.

Aos meus filhos, irmãos e toda a minha família: pelo amor, participação em todas as minhas empreitadas e infinita paciência com meus defeitos.

Aos meus alunos, estagiários e voluntários: pela competência e dedicação.

À toda Equipe do PPGD Coordenação, professores, funcionários, colegas e

amigos do mestrado: pelo estímulo, ensinamentos e amizade; pela honra fazer parte da 1ª. Turma do Mestrado em Design, Inovação e Sustentabilidade UEMG.

À minha orientadora Lia Krucken e coorientadora Rita Engler: pelo estímulo,

compreensão, apoio, orientação, confiança, amizade e conclusão desta etapa.

Ao Instituto Sociedade População e Natureza ISPN, com recursos da União Europeia: pelo financiamento da pesquisa de campo, através do Edital UNICOM. 2010. Aos funcionários do ISPN, Cristiane e Fabio, pelo estímulo e apoio. Ao prof. Donald R Sawyer, pelo atendimento à pesquisa.

À todos da Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG: pela minha formação acadêmica, história profissional e amizades sinceras.

À Reitoria da UEMG: em especial a todos que sempre se empenharam para o

desenvolvimento acadêmico (não cito nomes, pois são tantas pessoas especiais

que, mesmo sem o convívio, tenho certeza que apoiam minha formação).

À Escola de Design da UEMG - Diretoria, Chefias de Departamentos, Coordenações, Centros e a todos os professores, alunos, funcionários: pessoas especiais que sempre me estimularam.

Aos primeiros professores do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Escola de Ciências Naturais e Exatas/UEMG - Ubá: pelo incentivo em abordar a Biologia com o Design, e por me incluírem na equipe dos “Guerreiros pelo ensino superior gratuito e de qualidade!”

À Prefeitura de Chapada Gaúcha: pela contribuição e amizade de todos.

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À todos que colaboram com o trabalho de campo: Associação das Bordadeiras e Artesãos de Serra das Araras, Associação dos Moradores da Comunidade de Ribeirão de Areia, Grupo Mãos que Brilham, Associação dos moradores da Comunidade de Buraquinhos, Associação dos Quilombolas Santa Tereza, amigos do IEF/Parque Serra das Araras, EMATER/Chapada Gaúcha, IBAMA/ ICMBio/Parque Nacional Grande Sertão Veredas, CETEC.MG/Projeto de Implantação de Unidades de Beneficiamento e Comércio de Produtos Oriundos da Base Produtiva Local, FUNATURA, ROSA SERTÃO, COOP VEREDAS, ADISC, Câmara Municipal de Chapada Gaúcha, FM&F Tecnologia e Grupo ARTE NO AR.

À todos voluntários da pesquisa de Campo: Equipe Família (Lidja, Haendel, Aline, Ellen, Nicolas, Jeffinho, Pikachu e Cadu); Equipe de Chapada Gaúcha (Bila, Orlando, Dadi, João); Equipe de apoio nas comunidades (Cícero, Rosicley, Tico, Damiana, Zézu, Cida, Tião, Silvânia, Tia Ana, Tia Pretinha, Jerônima, Jurandir, Mundinho e todos da família do Seu Jonas); Equipe alunos da ED (Alice, Antonnione, Cacá, Caio, Elisa, Isadora, Igor Z., Letícia, Daniela Martins, Michelle Machado, Michelle Vieira, Polliana, Raquel, Thábata, Viviane); amigos que corrigiram e contribuíram com a conclusão da dissertação (Cirléia, Cléo, Edu, Efigênia, Juliana, Júnior, Lia, Marcelina, Rita e Sebastiana); aos amigos de sempre (Alicia e Junior, Breno(s), Bruno L., Carla, Carlos e Cláudia Sampaio, Elenice, Eli, Fernando, George H., Heloisa, Jacque, Jarbas, Jorge F., João Ribeiro, João Vitor, Kátia(s), Nilza, Marília, Marta do Pedro, Pe.Paulo, Renato, Regina, Rick, Rodrigo(s), Romeu, Rose, Rovana, Selma, Silvânia, Tânia, Thais, Túlio e Vânia). Aos amigos da CEMIG (Cecília, Luiz Augusto, Mª. Cristina e Ricardo P.); a todos do Programa AmbientAÇÃO e aos colaboradores da ED/UEMG: Núcleo de Educação Ambiental, CEDTec, Centro da Imagem, CEMA, T&C Design, Biblioteca, Secretaria, Áudio Visual, Coordenações de Ensino, Pesquisa e Extensão.

Aos autores dos livros, dissertações, teses e artigos consultados.

Aos amigos queridos, de vários lugares do mundo, cuja distância ensinou-me:

“As perdas fazem parte da vida, mas desistir é opção!”

Enfim, à todos aqueles que contribuíram para que este trabalho desse certo. Este é somente um começo. Muitíssimo obrigada!

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RESUMO

MOURÃO, N. M. Sustentabilidade na produção artesanal com resíduos vegetais: Uma aplicação prática de design sistêmico no Cerrado Mineiro. 2011. 205 f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Design, Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011.

O objeto de estudo desta dissertação consiste em verificar como as comunidades trabalham com resíduos vegetais na produção artesanal e como promover práticas sustentáveis sob a perspectiva do design neste contexto. A abordagem sistêmica do design foi a base para o desenvolvimento da pesquisa, especificamente as ferramentas e as estratégias para o desenvolvimento de soluções aplicadas à sustentabilidade. Devido a natureza do objeto de estudo e ao modo de investigação da pesquisa, adotou-se uma perspectiva multidisciplinar na condução da pesquisa, priorizando-se a perspectiva do design e envolvendo conhecimento de áreas relacionadas a ciências sociais e biológicas. A produção artesanal foi investigada, a partir do uso de insumos e dos resíduos vegetais provenientes do Cerrado Mineiro, no Vale do Urucuia, especificamente no município de Chapada Gaúcha. Este município é território intermediário entre o Parque Nacional Grande Sertão Veredas e o Parque Estadual de Serra das Araras, noroeste de Minas Gerais. Esta região, pertencente a uma das sub-bacias do Rio Francisco, possui características popularizadas pelo escritor João Guimarães Rosa. O método de investigação adotado foi o estudo de caso, a partir de observação-participante. A pesquisa de campo foi realizada junto a artesãos das comunidades de Serra das Araras, Ribeirão do Areia e Buraquinhos. A população local utiliza extensa quantidade dos recursos naturais provenientes dos ecossistemas da região. A condução de atividades práticas com comunidades possibilitou a análise dos materiais para a produção artesanal, das técnicas artesanais e da relação com o habitat, evidenciando o potencial para se promover a sustentabilidade local. Para promover práticas de manejo sustentável para a produção artesanal é necessário considerar o contexto cultural, social e ambiental das áreas protegidas. Os resultados apontaram possibilidades de intervenção do design na produção artesanal, valorizando a riqueza dos resíduos vegetais como matéria prima. Evidenciou-se a importância da condução de oficinas como forma de interação com as comunidades e a necessidade de adotar abordagens didáticas multidisciplinares e adaptadas ao contexto local. Um dos principais resultados alcançados foi a proposta de catálogo das espécies vegetais do Cerrado Mineiro que geram resíduos que podem ser usados para a produção artesanal. Este catálogo teve como objetivo organizar o conhecimento acessado durante a pesquisa, e disponibilizá-lo a sociedade (especialmente produtores, comerciantes, consumidores), adotando-se uma linguagem acessível e incluindo suporte visual (fotos e esquemas) para facilitar a comunicação.

Palavras-chave: design sistêmico. sustentabilidade. produção artesanal. resíduos vegetais. Cerrado Mineiro.

10

ABSTRACT

MOURÃO, N. M. Sustentabilidade na produção artesanal com resíduos vegetais: Uma aplicação prática de design sistêmico no Cerrado Mineiro. 2011. 205 f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Design, Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011.

The subject matter of this dissertation is to examine how communities work with plant residues in handicraft production and to promote sustainable practices from the perspective of design in this context. The systems approach to design was the basis for the development of research, specifically the tools and strategies for the development of applied solutions to sustainability. Due to the nature of the object of study and research the way of research, we adopted a multidisciplinary approach in conducting the research, focusing on the perspective of design and involving knowledge of areas related to social and biological sciences. Craft production was investigated from the use of raw materials and vegetable waste from the Cerrado Mineiro, Urucuia Valley, specifically in the municipality of Rio Grande do Sul Chapada. The municipality is the middle ground between the National Park Great Wilderness State Park Footpaths and Serra das Araras, northwest of Minas Gerais. This region, belonging to a sub-basin of the Rio Francisco, has features popularized by the writer João Guimarães Rosa. The research method used was a case study from participant observation. The field research was conducted with the communities of artisans Serra das Araras, Stream of Sand and holes. The local population uses extensive amounts of natural resources from the region's ecosystems. Conducting practical activities with communities allowed the analysis of materials for handicraft production, the crafts and the relationship with habitat, indicating the potential to promote local sustainability. To promote sustainable management practices for the production craft is necessary to consider the cultural, social and environmental protected areas. The results indicated the possibilities of intervention design in handicraft production, valuing the richness of plant residues as feedstock. Revealed the importance of conducting workshops as a way of interacting with the communities and the need to adopt multi-disciplinary teaching approaches and adapted to local context. One of the main achievements was the proposal to catalog plant species of the Cerrado Mineiro that generate waste that can be used for craft production. This catalog aimed to organize the knowledge accessed during the search, and make it available to society (especially producers, traders, consumers), adopting an accessible language and including support visual (photos and diagrams) to facilitate communication.

Keywords: Systemic design. sustainability. craftsmanship. crop residues. Cerrado Mineiro

11

LISTA DE FIGURAS

Fig. 1

Ações e resultados relacionados com a atividade de design

33

Fig. 2

Indicação de passagem output/input

35

Fig. 3

O modelo de produção

37

Fig. 4

Levantamento de valores associados a palmeira Juçara

39

Fig. 5

Biojoias Brasileiras

40

Fig. 6

Componentes de uma árvore

42

Fig. 7

Resíduos Vegetais para a produção artesanal

44

Fig. 8

Fios produzidos pelo Projeto ―Pólo Veredas‖

45

Fig. 9

Insumos e resíduos vegetais

48

Fig.10

Flor de folhas pigmentadas da Flor do Cerrado

49

Fig.11

Quadro da relação entre matérias primas e ofícios

55

Fig.12

Sistemas do desenvolvimento da pesquisa

65

Fig.13

Quadro de dados populacionais de Chapada Gaúcha

71

Fig.14

Reserva Estadual Desenv. Sustentável Veredas do Acari

72

Fig.15

Rio Feio em Serra das Araras

84

Fig.16

X Encontro dos povos do Grande Sertão Veredas

89

Fig.17

Apresentação da Pesquisa - logomarca

90

Fig.18

Travessia de balsa do Rio São Francisco

92

Fig.19

Trechos da rodovia MG-606

92

Fig. 20

Quadro de perguntas e respostas comerciantes insumos

95

Fig. 21

Gráfico de Renda dos Trabalhadores Rurais

98

Fig. 22

Reserva Ambiental do Acari

99

Fig. 23

Imagens da estrada para Comunidade de Buraquinhos

101

Fig. 24

Chapadão da Comunidade de Buraquinhos

101

Fig. 25

Imagem do interior de residência da comunidade de Buraquinhos

102

Fig. 26

Imagem da fachada de uma das residência em Buraquinhos

102

Fig. 27

Artesã apresenta a palha do buriti para produção de esteiras

104

Fig. 28

Artesãs e produção de esteiras na comunidade de Buraquinhos

104

Fig. 29

Comunidade de Ribeirão do Areia

106

Fig. 30

Central de Resfriamento de Leite na C. de Ribeirão do Areia

106

Fig. 31

Encontros semanais dos artesãos da C. de Ribeirão de Areia

107

12

Fig. 32

Fig. 33

Fig. 34

Fig. 35

Fig. 36

Fig. 37

Fig. 38

Fig. 39

Fig. 40

Fig. 41

Fig. 42

Fig. 43

Fig. 44

Fig. 45

Fig. 46

Fig. 47

Fig. 48

Fig. 49

Fig. 50

Fig. 51

Fig. 52

Fig. 53

Fig. 54

Fig. 55

Fig. 56

Fig. 57

Fig. 58

Fig. 59

Fig. 60

Fig. 61

Fig. 62

Artesãs dividindo tarefas da comunidade

Lanche comunitário após as atividades artesanais

Técnica de corte em cabaça e de tranças p/ artesanato

Capela de Nossa Senhora Aparecida em Ribeirão de Areia

Folia de Reis na casa do Mestre Jonas

Biojias de artesãs da C. de Ribeirão de Areia

Rabeca de madeira mata-cachorro

Rodovia MG 606 - Chapada Gaúcha e Serra das Araras

Serra das Araras

Imagem do Distrito de Serra das Araras

Barracas da Festa de Santo Antônio - Serra das Araras

Artesãs da Ass. de Bordadeiras e Artesãos de Serra das Araras

Quadro bordado da paisagem de Serra das Araras

Produtos da Ass. de Bordadeiras e Artesãos de Serra das Araras

Vaso flores desenvolvido projeto Artesol Ass. das Bordadeiras

Técnicas para produção das flores de talos de buriti. Associação de Bordadeiras e Artesãos de Serra das Araras Caminhos de mesa de palha de buriti

Produtos da C. de Buraquinhos após orientação oficina Design

Mandala de palha de buriti e bananeira

Alguns produtos artesanais de Ribeirão de Areia

Oficina de Resíduos Vegetais com artesãs em Serra das Araras

Embalagens e oratórios de buriti - imagens de Santo Antonio

Imagens do sistema de produção de biojoias artesãos

Imagens telhado de palha de Buriti

Imagens do ciclo de manejo e beneficiamento de mat.vegetais

Imagens de raízes e troncos utilizadas no artesanato

Processo da utilização do fruto do Tingui na produção artesanal

Beneficiamento da palmeira Buriti

Beneficiamento da árvore de Fava D’anta

Beneficiamento da árvore de Jatobá-do-Cerrado

Quadro da produção artesanal com resíduos vegetais

107

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136

138

139

140

141

13

LISTA DE MAPAS

01 Localização de Chapada Gaúcha no Brasil

69

02 Localização de Chapada Gaúcha em Minas Gerais

69

03 Localização do Município de Chapada Gaúcha

70

04 Localização do Vale do Urucuia

70

05 Limites da ecorregião Cerrado

79

06 Base MODIS mapa de remanescentes

82

07 Base PROBIO

82

08 Base SPOT p/análise temporal possíveis desmatamentos

82

09 Localização das Comunidades selecionadas

93

10 Localização da Comunidade de Buraquinhos

100

11 Acesso à comunidade de Ribeirão de Areia

105

12 Mapa da Localização do Distrito de Serra das Araras

111

14

LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

ACS

Área de Coleta de Sementes

BH

Belo Horizonte

BNDES

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e

CACCER

Social Conselho das Associações de Cafeicultores do

CG

Cerrado Município de Chapada Gaúcha. Minas Gerais

C&T

Ciência e Tecnologia

CETEC-MG

Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais

EA

Educação Ambiental

ED

Escola de Design

EMBRAPA

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

EPA

Environmental Protection Agency, dos Estados Unidos

ETHOS

Instituto Ethos de Empresas de Responsabilidade

FRAGO

Social Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Agronegócio

GPS

Global Positioning System: Sist. de Posicionamento

IBAMA

Global Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos

ICMbio

Naturais Renováveis Instituto Chico Mendes de Biodiversidade

IEF

Instituto Estadual de Florestas

ISPN

Instituto Sociedade, População e Natureza

MCT

Ministério da Ciência e Tecnologia

MMA

Ministério do Meio Ambiente

OMT

Organização Mundial do Turismo

ONG

Organização Não Governamental

ONU

Organização das Nações Unidas

OSCIP

Organização da Sociedade Civil de Interesse Público

OSIP

Organização Social de Interesse Privado

15

ONG

Organização não governamental

PADSA

Projeto de Assentamento Dirigido à Serra das Araras

PMDBBS

Chapada Gaúcha. Minas Gerais Projeto de Monitoramento do Desmatamento dos

PPGD

Biomas Brasileiros por Satélite Programa de Pós Graduação Mestrado em Design

SBF/MMA

Secretaria de Biodiversidade e Floresta

SEBRAE

Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas

SENAC

Empresas Serviço Nacional do Comércio

SENAI

Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

SISCOM

Sistema de Informação dos Serviços de Comunicação

SNSM

de Massa Sistema Nacional de Sementes e Mudas

UNICOM

Programa Universidades e Comunidades no

UEMG

Cerrado/ISPN Universidade do Estado de Minas Gerais

16

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO

19

CAPÍTULO 1 CONCEITUAÇÃO

22

1.1.

Abordagens sistêmicas do design: conceitos relacionados

22

1.2.

Problematização

24

1.3.

Objetivos

25

1.3.1.

Objetivos Específicos

25

1.4.

Justificativa

25

1.5.

Delimitação da pesquisa

27

1.6.

Estrutura da dissertação

27

CAPÍTULO 2 REFERENCIAL TEÓRICO

30

2.1.

Design sistêmico e a sustentabilidade

32

2.1.1.

Design sistêmico - produtos e serviços

37

2.1.2.

Exemplos de iniciativas no Brasil associadas à abordagem sistêmica do design

38

2.2.

Insumos e resíduos vegetais

41

2.3.

Espécies vegetais do cerrado na produção artesanal

46

2.3.1.

Espécies nativas e exóticas em produção artesanal

50

2.3.2.

Manejo, conservação e comercialização de insumos vegetais

51

2.4.

Produção artesanal, inovação e sustentabilidade

54

2.4.1.

Produção artesanal

54

2.4.2.

Inovação e sustentabilidade no contexto da produção artesanal

56

2.5.

Abordagens sistêmicas relacionadas ao território

58

CAPÍTULO 3 - PROCEDIMENTOS E MÉTODOS

61

3.1.

Objeto de Estudo

66

3.2.

Área de Estudo

66

3.2.1.

O município de Chapada Gaúcha

68

17

 

CAPÍTULO 4 ESTUDO DE CASO

77

4.1.

Primeira Parte Análise do Contexto

77

4.1.1.

Cerrado Brasileiro

77

4.1.2.

O Vale do Urucuia

83

4.1.3.

Povos tradicionais e manejo recursos naturais

84

4.1.4.

Populações existentes e a culturalidade no Vale do Urucuia

86

4.2.

Segunda Parte A produção Artesanal e o Design Sustentável

90

4.2.1.

Atividades iniciais

90

4.2.2.

Registros sobre o comercio de resíduos vegetais

94

4.2.3.

Contexto econômico, social, cultural e ambiental

97

4.2.4.

Artesanato na comunidade de Buraquinhos

100

4.2.5.

Cultura e Artesanato na comunidade de Ribeirão de Areia

105

4.2.6.

Serra das Araras: comunidade e artesanato

111

4.2.7.

Oficinas de design, cultura e identidade

118

a) Oficina de design em Buraquinhos

119

b) Oficina de design em Ribeirão do Areia

120

c) Oficina de design em Serra das Araras

122

4.2.8.

Boas práticas: extração, pigmentação e conservação

124

a) Sementes

124

b) Folhas e fibras

126

c) Galhos, troncos e raízes

128

4.2.9.

Algumas espécies vegetais especiais para as comunidades

129

a) Buriti: A palmeira preciosa

129

a) Fava d’anta: Fonte de sustentabilidade

130

b) Jatobá: Símbolo da tradição e nutrição

131

CAPÍTULO 5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

132

5.1.

Espécies vegetais compatíveis à produção artesanal

132

5.2.

Análise da produção artesanal - comunidades pesquisas

135

5.2.1.

Análise de algumas espécies vegetais especiais na região

137

5.2.2.

Análise da produção artesanal nas comunidades

141

5.3.

Espécies vegetais catalogadas no Vale do Urucuia

143

5.3.1.

Espécies vegetais para prod. artesanal em Chapada Gaúcha

145

18

CAPITULO 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

147

6.1. Quanto ao contexto e a produção local

148

6.2. Quanto ao mapeamento e à catalogação das espécies vegetais

150

6.3. Quanto às oficinas e contribuições do design

151

6.4. Sugestões para trabalhos futuros

153

REFERÊNCIAS

154

GLOSSÁRIO

171

APÊNDICES

183

A. Dados de sites: Comercialização de Res.Veg. Beneficiados

184

B. Formulários Cadastro do Artesão e Cadastro Espécies Vegetais

186

C. Modelo Entrevista Semiestruturada

187

D. Modelo carta de apresentação e solicitação de apoio

188

E. Modelo autorização para reprodução de foto e vídeos

189

F. Tabela de preções res.veg. beneficiados - Mercado Central

190

G. Dados complementares das espécies vegetais (extra catálogo)

192

H. Proposta - Catálogo de Espécies Vegetais p/ Artesanato

196

I. Publicação da pesquisa. Jornal O Barranqueiro‖ – n° 378

218

J. Publicação da pesquisa. Jornal O Barranqueiro‖ – n° 390

219

19

INTRODUÇÃO

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”.

Guimarães Rosa

Diante das crescentes crises ambientais geradas pelo uso indiscriminado dos recursos naturais em algumas regiões, faz-se imprescindível rever os métodos usados para extrair, produzir, consumir e destinar. O despertar para a conscientização acerca dos problemas ambientais e a necessidade de estabelecer atitudes para minimizá-los tornam-se cada vez mais abrangentes, tanto no setor produtivo, no design 1 , quanto na sociedade em geral.

A abordagem sistêmica do design é a base para o desenvolvimento deste trabalho, utilizando especificamente as estratégias e ferramentas para o desenvolvimento de soluções aplicadas à sustentabilidade. A produção artesanal foi investigada a partir do uso de insumos e dos resíduos vegetais provenientes do Cerrado Mineiro.

1 A definição oficial de Design Industrial, de acordo com o ICSID (Conselho Internacional das Organizações de Design Industrial), é uma atividade criativa cujo objetivo é estabelecer as qualidades multifacetadas de objetos, processos, serviços e seus sistemas em ciclos de vida inteira. Portanto, design é o fator central da humanização inovadora de tecnologias e o fator crucial de intercâmbio cultural e econômico. ( ALLEGRO BUSINESS GROUP, 2011)

20

Superado apenas pela Floresta Amazônica em extensão, o Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, cobrindo quase um quarto do território.

