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Trabalho em presídios

Ameaça, medo e insegurança


Revista do Ministério Público do Trabalho • ano II • nº4 • 2014
ISSN 2317-2401

Caixa preta
A vida dos aeronautas
e aeroviários brasileiros

Escravidão No país do futebol


Laurentino Gomes vê Jogo duro para
o Brasil depois da Lei Áurea os trabalhadores
LABOR 1
2 LABOR
LABOR 3
Outra versão da notícia
8

Anos de descaso
10

Área de turbulência
14

Síndrome do edifício doente


30

Exploração, insatisfação e muito lucro


34

Da aldeia à sala de aula


40

Trabalho e punição
44

Tendência nacional
54

Desigualdade de gêneros
60

Um trocado pelo seu futuro


64

As sobras da modernidade
74

No país do futebol
78

4 LABOR
Direitos trabalhistas distantes do ‘Padrão Fifa’
80

Campeã em acidentes e operários mortos


86

Calor, o principal adversário


90

Suspeita de exploração sexual infantil


94

De cidade modelo a dúvida da Copa


99

Cultura de prevenção diminui riscos


102

“Perdi minha mocidade todinha na prisão”


107

Contrato perverso
112

O dono do negócio
116

Dinheiro na estrada
120

Vulcões de aço derretido


130

Uma história que o Brasil tenta esquecer


134

LABOR 5
Labor
Revista do Ministério Público do Trabalho
ISSN 2317-2401

Ministério Público do Trabalho

Procurador-Geral do Trabalho
Luís Antônio Camargo de Melo

Vice-Procurador-Geral do Trabalho
Eduardo Antunes Parmeggiani

Chefe de Gabinete do Procurador-Geral do Trabalho


Erlan José Peixoto do Prado

Diretora-Geral
Sandra Cristina de Araújo

Labor foi produzida pela Assessoria de Comunicação


Social do Ministério Público do Trabalho

Jornalista responsável
Rodrigo Farhat (MTE 4139/MG)

Edição
Marcela Rossetto e Rodrigo Farhat

Redação
Aline Baroni, Ana Alves, Ana Carolina Spinelli, Anucha Melo, Carolina
Villaça, Danielle Sena, Dimas Ximenes, Elton Viana, Fabiana Senna,
Fabíula Sousa, Fátima Reis, Guilherme Almeida, João Ebling, Keyla
Tormena, Lília Gomes, Lívia Vasconcelos, Ludmila di Bernardo, Mariana
Banja, Rafael Almeida, Rodrigo Farhat, Rogério Brandão, Tamiles Costa e
Wanderson Lima.

Revisão
Marcela Rossetto

Estagiários de Jornalismo
Beatriz Malagueta, Camila Correia, Gilvana Krenkel, Laís Reis, Natália
Araújo e Rodrigo Rabelo

Fotografia
Aline Baroni, Ana Alves, André Esquivel, Antenor Garcia Jr., Antônio
Cruz/ABr, Carolina Villaça, Chico Batata, Cyrano Vital, Fundacentro,
Glauco Schiavo, Henrique Lessa/Pauta Nova, Kolberto Rodrigues, Lília
Gomes, Lívia Vasconcelos, Ludmila di Bernardo, Natália Araújo, Neide
Carlos, Paulo Sérgio Freitas, Rafael Almeida, Roberto Nascimento,
Rodrigo Farhat, Sandoval Sousa, Tamiles Costa, Wanderson Lima e
Wilson Dias/ABr.

Ilustrações
Cyrano Vital

Infográficos
Guilherme Monteiro e Sarah Nunes

Diagramação
Guilherme Monteiro e Sâmela Lemos

Circulação
Ana Paula Fayão e Evelize Vidal

Administração
Kelma Barreto e Nathália Teixeira

Impressão
Gráfica Movimento

Tiragem
10 mil exemplares

Brasília, outono de 2014

Redação
SCS Quadra 9, Lote C, Ed. Parque Cidade Corporate, Torre A, sala 1.209
CEP 70308-200 – Brasília, DF – (61) 3314-8233
rodrigo.farhat@mpt.gov.br

6 LABOR
Vamos em
frente
Esta edição da Labor traz como reportagem de capa o dia a dia dos aeronautas
e aeroviários de todo o Brasil. Aos passageiros, atrasos de voos e extravios de
bagagem são aparentemente o grande problema da aviação civil brasileira.
Ao longo de duas dezenas de páginas, Labor mostra, no entanto, que o
verdadeiro drama está nas questões trabalhistas, que vão da discriminação às
jornadas excessivas dos profissionais do setor. Uma realidade que tende a se
agravar em períodos em que o tráfego aéreo se intensifica, como na Copa do
Mundo que se aproxima.

A Copa do Mundo, aliás, é o segundo grande tema desta edição. Em quase


quarenta páginas, Labor retrata a construção dos estádios em diversas cidades-
sedes tendo como ponto de partida o acompanhamento e a fiscalização
do Ministério Público do Trabalho (MPT), incluindo a punição das empresas
responsáveis pelas obras nos casos em que acidentes de trabalho levaram
à morte de trabalhadores, como no Itaquerão, em São Paulo, e na Arena da
Amazônia, em Manaus.

Ameaça de morte, risco e insegurança estão também retratados na reportagem


sobre os trabalhadores do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão. A
revista mostra o outro lado da crise, que já soma 11 condenados mortos, apenas
em 2014, mas que não é menos temerária para os trabalhadores. Mais duas
reportagens escancaram as más condições de trabalho nos cárceres de Piauí e
Paraná, com as respectivas ações do MPT.

Exploração, descaso e descumprimento da legislação trabalhista, com grave


repercussão social, estão presentes, ainda, nas demais reportagens desta Labor,
entre elas as que tratam das crianças que perdem a infância trabalhando, das
péssimas condições de trabalho dos operadores de telemarketing, além dos
riscos diretos à saúde dos profissionais na siderurgia e a discriminação por
gênero, persistente retrato do mercado de trabalho no país.

Bons ventos, porém, vêm de Santa Catarina, em que um acordo inédito


promovido pelo MPT resultou na redução gradual da carga horária dos
trabalhadores de uma empresa, até o limite de 40 horas, previsto para ocorrer em
2019. Uma inovação que está em sintonia com a tendência mundial de redução
da jornada e que encontra eco em projetos nacionais que preveem aumento dos
postos de trabalho.

Por fim, Labor tem a satisfação de contar com artigo do jornalista Laurentino
Gomes sobre a escravidão, um desafio que 125 anos depois da Lei Áurea, o Brasil
ainda não resolveu.

Felicidades.
Luís Camargo
Procurador-geral do Trabalho

Nota da Redação
Em 8 de maio, quando esta edição de Labor já estava em fase final de produção, uma descarga
elétrica matou o operário Mohamed Ali Maciel Afonso, 32, que trabalhava nas obras da Arena Pantanal,
em Cuiabá. O MPT está investigando o fato. Caso seja verificada a omissão das empresas quanto às
obrigações de fornecer e fiscalizar o uso dos equipamentos de proteção e de garantir um meio ambiente
de trabalho seguro, o MPT tomará as medidas necessárias administrativa e judicialmente.

LABOR 7
Leitor

Outra versão
Fotos: André Esquivel

da notícia

Amianto 1
Em carta ao Ministério Público do Trabalho
(MPT), o advogado e ex-ministro do Trabalho
Almir Pazzianotto afirmou que existem
inverdades relatadas pela auditora fiscal
Fernanda Giannasi, personagem do perfil Uma
carreira, Uma causa (Labor nº 3). Entre suas
alegações, Pazzianotto diz: “Ela [Fernanda
Giannasi] repete coisas ditas e desmentidas no
passado: que favoreci o sr. Emílio Alves Ferreira,
com a expedição de Carta de Reconhecimento
do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria
de Telhas de Capivari.” Ele se refere à seguinte
declaração de Fernanda Giannasi: “Nós o
acolhemos, mas, depois descobri que o então
ministro do Trabalho no governo Sarney, Almir
Pazzianotto, era padrinho político de Emílio. E
o sindicato foi criado a pedido da Brasilit, para
controlar a mão de obra.”

O advogado afirma que durante três anos


e seis meses à frente do ministério (1985-
1988) reconheceu 1.269 entidades sindicais.
“À época, sob a Constituição de 1967, a
medida resultava de pedido formulado por
associação profissional, submetida à análise
da Comissão de Enquadramento Sindical,
consoante disposto no Título V da CLT. Os
trabalhadores da Brasilit pertenciam à base
territorial do Sindicato dos Ceramistas de Itu.
Entenderam eles, no final de 1985, ter direito à
própria entidade, mediante desligamento de
associação sindical anterior. O novo sindicato
foi reconhecido em fevereiro de 1986.”

O ex-ministro ressalta que jamais recebeu


denúncia de que a Brasilit operava com
produto nocivo à saúde e que considera
as afirmações da auditora fiscal sobre ele
inconsistentes. Consultada pela Labor sobre o
teor da carta, Fernanda Giannasi reafirmou as
declarações dadas à reportagem.

8 LABOR
Amianto 2
O gerente de Relações com Investidores da
Eternit, Rodrigo Lopes da Luz, enviou carta
ao MPT com críticas à reportagem de capa
(Labor no 3). “Registramos os nossos protestos
à maneira com que foi abordada a questão
do uso do amianto crisotila no Brasil e a
tentativa de denegrir a imagem da Eternit a
partir de acusações desprovidas de sentido e
conteúdo. A referida reportagem, em alguns
momentos, contraria a necessária urbanidade
que deve existir nas relações entre pessoas e
entidades, assumindo um caráter ofensivo a
uma empresa cuja reputação, ao longo de 74 Trabalho infantil
anos de atividade, foi construída em torno dos
valores como eficiência e credibilidade perante Ao contrário do publicado na reportagem
a opinião pública.” Em cima do palco (Labor nº 3), a atriz Narjara
Turetta nunca passou fome, nem vendeu
A empresa pediu espaço semelhante para
água de coco na praia, mas sim numa rua em
apresentar os supostos avanços das técnicas
Copacabana, no Rio de Janeiro.
de segurança adotadas em suas fábricas,
que, segundo a diretoria da Eternit, não Sâmela Lemos
causam riscos à saúde dos trabalhadores. A
multinacional também não faz menção às
principais denúncias da reportagem relativas à
contaminação e morte de trabalhadores.

A Eternit foi procurada pela redação da


Labor para se manifestar sobre as denúncias,
conforme nota publicada na página 19 da
edição no 3, mas a empresa não se manifestou.

Amianto 3
O presidente da Comissão Nacional dos
Trabalhadores do Amianto (CNTA) e do
Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da
Construção, Mobiliário, Cerâmica, Ladrilho,
Hidráulica e Produtos de Cimento de Capivari,
Emílio Alves Ferreira Júnior, enviou carta ao MPT
com declarações contrárias ao depoimento da
auditora fiscal Fernanda Giannasi (Labor no 3).
“Ela não foi a responsável pela criação da GIA,
mas, sim, convidada a participar deste trabalho,
em que os trabalhadores, representados por
nós, eram os maiores interessados em saber
mais sobre o amianto, uma vez que, até aquele
momento, não sabíamos do que se tratava.”
Emílio também afirma que a criação do sindicato
é fruto da luta e organização dos trabalhadores
do setor de cimento. “A criação do nosso
sindicato foi independente e não teve apoio
de ninguém, até porque não conhecíamos o
então ministro Almir Pazzianotto, como alega
falsamente a senhora Fernanda Giannasi.”

LABOR 9
Fotos: Rodrigo Farhat

10 LABOR
Entrevista - selma balbino

Anos de descaso

Tesoureira do Sindicato Nacional dos Aeroviários


abre o jogo: a conta não fecha para o trabalhador

Por Rodrigo Farhat

A flor no cabelo marca a de voo do Setor de Comissaria


personalidade de Selma da Varig quando a GOL comprou
Balbino. Trinta dos seus 58 anos a companhia gaúcha. Militante
trabalhou como aeroviária. no Sindicato Nacional dos
Antes, atuou em outras frentes. Aeroviários (SNA), foi demitida.
Foi profissional das áreas de Além de tesoureira do SNA, é
recursos humanos, de contas a secretária-geral da Federação A equação é perversa:
pagar, da construção civil e da Nacional dos Trabalhadores na passagens caras e mão
metalurgia. Estava no controle Avição Civil (Fentac). de obra barata

LABOR 11
Os aeroviários brasileiros enfrentam muitos A sacanagem é que as empresas colocam esses chegam pelo corpo. O som das turbinas
problemas em suas jornadas de trabalho. A trabalhadores, nesse período, na cota dos dos modelos 767-400 e 707-200 atingia 150
profissão, regulamentada pelo Decreto 1.232, profissionais com necessidades especiais. Outro decibéis. O das turbinas dos 767-800 chegava
de 1962, vê os problemas crescerem. O mais problema é a remuneração dos aeroviários, a 110 decibéis. E a surdez pode ocorrer com
grave deles é a questão da saúde mental e que está aquém das necessidadades básicas sons permanentes a partir dos 85 decibéis.
física dos trabalhadores em terra. A tecnologia do brasileiro. Pedimos piso para check-in de Assim, o trabalhador perde a audição
resolveu a maior parte dos problemas físicos R$ 1,6 mil. Depois, nas negociações, reduzimos significativamente com cinco, dez anos de
das empresas, mas trouxe muitos outros para para R$ 1.420. Hoje, o piso na GOL, de R$ 1.232, trabalho, mesmo usando o protetor auricular.
os aeroviários. é o pior deles. Na TAM, é R$ 1.270. Na Azul, R$
1.311. [Entrevista concedida em fevereiro de
Nesta entrevista, Selma Balbino fala da 2014.] Cada empresa paga o que quer.
realidade dos profissionais em terra da aviação Qual o papel da Agência
Nacional de Aviação Civil
civil regular. Suas palavras têm o cheiro do Pegamos o maior piso, o da Azul,
suor dos trabalhadores consumidos no dia a acrescentamos a inflação (5,65%),
dia da profissão. produtividade e a categoria autorizou seguir (Anac) no setor?
com a pauta de reivindicações.
A Anac era um sonho dos trabalhadores da
Além disso, queremos aumentar o teto de aviação civil, mas é um grande Detran do
A máquina está substituindo salário para recebimento da cesta básica de R$ ar, que ainda não conseguiu dar respostas
3,2 mil para R$ 4 mil e o fim da perseguição aos
o homem na aviação? dirigentes sindicais.
satisfatórias aos nossos problemas e atingir a
maturidade.
A instalação dos totens de autoatendimento Todo fim de ano, na época da assinatura Em 1988, lançamos o Pássaro Civil, uma
resultou na demissão de muitos do acordo coletivo, mais gente vai pra campanha pela saída dos militares do setor e a
trabalhadores. As lesões por esforço rua. Principalmente, os mais antigos. As entrada dos civis no segmento. Houve avanços,
repetitivo (LER) e os distúrbios osteomuscular companhias, em seguida, contratam novos por eu reconheço, mas ainda há muitos problemas,
relacionados ao trabalho (Dort) são uma valores mais baixos. a começar pela direção. Defendemos uma
realidade no check-in. Na pista, os problemas
mista, com técnicos, e um período de transição.
estão relacionados às hérnias de disco e ao
Hoje, assim como nas demais agências, é mais
estresse. Hoje, 8,16% dos trabalhadores de
pista têm hérnia de disco. O mecânico precisa E o assédio moral? um cabidão de empregos.
rolar a turbina e também o pneu de avião e O SNA tem uma cadeira no conselho consultivo
o agente de aeroporto precisa transportar O assédio talvez seja o problema que,
da Anac. Recebemos a pauta da reunião e
malas de 50 kg no muque para colocar dentro conjugado aos demais, tenha afastado o
incluímos nossas questões, mas quase nunca
do porão da aeronave. trabalhador e o colocado na psiquiatria. A nossa
conseguimos discuti-las nos encontros. Então, a
regulamentação profissional proíbe a dobra
pauta é da Anac e é ela que prevalece.
de jornada ou awws horas extras excessivas
sem acordo com os trabalhadores, mas as
Quantos trabalhadores há em companhias aéreas assediam quem faz valer a

cada equipe de pista?


regulamentação profissional.
Qual o futuro das grandes
Outro motivo de assédio está relacionado
aos 15 minutos do lanche. O trabalhador
empresas aéreas brasileiras?
Cada aeronave precisa ter seis trabalhadores
de pista, sem contar o mecânico e o agente precisa parar para descansar e os supervisores, Terão o mesmo fim da
de check-in. O problema é que as empresas
trabalham com três. Na Avianca, na Azul e
carrascos das empresas, são promovidos à custa
do assédio que fazem.
Cruzeiro, da Transbrasil, da
na GOL, esse serviço é terceirizado. Na TAM, Vasp e da Varig?
não. Outro problema é que a maioria das ‘Você está indo muito ao médico’, dizem. ‘Vem
terceirizadas não quer cumprir as convenções cá, você ainda está tomando aquele remédio De José Sarney para cá, pouca importância
coletivas de trabalho. de maluco?’ O efeito sobre os trabalhadores é foi dada pelo governo ao setor aéreo. Não
muito ruim. Tem gente assediada que acaba quiseram fortalecer a área. Em quase todo o
com síndrome do pânico. mundo, uma empresa de bandeira representa o
país. A única exceção é o Brasil.
O que ocorre com o Temos problemas como LER e Dort, hérnia
de disco e problemas de ordem psicológica Veja o acordo de reciprocidade. Se tenho
trabalhador que adoece? por conta do assédio moral. A surdez, há direito de fazer 150 voos para os Estados
20 anos, era um problema sério. Ainda Unidos, a American Airlines tem o mesmo
Primeiro, ele é afastado e fica recebendo pelo existe, mas diminuiu, pois a qualidade direito. A TAM consegue fazer 150 voos
INSS. Assim que a crise aguda da doença passa, dos protetores auriculares aumentou e a de reciprocidade para os EUA? Não, pois a
os peritos do INSS mandam o trabalhador voltar tecnologia diminuiu os decibéis das turbinas. concorrência é desleal, já que o governo norte-
ao trabalho. Aí, as empresas colocam o cara De qualquer forma, continua sendo um americano subsidia o querosene de avião. A
para vigiar o vestiário, colocam a pessoa no problema, porque atinge o aparelho auditivo equação é perversa: passagens caras e mão
check-in. Passada a estabilidade, ele vai pra rua. pela propagação das ondas sonoras que de obra barata. Assim, as empresas diminuem

12 LABOR
o salário do trabalhador, precarizam as
condições de trabalho, pois não têm subsídio
do governo para o querosene. Então, damos a
bola para os estrangeiros de bandeja.

São anos de descaso.


Em 1995, a folha de pagamento, com encargos,
estava na ordem de 32% dos custos das
empresas. Hoje, é de 18%. Diminuíram os salários.
Não tem mais previdência complementar. Não
há mais adicional de antiguidade. Diminuíram o
número de trabalhadores. Terceirizaram grande
parte das funções e o terceirizado ganha menos
do que o celetista. A empresa terceirizada não
paga direito. Demite por qualquer coisa. Não
paga periculosidade. Não faz CAT [Comunicação
de Acidente de Trabalho]. Faz Cipa [Comissão
Interna de Acidente de Trabalho] fraudulenta,
somente de fachada.

As empresas buscam tirar a diferença em cima


do trabalhador. É mais fácil cortar o salário do
trabalhador, omitir hora extra. Quando você vai
cobrar um direito, sofre assédio. É um ambiente
de trabalho ruim.

O que vai ocorrer na Copa do


Mundo de 2014?
Com o incentivo às aéreas regionais, as
pequenas vão crescer. A Azul passou a voar
para onde ninguém queria. Nem a TAM, nem
a GOL. A empresa do David Neeleman está
numa escalada de crescimento vertiginosa.
Ele comprou a Trip, dobrou o número de
aeronaves, mas não o de trabalhadores. A
Azul solicitou um aumento de quase 900 voos
extras à Anac, para o período da Copa. Em
seguida, vieram a TAM, a GOL e a Avianca.

Em janeiro de 2014, o SNA entregou um


documento ao Sindicato Nacional das
Empresas Aéreas (Snea). Queríamos saber
quais seriam as iniciativas das empresas aéreas
para conseguir fazer esses mais de 2 mil
voos extras, levando em conta as demissões
iniciadas em dezembro. Vão aumentar a
jornada, vão cancelar folga, vão cancelar férias.

Para o período, seria necessário contratar,


no mínimo, por empresa, em torno de 400
trabalhadores nos maiores aeroportos do
país. São cerca de 2 mil profissionais, ainda
que temporários.

O SNA não vai permitir dupla jornada nem


cancelamento de folga.

LABOR 13
Aviação civil

Área de turbulência

Aeronautas e aeroviários brasileiros enfrentam


jornadas estafantes e más condições de trabalho

“O número mínimo O céu não é azul e o sol não apertadas e vida familiar e
de folgas se tornou o brilha para os aeronautas e social prejudicada. A fadiga e
máximo. Temos oito aeroviários brasileiros. Pilotos e o estresse são companheiros
por mês” comissários têm vida profissional cotidianos desses trabalhadores
Rodrigo Spader, copiloto estressante, escalas de trabalho do ar e da terra.

14 LABOR
Rodrigo Farhat

Os problemas ultrapassam o meio ambiente de trabalho ampliadas sem que isso seja do exercício profissional do aeronauta e o
de trabalho. Após a GOL demitir 850 coberto pela regulamentação, já que esses Supremo Tribunal Federal (STF) determinou,
funcionários da Webjet, em novembro de deslocamentos são particulares e esse tempo em março, que a União indenize a Varig pelos
2012, e dispensar, em março de 2013, mais não é contado na jornada total de trabalho. prejuízos causados pelo congelamento das
trabalhadores da empresa adquirida em 2011, tarifas aéreas promovido pelo Plano Cruzado
a 8ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho Os aeroviários – trabalhadores em terra – na segunda metade dos anos 1980. A ação,
da 1ª Região (TRT/RJ) manteve a decisão de reclamam, principalmente, do pequeno que tramita há 21 anos no Judiciário, ainda
reintegração imediata dos 850 empregados número de funcionários por setor, do excesso não tem valor definido para a indenização. O
e confirmou a condenação de R$ 1 milhão de jornada, da política de horas extras, que pedido incial da companhia chega a R$ 3,7
por dano moral coletivo e de R$ 1 mil a se tornaram corriqueiras, e das condições de bilhões, mas, corrigidos, poderiam atingir
multa diária, por trabalhador, em caso de trabalho, que incluem exposição a ruídos e entre R$ 7 e R$ 8 bilhões.
descumprimento da decisão. levantamento de cargas de peso excessivo,
com resultados danosos ao corpo humano. Leia a reportagem produzida pelos jornalistas
Os maiores problemas do setor da aviação Faltam, ainda, cadeiras com encostos para Dimas Ximenes, Guilherme Almeida, Mariana
civil, no caso dos aeronautas – pilotos e agentes de proteção da aviação civil (apacs), Banja, Rafael Almeida, Rodrigo Farhat, Rodrigo
comissários –, estão relacionados à jornada banheiros e bebedouros adequados e em Rabelo* e Rogério Brandão.
de trabalho, geralmente exaustiva. Os número suficiente.
trabalhadores do ar vivem em locais distantes
de suas bases. Assim, têm suas jornadas Não bastassem esses problemas, tramita no *Estagiário de jornalismo no MPT em Campinas.
Senado projeto de lei que altera a regulação

LABOR 15
Explorados ao extremo
Por Rodrigo Farhat

Todos os meses, com as escalas publicadas turbinas, às 14h48, foi para o hotel. No dia
pelas companhias aéreas, os trabalhadores do seguinte, tudo igual.
ar planejam a vida profissional e pessoal dos
próximos 30 dias. “Pode ser que eu tenha seis O profissional fica nesse ritmo de um a dois
dias de trabalho seguidos por uma folga, depois anos. Um dia, não suporta mais. “No início, tudo
mais seis, outra folga, mais seis dias no batente é novidade, o ritmo é alucinante, mas o custo
e outra folga. Nesses 21 dias, fui utilizado ao para a saúde é grande”, diz Spader.
wextremo, durante 85 horas de voo por mês.
A situação é mais complexa ainda, pois os
O aeronauta sai de casa na segunda-feira e
aeronautas não vivem, necessariamente,
volta somente no sábado. Ele não viu o filho,
em suas bases de trabalho. No Brasil, as
não encontrou a mulher, não viu os amigos.
companhias aéreas estão baseadas em Manaus,
Perdeu também a festa de aniversário da tia”,
Natal, Campinas, Guarulhos, Porto Alegre e Belo
diz o copiloto de linha aérea Rodrigo Spader
Horizonte, no caso da Azul; em São Paulo, Rio
(foto abaixo), diretor de Regulamentação e
de Janeiro e Brasília, no caso da TAM; São Paulo,
Convenção Coletiva do Sindicato Nacional dos
Rio de Janeiro e Porto Alegre, no caso da Gol e
Aeronautas (SNA), 32 anos, 12 de carreira.
da Avianca (veja infográfico na página ao lado).
A Revista Labor teve acesso a uma planilha Então, o piloto ou o comissário que mora em
de voo (margem ao lado) de um piloto. São Paulo e tem sua base em Campinas tem
Naquele 13 de fevereiro de 2014, o aeronauta que sair muito cedo de casa para o trabalho.
se apresentou para voar no Aeroporto de Vale o mesmo para aquele que vive em Brasília
Congonhas às 5h28 e seu primeiro voo e tem em sua escala de trabalho, por exemplo, Prejuízo
decolou de São Paulo, às 6h13. Ele aterrisou um voo internacional que parte de Guarulhos,
em Navegantes (SC) às 7h20. Vinte e oito às 22h. Como precisa se apresentar às 20h, terá Outro problema é que uma tripulação simples
minutos depois decolou novamente. Chegou que sair de casa por volta das 15h, cinco horas pode fazer um voo de uma hora e ficar quatro
a Guarulhos (SP) às 8h55. Em seguida, partiu antes, um tempo nunca computado no fim do horas não remuneradas em algum aeroporto
para Confins (MG), às 9h50. Às 11h38 iniciou mês no contracheque. O transporte entre o do país, sem um lugar para descansar. Essa
nova decolagem. Chegou a Ilhéus (BA) às local de repouso e da apresentação, ainda que mesma tripulação pode voar novamente uma
13h04. Às 13h33 levantou voo para Salvador. em condução da empresa, não é contado como hora e retornar ao ponto inicial. “É prejuízo
Chegou ao Aeroporto Luís Eduardo Magalhães trabalho, segundo a Lei 7.183, de 5 de abril de duplo: as empresas são pouco eficientes na
às 14h18. Trinta minutos após desligar as 1984, que regula a profissão de aeronauta. organização de suas escalas e os aeronautas
não são remunerados”, reclama o copiloto
Rodrigo Spader.

Rodrigo Farhat Este é um dos pontos do Projeto de Lei do


Senado (PLS) 434/2011, que busca atualizar a
regulamentação da profissão de aeronauta.
“Queremos que as empresas melhorem suas
escalas de voo. Do jeito que está é desumano
e traz prejuízo aos dois lados.” Outro ponto
de discórdia diz respeito às folgas. As piores
empresas brasileiras concedem dez dias de folga,
mas os aeronautas têm oito por mês.” Além disso,
o aeronauta não tem domingos e feriados.

Uma tripulação pode trabalhar 12 horas,


descansar 12 horas e voltar a trabalhar 12 horas.
“A diferença é que estamos, durante a folga,
e também durante o descanso, fora de casa”,
pondera Spader.

Graziella Baggio, comissária de bordo


aposentada, 57 anos, ex-presidente do SNA,
lembra que, antigamente, “você voava e ficava
24 horas em uma cidade antes de voltar a voar
novamente. Hoje, esse tempo foi reduzido para
12 horas.”

Muitas vezes, são seis dias seguidos de trabalho


e, ao fim da viagem, o aeronauta tem 12 horas
de descanso. Em seguida, vem a folga, um
período de 24 horas. Spader faz uma conta:
“Por vezes, você voou seis dias e ficou em
casa somente 36 horas. Após esse período,
você volta a voar outros seis dias. Essa é a
conta que não fecha para o aeronauta. Faltam
agrupamentos inteligentes de folgas e também
mais folgas.”

16 LABOR
Neide Carlos

Legislação precisa ser atualizada


A grande bandeira do Sindicato Nacional gerenciadas por programa de prevenção de seu Programa de Gerenciamento de Risco de
dos Aeronautas (SNA) é atualizar a legislação risco de fadiga. Fadiga (PGRF). Camacho defende um PGRF
para que seja boa para empregados e válido que seja utilizado por todas as empresas
empregadores. As empresas, se bem O comandante Carlos Camacho, 61 anos, (foto nacionais. “Por que ainda não temos?” Ele
organizadas, poderão usar a força de trabalho acima) está na aviação desde 1973. Depois de também reclama da não contemplação, na
dos aeronautas mais vezes, desde que eles aposentado, continuou no setor, mas na área nova proposta de lei, do pessoal da aviação civil
tenham mais folgas e elas elevem os índices de segurança de voo. Segundo ele, para o PLS geral, helicóptero e outros serviços, como de
de segurança. “É uma briga de ganha-ganha”, 434/2011 ir à votação no Senado, é preciso ser aerofotogrametria e paramédicos.
diz o copiloto Rodrigo Spader. bom para todas as partes envolvidas. “Como
está, a parte mais fraca dessa equação é o
O SNA quer de dez a 12 folgas por mês, sem trabalhador.”
No automático
perda de produtividade, tempo em solo
em intervalos maiores do que uma hora Um dos pontos falhos, para o comandante
Camacho questiona no projeto o limite de
remunerado como tripulante reserva e jornadas Camacho, é deixar que cada empresa tenha o
voo durante três madrugadas seguidas. “Todo
tripulante que voa regularmente sabe o que
Sarah Nunes
são três madrugadas seguidas. Chegar a um
hotel por volta das 5h e tentar dormir até
o meio dia é missão impossível. Há sempre
o barulho de aspiradores e o do serviço de
manutenção. Então, aquele tripulante que terá
que voar naquela mesma noite não conseguirá
o repouso mínimo necessário. Não tem sido
incomum os dois pilotos serem flagrados
dormindo nas cabines ao mesmo tempo. Quem
estará no comando? O piloto automático?”

Questionada, a Agência Nacional de


Aviação Civil (Anac) disse que a Organização
Internacional de Aviação Civil (Icao) estabelece
que o gerenciamento de risco e fadiga na
aviação deve ser tratado de duas formas pelos
países membros: determinação da carga
Bases operacionais horária de trabalho do aeronauta, registro e
acompanhamento pelo órgão regulador da
aviação civil. Segundo a Anac, essa determinação
é cumprida por meio da Lei 7.183/1984, a lei que
Azul: Manaus, Natal, Campinas, regula a profissão do aeronauta. Outro ponto é
Guarulhos, Porto Alegre, Belo criar um programa de gerenciamento avançado,
Horizonte ainda inexistente no Brasil.

TAM: São Paulo, Rio de Janeiro e Procurado, o Sindicato Nacional das Empresas
Aeroviárias (Snea) não se pronunciou sobre o
Brasília

Gol: São Paulo, Rio e Porto Alegre


programa de gerenciamento de risco de fadiga
e tampouco sobre o projeto de lei.
Avianca: São Paulo, Rio de Janeiro e
Porto Alegre

LABOR 17
A escala dos tripulantes
As quatro empresas aéreas foram procuradas, voos internacionais para quem é credenciado.
mas somente a GOL e a TAM se pronunciaram Mais tarde, a escala mensal é montada e
sobre a escalação dos aeronautas. De acordo divulgada aos profissionais.
com o gerente Operacional da GOL, Henrique
Baccarin, “um módulo matemático constrói Segundo a assessoria da TAM, o cálculo da
as programações dos tripulantes”. Os critérios necessidade de mão de obra é o primeiro passo
são equilibrar divisão das horas voadas e horas para o preparo da escala da tripulação. Assim,
pagamento, atender pedidos de folgas, prever considera quantidade de horas a serem voadas,
folgas duplas ou triplas, dias de treinamento absenteísmo e também funcionários em
para revalidação de certificados técnicos e treinamento ou em férias.
treinamentos de exigência corporativa. Além
Depois, programas de computador usam
disso, é preciso obedecer às legislações que
parâmetros, como regulamentação e conven-
regem a profissão do aeronauta e as diretrizes
corporativas, como a gestão da fadiga. ção coletiva de trabalho, equidade de horas de
voo, distribuição de folgas e regras da empresa
Depois, essas programações são enviadas aos para desenhar as rotas. O último passo é a
tripulantes, considerando as particularidades confecção da escala dos tripulantes. Nessa fase,
de cada voo, o cargo e as habilitações. Assim, eles são escalados nas rotas dos voos também
voos para o Aeroporto Santos Dumont (RJ) são por programas. Depois de analisada, a escala é
destinados para os treinados para pousar ali e publicada. RF

18 LABOR
t
rha
rigo Fa
Rod

Uma perspectiva sombria


Por Rodrigo Rabelo*

Com a proximidade da Copa do Mundo, um Anos depois, a situação não melhorou, pelo
fantasma bem conhecido ronda o espaço contrário. Dados divulgados em agosto
aéreo brasileiro: estariam os aeroportos e seus de 2013 pelo Centro de Investigação e
controladores de voo preparados para atender Prevenção de Acidentes Aeronáuticos
a demanda que surgirá nos próximos meses? (Cenipa) apontam que, de 2006 até 2013,
Ou corremos o risco de vermos repetições de houve um aumento de 158% no número de
tragédias como a da colisão entre um avião acidentes aéreos, um número que, segundo
comercial e um jato executivo em 2006, que o órgão, pode ser atribuído ao aumento de
resultou na morte de 154 pessoas, no que se 31,17% na frota de aviões, helicópteros e
prenunciou como o primeiro capítulo de uma jatinhos nesse mesmo período, o que torna
crise aérea que atingiu o país nos anos seguintes?
o Brasil o detentor da segunda maior frota
Por ocasião deste acidente, as fragilidades da mundial, atrás apenas dos Estados Unidos.
malha aérea brasileira foram expostas: áreas
Ainda segundo o relatório, 90% dos
sem cobertura de radares, superlotação e falhas
de manutenção. Além disso, uma categoria acidentes aéreos registrados nesse período
profissional foi alçada ao posto de protagonista tiveram o fator humano presente, por meio
da crise – os controladores de voo. Em número de erros de pilotos, companhias aéreas ou
insuficiente, eles enfrentaram não só a pressão de órgãos oficiais que controlam a aviação.
causada pela rotina estressante, mas também Esses dados, bem como o aumento na frota,
a suspeita de terem responsabilidade sobre o desnudam uma preocupação: estariam os
acidente devido à falha funcional e comunicação controladores de voo aptos a suportarem
difícil com as autoridades do setor, culminando a demanda que surgirá nos meses em que
em greves na categoria e atrasos nos voos. haverá a Copa do Mundo?

LABOR 19
Panes ao atendimento da demanda em terra, o que
deve resultar em impactos negativos para a
Para Florisvaldo Meira, presidente da categoria dos aeronautas e aeroviários. “A
Associação Brasileira dos Controladores de infraestrutura aeronáutica atual é totalmente
Tráfego Aéreo de Curitiba (ABCTA-CTBA), a adequada à demanda existente no Brasil, o
questão é uma caixa de Pandora. “Houve uma mesmo não se pode dizer da infraestrutura Aumento
melhoria na infraestrutura aeronáutica nos aeroportuária, que passa por dificuldades
últimos anos, com grandes investimentos de diversas ordens, principalmente no que “Mesmo com o advento das modernas
em tecnologia que minimizaram dificuldades diz respeito a vagas de estacionamento para tecnologias, ainda se faz necessário um órgão
relacionadas à comunicação entre tripulantes aeronaves em solo, fato que afeta diretamente independente, centralizador e catalisador das
e controladores, e melhoraram a detecção o controle aéreo”. decisões, com meios próprios para conciliar
e visualização de aeronaves em seu espaço os interesses envolvidos, priorizando as
aéreo. Mas isso não significa que o sistema Porém, para Ernandes Pereira da Silva, sequências de aproximações e saídas dos
esteja isento de situações de possíveis panes, diretor técnico do Sindicato Nacional dos aviões de acordo com normas estabelecidas
assim como não existe em todo o mundo um Trabalhadores na Proteção ao Voo (SNTPV), de segurança”.
sistema 100% seguro, que seja à prova de a atual malha aeroviária não suporta “a
complexidade atingida com o aumento do Os argumentos de ambos já anteveem que,
qualquer pane”.
volume do tráfego aéreo”, e a concorrência de embora “adequada à demanda atual”, a
Meira complementa que, apesar de haver aeronaves pelo mesmo espaço trará graves infraestrutura aeronáutica pode enfrentar
uma estrutura satisfatória para manutenção problemas aos aeronautas, já que os pilotos sérios problemas nos próximos meses,
da demanda no ar, existem dúvidas quanto não conseguirão “por si, separações seguras”. principalmente com o aumento do número
de passageiros diários previsto nos principais
aeroportos do país durante a Copa do Mundo,
como é o caso de Viracopos, em Campinas.
Antônio Cruz/ABr
Segundo dados da Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac), o terminal deve absorver
um aumento de 51,2% no número de pousos
e decolagens nos meses de junho e julho,
passando de 554 para 838 voos/dia.

Além do aumento da demanda nos meses de


jogos, um estudo da Associação Internacional
de Transporte Aéreo (Iata), divulgado em 2013,
aponta que, em 2016, o Brasil será o terceiro
maior mercado de voos comerciais do mundo,
atrás apenas dos Estados Unidos e da China,
alcançando o número de 118 milhões de
passageiros por ano em 2016, e 310 milhões
em 2030, ou o equivalente a nove aeroportos
de Guarulhos (SP).

Demanda
Outro relatório produzido em 2013 pela
McKinsey & Company Brasil, em parceria
com o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), reforça a
perspectiva pessimista da situação aérea nos
próximos anos ao afirmar que, dos 20 principais
aeroportos nacionais, 13 já apresentam
gargalos nos terminais de passageiros, com
consequente redução no nível de serviço
prestado aos usuários. O estudo concluiu que,
para solucionar os gargalos, serão necessários
investimentos da ordem de R$ 25 bilhões a R$
34 bilhões nos próximos 15 anos, distribuídos
entre todos os componentes do aeroporto,
incluindo terminais de passageiros e sistemas
de pista e pátio.

O crescimento desordenado da demanda


aeroportuária reflete nas condições de trabalho
não apenas de controlares de voo, mas de
pilotos, copilotos, comissários de bordo e das
equipes em solo, responsáveis pelo despacho
aduaneiro, logística e deslocamento de carga
de passageiros em terra. Nos últimos cinco
anos, as ações relacionadas à pressão no
ambiente de trabalho movidas por funcionários
de companhias aéreas e empresas que
prestam serviços terceirizados no Aeroporto
de Viracopos tornaram-se algo rotineiro, o
que acaba refletindo na atuação de órgãos
de defesa dos direitos coletivos, como o
Ministério Público do Trabalho (MPT). Questões
relacionadas ao meio ambiente de trabalho
e fraude nas relações trabalhistas também
representam um foco de atuação fortíssimo.

