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Cadernos do Grupo de Altos Estudos | VOLUME I Programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ

Design para a inovação social e

sustentabilidade | Comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais

Ezio Manzini

Rio de Janeiro, 2008

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© Ezio Manzini / E-papers Serviços Editoriais Ltda., 2008. Todos os direitos reservados a Ezio Manzini / E-papers Serviços Editoriais Ltda. É proibida a reprodução ou transmissão desta obra, ou parte dela, por qualquer meio, sem a prévia autorização dos editores. Impresso no Brasil.

ISBN 979-85-7650-170-1

Coordenação de tradução

Carla Cipolla

Equipe

Elisa Spampinato, Aline Lys Silva

Diagramação

Livia Krykhtine

Revisão de textos

Gustavo Paape

Esta publicação encontra-se à venda no site da E-papers Serviços Editoriais.

http://www.e-papers.com.br

E-papers Serviços Editoriais Ltda. Rua Mariz e Barros, 72, sala 202 Praça da Bandeira – Rio de Janeiro CEP: 20.270-006 Rio de Janeiro – Brasil

CIP-Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

M252d

Manzini, Ezio Design para a inovação social e sustentabilidade: comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais / Ezio Manzini; [coordenação de tradução Carla Cipolla; equipe Elisa Spampinato, Aline Lys Silva]. Rio de Janeiro: E-papers, 2008. (Cadernos do Grupo de Altos Estudos ; v.1)

104p.

“O presente livro é resultado do curso denominado Design.ISDS 1- Design, Inovação Social e Desenvolvimento Sustentável - realizado de 27 a 31 de agosto de 2007, tendo sido fi nanciado pelo programa Escola de Altos Estudos da CAPES e promovido pelo Programa de Engenharia de Produção da COPPE-UFRJ” Acompanha DVD Inclui bibliografi a ISBN 978-85-7650-170-1 1. Desenho (Projetos) - Aspectos sociais. 2. Designers. 3. Criatividade. 4. Cooperação. 5. Desenvolvimento social. 6. Desenvolvimento sustentável. I. Título. II. Série.

08-3715.

CDD: 745.4

CDU: 745

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Sumário

  • 5 Apresentação

  • 9 Prefácio

    • 10 Metodologia do curso

    • 11 Passado, presente e futuro

    • 13 Origens e possibilidades

  • 15 Introdução

  • 19 1. Sustentabilidade | Descontinuidades sistêmicas e processos de aprendizagem social

    • 20 1.1 Os limites do Planeta

    • 25 1.2 Descontinuidade sistêmica

    • 27 1.3 Design e sustentabilidade

    • 31 1.4 Orientações e diretrizes

  • 39 2. Modos de vida | Bem-estar sustentável, bens comuns e capacidades

    • 40 2.1 Bem-estar baseado no produto

    • 47 2.2. Bem-estar e bens comuns

    • 52 2.3 Bem-estar e capacidades

    • 56 2.4 Design e bem-estar

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    • 61 3. Inovação Social | Comunidades criativas e organizações colaborativas

      • 61 3.1 Comunidades criativas

      • 70 3.2 Organizações colaborativas

      • 73 3.3 Processos em andamento

      • 78 3.4 Design e inovação social

  • 83 4. Redes Projetuais | Interações “de baixo para cima” (bottom-up), “de cima para baixo” (top-down) e “entre pares” (peer-to-peer)

    • 84 4.1 Soluções e plataformas

    • 87 4.2 Aumentando a escala

    • 93 4.3 Conectando-se

    • 96 4.4 Design e redes projetuais

  • 99 Bibliografi a

    • 103 Ezio Manzini

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    Apresentação|

    As inovações sociais abrangem um campo muito amplo de pos- sibilidades. As inovações sociais em geral referem-se a novas estratégias, conceitos e métodos para atender necessidades so- ciais dos mais diversos tipos (seus campos de aplicação são os mais variados, condições de trabalho, lazer, educação, saúde, etc.). As inovações sociais referem-se tanto a processos sociais de inovação como a inovações de interesse social, como tam- bém ao empreendedorismo de interesse social como suporte da ação inovadora. O presente livro dá atenção a inovações sociais de um tipo específi co. Do lado positivo, ou seja, desde a perspectiva daqui- lo que se pretende ver afi rmado com elas, elas são comprome- tidas com a ampliação e o aprofundamento de nosso senso de comunidade. Do lado negativo, ou seja, desde a perspectiva da- quilo que não se pretende ver afi rmado com elas, elas são com- prometidas com evitar a crueldade, “a pior coisa que fazemos”, como expressa Judith Shklar em Ordinary Vices (1984). Evitar a crueldade é o limite tanto com relação aos fi ns quanto aos meios de efetivação de inovações sociais solidárias. No livro de Ezio Manzini tem destaque a questão ambiental como quesito da desejada sustentabilidade de produtos e pro- cessos. Mas não se trata de uma perspectiva absolutizante. O empenho por modos de vida sustentáveis diz respeito as mais variadas dimensões relacionais da condição humana. Este livro teve como catalizador de sua feitura o curso que Ezio Manzini ofereceu no Programa de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ com apoio da Escola de Altos Estudos da Capes para uma ampla rede de cursos de pós-graduação brasileiros. O curso foi denominado DESIGN.ISDS 1 – Design, Inovação Social e Desenvolvimento Sustentável.

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    Elemento fundamental da mensagem de Manzini é a pro- posição de plataformas habilitantes como ferramentas para “mudarmos a mudança” em meio à qual vivemos. Implica mais do que o mero exercício de habilidades técni- cas. O código de acesso para nossa possibilidade de “mudarmos a mudança” não é um artefato técnico, mas sim nossas atitudes, palavras e atos, nossa capacidade de afi rmar valores e compro- missos. “Dar certo” não é critério para proposições que querem ser eticamente fundadas. O artefato técnico é uma ferramen- ta a serviço das relações interpessoais. Não um dispositivo de formatação das identidades, num mundo onde nossas liberda- des se confundem com as pré-programações de possibilidades enumeradas segundo regras de videogames. Dizer isso signifi ca reconhecer que as imposições da racionalidade instrumental (e da produtividade) precisam ter limites. E que desses limites se tece o lugar próprio para espaços de experiência e horizontes de expectativa da convivencialidade. Espaços e horizontes que Martin Buber designaria como dialogais. O presente volume abre a coleção Cadernos do Grupo de Altos Estudos do Programa de Engenharia de Produção (http:// www.producao.ufrj.br). É signifi cativo que o primeiro volume da coleção seja de- dicado ao campo temático da interface entre Engenharia de Produção e Design. O Programa de Produção tem uma histó- ria de atuação signifi cativa nessa interface. Sempre buscamos uma coerência na atitude de ver na Universidade um lugar de encontro e diálogo. Em nossa perspectiva a Engenharia de Pro- dução é um lugar privilegiado para a interface da técnica com dimensões metatécnicas. O programa de Engenharia de Produção da Coppe foi, no passado, lugar de formação em nível de mestrado e doutorado de muitos colegas hoje professores de diversos cursos brasilei- ros de Design. Faço dessa apresentação também ocasião para homenagear um colega recentemente falecido, o professor Estevão Neiva de Medeiros, que tanto contribui para essa pre- sença do Design na Engenharia de Produção. O lançamento do livro de Manzini, tão próximo da data falecimento de Estevão,

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    mistura tristeza e alegria. Mas é essa a matéria de nossas vidas humanas. Finalizo com um convite. Para mim todo prefácio é um convite. No passado recente vi um belo fi lme alemão (“A vida dos outros”). Dele retiro uma referência fi nal para o convite que hoje faço. Se naquele fi lme há referência a uma peça musical com o título “Sonata para um homem bom”, quero como co- ordenador do Programa de Engenharia de Produção da Coppe convidar a todas as pessoas boas – mulheres e homens – a le- rem o livro de meu amigo Ezio. Não é um livro especializado para designers ou engenheiros de produção. É uma obra para pessoas boas. Que a alegria de vocês em lê-la seja grande e fecunda. A minha foi.

    Roberto Bartholo

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    Prefácio|

    Este livro é uma fotografi a, ou seja, um instantâneo da mente de um pesquisador sempre inquieto. O conteúdo das próximas páginas, a este momento, provavelmente já se transformou na mente do autor. Se isso é verdade para todos nós, visto que o devir é uma condição essencial de nossa humanidade, a convi- vência nos faz intuir que para ele o seja ainda mais. Fundamen- talmente devido ao seu próprio caráter, que faz de si mesmo uma “antena”, captando e interpretando as mudanças em ato, incessantemente reelaborando-as em contribuições à discipli- na de design, de maneira a compor uma contribuição acadêmi- ca tão relevante quanto amplamente reconhecida no setor. 1 Entre tais movimentos foi recompensador conseguir “afer- rar” nosso pluripremiado autor e trazê-lo ao Brasil para que, em uma seqüência de aulas, nos contasse suas idéias. O curso 2 de- nominado DESIGN.ISDS 1 – Design, Inovação Social e Desenvol- vimento Sustentável foi realizado de 27 a 31 de agosto de 2007, tendo sido fi nanciado pelo programa Escola de Altos Estudos da Capes e promovido pelo Programa de Engenharia de Produ- ção da Coppe-UFRJ em uma iniciativa coordenada pelo profes- sor Roberto Bartholo. O presente livro é o resultado dessas aulas. Tem o valor de oferecer um panorama seqüencial das idéias do professor, sin- tetizando em uma concisa publicação conceitos distribuídos em diferentes artigos ao longo dos últimos anos. Inclui também material que é fruto de suas mais recentes atividades de pesqui- sa. Este constituiu o caráter particularmente dinâmico do pre- sente texto que, em relação ao original (fornecido como mate-

    • 1. É possível acessar os mais recentes textos de Ezio Manzini em seu blog:

    http://www.sustainable-everyday.net/manzini/ (em língua inglesa).

    • 2. Site do curso: http://www.producao.ufrj.br/design.isds/.

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    rial didático durante as aulas há um ano), sofreu modifi cações de modo a precisar alguns de seus conceitos-chave. A tradução dos conceitos desta obra, a partir da versão original em língua inglesa, foi detalhadamente discutida com o autor. Em sua pesquisa, Manzini se preocupa em imediatamente comunicar o que constata, elabora e faz, tal qual os dois trilhos paralelos e constantes nas metodologias dos projetos que de- senvolve. Por isso, é também aberto ao incessante diálogo, que é a outra face de sua contínua busca. É a “busca com”, feita da exposição aos outros de suas idéias, sempre aberto a quem as possa validamente questionar e/ou reelaborar. Nesse sentido, o curso foi complementado por um seminário, desenvolvido nos dias 5 e 6 de setembro de 2007, onde os participantes foram convidados a estabelecer uma interlocução com o professor sobre os conceitos apresentados, bem como discutir as espe- cifi cidades e o potencial do trabalho em design para a inovação social e sustentabilidade no contexto brasileiro.

    Metodologia do curso

    O curso operou em uma estrutura de rede através da adesão formal de dezoito cursos 3 de pós-graduação por todo o Brasil. Os professores representantes de cada uma dessas unidades, além de ter acesso privilegiado ao curso, foram convidados a

    3. Rede multidisciplinar do curso (adesão formal): UFRJ/Coppe Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção; UFRJ/EBA Programa de Pós-graduação em Artes Visuais; Uerj/Esdi Programa de Pós-graduação em Design ; PUC-Rio Programa de Pós-graduação em Design ; USP Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção; USP Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo; USP-S.Carlos Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo; UNB/CDS Centro de Desenvolvimento Sus- tentável; UFPE Programa de Pós-graduação em Design ; UFBA Programa de Pós-graduação em Gerenciamento e Tecnologias Ambientais no Processo Produtivo; UFBA Programa de Pós-graduação em Engenharia Industrial; UFMG Programa de Pós-graduação em Engenharia da Produção; UFMG Programa de Pós-graduação Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável; UFPR Programa de Pós-graduação em Design ; UFSC Programa de Pós- graduação em Design e Expressão Gráfi ca; FAM (Universidade Anhembi Mo- rumbi) Programa de Pós-graduação em Design ; Senac (Centro Universitário Senac) Programa Estudos Pós-graduados em Design; e Unisinos Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação.

    10 | Prefácio

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    agir como multiplicadores, inserindo as aulas do prof. Manzini em seus respectivos programas didáticos e elaborando-as com seus alunos localmente. Foram, portanto, estimulados, desde o início, a articular os conteúdos apresentados pelo professor com seu próprio quadro conceitual. As aulas foram transmitidas ao vivo, via internet, e duran- te todas as atividades foi aberta a possibilidade de interação à distância via chat com o prof. Manzini, tendo esta sido exclusi- vamente dirigida aos professores locais, dando-lhes a possibi- lidade de contactar diretamente o prof. Manzini, bem como de apresentar eventuais questionamentos de seus alunos. Ainda que a proposta do programa Escola de Altos Estudos da Capes seja especifi camente dirigida aos cursos de pós-gra- duação, foi possibilitado o acesso informal a diversos professo- res e estudantes de graduação, os quais puderam seguir as aulas nos modos on-line e presencial, intensifi cando ainda mais a di- fusão dos conteúdos didáticos disponibilizados. A gravação das aulas em vídeo, devidamente editadas, é fornecida no DVD que integra o presente volume.

    Passado, presente e futuro

    Este livro é a segunda obra de Manzini publicada no nosso país. Em Desenvolvimento de Produtos Sustentáveis, 4 o autor tratou da relação entre design e ambiente dando particular atenção ao desenvolvimento de produtos com baixo impacto ambiental, tendo concentrado-se nas estratégias de projeto que, conside- rando o ciclo de vida dos produtos, permitem obter produtos ecoefi cientes. Agora, em Design para a Inovação Social e Sustentabilida- de, o autor se focaliza na contribuição que a inovação social po- deria dar ao tema do design para a sustentabilidade, em termos de design estratégico e, sobretudo, de design de serviços. Segun- do Manzini, “a presente obra é complementar à anterior. O fato que meus interesses estejam hoje prevalentemente orientados

    4. MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O Desenvolvimento de Produtos Sustentáveis: os Requisitos Ambientais dos Produtos Industriais. São Paulo: EdUSP, 2002. (Origi- nal: Lo sviluppo di prodotti sostenibili . Rimini: Maggioli Editore, 1998.)

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    nesta segunda direção, não invalida a precedente. Signifi ca so- mente que, enquanto a primeira é relativamente consolidada, a linha de pesquisa em design para a inovação social e susten- tabilidade se apresenta ainda como um terreno muito novo e promissor (para o design e em geral). Os dois livros, colocando em evidência aspectos diversos, indicam a mesma direção: o design para a sustentabilidade requer mudanças sistêmicas”. 5 Sobre o papel do design em tais mudanças, Manzini afi rma:

    “hoje em dia, a sustentabilidade deveria ser o meta-objetivo de todas as possíveis pesquisas em design (e não, como foi visto nos últimos anos, como um tipo de setor especializado, que corre paralelo a outros setores especializados). Provavelmen- te, ninguém discordaria dessa afi rmação (quem poderia de- clarar a vontade de projetar ou pesquisar de modo a produzir insustentabilidade?)”. 6 O termo “deveria ser” indica que tal ob- jetivo não foi atingido, sendo, portanto, ainda necessário con- siderar o design “para a sustentabilidade” como um setor espe- cífi co, englobando todos os passos concretos que os designers podem conscientemente dar rumo a um futuro sustentável. Manzini indica que esses passos devem ter um caráter sistêmi- co e o design, para colocá-los em prática, deve possuir um for- te componente estratégico. Assim sendo, em síntese, o design para a sustentabilidade é o design estratégico capaz de colocar em ato descontinuidades locais promissoras, contribuindo para efetivas mudanças sistêmicas. Importante ressaltar que, no presente livro, Manzini pro- põe diretrizes capazes de contribuir para a defi nição de uma agenda de pesquisa brasileira tanto em design para a inovação social, quanto em design para a sustentabilidade. A preocupa- ção do autor com a elaboração de uma agenda compartilhada, bem como com a articulação internacional dos pesquisado- res do setor, confl uiu posteriormente na elaboração (por meio de um processo participativo) de um documento entitulado

    5. Depoimento em 30/08/2008.

    6. MANZINI, E. New Design Knowledge. Versão em inglês disponível em <http:// www. sustainable-everyday. net/manzini/>. Agosto/2008.

    12 | Prefácio

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    Design Research Agenda for Sustainability (DRAS), durante a conferência internacional “Changing the Change”. 7

    Origens e possibilidades

    O design para a inovação social é atualmente um dos pro- pulsores da pesquisa em design para a sustentabilidade, sendo Manzini um de seus maiores promotores. A pesquisa Emude (Emerging User Demands for Sustainable Solutions), da qual foi coordenador científi co, merece particular destaque por consti- tuir o pano de fundo deste livro, tendo estimulado a elaboração de muitas das idéias expostas aqui. O projeto, fi nanciado pelo 6 o Programa-Quadro da União Européia, objetivou explorar o po- tencial da inovação social como mola propulsora da inovação tecnológica e produtiva, particularmente sob o ponto de vista da sustentabilidade. Foi desenvolvido por um consórcio de ins- titutos de pesquisa europeus (TNO, IPTS), Unep/Pnuma, atores do setor privado como Philips Design e envolveu também oito escolas de Design distribuídas por diversos países europeus. A continuidade dos temas propostos por Emude estão hoje sendo desenvolvidos pelo autor em dois outros projetos. Um desses é denominado Looking for Likely Alternatives (Lola), promovido pela Consumer Citizenship Network (CCN) e fi nan- ciado pela União Européia. Seu tema é a educação para a sus- tentabilidade, tendo desenvolvido um instrumento pedagógico baseado na identifi cação de casos de inovação social. O outro projeto é denominado Creative Communities for Sustainable Lifestyles (CCSL) e objetiva verifi car a validade, fora do contex- to europeu, dos resultados obtidos pelo projeto Emude. É um programa apoiado pela Sustainable Lifestyle Task Force das Na- ções Unidas e fi nanciado pelo governo da Suécia com o patro- cínio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Foi desenvolvido primeiramente em três paises – Brasil, China

    7. A última versão da Design Research Agenda for Sustainability (DRAS) pode ser acessada neste endereço: http://www.changingthechange.org/ blog/2008/07/28/design-research-agenda-for-sustainability/. Maiores in- formações e os atos da Conferência “Changing the Change. Design Visions, Proposals and Tools”, realizada no quadro da Torino World Design Capital – ICSID, 2008, podem ser acessados em www.changingthechange.org.

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    e Índia – tendo, a partir deste ano, estendido suas atividades também ao continente africano. Os objetivos principais da linha de pesquisa, expressa por meio desses projetos e cujos resultados são sintetizados na pre- sente obra, é tanto desenvolver a capacidade de reconhecer o valor de um caso de inovação social sustentável quanto fo- mentar a habilidade dos designers em projetar um conjunto de soluções capaz de aperfeiçoá-lo e de reproduzi-lo em diversos contextos. Isso incluindo o destaque dado pelo autor ao fato de que a redução do peso de nossas atividades no ambiente passa por uma regeneração do tecido social e por uma redescoberta do valor da convivencialidade, como os termos “comunidades criativas” e “organizações colaborativas” nos indicam. Esse en- foque dado à convivencialidade propõe aos designers, e demais pesquisadores, desafi os projetuais e conceituais inéditos. Os casos de inovação aos quais este livro faz referência re- velam uma capacidade projetual difusa: pessoas que, sem ne- nhuma especialização formal em disciplinas projetuais, elabo- ram por si mesmas e de modo colaborativo soluções para seus próprios problemas. Além de analisar e reconhecer o caráter e o potencial promissor de tais fenômenos na transição rumo à sustentabilidade, Manzini convida os designers a repensarem seu próprio papel nesse quadro, não somente no momento his- tórico atual mas também em relação ao futuro, ou seja, a con- tribuírem ativamente para o advento da sociedade do conheci- mento e da sustentabilidade, como ele mesmo diz. Nesse sentido, esperamos que a presente obra possa ser considerada também como uma contribuição à comunidade acadêmica brasileira, em seus diversos setores, no sentido de uma interlocução, não somente com o tema “design” no senti- do especializado da disciplina, ou seja, com a prática de projeto tal qual exercida pelos designers profi ssionais e estudada pelos seus especialistas, mas também sobre as práticas por meio das quais tantos inovadores sociais enfrentam os desafi os da vida cotidiana, dando evidentes sinais de que um futuro alternativo aos insustentáveis padrões de produção e consumo é possível.

    Carla Cipolla

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    Introdução |

    1. Contrariamente aos mais comuns clichés em termos sociais e políticos, caminhar rumo à sustentabilidade é o contrário da conservação. Em outras palavras, a preservação e a regenera- ção de nosso capital ambiental e social signifi cará justamente romper com as tendências dominantes em termos de estilo de vida, produção e consumo, criando e experimentando novas possibilidades. Se assim não o fi zermos, se não adquirirmos ex- periências diferentes e se formos incapazes de aprender a partir delas, então assistiremos à verdadeira conservação, que resul- tará na continuação dos atuais e catastrófi cos estilos de vida, produção e consumo. O paradoxo é que, na realidade, sob a infl uência de certos fenômenos, nossos modelos de vida, produção e consumo es- tão neste exato momento modifi cando-se profundamente. Se nada acontecer, porém, essa transformação continuará, infeliz- mente, se dirigindo rumo à insustentabilidade. O que se torna obrigatório, portanto, é “mudar a mudança” (change the chan- ge), sem desativar os mecanismos que sustentam o avião, em pleno vôo, no qual todos nós embarcamos.