Conforme Giulietti et al (2009), o Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, abriga 15% de toda a flora mundial. Desta porcentagem, em torno de 1,5% das espécies estão restritas ao Cerrado. Em Minas Gerais, foram detectadas cerca de 550 espécies raras, devido à grande quantidade de endemismos pontuais nos campos rupestres da Cadeia do Espinhaço.

Nas décadas de 1970 e 1980 houve uma expansão da fronteira agrícola do Cerrado, ocasionando queimadas e uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Fatos que coincidem com o aumento da utilização dos insumos e do avanço demográfico na região central do país. ―Esta devastação resultou na modificação de 67% de suas áreas em curto prazo. Atualmente, calcula-se que apenas 20% de área original do Cerrado permanecem preservadas‖ (IBAMA /PMDBBS, 2008, p.11).

Inúmeros recursos vegetais podem ser retirados da natureza para a produção de artesanato como os galhos, troncos contorcidos e secos, folhas e flores que adquirem coloração ao processo de secagem natural, além de sementes de várias espécies vegetais. São as sementes dos buritis, pequis, fabáceas, dentre outras espécies, após o período de germinação, somam-se à diversidade insumos e de resíduos vegetais.

Os resíduos vegetais são partes oriundas de algum tipo de utilização de plantas, como por exemplo: as lascas de tronco, fibras, cascas, favas e sementes provenientes da produção agroextrativista ou in natura. Foelkel (2007) considera a denominação dos elementos vegetais, que aparecem principalmente após queimadas e desmatamentos, como ―resíduos florestais‖. Os resíduos florestais caracterizam uma ação predominante do ser humano.

Estes materiais, abordados como resíduos, são também insumos para o artesanato em diversas localidades no Brasil. As fibras naturais sempre estiveram presentes no cotidiano das comunidades, desde os tempos tribais. Algumas perderam a identidade com a inclusão de novos materiais. Finkielsztejn (2006) narra que os interesses comerciais se transformam, as fibras naturais são substituídas por

21

outras, e os mercados, os padrões de identificação, classificação e qualidade são moldados em função de novos critérios.

O design pode e deve contribuir efetivamente para a valorização dos recursos naturais, como aponta Bistagnino (2009). Assim, nesta pesquisa foram investigadas quais seriam as possíveis contribuições do design para a sustentabilidade na produção artesanal a partir de resíduos vegetais do Cerrado Mineiro. Além disso, foram estudadas estratégias para promover materiais, técnicas e processos que valorizem o território e que podem ser aplicadas e aperfeiçoadas, como ferramenta para o artesão, o produtor de insumos vegetais, o artesanato e o designer.

A motivação para o desenvolvimento dessa proposta surgiu com base no interesse de compreender as relações entre o território 2 e a sociedade. O desejo de desenvolver uma pesquisa que estabelecesse vínculo entre Cerrado e produção artesanal foi acalentado por muitos anos. Oficinas educacionais para públicos diversos, utilizando sementes, folhas, galhos, estimulam a consciência como profissional em design e a responsabilidade em relação à sustentabilidade. Através do conhecimento das riquezas naturais, consideradas como resíduos vegetais, indagou-se ―como o design poderia contribuir com a produção artesanal sem comprometer o meio ambiente?‖ Desta forma, a busca de experiências em design sustentável 3 motivou a busca por abordagens sistêmicas do design.

2 O território não se restringe somente às fronteiras entre diferentes países, sendo caracterizado pela ideia de posse, domínio e poder, correspondendo ao espaço geográfico socializado, apropriado para os seus habitantes, independentemente da extensão territorial. (FRANCISCO, 2011)

3 Design sustentável é um conjunto de ferramentas, conceitos e estratégias que visam desenvolver soluções em sistemas, serviços ou produtos, para satisfazer às necessidades do presente, sem comprometer o desenvolvimento das gerações futuras. Este conceito insere-se no termo ―desenvolvimento sustentável‖, sugerido no Relatório de Brundtland – também conhecido como Our Commom Future, apresentado à Comissão Mundial da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), em 1987, e adotado pelo mundo todo. (TEIXEIRA, 2010)

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CAPÍTULO 1

CONCEITUAÇÃO

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.

Guimarães Rosa

1.1. ABORDAGENS SISTÊMICAS DO DESIGN: CONCEITOS RELACIONADOS

Os conceitos do pensamento sistêmico, no decorrer dos tempos, passaram a ser utilizados no mundo científico, na mesma proporção das mudanças de paradigmas. O biólogo Ludwig Von Bertalanffy, na década de 20, aliou-se a um grupo de cientistas em Viena, que inovaram os métodos tradicionais da física, expandindo para a visão holística. Os relatos de Bertalanffy foram resgatados e publicados posteriormente. O mesmo observou as evidentes lacunas existentes na pesquisa e na teoria da biologia. Em seus estudos, percebeu que o enfoque mecanicista 4 , então predominante, parecia desprezar ou negar o essencial nos fenômenos da vida. Este projeto foi desenvolvido a partir deste conceito de sistema aberto, onde nenhuma organização pode ser compreendida de forma isolada. Deve-se considerar que as relações entre diversos atores e variáreis internos e externos são capazes de alterar seu comportamento e consequentemente seus resultados. O movimento

4 Teoria segundo a qual todos os fenômenos que se manifestam nos seres vivos são mecanicamente determinados de natureza físico-química. (DICIONÁRIO, 2011)

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Neste trabalho são evidenciados, especificamente, os trabalhos de Fritjof Capra, Kurt Koffka, Ludwig Von Bertalanffy e Therese Amelie Telenge. Koffka (1975), um dos expoentes da Gestalt 5 , chamou de "primórdios" do pensamento sistêmico, as pesquisas poderiam colaborar na criação de modelos e quadros de referências que acentuam não somente nas semelhanças, mas inclusive entre as diferenças estruturais entre tipos de sistemas. Sistema é um composto de conjuntos de estruturas que se interrelacionam entre si. Telenge (1984) relata que pela teoria dos sistemas, todos os elementos ou partes que compõe o todo são importantes. Não são os "objetos" enquanto físicos ou materiais os mais importantes, acima de tudo são as leis, funções, processos, equações que estruturam um sistema. Capra (1996) descreve as mudanças das relações e conceitos, enaltecendo o sistema de redes como chave para os avanços da compreensão científica. Relata o princípio da interdependência onde todos os membros de uma comunidade ecológica estão interligados em ampla e intrincada trama de relações, ―a teia da vida‖. Estabelece um conjunto de princípios de organização ecológica, constituindo um modelo de sustentabilidade para a sociedade onde os ecossistemas funcionam em redes. Esclarece que análises isoladas de um sistema não demonstram as propriedades das partes. Desta forma, para que a sustentabilidade se estabeleça, todos os fatores são importantes. Desde conhecer como os materiais são extraídos, o processo, até o descarte. Bistagnino (2009) narra que o desafio é tornar sustentável a vida cotidiana. É necessária aprendizagem social, mudança de comportamentos e compartilhar com novos estilos de vida. Repensar e inovar, o que não significa necessariamente novas tecnologias. Inovar é ver sob outros ângulos e perspectivas diferentes. Como esclarecido, é oportuno introduzir o conceito de ―design sistêmico‖. Conforme Allegro (2011) constitui um meio renovável, cíclico e inter-relacionado de

5 É importante citar que o pensamento sistêmico expandiu através da psicologia da gestalt. De acordo com a gestalt, a arte se funda no princípio da forma. O importante é perceber a forma por ela mesma; vê-la como "todos" estruturados, resultados de relações. O movimento gestáltico surgiu no período compreendido entre 1930 e 1940. Ehrenfels, filósofo vienense de fins do séc. XIX foi o precursor da psicologia da gestalt, que teve como expoentes máximos: Max Wertheimer (1880- 1943), Wolfgang Kôhler (1887-1967), Kurt Koffka (1886- 1941) e Kurt Goldstein (1878-1965).

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atuação do design que visa um resultado adequado em todas as áreas que o compõe. Bistagnino (2009) completa que o design sistêmico tem por finalidade desenvolver produtos e serviços com valor adjunto que colabore com a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Podendo estabelecer uma relação em que o descarte (output) de um sistema pode ser o input (matéria prima) de outro sistema. Assim, os resíduos vegetais de uma região podem gerar soluções e contribuir com a sustentabilidade. Por tanto, busca-se um novo modo de afrontar o desafio da inovação: ver o mundo produtivo de maneira sistêmica, distanciando do foco exclusivo do produto ou do seu ciclo de vida, estendendo atenção à cadeia produtiva completa e considerando a problemática inerente dos descartes de trabalho e a própria escassez de matéria prima. Esta pesquisa visa, especificamente, a identificação das contribuições do design para a promoção de inovações sustentáveis. Alguns dos principais autores que abordam esta questão sob a perspectiva do design são Bistagnino (2008), Bonfim (1998), Krucken (2009), Manzini (2008), Santos (2009).

1.2.

PROBLEMATIZAÇÃO

A pesquisa pressupôs que a grande biodiversidade vegetal do bioma Cerrado possa fornecer resíduos vegetais viáveis ao uso no artesanato. Tal fato ocorre sem comprometer a integridade ecológica desse ecossistema e agregar os valores culturais e ambientais da região ao produto. Assim, esta dissertação se desenvolveu a partir de dois questionamentos, listados a seguir:

Quais são os principais resíduos vegetais compatíveis com a produção artesanal no Cerrado Mineiro?

Como o design pode contribuir para a valorização destes recursos, de forma sustentável?

Com base na delimitação destes dois problemas de pesquisa centrais, foram definidos os objetivos deste trabalho, como apresentados a seguir.

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1.3.

OBJETIVOS

1.3.1.

Objetivo geral

Investigar possíveis contribuições do design na produção artesanal a partir de resíduos vegetais, identificando materiais, técnicas e processos sustentáveis e promovendo a valorização do território, especificamente o Cerrado Mineiro.

1.3.2.

Objetivos Específicos

a) Pesquisar espécies vegetais do Cerrado Mineiro, a partir de amostra selecionada no Vale do Urucuia;

b) Propor a aplicação dos insumos e resíduos vegetais nos produtos artesanais, visando melhorar as práticas produtivas à sustentabilidade, sob a perspectiva do design;

c) Desenvolver proposta de um catálogo de espécies vegetais do Cerrado Mineiro, cujos insumos e resíduos possam ser utilizados na produção artesanal.

d) Revisar os conceitos de design, sustentabilidade e produção artesanal, com objetivo de fundamentar as propostas das oficinas.

1.4.

JUSTIFICATIVA

O artesanato no Brasil em 2010 empregou 8,5 milhões de pessoas e faturou R$ 28 bilhões 6 . Esta atividade está deixando a informalidade, gerando divisas. Os Bordados do Ceará, as cerâmicas de Minas Gerais e as panelas de barro do Espírito Santo, entre outros produtos artesanais responderam, em 2010, por 2,8% do PIB 7 .

6

Site

Sebrae.

Santa

Catarina.

Crédito

-

Artesão.

Disponível

em

<http://www.sebrae-

sc.com.br/credito/default.asp?vcdtexto=2600&^^ >. Acesso em: 27 out. 2010.

7 PIB: Produto Interno Bruto: soma de toda a riqueza produzida pelo país em um ano. (IBGE, 2010)

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Ainda, de acordo com o site do SEBRAE, dados do Instituto Brasileiro de Geografia

e Estatística (IBGE, 2008), dos 8,5 milhões de pessoas que vivem do artesanato,

87% são mulheres. Pesquisa realizada pela Organização Mundial de Turismo (OMT), publicada em 2010, apresentou que a indústria automobilística nacional precisa de R$ 170 mil (cento e setenta mil reais) para gerar um emprego, enquanto que com R$ 50 (cinquenta reais) apenas, garante-se matéria prima e trabalho para um artesão. Foi considerado o fato de existirem cerca de 8,5 milhões de artesãos no país e que cada um deles recebe, em média, de dois a três salários mínimos por mês comercializando seus produtos.

O design se insere nesta proposta potencializando o território, os materiais e

a possibilidade de estabelecer novos paradigmas de vida sustentável, abordagem

apropriada ao ―design sistêmico‖. O método sistêmico atua como estruturador analisando partes distintas que interagem. Telenge (1984) considera que estudar sistemas é indagar sobre a sua estrutura, qual o seu contorno, quais as suas partes, como se interrelacionam internamente e com o meio externo.

Desta forma, pode-se considerar que os sistemas não podem ser compreendidos por meio da análise individual. ―As propriedades das partes não são necessariamente propriedades extrínsecas, mas precisam ser vistas e entendidas dentro do contexto do todo‖ (CAPRA, 1996, p.51). Ainda citando Capra, o pensamento cartesiano, o pensamento holismo e o pensamento sistêmico, apesar de cada qual possuir uma identidade, método e história diferentes, não são diretamente opostos, apenas tomaram caminhos diferentes, visando chegar a algo comum. O autor destaca a relação dos resultados do ciclo produtivo, antes da extração da matéria prima. Considera que todas as etapas do ciclo de vida se relacionam e interagem, buscando um resultado que atenda a redução de recursos e resíduos.

Especificamente sobre a perspectiva do design, Bistagnino (2008) mostra que além da análise sistêmica, serão necessários maiores esforços para a sustentabilidade se estabelecer. O autor usa o termo ―desafio‖ ao citar que as mudanças devem ser processadas em todas as áreas, visando o resultado para todos.

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O desafio de promover a sustentabilidade também é evidenciado por Manzini (2008), que considera dois critérios importantes que devem ser adotados para o design: buscar uma abordagem estratégica do design e em segundo lugar, levar seriamente em consideração os critérios da sustentabilidade.

Além dos limites da pesquisa no design sistêmico, os resultados possibilitaram a elaboração de uma proposta de catálogo, descrevendo algumas espécies vegetais nativas, em especial na região do Vale do Urucuia, que possam fornecer insumos e resíduos à produção artesanal.

1.5. DELIMITAÇÃO DA PESQUISA

Devido à amplintude dos temas tratados nesta pesquisa, optou-se por priorizar a relação entre as diversas áreas, e não seu aprofundamento específico. Esta abordagem teve com propósito reforçar o caráter transversal da pesquisa, que envolve a área de Design, Sustentabilidade e Ciências Ambientais.

1.6. ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO

Esta dissertação se organiza em seis capítulos: Introdução, Referencial Teórico, Procedimentos e Métodos, Estudo de caso e práticas, Discussão dos Resultados e Considerações Finais. Inicialmente, como visto, foi apresentada a introdução, com a contextualização geral da pesquisa, seguida da exposição do problema, objetivos e a justificativa do trabalho.

O referencial teórico, apresentado no Capítulo 2, está organizado em quatro sessões. Na primeira, Design Sistêmico e a Sustentabilidade - são traçadas considerações acerca das dimensões do design sistêmico e da sustentabilidade, em relação ao cenário social e cultural. São discutidas brevemente, as relações entre novos métodos sistêmicos e construção de identidades locais e como estas relações se refletem na efetivação do design sustentável. Discorre-se também sobre práticas

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artesanais que se inserem na economia brasileira, inclusive no que tange à questão do ciclo de vida do produto. Na sequência, as relações entre artesanato e os materiais são abordadas, e como estas se inovam frente ao mundo globalizado. Esta sessão tem como objetivo traçar algumas considerações sobre as práticas na seleção dos materiais, de forma a facilitar a compreensão da importância da produção artesanal no mundo atual. Na terceira sessão das referências teóricas é apresentado o conceito de resíduos vegetais e insumos. Procura-se esclarecer também quais são os principais fatores que podem contribuir com a inclusão destes materiais para produção artesanal. Em seguida, discute-se resumidamente de que forma o design tem atuado em relação aos insumos e a possibilidade de expansão do manejo sustentável em serviços e produtos. Ainda no referencial teórico, na quarta sessão, são feitas algumas reflexões acerca das espécies do Cerrado Mineiro para produção artesanal, bem como da inserção do design no artesanato, principalmente no que tange a identidade dos produtos.

No Capítulo 3 são relatados os processos e metodologia aplicada ao estudo de caso. São descritos os passos para execução da pesquisa de campo e como os itens acima foram tratados na prática. A programação da pesquisa é relatada sinteticamente, acrescida das atividades para a produção da proposta de catálogo.

O Capítulo 4 apresenta o estudo de caso e práticas realizadas. Está organizado em duas seções. Primeiramente abordam-se o território e os sistemas locais, expondo os aspectos do Cerrado Brasileiro. Faz-se a descrição das comunidades tradicionais e a culturalidade na região, como também do manejo dos recursos naturais. A segunda parte tem como foco a produção artesanal e os ensaios de design sustentável estão descritos nos materiais para o artesanato e as técnicas usadas, nas comunidades de Serra das Araras, Ribeirão do Areia e Buraquinhos. Também são relatadas as espécies compatíveis à produção artesanal através da experimentação em oficinas de design, inovação e sustentabilidade.

Os resultados da pesquisa estão descritos no Capítulo 5, constituindo registros das espécies regionais e da produção artesanal em Chapada Gaúcha, sob os aspectos do design sistêmico. Complementarmente, são apresentados alguns tópicos para discussão do assunto. E no Capítulo 6 apresenta as Considerações

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Finais, destacando os principais resultados alcançados e incluindo propostas para pesquisas futuras.

Por fim, a proposta de catálogo elaborada durante a pesquisa, apresentando algumas espécies vegetais compatíveis à produção artesanal, se encontra no ―Apêndice Hda pesquisa.

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CAPÍTULO 2

REFERENCIAL TEÓRICO

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”

Guimarães Rosa

Mudanças são as certezas na existência humana, que através das ligações e transferências de dados, continuam a se desenvolverem em redes sociais e eventualmente produzirão um ―sistema‖. Este compartilhado de crenças e valores gera a cultura, continuadamente sustentada por conhecimentos adicionais.

Capra (2003) considera que os sistemas se tornaram parte de qualquer atividade na vida contemporânea. Relata que, a partir da necessidade de conciliar a ideologia capitalista neoclássica com a crescente constatação dos limites ambientais do planeta, surgiu o conceito de comunidades tradicionais. Descreve que esse termo emergiu nos anos 1980, sendo este consequência do aumento da pobreza e da concentração de renda. O conceito sistema está diretamente ligado à sustentabilidade ambiental, social e econômico.

Nesse ponto é oportuno introduzir o conceito de desenvolvimento sustentável. A definição mais aceita é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. Esta definição sistêmica se traduz num modelo de desenvolvimento global, abrangendo aspectos de desenvolvimento ambiental.

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O termo ―desenvolvimento sustentável‖ foi usado pela primeira vez em 1987 no Relatório Brundtland 8 . Este relatório foi elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pelas Nações Unidas, para discutir e propor meios de harmonizar dois objetivos: o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental. O Relatório Brundtland contribui afirmando que o desenvolvimento sustentável surge como alternativa viável, que busca manter os objetivos capitalistas de aumento de riqueza e lucros, incorporando as questões sociais e ambientais ao modelo econômico de desenvolvimento.

Na crença da necessidade do conforto máximo em todos os aspectos, a realidade atual do comportamento humano ordena os abusos sociais. Manzini (2008) indaga se podemos realmente considerar sustentável uma sociedade onde as necessidades, mesmo as mais básicas e mais populares, são atendidas através de um custoso e complexo sistema de produtos e serviços.

A sustentabilidade é fundamental para a permanência dos humanos e de outras espécies. Conforme Santos (2009), a humanidade necessita de soluções que efetivamente possam mudar estilos de vida. Dessa forma, contribuam para a mudança dos hábitos de consumo e produção, que reduzam o impacto do ser humano sobre o meio ambiente.

Capra (2003) cita que está aumentando expressivamente o número de práticas e projetos ecologicamente dirigidos. Esclarece que a importância de efetuar o planejamento ecológico (organização de diferentes indústrias em agrupamentos ecológicos), onde os resíduos de uma organização se tornem recursos para outra empresa:

Planejamento, na acepção ampla da palavra, consiste em direcionar os fluxos de energia e da matéria, para a finalidade humana. O eco- planejamento (ecodesign) constitui um processo pelo qual nossos objetivos humanos são cuidadosamente entrelaçados com os padrões maiores e os fluxos do mundo natural. Os princípios do eco- planejamento refletem os princípios da organização evolutiva da natureza e que sustentam a teia da vida (CAPRA, 2003, p.9).

8 Documento intitulado Nosso Futuro Comum, relatado pela líder internacional Sra. Gro Harlem Brundtland (política, diplomata e médica norueguesa). (BRUNDTLAND, 1991)

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Exercer a prática do planejamento industrial, neste aspecto, requer uma mudança fundamental de atitude. Usando as palavras de Capra (2003), despojar-se do conceito ―o que podemos extrair da natureza‖, substituindo por ―o que podemos aprender com ela‖.

Manzini e Vezzoli (2002) destacam que um projeto de design deve contemplar os aspectos ambientais em todos os estágios do desenvolvimento de um produto. Deve procurar reduzir o impacto ambiental durante todas as fases do seu ciclo de vida, o que significa reduzir gastos com matérias-primas, energia e lixo, desde sua fabricação até seu descarte.

Santos (2009) descreve que atitudes sustentáveis para o consumo e produção, proporcionam a promoção de novos valores culturais, diferentes do paradigma atual. Nesse caso, o papel do designer pode ser desde a liderança até um mero suporte técnico, optando pela exata participação no processo de mudança, dependente do perfil de cada um, seja como profissional ou como cidadão.

2.1. DESIGN SISTÊMICO E A SUSTENTABILIDADE

A palavra design, usada em todos os meios de comunicação expressando atributos de qualidade e funcionalidade, principalmente quando se trata de produtos, popularizou-se na ultima década.