20 LABOR
Empresas crescem, mas salários
não acompanham ritmo
A aviação civil regular no Brasil manteve o
mesmo nível de crescimento da economia em
2013. O desempenho do setor teve resultado
3,3 vezes maior do que a variação do Produto
Interno Bruto (PIB), entre 2005 e 2012. No Emprego
entanto, em 2013, o desempenho do segmento
e da economia geral foi semelhante. “Enquanto O total de empregos também teve crescimento
o PIB cresceu 2,3%, em 2013, as empresas de 72% de 2006 a 2012, segundo o Anuário
do Transporte Aéreo da Agência Nacional de
Inquéritos aéreas nacionais viram o total de passageiros
Aviação Civil (Anac). Dos 35.528 empregos
por quilômetros transportados pagos no
conjunto das linhas domésticas e internacionais existentes em 2006, 26.635 eram ocupados
Entre as queixas mais comuns destacam-se
avançar 2,25%, de janeiro a dezembro, na por aeroviários e 11.893, por aeronautas. Em
a supressão de intervalos na jornada dos
comparação com o mesmo período de 2012, dos 61.120 empregados, 42.711 eram
funcionários, que comumente trabalham acima
2012”, diz o sociólogo Mahatma Ramos, do aeroviários e 18.409, aeronautas. O crescimento
do limite legal permitido pela lei, inclusive
Departamento Intersindical de Estatística e foi de 72% no total de pessoas empregadas no
em finais de semana, sob ameaça constante
Estudos Socioeconômicos (Dieese). setor aéreo, com aumento de 80% no número
de demissão e de atrasos no pagamento
de aeroviários e de 54,8% no de aeronautas.
salarial. Das seis empresas terceirizadas que
prestam serviços em terra a companhias Ele lembra que o descompasso entre os Quando a evolução do emprego em 2011 é
aéreas no Aeroporto de Viracopos, quatro são resultados atingidos pela economia e pelo analisada, apesar de a variação ter sido de
investigadas pelo MPT por fraude. Os inquéritos setor aéreo do país ficou mais elevado a 15,09%, o técnico do Dieese nota que houve
têm como objeto jornada excessiva, ausência partir da crise internacional de 2008. “Por uma redução do número de aeronautas
de intervalos, férias não renumeradas e atrasos sua vez, o setor de aviação manteve um empregados de 19.366, em 2011, para 18.409,
salariais. As outras duas são inquiridas por ritmo elevado de crescimento até 2011, em em 2012 (decréscimo de 5%). Já o emprego dos
problemas no meio ambiente de trabalho, linha com a sustentação da renda interna e o aeroviários permaneceu em crescimento.
envolvendo a exposição de funcionários a consumo doméstico.”
produtos nocivos sem o uso de equipamentos “O cruzamento entre as evoluções do total de
de proteção individual e coletivo. Ao que tudo O distanciamento entre as taxas de passageiros transportados e do emprego no
indica, um dos aeroportos mais desenvolvidos crescimento da economia brasileira e do setor setor aéreo permite encontrar o avanço da
do Brasil não transferiu sua modernidade à de aviação civil, em 2009 e 2012, é visível. O produtividade do trabalho, medida através
classe trabalhadora. aumento de 234,3% da demanda por assentos do número de passageiros transportados por
quilômetros pagos nas linhas domésticas, trabalhadores, entre 2006 e 2012, da ordem
entre 2003 e 2012, se destaca do desempenho de 16,0%.”

Aeronautas com a
das empresas aéreas regulares nacionais.
A demanda nas linhas internacionais teve Os salários de ambas as categorias,
variação de 27,8% no período. no entanto, continuam defasados. No

cabeça nas nuvens


mesmo período, os empregados do setor
A guerra das tarifas adotada pelas empresas conquistaram reajustes acima da inflação
contribuiu para o crescimento da demanda acumulados de 6,13%, tendo por referência
pelas linhas domésticas. Neste cenário, o o Índice Nacional de Preços ao Consumidor
predomínio de seis empresas – TAM, GOL, Azul, (INPC). “Falta incorporar mais 9,3% para que
O atraso no pagamento de salários de Avianca, Webjet e Trip – ficou consolidado. os ganhos de produtividade do período
pilotos, copilotos e comissários acendeu o Juntas, responderam por 99,5% do total sejam apropriados por quem os geram.”
alerta vermelho na segurança dos voos da de passageiros transportados, em 2012. O
cenário mudou naquele ano, com a aquisição “A produtividade na aviação aumentou muito,
Passaredo Linhas Aéreas, no interior de São
da Webjet pela GOL e a fusão da Azul com a mas os salários estão proporcionalmente
Paulo. A companhia, com sede em Ribeirão
Trip. No novo cenário, entretanto, as quatro menores”, reclama o presidente da Federação
Preto (SP), foi acionada judicialmente pelo
empresas passaram a controlar os mesmos Nacional dos Trabalhadores em Aviação Civil,
MPT por fracionar a remuneração dos
99,5% do total de passageiros. Celso André Klafke. RF
aeronautas da empresa. Além de ser dividido
em partes a perder de vista, o ordenado ainda
era depositado nas contas correntes dos Rodrigo Farhat
funcionários com um atraso “quase britânico”.

Segundo o Sindicato Nacional dos


Aeronautas (SNA), essa não é a única
irregularidade trabalhista cometida pela
Passaredo, companhia que se encontra em
recuperação judicial devido a um rombo
milionário nas contas. Há ainda a alegação
de que os empregados foram pressionados
a aderir a um programa de suspensão
indeterminada dos contratos de trabalho e a
tirar férias não remuneradas.

As investigações apontam para um aumento


dos riscos de acidente aéreo, graças ao
abalo psicológico sofrido pelos aeronautas,
devido à incerteza do recebimento salarial e
da consequente instabilidade na economia
familiar dessas pessoas. Se condenada, a
Passaredo pode pagar uma indenização por
dano moral coletivo no valor de R$ 230 mil,
além de ser obrigada a respeitar os pagamentos
salariais de forma integral e pontual. RR

LABOR 21
“Um dia, você descobre que não viu o
filho crescer”
O comissário Mauro Santos Matias, 49 anos, segundo Mauro, relaciona esses males das
reclama que não viu o filho de 23 anos crescer. tripulações à radiação.
Ele está a bordo há 28 anos. “Sempre quis
trabalhar dentro do avião.” Aprendeu a profissão A fadiga humana tem que ser levada em
dentro da Varig. Voou pela empresa até 1996. consideração, não só para reduzir o índice
Depois, virou instrutor e foi para o centro de de acidentes, mas para garantir qualidade
treinamento. Desde 2007 trabalha na GOL, de vida para o tripulante brasileiro. “Temos
dentro dos aviões e também no treinamento. a ilusão de que o avião foi modernizado. O
equipamento evoluiu, mas as pessoas não
Ele conta que é complicado manter a harmonia têm como evoluir. As pessoas precisam ter
familiar, porque o tempo que se passa fora um sono reparador, precisam ter descanso.
de casa é muito grande. Trabalhava seis dias Precisam ter contato social.”
fora, voltava, ficava um dia junto da família e
voltava a voar. “O relacionamento é feito de

Um tema para
convivência e a profissão tira de você essa
oportunidade. Um dia, você descobre que seu
filho cresceu e você não viu, porque estava fora

estudar
de casa. É uma profissão solitária. Você está no
avião cheio, mas sempre sozinho.”

Mauro leva uma vida regrada. Não tem


“Já vi comissárias com 70 anos voando no
problemas de saúde, mas já teve uma crise
exterior, mas, no Brasil, é um imperativo
de otite e ficou afastado 14 dias, tomando
ser jovem e magra. O biótipo exigido pelas
medicamento. Hoje, tem rebaixamento de 25%
empresas brasileiras é algo para ser estudado.”
da audição do ouvido esquerdo.
A comissária de voo aposentada Graziella
“Ainda trabalhava na Varig. Fui voar com o nariz Baggio (foto na pág. 26) 57 anos, voou pela
e o ouvido muito congestionados. Houve um Vasp por mais de 25 anos. Ex-presidente do
problema de pressurizacao do avião e meu Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA),
ouvido sangrou. O sangramento evoluiu para ainda fica surpresa com o absurdo da realidade
uma infeção na membrana do tímpano do das empresas verde-amarelas.
ouvido esquerdo.”
Ela lembra que a RioSul não contratava
No Brasil não existe pesquisa que relacione o comissários e que a Azul começou assim.
adoecer com a profissão. “A Agência Nacional Depois, evoluiu e agora tem alguns comissários
de Aviação Civil (Anac) não tem. As empresas em suas tripulações. A grande maioria dos
não têm. A Aeronáutica também não”, reclama. comissários da TAM é de mulheres e na GOL
Apesar disso, ele diz que tem aumentado o esse número é dividido. “O Brasil foi um dos
número de aeronautas com diferentes tipos de últimos países do mundo a promover uma
câncer: de cabeça, de pele, de útero, de mama, mulher comandante e hoje não temos mais do
de próstata, leucemia. A literatura internacional, que 20 no comando.”

Sarah Nunes

Jornada é a diferença Fora da base, jornada conta a


entre a hora da partir da hora de apresentação do
apresentação no local aeronauta ao local estabelecido
de trabalho e a hora pela empresa.
de encerramento.

30
Apresentação no min.
aeroporto não pode A jornada
ser inferior a 30 termina 30
minutos antes da minutos após a

TODO
decolagem. parada dos
Henrique Lessa/Pauta Nova

motores.

DIA
Na base domiciliar,
jornada começa na hora
de apresentação.

22 LABOR
Cyrano Vital

A lei, o decreto e a realidade profissional


A Lei 7.183, de 5 de abril de 1984, regula a Descanso com prorrogação máxima diária de duas
horas. O horário para almoço pode variar
profissão de aeronauta e o Decreto 1.232, de 22
de junho de 1962, regulamenta a de aeroviário. As escalas, no mínimo semanais, são entre uma ou duas, nos trabalhos com mais
divulgadas com dois dias, pelo menos, para a de seis horas. No trabalho contínuo superior
Cada membro da tripulação de uma aeronave primeira semana de cada mês para os voos de a quatro horas, deve existir uma pausa de 15
tem uma função a bordo. O comandante horário, serviços de reserva, sobreaviso e folga. minutos para descanso.
é o piloto responsável pela operação e a Sobreaviso é o tempo em que o aeronauta
segurança. É a autoridade máxima dentro do permanece, em qualquer lugar, à disposição do Nos serviços de turno, a escala deve ser
avião. O copiloto auxilia o comandante na empregador. Quando convocado, ele tem que organizada, de preferência, de forma a evitar
operação e o mecânico controla os sistemas estar no aeroporto em até 90 minutos. Reserva que a folga iniciada a zero hora de um dia e
hidráulicos e pneumáticos da aeronave. é o tempo em que o aeronauta permanece, por termine às 24h do mesmo dia.
Outro profissional do ar fica encarregado da decisão da empresa, no local de trabalho. O presidente da Federação Nacional dos
navegação. O radiooperador responde pelo Trabalhadores em Aviação Civil (Fentac), Celso
serviço de radiocomunicações e o comissário A viagem é o trabalho do tripulante, contado
da saída da base até o regresso. Uma André Klafke, (foto págs. 26 e 27) 48 anos, 30
faz cumprir as normas de segurança e atende como aeroviário, entrou na Varig em fevereiro
passageiros a bordo. viagem pode compreender uma ou mais
jornadas. A jornada é contada entre a hora da de 1984, como mecânico de manutenção. Para
apresentação no local de trabalho e a hora ele, o principal problema dos aeroviários é a
Uma tripulação pode ser mínima, simples,
de encerramento. Já a hora de voo é o tempo sobrecarga. “Falta pessoal. Antigamente, com
composta e de revezamento. A mínima
entre a partida e o corte dos motores. menos equipamento, havia tempo razoável
está restrita a voos locais de instrução, para o trabalho. Trabalhava-se muito, mas o
de experiência, de vistoria e de traslado. ritmo era mais humano. Hoje em dia, apesar
Outro problema dos aeronautas está
A tripulação simples é a mínima mais os de as novas tecnologias ajudarem, o ritmo é
relacionado ao número de folgas, que, segundo
tripulantes necessários para voar. A composta é a lei, não pode ser inferior a oito períodos de 24 desumano. Com menos gente, as manutenções
a tripulação simples, mais um piloto qualificado horas por mês. O copiloto Rodrigo Spader diz: são mais rápidas. A sobrecarga é fortíssima.”
como piloto em comando, um mecânico de “Antigamente, a aviação era diferente. O
voo e o mínimo de 25% de comissários. A de aeronauta voava menos, e menos de
revezamento conta ainda com um copiloto e madrugada. Não existiam tantos madrugadões. Rodrigo Farhat
tem 50% do número de comissários. Apesar de a legislação ser a mesma, as
empresas, buscando reduzir custos
Os limites de voo e pousos permitidos por incessantemente, estão usando o máximo
jornada são de 9 horas e 30 minutos de voo possível a força de trabalho. Assim, diminuíram
e cinco pousos para tripulação mínima ou os períodos de descanso. As oito folgas
simples, e de 15 horas de voo e quatro pousos mínimas por mês se tornaram o teto. Temos
para a tripulação de revezamento. Os limites oito folgas, no máximo.”
de tempo de voo do tripulante não podem ser
maiores do que 85 horas por mês.

Aeronautas que decolarem às 24h, por Aeroviário


exemplo, chegarão à última etapa às
9h cansados, depois de cinco pousos. O A profissão de aeroviário compreende
problema é que a legislação atual prevê que profissionais que trabalham nos serviços de
esse aeronauta descanse somente 12 horas manutenção de operações, auxiliares e gerais.
e assuma nova programação às 21h. “Não é Nos primeiros estão incluídos os que fazem
preciso ser especialista para perceber que a manutenção de aeronaves. Os serviços de
essa tripulação está cansada”, diz o copiloto operações incluem tráfego, telecomunicações,
Rodrigo Spader. “Eu chego ao fim da jornada, meteorologia, despachante e controle de voo,
capoto e durmo, pois tenho que voar às 9h além de gerentes e recepcionistas. Profissionais
da manhã seguinte”, conta o comandante liberais e de contabilidade e também de
Renan Monteiro (foto ao lado). Além disso, limpeza e vigilância estão dentro da categoria
de serviços auxiliares e gerais respectivamente.
o meio ambiente é agressivo, com umidade
perto de 15% e exposição à microvibração e A duração normal do trabalho do aeroviário
à radiação ionizante. não pode ser maior do que 44 horas semanais,

LABOR 23
Desumano Vista grossa para a fadiga
Klafke conta que uma operação D, a manutenção
mais longa, com a desmontagem de todo o avião,
com exceção das asas, demorava cerca de 45 dias. A jornada de trabalho é dura para quem Segurança de voo
“Hoje um avião fica, no máximo, de 15 a 20 dias ganha o pão no ar. Os aeronautas precisam
no chão. O normal é ficar de 3 a 5 dias.” se apresentar ao local de trabalho 45 minutos O programa norte-americano de fadiga foi
antes do voo – fora da base esse tempo é de implantado a partir de novembro de 2011,
É desumano para o mecânico, é desumano 30 minutos antes da decolagem. Assim, o com resistências de parte das empresas aéreas,
para o trabalhador de pista, o rampa. “Tem trabalhador acaba saindo de casa três horas ou principalmente as de menor porte. Segundo
menos gente para carregar as bagagens. E tem o comandante Carlos Camacho, alegando
quatro horas antes do início de sua jornada.
menos gente no check-in. Antigamente, existia custos. “Elas pouco ou nada disseram sobre os
um balanceiro para ajudar o atendente de Um aeronauta com decolagem prevista benefícios do programa.”
check-in a etiquetar e preparar a bagagem. Na para 10h em Viracopos, Campinas, precisa
Azul, por exemplo, não existem balanceiros. As estar no aeroporto às 9h. Nesse exemplo, Camacho está na aviação desde 1973. Após se
atendentes precisam dar conta de tudo e isso vamos considerar o caso extremo de aposentar, em 2005, continuou na atividade
faz com que o índice de doenças ortopédicas aeronáutica, mas na área de segurança de voo.
algumas empresas que estipulam o horário
seja grande, pois elas fazem o atendimento e
também despacham a bagagem.” Henrique Lessa/ Pauta Nova

Luiz da Rocha Cardoso (foto da pág. 23), o


Pará, é agente de aeroporto há 20 anos e sente
no corpo o peso da profissão. Começou na
Transbrasil em 1992. Hoje, está na Swissport
do Brasil, no Aeroporto Internacional Antônio
Carlos Jobim, no Rio de Janeiro. Em duas
décadas, conseguiu acumular seis hérnias de
disco por carregar e descarregar malas. “Hoje
trabalho no desembarque e não carrego peso
por recomendação médica. Levo somente cargas
leves, como pranchas de surf e objetos frágeis.”

“A legislação não mudou, mas a fiscalização do


trabalho no pátio não é eficiente”, reclama Klafke.

Ninguém
Selma Bambino, do Sindicato Nacional dos
Aeroviários (SNA), tem 30 anos de carreira como
aeroviária. Ela diz que os profissionais da área
vivem três problemas: hérnia de disco, lesão por
esforço repetitivo e hipertensão arterial. “A função
potencializa essas doencas. A maior parte dos
casos é encontrada nos trabalhadores de pista O Programa de Gerenciamento do Risco de
de apresentação em 60 minutos antes da Fadiga Humana (PGRF) busca identificar perigos
e de check-in. Perda da audição é doença do decolagem. “Para estar em Viracopos nesse
passado.” O percentual de trabalhadores doentes relativos à fadiga. Ele prevê, inclusive, que o
horário, ele tem que sair de São Paulo às próprio tripulante interrompa sua jornada, se
é de 5% a 7%, de um total de 42.711.
6h. Então, terá que acordar às 5h. É preciso declarando fatigado, mesmo que não tenha
Celso Klafke lembra outros dois problemas da considerar o trânsito, os alagamentos e outros atingido o limite de horas de voo. O PGRF fará
categoria, a precarização e o assédio moral. Antes problemas de deslocamento. Em média, também com que as empresas façam escalas
havia uma grande empresa de handling, a Sata, estima-se uma hora e dez minutos de trânsito, baseadas nas evidências em relatórios. A ideia é
que fazia todo o trabalho no pátio. Depois, cada se tudo estiver tranquilo”, diz a comissária também educar e treinar todas as categorias do
companhia passou a ter uma. “Hoje existem de voo aposentada e ex-presidente do SNA setor passíveis de fadiga.
inúmeras empresas auxiliares no setor. A única Graziella Baggio.
que não terceiriza muito é a TAM, que contratou O diretor jurídico do Sindicato Nacional
5,5 mil antigos terceirizados. As empresas entram Se o voo for para Madri, na Espanha, e o dos Aeronautas (SNA), comandante Renan
no mercado para usar o trabalhador. Jogam o aeronauta estiver integrando uma tripulação Monteiro (foto pág. 23), 35 anos, 15 de
preço lá em baixo. Chegam ao segundo ano e não composta, ele poderá descansar a bordo, na carreira, lembra que a jornada é um dos
têm trabalhador suficiente para colocar um grupo horizontal, mas esse descanso é precário e curto – fatores que mais impactam a qualidade de
em férias. Não pagam os trabalhadores e fogem duas a três horas e meia, em média. Então, nosso vida, de saúde e atuação dos profissionais. “A
da lei. Assim, começam a quebrar.” aeronauta morador de Brasília, que irá decolar questão da fadiga é chave.”
às 22h de Guarulhos, precisa estar a postos às
A ex-presidente do SNA Graziella Baggio A Organização Internacional para a Aviação
20h. Como ele saiu de casa por volta das 15h, no
(foto da pág. 26) reafirma que a terceirização, Civil (Icao) desenhou o PGRF e hoje o
momento da apresentação já estará acumulando documento é uma recomendação. No Brasil,
entre os aeroviários, é prática preocupante. “As em sua jornada de trabalho quase oito horas. E o
terceirizadas têm autorização da Agência Nacional o tema ainda está em discussão entre Anac,
voo terá duração de 12 horas. Assim, ele chegará empresas aéreas e trabalhadores. “O programa
de Aviação (Anac) para funcionar, dão um golpe
ao seu destino caindo de sono e muito próximo mexe com o perfil do setor no país. Estamos
nos trabalhadores e depois somem no mercado.
da fadiga. “As empresas fazem vista grossa para ainda analisando os dados dos incidentes que
Começam por atrasar os salários. Quando o
essa questão. A Anac faz vista grossa e os pilotos envolvem a operação, como segurança e saúde,
trabalhador vai atrás, não encontra ninguém.”
também”, diz o comandante aposentado e ex- para formatar o programa. Estamos também
O assédio moral, para o sindicalista Klafke, é diretor de Segurança Operacional do SNA, Carlos comparando os de outros países que estão na
mal contemporâneo. “Algumas empresas têm Camacho (foto da pág. 17). mesma latitude. Emirates, Lufthansa e todas
políticas claramente antissindicais e deixam as companhias norte-americanas já o usam.
claro para os trabalhadores que a relação com A Anac, em tese, teria a obrigação zelar pela Ao fim, o programa brasileiro dirá quantas
o sindicato não é bem vista. Ela tenta coptar segurança dos voos, das tripulações e dos noites seguidas o trabalhador poderá voar em
o trabalhador, mas exige que ele abandone o passageiros. Coube à agência a elaboração de segurança,” explica o comandante. E modelos
sindicato. Se ele não sai, a companhia acaba um programa de gerenciamento de risco de biomatemáticos de controle de fadiga vão dar,
tornando sua vida insuportável.” RF fadiga, que ainda não saiu do papel. com exatidão, a dimensão da fadiga humana.

24 LABOR
Pilotos erram 50% a mais durante a madrugada

Enquanto a estafa reduz os níveis de atenção


em qualquer jornada de trabalho, é durante
a madrugada que os riscos de um piloto ou
copiloto da aviação comercial brasileira errar
aumentam consideravelmente. Um estudo
publicado em 2009 na revista Pesquisa Fapesp
aponta que a probabilidade desses profissionais
falharem de forma grave é cerca de 50%
maior durante turnos entre meia-noite e 6h. A Fonte: “A relação entre o erro e o horário de trabalho dos pilotos de uma companhia aérea brasileira” – SANTOS, D.C. – 2005.
pesquisa foi realizada pelo Centro de Estudo
Multidisciplinar em Sonolência e Acidentes
(Cemsa) e pelo Departamento de Psicobiologia
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). incidência a erros dos pilotos de avião. A às alterações do ciclo circadiano, o relógio
autora da monografia, Deborah Cristina biológico, que tem como função regular
A frente do estudo, o pesquisador Marco dos Santos, coletou dados por seis meses atividades do organismo como o sono
Túlio Mello constatou, ainda, que a cada e concluiu que o turno da madrugada durante as 24 horas diárias. Os distúrbios
cem horas de voo nesse período, os apresentava 40% a mais de erros em desse mecanismo provocam mudanças de
comandantes cometem, em média, 9,5 proporção às demais jornadas. percepção que podem prejudicar a tomada
erros de nível três. Em outros horários, a de decisões.
frequência desse tipo de falha reduz para No mesmo artigo, a revista também abordou
cerca de 6,5 erros a cada cem horas no ar. os resultados de outra pesquisa, desta vez Uma das principais características do ciclo
Erros de nível três são aqueles considerados realizada por um grupo de estudantes da circardiano é que ele não é regido pelas
os mais perigosos para a segurança da Universidade Anhembi Morumbi, pilotos de condições do ambiente como a luz do dia
aeronave, como virar o manche do avião linhas aéreas e pesquisadores. ou o escuro da noite. Por isso, alterações
numa angulação acima da recomendada. da rotina como o jet lag e os voos durante
Com base em estudos anteriores, a madrugada causam distúrbios no relógio
A revista Aero Magazine de outubro de 2008 equipe também identificou que irritação biológico tendo em vista que o organismo
trouxe artigo que divulga outra pesquisa e desânimo foram alguns dos sintomas espera outro comportamento no período.
com participação de Mello como orientador, apresentados que afetam o estado de
também relacionada aos horários de maior atenção dos profissionais. Isso ocorre devido RB

Henrique Lessa/Pauta Nova

LABOR 25
MPT investiga
Embraer por falha
na terceirização
Por Rafael Almeida

GOL condenada por demissão A fabricante de aviões Embraer terá que pagar
R$ 3 milhões por danos morais coletivos por

coletiva na Webjet
manter trabalhadores terceirizados em condições
precárias dentro de sua fábrica em Gavião
Peixoto, a 318 km de São Paulo. A sentença foi
dada pela 3ª Vara do Trabalho de Araraquara,
em julgamento de ação civil pública ajuizada
Por Dimas Ximenes pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no
município de Araraquara (SP). As irregularidades
causaram a morte de um empregado na fábrica,
em setembro de 2012, e a amputação de parte do
A 8ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho a observação da convenção coletiva e dedo de outro funcionário.
da 1ª Região (TRT/RJ) manteve a decisão de negociação coletiva”, afirmou.
reintegração imediata de 850 empregados da Além da indenização, a Embraer deve
Webjet demitidos pela Gol em 2012. Também A desembargadora relatora do acórdão, Maria exigir das empresas contratadas adoção de
foi confirmada a condenação de R$ 1 milhão Aparecida Coutinho Magalhães, ressaltou diversas medidas em até 90 dias a partir da
por dano moral coletivo e elevada de R$ 100 que a Constituição protege o valor social notificação. Entre elas, estão a fiscalização
para R$ 1 mil a multa diária, por trabalhador, do trabalho e que, portanto, a empresa não do meio ambiente do trabalho, a entrega de
poderia promover demissão em massa sem equipamentos de proteção individual (EPIs),
em caso de descumprimento da decisão.
prévia negociação coletiva com o sindicato treinamentos e regularização das jornadas de
O acórdão é resultado da ação civil da categoria. “É um constrangimento a trabalho. No mesmo prazo, a fabricante de
aviões deverá criar um programa detalhado
pública do Ministério Público do Trabalho que foram submetidos, pois retornaram ao
de exigência e fiscalização do cumprimento
(MPT), que demonstrou que a empresa trabalho não na Gol, como determinado, mas
das obrigações trabalhistas pelas prestadoras
não realizou negociação prévia com o na Webjet, que só formalmente continuou de serviço. Em caso de descumprimento, será
sindicato da categoria, conforme determina a existir. As empresas desconsideraram a aplicada multa diária de R$ 5 mil por item e
o Tribunal Superior do Trabalho (TST), e sucessão trabalhista”, destacou a relatora. funcionário em situação irregular.
descumpriu termo firmado com o Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade), A procuradora do Trabalho Lia Magnoler Guedes
de Azevedo Rodriguez investigou a fábrica
na compra da Webjet. No termo, a Gol havia
assumido o compromisso de manter os
Histórico da Embraer em Gavião Peixoto após receber
denúncias relativas às más condições de trabalho
empregos dos funcionários da companhia. A Gol demitiu 850 funcionários da Webjet em oferecidas aos funcionários terceirizados que
novembro de 2012 e março deste ano voltou a exerciam atividades dentro do complexo.
Para o procurador do Trabalho Carlos Augusto dispensar mais trabalhadores, remanescentes
Sampaio Solar, um dos autores da ação, a da empresa adquirida em 2011. Ao todo, Após pedido do MPT, auditores fiscais do
decisão mostra os acertos da tese justificada quando a Gol determinou o encerramento Trabalho inspecionaram a fábrica e flagraram
pelo MPT. “A nossa tese é da impossibilidade das atividades da Webjet em novembro, havia irregularidades graves relacionadas a jornada,
de demissão desses trabalhadores sem 1.400 funcionários na empresa. saúde e segurança do trabalho de empregados
de ao menos dez prestadoras de serviços
dentro do estabelecimento da Embraer. Foram
Henrique Lessa/Pauta Nova lavrados 23 autos de infração pelo Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE).

Durante o inquérito, houve a morte de um


trabalhador terceirizado dentro da fábrica.
O laudo, produzido pelos peritos depois do
acidente, concluiu que “o empregador deixou
de seguir orientações dispostas na norma
regulamentadora nº 12 (NR-12), assim como
desconsidera o regimento legal e autoriza a
realização de excessivas jornadas de trabalho”.
A fiscalização apontou os fatores de risco que
levaram ao acidente: falta de treinamento, falta
de tradução dos manuais das máquinas, falta de
proteções em máquinas e de sinalizações, falta de
procedimentos de segurança e jornada excessiva.

Ao longo das investigações, o MPT recebeu


ainda a notícia de que outro trabalhador
terceirizado havia se acidentado dentro da
fábrica da Embraer, o que o levou a ingressar
com processo trabalhista individual. Ele sofreu
lesão permanente e amputação de parte de um
dedo da mão direita.

Cabe recurso ao Tribunal Regional do Trabalho


de Campinas.

26 LABOR
próprios colegas. “Um dos funcionários, gay,
mas que não necessariamente expunha isso
para todos, era constantemente envolvido em
insinuações de que ele teria feito a seleção de
candidatos [trabalhava no recursos humanos] a
partir de contato sexual, um test-drive”, afirma.

A professora Fátima Lucena, da Universidade


Federal de Pernambuco (UFPE), traz à
luz a competitividade e a lucratividade,

Henrique Lessa/Pauta Nova


fundamentos da lógica capitalista, como
principais itens causadores de dano à saúde
do trabalhador. Para ela, nessa lógica, o
trabalhador não é “colaborador”, como
normalmente é chamado pelas empresas. Ele
apenas é instrumento do negócio, sendo o
assédio uma forma que, ao mesmo tempo,
revela e maquia a relação de trabalho.

Igualdade

Dignidade em queda livre A pesquisadora afirma que nesse ambiente em


que a colaboração efetivamente não existe, sendo
apenas simulada, os laços de solidariedade entre
os trabalhadores se enfraquecem. É aí onde a
Por Mariana Banja procuradora do Trabalho Melícia Carvalho Mesel
diz ser fértil o terreno para os casos ocorrerem. “A
dimensão de grupo é fundamental. É importante
O corpo treme, a voz falha, a lágrima escorrega podre”.
que os trabalhadores se deem apoio. O espírito
pelo rosto. O esforço em mostrar que está tudo
O caso dela e de um grupo de, pelo menos, de solidariedade faz a diferença. Se a agressão
bem não esconde a dor de ter sido assediada
25 pessoas, chegou ao conhecimento ocorre uma vez, mas se coloca limite e aquilo não
moralmente. Ainda funcionária da TAM Linhas
do Ministério Público do Trabalho (MPT) passa de um mal entendido, tudo segue e não
Áereas, mas afastada por adoecimento de
em Pernambuco em março deste ano. O chegamos à caracterização do assédio moral”, diz.
trabalho, Simone*, protestante, contou que
tem sido vítima de perseguição religiosa por procedimento foi distribuído ao procurador
Em Pernambuco, o presidente do sindicato da
chefes da empresa. do Trabalho Renato Saraiva, que instaurou
categoria, Luiz Pedro de Lucena, conversou
inquérito civil para apurar a conduta.
com a Labor. Questionado sobre o porquê de
“No aeroporto tem uma capela ecumênica e
a entidade ter levado cerca de oito anos para
nos intervalos antes ou após o trabalho a gente
fazer uma denúncia no MPT sobre o assunto,
faz uma reunião de estudo bíblico. Há mais
de 30 pessoas de vários setores do aeroporto, Instrumento o sindicalista informa que as denúncias eram
feitas no canal de ética. De acordo com os
de várias empresas, inclusive. Meu horário de
Dentro da denúncia apresentada ao MPT trabalhadores, os casos de assédio, da forma
trabalho foi mudado, para que eu não pudesse
pelo Sindicato dos Aeroviários do Estado de como se apresentam atualmente, tiveram
mais ir ao grupo. Com o novo horário, acabou
Pernambuco há ainda o pedido de apuração início em 2006.
que não consegui ajustar com a faculdade e
perdi o semestre”, relata. de fatos relacionados à discriminação por
gênero e orientação sexual. Claúdio*, ex- “Não chegava nada aos ouvidos do sindicato.
funcionário da empresa, diz que mulheres e Chegou depois que os funcionários viram que
Chamada pelos supervidores de “crentinha”, na
homossexuais eram assediados. No caso delas, seus pleitos não eram atendidos pela empresa.
frente de colegas de trabalho e até mesmo no
havia a mudança de função repentinamente, São relatos muito pessoais que eles não
atendimento de clientes, Simone revela que,
“por não serem capazes de desempenhar a queriam ver expostos no sindicato. No canal
por conta da pressão psicológica, entrou em
atividade” e, no caso deles, eram constantes de ética da empresa, achavam que estavam
depressão e teve de se afastar do trabalho. A
as “brincadeiras”, que sempre envolviam os seguros. Só depois vieram a nós.”
partir de então se tornou a “crentinha laranja-
“Enviamos a solicitação ao MP [Ministério
Público], já que os trabalhadores não queriam
Mariana Banja colocar isso por escrito para a gente. É muito
pessoal. São casos fortes, de homofobia
mesmo. Assédio sexual também. Considerando
a empresa de onde saiu, muitos temem
retaliação”, fala.

Outro lado
Sobre as supostas irregularidades, a TAM
informa que mantém um “Canal de Ética”,
de caráter sigiloso. A ferramenta, segundo a
empresa, garante a idoneidade do processo de
recebimento das preocupações e relatos dos
funcionários, encaminhando as questões para
um departamento interno responsável pelas
investigações de forma imparcial e confidencial.
“Caso seja comunicada oficialmente, a TAM vai
apurar os fatos e prestará esclarecimento às
autoridades envolvidas”.

*Nomes fictícios usados pela reportagem

LABOR 27
Guilherme Almeida
Rodrigo Farhat

Nilton Oliveira
Mota Santos
Sônia Regina Lindo maior. Com certeza, o ruído das turbinas
é um dos principais problemas. Apesar de

da Silva
usarmos protetores para ouvidos, não é
o suficiente. Quando a aeronave chega, o
barulho é insuportável. 38 anos, agente de check-in,
dez anos de carreira
E a política da empresa?
62 anos, agente de proteção As empresas contam com técnicos de
da aviação civil (apac), 19 segurança do trabalho, mas, às vezes, eles Como entrou no setor?
anos de carreira acabam exercendo outras funções.
Moro em Porto Seguro, na Bahia. Em 2004, a
O caminho é a fiscalização, mas a Anac, que GOL abriu processo para contratar pessoas
é o órgão fiscalizador, não fiscaliza nada. com deficiência. Como tenho monoplegia
(paralisia) nos membros inferiores, concorri a
Como começou? Uma vez liguei para a agência para fazer uma
denúncia, mas não me passaram a ligação, essas vagas e fui selecionado para ser agente
porque não há ramal da agência no aeroporto. de check-in.
Comecei em 1995, por acaso. Fui ao
aeroporto internacional do Rio do Janeiro à Se quiser reclamar, temos que ligar para a
procura de emprego e me ofereceram uma central. Ou seja: a preocupação é sempre com
o passageiro, o que ocorre nos bastidores
vaga no Departamento de Aviação Civil.
Aprendi com a prática. não interessa. A ligação entre a segurança e o Como as pessoas com
usuário está nas condições do trabalhador. Se deficiência são contratadas?
você não tem condições de trabalhar, não tem
como oferecer segurança. A contratação das pessoas com deficiência
Já viveu problema de saúde e é cobrança antiga, mas as empresas não
estavam preparadas para nos receber
segurança no trabalho? quando começaram a selecionar. A inclusão
Em maio de 2005, sofri um acidente no terminal Tem planos para o futuro? dessas pessoas no ambiente de trabalho
é precária. No Aeroporto Internacional
de cargas do aeroporto. Uma empilhadeira
O apac não tem plano de carreira, uma vez de Porto Seguro, sou o único portador de
passou por cima do meu pé e quebrou meu
apac, sempre apac. O piso da categoria é de deficiência na empresa.
tornozelo. Passei um ano e meio afastada do
trabalho e hoje tenho uma placa com cinco R$ 1.049. A não ser que você seja promovido a
Uma das coisas que me levou a sair da GOL
parafusos e dois pinos no tornozelo direito. A líder de equipe, o que ocorre com pouquíssimas
foi o fato de a empresa dar mais prioridade
empresa não oferecia plano de saúde, então pessoas, somente um por turno.
a pessoas com nanismo, pois elas se
fui levada a um hospital particular coberto pelo locomovem com mais facilidade. Já os que
meu plano privado. Tive que comprar uma Não tenho planos porque já estou no final
de carreira. Tenho pouca esperança, mas tinham atrofiamento ou paraplegia não
cadeira de rodas, passei quatro meses sem tocar eram contratados.
o pé no chão e paguei por tudo isso. Foram estou reivindicando melhores condições de
cinco meses de fisioterapia diária. trabalho. Não queria sair de lá sem ver uma boa
Por lei, deve haver um percentual de 2% a 5%
mudança. Brasileiro não tem certeza de nada,
de pessoas com deficiência, dependendo do
Há dois anos, fui diagnosticada com acho que as mobilizações dos trabalhadores é
número de empregados. Esse percentual não é
pequena perda auditiva e, numa consulta que decidem as coisas.
respeitado e não há fiscalização.
recente, o médico disse que tive perda ainda GA

28 LABOR
Como a empresa lida com
essa questão?
Quando entrei na GOL, havia muitos
deficientes. Nós nos organizamos como
categoria, mas não houve um trabalho de
Rodrigo Farhat

conscientização com os gestores. Existem


empresas com mais de 24 mil funcionários e
o percentual de pessoas com deficiência não
deve chegar nem a 1%. As companhias tentam
desvincular a importância desses profissionais,
contratam auxiliares e menores aprendizes,
que, na prática, fazem o trabalho de agente de
check-in, com salário mais baixo.

A empresa deveria selecionar seus


trabalhadores com direitos iguais. Não se pode
dividir por deficiência. Após a contratação,
deveria existir um programa com os gestores,
de forma que fôssemos considerados
importantes, que fôssemos valorizados. Uma

Marcos Alexandre
política na qual tivéssemos direito de crescer função do trabalho. Apesar de nunca ter sofrido
na empresa. É preciso haver uma estrutura de acidente, nosso maior problema é ficar exposto

da Silva
trabalho, com acessibilidade. Hoje, não existe às intempéries do clima.
uma carreira, não existe uma preparação.

A empresa tem uma política


Quais seus planos? 51 anos, mecânico de de segurança?
Tenho esperança de conseguirmos uma política
manutenção de aeronave, 27
Existe o técnico de segurança do trabalho, que
pública para tentar mudar a qualidade de anos de carreira nos orienta sobre o uso de equipamentos. Se
vida das pessoas com deficiência, para inseri- há um acidente no aeroporto, o único lugar de
las no mercado de trabalho, dando direito a atendimento é na Infraero (e não é muito bom).
acessibilidade, plano de carreira e valorização Como foi seu início no setor? Algumas empresas obrigam o funcionário a ser
profissional. Os aeroportos estão crescendo, a atendido em uma unidade fora do aeroporto.
quantidade de voos vai aumentar. Então, essa Eu tinha um cunhado que trabalhava na Varig.
Além disso, o número de mecânicos não é
realidade precisa mudar. Fiz um curso técnico em aviação e, depois
suficiente. O ideal seria ter dois por aeronave,
de um ano e meio, entrei para trabalhar na
mas há somente um ou, em muitos casos, um
A segurança dos passageiros passa pela empresa, em março de 1987.
para cada duas aeronaves.
valorização dos aeroviários, inclusive pela
valorização salarial. Somos responsáveis pela
segurança da tripulação e dos passageiros. Já teve problemas de saúde? Quais os planos para o futuro?
Sonho com o dia em que seremos valorizados
pelas empresas e pelos passageiros. Mesmo com o equipamento de proteção para
Estou planejando minha aposentadoria. X
GA o ouvido, tenho perda auditiva acentuada em
GA

LABOR 29
Meio ambiente

Síndrome do
edifício doente

Auditores fiscais do Trabalho interditam sede da SRTE/PA.


