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Morre uma estrela

Astrônomos fazem registro inédito dos instantes iniciais de


explosão de supernova

Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line
21/05/2008

Os instantes iniciais de uma supernova, evento cósmico que surge


com a explosão de uma estrela massiva e dá origem a novos
objetos celestes, começam a ser desvendados pelos astrônomos.
Uma equipe internacional de pesquisadores fez o registro inédito da
explosão de raios-X extremamente luminosos que marca o início
desse fenômeno raro.

Uma supernova ocorre quando o núcleo de uma estrela massiva


(com mais de oito vezes a massa do Sol) fica sem combustível e
entra em colapso. Nesse processo, ele emite uma poderosa onda
de choque que produz uma curta e brilhante explosão de raios-X ao
alcançar a superfície estelar. Essa explosão é o primeiro passo para
a expulsão da maior parte da matéria que compunha a estrela para
o espaço. O evento pode culminar com a formação de dois tipos de
objetos: um buraco negro ou uma estrela de nêutrons, corpo celeste
ultradenso e mais brilhante do que bilhões de estrelas juntas.

Esse modelo de colapso do núcleo para explicar a formação de


uma supernova é aceito há muitos anos, mas os detalhes da
explosão ainda não eram conhecidos. Algumas teorias sustentavam
que a expansão da onda de choque da supernova através da
superfície estelar seria acompanhada por explosões de raios-X ou
emissões de luz ultravioleta.

No entanto, a confirmação dessa hipótese esbarrava na curta


duração do fenômeno (de segundos a horas) e na falta de
equipamentos sensíveis para detectar as emissões. Milhares de
explosões de supernova já tinham sido observadas por astrônomos,
mas nunca em um estágio tão precoce, minutos depois do colapso
do núcleo da estrela mãe.

Uma mãozinha do acaso


A observação inédita foi feita pelo telescópio do satélite Swift, da
Nasa (a agência espacial norte-americana), e contou com uma dose
de sorte. O acaso interveio quando os pesquisadores investigavam
uma supernova de algumas semanas de vida (chamada SN
2007uy) na constelação de Lince, em uma galáxia a 90 milhões de
anos-luz da Terra.

Foi então que o grupo detectou, próxima a esse objeto, uma


explosão de raios-X muito intensos, com duração de 400 segundos.
Tratava-se de uma segunda supernova, batizada de SN 2008D. A
luz emitida por ela tinha propriedades diferentes das de todos os
raios-X breves conhecidos. Dois dias antes, não havia sido captada
qualquer fonte desses raios na mesma localização.

“Estávamos no lugar certo, no momento certo e com o telescópio


certo no dia 9 de janeiro e testemunhamos a história”, disse à
imprensa a pesquisadora que liderou o estudo da explosão, Alicia
Soderberg, da Universidade de Princeton e dos Observatórios
Carnegie, ambos nos Estados Unidos.

O evento foi acompanhado por outros oito telescópios espalhados


pelo mundo e em órbita para garantir que se tratava de uma
supernova. Além dos registros de raios-X, os equipamentos usados
captaram luz visível, luz ultravioleta, espectros próximos do
infravermelho e imagens da explosão.

Durante a observação da supernova SN 2007uy, o satélite Swift, da


Nasa, detectou uma segunda supernova (SN 2008D) no momento
de seu surgimento, visto em imagens de raios-X (à esquerda) e
ultravioleta (à direita) (imagem: Nasa/ Swift Science Team/ Stefan
Immler).
Imagem precoce e detalhada

“Nossa descoberta tornou possível uma inédita visão detalhada e


precoce da supernova”, dizem os autores no artigo que relata o
feito, publicado na Nature desta semana. “[As observações] nos
permitiram inferir o raio da estrela mãe, sua perda de massa nas
horas finais antes da explosão e a velocidade do choque quando
ele explodiu a estrela.”

A equipe concluiu que a explosão estelar se originou provavelmente


de uma estrela com aproximadamente 30 vezes a massa do Sol,
embora com raio menor ou igual ao dele. O novo objeto celeste
formado mede o mesmo tamanho da estrela antes da explosão.
Segundo os pesquisadores, a energia e o padrão da explosão de
raios-X coincidem com a propagação de uma onda de choque
através da superfície da estrela.