Bonfim (1998) considerou que estes conceitos incidem sob a expansão do design para outros aspectos, buscando qualificá-lo como processo criativo, inovador e provedor de soluções. Apresentou o design como instrumento qualificado para alcançar a inovação através de vantagens competitivas, buscando outras áreas de produtos e serviços. O design se inova através de planejamento, estratégia, marketing, qualidade e forma de produção. Estes procedimentos, citados acima, reorganizam as relações com os resultados alcançados. Contudo, o objetivo principal desta profissão é servir ao ser humano, sejam nas relações entre os serviços, produtos ou ambos simultaneamente.

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A contemporaneidade do design na sociedade é descrita por Krucken (2009), expondo como um conjunto de significados, no que tange à mediação das dimensões imateriais (imagens e ideias) com materiais (artefatos físicos).

Krucken (2009, p.42) apresenta esquematicamente as ações e resultados relacionados ao design, conforme abaixo:

e resultados relacionados ao design, conforme abaixo: Fig. 1: Ações e resultados relacionados com a atividade

Fig. 1: Ações e resultados relacionados com a atividade de design. Fonte: Krucken (2009, p. 42)

No mundo globalizado e competitivo, Oliveira (2004) relata que o design é usado como ferramenta estratégica para agregar valor a produtos e serviços, muitas vezes equivocadamente, sem limitação e conformidade com a definição, imergindo em todas as áreas. Do ponto de vista econômico, ainda é necessário produzir mais e vender mais para crescer mais. Exemplo típico é o da China, que desde os anos 70 adotou reformas visando sua modernização e tornou-se a maior potência econômica mundial, com um crescimento muito superior a media dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Lazzarechi (2007) completa relatando que o sistema capitalista ainda não se envolve o suficiente, com a sustentabilidade mundial, a ponto de frear a velocidade de exploração dos recursos naturais do planeta. Regido por leis macroeconômicas complexas, o sistema financeiro mundial tem como padrão de sobrevivência a relação produção x crescimento.

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Algumas tendências buscam reverter este cenário. Conforme o Instituto Ethos 9 , o mercado passou a ser mais exigente por questões de normas e leis ambientais, procura-se escolher produtos de companhias que utilizem tecnologias de produção e métodos de gerenciamento que preservem o meio ambiente.

Neste sentido, o designer pode desempenhar o papel de facilitador, atuando em rede, atendendo aos propósitos da sustentabilidade. A partir do uso de ferramentas como a Análise do Ciclo de Vida 10 do produto, podem-se identificar possibilidades na busca de soluções.

O Ciclo de Vida representa a própria história do produto. Desde a fase de extração das matérias primas, passando pela fase de produção, distribuição, consumo, uso e até sua transformação em resíduo ou em nova matéria prima. A Análise do Ciclo de Vida de um produto, processo ou atividade é uma avaliação sistemática que quantifica os fluxos de energia e de materiais no ciclo de vida do produto. A EPA (Environmental Protection Agency, dos Estados Unidos) define a Avaliação de Ciclo de Vida como ―uma ferramenta para avaliar, de forma holística, um produto ou uma atividade durante todo seu ciclo de vida‖ (VIGON et al, 1993).

Nas últimas décadas, a busca por soluções sustentáveis se estabeleceu como fator indispensável no projeto. Manzini e Vezzoli (2002) descrevem que o contexto ambiental na prática do design foi estabelecido na redução do impacto ambiental de materiais e processos, evoluindo ao projeto de Ciclo de Vida do Produto e, consequentemente, ao design para atender a sustentabilidade ambiental.

Um dos principais desafios para o design na busca de soluções sustentáveis é o fato de que o problema não consiste somente no crescimento, mas sim e, principalmente no crescimento desenfreado e irresponsável, desprovido de ética que não se estabelece como sistema principal para tudo, conforme Oliveira Filho (2004).

9 O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma organização sem fins lucrativos, caracterizada como Oscip (organização da sociedade civil de interesse público). Sua missão é mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade justa e sustentável. (INSTITUTO ETHOS, 2010)

10 Avaliação do Ciclo de Vida - ACV (Life Cycle Assessment - LCA) é um método utilizado para avaliar o impacto ambiental de bens e serviços. (RIBEIRO; GIANNETI; ALMEIDA, 2011)

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Bistagnino (2009) aponta o design sistêmico como abordagem para analisar o ciclo dos serviços e materiais e todos os recursos envolvidos na produção. O ponto final é o aproveitamento de tudo pela sociedade. Este sistema diminui os gastos com a produção, gerando novos locais de trabalho. Acima de tudo, gera a possibilidade da humanidade ter um futuro e não desaparecer como outras espécies extintas do planeta. Expõe que a utilização do design sistêmico ultrapassa os domínios da produção em massa, na busca de inovações que abrangem aspectos ético, social, cultural e ambiental. Sendo assim, o autor esclarece que é necessário adotar outros fatores imponderáveis, qualitativas e não quantitativas de valor e do ambiente, o grau de instrução e os serviços, isto é, os índices que manifestam o grau de bem- estar não material, mas moral das pessoas.

O design sistêmico descrito por Bistagnino (2009, p.15), se caracteriza no princípio das inter-relações dos sistemas, onde tudo se completa no ciclo. O que é resíduo num sistema é matéria prima de outro. O que sobra de um ser vivo pode ser alimento de outro. Assim, a visão sistêmica é aplicada para que o método de projeto, além da redução de utilização dos recursos naturais, caminhe para a mudança de paradigma. * A condução de estudo de natureza sistêmica propõe novas conexões, visando o reaproveitar o máximo toda a matéria que poderia resultar em descarte. O esquema acima representa uma relação em que o descarte (output) de um sistema pode ser o input (matéria prima) de outro sistema, apresentado por Bistagnino, op.cit. p.15, figura 2. *

Considerando a natureza cíclica dos processos, é oportuno citar o princípio exposto por Lavoisier 11 : "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Fig.2: Indicação de passagem output/input. Fonte:

Fig.2: Indicação de passagem output/input. Fonte: Bistagnino, p.15. Adaptado para a pesquisa.

* Tradução do autor

11 Antoine Laurent Lavoisier: Definiu a lei da conservação da matéria, baseado em reações químicas.

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Porém, os padrões atuais são baseados no fato de que os resíduos dos processos industriais são de pouco valor ou altamente poluidores. Tanto é assim

que, os produtores os veem como um problema a ser resolvido da forma mais rápida

e menos dispendiosa possível. No entanto, se a saída do problema é torna-lo como

recurso, resultando em valor econômico, o interesse surgiria na consideração do processo ativo. Como tal, deve-se procurar conservar as qualidades principais dos resíduos para preservar suas propriedades. Tornando-os atraentes para não perder

a sua troca de valor econômico. Assim, seria obtido ao mesmo tempo um resultado

poderoso: a cultura produtiva, que tende a ―Emissões Zero‖, completa Bistagnino (2009, p.17). *

A abordagem em Emissão Zero representa uma iniciativa para mudança em

nosso conceito de indústria, deixando os modelos lineares nos quais os resíduos são considerados a norma, para sistemas integrados nos quais tudo tem seu uso. Paul (1996) vislumbra que no ano de 2021, o padrão de produção industrial será a

Emissão Zero. Este direcionamento ganha novos adeptos que buscam o aperfeiçoamento dos sistemas. Aponta para o início de uma nova revolução industrial, na qual a indústria imita os ciclos sustentáveis da natureza e a humanidade poderá aprender a fazer mais com os recursos que a terra produz.

Desta forma, conforme Nascimento et al (2008), os processos produtivos devem se organizar em conjunto. Os resíduos de cada processo necessitam ser destinados como insumos de outros processos e a integração de todos os sistemas não produzam resíduos de nenhum tipo.

Segundo Mauri (1996) apud Krucken (2009), a abordagem sistêmica de um produto pode ser considerada como uma unidade global organizada de inter- relações entre os elementos, ações e indivíduos: ―um sistema caracterizado por intensas e constantes inter-relações com o contexto ambiental entendido como o mundo da natureza e o mundo das interconexões globais de caráter político, econômico e social‖ (MAURI, 1996 apud KRUCKEN, 2009, p.47).

A abordagem sistêmica do design estimula o desenvolvimento de uma visão

ampla e inovadora, de combinações de produtos e serviços, estabelecendo uma intensa rede entre o sistema de produção e o sistema de consumo, que contribui para a sustentabilidade.

* Tradução do autor

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2.1.1. Design Sistêmico - Produtos e Serviços

A dinâmica dos sistemas é amplamente utilizada no mundo contemporâneo. Porém, a inovação deste termo no design é ainda expressão da minoria. O método sistêmico, incorporando ciclo de vida do produto e desenvolvimento sustentável, consolida novas formas de empreendimentos sócio ambiental cultural econômico, capazes de promover corporações originais.

A construção da identidade de um produto ou serviço sugere envolvimentos resultantes de fatores múltiplos. Para visualizar a extensão de um modelo sistêmico de produção, Bistagnino (2009) apresenta o modelo representado na Figura 3.

(2009) apresenta o modelo representado na Figura 3. Fig. 3: O modelo de produção sistêmica prefere

Fig. 3: O modelo de produção sistêmica prefere os recursos próximos ao invés dos distantes (Design Industrial, Politécnico de Turim). Fonte: Bistagnino (2009, p.21) . Tradução do autor.

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Na figura 3, Bistagnino (2009) apresenta um sistema de circulação de output, demonstrando a passagem de um e para outro, numa virtuosa colaboração de

produção (agrícola e industrial), do sistema dos reinos animais, do contexto local e da comunidade. Apresenta uma rede relacional aberta que busca revitalizar as áreas

e caracterizar seus princípios de qualidade.

Thackara (2008) descreve que os serviços devem ser projetados para ajudar as pessoas a realizarem atividades diárias de novas maneiras. Muitos destes serviços envolvem novas tecnologia e inovação. O foco está em serviços de design,

e não nas coisas. Assim, os produtos e serviços devem compor uma rede para o

design sistêmico. O projeto Designers of the Time, de J. Thackara, durante um ano promoveu experimentos na Inglaterra, para testar maneiras sustentáveis nas áreas escolar, do transporte, da energia, da saúde e da alimentação. Um dos exemplos foi aplicado na cidade de Middlesbrough. A partir desta iniciativa verificou-se que a comunidade poderia gerar sua própria alimentação, dentro da cidade, e ao mesmo tempo gerar outros postos de serviços internos, diminuindo os impactos ambientais, conforme Shirai (2008).

2.1.2. Exemplos de iniciativas no Brasil associadas à abordagem sistêmica do design

No Brasil, o design sistêmico desponta no contexto socioambiental, em atividades de produção artesanal e pequenas corporações. Incipiente, mas assinala algumas soluções sustentáveis, gerando mudanças na economia local.

Krucken (2009) evidencia uma iniciativa interessante de design sustentável, com aplicação do método sistêmico, ao expor o ciclo de uso da palmeira Juçara (Euterpe edulis), nativa da Mata Atlântica, mas cultivada ao longo do litoral brasileiro.

A Juçara faz parte do cotidiano de muitas comunidades, protegendo as casas do calor e abrigando diversas espécies de animais. Seu cultivo está relacionado com a proteção ambiental, por meio de conservação do solo e da alimentação da fauna, da produção de água e do controle da poluição. Suas fibras e folhas são usadas para cobrir telhados, fabricar vasouras e várias peças de artesanato. Caibros e ripas da Juçara podem ser aplicados em construções civis. Seus frutos constituem a base para a polpa da Juçara, deliciosa iguaria servida resfriada. As sementes, separadas da polpa, são usadas em biojoias e retornadas para o plantio. Seu caule produz um palmito de excelente qualidade, terno e saboroso, amplamente

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consumido na alimentação e com alto valor econômico. No entanto a planta é monocaule e seu corte implica a sua morte. Esta espécie também é usada em projetos de paisagismo. Estudos das propriedades terapêuticas de suas raízes e frutos e da aplicação dos pigmentos sinalizam novas possibilidades de uso (KRUCKEN, 2009, p.77).

Esta descrição evidencia o uso da palmeira Juçara e suas relações com o ambiente e a sociedade: equilíbrio para sustentabilidade ambiental, social e econômica (Figura 4). Krucken (2009) narra que esta planta é considerada um ícone para promover o manejo sustentável de recursos naturais e a geração de renda aliada à preservação da Mata Atlântica. Organizações e produtores que trabalham com o uso sustentável da Palmeira Juçara nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul se articularam para o desenvolvimento da Rede Juçara. Seu principal foco é o desenvolvimento das cadeias produtivas da polpa dos frutos e das sementes, aliadas à conservação da espécie, tendo como principais protagonistas agricultores familiares e comunidades tradicionais na Mata Atlântica 12 .

e comunidades tradicionais na Mata Atlântica 1 2 . Fig. 4: Levantamento de valores associados à

Fig. 4: Levantamento de valores associados à palmeira Juçara junto à comunidade. Fonte: Krucken, 2009.

12 Disponível em: < www.redejucara.org.br > Acesso em: 20 jul. 2011.

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Um dos resultados deste ciclo sistêmico está na produção de biojoias. Faria (2009) define biojoia como um adorno produzido a partir de materiais extraídos da natureza, tais como sementes diversas, fibras naturais, casca do coco, conchas, madrepérola, capim, madeira, ossos, penas, escamas. Uma biojoia é mais do que um adereço exótico, guardando dentro de si um pouco da cultura local. Como das sementes nascem novas árvores, das biojoias brota uma nova economia. Os grupos solidários de artesãos que adotam este tipo de trabalho aprendem que para manter suas famílias é preciso preservar a natureza. Caso contrário, as carências dos frutos e das sementes rompem o processo conforme Metello (2007).

No Brasil, as biojoias estão sendo produzidas, principalmente, nos Estados do Pará (Pólo Joalheiro), Amazonas (ofertada em shopping centers e no aeroporto internacional) e Acre, aonde o mercado, nos últimos anos, vem se desenvolvendo rapidamente, conforme Costa et al (2006).

Na figura 5, alguns exemplos de anéis biojoias, trabalho artesanal com técnicas profissionais, utilizando sementes das palmeiras dos estados amazonenses. São sementes maduras que não germinaram, catadas na floresta amazônica. Os artesãos utilizam sementes de tucum, tucumã, anajá, caroço de açaí, madeiras, cipós e fibras, que se perdem pelo chão da floresta e após tratamento, passam de resíduos vegetais para matéria prima, compondo a economia na região.

para matéria prima, compondo a economia na região. Fig. 5: Biojoias Brasileiras – anéis de semente

Fig. 5: Biojoias Brasileiras anéis de semente de palmeiras do da Amazônia. Fonte: www.falandoemjoias.com. Acesso em: 20 jun. 2011.

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Por exemplo, a semente de Jarina (Phytelephas macrocarpa) é considerada o Marfim da Amazônia 13 . A Semente da Jarina na junção com outras sementes, pedras semipreciosas e até mesmo ao ouro e à prata, passam a agregar novos valores à produção artesanal. Como biojoias, movimentam cerca de U$ 50 milhões por ano com sua exportação. Segundo o Artesão e exportador César Farias o uso das sementes de árvores nativas geram na produção das peças artesanais o caráter de brasilidade, agregando valor aos produtos da região, destacando e instituindo um diferencial do produto no mercado Internacional 14 .

Além dos ciclos sistêmicos de aproveitamento dos insumos e resíduos vegetais, outras iniciativas de processos industriais com aproveitamento de resíduos podem ser apontadas. O exemplo da madeira biosintética desponta como resultado da reciclagem de diversos resíduos industriais (como plástico, fibras vegetais e ou animais) através de um complexo processo de transformação. Assim, no sistema input, como resíduo de outros produtos. Este produto sintético é oferecido no mercado em tábuas, que substituem as de madeiras naturais em diversos aspectos. É também um produto de alta tecnologia, durável, imune a pragas e outras qualidades 15 .

2.2. INSUMOS E RESÍDUOS VEGETAIS

Os resíduos vegetais, para a sociedade humana, são as partes e produtos das vegetações, com possibilidades de serem reutilizadas como adubo natural e como insumo para o artesanato. Destacam-se as flores, folhas, sementes e galhos secos, espalhados ao solo, e troncos danificados por efeito da atuação de insetos e das forças físicas - tempestades e incêndios. Incluem-se os ―insumos‖ – as plantas,

13 As sementes dessa palmeira são consideradas gemas orgânicas raras. Apesar da baixa dureza e baixa densidade, as sementes de Jarina são empregadas na manufatura de biojoias e artefatos. Estas, pelo aspecto de sua cor e brilho, são comparadas ao marfim animal (COSTA et al, 2006).

14 Disponível em: < falandoemjoias.com/tag/sementes/>. Acesso em: 20 jun. 2011.

15 Ambiência Produtos Sustentáveis. Madeira Biosintética Ecoblock. Disponível em:

<http://www.ambiencia.org/site/construcoes-sustentaveis/ecoprodutos/madeira-biosintetica-

ecoblock/>. Acesso em: 20 jun. 2011.

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os frutos, as flores, as fibras e outros produtos do agroextrativismo, conforme Goulart (2004).

Clark (1979) apud Brito e Couto (1980), esclarece que devido à necessidade de uma nomenclatura padrão para componentes de árvores e para facilitar a definição do que é resíduo da exploração florestal, é necessário apresentar um modelo de classificação. Destacam os seguintes termos 16 : árvore completa; touça e raízes; parte aérea da árvore; fuste total; fuste; ponteiro; copa; ramos; folhagem. Relata ainda que o resíduo florestal depende das práticas de exploração florestal.

Quando se utiliza apenas do fuste sem casca, o resíduo pode ser a casca, a copa, touça e raízes, conforme figura 6.

ser a casca, a copa, touça e raízes, conforme figura 6. Fig. 6: Componentes de uma

Fig. 6: Componentes de uma árvore. Fonte: BRITO; COUTO, 1980, p.3.

16 Ver glossário da pesquisa.

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A típica vegetação do Cerrado possui seus troncos tortuosos, de baixo porte, ramos retorcidos, cascas espessas e folhas grossas. Os estudos efetuados por pesquisadores na região do Cerrado consideram que a vegetação nativa apresenta essa característica, devido aos fatores do solo, como o desequilíbrio no teor de micronutrientes, registro do IBAMA (2005).

As folhas e flores estão entre os resíduos vegetais lançadas naturalmente na natureza e os insumos, que possibilitam a utilização destes para produção artesanal. Um dos exemplos interessantes são as flores ―Sempre-viva‖. A Sempre-viva, uma pequena flor nativa do Cerrado de Minas Gerais, não sofre alteração de forma ou cor quando colhida e desidratada, daí seu nome. Mas, além do nome, essa característica vem proporcionando à exploração incorreta e quase levou duas espécies, a ―vargeira‖ e a ―pé-de-ouro‖, próximas da extinção, conforme (PAIM et al,

2001).

Em função da coleta extrativista e predatória, diversas espécies ficaram ameaçadas de extinção, como é o caso da Syngonantus elegans, conhecida como ―Sempre-viva pé-de-ouro‖, que comercialmente é a mais procurada. Houve um aumento do número de pessoas que dependem da renda proveniente da coleta de Sempre-vivas e seu artesanato. Este fato ocorreu devido à diminuição da atividade garimpeira na região de Diamantina e a falta de conhecimento no manejo da coleta das flores. Muitas plantas foram arrancadas inteiras, com o intuito de coletar maior quantidade de plantas em menor espaço de tempo e com menor esforço. Em busca de maior valor econômico, as mesmas foram coletadas antes do amadurecimento das sementes, para manter a coloração branca. Estas atitudes levaram a escassez das plantas, fazendo com que os coletores tivessem que percorrer distâncias maiores, a fim de coletarem mais flores (ROCHA et al 2007, p.2).

Muitos moradores da Comunidade de Macacos, município de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, deixaram o lugarejo. O meio de subsistência, o extrativismo de flores Sempre-viva, chegou ao fim com o decreto do Parque Nacional das Sempre-Vivas, em 2002. A mesma situação ocorreu com os extrativistas da comunidade de Capivari - subdistrito do Serro, com a criação do Parque Estadual do Pico do Itambé. Um decreto, desde 1998, viabiliza a recuperação da área e a manutenção do extrativismo sustentável. Assim, a

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produção de comercialização de Sempre-viva se estabelece aos poucos, garantindo a biodiversidade nas regiões afetadas. Os recursos virão de compensações ambientais e serão aplicados até o ano 2013, prioritariamente na regularização fundiária, conforme relata Reis (2011).

Alguns exemplos de flores Sempre-viva pigmentadas e comercializadas em lojas do Mercado Central de Belo Horizonte, entre outros insumos expostos para escolha dos clientes, conforme figura 7.

expostos para escolha dos clientes, conforme figura 7. Fig. 7: Sempre-vivas e resíduos vegetais, para

Fig. 7: Sempre-vivas e resíduos vegetais, para comercialização - Mercado Central de BH. Fonte: MOURÃO, 2010.

Outros exemplos em desenvolvimento podem contribuir com a inclusão dos resíduos vegetais e outros insumos na produção artesanal. Um deles é o Projeto ―Pólo Veredas‖, que desenvolve a criação de acessórios de algodão tingidos com corantes extraídos de sucatas de ferro, frutas do Cerrado e plantas da região. O projeto tem a participação de 150 artesãs de cinco associações da região, formando uma rede de produção, que inclui o tingimento, a fiação e a tecelagem, conforme Guedes (2011).

O processo começa com a coloração dos fios de algodão na cidade de Uruana de Minas, no Vale do Urucuia. O trabalho é feito com folhas de manga, goiaba, serragens de árvores, casca de cebola e outros. Ao todo, são 18 corantes naturais. Em média, as artesãs gastam meio quilo de casca de cebola para tingir um quilo de linha de algodão e obter um tom amarelado. Cinco quilos de folha de manga são necessários para conseguir uma cor esverdeada. A ferrugem também é usada

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como tonalizante e é produzida pelo contato das sucatas de ferro, água e amônia. Na figura 8, pode-se observar o resultado destas colorações nos fios de algodão 17 . Depois de coloridos, os fios são encaminhados para as associações de artesãos dos municípios de Riachinho, Sagarana (Distrito de Arinos Minas Gerais), Natalândia e Bonfinópolis de Minas para serem transformados em colchas, xales, tapetes e mantas.

serem transformados em colchas, xales, tapetes e mantas. Fig.8: Fios produzidos pelo Projeto ―P o lo

Fig.8: Fios produzidos pelo Projeto ―Polo Veredas‖ Fonte: Agenciasebraedenoticias. Disponível em:

<http://www.agenciasebrae.com.br/noticia/11375223/geral/artesas

-mineiras-buscam-novos-materiais-para-conquistar-clientes/>. Acesso em: 12 mar. 2011

Com intuito de centralizar a comercialização e ampliar a produção, foi criado em 2009, a Central de Comercialização e Artesanatos do Vale do Urucuia. A iniciativa busca atender aos artesãos das cidades da região 18 . Guedes (2011) relata que novos produtos desenvolvidos com matérias-primas naturais, foram demonstrados aos fabricantes de calçados e bolsas, durante o Inspiramais - Salão de Design e Inovação de Componentes, em São Paulo.