Servidores públicos, estagiários e prestadores de serviço
estavam sob risco iminente

Por Tamiles Costa*

A expressão “casa de ferreiro, órgão. O auto de interdição,


espeto de pau” é apropriada lavrado logo após a passagem
para retratar o cenário do ministro do Trabalho e
encontrado na sede da Emprego, Manoel Dias, por
Superintendência Regional do Belém, descreve, entre outras
Trabalho e Emprego (SRTE) no coisas, o improviso frequente
Pará, interditada, em fevereiro na tentativa de minimizar os
de 2014, por um grupo de inconvenientes causados pela
auditores fiscais do próprio falta de manutenção no edifício.

30 LABOR
Fotos: Tamiles Costa

Coincidência ou não, a interdição ocorreu federal Socorro Guimarães, autora da decisão, Acionado, o MPT, com base na Súmula 736 do
dias depois da publicação de uma decisão, de usurpa competência dos auditores prevista na Supremo Tribunal Federal (STF), foi até a sede
abrangência nacional, do Tribunal Regional do Convenção 81 da Organização Internacional do da SRTE/PA, na rua Gaspar Viana, em Belém. Ao
Trabalho da 14ª Região (RO/AC), que acatou Trabalho (OIT). chegar ao prédio, que deveria estar interditado, a
os pedidos formulados pelo Ministério Público equipe, integrada pela procuradora do Trabalho
do Trabalho (MPT) para que auditores fiscais No Pará, paradoxalmente, os mesmos Gisele Góes, chefe do MPT no Pará e Amapá, e
tivessem o poder de interditar e embargar obras. auditores fiscais que cobravam a adequação pelos analistas periciais José Manoel Cabral e João
Essa competência estava ameaçada em vários do meio ambiente de trabalho nas empresas Chaves, encontrou o órgão funcionando. Um
estados por atos dos superintendentes regionais. vivenciavam em sua própria casa uma realidade comunicado assinado no mesmo dia da interdição
Portarias expedidas pelas SRTEs em Rondônia, totalmente diversa. “Muitas empresas, quando pelo então superintendente regional do Trabalho
Paraíba, Paraná e Rio de Janeiro exigiam a vêm até nós, dizem que cobramos algo que e Emprego no Pará, Odair Correa, suspendia os
autorização dos superintendentes de cada não aplicamos”, diz um auditor fiscal ao relatar efeitos do laudo da auditoria, alegando haver uma
estado para a lavratura de termos de interdição algumas das situações constrangedoras pelas “boa dose de interferência e motivação política” na
e embargo, o que, segundo a desembargadora quais passou. atitude dos auditores.

LABOR 31
Saúde, segurança e patrimônio público
A equipe do MPT ouviu as queixas de servidores auditora fiscal Gladys Vasconcelos, delegada recarregados somente um dia após a lavratura
administrativos, muitos dos quais reclamavam estadual do Sindicato Nacional dos Auditores do termo de interdição.
de doenças ocupacionais. Uma servidora do Fiscais do Trabalho (Sinait), os dutos de ar-
atendimento ao público tinha a mesa apoiada condicionado do edifício nunca foram limpos,
em um pedaço de madeira, outra disse desde sua inauguração, em 1988. “Anos atrás,
perder a conta de quantas vezes teve de se um orçamento para a limpeza foi solicitado, Entulho
ausentar do serviço por problemas de saúde. porém não foi realizado, devido ao alto
“Pedi muito uma cadeira com apoio para os custo”, conta. Durante a inspeção, o MPT também encontrou
braços até finalmente ser atendida, é quase ninho de cupins próximo às instalações
insuportável passar oito horas trabalhando elétricas de uma das salas de compressores
nessas condições”, conta a jovem, mostrando o de ar-condicionado, também utilizadas
braço dolorido. Improviso como depósito e local de descanso para
trabalhadores terceirizados. Outro aspecto
Aos poucos, as várias irregularidades existentes À medida que a equipe do MPT caminhava pelo que chamou a atenção da fiscalização foi
no prédio foram sendo descortinadas, como a prédio, as irregularidades ficavam mais sérias. A o acúmulo de materiais e documentos
falta de lâmpadas, que, também segundo os porta do elevador, parado há aproximadamente espalhados ao longo das paredes e corredores
servidores, só foram colocadas nos corredores um ano por falta de manutenção, era obstruída do edifício, como verdadeiras extensões de
durante a visita do ministro do Trabalho; a apenas por mobiliário, o que, além de arquivos. Equipamentos de informática, como
ausência de água e copos descartáveis nos representar risco, deixava explícito o problema computadores, monitores e impressoras,
bebedouros – “só tivemos copo para beber de acessibilidade não só para os trabalhadores estavam depositados sob a caixa d’água,
água na sexta, quando o ministro veio”, falou do órgão, mas principalmente para os usuários próximo à casa de máquina do elevador,
uma servidora; falta de manutenção das pensionistas e aposentados que buscavam assim como o mobiliário precário espalhado
instalações sanitárias; e a visível falta de limpeza os serviços prestados no Setor de Benefícios por todo o órgão, sem qualquer destinação.
das centrais de ar-condicionado. e Assistência Médica (Sebam), localizado no Milhares ou, talvez, milhões de reais de
terceiro andar. dinheiro público transformados em entulho.
De acordo com dados de 2012 do Subsistema
Integrado de Atenção à Saúde do Servidor Improvisações diversas nas instalações Para Gladys Vasconcelos, todos são “problemas
(Siass) do Ministério da Saúde, o Ministério elétricas também eram frequentes. A típicos de má gestão administrativa”. A
do Trabalho e Emprego (MTE) é o órgão subestação do prédio não possuía restrição auditora cita a falta de pessoal, equipamentos,
federal que apresenta o maior número de de acesso a pessoal não autorizado, com mobiliário e material de expediente, além do
afastamentos legais de servidores no Pará. O exaustor defeituoso, fator que poderia serviço de informática deficiente, instalações
laudo dos peritos do MPT confirmou, quase desencadear incêndios ou explosão. Em precárias e ausência de controle médico
que integralmente, o anterior emitido pela diversas salas, um único ponto de tomada era dos servidores como transtornos diários
auditoria fiscal. Um dos pontos comuns diz utilizado como extensão elétrica para vários enfrentados na execução do trabalho na sede
respeito à “síndrome do edifício doente” – aparelhos, a partir de ramificações espalhadas da SRTE. Segundo ela, os auditores lotados
conjunto de doenças causadas ou estimuladas pelo chão, fixadas apenas por fita adesiva. em Belém foram admitidos há muito tempo e
pela poluição do ar em espaços fechados. Segundo o laudo dos auditores fiscais, houve presenciaram o desmonte do MTE nos últimos
A sede da SRTE/PA não possuía Plano de registro de princípio de incêndio no Setor anos. Diante desse cenário, a delegada sindical
Manutenção, Operação e Controle (Pmoc) para de Multas e Recursos (Semur). Os extintores revela que “o sentimento é de frustração,
os sistemas de climatização de ar. Segundo a do prédio, em número insuficiente, foram desencanto, desmotivação”.

32 LABOR
Interferência do MPT
Na sede da SRTE/PA, trabalham 141 servidores, divulgação do acesso à população. Por fim, apresentar minuta de termo de ajuste de
23 estagiários, além de prestadores de serviços. o MPT recomendou a publicação, no Diário conduta (TAC) ao superintendente regional
Em todo o Pará, segundo o ex-superintendente Oficial da União, da instituição de um grupo de para assegurar a salubridade do meio
Odair Correa, o MTE precisa dar atenção a mais representantes dos auditores fiscais do trabalho ambiente de trabalho na SRTE em todo o Pará,
de 1,1 milhão trabalhadores que procuram e de servidores vinculados à administração visto que, não apenas a sede em Belém se
o órgão. Desde a interdição do prédio, os para o estabelecimento de um cronograma de encontra “doente”, mas também unidades no
usuários têm enfrentado uma via crucis para execução e fiscalização desses serviços. interior do estado, como Santarém e Itaituba.
conseguir os serviços, hoje descentralizados em Nesta última, até a interdição lavrada pelo
mais de dez unidades diferentes em Belém e no Corpo de Bombeiros, havia uma servidora
município vizinho de Ananindeua. grávida trabalhando em pé, sem cadeira, em
Doente jornada de oito horas diárias.
Sobre essa situação, o MPT, que acompanhou
toda interdição, fazendo inspeção e também No final de fevereiro, uma comissão criada
solicitando laudo do Corpo de Bombeiros, em Brasília, integrada pelo subsecretário de
expediu uma recomendação endereçada ao Planejamento, Orçamento e Administração do Indignação
superintende regional com medidas a serem MTE, Tito Calvo, e o diretor de Segurança no
adotadas para a proteção dos auditores fiscais, Segundo um auditor fiscal, que prefere não
Trabalho, Rinaldo Marinho, reuniu-se com o
servidores administrativos e prestadores de ser identificado, “o sentimento que temos
MPT, na presença do superintendente regional
serviços, além da manutenção do atendimento é de total indignação com o acentuado
e de auditores fiscais. Na data ficou decidido
ao público. Odair Correa acatou, em audiência processo de precarização do MTE. Nossa
que a interdição total da sede seria mantida,
de mediação, o pedido do MPT de revogação preocupação é também com o trabalhador,
pois, mesmo após alguns reparos, o prédio
do documento que suspendia a interdição da que tem que chegar ao órgão às 2h da manhã
continuava inapropriado, com lesão, inclusive,
sede da SRTE/PA e concordou em manter o para conseguir uma senha de atendimento.
de um de seus pilares estruturais.
prédio lacrado. Queremos um ambiente de trabalho digno com
A comissão mostrou-se aberta quanto às serviço de qualidade para o usuário”, diz. Para a
De acordo com a recomendação, durante a questões orçamentárias para a locação de procuradora do Trabalho Gisele Góes, o servidor
paralisação, as remunerações dos servidores um novo prédio, cuja previsão para início público é um trabalhador e, como qualquer
públicos não poderiam ser atingidas, de funcionamento era de 45 a 60 dias, após profissional, tem que ter assegurada a tutela de
assim como deveriam ser mantidos os vistoria da Superintendência do Patrimônio da seu meio ambiente de trabalho nos aspectos de
contratos dos trabalhadores terceirizados. O União (SPU). higiene, saúde e segurança, “meio ambiente de
documento também previa a continuidade trabalho sadio representa respeito à dignidade
do atendimento emergencial e em caráter O MPT acompanhará o cumprimento de todos do trabalhador. O servidor público não merece
provisório via convênios existentes, com a os pontos acertados na reunião, devendo respeito?”, questiona. X

STF Súmula nº 736


Compete à Justiça do Trabalho julgar as ações que tenham como causa de pedir o descumprimento de normas trabalhistas relativas à
segurança, higiene e saúde dos trabalhadores.

LABOR 33
Fotos: Ascom/MPT

34 LABOR
telemarketing

Exploração,
insatisfação e
muito lucro

Empresas têm resultados recordes à custa de péssimas


condições de trabalho dos operadores de teleatendimento

Por Lília Gomes

Quando o Brasil comemorava começou a crescer, explorado


seus 22 gols na Copa de por empresas multinacionais,
1950, as vendas por telefone operadoras de cartões
despontavam nas páginas de crédito e de telefonia,
amarelas dos extintos catálogos principalmente após as
telefônicos. Mas foi no final da privatizações realizadas a partir
década de 1980 que o ramo dos anos 1990.

LABOR 35
Passadas seis décadas, o campeonato – , as condições de trabalho só pioraram. A está claramente refletida na relação de
mundial volta ao Brasil e as telefonistas, degradação começa pelos baixíssimos salários trabalho, alimentando problemas como o
hoje operadores de telemarketing e e segue para exigência de metas inalcançáveis, assédio moral e as doenças ocupacionais”,
teleatendimento, já integram uma categoria meio ambiente de trabalho inadequado, relata a procuradora do Trabalho Ana Cláudia
que ganhou dimensão de torcida. Só em Minas doenças ocupacionais físicas e psicossociais, Nascimento Gomes.
Gerais eles são mais de 100 mil trabalhadores, assédio moral.
o suficiente para lotar quase dois estádios do A ameaça direta que a mudança na organização
tamanho do Mineirão. No Brasil, eles passam Para o Ministério Público do Trabalho (MPT) do trabalho representa aos altos lucros das
de 1,4 milhão. a causa tem um nome. “A terceirização é empresas desse ramo faz com que a batalha
o grande vilão do setor. Com ela, vieram a do MPT por melhores condições de trabalho
Mas enquanto a profissão cresceu – 235% cobrança por metas, a redução no tempo no setor passe invariavelmente pela Justiça,
entre 2010 e 2013 conforme dados do Portal das chamadas, o controle de pausas para onde ainda não há consenso sobre a matéria.
Educação (portaleducacao.com.br) – e os banheiro e uma organização de trabalho “A divergência ainda é grande inclusive no
lucros se multiplicaram – segundo dados da altamente precarizante. O que temos Tribunal Superior do Trabalho (TST), onde as
Comissão de Valores Imobiliários, em 2013, visto ao investigar esses casos é que a decisões são dadas por um voto de diferença”,
uma das maiores empresas do ramo, a Contax, concorrência acirrada entre as empresas do explica o procurador do Trabalho Marco
registrou lucro líquido de R$ 75,3 milhões ramo para manter e captar novos clientes Antônio Paulinelli.

36 LABOR
Telemarketing, meu
Guilherme Monteiro

primeiro emprego
Qualquer atividade que envolva o uso
concomitante de computador, fone de
ouvido e fala telefônica durante todo o
período laboral é caracterizada como
teleatendimento e, portanto, protegida
pela norma regulamentadora (NR) nº 17 do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). “A
norma prevê atenção especial a três elementos
que concorrem fortemente para a incidência
de doenças de trabalho: condições ambientais,
controle médico e organização do trabalho.
Fatores como ruído, calor, umidade, desgaste
da voz devem ser rigorosamente monitorados”,
orienta o médico do Trabalho Gustavo Veloso.

Segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores


em Telecomunicações (Sinttel) de Minas Gerais,
as quatro maiores empresas do ramo, que atuam
na região metropolitana de Belo Horizonte, A e C
Centro de Contatos, Almaviva, Contax e Atento
possuem juntas cerca de 20 mil empregados.
Em todas elas há fixação de tempo médio de
atendimento (TMA) e vários problemas com
metas. “Em geral as metas são difíceis de serem
mensuradas e há muita divergência entre as
metas relacionadas pelo trabalhador e o saldo
computado pela empresa”, relata o diretor do
sindicato Tiago Santana.

Quem já trabalhou no ramo reclama das


péssimas condições de trabalho. O estudante
de engenharia R.G.F., de 22 anos, trabalhou
por três meses em uma empresa de Belo
Horizonte e acabou pedindo demissão.
“Como primeiro emprego, foi uma péssima
experiência, não agregou nada para a minha
vida profissional. Eu fazia uma média de oito
horas extras por semana, mas o pagamento só
vinha dois meses depois.”

Perverso
Para A.L., de 27 anos, as marcas do assédio
moral foram as mais fortes. “Logo que comecei neste segmento como o tipo mais perverso e serviços, então o atendente acaba sendo vítima
a ter participação ativa na luta por melhores difícil de ser combatido. “Diferentemente do de assédio e agressões de consumidores que
condições de trabalho, atuando na Comissão tipo clássico, que parte de um superior para descarregam neles suas insatisfações com a
Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), a um subordinado específico, ele está inserido prestadora de serviço.”
empresa isolou o grupo de cipeiros em uma na organização do trabalho, é difuso, todos
sala, não nos passava trabalho e proibiu os os empregados são vítimas. Não é possível
empregados de nos dirigirem a palavra.” eliminar esse tipo de assédio alterando os Estresse
Segundo A.L., que trabalhou no ramo entre prepostos da relação, é necessário mudar a
2004 e 2007, a situação piorou muito desde organização do trabalho.” Por outro lado, uma gama de recursos
2004. “Não havia metas, hoje elas existem e tecnológicos possibilita o controle preciso
são inatingíveis. O índice de afastamentos O que faz a maioria dos consumidores querer da atuação do empregado: tempo de
aumentou e a qualidade do trabalho piorou. perder a paciência com os operadores de atendimento, pausas, gravação de conversas,
É a precarização que anda junto com a telemarketing é mais um dos fortes motivos estatística de atendimento, todos estes são
terceirização”, lamenta o trabalhador. de sofrimento mental da categoria, na fatores geradores de estresse, explica o auditor
avaliação de Ana Cláudia Gomes. “O trabalho fiscal do Trabalho Marcelo Campos: “A pausa
A procuradora do Trabalho Ana Cláudia é organizado de modo a cansar o consumidor para banheiro, por exemplo, é outro problema
Nascimento Gomes classifica o assédio moral para que ele desista, por exemplo, de cancelar sério, pois implica desconto no salário.”

LABOR 37
Inquéritos crescem 300% em 5 anos
Em cinco anos, de 2009 a 2013, o número de pública, foi reforçada na decisão do TRT. lucros, as empresas preferem levar a
inquéritos abertos pelo MPT para investigar Para o relator do acórdão, juiz Cleber Lúcio discussão para a Justiça. É o que diz também
irregularidades no setor de telemarketing teve de Almeida, os empregados do setor “estão o auditor fiscal do Trabalho Marcelo Campos:
aumento de 300% em Minas Gerais. Em 2013 sujeitos à sobrecarga provocada pelas “Já multamos à exaustão essas empresas. O
foram abertos 21, contra sete em 2009. Quem metas esperadas, as quais impõem ritmo lucro é tamanho que elas preferem pagar as
lidera o ranking de presença nos inquéritos do excessivamente acelerado na prestação multas e serem acionadas na Justiça.
MPT é a empresa A & C Centro de Contatos com dos serviços. O desgaste físico e mental do
24 ocorrências. Ela vem seguida pela Contax, trabalhador exposto a tais condições exige
com 14, e a Almaviva, com 12. estrita observância da jornada de seis horas”. Doenças
Terceirização, assédio moral, excesso de Embora algumas decisões já sejam
jornada, ergonomia e meio ambiente Para o diretor do Sinttel Tiago Santana, as
favoráveis, a atuação do MPT e de outros penalidades impostas às empresas do ramo
são apenas alguns dos mais de 40 temas órgãos fiscalizadores ainda é dificultada
enfrentados pelos procuradores do MPT, nos ainda não atingem seus lucros a ponto de
por diversos fatores: falta de jurisprudência pressioná-las a oferecer melhores condições
inquéritos civis e ações judiciais relativas ao consolidada, pulverização do beneficiário
setor, algumas delas com decisões favoráveis de trabalho. A estrutura para fiscalização
da ação, dificuldade na formação de provas. é insuficiente e quando empresas são
na Justiça do Trabalho. “O assédio moral, por exemplo, que é tão multadas, elas recorrem e, em geral,
perverso quanto frequente no setor, não é conseguem reverter.
Em março, cerca de 10 mil empregados do
perceptível durante uma fiscalização. Em
grupo italiano Almaviva foram beneficiados em
geral, as provas mais legítimas são aquelas Os altos índices de acidentes e
mais uma ação civil pública do MPT. De acordo
vindas das demandas individuais na Justiça adoecimentos poderiam refletir no seguro
com o procurador do Trabalho que atua no
do Trabalho”, lamenta a procuradora do de acidente de trabalho, mas isso também
caso, Marco Antônio Paulinelli, as três empresas
Trabalho Ana Cláudia, que tem um acordo ainda não ocorre, segundo o sindicalista. “É
do grupo que operam em Belo Horizonte
judicial com a Almaviva para combate de preciso rever o nexo técnico epidemiológico
estão obrigadas a suspender imediatamente
assédio moral. relativo ao setor, pois atualmente apenas
a exigência de horas extras dos profissionais
de telemarketing. A decisão, com tutela lesões por esforço repetitivo (LER) e
antecipada, deferida pelo Tribunal Regional do Para o médico do Trabalho Gustavo Veloso, distúrbios osteomusculares relacionado
Trabalho (TRT), também condenou o grupo ao o anexo II da NR nº 17 trouxe aos órgãos ao trabalho (Dort) são reconhecidos
pagamento de indenização por dano moral no fiscalizadores a possibilidade de intervir como doenças ocupacionais do setor.
valor de R$ 300 mil. na organização do trabalho, à medida que Outras ocorrências frequentes e graves,
estabelece pausas, exige a compatibilização como disfonia vocal e perda auditiva,
das metas prescritas a partir de uma não têm nexo estabelecido com o ramo.
Sobrecarga análise ergonômica do trabalho e o Com isso, o custo com os afastamentos
dimensionamento do número de operadores é todo bancado pela Previdência Social
A tese de que o trabalho de telemarketing às demandas. Porém quando a fiscalização e consequentemente pelo contribuinte”,
é penoso, defendida pelo MPT na ação civil tenta alterar rotinas que vão refletir nos argumenta Santana.

38 LABOR
Cyrano Vital
Campeão em ações na Justiça do Trabalho
O especialista em gestão de carreira Max
Na Justiça do Trabalho, as empresas de
Gehringer resumiu o problema da rotatividade:
telemarkerting ocupam os primeiros lugares
“as grandes empresas terceirizaram o
no ranking de maiores litigantes. Segundo
telemarketing e o atendimento a clientes para
relatório publicado pelo Tribunal Regional do
Trabalho (TRT) de Minas Gerais, no segundo
cortar custos. Se tivessem funcionários próprios, O Atendente
teriam que dar a eles salários e benefícios
semestre de 2012, as três maiores empresas de
compatíveis com o restante dos empregados. Já passou mais de uma hora
telemarketing que atuam no estado figuravam
Tudo isso faz com que o empresário do ramo de E eu aqui até agora
como rés em 3.255 ações. A Contax ocupou o
telemarketing não possa pagar salários muito Esperando a solução
segundo lugar no ranking, com 1.935 ações.
atrativos, e também faz com que o emprego Tô aguardando o atendente
Na quarta posição ficou a A e C Centro de
seja encarado mais como uma passagem, até Que até parece gente
Contatos, com 975 ações. Na 24ª posição
aparecer coisa melhor.” Mas acho que não é não
estava a Almaviva do Brasil Telemarketing,
com 345 ações. Sei que ele corta um riscado, é treinado,
vigiado
“No Departamento Jurídico do Sinttel, temos Pra manter seu ganha-pão (e tem até boa

Tema inspira
atualmente 3,5 mil ações ativas contra intenção)
empresas do setor, sendo que em 1,2 mil delas Mas se eu quero argumentar, reclamar
ou perguntar

filmes e até música


a reivindicação é o vínculo empregatício”,
informou o diretor Quem responde é a gravação
Tiago Santana. Que só repete esse refrão
Tecle um, dois, três,
Até o mundo das artes denuncia a precária Favor tentar mais uma vez
Rotatividade trajetória dos empregados do setor, Tecle um, dois, três,
desde as telefonistas até os operadores de Se você fala português
O elevado turnover no emprego garante ao telemarketing. Ao contrário das décadas Tecle um, dois, três
setor o título de campeã em rotatividade e de 1970 e 1980, quando o trabalho de Confirme o ano, dia e mês
submete os empregados à constante ameaça telefonistas inspirou algumas produções do Tecle um, dois, três
de dispensa. “Em um ano, uma empresa cinema, sempre mostrando a importância do Quem paga o pato é o freguês... X
com 5 mil empregados pode ter todo o seu trabalho de telefonistas, em 2009, a música
quadro renovado”, relata a procuradora Ana “O Atendente”, de Vander Lee e Regina Souza,
Cláudia Gomes. anuncia o novo cenário:

LABOR 39
Transformação

Da aldeia à sala
de aula
Capacitados, jovens índios do Mato Grosso do Sul
se transformam em técnicos de enfermagem
Por Gilvana Krenkel*

40 LABOR
Fotos: Roberto Nascimento

Moradora da aldeia de Jaguapiru, para indígenas das aldeias de


Mycaely Martins (foto na pág. Dourados e região. O curso, que
42), 24 anos, da etnia Guarani, surgiu pelo descumprimento
trabalhava como recepcionista de termo de ajustamento de
no Hospital da Missão, em conduta (TAC) firmado pelo
Dourados (MS), quando viu um Ministério Público do Trabalho
panfleto sobre um curso que (MPT) em Mato Grosso do Sul
mudaria sua trajetória e a de com o Hospital Evangélico de
outros jovens indígenas para Dourados, em julho de 2011, Estado possui a
sempre. O anúncio divulgava resultou na criação de 50 vagas segunda maior
um programa profissionalizante para capacitação dos população de
de técnico em enfermagem jovens indígenas. indígenas do Brasil

LABOR 41
Mycaely Martins acabou de se formar e já está no
mercado de trabalho. “Fiz uma entrevista, uma
Outra pessoa localizado dentro da aldeia Jaguapiru. A
Missão Cauiá é uma instituição que faz
prova e logo comecei. É no mesmo hospital em Para Mycaely, a capacitação ultrapassou a trabalhos assistenciais e evangelísticos
que trabalhava como recepcionista.” oportunidade de ingressar no mercado de dentro das tribos. “Comecei a trabalhar em
trabalho. “O curso me deu a possibilidade de dezembro, um mês depois da formatura,
A ideia de reverter o valor de R$ 380 mil para ajudar, até mesmo psicologicamente, cada logo que meu registro saiu. Agora, posso
criar um curso de enfermagem para indígenas paciente. Foi também minha maior superação. dizer oficialmente que tenho uma profissão”,
surgiu do hospital e do procurador do Trabalho Hoje, sou outra pessoa.” conta Sonia.
Jeferson Pereira, que conhecia as necessidades da
juventude local. “A proposta leva em consideração A história de Mycaely se parece com a Dos 39 alunos, 11 são da etnia Guarani, dez
a qualificação de indígenas para atuarem na de todos os 39 formandos da primeira Kaiowá, 16 Terena e dois Kadiwéu.
saúde e a inserção de profissionais no Hospital turma. Muitos deles já entraram ou estão
Evangélico. À época, a justificativa apresentada ingressando no mercado de trabalho. Esse Para a coordenadora do curso, Silvia Borgato,
pela instituição para descumprimento do TAC por também é o caso da indígena Sonia Guiomar, as expectativas foram atingidas. “Na seleção,
excesso de jornada foi a carência de mão de obra que trabalhava como babá e hoje atende já nos surpreendemos com as redações, muito
especializada na área.” no Hospital da Missão Evangélica Cauiá, bem escritas.”

Primeira turma contou com 53 estudantes


O curso de formação de técnicos de
enfermagem foi oferecido pela Escola Vital
Brasil, e as vagas foram preenchidas por meio
de seleção nas aldeias Jaguapiru e Bororó.
Para se inscrever, bastava ter o ensino médio
completo e idade mínima de 17 anos.

A primeira turma começou em outubro de


2011, com 53 estudantes e carga horária de
1,8 mil horas. Todos os alunos receberam,
além de bolsa, os materiais didáticos e o
transporte até Dourados.

O processo foi acompanhado por uma


comissão responsável por monitorar as etapas
de qualificação, integrada por representantes
da Fundação Nacional do Índio (Funai), do
Ministério Público Federal (MPF), da Missão
Evangélica Cauiá, da Escola Vital Brasil, do
Hospital Evangélico e da Secretaria Especial de
Saúde Indígena.

O corpo técnico e de professores também foi


capacitado por 71 profissionais dos principais
hospitais locais.

MS tem mais de 73
mil indígenas
Com quase 14 mil índios, as aldeias de
Jaguapiru e Bororó têm número de

Custo de registro
habitantes superior à população de 38
cidades de Mato Grosso do Sul. Localizadas
no município de Dourados, distante 220

cria dificuldades
quilômetros de Campo Grande, ficam
próximas à fronteira com o Paraguai. O
estado tem mais de 73 mil indígenas.
A Terena Jeanne Francine Machado, 35 Segundo o coordenador do Coletivo de
anos, da aldeia de Jaguapiru, não conseguiu Trabalhadores Indígenas de Mato Grosso
obter o registro obrigatório para o exercício do Sul, José Carlos Pacheco (foto ao lado),
da profissão no Conselho Regional de o número de trabalhadores inseridos no
Enfermagem (Coren). O valor referente à mercado de trabalho, com carteira assinada,
inscrição, emissão da carteira profissional e é de 2,5% da população indígena do estado.
anuidade, de R$ 475, foi considerado alto “Antes, as usinas de cana eram as principais
para ela. “Ninguém me falou que a taxa seria empregadoras, com 70% de mão de obra
tão alta. Quando me formei, consegui uma indígena. Com a mecanização, esse percentual
entrevista no Hospital Evangélico de Dourados, diminuiu muito e os indígenas migraram para
passei e não fui chamada, porque ainda não outros ramos.” X
tinha o Coren. Não tenho como pagar. Meu
medo agora é deixar o tempo passar e ir *Estagiária de jornalismo no MPT em Mato
perdendo a prática da profissão.” Grosso do Sul.

42 LABOR
Selma
Balbino,
sindicalista,
58 anos,
30 de
carreira como
aeroviária, lê
a Labor.
E você?

LABOR 43
Fotos: Wanderson Lima

44 LABOR
Cárcere

Trabalho e punição

Nos presídios brasileiros, rotina dos profissionais é


marcada por insegurança, ameaça e risco de vida

As histórias vêm do Maranhão, até a munição das pistolas saem


do Paraná e do Piauí, mas do bolso dos trabalhadores. Um
poderiam ter como cenário agente disse que se houvesse
qualquer complexo penitenciário uma rebelião hoje, não teria
de uma cidade brasileira. São equipamentos não letais para
casos que revelam as más conter os presos. “E o pior é que
condições de trabalho de agentes eles estão muito bem armados.”
penitenciários, monitores e No Paraná, presos recebem
trabalhadores da saúde. menos do que ¾ do salário
Ameaça, medo e insegurança mínimo, o que contraria a lei.
são companheiros diários desses Leia a reportagem produzida
trabalhadores. No Maranhão, pelos jornalistas Aline Baroni,
caneleira, cotoveleira, coturnos e Anucha Melo e Wanderson Lima.

LABOR 45
Trabalhadores aprisionados
Violações de direitos ocorrem sob olhar displicente do
governo e de empresas terceirizadas em Pedrinhas
Por Wanderson Lima

A crise no sistema carcerário maranhense


teve repercussão mundial com a divulgação
de cenas de barbárie ocorridas no Complexo
Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís
(MA). De acordo com o relatório do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), somente em 2013,
60 detentos foram assassinados no Maranhão.
Em 2014, até o dia 17 de abril, foram registradas
mais 11 mortes, conforme levantamento
divulgado pela Secretaria Estadual de Justiça e
Administração Penitenciária (Sejap).

Apesar de toda a violência nas prisões, as cenas


de horror extrapolaram os muros dos presídios.
Em janeiro de 2014, duas delegacias foram
alvejadas com tiros e quatro ônibus coletivos
foram incendiados na capital maranhense.
Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça
revelaram que a ordem para os atentados
partiu de dentro do Complexo de Pedrinhas.
Em um dos ataques, a menina Ana Clara
Santos, 6 anos, teve 95% do corpo queimado
e não resistiu. Outras quatro pessoas sofreram
ferimentos graves.

É nesse contexto que o Ministério Público


do Trabalho (MPT) no Maranhão inicia sua
atuação. Diferente de outros órgãos, cujo
olhar se direciona quase que exclusivamente
para a situação dos detentos, o MPT
concentrou as atenções para um público
historicamente esquecido dentro dos
presídios: os trabalhadores.

Desde novembro do ano passado, os


procuradores do Trabalho criaram um grupo
para investigar a situação dos presídios. Em
dezembro, fariam a primeira inspeção em
Pedrinhas, mas, em razão das rebeliões, a
visita teve que ser cancelada. Em janeiro, por
questão de segurança, houve novo adiamento.
Somente em fevereiro de 2014 foi possível
visitar as cadeias.

Inspeções
Uma força-tarefa foi planejada para garantir o
sucesso da ação. Além de técnicos e analistas
do MPT no Maranhão, as inspeções contaram
com apoio de peritos do MPT de Rondônia e de
Mato Grosso do Sul, uma assistente social e uma
psicóloga da instituição.

Os procuradores Marici Coelho de Barros


Pereira e Ruy Fernando Gomes Leme Cavalheiro
participaram da ação, liderada pela procuradora
Virgínia de Azevedo Neves. Dois auditores
fiscais do Trabalho integravam o grupo,
acompanhado pelo juiz de Execuções Penais
Fernando Mendonça.

Em dois dias de inspeções, quatro unidades


prisionais foram visitadas em São Luís. Três

46 LABOR
delas fazem parte do Complexo de Pedrinhas: que a rotina cercada de estresse, pressão e risco Se, de um lado, há a superlotação das prisões,
Centro de Triagem, Central de Custódia de de morte torna esses profissionais prisioneiros do outro, faltam trabalhadores em quantidade
Presos de Justiça (CCPJ) e Centro de Detenção da omissão e da incapacidade do Estado de suficiente. Existem apenas 360 agentes
Provisória (CDP). A outra unidade era a CCPJ do gerenciar as penitenciárias”, aponta um dos penitenciários em todo o Maranhão, segundo
bairro do Anil. relatórios da inspeção. estudo da Sejap. Mesmo com a convocação
de 106 novos agentes concursados, conforme
A segurança da equipe foi garantida por anunciado pelo governo do estado, o
homens do Grupo de Escolta e Operações número continua insuficiente para atender a

Dia a dia de alto


Penitenciárias (Geop) – agentes responsáveis quantidade de detentos.
pelo enfrentamento de motins e rebeliões nas
prisões com armamento não letal, como spray Manter um quadro insuficiente de

risco e medo
de pimenta, balas de borracha e bombas de trabalhadores no sistema prisional é grave,
efeito moral, e também letal. mas a realidade se torna ainda pior diante
das péssimas condições de trabalho que
são oferecidas a esses profissionais. Entre as
O último levantamento divulgado pela
falhas identificadas nas inspeções, destacam-
Tensão e medo Secretaria Estadual de Justiça e Administração
se não fornecimento de equipamento
Penitenciária (Sejap) mostra que a população
de proteção individual (EPI), ausência de
Um dos momentos de maior risco ocorreu carcerária maranhense é formada por
ambiente adequado para repouso, instalações
durante a inspeção no CDP de Pedrinhas. Essa 4.663 pessoas, entre presos provisórios
elétricas, hidráulicas e sanitárias inadequadas,
unidade tem capacidade para 410 presidiários, e condenados de justiça. Só o Complexo
problemas no fornecimento de alimentação e
mas, no dia da visita, possuía 562 presos – Penitenciário de Pedrinhas, formado por oito
desrespeito ao horário de refeições e descanso.
quantidade 37% acima do ideal. unidades, possui cerca de 2,2 mil detentos –
Inexistência de brigada de incêndio, ausência
número 24,29% acima da capacidade máxima,
de acompanhamento psicológico e de exames
Para conhecer um dos pavilhões, a equipe que é de 1,7 mil presos.
médicos periódicos também foram apontadas.
precisou aguardar o desfecho de uma longa
negociação entre a diretora da unidade e os
detentos. Como as grades das celas foram
destruídas na última rebelião, os presos andam
livremente pelos corredores. O pedido era
para que os internos deixassem o pavilhão e se
dirigissem à quadra externa.

Para atender ao pedido, eles fizeram uma série


de exigências. A principal era que não houvesse
vistoria nas celas, o que foi prontamente
atendido pela direção da casa. Nessas vistorias
é possível encontrar armas, drogas e celulares.
Segundo homens do Geop, há informações de
que no CDP existam oito armas de fogo nas
mãos dos detentos.

Após a liberação do pavilhão, os agentes fizeram


uma varredura para garantir que nenhum
preso estivesse no local, mas um deles estava
escondido numa cela. Rendido, foi levado até a
quadra onde os outros se encontravam.

Insalubre, precário e inseguro


Por questão de segurança, apenas quatro
integrantes da força-tarefa foram autorizados
a percorrer todo o pavilhão, juntamente com o
juiz de Execuções Penais. “Nós não estamos em
quantidade suficiente para garantir a segurança
de todos vocês. É muito perigoso”, alertou um
dos agentes.

Somente uma grade separava os presos da


equipe de inspeção, o que permitiu aos peritos
e procuradores ter a mesma sensação dos
trabalhadores que lidam com os detentos.
Mesmo com todo aparato de segurança,
medo e horror se misturaram à forte pressão
psicológica durante cerca de cinco minutos de
caminhada pelo corredor de celas.

Conforto, higiene e dignidade são conceitos


que não se aplicam aos detentos. Até aqui,
nenhuma novidade diante da falência do
sistema prisional brasileiro. A força-tarefa
percebeu que os trabalhadores também têm
seus direitos violados ao atuarem em um
ambiente insalubre, precário e inseguro.

