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FU~DAÇÂO GETULIO VARGAS I~STITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS E PESQUISAS PSICOSSOCIAIS CENTRO DE POS-GRADUAÇÃO DI

FU~DAÇÂO GETULIO VARGAS

I~STITUTO SUPERIOR DE ESTUDOS E PESQUISAS PSICOSSOCIAIS

CENTRO DE POS-GRADUAÇÃO DI

PSICOLOGIA

ROMANCES PSICANALrTICOS E A CULTURA DA PSlCAN~ISE:

FATO EM FICÇAO

MARISA DOS SANTOS VIAL~E

DA PSlCAN~ISE: FATO EM FICÇAO MARISA DOS SANTOS VIAL~E FGV/ISOP/CPGP Botafogo, Praia de 190, sala Rio

FGV/ISOP/CPGP

Botafogo,

Praia de

190,

sala

Rio

de

Janeiro

-

Brasil

1108

FATO EM FICÇAO MARISA DOS SANTOS VIAL~E FGV/ISOP/CPGP Botafogo, Praia de 190, sala Rio de Janeiro

AGRADECIMENTOS

Ao Professor

Luiz

Felipe

Baêta Neves

Flores,

pela

su-

gestão

criativa e orientações deste trabalho.

 

Ao

Professor

Celso Pereira

de

sã,

por

suas

sugestões

calmas,

amizade

leal,

confiança e orientação

final.

lo

e

Ao Professor

Franco

constante

generosidade.

Lo

Às

amigas

do

grupo de

Presti

Seminério,

pelo

estÍmu-

estudo, pela

oportunidade de

com

partilhar dificuldades e apaziguar anseios.

sOlidariedade.

Agradecimento particular a Débora , por sua datilografia entu -

Aos

funcionários

do

CPGP/ISOP

e

IESAE:

siasmada

e cuidadosa.

A ErcÍlia,por

sua

impassível

revisão.

A

Jonaedson,

um

apoio

tenso

num momento

difícil.

 

Ao

Conselho

Nacional

de

Desenvolvimento

Científico

e

Tecnológico

-

CNPq,

pelo

fornecimento de

bolsa para a realiza

-

ção dessa pesquisa.

 

A

todos que, direta

ou

indiretamente, colaboraram para

a

realização

deste

trabalho.

:.

"

11

RESUMO

Este

trabalho

constitui

canálise

nar cultura da psicanálise.

considerados

objeto

do

que

o estudo

ps!

já se convencionou denomi-

de

romances

de

A análise desses romances permitiu o estabelecimen-

e

algumas das formas pelas quais esta é socialmente representa-

da: as formações discursivas extraídas das narrativas mostra- ram a relação existente entre esses textos e o macrocontexto cultural.

to

de

correlações entre

a divulgação

massiva da psicanálise

 

Assim,

foi

possível

demonstrar que

as

formações

ima

ginárias

apresentadas

nos

textos

e

a representação

social

da

psicanálise correspondem a diferentes tura da psicanálise".

iii

níveis

desta mesma "cul-

SUMMARY

This paper consists

on

a

study of psychoanalisis

noveIs.

Such noveIs

are

considered objects

of what

has

abuady

been determined

to

call

"the culture of psychoanalisis".

The

analysis

of

these noveIs provided

the

establishment of correlations

betiween

the

massive

spread of

psychoanalisis and some of the ways by which it

is

socially

represented:

the discursive

formsts

taken out

of

the

narratives showeu

the

relation

that

existes

among

these

texts

and

the

cultural macrocontext.

Thus.

presented

it was possible to show that the imaginary

in

the

texts

correspond

to

and

the

different

social

leveIs of

formations

of psychoanalisis.

"culture of psychoanalisis".

representations

the

sarne

iv

INTRODUÇAO

o objetivo deste trabalho é identificar e analisar

'noçoes concernentes à psicanálise encontradas em narrativas ficcionais, mais especificamente, em algumas narrativas que participam do que se pode denominar "li teratura de massa ou de

mercado." (Sodré, 1985)

Parte-se

do

pressuposto

de que existe um tipo de na!

rativa ficcional

por suas próprias características, estar aproximada da narra- tiva psicanalítica, sendo mesmo denominada "romance psicanali tico". Haveria, portanto, algo explorável em literatura de mercado - um gênero psicanalítico, assim caracterizável por possuírem essas narrativas conteúdos provenientes da psicaná- lise, ou seja, a psicanálise seria apropriada como o filão dessas narrativas. Enfim, a veiculação muito particular de no ções, conceitos e idéias da psicanálise e idéias sobre a psi- canálise, neste gênero narrativo, constitui um "espaço psica- nalítico" na literatura. E o objetivo desta dissertação é ex-

destinada

ao

grande

público,

que

pretende

plorar um recorte desse espaço.