17 Agenciasebraedenoticias. Postado em: 28 Jan 2011. Disponível em:

<http://www.agenciasebrae.com.br/noticia/11375223/geral/artesas-mineiras-buscam-novos-

materiais-para-conquistar-clientes/>. Acesso em: 12 mar. 2011.

18 farolcomunitário.com.br.Triangulo-Minas:Mutirão das Fiandeiras. Disponível em: <http://triangulo- minas.blogspot.com/2010_05_01_archive.html>. Acesso em: 24 jun. 2011.

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2.3. ESPÉCIES VEGETAIS DO CERRADO NA PRODUÇÃO ARTESANAL

O Cerrado brasileiro possui uma imensa riqueza em espécies vegetais.

Atualmente, conforme Ávidos e Ferreira (2003), existem mais de 58 espécies de frutas nativas dos cerrados conhecidas e utilizadas pela população da região e de outros estados. Não se pretende nesta proposta detalhar a opulência deste sistema, embora seja encantador o convívio com este bioma. Foram registradas algumas espécies já utilizadas na produção artesanal, identificado seus nomes científicos e

populares, que são brevemente apresentadas a seguir.

A espécie buriti se destaca entre as espécies mais utilizadas tanto no

Cerrado, com em outros biomas brasileiros. Identificado como Mauritia flexuosa L. f.

esta espécie possui íntima relação com a água, que atua na dispersão de seus frutos e auxilia na quebra da dormência das sementes. É uma espécie importante para a economia brasileira, 66,2% do valor da produção nacional são de fibras de buriti, segundo dados (IBGE, 2007).

No bioma Cerrado é a espécie que caracteriza as veredas, marcante fitofisionomia da região, ocorrendo também em matas de galeria e ciliares, podendo formar densos buritizais. Para além dos domínios do Cerrado, corre em toda a Amazônia e Pantanal, sobre solos mal drenados, em áreas de baixa altitude até 1000m. É considerada a palmeira mais abundante do país (LORENZI, 2004).

Por tanto, o buriti é uma das espécies mais populares no Brasil. As palmeiras de buritis adornam a paisagem do Cerrado, emolduram as veredas e são fontes de inspirações para a literatura, a poesia, a música e as artes visuais. O fruto do buriti é um alimento rico em vitaminas e de sabor peculiar. As folhas geram fibras usadas no artesanato, tais como para fabricação de bolsas, tapetes, toalhas de mesa, brinquedos e bijuterias. Os talos das folhas servem para a fabricação de móveis. Além de serem leves, as mobílias confeccionadas com os talos e troncos dos buritis, são resistentes e agradáveis. As folhas jovens produzem uma fibra fina, a ―seda‖ do

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buriti, usada na fabricação de peças feitas com o Capim-dourado. Da palmeira do buriti, se aproveita tudo 19 .

Outra espécie popular é o Jacarandá. As cascas das sementes são utilizadas na produção de biojoias e em adornos em geral. Porém, o mesmo nome popular é designado a diversas espécies. Quanto com gênero Jacarandá quanto outros, como Dalbergia miscolobium, chamada popularmente de Jacarandá do Cerrado. São nomes comuns a espécies diversas de duas famílias, Bignoniaceae e Fabaceae. O Cerrado possui várias espécies com denominação de Jacarandá, ocupando fitofisionomias distintas (RIBEIRO E WALTER, 1998 apud RIBEIRO, 2005).

Como exemplos no Cerradão são encontrados o Dalbergia miscolobium, ou melhor, ―Jacarandá do cerrado‖ e Machaerium opacum – ―Jacarandá muchiba‖. No Cerrado sentido restrito 20 , o Machaerium acutifolium jacarandá e Jacaranda decurrens; e em áreas de transição Mata atlântica/Cerrado (matas) é encontrada a espécie Jacaranda cuspidifolia, que apresenta fruto bem semelhante à espécie exótica J. mimosaefolia, conforme MMA (2007).

O Guatambu ou Colher-de-vaqueiro (Aspidosperma parviflorum) é também muito usado em adornos pessoais ou em objetos de decoração. O Guatambu está presente na mata de galeria e na mata ciliar de acordo com Ribeiro e Walter, (1998) apud Ribeiro, (2005); alguns autores ainda citam Cerradão e Cerrado Sentido Restrito.

O Bate-caixa (Palicourea rigida kunth) é uma espécie de arbusto, e suas sementes são utilizadas em biojoias. Duas plantas apresentam o nome popular de Bate-caixa; Salvertia convallariaeodora e Palicourea rígida. Para complicar a identificação na produção artesanal, ambas estão presentes no Cerrado; a primeira aparece na literatura como presente em Cerradão 21 e Cerrado Sentido Restrito e a

19 ISPN - ispn.org.br. O buriti a palmeira de mil e uma utilidades. Disponível em:

<http://www.ispn.org.br/o-buriti-a-palmeira-de-mil-e-uma-utilidades/>. Acesso em: 15 jan. 2010.

20 Cerrado sentido restrito caracteriza-se pela presença de árvores baixas, inclinadas, tortuosas, com ramificações irregulares e retorcidas, e geralmente com evidências de queimadas.

21 Cerradão é a uma formação florestal do bioma Cerrado com características esclerofilas (grande ocorrência de órgãos vegetais rijos, principalmente folhas) e xeromórficas (com características como folhas reduzidas, suculência, pilosidade densa ou com cutícula grossa que permitem conservar água e, portanto, suportar condições de seca).

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segunda, presente em Cerrado Sentido Restrito e Campo Sujo 22 , conforme Silva Junior, (2005). A espécie, Palicourea crocea, apresenta fruto semelhante à imagem do resíduo Bate-caixa, porém apresentando cinco pontas, descreve Barbosa (2008). Através dessa semelhança foi deduzido que o Bate-caixa é possivelmente da espécie Palicourea rígida. O fruto do Bate-caixa é um dos produtos para confecção de artesanato, encontrados nas lojas de material para artesanato, no Mercado Central de Belo Horizonte/Minas Gerais.

Pau Terra do Campo (Qualea grandiflora), a casca e sementes do Tingui (Magonia pubescens) e sementes de Jatobá (Hymenaea courbaril L.), são comercializados fora do prazo para consumo e comercialização, nas lojas de material para produção artesanal, no Mercado Central de Belo Horizonte.

Algumas espécies foram identificadas em diversas áreas do vale do Urucuia, conforme figura 9. Estes materiais foram coletados em 2009, durante o Curso de Manejo e Beneficiamento dos Frutos do Cerrado, em Bonfinópolis de Minas, com a colaboração dos produtores rurais e instituições parceiras (IEF, ICMBio e EMATER).

rurais e instituições parceiras (IEF, ICMBio e EMATER). Fig. 9: Insumos e resíduos vegetais coletados no

Fig. 9: Insumos e resíduos vegetais coletados no Vale do Urucuia Fonte: MOURÃO, 2010.

22 Tipo de Cerrado formado de vegetação com fisionomia herbácea e arbustiva com arbustos e subarbustos espaçados entre si, geralmente estão sobre solos mais rasos que podem apresentar pequenos trechos de rochas ou solos mais profundos, mas pouco férteis.

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A Empresa Flor do Cerrado é um dos exemplos de organização para produção artesanal com resíduos e insumos do Cerrado. Localizada na cidade de Samambaia, no Distrito Federal Brasileiro, a empresa utiliza folhas de diversas espécies do Cerrado para a produção artesanal.

Com apoio do designer Renato Imbroisi e do SEBRAE, as artesãs que atuaram quando a empresa ainda era um pequeno grupo, aplicaram a técnica de esqueletização das folhas, transformando folhas em flores, arranjos decorativos e vestuário feminino, conforme figura 10.

Estas flores são confeccionadas com folhas da árvore moeda (nome popular) após processo de esqueletização 23 e pigmentação. A Flor do Cerrado não esclarece qual o nome científico da folha moeda. Apenas declara que a coleta do material é realizada de forma controlada e com consciência ecológica.

realizada de forma controlada e com consciência ecológica. Fig.10: Flor de folhas pigmentadas da Flor do

Fig.10: Flor de folhas pigmentadas da Flor do Cerrado. Fonte: GOUTHIER, M. SEBRAE.notícia.

<www.agenciasebrae.com.br/noticia.kmf?canal=40&cod=4354939&

indice=20&^^>. Acesso em : 27 out .2010.

23 Processo de cozimento das folhas que resulta na extração de elementos da epiderme da mesma, descobrindo os tecidos vasculares (xilema e floema).

50

2.3.1. Espécies nativas e exóticas em produção artesanal

A empresa Flor do Cerrado realizou um mapeamento de doze espécies do

Cerrado de maior uso no artesanato na região do Distrito Federal e no entorno. Este mapeamento ocorreu com a colaboração das 20 famílias que atuam no

empreendimento. Conforme Mamede (2010), o estudo identificou espécies como Pata-de-vaca, Cedro do cerrado, Agave Palito e Agave Estrela (nomes populares). Foi descrito a importância do planejamento da produção para poupar espécies mais raras, como a folha moeda, que apresenta textura delicada semelhante à renda.

No entanto, a árvore da Pata-de-vaca, Casco-de-vaca ou Unha-de-vaca (Bauhinia variegata L.) não é uma espécie natural do Cerrado. Esta espécie exótica veio da China, Índia ou Birmânia e se adaptou ao solo do sudeste brasileiro, conforme Lorenzi; Abreu Matos (2002). A mesma, além da grande utilização no paisagismo, é muito usada e estudada em relação a suas possíveis propriedades medicinais contra a diabetes e outras doenças.

Conforme Carvalho (1994), O Cedro do Cerrado (Cedrela fissilis Vell) é natural das Américas, encontrado deste o Panamá e Costa Rica até a Argentina; no Brasil está presente na maioria dos estados e sua madeira é considerada de alta qualidade. Atualmente, algumas regiões brasileiras perderam consideráveis quantidades exemplares.

A aparência do Agave-palito é peculiar, originária do México, suas folhas

estreitas e compridas têm borda branca desfiada com aspecto ―cabeludo‖, podendo atingir até 50 cm de altura. Souza (2004) relata que os primeiros pés de Agave palito (Agave x hybrid) foram trazidos pelo Agrônomo português J. Viana Junior. Aqui, no Brasil, chegaram às espécies que ele cultivava, tais como, a Agave Sisalana e a Agave Fourcroydes, no ano de 1911. O agave foi introduzido no Brasil para produção de cordas, cabos, correias de transmissão de forças, chapéus, espanadores, tapetes, esteirinhas, mantas para selas, colchões e redes de malha.

O Cerrado e outros biomas do Brasil apresentam espécies de algodão, a

exemplo o Gossypium mustelinium, mas espécies exóticas representam 98% da produção mundial (Gossypium hirsutum e G. barbadense). Essas espécies exóticas

também são muito cultivadas em solo brasileiro, conforme Pizzela (2010).

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A ―Taboa‖ (Thypha sp) é uma planta originária da América do Sul, encontrada em margens de ambientes lênticos 24 , como lagoas. É encontrado em restingas e a espécie Typha dominguensis em áreas alagadas do Cerrado, chamadas brejos (SEMATEC, 1999). O trabalho artesanal com a Taboa é antigo. Bitencourtt (2009) relata que as populações interioranas tradicionalmente utilizam esta planta para a produção de paina para travesseiros e colchões. Sua fibra vegetal é usada na criação de uma grande variedade de cestos, bolsas, chapéus, chinelos, balaios, peneiras e outros objetos. Os mesmos são destinados aos mais diversos fins, como utensílios domésticos, enfeites e arranjos, uso e adorno pessoal e utensílios para a agricultura e criação de animais.

No processo de produção artesanal com a Taboa está a identificação e seleção da matéria prima, técnica de retirada das folhas, processo de secagem, utilização e preparação das fibras da Taboa, técnica de trançados, etc., conforme Bitencourtt (2009). Sua extração muitas vezes acontece de forma incorreta, alimentando o desmatamento. Atualmente, existem algumas iniciativas de resgate e reestruturação dos moldes de extração e produção artesanal. Um deles acontece desde 2008, em parceria com o SEBRAE, no Distrito de Maracangalha, Município de São Sebastião do Passé - Bahia. Neste município, foi implantado o Núcleo Produtivo de Artesanato em Taboa, iniciado na capacitação técnica dos artesãos, com várias parcerias. Na questão ambiental, algumas diretrizes de projeto podem orientar os artesãos para as boas práticas e manejo sustentável.

2.3.2. Manejo, conservação e comercialização de insumos vegetais

Com o objetivo de garantir a identidade e a qualidade sementes, estacas ou demais propágulos 25 que são produzidos, comercializados e utilizados em todo o território nacional, foi estabelecido o Sistema Nacional de Sementes e Mudas

24 Ambientes com pouca movimentação da fauna e flora. 25 Propágulos são estruturas constituídas basicamente por células meristemáticas que se desprendem de uma planta adulta para dar origem a uma nova planta, geneticamente idêntica à planta de origem.

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(SNSM) 26 . Este sistema prevê várias categorias de Área de Coleta de Sementes (ACS), cuja valorização das sementes produzidas em áreas específicas são aumentas à medida que se intensifica o controle genético da população vegetal (natural ou plantada), formada por espécies nativas ou exóticas, conforme Scremin- Dias et al, (2006).

Entre as dificuldades de utilização de insumos vegetais são evidentes as questões de manejo de sementes. Um dos exemplos é citado por Menezes & Muxfeldt (2005), que observaram a coleta de sementes em Rio Branco Acre. Apesar do alto percentual de utilização de Jarina (Phytelephas macrocarpa), ―Mulungu‖ (Ormosia coccínea) e ―Sororoca‖ (Heliconia metallica) no artesanato, estas espécies se apresentaram como de difíceis obtenções, pois a escolha de sementes se faz uma a uma. As espécies arbóreas como Jatobá, Sibipiruna, Olho- de-boi, Mulungu e outras, são coletadas no solo ou diretamente da árvore.

Outro fator importante está no armazenamento de sementes. Nogueira (2008) alerta que fungos, bactérias e insetos são problemas que podem comprometer as peças artesanais. Por isso o artesão deve buscar informações sobre o tipo de tratamento das sementes. O tratamento quando realizado reduz o tempo de deterioração das sementes. O armazenamento inadequado pode causar a ação de insetos, resultando na deterioração das sementes.

Conforme Felix (2007), a coleta de sementes para biojoias é realizada geralmente, por pessoas que também executam a conservação das mesmas ou que confeccionam as peças artesanais. Não há uma uniformidade no processo de coleta, que pode ocorrer tanto por meio de catação manual no solo da vegetação após a queda natural, quanto com equipamentos para coleta nas árvores. De acordo com o autor, sementes coletadas maduras, apresentam maior viabilidade do que as sementes coletadas verdes. As verdes, não demonstram resistência ao armazenamento, além de apresentar baixa viabilidade ocasionada por vários fatores, entre eles a formação insuficiente das substâncias de reserva, ressalta o autor.

26 A elaboração foi coordenada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) amparado pela Lei nº 10.711, de 05 de agosto de 2003.

53

Quanto mais seca a semente estiver, melhor para as atividades artesanais, contrario as características para germinação. Ao coletar as sementes, folhas e galhos, o extrativista deve respeitar os limites da coleta do material. O ideal é deixar sempre um pouco das sementes entorno da espécie para germinação, adubo da terra e alimentação de espécies da fauna.

Valle (2008) realizou um levantamento de comercialização de artesanato com sementes em alguns pontos comerciais do Rio de Janeiro, descrevendo o resultado:

Durante as visitas, foi observado que em 100% dos pontos de venda as espécies foram identificadas somente com o nome vulgar, não incluindo o nome científico. Os maiores obstáculos para a classificação foram os erros grosseiros referentes à confusão e trocas de nomes devido à falta de conhecimento a respeito dos produtos a venda e similaridades com outras espécies. Não há critério de identificação que possa ser adotado, as sementes são revendidas com outros nomes, principalmente no caso da leucena que quase sempre foi tratada como semente de melancia e o Tento- Carolina, tratado como Pau-Brasil e/ou Sibipiruna. A variedade de nomes também criou alguns conflitos para o resultado final, a Jarina apareceu como Marfim-Vegetal e/ou Tágua, o Jequitiri como Olho- de-Pombo e o Aguaí como Chapéu-de-Napoleão. Outro aspecto importante foi que as sementes para fins artesanais vêm geralmente modificadas, perdendo suas características morfológicas naturais, como por exemplo, o buriti quando polido fica bastante semelhante à jarina, dificultando mais ainda a identificação. Soma-se a isso a falta de livros específicos como manuais de classificação de sementes (VALLE, 2008, p.12).

Valle (2008) descreve que conforme a legislação vigente sobre recursos

genéticos, a exportação de material reprodutivo é sujeito a controle rigoroso e as peças artesanais com sementes. As sementes podem ser comercializadas para a produção artesanal, somente quando não apresentam mais capacidade de germinar.

Os insumos artesanais devem ser coletos na época certa, respeitando o período de

germinação. A conservação deve ser em vidros transparentes, com tampas que impeçam a penetração de fungos e insetos.

Em busca de manter as qualidades das sementes para a produção artesanal

e comercialização, os extrativistas devem conhecer algumas práticas de

conservação. Para a produção de biojoias, soluções contendo óleos essenciais são utilizadas como proteção e longevidade das sementes da Amazônia, conforme

Silveira (2009).

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Menezes (2005) ver relata que o abastecimento do mercado com sementes muitas vezes não segue uma normatização. Expõe que a maioria das espécies fornecidas aos beneficiadores ou artesãos não tem origem conhecida. A falta de conhecimento sobre as espécies não garante a identidade do artesanato. Este fato descaracteriza o produto artesanal que, com todos os atributos, não representa o território. Portanto, é possível estabelecer métodos sustentáveis entre os sistemas de manejo e beneficiamento, como de produção e comercialização destes insumos.

2.4. PRODUÇÃO ARTESANAL, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE

2.4.1. Produção Artesanal

O artesanato é toda atividade que resulte em objetos e artefatos acabados,

feitos manualmente ou com a utilização de meios tradicionais ou rudimentares, com habilidade, destreza, qualidade e criatividade, segundo Conselho Mundial de Artesanato apud (Emater. MG, 2010). Entretanto, não distingue o artesão do artista.

Está relacionado aos recursos naturais existentes de uma determinada região e decorre da relação entre o homem e o meio, como atividade social e econômica.

A arte do trabalho artesanal é transferida pelas gerações: do trançado da

palha de carnaúba aos bordados, das esculturas em cerâmica às bonecas de palha, dos objetos de madeira aos doces e geleias, e tantos outros com referência à cultura e tradições sociais, conforme Lima (2005).

O artesanato representa uma das atividades econômicas sistema de vida dos

moradores da região, manifestado em múltiplos padrões e variedades técnicas culturais. A Constituição brasileira promulgada em 1988 refere-se à cultura no artigo 216 nos seguintes termos: - "Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira‖.

De acordo com designer Barroso Neto (2001, p.3), a definição de artesanato torna-se necessária para ajustar os limites de intervenção nas ações propostas por

55

programas ou projetos com o foco no artesanato. O autor define artesanato como ―toda atividade produtiva de objetos e artefatos realizados manualmente, ou com a utilização de meios tradicionais ou rudimentares, com habilidade, destreza, apuro técnico, engenho e arte‖.

No artesanato as matérias primas podem definir os diferentes ofícios, pois delas derivam práticas profissionais distintas, com suas respectivas técnicas, ferramentas, produtos e destinações. Conforme Barroso Neto as principais matérias primas utilizadas no Brasil são: barro, couro, fibras, fios, madeira, metais, pedras, vidro e alguns outros.

Do quadro apresentado por Barroso Neto, figura 11, alguns materiais são descritos pela relação com a pesquisa. Como por exemplo, o trabalho de trançar fibras vegetais é um legado do povo indígena brasileiro, resultando em produtos com fins utilitários, lúdicos e decorativos. As principais fibras vegetais utilizadas no Brasil são fibras da taboa, do buriti, do coco, da carnaúba, do babaçu, o sisal, a juta, o junco, o apuí, os cipós ou trepadeiras, o bambu, o vime, a cana-da-índia, cascas e entrecascas, palha de milho, folha de bananeiras, etc.

e entrecascas, palha de milho, folha de bananeiras, etc. Fig.11: Quadro Relação entre matérias prima e

Fig.11: Quadro Relação entre matérias prima e ofícios. Fonte: BARROSO NETO, E. - Apostila ―O que é o artesanato1‖p.11.

56

As fibras vegetais comumente são utilizadas na confecção de cestarias e chapéus, tapetes e esteiras, móveis e objetos de decoração. Entre os principais processos produtivos estão à extração das fibras, seleção, às vezes cozimento, secagem, trama/entrelaçamento e acabamento. Quanto aos fios, estes podem ser de origem animal ou vegetal. Os de origem vegetal, temos o algodão, linho, juta e pita. Dentre os produtos feitos com fios encontramos a tecelagem (redes, mantas, etc.), rendas e crochês feitos a partir do fio, bordados sobre tecido, adornos, bonecas e brinquedos.