“Presos e trabalhadores sofrem com o descaso. A


única diferença é que os trabalhadores ‘estão em
liberdade’. Mas essa liberdade é relativa, uma vez

LABOR 47
Não é à toa que, durante a seleção de novos
Terceirização monitores, o número de candidatos cai
drasticamente conforme as etapas avançam.
Outra questão verificada foi a terceirização “Na minha turma, eram 250 monitores em
de serviços nas prisões. No Maranhão, três treinamento. Na aula prática, dentro das
empresas atuam dentro dos presídios: Atlântica prisões, esse número caiu para cem pessoas. No
(vigilância armada), VTI (pessoal administrativo final, éramos apenas dez.”
e monitores) e Gestor (enfermeiros, assistentes
sociais, advogados, psicólogos e apoio
administrativo). Avaliações preliminares
mostram que o quantitativo de terceirizados
supera o de servidores públicos concursados. Profissionais da
De acordo com a diretora do CDP de Pedrinhas,
Josiane de Oliveira Furtado, um monitor já foi saúde adoecidos
alvejado com um tiro “acidental” na cabeça e
ficou em estado vegetativo no hospital. Além Foi a partir de uma denúncia do Sindicato e
disso, materiais básicos não são fornecidos a do Conselho dos Profissionais de Enfermagem
esses trabalhadores. “São os monitores que no Maranhão que as investigações do MPT no
lidam diretamente com os presos. Na hora de Maranhão começaram. As entidades de classe
fazer vistorias nas celas, eles precisam colocar estavam preocupadas com os desrespeitos às
as mãos dentro de vasos sanitários sem luvas normas de higiene e segurança do trabalho
e máscaras. Os únicos pares de luvas que eles dentro dos presídios.
ainda utilizam são os dos médicos e sabemos
que elas não oferecem nenhuma proteção Materiais simples, como touca e máscara,
nesse tipo de trabalho”, reconheceu. com frequência estão em falta. Nem o jaleco
– item básico de um trabalhador da saúde – é
Com o salário abaixo de R$ 900 por mês, os fornecido. Sem materiais básicos de proteção,
monitores acabam sendo bastante assediados os trabalhadores se sentem ameaçados. “A
pelos presos. “Sem dúvida, esse profissional gente acaba ficando exposto às doenças”,
é o mais vulnerável à corrupção. Já pegamos reclamou uma trabalhadora da empresa Gestor.
um que entrou no CDP com maconha e litros
A pressão psicológica também está presente.
de uísque. Não sabemos se foi demitido pela
“Aqui é tenso. Ameaça a gente sempre
empresa ou apenas transferido para outra
recebe. O preso quer uma saída [ser levado
unidade prisional.”
a um hospital fora da cadeia] e, quando não
tem esse desejo atendido, fica com raiva e
começa a ameaçar.” Quase toda a indumentária é adquirida pelos
próprios agentes. A exceção são os coletes à
Revista
Com mais de 20 anos de trabalho no Complexo
prova de bala, fornecidos pela secretaria. “Tem
de Pedrinhas, uma técnica em enfermagem
colete aqui com a capa vencida desde 2001 e a
afirma que já enfrentou três rebeliões violentas.
Para evitar esse tipo de situação, os funcionários validade é de cinco anos. Alguns colegas estão
Essas experiências deixaram marcas profundas
da VTI são revistados quando chegam à prisão. com capas de 2008. Isso está errado”, explicou o
em sua vida. “Tomo remédio controlado. Já
“Somos apalpados e ainda passamos pelo agente. Capacetes não existem em quantidade
passei por depressão e síndrome do pânico.
detector de metais”, explicou um trabalhador suficiente. O mesmo se aplica aos escudos
Quando chegava em casa e deitava, não
da CCPJ de Pedrinhas. utilizados para proteção dos agentes durante o
conseguia dormir. Via os presos e pensava que
confronto com os detentos.
A unidade tem capacidade para abrigar 160 eles iam sair das celas e me pegar”, relembra.
presos, mas, atualmente, possui 309 internos.
Durante os plantões, apenas um agente
penitenciário é responsável pelo presídio. Os
demais trabalhadores são todos terceirizados.
Rotina violenta Pedradas
“Já apreendemos três armas de fogo aqui e
temos notícia de que existem outras duas “Já peguei duas pedradas na perna. Não
Quem trabalha numa prisão vive
nas mãos dos detentos”, comentou o agente recebemos caneleira, cotoveleira e nem
sobressaltado e sem garantia de que irá
penitenciário Carlos Wolf de Andrade, chefe coturno. Somos nós quem compramos
retornar ao seu lar vivo e em segurança.
de plantão. tudo. Até a munição de nossas pistolas
Manter o equilíbrio emocional e a integridade
sai dos nossos bolsos. Falta material. Se
física passou a ser responsabilidade de cada
Para os monitores, o medo e a insegurança trabalhador, e não de seus empregadores. houvesse uma rebelião hoje, não teríamos
são companheiros diários. “Já houve casos de Um dos exemplos mais marcantes foi o dos equipamentos não letais para conter os
monitores esfaqueados e baleados. Na prática, homens que integram o Geop. presos. E o pior é que eles estão muito bem
exercemos a mesma função de um agente. A armados”, acrescentou outro agente.
diferença é que não utilizamos colete e nem Esses trabalhadores costumam cobrir o rosto
armas”, disse. O trabalhador, inclusive, afirmou com máscaras, para preservar sua imagem Em um de seus livros, o doutor em Direito
que, em janeiro de 2014, foi recebido à bala e evitar o reconhecimento fora das prisões. pela Universidade de Burgos (Espanha)
no Bloco A da CCPJ durante um princípio de Mesmo assim, não estão livres do efeito Rogério Greco comparou o presídio a um
motim. “Já perdi a noção do perigo.” perverso do trabalho prisional. Alguns deles hospital: “Se a prisão, como dizem alguns,
afirmam que perderam a capacidade de se é ainda um mal necessário, ou, como dizem
Fora do ambiente de trabalho, os monitores emocionar, pois se tornaram seres humanos outros, ‘se o crime é a doença, a pena, a cura,
também estão expostos a ameaças. “Um mais frios diante do dia a dia marcado por e a prisão, o hospital’, precisamos cuidar do
monitor foi reconhecido por um detento violências de todos os gêneros. “Vemos tanta local onde ficam internados os pacientes
em um show e foi furado [esfaqueado] na morte que não sentimos mais nada.” Para eles, para que a sua doença não se agrave ou que
saída. Quase sempre, quando deixamos o o atendimento psicológico faz falta e deveria venham mesmo a morrer.” Certamente, se
trabalho, pegamos o transporte público junto ser ofertado aos familiares também. “Nunca tivesse integrado a força-tarefa do MPT, o
com os familiares dos presos. É uma situação tivemos acompanhamento psicológico. Nem estudioso incluiria os trabalhadores nessa
constrangedora e arriscada. Já teve caso nossa família. Nós gostamos do que fazemos, relação de cuidados.
de funcionário seguido. A sorte foi que ele mas a Sejap deveria se interessar pelos
percebeu e conseguiu se esconder e despistar”, servidores. Queremos que nos deem condições “Não tem como dissociar os problemas
comenta o trabalhador. de trabalho”, reclama outro membro do Geop. estruturais de Pedrinhas e o meio ambiente

48 LABOR
Péssimas condições
de trabalho. Os trabalhadores estão sujeitos
a contrair não só doenças profissionais, mas
de trabalho
também distúrbios psicológicos”, avaliou
a procuradora do Trabalho Luana Lima

MPT no Piauí entra com ação civil


Duarte, que investiga a situação dos presídios
maranhenses, em conjunto com Virgínia
Neves, Marcos Sérgio Castelo Branco e

pública contra o Estado e exige


Fernanda Maria Furlaneto.

adequações ao meio ambiente


Responsabilidade
Atualmente, o MPT no Maranhão possui
quatro procedimentos instaurados envolvendo
presídios. Além do Complexo Penitenciário
de Pedrinhas, em São Luís, são objeto de
inquérito a CCPJ de Imperatriz e o presídio de Por Anucha Melo
Davinópolis. Em todos os casos, o estado do
Maranhão é subsidiariamente responsável pelas
más condições de trabalho.

“Essa força-tarefa serve como parâmetro para


corrigir falhas e criar um plano de trabalho nos As cenas de terror ocorridas no final do as más condições de trabalho em unidades
presídios”, avalia o procurador do Trabalho Ruy ano passado no presídio de Pedrinhas, no prisionais e penais piauienses. O que se
Fernando Gomes Leme Cavalheiro. Maranhão, ainda estão na memória dos constatou, a partir daí, foi uma sequência de
brasileiros. Mas o que está por trás daqueles irregularidades em cenários que apresentavam
Até o fechamento desta edição, nenhuma ação muros altos? O que há nos alojamentos, riscos iminentes à saúde e à vida de inúmeros
civil pública tinha sido ajuizada, mas, segundo salas, cozinhas, banheiros, pátios de presídios trabalhadores. “As condições de meio ambiente
a procuradora Virgínia Neves, será questão de em todo o país? Como são as condições de de trabalho que encontramos nas unidades
tempo. “Caberá à Justiça exigir a adoção de trabalho de agentes penitenciários, policiais no Piauí não são adequadas, ferem as normas
novas práticas, que passam pelo cumprimento militares, terceirizados e até mesmo dos presos? regulamentadoras e precisam ser corrigidas
da legislação trabalhista, mas, sobretudo, pelo O Estado oferece o mínimo exigido pelas pelo Estado, sob pena de pagar com a vida
respeito à dignidade da pessoa humana”. normas regulamentadoras? A que riscos estão de pessoas”, argumentou o procurador do
expostos homens e mulheres “protegidos” pelo Trabalho José Heraldo de Sousa.
Enquanto isso, o governo federal prorrogou poder público?
até junho a permanência de tropas da Força A denúncia partiu do Sindicato dos Policiais
Nacional em presídios maranhenses. Resta Para encontrar essas respostas, o Ministério Civis, Penitenciários e Servidores da Secretaria
saber por quanto tempo essa medida irá evitar Público do Trabalho (MPT) no Piauí instaurou da Justiça e da Cidadania do Estado do Piauí
novas crises no já falido sistema prisional. um inquérito civil para apurar denúncias sobre (Sinpoljuspi). O MPT no Piauí requisitou

Paulo Sérgio Freitas

LABOR 49
Aline Baroni

relatórios de inspeção à Vigilância Sanitária a poluição dos carros. Outra é ser obrigado a Trabalho (TRT), com o argumento de que, ainda
Estadual nas unidades prisionais do estado. Na respirar no próprio ambiente de trabalho um que se trate de trabalhadores que mantêm
investigação preliminar, foram encontradas gás nocivo à saúde. Isso não se pode admitir.” vínculo jurídico-administrativo com poder
instalações elétricas com fiação exposta e público, a competência se mantém na Justiça
tomadas sem tampas, inexistência de extintores O MPT ajuizou ação civil pública contra o do Trabalho, ante a ofensa ao meio ambiente
de incêndio, paredes e forros de alojamentos estado do Piauí com pedido de concessão de do trabalho. Logo, determinou o retorno do
úmidos e com infiltrações e banheiros liminar para que fossem adotadas as medidas processo à Vara do Trabalho de origem para
em situação precária, com instalações necessárias para tornar o meio ambiente das analisar os pedidos do MPT.
hidrossanitárias precisando de reparos. Além unidades prisionais e penais seguro e saudável.
disso, não havia sabão, nem papel, nem lixeiras O Estado entrou com recurso de revista,
O juiz da primeira instância declarou a tendo sido julgado improcedente pelo
adequadas. Quem manipula os alimentos não
incompetência material da Justiça do Trabalho desembargador presidente do TRT. A primeira
tem equipamentos de proteção individual
para julgar os pedidos propostos pelo MPT. A instância, portanto, deve apreciar o mérito dos
(EPIs) adequados. Outra irregularidade é a
decisão foi reformada pelo Tribunal Regional do pedidos formulados pelo MPT.
inexistência de supervisão do estado da saúde
dos trabalhadores e detentos, e de plano de
gerenciamento de resíduos.

Remuneração baixa
Monóxido de carbono
Em junho de 2012, o procurador José Heraldo
de Sousa, junto com um perito em Engenharia
de Segurança do Trabalho do MPT, inspecionou
as dependências da Casa de Custódia
Professor José Ribamar Leite, constatando
uma série de irregularidades, como: extintores

No Paraná, salário de presos é menor


de incêndio da cozinha descarregados;
inexistência de medidas de proteção coletiva
ou equipamentos de proteção individual (EPIs),

que o definido pela lei


para os trabalhadores da cozinha; falta de
banheiros exclusivos, separados por sexo,
nem vestiários próprios; instalações elétricas
com risco de choque elétrico, ligações de
aparelhos improvisadas e fiações expostas na
cozinha e em outros ambientes. Também não
havia tampas nos gabinetes sanitários dos
banheiros de alojamentos e refeitórios, nem Por Aline Baroni
material para limpeza e secagem das mãos.

No momento da inspeção à Casa de Custódia


de Teresina, José Heraldo de Sousa se deparou
com uma situação aparentemente corriqueira O caso de desrespeito aos direitos A situação do trabalho do penitenciário no
para os agentes penitenciários. Na entrada do trabalhistas e humanos de um preso chinês Brasil é melhor do que a realidade chinesa,
presídio, por questão de segurança, os veículos ficou famoso em 2012. Naquele ano, uma o que não quer dizer que por aqui não haja
passam por dois portões. O segundo somente é mulher encontrou dentro de um enfeite diversas irregularidades e desrespeitos aos
acionado após o fechamento do primeiro. Cada festivo em forma de lápide o bilhete de um direitos trabalhistas e aos direitos humanos.
veículo permanece no espaço relativamente trabalhador escravo chinês. No documento,
pequeno e fechado entre os dois portões ele contava as condições de trabalho e No Paraná, o Ministério Público do Trabalho
o tempo necessário para que os agentes pedia que seu apelo fosse enviado para tem uma ação contra o governo do estado pelo
recepcionem os visitantes. É justamente aí que organizações de direitos humanos. trabalho de presos que recebem como salário
mora o perigo à saúde daqueles trabalhadores. um valor muito inferior aos ¾ de salário mínimo
O monóxido de carbono expelido pelos O homem, que escreveu a carta em 2008 a que têm direito pela Lei de Execução Penal nº
veículos não tem por onde sair, pode ser usando o codinome Zhang, contava que 7.210, de 11 de julho de 1984. O artigo 29 diz
inspirado pelos agentes e causar prejuízos trabalhava mais de 12 horas por dia, sem que: “O trabalho do preso será remunerado,
a médio e longo prazos. “Uma coisa é você descanso nos finais de semana ou feriados. mediante prévia tabela, não podendo ser
estar exposto a esses gases na rua, com toda Além disso, sofria violência física e moral. inferior a ¾ do salário mínimo.” No entanto, o

50 LABOR
Aline Baroni

salário é de R$ 45 por mês. É por esse valor que ser penoso e deve ser de natureza útil aos presídio. Eles recebem um depósito na conta de
os presos realizam atividades de manutenção reclusos de modo a mantê-los ativos durante seu fundo penitenciário e a BMV oferece cesta
do próprio sistema penitenciário, como o dia de trabalho e que também aumente suas básica e adicional por produtividade quando
limpeza e jardinagem. capacidades “para ganharem honestamente trabalham aos sábados. A empresa diz fornecer
a vida depois de libertados”. Ainda é também equipamentos de proteção individual
recomendado que o trabalho dos reclusos deve (EPI), mas não exige o uso.
ser remunerado de modo equitativo e que
Ilegal as indústrias e empresas agrícolas devem, de
preferência, ser dirigidas pela administração, e
A secretária de Justiça, Maria Tereza Uille não por empresários privados. Profissionalização
Gomes, admite o pagamento do baixo salário
com a justificativa de que os presos devem Para Maria Tereza Gomes, a finalidade desses
restituir ao Estado os valores gastos com sua trabalhos é educativa e produtiva e há a
manutenção, que custa aos cofres públicos Opção preocupação com a escolha das empresas que
cerca de R$ 2 mil mensais cada um. vão utilizar a mão de obra carcerária. “Essa
Ao contrário da China, no Paraná só trabalham mudança pode ser notada com o perfil das
O valor do pecúlio praticado, claramente os presos que querem. Na Colônia Penal empresas de hoje, dos ramos da metalurgia,
ilegal, é criticado pelo MPT. “Além do caráter Agroindustrial do Paraná (Cpai), localizada no marcenaria, eletrônica, alta costura e
ético, o pagamento pelos serviços prestados Complexo Penal de Piraquara, 413 dos 1.413 construção civil.”
tem caráter de incentivo, imprimindo no presos não estão empregados por opção ou
recluso a consciência de que a atividade lícita estão esperando postos de trabalho. É uma das A escola de dentro do complexo
é suficiente à manutenção de uma vida digna”, maiores taxas de presos empregados entre as penitenciário também oferece cursos
afirma o procurador do Trabalho Gláucio unidades do estado. A rotatividade é grande. profissionalizantes compatíveis com as
Araújo de Oliveira, autor da ação. O incentivo O diretor da Cpai, Ismael Meira, afirma que os áreas de atuação dos presos, por meio de
à atividade lícita é especialmente importante quase 500 presos contratados pelo governo parcerias, especialmente com o Serviço
em um sistema penitenciário em que, estima Social da Indústria (Sesi). “Montamos um
não passam muito tempo na atividade e logo
a Secretaria de Justiça, 70% dos presos programa específico de cursos e levamos
são absorvidos pelas empresas. Dentro do
cometeram crimes relacionados ao tráfico de em consideração os arranjos produtivos de
complexo 22 empresas estão instaladas. Outras
drogas. Dados de janeiro de 2014 mostram cada região para que o preso, quando em
12 firmaram convênio com a Secretaria de
que de mais de 18 mil presos do Paraná, 1.645 liberdade, possa conseguir um trabalho.”
Justiça para levar presos do regime semiaberto
trabalham contratados pelo governo (os que
a suas unidades. O procurador do Trabalho Gláucio Araújo de
recebem o pecúlio) e 2.491 trabalham em
empresas privadas. Oliveira, no entanto, discorda. “A administração
Felipe Petita trabalha há onze meses na
pública prisional não se preocupa em capacitar
empresa BMV Puxadores e Acessórios, dentro
O Brasil e outros países assinaram, em agosto o trabalhador preso, pelo contrário, unicamente
da penitenciária, fazendo puxadores de
de 1955, a resolução da Organização das persegue números de postos de trabalho dos
armários. “Um amigo me indicou para trabalhar
Nações Unidas (ONU) que trata de regras apenados para apresentar à mídia e enaltecer
mínimas para tratamento de reclusos. A aqui e eu gosto. Ajuda a passar o tempo e que há um percentual considerável de reclusos
resolução estabelecia regras até hoje não eu ainda ganho dinheiro para mandar para trabalhando. Entendo que ofícios com costura
observadas no país: especialmente ao a minha família.” Entre outras vantagens de bolas e montagem de resistências para
determinar que não é por ter praticado crimes levantadas pelos presos que trabalham nas chuveiros elétricos deveriam ser evitados,
que a pessoa perde seus direitos humanos. empresas está o café da manhã e da tarde pois em nada contribuem para a qualificação
Segundo a ONU, o trabalho na prisão não deve “diferenciados” dos servidos no refeitório do profissional dos presos.” X

LABOR 51
52 LABOR
LABOR 53
40 horas

Tendência nacional

Acordo para redução de jornada amplia cidadania e busca


parâmetros civilizatórios mínimos das relações trabalhistas

Por Fátima Reis

O Ministério Público do Trabalho estado, de forma gradual, a


(MPT) em Santa Catarina partir de agosto de 2015. Nessa
assinou, no início de 2014, data, a jornada será de 43 horas
acordo histórico no Brasil com semanais e, em agosto de 2019,
A redução da jornada as Lojas Berlanda. A medida, chegará a 40 horas. A redução da
de trabalho de 44 para estabelecida como indenização jornada de trabalho, já aplicada
40 horas semanais por dano moral coletivo, vai em vários países do mundo, é
pode criar 2,2 milhões reduzir a carga horária de cerca defendida para todos os setores
de novos postos de 1,2 mil trabalhadores no da economia no Brasil.

54 LABOR
Wilson Dias/ABr

O acordo, assinado pelo procurador do geral, a instituições públicas ou privadas de


Trabalho Sandro Eduardo Sardá, também interesse geral, porém não beneficiam os
proíbe a prestação de horas extras habituais e o trabalhadores prejudicados. “Estou convicto
regime de compensação de banco de horas. Ele de que a redução da carga horária para 40
considera a redução de jornada para 40 horas horas semanais é uma das mais importantes
semanais importante avanço na ampliação medidas de compensação a título de
da cidadania e “de parâmetros civilizatórios danos morais coletivos. Além de beneficiar
mínimos das relações de trabalho, direito diretamente os empregados prejudicados pelo
previsto na Convenção 47 da Organização descumprimento da legislação, a medida tem
Internacional do Trabalho (OIT)”. um pequeno impacto financeiro nas empresas,
muitas vezes menor do que as indenizações
O procurador explica que indenizações por estipuladas nas sentenças trabalhistas ou em
danos morais coletivos são destinados, em termo de ajuste de conduta.”

LABOR 55
Dano moral coletivo
O procurador regional do Trabalho Xisto Assim, favoreceria diretamente o universo
Tiago de Medeiros Neto, autor do livro Dano atual e futuro de trabalhadores”, explica.
Moral Coletivo, afirma que em situações
específicas é possível, por meio de acordo Nessa hipótese, ganha relevância a efetividade
judicial ou termo de ajustamento de conduta dessa forma de compensação do dano moral
(TAC) firmado com o MPT, a adoção de coletivo, considerada a importância – para a vida
medidas pelo empregador sob a forma de do trabalhador e também para o desenvolvimento
obrigações de fazer, que traduziriam espécie mais saudável das relações laborais – da redução
de reparação in natura do dano moral da jornada de trabalho, a refletir um fator
coletivo em substituição ou em complemento importante para a evolução das relações sociais.
a uma condenação em dinheiro, revertendo- Os principais ganhos resultantes da redução da
se essas obrigações em benefício direto jornada seriam menor desgaste físico e psíquico
da coletividade de trabalhadores atingida. dos trabalhadores, menos adoecimento e
“Um exemplo seria a empresa reduzir a acidentes no trabalho, consequente diminuição
jornada de trabalho para 40 horas, como do custo social e previdenciário e também
forma hábil de compensar o dano coletivo maior tempo disponível para convivência dos
reconhecido em decorrência exatamente da trabalhadores com a família e para atividades
prática de condutas violadoras das normas culturais, sociais e de lazer. Além disso, iria
fundamentais de proteção à jornada laboral. favorecer novas contratações de trabalhadores.

Doutrina Süssekind
A doutrina de Arnaldo Süssekind – um viver, como ser humano, na coletividade
dos juristas da comissão que elaborou a a que pertence, gozando dos prazeres
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) – diz materiais e espirituais criados pela civilização,
que os fundamentos da limitação do tempo entregando-se à prática de atividades
de trabalho se concentram em três fatores, recreativas, culturais e físicas, aprimorando
de natureza biológica, de caráter social e seus conhecimentos e convivendo com
de índole econômica. O primeiro combate sua família. O último fator restringe o
os problemas psicofisiológicos resultantes desemprego e acarreta, pelo combate à
da fadiga e da excessiva racionalização do fadiga, um rendimento superior na execução
serviço. O segundo possibilita ao trabalhador do trabalho.

Jornada de 40 horas tem 80 anos


A Convenção 47 da Organização países desenvolvidos que viviam o auge da
Internacional do Trabalho (OIT), que garante Revolução Industrial.
a jornada de 40 horas semanais para os
A partir de 1980, a redução da jornada passou a
trabalhadores, já tem quase um século.
ser crescente em vários continentes e hoje já se
Foi aprovada em Genebra, em 4 de junho
configura uma realidade mundial.
de 1935, para gerar emprego a milhões
de desempregados, principalmente nos Veja o quadro:

Países 1980 1984 1988 1990 1992 1994 1998 2000 2001 2002 2003
Austrália 1 - - 36,1 35,8 35,5 36,0 35,7 35,6 35,2 34,9 34,8
1
Alemanha 41,6 40,9 40,2 39,7 39,0 38,3 39,8 39,8 40,8 41,5 40,8
Canadá 1 - 32,0 32,1 31,3 30,0 31,2 31,4 31,6 31,6 31,9 -
2
Coreia do Sul 51,6 52,4 51,1 48,2 47,5 47,4 45,9 47,5 47,0 46,2 -
2
Espanha 39,7 37,6 37,2 37,4 36,8 36,8 36,7 35,9 35,9 35,7 35,4
2
EUA 43,3 43,3 41,3 41,2 40,5 41,0 40,6 41,0 40,6 40,5 42,6
França 2 41,1 39,1 39,1 39,1 39,1 39,9 39,8 39,0 38,4 38,3 38,6
Israel 2 36,5 36,0 35,6 35,9 36,7 37,4 37,1 37,8 36,9 37,3 37,0
Japão 2 - - 46,8 45,7 44,1 43,2 42,3 42,7 42,2 42,2 42,0
Noruega 2 35,5 35,0 35,8 35,3 34,9 35,0 35,3 35,1 34,9 34,8 34,6
R. Unido 3 - - 40,6 40,5 40,0 40,1 40,2 39,8 39,8 39,6 39,6
Suíça 2 - - - - 36,1 36,1 36,2 36,4 36,2 35,6 35,6
Itália 2 - - - - - 39,5 39,4 39,3 39,3 38,2 38,3
Fonte: OIT. Anuário de Estatística de Trabalho
Notas: ¹ Horas remuneradas; ² Horas trabalhadas; ³ Exceto Irlanda do Norte

56 LABOR
Dieese faz projeção favorável
A economia brasileira está pronta para de cooptação da mão de obra, pois o projeções apenas ao impacto que a redução
implantar a jornada de 40 horas semanais em relativo aumento de renda que a hora extra de jornada teria em relação ao custo do
todos os setores da economia. Quem afirma é o proporciona e sua prática diária e ininterrupta trabalho, aplica-se aos 9% da redução de
coordenador de Atendimento Técnico Sindical fazem com que o próprio trabalhador oponha jornada a elevação do custo real médio do
do Departamento Intersindical de Estatísticas resistência a iniciativas dos sindicatos em trabalho, 15,3%. Supondo que a redução
e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Airton reduzir seu volume. Nossa legislação só da jornada existisse desde 2004, o custo do
Santos, em entrevista à Labor. estabelece a quantidade diária de horas trabalho pularia para 16,67%, ainda muito
extras que podem ser realizadas – duas horas menor que o aumento de produtividade.
– porém é omissa quanto sua quantidade (continua na pág. 80)
mensal ou anual. O trabalhador, portanto,
A economia brasileira tem pode cumprir horas extras todos os dias, nos
condição de reduzir a jornada fins de semana, nos feriados, nos dias pontes.
Não há limites. A questão, então, não é se as A medida, então, promete a
de trabalho? horas extras devem ser limitadas, mas, sim,
que elas devem ser limitadas. geração de novos postos de
Airton Santos – A redução da jornada de
trabalho em 9% – de 44 horas para 40 horas
trabalho?
semanais – é mais do que compensada Aírton Santos – Embora a questão não se
pelo aumento de produtividade ocorrido E a produtividade? restrinja a simples cálculo aritmético, o Diesse
na indústria nos últimos anos. Muitas projetou, para toda a economia, o provável
empresas, dos mais diversos ramos de impacto da redução de jornada de trabalho
atividade, em todo o país, já praticam, com Airton Santos – Qual será o nível de
produtividade de um trabalhador nas duas sobre o emprego. Com base na Relação
base em acordos ou convenções coletivas, a Anual de Informações Sociais (Rais), de 2005,
jornada de 40 horas semanais. A resistência horas finais da jornada, depois de ter cumprido
as oito horas regulares? A produtividade do e considerando somente os trabalhadores
patronal à redução da jornada de trabalho com jornada de 44 horas semanais, concluiu-
se perde no tempo e tem provocado, ao trabalho é decrescente devido à exaustão física
e psicológica do trabalhador. São nessas horas, se que a redução da jornada de trabalho de
longo da história, confrontos que custaram
por exemplo, que ocorrem mais acidentes de 44 horas para 40 horas semanais poderia
vidas de trabalhadores.
trabalho. É importante observar, também, que, criar 2.252.600 novos postos de trabalho.
além de ser menos produtivas, as horas extras Esse número estava condicionado a não
são mais caras. Em outras palavras, perde-se reação, por parte das empresas, à redução
Quando houve a última produtividade pelas duas pontas. da jornada. Por esse raciocínio, para manter
o mesmo volume de produção obtido com a
redução de horas de trabalho jornada de 44 horas, as empresas teriam, com
no Brasil? Qual seria o impacto no custo
a nova situação, de contratar um contingente
de mão de obra suficiente para sustentar o
Airton Santos – No Brasil, a última redução na total da produção, no caso da nível de produção obtido com a jornada de
44 horas. Todavia, como ocorreu em 1988,
jornada legal de trabalho ocorreu em 1988,
quando foi reduzida de 48 horas para 44 horas redução da jornada para 40 quando a jornada foi reduzida em quatro
semanais. Naquela época, as resistências e
argumentos das empresas foram os mesmos
horas semanais? horas, as empresas reagiriam, aumentando
a produtividade pela introdução de novas
que ouvimos hoje em dia: aumento de custos Aírton Santos – A produtividade da indústria tecnologias e intensificação do trabalho,
e perda de competitividade. Ambos não geral, calculada pela divisão da Produção tentando compensar as horas reduzidas
ocorreram, pelo contrário, a reestruturação Física pelas Horas Pagas (PF/HP), cresceu minimizando custos. Mesmo levando em
produtiva e a reorganização do trabalho no 23,18% nos últimos dez anos (2004/2013). O consideração esses expedientes, haveria,
interior das fábricas superaram, de longe, custo real médio do trabalho cresceu 15,3% em setores mais intensivos em mão de obra,
as eventuais elevações de custos e, ainda, no mesmo período. Restringindo nossas aumento de emprego.
transferiram maior competitividade à indústria.
Talvez a alta rotatividade da mão de obra e as
terceirizações pouco planejadas expliquem
mais a perda de competitividade da indústria
do que a redução da jornada de trabalho. As
resistências patronais parecem ter mais fundo
ideológico do que econômico.

E para limitar a hora extra


habitual?
Airton Santos – A própria expressão
utilizada, “hora extra habitual”, carrega uma
contradição e revela o quanto a prática
contumaz da hora extra está enraizada na
cultura do mercado de trabalho brasileiro.
A palavra “extra” perdeu o sentido, uma vez
que já não se trata de evento extraordinário,
mas comum, “habitual”. A culpa disso são
os baixos salários ainda praticados no país,
o que obriga o trabalhador a estender sua
jornada regular para além das oito horas
diárias. Trata-se de um processo perverso

LABOR 57
Marcelo Camargo/ABr

MPT e centrais sindicais unidos


pela PEC 231/1995
Por Dimas Ximenes e Fátima Reis

O MPT e as centrais sindicais vão atuar em como os representantes da Central dos como a da redução da jornada terão os votos
conjunto para aprovar a Proposta de Emenda Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil dos trabalhadores.”
Constitucional (PEC) 231/1995, que altera a (CTB), da Central Geral dos Trabalhadores
jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas do Brasil (CGTB), da Nova Central Sindical de O sindicalista diz que o trabalhador que é
semanais sem redução de salário e aumenta Trabalhadores (NCST) e da União Geral dos respeitado e não está sempre exausto produz
a hora extra de 50% para 75% do valor pago Trabalhadores (UGT). mais e melhor e, automaticamente, a redução
pela hora normal trabalhada. O movimento também contribuirá para melhorar qualidade
foi lançado em 14 de março de 2014, em São dos produtos e, consequentemente, a
Paulo, pelo procurador-geral do Trabalho, Duas décadas competição internacional.
Luís Camargo, e o procurador do Trabalho
Heiler Natali. A PEC 231 tramita há 19 anos na Câmara

De acordo com Heiler, coordenador


dos Deputados. Apresentada em outubro
de 1995, já passou por vários processos de
Produtivo
do movimento, o MPT vai articular a arquivamentos e desarquivamentos. Em junho Para o presidente da Força Sindical do
participação de outros órgãos para fazer de 2009, a PEC foi aprovada por unanimidade Brasil, Miguel Torres, as novas tecnologias
o debate avançar dentro do Congresso pela Comissão Especial da Câmara dos permitem que o trabalhador tenha uma
Nacional. “O MPT vai conversar com seus Deputados. De acordo com o deputado federal carga mais reduzida, beneficiando patrões e
parceiros. Vai promover o avanço do Vicentinho (SP), desde então foram feitas empregados. “Além de ficar mais tempo com
debate e esclarecer a situação jurídica da diversas tentativas para incluí-la na pauta de a família, o trabalhador vai ter disponibilidade
proposta. Terá como aliadas as centrais, que votações, sem sucesso. Segundo ele, não existe para fazer cursos de aperfeiçoamento e,
vão mobilizar as massas.” Segundo ele, a consenso dentro do colégio de líderes, de em contrapartida, o empregador terá um
aprovação da PEC trará grandes benefícios forma que não há previsão para votá-la. profissional mais qualificado e satisfeito,
para os trabalhadores. “Principalmente consequentemente mais produtivo.”
a melhoria da condição de saúde do Vicentinho vê a redução da jornada como
trabalhador, com o aumento do convívio uma necessidade social, considerando que O líder sindical conta que, em São Paulo, 40%
social, com repercussão na redução das faltas atualmente 40% dos trabalhadores brasileiros dos 260 mil metalúrgicos de 12 mil empresas já
regulares ao trabalho.” A redução da jornada fazem hora extra. conquistaram a jornada de 40 horas semanais
cumpriria também a Convenção 47 da OIT, e que outro aspecto positivo da medida é
que propõe o modelo da jornada ideal. O presidente nacional da Central Única dos a diminuição dos acidentes de trabalho e
Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, faz das doenças ocupacionais, já que o excesso
A proposta foi bem recebida pelas centrais questão de lembrar à classe política que de trabalho é apontado por especialistas
sindicais. O presidente da Central Única esse é o momento de aprovar o projeto. como uma das principais causas do número
dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, “Eles esquecem que trabalhador vota. E os assustador de trabalhadores doentes e
destacou que apoia o movimento, assim candidatos que empunharem bandeiras afastados de suas atividades. X

58 LABOR
LABOR 59
Discriminação

Desigualdade de
gêneros
Mulheres recebem salários menores do que os homens,
sofrem assédio e ocupam menos postos de chefia
60 LABOR
Ilustrações: Cyrano Vital

Por Fabíula Sousa

Persiste a discriminação ascensão na carreira ao anunciar


profissional contra a mulher. A a gravidez e Ana foi assediada
jornalista Maria e a aeroviária sexualmente pelo chefe, além
Ana (nomes fictícios) são ter seu direito ao adicional de
exemplos disso. Maria viu periculosidade ignorado por
desaparecer sua possibilidade de questões de gênero.

LABOR 61
Ex-funcionária da companhia aérea TAM, Ana ponta – os que recebem mais de 20 salários vez mais frequentes. A notícia de uma rebelião
era constantemente abordada com insinuações mínimos – percebemos uma inversão: 0,8% dos em um presídio na mesma cidade foi outro
pelo chefe da base onde estava lotada. “Nunca homens estão nessa faixa salarial e o percentual exemplo. “O assédio era muito velado. Não
aconteceu de me passarem a mão, mas em de mulheres é de apenas 0,3%”, fala a analista sabia se os mandos e desmandos vinham da
reuniões, ele me falava que quando me via de políticas sociais Mariana Brito, ligada à direção de Brasília ou da de São Paulo.”
lembrava de sexo. Dizia que eu tinha a boca Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM)
gostosa e nem conseguia imaginar o que eu da Presidência da República.
poderia fazer com ela.”
Adoecimento
A aeroviária trabalhou um ano e 10 meses na
empresa, quando foi demitida por questionar Pessoa jurídica O assédio continuou depois do nascimento do
o motivo de as mulheres terem sido retiradas bebê. Três semanas após o retorno da licença
de atividades na pista de pouso. Na época, a Maria trabalhava na filial de Brasília da TV maternidade, ela foi escalada para plantões
Justiça havia determinado o pagamento de Record como celetista e também fazia de 12 horas seguidas, o que inviabilizava a
adicional de periculosidade à função, uma pequenos trabalhos na Record News sem amamentação da criança, já que ficava difícil
soma de 30% a mais no salário. Esse direito nenhum registro em carteira, com a promessa armazenar uma quantidade de leite suficiente
era tido pela gerência como uma espécie de que, se abrisse uma empresa, poderia para tanto tempo de ausência. Seu horário de
de promoção, cuja preferência era sempre
para homens. A justificativa era a força física
necessária para a atividade.

É bem provável que o número de mulheres


que sofrem ou sofreram assédio sexual seja
superior ao de homens. No entanto, fica difícil
comprovar, porque a prática ainda é pouco
denunciada e ocorre de forma muito subjetiva.
No geral, as mulheres sentem vergonha, medo
de se expor e de sofrer represálias ao falar sobre
o assunto. Faltam canais nas empresas para
que as pessoas possam denunciar o assédio
de maneira anônima. Em 2013, a Delegacia
da Mulher (Deam), em Brasília, registrou 21
ocorrências de assédio sexual no trabalho
envolvendo mulheres entre 16 e 50 anos.

Machismo
A ideia corrente de que a mulher pode ter
contribuído para esse tipo de comportamento
demonstra o machismo ainda arraigado
na sociedade e serve como mecanismo
para a impunidade. “A diferença sexual
é determinada por fenômenos de cunho
históricos e culturais e o que pertence ao
campo da cultura pode e deve ser alterado
para acabar com as relações de dominação
entre os sexos”, diz a procuradora do Trabalho
Lisyane Chaves Motta, que responde pela
Coordenadoria Nacional de Promoção de
Igualdade de Oportunidades e Eliminação da
Discriminação no Trabalho (Coordigualdade)
no Ministério Público do Trabalho (MPT).