Embora a ocorrência de supernovas seja rara – apenas uma ou


duas a cada século em uma galáxia –, os cientistas acreditam que
outros satélites com sensibilidade similar à do Swift possam revelar
o nascimento de muitas outras supernovas, já que agora o padrão
de raios-X a ser procurado já é conhecido. “Prevemos que futuros
levantamentos de raios-X de amplo espectro capturarão a cada ano
centenas de supernovas no ato de sua explosão”, afirmam os
autores no artigo.

Segundo os astrônomos, a descoberta permite a consolidação de


campos de pesquisa antes considerados muito improváveis, como a
busca por neutrinos e rajadas de ondas gravitacionais, que,
segundo previsões, acompanham o colapso de um núcleo estelar e
o nascimento de uma estrela de nêutrons.

“As explosões de raios-X providenciarão pontos de partida


temporais e locais inéditos para detectores de ondas gravitacionais
e neutrinos, que podem ter a chave para finalmente resolver o
mistério do mecanismo de explosão de supernova e talvez a
identidade dos remanescentes compactos”, conclui a equipe.

Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line
21/05/2008
Fonte:
http://cienciahoje.uol.com.br/120497

ESTRELAS QUÂNTICAS
02-03-2008

+ Marcelo Gleiser

Estrelas quânticas

Marcelo Gleiser,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Um fenômeno quântico equilibra um objeto do tamanho da


Terra

Dentre as várias manifestações da relação da física do muito


pequeno – átomos e partículas subatômicas - com a física do muito
grande – estrelas, galáxias e o Universo como um todo – nenhuma
talvez seja tão marcante quanto os três tipos de "cadáveres"
estelares, os restos mortais de estrelas, conhecidos como anãs
brancas, estrelas de nêutrons e os misteriosos buracos negros.
Estrelas nascem quando nuvens enormes de hidrogênio entram em
colapso devido à própria gravidade. Como um balão murchando,
elas se tornam cada vez mais densas e menores.

A um certo ponto, a pressão e temperatura na sua região central


atingem os valores necessários para iniciar a fusão nuclear, na qual
os átomos de hidrogênio (na verdade, apenas os prótons em seu
núcleo) juntam-se para formar núcleos de hélio, com dois prótons e
dois nêutrons. Essa transmutação nuclear (um elemento químico
transformando-se em outro) libera uma quantidade gigantesca de
energia: um quilo de hidrogênio fundido em hélio é suficiente para
manter acesa uma lâmpada de 100 watts por um milhão de anos. E
o Sol converte 300 milhões de toneladas de hidrogênio em hélio por
segundo!

Essa fusão desenfreada não pode durar para sempre: um dia o


hidrogênio no centro da estrela acaba. O problema é que é
justamente a energia liberada na fusão que permite que a estrela
sobreviva a si mesma: com tanta massa, sua tendência é implodir.
Quando a fusão começa a falhar, a gravidade -que, como sabemos,
nunca dorme- toma a dianteira e contrai a estrela cada vez mais. A
um certo ponto, a temperatura no centro vai de 15 milhões (a
temperatura de fusão do hidrogênio) a 150 milhões de graus
Celsius. Começa uma nova fusão, dessa vez de hélio em carbono.

O processo continua, com a fusão de elementos químicos cada vez


mais pesados. Quais elementos são fundidos depende da massa da
estrela. O Sol parará no oxigênio. Estrelas com massa ao menos
oito vezes maior continuam até o ferro, quando a fusão termina
abruptamente. A estrela implode violentamente, e suas regiões
externas despencam em direção ao centro, como num prédio
implodido. Ao chocar-se com o centro ultradenso, a matéria da
estrela ricocheteia e voa para o espaço, numa enorme explosão.
Nas estrelas mais pesadas, são essas as explosões conhecidas
como supernovas.

A região central das estrelas sobrevive a esse drama. É ela que


forma um dos três tipos de cadáver estelar. Estrelas pequenas,
como o Sol, formam anãs brancas: objetos com a massa do Sol
mas do tamanho da Terra. Seu equilíbrio vem dos elétrons
aprisionados nos restos da estrela. Bastante anti-sociais, elétrons
não gostam de ter outros por perto. Isso gera uma pressão que
contrabalança a tendência implosiva da gravidade: um fenômeno
quântico equilibra um objeto do tamanho da Terra. Estrelas ainda
mais pesadas espremem os elétrons contra os prótons no centro.