A madeira está entre as matérias primas com mais ampla utilização para fabricação artesanal, seja de forma isolada ou combinando com outros materiais. É muito comum à utilização de madeiras locais, como acontece com o Buriti no Cerrado. Dele se produz brinquedos, utensílios, móveis leves, e uma infinidade de outros produtos. Na produção artesanal em madeira estão as esculturas e santerias, movelaria e objetos de decoração (incluindo brinquedos, pequenos objetos de madeira e marchetaria), luteria, construções e carpintaria naval.

A classificação ―outros‖, do quadro ―Matérias primas e ofícios‖ de Barroso Neto (2001), indicam os produtos de material único ou mesclados, de borrachas, ceras e parafinas, materiais reciclados, materiais de procedência animal (penas, chifres, etc.), etc. São artefatos produzidos com os mais diferentes materiais, normalmente originados como resposta às necessidades e carências do homem. Comumente apresentam um alto grau de inovação e surpresa, que conferem aos produtos um alto grau diferencial.

2.4.2. Inovação e sustentabilidade no contexto da produção artesanal

A ênfase do design, dentre outros atributos, se manifesta através da funcionalidade e estilo. Ambas, associadas ao bom gosto e a qualidade, estabeleceram a evolução dos materiais e processos, através das fases de um serviço ou produto.

Krucken (2009) descreve que os valores que representam as dimensões para avaliação de produtos e serviços são funcionais ou utilitários, emocional, ambiental, simbólico e cultural, social e econômico. Para tanto, é importante considerar

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aspectos qualitativos, elementos históricos, ambientais, culturais e sociais incorporados desde o processo de produção ao consumidor. Inovar os métodos de identificar os valores inclusos na identidade, buscando a transparência que:

represente a origem, conte a história, informe sobre o uso, satisfaça a necessidade real e colabore com o desenvolvimento socioeconômico global.

Contextualiza-se inovação como principal fator de competitividade. Engler (2009) esclarece que esta característica deve manter-se constante. Ocorre por meio da sistematização de iniciativas, visando à vinculação entre estratégias de negócio e oportunidades.

A inovação é a invenção que deu certo, quer dizer, aquela que foi produzida e aceita no mercado, vendeu, e, portanto, fez diferença influenciou ou facilitou a vida de alguém e gerou riqueza. Mas, hoje em dia, para gerar riqueza é necessário que ela seja sustentável, que seja capaz de reproduzir de forma social, ecológica e financeiramente correta (ENGLER, 2009, p.66).

A inovação surge também através das economias solidárias. O sistema agroextrativista, o trabalho compartilhado em cestarias e rendas artesanais, a produção e comercialização de biscoitos, doces e tantas outras atividades, são modelos inseridos ao contexto associativo. Tem como perspectiva a construção de um ambiente ético, socialmente justo e sustentável, excluindo o assistencialismo.

Para promover a sustentabilidade os fatores sociais, ambientais e econômicos são importantes. Averiguar como os materiais são extraídos e o processo até o descarte envolve os sistemas amplamente. Bistagnino (2009) relata que o desafio é tornar sustentável a vida cotidiana. É necessária aprendizagem social, mudança de comportamentos e compartilhar com novos estilos de vida. Repensar e inovar, o que não significa necessariamente novas tecnologias. Inovar é ver sob outros ângulos, perspectivas diferentes. O design sistêmico tem por finalidade desenvolver produtos e serviços com valor adjunto que contribua para a sustentabilidade econômica socioambiental.

Das referências citadas, não houve o objetivo de realizar uma revisão bibliográfica extensa, mas abordar somente alguns autores selecionados, priorizando atender ao tema proposto.

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2.5. ABORDAGENS E CONCEITOS RELACIONADOS AO TERRITÓRIO

O território, muito mais que as dimensões de latitude e longitude, é constituído da tradição do pensamento geográfico. Valverde (2004) relata que há muitos anos os conceitos se modificaram. Descreve que, desde as proposições de Ratzel, inspiradas na ecologia, no romantismo alemão e no imperialismo do final do século XIX, esse conceito tem sido utilizado para conferir uma dimensão política de mobilidade e de competição ao contexto de um todo, em tempo e espaço.

Nas duas últimas décadas, o conceito de território se ampliou, adquirindo um sentido diferente, para abordar uma infinidade de questões pertinentes ao controle físico ou simbólico de determinada área. Valverde (2004) esclarece que o olhar geográfico atualmente, sobre as fronteiras que separam os homens do século XXI, poderá revelar a pluralidade das suas diferenças e a diversidade de suas formas de associação entre pessoas e espaços. O fato é estas mudanças não foram ao acaso, o estudo dos territórios voltou a ser valorizado a partir dos anos 90, por diversas razões. Entre elas, o fim do mundo bipolarizado dos pontos de vista militar e econômico, que geraram novos acordos federativos.

O território tem que ser entendido como o ―território usado‖, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade 27 local.

O termo identidade pode ser considerado como ―algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo 'imaginário' ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre em 'processo', sempre 'sendo formada (HALL, 2005. p.38).

27 Hall (2005. p.08) ressalta a dificuldade de conceituar identidade, uma vez que se trata de um termo "demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova"Para Canclini (1997, p. 149), "ao se tornar um relato que reconstruímos incessantemente, que construímos com os outros, a identidade se torna também uma coprodução". O reconhecimento do caráter multicultural de grande parte das sociedades leva à constatação da pluralidade de identidades culturais que tomam parte na constituição histórico-social da cidadania, nas mais diversas localidades. Nesse sentido, autores como Hall (1997), Featherstone (1997), Canen (1995; 1997b), Candau (1997), Coutinho (1996) e Grant (1997) alertam para a necessidade do reconhecimento da fragmentação de uma noção de identidade fixa e bem localizada, enfatizando a pulverização das identidades culturais de classe, gênero, etnia, raça, padrões culturais e nacionalidade a serem levadas em consideração em práticas pedagógico-curriculares, voltadas à construção de uma sociedade democrática e ao desenvolvimento da cidadania crítica e participativa (CANEN, 2000).

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A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território

é

o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais

e

do exercício da vida, de todos os seres humanos. Santos et al, (1994) esclarece:

O território em si não é uma categoria de análise em disciplinas históricas, como a Geografia. É o território usado que é uma categoria de análise. Aliás, a própria ideia de nação, e depois a ideia de Estado Nacional, decorrem dessa relação tornada profunda, porque um faz o outro, à maneira daquela célebre frase de Winston Churchill: ―primeiro fazemos nossas casas, depois nossas casas nos fazem‖. Assim é o território que ajuda a fabricar a nação, para que a nação depois o afeiçoe (SANTOS et al, 1994.p.26).

Eduardo (2008) descreve que a primeira impressão que o território nos fornece é que ele é estático e imutável. Entretanto, suas intrínsecas contradições é que nutrem de possibilidades seu devir. O conceito de território não pode ser pensado de modo estanque, mas como produto inacabável, oriundo das contradições sociais da vida cotidiana.

Conforme Krucken (2009, p.32), o conceito de Território aproxima-se da expressão francesa terroir, que é traduzida para o português com ―produto da sociobiodiversidade‖. Esta definição abrange a importância de incluir o produto com parte de uma cadeia de valor, destinada à promoção da qualidade de vida da comunidade que o desenvolve e o meio ambiente que o mesmo está inserido. Este processo envolve subtrair de produtos e serviços, aspectos qualitativos, elementos históricos, ambientais, culturais e sociais, incorporados desde o processo de produção ao consumidor. As linhas de apoio do design para valorização dos produtos locais são consideradas a promoção da qualidade dos produtos, a comunicação entre consumidores e produtores e o desenvolvimento de arranjos produtivos e cadeias de valor sustentáveis.

Os produtos locais são manifestações culturais fortemente relacionadas com o território e a comunidade que os gerou. Esses produtos são os resultados de uma rede, tecida ao longo do tempo, que envolve recursos da biodiversidade, modos tradicionais de produção, costumes e também hábitos de consumo. A condição de produto ligado ao território e à sociedade nos quais surgiu é representada no conceito de terroir, que aprofundaremos adiante (KRUCKEN, 2009 p.17).

Um bom exemplo nacional é o Café do Cerrado. Em 2005 foi registrado pelo INPI 075/2000 Instituto Nacional da Propriedade Industrial (que estabelece as

60

condições de para registro das indicações geográficas), aos principais municípios produtores de café da região de Araguari, Indianópolis, Monte Carmelo, Patrocínio, São Gotardo, Coromandel, Araxá e Patos de Minas. Aliás, oficialmente, foi à primeira região demarcada de café do Brasil e a primeira identificação de café do mundo, conforme informação do Conselho das Associações de Cafeicultores do Cerrado, conforme Krucken (2009). O certificado de procedência atesta apenas o local geográfico da produção. Em 2011, 150 mil de dois milhões de sacas comercializadas no sistema, contam com esta certificação 28 .

Os aspectos da globalização, possibilitando que produtos de diversas áreas do planeta transitarem e se estabeleçam em áreas longínquas de suas origens, desconfiguram os valores culturais originais. A produção em rede, favorecendo as potencialidades da comunidade, poderá fortalecer a economia local e manter as características na região no produto. ―O desenvolvimento de alianças e redes, bem como a interação de ações do território, são essenciais para fortalecer a competitividade local e a valorização de produtos e serviços, equilibrando tradição e inovação‖ (KRUCKEN, 2009, p.37). A questão do território também é citada por Salgado.

A identidade da população com o seu território é peça fundamental na definição e estruturação do desenvolvimento territorial destinado a este. Em tal grau, a indefinição nesta pode provocar a indefinição na própria ideia de território, levando a uma proposta equivocada de desenvolvimento. Consequentemente, as inovações técnico-científicas provenientes deste,

realizadas em descompasso com o adensamento teórico-cultural local, não teria eficácia na mudança junto aos repertórios de habilidades e, tão pouco, junto às organizações e instituições sociais presentes no território. Portanto, a proposta de desenvolvimento territorial se volta a um ideal teoricamente embasado, mas sem uma aplicação prática das melhorias idealizadas (SALGADO, 2010, p.86).

Desterritorialização e desterritorialidade são conceitos que contribuem no sentido de abordar o conteúdo dinâmico e histórico (político, econômico e cultural) das atividades artesanais. Assim, os esforços na identificação dos fatores de sua produção integram a concepção do território, na historicidade dos condicionantes sociais. Um território tem seu suporte no passado, tem um presente, mas também está sempre por acontecer.

28 Portal do agronegócio.com.br. Disponível em:

<http://www.portaldoagronegocio.com.br/conteudo.php?id=4312>. Acesso em: 20 mai. 2011.

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CAPÍTULO 3

PROCEDIMENTOS E MÉTODOS

Sertão, - se diz -, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem.”

Guimarães Rosa

Parte-se do pressuposto que a grande biodiversidade vegetal do bioma Cerrado possa fornecer resíduos vegetais viáveis ao uso no artesanato, sem comprometer a integridade ecológica desse ecossistema e agregar os valores culturais e ambientais da região ao produto.

As

perguntas

investigação foram:

estabelecidas

e

respondidas

durante

o

processo

de

a) Quais são os resíduos vegetais compatíveis com a produção artesanal no Cerrado Mineiro?

b) Em que modo o design pode contribuir para a valorização destes recursos, de forma sustentável?

Visando responder a estas questões foi elaborado um planejamento para o desenvolvimento da pesquisa, visando responder a essas questões acima, seguindo alguns critérios de classificação:

62

a) Quanto à natureza, a pesquisa se estabelece como aplicada, que ―objetiva gerar conhecimentos para aplicação prática e dirigidos à solução de problemas específicos.‖ (SILVA e MENEZES, 2005, p.20).

b) Do ponto de vista da abordagem do problema, esta pesquisa é qualitativa, fundamentada no design sistêmico, havendo interpretação de fenômenos e atribuição de significados, elementos básicos desse tipo de abordagem.

c) O método de investigação adotado foi o estudo de caso, fundamentado em considerações metodológicas apresentadas por Ludcke e André (1986) e Yin (1988).

Conforme destaca Yin (2005, p.140): ―explicar um fenômeno significa estipular um conjunto de elos causais em relação a ele‖. Sob esta perspectiva, o autor destaca a natureza interativa da construção de explanações no estudo de caso: a explanação final é resultado de uma série de interações e representa o refinamento de um conjunto de idéias. O estudo de caso pode ser compreendido como:

Uma pesquisa científica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos; enfrenta uma situação tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados e, como

resultado, baseia-se em várias fontes de evidência (

beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições

) e

teóricas para conduzir a coleta e análise dos dados (YIN, 2005, p.32-33).

Para se estruturar um estudo de caso, segundo Ludke e André (1986), são necessárias algumas características:

a) visão descoberta, na medida em que podem surgir, em qualquer altura, novos elementos e aspectos importantes para a investigação, além dos pressupostos do enquadramento teórico inicial;

b) enfatizam a interpretação em contexto, pois todo o estudo desta natureza tem que ter em conta as características da organização, o meio social em que estão inseridos, os recursos materiais e humanos, entre outros aspectos;

c) retratam a realidade de forma completa e profunda;

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e) permitem generalizações naturalistas;

f) procuram representar as diferentes perspectivas presentes numa situação social;

g) utilizam uma linguagem e uma forma mais acessível do que os outros métodos de investigação.

O estudo de caso foi conduzido a partir de observação participante. Conforme Yin (2005, p. 121), ―a observação participante é uma modalidade especial de observação na qual o pesquisador não é apenas um observador passivo. Em vez disso, o pesquisador assume uma variedade de funções dentro de um estudo de caso e pode, de fato, participar dos eventos que estão sendo estudados‖. O

observador participante, como destaca Becker (1994:47),

sua participação na vida cotidiana do grupo ou organização que estuda. Ele observa

dados através de

coleta

as pessoas que está estudando para ver as situações com que se deparam normalmente e como se comportam diante delas. Entabula conversação com alguns ou com todos os participantes desta situação e descobre as interpretações que eles têm sobre os acontecimentos que observou‖.

Segundo Lüdke & André (1986, p.26) a ―observação ocupa um lugar privilegiado nas novas abordagens de pesquisa e possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado‖. As mesmas autoras salientam que as técnicas de observação são extremamente úteis para descobrir aspectos novos de um problema. Nas observações das atividades artesanais adota- se a observação participante, que segundo (MONTENEGRO, 2008) apud (LÜDKE & ANDRÉ, 1986. p.183), é uma ―estratégia de campo que combina simultaneamente a análise documental, a entrevista de respondentes e informantes, a participação e a observação direta e a introspecção‖.

No sentido de delimitar a análise, além do recorte no território mineiro, será realizado um estudo específico para o Vale do Urucuia, próximo ao Parque Nacional Grande Sertão Veredas - Município de Chapada Gaúcha.

Para execução da proposta de catálogo, serão utilizadas técnicas e baseadas em Krucken (2009). A pesquisa buscará abstrair de produtos e serviços aspectos qualitativos, elementos históricos, ambientais, culturais e sociais incorporados desde o processo de produção às possibilidades de consumo. Krucken, op.cit., descreve

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que para os consumidores identificarem a origem do produto é necessário que estas qualidades estejam evidenciadas por meio dos marcadores de identidade. ―Esta tarefa de ―tradução‖ ou ―mediação‖ consiste no desenvolvimento de uma interface de entendimento comum para produtores e consumidores.‖ Em síntese, as linhas de apoio do design para valorização dos produtos locais são consideradas a promoção da qualidade dos produtos, a comunicação entre consumidores e produtores e o desenvolvimento de arranjos produtivos e cadeias de valor sustentáveis.

Devido à natureza do objeto de estudo e ao modo de investigação da pesquisa, adotou-se uma perspectiva multidisciplinar na condução da pesquisa, priorizando-se a perspectiva do design e envolvendo conhecimento de áreas relacionadas a Ciências Sociais e Biológicas.

A estrutura da pesquisa foi estabelecida, sinteticamente, em três etapas: a primeira busca atender aos conteúdos da revisão bibliográfica; a segunda executa o estudo de caso e práticas junto às comunidades e a terceira realiza a dissertação e a proposta de catálogo de espécies vegetais para a produção artesanal.

Na primeira etapa, a pesquisa buscou as análises e resultados de investigações de outros profissionais, além da bibliografia impressa e digital. O projeto executou o levantamento das perspectivas de utilização dos resíduos e insumos, das espécies vegetais da região escolhida; além da seleção e a observação das técnicas artesanais desenvolvidas.

Em seguida, foi documentado o ambiente, considerando a percepção e sensibilização ambiental, para estimular aos produtores a conhecerem melhor o território no qual estão inseridos. Registraram-se outras espécies florísticas que possam ser utilizadas no projeto e na proposta de catálogo. Os períodos programados para as investigações de campo sofreram adiamentos, devido às intempéries (condições climáticas) que impossibilitaram acesso às regiões impactadas.

O esquema apresenta as etapas da pesquisa, conforme figura 12. Várias atividades ocorrem simultaneamente, facilitando o desenvolvimento do cronograma nas etapas da pesquisa. Foi compreendido que existem tópicos que se interligavam, porém o objetivo da pesquisa deveria ser mantido.

65

65 Fig.12: Sistemas do desenvolvimento da pesquisa - Relatório Parcial da Pesquisa. Fonte MOURÃO, 2010. Realizou-se

Fig.12: Sistemas do desenvolvimento da pesquisa - Relatório Parcial da Pesquisa. Fonte MOURÃO, 2010.

Realizou-se um levantamento do contexto social e ambiental, em Janeiro/2010, em parceria com o ―Projeto de Implantação de Unidades de Beneficiamento e Comércio de Produtos Oriundos da Base Produtiva Local‖ – CETEC/MG. Em Janeiro/2011, foram cadastrados os produtores/artesãos, suas famílias e suas residências. Em abril/2011, simultaneamente às atividades relacionadas, documentaram-se e analisaram-se as técnicas artesanais em cada comunidade cadastrada. Ainda, sob análise das técnicas e materiais, em Julho/2011, documentou-se a abordagem do design, nos diferentes níveis da produção artesanal. Outros deslocamentos ocorram, em parceria com outras

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equipes de atuação na região (CETEC/MG e FM&F Tecnologia), para resgatar e comprovar alguns dados já registrados na pesquisa Julho/2010 e Maio/2011 29 .

A cidade de Chapada Gaúcha está distante de Belo Horizonte por 730 km 30 . Para utilizar o trajeto via cidade de Montes Claros utiliza-se a travessia de balsa na cidade de São Francisco, e depois, mais 115 km de estrada sem pavimentação até Chapada Gaúcha. Outro percurso pode ser executado via cidade de Arinos, com estradas que recebem asfaltamento. Este percurso aumenta aproximadamente, mais 110 km. No entanto, restavam 40 km para serem asfaltados (em jul. 2011).

3.1. OBJETO DE ESTUDO

O objeto de estudo consiste em verificar como as comunidades trabalham com resíduos vegetais do Cerrado na produção artesanal e como promover praticas sustentáveis sob a perspectiva do design, em Chapada Gaúcha.

3.2. ÁREA DE ESTUDO

Em Minas Gerais o cerrado abrange 308.000 Km², ocupando área de 53% do território do estado e a 17% do cerrado do brasileiro. Está presente principalmente nas regiões do Alto Jequitinhonha, Norte, Noroeste, Alto Paranaíba, Triângulo e Alto São Francisco (RIBEIRO, 2000).

Especialmente no Vale do Urucuia, preocupa-se com os resultados da perda dos cerrados. A região do semiárido mineiro é formada por contradições no que

29 Etapas previstas para atender inclusive aos relatórios de acompanhamento para o Instituto Sociedade, População e Natureza ISPN, com financiamento da União Europeia. O ISPN é uma organização não governamental, com objetivo de preservar e promover a biodiversidade dos biomas: Cerrado e Caatinga, financiamento inclusive, projetos de pesquisas na região.

30 Distancia calculada no percurso executado pela pesquisa. Porém, por desvios e condições da pavimentação, percorreu-se 850 km em média, em cada trajetória.

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concerne às diferentes realidades, que são construídas regionalmente. Existe distanciamento entre os aspectos sociais, culturais, econômicos e ambientais desta região com as outras regiões mineiras. O Instituto Estadual de Florestas - IEF constata que esta região possui características naturais únicas, que apresentam um grande potencial turístico e que justificaram sua conservação dentro de três Unidades de Conservação.

As estações de seca e chuvosa são bem definidas e a vegetação compõe-se de gramíneas, arbustos e árvores. Abriga importantes espécies da fauna: tamanduá, tatu, anta, jiboia, cascavel e o cachorro-do-mato, entre outras. Algumas delas estão ameaçadas de extinção, como é o caso do lobo-guará, do veado-campeiro e do pato-mergulhão. A vegetação do Cerrado Mineiro foi e continua sendo degradada em função de vários fatores, em algumas áreas do Norte de Minas, Triângulo Mineiro e Sul de Minas, segundo Calado e Soares (2003, p. 4).

No Noroeste de Minas, incluindo a bacia do rio Urucuia, o clima é quente. A temperatura média é superior a 18ºC, durante todo o ano. O inverno é ameno e o verão é sempre quente e muito longo (Setembro a Março). Na bacia hidrográfica do Rio Urucuia, estão os municípios de: Arinos, Bonfinópolis de Minas, Brasilândia de Minas, Buritis, Chapada Gaúcha, Dom Bosco, Formoso, Icaraí de Minas, Natalândia, Pintópolis, Ponto Chique, Riachinho, Santa Fé de Minas, São Francisco, São Romão, Ubaí, Uruana de Minas e Urucuia.

No período colonial deu início a utilização das terras dos cerrados, servindo como áreas de pastagens. Segundo Silva e Pereira (2010), após a Segunda Guerra Mundial, com a instalação de indústrias siderúrgicas em Minas Gerais, os cerrados entraram numa nova etapa de uso. A siderurgia necessitava da transformação do cerrado em carvão vegetal, iniciando a devastação sem controle. Em seguida, com a mobilidade demográfica aumentou o processo de perda dos cerrados. O desenvolvimento econômico atraiu pessoas de todas as regiões do país em busca de um local próspero para se viver, e ainda hoje permanece a luta para preservação do bioma em Minas.