    2. Considerando as condições atuais de nosso planeta e a natu- reza catastrófi ca das transformações em andamento, podemos nos perguntar: qual foi o papel efetivo dos designers até agora? Infelizmente a resposta é clara demais. Falando em termos ge- rais, os designers têm sido, e ainda são, “parte do problema”. Todavia, pensamos que este não seja um destino inevitá- vel. Designers podem e devem ter outro papel, tornando-se, portanto, “parte da solução”. Isto é possível porque no “código genético” do design está registrada a idéia de que sua razão de ser é melhorar a qualidade do mundo. E é a partir deste pon-

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    to que devemos recomeçar, repensando qual é a qualidade do mundo que o design, seguindo sua profunda missão ética, de- veria promover. Nessa perspectiva, os designers podem ser parte da solu- ção, justamente por serem os atores sociais que, mais do que quaisquer outros, lidam com as interações cotidianas dos seres humanos com seus artefatos. São precisamente tais interações, junto com as expectativas de bem-estar a elas associadas, que devem necessariamente mudar durante a transição rumo à sustentabilidade. Neste sentido, os designers podem ter um papel muito es- pecial e, esperamos, importante: mesmo não tendo meios para impor sua própria visão aos outros, possuem, porém, os ins- trumentos para operar sobre a qualidade das coisas e sua acei- tabilidade e, portanto, sobre a atração que novos cenários de bem-estar possam porventura exercer. Seu papel específi co na transição que nos aguarda é oferecer novas soluções a proble- mas, sejam velhos ou novos, e propor seus cenários como tema em processos de discussão social, colaborando na construção de visões compartilhadas sobre futuros possíveis e sustentá- veis.

    3. Neste livro, consideraremos a criatividade e as habilidades de design como elementos efetivamente necessários para mover um processo de inovação social e tecnológica de tal magnitude como requer a transição rumo à sustentablidade. Em particu- lar, focalizaremos nossa atenção sobre um fenômeno que é, em si mesmo, contraditório: sociedades em rápida transformação (isto é, as sociedades ocidentais, mas também, e sobretudo, todas aquelas que passaram por uma recente e turbulenta in- dustrialização) criam particulares condições através das quais sujeitos, individuais ou coletivos, devem aprender a agir criati- vamente, desenvolvendo habilidades de design. Neste novo contexto, ainda que estas habilidades difusas de design e seu potencial sejam largamente desperdiçados (ou me- lhor dizendo, sejam direcionadas à uma procura individualista de idéias insustentáveis de bem-estar), alguns sinais positivos estão aparecendo. São casos de inovação social, em particular

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    as inovações sociais de base na vida cotidiana (as comunida- des criativas), que indicam como, às vezes, as habilidades di- fusas de design são capazes de criar modos de ser e de fazer ao mesmo tempo criativos e colaborativos, considerados também como passos promissores rumo à sustentabilidade. Estes modos não convencionais de pensar e agir são o pon- to de partida da estratégia rumo à sustentabilidade que propo- remos aqui. Uma estratégia que é certamente apenas uma das muitas a serem implementadas. Mas esta, em nossa visão, é mais diretamente relacionada ao que as pessoas podem fazer no seu próprio dia-a-dia. E também, e é o que mais nos inte- ressa aqui, ao que os designers poderão fazer em suas próprias atividades profi ssionais e de pesquisa.

    4. O livro está articuldado em quatro capítulos.

    Sustentabilidade | Descontinuidades sistêmicas e processos

    de aprendizagem social. A transição rumo à sustentabilidade será um processo de aprendizagem social graças ao qual os seres humanos aprenderão a viver bem, consumindo (bem) menos recursos ambientais e regenerando a quali- dade dos contextos onde vivem. Para fazer isto, é necessá- rio que uma transformação sistêmica aconteça, movendo- se do nível local ao global.

    Modos de vida | Bem-estar sustentável, bens comuns e ca-

    pacidades. A idéia de bem-estar tradicional, insustentável e baseada no produto, está mudando. Uma nova idéia, defi - nida como bem-estar baseado no acesso, está emergindo. Infelizmente, essa nova visão de bem-estar é, como se re- vela agora, ainda mais insustentável do que a anterior. Esta tendência deve ser revertida e reorientada na direção de um bem-estar baseado na qualidade do contexto de vida como um todo, fortalecendo as capacidades pessoais.

    Inovação social | Comunidades criativas e organizações co-

    laborativas. A sociedade contemporânea emite diferentes e contraditórios sinais. Dentre eles, um verdadeiramente promissor é representado por grupos de pessoas que estão inventando espontaneamente novos modos de vida sus- tentáveis. Algumas das idéias desenvolvidas por estas co-

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    munidades criativas consolidam-se e sobrevivem. Outras são reproduzidas em contextos diferentes. Todas devem ser levadas em consideração como experimentações de fu- turos possíveis.

    Redes projetuais |Interações “de baixo para cima” (bottom- up), “de cima para baixo” (top-down) e “entre pares” (peer-

    to-peer). Comunidades criativas e emprendimentos sociais difusos são organizações socias complexas e delicadas. Por essa razão, sua origem e sua existência não podem ser planejadas. Porém, algo pode ser feito para torná-las mais prováveis. Um ambiente favorável pode ser gerado. Servi- ços, produtos, espaços e ferramentas comunicativas de su- porte podem ser projetadas.

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    1. Sustentabilidade | Descontinuidades

    sistêmicas e processos de aprendizagem social

    A sustentabilidade requer uma descontinuidade sistêmica: de uma sociedade que considera o crescimento contínuo de seus níveis de produção e consumo material como uma condição normal e sa- lutar, devemos nos mover na direção de uma sociedade capaz de se desenvolver a partir da redução destes níveis, simultaneamente melhorando a qualidade de todo o ambiente social e físico. É di- fícil prever hoje como isto poderá acontecer. De qualquer forma, alguns pontos já estão sufi cientemente claros. Em primeiro lugar, é óbvio que esta descontinuidade ocor- rerá, que se realizará mediante um longo período de transição e que tal mudança se dará por meio de um processo de aprendi- zagem social largamente difuso. É claro também que esta pro- funda transformação atingirá todas as dimensões do sistema sociotécnico no qual vivemos: a física (fl uxos materiais e ener- géticos), a econômica e institucional (a relação entre os atores sociais) e a ética, estética e cultural (os valores e juízos de quali- dade que lhe darão legitimidade social). Atingirá também as vá- rias escalas do tempo (o que pode ser feito brevemente e o que requererá um período de tempo maior) e do espaço (da “micro- escala” de um único produto e serviço à “macroescala” dos sis- temas sociotécnicos globais). Finalmente, na perspectiva que veio à luz a partir da teoria da evolução dos sistemas comple- xos, é altamente provável que esta descontinuidade sistêmica em escala macro seja precedida por muitas descontinuidades locais, isto é, mudanças radicais em escala local.

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    1.1 Os limites do Planeta

    Hoje, um profundo e poderoso fator de transformação é o fato de que os limites de nosso planeta tornaram-se evidentes. Na percepção desses limites deve-se olhar não apenas para o que, em geral, é designado com o termo “problemas ambientais”. Na realidade, o foco exclusivo no tema ambiental tem dependido de fatores contingentes: do espaço dedicado pela mídia (algum novo problema que vem à tona ou alguma séria catástrofe que aconteça) e da competição com outros assuntos que pesam na consciência pública (por essa razão, se há uma crise econômica ou política em curso não se discute o meio ambiente, pois ou- tros assuntos parecem ser de interesse mais imediato). Todavia, o problema continua a existir mesmo quando não é enunciado de modo explícito na agenda política ou mi- diática. A deterioração ambiental avança mesmo quando não a discutimos e se manifesta em muitas outras formas: saturação do mercado (demanda limitada), desemprego (oportunidades de trabalho limitadas), proliferação de guerras regionais para o controle dos recursos naturais (recursos limitados), emigração e conseqüentes problemas raciais (limites demográfi cos e so- ciais), difi culdade de imaginar o futuro (porque a consciência do limite impede de ver o futuro simplesmente como a conti- nuação do passado, ou seja, como a reproposição de um mo- delo de desenvolvimento baseado em um crescente consumo material). Portanto, o tema dos limites não está relacionado simples- mente à “questão ambiental” da forma como esse tema foi tra- tado no passado (isto é, como uma série de problemas que ten- tamos resolver separadamente). Se considerarmos o sistema cultural e operacional da sociedade industrial como um todo, até o momento, estaremos diante de questões enormes como, por exemplo, o que a expressão “bem-estar” signifi ca atual- mente. Mais explicitamente: que forma de desenvolvimento não comprometeria o bem-estar, ou todas as vidas, das futuras gerações no nosso planeta? É nessa perspectiva que o tema dos limites está relacionado com o tema do desenvolvimento sus- tentável e das sociedades sustentáveis. Objetivando justifi car

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    tais afi rmações, traçaremos certos aspectos da sustentabilidade ambiental de acordo com os mais recentes estudos no setor.

    Desenvolvimento sustentável. A expressão “desenvolvimento

    sustentável” foi introduzida no debate internacional pela pri- meira vez em um documento da Comissão Mundial para o Am- biente e o Desenvolvimento chamado “Nosso futuro comum” (Our Common Future), coordenado por Gro Harlem Brundland. A partir de então, a expressão foi cada vez mais usada, até tor- nar-se a palavra-chave em uma conferência fundamental sobre o tema, a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e De- senvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro. O que torna a Conferência e os documentos elaborados naquela ocasião tão importantes é que, pela primeira vez, foi ofi cialmente reconhecido o que por muito tempo fora evidente para alguns – mas, com certeza, não esteve em nenhuma agen- da política internacional, programa de intervenção ou mesmo nos pensamentos da maioria dos cidadãos deste planeta –, ou seja, que o “desenvolvimento”, como entendido até então, re- presentava uma perspectiva objetivamente impraticável. A introdução do termo “desenvolvimento sustentável” evi- denciou que a promessa de um bem-estar baseado na conti- nuidade do modelo de desenvolvimento dos países ricos (cha- mados “desenvolvidos”) e na emulação desse modelo para os países menos ricos (chamados “subdesenvolvidos”, ou mais otimisticamente, “em desenvolvimento”) não poderia mais ser mantida, pois o funcionamento desse modelo extrapolava a capacidade de recuperação dos ecossistemas e estava rapida- mente consumindo o capital natural. O uso insensato dos recursos renováveis (superexploração de alguns, como, por exemplo, os recursos da pesca, e subem- prego de outros, como a energia solar); um igualmente insensato uso dos recursos não renováveis (com rápida diminuição das re- servas de alguns deles e a correspondente acumulação de lixo); a emissão de um número crescente de novas e potencialmente nocivas substâncias sintéticas no meio ambiente (substâncias estranhas à natureza e que, conseqüentemente, não são mais

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    possíveis renaturalizar) – apenas para mencionar alguns dos problemas mais evidentes –, tudo mostrou sem equívocos que a estrada que estávamos percorrendo, com a perspectiva de uma população quase duplicada nas próximas poucas décadas, não conduziria de forma alguma ao desenvolvimento com o qual so- nhávamos. De outro lado, o conceito de “desenvolvimento sustentá- vel” não fornecia nenhuma indicação a respeito de como esse novo modelo de desenvolvimento deveria ser. Apenas afi rmava que o modelo como foi inicialmente proposto (que, em poucas palavras, dizia “faça como nós ocidentais fi zemos”) não era uma proposta praticável. Outro modelo deveria ser fundado, coeren- te com alguns princípios básicos (os princípios físicos e éticos da sustentabilidade): uma defi nição ainda muito vaga, que, sem dúvida, abriu espaço para inúmeras interpretações, as quais, to- davia, foram sufi cientes para mudar o curso da história.

    Sustentabilidade ambiental (e social). A expressão “sustentabi-

    lidade ambiental” refere-se às condições sistêmicas a partir das quais as atividades humanas, em escala mundial ou em escala local, não perturbem os ciclos naturais além dos limites de re- siliência dos ecossistemas nos quais são baseados e, ao mesmo tempo, não empobreçam o capital natural que será herdado pelas gerações futuras. Nossa sociedade, e, conseqüentemente, nossas vidas e as das gerações futuras, dependem em longo prazo do funciona- mento daquele “mix” de ecossistemas que, por simplicidade, chamamos de natureza; dependem de suas várias qualidades (principalmente, mas não somente, biofísicas) e de sua capaci- dade produtiva (sua capacidade de produzir alimento, insumos e energia). Neste quadro, as pesquisas rumo a sustentabilidade am- biental devem se referir a dois conceitos fundamentais: resiliên- cia e capital natural. A resiliência de um ecossistema é sua ca- pacidade de tolerar uma atividade que o perturba sem perder irreversivelmente seu equilíbrio. Quando estendido ao planeta inteiro esse conceito introduz a idéia de que o sistema natural,

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    sobre o qual a atividade humana está baseada, tem limites de capacidade e recuperação além dos quais um fenômeno irre- versível de deterioração terá início. Por outro lado, capital na- tural são os recursos não renováveis, que conjuntamente com a capacidade sistêmica do ambiente de reproduzir recursos renováveis, devem ser levados em conta como um todo. O ter- mo refere-se também à riqueza genética, ou seja, à variedade de espécies habitantes no planeta. Estes preceitos fundamen- tais, baseados principalmente em considerações físicas, devem ser complementados por outros, de natureza social e ética, aos quais nos referimos através do termo sustentabilidade social. A expressão sustentabilidade social refere-se às condições sistêmicas através das quais, seja em escala mundial ou regional, as atividades humanas não contradizem os princípios da justiça e da responsabilidade em relação ao futuro, considerando a atual distribuição e a futura disponibilidade de “espaço ambiental”. O conceito de espaço ambiental e os princípios de justiça e respon- sabilidade em relação ao futuro, sobre o qual essa defi nição está baseada, requerem uma concisa defi nição: o espaço ambiental é a extensão territorial necessária para manter um sistema so- ciotécnico neste mesmo espaço de uma forma sustentável, isto é, indica quanto “ambiente” uma pessoa, cidade ou nação deve dispor para viver, produzir e consumir sem desencadear fenô- menos irreversíveis de deterioração. Dada a defi nição acima, o princípio de justiça declara que cada pessoa tem direito ao mesmo espaço ambiental. O princí- pio de responsabilidade em relação ao futuro declara que deve- mos garantir às gerações futuras pelo menos o mesmo espaço ambiental – ou seja, a mesma quantidade e qualidade de recur- sos ambientais – que temos atualmente à nossa disposição.

    A dimensão da mudança. Sucintamente: para ser sustentável, um sistema de produção, uso e consumo tem que ir ao encon- tro das demandas da sociedade por produtos e serviços sem perturbar os ciclos naturais e sem empobrecer o capital natu- ral. Isto signifi ca em primeiro lugar reduzir drasticamente o uso dos recursos ambientais (deve ser fundamentalmente baseado

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    em recursos renováveis, minimizando a utilização daqueles não renováveis – inclusive o ar, a água e a terra – e evitando a acumulação de lixo e resíduos). Porém, é necessário quantifi car a expressão “reduzir drasti- camente”: qual o tamanho da redução necessária? Obviamente tal questão não pode ser respondida de maneira simples. En- tretanto, uma avaliação muito geral e aproximada nos permite dizer, tomando como referência o atual metabolismo de uma sociedade industrial adulta, que as condições para sua susten- tabilidade somente podem ser alcançadas através do aumento de sua ecoefi ciência em pelo menos 10 vezes. Em outras pa- lavras: somente aqueles sistemas de produção e consumo que utilizam menos de 90% de recursos ambientais por unidade de serviço fornecido em relação ao que é atualmente utilizado numa sociedade industrial adulta pode ser considerado susten- tável (Ehelich, Erlich, 1991, Meadows et al., 1992). Essa impressionante afi rmação requer algumas explica- ções. Seu pano de fundo é baseado na seguinte consideração: o impacto das atividades humanas sobre o ambiente depende de três variáveis fundamentais, interligadas por uma relação que pode ser expressa dessa forma:

    Impacto ambiental = população x demanda por bem-estar x ecoefi ciência do sistema sociotécnico

    Onde: a população é o numero de pessoas que pesa sobre um dado ecossistema e a demanda por bem-estar correspon- de às expectativas, em termos de produtos, serviços e bens co- muns, que as pessoas expressam em um dado contexto social (e que consideram como uma dotação necessária para conside- rar satisfatória a qualidade do seu contexto de vida e o acesso potencial que ele oferece). Por fi m, a ecoefi ciência do sistema sociotécnico é um indicador da efi ciência do metabolismo de um sistema de produção. Em outras palavras: como esse siste- ma é capaz de transformar recursos ambientais no bem-estar almejado. Levando em conta as previsões de aumento da população e considerando um crescimento justo na demanda por bem- estar nos países atualmente menos desenvolvidos, parece evi-

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    dente que as condições para a sustentabilidade somente po- dem ser alcançadas, como já dissemos, através de um aumento na efi ciên cia do sistema sociotécnico de, pelo menos, “fator 10” – isto é, aumentando-a pelo menos 10 vezes (Schmidt-Bleek, 1993; WBCSD, 1993, 1995). Essa é uma estimativa aproximada; é válida, apesar de tudo, para indicar a medida da mudança necessária. É o quadro de uma sociedade onde será necessário viver – e, esperamos, viver bem – utilizando 10% dos recursos consumidos hoje em uma sociedade industrializada.

    1.2 Descontinuidade sistêmica

    Está claro que o sistema de produção e consumo de uma socie- dade sustentável será profundamente diferente daquele que co- nhecemos até hoje. Tão diferente que nenhuma alteração par- cial, nenhum melhoramento na tecnologia atualmente em uso e nenhuma operação de redesign será sufi ciente (Hawken,1994; Pauli, 1997; Sthael, 1977; Vezzoli, Manzini, 2007). Partindo da quantifi cação do aumento necessário na eco- efi ciência, geramos uma consideração qualitativa: o desenvol- vimento sustentável necessita de todos nós – das sociedades mais industrializadas àquelas de mais recente industrialização ou ainda não industrializadas – para focalizar e gerar idéias de desenvolvimento tão diferentes daquelas que dominaram a cena até hoje, que não podemos imaginá-las sem questionar o inteiro complexo econômico e sociocultural sobre o qual o sistema existente de produção, uso e consumo está baseado. O que tem de acontecer, e, na prática, já está acontecendo, é uma descontinuidade sistêmica: uma forma de mudança em cujo fi nal o sistema em questão – em nosso caso, o complexo sistema sociotécnico no qual as sociedades industriais estão baseadas – será diferente, estruturalmente diferente, daquilo que tivemos conhecimento até hoje.

    Um processo de aprendizagem social. A transição rumo à sus-

    tentabilidade requer uma descontinuidade: de uma sociedade onde o crescimento contínuo dos níveis de produção e de con-

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    sumo material é considerada uma condição normal e salutar, devemos nos mover para uma sociedade capaz de desenvol- ver-se a partir de uma redução destes níveis, incrementando a qualidade do ambiente global. É difícil prever hoje como isso poderá acontecer. De qualquer forma, é certo que essa descon- tinuidade acontecerá e que será baseada em um longo período de transição. Diante desta necessidade, o quadro que emerge é contra- ditório: de um lado, a gravidade do problema ambiental é, a esta altura, universalmente reconhecido, e as devidas medidas começam a ser adotadas. De outro lado, considerando a enor- midade das transformações que devem acontecer, todas essas medidas são ainda insufi cientes e, na realidade, o consumo de recursos ambientais e o nível de deterioração do planeta estão ainda (em média) crescendo. O problema é que o que foi feito até agora, na realidade, não colocou em discussão os atuais paradigmas econômicos e sociais. Conseqüentemente, as linhas básicas da economia po- lítica e social ainda direcionam o sistema na direção oposta à sustentabilidade.

    Uma nova idéia de bem-estar. Enquanto esse direcionamento não é invertido, em outras palavras, até que a descontinuidade seja reconhecida como inevitável, levando-nos a lidar ampla- mente com o processo de transição, a pressão do problema am- biental continuará a se manifestar em múltiplas e incontrolá- veis direções (tensão social e confrontos abertos, guerras, crises econômicas). Na realidade, pensar e promover a descontinui- dade não é uma questão somente de política ambiental, mas sim a única maneira de imaginar um futuro que seja, na medida do possível, pacífi co, tolerante e democrático. Ainda que a transição seja longa, pelas razões antes men- cionadas, ela já teve início. Portanto, de agora em diante, será uma questão de direcionamento, ou seja, manejá-la enquan- to se procura minimizar os riscos e incrementar oportunida- des em um amplo, longo, inevitável e contraditório processo de aprendizagem social. Nesse processo, uma das questões funda-

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    mentais a serem discutidas é relativa à qualidade do bem-estar desejado e percebido pelas pessoas: as idéias de bem-estar que a sociedade formula e socializa constituem um formidável guia de ação. São idéias que operam como atrativos sociais capa- zes de estimular e direcionar ações tanto do lado da demanda quanto da oferta de produtos e serviços. A fi m de minimizar ris- cos e incrementar oportunidades intrínsecas à transição para a sustentabilidade, devemos considerar e mudar profundamente as idéias dominantes nesse campo.