Dessa união são formados nêutrons que, como os elétrons, também


são anti-sociais. Só que, por não terem carga elétrica, os nêutrons
podem ser espremidos um pouco mais, formando objetos com a
massa do Sol e do tamanho de uma montanha: as estrelas de
nêutrons. Se a região central tiver massa maior do que
aproximadamente três sóis, nem os nêutrons conseguem parar o
colapso: ele continua até que a estrela engole a si mesma,
fechando o espaço à sua volta. Nasce assim um buraco negro. Mas
desses falamos num outro dia.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0203200806.htm
GÊNESE CÓSMICA
30-03-2008

+ Marcelo Gleiser

Gênese cósmica

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

A luz que nos separa da escuridão é a luz da nossa curiosidade

Em meados de março, cientistas norte-americanos revelaram


análises dos dados colhidos durante cinco anos pelo satélite WMAP
(do inglês, Wilkinson Microwave Anisotropy Probe). O satélite, em
si, é já um feito impressionante. Sua missão foi medir pequenas
flutuações de temperatura no banho de radiação que permeia o
cosmo, a chamada radiação cósmica de fundo.

Uma imagem útil é a de uma banheira cheia d'água. Mesmo que a


temperatura pareça ser a mesma em todos os lugares, um
termômetro ultra-sensível mediria variações diminutas aqui e ali. No
caso do Universo, a temperatura média é de 2,75 graus acima do
zero absoluto (na escala Celsius, 273 graus negativos), e as
flutuações medidas pelo WMAP são de centésimos de milésimos de
grau.

O WMAP, como sugere o nome, mapeou a temperatura dos céus,


registrando regiões ligeiramente mais quentes ou mais frias do que
a média. O significado dessas regiões é profundo: essencialmente,
são as impressões digitais dos processos que marcaram a infância
cósmica, dando origem às primeiras galáxias e estrelas, os fósseis
de nossas origens.

Como todo bom fóssil, esses objetos registram um passado remoto


-mais precisamente, de quando o Universo tinha apenas 400 mil
anos, uma pequena fração dos seus 13,73 bilhões atuais. A história
cósmica, a versão moderna que inclui o Big Bang, o grande evento
que marcou a origem de tudo, é hoje reconstruída com tremenda
precisão. Quando físicos e astrônomos afirmam que o Universo tem
13,73 bilhões de anos (com uma margem de erro de apenas 0,12
bilhão de anos), não estão fantasiando ou especulando. Estão
fazendo uma afirmação baseada em medidas concretas e
irrefutáveis.

Todas as culturas de que temos registro tentaram de alguma forma


tecer relatos de sua origem. Talvez os relatos mais significativos de
uma cultura sejam justamente seus mitos de criação, as narrativas
que contam como surgiram o mundo, os animais e as pessoas.
Esses mitos são sagrados, marcando a relação entre a divindade
(ou divindades) criadoras e os humanos, sua criação. Mesmo que
em algumas culturas não existam deuses criadores, as narrativas
de criação do mundo definem as forças criadoras de suas crenças.
No relato mais popular em nossa cultura, o Gênese bíblico, a força
criadora gera o mundo ao separar a luz da sombra. Passados 3.000
anos, reconstruímos esse relato, medindo as propriedades, se não
dessa primeira luz divina e sobrenatural, da radiação que de fato
preenche o cosmo.

É inevitável traçar paralelos entre o relato judaico-cristão de criação


e o modelo cosmológico do Big Bang. "Ah, está vendo? Esses
cientistas estão simplesmente redescobrindo o que a Bíblia já dizia
há milênios." Na verdade, não é nada disso. A história científica da
criação estará sempre incompleta, aprimorando-se a cada nova
descoberta. Ela independe da fé. Se hoje podemos afirmar que o
Universo tem 13,73 bilhões de anos, que as primeiras estrelas
surgiram quando ele tinha 430 milhões de anos, nós o fazemos
baseados em 400 anos de ciência.