 

Se

o "romance

psicanalítico"

se

apropria de

conteú

dos

da psicanálise,

esses

mesmos

conteúdos,

divulgados

nessas

narrativas,

temente

de

difundem valores

sobre

a psicanálise

(independen-

corresponderem ou não

à psicanálise

stricto

sensu)

2

-

sendo passíveis

de

serem diversamente

apreendidos.

nálise

que

A difusão

decorre

de

destas

idéias

da psicanálise

sobre

participa do que

e

narrativas

a psic~

se pode

denominar

"cultura da psicanálise.

Segundo

Figueira

(1985,

p.

7):

 

"Uma

cultura

psicanalltica

(seja ela ameri-

 

cana~ francesa~ brasileira~ etc.) pode ser

definida e pro tanto analisada~ de modos di

Versos (como 'ideologia' ~ 'visão de

mundo' ~

'sistema de representações' etc.)~ e arti- culada à sociedade como um todo (ou a elas ses e segmentos sociais) segundo diferen = tes perspectivas teóricas. Sabe-seI ainda~ que uma cultura psicanalltica mantém uma relaçâo complexa com instituições e têcni- cas de poder~ inspirando-as e por elas se~ do ampliada e difundida~ através de proce~ sos que já foram chamados 'modernização' ~ 'disciplinação persuasiva' ~ 'neutralização' e 'apolitização' etc." (grifo nosso)

As

narrativas

ficcionais

de

psicanálise

podem

ser

incluídas nesta cultura da psicanálise porque são também "ins piradas" por ela~ difundem idéias da psicanálise (ainda que refratariamente) ~ e permitem a apreensão de valores sobre es- ta, ou seja, contribuem para a formação de representações so- bre a psicanálise, que se encontram no imaginário social.

Para este trabalho foram escolhidos quatro textos básicos a partir dos quais a análise será desenvolvida. A es- colha, explicada a seguir, abrigou um critério geral: textos que desenvolvessem em seus enredos a descrição de problemas emocionais ou de distúrbios psíquicos analisáveis ã luz da

3

psicanálise.

o primeiro texto é Nunca lhe prometi um jardim de

rosas (1974), escolhido por ser um dos mais conhecidos nesse gênero e grande sucesso de vendagem, tendo sido, inclusive, a

base

mo

para a criação do

romance.

do

roteiro

de

um

filme

que recebeu o mes-

nome

A segunda

narrativa

é Bem-vindo

silêncio, (1988)

e~

colhido por tratar-se de obra de produção recente, e poder ser

tomada como parâmetro de contra posição ao trabalho anterior.

o terceiro

selecionado porque

visão

a

é

(1972)

e porque

contém uma

Vida-intima de

trata diretamente da esquizofrenia

uma

esquizofrênica

,

sobre

a psicanálise

que

difere

da-

quelas

existentes

nos

dois

trabalhos

anteriormente menciona -

dos.

 

o quarto eúltimo

texto

é

o

livro

de

contos A

hora

de

cinqUenta minutos,

(1972)

escolhido porque oferece

diver-

sas

nuanças

sobre

a

psicanálise,

vez

que

se

constitui

de

cin-

co

estórias

diferentes.

 

As análises serao feitas sobre textos traduzidos ,

e

nao

sobre

originais,

fato

que

nao

inviabiliza o trabalho

já que este se refere à análise de narrativas em função da di fusão da psicanálise, e as traduções escolhidas são as que ch~ gam ao grande público e possibilitam a existência do genero literário escolhido, que é, no nosso contexto editorial, am-

4

pIamente

dominado

pela

literatura estrangeira.

Os textos escolhidos estão intitulados como "roman ces psicanalíticos" e fonnamuma série editorial que pertence ao que já se denominou gênero psicanalítico na literatura de mercado. Para que textos possam ser classificados como perte~ centes a um gênero é preciso que estejam submetidos a um con- junto de coerçoes comuns. Entende-se, neste trabalho, que uma análise de textos genericamente organizados deve observar esse "conjunto de coerções", atentando para o sentidos possí- veis de serem apreendidos nessa intertextualidade, que permi-

tam relacioná-los

ao

macro-contexto

da

cultura.

consistiu numa primeira e "dis-

tanciada" leitura dos textos indicados seguida da execução de

O método

utilizado

descritivo-antropológico,

o qual

possibilitou

a

um trabalho identificação

de

idéias-chave que orientaram a análise

dos

textos.