    1.3 Design e sustentabilidade

    A transição rumo à sustentabilidade será um processo de aprendizagem social no qual os seres humanos aprenderão gradualmente, através de erros e contradições – como sempre acontece em qualquer processo de aprendizagem –, a viver me- lhor consumindo (muito) menos e regenerando a qualidade do ambiente, ou seja, do ecossistema global e dos contextos locais ondem vivem. Essa afi rmação, que resume experiências – e erros – adqui- ridos ao longo de décadas, contém, em sua aparente simpli- cidade, um número considerável de importantes implicações estratégicas. Em primeiro lugar, declara a necessidade de diminuir o consumo de recursos ambientais e de regenerar o ambiente fí- sico e social. Entretanto, diz também que essa mudança deve acontecer como resultado de uma escolha positiva, e não como reação a eventos desastrosos ou imposições autoritárias. Em outras palavras, deve basear-se em uma transformação capaz de ser entendida por aqueles que a vivem como uma melhoria nas condições de vida (seja individual ou coletiva). É claro também que, mesmo que a afi rmação acima não o diga explicitamente, à luz das idéias e das práticas atuais, a possibilidade de uma drástica redução no consumo deve ser entendida como uma melhoria na qualidade de vida pelos in- divíduos e pelas comunidades, o que não se caracteriza de for- ma alguma como uma possibilidade óbvia segundo as atuais referências culturais e comportamentais. É evidente que tal

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    possibilidade requer, sobretudo, uma completa redefi nição do signifi cado que cada indivíduo ou grupo atribui ao conceito de qualidade de vida e, em última análise, à idéia de bem-estar. Isso posto, enquanto para os cientistas da ecologia o pro- blema é focalizar sobre aqueles aspectos físicos do metabolis- mo da sociedade que evitam uma catástrofe ambiental, para todos os outros atores sociais o problema é como facilitar uma transição que consiga este mesmo resultado sem provocar uma catástrofe social (e, portanto, cultural, política e econômica). Mais especifi camente, se o papel dos políticos e das insti- tuições é criar um ambiente favorável a orientação da inovação rumo à sustentabilidade, para os designers, empresas e também para os cidadãos comuns em suas comunidades e organizações, a possibilidade de ação recai na sua capacidade de dar uma orientação estratégica às próprias atividades, em outras palavras, na sua habilidade em defi nir objetivos que combinem suas pró- prias necessidades e exigências com os critérios da sustentabili- dade que estão gradualmente vindo à tona. Colocar juntas estas diferentes exigências, como já disse- mos, implica uma considerável habilidade de design: a habi- lidade de gerar visões de um sistema sociotécnico sustentável; organizá-las num sistema coerente de produtos e serviços re- generativos, as soluções sustentáveis; e comunicar tais visões e sistemas adequadamente para que sejam reconhecidos e ava- liados por um público sufi cientemente amplo, capaz de aplicá- las efetivamente.

    Começando pelos resultados. Já sugerimos que, a fi m de con-

    duzir à sustentabilidade, uma descontinuidade sistêmica deve acontecer. Dada a “microescala” discutida aqui, esta desconti- nuidade aparecerá como uma descontinuidade local: uma mu- dança radical tanto nos resultados requeridos como nos meios para alcançá-los. Ou seja, novas (e sustentáveis) soluções devem ser concebidas e desenvolvidas (Mont, 2002). O sentido dessa afi rmação pode ser entendido melhor se considerarmos brevemente os passos a serem realizados no projeto (design) de uma nova solução. São eles:

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    Mudar a perspectiva – mudar o centro de interesse das coi- sas (por exemplo, geladeiras e fogões, carros e máquinas de lavar roupa) para os resultados, focalizando o processo de projeto nas atividades a serem realizadas (preparar a comi- da, mover-se pela cidade, lavar roupa). Imaginar soluções alternativas – planejar diferentes com- binações possíveis de produtos, serviços, conhecimento, habilidades organizativas e papéis desempenhados pelos atores envolvidos de forma que esses resultados possam, em princípio, ser obtidos. Avaliar e comparar várias soluções alternativas – utilizar um conjunto apropriado de critérios para avaliar a efetiva conveniência econômica, social e ambiental das alternati- vas identifi cadas. Desenvolver as soluções mais adequadas – planejar um pro- cesso que contenha dois movimentos: promover conver- gência entre as empresas e os atores sociais envolvidos na realização da solução escolhida e conectá-los aos produtos, serviços e conhecimento que irão compor a solução. A partir desses pontos, podemos afi rmar que pensar em termos de soluções é uma precondição para conceber e realizar sistemas sustentáveis. De fato:

    Pensar em termos de soluções promove uma abordagem sistêmica, ou seja, encoraja os designers e, de forma geral, o grupo de atores envolvidos no planejamento, produção, execução, uso e descarte fi nal (dos componentes mate- riais) da solução a pensarem em termos de sistema, o que, potencialmente, traz numerosas vantagens do ponto de vista social e ambiental. Pensar em termos de soluções abre a discussão sobre o atual sistema de produtos e serviços, ou seja, considera possíveis alternativas às soluções atualmente difusas (que são am- plamente insustentáveis). Fazer isso oferece a possibili- dade de introduzir critérios e diretrizes coerentes com os requisitos da sustentabilidade. De outro lado, a radical transformação de produtos em so- luções (ou seja, dos atuais sistemas orientados ao produto aos novos sistemas orientados às soluções) é apenas uma precon-

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    dição (e não uma garantia) para a sustentabilidade. Isto por- que novas soluções podem ser ainda mais insustentáveis que as anteriores. Muito depende das escolhas de design que são efetivamente adotadas.

    Critérios para a sustentabilidade. Uma solução sustentável é o

    processo por meio do qual produtos, serviços e conhecimento são articulados em um sistema que objetiva facilitar ao usuá- rio a obtenção de um resultado coerente com os critérios da sustentabilidade. Sendo mais claro: um resultado que tenha também o efeito de transformar um sistema dado e gerar um

    novo que seja coerente com os fundamentais princípios da sus- tentabilidade. Signifi ca que é caracterizado pela coerência com os princípios fundamentais da sustentabilidade através de uma baixa intensidade de energia e material e de um alto potencial regenerativo.

    Consistência com os princípios fundamentais. Refere-se aos princípios éticos relacionados às pessoas e à sociedade (tais como justiça entre as gerações e justiça internacional), bem como princípios relacionados à nossa relação com a natu- reza e o meio ambiente (conservação da biodiversidade, resíduos não perigosos etc.). Estão também associados a questões sociais e econômicas tais como o tema da justa distribuição da riqueza e do poder, do envolvimento indivi- dual e coletivo, do empoderamento comunitário, em sínte- se, do fortalecimento da democracia. Baixa intensidade de energia e material. Metaforicamente falando, se refere à “leveza” da solução e de seus efeitos. É avaliada em termos de ecoefi ciência sistêmica, isto é, se baseia na qualidade e quantidade de recursos utilizados para obter um resultado. Expressa portanto as dimensões técnicas de uma solução e a sua capacidade de obter um determinado resultado da melhor maneira possível. Cons- titui o mais tradicional conjunto de critérios e permanece fundamental: qualquer sistema, para ser defi nido como “sustentável”, tem que ser altamente ecoefi ciente, levando

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    em consideração o completo ciclo de vida dos artefatos re- lacionados. Alto potencial regenerativo. Refere-se à capacidade da so- lução em obter uma integração com seu contexto de uso, aumentando os recursos ambientais e sociais disponíveis. Expressa a dimensão positiva de uma solução, sua capaci- dade de melhorar o estado de coisas. Esse terceiro critério resume uma série de considerações a respeito da qualidade dos contextos de vida e é avaliado através de uma série de parâmetros sociais, culturais e econômicos. Em contraparti- da, estes parâmetros são a expressão do conhecimento e das expectativas sociais em relação ao bem-estar sustentável. Ainda que os critérios para a avaliação da qualidade contex- tual, a partir de uma perspectiva sustentável, estejam ainda hoje em discussão, certamente alguns aspectos já são bas- tante claros e aceitos. Em particular, a opinião largamente compartilhada é que o sistema deve ser altamente integrado com seu contexto a fi m de ser defi nido como sustentável e que deve aumentar e, onde necessário, regenerar o ambien- te local e os recursos sociais disponíveis.

    1.4 Orientações e diretrizes

    O critério para a sustentabilidade proposto aqui fornece indica- dores úteis por meio dos quais é possível mensurar a qualidade dos resultados. Em outras palavras, para avaliar se, e com que extensão, o sistema que emerge da integração da nova solução com o estado de coisas existentes (ou seja, suas implicações ambientais, sociais, econômicas e culturais como um todo) é sustentável. Todavia, os parâmetros de avaliação que provêm diretamente destes critérios nos permitem avaliar as escolhas feitas, mas não guiá-las, quando ainda não foram concebidas. (Braungart, McDonough, 1998; Brezet, Hemel, 1997; Charter, Tischner, 2001; Manzini, Jegou, 2003; Vezzoli, Manzini, 2007). A elaboração da resposta a essa questão deve começar por esses mesmos critérios e contar com as experiências concretas para desenvolver orientações e diretrizes de design: indicações ge- rais e sugestões específi cas capazes de guiar escolhas de design

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    rumo a soluções que, com base no conhecimento e na expe- riência obtidos até agora, pareçam ter maior chance de sucesso, ou seja, que muito provavelmente revelar-se-ão soluções sus- tentáveis. Assim, estas orientações e diretrizes são uma expres- são do estado da arte desses assuntos e deveriam ser considera- das como diretrizes dinâmicas, em contínua evolução.

    Princípios gerais. Numa perspectiva de sustentabilidade, certas considerações fundamentais devem ser feitas antes de começar um adequado processo de design. São alguns princípios gerais aos quais se deve dar atenção antes de iniciar um projeto:

    Pensar antes de fazer. Considerar os objetivos. Visto que al- gumas propostas de design são, em si, eticamente inaceitá- veis, antes de começar um projeto pense sobre suas impli- cações gerais. Não use, por exemplo, produtos que foram declarados prejudiciais ou organismos geneticamente mo- difi cados. Não projete armas. Não colabore com empresas que utilizam trabalho infantil. Promover a variedade. Proteger e desenvolver a diversidade biológica, sociocultural e tecnológica. Visto que sustentabili- dade é praticamente sinônimo de diversidade, planeje res- peitando a diversidade existente (biológica, cultural, orga- nizacional e tecnológica) e, se possível, gere novas formas:

    dê maior importância aos produtos artesanais locais, desen- volva sistemas de energia baseados em diferentes recursos, estimule a utilização de múltiplos meios de transporte etc. Usar o que já existe. Reduzir a necessidade do novo. Visto que nós necessitamos minimizar a intervenção no que já existe, antes de pensar algo novo, melhore o existente. Recupere infra-estrutura, prédios e produtos não usados; aperfeiçoe o uso do que foi pouco utilizado; proteja e/ou atualize o conhecimento e as formas existentes de organi- zação.

    Qualidade dos contextos.

    Com isso, explicamos a tendência

    rumo ao desenvolvimento de soluções que promovam uma

    qualidade global dos contextos. Em particular, tendências rumo

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    às soluções que implicam a requalifi cação dos bens comuns e a promoção de uma ecologia do tempo. Isto nos leva a enfrentar questões complexas, tais como nossa relação com a natureza e a comida em contextos urbanos altamente artifi ciais, ou a orga- nização do espaço nas atividades cotidianas e o uso comparti- lhado e fl exível dos bens comuns e a infra-estrutura de serviço. Dar espaço à natureza. Proteger o ambiente natural e pro- mover a “natureza simbiótica”. Um ambiente densamente povoado e altamente artifi cial requer o planejamento de “espaços naturais”. Devemos planejar sistemas que respei- tem as áreas naturais restantes e que integrem, de forma inovadora, componentes naturais no tecido urbano, por exemplo, parques naturais, parques urbanos e jardins, mas também hortas e fazendas urbanas. Telhados e fachadas verdes ajudam, também, a manter uma temperatura está- vel dentro dos edifícios. Renaturalizar a comida. Cultivar naturalmente. Desenvol- ver avançados sistemas de produção de comida orgânica capazes de reduzir a artifi cialidade de nosso sistema de ali- mentação; criar sistemas de distribuição diretos e transpa- rentes e sistemas de rastreamento do produto. Aproximar pessoas e coisas. Reduzir a demanda por trans- porte. Desenvolver sistemas de transportes de baixa inten- sidade, para reduzir o impacto da mobilidade e fortalecer o tecido social local, por exemplo, serviços descentralizados. Ponto-de-venda de produção e/ou consumo. Escritórios de bairro ao invés de lugares de trabalho longe. Instrumentos e equipamentos compartilhados. Reduzir a demanda de produtos. Desenvolver sistemas que oti- mizem a utilização de produtos e sistemas, e ao mesmo tempo, estimulem novas formas de socialização como, por exemplo, a carona solidária, as lavanderias condominiais, a jardinagem compartilhada e as ferramentas “faça-você- mesmo”.

    Inteligência de sistema. Esta orientação tende a um gerencia- mento inteligente e sensível dos recursos renováveis, dos fl u-

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    xos de energia, materiais, de produtos e de pessoas. Além disso, na estrutura da transição rumo à sustentabilidade, entendida como um processo de aprendizagem social, esta orientação for- talece a busca de uma melhor ecoefi ciência sistêmica por meio do desenvolvimento de uma capacidade de aprender a partir da experiência e corrigir qualquer erro que porventura seja per- cebido. De fato, essa capacidade de aprendizagem é o aspecto mais característico dessa particular forma de inteligência. Fortalecer pessoas. Incrementar a participação. Desenvolva sistemas habilitantes e de socialização para estimular as capacidades pessoais e reforçar o tecido social. Exemplo:

    sistemas de “faça-você-mesmo”; sistemas para o intercâm- bio de bens, tempo e habilidades; sistemas de informação interativa; promoção de grupos de compra inteligentes. Desenvolver redes. Promover formas de organização descen- tralizadas e fl exíveis. Desenvolva sistemas capazes de apren- der a partir da experiência, ampliando as possibilidades de feedback (avaliação e comentários), bem como desenvol- vendo soluções “reorientáveis”. Exemplos: sistemas basea- dos em formas de organização “de baixo para cima” (bottom- up); produção e pontos-de-venda descentralizados. Use o sol, o vento e a biomassa. Reduza a dependência da gasolina. Desenvolva sistemas de energia alternativa, mini- mizando a produção de CO 2 . Exemplo: arquitetura biocli- mática; uso sustentável de biomassa e geradores de vento; sistemas fotovoltaicos integrados; células combustíveis. Produza com resíduo zero. Promova formas de ecologia in- dustrial. Desenvolva ecossistemas industriais que tendam a “fechar o círculo dos materiais” e a energia em cascata. Exemplo: sistemas industriais simbióticos; total emprego do resíduo e recorte; co-produção de calor e eletricidade; redes descentralizadas de energia.

    Soluções promissoras. Uma solução que siga tais orientações e que tenha sido desenvolvida adotando uma ou mais das diretri- zes correspondentes pode ser chamada de solução promissora:

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    aquela que, baseando-se em prévias experiências no setor, tem uma boa probabilidade de ser sustentável. O conceito de solução promissora requer uma explicação mais detalhada, porque é um conceito freqüentemente enun- ciado quando se fala a respeito de propostas para uma vida cotidiana sustentável. Começaremos com três considerações básicas:

    Consistência com uma ou mais diretrizes não garante, por si só, a efetiva sustentabilidade da proposta, a qual só pode ser realmente verifi cada adotando-se adequadas metodo- logias de avaliação. Se todos os artefatos que constituem a solução são levados em consideração e seus inteiros ciclos de vida são analisa- dos, metodologias de avaliação só podem ser rigorosamen- te aplicadas quando o projeto tenha tomado forma e todos seus componentes tenham sido desenvolvidos. Metodologias de avaliação são tão complexas que sua apli- cação é impensável enquanto existirem muitas alternati- vas diferentes em discussão. Frente à complexidade das rigorosas metodologias de ava- liação quantitativa (e, conseqüentemente, do tempo e do com- promisso fi nanceiro requeridos para sua aplicação), vêm sen- do desenvolvidas metodologias simplifi cadas e diretrizes que, como dito anteriormente, permitem que soluções promissoras sejam concebidas e desenvolvidas. Devemos deixar claro que estas metodologias e as solu- ções promissoras que elas originam são relativamente incertas, o que não deve, porém, nos causar excessiva preocupação. A experiência nos ensina que cada ação humana, na realidade, origina conseqüências inesperadas. Isto é verdadeiro também no caso das soluções promissoras. Algumas vezes, no momento de teste, essas soluções mostraram-se consideravelmente me- nos promissoras do que o esperado, ou provaram ser defi nitiva- mente escolhas errôneas. Apesar disso, a partir dessas escolhas erradas, foi possível aprender algo: se nada tivesse sido feito, não teríamos aprendido. De fato, é justamente a partir destes erros que nos tornamos hábeis em desenvolver novas diretrizes capazes de levá-los em conta.

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    Em outras palavras: frente aos problemas de grande com- plexidade, é melhor realizar testes detalhados e observar os resultados (e assim sermos capazes de aprender com a expe- riência) do que não fazer nada. É por isso que o conceito de solução promissora é tão importante. Porque tenta utilizar o melhor do que conhecemos, mas, ao mesmo tempo, aceita ex- plicitamente a possibilidade de cometer um erro (e, assim, a necessidade de aprender com a experiência).

    Design estratégico para a sustentabilidade. Concluindo, proje-

    tar soluções sustentáveis signifi ca defi nir um resultado e con- ceber e desenvolver os sistemas de artefatos necessários para atingi-lo. Signifi ca concebê-los e desenvolvê-los de tal forma que o consumo dos recursos ambientais seja reduzido e que as qualidades dos contextos de vida sejam regeneradas. Além disso, como foi apresentado anteriormente, cada passo rumo à sustentabilidade exige uma mudança radical. Os casos que são mais interessantes para nós aqui requerem uma mudança radical a nível local, ou seja, descontinuidades locais ou, mais precisamente, descontinuidades locais coerentes com a pers- pectiva da sustentabilidade. Resulta, portanto, que para nos movermos da concepção de design largamente dominante em direção ao design para a sustentabilidade, dois passos principais têm que ser tomados:

    em primeiro lugar, buscar uma abordagem estratégica do de- sign; em segundo lugar, levar seriamente em consideração os critérios da sustentabilidade. A partir dessas afi rmações, a expressão Design para a Sus- tentabilidade (Design for Sustainability, DfS) deve ser interpre- tada como uma atividade de design cujo objetivo é encorajar a inovação radical orientada para a sustentabilidade, ou seja, con- duzir o desenvolvimento dos sistemas sociotécnicos em direção ao baixo uso dos materiais e da energia e a um alto potencial regenerativo. Efetivamente, para tomar esse rumo, precisamos usar uma abordagem de design estratégico (e ferramentas de de- sign estratégico). Dessa forma, a fi m de chegar ao design para a sustentabilidade, entendido como design estratégico para a sus-

    36 | 1. Sustentabilidade

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    tentabilidade, é necessário trabalhar através do design estratégi- co e de suas características, objetivos e modos de operação. Ou seja: conceber e desenvolver novas (e sustentáveis) soluções e, a fi m de implementá-las, colaborar na construção das apropriadas parcerias (ou seja, criar as condições para a reunião dos vários atores necessários para a obtenção dos resultados desejados) (Manzini, Collina, Evans, 2004).

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    2. Modos de vida | Bem-estar sustentável, bens comuns e capacidades

    A idéia de bem-estar é uma construção social que se forma ao longo do tempo, de acordo com uma variedade de fatores. A idéia de bem-estar hoje dominante no ocidente e amplamente difundida por todo o mundo nasceu com a revolução indus- trial. Sofreu progressivas mudanças, acompanhando a evolu- ção da sociedade, e agora se revela como um conjunto dinâmi- co e articulado de visões, expectativas e critérios de avaliação que compartilham uma persistente característica: associar a percepção e a expectativa de bem-estar à uma disponibilidade sempre maior de produtos e serviços. Hoje sabemos que tal idéia de bem-estar conduz a um consumo intrinsecamente insustentável dos recursos ambien- tais. Sabemos que, por causa disso, e considerando os limites de nosso planeta, essa maneira de pensar e, conseqüentemen- te, de se comportar, deve mudar nos próximos anos. De fato, essa mudança já se manifesta hoje de muitas formas e outras idéias de bem-estar estão progressivamente emergindo. Porém, o momento e o modo nos quais um efetivo processo de trans- formação virá à luz é ainda uma questão completamente aber- ta. Frente a esse desafi o, nosso problema comum – portanto de toda a comunidade mundial – é o de facilitar uma mudança que possa acontecer da maneira menos dramática possível. Nossa aspiração comum para o design é, ou deveria ser, criar as condi- ções para que isso possa acontecer não como uma necessidade, mas como uma escolha. Em outras palavras: que aconteça pela força de atração exercida pelas novas oportunidades e idéias de bem-estar, e não sob a pressão de eventos catastrófi cos.

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    2.1 Bem-estar baseado no produto

    No desabrochar da sociedade industrial, o desenvolvimento combinado de ciência e tecnologia ofereceu a um número cres- cente de pessoas uma possibilidade até então desconhecida:

    a de ter a seu alcance produtos que eram a materialização de serviços complexos – máquinas que realizavam, a baixo custo, serviços que anteriormente estavam acessíveis apenas a pou- cos privilegiados, como ter a roupa lavada em lavanderias ou jantar ao som de uma orquestra de câmara. Além disso, pelo fato de tornar esses produtos disponíveis em crescente quantidade com preços sempre em queda, a apli- cação de sistemas industriais cada vez mais efi cientes demo- cratizou o acesso, delineando uma visão de futuro em termos de um contínuo crescimento de bem-estar ou, para ser mais explícito, do bem-estar que estes produtos seriam capazes de trazer. A força original da idéia de bem-estar produzida pela so- ciedade industrial repousa exatamente nesta promessa de de- mocratização do acesso a produtos que reduzem o esforço, au- mentam o tempo livre e estendem as oportunidades de escolha individual, ou seja, aumentam a liberdade individual.