São os dados que nos contam o que ocorreu, dados obtidos por
meio da incrível inventividade humana. Se existe algo de
semelhante entre a Bíblia e o Big Bang é que ambos estão
interessados na história da criação. E isso não é uma coincidência.
Afinal, ambos refletem a mesma curiosidade humana de voltar ao
passado, retraçando os passos que levam até as nossas origens. A
luz que nos separa da escuridão é a luz da nossa curiosidade.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe3003200806.htm
Planetas-bebês
Os mesmos processos que formaram o nosso Sistema Solar
formam outros

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

No ano de 1600, o monge italiano Giordano Bruno foi queimado


vivo em meio a uma praça pública em Roma. Condenado como
herege pela Inquisição, Bruno tinha idéias extremamente ousadas:
duvidava da virgindade de Maria, da plausibilidade da Santíssima
Trindade e acreditava na existência de outros planetas circundando
estrelas pelo espaço afora. A existência de outros planetas
ameaçava a hegemonia terrestre e sua importância teológica: se
outras Terras existirem, talvez também existam outros seres. Nesse
caso, existiram também outros Cristos? E se o cosmo fosse infinito,
existiriam infinitos Cristos?

Apenas nove anos mais tarde, Galileu descobriria quatro luas


circundando Júpiter (hoje sabemos que existem dezenas delas),
demonstrando que, de fato, a Terra não era necessariamente o
centro do cosmo.

Foram necessários 400 anos para que a hipótese de Bruno fosse


verificada. Não a da virgindade de Maria (ou falta dela, mais
precisamente), mas a da existência de outros planetas. A partir da
década de 1990, observações astronômicas de alta precisão
encontraram centenas de planetas circundando outras estrelas. Até
agora são 228, e o número continuará a crescer. (O leitor
interessado pode visitar o excelente portal www.exoplanets.org)
Pela primeira vez na história da astronomia, foi confirmado que o
nosso Sistema Solar não é especial: outras estrelas também têm a
sua corte de planetas girando à sua volta.

O que ficou claro com essas descobertas foi a enorme variedade


planetária. Cada um desses outros sistemas planetários é único: em
uns, planetas gigantes circundam suas estrelas a distâncias
comparáveis às de Mercúrio no nosso; em outros, estrelas bem
maiores e bem menores do que o Sol também têm os seus
planetas, alguns deles talvez até com água, como é o caso de um
encontrado em torno da estrela Gliese 436. Ele tem massa 22,4
vezes maior do que a da Terra (comparável à de Netuno) e uma
densidade média duas vezes maior que a da água: muito
possivelmente, o planeta tem enormes quantidades de gelo.

Uma nova área de especialização surgiu devido a essas


descobertas, a planetologia comparada, que visa estudar
propriedades e características dos novos planetas, tendo em vista
os processos de formação desses sistemas solares, sua
composição química e, claro, a possibilidade de esses planetas
terem vida. Para tal, astrônomos procuram por outras Terras, isto é,
planetas que sejam rochosos feito o nosso e que estejam a
distâncias de suas estrelas que permitam a existência de água
líquida. Talvez existam formas de vida que fujam a essa regra, mas,
dentro do que no momento podemos chamar de plausível, a vida
precisa de água.

Até agora, ainda não foi encontrada uma outra Terra. Mas um dos
princípios importantes na busca por vida extraterrestre é a
identificação de traços comuns dentre os vários sistemas solares.
Recentemente, dois grupos de astrônomos encontraram o que
parecem ser planetas nascendo, girando em torno de duas estrelas
ultrajovens.

Se as descobertas forem confirmadas, aprenderemos que os


mesmos processos que formaram o nosso Sistema Solar formam
outros, o que não é nada surpreendente. Afinal, as leis da física e
da química funcionam em todo o cosmo. Portanto, para que outras
Terras existam, basta que condições semelhantes às nossas sejam
repetidas na imensidão do cosmo. Dado que na nossa galáxia
existem em torno de 300 bilhões de estrelas, as chances de
encontrarmos outras Terras é bem razoável. Arriscaria que é coisa
para alguns anos, no máximo. Bruno ficaria satisfeito.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0405200806.htm

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“O fim da Terra e do Céu”, O apocalipse na Ciência e na Religião,
Marcelo Gleiser, 336 páginas, Editora Companhia das Letras, Rio
de Janeiro, 2002. www.companhiadasletrinhas.com.br/

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