Esse procedimento permitiu recortar categorizações

dessas narrativas e reordená-1as de duas formas: sintagmática

e paradigmática. O procedimento inicial, que permitiu a iden-

tificação de idéias-chave, foi o mesmo que permitiu estabele- cer sintagmas narrativos. E, conforme ensina Barthes (1984) , "é lógico começar o trabalho pelo recorte sintagmático, pois

é ele, em princípio, que fornece as unidades que se devem tam bém classificar em paradigmas."

6

Aplica-se,

neste

trabalho,

tanto

é definido

a

aspectos

por

1ingUísticos quanto

et

a1ii

(1988,

p.

Reis

o

conceito

de

narrato1ógicos,

292):

sintagma

como

tal

"O te~mo sintagma i utilizado em lingU{stica pa~a designa~ um conjunto de unidades suces sivas., linea~mente dispostas ao longo de uma extensão tempo~al., combinadas segundo ~e­

a

g~as de co-oco~~ência. Em na~~atologia., exp~essão sintagma designa o p~óp~io discu~

so na~~ativo., o conjunto a~ticulado e

se-

qUencialmente

ordenado

de

enunciados

que

vinculam

a

história.

Trata-se

de uma expre~

sao

que

não

delimita

rigorosamente

uma

ex-

tensão.,

que

pode

ser

utilizada

para

re-

ferir

o

discurso

na

sua

globalidade

ou

ape-

nas

uma

parcela

desse

discurso.

A

leitura

linear

de

um

texto

na~rativo implica

sempre

um

'itinerário'

ao

longo

does)

sintagma

(s)

narrativo(s)

que

perfaz(em)

a

estrutura

de

superf{cie."

A partir dos sintagmas narrativos de um desses ro- mances e do próprio discurso dessa narrativa, identificou- se um conjunto de unidades sucessivas co-ocorrentes - o encadea- mento: "doença", "tratamento", "cura", "a presença do psicot~ rapeuta", "a existência do doente". Nos termos de uma análise semiótica, dir-se-ia que a partir da mensagem foi possível a identificação de códigos que, nesses romances psicanalíticos, pelo seu próprio genero, se caracterizam pela simplicidade.

Os

aspectos

paradigmáticos

ou

(sistêmicos)

sao

a-

queles que apresentam as várias formas pelas quais esses mes- mos temas podem ser apresentados - por exemplo, a ordenação horizontal de todas as formas de cura apresentada em cada uma

7

das narrativas. O estabelecimento dessas variações ou paradi& mas permite que se efetuem contraposições intertextuais, e

formam parte da conclusão deste trabalho.

 

Além das

decodificações

dos

"tratamentos psicanali

 

-

ticos"

narrados,

identificaram-se

aspectos

informativos

pro-

prios

do

gênero

literário

e

que

estão

explícita e implicita

-

mente

expostos

nas

narrativas:

através

da presença de

expres-

sões

conceituais próprias da psicanálise,

ou

através

da

cons-

trução narratológica de

simulacros

terapêuticos.

 

As

decodificações

e

os

aspectos

informativos

des-

critos estão no nível dos conteúdos narrados, ou seja, rela -

cionam-se a história ou a fábula narrativa (Reis e alii, 1988). Contudo, as narrativas decompõem-se, metodologicamente, em

história e discurso, que é o plano da expressão dos

teúdos. Umberto Eco (1979) utiliza o conceito de enredo refe- rindo-se i história tal corno é contada, e acrescenta que num texto narrativo o enredo identifica-se com as estruturas dis-

cursivas que, uma vez atualizadas pelo leitor, permitem-lhe

formular

con-

~

macroproposições

discursivas. -

~

do

conceito de discurso, afirmam a possibilidade de se estabele- cer um elo de ligação entre a acepçao narratológica de discur so - plano da expressão dos conteúdos narrados (ou história) - e a concepção benvenistiana de discurso, porque

Reis

et alii

(1988),

a propósito

da definição

------~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~-----------------------------

8

"o

discurso

narrativo

 

o

produto

do

ato

de

enunciação

de

um

narrador

e

dirige-se,

ex-

plicita

ou

implicitamente,

a

um

narratório,

termo

necessário

de

recepção

da

mensagem

narrativa."

Partindo-se

(p.

27)

dessa

relação,

pretendeu-se

ainda,

ne~

te

trabalho,

proceder-se

à apreensão

de

possíveis

sentidos

(ideológicos)

referentes

à psicanálise.