    Promessas descumpridas e impraticáveis. A crise do bem-estar

    baseado no produto começa com uma questão muito concreta e possivelmente devastadora: a promessa de liberdade indivi- dual e democracia de consumo sobre a qual esta se baseia não foi mantida e, mais signifi cativamente, estamos descobrindo que não pode ser mantida nem agora e nem no futuro. De um lado, a promoção da liberdade individual trazida pelas novas gerações de produtos parece sempre mais discu- tível (por exemplo, a chegada das máquinas de lavar roupa nas casas é muito diferente do impacto do último modelo de telefo- ne celular, que apenas substitui os da geração precedente). De qualquer forma, o que é consideravelmente menos dis- cutível é o fracasso da segunda promessa, aquela que diz res- peito à difusão do bem-estar baseado no produto. Na realidade, é principalmente nesse campo que podemos observar, inclu-

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    sive em termos de quantidade, o quanto tal promessa não foi mantida e, tampouco, o poderá ser no futuro. A questão que se revela muito claramente é a seguinte: o bem-estar baseado no produto, estendido em escala mundial, é intrinsecamente um modelo de bem-estar insustentável. Mais precisamente:

    é intrinsecamente insustentável para um planeta pequeno e densamente povoado, no qual se deseje respeitar alguns prin- cípios elementares de justiça. De fato, se todos os habitantes do planeta realmente procurassem este tipo de bem-estar da mes- ma maneira (como é seu sacrossanto direito, visto que tantos outros efetivamente fazem o que lhes é cotidianamente prome- tido), teríamos de lidar com uma imensa catástrofe:

    Uma catástrofe ecológica, caso tivessem sucesso: o planeta seria incapaz de suportar o peso de seis a oito bilhões de pessoas que se aproximam aos padrões de consumo oci- dentais. Efetivamente, o modelo de bem-estar baseado no produto nos leva a uma situação ambientalmente catastró- fi ca: o planeta não pode sustentar estes bilhões de consu- midores de bens e serviços do tipo que são delineados pela propaganda. Uma catástrofe social, caso fracassassem: seis a oito bi- lhões de pessoas aspirando aos mesmos padrões de bem- estar, mas somente poucos conseguindo alcançá-lo. Neste segundo caso, teríamos uma catástrofe porque uma socie- dade altamente interconectada e globalizada não poderia lidar durante muito tempo com uma situação onde 20% (ou menos) da população dispõem do prometido bem- estar, enquanto os 80% restantes são forçados a observar, sem nenhuma possibilidade real de inclusão. É de conheci- mento geral que cerca de 20% da população mundial vive, hoje, segundo o modelo de bem-estar baseado no produ- to e que, sozinha, consome 80% dos recursos ambientais disponíveis. Os 80% restantes da população, se nada mu- dar, simplesmente não terão à disposição sufi ciente espa- ço ambiental capaz de sustentar um padrão de consumo similar (Wuppertal Institute, 1996; Chambers, Simmons, Wackernagel, 2000).

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    Entretanto, existe ainda uma outra perspectiva, um meio termo entre tais catástrofes: em um mundo marcado pela crise social e ambiental, o aumento no número de consumidores de “grande impacto” corresponde a um aumento simultâneo no número daqueles que são excluídos. Esta é a perspectiva que nos parece a mais provável.

    Primeira lição. Mesmo que suas dimensões e implicações não sejam ainda totalmente evidentes, os riscos ambientais relacio- nados à difusão do bem-estar baseado no produto apareceram nitidamente, desde o emergir da consciência ambiental há 40 anos. Nosso caminho durante esses anos pode ser visto, em seu conjunto, como um amplo processo de aprendizagem, cujo de- safi o tem sido evitar esses riscos ou, ao menos, reduzi-los. O primeiro passo baseou-se em uma interpretação básica. Naquele tempo, bem-estar, produtos e impacto ambiental apa- reciam ligados numa dupla correlação que, em síntese, pode ser colocada como: “bem-estar” = “mais produtos”; e “mais pro- dutos” = “maior consumo de recursos naturais”. Sendo assim, o aumento do bem-estar que cada pessoa aspira está diretamen- te ligado ao consumo de recursos naturais. Chegamos inevita- velmente à conclusão que quanto maior o nível de bem-estar desejado e quanto mais pessoas almejarem este específi co tipo de bem-estar, mais o meio ambiente será danifi cado. Na primeira metade do século passado, em um contexto econômico e cultural onde o conceito de limites parecia ter sido esquecido, a relação direta entre crescimento do bem-estar e consumo de recursos naturais não era considerada um proble- ma real, ou era vista como um preço a ser pago pelo aumento do bem-estar geral. Esta situação começou a mudar nos últi- mos 30 anos do século passado, quando começamos a enten- der (ou melhor dizendo, fomos forçados a entender) que este modelo traz todos os problemas descritos anteriormente (isto é, não apenas os problemas ambientais mas também os sociais, os políticos e, por fi m, os econômicos). Conseqüentemente, o assunto ambiental foi sendo progressivamente inserido em um número crescente de agendas políticas e econômicas.

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    O primeiro efeito da “descoberta” do problema ambiental (e de suas implicações) foi a necessidade de nos confrontarmos com a “dupla correlação” mencionada anteriormente. Fizemos isso considerando o primeiro ponto (ou seja, a correlação entre bem-estar e disponibilidade do produto) como dado, e con- centrando toda a ação no segundo (o vínculo entre produtos e consumo de recursos ambientais). Assim, os esforços foram focalizados na possibilidade técnica de romper a ligação entre os produtos e o consumo de recursos ambientais, separando o crescimento do primeiro (o produto) do crescimento do segun- do (o impacto ambiental), deste modo aumentando a efi ciência ambiental dos produtos (defi nida como ecoefi ciência do pro- duto). Em síntese, o objetivo era fazer produtos empregando menor consumo de recursos.

    A proliferação dos produtos light. O esforço alcançou um par-

    cial sucesso: muitos produtos foram reprojetados, sua ecoefi - ciência, melhorada, e, no conjunto, os produtos industriais tornaram-se mais light (no sentido que seu peso ambiental, ou seja, a sua pegada ecológica foi reduzida). Infelizmente, porém, as estatísticas demonstram que o con- sumo total dos recursos ambientais continuou crescendo, visto que, enquanto o peso ambiental de cada unidade de produto diminuía, o consumo aumentava mais que proporcionalmente, conseqüentemente aumentando a utilização de recursos. Essa contradição entre expectativas e resultados é um dos desconcertantes aspectos com os quais nos confrontamos no processo de aprendizagem em curso e que foi denominado efeito boomerang (rebound effect)

    O efeito boomerang (rebound effect). As últimas décadas de

    experiência no planejamento e desenvolvimento de produtos e serviços ecoefi cientes revelaram uma grande e, em muitos ca- sos, trágica descoberta. É o efeito boomerang (rebound effect), isto é, o fenômeno através do qual, devido a uma intricada tra- ma de eventos, as escolhas consideradas positivas para o am- biente, demonstram gerar novos problemas quando colocadas

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    em prática. De fato, observamos que cada melhoria tecnológi- ca introduzida com a intenção de aumentar a ecoefi ciência de produtos e serviços – por motivos enraizados na complexida- de do sistema sociotecnológico como um todo – se transforma “naturalmente” em uma nova oportunidade de consumo, con- seqüentemente aumentando a insustentabilidade dos sistemas nos quais foi introduzida. No passado recente, quando observávamos a progressi- va diminuição do peso ambiental de cada um dos artefatos à disposição, considerávamos ingenuamente que o sistema de produção e consumo como um todo estivesse se desenvolven- do na direção certa, ou seja, rumo à sustentabilidade. Todavia, ampliando o alcance desta análise e focalizando não somente nos produtos unitários, mas no sistema como um todo, foi pos- sível tomar consciência de que a situação era assaz diferente. Demos-nos conta de que os produtos, quando se tornam leves, menores, efi cientes e econômicos, tendem a mudar seu status e proliferar, promovendo formas de consumo mais difusas e ace- leradas, sendo atraídos para dentro dos ciclos da moda (como acontece com os relógios) ou do mundo instantâneo dos bens descartáveis (como no caso das câmeras fotográfi cas). Da mesma forma, vimos que o desenvolvimento dos siste- mas eletrônicos, magnéticos e das memórias ópticas (e suas in- terfaces amigáveis) tornaram fáceis atividades que antes eram difíceis e tediosas, promovendo a sua proliferação. Este proces- so também incrementou enormemente o consumo de recursos. Por exemplo, a síndrome do “clica e imprime” é bem conhecida. Com a ampla disponibilidade de computadores, impressoras e processadores de texto, a atualização e impressão de documen- tos tornou-se tão simples que eles passaram a ser impressos em excessivas versões, provocando um crescimento exponencial no consumo de papel.

    Quebrando a correlação entre bem-estar e produtos. O efeito

    boomerang é, portanto, o resultado de uma desordem econô- mica, social, cultural e tecnológica que invade todas as esferas da vida social e individual. O fato de que ninguém o tenha pre-

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    visto tem relação, principalmente, com os hábitos mentais do- minantes entre os observadores, que os levaram a não conside- rar o caráter sistêmico dos fenômenos observados e, sobretudo, a ignorar sua complexidade. Em outras palavras, levou-os a não considerar a imprevisibilidade (e o potencial caráter contradi- tório) dos fenômenos socioculturais que cada inovação tecno- lógica traz consigo. Seja como for, o resultado é que a relativa desmateriali- zação dos produtos não trouxe consigo nenhuma redução no consumo geral. A esperada cisão de produtos e consumo (con- siderado como um todo) não aconteceu. O sistema ainda cami- nha rumo à uma crise real. A principal lição extraída desta experiência e da descoberta do efeito boomerang é que devemos aprender com a própria prática. Nesse caso, relembrando mais uma vez a complexidade dos sistemas com os quais lidamos, a prática nos indica que é hora de operar na conexão entre “bem-estar” e “produto”. Lem- brando a dupla correlação com a qual começamos, mostra-se evidente que concentrar-se somente na segunda – “mais pro- dutos” = “mais consumo de recursos ambientais” – não conduz à direção certa. Para ser mais explícito, aprendemos que esse tipo de intervenção é importante, mas não sufi ciente: cada pro- duto unitário pode se tornar mais leve, porém sua difusão pode crescer em proporção maior. Por esse motivo, agora, devemos nos concentrar na primeira correlação – “mais produtos” = “mais bem-estar” – e encontrar a maneira de quebrá-la.

    Bem-estar baseado no acesso. Na última década, as idéias do- minantes de bem-estar começaram a mudar, pelo menos nas sociedades industriais adultas. Mais precisamente: as partes mais urbanizadas e globalizadas das sociedades onde quer que elas se encontrem no planeta. Essa mudança, que deve ser relacionada a transformações em andamento rumo a uma economia baseada nos serviços e no conhecimento, pode ser resumida nos slogans “do consu- mo à experiência” (Pine, Gimore, 1999) e “da posse ao acesso” (Rifkin, 2000). Inicialmente, esta perspectiva é considerada

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    positiva: o acesso a serviços e experiências que satisfazem ne- cessidades intangíveis parece ser um conceito promissor, uma idéia sobre a qual construir um estilo de vida sustentável. In- felizmente, como veremos, a realidade nos mostra um quadro completamente diferente. No quadro desta nova economia, a posição central do “pro- duto material” na defi nição de bem-estar torna-se obsoleta: o bem-estar não aparece mais ligado à aquisição de um determi- nado “pacote” de produtos materiais, mas sim à disponibilidade de acesso a uma série de serviços, experiências e produtos in- tangíveis. Mais especifi camente: em uma sociedade saturada de bens materiais, focalizar no imaterial parece mais interessante. E, ao mesmo tempo, quando estilos de vida são caracterizados pela rapidez e fl exibilidade, a posse de produtos materiais apa- rece como uma solução demasiado pesada e rígida, algo que aumenta a inércia do sistema (que, ao contrário, é concebido para ser o mais leve e fl exível possível) (Rifkin, 2000). De fato, coerentemente com essa visão, que podemos de- fi nir como o bem-estar baseado no acesso, a qualidade de vida está relacionada à quantidade e à qualidade dos serviços e ex- periências aos quais podemos ter acesso. E, conseqüentemen- te, a idéia de liberdade tende a ser coincidente com a liberdade de acesso (metaforicamente, os contextos que melhor ilustram esta visão são os parques temáticos: lugares onde, para seu pra- zer, você pode escolher suas emoções entre várias ofertas, e onde cada elemento foi cuidadosamente planejado para ofere- cer-lhe uma “experiência emocionante” – sempre se você tiver o dinheiro para comprar o bilhete de entrada).

    O efeito boomerang (rebound effect) na era do acesso. O proble-

    ma desta visão emergente de bem-estar é que, embora quebre a ligação entre bem-estar e consumo dos recursos ambientais, ao se desenvolver no atual contexto cultural e econômico, pode tornar-se na prática ainda mais insustentável do que o bem- estar baseado unicamente no produto (Manzini 2001, Vezzoli, Manzini, 2007). E isto ocorre por uma série de razões interliga- das:

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    As novas “necessidades intangíveis” tendem a ser adiciona- das às antigas “necessidades materiais”, e não a substitui- las. A velocidade e a fl exibilidade dos novos estilos de vida im- plicam a mesma velocidade e fl exibilidade no acesso aos serviços que, por essa mesma razão, proliferaram. Serviços e experiências, por si só, podem ser imateriais, mas seu fornecimento pode se basear em um alto nível de consumo material. Em conclusão, a idéia de bem-estar baseado no acesso, apli- cada da maneira como ocorre hoje, traz resultados insignifi - cantes ou até mesmo negativos. Portanto devemos enfrentar a seguinte questão: por que isso acontece? Ou seja, por que, não importa o que façamos, o resultado fi nal acaba sendo um ulte- rior aumento no consumo de recursos ambientais?

    2.2. Bem-estar e bens comuns

    As razões pelas quais o bem-estar baseado no produto não é sustentável, em termos ambientais e sociais, foram amplamen- te discutidas. Entretanto, não podemos dizer o mesmo sobre a questão da sustentabilidade (ou insustentabilidade) do bem- estar baseado no acesso. Nos parágrafos seguintes serão for- muladas algumas hipóteses que visam formar os fundamentos de uma nova abordagem à questão do bem-estar: o bem-estar ativo e relacionado ao contexto. Para fazer isso, partiremos de algumas hipóteses de trabalho específi cas.

    A crise dos bens-comuns. Nossa primeira hipótese de trabalho está relacionada à existência de uma forte relação entre o efeito boomerang e a crise dos bens comuns, especialmente dos bens comuns locais. A expressão bens comuns locais, que é o pilar sobre o qual a primeira hipótese é construída, designa entidades que perten- cem a todos e a ninguém em particular. E, enquanto permane- cerem “comuns”, não podem ser reduzidas a produtos comer- cializáveis e não podem ser, portanto, compradas ou vendidas.

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    Exemplos de bens comuns locais abrangem desde os recur- sos físicos básicos tais como o ar e a água, passando por recur- sos sociais tais como a comunidade de bairro ou o senso cívico de seus cidadãos, até incluir recursos complexos tais como a paisagem, o espaço público urbano ou a “segurança percebida” entre os habitantes de uma determinada cidade. Está claro que estes bens comuns constituem uma parte fundamental na construção de nossos contextos de vida, isto é, na defi nição da qualidade dos contextos físicos e sociais em que vivemos e nos quais os próprios produtos assumem signi- fi cados. No entanto, a posição central mantida pelos bens adquirí- veis individualmente (sejam produtos ou, mais recentemente, serviços) na defi nição dos modelos de bem-estar dominantes nas sociedades industriais causou, como um efeito colateral al- tamente tangível, a subestimação do papel que os bens comuns poderiam assumir na defi nição atual do estado de bem-estar. As conseqüências se manifestam nos seguintes fenômenos, complementares entre si:

    Desertifi cação: a negligência para com os bens comuns, considerados insignifi cantes, e sua conseqüente degene- ração, entendida como algo inevitável (e assumida como uma espécie de multa a pagar pelo progresso e pela busca do bem-estar). Mercantilização: a transformação em bens de mercado de alguns componentes do tradicional habitat humano que previamente haviam sido comuns (isto é, água engarrafada no lugar da água natural, o shopping no lugar da praça pú- blica, um serviço de segurança particular no lugar da vigi- lância informal dos vizinhos de casa, e assim por diante).

    O desaparecimento do tempo lento e contemplativo. A segunda

    hipótese de trabalho trata da relação entre o efeito boomerang e as crises do tempo lento e contemplativo. A expressão tempo contemplativo designa o tempo usado para “não fazer nada”, o que não signifi ca que seja vazio ou sem signifi cado. Exemplos de tempo contemplativo abrangem, sem

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    dúvida, desde olhar um pôr-do-sol até fazer alguns exercícios

    espirituais. É possível, porém, admitir a existência de uma par- cela de tempo contemplativo em algumas ações (como passear,

    comer, conversar com as pessoas

    )

    quando estas são realiza-

    ... das em um ritmo lento. Essa última observação nos conduz di- retamente ao signifi cado do que chamamos de tempo lento. O tempo lento não é apenas o tempo no qual fazemos algo lentamente, mas também aquele no qual produzimos e/ou apreciamos (profundas) qualidades. De fato, sabemos agora, ou melhor, um número maior de pessoas compreende agora que produzir e apreciar qualidades proporciona uma diferente idéia de efi ciência, seja porque reduz a velocidade, nos permi- tindo usar todo o tempo necessário para fazer as coisas segun- do as melhores “regras da arte”, seja porque nos permite apre- ciá-las, tendo desenvolvido o conhecimento e a sensibilidade requeridos a fi m de compreender seu alto grau de qualidade. Por exemplo: considere, por um lado, todo o tempo necessá- rio para produzir um excelente vinho e adicione, por outro, o tempo necessário para desenvolver e refi nar nossas habilidades em reconhecê-lo e, fi nalmente, tomá-lo sendo capaz de perce- ber todas as suas qualidades. Estas considerações nos indicam,

    portanto, que a lentidão e o tempo lento não são valores em si, mas conseqüências da busca por algo que estamos perdendo na atual época do tempo veloz e que podemos denominar de

    qualidades profundas.

    Tradicionalmente, o tempo lento e contemplativo era uma importante parte da vida cotidiana. Hoje, porém, o tempo lento e contemplativo está desaparecendo devido a dois fenômenos complementares:

    Saturação: a tendência a saturar cada momento com algo para fazer, sempre e mais freqüentemente, de modo a en- chê-lo com várias coisas a fazer ao mesmo tempo. Aceleração: a tendência a fazer cada coisa em um ritmo ace- lerado para ter a possibilidade (ou a ilusão) de fazer mais. Deve ser acrescentado que, apesar de o desaparecimento do tempo lento e contemplativo ser ainda a condição dominan- te, algo novo e interessante está aparecendo, a partir de inicia-

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    tivas como o Slow Food e o Slow Tourism, por exemplo. Voltare- mos a esse ponto mais adiante.

    A difusão dos bens remediadores. Se considerarmos o século

    passado, podemos observar empiricamente como a difusão de bens e serviços para uso e consumo privados ocorreu paralela- mente à deterioração dos bens comuns e o desaparecimento do tempo lento e contemplativo. Ao fazer essa observação, nossa terceira hipótese de traba- lho pode ser articulada dessa forma:

    Há uma relação entre a difusão de bens de mercado (mes- mo que mais sofi sticados e efi cientes) e a crise dos bens comuns e do tempo contemplativo; Há uma segunda relação entre a crise dos bens comuns, do tempo contemplativo e a proliferação de novos bens re- mediadores, isto é, produtos e serviços que tentam tornar aceitável um contexto de vida que é, por si mesmo, alta- mente deteriorado. O crescimento no consumo de bens remediadores por sua vez causa ainda maior consumo geral e uma ulterior crise tanto dos bens comuns quanto do tempo contemplativo, num contínuo e negativo ciclo vicioso. O conceito de bens remediadores é obviamente o assunto central nessa hipótese. O caráter comum desses bens é que seu uso ou consumo não melhora a qualidade de vida ou abre novas possibilidades para seus usuários (como poderia ser o caso de uma nova máquina de lavar roupa para uma pessoa que, até então, lavava suas roupas à mão). O que eles fazem é simples- mente restaurar (ou tentar restaurar) a aceitabilidade de um contexto de vida que está sendo degradado. O signifi cado desta defi nição se revela imediatamente ao consideramos a crise de alguns bens comuns básicos: compra- mos “água purifi cada engarrafada” porque a água natural está poluída, nos deslocamos para distantes “paraísos turísticos” porque a beleza local foi destruída, compramos sistemas do- mésticos de segurança eletrônicos e telemáticos porque os vi-

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    zinhos não mais vigiam, discretamente e sem custo, as casas da vizinhança e assim por diante

    Ainda que seja menos evidente, o mesmo conceito de bens remediadores pode ser usado em relação ao desaparecimento do tempo lento e contemplativo: compramos e consumimos um crescente número de produtos e serviços “para preencher o tempo”, para matar a sensação de vazio deixada pela nossa incapacidade de aproveitar o tempo contemplativo ou, sim- plesmente, para fazer algo a um ritmo mais lento, gozando do tempo necessário para apreciar suas qualidades profundas. No caso da relação entre consumo e desaparecimento do tempo contemplativo, não é fácil estabelecer com rígida precisão quais bens são corretivos e quais não são. Mas poderíamos dizer facil- mente que muitos deles, da televisão aos telefones celulares ou ao junk food, têm um forte componente consolador.