No Brasil, as mulheres economicamente ativas trabalhar com pautas nacionais, o que lhe saída e entrada também era habitualmente
têm, em média, 7,3 anos de estudo, enquanto proporcionaria maior visibilidade profissional. desrespeitado. Outra prática irregular comum
os homens, 7,1 anos. Segundo dados da As companhias costumam contratar seus na emissora era a de os empregados baterem o
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio empregados como pessoas jurídicas para ponto para a saída e continuarem trabalhando,
(Pnad) 2013, do Instituto Brasileiro de Geografia reduzir os encargos trabalhistas, o que é o que dificultava a fiscalização da jornada de
e Estatística (IBGE), quanto mais elevado o grau uma fraude. “No dia seguinte ao anúncio da trabalho e abria precedentes para o excesso de
de escolaridade das mulheres, maior a diferença gravidez, fui devolvida à Record Brasília e, em carga horária.
salarial na comparação com os homens. De seguida, fui rebaixada de função e passei a
cobrir somente notícias locais.” Durante o período em que trabalhou grávida,
acordo com a pesquisa, o salário feminino ela teve 18 infecções urinárias e três crises
equivale a 73% do rendimento masculino, de erisipela (infecção cutânea). Ao final de
Além de ser tirada das coberturas nacionais,
sendo que, entre as trabalhadoras com 12 uma licença médica causada por uma crise
a jornalista começou a ser escalada para
anos ou mais de estudo, essa percentagem de síndrome do pânico na empresa, Maria
acompanhar casos perigosos, como o
cai para 66%. Mesmo em setores como saúde, pediu demissão. Em função da medicação que
vazamento de amônia em uma fábrica de
educação e serviços sociais, cuja maioria dos precisou tomar, seu leite secou. “A gravidez
frango em Brazlândia, cidade-satélite do
trabalhadores é de mulheres, o salário em durou nove meses e a licença, seis. Nesse
Distrito Federal. “Não é porque eu estava
cargos de chefia corresponde a apenas 60% do período, nunca faltei um dia ao meu trabalho.
grávida que iria me recusar a fazer o trabalho.
rendimento masculino. Às vezes que precisei faltar foi porque eles me
Mas por que, com uma equipe de 40 repórteres,
“Se analisarmos a distribuição dos rendimentos fui eu a escolhida?” Naquele dia, ela passou deixaram doente.”
do trabalho de mulheres e homens ocupados mal e, como consequência do contato com
a substância, teve um sangramento e um Hoje, Maria continua sendo acompanhada por
com 15 anos ou mais de idade, perceberemos um psicólogo para superar a depressão que
que 66,8% das mulheres recebem até dois princípio de aborto.
adquiriu com a experiência e a briga na Justiça
salários mínimos. Por outro lado, são 58% com a TV Record. Ela pedia reconhecimento do
Coberturas jornalísticas que expunham sua
dos homens que possuem essa mesma vínculo empregatício e indenização por danos
saúde e eram incompatíveis com os cuidados
remuneração. Quando vamos para a outra morais. “Tentei trabalhar de novo em televisão,
próprios à gravidez foram se tornando cada

62 LABOR
Jornada dupla
mas não conseguia entrar ao vivo. O jornalismo 2013. No edital, eram exigidas avaliação
para mim virou sinônimo de algo ruim. Por isso, ginecológica detalhada às candidatas aos
decidi me afastar da profissão.” cargos de delegado, escrivã e investigador,
As mulheres brasileiras dedicam duas vezes inclusive com a apresentação de atestado
mais tempo aos afazeres domésticos que os médico comprovando a virgindade das
mulheres e indicando “hímen íntegro”. A
Amamentação homens. Essa dupla jornada interfere no espaço
feminino no mercado de trabalho. Dados exigência foi suspensa após manifestação
de 2012 do Instituto de Pesquisa Econômica da Ordem dos Advogados do Brasil na
O parágrafo 1º do art. 389 da Consolidação das Bahia (OAB-BA), que considerou o exame
Leis do Trabalho (CLT) obriga estabelecimentos Aplicada (Ipea) mostram que as mulheres com
atividade econômica gastam, em média, 22 discriminatório, do Ministério Público do
com pelo menos 30 mulheres a destinar Estado da Bahia (MP-BA), que solicitou
local para a amamentação. Recentemente, horas por semana com tarefas do lar, tempo
ainda bem superior ao dedicado pelos homens alteração das regras do concurso, e de
o Ministério Público do Trabalho (MPT) algumas candidatas, que reclamaram da
conseguiu na Justiça que o shopping center sem ocupação, que é de quase 13 horas.
discriminação. A seleção, de responsabilidade
Crystal, em Curitiba, fosse condenado a da Secretaria da Administração do Estado da
A coordenadora do Instituto de Pesquisa
instalar um local apropriado, com vigilância Bahia (Seab), foi organizada pelo Centro de
Aplicada da Mulher (Ipam), Tania Fontenele,
e assistência, para as funcionárias deixarem Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) da
explica que esse acúmulo de funções acaba
por tornar as mulheres escravas de si mesmas. Universidade de Brasília (UnB).
“Elas querem dar conta de tudo e aí adoecem.
Ao se tornarem mães, se afastam do mercado
e a reinserção profissional é difícil. A solução
mais procurada para conciliar esses papéis
é o trabalho de meio expediente, o trabalho
em casa.” Para a estudiosa, o impasse pode
ser resolvido com mecanismos de harmonia Duplamente
entre as obrigações com a casa, com a família
e com o trabalho, o que demandaria maior
envolvimento dos homens. discriminadas
Para Tania, também faltam políticas públicas A remuneração de uma mulher negra
para amparar a carreira das mulheres, equivale a 40,3% do ganho de um homem
principalmente no que diz respeito à criação branco, enquanto uma mulher branca
de creches e escolas integrais para seus filhos. recebe 70% da remuneração masculina, de
Escolhas pessoais, questões comportamentais acordo com dados de 2013 da Organização
e até a educação recebida pelas mulheres Internacional do Trabalho (OIT). A Pnad
são outras razões que dificultam a ascensão daquele ano mostra que a percentagem de
profissional. “As próprias mulheres se boicotam. negras que trabalham como empregadas
Não aceitam alguns desafios devido ao domésticas é de 21,7%. Essa taxa cai para 13%
comportamento tipicamente feminino, que entre as não-negras.
preza por não se expor muito. Mais assertiva,
ela perde oportunidades, recua.” A Pnad revela De acordo com o Departamento Intersindical
que o acesso feminino a cargos de direção de Estatística e Estudos Socioeconômicos
permanece aquém do esperado: 5% para as (Dieese), metade das mulheres negras
mulheres e 6,4% para os homens. está fora dos números sobre a população
economicamente ativa. “Apesar da suposta
democracia racional, ainda há muito
preconceito na nossa nação. A questão
Promoção racial é muito marcante por aqui. O Brasil
foi um dos últimos países a romper com a
A procuradora do Trabalho Lisyane Chaves escravidão”, explica Tania Fontenele.
Motta diz que a precarização do trabalho
das mulheres é também mais frequente.
O emprego doméstico, por exemplo, é
responsável pela ocupação de 13,17% das
os filhos nesse período. Na ação, o MPT pediu

Mecanismos de
mulheres que trabalham fora de casa. “Há
a responsabilização da administração do um número maior de mulheres trabalhando
empreendimento por todas as trabalhadoras em regime de tempo parcial e nos trabalhos

equiparação
do local. Em 2013, outros três shoppings da marcados por maior informalidade.
capital paranaense comprometeram-se com Enquanto o trabalho manual e repetitivo é
o MPT a criar creches e a fornecer espaços predominantemente atribuído às mulheres,
semelhantes às empregadas. o trabalho que exige maiores conhecimentos
técnicos é predominantemente destinado aos Tramitam na Câmara dos Deputados dois
“O direito tem que ser interpretado de modo a homens. A falta de perspectiva promocional na projetos de lei (PL) relacionados à igualdade
alcançar sua finalidade social e com o objetivo carreira também é maior entre elas.” entre mulheres e homens no mundo do
de que tal atuação seja replicada e cumpra trabalho. O PL 6.653/09 cria mecanismos
um papel pedagógico em relação a outras para coibir práticas discriminatórias e o PL
atividades em que há grande concentração 371/11 propõe punição e fiscalização da
de mulheres nos locais de trabalho. A desigualdade salarial.
Coordigualdade está organizando uma
atuação articulada em diferentes capitais do Essa desigualdade também vem sendo

Do esdrúxulo
país para que os shoppings centers instalem combatida por meio dos cursos oferecidos
creches nos locais de trabalho”, conta a pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e Emprego (Pronatec), do governo

ao crime
procuradora Lisyane.
federal. Segundo a Secretaria de Políticas para
O artigo 389 da CLT prevê, ainda, o pagamento as Mulheres (SPM), 66% dos matriculados são
de auxílio-creche à mulher. O valor e a duração mulheres. Além das capacitações voltadas
desse pagamento dependem da convenção A discriminação e o assédio contra a mulher para atividades tradicionalmente femininas,
coletiva de cada categoria profissional. O também ocorrem no serviço público. Um são promovidos cursos para áreas conhecidas
benefício é concedido quando as empresas não caso emblemático foi o edital do concurso como masculinas, como a construção civil e a
oferecem esse espaço aos bebês. para a Polícia Civil da Bahia, lançado em tecnologia da informação. X

LABOR 63
Ana Alves

Um trocado
pelo seu futuro
Trabalho precoce é realidade no mercado informal dos
vendedores; combate exige mudança de cultura
64 LABOR
Infância perdida

Em nome do reforço no “melhor trabalhar que roubar”,


orçamento doméstico, em razão pais levam filhos de até 5
da pobreza ou até motivados anos para o trabalho pesado,
pelos sonhos de consumo, sepultando as chances de um
crianças e jovens menores de futuro melhor para eles.
18 anos enfrentam o trabalho
informal pesado nas areias As reportagens de Ludmila di
das praias e em feiras livres, Bernardo, Ana Alves e Laís Reis
borracharias e locais não menos mostram o enfrentamento do
impróprios e inadequados. MPT a essa realidade e algumas
Seja pela necessidade, seja das conquistas obtidas no
pela cultura enraizada de que é combate ao trabalho precoce.

LABOR 65
Nas areias da praia
No Guarujá, crianças e adolescentes fazem serviço
pesado e proibido

Por Ludmila di Bernardo

Enquanto milhares de crianças e adolescentes


contam os dias para o início das férias na praia,
outras centenas delas já estão na areia, mas
a trabalho. São crianças e adolescentes que
ganham a vida servindo porções de petiscos
acompanhadas de caipirinha ou cerveja,
vendendo picolés e milho verde e carregando
cadeiras e guarda-sóis para complementar
a renda da família ou mesmo para a própria
sobrevivência. Verônica é uma delas. Aos 16
anos, franzina e delicada, Verônica foi um dos
20 adolescentes afastados do trabalho irregular
nas praias do Guarujá (SP), durante uma
operação planejada pelo Ministério Público
do Trabalho (MPT) em São Paulo, em parceria
com a Superintendência Regional do Trabalho
e Emprego (SRTE), para coibir a exploração do
trabalho infantil no local.

Na manhã do dia 14 de fevereiro, Verônica


carregava o peso da comida e da bebida sob
o sol e sobre a longa faixa de areia quente que
separava o quiosque em que trabalhava dos
banhistas, quando as procuradoras do Trabalho
em São Paulo Elisiane dos Santos, Celia
Camachi Stander, Mariana Flesch, Giselle Alves
de Oliveira e a procuradora regional Sandra Lia
Simón a abordaram.

Fotos: Ludmila di Bernardo


“Trabalho neste quiosque há dois meses, mas
antes trabalhei em outro ponto da praia e
antes disso em uma loja na cidade. Nunca fui
registrada, mas como preciso pagar o aluguel e
sustentar minha filha, acabo fazendo qualquer
trabalho que aparecer”, explicou. Sua rotina é
dura. Desde os 14 anos, sai de manhã para o
trabalho e deixa a filha na casa da tia. Trabalha
sem nenhuma proteção, debaixo do sol, o dia
todo antes de ir para a escola, que voltou a Legal adolescentes foram afastados do trabalho e,
pela primeira vez, tiveram uma carteira de
frequentar em 2013. Quando as aulas terminam,
Em média, começavam o serviço por volta trabalho com anotações sobre o tempo que
passa na casa da tia para pegar a filha e dormir
das 8h e terminavam às 18h, com uma hora exerceram os serviços e os salários recebidos.
em casa. Não sabe se no dia seguinte terá
de almoço. Nos fins de semana, a jornada se A eles foram pagos também os valores das
trabalho ou dinheiro para o leite e as fraldas.
estendia até às 20h. O pagamento era na base verbas rescisórias.
Todos os quiosques em funcionamento na praia da diária, entre R$ 30 e R$ 40 mais 10% de
comissão sobre a conta. Com a carteira de trabalho nas mãos,
de 5 quilômetros de extensão foram visitados
Verônica, que já morou na rua, foi
pelas equipes de procuradoras e auditores
Os quiosques flagrados mantendo abandonada pela mãe, espancada pela
fiscais. Durante a ação, 20 adolescentes
adolescentes em situação de exploração de madrasta e ignorada pelo pai, comemorou:
menores de 18 anos foram identificados, dois
trabalho foram autuados pelos fiscais do “Agora entendo que só mesmo um emprego
deles com 15 anos. O serviço realizado por
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os legalizado vai me dar condição de crescer.
eles enquadra-se no conceito de piores formas
proprietários receberam orientação sobre Serei encaminhada para um programa de
de trabalho infantil, prejudiciais à saúde e
a proibição de trabalho de adolescentes e aprendizagem e vou ter tempo de estudar e
segurança e à moralidade, pois trabalhavam
se comprometeram com o MPT, por meio me preparar melhor. Quero fazer tudo direito
sob sol forte, montam e desmontam guarda-
de termo de ajustamento de conduta, a para dar à minha filha não só bens materiais,
sóis grandes e pesados, além de servirem
observarem as regras protetivas do trabalho mas atenção, amor e segurança, coisas que
bebidas alcoólicas, atividade proibida a
da criança e do adolescente. Todos os nunca tive.”
adolescentes nessa faixa etária.

66 LABOR
Falta política pública
Após a ação na praia, o grupo observou não é papel deles sustentar a família. É dever Além disso, o MPT recomendou que
que, para erradicar esse tipo de trabalho de do Estado proporcionar meios para que esses o município encaminhe à Câmara de
adolescentes nas praias, seria preciso ir além jovens tenham as oportunidades que merecem Vereadores projeto de lei, ainda em 2014,
e providenciar, além dos encaminhamentos para um futuro melhor”, alertou Elisiane dos para criar programas sociais municipais de
direcionados aos adolescentes e suas Santos. Ela explicou que o MPT solicitou combate ao trabalho infantil. Pediu, ainda,
famílias, como o pagamento das verbas aos serviços nacionais de aprendizagem atendimento às famílias cujos filhos estejam
rescisórias, inscrição em programas sociais no Comércio (Senac) e na Indústria (Senai) em situação de trabalho proibido. “É preciso
e possibilidade de inserção em programas e à Associação de Estabelecimentos do apresentar uma resposta mais efetiva à
de aprendizagem. Seria necessário Guarujá para que desenvolvam programas de sociedade, especialmente às famílias dos
também exigir do poder público municipal aprendizagem na cidade e absorvam a mão de adolescentes retirados da situação de
a implantação de políticas públicas obra desses adolescentes. exploração. Não é só o empregador que
direcionadas a essa população. precisa se adequar, mas há ações a serem
O município também foi intimado a fazer a busca realizadas pelo município, no campo de
“Não podemos fechar os olhos para esse ativa e resgatar as crianças e os adolescentes políticas públicas, e também junto às
tipo de exploração. Apesar de o fato desses explorados no trabalho, além de fazer um empresas, no campo da aprendizagem”,
adolescentes trabalharem por necessidade, diagnóstico do trabalho infantil na região. explicou Sandra Lia Simón.

Persistência e futuro
No saguão do hotel Ilhas da Grécia, no Guarujá,
um garoto solícito e sorridente dá boas vindas
onde fazia de tudo um pouco, desde arrumar as
gôndolas, carregar caixotes de frutas e outros
Sonho
aos hóspedes, checa se os vasos estão bem produtos até empacotar compras. Era um E foi na praia, carregando cadeiras para
arrumados, se os livretos de turismo estão serviço pesado, “mas quem está precisando os hóspedes do hotel, que Gleison foi
em ordem na mesa ao lado da recepção. Ele é se sujeita a tudo”, afirma o garoto. Sete meses encontrado pelas procuradoras em diligência.
mensageiro, tem 16 anos e se chama Gleison depois voltou para o quiosque, onde, além “Chamamos os donos do hotel e vimos que
Lima dos Santos (foto abaixo). Está feliz por de servir na areia, trabalhava na cozinha. Nos Gleison era registrado. Porém, o serviço que
trabalhar com carteira assinada e poder investir períodos de baixa temporada, fazia pequenos ele estava prestando não era adequado a
em seus sonhos: aprender inglês e estudar fora serviços na casa da patroa. sua idade. Apesar de não trabalhar servindo
do país.
Entre um serviço e outro, Gleison ligava para bebidas alcoólicas, ele exercia atividades
Mas nem sempre foi assim. Há quatro anos, o hotel pedindo emprego. “Ele sempre nos que exigiam esforço físico intenso e ficava
a mãe, que era funcionária do hotel, morreu, procurava, pedindo uma vaga para trabalhar exposto à radiação solar o dia todo”, contou
deixando Gleison e mais três filhos aos aqui, mas nós sabíamos que ele não tinha idade Elisiane dos Santos.
cuidados do pai, que já tinha outra família. e só poderia trabalhar a partir dos 16 anos”,
Gleison começou a trabalhar na praia, servindo explica Giovanni Santana, gerente do hotel. “No O hotel foi autuado, mas não quis dispensar
fregueses de um quiosque, aos 12 anos. dia em que completou a idade, veio aqui e nós o o jovem trabalhador. “Conversamos com as
Quando a alta temporada acabou naquele contratamos como atendente do hotel na praia, procuradoras e soubemos que poderíamos
ano, conseguiu emprego em um mercadinho, que é um serviço que oferecemos aos hóspedes.” manter o Gleison se mudássemos o contrato
dele de ajudante para mensageiro, função que
ele podia exercer dentro do hotel e não mais
na praia. E assim fizemos, pois, apesar da vida
difícil, ele é muito responsável, esforçado e
inteligente, e sabemos que tendo um emprego
decente poderá crescer e alcançar seus
sonhos”, explicou Giovanni.

Gleison sorri ao contar o caminho que fez


até chegar nessa função. “Tenho a sorte de
ser respeitado no trabalho. Mas já fiz muita
coisa difícil, trabalhos pesados, muitas horas
de trabalho que prejudicavam o estudo”.
Hoje, ele exerce uma função compatível
com sua idade, tem um salário de mais de
R$ 900, mais gorjetas das taxas de serviço e
outros benefícios pagos pelo empregador,
como vale-transporte e cesta básica. Não tem
saudades dos tempos na praia, “mas procuro
fazer sempre um bom trabalho, onde quer
que me coloquem”.

Com condições adequadas de trabalho e


tempo para estudar, Gleison sonha com um
futuro. Estuda à noite, faz aulas de inglês e, aos
sábados à noite, frequenta um curso de gestão
empresarial, tudo pago com seu salário. Quando
fizer 18 anos, vai lutar pela tutela dos irmãos.

LABOR 67
Além da questão social
Pais alegam proteger filhos ao fazê-los trabalhar desde cedo

Por Ana Alves

Diariamente, centenas de crianças interrompem


a infância para assumir responsabilidades e
e a necessidade de sobrevivência, a cultura do
trabalho e o consumismo.
Educação
ajudar no sustento das famílias com o que O servidor público José Douglas Barbosa
arrecadam trabalhando nas feiras de Sergipe. O consultor de tecnologia da informação Bonfim acredita que a ferramenta mais
Marcel Almeida não desaprova o trabalho de eficaz para combater o trabalho infantil seja
“Tia, quer uma ajudinha?” É dessa forma que crianças e adolescentes nas feiras livres de a educação. Frequentador da feira do bairro
crianças e adolescentes abordam as pessoas Aracaju desde que não atrapalhe os estudos, Augusto Franco há anos, a maior da capital
para carregar as compras e, em troca, receber, a jornada seja curta e a criança tenha um sergipana, fez questão de colocar os filhos
quando muito, de R$ 3 a R$ 5 pelo serviço. A momento destinado para o lazer. “Acredito na escola aos 2 anos de idade para que eles
maioria percorre as feiras com um carrinho de que seja uma questão de sobrevivência. pudessem aprender, desde cedo, os conceitos
mão, acompanhando os compradores. Ao final, Entendo que boa parte das crianças que de sustentabilidade e de trabalho infantil.
levam a mercadoria ao destino escolhido pelos estão aqui hoje esteja buscando uma renda José Douglas afirma nunca ter usado mão de
clientes. Muitas vezes, o peso que carregam complementar. Não estou querendo justificar obra infantil nas feiras. “Toda semana vejo
é superior ao peso de seus próprios corpos. o trabalho infantil. Se elas estiverem na crianças trabalhando, geralmente são meninos
Há também as que trabalham nas barracas escola, recebendo educação adequada e carregando mercadorias, o que, pra mim, é o
vendendo roupas, frutas, verduras e carnes. vierem ajudar os seus pais nas feiras, não tem pior tipo de serviço que uma criança pode fazer,
Independentemente do ramo ao qual se problema algum”, argumenta. devido ao peso e ao esforço físico gasto para
dedicam, o objetivo dessas crianças é ajudar carregar o carrinho de mão cheio de compras.”
aos pais e complementar a renda das famílias.
O funcionário público lamenta a situação,
Nas feiras livres de Aracaju e do interior
sergipano – Itabaiana, Lagarto e Tobias Barreto Capitalismo por entender que as crianças são forçadas
a trabalhar pela necessidade financeira.
– não é difícil encontrá-las. Ele acredita que a fiscalização deve ser
Por acreditar que se trata de uma questão
A atividade é passada de pai para filho. cultural, o servidor público Geraldo Mendonça intensificada para evitar a exploração da mão
Não tem tamanho, sexo e idade definidos. apoia em parte o combate ao trabalho infantil. de obra infantil.
Começam cedo, aos 5 ou 6 anos de idade, e Geraldo entende que, nas feiras, somente o
são submetidas a uma jornada longa, com carregamento de mercadorias é prejudicial para

Caravana da
início ainda de madrugada. Seguem até o fim a criança e o adolescente e afirma que antes
da tarde ou, no caso das feiras noturnas, noite de acabar com a mão de obra infantil é preciso
combater as causas que levam essas crianças ao

consciência
adentro, para se tornarem “pais de família”. Elas
têm a obrigação de levar a renda para casa e labor e solucionar o problema das famílias mais
ajudar no sustento dos pais e irmãos. pobres. “O MPT tem razão em se preocupar
com a questão, mas há outro problema maior.
O trabalho de menores de 16 anos é proibido, Esse pessoal que trabalha aqui, na feira, tem Sergipe tinha cerca de 44 mil crianças e
salvo na condição de aprendiz, a partir de uma cultura do interior. Eles estão acostumados adolescentes entre 5 a 17 anos trabalhando
14 anos, segundo o artigo 60 do Estatuto da a colocar os jovens pra tr abalhar desde cedo. em 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro
Criança e do Adolescente (ECA). Além disso, O carregamento de mercadorias deveria ser de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2011,
é proibido o trabalho noturno, insalubre, fiscalizado. Já o pessoal que ajuda os pais na esse número caiu para próximo de 40 mil e,
perigoso ou penoso realizado em locais venda da feira, que estuda, não tem problema. em 2012, aumentou para aproximadamente
prejudiciais à formação e ao desenvolvimento Agora, para proibir o trabalho infantil deveria 50 mil. Os municípios de Aracaju, Itabaiana,
físico, psíquico, moral e social a menores de 18 ser feito um estudo, pois às vezes quem leva o Estância, Itabaianinha, Lagarto, Nossa Senhora
anos, conforme o artigo 67 da mesma lei. alimento para a família são essas crianças aqui da Glória, Nossa Senhora do Socorro, Poço
com o dinheiro que ganham na feira. E aí, como Redondo, Poço Verde, Simão Dias, Porto da
O trabalho em feiras é considerado pela é que fica?”, indaga. Folha e Tobias Barreto são os que apresentam
Organização Internacional do Trabalho (OIT) os maiores índices.
como uma das piores formas de trabalho Para o procurador-chefe do Ministério Público
infantil, e deve ser eliminado do mapa do Trabalho (MPT) em Sergipe, Raymundo O aumento da taxa de trabalho infantil é
brasileiro até 2015, de acordo com o Plano Lima Ribeiro Júnior, o segundo fator citado por preocupante. Assim, em junho de 2013, o
Nacional de Prevenção e Erradicação do Danival Falcão, atrelado à ineficiência das políticas MPT em Sergipe, em parceria com a Caravana
Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente públicas de educação e assistência social, são de Combate ao Trabalho Infantil, percorreu
Trabalhador. os principais causadores do trabalho infantil. vários municípios para tentar sensibilizar a
“Vivemos em sociedade capitalista, movida pelo população sobre os problemas causados pelo
dinheiro e pelos bens materiais, e isso estimula trabalho infantil. Várias instituições estão se
as pessoas ao consumo. A educação não liberta unindo para combater a exploração da mão
Pobreza, trabalho as pessoas, não estimula a convivência solidária e de obra de crianças e adolescentes. O Governo
e consumismo a visão crítica do mundo. Ela reproduz o sistema. Federal está contemplando os municípios
Mesmo que a economia do país melhore, ainda com maiores índices, inclusive com recursos
O presidente do Fórum Estadual de Prevenção passaremos bom tempo convivendo com muitas financeiros. Danival Falcão ressalta que “é nítida
e Erradicação do Trabalho Infantil de Sergipe das mazelas relacionadas ao trabalho, inclusive a necessidade de utilizar esses dados para
(Fepeti-SE), Danival Falcão, revela três fatores o infantil, pois falta à sociedade brasileira a priorizar ações de promoção, proteção e defesa
para o trabalho nessa fase da vida: a pobreza construção de um alicerce de civilização.” dos direitos violados”.

68 LABOR
Ana Alves

O fórum é espaço de mobilização de agentes


institucionais. Busca implementar ações Cidade dos caminhoneiros
e das feiras
para prevenir e erradicar o problema. Por
sua vez, o MPT-SE pune quem insiste em
descumprir a lei. No caso de atividades em
espaços públicos, entende que a obrigação
de combater o trabalho infantil é do poder Itabaiana é a quarta maior cidade de Sergipe. família de 11 irmãos e começou a trabalhar na
público local. Assim como nas rodovias Localizada no agreste, distante 56 quilômetros feira aos 7 anos. Na época, os pais, feirantes,
federais a responsabilidade é da União, nas de Aracaju, é conhecida nacionalmente como levavam os filhos para ajudá-los na lida. Hoje,
ruas é da municipalidade. Por este motivo, a “terra dos caminhoneiros”. Apesar de ter o aposentados, ela e a irmã herdaram o ponto.
o MPT em Sergipe ajuizou ações contra os maior número de caminhões por habitante no Assim como os pais, Adriana leva a filha de 8
municípios de Aracaju, Nossa Senhora da país, não é só do transporte de cargas que vive anos (foto na pág. anterior) para ajudá-la na
Glória, Poço Verde, Areia Branca e Poço a população de Itabaiana. O setor do comércio feira aos sábados e também às quartas-feiras,
Redondo, além de ter firmado termos de movimenta a economia do município. desde que não haja aula na escola.
ajuste de conduta (TACs) com Itabaiana,
Campo do Brito e Simão Dias. No último censo do IBGE, a cidade ganhou O flagrante foi feito em um desses dias.
outro título, o de segundo maior índice Adriana diz que se pudesse escolheria um
“Não podemos permitir que em uma de trabalho infantil de Sergipe, perdendo emprego melhor, que não fosse tão cansativo
atividade autorizada pelo poder público somente para a capital. e que não exigisse tanto dela. “Talvez
local, em espaço público, haja exploração professora, advogada ou promotora. São
de crianças e adolescentes. Se o gestor Nos dias de feira, quarta e sábado, é comum profissões que eu gostaria que meus filhos
público não faz a sua parte para transformar a flagrar crianças e adolescentes trabalhando tivessem no futuro. Quero que meus filhos
realidade social, cabe o ajuizamento de ação em barracas, lanchonetes e com carrinhos de tomem decisões melhores do que as que
civil pública visando à adoção de políticas mão. A cultura local é muito forte e as crianças eu tomei. Quero que estudem e tenham um
públicas e reparação dos danos causados à começam desde cedo a “ajudar os pais”. É futuro melhor”. Mesmo com essa ideia na
coletividade”, diz Raymundo Ribeiro. o caso das irmãs Luciana e Adriana (foto cabeça, ela não deixa de levar os filhos para
abaixo), que aprenderam com o pai o ofício trabalhar nas feiras. Acredita, ainda, que a
de feirante. Luciana conta que nasceu em ajuda não é prejudicial para as crianças.

Capacitação
Segundo o procurador-chefe do MPT-SE, o
conteúdo dos TACs e das ações civis públicas
O discurso de sempre
variam de acordo com a situação encontrada
em cada município, mas, geralmente, buscam Os argumentos são sempre os mesmos de pais Segundo a feirante, o dinheiro arrecadado
a adoção de políticas públicas e medidas para e defensores do trabalho infantil. “É melhor pela filha serve para comprar pertences para
prevenir e impedir o acesso das crianças e trabalhar do que ficar livre para roubar” é um a menina. Josefa conta ainda que tem outro
adolescentes ao trabalho em locais públicos. deles. “Aqui, ela aprende um ofício” é outro. filho de 16 anos, mas que ele detesta ir à feira e
A capacitação dos servidores, a adoção de Há, ainda, o “preciso de ajuda para sustentar prefere estudar.
programas de aprendizagem profissional na meus outros filhos” e “perto de mim, ela está
administração pública municipal para jovens livre das drogas”. Contrário a esse discurso, o MPT batalha para
vulneráveis, em parceria com instituições que o poder público implemente políticas
qualificadas em aprendizagem, como os É com esse pensamento que a feirante Josefa públicas e ofereça alternativas à sociedade.
serviços nacionais de Aprendizagem Industrial dos Santos, 37 anos, leva a filha de 11 para Os membros da instituição sabem que o
(Senai) e Comercial (Senac), e o aparelhamento a feira, pelo menos três vezes por semana. problema é grave e sua solução, complexa,
de órgãos públicos, como os centros de Ela argumenta que é preferível que a filha mas defendem o direito das crianças
referência em Assistência Social (Cras), e de trabalhe a ficar em casa e começar a namorar e adolescentes e cobram dos poderes
referência especializado (Creas) e o Programa cedo. Na feira de Lagarto, Josefa mantém duas constituídos o cumprimento da lei, de forma
de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), barracas. Ela cuida de uma delas. A outra é voluntária, ou repressiva, com ações na Justiça
também são medidas adotadas. responsabilidade de sua filha (foto na pág.71). do Trabalho.

LABOR 69
Histórias nada incomuns
Jovens reconstroem suas vidas em Pernambuco
Por Laís Reis*

Cyrano Vital

Queria mesmo era deixar de depender dos pais de novo, desta vez para o serviço. Com o adolescentes trabalhando em Pernambuco.
e ajudar em casa. Filho de trabalhador rural tempo que sobrava “tinha que estudar, senão Destas, 103.805 têm entre 15 e 17 anos.
e de dona de casa, desejava ter seu próprio não conseguia acompanhar os colegas”. Somente na capital, Recife, são 21.212 menores
dinheiro, comprar suas coisas sem ter de pedir O menino, hoje com 18 anos, abandonou de 18 anos em situação de trabalho irregular.
a ninguém. Nada além do bom filho e do o emprego aos 15, porque além de não Eles estão em aterros sanitários, feiras livres e
adolescente padrão. Assim começou a vida conseguir conciliá-lo com a escola, percebeu outros logradouros públicos, borracharias, lava-
como trabalhador. Das 17h às 22h, servia mesas que “o barato saía caro”. jatos, casas de farinha e polos de confecções.
numa lanchonete, na cidade de Araripina,
a 692 quilômetros do Recife. O emprego foi “Ganhava R$ 35 por semana, mas quando tinha Embora não tenha estado em nenhum desses
oferecido por um amigo da família. Ganhava fome durante o trabalho, comprava coxinha lá locais, Sílvio, junto com mais 20 jovens,
R$ 35 por semana, trabalhando de segunda mesmo, na cantina. Daí, tinha vezes que eu não também vítimas do trabalho infantil, está tendo
a sábado. Não era difícil no começo. Havia recebia nem a metade”, disse, lembrando que, a oportunidade de reconstruir a vida, por meio
poucos clientes. Quando o negócio aumentou, com o passar do tempo, o trabalho foi ficando dos estudos e, ironicamente, do trabalho.
foi transferido para o caixa e a cozinha. Já tinha cada vez mais pesado e cansativo. “Tinha dia A nova história em comum que esse grupo
algum dinheiro para comprar o que quisesse. que, por conta do movimento, a agonia era passou a partilhar este ano tem a ver com a
Pena não tivesse tempo para gastá-lo. demais, um corre-corre danado.” atuação do Ministério Público do Trabalho
(MPT) em Pernambuco. Se por um lado é
Aos 13 anos, Silvio Araújo Borba (foto acima) A história de Sílvio retrata apenas uma das faces bandeira do órgão atuar contra o trabalho
tinha o dia cheio de afazeres. Estudava pela do trabalho precoce. De acordo com dados infantil, por outro, há também a fiscalização do
manhã, das 7h às 12h30, depois, voltava de 2012 da Pesquisa Nacional por Amostra de cumprimento da cota de aprendizagem exigida
para ajudar em casa. Às 17h, era hora de sair Domicílio (Pnad), existem 137.593 crianças e por lei às empresas.

70 LABOR
Aprendizagem para a qual está se capacitando. O jovem
deve estar matriculado regularmente no Parcerias
ensino fundamental ou médio e frequentar
Essa dupla missão institucional tem instituição de ensino técnico profissional “Além de estar me formando como profissional,
permitido que jovens egressos do trabalho conveniada com a empresa. Aliando o também tenho oportunidade de ganhar muito
infantil integrem os quadros das empresas combate ao trabalho infantil com o estímulo mais conhecimento, em comparação com o
de Araripina por meio da aprendizagem. à aprendizagem, o MPT tem buscado não trabalho que tinha antes, servindo mesas ou
O trabalho, fruto da articulação conjunta só a prática da legislação, mas também a despachando pedidos. Aqui, a gente aprende,
com o Ministério do Trabalho e Emprego transformação da vida dos jovens. Entre 2011 se desenvolve e se prepara para entrar no
(MTE), conta com o suporte dos conselhos e 2013, das 3.291 empresas fiscalizadas em mercado de trabalho”, afirma Sílvio Araújo
tutelares municipais, das entidades do Pernambuco, foi possível a inserção de 14.283 Borba, descrevendo as atividades que executa
sistema S (Senac, Senai e Sesi), que atuam jovens aprendizes no sistema. no projeto. Sílvio termina o programa em
como entidades formadoras, e de outros novembro deste ano e espera ser contratado
Para a auditora fiscal do Trabalho Isabela de
órgãos da rede de proteção à criança e ao pela empresa.
Queiroz Gonçalves, no entanto, os números
adolescente. A iniciativa levou em conta os
não chegam nem perto do real potencial Atualmente, o MPT trabalha para a
números do trabalho infantil contabilizados
do estado. Segundo os dados do Cadastro implementação do programa em Salgueiro,
no estado. Araripina foi a cidade em que mais
Geral de Empregados e Desempregados também no sertão de Pernambuco, onde,
crianças e adolescentes foram encontrados
(Caged), de dezembro de 2013, o estado nos últimos dois anos, foram encontrados
pela fiscalização do trabalho. Ao todo, 163,
tem um potencial enorme de vagas para 43 crianças e adolescentes em situação
nos dois últimos anos. Pelo censo do Instituto
aprendizes. Se todas as empresas cumprissem de trabalho. Ao todo, 15 empresas já se
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
a cota, 44.450 jovens poderiam estar fora do comprometeram, por meio de termo de
de 2010, a cidade tem 2.908 jovens de 10 a
trabalho infantil e estariam aprendendo e se ajuste de conduta (TAC), a cumprir a cota da
17 anos, sendo 21% deles, ou seja, 581, em
capacitando para o mercado de trabalho”. lei do aprendiz.
situação de trabalho.
“Às vezes, são os gestores das empresas “Não basta tirarmos a criança e o adolescente
A procuradora do Trabalho Vanessa Patriota
que consideram a contratação mais um do trabalho precoce, é preciso recolocar esse
da Fonseca, à frente da ação pelo MPT em
custo. O que eles não entendem é que isso jovem na sociedade, fazê-lo sentir-se útil”, diz a
Pernambuco, junto com o procurador Ulisses
é bom para a empresa, diminui a violência e procuradora Vanessa da Fonseca. X
Dias de Carvalho, explica que a condução dos
contribui para a formação e o crescimento
jovens aos cursos de aprendizagem parte tanto
de um jovem que poderia estar na rua ou * Estagiária de jornalismo no MPT em
das denúncias e fiscalizações em empresas
trabalhando irregularmente.” Pernambuco
que não cumprem a cota quanto a partir da
identificação de focos de trabalho infantil.

“Atuamos em duas frentes: através das


Sâmela Lemos sobre a foto de Ana Alves
denúncias, repassadas pelas fiscalizações
do MTE ou pela própria sociedade, ou do
planejamento prévio. Foi o que ocorreu em
Araripina, por exemplo. Pedimos uma relação
das maiores empresas da região e realizamos
audiência de sensibilização, orientação e
cobrança da cota de aprendizagem. Foi
quando aproveitamos a oportunidade
para propor que as empresas intimadas
priorizassem o encaminhamento aos cursos de
aprendizagem de adolescentes em situação de
vulnerabilidade, principalmente aqueles com
histórico de trabalho infantil”, relata.

Além dos cursos profissionalizantes, o projeto


também conta com aulas de reforço escolar
para preparação dos alunos oferecidos
pelo Sistema S. Uma das administradoras
escolares do Serviço Social da Indústria
(Sesi) de Araripina, Marismênia Nogueira dos
Santos, relata o aspecto positivo da ação.
“A nossa educação pública já se encontra
defasada de um modo geral. Embora não seja
suficiente para sanar todos os problemas, o
reforço oferecido ao aluno, tirando dúvidas
de português e matemática, por exemplo, já
consegue ajudá-los a enfrentar a realidade
da fábrica ou da indústria. Planejamos as
atividades dentro de situações-problema que
poderão viver”, afirma.

Cenário
A Lei de Aprendizagem (Lei 10.097/2000)
determina que entre 5% e 15% do quadro
de funcionários de uma empresa de médio
ou grande porte seja composto por jovens
aprendizes. De acordo com a legislação,
aprendiz é o jovem entre 16 e 24 anos
incompletos que estuda e trabalha, recebendo,
ao mesmo tempo, formação na profissão

LABOR 71
72 LABOR
LABOR 73
Sustentabilidade

As sobras da
modernidade

“A gente vive do lixo, mas todo mundo é igual”

Por Lívia Vasconcelos de Carvalho e Natália Araújo*

Em um dos trechos da BR-070, meio a milhares de urubus,


próximo à saída de Várzea a diversos perigos e ao mau
Grande, o segundo município cheiro, pessoas constroem suas
mais populoso de Mato Grosso, casas e sonham, buscando
um lugar chama a atenção sobreviver daquilo que é
de quem passa. No lixão, em rejeitado por todos.

74 LABOR
Lívia Vasconcelos

LABOR 75
Numa tarde de sol escaldante, enquanto uns mesmo depois que tomava banho para tirar condições de trabalho melhoraram e também
reviram sacolas para recolher o que ainda um pouco do cheiro, na hora que comia, a visão que a sociedade tem dos catadores. “Só
possui valor, Miguelina Gonçalina da Silva como num pesadelo, as moscas ficavam em o fato de a gente ter saído do lixão, do sol e
(foto na pág. 77), acompanhada de seus cães, cima de mim.” da fumaça já é uma grande vitória. Ver que as
puxa um carrinho carregado de papel, plástico pessoas estão valorizando o que a gente faz e,
e metal. A ex-diarista, de 67 anos, no lixão há Cooperativas e associações como a Asscavag aos poucos, deixando de lado o preconceito é
nove, começou a trabalhar na catação para são resultado do trabalho do Fórum Estadual uma alegria”, afirma Joana, viúva de um ex-
complementar a renda e, principalmente, para Lixo e Cidadania. Como Cidinha, vários catador. Seu marido teve a saúde debilitada
se tornar dona do próprio nariz. “A gente é catadores já deixaram o lixão e passaram a por doenças dermatológicas e respiratórias, em
muito humilhada nesse tipo de serviço pelos fortalecer o movimento. razão do trabalho marcado por longas jornadas,
patrões. Aqui, pelo menos, isso não acontece. A intempéries e contato com líquidos e gases
Criado em 2000 pela Secretaria de Estado
gente vive do lixo, mas todo mundo é igual.” tóxicos, materiais cortantes e animais mortos.
do Meio Ambiente (Sema), com apoio do
A catadora é proprietária de um dos barracos Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do A realidade de Poconé (MT) também mudou.
que se multiplicam na entrada do local. Fundo das Nações Unidas para a Infância Procuradores do Trabalho do MPT receberam
“Quando consigo pouco material, passo a (Unicef), o fórum é espaço de convergência a notícia de que os catadores do município
semana aqui, mas tenho uma casa na cidade de esforços dos órgãos públicos, empresas poderiam perder o galpão onde trabalhavam
também. Hoje mesmo vou descarregar esse privadas e do terceiro setor para o e decidiram organizar a reunião do fórum na
carrinho, encher mais aquele saco [aponta gerenciamento do lixo. No fórum, buscam- cidade para tentar resolver a situação. Sete
para um saco quase cheio atrás dela] e depois se soluções que englobem as perspectivas secretários do governo municipal participaram
vou para casa”, conta. O sorriso e o brilho nos ambiental, social e econômica para o problema. das discussões, visitaram o lixão, a sede
olhos contrastam com a realidade de sua vida da Cooperativa de Catadores (Coopone)
Em 2012, quando o Ministério Público do
triste e abandonada. e assumiram o compromisso de garantir
Trabalho (MPT) assumiu sua coordenação,
condições mínimas e dignas de funcionamento.
Na roda de conversa formada diante dos a principal preocupação era combater o
entulhos e das impurezas, Maria Aparecida trabalho de crianças e adolescentes. Mas a
do Nascimento, a Cidinha, como gosta de perspectiva sobre o problema ganhou novas
ser chamada, compartilha a experiência de
dimensões. A luta pelo reconhecimento e pela Respeito
dignificação dos catadores, a implantação
pertencer a uma família de catadores e de
da coleta seletiva, a reestruturação da cadeia Para a presidente da Coopone, Silvana Rosa
como, aos 47 anos, decidiu seguir um caminho
produtiva da reciclagem e a recuperação da Silva, essa medida é o começo de um novo
diferente. Ao contrário do pai, falecido, de
das áreas utilizadas como lixões passaram, capítulo na história dos catadores da cidade.
um primo, que ainda vive do lixão, e da mãe também, a ser prioridade.
e do irmão, que, embora não estejam mais no “Antes era tudo um horror. Não tínhamos apoio
local, trabalham recolhendo materiais nas ruas, da prefeitura e nem um carro para fazermos
aceitou integrar a Associação de Catadores de a coleta. Além disso, aos poucos, a população
Várzea Grande (Asscavag). Vitórias começa a respeitar nosso trabalho como
agentes ambientais.”
A Asscavag, fundada há cinco anos para oferecer
um lugar seguro e digno para os trabalhadores Embora a situação dos catadores não esteja
Reflexos exercerem sua profissão, já sente os reflexos próxima de ser solucionada, um fato requer
do fortalecimento institucional e possui 38 atenção: o fechamento de todos os lixões até
“Os atravessadores estavam se aproveitando associados. A presidente, Joana Paula de agosto de 2014, como previsto na Política
de mim. Trabalhava o dia todo no lixão e, Fátima, 51 anos, explica que de lá para cá as Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS).