Por meio

da

análise

de

gens,

rativas

enunciados,

cujos

sujeitos

de

enunciação

sao

as

procurar-se-á efetuar análise dos discursos

ficcionais.

persona

dessas

nar-

No entanto, para que um texto exiba sua ideologia e preciso que ele seja também investido de juízos de valor p~ lo leitor (Eco, 1979). O objetivo desta dissertação - a análi se de "romances de psicanálise" - depende, para sua produção, em grande medida, do trabalho de leitura. Esta nunca é "neu - tra" , pela própria recorrência que qualquer leitor faz a sua competência (informações provenientes de outros textos), afim de preencher os vãos inerentes a qualquer texto.

As

leituras procedidas para a execuçao deste

traba

lho também não o são - certamente foram preenchidos os vaos

desses textos por leituras anteriores. Por outro lado, a e-

xecução deste trabalho resultou num outro preenchimento aquisição de um texto para formulações posteriores.

na

9

I

-

ANALISE

DE

INTERPRETAÇAO DE NARRATIVAS

l-NUNCA LHE PROMETI

UM JARDIM

DE

ROSAS

A sinopse

desse

romance

apresenta Nunca

lhe prome-

ti um j ardi'1l de rosas da seguinte forma:

"O relato da experi~ncia de uma adolescente que aos 16 anos - após um longo processo de sofrimento e progressiva alienação men- tal - foi internada num Hospital Psiquiá - trico durante tr~s anos ~ feito de modo e-

mocionante

por

Hannah

Green.

Nunca lhe prometi um jardim de rosas cons- tituiu, hã alguns anos, um best-seller de grande sucesso nos pa{ses de lingua ingle- sa. Discorre sobre a vida dessa jovem psi- cótica, dissecada atrav~s do tratamento psi coterápico. Hannah Green leva o leitor a vivenciar os mundos de Deborah, ricos, con

flitantes

e·apaixonantes.

O mundo exterior, figurado por sua familia, do qual se sente impossibilitada de parti- cipar, devido aos conflitos oriundos do re

esquemas

carregados de preconceitos. Seu mundo inte~

e8=

rior,

lacionamentos

que

baseados

de

em

velhos

~ povoado

seres

cósmicos,

petaculares

gia, opondo-o aquela realidade dif{cil de I

viver. O conflito entre esses dois mundos

últi-

e a

e ~randiosos, onde ela se ref~

fuga

de

Deborah

para

o

paulatina

mo

um

dos

quadros

mais

fascinantes

do

li

vro.

 

Hannah

Green,

magistralmente,

nos

põe

em

contato

com

um

terceiro

mundo,

o

do

Hospi-

tal

ro

cionamentos,

Psiquiátrico

dos

encontros,

o

e

seus

habitantes. O biza!:

dos

rela-·

nes.

a

impacto

complexidade

das

descobertas

se

ambiente

aparentemente

morto;

o

univer-

so

limltrofe

do

mundo

dos

'sãos'e

dos

'in-

sanos';

e consolador

o

aspecto

desse

ao

mesmo

terceiro

tempo

mundo

punitivo

fami

nos

10

~iariza aom as

dimensões

humanas~ que

nhum momento são neg~igenaiadas~

mesmo

promessa

de

um

Jardim

de

rosas."

em

ne-

a

sem

Essa narrativa envolve, pois, três temáticas: a vi

da interna da personagem psicótica, seus delírios - (o reino de Yr e seus personagens); o mundo externo da jovem psicótica, figurado pelos conflitos com seus familiares e suas inadapta- ção aos valores desses; e a experiência de Deborah Bloch du- rante sua internação em hospital psiquiátrico. Neste, Deborah

é tratada de sua esquizofrenia. Aí, dá-se, também, o acompa -

nhamento psicanalítico realizado pela personagem daDra. Fried, mediante o qual a cura se realiza. Esta personagem, Dra. Fried,

é a narradora da história, mais especificamente. é a narrado-

ra homodiegética.* Este aspecto é importante. e deve serobser

vado. Como mostra Reis et alii (1988),

*"De

acordo

com

a

terminologia

proposta

por

Genette

(1972m

p.

.~

252 e segs.) o narrador homodiegetico ê a entidade que vei- cula informações advindas da sua própria experiência diege- tica, quer isto dizer que, tendo vivido a história como per- sonagem, o narrador retirou daí as informações de que care- ce para construir o seu relato, assim se distinguindo donar rador heterodiegetico, na medida em que este último não dis põe de um conhecimento direto. Por outro lado, embora fun ~ cionalmente se assemelha ao narrador auto-diegetico, o nar- rador homodiegetico difere dele por ter participado na his- tória não como protagonista, mas como figura cujo destaque pode ir da posição de simples testemunha imparcial a perso- nagem secundária estreitamente solidária com a central."