    Sustentabilidade e contextos de vida. Como conclusão deste

    item, podemos assumir que a não sustentabilidade, em escala local, é um processo de deterioração dos contextos de vida cau- sado pela crise dos bens comuns e pelo desaparecimento do tempo contemplativo. A expressão contexto de vida denota o ambiente físico e so- cial (o habitat) de uma pessoa e as possibilidades, oferecidas à esta mesma pessoa, de fazer suas escolhas. Sua qualidade está relacionada ao modo pelo qual diferentes sistemas (natural e artifi cial, físico e sociocultural, bens de mercado e bens co- muns) se inter-relacionam. Na verdade, no atual sistema socioeconômico, estamos testemunhando um duplo processo de crise: dos bens comuns e do desaparecimento do tempo lento e contemplativo; mas também da saturação do tempo e do espaço com bens e servi- ços remediadores e de “entretenimento”. Esse duplo fenômeno é particularmente perigoso porque, como vimos, seus dois diferentes aspectos se fortalecem mutua- mente, num processo negativo e vicioso: mais consumo, mais

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    degradação do contexto, mais consumo (de bens remediadores) e assim por diante. Se essas hipóteses estão corretas, o resultado é que cada idéia de bem-estar, para ser sustentável (ou pelo menos, para ter alguma possibilidade de ser sustentável), deve considerar as qualidades totais dos contextos de vida. Mais precisamente:

    deve se basear no acesso a uma variedade de produtos e ser- viços mas também, ou ainda mais, na qualidade e quantidade dos bens comuns disponíveis e na possibilidade de praticar uma ecologia do tempo, onde o tempo rápido, tanto quanto o tempo lento e contemplativo, sejam apropriadamente equilibrados.

    2.3 Bem-estar e capacidades

    Qualquer tentativa que objetive superar tanto o tradicional mo- delo de bem-estar (baseado no produto) quanto o novo modelo (baseado no acesso), deverá concentrar-se em um estudo mi- nucioso do papel do usuário neste processo. É o que faremos nos parágrafos seguintes.

    Sistemas desabilitantes e insustentáveis. “Dê um peixe a um

    homem e o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e o ali- mentará por toda a sua vida” (Lao Tzu, 400 a.C.). Esta antiga sabedoria nos mostra, hoje mais do que nunca, a luz no fi m do túnel no qual fomos aprisionados por uma errônea idéia de conforto e de crescimento econômico. No último século, a idéia dominante, gerada e difundida no mundo inteiro pelo ocidente foi: “se alguém estiver com fome dê-lhe um fast food ou uma lata de alimento pronto para o consumo (ou, se tiverem condições, leve-o a um restauran- te luxuoso)”. Faça o que fi zer, dê-lhe algo que não requeira es- forço, pensamento ou conhecimento sobre como preparar seu alimento; dê-lhe algo que aumente as atividades econômicas em torno da preparação do alimento. Para ser mais explícito, dê algo que leve à redução da economia informal, da autopre- paração e da troca não-monetária, aumentando deste modo a economia formal, na qual outras entidades (empresas privadas

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    ou redes públicas) possam produzir e distribuir os serviços e produtos necessários. Esse caso é obviamente emblemático de um movimento bem mais amplo e que tende a invadir cada aspecto de nos- sas vidas cotidianas, do sistema de saúde à educação de nos- sas crianças, da manutenção de bens móveis à de bens imóveis (nossas casas e lugares nos quais vivemos), da habilidade bási- ca de nos entretermos (estarmos sós sem fi carmos aborrecidos) àquela de nos socializarmos (engajar-se em diferentes formas de conversação com os outros). Dessa forma, a saúde requer médicos, hospitais e medicamentos. A educação de nossos fi - lhos requer escola, academias, televisões e aparelhos eletrôni- cos. A manutenção de nossas coisas é substituída por objetos descartáveis. A vivência do espaço público se desdobra em visi- tas a shoppings e parques temáticos. Nossa capacidade de nos entretermos e aos outros é abolida pela onda dos reality shows. E tudo isso, como foi dito, gira as engrenagens da economia e produz riqueza para todos. Frente a essas considerações, a pergunta que devemos fa- zer é: podemos realmente considerar sustentável uma socieda- de onde cada necessidade, mesmo a mais básica e mundana, é satisfeita através de um custoso e complexo sistema de produ- tos e serviços? A idéia de conforto como minimização do envol- vimento pessoal poderia ser estendida a todas as experiências da vida, dando-nos a possibilidade de cuidar do contexto físico e social onde vivemos e de garantir sua permanência, ou me- lhor, sua melhora? A resposta é não. A qualidade de um deter- minado contexto é o resultado do cuidado de todas as pessoas que ali vivem. Mas não somente: a quantidade de produtos e serviços comerciais que necessitamos é proporcional à difusão da idéia segundo a qual o conforto aumenta com a redução do envolvimento requerido ao usuário/consumidor. De maneira geral, pensamos que cada um de nós, se estivesse na posição de fazê-lo, gostaria de tentar reduzir o cansaço, o tempo e o estres- se psicológico empregado em resolver as pesadas e/ou irritan- tes tarefas da vida cotidiana. Esta é uma afi rmação difícil de ser contradita. No entanto, a questão é mais complexa e a realidade apresenta outras interessantes possibilidades.

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    Voltemos rapidamente ao início de nossas considerações. A atual idéia de bem-estar surgiu no século passado e por qua- se uma centena de anos permaneceu intocada, sem encon- trar qualquer rival capaz de representar uma ameaça real ao seu predomínio (na realidade, deve ser dito que era uma idéia igualmente absorvida pela prática dos regimes comunistas). Esta é uma longa história. Aqui, observaremos apenas que esta idéia teve início com a difusão da produção em massa de bens de consumo. Em particular, nasceu com a entusiástica desco- berta de que artefatos poderiam ser criados para trabalhar por nós, como modernos escravos mecânicos. A lembrança ainda viva do pesado fardo cotidiano de uma vida pré-mecanizada gerou a idéia de bem-estar como minimização do envolvimento pes soal: diante de um resultado a ser alcançado, a melhor estra- tégia será sempre a que requer o menor esforço físico, atenção e tempo, e, conseqüentemente, o mínimo de habilidade e capa- cidade para colocá-lo efetivamente em funcionamento.

    A natureza contraditória dos seres humanos. Felizmente, po-

    rém, a natureza humana não é tão simples e monológica. O legítimo desejo de evitar o peso de muitos aspectos da vida pré-industrial e sua tediosa repetitividade não é uma aspiração totalmente inclusiva, isto é, não pode ser estendida da mesma forma a todas as pessoas e atividades. Os seres humanos po- dem tender à ociosidade e à passividade, ao legítimo prazer em serem servidos, mas podem também comportar-se de modo completamente oposto. Podem encontrar satisfação, e até mes- mo entusiasmo, em um trabalho bem feito. Ou podem avaliar diferentes “estratégias de ação” e, encontrando a mais oportu- na, descobrir que vale a pena fazer alguma coisa por si mesmo (porque é a solução mais econômica ou porque é a que oferece maior liberdade). Certamente, este caráter potencialmente ativo e partici- pativo da natureza humana não deve ser considerado como o único modo de ser (sempre e somente assim), ou como o único eticamente aceitável (proposto como “valor” na retórica do tra- balho de alguns governos tristemente lembrados). A natureza

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    humana é contraditória. Ela oferece a possibilidade de operar segundo diversas lógicas e diferentes aspirações. Essa é sua ri- queza. E é a partir deste ponto que nasce a proposta de um novo tipo de bem-estar, que poderíamos chamar de bem-estar ativo. Uma idéia que, com certeza, não elimina as outras, mas as inte- gra, com uma nova condição: a condição na qual somos ativos e cuidamos de nós mesmos, da nossa família, da vizinhança e do ambiente, pois gostamos deles.

    A abordagem das capacidades. A evolução da demanda e da

    oferta de bem-estar, que apresentamos acima, é acompanha- da por uma evolução análoga em sua dimensão teórica: são abandonadas as teorias que buscam uma (presumida) obje- tividade e uma hierarquia de necessidades em favor daquelas que invocam a máxima subjetividade de julgamento, apelando a uma total subjetividade na defi nição do que seja efetivamente considerado “útil”. Adotaremos aqui uma posição intermediá- ria, seguindo a linha de pensamento traçada pelo economista anglo-indiano e prêmio Nobel de economia Amartya Sen em seus estudos sobre os padrões de vida e bem-estar individual. Segundo Sen, o que determina o bem-estar não são nem os bens nem suas características, mas “a possibilidade de fazer várias coisas utilizando aqueles bens ou suas características” (Nussbaum, Sen, 1993). É exatamente esta possibilidade que, na melhor das hipóteses, possibilita a um sujeito desenvolver sua idéia de bem-estar, dando-lhe maior possibilidade de “ser” (o que ele quer ser) e de “fazer” (o que ele quer fazer). No desen- volvimento desta idéia, Sen introduz dois diferentes conceitos:

    o de funcionamento (functionings) e o de capacidade (capabi- lity).

    Escreve Sen: “viver consiste numa série de functionings re-

    lativas ao fazer e ao ser, tais como ser adequadamente alimen-

    tado, abrigado e vestido(

    ),

    ser capaz de mover-se livremente,

    ... ser capaz de encontrar os amigos e de relacionar-se com eles,

    ser capaz de aparecer publicamente sem envergonhar-se, ser capaz de comunicar e participar, ser capaz de dar vazão aos

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    próprios instintos criativos, e assim por diante” (Nussbaum, Sen, 1993). De outro lado, a quantidade e qualidade dos funcionamen- tos que uma pessoa pode colocar em jogo depende da integra- ção de dois componentes fundamentais: as soluções as quais ela tem potencialmente acesso e os recursos pessoais disponí- veis. É precisamente na integração desses dois componentes que o conceito de “capacidade”, sobre o qual Sen fundamenta sua defi nição de bem-estar, emerge. Para Sen, e também para nós, a condição de bem-estar emerge da relação dinâmica en- tre funcionamentos e capacidades, entre o que uma pessoa po- deria ser e fazer, e o que ela efetivamente sabe, faz e é. Desse modo, articulando as soluções disponíveis num dado contex- to com os recursos pessoais de alguém que age nesse mesmo contexto, o conceito de capacidade nos fornece uma referência sobre a qual basear uma avaliação do padrão de vida real dessa pessoa. Podemos acrescentar que essa proposta não é apenas teó- rica. Ainda que a busca por um bem-estar realmente passivo esteja, hoje, mais disseminado que nunca, não possui o mes- mo poder de convencimento. Sobretudo, seu predominío não permanece incontestado. Atualmente, outras idéias e propos- tas estão circulando, onde o papel dos envolvidos é muito mais ativo, tal como na difusão da abordagem “faça-você-mesmo” praticada em diversas funções da vida cotidiana. Entretanto, as propostas que mais nos interessam aqui são especifi camente aquelas onde a participação ativa se traduz em novas formas de comunidade e de serviço colaborativo. Tais idéias e propostas serão delineadas nos Capítulos 3 e 4.

    2.4 Design e bem-estar

    O grande tema de design com o qual a sociedade deve se con- frontar hoje é o seguinte: como podemos nos encaminhar rumo a uma sociedade onde as expectativas de bem-estar não sejam mais associadas à aquisição de novos artefatos? Como pode- mos colocar as pessoas em condições de viver bem consumin-

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    do (muito) menos e regenerando a qualidade de seus contextos de vida? Para responder a essas perguntas, devemos imaginar um sistema cultural e de produção onde uma redução no consumo de produtos e serviços materiais seja (ainda mais) compensada

    por um crescimento em outras formas de qualidade: as qualida- des intangíveis da cultura e do espírito, mas também – e isso é do nosso maior interesse – a qualidade de nosso contexto de vida, onde o bem-estar é criado levando-se em consideração o quadro geral onde se desenvolve a vida de uma pessoa. Em outras palavras, qualquer idéia de bem-estar, para ser sustentável, deve (re)descobrir a qualidade do contexto e, por- tanto, o valor dos bens comuns e do tempo lento e contemplati- vo. Deve fazê-lo por duas razões: primeiro, porque, desse modo, o consumo total de produtos materiais e dos serviços baseados nestes produtos pode ser reduzido. Segundo, porque, para ser aceitável, a redução no consumo individual deve ser compen- sada por um aumento na qualidade dos bens comuns. Essa observação coloca os designers numa posição parado- xal: é necessário que cada sociedade e seus profi ssionais con- tribuam para a construção de um mundo onde as expectativas de bem-estar sejam menos associadas à existência de novos ar- tefatos. Por outro lado, naquilo que diz respeito aos designers, a única contribuiçao que aparentemente podem dar é justamen- te projetar e produzir artefatos. A boa notícia é que esse paradoxo pode ser superado: é possível imaginar uma nova geração de artefatos (tangíveis e intangíveis) que colaborem na defi nição de novas, e mais sus- tentáveis, demandas sociais. Quer dizer, artefatos que sejam ao mesmo tempo apreciados pelos potenciais usuários e capazes de regenerar a qualidade do contexto onde se encontram. A no- tícia ruim é que conceber e desenvolver estes novos artefatos não é simples. E, certamente, não se caracteriza como a tradi- ção consolidada daquilo que os designers, até agora, foram ca- pazes de fazer.

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    Pesquisas em design para um bem-estar baseado no contexto.

    Vimos no primeiro capítulo que as principais características do design para a sustentabilidade são: promover mudanças dire- cionadas no sistema local – isto é, estimular, facilitar e partici- par de uma ruptura com o modo de fazer dominante –, e, ao mesmo tempo, ser coerente com os critérios fundamentais da sustentabilidade. Algumas diretrizes foram propostas para sa- tisfazer esses requisitos. Neste segundo capítulo, as hipóteses de uma nova idéia de bem-estar são propostas como o resultado de três componen- tes principais: alta qualidade dos bens comuns, produtos dura- douros, efi cazes, ecoefi cientes e uma nova geração de serviços, chamados serviços colaborativos (defi niremos este conceito nos capítulos 3 e 4). Estes componentes (e sua combinação) devem ser considerados caso a caso e podem ser promovidos através do emprego de diferentes ferramentas de design (estra- tégico, de serviços, da comunicação e de produto). Nesse senti- do, temos duas linhas principais de pesquisa em design a serem desenvolvidas. São elas:

    Como regenerar os bens comuns locais? O título dessa linha de pesquisa poderia ser “bens comuns versus bens reme- diadores”. Alguns exemplos: como promover a água potável da bica ao em vez da água engarrafada? Como promover uma vizinhança aberta e segura ao invés de dispositivos de segurança? Como promover o bem-estar e a prevenção de doenças ao invés da assistência médica e dos remédios? Como promover o tempo lento? Neste caso, o título poderia ser “ecologia do tempo versus tempo veloz”. Supondo que o tempo veloz é muito bem desenvolvido na cultura e na economia dominantes, esta linha de pesquisa tem como objetivo principal promover “ilhas de lentidão”. Por exem- plo, promover uma idéia de qualidade (na comunidade, no turismo, em alguns produtos materiais, mesmo em servi- ços sociais) que, para ser produzida e apreciada, requeira “investimento do próprio tempo”.

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    Pesquisas em design para um bem-estar ativo. Afi rmamos an-

    teriormente que é necessário olhar criticamente para a idéia monológica de conforto como passividade e não envolvimento. Agora, é possível acrescentar que essa idéia nos conduziu pro- gressivamente à incorporação de conhecimentos e habilidades anteriormente difusos e de conhecimento público em aparatos técnicos e sistemas organizativos especifi camente projetados. Esse processo progressivamente retirou dos indivíduos e das comunidades as ferramentas e competências que no passado lhes permitiam lidar de maneira autônoma com os mais dife- rentes aspectos da vida cotidiana. É claro que os designers tiveram um papel importante na promoção e prática dessa idéia. Agora, frente à evidência dos problemas a ela relacionados, os designers deverão discutir “se” e “como” mudar de postura. Ou melhor, “se” e “como” seria pos- sível imaginar um novo tipo de bem-estar: um bem-estar ativo, onde as capacidades das pessoas em termos de sensibilidade, competência e espírito de iniciativa terão também um impor- tante papel. Focalizando essa proposta do ponto de vista do designer, devemos estabelecer uma nova idéia de produtos e serviços paralela à idéia atualmente dominante de produtos e serviços como sistemas desabilitantes. Se hoje a idéia mais amplamente difundida é a de que produtos e serviços são projetados consi- derando o usuário apenas como uma expressão de problemas (problemas que, para serem resolvidos, requerem uma mínima participação de sua parte), esta nova idéia deve, ao contrário, partir do que o usuário sabe, pode e deseja fazer. Em outras pa- lavras, produtos e serviços devem ser concebidos como siste- mas habilitantes, que colaboram na obtenção do resultado de- sejado pelo usuário, oferecendo a ele os meios para empregar suas próprias capacidades neste processo e, se necessário, es- timulando seu desejo de fazer parte do jogo (voltaremos à este tema dos sistemas habilitantes no capítulo 4).

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    3. Inovação Social | Comunidades criativas e organizações colaborativas

    A transição rumo à sustentabilidade, especifi camente a modos de vida sustentáveis, será um processo de aprendizagem social largamente difuso no qual as mais diversifi cadas formas de criatividade, conhecimento e capacidades organizacionais de- verão ser valorizadas do modo mais aberto e fl exível possível. Um papel particular será desempenhado por uma série de ini- ciativas locais que, por diversos motivos, serão cada vez mais capazes de romper os padrões consolidados e nos guiar rumo a novos comportamentos e modos de pensar. São por este moti- vo denominadas de descontinuidades locais. Esses casos promissores expressam principalmente a ativi- dade de minorias sociais e, quando confrontados com os mo- dos de pensar e comportamentos dominantes, tendem a desa- parecer. São, mesmo assim, iniciativas cruciais para promover e orientar o processo de transição rumo à sustentabilidade. Po- dem ser vistos como experimentos sociais de futuros possíveis:

    laboratórios multilocalizados e difusos, onde diferentes movi- mentos rumo à sustentabilidade são ensaiados. Como ocorre em qualquer laboratório, ninguém pode dizer, a priori, qual experimento terá realmente sucesso. Não obstante, é possível aprender algo por meio de cada uma dessas tentativas, se for- mos capazes de reconhecer seu valor.

    3.1 Comunidades criativas

    O termo inovação social refere-se a mudanças no modo como indivíduos ou comunidades agem para resolver seus proble- mas ou criar novas oportunidades. Tais inovações são guiadas mais por mudanças de comportamento do que por mudanças

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    tecnológicas ou de mercado, geralmente emergindo através de processos organizacionais “de baixo para cima” em vez daque- les “de cima para baixo”. A experiência nos indica que períodos particularmente in- tensos de inovação social tendem a ocorrer quando novas tec- nologias penetram nas sociedades ou quando problemas par- ticularmente urgentes ou difusos devem ser enfrentados. Ao longo das últimas décadas, várias novas tecnologias foram in- troduzidas em nossas sociedades, gerando possibilidades ain- da amplamente inexploradas. Por outro lado, a gravidade dos problemas sociais e ambientais a serem enfrentados na nossa vida cotidiana se tornou evidente. Portanto, considerando a combinação desses dois fenômenos, é fácil prever a manifes- tação de uma nova e imensa onda de inovação social (Young Foundation, 2006). Nossa principal hipotése aqui é que esta emergente onda pode ser um poderoso guia na transição rumo à sustentabilidade. O conjunto da sociedade contemporânea, em sua comple- xidade e contraditoriedade, pode ser visto como um imenso la- boratório de idéias para a vida cotidiana, onde modos de ser e de fazer se desdobram em novas questões e respostas inéditas. Isso corresponde exatamente ao que acabamos de defi nir com o termo inovação social: mudanças no modo como indivíduos ou comunidades agem para resolver seus problemas ou criar novas oportunidades (Laundry, 2006; Emude, 2006). Existem muitos casos em que essa criatividade socialmen- te difusa se expressa no design de atividades que podemos de- nominar “colaborativas”. São exemplos: modos de vida em co- mum nos quais espaços e serviços são compartilhados (como o co-housing); atividades de produção baseadas nas habilidades e recursos de uma localidade específi ca, mas que se articulam com as mais amplas redes globais (como acontece com alguns produtos típicos locais); uma variedade de iniciativas relativas à alimentação natural e saudável (desde o movimento internacio- nal do Slow Food até a difusão, em muitas cidades, de uma nova geração de farmers market, ou seja, “mercados de produtores”); serviços auto-organizados, como microberçários ou microcre- ches (espaços de recreação e cuidados infantis que funcionam

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    por iniciativa dos próprios pais) e lares compartilhados (onde jovens e idosos moram juntos, ajudando-se mutuamente); no- vas formas de socialização e intercâmbio (tais como o Local Exchange Trading System – Lets – e os time banks); sistemas de transporte alternativos (do car sharing e do carpooling à redes- coberta da bicicleta); redes que unem de modo direto e ético produtores e consumidores (como as atividades do comércio justo), entre outros (SEP, 2008). Podemos observar que, embora apresentem características e modos de operar diversos, esses casos possuem um signifi ca- tivo denominador comum: são sempre a expressão de mudan- ças radicais na escala local. Em outras palavras: representam descontinuidades em seus contextos por desafi ar os modos tradicionais de fazer, introduzindo outros, muito diferentes e intrinsecamente mais sustentáveis. Isto é verdadeiro tanto no caso da organização de sistemas para o compartilhamento de objetos ou espaços em lugares onde a utilização individual nor- malmente prevalece quanto nas iniciativas dedicadas à recu- peração da qualidade dos alimentos saudáveis e biológicos em lugares onde é considerado normal ingerir outros tipos de pro- duto; ou ainda quando temos o desenvolvimento de serviços participativos em localidades onde esses mesmos serviços se baseiam em uma absoluta passividade da parte dos usuários, e assim por diante (Meroni, 2007).