Conforme Rodrigues (2004), a coleta de produtos do Cerrado pela população do Norte de Minas é uma prática antiga e que vem se perpetuando ao longo dos anos. Contudo, este tipo de prática sem uma orientação técnica adequada tem como

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resultado a queda na oferta destes produtos pela natureza. Árvores são derrubadas para a coleta de frutos, outras para a produção de carvão, entre outros problemas como contaminação por pragas.

Estas pressões exercidas pela população no bioma Cerrado contribuem para a extinção de algumas espécies, como também para a queda na qualidade de vida destes produtores que dependem diretamente do Cerrado para sua sobrevivência. Diagnósticos recentes demonstram que os municípios do semiárido têm um bom potencial para o aproveitamento integral de frutos e plantas medicinais do Cerrado, para a alimentação humana e animal e aproveitamento da flora para busca no tratamento de doenças.

Desde 2001, o ―Projeto Manejo Sustentável da Fava D’anta nas Gerais‖ é desenvolvido no Vale do Urucuia e mantêm o respeito dos produtores rurais. Em continuidade a este projeto, sob a mesma coordenação, o CETEC-MG também desenvolve o ―Projeto de Implantação de Unidades de Beneficiamento e Comércio de Produtos Oriundos da Base Produtiva Local‖. Estes projetos são premiados por instituições reconhecidas. Assim, estabelecendo parceria e acompanhando os ―diagnósticos socioambientais e culturais‖ dos projetos acima citados, foram realizadas visitas à região.

Os municípios selecionados e consultados para execução do projeto foram:

Bonfinópolis de Minas, Pintópolis e Chapada Gaúcha. A prefeitura de Chapada Gaúcha apresentou interesse e a riqueza do bioma na região contribuiu para a seleção como foco da pesquisa.

3.1.1. O Município de Chapada Gaúcha

A antiga Vila dos Gaúchos, hoje município de Chapada Gaúcha, teve seu início de povoamento no ano de 1976. Os gaúchos vieram pelo PADSA Projeto de Assentamento Dirigido a Serra das Araras, que agregou os municípios de Formoso, Arinos, Januária, São Francisco ao povoado da Vila dos Gaúchos, conforme IBGE

(2010).

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ESTADO DE MINAS GERAIS
ESTADO DE MINAS
GERAIS

Mapa 1: Estados e vegetação do Brasil. GEOMAPAS Disponível em: <http://www.geomapas.net.br/mapa-brasil- didatico.html>. Acesso em: 25 jul. 2010

MUNICIPIO DE CHAPADA GAÚCHA
MUNICIPIO DE
CHAPADA GAÚCHA

Mapa 2: Municípios em Minas Gerais. Geopolítico. Disponível em:

<http://www.turismo.mg.gov.br/images/stories/mapas/mapa_politico_g.jpg>. Acesso em: 25 jul. 2011.

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MUNICÍPIO DE CHAPADA GAÚCHA
MUNICÍPIO DE
CHAPADA
GAÚCHA

Mapa 3: Localização do Município de Chapada Gaúcha. Disponível em:

<http://www.ana.go2v.br/cobrancauso/_pdfs/Mapa_da_Bacia_Rio_Sao_F

rancisco_SubBacias.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2010.

rancisco_SubBacias.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2010. Mapa 4 – Localização do Vale do Urucuia – Região

Mapa 4 Localização do Vale do Urucuia Região da Pesquisa. Fonte: Elaboração Própria. Consulta:< http://www.turismo.mg.gov.br/minas- gerais/mapas>. Acesso em: 27 jul. 2011.

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No dia 28 de Janeiro de 1995, foi instalado o Distrito de Chapada Gaúcha, na antiga Vila dos Gaúchos; neste mesmo ano, começou o processo de emancipação

do novo distrito.

Chapada Gaúcha encontra-se no semiárido do Norte de Minas Gerais, em uma região carente de projetos socioambientais.

Possui uma população de 10.792 habitantes, em uma área territorial de 3.215

Km 2 , com a densidade de 3,36 hab./km², conforme figura 13. As atividades

econômicas desenvolvidas na região, de acordo com levantamento do IBGE, estão concentradas em três áreas: serviços, agropecuária e indústria.

 

DADOS DO IBGE 2010 POPULAÇÃO NO MUNICÍPIO DE CHAPADA GAÚCHA

 

População de

População de

População

População

População Total

Homens

Mulheres

Urbana

Rural

5.624

5.168

5.751

5.041

10.792

Fig. 13: Quadro de dados populacionais de Chapada Gaúcha. Fonte: IBGE/2010. Disponível em:

<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1766&id_pa

gina=1>. Acesso em: 10 dez. 2010.

Os indicadores são de IDH (Índice Desenvolvimento Humano) de 0,683 (PNUD, 2007), com PIB (Produto Interno Bruto) de R$ 50.769,693 mil, e PIB per capita R$ 5.446,08, conforme IBGE.

O município de Chapada Gaúcha possui excelente localização geopolítica e

mercadológica. É uma cidade nova, planejada e plana. Conforme Madeira e Cézar (2008), dentre a produção agrícola podemos citar a extração de amêndoas do pequi,

a exploração do urucum, o manejo da fava d’anta para laboratórios de medicamentos e a produção de carvão vegetal.

No entorno do município estão localizadas duas Unidades de Conservação Estaduais Parque Estadual Serra das Araras e Reserva Estadual de Desenvolvimento Sustentável Veredas do Acari. Situado na divisa dos estados de Minas Gerais e Bahia, o Parque Grande Sertão Veredas - Unidade de Conservação Nacional é uma das atrações turísticas na região.

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O Parque Estadual da Serra das Araras se destaca pelos paredões na paisagem. Seus diversos ecossistemas, considerados como de preservação permanente, e seus sítios geomorfológicos que funcionam como habitat e criadouro natural de espécies de arara-vermelha e arara Canindé, que dão nome a serra, conforme descrição do IEF.

Para conservação da riqueza ambiental na região, o IEF acompanha e orienta a extração dos insumos extrativistas. Como exemplo, os buritizais para a produção artesanal no Distrito de Serra das Araras. Porém, conforme relata Sr. Cícero (IEF), ―as queimadas ainda causam grandes danos à natureza e a comunidade local‖. O buritizal da Reserva Ambiental, figura 14, sofreu grande perda em Junho de 2010. Após muita luta contra as chamas, a natureza descansa para recompor-se novamente com cicatrizes.

natureza descansa para recompor-se novamente com cicatrizes. Fig.14: Reserva Estadual de Desenvolvimento Sustentável

Fig.14: Reserva Estadual de Desenvolvimento Sustentável Veredas do Acari/CG. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

O Parque Nacional Grande Sertão Veredas tem em seu nome uma homenagem explícita ao escritor João Guimarães Rosa. Sua passagem na região, no início da década de 50, resultou em uma das mais importantes obras literárias brasileiras, o romance Grande Sertão: Veredas, repleto de passagens que descrevem os locais, a relação do homem com a natureza e as características culturais, ainda hoje encontradas (IBAMA, 2003).

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(…) Urucuia acima, o Urucuia… Tanta serra, o Urucuia esconde a lua. A serra ali corre torta. O Carinhanha é preto, o Paracatu moreno; meu, belo é o Urucuia — paz das águas… É vida! (…) Dali para cá, o senhor vem, começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucuia… Saem dos mesmos brejos — buritizais enormes.‖ (ROSA, 1986. p.46, 47 e 416)

Em junho, no Distrito de Serra das Araras é realizada a Festa de Santo Antônio de Serra das Araras. Em julho, é também famoso o evento Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas. Estes eventos atraem numerosos turistas, em procura de cultura, artesanato, conhecimento, integração e religiosidade. Também é muito respeitada a festa de ―Reis‖, em janeiro, que reuni várias comunidades do município (IBGE, 2007).

3.3. COLETA DE DADOS

As etapas da pesquisa constituíram o estudo de caso, empregando as metodologias qualitativas, observação participante e entrevistas semiestruturada. A primeira etapa foi instituída por levantamento de dados auxiliares e reconhecendo a área a ser pesquisada. A segunda etapa, registro de dados dos indivíduos vegetais e das atividades artesanais executadas nas comunidades objeto da pesquisa. Na terceira etapa, inserção de dados para observação registro e analise das atividades artesanais com a inclusão do design e da identidade territorial.

Deve-se considerar que até a coleta de dados, pesquisa bibliográfica, seleção do município para amostra e das comunidades, além de parceiros externos e financiamento para realização da pesquisa in loco, foram atividades executadas previamente.

A etapa do levantamento do contexto social e ambiental do município foi realizada em janeiro/2010. A pesquisa cadastrou os produtores/artesãos, suas famílias e suas residências, como também o desenvolvimento das atividades artesanais e inserção do design e percepção da culturalidade nos produtos.

Para acompanhamento de dados a pesquisa efetuou três deslocamentos de Belo Horizonte à Chapada Gaúcha: O primeiro deslocamento no período 17 a 23 de janeiro/2011 e segundo de 18 a 25 abril/2011 e o terceiro em 07 a 12 Julho /2011.

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Outros deslocamentos ocorram, em parceria com outras equipes de instituições que atuam na região, para resgatar e comprovar alguns dados já registrados na pesquisa de 08 a 15 julho/2010 e 24 maio a 01 junho/2011.

Em seguida, as etapas relacionadas compreenderam a execução.

ETAPA 1 CADASTROS E PARCERIA:

A primeira coleta de dados refere-se ao cadastro das associações e grupos de atividades artesanais, produtores rurais que executam atividades artesanais e parceiros na região. Este cadastro teve como objetivo verificar o número real de pessoas participantes da pesquisa (36 pessoas pré-selecionadas) de instituições locais parceiras (8 instituições). Esta etapa incluiu:

a) desenvolver diagnóstico socioambiental com os produtores e suas famílias;

b) caracterizar física, ambiental e econômica da propriedade.

ETAPA 2 REGISTRO DE ESPÉCIES VEGETAIS E ATIVIDADES ARTESANAIS

Nesta etapa, foi realizada uma demonstração de levantamento florístico 31 , para exemplificar os procedimentos de levantamento de espécies vegetais em uma determinada área. Foram coletados dados das espécies ao entorno das comunidades selecionadas para a pesquisa, pela equipe de biólogos/Geólogos. Em

31 A demonstração de um levantamento florístico foi realizada através do Método de Ponto Quadrante (―Point Centered Quarter‖ – Cottam e Curtis 1956, Müller-Dombois e Elemberg 1974 apud Silva, 2008). Este método consiste na abertura de um transecto e o estabelecimento de pontos de amostragem regularmente distribuídos. Em cada ponto são amostrados quatro indivíduos vegetais, um em cada quadrante e mais próximo do ponto de amostragem. Esta metodologia é utilizada para identificar árvores potenciais, em uma determinada região, para utilização neste em projeto Esta atividade foi uma contribuição voluntária de biólogos, para compreender como as espécies vegetais, neste caso, teve como exemplo o buriti, são catalogadas em números quantitativos, em uma determinada área. Esta atividade foi realizada pela Equipe de Biólogos/Geólogos, nas proximidades do Parque Estadual de Serra das Araras - Distrito de Serra das Araras Chapada Gaucha. MG. Esta pesquisa não realizou efetivamente um levantamento florístico, pois todos os dados da região, foram fornecidos pelo IEF/MG Parque Serra das Araras e pelo ICMbio/IBAMA Parque Grande Sertão Veredas.

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visita às comunidades, foram registradas as atividades artesanais realizadas pelos artesãos, somente com utilização de resíduos e insumos vegetais, como biojoias, adornos, objetos utilitários e mobiliários. Esta etapa inclui:

a) realizar levantamento demonstrativo de espécies vegetais;

b) registro das atividades artesanais com insumos e resíduos vegetais nas comunidades da pesquisa, com perspectiva de conhecer o potencial de produção artesanal local.

ETAPA 3 - OFICINAS

Aplicam-se nesta etapa as atividades de desenvolvimento de oficinas para observação registro e analise das atividades artesanais com a inclusão do design e da identidade territorial; documentação dos eventos e elaboração de relatório. As oficinas têm como objetivos integrar o grupo sensibilizá-lo, mobilizá-lo e nivelar as informações entre os integrantes e a equipe do projeto. São executadas as atividades de percepção e sensibilização ambiental, que ajudam aos produtores a conhecerem melhor o meio ambiente no qual estão inseridos.

A percepção ambiental é a interação do indivíduo com o meio, apresentam aspectos da cultura, condições socioeconômicas entre outras. É um método que propicia estímulos ao profissional (artesão), para perceber o meio em que está inserido, princípios de identidade e território. São utilizados métodos de Pesquisa- Ação e Diagnóstico Participativo, por serem consideradas técnicas reflexivas na qual o público constrói a sua realidade com praticamente nenhuma interferência do coordenador da atividade. Durante o desenvolvimento das atividades foram realizados registros fotográficos e relatório. Esta etapa incluiu:

a) Desenvolvimento de oficinas para os artesãos:

a.1) Levantamento prévio do nível de conhecimento das técnicas, condições econômicas, culturais e socioambientais do publico alvo, através de visitas técnicas às residências, locais de trabalho, comercialização dos produtos e de eventos na comunidade;

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a.2) Montagem do quadro de atividades (definição do cronograma, materiais, recursos, parcerias e avaliação) que visam atender às áreas incipientes detectadas no item anterior, consultando as lideranças locais;

a.3) Mobilização comunitária local, esclarecendo as etapas anteriores e realizando as adaptações sugeridas pelo grupo;

a.4) Aplicação e registro das atividades programadas para as oficinas;

b) Registros e documentação dos eventos;

c) Análise da metodologia e registro dos resultados.

O desenvolvimento da Pesquisa de Campo contou com a colaboração de profissionais voluntários. Os mesmos, orientados e coordenados pela autora e pesquisadora, formaram a ―Equipe da Pesquisa‖. São eles: Haendel Mourão Lataro Hoehne (desenvolvedor web e ambientalista) e Lidja Mourão Lataro Hoehne (bióloga, pós-graduada em Educação Ambiental). Estes atuaram, na companhia da pesquisadora, nos registros fotográficos, registros das espécies vegetais através de GPS, cadastramento de artesãos e outras atividades de apoio técnico. Estas atividades foram executadas, nas etapas da pesquisa, no município de Chapada Gaúcha.

Outros voluntários atuaram como apoio da pesquisa, sob a coordenação da autora e pesquisadora. São eles: Maria de Jesus Ribeiro Gomes (nutricionista, funcionária da Prefeitura de Chapada Gaúcha) e Orlando Nunes (extensionista rural, funcionário da EMATER) apoio a logística da pesquisa e contatos com instituições e comunidades locais; Igor Zaidan (estudante de Cinema e de Artes Visuais) na produção fotográfica, entrevistas e filmagens do Evento ―X Encontro dos Povos‖; e Michelle Helène Machado de Souza (estagiária de design e bióloga) cadastro de dados das espécies vegetais, no Mercado Central de Belo Horizonte.

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CAPÍTULO 4

ESTUDO DE CASO

E era lá que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia água estável.”

Guimarães Rosa

Neste capítulo, os tópicos do desenvolvimento da pesquisa dividem-se em duas partes: a primeira parte trata das características relacionadas ao território e ao contexto local; a segunda parte aborda os aspectos relacionados à produção artesanal e design.

4.1. PRIMEIRA PARTE: ANÁLISE DO CONTEXTO

4.1.1. Cerrado Brasileiro

Do interior do Brasil aos limites dos demais biomas, a área do Cerrado compreende 2.036.448 km² (IBGE, 2004), abrangendo os estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Tocantins, Piauí, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Rondônia e o Distrito Federal. Esta extensão representa 22% do território brasileiro. Percorre a distância do norte ao sudeste, entre os biomas da Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal. 32

32 MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Biomas. 2010. Disponível em:

<www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=72&idMenu=2351>. Acesso em:

30 out. 2010.

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O Cerrado é responsável por 5% da biodiversidade do planeta e é uma das savanas mais ricas do mundo, mas é também um dos biomas mais ameaçados. Possui apenas 7,5% de sua área protegida por unidades de conservação. O total acumulado de desmatamento no Cerrado em 2002 era aproximadamente de 80 milhões de hectares. Conforme Barbosa (2008), 54 milhões de hectares são ocupados por pastagens cultivadas e 21,56 milhões de hectares por culturas agrícolas. Apresenta duas estações bem marcadas: inverno seco e verão chuvoso. Possui solo de savana tropical - deficiente em nutrientes, mas rico em ferro e alumínio. O que favorece a coloração vermelha amarelada, arenoso, permeável e com baixa fertilidade natural. A superfície tem pouca capacidade de absorver água, mas abrigam grandes bacias hidrográficas, as três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul (Tocantins-Araguaia, São Francisco e Prata), conforme OIKOS - Pesquisas Aplicadas (2010).

O uso sustentável da biodiversidade do Cerrado é realidade para comunidades tradicionais, servindo como geração de renda, segurança alimentar e qualidade de vida à população regional. Sua aplicação está na utilização de plantas medicinais, frutas nativas, criação de abelhas, manejo de animais silvestres, ecoturismo, condimentos, artesanato e etc. Fonte de remédios, nutrientes e renda familiar, representa para algumas comunidades das Veredas a herança cultural. As veredas são áreas de vegetação com palmeiras, como a Mauritia flexuosa (buriti), que emergem em áreas alagadas, conforme Embrapa (2009).

Resguarda uma vegetação normalmente baixa, com plantas esparsas de aparência seca, entre arbustos esparsos e gramíneos, e o cerradão, um tipo mais denso de vegetação, de formação florestal. O bioma guarda outras surpresas, a beleza dos chapadões, relevo característico da região central do Brasil. Esta amplitude é visualizada na limitação da ecorregião, apresentado no mapa 5, conforme Ferreira et. al.(2007).

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79 Mapa 5: Limites da ecorregião Cerrado/Mapa desmatamentos no bioma Cerrado. Disponível em: <

Mapa 5: Limites da ecorregião Cerrado/Mapa desmatamentos no bioma Cerrado. Disponível em:

<http://marte.dpi.inpe.br/col/dpi.inpe.br/sbsr@80/2006/11.15.2

1.21/doc/3877-3883.pdf >. Acesso em: 20 mai. 2010.

Alguns autores divergem na classificação dos tipos fitofisionômicos (característica da vegetação) do Cerrado. Uma das mais representativas no meio acadêmico é apresentada por Ribeiro e Walter (1998), que relatam onze tipos fitofisionômicos gerais no bioma. Estes, enquadrados em formações florestais (Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca e Cerradão), savânicas (Cerrado sentido restrito, Parque Cerrado, Palmeiral e Vereda) e campestres (Campo Sujo, Campo Rupestre e Campo Limpo). Muitas destas áreas apresentam inclusive outros subtipos.

As formações savânicas se caracterizam por árvores e arbustos espalhados por um extrato graminoso, sem formação de dossel contínuo. O termo campestre refere-se às formações com predomínio de espécies herbáceas e algumas arbustivas, sem formação de árvores. ―As formações florestais compreenderiam áreas com predominância de espécies arbóreas, com formação de dossel, contínuo e descontínuo. Os fatores responsáveis pela ocorrência dessas formações são distintos‖ (RIBEIRO e WALTER, 1998.b apud RIBEIRO, 2005, p.23).

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Ribeiro (2005) relata dos fatores temporais e espaciais são responsáveis pela ocorrência das formações florestais no Cerrado. Referindo-se ao primeiro fator, alterações climáticas e geomorfológica 33 , ao longo do tempo geológico, levaram às expansões e retrações das florestas úmidas e secas. As florestas úmidas se expandiram nas interglaciações (temperaturas mais altas e úmidas) e retraíram-se nas glaciações (frio e seco) do Quaternário 34 , ocorrendo o inverso com as florestas secas. Sítios úmidos, como os cursos de rios, permitiram a permanência de alguns remanescentes de florestas úmidas entre as florestas secas. Quanto ao segundo fator, em escala espacial as formações florestais são influenciadas por variações locais hidrográficas, topográficas, de profundidade do lençol freático e fertilidade e profundidade dos solos.

O Cerrado é, portanto, um mosaico vegetacional com características distintas, que se conecta com quase todos os outros biomas do Brasil, constituindo área de transição entre eles e representando um ponto de equilíbrio entre as paisagens brasileiras. Fatores abióticos (químicos e físicos) como o clima, frequência de queimadas, profundidade do lençol freático e outros, proporcionam uma vegetação diferenciada dos outros biomas, que possibilita essa heterogeneidade fisionômica e riqueza de espécies. De acordo com Ribeiro(2005), estima-se que o Cerrado seja composto por 935 aves, 298 mamíferos e 268 répteis. Calcula-se que sua flora possa alcançar de 4 a 10 mil espécies de plantas vasculares. Como possui importantes recursos hídricos, sua relevância aumenta.

Embora tenha sido excluído da Constituição Federal de 1988 como patrimônio nacional, no capítulo sobre o meio ambiente (Art. 24, Título VIII, Capítulo VI, § 4º), pela sua relevância ecológica, esse ecossistema é considerado como hotspot‖ para a conservação da biodiversidade mundial (CARVALHO, 2007; KLINK e MACHADO, 2005; BRANDON et al, 2005 apud SARAIVA & SAWYER, 2007). Hotspot é um termo usado para designar toda área prioritária para conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaçada no mais alto grau.

33 Formas da superfície terrestre.

34 Período do planeta de grande extensão de ―eras de gelo‖ durante o último máximo glacial cerca de 20.000 a 12.000 anos atrás - Pleistoceno e Holoceno. Dando início a atual época em que vivemos atualmente, e extinguindo os animais que se adaptaram a viver com essas eras do gelo.

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Essa heterogeneidade fisionômica e alta biodiversidade são evidenciadas na rica quantidade de uso e manejo do Cerrado pelas populações humanas que o habitaram historicamente. De acordo com Ribeiro (2005), os recursos utilizados incluem caça, pesca, madeira, óleos, fibras, plantas medicinais, frutos nativos, formando um complexo cultural cujas origens remontam há mais de doze mil anos e chegam até a atualidade.

Inúmeras populações vivem no Cerrado hoje e sobrevivem dos seus recursos naturais, utilizando-os de forma sustentável. Os insumos do Cerrado são utilizados como geração de renda, segurança alimentar e qualidade de vida para as comunidades. ―Essas comunidades fazem parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro e detêm um amplo conhecimento tradicional da biodiversidade‖ (CARVALHO, 2005 apud SARAIVA & SAWYER, 2007, p.2).