(Reis

et.

alii,

1988).

11

"A narrativa instaurada pelo narrador homo- diegético suscita leituras interessadas no recursos a códigos temporais e de focaliza ção ativados em tal situação narrativa ~ Mas, além disso, a análise do discurso nar rativo de um narrador homodiegético valori zará também os termos em que se configura

a imagem do protagonista, a partir de um

critério de observação genericamente teste munhal e exterior, da{ que assuma, neste caso, um especial destaque a análise dos registros da subjetividade (registros do

discurso), na medida em que nesses se pro- jetam ju{zos que o narrador homodiegético

que para o narrador auto-

diegético é confronto de imagens de um su-

jeito (ele próprio) em devir, pode compli- car-se, no caso do narrador homodiegético,

o que estará em causa, então será um con-

fronto de personalidade cujo devir é tam - bém o de uma relação interpessoal com inci

dências mais ou menos profundas no campo i deológico." (Reis et alii, 1988, p. l24)

perfi lha. Aquilo

a conseqUência desse

regis-

tros de subjetividade que implica maior aproximação do regis-

tro psicanalítico.

bre

descrições

cas".

estatuto

relação

da narradora

Em

à presente

é exatamente

ficção,

o destaque

dado

aos

Esta ficção

das

está repleta de

inferências

tanto

s~

das

a subjetividade

personagens,

quanto

das

constituintes

literárias,

"interpretações psicanalíti

Observe-se

o seguinte

exemplo:

"(

Reinou um si lêncio intranqUi lo e, sem

saber

mente Linda, 'a autoridade psicológica' da

)

por

que,

Deborah

encarou provocativ~

Ala,

que

havia

lido

tudo

sobre

o

assun-

to

e

vivia

distribuindo

jargões

como

quem

distribui

moedas,

afirmações

de uma levia~

dade

temerária,

em

suma,

fugia

à

dor

envol

vendo-a

em

palavras

pomposas

e

eruditas.

Linda,

apavorada

com

o

olhar

e

a

definição

da

d{culo.

antagonista,

investiu

você

furiosamente:

apenas

Ri-

raciona

Rid{culo.

está

12

Zizando

(p.

243~

o

seu

grifo

pr5prio

nosso).

sistema

de

defesa."

Ou, ainda, estes outros, nos quais a narradora descreve os

pais da jovem esqui zofrênica. Vej a-se que essas descrições co!.

respondem, simul taneamente, à

lógicos aos comportamentos ou ações das personagens. As des- crições estão imbuídas de interpretações dessas subjetivida -

atribuição de s ignificados psic~

des:

 

"(

)

Dos

tr~s o

pai

parecia

o

mais cansa

do (

). Voc~ sabe~ não sabe~

que

eu

nãõ

tinha

a

menor

noção

de

como educar uma cri

do

que

significa

ser

um

pai.

Defen=

dia-se

e

sua

defesa

era

em

parte

uma

a-

gressão

(

)."

(p.

7"

grifo

nosso)

"(

)

Dos

eZa

era

a

mais

anaZltica.

Antecipava-se às coisas (

) enquanto o

marido se

deixava

não

s5

por

como-

dismo~ mas

também

porque

geraZmente

era

eZa quem tinha razão.

NaqueZe

momento

tia-se

confuso

e

s5.

Deixou-a

entregue

a

seus

pZanos

e especuZação~ incZusive

por

que

era

assim

que

eZa

se

consoZava

"

(p.

grifo

nosso)

"(

e que sempre escamoteavam a questao cruciaZ~ invariaveZmente terminavam num cZima mudo "

de rancor e acusação

)

As

discuss5es

entre

eZe

(p.

Esther"

nOS80) •

Os

trechos

acima

demonstram,

ainda,

que

essas

des-

crições

das

personagens,

além de

formular

interpretações

so-

bre

suas

a

subjetividades,

de

que

a

essência

à

correspondem

exprimem outra

cio

fenômeno

das

idéia cara à Psicana-

correspon-

as

presentes

lise,

de

sões

psíquico

não

necessariamente

não

aparência

sempre

às

ações,

ou melhor

Estão

expre~

intenções.

13

tanto

ter-relações,

mostram esses

nas

subjetividades

marcas

das

personagens,

e

estão

sua

quanto nas

suas

de

antagonismo

quais

após

ambigUidade,

cescritas

internação:

tal

açoes

trechos,

de

nos

e

timentos

do

pai

Deborah,

"(

)

Meu Deus~

como

ri

essa

noite.