    Casos promissores de inovação social. Todos esses casos precisa-

    riam ser analisados em detalhe de modo a avaliar precisamente a sua efetiva contribuição à sustentabilidade ambiental e so- cial. Entretanto, mesmo à primeira vista, é possível reconhecer sua coerência com algumas das diretrizes fundamentais para a sustentabilidade. Mais precisamente, os exemplos aos quais nos referimos aqui, possuem uma capacidade inaudita de arti- cular interesses individuais com interesses sociais e ambientais. De fato, são casos que, em sua busca por soluções concretas, acabam por reforçar o tecido social, gerando e colocando em prática idéias novas e mais sustentáveis de bem-estar. Especi- fi camente, constituem idéias que dão grande valor à qualidade

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    de nossos “bens comuns”, a uma atitude respeitosa e atenta, à busca por um ritmo mais lento de vida, à ação colaborativa, a novas formas de comunidade e a novos conceitos de “localida- de” (Manzini, Jegou, 2003; Manzini, Meroni, 2007). Além disso, esse bem-estar parece ser coerente com a maior diretriz para a sustentabilidade ambiental, qual seja: atitudes positivas rumo a espaços e bens compartilhados; uma preferência por alimentos biológicos, regionais e de estação; uma tendência a regenerar redes locais; e, fi nalmente e mais importante, coerência com um modelo de economia distribuída, que procura ser menos baseado em serviços de transporte e mais capaz de integrar sis- temas efi cientes de energia renovável (Vezzoli, Manzini, 2007). Justamente pelo fato de que esses casos sugerem soluções que combinam interesses pessoais com interesses sociais e ambientais, acreditamos que deveriam ser considerados como casos promissores: iniciativas nas quais, de maneiras diferentes, pessoas foram capazes de orientar suas expectativas e seu com- portamento individual em uma ação coerente com uma pers- pectiva sustentável.

    Pessoas criativas e colaborativas. Cada um desses casos promis-

    sores se baseia em grupos de pessoas que foram capazes de dar vida a estas soluções inovadoras. E fi zeram isso recombinando o que já existe, sem esperar por uma mudança geral de siste- ma (na economia, nas instituições, nas vastas infra-estruturas). Por essa razão, considerando que a capacidade de reorganizar elementos já existentes em novas e signifi cativas combinações é uma das possíveis defi nições de criatividade, tais grupos podem ser defi nidos como comunidades criativas: pessoas que, de for- ma colaborativa, inventam, aprimoram e gerenciam soluções inovadoras para novos modos de vida (Meroni, 2007). Uma segunda característica, comum a esses casos promis- sores, é que eles nascem a partir de problemas colocados pela vida cotidiana contemporânea: de que forma podemos supe- rar o isolamento trazido por um individualismo radical? Como organizar funções cotidianas se a família e a vizinhança não se ocupam mais em fornecer o suporte que tradicionalmente ofe-

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    reciam? Como podemos responder à demanda por alimentos naturais e condições de vida saudáveis quando vivemos em metrópoles globais? Como podemos encorajar a produção lo- cal sem sermos esmagados pelo poder dos mecanismos de co- mércio global? Comunidades criativas geram soluções capazes de respon- der a todas essas perguntas. Perguntas que são tão corriqueiras quanto radicais. Perguntas que o sistema de produção e consu- mo dominante, apesar de sua oferta impressionante de produ- tos e serviços, é incapaz de responder e, sobretudo, de respon- der adequadamente do ponto de vista da sustentabilidade. Podemos dizer, enfi m, que as comunidades criativas apli- cam sua criatividade para quebrar os modelos dominantes de pensar e fazer e, com isso, conscientemente ou não, geram as descontinuidades locais que mencionamos antes. Um terceiro denominador comum é que as comunidades criativas resultam de uma original combinação de demandas e oportunidades. As demandas, como vimos, são sempre criadas por problemas da vida cotidiana contemporânea. As oportuni- dades se manifestam a partir de diferentes combinações de três elementos básicos: a existência (ou ao menos a memória) das tradições; a possibilidade de utilizar (de uma forma apropriada) uma série de produtos, serviços e infra-estruturas; a existência de condições sociais e políticas favoráveis (ou pelo menos capazes de aceitar) o desenvolvimento de uma criatividade difusa.

    Tradições como recursos sociais. Ao responder as questões co-

    locadas pela vida contemporânea, as comunidades criativas estabeleceram ligações, mais ou menos fortes e explícitas, com modos de fazer e pensar próprios das culturas pré-industriais:

    o velho mercado, as hortas de seus avós, crianças indo para es- cola como nos “bons e velhos tempos”, o compartilhamento de ferramentas e equipamentos, como era norma antes do adven- to de nossa atual sociedade orientada ao consumo, e assim por diante. A existência dessas evidentes ligações com os modos tradicionais de fazer e pensar levou alguns observadores a afi r- mar que tais casos não representavam uma efetiva novidade,

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    sendo apenas manifestações de saudosismo por uma “vida de aldeia” a qual nunca poderemos retornar. Olhando para esses casos e suas motivações com mais cui- dado, é possível constatar claramente que nada poderia ser mais falso: o “passado” que emerge nestes casos é um recurso social e cultural extraordinário, absolutamente atualizado. É o valor da socialidade de vizinhança que nos torna capazes de trazer novamente vida e segurança aos nossos bairros e cidades. É o respeito pelas estações climáticas e a produção local de alimen- tos que pode reorganizar a insustentável rede de fornecimento e distribuição atual. É o compartilhamento que nos torna ca- pazes de reduzir o peso da aquisição individual de equipamen- tos, sem renunciar às funcionalidades que desejamos. Por fi m, cada um desses casos representa a herança de conhecimento, padrões de comportamento e formas de organização que, à luz das atuais condições de existência e dos atuais problemas, po- dem representar um valioso material de construção para o fu- turo (CCSL, 2007).

    Tecnologias reinterpretadas. A maioria dos casos promissores

    que destacamos utiliza tecnologias “comuns” (ou o que é con- siderado “comum” hoje em muitos países). Freqüentemente, porém, tais tecnologias são utlizadas de uma maneira original, ou seja, geram um novo tipo de sistema a partir de produtos e serviços comumente disponíveis no mercado. Por exemplo: ge- ralmente utilizam o telefone, o computador e a internet como qualquer membro da sociedade pode fazer (claramente mem- bros de sociedades onde os telefones, computadores e internet sejam atualmente disponíveis). Entretanto, devemos enfatizar o quanto são importantes essas “tecnologias comuns”. Alguns poucos casos fazem uso de serviços e produtos sofi sticados, porém nenhum deles poderia existir sem um telefone. E muito poucos sem um computador e acesso à internet. Dito isso, podemos acrescentar que essas tecnologias, por mais modestas que sejam, por mais comuns que possam ser consideradas, ainda têm potencialidades amplamente não uti- lizadas (e também não imaginadas): os telefones celulares – to-

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    mando como exemplo o aparelho de comunicação mais co- mumente usado mundialmente – foram utilizados até hoje principalmente como instrumentos de comunicação. Todavia, apresentam também um grande potencial para a organização de sistemas. O mesmo potencial pode ser atribuído ao uso (in- teligente) de computadores e da internet. Só para citar alguns exemplos: sistemas inovadores de compartilhamento de car- ros (carpooling), grupos de compras, “bancos de tempo” (time banks). Esses e outros tantos serviços não poderiam existir sem o telefone e seriam muito difíceis de gerenciar sem o (normal, mas inteligente) uso de computadores e da internet. Essas hipóteses são corroboradas pela observação direta dos processos de inovação social: considerando o quadro geral, composto de casos que empregam tecnologias comuns, come- çam a despontar exemplos onde uma específi ca tecnologia – tecnologias de informação e comunicação, em particular – foi desenvolvida e está atualmente em uso. Esses casos nos dão uma idéia de como a situação poderia evoluir se apropriadas tecnologias habilitantes fossem desenvolvidas. A evolução do car sharing é uma dessas idéias: há vinte anos, trabalhava-se com o telefone, papel e caneta; hoje em dia, tornou-se campo de aplicação para uma variedade de pacotes tecnológicos espe- cífi cos, tais como sistemas de reserva, gerenciamento de frotas de carros e customização de veículos segundo as exigências in- dividuais dos usuários. Em conclusão, embora seja verdade que o uso das tecno- logias de informação e de comunicação como facilitadores de novas formas de organização esteja ainda apenas no começo, algumas invenções desenvolvidas pelas comunidades criati- vas são já muito avançadas. Em outras palavras, situam-se na vanguarda dos processos de inovação sistêmica socialmente conduzidos, onde tecnologias comuns existentes são utilizadas para criar sistemas e organizações totalmente novos.

    Empreendimentos sociais difusos. Comunidades criativas são

    entidades que evoluem ao longo do tempo. Uma observação mais detalhada nos mostra que os casos promissores que elas

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    geram podem ser vistos como idéias de serviço e de negócios posicionadas em diferentes estágios de seus específi cos pro- cessos de inovação. Voltaremos a esse ponto mais adiante. Neste momento, é sufi ciente observar que, prosseguindo em seus processos de inovação, as comunidades criativas evoluem rumo a um novo tipo de empreendimento, os empreendimen- tos sociais difusos. Essa observação é muito importante para en- tender o potencial das comunidades criativas e, especialmente, as possibilidades de sua permanência ao longo do tempo e de sua propagação a diferentes contextos. Quando se consolida como uma forma de organização ma- dura, uma comunidade criativa torna-se um empreendimento social difuso, produzindo tanto resultados específi cos quanto qualidade social. O termo “empreendimento difuso” indica gru- pos de pessoas que se auto-organizam, em sua vida cotidiana, para obter os resultados nos quais estão diretamente interes- sados. A expressão “produzindo resultados específi cos e qua- lidade social” refere-se ao processo pelo qual, através de uma procura ativa para resolver os próprios problemas, esses grupos reforçam o tecido social e melhoram a qualidade do ambiente. Em síntese, produzem sociabilidade (Leadbeater, 2006; Emude

    2006).

    Estabelecida essa defi nição de trabalho, devemos enfatizar que os empreendimentos sociais difusos são um tipo especial de empreendimento social, diferentes dos mais tradicionais. De fato, se concentram em problemas comuns do cotidiano:

    obtenção de comida mais saudável, assistência à própria famí-

    lia (infância e terceira idade), mobilidade urbana

    Em outras

    ... palavras, embora alguns empreendimentos sociais se ocupem de problemas sociais críticos (tais como interação com grupos sociais marginalizados ou assistência a doenças graves) a es- pecifi cidade dos empreendimentos sociais difusos repousa em estender o conceito de “social” a uma ampla arena onde os in- divíduos se encontram para enfrentarem juntos as difi culdades comuns da vida cotidiana, bem como as novas demandas de bem-estar que destas emergem Outra diferença em relação ao conceito usual de empresa social é que nos empreendimentos sociais difusos as pessoas

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    atuam para ajudarem “a si mesmas” e (ao menos em parte) “por si mesmas”. Isto signifi ca que, diferentemente da visão de em- preendimento social, onde muitas vezes a fi gura predominan- te é a de alguém que presta um serviço para outras pessoas, o aspecto característico aqui é que todos os participantes cola- boram de modo direto e ativo na obtenção do resultado que o empreendimento pretende alcançar.

    Incubadoras de iniciativas baseadas no conhecimento. As co-

    munidades criativas podem ser reconhecidas, e ter seu papel debatido, no quadro da emergente economia do conhecimento (e, esperamos, de uma possível sociedade do conhecimento e da sustentabilidade): uma economia (e uma sociedade) da qual tais comunidades são ao mesmo tempo resultado e (possíveis) promotoras. De fato, pesquisas realizadas até agora mostram que as co- munidades criativas emergem principalmente em contextos de rápida mudança, caracterizados pelo conhecimento difuso, com um alto nível de conectividade (o que signifi ca a possibi- lidade de interagir com outras pessoas, associações, fi rmas e instituições) e certo grau de tolerância (em relação aos modos não convencionais de ser e fazer). Em outras palavras, tendem a emergir em contextos onde a economia do conhecimento é mais desenvolvida. Devemos acrescentar a essa óbvia observação uma outra complementar (que pode ser muito menos óbvia para algumas pessoas): as comunidades criativas e os empreendimentos so- ciais difusos podem ser um campo muito fértil para o desen- volvimento de uma economia do conhecimento. Foi observado que, para uma economia do conhecimento fl orescer, é neces- sária uma ampla sociedade do conhecimento (fi rmas orienta- das ao conhecimento necessitam empregar trabalhadores do conhecimento bem treinados e de contextos sociais dinâmicos e estimulantes): as comunidades criativas e os empreendimen- tos sociais difusos podem gerar este cenário favorável. Neste quadro, vamos considerar, por exemplo, empreendedores que estão promovendo e gerenciando algumas destas iniciativas:

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    querendo ou não, com ou sem suporte, eles têm que aprender como fazê-lo, ou seja, como lidar com organizações complexas e baseadas em modelos econômicos particulares. O resultado é que as comunidades criativas e os empreendimentos sociais difusos podem tornar-se não apenas as sementes para novos negócios baseados no conhecimento, mas também incubado- ras para a formação de um grande número de trabalhadores do conhecimento. Ao mesmo tempo, comunidades criativas po- dem ajudar a gerar contextos dinâmicos e tolerantes que são requeridos para iniciar e manter uma vigorosa economia do conhecimento (Florida, 2002, 2005). Finalmente, e mais importante, as comunidades criativas podem contribuir para a expansão do conceito de economia do conhecimento, de seu restrito signifi cado atual (uma economia de mercado onde o produto é o “conhecimento”) a um outro muito mais profundo: uma economia que é parte de um sis- tema onde o conhecimento e a criatividade devem ser encon- trados de maneira difusa por toda a sociedade, e não limitados ao conhecimento “formal” e às fi rmas criativas. Uma sociedade baseada no conhecimento pode tornar-se a espinha dorsal de uma futura sociedade sustentável baseada no conhecimento.

    3.2 Organizações colaborativas

    Como vimos acima, as comunidades criativas (o conjunto das pessoas direta e ativamente envolvidas) geram casos promisso- res (resultados inovadores). “Quando” e “se” tais comunidades evoluem, tornam-se empreendimentos sociais difusos e, por sua vez, os casos promissores que elas geraram tornam-se organiza- çoes colaborativas. Essas últimas podem ser classifi cadas da se- guinte forma: novos tipos de serviço social (serviços colaborati- vos), microempreendimentos (empreendimentos colaborativos) e redes de pessoas ativas (cidadãos colaborativos). Serviços colaborativos são serviços sociais onde os usuários fi nais estão ativamente envolvidos, assumindo o papel de co- designers e co-produtores do serviço. Alguns exemplos são: uma casa onde idosos de diferentes idades vivem em comunidade compartilhando recursos e adaptando-os a suas diferentes ne-

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    cessidades e estilos de vida; um serviço que facilita a co-divisão de casas entre idosos e jovens estudantes, propiciando a esses últimos um abrigo barato e familiar e aos primeiros companhia, ajuda e suporte fi nanceiro; uma ofi cina onde pessoas desempre- gadas, defi cientes físicos e imigrantes encontram trabalho no re- paro e na melhoria de produtos usados. Empreendimentos colaborativos são empreendimentos de produção ou iniciativas de serviço que fomentam novos mo- delos de atividades locais, por estabelecer relações diretas com usuários e consumidores que tornam-se, também, co-produ- tores. Muitos dos casos observados entram nessa categoria. Exemplos: uma fi rma composta por jovens que reforma casas para esses mesmos jovens, ou outros que estejam em busca de um modo de viver comunitário; uma fazenda que ajuda os clientes a vivenciar em primeira pessoa o valor da biodiversida- de na cadeia alimentar; um empreendimento local que ensina as pessoas como reutilizar materiais velhos e usados; uma loja onde pessoas trocam bens esportivos usados. Cidadãos colaborativos são grupos de pessoas que colabo- rativamente resolvem problemas ou abrem novas possibilida- des (e que, novamente, tornam-se co-produtores dos resulta- dos obtidos). Alguns exemplos dessas categorias são: grupos de residentes que transformam um terreno abandonado num jardim compartilhado pelos vizinhos; grupos de pessoas que gostam de cozinhar e que utilizam suas habilidades em favor de um grupo maior, organizando jantares nas casas dos mem- bros; grupo de pessoas que trocam ajuda mútua em termos de tempo e habilidades.

    Organizações colaborativas e qualidade relacional. Embora tais

    organizações possuam diversifi cados objetivos e atores, apre- sentam um traço comum fundamental: todas são constituídas por grupos de indivíduos que colaboram entre si na co-criação de valores comumente reconhecidos e compartilhados. Por essa razão, as chamamos, em seu conjunto, de organizações colabo- rativas: iniciativas de produção e serviço baseadas em relações colaborativas entre pares e, conseqüentemente, num alto grau

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    de confi ança mútua. Produção e serviços onde os valores pro- duzidos emergem das qualidades relacionais que possuem, isto é, da existência de relações interpessoais verdadeiras entre os envolvidos. (Cipolla, 2004). Este último ponto deve ser enfatizado. De fato, enquanto todas as organizações humanas tendem a possuir algum grau de qualidade relacional, para as organizações colaborativas isso não é uma opção, mas uma precondição para sua existência. A colaboração entre pares requer confi ança, que por sua vez re- quer qualidades relacionais: a ausência de qualidades relacio- nais signifi ca a ausência de confi ança e colaboração e, conse- qüentemente, a ausência de uma organização colaborativa, tal qual a defi nimos aqui. Esta evidente característica das organizações colaborativas depende diretamente de suas origens. Afi rma-se progressiva- mente de acordo com o amadurecimento das comunidades criativas, as quais exigem ação direta das pessoas envolvidas e são baseadas na sua capacidade/vontade de agir. Ou seja, as pessoas buscam principalmente resolver juntas e ativamente os próprios problemas, reforçando, como efeito colateral, o te- cido social.

    Modelos organizativos complexos. Outro aspecto característico

    das organizações colaborativas é que seu modelo organizacio- nal desafi a os modos tradicionais de pensar, indo além das con- vencionais polaridades sobre as quais os modernos modelos organizacionais dominantes foram construídos: privado/pú- blico; consumidor/produtor; local/global; necessidade/desejo. As organizações colaborativas, de fato, propõem soluções onde os interesses privados, sociais e ambientais podem convergir em um intricado jogo de necessidades e aspirações. São inicia- tivas profundamente enraizadas localmente mas, ao mesmo tempo, fortemente conectadas com outras semelhantes em es- cala internacional. Finalmente, e mais importante, são formas de organização em que, por serem todos participantes ativos, as distinções entre os papéis de produtor e de usuário/consu- midor se diluem.

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    O mesmo tipo de desafi o se estende ao modelo econômi- co. De fato, as organizações colaborativas são baseadas em uma mistura de diversos “modelos econômicos”: diferentes combi- nações de auto-ajuda e ajuda mútua, sistemas de trocas ou de dons, economias de mercado e de não-mercado.

    3.3 Processos em andamento

    As comunidades criativas podem ser consideradas como pro- tótipos de trabalho de modos de vida sustentáveis. Elas mostram que, mesmo nas condições atuais, é possível comportar-se de forma colaborativa, alcançando resultados sustentáveis. Vimos acima que tais experimentos são, às vezes, bem-sucedidos, e se consolidam em novas formas de empreendimentos, os empreen dimentos sociais difusos, capazes de produzir coopera- tivamente organizações colaborativas. É possível observar, porém, que esses processos de inova- ção são ainda hoje a expressão de minorias. Essa afi rmação nos leva às seguintes questões: é possível fazer mais do que simples- mente observar o que a espontaneidade e o empreendedoris- mo das pessoas foram capazes de fazer? É possível consolidar e replicar esses casos promissores? Em outras palavras: é possível facilitar a existência destas comunidades criativas e sua evolu- ção rumo a duradouros empreendimentos sociais? Podem estas iniciativas serem amplamente replicadas em diferentes contex- tos? Podem, considerando seu potencial de consolidação e de difusão, lidar com a dimensão dos problemas que são (e que serão) levantados pela transição rumo à sustentabilidade? Um primeiro passo, visando responder a tais perguntas, é observar os casos promissores existentes e examinar minucio- samente quando e como eles tiveram sucesso, isto é, quando e como foram capazes de permanecer ao longo do tempo e repli- car-se em outros contextos.

    Boas idéias que giram o mundo. O que foi dito, introduzindo

    as comunidades criativas e os empreendimentos sociais difu- sos, poderia nos induzir a pensar que toda a argumentação de-

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    senvolvida até aqui refere-se apenas às economias industriais mais desenvolvidas, isto é, aquelas que alcançaram um estágio avançado no processo de consolidação de uma economia do conhecimento. Tal afi rmação está ao mesmo tempo certa e errada. Está certa quanto ao fato de que, até agora, as comunidades cria- tivas e os empreendimentos sociais difusos foram observados principalmente naquelas regiões do mundo onde a economia do conhecimento é bastante desenvolvida. Todavia, não deve- se daí deduzir que comunidades criativas só podem ser en- contradas nesses países. Embora as comunidades criativas se manifestem principalmente em contextos de rápida mudança – caracterizados pelo conhecimento difuso, com um alto nível de conectividade e certo grau de tolerância – podemos obser- var também que, pelo menos nas “economias emergentes”, há vastas áreas urbanas (ou quase-urbana) que podem ser des- critas nos mesmos termos (se concordarmos em adaptar seus signifi cados a novas circunstâncias). São contextos que estão mudando rapidamente (muitas pessoas estão se transferindo do interior para as cidades), com certo grau de tolerância (pois ninguém pode exercer um estrito controle numa sociedade em tamanha transformação). E no que se refere ao conhecimento difuso e à criatividade, podemos encontrar muitas hibridiza- ções entre a cultura tradicional, novos comportamentos e tec- nologias avançadas. Observando atentamente países como o Brasil, a Índia e a China, podemos encontrar interessantes casos de grupos de compras, agricultura de base comunitária e carpooling, só para citarmos alguns exemplos (CCSL, 2007). E, mesmo que seu sig- nifi cado e motivações sejam diferentes das que encontramos na Europa (os diferentes papéis da tradição e das redes sociais existentes levaram a diferentes signifi cados dos termos “comu- nidade” e “criatividade” e, similarmente, o diferente peso das necessidades econômicas sobre as demais necessidades sociais e ambientais criaram motivações diversas), as idéias sobre as quais eles se baseiam são mais ou menos idênticas. De fato, considerando que a mudança das condições de vida (dos vilarejos e da economia de subsistência para as ci-

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    dades e a economia de mercado) estão afetando crescentes proporções de população nos países emergentes, algumas ex- periências ocidentais (de como viver em uma cidade) podem estimular a adoção (e adaptação) de idéias análogas no novo ambiente urbano emergente. Por outro lado, pode ser que a persistência dos modos tradicionais de pensar e de fazer nestas novas metrópoles se tornem uma vasta reserva de recursos so- ciais e culturais gerando novas idéias de modos de vida susten- tável que, em contrapartida, poderiam ser adotadas (e adapta- das) nas sociedades ocidentais. Em conclusão, podemos dizer que o lugar onde essas inovações acontecem não é uma questão relativa ao fato de estarmos diante de uma sociedade industrial mais ou menos desenvolvida, de ser rica ou pobre, de ser no Norte, Sul, Leste ou Oeste. É simplesmente uma questão relativa à velocidade da mudança: onde quer que as mudanças sejam rápidas e profun- das, comunidades criativas aparecerão e, uma vez que tenham sido geradas, elas se movem e se adaptam à especifi cidade dos diferentes contextos: um movimento de idéias e experiências que pode caminhar em todas as direções, do Norte para o Sul, do Oeste para o Leste e vice-versa.