Lívia Vasconcelos

76 LABOR
Natália Araújo

Fim dos lixões


De acordo com a vice-coordenadora do
Fórum Estadual Lixo e Cidadania, Terezinha
Cotriguaçu, Colíder, Juína e Matupá. Os outros
municípios dispõem unicamente da licença de
Capacitação
Rodrigues, em Mato Grosso, 119 dos 141 instalação ou da licença prévia. Terezinha explica que, após o encerramento
municípios ainda não deram início ao processo dos lixões, a ideia é que os trabalhadores sejam
de desativação dos lixões, o qual, se feito às Se o panorama impressiona, o que dizer da inseridos em projetos. Um deles, apresentado
pressas, não contemplará a participação dos coleta seletiva? Apenas Colíder, Tangará da pela Sema ao Ministério do Trabalho e Emprego
trabalhadores e seu direito prioritário aos Serra, Campo Verde, Nova Mutum e Lucas (MTE), prevê capacitações para os catadores e
materiais recicláveis e reutilizáveis. do Rio Verde instituíram a separação do lixo. o fornecimento de assessoria técnica, jurídica
Poconé, Cuiabá e Chapada dos Guimarães e administrativa para a constituição de novas
Segundo informações da Sema, em todo ainda dão os primeiros passos. O número de cooperativas. A educação ambiental deverá
o estado, apenas cinco aterros sanitários cooperativas e associações também é pequeno: ficar por conta dos municípios.
possuem licença de operação – o de Cuiabá, 30 no total.

Um olhar para o futuro


A catadora Cidinha lembra que ainda há um trabalhando em uma cooperativa. “Aqui eu não do que ela, separado naquela tarde, conta: “Fui
caminho comprido a ser percorrido. Primeiro, preciso dividir o que vendo com ninguém.” Em doméstica minha vida inteira, mas, quando
a postura dos governantes tem que mudar. meio à polêmica, há também aqueles que veem fiquei velha, não me quiseram mais, então tive
“Os projetos precisam sair do papel.” Depois, é com bons olhos a mudança, como Maria Rossi que achar outra forma de viver. Parei no lixão.
preciso lidar com os catadores que não desejam da Silva, 69 anos, tia-avó de Cidinha. Depois de 14 anos lá, vim para a associação
sair do lixão. É o caso de Denise Rita da Silva, a e só saio daqui para a minha casa ou quando
Dedé, de 61 anos. Dividindo a vida entre o lixão A ex-doméstica, já bisavó, começou a trabalhar conseguir uma aposentadoria muito boa.”
e a cidade, avalia que o dinheiro que ganha no lixão aos 52 anos e, hoje, integra a Asscavag.
hoje chega a ser o dobro do que conseguiria Empurrando um saco de material bem maior * Estagiária de jornalismo no MPT em Mato Grosso.

LABOR 77
Copa do mundo
Cyrano Vital

No país do futebol
MPT investiga trabalho escravo, exploração sexual
infantil e danos à saúde dos jogadores
profissionais em jogos do Mundial

78 LABOR
‘Padrão Fifa’ e ‘legado da Copa urbana e de entorno das a Copa do Mundo em sete
do Mundo’ tornaram-se bordões arenas envolvem milhares de cidades-sedes.
entre os brasileiros, apoiadores trabalhadores em todo o Brasil.
ou não da realização do evento Uma realidade que é bem
esportivo no país em 2014. Nas próximas páginas, as menos glamourosa do que
Para o Ministério Público do reportagens de Aline Baroni, promete ser o evento da Fifa
Trabalho, a Copa do Mundo Ana Carolina Spinelli, Carolina e envolve condições análogas
no Brasil significou uma nova Villaça, Danielle Sena, João à escravidão, precarização das
frente de trabalho e fiscalização, Ebling, Lívia Vasconcelos e relações trabalhistas, exploração
pois as obras de construção Ludmila di Bernardo mostram sexual infantil e ameaças à
e reforma de estádios e um pouco da situação dos saúde e à segurança, chegando
aeroportos, de mobilidade trabalhadores nas obras para até a morte de trabalhadores.

LABOR 79
Cuiabá

Direitos trabalhistas
distantes do
‘Padrão Fifa’

Cidade vira canteiro de obras, mas legado da Copa


pode se transformar em pesadelo trabalhista

Por Lívia Vasconcelos

Ninguém precisa ser craque remete à ideia de aprimorar ao


do futebol para entender o máximo as condições de jogo
significado do termo “Padrão e de proteção dos atletas, com
Fifa de Qualidade”. Segundo a fornecimento de certificado a
própria Federação Internacional produtos que atendam aos mais
de Futebol, o termo, que já virou elevados padrões de segurança
bordão entre os brasileiros, e qualidade.

80 LABOR
Fotos: Lívia Vasconcelos

Para sediar a Copa do Mundo de 2014 e obedecer Como consequência dessas intervenções, aeroporto reformado e dois Centros Oficiais de
ao mais exigente dos controles, nada menos que o trânsito se tornou um desafio diário para Treinamento (COTs).
12 estádios foram construídos ou totalmente a população. E está longe de ser o único.
reformados para os jogos. E a exemplo do que Preparar-se para receber um evento desse Legado
ocorreu em outras 11 subsedes, Mato Grosso se porte comprometeu não apenas a estrutura
transformou em um verdadeiro canteiro de obras. da cidade – que até março de 2014 se resumia O secretário extraordinário da Copa do
a poeira, buracos e desvios em seus principais Mundo da Fifa 2014 de Mato Grosso, Maurício
Cuiabá e Várzea Grande receberam, no trechos –, mas também os direitos trabalhistas Guimarães, declarou recentemente que a maior
total, 56 obras. Dessas, 16 foram destinadas daqueles que nada têm a ver com o fato de o parte do que foi prometido para o evento vai
à implantação do Veículo Leve sobre município, escolhido há cinco anos para sediar ficar para depois, a título de “legado”, como o
Trilhos (VLT), um dos principais projetos de os jogos, correr contra o tempo para entregar, VLT. A “confissão”, entretanto, só veio depois da
mobilidade urbana, que vai custar aos cofres em cima da hora, empreendimentos básicos tentativa de acelerar o andamento das obras
públicos mais de R$ 1,4 bilhão. para a competição, como a Arena Pantanal, um para que o calendário fosse cumprido.

LABOR 81
Irregularidades geram indenizações
Com o cronograma apertado e as crescentes meio de uma via pública, pois não existia
cobranças para observância dos prazos, os isolamento, proteção contra quedas ou
trabalhadores saíram prejudicados. Quem sinalização adequada.”
afirma é o chefe da Seção de Inspeção
do Trabalho (Seint) da Superintendência
Regional de Trabalho e Emprego (SRTE)
de Mato Grosso, José Almeida Júnior. Violações
De 2011 para cá, ele participou de várias
fiscalizações nos canteiros das obras em Apenas metade das empresas participou da
Cuiabá e Várzea Grande. reunião. Quando as fiscalizações começaram,
o resultado foi preocupante: 1.120 autos de
“Muitas ocorrências estão relacionadas à infração lavrados contra 49 construtoras e
terceirização, pois grande parte dos pequenos empreiteiras e 31 embargos e interdições,
empregadores não possui experiência em uma média de 23 irregularidades por empresa.
grandes obras, e ao provável atraso no Somente em relação àquelas que atuam na
cronograma de execução da obra, ocasionando construção da Arena Pantanal, foram detectadas
desrespeito sistemático de direitos trabalhistas, 160 violações à legislação trabalhista.
em especial a jornada de trabalho e o descanso
dos operários.” Diante desse cenário, os auditores fiscais
criticaram duramente os responsáveis pelos
Almeida, que já integrou o Grupo Móvel de projetos, salientando, em seus relatórios, que
Auditoria de Condições de Trabalho em Obras a não observância da lei é muito mais grave
de Infraestrutura (Gmai), coordenado pelo quando ocorre em obras financiadas com
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), recursos públicos. “Pior ainda quando o infrator
explica que, após observar o andamento é vencedor de licitação pública, em que se torna
das obras da Copa do Mundo no estado duplamente obrigado a seguir a legislação.”
e verificar que apresentavam inúmeras e
graves irregularidades, convidou as empresas
vencedoras das licitações para uma reunião.
A proposta era orientá-las e solicitar a adoção Acordo
de medidas para sanar, com urgência,
os problemas que geravam riscos aos Os primeiros relatórios enviados ao Ministério
trabalhadores e a toda a população. Público do Trabalho (MPT) em Mato Grosso
culminaram na instauração de 21 inquéritos
“Olhava aqueles canteiros espalhados por civis contra as construtoras e as empreiteiras.
Cuiabá e pensava: Isso aqui está uma completa Desse total, 13 firmaram termos de ajustamento
bagunça. Qualquer pessoa da comunidade de conduta (TACs) e pagaram indenizações por
– mulheres grávidas e crianças inclusive –, dano moral coletivo. Os valores, somados, já
poderia cair num buraco de sete metros, no chegam a R$ 458 mil.

82 LABOR
Trabalhadores desprotegidos
e com sobrejornada
Os maiores problemas constatados pela ainda, a falta de controle efetivo e a
fiscalização envolvendo saúde e segurança extrapolação da jornada de trabalho, a não
no trabalho estavam relacionados à concessão de descansos obrigatórios em
inexistência de proteção contra quedas, à domingos e feriados e a contratação de
precariedade de programas obrigatórios trabalhadores sem emissão da Certidão
como o de Controle Médico de Saúde Declaratória de Transporte de Trabalhadores
Ocupacional (PCMSO), aos alojamentos (CDTT), obrigatória para aqueles que vêm de
irregulares e às áreas de vivência precárias. outros estados. “Em alguns canteiros, o controle
da jornada (ponto) era marcado pela própria
“Tinha canteiro que não possuía água para empresa, por intermédio do encarregado, que
asseio. Aliás, que não possuía sequer banheiro. pré-assinalava o ponto dos trabalhadores.”
Em outros locais, por falta de refeitório, o
operário era obrigado a almoçar na parada A procuradora do Trabalho Ana Gabriela
de ônibus mais próxima. Houve, ainda, o caso Oliveira de Paula chama atenção para o fato
de um trabalhador cujo ponto marcava 12 de o excesso de jornada de trabalho ser tão
horas de trabalho por dia, em todos os dias de perigoso para o empregado quanto a falta de
trabalho do mês. Em resumo: uma completa um cinto de segurança. “O excesso de jornada
falta de respeito com o trabalhador”, critica gera a fadiga do trabalhador, deixando-o com
José Almeida. os reflexos e raciocínio mais lentos, o que
acentua, drasticamente, as probabilidades
A Superintendência Regional de Trabalho e de ocorrência de doenças profissionais ou
Emprego (SRTE) de Mato Grosso detectou, acidentes do trabalho.”

LABOR 83
Aos trancos
e barrancos
Em todo o Brasil, oito trabalhadores morreram
em arenas da Copa do Mundo: um em Brasília,
no estádio nacional Mané Garrincha; três em
São Paulo, no Itaquerão; e quatro em Manaus,
na Arena Amazonas. E, apesar de não ter
ocorrido em Cuiabá e Várzea Grande nenhuma
fatalidade, vários acidentes foram registrados.
Um deles em setembro de 2013, em um dos
trechos do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
Na ocasião, três trabalhadores acabaram
soterrados após um desmoronamento:
Araquim dos Santos Silva, de 40 anos, Liomar
Guilherme Lopes, de 35, e Paulo Batista de
Aguiar, de 43.

O procurador do Trabalho Leomar Daroncho,


que já conduzia um inquérito civil contra o
consórcio responsável pela implantação do
metrô de superfície, esteve no local algumas
semanas após o acidente e constatou outras
irregularidades, como a não concessão
do descanso semanal remunerado e do
intervalo interjornada.

O excesso de horas extraordinárias também


ficou comprovado. E pior: o pagamento
era realizado em diferentes percentuais do
estipulado em acordo coletivo firmado entre o
sindicato e o Consórcio VLT-Cuiabá, constituído
pelas empresas Santa Bárbara Construções
S/A, C R Almeida S/A Engenharia de Obras, CAF
Brasil Indústria e Comércio, Magna Engenharia
Ltda. e Astep Engenharia Ltda.

EPI
Na época, o gerente administrativo-financeiro
do consórcio, Sérgio Barreto dos Santos,
assegurou que as providências para garantir
a segurança no local tinham sido adotadas
após o acidente, como treinamentos
específicos e fiscalização mais rígida do uso de
equipamentos de proteção individual (EPIs).

Para Daroncho, no entanto, “apesar de as


empresas se mostrarem dispostas a seguir
a legislação e as normas trabalhistas, as
irregularidades implicaram burla à legislação
e afronta à dignidade humana”. O fato levou
o procurador a fixar no termo de ajustamento
de conduta, assinado mais tarde, indenização
por dano moral coletivo de R$ 220 mil, além
de cláusulas com previsão de multas para caso
de descumprimento

84 LABOR
Falta de mão de obra como desculpa
A insuficiência de força humana de trabalho Treinamento na Universidade Federal de Mato
para execução dos serviços está entre os Grosso (UFMT).
motivos que levaram ao atraso das obras.
A informação, entretanto, é rebatida pelo Quando questionado sobre os maiores
presidente do Sindicato dos Trabalhadores problemas enfrentados pelos sindicatos, ele é
na Indústria da Construção Civil de Cuiabá direto: “a terceirização, que acaba com todo o
e Municípios (SINTRAICCCM), Joaquim Dias sistema de trabalho.”
Santana. “Apesar de não ser o menor piso
salarial do Brasil, o que é pago em Mato O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas
Grosso está abaixo da média nacional. Indústrias da Construção Pesada de Mato Grosso
Por isso, muitas pessoas, ao chegarem (Sintecomp), Adão Pereira Julião, concorda. “Na
aqui, desistem de trabalhar e vão embora. verdade, todas as terceirizadas são problemáticas.
Quem faz uma obra não é a empresa, não Os consórcios, para ganhar mais dinheiro,
é o governo, não é a Secretaria de Estado pegam as mais baratas. E quem sofre é sempre o
Extraordinária da Copa de 2014 (Secopa). trabalhador, que tem que ir além do seu limite.”
Quem faz a obra é o trabalhador, que precisa Ele estima que, hoje, cerca de 3 mil operários
ser valorizado e protegido.” estejam empregados na construção pesada, que
engloba 95% dos empreendimentos da Copa.
“A mão de obra existe, mas quer ser mais bem
remunerada”, diz Santana, que acompanhou Procurada pela reportagem da Labor
de perto a mais recente greve deflagrada para comentar as diversas irregularidades
pelos operários, no dia 10 de março de 2014, constatadas pela fiscalização do Trabalho, a
no local de construção do Centro Oficial de Secopa não se manifestou sobre o assunto.

Escravidão contemporânea
nos novos estádios
Se o selo da Fifa é internacionalmente até porque a dona da obra tem que saber
conhecido como algo que imprime qualidade para quem a empresa está terceirizando suas
a um produto, o mesmo certificado não pode obrigações contratuais”, salienta.
ser concedido às obras da Copa do Mundo de
2014. As condições de trabalho nas construções José Edivan da Silva estava na lista dos
afligiram as entidades que lutam pela garantia resgatados. O jovem de 24 anos, do município
dos direitos fundamentais dos trabalhadores. sergipano de Canindé de São Francisco,
Uma delas especialmente. recebeu a proposta de uma cadeia de
aliciamento para trabalhar em Mato Grosso
No dia 6 de dezembro de 2013, após pelo salário de R$ 1.886, mais carteira assinada,
recebimento de uma denúncia, auditores fiscais alojamento e refeição três vezes ao dia. Tentado
resgataram 17 trabalhadores de condições e esperançoso com a oportunidade, ele e outras
consideradas análogas às de escravo, em uma 15 pessoas pagaram o frete da van que os
grande obra de mobilidade urbana executada transportou até Cuiabá, desembolsando, cada
no bairro Santa Rosa, em Cuiabá. Promessas um, cerca de R$ 600. Saíram numa segunda
não cumpridas, expectativas frustradas, (25/11/13) e chegaram a Cuiabá numa quinta-
sonhos desfeitos. Vindos diretamente de feira à tarde (28/11/13), mas não sem antes
Sergipe para ajudar a preparar a cidade para passarem alguns percalços, como quando o
o grande evento, se viram completamente carro quebrou na Bahia e a viagem de mais de
desamparados e desrespeitados em seus 2.687 km nem estava na metade.
direitos mais básicos.
“Quando chegamos aqui, pegaram nossa
“Recebemos a denúncia pela imprensa e nos carteira e falaram que só iam pagar R$ 1.488.
dirigimos até o alojamento. Lá, verificamos que Aí muitos já quiseram ir embora por causa
as condições eram péssimas, que a situação disso. Para piorar, o alojamento era uma
era degradante mesmo. Eles foram enganados, bagaceira, estava todo sujo. A comida, não
tiveram a carteira de trabalho retida e ficaram vou mentir, era bem ruim, e sempre passava
reféns do endividamento desde a origem, já do horário deles entregarem. A gente foi
que eles mesmos arcaram com os custos da para trabalhar, mas a firma ficou enrolando a
viagem até aqui. Ao chegarem para trabalhar, a gente”, recorda Silva.
realidade era outra”, lembra o auditor fiscal José
Almeida Júnior, que participou do resgate. Pai de dois filhos, um de 2 anos e 9 meses e
outro de 9 meses, conta que os 11 dias em que
Após o episódio, os operários foram ficou em Cuiabá foram os piores da sua vida.
encaminhados para hotéis e cadastrados para “Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo.
o recebimento do seguro-desemprego. Mas Fiquei perdido, sem saber o que fazer.” Ele,
o problema não terminou aí. Nem a dona da que só agora recebeu a primeira parcela
obra, nem a terceirizada que arregimentou do seguro-desemprego, afirma que não há
os trabalhadores quiseram assumir a dinheiro no mundo que pague a humilhação
culpa no caso. “Muito embora a lei fale em sofrida. “O jeito é fazer de conta que nunca fui
responsabilidade subsidiária, entendemos para lá”, diz o carpinteiro, que é “fã de futebol
que há uma solidariedade nessa situação, desde moleque”.

LABOR 85
Manaus

Campeã em acidentes
e operários mortos
Com prazo curto, empresas relaxam na gestão
do meio ambiente de trabalho

Por Danielle Sena e Beatriz Malagueta*

Manaus também vai receber de treinamento. As seleções


o legado da Copa do Mundo. da Inglaterra, Itália, Camarões,
A herança inclui reforma do Croácia, Estados Unidos, Portugal,
aeroporto, construção de hotéis Honduras e Suíça vão se enfrentar
e melhoria da infraestrutura, ainda na fase de classificação, na
além de estádios e os centros Arena da Amazônia Vivaldo Lima.

86 LABOR
Antenor Garcia

LABOR
87
Os prazos de entrega dos estádios nas cidades- Andrade Gutierrez o cumprimento de 63
sede começam a apertar. As construtoras, obrigações, entre elas a de abster-se de utilizar
por sua vez, cobram dos operários agilidade cinto de segurança sem dispositivo trava-quedas
e estipulam novos turnos de trabalho para ligado a cabo guia independente da estrutura
conseguir cumprir o calendário. Prazo curto, do andaime e de utilizar andaime que não seja
problema certo. As empresas contratadas construído de modo a suportar com segurança
para executar as obras, que custou aos cofres as cargas de trabalho. Outra obrigação foi exigir
públicos mais de R$ 600 milhões, deixam de a adoção de proteção instalada na periferia da
observar normas de segurança. edificação com rodapé com 20 cm de altura e
proteger todas as partes móveis de motores de
O problema fez de Manaus a cidade-sede com transmissões e partes perigosas das máquinas ao
maior número de acidentes de trabalho durante alcance dos trabalhadores. Também foi exigida
as obras de construção da arena de futebol. a instalação de sistemas de segurança em zonas
de perigo de máquinas e equipamentos e de
proteção coletiva nos locais com risco de queda

Mortes
de trabalhadores ou projeção de materiais.

Três operários morreram durante a construção


da Arena da Amazônia: duas mortes ocorreram
em 2013 e uma no início de fevereiro de 2014.
Trabalho em altura
Uma quarta morte, embora não associada Caso houvesse reincidência das irregularidades,
diretamente a acidente de trabalho, também a empresa deveria pagar multa de R$ 20 mil por
trouxe comoção ao canteiro de obras – um item descumprido.
trabalhador morreu vítima de infarto. A
construtora Andrade Gutierrez, responsável Nova fiscalização nas obras da Arena da
pela obra, se tornou, assim, alvo de uma ação Amazônia detectou o descumprimento de 12
por dano moral coletivo no valor de R$ 20 das obrigações determinadas, entres as quais
milhões. Em fevereiro, o Ministério Público do se incluía violações às normas do trabalho
Trabalho (MPT) no Amazonas pediu prioridade em altura. A juíza responsável pelo processo
no julgamento dessa ação. determinou a realização de perícia para
averiguar os descumprimentos, mas a decisão
Os procuradores do Trabalho Jorsinei Dourado foi revogada após intervenção da empresa.
do Nascimento, Maria Nely Bezerra de Oliveira e Pedido de reconsideração de perícia feita pelo
Renan Bernardi Kalil montaram uma força-tarefa MPT não foi acolhido.
para inspecionar as grandes obras em execução
na cidade, como o canteiro de obras da Arena da Em 14 de dezembro de 2013, novo acidente
Amazônia, os Campos Oficiais de Treinamento de trabalho com vítima fatal foi registrado,
(COTs) dos bairros Coroado e Colina e o envolvendo operário que também
Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. desempenhava atividade em altura.

O MPT ingressou com pedido de interdição


urgente e imediata de todos os setores da obra
Há dois anos que exerciam trabalho em altura. O pedido
foi acatado pela Justiça do Trabalho e caso a
Essa história começa em 2012. Em janeiro, a determinação fosse descumprida, a construtora
Andrade Gutierrez, responsável pela obra da pagaria multa no valor de R$ 200 mil.
Arena Amazônia, havia assinado um termo
de ajustamento de conduta (TAC) com o MPT Durante três dias de dezembro de 2013, a
no Amazonas. No acordo, a construtora tinha força-tarefa do MPT e auditores fiscais da
se comprometido a corrigir irregularidades Superintendência Regional do Trabalho e
relacionadas às condições de trabalho na Emprego (SRTE) acompanharam a fiscalização
indústria da construção civil. feita por peritos da Justiça do Trabalho e da
Andrade Gutierrez.
No início de 2013, durante fiscalização
no canteiro de obras, os procuradores do
Trabalho flagraram o descumprimento de 17
das 22 cláusulas do documento. Além disso, Suspensão
detectaram violação de outras obrigações
relacionadas às normas de saúde e segurança Somente após regularizar o trabalho no canteiro
do trabalho, como locais com risco de queda de obras, a empresa conseguiu desinterditar
ou de projeção de materiais; aberturas no piso as obras em altura. Porém, a construtora ainda
com risco de queda de trabalhadores, e pessoas estava obrigada a continuar adotando todas as
circulando sob a área de movimentação de medidas das normas regulamentadoras do meio
carga sem isolamento ou identificação. ambiente do trabalho. Também foi estabelecida
a suspensão do trabalho noturno sem iluminação
Em março de 2013, um operário morreu ao cair natural em atividades na cobertura do estádio.
de uma altura de cinco metros no canteiro de A construtora teve que fortalecer a gestão
obras da Arena Amazônia. para prevenir acidentes no canteiro de obras,
duplicando o efetivo de técnicos de segurança e
O MPT pediu judicialmente a execução do TAC e treinando os operários.
também ajuizou uma ação civil pública solicitando,
como pedido liminar, o cumprimento, por parte Um mês após o acidente que levou à morte o
da empresa, de várias obrigações relacionadas à terceiro operário, ocorrido em 7 de fevereiro de
saúde e segurança dos trabalhadores, assim como 2014, o MPT fez nova fiscalização. A construtora
o pagamento de indenização por danos morais Andrade Gutierrez recebeu uma recomendação
coletivos no valor de R$ 20 milhões. de cunho jurídico para regularizar as falhas
encontradas e o MPT ingressou com um pedido de
Em maio, a Justiça do Trabalho acatou o pedido prioridade na tramitação e julgamento do mérito
liminar do MPT, determinando à Construtora da ação civil pública, que ainda não foi julgada.

88 LABOR
Escravidão contemporânea nos novos estádios

Nas obras do Aeroporto Internacional Eduardo


Gomes, falta fornecimento de equipamentos de
descumprimento da interdição judicial, multa
no valor de R$ 50 mil por dia. O pedido foi
Interdição
proteção individual (EPIs), há problemas com deferido pela Justiça do Trabalho em 20 de Além disso, os guindastes usados para
fiações elétricas, isolamento inadequado de janeiro de 2014. movimentar estruturas pré-moldadas estavam
materiais, fiação submersa e máquinas de serra posicionados de maneira inadequada, com
em exposição. risco de tombar a qualquer momento e
ocasionar um grave acidente de trabalho.
Em 17 de janeiro, o MPT entrou na Justiça do
Trabalho com uma medida cautelar contra o Campo oficial A J. Nasser Engenharia, construtora responsável
Consórcio Encalso, Engevix e Kallas, responsável O canteiro de obras do Campo Oficial de pela obra do COT do Coroado, foi notificada a
pelas obras de ampliação e reforma do Treinamento (COT) da Colina também comparecer no MPT. Em janeiro, a Justiça do
aeroporto em Manaus. sofreu fiscalização do MPT. A obra, de Trabalho acatou pedido do MPT e determinou
responsabilidade da construtora Tecon – que fosse interditado todo e qualquer trabalho
O grupo possui 832 operários trabalhando, Tecnologia em Construção Ltda., apresentou em altura no canteiro de obras do COT, assim
dos quais 301 terceirizados de 40 empresas poucas irregularidades. Mais tarde, uma como nos serviços que utilizassem guindastes,
diferentes. A terceirização precária foi outro notificação recomendatória foi emitida para máquinas ou equipamentos elétricos, até que
problema constatado, já que os trabalhadores que a empresa adotasse as providências fossem cumpridas as normas de segurança
também recebiam os salários atrasados. “As necessárias para corrigir as falhas. previstas na legislação. Caso a empresa
empresas contratadas na terceirização ou insistisse em descumprir a decisão judicial, seria
quarteirização, geralmente, não têm idoneidade Durante a fiscalização no canteiro de obras cobrada multa diária de R$ 30 mil.
financeira para honrar os compromissos junto do COT Carlos Zamith, no bairro Coroado,
aos trabalhadores e, principalmente, para foram constatadas irregularidades em toda a A construtora deveria comprovar a adoção
oferecer medidas de saúde e segurança dos instalação elétrica do canteiro de obras, que das medidas de segurança referentes à
trabalhadores nos canteiros de obras”, explica também descumpria os padrões exigidos proteção contra queda e de andaimes e
Jorsinei Nascimento. pela concessionária de energia do Estado, a plataformas, para ter liberado os trabalhos
Eletrobrás Amazonas Energia. Para o MPT no em altura. Já para poder manusear os
Na ação, os procuradores do Trabalho Renan Amazonas, a situação constitui potencial risco guindastes e máquinas elétricas, a J. Nasser
Bernardi Kalil, Maria Nely Oliveira, Ana Raquel à segurança dos trabalhadores. deveria cumprir com as normas de segurança
Sampaio Pacífico e Jorsinei Dourado do contra tombamentos e adotar medidas de
Nascimento pediram, em caráter liminar, Andaimes sem escada de acesso proteção coletivas, isolar as áreas em que
a interdição judicial de todo o trabalho incorporadas, locais de risco de queda sem houvesse movimentação de cargas por
realizado em altura (risco de queda) nas obras proteção coletiva, ou com guarda-corpo guindastes e, ainda, fazer a instalação elétrica
do aeroporto. E, ainda, que as atividades só instalado de maneira inadequada, operadores do canteiro de obras de forma adequada,
fossem retomadas quando um perito judicial de máquinas sem uniforme, sem crachá de com instalação de botões de emergências e
certificasse o cumprimento das normas de identificação e sem EPI e retroescavadeiras isolamento de partes rotativas em todos os
segurança por parte da empresa contratada. sem alarme de ré foram algumas das maquinários e equipamentos.
Também foi requerido, caso houvesse irregularidades constatadas.
*Estagiária de jornalismo do MPT no Amazonas

Chico Batata

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Brasília

Calor, o principal
adversário

Período de realização dos jogos é de muito calor na maioria


das sedes; Capital Federal sofre com ar extremamente seco

Por João Ebling

Está definido. Caso haja calor parada técnica de três minutos


excessivo ou baixa umidade para hidratação e resfriamento
durante jogos da Copa do do corpo dos jogadores. Para
Mundo, a solução da Federação a pausa ocorrer, ainda será
Internacional de Futebol (Fifa) necessária avaliação prévia
será interromper a partida do coordenador médico e
quando o cronômetro estiver do representante da Fifa, do
em torno de 30 minutos em coordenador geral da partida e
cada tempo, realizando uma do aval do árbitro.

90 LABOR
Cyrano Vital

Recentemente, a Federação Nacional dos Atletas aberto após da denúncia, é preocupante a esportiva nos horários estabelecidos –
Profissionais de Futebol encaminhou à Fifa prática esportiva nesses horários. Ele lembrou mesmo nos jogos das 13h e 15h. De acordo
documento demonstrando a inadequação de as recomendações médicas sobre o não com o estudo da Fifa, “nenhum dos locais
jogos às 13h e 15h, o que resultou em denúncia aconselhamento de atividade física entre 10h e que receberá partidas nesses horários
registrada no Ministério Público do Trabalho 16h, ainda que para atletas. “Antes do astro, o ultrapassou a marca de 32ºC nos últimos
(MPT) no Distrito Federal. Em audiência, o jogador é também um trabalhador. É fato que três anos.”
presidente da Federação dos Atletas, Rinaldo atletas de alto rendimento possuem preparo
José Martorelli, afirmou que ainda não obteve físico melhor do que outras pessoas, mas, em Quando questionado sobre o motivo das
qualquer resposta sobre os estudos enviados, compensação, também exigem muito mais de escolhas desses horários, Ramacciotti afirmou
que comprovam o dano à saúde dos atletas. seus corpos.” que a Copa é uma competição curta, que
necessita adequar várias partidas em um
Segundo o advogado da Fifa, Flávio mesmo dia, em horários diferentes. Disse
Astro Aldred Ramacciotti, a entidade levantou ainda que por ser “o maior evento do planeta”,
as condições climáticas nas cidades-sedes é preciso pesar o interesse de torcedores no
Para o procurador do Trabalho Valdir Pereira da Copa do Mundo de 2014 e, em todos mundo todo, que vão acompanhar a Copa em
da Silva, responsável pelo inquérito civil os locais, não há problemas para a prática seus países.

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Especialistas A ameaça da baixa umidade
O fisiologista Turíbio Leite de Barros alerta
sobre os riscos presentes em jogos com
calor excessivo e baixa umidade. Ele é um
dos responsáveis pelos laudos utilizados Em Brasília, o grande problema é a baixa
pela Federação Internacional dos Jogadores umidade relativa do ar. Segundo o Instituto desde 1985. Em sua carreira, ele já presenciou
Profissionais de Futebol (FIFPro) para reclamar Nacional de Meteorologia (Inmet), a vários jogadores sofrendo em razão da seca
à Fifa os horários dos jogos. Em seu artigo temperatura máxima média da cidade nos na cidade, e lamenta nunca ter sido tomada
“Jogos da Copa do Mundo: 13 horas no meses de junho e julho, nos últimos dez anos, nenhuma medida por parte das organizações
Nordeste?”, Turíbio demonstra preocupação: gira em torno dos 25ºC, o que não prejudicaria locais. Segundo ele, a combinação do clima
“O impacto desta sobrecarga térmica para o rendimento dos jogadores, nem ofereceria seco com o horário inadequado é prejudicial
atletas disputando uma competição de alto risco à sua saúde. Porém, nesse período, é à saúde do atleta. “Não tenho dúvida de que
rendimento causa grande temor. O futebol de sabido que a seca na cidade é comparável à jogos nesses horários oferecem risco.
hoje é disputado em um nível de competição de climas desérticos. Na análise do Inmet, a
muito elevado, com os atletas percorrendo O ambiente na época da seca influi muito. A
umidade relativa do ar na capital federal “chega
cerca de 12 mil metros em 90 minutos de jogo.” perda de eletrólitos durante uma partida às
a valores críticos, em torno de 15% em junho e
13h é muito grande. O atleta está muito mais
julho.” Nesses meses, algumas escolas fecham
Especialistas de outras partes do mundo fazem exposto a ter problemas físicos. De toda maneira,
em razão do risco à saúde do estudante.
coro. O artigo Current knowledge on playing a pausa técnica proposta ameniza a situação.”
football in hot environments, publicado no
Scandinavian Journal of Medicine & Science in Rol Weberton Faúla comanda, há 16 anos,
Sport, afirma que os organizadores precisam equipes no Distrito Federal. Ele já treinou
acrescentar intervalos para ingestão de líquidos profissionalmente as equipes do Legião Futebol Parâmetros
e prever cobertura médica, caso a temperatura Clube e do Capital Clube de Futebol e hoje é o
responsável pelas categorias de base do Legião. Flávio Ramacciotti não soube precisar os
global de bulbo úmido (WBGT) – temperatura
“Eu já tive jogador passando mal por falta de ar. parâmetros oficiais para estabelecer ou
percebida quando a pele está molhada e
Os campeonatos de Brasília das categorias de não os intervalos, tampouco acredita que
exposta à movimentação do ar – seja maior do
base têm os jogos marcados para 10h30 e 14h, há possibilidade de ajustar os horários em
que 30ºC. Ainda segundo o estudo, após atingir
o que aumenta a incidência dos casos.” situações adversas.
os 32ºC, o evento deve ser “reconsiderado”.
Perguntado sobre os jogos da Copa em Brasília Em decisão recente, sete partidas tiveram seus
Já o Jet lag and environmental conditions that que ocorrerão às 13 e às 15 horas, Rol Faúla foi horários remarcados, em que pese a afirmação
may influence exercise perfomance during the taxativo: “além da qualidade do futebol cair, o da entidade de que o motivo para as alterações
2010 FIFA World Cup in South Africa é ainda risco à saúde do atleta é iminente. Vai baixar a era retirar os jogos nas sedes mais quentes,
mais rigoroso. Segundo o artigo, o WBGT acima umidade. Vai faltar ar. Vai secar, sangrar o nariz.” identificadas como Manaus e Recife, do horário
dos 28ºC já representa um “risco muito grande” das 13h e 15h.
para a saúde dos atletas.
Pausa Apesar da mudança e da justificativa da
A própria Fifa reconhece que o risco da prática entidade, ainda há duas partidas marcadas para
esportiva é considerado “alto com WGBT superior Walter Rios Zambrana é médico da Sociedade 13h em Recife e outras no mesmo horário em
a 29,4ºC e extremo com WBGT a 32,2ºC”. Esportiva do Gama e atua em Brasília na área capitais nordestinas – Natal, Salvador e Fortaleza.

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são paulo

Suspeita de
exploração sexual
infantil
MPT investiga denúncia no Itaquerão; construtora
contrata ONG para orientar trabalhadores

Por Ana Carolina Spinelli

Em dezembro de 2013, a agência Mundo. Segundo a matéria,


de notícias ANRed publicou haveria garotas usuárias
reportagem denunciando a de drogas morando na
exploração sexual de crianças Comunidade da Paz, próxima
e adolescentes nas imediações ao estádio, e se prostituindo
do Arena Corinthians, estádio nos arredores das obras. Seus
em construção que fica no principais clientes, abordados
bairro paulistano de Itaquera na Av. Miguel Inácio Curi, seriam
e abrigará jogos da Copa do operários da construção.

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Fotos: Glauco Schiavo

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A procuradora regional do Trabalho Sandra faz campanha de esclarecimento aos
Lia Simón intimou a empresa Odebrecht, empregados, afixando cartazes em locais de
responsável pela construção do estádio, a grande circulação de trabalhadores.
tomar medidas com relação às denúncias. A
construtora afirmou não ter conhecimento
de empregados envolvidos em situação de
exploração sexual infantil e acrescentou que Providências
fornece transporte aos trabalhadores até o
metrô, de modo que eles “não permanecem Sandra Lia Simón também determinou
em alojamentos no entorno da obra”. à Secretaria Municipal de Assistência e
Desenvolvimento Social (SMADS) que crianças
A organização não governamental (ONG) e adolescentes encontrados em situação de
Terra dos Homens foi contratada, sob exploração, e também suas famílias, fossem
recomendação da procuradora, para abordados, identificados e conduzidos a
fazer estudo de impacto sobre o tema. A programas de assistência social. À Polícia
instituição constatou que a exploração Militar, solicitou a tomada de providências
sexual infantil é questão constantemente emergenciais na região, “considerando-se que
abordada nos chamados Diálogos Diários a exploração sexual infantil vem acompanhada
de Segurança (DDS), momento de debate do tráfico de drogas, em regra perpetrado
entre os empregados da empresa, ocorrido por organizações criminosas”. À Secretaria de
diariamente, e que também trata de Obras da Prefeitura de São Paulo, solicitou uma
assuntos como segurança no trabalho. relação de todas as empresas com obras no
A ONG constatou ainda que a empresa entorno do estádio.