A devastação do Cerrado também ameaça a oferta de recursos hídricos do país. Considerado ―a caixa dá água do Brasil‖, o bioma concentra as nascentes das bacias hidrográficas do São Francisco Araguaia - Tocantins e do Paraná - Paraguai (RIBEIRO, 2005).

O desmatamento recente no Cerrado está concentrado no oeste da Bahia, na divisa com Goiás e com Tocantins, e no norte de Mato Grosso e de Minas Gerais. As áreas coincidem com as regiões produtoras de grãos e de carvão. Os principais fatores do desmatamento, em todo o bioma, estão na expansão das lavouras de cana de açúcar e de soja, além da produção de carvão e das queimadas (naturais ou provocadas). Carvalho (2005), completa que a pecuária também tem contribuído para a destruição do Cerrado, principalmente por causa do modelo de produção extensivo, que chega a destinar mais de um hectare para cada boi.

Mapas-base utilizados para a análise temporal dos possíveis desmatamentos, configurados nos mapas 6, 7 e 8, representam em cores a perda do Cerrado. A cor verde indica os remanescentes de Cerrado; a cor vermelha indica áreas de agricultura, pastagem e outras formas de uso (FERREIRA et al., 2007, p.3880).

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Mapa 06: Base MODIS mapa de remanescentes e uso da terra para o Cerrado. A cor verde indica os remanescentes de Cerrado; a cor vermelha indica áreas de agricultura, pastagem e outras formas de uso. (s/escala). Fonte: FERREIRA et al., 2007, p.3880.

de uso. (s/escala). Fonte: FERREIRA et al ., 2007, p.3880. Mapa 07: Base PROBIO. A cor
Mapa 07: Base PROBIO. A cor verde indica os remanescentes de Cerrado; a cor vermelha

Mapa 07: Base PROBIO. A cor verde indica os remanescentes de Cerrado; a cor vermelha indica áreas de agricultura, pastagem e outras formas de uso. (s/ escala). Fonte: FERREIRA et al., 2007,

p.3880.

Mapa 08: Base SPOT utilizado para análise temporal dos possíveis desmatamentos. A cor verde indica os remanescentes de Cerrado; a cor vermelha indica áreas de agricultura, pastagem e outras formas de uso. (s/ escala). Fonte: FERREIRA et al., 2007,

p.3880.

de uso. (s/ escala). Fonte: FERREIRA et al ., 2007, p.3880. Os desmatamentos ocorridos no bioma

Os desmatamentos ocorridos no bioma Cerrado, no período de 2001 a 2005, empregando imagens do sensor MODIS Produto MOD13Q1 (250 metros) e técnicas de detecção automática de mudanças na paisagem (metodologia do SIAD1). Este estudo compara três mapas-base que retratam o atual estágio de conservação do bioma Cerrado 35 .

35 FERREIRA et al. (2007).Desmatamentos no bioma Cerrado: uma análise temporal (2001-2005) com base nos dados MODIS - MOD13Q1. Disponível em: <http://marte.dpi.inpe.br/col/dpi. inpe.br/sbsr@80/2006/11.15.21.21/doc/3877-3883.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2011.

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4.1.2. O Vale do Urucuia

A Bacia hidrográfica do rio Urucuia nasce na Serra Geral de Goiás, fronteira desse Estado com Minas Gerais. Suas águas vão deslizando entre morros e chapadões, no sentido oeste-leste até chegar ao rio São Francisco (Velho Chico). Os córregos que formam suas nascentes estão nos municípios de Formosa e Cabeceiras, em Goiás, e Buritis MG. Geologicamente, a maioria dos tipos de solo dessa bacia é parte da Formação Urucuia, que apresenta idade variável entre 80 e 50 milhões de anos (MENDES, 2011).

Mendes (2011) relata que são onze os municípios pertencentes à Bacia do Urucuia: além de Buritis e Cabeceiras, Formoso, Arinos, Chapada Gaúcha, Pintópolis, Uruana de Minas, Urucuia, Riachinho, Bonfinópolis de Minas e São Romão. Localizada na margem esquerda do rio São Francisco o rio dos currais, da integração nacional e do encontro e desencontro entre mineradores e pecuaristas – a bacia hidrográfica em questão também é integrante do ―Aquífero Urucuia‖. Trata- se de um grande reservatório de águas subterrâneas que ainda dispõe de pouquíssimos estudos hidrogeológicos e por isto é pouco conhecido inclusive entre os próprios municípios que ele abrange.

Este aquífero ocupa uma extensão de 500 km. Sua área de abrangência começa no Alto Urucuia onde estão os rios formadores desta bacia como o Piratinga e o São Domingos. Sua história é descrita por Mendes (2011):

A história do URUCUIA este grande vale afluente da margem esquerda do rio São Francisco está diretamente vinculada à colonização do Centro-oeste do Brasil e do Norte de Minas. Com a descoberta de ouro em Minas Gerais em 1694, cresceu progressivamente a penetração de garimpeiros, tropeiros, pecuaristas e aventureiros de toda espécie para o Sertão, sobretudo após a descoberta também do ouro em Goiás e Mato Grosso nas décadas de 1720/1730. Esse fluxo de pessoas e mercadorias transformou o Vale do Urucuia em trevo de contatos entre as regiões mineradoras do Centro-oeste e os Currais do São Francisco, zona de criação de gado que ia do norte de Minas à região Nordeste. Essas relações comerciais, políticas, culturais e até familiares se intensificaram com a oficialização, em 1736, por D. João V, da Estrada Real Picada da Bahia (MENDES, 2002, p.139-144).

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O Romance de João Guimarães Rosa foi editado pela primeira vez em maio de 1956. Mendes (2011) descreve que, nesta época, o Urucuia era ―povoado‖ por sertanejos vaqueiros, cavaleiros e tropeiros, tocadores de grandes boiadas porque a pecuária era a principal atividade econômica da região. Após a inauguração de Brasília, Distrito Federal, em 1960 a pecuária foi substituída pelo agronegócio, pois os municípios da região são parte da fronteira agrícola que se alarga a partir do Centro-oeste destruindo o sertão (Cerrado), descrito por Guimarães Rosa.

Na figura 15, braçosdos buritis caídos e sombra sob a água fresca, no leito arenoso do Rio ―Feio‖, na entrada do distrito de Serra das Araras.

Rio ―Feio‖, na entrada do distrito de Serra das Araras. Fig. 15: Rio ―Feio‖ , distrito

Fig. 15: Rio ―Feio‖, distrito de Serra das Araras - Chapada Gaúcha /MG. Fonte: MOURÃO, 2011.- Equipe da pesquisa.

4.1.3. Povos tradicionais e manejo de recursos naturais

As populações tradicionais variam de acordo com cada região do Brasil, apresentando traços culturais que a diferenciam da população em seu entorno; são comunidades tradicionais os "povos indígenas", as comunidades "remanescentes de quilombos", os "caboclos ribeirinhos", as "comunidades tradicionais urbanas", as "populações tradicionais marítimas", que se subdividem em "pescadores artesanais" e os "caiçaras", entre outras, conforme Santana e Oliveira (2005).

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As populações tradicionais do Cerrado além das comunidades indígenas, incluem também os povos negros ou miscigenados que, por muito tempo, ficaram em relativo isolamento nas áreas deste bioma. Estes aprenderam a retirar do Cerrado recursos para alimentação, utensílios e artesanato. São os quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, sertanejos, ribeirinhos. O Ministério do Meio Ambiente reconhece que estas comunidades aproveitam os recursos do bioma geralmente de forma racional, equilibrada e sem prejudicar significativamente os ecossistemas (MMA, 2004).

A questão das populações tradicionais merece uma introdução, a fim de

precisar a acepção que se deseja dar ao termo, pois sem um acordo comum sobre o conceito, o sentido das palavras, será quase impossível examinar a situação e a importância de tais populações.

O novo conceito de populações tradicionais é resultante da preocupação que

a humanidade passou a ter como o meio ambiente, nos últimos trinta anos. Conforme Silva (2010), a análise da destruição e da conservação dos recursos naturais, permitiu perceber a existência de populações capazes de utilizar e ao

mesmo tempo conservar tais recursos, estes grupos humanos passaram a ser chamados de "Populações Tradicionais".

A inserção dos povos tradicionais no contexto do meio ambiente passou a

existir a partir da discussão sobre a presença de seres humanos nas ―Unidades de Conservação‖. Os países pioneiros na criação de Unidades de Conservação estabeleceram uma tradição de que dentro das mesmas não poderia haver a presença dos humanos. Porém, conforme Silva (2010), a situação encontrada em países em desenvolvimento, como o Brasil, que apenas há poucos anos criaram suas áreas de preservação e conservação, obrigou a examinar com maior profundidade a relação entre o homem e o meio ambiente. Foi observado que realmente existem populações cuja ação é altamente benéfica para a conservação do meio ambiente.

As populações tradicionais também devem tomar consciência de que o meio onde moram deve ser fiscalizado por eles próprios, uma vez que eles vivem de tais recursos naturais, Olmos (2009) relata:

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Os povos tradicionais têm um histórico impressionante de domesticação de plantas e animais que gerou o que são, efetivamente, novas espécies. Nas Américas, povos pré-colombianos criaram a abóbora, o milho, a batata, a mandioca, o feijão, a pupunha sem espinho, a quinua, a alpaca, a lhama, a cobaia e o cão pelado peruano. Todos são resultado de seleção artificial feita ao longo de milhares de anos, e tremendamente diferentes de seus ancestrais selvagens, as populações alijadas dos núcleos dinâmicos da economia nacional. Ao longo de toda a história do Brasil, adotaram o modelo da cultura rústica, refugiando-se nos espaços menos povoados, onde a terra e os recursos naturais ainda eram abundantes. Foi possibilitada sua sobrevivência e a reprodução desse modelo sociocultural de ocupação do espaço e exploração dos recursos naturais, com inúmeros variantes locais determinados pela especificidade ambiental e histórica das comunidades que neles persistem (OLMOS, 2009, p.1).

O grande problema são os vestígios que o ser humano deixa no meio ambiente, como também, algumas espécies que não toleram as atividades humanas

e desaparecem. Portanto, é prudente que sejam efetivados investimentos, pesquisas

e projetos, que contribuam na capacitação de comunidades tradicionais e moradores agroextrativistas, em regiões próximas a reservas e unidades de conservação.

4.1.4. Populações existentes e a culturalidade no Vale do Urucuia

A região do Vale do Urucuia foi cenário de conflito entre os grandes fazendeiros, entre os séculos XIX e XX. Os fazendeiros (coronéis) comandavam grupos de jagunços, entre agregados e vaqueiros, para a guarda de seus patrimônios e disputas territoriais. Os jagunços tornaram-se bandos que guerreavam no sertão em nome de seu chefe, uns aliados outros contra o governo, e se tornaram personagens históricos característicos da região. Pela cultura, até hoje, os personagens dos jagunços permanecem como mito popular, onde vaqueiros e descendentes desta época guardam em seus traços e em sua memória as características herdadas desta cultura. Assim, ainda se observa nas comunidades, características expressas no vestuário, no jeito de falar e de se relacionar, na alimentação, nas rodas de música e de conversa, ou seja, na vida cotidiana do sertanejo (IBAMA/FUNATURA, 2003 apud SOUZA, 2006).

Com a ocupação do sertão noroeste mineiro, em meados do século XX, ocorreu um novo fluxo migratório. As mudanças políticas e econômicas do país

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ocorridas na década de 20 refletiram no modo de vida sertanejo, mudando suas organizações sociais e acabando com o coronelismo. Assim, adveio a migração para a região, principalmente, de outras regiões de Minas Gerais. Este território passou a receber pessoas que buscavam fixar-se em terras pouco povoadas, o que resultou e originou na população mineira hoje existente no local (IBAMA/FUNATURA apud SOUZA).

Mas, novas mudanças vieram com o Projeto de Assentamento Dirigido a Serra das Araras - PADSA:

Dentro da implementação de políticas agropecuárias para a região de cerrados, a região do noroeste mineiro foi foco de um programa de ocupação territorial chamado Projeto de Assentamento Dirigido a Serra das Araras - PADSA, realizado pela Fundação Rural Mineira RURALMINAS, um órgão estadual da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Após estudos topográficos específicos e loteamento feito pela RURALMINAS, cerca de dez famílias oriundas do sul do país iniciaram a ocupação ainda no ano de 1976. Este foi o início do cenário que resultou especialmente na Vila dos Gaúchos, atualmente município de Chapada Gaúcha (IBAMA/FUNATURA, 2003; IBGE, 2008, p.2).

Muitos foram os desentendimentos ocorridos entre mineiros e gaúchos, e consequentes perdas materiais e culturais. Agricultores gaúchos perderam seus investimentos na agricultura. O plantio de arroz no início do povoamento fracassou em sua grande maioria. A falta de apoio financeiro e de assistência técnica combinou-se com a criação extensiva de gados que circulavam e se alimentavam nas áreas de plantio. O gado, que era criado solto, por fazendeiros e posseiros mineiros residentes nos arredores, teve que ser recuado, Salgado (2010, p.56) apud (ZATZ, 2004). Dentre os principais produtos destacam-se a fava D’anta, a lenha e o carvão, obtidos principalmente por exploração predatória do Cerrado. A população extrativista é basicamente de zona rural e mantêm fortes tradições sertanejas, como os geraiseiros, veredeiros e chapadeiros, além de agricultores familiares, assentados da reforma agrária e comunidades quilombolas (FUNATURA, 2002 apud SOUZA, 2006).

O extrativismo vegetal sustentável para o aproveitamento integral dos frutos do Cerrado é ainda incipiente, sendo os produtos coletados geralmente por

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comunidades tradicionais e destinados ao autoconsumo (SALGADO, 2010) apud (FUNATURA, 2008; MOSAICO, 2009).

Na cidade de Chapada Gaúcha, o abastecimento de água ainda é precário. Atualmente, 16 anos de existência como município, há muito para se executar em infraestrutura. Com todos os esforços administrativos, 60% das residências não possuem água encanada e metade do município não há rede de coleta e tratamento do esgoto, ficando a cargo das fossas a destinação do mesmo, conforme Salgado (2010) apud (MOSAICO, 2009).

A população do campo reside em habitações sem acabamento a base dos recursos naturais disponíveis no cerrado, apresentando construções que utilizam barros como o adobe e pau-a-pique, e com cobertura de palhas e folhas de buriti, frequentes no meio rural (IBAMA/FUNATURA, 2003).

Esta mistura de gaúchos e sertanejos sucedeu em aspecto diferenciado aos hábitos da cidade. A cultura gaúcha está em cada detalhe: nas casas de carnes, churrasco, muita erva-mate, cuia e chimarrão em todos os lugares. Aliás, o chimarrão é comum nas casas e nos ambientes de trabalho. Os times de futebol favoritos são os do Rio Grande do Sul, com o mesmo favoritismo dos times mineiros. Até há pouco tempo os gaúchos somavam 80% da população, atualmente o número já está proporcionalmente menor, em torno de 55%. Hábitos gaúchos foram adotados e se misturam aos mineiros.

Os gaúchos carregaram as festas e as danças do sul para os sertões. O tradicionalismo gaúcho é muito forte, mantido pelo Centro de Tradições Gaúchas. A convivência entre os povos está ainda desordenada. Alguns choques entre os hábitos do sul com os dos sertanejos. No livro Grandes Sertões: Veredas, Guimarães Rosa narra os conflitos íntimos do personagem Riboaldo. A luta entre a tradição e o novo. Do mesmo modo, torna-se perceptível no cotidiano deste povo a afirmação do personagem: ―o sertão é dentro da gente‖.

Desde 2002, a Prefeitura Municipal de Chapada Gaúcha, juntamente com o apoio de instituições parceiras do município, realizam o projeto ―Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas‖. Este evento idealizado pela Fundação Pró-Natura (Funatura), com o objetivo de sensibilizar os participantes para a preservação

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ambiental e cultural, promove a valorização e difusão dos conhecimentos tradicionais e as manifestações culturais das comunidades existentes nas proximidades do Parque Nacional Grande Sertão Veredas e outras.

O Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas reúne pessoas de outros municípios, estados e países. Em meio aos festejos, encontram-se visitantes, pesquisadores e turistas, conforme imagens da figura 18. Durante todos os dias do evento, o artesanato das comunidades do Vale do Urucuia são destaques, além das diversas atividades culturais, educacionais, ambientais e a variedade de produtos da região. Enquanto ocorrem seminários e debates, apresentações folclóricas e danças de varias origens acontecem no palco, no pátio e entre as barracas de artesanato e de comidas tradicionais.

e entre as barracas de artesanato e de comidas tradicionais. Fig.18: ―X Encontro dos Povos‖ em

Fig.18: ―X Encontro dos Povos‖ em Chapada Gaúcha (07 a 10/07/2011). Fonte: MOURÃO, 2011. Equipe da pesquisa.

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4.2. SEGUNDA PARTE - ANÁLISE DA PRODUÇÃO ARTESANAL E DESIGN

4.2.1. Atividades iniciais

Na cidade de Belo Horizonte, foi executado o primeiro ciclo de atividades da pesquisa. Efetuaram-se parcerias e contatos para desenvolvimento da pesquisa. Foram contatados profissionais da Fundação Centro Tecnológicos de Minas Gerais, Fundação Botânica de Belo Horizonte, Fundação Helena Antipoff, Instituto Florestal de Minas Gerais, Universidade Estadual de Minas Gerais, Projeto Comunidades Criativas. UEMG, Centro de Imagem e Núcleo de Educação Ambiental da Escola de Design/Universidade do Estado de Minas Gerais, Universidade Federal de Minas Gerais, FM&F Tecnologia e Grupo Arte no Ar.

A pesquisa, durante estes procedimentos ganhou identidade, a logomarca que foi utilizada em todo material de divulgação e formulários, conforme figura 17. Durante as etapas de revisão da bibliografia e do estudo de caso, a pesquisa foi denomina ―Design Sistêmico: Sustentabilidade na produção artesanal com Resíduos Vegetais do Cerrado Mineiro‖. A substituição do nome por ―Sustentabilidade na Produção Artesanal com Resíduos Vegetais: Uma aplicação prática de Design Sistêmico no Cerrado Mineiroocorreu somente após a elaboração da dissertação.

‖ ocorreu somente após a elaboração da dissertação. Fig.17: Apresentação da Pesquisa – Logomarca criada

Fig.17: Apresentação da Pesquisa Logomarca criada por Diego Abreu, 2010.

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Foram realizadas as primeiras consultas bibliográficas, incidindo em sites sobre Cerrado e participando da seleção de apoio a pesquisas sobre o Cerrado e Caatinga - Edital UNICOM. 2010, do ISPN - Instituto Sociedade, População Natureza.

A seleção do Município ocorreu após contatos com as prefeituras de

Bonfinópolis de Minas, Pintópolis e Chapada Gaúcha, que receberam positivamente

a proposta. No entanto, a beleza natural dos distritos e povoados de Chapada Gaúcha, a receptividade e o potencial apresentado para desenvolvimento do artesanato no município, combinaram na seleção.

Foram cadastradas as associações e grupos de atividades artesanais, produtores rurais que executam atividades artesanais e parceiros na região. Em cada município, foram contatos as principais associações de produtos rurais e de artesanato. As instituições locais parceiras são: Prefeitura de Chapada Gaúcha, Agência de Desenvolvimento Local, Parque Nacional Grande Sertão Veredas/Fundação Chico Mendes, Parque Estadual da Serra das Araras/IEF, Associação das Bordadeiras e Artesãos de Serra das Araras, Associação dos moradores de Ribeirão de Areia Grupos Mãos que Brilham, Associação dos moradores de Buraquinhos, Associação dos Quilombolas Santa Tereza, Coop Sertão Veredas, Emater e Instituto Rosa Sertão.

Quanto às comunidades que seriam visitadas, foram escolhidas por indicação de moradores. Nestas comunidades, verificou-se que o conhecimento do artesanato é vinculado à agricultura familiar, com incidência de identidade nos produtos. Estas comunidades estão localizadas no setor centro-sul do município, fator favorável para deslocamento entre as mesmas. São elas: Distrito de Serra das Araras, Comunidade Ribeirão de Areia e Comunidade de Buraquinhos. Para contato in loco, utiliza-se o acesso principal, através da rodovia MG-606. Esta rodovia coliga as cidades de Chapada Gaúcha a São Francisco, por travessia de balsa, figura 18.

O município está situado a aproximadamente 130 km de distância do

município de São Francisco, a 90 km de Arinos, 165 km de Januária, 125 km de Formoso e a 85 km do município de Pintópolis; ressaltando que as vias de acesso não são providas de asfalto.

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92 Fig.18: Travessia de balsa do Rio São Francisco – Cidade de São Francisco/MG Fonte: MOURÃO,

Fig.18: Travessia de balsa do Rio São Francisco Cidade de São Francisco/MG Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

No percurso, a paisagem é mista entre as plantações de soja e capim ao entorno da cidade de Chapada Gaúcha e os campos de Cerrado que apresentam ao fundo os Chapadões do Parque Estadual de Serra das Araras, próximo ao distrito de Serra das Araras, figura 19.

Araras, próximo ao distrito de Serra das Araras, figura 19. Fig. 19: Trechos da rodovia MG-606,
Araras, próximo ao distrito de Serra das Araras, figura 19. Fig. 19: Trechos da rodovia MG-606,
Araras, próximo ao distrito de Serra das Araras, figura 19. Fig. 19: Trechos da rodovia MG-606,

Fig. 19: Trechos da rodovia MG-606, Percurso de São Francisco à Chapada Gaúcha/MG. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

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No mapa 9 destacam-se a localização das comunidades no Município de Chapada Gaúcha.

Comunidade de Buraquinhos Distrito de Serra das Araras Comunidade de Ribeirão de Areia Reserva de
Comunidade de
Buraquinhos
Distrito de
Serra das
Araras
Comunidade de
Ribeirão de Areia
Reserva de
Desenvolvimento
Sustentável do Acari.