H~ s~­

culos nao me divertia tanto! Calou-se. pen -

sativo

Puxa!

Serâ

que

foi

mesmo

tantã

h~

in-

como

sen-

tempo?

Anos?

 

-

Sim

-

disse

ela

(mae)

-

foi

muito

tem

po.

   

-

Então

talvez

seja

verdade

que

ela

estava

(

)

infeliz.

 
 

"

Doente

fo ---nõ$Sõ) •

-

-

emendou

Esther

 

(p.

27~ gri

"(

)

Vamos

esperar

mais

um

pouco

Jacob.

Esther sabia~ contudo~ que esse

'esperar

-

um-pouco'

era

mais

uma

das

portas

por

onde

ele

se

esquivava

discretamente

dos

proble-

mas.

Ou

seja:

feche

os

olhos

e

pronto!

 

Tu-

do

volta

a

correr

as mil

maravilhas •

"

(p.

lJ6).

 
 

Em suma,

o que

se

observa; que em toda a narrati-

va,

o romance

está

imiscuído de

explicações psicanalíticas.T~

dos

os

sintagmas

próprios

ao

genero

-

a

doença,

suas

causas,

o tratamento,

a

cura e

as

personagens

estão

claramente

referi

dos

ao

registro

psicanalítico,

imprimindo-lhe, finalmente, um

- esquizofrenia; tratável pela psicanálise. Esse sentido, que

a

sentido que pode

ser depreendido da sua

leitura

o

de

que

vai

se

ordenando

atrav;s

de muitas

enunciações

diluídas

por

toda

a narrativa

e

que

correspondem a

id;ias provenientes

da

psicanálise; permitem, pelo modo como são apresentadas, a for

14

mulação

de

valores

sobre

a

Psicanálise.

Essas

a

enunciações

fim

se-

rão

aqui

apresentadas

numa nova

mais

claramente

as

concepções

de

romance.

 
 

Em primeiro

lugar,

a

demonstrada pela

cro.

comportamento

frenia.

exposição

Este,

além de

na

disposição,

expor

Psicanálise existentes neste

de

se

esquizofrenia

um

da paciente laudo-simula

ao

sobre

descrever

a

-

e

narrativa

de

tornar verossímil

descreve,

a

também,

ficção,

o

da paciente,

em seguida:

esquizo-

Veja-se

"Blau,

Deborah

F.,

l6

anos,

Hosp.

Prev.

nenhu.,

Diagnóstiao

iniaial:

esquizo

-

frenia.

l.

Teste

-

Os

testes

evidenaiam

um

quoaiente

de

inteligênaia

(l40-l50;

elevado,

embora

oaorram

distorções

nas

amostragens

resul-

tantes

da

doença.

Varias

questões

mal

in-

terpretadas,

de maneira exaessivamentes~

jetiva.

Reação

inteiramente

subjetiva

ã

entrevista

lidade

te

sivos

e

revelaram

testes.

testes

aomportamento

Os

persona

tipiaamen=

de

esquizofrêniao,

e

aom

aomponentes

aompul

masoquistas.

2. Entrevista (iniaial; - De inlaio, a paai-

nos

ente pareaia bem orientada e lógiaa

seus pensamentos, mas aom o desenrolar da entrevista, a lógiaa aomeçou a ruir, ela passou a demonstrar extrema ansiedade di- ante de tudo que pudesse ser interpretado aomo aorreção ou arltiaa. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador aom sua perspiaáaia, utilizando-a aomo uma formi- dável defesa. Em três oaasiões diferentes, riu inoportunamente: a primeira, quando dealarou que a hospitalização resultara de uma tentativa de suialdio; as duas outras, por oaasião de perguntas relativas à data do mês. À medida que prosseguia a entre - vista, sua atitude foi mudando. Começou a falar alto, aitando episódios aasuais de

15

sua

vida

que

considerava

responsáveis

por

sua

doença.

Mencionou

uma

oFeração

aos

cinco

anos

de idade~

cujos

efeitos

foram

traumáticos~ uma babá cruel~ etc. Os inci

dentes não tinham relação er.tre si~ nem se inclu{am em qualquer padrão. Subitamen te~ em meio à narrativa de um acontecimen to~ a paciente avançou~ dizendo em tom a= cusador: ' Eu diss e a verdade sobre essas coisas~ e agora~ vai me ajudar?' Conside- ramos melhor encerrar a entrevista.

3.

- Illinois~ outubro de 1932. Amamentada até

em

o

História

familiar

mês.

Nasceu

em

Chicago

~

oitavo

Uma irmã~ Susan~ nascida

193?