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Acidentes causam três mortes
Por Ludmila di Bernardo

No dia 28 de março o operário Fabio Hamilton andaimes, ausência de guarda-corpo e rodapé “É muito séria essa afirmação, uma vez que
da Cruz fazia a montagem das arquibancadas em todo o perímetro dos andaimes, além as inspeções realizadas pelos auditores fiscais
móveis da Arena Corinthians, em São Paulo, de diversas aberturas no piso. Os operários do Trabalho vinculados à Superintendência
que estavam sendo instaladas para ampliar a também trabalhavam sem medidas especiais Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo
capacidade do estádio e atender às exigências de proteção contra insolação e ventos fortes, e (SRTE/SP) são fundamentais para a instrução de
da Fifa, quando escorregou e caiu de uma altura a eles não era exigido o uso de equipamentos inquéritos civis em curso no MPT. A instituição,
de oito metros. Levado para o hospital, Fabio de proteção individual. muitas vezes, se vale dos relatórios de autos
foi operado, mas não resistiu aos ferimentos. de infrações emitidas pela inspeção para
Após a intervenção do MPT em São Paulo, em embasar as investigações do órgão”, explicou
Fabio era funcionário da WDS Construções, maio de 2013, as principais irregularidades a procuradora-chefe do MPT em São Paulo,
empresa contratada pela Fast Engenharia, relativas à proteção dos trabalhadores foram Claudia Regina Lovato Franco.
que por sua vez foi contratada pela Ambev, sanadas, outras ainda continuavam em
que, pelo acordo de patrocínio com a Fifa, implantação. “Nenhuma delas, porém, teve Desde o início da construção do estádio, foram
deve providenciar a instalação provisória de influência no acidente que matou os dois realizadas várias inspeções pelos procuradores
arquibancadas com lugares para cerca de 20 trabalhadores em novembro de 2013”, afirma do Trabalho e engenheiros peritos em
mil torcedores. Segundo as primeiras notícias, o procurador do Trabalho Roberto Ribeiro segurança do trabalho do MPT, que tomaram
Fabio não estaria usando equipamento de Pinto, responsável pelo inquérito sobre o as medidas urgentes necessárias, inclusive
segurança adequado. primeiro acidente na Arena Corinthians. “Nós solicitando aos órgãos competentes o imediato
continuamos acompanhando as investigações embargo das obras.
O jovem de 23 anos foi a terceira vítima de que irão esclarecer o motivo do acidente. Já
acidente de trabalho ocorrido no canteiro de para este novo fato, o acidente que causou a Os peritos aguardam laudos do Instituto
obras da construção do estádio que vai abrir a morte do terceiro operário, foi aberto um novo Médico Legal e do Instituto de Criminalística
Copa do Mundo. Ele trabalhava ao lado do local inquérito pelo MPT”, afirmou. para fechar o relatório que será entregue
onde, em novembro de 2013, um guindaste, aos procuradores responsáveis pelos casos
que içava material metálico de 500 toneladas, para embasar as providências que deverão
caiu. O acidente causou a morte de dois
trabalhadores e reacendeu a discussão sobre
Notificação ser tomadas.

o ritmo acelerado das obras e as altas cargas Dias após o acidente que levou à morte do Enquanto aguardam os laudos, os procuradores
horárias cumpridas por operários, levando, em terceiro operário, o superintendente regional notificaram as empresas Fast Engenharia,
muitos casos, a acidentes fatais. do Trabalho em São Paulo, Luis Antonio de WDS Construções e Ambev a apresentarem
Medeiros Neto, declarou: “estamos fazendo os contratos firmados entre elas. À WDS,
Os casos foram incluídos em inquéritos de conta que não vemos algumas coisas empregadora do operário morto, o MPT
civis instaurados pelo MPT em São Paulo, irregulares” durante inspeções no local. também requisitou o livro de registro de
que desde 2012 apurava irregularidades no empregados, com as informações relativas
meio ambiente de trabalho nas obras de O fato teve grande repercussão não somente na à admissão e jornada de trabalho de Fábio,
construção do estádio e na jornada de trabalho imprensa, mas também entre os procuradores e assim como a cópia de cartões de ponto dos
dos operários. Em outubro daquele ano as peritos do MPT e motivou o órgão a encaminhar trabalhadores na Arena e comprovantes de que
inspeções constataram ausência de proteção ofício ao superintendente Medeiros, para que ele realizaram treinamento prévio e tomaram as
nos vãos dos assentamentos de alvenaria nos esclarecesse a declaração. medidas adequadas de proteção.

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Fotos: Aline Baroni

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curitiba

De cidade modelo
a dúvida da Copa
Orçamento da Arena da Baixada mais que dobrou e
irregularidades chegaram a quase uma centena

Por Aline Baroni

Curitiba quase ficou de fora críticas em relação ao montante


da Copa por conta do atraso do financiamento público
na obra da Arena da Baixada. destinado, também geraram
O estádio “mais moderno do nervosismo a lentidão com
país” se tornou uma incógnita que a obra de um estádio
para a Federação Internacional considerado “quase pronto”
de Futebol (Fifa) e para os caminhou e as diversas
curitibanos. A polêmica passa irregularidades trabalhistas
principalmente pelo orçamento, encontradas pelo Ministério
inicialmente cotado em R$ Público do Trabalho (MPT) no
135 milhões, em 2011, e que, Paraná, que fizeram com que as
em fevereiro de 2014, saltou obras fossem embargadas pela
para R$ 330 milhões, um Justiça do Trabalho em 1º de
aumento de 144%. Além de outubro de 2013.

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Após o Ministério Público do Trabalho Assim, em julho de 2013, propusemos uma 11 horas entre as jornadas, de uma hora para o
(MPT) no Paraná começar a acompanhar ação civil pública para que, judicialmente, a almoço, nem descanso semanal remunerado. Os
todas as obras da Copa, recebeu, no mês empresa regularizasse o trabalho dos mais de salários também estavam atrasados, o que fez
de junho de 2013, da Superintendência mil operários”, conta a procuradora do trabalho com que cerca de 300 operários parassem de
Regional do Trabalho e Emprego no Estado Marília Massignan Coppla. trabalhar entre 10 e 16 de dezembro de 2013.
(SRTE), relatório de fiscalização com 80
irregularidades, a maior parte relacionada à Nova ação foi ajuizada por Marília Massignan
Coppla, no dia 3 de outubro de 2014, após
saúde e a segurança do trabalhador.
Risco o Clube Atlético Paranaense novamente ter
Qualquer visita à área externa ao estádio se recusado a assinar o TAC para adequar a
permitia identificar algumas delas: os operários Uma nova fiscalização, feita entre 16 e 27 de situação das jornadas administrativamente. Em
trabalhavam sem guarda-corpos, sem cinto de setembro de 2013, comandada pelo Grupo audiência, afirmaram que a “equipe de recursos
segurança contra quedas ou com o cinto sem a Móvel Especializado de Auditoria em Grandes humanos não tem preparo para efetuar
ancoragem correta. Obras de Infraestrutura (Gmai) do Ministério corretamente o registro em folha-ponto”.
do Trabalho e Emprego (MTE), autuou 208
Além do risco de queda dos trabalhadores, irregularidades. O local de trabalho não oferecia A Justiça do Trabalho determinou, então, que
havia ainda outro: o das cargas, transportadas água potável aos operários, não tinha armação o clube cumprisse as normas da jornada de
suspensas sem isolamento do local. resistente contra quedas, havia pontas de trabalho e o MTE ficou de fiscalizar se a situação
vergalhões de aço verticais desprotegidas e havia sido regularizada.
“Os procuradores começaram, então, a gruas montadas sem orientação do engenheiro
investigar cada uma das 30 empresas responsável. Além de um ambiente arriscado O Clube Atlético Paranaense foi contatado pela
responsáveis pela reforma, e alguns termos de para os trabalhadores, ainda havia jornada Labor, mas não quis se posicionar a respeito
ajustamento de conduta (TAC) foram assinados. excessiva e sem intervalos. Frequentemente, das irregularidades encontradas à época. À
A CAP S/A, empresa criada pelo Clube Atlético a jornada extrapolava o limite de duas horas reportagem também não foi permitida a visita
Paranaense, se recusou a fazer o acordo. extras diárias, não havia o descanso mínimo de ao estádio.

100 LABOR
Obras de mobilidade sob investigação
A Prefeitura de Curitiba também está envolvida entrada da cidade. Vinte e oito irregularidades
com outras cinco obras da Copa, as de foram detectadas na fiscalização feita no
mobilidade. Financiadas pelo Programa de viaduto. Os fatos geraram a instauração de oito
Aceleração do Crescimento (PAC), elas precisam procedimentos investigatórios no MPT. Em março
ficar prontas para servir aos turistas e também de 2014, a obra foi embargada parcialmente pela
devem ser uma herança do campeonato para SRTE-PR, pois apresentava grave risco à segurança
a cidade. Uma delas é o viaduto estaiado, na e à integridade física dos trabalhadores.

LABOR 101
natal

Cultura de prevenção
diminui riscos

Parceria do MPT com SRTE investiu na fiscalização


preventiva, sistemática e periódica das obras

Por Carolina Villaça

Mais de 5 mil trabalhadores 2011, a preocupação constante


participaram da construção da com a saúde, a segurança
Arena das Dunas, estádio que dos trabalhadores e com as
vai ser o palco de quatro jogos condições do meio ambiente
da Copa do Mundo de 2014 em do trabalho foi a realidade do
Natal. Apesar da convivência Ministério Público do Trabalho
diária com riscos de acidentes (MPT) no Rio Grande do Norte e
graves, como queda de altura ou da Superintendência Regional
falha dos guindastes que içavam do Trabalho e Emprego (SRTE),
gigantescas peças pré-moldadas, que atuaram em parceira, de
não houve acidente fatal. Desde forma preventiva, sistemática
o início da obra, em setembro de e periódica.

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Fotos: Carolina Villaça

Para a procuradora regional do Trabalho Ileana OAS, que hoje integra o Arena da Dunas, se conduta (TAC) com o Consórcio Arena Natal.
Neiva, que acompanhou as ações, “o trabalho instalava no canteiro de obras. Ao todo, foram A procuradora Ileana Neiva participou de
em equipe, ainda no começo da construção, 58 dias de fiscalização em 28 meses, uma média fiscalização que deu origem ao primeiro
foi fundamental para formar uma cultura da de mais de duas visitas por mês. Durante a TAC, firmado em novembro de 2012. Uma
prevenção”. O objetivo não era apenas evitar construção, as ações envolveram nove auditores das cláusulas estipulava que, antes de iniciar
acidentes de trabalho típicos, mas também a fiscais do Trabalho. O resultado foi 15 autos qualquer etapa da obra, o consórcio já deveria
ocorrência de doenças relacionadas ao trabalho, de infração aplicados, um embargo parcial, executar as medidas de segurança previstas
como câncer de pele e dermatoses, que uma investigação de acidente e inúmeras no Programa de Condições e Meio Ambiente
poderiam até prejudicar contratações futuras notificações. “Tudo era encaminhado ao MPT do Trabalho na Indústria da Construção Civil
do trabalhador. Além disso, foi obtida a garantia para promover um ambiente seguro e saudável (PCMAT). “A construtora também foi obrigada
de condições dignas nas áreas de vivência, para os trabalhadores,” conta o auditor fiscal a respeitar os fatores climáticos locais, como
com constante acompanhamento do estado do Trabalho Carlos Pereira da Silva Júnior, que as rajadas de vento e a exposição ao sol, o que
dos alojamentos, das refeições servidas, da coordenou e participou da maior parte resultou na colocação de coberturas em toda a
potabilidade da água, da higiene dos banheiros e das ações. obra,” fala Ileana.
do fornecimento de filtro solar aos trabalhadores.
Durante a fiscalização, a procuradora e os
O acompanhamento da SRTE/RN começou Meio ambiente do trabalho auditores fiscais do Trabalho Carlos Pereira
antes do início da demolição do antigo estádio Júnior e Maria Goretti Villar de Freitas
João Machado, conhecido por Machadão, e Para acabar com as irregularidades, o MPT apontaram falhas na operação dos guindastes,
do ginásio Machadinho, quando o Consórcio assinou dois termos de ajustamento de com relação ao isolamento da área de içamento

LABOR 103
de peças pré-moldadas. “O aviso sonoro
inicialmente era feito com apito e passou a ser
feito com megafone. Além disso, foi exigida a
manutenção preventiva dos guindastes,” diz
Carlos Pereira.

Durante audiência realizada em outubro


de 2012, o consórcio foi alertado de que as
medidas para evitar acidentes com operações
de guindastes deveriam ir além da norma
regulamentadora nº 18, do Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE), pois as novas
tecnologias e as mudanças na forma de
construir exigem evolução dos mecanismos
de segurança de forma a assegurar a não
ocorrência de acidentes.

Soluções
A frequência das ações fiscais e atuação
preventiva feita pelo MPT e SRTE foi
reconhecida pelo engenheiro André
Augusto Moreira Lima, gerente de produção
da obra do Arena das Dunas. Para ele, as
orientações contribuíram para o sucesso
da obra, pois permitiram adotar soluções
eficazes para cada risco identificado nos
relatórios das fiscalizações.

Também houve fiscalização sobre a jornada


de trabalho, as empresas prestadoras de
serviços terceirizados e ação fiscal para exigir
a inclusão de pessoas com deficiência (PCDs),
de forma a preencher a cota legal mínima de
reserva de vagas.

As empresas terceirizadas também assinaram


TACs. Os maiores problemas foram atrasos no
pagamento dos salários. “É uma ilegalidade
condicionar a quitação dos salários dos
empregados ao recebimento de pagamento
do consórcio contratante, pois a contratada,
real empregadora, deve assumir os riscos da
atividade econômica e pagar aos empregados
até o quinto dia útil do mês seguinte ao
trabalhado, independentemente de ter ou
não recebido do contratante”, explicou a
procuradora Ileana Neiva.

Sobrevivente à queda de 5 metros


O único acidente grave em Natal ocorreu em O problema foi resolvido com a adoção de pela falta de colocação do cinto de segurança
maio de 2013, quando o trabalhador Edson sinalização de advertência diurna e noturna e na linha de vida. Com o ocorrido, foi fechado
Wenis sobreviveu à queda de uma altura de mais barreira de isolamento em todo o seu perímetro. termo de ajustamento de conduta junto ao MPT,
de cinco metros. Ele fraturou o osso da face. que obrigou o consórcio a somente permitir
Segundo laudo do auditor fiscal do Trabalho a execução de trabalhos em altura quando os
A Arena das Dunas também foi embargada Moizés Martins Júnior, o aumento da pressão trabalhadores estivessem conectados ao sistema
parcialmente, em maio de 2012, devido à por produtividade foi o fator que teria levado de ancoragem durante todo o período de
falta de proteção adequada no perímetro de o trabalhador a deixar de prender o cinto de exposição ao risco de queda. O Consórcio OAS
escavação ou desnível, em área que contava segurança no sistema de ancoragem. Antes do informou que Edson Wenis voltou ao trabalho
com grande circulação de trabalhadores. acidente, o Consórcio OAS já havia sido autuado em agosto de 2013, após total recuperação.

104 LABOR
Embargo na obra do aeroporto
Em maio de 2013, a obra do Aeroporto de O consórcio corrigiu os erros e, convocado das Dunas. Havia problemas na construção de
São Gonçalo do Amarante (RN) recebeu para audiência no MPT-RN, assinou termo de viaduto e vias de acesso, de responsabilidade
oito autos de infração e foi embargada por ajustamento de conduta com mais de 60 cláusulas do Consórcio QGFG, por risco iminente de
sete dias pela Superintendência Regional relacionadas à saúde e segurança do trabalhador. queda de altura de trabalhadores e materiais,
do Trabalho e Emprego (SRTE), após a pois o consórcio não providenciou as proteções
fiscalização ter flagrado irregularidades, As empresas terceirizadas que prestam coletivas nas periferias da obra. As condições das
como exposição ao risco de queda de serviços ao consórcio, como a EEPC e a Cortez áreas de vivência também estavam péssimas,
trabalhadores e de material. O auditor Engenharia, também foram convocadas pelo com instalações sanitárias inadequadas e falta
fiscal do Trabalho Carlos Pereira da Silva MPT e firmaram TACs. de fornecimento de água potável em condições
Júnior, que participou da fiscalização que higiênicas para os empregados.
resultou no embargo, explica que não havia
proteção adequada em toda a estrutura Mobilidade urbana Em março, o Consórcio QGFG assinou TAC
do terminal de passageiros e do viaduto para corrigir as irregularidades, sob pena de
de acesso ao aeroporto. A construção é de No início de 2014, houve embargo das obras multa mensal que vai de R$ 10 mil até R$ 40
responsabilidade do Consórcio Engeport. de mobilidade urbana no entorno da Arena mil por obrigação.

Alimentação contaminada
A Vigilância Sanitária também foi órgão Diante do dano coletivo causado aos de equipamentos de combate a incêndio,
parceiro do MPT no Rio Grande do Norte na empregados e à rede pública de saúde, o associando-se essa ação a outra promovida pelo
fiscalização das obras da Copa do Mundo. A Consórcio Arena Natal assumiu o compromisso MPT/RN, de prevenção de incêndios em locais
atuação serviu para esclarecer as causas dos de doar bens no valor de R$ 80 mil ao Hospital com grande fluxo de pessoas.
surtos alimentares que ocorreram tanto na Deoclécio Marques, em Parnamirim (RN), como
obra da Arena das Dunas como do aeroporto forma de compensação social, uma vez que Em dezembro de 2013, houve outro surto
de São Gonçalo do Amarante. esse foi o hospital que atendeu o maior número alimentar, dessa vez com trabalhadores da
de trabalhadores com surto de intoxicação obra do aeroporto. O MPT recebeu as fichas
A Vigilância Sanitária chegou a fazer exames alimentar no canteiro de obras da Arena das do Sistema de Informação de Agravos de
nos trabalhadores, com resultado negativo, Dunas. O MPT ainda fixa a obrigatoriedade de Notificação Compulsória, preenchidas pela
prova de que a origem da intoxicação o consórcio melhorar a higiene e a segurança Unidade de Pronto-atendimento (UPA) de
não estava nos empregados. Os exames alimentar no canteiro de obras. Macaíba (RN), informando que 60 trabalhadores
laboratoriais feitos na alimentação servida daquela obra foram atendidos com sintomas
aos trabalhadores comprovaram que havia O Hospital Walfredo Gurgel, em Natal, também de intoxicação alimentar. Foi constatado que
estafilococos nos alimentos. Em audiência foi beneficiado em outro acordo extrajudicial o alimento consumido pelos trabalhadores
no MPT, o Consórcio Arena Natal informou firmado pelo MPT com o Consórcio Arena Natal, apresentava coliformes a 45ºC. O consórcio fez
que rescindiu o contrato com a empresa que por descumprimento de cláusula de TAC que um acordo prevendo compensação social pelo
preparava os alimentos, logo após os surtos previa a cobertura e proteção contra intempéries dano causado à rede pública de saúde, de R$ 70
alimentares, e contratou nova empresa. em todos os locais de trabalho para aquisição mil. O valor foi doado à UPA de Macaíba.

LABOR 105
Três gerações
construindo
futebol
Aos 60 anos e com mais de 40 de trabalho na
construção civil, o carpinteiro Francisco Tomás
de Lemos resume em uma frase o sentimento
de ter participado da construção do sonho da
Copa do Mundo de 2014, em Natal: “muito
orgulho.” A emoção carrega ainda a memória
de ter participado, no início dos anos 1970, da
construção do estádio anterior, o Machadão,
e do ginásio Machadinho, quando trabalhou
como auxiliar de carpintaria, juntamente com o
pai, que também atuava na construção civil.

“Naquela época, não tinha o maquinário de


hoje, nem fardamento [uniforme], luva, botas,
capacete, ou qualquer proteção, e a comida
era feita e servida em latas”, lembra Francisco,
que chegou a sofrer acidentes na construção
do antigo estádio, quando não havia sequer
as normas regulamentadoras do Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE). O orgulho também
se deve ao fato de ter construído a Arena das
Dunas na companhia do filho, Sérgio Henrique,
que é técnico em edificações e em breve irá se
formar em engenharia civil.

A maior dificuldade enfrentada pelo carpinteiro


foi ver a demolição do estádio que ele havia
ajudado a construir.

Para evitar atrasos


Para o ferreiro Wanderley Francisco da Silva,
membro da Comissão Interna de Prevenção
de Acidentes (Cipa), foi possível perceber que
a atuação dos órgãos de fiscalização moldou
os temas a serem abordados nos “diálogos
diários de segurança” (DDS) promovidos
pela empresa. Ele conta que as reuniões sistema prisional através do programa Novos curso de inclusão digital. “Além de conhecer
mensais tratavam dos problemas surgidos na Rumos (leia entrevista na pág. seguinte). O pessoas e me ressocializar, ganhei prestígio
rotina de trabalho, com encaminhamento de número corresponde a mais de 50% do total de na sociedade.”
soluções propostas pelos trabalhadores e pelo vagas destinadas aos cumpridores de penas e
MPT, bem como sugestão de temas a serem medidas alternativas nas obras do Mundial em Também formado pelo curso de inclusão
abordados nos DDS. todo o Brasil. digital, o trabalhador Josivan Martins Bento, 32
anos, até tentou anteriormente obter emprego
Tais diálogos aconteciam no início de cada em um hotel de grande porte na cidade
dia de trabalho. Cada encarregado reunia sua de Natal, mas exigiram o “nada consta” no

Histórias de
equipe para repassar todos os procedimentos momento da contratação.
de segurança, tendo Wanderley assegurado
Sabendo dos processos que respondia, tentou

superação e
que a rotina não mudou mesmo com a
proximidade do prazo de entrega da obra. argumentar com o contratante para que desse
A técnica de segurança Damiana Ferreira de uma chance, pois era pai de família. “Recebi

inclusão
Carvalho enfatizou o papel da SRTE e do MPT como resposta que era contra a ética da
na construção desses diálogos de segurança, ao empresa contratar apenado”, lamenta Josivan.
afirmar que “as ações fiscais fizeram com que Decepcionado, confessa ter voltado ao mundo
trabalhássemos mais ainda na prevenção, para do crime à época.
que nada atrapalhasse o bom andamento da “Foi meu primeiro emprego de carteira
obra”. assinada”, revela o servente de pedreiro Para ele, a construção da Arena das Dunas não
Antônio Viana da Silva, 49 anos, que trabalha beneficiou somente 149 apenados, mas sim
A obra contou ainda com projetos como desde novembro de 2011 na construção. 149 famílias. Tendo começado em maio de
a Escola OAS de Ensino Fundamental e “Éramos excluídos da sociedade”, diz 2012 como servente de pedreiro, decidiu que
de Inclusão Digital, além dos cursos de Antônio, ao contar que entrou na obra de iria até o fim da obra, para merecer o orgulho
qualificação profissional proporcionados pelo cabeça baixa, sem saber de nada, analfabeto, dos três filhos. Chegou à classificação de
consórcio. Também recebeu o selo “Começar mas foi recebido de igual para igual, o que operador de elevador e os filhos participaram
de Novo”, do Conselho Nacional de Justiça, fez com que começasse a sentir-se cada da inauguração do estádio, quando puderam
por ter sido o primeiro lugar na geração de vez melhor. Agarrou as oportunidades que assistir de perto à conquista do pai. “A obra
oportunidades de ressocialização de apenados, lhe foram oferecidas e hoje sai de cabeça pode ter acabado, mas me alegro por ter feito
tendo empregado 149 trabalhadores vindos do erguida, alfabetizado, com diploma na mão e parte dessa história.”

106 LABOR
Entrevista - Antônio Viana da Silva

“Perdi minha
mocidade todinha
na prisão”

Fotos: Carolina Villaça

“A sorrir eu pretendo levar a Natal, filho de mãe solteira, o


vida, pois, chorando, eu vi a menino Antônio ganhou as ruas
mocidade perdida...” – o refrão aos 12 anos, depois de perder
de Cartola tem significado a única pessoa que tinha no
especial na vida do servente de mundo. Sua mãe morreu em
pedreiro Antônio Viana, de 50 1976, quando, sem opção nem
anos. “Perdi minha mocidade oportunidade de estudo, nasceu
todinha na prisão”, lamenta ele, o Antônio engraxate, carroceiro,
que, após 15 anos encarcerado, lavador de carros, obrigado a
conseguiu a liberdade em trabalhar para conseguir o que
2008, tendo experimentado o comer. “Nunca tive oportunidade
primeiro emprego de carteira de nada, por isso eu me tornei “Aqui, pude conhecer as
assinada no ano de 2011, na a pessoa que fui, mas não sou letras, que nem o ‘a’ eu
construção da Arena das Dunas. mais, graças a Deus”, destaca, em conhecia. Agora, tenho
Nascido no Dia do Trabalho, 1º conversa cujas revelações você diploma e me sinto até
de maio de 1964, na cidade de confere a seguir: sabido demais”
LABOR 107
Nome Um momento marcante.
Antônio Viana da Silva Por incrível que pareça, o momento mais
marcante da minha vida foi agora, depois
da minha maturidade. Foi quando consegui
emprego e consegui me reintegrar à
Infância? sociedade. Consegui ser um cidadão,
realizando meu sonho, que era ser uma
Muito turbulenta. Meus pais se separaram
quando eu ainda estava na barriga da minha pessoa do bem, um trabalhador honesto,
mãe. Por isso, quando nasci, fui criado só por para viver dignamente. A história mais
minha mãe. Quando tinha uns 12 anos, minha marcante da minha vida é o momento que
mãe faleceu e virei um menino de rua. estou vivendo agora.

Qual era seu sonho de Uma pessoa importante na


criança? sua vida?
Tinha sonho de ser jogador de futebol. Nos Todos aqui foram muito importantes para
fins de semana, jogava bola na beira da praia mim, porque sempre me trataram de igual
e quando fazia uns gols, dizia: quando eu para igual, não teve discriminação.
crescer, vou ser jogador de futebol. O estádio,
pelo menos, eu ajudei a construir.
Aprender é...
Quanto tempo ficou preso? Tudo. Depois que cheguei aqui foi que eu
pude conhecer as letras, que nem o “a” eu
Fui pra cadeia em 1986. Em 1994, pensei que conhecia. Consegui me alfabetizar e fiz o
iria ficar na cadeia o resto da minha vida. ensino fundamental até o fim. Agora tenho
Foi quando consegui fugir. Passei até 2001 diploma e hoje me sinto até sabido demais,
foragido, quando me recapturaram. Só me porque não sabia de nada.
soltaram em 2008.

O que significa trabalhar?


Como vê a liberdade? Minha felicidade! Enquanto estiver
Liberdade é trabalho, é alegria, é saúde, é viver. trabalhando, estou feliz. Não faltei nunca.
Peço saúde a Jesus todo dia para amanhecer
bem, para poder vir trabalhar e chegar na
hora certa.
Quando começou a trabalhar
na construção da Arena das
Dunas? O que ficou do passado?
O passado só me trouxe angústia, sofrimento,
Em 16 de novembro de 2011.
solidão, tristeza.

O que sentiu? E o presente?


Uma emoção muito grande, porque foi meu
Agora é só alegria, felicidade.
primeiro emprego. Fazia três meses que eu
estava batendo atrás de emprego, mas não
tinha uma história bonita na minha vida. Eu
era rejeitado pela sociedade, estava muito Quanto ao futuro, o que
triste, de cabeça baixa e não queria mais viver
espera?
aquela vida, queria mudar totalmente. De
repente, as portas se abriram: fui chamado Tenho muitos planos e promessas. Muitas
para uma entrevista de emprego e passei. Foi pessoas interessadas em me ajudar. Creio que
minha primeira entrevista, nem documento vou ter um futuro brilhante daqui pra frente.
eu tinha. Consegui tirar meus documentos,
mas só tive a consciência do que estava
acontecendo depois de passar pelos exames,
quando comecei a trabalhar. A partir daí, eu Uma mensagem aos leitores
sabia que ia dar tudo de mim para conquistar
aquelas pessoas e ficar nesse emprego.
da Labor.
Que os empresários se interessem pelo
programa Novos Rumos e procurem ajudar
outras pessoas iguais a mim. Eles não
Do que vai lembrar? estarão dando oportunidade somente
aos ex-presidiários, mas também às suas
As lembranças são muito boas. Estou até
famílias. Eles estarão ajudando a tirá-los da
fazendo um álbum em casa, tenho muitas
criminalidade e reintegrá-los à sociedade, o
fotos e quero guardar cada momento.
que é mais importante.

108 LABOR
“Novos Rumos” dá sentido à vida
de ex-presidiários
Criado em 2009 no Rio Grande do Norte, o Organizador da Copa do Mundo de Futebol,
programa busca incluir egressos do sistema estados e municípios-sedes (TAC 001/2010).
prisional no mercado de trabalho. O Novos O acordo estabeleceu o compromisso de
Rumos ganhou força na construção do estádio reservar 5% das vagas de trabalho para presos,
Arena das Dunas, em Natal, após a assinatura egressos, cumpridores de penas e medidas
de um termo de ajustamento de conduta alternativas e adolescentes em conflito com
(TAC), firmado entre o Conselho Nacional a lei. Somente na construção da Arena das
de Justiça (CNJ), a União Vale, o Comitê Dunas, 149 apenados foram contratados. X

LABOR 109
110 LABOR
LABOR 111
fraude

Contrato perverso

O trabalhador paga a conta do patrão no Piauí

Por Anucha Melo

“Em 16 anos de Ministério O relato é do procurador do


Público do Trabalho (MPT), Trabalho José Wellington de
nunca havia me deparado Carvalho Soares, que colheu
com uma fraude dessa a denúncia do Sindicato
natureza. Um plano para dos Trabalhadores em
transferir os ônus próprios da Telecomunicações (Sinttel) no
empresa aos trabalhadores.” Estado do Piauí, em 2009.

112 LABOR
Fotos: Kalberto Rodrigues

O sindicato denunciava que a empresa ARM O procurador do Trabalho José Wellington olhos dos empregados, parecia algo vantajoso.
Telecomunicações e Serviços de Engenharia afirma que, em tese, não há ilegalidade no Eles aceitaram e, logo no início, começaram a
S/A, que presta serviços à operadora de fato de a empresa locar um veículo do próprio perceber que aquilo era um grande equívoco,
telefonia Oi no Piauí, estaria praticando empregado. No entanto, a fraude se deu no porque eles não tinham condições de honrar
fraude ao transferir os riscos da sua atividade momento em que, ao locar, encontrou-se vários encargos, várias despesas inerentes à
econômica a vários empregados por meio de uma forma de transferir ao trabalhador uma locação”, afirmou João Moura.
contratos de locação de veículos com cláusulas conta da empresa. “O fato de alugar um carro
abusivas e ilegais. para a empresa não retira dele a condição de O seguro do carro, custo prioritário em qualquer
trabalhador”, argumenta. contrato de locação de veículo, teria que ser
A fraude ocorria na medida em que a empresa assumido pelos trabalhadores. “Ocorre que, no
induzia o trabalhador a adquirir um automóvel mercado mundial de seguros, quem paga essa
para desempenhar determinada atividade na conta não é o locador, e sim o locatário”, lembra
empresa. “Ele precisaria ter um carro para se Equívoco o procurador. O primeiro item do contrato feito
deslocar no atendimento às demandas dos entre o empregado e a ARM exigia o seguro
usuários. Sem carro, nada feito”, afirmou o No momento da assinatura dos contratos, total do veículo. Sem isso, a locação não seria
presidente do sindicato, João de Moura Neto segundo a denúncia do Sinttel, a empresa efetivada. Ocorre que a maioria não fez o seguro.
(foto na página 114). A compra do veículo incluiu várias cláusulas contratuais prejudiciais E essa foi uma das manobras que a empresa
era realizada por meio de financiamento e, aos empregados. Não ocorreu uma negociação utilizou para se proteger. Caso demitisse o
posteriormente, a empresa se comprometia a sobre os valores que seriam cobrados e os trabalhador, alegaria, posteriormente, que o
locar o veículo em condições bem inferiores às custos que recairiam sobre os trabalhadores. trabalhador não cumpriu a primeira cláusula
praticadas no mercado. “Não houve nenhuma discussão prévia. Aos prevista no contrato.

LABOR 113
Assédio por endividamento
O sindicato só tomou conhecimento do que Passados poucos meses, com os contratos já
estava ocorrendo um ano depois das primeiras efetivados, muitos trabalhadores começaram
demissões. Procurado por dois trabalhadores, a vivenciar situações com as quais não sabiam
a direção do sindicato afirma ter ficado lidar. Alguns tiveram o carro tomado de assalto
estarrecida com a forma desumana com que durante a prestação de serviço, outros se
os contratos foram firmados. “Estava sendo envolveram sem culpa em acidentes de trânsito.
praticado um novo tipo de assédio: o assédio E em nenhum desses casos a empresa assumiu
moral por endividamento. Pelo fato de assumir os prejuízos. Muito pelo contrário: suspendeu
uma dívida de longo prazo, o empregado de imediato o pagamento dos valores mensais
ficava condicionado a aceitar qualquer da locação sob a alegação de que, se o carro
humilhação e permanecer na empresa até estava parado, não estava servindo à empresa e,
quitar o carro”, argumenta Moura. portanto, não pagaria o valor relativo ao aluguel.

Para ele, a manobra representava um Hudson Lima Tavares (foto na pág. 115), 29
assédio sofisticado para pressioná-los anos, era operador de serviço ao cliente. Admite
a aceitar todas as cláusulas contratuais ter caído “no canto da sereia para comprar um
impostas pela empresa. Moura lembra carro que serviria quase que exclusivamente
que a empresa demitiu um empregado à empresa”. Ele afirma que houve má-fé na
sem justificativa dois meses depois que conduta adotada com os empregados. “Tudo foi
ele havia comprado o veículo. A demissão muito bem pensado para obter lucro em cima
seria para dar exemplo aos outros. “Para da gente”, desabafa. Ele lembra que gerentes da
mostrar a eles que, se fossem demitidos, ARM coagiam os trabalhadores a aceitarem as
iriam perder o carro, porque não tinham condições ou seriam demitidos. “Foi o meu caso.
como pagar o financiamento.” Quando me rebelei, fui para o olho da rua.”

Salários fictícios Quase de graça


Durante uma longa e detida investigação, “O preposto da empresa chegou a afirmar em
confirmou-se a estratégia adotada pela depoimento ao Ministério Público que, dos
empresa. Primeiro, a fraude para conseguir a veículos alugados pela empresa no Piauí, 60%
aprovação no financiamento dos veículos. A são locados diretamente de empregados e que,
empresa forjou declarações de rendimentos durante o período de férias, não há pagamento
diferentes da realidade, constando valores dos aluguéis”, disse o procurador. Tal afirmação
duas a três vezes maiores que a remuneração reforçou a denúncia do sindicato de que muitos
recebida pelo trabalhador para que as trabalhadores estavam sem gozar férias porque
financeiras aprovassem os contratos dos não tinham como pagar o financiamento.
veículos. “Os trabalhadores só tiveram
conhecimento desse fato na hora de assinar O restante da frota necessária para a prestação
a papelada, quando constataram que a renda do serviço é locada em empresas do mercado
declarada era muito superior à efetivamente convencional. Para se ter uma ideia da
recebida”, lembra o procurador do Trabalho diferença dos contratos, conforme pesquisa
José Wellington. de preço realizada durante a investigação, o
aluguel pago por carro junto a uma grande
Em seguida, foi descoberta toda a trama que locadora é de R$ 2,5 mil. Esse valor é quase
configurou a segunda fraude: a transferência dos quatro vezes maior que aquele pago pela ARM
riscos da atividade econômica para o trabalhador. aos empregados.
O preposto da empresa no Piauí foi chamado
pelo Ministério Público a prestar informações e, Além disso, nos contratos com as locadoras
em depoimento, afirmou que, além do aluguel, convencionais, o locatário é o responsável
a empresa fornecia apenas o combustível pelo pagamento do seguro e mais R$ 1,5 mil
necessário para a execução do serviço. O restante de “participação obrigatória”, para casos de
das taxas, licenciamento, demais encargos e colisões e avarias. O que não estava previsto
manutenção preventiva e corretiva do veículo nas cláusulas contratuais da ARM assinadas
ficavam a cargo de cada trabalhador. pelos empregados.

114 LABOR
Conduta viciada
Outra informação importante do inquérito O MPT ingressou com a ação em maio de 2013, atividade econômica explorada pela empresa; e
civil é de que a empresa atua em 16 estados com pedido de tutela antecipada, para proibir abster-se, ao celebrar novos contratos de locação
e em todos mantêm contratos de locação de que a ARM continuasse agindo dessa maneira. de veículo de empregados, não mais utilizar o
veículos com os próprios empregados, nos “Não pedimos a nulidade ou a rescisão dos veículo locado sem contratação de seguro em
mesmos moldes firmados no Piauí. Na ação contratos de locação, porque se a locação for feita favor do empregado, com cobertura total durante
ajuizada na Justiça do Trabalho da 22ª Região, dentro de condições legais, também pode ser a locação. A empresa precisará, ainda, custear,
o MPT pede a abrangência nacional da decisão, benéfica ao trabalhador”, admitiu o procurador. nos casos de contratos de locação de veículos de
já que a empresa admitiu que pratica a mesma empregados, seguro para cobertura das despesas
Para coibir a empresa de continuar prejudicando decorrentes de quitação integral do valor das
conduta em outras partes do país. “Caso haja os trabalhadores, ao tempo em que lesa a parcelas não vencidas do financiamento, nas
a condenação, a empresa será obrigada a legislação, o MPT pediu em antecipação de tutela hipóteses de rescisão do contrato de locação por
corrigir o erro tanto no Piauí quanto nos outros o cumprimento de várias obrigações, como não iniciativa da empresa ou dispensa sem justa causa
estados”, alertou José Wellington. transferir aos empregados os riscos inerentes à do trabalhador.

Andamento da ação
A juíza de primeira instância concedeu recurso postulado pela empresa e suspendeu todas as obrigações. Essa foi, portanto, uma
integralmente a tutela antecipada e a empresa parcialmente a liminar de primeira instância. primeira vitória do MPT no Piauí na ação.
impetrou mandado de segurança no Tribunal “Ainda que em um juízo preliminar e superficial,
Regional do Trabalho (TRT) da 22ª Região O MPT entendeu que essa suspensão parcial os argumentos e provas apresentados pelo
contra a concessão da liminar, alegando que afetou a essência da liminar. Então, foi Ministério Público demonstraram ao Judiciário
não haveria ilegalidade no procedimento e que interposto um recurso para o Pleno do TRT. E que a empresa adotou um procedimento não
os contratos eram lícitos. O relator do Tribunal, o Tribunal restabeleceu a liminar na íntegra, compatível com a ordem jurídica trabalhista”,
no primeiro momento, concedeu em parte o determinando o cumprimento imediato de comemorou José Wellington.

LABOR 115
De fachada

O dono do negócio

Falsas cooperativas escondem terceirização irregular

Por Elton Viana

Quem não sonha ser dono do O problema é a crescente


próprio negócio? Ser o próprio proliferação de cooperativas
patrão? Isso é possível quando de trabalho prestadoras de
um grupo de trabalhadores serviços, que resultou em uma
se reúne para montar uma série de denúncias de que essas
cooperativa. O objetivo é organizações foram criadas
organizar o trabalho do para descaracterizar o vínculo
associado, resolvendo suas empregatício e se desvencilhar
necessidades, sem a figura do de impostos e obrigações sociais
patrão e o conceito de lucro. para com o trabalhador.