    Interações “de baixo para cima” (bottom-up), “de cima para baixo” (top-down) e “entre pares” (peer-to-peer). As comuni-

    dades criativas foram descritas até agora como iniciativas “de baixo para cima” (bottom-up), ou seja, ações “a partir das ba- ses” que dão origem a casos promissores de inovação social. Porém, uma observação mais acurada de sua evolução – par- tindo de uma idéia inicial até formas organizativas mais madu- ras – indica que sua possibilidade de existência à longo prazo – e, freqüentemente, até mesmo de nascimento – depende de mecanismos complexos. Assim sendo, a participação direta e ativa das pessoas interessadas (interações “de baixo para cima”) é freqüentemente sustentada por trocas de informações com outras organizações similares (interações “entre pares”) e pela intervenção de instituições, organizações cívicas ou empresas (interações “de cima para baixo”).

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    Por exemplo, um microberçário ou creche começa a ope- rar graças à participação ativa dos pais envolvidos. Estes pais podem ter sido motivados a promover tal iniciativa através da observação de experiências similares (eventualmente intera- gindo com algumas delas). Podem ter recebido um instrumen- to habilitante de algum ente de governo ou instituição, tal como um livro que os orientou, passo a passo, no procedimento a ser seguido na fase inicial e no gerenciamento da iniciativa. Talvez possam contar com o suporte de uma autoridade local na ava- liação do serviço, de modo a garantir sua conformidade com padrões de saúde, segurança e higiene, ou ainda com o suporte de um serviço central, no caso de problemas educationais ou cuidados médicos que não possam ser resolvidos na própria creche. Estes exemplos, como muitos outros que poderiam ser apresentados aqui, indicam que as comunidades criativas e os empreendimentos sociais difusos devem ser considerados como iniciativas “de baixo para cima” não porque tudo acon- tece através do envolvimento ativo das pessoas diretamente interessadas, mas sim porque esta é uma precondição de exis- tência. Cada uma destas iniciativas tem início, se desenvolve cotidianamente e se aprimora através de um intrincado jogo de interações “de baixo para cima”, “de cima para baixo” e “entre pares” (que difere caso a caso). É exatamente esta característica que nos leva a reconhecer que as ações criativas e colaborati- vas – matéria básica na construção das comunidades criativas e dos empreendimentos sociais difusos – não podem ser direta- mente planejadas. Porém, algo pode ser feito para tornar estas soluções mais prováveis, duradouras e reproduzíveis.

    Contextos favoráveis. Os contextos onde existem tanto as comu- nidades criativas e seus casos promissores quanto os empreen- dimentos sociais difusos e suas organizações colaborativas são sistemas sociotécnicos altamente complexos que não podem ser “projetados”. Todavia, alguns de seus elementos podem ser imaginados e efetivamente realizados.

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    É possível identifi car e cultivar elementos materiais e ima- teriais que possam trabalhar juntos em um dado contexto de modo a torná-lo um terreno fértil para iniciativas criativas e “de baixo para cima”. Em outras palavras, é possível melhorar a ca- pacidade desse contexto em sustentar comunidades criativas, promover casos promissores e possibilitar a um amplo núme- ro de cidadãos potencialmente inovadores moverem-se nessa mesma direção (Laundry, 2000, 2006; Leadbeater 2006). Para isso, é necessário desenvolver instrumentos de gover- nança inovadores e um ambiente tolerante: ferramentas de go- vernança especifi camente voltadas para facilitar a existência de comunidades criativas, e um quadro legal e cultural capaz de lidar com a “área cinza” (não ilegal) que freqüentemente emer- ge quando assistimos o nascimento de iniciativas radicalmente novas. Esse último ponto é crucial e será detalhado a seguir.

    Ambientes tolerantes. O ambiente mais favorável para as co- munidades criativas e seus casos promissores é caracterizado por um alto grau de tolerância (Florida, 2002, 2005). Visto que os casos promissores considerados aqui são, por defi nição, for- mas de organização que diferem radicalmente das soluções usuais, promovê-los signifi ca aceitar algo que provavelmente não se encaixará nas normas e regras existentes. Portanto, a to- lerância requerida para o desenvolvimento desses casos deve se expressar em termos sociais, políticos e administrativos, pois se é verdade que uma comunidade criativa nascente pode ser destruída pela incompreensão e hostilidade política, é igual- mente possível que seja vítima (e isto é o que de fato freqüen- temente ocorre) da incapacidade administrativa em aceitar tal inovação. De um ponto de vista prático, as iniciativas “de baixo para cima” requerem uma variedade de novas regulamentações que viabilizem a condução de atividades que são difíceis de classi- fi car em termos convencionais (tais como o uso inovador dos espaços públicos; o trabalho em casa; as empresas familiares; novos modos de vida coletiva). Novos sistemas fi scais devem ser desenvolvidos para lidar com modelos econômicos onde a troca

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    de trabalho e a permuta possam substituir as transações con- vencionais baseadas no dinheiro. Ao mesmo tempo, a natureza legal e econômica destas iniciativas inovadoras deve ser consi- derada muito cuidadosamente, já que a tolerância que estas re- querem pode ser explorada também por atores “ilegítimos”.

    Governança participativa. Empreendimentos sociais difusos e organizações colaborativas reforçam o tecido social por cria- rem novos espaços sociais e físicos. Conseqüentemente, po- deriam ser parceiros relevantes em iniciativas governamentais que objetivem alcançar esses mesmos resultados. Novos ins- trumentos de governança podem aumentar tal possibilidade se facilitarem a regeneração de contextos tradicionais específi - cos, promoverem uma infra-estrutura tecnológica apropriada, cultivarem novos talentos (novas competências e habilidades) e, sobretudo, considerando o que vimos anteriormente, gera- rem um ambiente favorável do ponto de vista social, político e administrativo. Como tudo isso pode ser feito? Obviamente, não existe uma resposta única e simples para esta questão. Entretanto, existe uma possibilidade particular, de potencial tão signifi - cativo que merece ser devidamente mencionada aqui. São os modelos organizativos que emergem das redes sociais (ou web 2.0). Voltaremos a esse ponto mais tarde. No momento, diremos apenas que, na nossa opinião, os modelos das redes sociais po- dem ser a tecnologia habilitante capaz de promover a transição dos atuais instrumentos de governança, rígidos e hierárquicos, rumo a outros, fl exíveis, abertos e horizontais, necessários para promover o fl orescimento de empreendimentos sociais difusos e de organizações colaborativas

    3.4 Design e inovação social

    As inovações sociais, assim como todos os processos de inova- ção, emergem, amadurecem e se difundem em uma “curva S”:

    de idéias novas em folha passam a soluções maduras e, fi nal- mente, a solucões implementadas (Young Foundation 2006).

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    Essas três fases de evolução, também, são visíveis na inovação social de base produzida pelas comunidades criativas.

    Protótipos de solução. Alguns dos casos observados são ver- dadeiros protótipos de soluções: eles mostram que uma idéia de serviço é viável e que alguém, em algum lugar, foi capaz de colocá-la em prática. A cafeteria para as crianças e as famílias é um exemplo desse tipo de protótipo. Ela oferece uma área de recreação para famílias, cursos de arte e exposições, auxílio para pais e crianças estrangeiras, uma biblioteca de informação, tudo baseado na participação dos “clientes” e em processos de troca. Outro exemplo é o workshop para a reparação de uten- sílios, em que pessoas levam antigos utensílios para serem re- novados e doados a novos proprietários. Tais iniciativas abrem inúmeras possibilidades, ainda que pareçam, a princípio, mui- to ligadas aos seus contextos específi cos. De qualquer forma, é muito cedo para saber se tais invenções poderão funcionar e continuar operando ao longo do tempo, independentemente das pessoas “especiais” que delas participam e/ou dos diferen- tes contextos nos quais foram criadas.

    Soluções maduras. Outros casos apresentam-se como soluções maduras relativamente consolidadas: indicam que algumas idéias foram capazes de continuar ao longo do tempo e, às ve- zes, de inspirar outros grupos de pessoas, em outros lugares, a fazerem algo similar. Bons exemplos desta categoria são os purchasing groups (grupos colaborativos que compram comida orgânica e eticamente produzida diretamente dos produtores, apoiando-os economicamente); iniciativas de encomenda de vegetais (onde vegetais frescos, produzidos organicamente e a preços razoáveis são entregues na porta de casa, com recei- tas culinárias e a possibilidade de realizar visitas à fazenda) e os Lets (cujos participantes trocam ajuda mutuamente em um tipo de “banco de tempo”). Todas essas idéias foram propostas há alguns anos e se difundiram internacionalmente. Considerando o sucesso conquistado, tais casos podem ser encarados como inovações sociais que foram capazes de passar

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    de um estágio inicial de protótipo a um estágio mais maduro. Todavia, é evidente que estas soluções ainda requerem um in- vestimento muito alto em termos de tempo e atenção da parte dos atores envolvidos. Pessoas menos empreendedoras e moti- vadas podem considerar demasiado difícil iniciar experiências similares ou até mesmo participar daquelas já em operação.

    Soluções implementadas. Finalmente, alguns dos casos podem ser considerados como soluções implementadas: organizações colaborativas que são sustentadas por “soluções habilitan- tes”, isto é, sistemas de produtos, serviços e programas de co- municação especifi camente projetados. Alguns exemplos são bastante conhecidos como, por exemplo, o car sharing (um grupo de residentes, numa dada área, compartilham uma fro- ta de carros a fi m de serem utilizados e pagos apenas quando requeridos). Esta proposta se tornou muito acessível, efi caz e reproduzível em diversos contextos baseando-se em um con- junto apropriado de produtos e serviços, na adoção de modelos organizacionais inovativos e, algumas vezes, a partir de inter- venções institucionais. Portanto, organizações de car sharing podem ser adotadas (e foram, de fato) por pessoas não particu- larmente motivadas. O mesmo é válido para empreendedores que consideram essa atividade como uma nova oportunidade de negócio. Outro exemplo são os projetos de co-housing, que podem ser sustentados através da internet (divulgando os projetos e atrain- do potenciais participantes) por uma equipe de especialistas (que ajudem a identifi car os terrenos adequados para edifi cação e a superar difi culdades administrativas e fi nanceiras). Esses exemplos, como outros similares, demonstram que as idéias de algumas comunidades criativas já estão sendo de- senvolvidas por designers, engenheiros, empresas e instituições locais de modo a consolidar e aumentar a difusão destas ini- ciativas, melhorando seus contextos (isto é, o ambiente onde os empreendimentos sociais difusos e suas organizaçoes colabo- rativas podem fl orescer) e desenvolvendo soluções habilitantes específi cas (ou seja, soluções que criam as condições favoráveis

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    para que pessoas criativas expressem suas idéias, encontrem parceiros e comecem projetos e/ou soluções, a fi m de ajudar empreendedores a desenvolver e gerenciar organizações cola- borativas ao longo do tempo).

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    4. Redes Projetuais | Interações “de baixo

    para cima” (bottom-up), “de cima para baixo” (top-down) e “entre pares” (peer-to-peer)

    A criatividade e as atitudes colaborativas não podem, por defi - nição, ser impostas. As comunidades criativas são organizações sociais muito delicadas e cada intervenção externa coloca seu equilíbrio em risco. Os empreendimentos sociais difusos que elas geram são profundamente enraizados em lugares e co- munidades específi cas e a idéia de reproduzi-los em diferen- tes contextos parece muito difícil. Todavia, olhando com mais atenção para estes casos de inovação de base, parece que algo pode ser feito para consolidá-los, torná-los mais acessíveis e capacitá-los a serem apropriadamente difundidos, isto é, serem replicados sem perder suas qualidades originais. De fato, podemos observar que algumas das “idéias de serviço” geradas pelas comunidades criativas realmente se di- fundiram. Também é possível ver que decisões “de cima para baixo” (top-down) e interações “entre pares” (peer-to-peer) são freqüentemente necessárias para ajudá-las a nascer e a perma- necer e que, implícita ou até mesmo explicitamente, elas exi- gem diferentes tipos de suporte. Em outras palavras, mesmo que as comunidades criativas e as inovações sociais difusas não sejam totalmente planejáveis, nos parece ser efetivamente pos- sível ajudá-las a nascer, bem como facilitar sua existência. Isto signifi ca que intervenções de suporte, ou soluções habilitantes, podem ser concebidas em diferentes escalas e envolvendo di- versos grupos de atores.

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    4.1 Soluções e plataformas

    Solução habilitante é uma expressão que já foi utilizada ao lon- go deste texto, porém não recebeu uma defi nição precisa. Agora é o momento de fazê-lo. Uma solução habilitante é um sistema de produtos, serviços, comunicação e o que mais for necessário para implementar a acessibilidade, a efi cácia e a replicabilidade de uma organização colaborativa. Devemos imediatamente enfatizar que conceber e desen- volver soluções habilitantes não é uma tarefa simples: a quali- dade das relações interpessoais, que são uma precondição para as organizações colaborativas, são muito delicadas e cada in- tervenção externa coloca seu equilíbrio em risco. Todavia, algo pode ser feito para facilitar tais relações e, na realidade, obser- vando os casos existentes de soluções maduras e implementa- das, podemos encontrar exemplos bem-sucedidos de soluções habilitantes com tais características positivas.

    Acessibilidade e efi cácia. Gerar uma nova idéia, adaptar e ge- renciar criativamente uma existente, ou mesmo simplesmente participar ativamente de uma iniciativa em andamento, exige um grande comprometimento em termos de tempo e de dedi- cação pessoal. Ainda que esse aspecto quase heróico seja exata- mente uma das características mais atraentes destas iniciativas, é também um limite objetivo para sua existência a longo prazo e para sua possibilidade de ser replicada e adotada por muitos. Portanto, este parece ser o maior limite para a difusão das orga- nizações colaborativas: o limitado número de pessoas capazes e desejosas de atravessar o limiar do comprometimento reque- rido para tornar-se um de seus promotores ou apenas um de seus participantes ativos. Efetivamente, foi verifi cado que tais iniciativas, com seu conjunto de resultados práticos e de efei- tos socializantes, parecem atraentes para muitas pessoas; para a maioria dos indivíduos, no entanto, requerem simplesmente dedicação e tempo demais, ou seja, exigem um investimento demasiado intenso de dois recursos que são (ou são percebidos como) os mais escassos hoje em dia.

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    Para superar tais problemas, é necessário que as organi- zações colaborativas se tornem mais acessíveis (superando os limites mencionados anteriormente), mais efi cazes (incremen- tando a relação entre resultados e esforços individuais e sociais necessários) e mais atraentes (elevando a motivação das pesso- as em serem ativas). É exatamente nisso que as soluções habili- tantes poderiam ajudá-las. Em termos práticos, as organizações colaborativas podem tornar-se mais acessíveis e efi cazes através da aplicação de um processo de design em três etapas. A primeira etapa é analisar e detectar suas forças e suas fraquezas. A segunda é conceber e desenvolver soluções (para aumentar suas forças e diminuir suas fraquezas) utilizando produtos, serviços e comunicação de uma forma original. A terceira etapa é desenvolver soluções utilizando tecnologias novas e especifi camente concebidas. Cada caso requererá soluções específi cas, mas algumas diretrizes muito gerais podem ser traçadas. Por exemplo, será necessário promover estratégias de comunicação motivantes e capazes de fornecer os conhecimentos necessários; considerar e dar suporte às capacidades individuais de modo a tornar a solução acessível a um maior número de pessoas; desenvol- ver modelos de serviço e negócios estimulantes e que sejam compatíveis com os interesses econômicos e/ou culturais dos potenciais participantes; reduzir o total de tempo e espaço requeridos e aumentar a fl exibilidade; facilitar o processo de constituição de comunidades. Em termos mais gerais, podemos dizer que as soluções habilitantes devem pôr em ação uma inteligência específi ca: a inteligência necessária para estimular, desenvolver e regenerar a habilidade e a competência daqueles que as utilizam. Obvia- mente, quanto mais habilidoso e motivado for o usuário, mais simples poderá ser a solução requerida. Por outro lado, quanto menos habilidoso o usuário, mais o sistema deve ser capaz de compensar sua carência de habilidades, fornecendo o que ele não sabe ou não pode fazer. Além disso, quanto menos motiva- do for o usuário, mais o sistema deve ser não apenas amigável, mas também atraente, ou seja, participar ativamente de uma organização colaborativa deve ser considerado estimulante.

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    Plataformas habilitantes. Diferentes organizações colaborativas podem, às vezes, expressar necessidades similares, tais como:

    incubadoras para a fase inicial; serviços de transporte para re- des produtor-consumidor; assistência específi ca quando novos procedimentos e/ou novas tecnologias forem incorporadas, e assim por adiante. Partindo dessa observação, é possível conceber e desenvol- ver um número de iniciativas habilitantes capazes de suportar uma variedade de organizações colaborativas. Nós as chamare- mos de plataformas habilitantes. Alguns exemplos são:

    Agências para a inovação social que operem como catali- sadores de novas iniciativas e como facilitadores daquelas existentes (de modo a permitir seu reforço, crescimento e multiplicação). Espaços fl exíveis que possam ser utilizados por comunida- des em um “mix” de funções públicas e privadas, respon- dendo de modo inovador a demandas por espaço e abrigo. Sistemas de conexão capazes de interligar melhor pessoas, pessoas e produtos/serviços e até mesmo produtos/servi- ços entre si. Produtos multi-usuário especifi camente concebidos para utilização compartilhada e capazes de serem sincroniza- dos, personalizados, rastreados e localizados. Equipamentos semiprofi ssionais que possam ser usados também por amadores (não-profi ssionais) e em espaços não especializados, aumentando o número de pessoas que podem desfrutar do grau de efi ciência e qualidade que es- tes equipamentos oferecem. Espaços experimentais que funcionem como incubadores de novas empresas sociais mas, principalmente, e em um sentido amplo, se prestem à realização dos mais diversos experimentos sociotécnicos. Sistemas avançados de produtos/serviços especifi camente projetados para tornar mais fácil e fl uido o funcionamento das organizações colaborativas, tais como serviços de mo- bilidade fl exível; sistemas fl uidos de pagamentos; sistemas de reserva e realização de pedidos; tecnologias de localiza- ção e de rastreamento.

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    4.2 Aumentando a escala

    Não estamos focalizando nas comunidades criativas e seus casos promissores ou nos empreendimentos sociais difusos e suas organizações colaborativas apenas porque são sociologi- camente interessantes (embora refl itam realmente um signifi - cativo aspecto das sociedades contemporâneas). Tampouco o estamos fazendo porque podem gerar nichos de mercado po- tencialmente lucrativos para novos negócios (mesmo que essa oportunidade também possa e deva ser explorada). Estamos in- teressados neles porque pensamos que podem ser aumentados em escala, promovendo a adoção de estilos de vida sustentáveis entre um grande número de pessoas. Possuem, de fato, o po- tencial para tornarem-se dominantes, de modo a reorientar as mudanças sociais e econômicas em andamento numa direção sustentável. Até porque são passos reais rumo a modos de vida sustentáveis, podendo já ser implementados como soluções vi- áveis para problemas contemporâneos urgentes (de habitação, mobilidade, comida, assistência à criança e aos idosos, saúde, regeneração urbana). Falando sobre o aumento de escala das organizações co- laborativas, não estamos certamente propondo “industrializá- las”, o que signifi caria considerá-las produtos que podem ser mecanicamente reproduzidos em larga escala. Nossa discussão aqui é sobre “se” e “como” pode ser possível aplicar-lhes um conjunto de criatividade, design, capacidades empreendedoras e conhecimento tecnológico (que podemos chamar de indus- triosidade humana) para torná-las mais acessíveis e efi cazes, facilitando, assim, a sua disseminação em larga escala. Sabe- mos muito bem que no século passado um conjunto similar de habilidades geraram, para o bem e para o mal, o que agora co- nhecemos como o sistema industrial orientado ao consumidor. Nossa idéia é que hoje, confrontando-se com diferentes restri- ções e oportunidades, e olhando para diferentes objetivos, a in- dustriosidade humana pode nos conduzir a outras direções, de modo a promover estilos de vida sustentáveis entre os bilhões de pessoas deste planeta.