Pai~ Jacob Blau~ contador~ cuja fa-

m{lia

emigrou

da

Polônia

em

19l3.

Parto

normal.

Aos

cinco

anos

de

idade

a

pacien-

te sofreu duas

tumor no aparelho urinário. Dificuldade fi nanceiras obrigaram a fam{lia a se mudar-

operações

para

extipar

um

para

a

casa

dos

avós~ nos

suburbios

de

Chicago.

A

situação

melhorou~ mas o

pai

adoeceu;

úlcera

e

hipertensão.

Em

1942

a

guerra forçou-os a mudar para a cidade. A paciente não se ambientou~ tendo sido ri- dicularizada pelos colegas de escola. Pu- berdade fisicamente normal. Aos le anos ~ contudo~ a paciente tentou suic{dio. Ha antecedentes de hipocondria na fam{lia ~ mas exceto o tumor~ a saúde tem sido boa."

(p.

le/l?).

Além disso,

a

esquizofrênica

se

caracteriza por

e~

tar

ra tratá-la.

caracteriza por possuir um texto particular.

te:

imersa num mundo próprio

Disso pode-se

ao

qual

é preciso

ter acesso pa-

se

depreender que o esquizofrênico

Veja-se

o segui~

"(

) as linguagens~ os códigos~ os sacrif{-

cios não passavam de expediente que ela mani pulava para sobreviver num mur.do anárquico e

opressivo •

".(p.

le?)

16

 

A esquizofrenia

se

caracteriza,

então,

pelo

compo!

tamento

manifesto

da

personagem,

e

este

corresponde

aos

mas

da

doença.

Veja-se

nessa outra passagem uma descrição

de

sintomas

da

esquizofrenia:

"r

) Antes do incidente Deborah apresenta-

 

va um comportamento mórbido e siLencioso ~ ou então, mórbido e satirico~ um rosto inva riaveLmente inexpressivo~ maneiras sarcásti cas e superiores. Eram sintomas inegâveis da

grave doença mentaL. Comportava-se~ atual - mente, como todas as pacientes da Ala D, ou

seJa~ estava 'maluca' nosso).

" rp. 203~

grigo

 

Esses

sintomas,

no

entanto,

nao

sao

a doença.

Essa

idéia

é

várias

vezes

repetida na narrativa,

inclusive

como

o

motivo

pelo

qual

a

terapia psicanalítica

se

justifica como

a

mais

adequada,

tal como esta enunciada nesse

trecho:

 

"( •

)

No

entanto,

um

outro

aspecto que

 
 

você parece admitir, a doença e os sintomas

são coisas distintas~ ainda que se confun - dam freqUentemente. você não concorda que~ embora os sintomas estejam intimamente rela

cionados

â doen

a

e

in

luam

or

Vezes

sobre

ela, nao se trata a mesma coisa? Concor o."

 

rp.

lOl,

grifo

nosso).

 

Ou,

ainda,

 
 

"Por

favor,

os

meus

sintomas

nao

sao

 
 

a

minha

doença."

rp.

l?3).

 

E,

aqui,

 

17

"2

importante

que

fique

alaro

que

os

sinto-

mas

não

são

a

doença

-

disse

a

doutora.

Tais

sintomas

re

resentam

de

dela

se

proteger.

Aare

item

ou nao~

a

doen

 

ê

o

üniao

solo

firme

de

que

Deborah

dis

poe.

2 este

solo

"

(p.

ll6~ grifo

nossoT.

"(

) Os sintomas~

a

doença

e

os

segredos

têm muitas razões

de

ser.

As

partes

e

faae

tas se emaranham~ fortaleaendo-se mutuamen

te

(

)"

(p.

2l2)

1:

ainda

que

as

causas

da

doença, na narra ti va,

sao

di to complexas,

e

por

isso

o

tratamento

consiste na busca

de

causas

pessoais

ou

verdades

pessoais.

Vê-se

isso

enunciado no

trecho

seguinte

no

qual

a

Dra.

Fried

é argUida pela mãe

de

Deborah

sobre

quais

as

causas

da

doença:

 

"(

)

Sabe

todos

esses

dias

não

paramos

de

pensar

em

aomo

e

por

que

isso

aaonteaeu

Ela

reaebeu

tanto

amor.

Disseram-me

que

es

sas

doen

as

são

aausadas

elo

assado

 

e p~

la

infanaia

da

pessoa.

Por

isso

to

os

es-

ses

dias

não

paramos

de

pensar

sobre

o

pas

sado. Eu proaurei~ Jaaob proaurou~ e

toda

a

fam{lia

pensou

e espeaulou~ e ainda

as-

sim

não

aonseguimos

enaontrar

qualquer

ra-

zão.