Mapa 9: Localização das comunidades Selecionadas. Mapa oficial do Municipal de Chapada Gaúcha. 2007 Fonte: Instituto Geociências Aplicadas. Secretaria do Estado de Ciência Tecnologia e Ensino Superior. Estado de Minas Gerais, 2007.

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4.2.2. Registros sobre o comércio de resíduos vegetais

Nos últimos anos, para produção artesanal, tem aumentado a comercialização de novas sementes e folhas com colorações diferenciadas no Mercado Central de BH. Observou-se que os artesãos das cidades próximas à Capital Mineira adquirem resíduos vegetais beneficiados para o artesanato, do Mercado Central de Belo Horizonte. A Feira de Arte e Artesanato de Belo Horizonte 36 acontece sempre aos domingos, com aproximadamente 2.500 expositores. Nesta feira, objetos de todos os setores artesanais são comercializados, inclusive peças decorativas e utilitárias com resíduos vegetais.

Sementes, flores e folhas desidratadas e pigmentas são insumos para o artesanato. São retirados da natureza sem identificação da espécie vegetal, da área de procedência e do manejo no extrativismo. Artesãos das regiões metropolitanas adquirem a matéria prima para confecção de seus produtos do Mercado Central de BH (Mercado Municipal de Belo Horizonte), lojas de produtos para artesanato e sites especializados.

Para selecionar insumos comercializados, quais espécies são oriundas do Cerrado, foi elaborada uma tabela com resíduos vegetais mais populares no comércio em Belo Horizonte. A Tabela completa com os nomes populares, imagens e valores de comercialização encontra-se no ―Apêndice F‖ desta pesquisa.

Foi verificado que mesmo com a montagem de uma tabela, não resolve a questão da identificação da espécie vegetal. Muitas vezes o nome da semente no comércio de artefatos para artesanato, não corresponde ao nome popular da planta. Um dos exemplos é a planta ―Ginkgo biloba‖, é uma planta chinesa, com semente muito diferente da encontrada no Mercado Central de BH. Outras vezes, não se encontra na literatura nomes de espécies que se assemelham com o nome encontrado no comércio de resíduos vegetais.

36 A "Feira de Arte e Artesanato de Belo Horizonte" ou ―Feira Hippie‖ acontece sempre aos domingos, na Avenida Afonso Pena, entre os quarteirões de cruzamento da Rua da Bahia até a Rua Guajajaras, em frente ao ―Parque Municipal Américo Renné Giannetti‖, centro de Belo Horizonte MG. Esta feira é tradicional desde os anos 70, considerada patrimônio turístico da Capital, atendendo hoje a mais de 2.500 expositores. Site <www.feiradearteseartesanato.com>. Acesso em:

20 jun. 2011.

95

Considera-se importante acompanhar as coletas dessas matérias primas, bem como folhas, flores e frutos, e destiná-las à identificação de botânicos. O resíduo vegetal pode ser familiar aos olhos dos pesquisadores, mas é necessário conhecimento técnico na área, para identificação correta da origem da planta. Utilizando o registro dos insumos vegetais para produção artesanal, foram identificados três estabelecimentos que comercializam produtos, insumos e resíduos vegetais do Mercado Central de Belo Horizonte. Nestas lojas são comercializadas palhas, sementes e outros materiais para artesanato. Os consumidores são artesãos que residem na região metropolitana de Belo Horizonte e da Feira Livre de Belo Horizonte. Os responsáveis dos estabelecimentos foram entrevistados e apresentam-se identificados como A B e C. Conforme figura 20, as perguntas da pesquisa e respostas dos comerciantes foram:

 

Comerciante

Comerciante

Comerciante

Perguntas sobre os insumos

A

B

C

1. Conhece os nomes das espécies vegetais (resíduos vegetais) que são comercializadas?

Somente

Somente

Alguns nomes

nome popular.

nome popular.

científicos.

2. Estes insumos são adquiridos de pessoas físicas ou de empresas, associações e cooperativas?

Cooperativas,

Cooperativas,

Empresas e

pequenas

distribuidor da

empresas e

pequenas

empresas.

Amazônia

sítio próprio.

(Açaí).

3. Qual a região de procedência?

Sete Lagoas,

Diamantina e

Cidades

próximas à

Não tem

certeza.

Barbacena.

Capital.

4. Sabe como são coletados?

Sim, períodos

Sim, períodos

 

de seca.

de seca.

-

5. Os fornecimentos destes insumos variam por estações do ano?

Sim, controle

Sim, controle

 

extrativista.

extrativista.

Não

6. O fornecimento de algum tem diminuído ou deixou de ser comercializado?

Sim, as

Sim, as

 

sempre-vivas.

Sempre-vivas.

Não.

7. Um catálogo com os nomes das espécies vegetais para o artesanato ajudaria as atividades comerciais?

 

Sim, ajudaria

 

Sim, seria

também a

Sim, com

muito bom.

informar os

certeza.

clientes.

Fig. 20: Quadro de perguntas e respostas dos comerciantes de insumos e resíduos vegetais para produção artesanal do Mercado Central de Belo Horizonte. Jun/ 2010. Fonte: MOURÃO, 2011.

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Análise das perguntas e respostas dos comerciantes de resíduos vegetais:

a) Os comerciantes entrevistados, A e B, de lojas do Mercado Central de BH, coincidiram com as respostas sobre o não conhecimento dos nomes das espécies. Relataram que a maior parte dos insumos é proveniente de pequenas empresas e coorporativas. Os mesmos também produzem materiais para comercialização.

b) As regiões dos fornecedores são o Cerrado Mineiro, como Município de Sete Lagoas e distritos do município de Diamantina. As plantações são para o extrativismo destes insumos, sendo que a coleta de sementes e folhas depende das estações. Não existem dificuldades com o fornecimento de insumos, mas as flores Sempre-vivas diminuíram e estão mais caras.

c) Os três comerciantes são a favor de ter um catálogo, com nomes científicos e fotos das espécies e dos resíduos vegetais. Um dos problemas na comercialização é que as pessoas não sabem os nomes ou o nome popular é diferente em cada região. Muitos consumidores compram escolhendo as sementes e folhas in loco ou descrevem as características do produto para a compra. d) O comerciante C, respondeu quase tudo ao contrário dos demais, coincidindo apenas que as aquisições são por empresas e cooperativas, e que seria bom um catálogo geral.

Foram consultadas duas empresas que realizam a comercialização de resíduos vegetais e insumos por site. Faz-se necessário esclarecer que foram contatos oito sites, mas que somente duas responderam. A consulta foi realizada diretamente no ―fale conosco‖ dos sites. Foi perguntado se as mesmas conhecem o nome das espécies vegetais que fornecem os resíduos vegetais e insumos comercializados e a procedência dos mesmos. Responderam que aproximadamente 2/3 dos materiais provêm da Amazônia, como o caso da semente de Açaí. Mas que também recebem materiais do Cerrado e da Mata Atlântica. As duas empresas são especializadas em produtos para o artesanato com resíduos vegetais e conhecem alguns nomes científicos.

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Alguns materiais, como o ―Tingui‖, recebem nomes variados em cada empresa. Os registros dos materiais cadastrados nos sites consultados no Apêndice A‖.

4.2.3. Contexto econômico, sócio, cultural e ambiental

Previamente, foi realizado um levantamento de dados por questionários estruturados, conforme modelo utilizado pelo ―Projeto de Implantação de Unidades

de Beneficiamento e Comércio de Produtos Oriundos da Base Produtiva Local. Este

levantamento se constituiu em ―Diagnóstico socioambiental com os produtores e

suas famílias‖ e ―Caracterização física, ambiental e econômica da propriedade‖. Efetuou-se análise do diagnóstico geral do perfil dos produtores e da situação física

da região, em parceria um dos projetos 37 do CETEC/MG.

Desenvolveram-se duas planilhas, sendo uma com as informações sociais, econômicas e ambientais dos trabalhadores rurais que também executam atividades artesanais, e outra com informações ambientais das propriedades nas comunidades.

A partir das planilhas elaboradas, criaram-se os gráficos representativos das

informações coletadas - período de 2010 a início de 2011. Estes dados são parte do

Projeto de Implantação de Unidades de Beneficiamento e Comércio de Produtos Oriundos da Base Produtiva Local, com concessão dos resultados à pesquisa. A pesquisadora atuou neste projeto.

Elaborou-se um banco de dados a partir do levantamento das informações obtidas pelos questionários do diagnóstico e inseridos em planilha com os dados participantes do curso. Os participantes executam funções de trabalhadores rurais, agroextrativistas e artesãos.

Os dados deste levantamento, executado em Janeiro/2010, serviram de suporte à estrutura da pesquisa. Foram cadastrados e entrevistados 35 moradores e pessoas que atuam com o público local (voluntários). As entrevistas foram realizadas com os participantes dos cursos de Manejo e beneficiamento dos frutos

do Cerrado, que residem em áreas diversas do município. Foi realizada uma visita à

37 Projeto de Implantação de Unidades de Beneficiamento e Comércio de Produtos oriundos da Base Produtiva Local Convênio nº. 411/2007, parceria CETEC/MG.

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comunidade de Serra das Araras, e à comunidade do Rio Catarina para verificação de dados registrados.

No quadro da figura 21, apresentam-se os resultados do diagnóstico em Chapada Gaúcha, coletados em Janeiro de 2010, analisando a renda familiar dos trabalhadores rurais: Das 35 (trinta e cinco) famílias cadastradas, 24 pessoas (70 %) responderam que a renda familiar não passa de um salário mínimo. Que conseguem mensalmente rendimentos até dois salários mínimo foram 6 (seis) entrevistados (17%). E somente 5 (cinco) pessoas (12%) possuíam rendimentos superiores a dois salários mínimos. A renda com artesanato não foi contabilizado, pois os trabalhos artesanais não influenciam na manutenção da comunidade rural.

não influenciam na manutenção da comunidade rural. Fig.21: Gráfico de Renda dos Trabalhadores Rurais

Fig.21: Gráfico de Renda dos Trabalhadores Rurais cadastrados em CG MG, em Janeiro 2010. Fonte: CETEC/Equipe do projeto, 2010.

Quanto às condições sociais das famílias cadastradas, foi verificado que as condições de moradia são de precária a simples (casas de cobertura de palhas, sem energia elétrica, baixas condições de saneamento e pouco conforto em mobiliário), conforme o nível salarial.

Entre os entrevistados com filhos, 31 pessoas declararam que os filhos (de 6 a 18 anos) frequentam a escola. Quatro pessoas responderam que as crianças não frequentam a escola por problemas particulares.

Quanto à saúde, 28 pessoas dependem do posto no município, as outras sete utilizam os serviços médicos de outro município ou recurso próprio. Mas, todos já

99

utilizaram

antepassados.

algum

medicamento

caseiro

e

confiam

nos

chás

ensinados

por

Quanto ao meio ambiente, os 35 entrevistados conhecem todos os rios que passam próximo às residências. Destes, 19 pessoas se preocupam com as condições dos rios, 11 pessoas sabem dizer se houve mudança no meio ambiente (a quantidade de água tem diminuído) e 5 pessoas declararam que não perceberam mudanças.

Os 35 entrevistados conhecem os eventos religiosos e culturais que acontecem no município, já participaram de algum deles ou participam. São os eventos da Festa das Folias de Reis nas comunidades, a Festa de Santo Antônio de Serra das Araras, e o evento anual do Encontro dos Povos. Outras datas da Igreja Católica foram citadas como Semana Santa, Dia de Nossa Senhora Aparecida, Corpus Christi e o Natal.

A Reserva Ambiental do Acari, figura 22 garante a subsistência e vegetação utilizada nas comunidades próximas à região. O gerente da Reserva Estadual Veredas do Acari e do Parque Estadual Serra das Araras, Cícero de Sá Barros, declara que é necessário orientar sempre a comunidade sobre a forma adequada para a extração de materiais e evitar incêndios.

adequada para a extração de materiais e evitar incêndios. Fig.22: Imagens das espécies vegetais, no Distrito
adequada para a extração de materiais e evitar incêndios. Fig.22: Imagens das espécies vegetais, no Distrito
adequada para a extração de materiais e evitar incêndios. Fig.22: Imagens das espécies vegetais, no Distrito

Fig.22: Imagens das espécies vegetais, no Distrito de Serra das Araras. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

100

Os agentes do IEF monitoram a região. A associação de bordadeiras de Serra das Araras solicita a coleta dos resíduos vegetais aos agentes do IEF na reserva do Acari que mantêm o controle recursos naturais.

4.2.4. Artesanato na Comunidade de Buraquinhos

Localizada na zona rural do município de Chapada Gaúcha, a comunidade de Buraquinho é reconhecida e citada regionalmente por sua beleza paisagística e pela riqueza cultural de seus moradores. Constituída por uma população familiar de origem quilombola, Buraquinho situa-se no Corredor Ecológico Vão dos Buracos, área de ligação entre o PNGSV e o PESA, apresentando fatores extremamente relevantes para a riqueza socioambiental da região (IBAMA/FUNATURA, 2003).

A estrada da Comunidade de Buraquinhos é bastante sinuosa e íngreme até a rodovia MG-606, conforme mapa 10. Esta comunidade está localizada a 25 km de distancia da cidade de Chapada Gaúcha.

a 25 km de distancia da cidade de Chapada Gaúcha. Mapa 10: Localização da Comunidade de

Mapa 10: Localização da Comunidade de Buraquinhos. Fonte: Centro de Geociências do Estado. MG, 2007

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Pela complexidade de acesso à comunidade de Buraquinhos, para cadastrar

e acompanhar o trabalho de artesanato na comunidade esperou-se o período sem

chuvas, conforme figura 23. Leva-se em média, uma hora do Centro de Chapada Gaúcha a Buraquinhos, com veículo apropriado para o terreno. O tempo da trajetória

é relativo. Algumas vezes, deve-se esperar a passagem de uma boiada ou carroças.

deve-se esperar a passagem de uma boiada ou carroças. Fig.23: Imagens da estrada para Comunidade de

Fig.23: Imagens da estrada para Comunidade de Buraquinhos. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

Em Buraquinhos, figura 24, a comunidade encontra-se geograficamente dispersa. As casas ficam dispostas ao longo do rio Pardo, guardando a devida distância de segurança contra cheias. São, na maioria, casas de adobe e cobertura de palha de buriti.

na maioria, casas de adobe e cobertura de palha de buriti. Fig.24: Chapadão da Comunidade de

Fig.24: Chapadão da Comunidade de Buraquinhos. Fonte: MOURÃO, 2011.- Equipe da pesquisa.

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As casas não possuem água encanada, tratamento de água e instalações sanitárias adequadas, figura 25 e 26. Devido ao programa ―Luz para Todos‖, algumas casas possuem energia elétrica. (O programa chegou à região a partir de 2010). Mas, algumas ainda não têm energia elétrica, ocasionando o desconforto do trabalhador rural, como por exemplo a falta de geladeira para melhor conservação dos alimento. Para limpeza, higiene pessoal ou para lavagem de louça e de roupa a água é transportada pelos moradores, diretamente nas águas do Rio Pardo, próximo da comunidade.

diretamente nas águas do Rio Pardo, próximo da comunidade. Fig.25 : Imagem do interior de residência

Fig.25 : Imagem do interior de residência - comunidadede Buraquinhos. Fonte: MOURÃO,2011 Equipe da pesquisa.

Buraquinhos. Fonte: MOURÃO,2011 – Equipe da pesquisa. Fig. 26: Imagem da fachada de uma das residência

Fig. 26: Imagem da fachada de uma das residência em Buraquinhos. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

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A comunidade vive do plantio de mandioca, milho, feijão, arroz, entre outras

hortaliças. Executam atividades manuais e principalmente produtos artesanais, pois

a região é bastante acidentada geograficamente e rica em buritis. Assim, para os

artesãos produzirem esteiras e outros objetos, basta que saiam de dentro de casa.

Os buritis estão logo ali, no entorno das residências.

Por se tratar de uma comunidade dispersa com casas distando em média 200

a 300 metros, avisou-se antecipadamente que haveria encontros entre o grupo de

pesquisa e o grupo de artesãs, que se reúnem na sede da associação. Foram cadastrados 9 (nove) artesãos, oito mulheres e um homem, presidente da Associação de moradores e artesãos de Buraquinhos e da Associação dos Quilombolas de Santa Tereza. As oito senhoras que foram cadastradas são donas de casa, produtoras rurais e artesãs.

A abordagem para a entrevista foi em grupo, apresentando o tema e a proposta da pesquisa. Cada artesã entrevistada apresentava seu trabalho e suas técnicas para todos os presentes. Registros de foto-vídeo foram realizados com autorização das participantes. Jovens, crianças e outras pessoas da comunidade se reuniram para assistir. No final, algumas dúvidas sobre técnicas artesanais foram prestadas ao público presente. Em outra oportunidade, três residências foram visitadas com intuito de verificar o processo de extração de matérias e como são os mobiliários do buriti confeccionados para uso próprio.

Na comunidade de Buraquinhos, a produção de esteiras de buriti é um ritual passado de gerações a gerações. Ninguém sabe ao certo quem começou a fazer as esteiras de buriti, mas como comunidade tradicional, eles mantêm a cultura artesanal. Uma artesã mostra como deve ser o corte da palha, sem perda de material, conforme figuras 27. Foram encontradas as espécies de Pau Santo, Pau Doce e Urucum durante as visitas.

A técnica de produção artesanal de esteiras, figura 28, é utilizada para quase

todos os produtos executados: Caminhos de mesa, suporte para panelas, revestimento de pisos, paredes e forro de telhados, divisórias, e outros, com a palha do buriti. Também usam a técnica de corte, encaixe e pegos com os talos (pecíolo)

104

da folha do buriti, para confecção de bancos grandes e pequenos, camas, prateleiras, e outros objetos utilitários de residências.

prateleiras, e outros objetos utilitários de residências. Fig. 27: Artesã apresenta a palha do buriti para

Fig. 27: Artesã apresenta a palha do buriti para produção de esteiras na comunidadede buraquinhos. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

.

Fonte: MOURÃO, 2011. – Equipe da pesquisa. . Fig. 28: Artesãs e produção de esteiras -

Fig. 28: Artesãs e produção de esteiras - comunidadede Buraquinhos. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

A comercialização do artesanato é precária, não há um local devido para estocagem dos produtos. Assim, geralmente só fazem o artesanato por encomenda. Valorizam mais o trabalho na lavoura e aproveitam os resíduos para alimentação de animais ou como adubo. Um fator interessante em Buraquinhos é a frequência destas senhoras à escola. Elas estão no Curso de Alfabetização para Jovens e adultos e se orgulham de assinarem a ficha de cadastro.

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4.2.5. Cultura e artesanato na Comunidade de Ribeirão de Areia

São percorridos 21 km, do centro da cidade de Chapada Gaúcha até a comunidade de Ribeirão de Areia. Esta comunidade situa-se no lado oposto da rodovia MG-606 em relação à comunidade de Buraquinhos, conforme mapa 11. A estrada é arenosa com travessia do córrego do Sucuri, em alguns trechos.

com travessia do córrego do Sucuri, em alguns trechos. Mapa 11: Acesso à Ribeirão de Areia.

Mapa 11: Acesso à Ribeirão de Areia. Fonte: Instituto de Geociências do Estado. MG , 2007.

A comunidade de Ribeirão do Areia é composta por famílias numerosas e muito unidas, que trabalham na lavoura e pecuária. Produz milho, feijão, hortaliças, e varias frutas do Cerrado, como: pequi, buriti, gagaita e outros. Possuem gado leiteiro e cabras. Na produção artesanal executam trabalhos com tecidos, palhas, madeiras diversas e da palmeira do buriti. Realizam encontros para desenvolverem as atividades na Associação dos Moradores de Ribeirão de Areia, figura 29.

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106 Fig.29: Comunidade de Ribeirão do Areia. Fonte: MOURÃO, 2011.- Equipe da pesquisa. Por ser uma

Fig.29: Comunidade de Ribeirão do Areia. Fonte: MOURÃO, 2011.- Equipe da pesquisa.

Por ser uma região de gado leiteiro, foi construída uma Central Comunitária de resfriamento de leite que atende à produção da comunidade, figura 30.

de leite que atende à produção da comunidade, figura 30. Fig. 30: Central de Resfriamento de
de leite que atende à produção da comunidade, figura 30. Fig. 30: Central de Resfriamento de

Fig. 30: Central de Resfriamento de Leite na Comunidade de Ribeirão do Areia. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

O grupo de artesãos realiza encontros semanalmente na sede da associação comunitária de Ribeirão de Areia. Os artesãos preferem trabalhar juntos, trocando conhecimentos, experimentando novas técnicas e contando casos, figura 31.

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107 Fig.31: Encontros semanais dos artesãos da comunidade de Ribeirão de Areia. Fonte: MOURÃO, 2011. –

Fig.31: Encontros semanais dos artesãos da comunidade de Ribeirão de Areia. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

Nos encontros, os artesãos tratam também das atividades culturais da comunidade, com distribuição de tarefas, figura 32. Depois das atividades, sempre tem um lanche comunitário com a colaboração de todos, figura 33.

O estabelecimento de contato prévio com a presidente da ―Associação Comunitária de Ribeirão de Areia‖ favoreceu a presença e participação de todos. Foram cadastrados 22 (vinte e dois) artesãos.

de todos. Foram cadastrados 22 (vinte e dois) artesãos. Fig. 32: Artesãs dividindo tarefas da comunidade.
de todos. Foram cadastrados 22 (vinte e dois) artesãos. Fig. 32: Artesãs dividindo tarefas da comunidade.

Fig. 32: Artesãs dividindo tarefas da comunidade. Fig. 33: Lanche comunitário após as atividades artesanais. Fonte: MOURÃO, 2011.Equipe da pesquisa.

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A abordagem aos artesãos para as entrevistas deu-se especialmente no

galpão aberto da associação. Neste encontro, artesãos e seus produtos e técnicas foram apresentados à pesquisa. Na associação comunitária também foi criado o Grupo ―Mãos que brilham‖ que realiza artesanato com materiais diversos. Na figura 34, demonstração da técnica de tranças para produção artesanal de vários objetos.