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    Replicação versus crescimento. A tradicional cultura industrial considera escalabilidade como crescimento: para ter sucesso e expandir, um pequeno negócio ou um pequeno empreendi- mento social deve se tornar “maior”. Podemos ainda considerar verdadeira tal interpretação? Na perspectiva da sustentabili- dade e no contexto de uma sociedade de rede, o crescimento em tamanho é ainda o melhor indicador de uma nova idéia de sucesso, mas será assim no futuro? E, para o que mais nos inte- ressa aqui, como pode a noção de escalabilidade ser aplicada às organizações colaborativas? O problema que devemos enfrentar é muito grande. Como dissemos, a viabilidade de uma organização colaborativa é ba- seada em uma forte precondição: a existência de relações inter- pessoais profundas e dinâmicas entre seus membros (Cipolla, 2004). Em outras palavras: aumentar em escala as organizações colaborativas exige o desenvolvimento de sistemas com um alto grau de qualidades relacionais. Isso é possível? Podemos planejar a difusão de qualidades relacionais (como a precondição necessária para aumentar em escala as organizações colaborativas)? A resposta está longe do óbvio. Já havíamos notado que tais organizações, com certeza, não podem ser planejadas. Mas dissemos também que algo po- deria ser feito para torná-las mais prováveis. Agora, podemos acrescentar outra consideração: qualidades relacionais pare- cem ser possíveis apenas quando a interação entre os atores envolvidos é sufi cientemente direta e quando as organizações que eles estabelecem são sufi cientemente compreensíveis e ge- renciáveis; em resumo, quando são sufi cientemente pequenas. Neste ponto, nos confrontamos com uma situação con- traditória: para enfrentar a transição rumo à sustentabilidade, precisamos aumentar a escala das comunidades criativas e dos empreendimentos sociais difusos. Ao mesmo tempo, sabemos que devemos manter suas qualidades sociais originais e que tais qualidades são amplamente relacionadas à pequena escala de cada iniciativa singular. Esta contradição é a maior difi cul- dade a ser superada na consolidação e difusão das organiza- ções colaborativas.

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    Experiências passadas não nos ajudam a resolver este in- tricado problema. No último século, uma série de pequenas iniciativas, criativas e colaborativas, surgiu. Entretanto, quando ampliadas em escala, tais iniciativas tornaram-se grandes orga- nizações, em geral perdendo seu signifi cado social original. Um caso bem conhecido é o movimento das cooperativas na Euro- pa. No começo, foi, em muitos aspectos, parecido com as nossas atuais comunidades criativas. Mais tarde, porém, sua evolução, e em muitos casos seu sucesso, levou-as a mudar. Tornaram-se grandes organizações institucionalizadas, ganhando em termos de efi ciência, porém perdendo (ou reduzindo amplamente) o “senso de comunidade” que originalmente era um importante subproduto desse tipo de organização. Podemos nos perguntar por que a evolução de comuni- dades criativas deveria ser diferente. Por que deveriam evoluir em direção aos empreendimentos sociais difusos e não seguir o mesmo caminho percorrido pelo movimento das cooperativas no século passado? A pergunta é justa, mas não temos ainda uma sólida evidência para provar que, hoje, um caminho dife- rente possa ser realmente percorrido. No entanto, há pelo me- nos um argumento de suporte a essa possibilidade (pelo me- nos em termos de sua afi rmação geral): enquanto no passado o crescimento dimensional das organizações parecia ser a única forma viável de dar mais força a uma idéia original, hoje, novas e diferentes estratégias de “crescimento” são possíveis.

    Idéias de serviço e de negócios versus produção e serviços loca-

    lizados. Antes de continuar a nossa discussão sobre o aumento de escala das organizações colaborativas, devemos introduzir um conceito útil: a idéia de serviço ou de negócio indica o mo- delo organizacional e econômico que explica como cada uma destas organizações funciona, como é sua arquitetura sistêmi- ca, quem são os atores envolvidos e quais são suas motivações, relações e trocas econômicas e não econômicas. A noção de idéia de serviço ou de negócio é importante porque, quando discutimos a possibilidade da difusão das or- ganizações colaborativas, devemos levar em consideração que,

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    na realidade, o que está sendo replicado não é esses casos alta- mente localizados com todas suas características, nem as co- munidades criativas que os geraram, visto que são compostas obviamente por grupos de pessoas não replicáveis, mas sim as idéias de serviço que esses grupos de pessoas inventaram (ou adaptaram à especifi cidade de um novo contexto). Em outras palavras, quando falamos de aumento de escala, o que pode- mos planejar é não como replicar alguns casos promissores, mas como gerar condições para tornar a replicação de suas idéias de serviço mais provável. Em termos práticos, é verdade que cada caso de organi- zação colaborativa que encontramos pelo mundo (tais como a co-habitação, o car sharing, os mercados de produtores, ou comunidades baseadas na agricultura) é uma iniciativa não re- produzível, visto que é tão profundamente enraizada num con- texto específi co e tão amplamente forjada pelas características específi cas de seus promotores. Todavia, esses casos altamente localizados são baseados em idéias específi cas de serviços ou de negócios. São justamente essas idéias que podem encontrar novos contextos onde serão adotadas, adaptadas e relocaliza- das. Até agora, a difusão de organizações colaborativas acon- teceu espontaneamente e com um ritmo relativamente lento. Aqui discutiremos se e como esse movimento pode ser acelera- do mediante ações apropriadas.

    Estratégias de replicação. Nosso problema é como aumentar a escala das organizações colaborativas, mantendo, porém, as pe- quenas dimensões e as qualidades relacionais de cada iniciativa concreta. Podemos agora, então, afi rmar o seguinte: aumentar o impacto social e econômico destas organizações não signifi ca aumentar as dimensões de cada uma, mas sim multiplicá-las e conectá-las de modo a criar amplas redes. Essa forma de agir pode ser defi nida como uma estratégia de replicação. Olhando para outros campos de atividade, podemos facil- mente reconhecer que esse conceito não é novo e que diferen- tes estratégias de replicação foram propostas e desenvolvidas para ampliar a escala de serviços, negócios ou mesmo empre-

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    endimentos sociais. Mesmo operando em diferentes contextos e movidos por motivações distintas daquelas às quais nos refe- rimos aqui, as estratégias de replicação existentes apresentam interessantes similaridades e oferecem experiências úteis. Em particular, consideraremos três delas: franquia, usada princi- palmente em atividades comerciais; format, com referência à indústria do entretenimento e toolkit, que é usada em diferen- tes campos de aplicação onde a abordagem “faça-você-mesmo” foi adotada. Franquia. É um conjunto de procedimentos e ferramentas de comunicação para habilitar empreendedores locais a começarem suas atividades comerciais como franquias de uma empresa maior, que fornece aos franqueados um ex- clusivo conjunto de instrumentos e exige deles o respeito a uma série de procedimentos e de padrões de qualidade. Em outras palavras, um programa de franquia permite a uma série de pequenos empreendedores iniciar um ne- gócio baseado na reputação da “empresa-mãe”, compro- metendo-se, entretanto, a seguir as regras que tal empresa estabelece. Format. Consiste em um modelo e uma lista de procedi- mentos, isto é, o modelo de um show existente (principal- mente televisivo) e indicações passo a passo do que fazer para replicá-lo em diferentes contextos. No format, o pro- dutor dá aos compradores os direitos de reproduzir o pro- grama original, adaptando-o às especifi cidades locais. Em outras palavras: um format é uma idéia de programa que, “extraída” de uma experiência particular, pode ser realiza- da em outros contextos. O resultado é uma multiplicidade de programas que são, ao mesmo tempo, globais (a idéia é proposta globalmente) e locais (nos contextos específi cos onde são efetivamente produzidos e apresentados). Toolkit. É um conjunto de instrumentos tangíveis e intan- gíveis concebidos e produzidos para simplifi car uma tarefa específi ca. Esses instrumentos podem ser específi cos (ex- clusivamente dedicados à uma função específi ca do kit) ou mais genéricos (de modo a encontrarem utilização tam- bém fora do kit). Diferentemente das estratégias anterior-

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    mente mencionadas, quem quer que adote o toolkit pode utilizar seus diferentes instrumentos de uma forma mais livre e, por outro lado, quem o produz não assume nenhu- ma responsabilidade sobre os resultados fi nais de seu uso. O crescente número de toolkits está ligado à difusão, nos mais diversos campos de aplicação, de uma abordagem “faça-você-mesmo”. Dadas estas três estratégias de replicação, podemos ime- diatamente constatar que as duas primeiras, pelas suas carac- terísticas, distam de nossos interesses específi cos. Não apenas porque são fortemente comerciais, mas também porque os mo- delos que propõem são fechados demais para dar o necessário espaço à criatividade dos grupos de pessoas que se propõem a sustentar. Ao mesmo tempo, são centralizados demais para permitir que as qualidades relacionais emerjam. Todavia, tais estratégias oferecem também alguns elementos interessantes para a refl exão: o caso da franquia por promover pequenos em- preendimentos e o caso do format por promover um processo de replicação baseado na atualização local de uma idéia. Com certeza, um programa de televisão está muito longe de uma or- ganização colaborativa, e um negócio baseado em uma grande marca ainda mais. No entanto, essas experiências indicam que a discussão sobre como viabilizar um amplo número de peque- nos empreendimentos através de programas efetivamente ope- rativos e replicáveis não começa do zero. Finalmente, consideremos a estratégia de replicação basea da em toolkits. É claro que a noção de toolkit é bastan- te próxima à de solução habilitante: os toolkits são oferecidos para a realização de atividades específi cas, mas podem ser in- terpretados de diversas maneiras e utilizados para atingir diver- sos objetivos. Graças à esta fl exibilidade, o desenvolvimento de um apropriado toolkit habilitante é compatível com a natureza dos empreendimentos sociais difusos e suas correspondentes organizações colaborativas. Ao mesmo tempo, pensamos que a noção de solução habilitante é mais útil que a de toolkit para nossos propósitos. Um toolkit normalmente se refere à um pre- ciso conjunto de instrumentos para a auto-ajuda individual. Esta noção não nos parece capaz de defi nir o que é necessá-

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    rio para promover o amadurecimento das comunidades cria- tivas em empreendimentos sociais difusos, ou a replicação de suas respectivas organizações colaborativas. De modo diverso, como vimos, uma solução habilitante é concebida para pessoas colaborativas e indica um sistema de artefatos tangíveis e in- tangíveis muito diverso. É um sistema articulado em diferentes fases para suportar a concepção, o desenvolvimento e a gestão das organizações colaborativas. Por outro lado, é também um sistema cujas fronteiras se confundem com os mais amplos sistemas sociotécnicos onde estarão inseridas as organizações colaborativas que pretendem promover e sustentar.

    4.3 Conectando-se

    As três estratégias discutidas acima foram concebidas e desen- volvidas no século passado. Mas agora, como todos dizem, com o novo século, estamos entrando na sociedade em rede: uma sociedade onde muitas idéias tradicionais estão sendo questio- nadas, até mesmo a idéia do que é pequeno ou grande. De fato, nas redes, “o pequeno” não é mais necessariamente pequeno (dado que o impacto de um evento não está necessariamente ligado a suas dimensões físicas, mas à qualidade e quantidade de suas conexões). Neste contexto sem precedentes, é possível conceber que uma multiplicidade de organizações colaborativas, pequenas e interconectadas, possa tornar-se um poderoso suporte para a vida cotidiana de um grande número de pessoas e comunida- des. Objetivando explorar essa possibilidade, consideraremos a seguir as implicações de duas tendências sociotécnicas em an- damento: os sistemas distribuídos e as redes sociais.

    Sistemas distribuídos. Algo muito interessante teve início no campo da arquitetura de sistema. Sua palavra-chave é o ad- jetivo distribuído. De fato, nos últimos 20 anos, esse adjetivo foi sendo cada vez mais associado aos diversos tipos de siste- mas sociotécnicos e econômicos: tecnologias da informação e a computação distribuída; sistemas de energia e a geração

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    distribuída; produção e as possibilidades de uma produção distribuída. Algumas destas possibilidades tornaram-se domi- nantes duas décadas depois (como a “clássica” computação dis- tribuída). Algumas conquistaram uma forte posição na arena internacional (tais como os conceitos de geração distribuída e produção distribuída). Outras emergiram e estão emergindo, ao longo dos últimos anos, e podem contar com uma ampla e cres- cente audiência (inovação distribuída, criatividade distribuída, inteligência distribuída e economia distribuída). Em todos esses casos, o que o adjetivo distribuído adiciona ao nome ao qual está ligado, é a idéia de uma teia de elemen- tos autônomos interconectados, isto é, computadores pessoais, geradores de potência e/ou de energia renovável, produção e serviços em pequena escala, todos capazes de funcionar au- tonomamente mesmo estando altamente conectados com os outros elementos do sistema. Em outras palavras: o que o adje- tivo “distribuído” indica é a existência de uma arquitetura hori- zontal de sistema onde atividades complexas são realizadas em paralelo por um grande número de elementos conectados (ar- tefatos tecnológicos e/ou seres humanos). A implicação dessa abordagem distribuída é uma mudança radical nas arquitetu- ras de sistema. Mas não somente: implica também a possibili- dade de uma nova relação entre comunidades e seus recursos tecnológicos e, possivelmente, um modo mais democrático de gerenciá-los. Tais afi rmações sobre os sistemas distribuídos não são apenas um modelo teórico. São genuínas possibilidades ba- seadas em histórias reais de sucesso, como nos casos da in- teligência distribuída e da geração de energia distribuída. A integração da inteligência distribuída e da geração distribuí- da pode ser vista como o pilar de uma nova infra-estrutura: a infra-estrutura distribuída de uma sociedade sustentável, viá- vel, onde novas e tradicionais formas de produção e serviços distribuídos podem acontecer, conectar-se horizontalmente e difundir-se. Ou seja, seria uma base verdadeiramente favorá- vel para sustentar os processos de promoção e replicação das organizações colaborativas.

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    Redes sociais. Algo muito interessante está acontecendo tam- bém no campo das organizações e na maneira pela qual as pes- soas participam de projetos colaborativos. Partindo do open- source e de abordagens peer-to-peer, hoje podemos observar um impressionante aumento nas aplicações end-user. Redes orien- tadas ao serviço, onde os usuários são co-produtores dos servi- ços fornecidos (isto é, blogs, podcasts, wikis, sites de redes sociais, motores de pesquisa, sites de leilão). Referimos-nos agora a essas iniciativas, no seu conjunto, com o termo redes sociais (compu- tação social/social computing ou web 2.0) (Pascu, 2007). As redes sociais geram organizações não-hierárquicas baseadas na rede (Cottam, Leadbeater, 2004; Bauwens, 2004), bem como modelos organizacionais e econômicos que, há al- guns anos, eram totalmente inimagináveis. Agora, demonstram ser não apenas possíveis, mas também capazes de catalisar um grande número de pessoas, de organizá-las de um modo peer- to-peer e de construir entre elas uma visão comum (Weber, 2004; Tapscott, Williams, 2007). Entretanto, o que é realmente interessante para nós aqui é que estas redes sociais propõem também aplicações internet que, ao contrário de outras que virtualizam e “deslocalizam” as pessoas, podem ajudá-las a se encontrar e a se auto-organizar no “mundo real”. De fato, diver- sos casos mostram que, ao associar o mundo virtual com o real, essas tecnologias podem também sustentar os esforços dos usuários para resolver problemas (reais) no mundo (real). E, ao fazê-lo, podem também promover e manter tanto as comuni- dades criativas e seus casos promissores quanto os empreendi- mentos sociais difusos e suas organizações colaborativas.

    Uma possível convergência. Organizações colaborativas, siste- mas distribuídos e redes sociais, até agora, foram considerados e tratados como fenômenos diferentes e separados. De fato, exceto por alguma sobreposição menor, têm sido gerados por pessoas diferentes com diferentes motivações. Todavia, como antecipamos na introdução, é mais do que provável que no fu- turo próximo tais fenômenos convirjam em uma única, com- plexa e dinâmica mudança social. Em particular, é altamente

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    provável que as fortes tendências rumo à formação e difusão de sistemas em rede e peer-to-peer liderem essa convergência. Se isso acontecer, essas diferentes linhas de inovação reforçarão umas às outras: as comunidades criativas trarão toda a rique- za das pessoas envolvidas em problemas reais e cotidianos; as redes sociais trarão as oportunidades sem precedentes abertas por seus modelos organizacionais inéditos; e, fi nalmente, o de- senvolvimento de sistemas distribuídos fornecerá a infra-estru- tura técnica para esta emergente sociedade distribuída susten- tável (Manzini, 2007a).

    4.4 Design e redes projetuais

    O que os designers podem fazer para promover e orientar pro- cessos de inovação social? Como podem conceber e desenvol- ver contextos favoráveis e soluções habilitantes? Como podem facilitar a convergência entre organizações colaborativas, siste- mas distribuídos e redes sociais? Vamos voltar atrás e considerar tais perguntas em um con- texto maior. Vivemos em uma sociedade onde “todos projetam”, onde as capacidades de design são, por necessidade, particular- mente difusas (Giddens 1990, 2000). De fato, gostando ou não, todos os dias as pessoas devem projetar e reprojetar seus ne- gócios, sua vizinhança, suas associações e seus modos de vida. O resultado é uma sociedade que se mostra como uma trama de redes projetuais: um complexo e entrelaçado sistema de pro- cessos de design que envolve indivíduos, empreendimentos, organizações não lucrativas, instituições locais e globais que imaginam e colocam em prática soluções para uma variedade de problemas sociais e individuais (Tuomi, 2003; von Hippel,

    2004).

    Duas modalidades de design. Operando nesse novo contexto, os designers são chamados a colaborar com uma variedade de interlocutores, procedendo como especialistas (especialistas de design) e interagindo com os mais diversos atores que planejam sem possuir esta mesma especialização (designers amadores).

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    Como algumas experiências práticas começaram a demonstrar (Emude e CCSL, 1 DOTT07, 2 SEP, 3 ver referências adicionais no fi nal desse livro), tal interação pode acontecer através da com- binação de duas modalidades principais de atuação: projetan- do em (designing in) e projetando para (designing for) as comu- nidades criativas. Projetando nas comunidades criativas: signifi ca participar de modo paritário (peer-to-peer) com os outros atores en- volvidos na construção de empreendimentos sociais di- fusos e no co-design de organizações colaborativas. Nesta modalidade, os designers têm a missão de facilitar a con- vergência dos diferentes parceiros em torno de idéias com- partilhadas e potenciais soluções. Este tipo de atividade re- quer uma série de novas habilidades de design: promover a colaboração entre diferentes atores sociais (comunidades locais e fi rmas, instituições e centros de pesquisas); parti- cipar na construção de visões e cenários compartilhados; e combinar produtos e serviços já existentes para suportar a específi ca comunidade criativa com a qual colaboram. Projetando para comunidades criativas: signifi ca analisar tipologias específi cas de casos promissores e, após obser- var suas forças e fraquezas, intervir em seus contextos para torná-los mais favoráveis, desenvolvendo soluções a fi m de aumentar sua acessibilidade, efi cácia e, conseqüentemen- te, sua replicabilidade. Isto signifi ca conceber e desenvol- ver soluções habilitantes para organizações colaborativas específi cas e/ou outras iniciativas facilitadoras tais como plataformas, cenários e eventos catalisadores (como por exemplo, exposições, festivais e outros eventos culturais).

    • 1. As iniciativas Emude e CCSL são descritas no prefácio da presente obra.

    • 2. DOTT 07 (Designs of the time 2007 ) foi um projeto desenvolvido na Inglaterra

    que procurou esclarecer e explorar, através de projetos comunitários, eventos e exibições, como seria a vida cotidiana em uma região sustentável, refl etindo particularmente no papel do design neste processo.

    • 3. SEP ( Sustainable Everyday Project ) é uma plataforma colaborativa on-line

    que procura promover um processo de conversação social orientado à cons- trução de um futuro sustentável. Nesse sentido, hospeda diversas atividades de pesquisa (tais como Emude e CCSL) e workshops didáticos, promovendo também a coleta e classifi cação contínua de casos de inovação social.

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    Design para a inovação social. Os designers sempre criaram

    pontes entre a sociedade e a tecnologia. Até agora, mantive- ram seu foco principalmente na inovação técnica e, a partir das novas oportunidades que ela oferece, desenvolveram artefatos com algum signifi cado social. Esse modo de fazer, isto é, esse modo de cruzar essas pontes, permanece válido. Mas, agora, a mesma ponte deve ser cruzada em outra direção: é necessário olhar para a inovação social, identifi car casos promissores, uti- lizar sensibilidades, capacidades e habilidades de design para projetar novos artefatos e indicar novas direções para a inova- ção técnica. Para tanto, os designers devem repensar seu papel e seu modo de operar (Margolin, 2003; Thackara, 2005, 2007; Manzini, 2007b).

    Em conclusão, uma nova atividade de design está emergin- do, convidando os designers a exercerem um novo e fascinante papel. Aceitá-lo signifi ca reconhecer positivamente que não é mais possível manter um monopólio sobre o design. Se bem compreendida, esta mudança no papel dos desig- ners na sociedade não signifi ca uma redução mas, pelo contrá- rio, uma valorização. Exatamente porque o conjunto da socie- dade contemporânea pode ser descrito como uma trama de redes projetuais, os designers têm a responsabilidade crescente de participar ativamente dessas redes, alimentando-as com seu conhecimento específi co em design: habilidades, capacidades e sensibilidades de design que, em parte, se originam na sua cul- tura e experiência tradicionais e, em parte, são totalmente no- vos. Um conhecimento em design que para ser defi nido e tes- tado requer uma nova onda de pesquisa em design. Na verdade, falarmos de design para a inovação social é, mais ou menos, equivalente a falarmos de pesquisa em design para a inovação social.

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