Não existe uma aausa~ entende~ e é i~

so

que

nos

assusta.

-

As

aausas

são

tão

vastas

que

é imposs{

-

vel

peraebe-las

de

difiailmente

ahegaremos

a

aompreendê-las

em

toda

aomplexidade. Podemos~ isso~ sim~

sua

aontar

a

nossas

sas

verdades

pessoais

pessoais

"

(p.

33~

e

grifo

loaalizar

aau

nosso).

A esquizofrenia

possui,

então,

causas

complexas.

Essa

complexidade,

ver-se-á

a

seguir,

implica que

as

causas

não

são

necessariamente

nem hereditárias

nem adquiridas:

18

"(

)

Estou

pensando

na

diferença

que

entre

a

m~ conduta

e

a

felonia

(

).

O

prisioneiro

se

declara

culpado,

recusan-

do

nhum

a

setença

mal

de

grave,

que

e

não

agora

é

aceita

portador

o

de

ne

veredia

to de culpado por loucura em primeiro grau. - Em segundo grau, talvez - corrigiu
to
de
culpado
por
loucura
em
primeiro
grau.
-
Em
segundo
grau,
talvez
-
corrigiu
a
doutora
sorrindo,
nem
preme

E,

ainda,

implica que

o desenvolvimento

da

esquiz~

frenia depende das experiências vivenciadas pelo individuo e do desenvolvimento e estruturação de seu psiquismo, conforme

informam os seguintes trechos:

"-

Minha

mãe

lhe

contou

tudo

respondeu

Deborah

asperamente,

das

altas

e

gélidas

regiões

de

seu

reino.

-

Sua

mãe

contou

o

que

ela

lhe

deu 1

nao

   

-

o

que

você

recebeu,

o

que

ela

viu,

nao

o

que

voce

viu.

Falou

por

exemplo

daquele

tumor

"

(p

45).

 

Ainda

aqui.

"-

Eu

me

pergunto

se

nao

um

padrão

de

conduta

(

)

-

disse

a

Dra.

Fried

-

vo-

expõe

 

um

segredo

a

nossos

olhos,

de-

pois

fica

tão

apavorada

que

foge

para

se

esconder

 

em

pânico

ou

em

seu

mundo

miste

rioso

 

"

(p.

6Z).

 

E,

finalmente:

19

"(

)

Tinha nOVe anos (

). No entanto~

desde

aqueZe

ano

(

)

aZguma

coisa ( .•. )

começou

a

funcionar

maZ

neZa.

Da{

em

di-

ante

baixa

foi

como

esperando

se

ela

mantivesse

a

cabeça

peZas

bofetadas.

-

Esperando

pelas

bofetadas

(

)

repe

-

tiu

a doutora~

pensativa.

E

então

veio

a

época~ isso

depois~ a época

mesma

começou

a

providenciar

em

as

que

ela

pancadas.

-

Esther

voltou-se

para

a

doutora:

-

t

isso

que

é

a

doença?

 

- Um

sintoma

talvez

(

• )."

(p.

42)

Uma

conseqUência

dessas

idéias expostas é que

o

tratamento psicanalítico

está

justificado na narrativa,

ou

se

ja,

o tratamento

consiste na busca de causas pessoais,

e

des-

sa

reconstrução

resulta a cura.

Esse

processo

de

"contar ver-

dades

na

neste

pessoais

do

exemplo:

revisão

e

passado

localizar

e

da

causas

pessoais"

consiste,

ainda,

isso,

infância da doente.

Veja-se

"(

)

Muito

interessante!

-

dis8e

Purii.

-

de

duas

uma:

ou

eu

estou

ou voce construiu essa história inteiri-

nha aos

cinco

no

dia

em

que

entrou

e

viu

o

bebê

no berço~

odiando-o

o

8ufi-

ciente

para

desejar

matã-Zo

(

).

- Não é poss{veZ~ eu me Zembro ( •.• ).

E,

ainda

- A vergonha que~ segundo você, seus pais sentiam todos esses anos ê uma inven ão

e cuZpa por ter dese-

o

seu

sentimento

jado

a

morte

de

Suzy

(

)."

(p.

223).

aqui:

20

"(

Os pensamento 'de Deborah recuaram no

tempo até aquele fat{dico quarto: viu-se

aos cinco anos olhando~ junto ao pai~ a ir

)

mazinha.

Seus

olhos

estaVam

no

n{vel

dos

nós dos dedos

da

mãe

de le.

Por

causa do cor

tinado

dos

ta

do berço~

pés

e