116 LABOR
Fotos: Aline Baroni

LABOR 117
Foi o que o Ministério Público de Trabalho
(MPT) constatou no município de Sobral,
Sobral, que verificou, após depoimentos,
que alguns cooperados estavam insatisfeitos
Subordinação
distante 240 quilômetros de Fortaleza. Ali, duas com a inexistência de direitos trabalhistas Diante das irregularidades, o MPT entrou com
cooperativas – a dos Prestadores de Serviços mínimos e com a repartição de sobras ou uma ação civil pública pedindo indenização
Terceirizados do Estado do Ceará (Coopreserv) lucros, como prevê a legislação. Muitos por danos morais coletivos de R$ 42 milhões
e a de Trabalho do Ceará (Cootrace) – nasceram cooperados não sabiam, sequer, o conceito e a dissolução das cooperativas Cootrace e
para prestar serviços à prefeitura. Na realidade, de cooperativa, tampouco participavam das Coopreserv por irregularidades encontradas
muitos dos cooperados jamais participaram reuniões ou assembleias. nos contratos das entidades com a Prefeitura
de assembleias e tinham uma relação de de Sobral. Segundo o procurador-chefe
subordinação direta com os presidentes Esse era o caso do gari Francisco de Sousa, que do MPT do Ceará, Antonio de Oliveira
das cooperativas, entre outros aspectos entrou na cooperativa sem saber exatamente Lima, a cooperativa mantinha relação de
que descaracterizavam uma associação de o que significava o novo emprego. “A gente subordinação e pagamento de salários com os
trabalhadores. Ou seja, ambas as cooperativas não era informado de assembleia e nem sabia trabalhadores autônomos, o que caracterizaria
estavam mais para trabalhadores terceirizados direito como o negócio funcionava. Só sei que o uma relação de emprego.
do que para cooperados. salário vivia atrasando.”
A quantia requerida deve ser revertida ao
Assim como Francisco, centenas de Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT)
trabalhadores foram enganados. A denúncia ou a instituição próxima da comunidade
Crime trabalhista desencadeou uma investigação na imediatamente atingida. “Na ação do
esfera criminal. O Ministério Público Estadual MPT, além das cooperativas, os gestores
De 2007 a 2012, as duas entidades (MPE), após analisar os extratos bancários e responsabilizados foram aqueles que
receberam cerca de R$ 40 milhões dos outras movimentações financeiras, concluiu assinaram os contratos.”
cofres públicos. No entanto, as investigações existir indícios de uma sofisticada organização
do Ministério Público constataram que a criminosa que desviava recursos públicos A Prefeitura de Sobral também será alvo de
Cootrace se desviou de suas finalidades e por meio do uso de cooperativas que ações de improbidade administrativa e criminal
princípios inerentes ao cooperativismo e prestam serviços para o município de Sobral, por irregularidades constatadas num esquema
se transformou numa fornecedora de mão configurando crimes contra a administração de contratação de servidores por meio das
de obra para a administração pública. As pública, formação de quadrilha, falsidade cooperativas Cootrace e Coopreserv. As ações
séries de irregularidades cometidas pelos de documentos públicos e particulares e são resultado da Operação Carcará, que
dirigentes foram constatadas pelo MPT em lavagem de dinheiro. também envolveu a Polícia Federal.

118 LABOR
Esquema desviava dinheiro
para contas pessoais
A operação resultou na prisão temporária de outro contrato com a Cootrace para
de sete pessoas – já liberadas – e a busca fornecer pessoal às vésperas das eleições
e apreensão na Prefeitura de Sobral e nas municipais de 2012, no valor global de quase
sedes das cooperativas. Ambas forneciam R$ 20 milhões, mesmo sendo evidente que
mão de obra para o município e também a Coopreserv foi sucedida fraudulentamente
a outras empresas. Nas investigações pela Cootrace. Parte dos valores era desviada
do Ministério Público foi constatada a para as contas pessoais e jurídicas de alguns
presença de cooperados “fantasmas” e o envolvidos, configurando lavagem de capital.
não pagamento dos direitos trabalhistas dos Na prestação de contas com os cooperados,
trabalhadores. Nesse período, o município foi os administradores afirmavam que não havia
condenado pela Justiça Trabalhista a pagar sobras para repartir.
os encargos trabalhistas.
“Vamos continuar investigando os contratos dos
Foi verificado também que a mão de obra gestores públicos com as cooperativas. Muitas
fornecida era indiscriminada, sendo utilizada são criadas para fraudar as leis e o MPT está
em quase todos os setores da Prefeitura. Outro atento para isso”, explica o procurador-chefe
fato que chamou a atenção foi a celebração Antonio de Oliveira Lima.

No Paraná, cooperativa emprega


motoristas sem carteira de trabalho
Por Aline Baroni

“Esses dias um colega nosso deu entrevista fazer os serviços de carga. Com uma exceção 5 milhões como indenização por danos morais
e acabou demitido. Tenho filhos para criar, ao conceito de emprego: não há registro coletivos pelo desvirtuamento de sua finalidade
não posso ficar sem emprego agora.” Foi em carteira, recolhimento de contribuições em 50 anos de existência. Nesse período,
essa a resposta que a reportagem da Labor previdenciárias, Fundo de Garantia por Tempo inclusive, por meio de ameaças e agressões,
recebeu de um motorista da Cooperativa de de Serviço (FGTS) ou garantia de direitos monopolizou o transporte de contêineres entre
Transportes de Cargas e Anexos (Coopanexos), trabalhistas básicos. a cidade e o Porto de Paranaguá.
que atua no transporte de contêineres no
Porto de Paranaguá (PR). “O pior é que meu Apenas um motorista entrevistado, Maickon
colega não falou nenhuma mentira. Só contou Claudino Bueno, afirmou estar satisfeito com o
a forma como a gente trabalha mesmo. Mas os Ferrugem trabalho na Coopanexos. Ele, que financiou seu
cooperados não gostaram.” “Mas você trabalha próprio caminhão, controla seu próprio horário,
na cooperativa e não é cooperado?” “Não.” Apesar da grande quantidade de pessoas, tem tempo para descanso e disse que todos os
“Então, tem carteira assinada?” “Não.” cargas e veículos dentro do porto, não é difícil motoristas trabalham dessa mesma forma.
identificar os caminhões da Coopanexos. São
A Coopanexos conta com 205 cooperados velhos e, frequentemente, enferrujados. Ao “O patrão, quer dizer, o cooperado, não diz
e mais de 500 motoristas, que transportam serem questionados se são cooperados ou quando a gente tem que trabalhar”, conta,
as cargas – contrariando a caracterização da motoristas, os caminhoneiros são unânimes: corrigindo-se rapidamente. “Ninguém quer
cooperativa como uma associação de pessoas motoristas. Sem carteira assinada. Nenhum ralar 24 horas, todo mundo quer dinheiro
com os mesmos interesses, em que todos cooperado foi encontrado dirigindo. fácil. Tem muito sócio trabalhando também.
trabalham auxiliando-se mutuamente, com As pessoas que reclamam deveriam contar o
adesão livre e administração democrática. A cooperativa fraudulenta é alvo de uma ação quanto puderam crescer e ganhar trabalhando
do Ministério Público do Trabalho (MPT) no na cooperativa.”
Os cooperados pagam cerca de R$ 300 mil Paraná, que está para ser julgada no Tribunal
para se associar à Coopanexos e, tendo um Superior do Trabalho (TST). A Coopanexos foi “E como se tornar um cooperado?” “Meu pai é
veículo, passam a “empregar” motoristas para condenada à dissolução e ao pagamento de R$ cooperado.” “É hereditário?” “Sim.” X

LABOR 119
Migração

Dinheiro na estrada

Cerca de 41,4 mil estrangeiros entraram no país com


carteira assinada em 2013. Emissão de carteiras para esses
trabalhadores cresceu 53% em um ano

Destin, apesar de fluente chegou a Mato Grosso do Sul em


em criolo, espanhol, francês fevereiro de 2014, para trabalhar
e inglês, passa apertado no na colheita de mandioca na
país das oportunidades, pois fazenda Ponta Grossa, em
lhe falta familiaridade com o Naviraí. Ele foi encontrado, no
Carlos Destin nasceu no português. No Brasil, também dia 7 de março, na lavoura, sem
Haiti. Juan, no Paraguai. sentiu o preconceito na pele. Um documentos brasileiros e em
A história de ambos se encarregado dizia que haitiano condições degradantes, durante
cruza no Brasil. Aqui com fome era igual cachorro, visita do Ministério Público do
vieram viver um sonho.
O sonho do trabalho,
comia até gente. “Não quis que Trabalho e de representantes de

da cidadania e da
falassem mal do meu país”, outras instituições que atuam

dignidade. O sonho de diz Destin. Ainda assim quer no enfrentamento ao trabalho


poder trazer, amanhã, continuar no Brasil e arrumar escravo e ao tráfico de pessoas.
os familiares que nova colocação. Acompanhe a reportagem de
ficaram para trás. O agricultor Juan (nome fictício) Camila Correia e Keyla Tormena.

120 LABOR
Fotos: Rafael Almeida

121
LABOR
O Brasil dos outros
Haitianos, seguidos por bolivianos e paraguaios, lideram o
ranking de nacionalidades, com crescimento de 132%

Por Camila Correia*

Carla Leon, 18 anos, nasceu em Santa Cruz, bolivianos que imigraram para o Brasil em 2013, última década. Os haitianos, seguidos pelos
Bolívia, e, apesar da pouca idade, tem muita todos em busca de trabalho. bolivianos e paraguaios, lideram o ranking de
história para contar. No início de 2014, ela nacionalidades, com crescimento de 132%.
chegou ao alojamento da Casa do Migrante, na É comum o caminho da exploração dos
capital paulista, carregando nos braços o filho trabalhadores bolivianos começar com
Fabrício, de 11 meses, acompanhada da filha aliciadores no país de origem e terminar em
Victoria, 2 anos, e do marido Dani Granado, 34. oficinas de costura em São Paulo. A grande
O motivo da mudança para o Brasil foi uma maioria entra como turista, mas reconhece Mesmos direitos
proposta de emprego que Dani recebera. No que vem para o Brasil trabalhar com costura.
entanto, quando chegaram, descobriram que Espera-se que o desenrolar da história de Para o procurador Luiz Carlos Michele
o trabalho de pintor negociado por telefone Carla seja diferente do da prima, que se Fabre, do Ministério Público do Trabalho
nunca existiu e que eles tinham sido vítimas de submeteu às precariedades do trabalho (MPT) em São Paulo, além de o crescimento
um golpe. informal em uma oficina de costura em São representar um considerável aumento na
Paulo e demorou mais de dois anos para arrecadação tributária do país, pode significar
Para piorar a situação da família, Carla e o conseguir voltar para a Bolívia. uma maior proteção para o empresário que
marido foram assaltados na rua Coimbra, região cumpre as leis trabalhistas. Isso porque esses
central de São Paulo, e todos os documentos Segundo dados do Ministério do Trabalho números tendem a refletir uma diminuição
do casal foram roubados. Conhecido ponto de e Emprego (MTE), 41,4 mil estrangeiros da concorrência desleal ocasionada por
encontro de bolivianos, a famosa rua do Brás entraram no mercado de trabalho brasileiro, empresas que ainda insistem em descumprir a
é o mesmo local onde um boliviano tentou com carteira assinada, em 2013. Em relação a legislação do trabalho.
vender dois jovens compatriotas por R$ 1 mil 2012, a emissão de carteiras para estrangeiros
cada um em uma feira livre em fevereiro deste cresceu 53%. Essa é a maior quantidade Apesar de terem os mesmos direitos que
ano. Dani representa um dos mais de 4,6 mil de documentos do tipo expedidos na o trabalhador brasileiro, essa população,

122 LABOR
Cyrano Vital
que cresce ano a ano, ainda está cada vez dos subempregos. Trata-se dos empregos
mais sujeita a abusos de empregadores e ao marcados pela exploração do trabalho,
descumprimento de garantias trabalhistas com baixos salários e jornadas excessivas.
básicas. A informalidade da mão de obra As péssimas condições são agravadas pela
estrangeira é tão nociva quanto à da nacional. situação de indocumentado. Um exemplo
Por isso, discute-se a eficácia ou ausência de disso é o trabalho análogo à escravidão
políticas públicas de inserção desse imigrante presente no setor de costura paulista.

Políticas públicas
no Brasil, uma vez que esse tipo de contratação
está se tornando essencial para alguns Por isso, a pesquisadora defende que a
segmentos da economia. análise do fenômeno deve “transcender

de inserção
o olhar aos dados estatísticos”. Caso
“A partir dos anos 80 do século passado, com contrário, não é possível perceber que
a abertura econômica do país, o processo de o funcionamento do mercado nacional
restruturação produtiva e a intensificação do tem se apoiado estruturalmente na força
grau de internacionalização em dimensões de trabalho do estrangeiro. “Embora essa O Brasil não tem uma população de
financeiras e tecnológicas, é possível falar presença não seja tão significativa quanto estrangeiros numericamente expressiva.
de uma nova configuração da imigração no no passado de colonização, ela abrange um Segundo dados do Instituto Brasileiro de
Brasil. Com uma demanda polarizada, a força universo complexo de diferentes categorias Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, a
de trabalho do migrante internacional se profissionais”, completa. população brasileira ultrapassou a marca de
divide em dois segmentos: o dos cérebros 200 milhões de habitantes. Isso significa que
produtivos e o dos empregos precários”, afirma os imigrantes ainda representam menos de 1%
a pesquisadora de Imigração e Trabalho da da população total. De acordo com dados da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Policia Federal, há 1.727.357 pessoas de outros
países cadastradas no Brasil.
Destino
Patrícia Villen.

No entanto, como as estatísticas imigratórias


Do ponto de vista conjuntural, os olhos do mostram que existe uma forte tendência de
mundo se voltaram para o Brasil como um entrada de estrangeiros no país interessados
Periféricos importador de mão de obra depois da crise
de 2008, já que nesse período ocupava uma
em trabalho – há pelo menos sete anos
–, é crescente a importância das políticas
A estudiosa explica que o polo de cérebros posição geopolítica e econômica favorável. públicas que garantam a inserção imediata do
produtivos se dá dentro de um circuito Enquanto que os países da Europa Central se imigrante como cidadão, como portador de
legalizado e, normalmente, relacionado a dedicavam a políticas de restrição de entrada de cultura, além da riqueza econômica que a mão
empregos em transnacionais e setores de estrangeiros, o Brasil se tornou destino almejado de obra proporciona.
ponta da economia. Aqui se incluem também por uma grande parcela desses imigrantes.
os executivos. Por exigir um tipo específico Atualmente, a maior demanda imigratória que
Hoje, com a política internacional o Brasil recebe vem do Haiti e o despreparo
de qualificação, em falta no mercado interno,
brasileira consolidada e com a gradual das autoridades quanto ao oferecimento de
implica altas remunerações e condições
expansão comercial do país, o trabalho dos políticas públicas para atender essa demanda
privilegiadas de trabalho. Dentro deste polo,
estrangeiros passa a ser reavaliado. Muitos é visível. O espaço de fronteiras, por exemplo,
a representatividade feminina é baixa, em
dos imigrantes que chegam ao país não têm deveria garantir uma imigração segura e
torno de 10%.
as expectativas financeiras correspondidas adequada. Para que um indivíduo estrangeiro
Já o segundo polo é formado, principalmente, quando, por exemplo, se deparam com o seja inserido na esfera do trabalho, principal
por estrangeiros vindos de países periféricos. alto custo de vida nas capitais e os baixos motivação das imigrações, necessariamente ele
Essa é a parte mais representativa do salários. No entanto, eles tendem a ficar no precisa ser incluído em um espaço de moradia
fenômeno imigratório das últimas Brasil em razão do degradante contexto e nos sistemas educacional e de saúde. No
décadas e ocorre devido à precarização socioeconômico de seus países de origem. entanto, isto não tem ocorrido.

LABOR 123
Brasiléia
A coordenadora do Núcleo de Enfrentamento
Direitos quitados
e Prevenção ao Tráfico de Pessoas da Secretaria

Excesso de
Em 2013, houve um acréscimo significativo na
da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, quantidade de vistos permanentes por causa da
Juliana Armede, destaca o caso de Brasiléia, ação humanitária em apoio ao Haiti. A política

burocracia
uma cidadezinha de 21,3 mil habitantes do governo brasileiro em relação aos haitianos
localizada no sul do Acre que recebe haitianos é fazer com que a vinda e a permanência
em massa desde o terremoto de 2010. “É óbvio dessas pessoas ocorram de forma regular e
que o município não estava preparado para documentada, por meio da retirada do visto na
receber esse fluxo imigratório tão intenso e Em geral, podem trabalhar no Brasil os
Embaixada do Brasil em Porto Príncipe.
complexo. Os haitianos têm chegado a Brasiléia estrangeiros que possuírem vistos específicos
doentes, com documentação irregular, isso de trabalho, temporários ou permanentes; com Paulo Sérgio de Almeida diz que mesmo
sem falar na precariedade das viagens. E não há visto temporário fundamentado no Acordo aqueles que entraram irregularmente pela
assistência para todos.” sobre Residência para Nacionais do Mercosul fronteira terrestre terão acesso à documentação
e Associados; na condição de permanentes, de garantido. Isso para não favorecer a exploração
“Em primeiro lugar, o Brasil tem que reformar um modo geral; com pedido de refúgio; e que da mão de obra clandestina. “Não é porque o
sua legislação migratória e desenvolver um tenham protocolizado pedido de permanência imigrante está indocumentado e irregular que o
processo de planejamento e melhoria dos durante o período de tramitação, desde que empregador pode ignorar as leis trabalhistas. Se
serviços ofertados ao imigrante, principalmente seja por base em cônjuge brasileiro, filho houve o uso daquela mão de obra, os direitos
aqueles ligados à documentação e ao acesso ao brasileiro ou reunião familiar. têm que ser quitados.”
mercado de trabalho. Precisamos nos preparar
melhor para que esse estrangeiro possa se O estrangeiro não tem um perfil consolidado, Desde o ano passado, o MTE tem procurado
inserir de forma adequada e contribuir com o o que existe são algumas diferenciações de simplificar os processos de autorização de
desenvolvimento do país”, propõe o presidente demanda. Assim, o visto de trabalho autorizado trabalho a profissionais estrangeiros, com
do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) do pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) a publicação de novas resoluções. Para o
MTE, Paulo Sérgio de Almeida. existe para todos, mas a tendência mostra que presidente do CNIg, as medidas são de cunho
o imigrante que chega ao Brasil por meio dele emergencial. Em 2013, cerca de 4,4 mil
A legislação brasileira de imigração é de é uma pessoa qualificada, que tem pelo menos trabalhadores de origem africana e asiática
meados dos anos 1980. Baseada no conceito metade do nível superior completo ou nível tiveram a situação regularizada somente
de segurança nacional, da ditadura militar, a técnico. Normalmente, vem da Europa, China por comprovar vínculo empregatício fixo no
legislação contemporânea é restritiva e difícil ou Estados Unidos para trabalhar na indústria Brasil, pois, caso fossem mantidos irregulares,
de ser operada. O imigrante é considerado um do óleo e gás. ia faltar mão de obra em alguns setores do
risco à soberania nacional e hoje já se percebe mercado brasileiro.
que o imigrante é um elemento essencial para Para que o estrangeiro consiga o visto de
o desenvolvimento do país, pois preenche as trabalho, ele deve ter qualificação profissional
lacunas do mercado de trabalho que a mão de condizente à tarefa que vem executar no
obra nacional não tem capacidade de suprir. Brasil e, além disso, que não haja brasileiros
capazes de executar aquela mesma tarefa.
Mas isso não quer dizer que os estrangeiros O procedimento começa com uma empresa Poupatempo
ocupem as vagas de brasileiros. O imigrante, no Brasil solicitando ao MTE a autorização
devido a questões relacionadas a costumes para vinda desse profissional estrangeiro já Está prevista para maio deste ano a
e ao idioma, por exemplo, tem muito mais recrutado. Depois da autorização, o Itamaraty inauguração do Poupatempo do Migrante,
dificuldade de adaptação. “Quando há expede o visto de trabalho para o país onde o uma atuação conjunta do MPT e da Secretaria
contratação de imigrante é porque de fato estrangeiro se encontra. Com o visto em mãos, de Justiça e Defesa da Cidadania de São
não há um brasileiro capaz de executar ele entra no Brasil, se registra na Polícia Federal Paulo. A proposta é concentrar em um único
aquela tarefa exigida pelo posto de trabalho. e, a partir daí, pode tirar a carteira de trabalho e endereço toda a burocracia necessária para
Isso acontece com as funções mais e menos começar a trabalhar. Todo esse processo dura a regularização migratória do estrangeiro,
qualificadas”, afirma o presidente do CNIg. em torno de 15 dias. incluindo a emissão de carteira de trabalho.

124 LABOR
A soma da terceirização
Exploração de “A empresa que desejar se beneficiar da mão

estrangeiros
de obra superexplorada deve ser punida
e isolada economicamente. O custo de
contratar um estrangeiro, independentemente
Da moda
na costura
da situação imigratória em que ele se encontre,
não deve ser menor do que para contratar
O acordo de Residência Mercosul trouxe um brasileiro. É isso que o MPT vem tentando
facilidades para que os latino-americanos fazer: não proteger aquele que superexplora
Além da imigração como fenômeno de trânsito conseguissem formalizar os documentos no e proteger aquele que cumpre a legislação
de pessoas entre países, outra possível causa Brasil. No entanto, como a organização do trabalhista”, argumenta Fabre.
do aumento na emissão de carteira de trabalho setor têxtil adquiriu muita força no mercado,
para estrangeiros é o fortalecimento da atuação não é incomum encontrar bolivianos e outras
dos órgãos públicos na fiscalização do setor imigrantes de nacionalidades submetidos a
têxtil no estado de São Paulo, o que forçou os situações comparadas à escravidão. A atuação
empregadores a efetivarem a formalização de dos órgãos trabalhistas busca o mapeamento
contratos de trabalho. Com o amadurecimento da cadeia produtiva, responsabilizar quem está

Preconceito
do diálogo interinstitucional, as ações contra no topo dessa cadeia, em que numa ponta
a exploração de trabalhadores tiveram grande há o trabalhador escravizado e, na outra, uma
impacto, atingindo também as comunidades famosa grife da moda.

no ‘país das
representativas das nacionalidades vitimadas.
“À medida que a fiscalização se torna mais
“Nem sempre a carteira é bem aceita, pois, efetiva, essa cadeia do mercado de trabalho da

oportunidades’
na contagem do dinheiro, os impostos costura acaba se modificando para sobreviver.
são pesados. Mas a fiscalização provoca Sai da capital e vai para o interior para
uma tomada de consciência por parte das continuar praticando as irregularidades. Mas,
comunidades, que percebem que a carteira, da mesma forma como há uma reestruturação Carlos Destin (foto da pág.126), 30 anos,
além de um direito, é uma necessidade”, aponta do mercado, a fiscalização também se nasceu no Haiti. O profissional de construção
Juliana Armede, do Núcleo de Enfrentamento e reorganiza e se qualifica para continuar civil diplomado chegou ao Brasil em março
Prevenção ao Tráfico de Pessoas da Secretaria atuando da mesma forma que atuou na capital. do ano passado em busca de um lugar ao sol.
da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo. Temos feito muitas operações”, garante Paulo Apesar da fluência em criolo, espanhol, francês
Sérgio de Almeida, do CNIg. e inglês, o mestre de obras atribui à falta de
As grifes 775, Bobô, Collins, Gregory, John John
familiaridade com o português as dificuldades
e Zara foram recentemente investigadas pelo O Brasil é signatário, com países como Bolívia enfrentadas no “país das oportunidades”.
MPT e responsabilizadas por manter mão de obra e outros do Mercosul, de uma série de acordos
estrangeira em condições análogas às de escravo. e de protocolos, como o de Palermo, sobre Há seis meses, Carlos pediu demissão do último
E isso não se limita a meras irregularidades tráfico de pessoas, que facilita a entrada e a emprego registrado na carteira de trabalho,
trabalhistas, mas a imigrantes que trabalham permanência no país de estrangeiros vítimas obtido por meio do trabalho na Missão e Paz,
de segunda a sábado, das 7h à meia-noite, com deste tipo de exploração. Assim, com a em São Paulo, programa da Igreja Católica
dívidas perante o empregador e que vivem impossibilidade de um controle de fronteiras destinado à inclusão de estrangeiros no
amontoados com suas famílias nos fundos das mais rígido, o procurador do Trabalho Luiz mercado brasileiro. Segundo ele, apesar do
oficinas de costura. Na oficina que prestava Michele Fabre defende que a equiparação das bom salário, o problema foi o preconceito.
serviços para a marca Gregory, por exemplo, os condições de trabalho de estrangeiros à mão “Um dos encarregados falava que haitiano com
trabalhadores recebiam apenas R$ 3 por peça, de obra brasileira seria uma forma de combater fome era igual cachorro, comia até gente. Não
que eram vendidas nas araras a até R$ 318. o fluxo desordenado de imigrantes no país. quis que falassem mal do meu país”, desabafa.

LABOR 125
Ainda assim, o imigrante haitiano quer instituições parceiras. “Os nossos estrangeiros
continuar no Brasil e arrumar uma nova são um mão de obra qualificada e responsável,
colocação. O cartão de visita com os dizeres apesar da não revalidação dos diplomas.”
“Deus Abençoe Serviço Destin”, o tempo todo
nas mãos, denuncia a vontade de trabalhar. O Para Juliana Rodrigues, os imigrantes não
objetivo de Carlos é enviar dinheiro para educar apresentam resistência ao mercado de trabalho
os filhos de 4 e 7 anos, residentes no Haiti, que dos subempregos, a não ser em relação ao
pretende trazer mais tarde para o Brasil. salário. “Na verdade, ganhar acima de R$ 1
mil é uma questão de necessidade para eles.
O dinheiro não fica aqui, vai para o país de
origem. No caso do Haiti, por exemplo, o
dinheiro é convertido para o dólar e depois
para gourde. O banco cobra muitas taxas de
Vulnerável conversão e o dinheiro vai diminuindo.”

Assim como no caso de Carlos, o que mais


motiva a vinda dos estrangeiros para o Brasil
são as condições de trabalho, ainda que isso
implique, por vezes, aguentar humilhações.
Normalmente, a péssima qualidade de vida Referência
nas localidades de origem leva o estrangeiro
a aceitar a exploração de empregadores A assistente social faz questão de frisar que a
brasileiros. Nesse contexto, a frase “não me exigência financeira é compensada por uma
sinto explorado” é comum. No entanto, grande dedicação ao trabalho. “Eles querem
é importante lembrar que o imigrante, ter dinheiro para se estabilizar e trazer a família
sobretudo aquele que está em situação para o Brasil, por isso trabalham muito”, afirma.
irregular, se encontra num cenário de extrema
Para Fábio Rodrigo de Oliveira, analista de
vulnerabilidade, propício à superexploração.
recursos humanos de uma empresa paulistana
Já vulnerável pela falta de organização e de tecnologia em contenções, a Casa do
estruturação do tipo de mão de obra, o Migrante já virou um ponto de referência para
estrangeiro chega ao Brasil com uma situação contratação de mão de obra estrangeira. Em
socioeconômica bastante fragilizada. À medida menos de um ano, a empresa já contratou mais
que ele desconhece os direitos e deveres de 20. Ele atribui o aumento das contratações
trabalhistas, não possui referência familiar e de imigrantes com carteira assinada à falta de
nem acolhimento de moradia, a exploração mão de obra no setor da construção civil.
laboral é favorecida. Para Juliana Armede, a
“O mercado de trabalho precisa de pessoas
origem do problema da exploração no trabalho
que busquem a sobrevivência. Se não tivesse
é a ausência de cidadania.
haitiano, seria boliviano, se não tivesse
“Se o estrangeiro chega a um país e desconhece boliviano, a empresa certamente contrataria
o sistema trabalhista local, a tendência é chinês. O fato é que os nordestinos estão
que ele absorva as condições impostas pelo migrando para o interior de São Paulo, onde
empregador, por mais degradantes que a demanda de trabalho é maior, e está muito
forem, e ainda não reclame, pois ele precisa de difícil encontrar mão de obra para trabalhar na
dinheiro para sobreviver”, diz a coordenadora capital paulista. Os africanos e haitianos são as
do Núcleo de Enfrentamento e Prevenção do novas opções. Fortes, eles tem se inserido bem
Tráfico de Pessoas do Estado de São Paulo. na construção civil”, assume Fábio Oliveira.

Contudo, não são apenas questões de ordem


humanitária que envolvem o combate à
exploração do trabalho estrangeiro. Há
também razões de ordem econômica. Trata-
Identidades se da manutenção de um ambiente de
concorrência leal, em que aquele que cumpre
Para sanar esse déficit de cidadania, a Missão as leis trabalhistas não seja prejudicado por
e Paz, em São Paulo acolhe imigrantes e quem as ignora.
refugiados na Casa do Migrante, buscando
entender as histórias de vida e respeitar as A vantagem competitiva da empresa que
identidades. De fevereiro a junho de 2013, o emprega mão de obra estrangeira irregular,
Centro Pastoral de Mediação dos Migrantes fez no setor de confecções, é estimada em R$ 2,3
3,2 mil atendimentos. Mais da metade deles mil mensais por trabalhador nessa situação.
foram para imigrantes que chegaram ao país Em 2012, o Consulado da Bolívia em São Paulo
para trabalhar. A maioria dos atendidos era estimou que dos 300 mil bolivianos cadastrados
homens, haitianos, seguidos de bolivianos e como imigrantes no Brasil, mais da metade
colombianos, na faixa etária de 19 a 40 anos. estavam irregulares. “Se não combatermos
ativamente a superexploração, para o
De acordo com a assistente social Juliana concorrente só restará duas alternativas: fechar
Roberta Rodrigues, 25 anos, o objetivo suas portas ou assimilar as mesmas políticas”,
da instituição religiosa é fazer com que o adverte Luiz Michele Fabre.
estrangeiro se valorize e construa a própria
história como protagonista. Além da mediação
ao trabalho e a documentação, saúde, família e
educação, há encaminhamentos do trabalhador
para cursos de profissionalização em *Estagiária de jornalismo no MPT em Campinas

126 LABOR
Atrás do ouro branco
Seduzidos por oferta de trabalho, estrangeiros deixam
famílias no Paraguai e se tornam vítimas de tráfico
de pessoas no Brasil
Por Keyla Tormena

Juan*, 35 anos, chegou a Mato Grosso do Sul ignoram as faces da exploração, a corrida é pelo paraguaios. Nos dias de chuva, as camas
em fevereiro deste ano. Ele saiu da cidade “ouro branco”, pois o valor recebido no Brasil é próximas à entrada ficam expostas à ação da
de Vaqueria, no Paraguai, para trabalhar na três vezes maior do que o obtido no Paraguai água e do vento. Na hora das refeições, as
colheita de mandioca na fazenda Ponta Grossa, na mesma atividade. condições também são precárias: diante da
em Naviraí, município da região sul do estado. ausência de refeitório com mesas e cadeiras, a
Ele foi encontrado, no dia 7 de março de 2014, Além de Juan, outros 32 estrangeiros sombra das árvores é o refúgio, nos dias secos.
na lavoura, sem documentos brasileiros e em trabalhavam no mandiocal da fazenda de
condições degradantes, durante visita técnica Naviraí. Segundo relatos dos trabalhadores,
do Ministério Público do Trabalho (MPT) em eles foram contratados em suas cidades de
Mato Grosso do Sul e de outras entidades que origem no Paraguai, diretamente pelo patrão.

Na lavoura,
atuam no enfrentamento ao trabalho escravo e O procurador do Trabalho Cícero Rufino Pereira
ao tráfico de pessoas. e integrantes do Fórum de Trabalho Decente
e da Comissão Permanente de Investigação

em família
Essa não foi a única ocasião em que ele cruzou e Fiscalização das Condições de Trabalho
a fronteira para trabalhar no país: “em março flagraram os trabalhadores sem equipamentos
de 2013, vim pela primeira vez para fazer de proteção individual adequados e em
limpeza de pasto em fazendas da região de condições degradantes, tanto nas frentes de Luiz*, adolescente paraguaio de 17 anos,
Guaíra, [município do Paraná, na divisa com o trabalho quanto nos alojamentos. veio com o pai e o irmão mais velho, de 19
Paraguai]”, afirmou. Depois, veio de Vaqueria anos, para o Brasil trabalhar na lavoura. A
trazido pelo mesmo patrão a Mato Grosso do “Os beliches não têm estrado e os colchões
mãe e o irmão mais novo, de 5 anos, ficaram
Sul para colher mandioca. Ele vem, trabalha por são colocados sobre ripas com pregos, o que
em Capivari, no Paraguai. Luiz estava na
30 dias e retorna ao Paraguai com o salário para pode ocasionar um acidente grave, se a frágil
escola, cursava o oitavo ano, mas deixou os
sustentar a família e os dois filhos. estrutura da cama se quebrar e o trabalhador
estudos para colher mandioca no Brasil. Ao ser
que dorme na parte de cima cair sobre o de
perguntado sobre o futuro, responde “no sé...”
Enquanto corta freneticamente a mandioca baixo”, comenta o perito em segurança do
para separá-la dos talos usando um facão trabalho do MPT Sandoval Sousa, que vistoriou Chegou com outras dez pessoas e todos
[com as mãos desprotegidas], conta que os alojamentos da fazenda. Além disso, os começaram a trabalhar no dia 3 de março,
vem frequentemente ao país em busca de quartos não têm janelas para circulação véspera de Carnaval. O adolescente diz que
oportunidades de trabalho. Após encher adequada de ar e nem ventiladores, com nunca pensou em trabalhar em outra atividade:
completamente o cesto com cerca de 25 quilos um único banheiro para os 33 trabalhadores “somente na roça, como meu pai.”
do produto, ele se vira e o carrega nas costas
até uma bolsa de lona. Ali, armazena até uma
tonelada de mandioca. O salário é pago pela
produção do grupo, então, todos precisam
trabalhar com intensidade para garantir o
próprio sustento e o dos colegas de equipe.

Riqueza debaixo da terra


O caso de Juan não é isolado e ilustra o sonho
de muitos que entram no país em busca do
“ouro branco”, como alguns têm chamado a
mandioca, raiz de cor clara que se destaca no
mercado brasileiro e tem alcançado a mais alta
lucratividade dos últimos tempos. Em 2013,
o preço da tonelada pago aos produtores
variou de R$ 150 a R$ 450, na melhor fase,
segundo o sindicato rural de Naviraí. Em
2014, houve redução, mas o preço se mantém
maior do que a média de toda a história.
Para os trabalhadores da fazenda Ponta
Grossa, o pagamento prometido era de R$
28 por tonelada colhida. Uma equipe de dez
trabalhadores consegue arrancar de 20 a 22
toneladas de mandioca por dia, o que dá uma
média de 2 toneladas por pessoa. Para eles, que
Fotos: Sandoval Sousa

LABOR 127
Preço maior que o
da média histórica
Miguel*, pai de Luiz, já trabalhava na lavoura A variação do preço da mandioca, de acordo
da mandioca no Paraguai. Em sua terra natal, com informações do Levantamento Sistemático
ganhava cerca de R$ 15 por diária. Aqui, o da Produção Agrícola do Instituto Brasileiro de
pagamento varia conforme a produtividade e é Geografia e Estatística (IBGE), foi de 10,3%, em
próximo de R$ 50 por dia. janeiro de 2014. Os dados apontam a mandioca
entre os produtos com variação positiva em
Os empregados da fazenda Ponta Grossa comparação a 2013, o que a coloca como a
trabalham divididos em três turmas, duas de terceira produção mais significativa. Os outros
dez e uma de 13 homens. Para preparar as produtos foram a cana-de-açúcar e a soja. A
refeições, os próprios trabalhadores se revezam, estimativa de produção da mandioca para o
mas cada turma tem seu cozinheiro. Segundo ano é superior a 23 milhões de toneladas no
eles, fazem comida paraguaia. O patrão compra país; em Mato Grosso do Sul, espera-se colher
os mantimentos fora do estado e desconta o 840 mil toneladas.
valor dos produtos no dia do pagamento, que
é mensal. Sirlei Feuser e Lino Schueroff, casal de Paranavaí
(PR), prestam serviços aos agricultores da região
de Naviraí na colheita e transporte do produto

Atividade
com
respeito aos
trabalhadores
A visita à fazenda Ponta
Grossa foi antecedida da
segunda audiência pública
sobre o cultivo de mandioca
em Naviraí. A primeira foi
realizada em outubro de 2013.
O crescimento do setor e a
contratação de mão de obra
foram assuntos debatidos com
proprietários de fecularias e
agricultores. O procurador do
Trabalho Cícero Rufino Pereira
destacou que “a atividade
da colheita da mandioca
deve respeitar as condições
mínimas de segurança para os
trabalhadores”. até as fecularias. Segundo Sirlei, que participou
das duas audiências públicas sobre contratação
Para o coordenador da Comissão
de trabalhadores estrangeiros, há 15 paraguaios
Permanente de Investigação e Fiscalização
devidamente registrados e trabalhando na sua
das Condições de Trabalho, Maucir Pauletti,
empresa. Só os motoristas são brasileiros.
os principais problemas do setor estão
relacionados à jornada e ao sistema de Ela destaca que eles vêm de regiões próximas
pagamento por produtividade. “Da muda à cidade de Guaíra atrás de serviço. Sirlei e o
da mandioca à industrialização final, é marido afirmam que nunca foram ao exterior
preciso que todos envolvidos no processo para contratar trabalhadores. “Eles dizem que
tenham compromisso. A atividade exige não têm trabalho, que passam fome lá.” Na
trabalhadores disponíveis para atividades atividade, ela afirma que o problema é que
sazonais e o objetivo é estimular a produção eles querem trabalhar por produção para
de maneira legal.” Segundo o procurador ganhar mais.
do Trabalho Jeferson Pereira, que participou
da primeira audiência pública, é importante
que os empregadores cumpram as normas,
adequem a rotina de trabalho e ofereçam
condições dignas aos trabalhadores, para Incógnita
evitar, até mesmo, concorrência desleal
com quem cumpre a lei: “O pagamento Lino acredita que a produção na região Sul
por produção estimula o desgaste físico do estado ainda vai aumentar, porque o preço
do trabalhador, que se exaure para obter estava bom no passado e muitos agricultores
ganhos maiores.” aumentaram a plantação.

128 LABOR
interessados na colheita da mandioca e
também em outras frentes de trabalho, como
carvoarias, limpeza de áreas para pecuária e
construção civil.

No primeiro semestre de 2013, houve resgates


de trabalhadores paraguaios em lavouras de
mandioca, em Itaquiraí, onde, em março, 34
trabalhadores foram flagrados pelo Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE) e pela Polícia
Federal na fazenda Dois Meninos. Entre eles,
estavam sete adolescentes, com idades entre
15 e 17 anos. Em maio, em Nova Andradina,
também no sul do estado, na fazenda Santa
Luzia, dez pessoas foram encontradas mantidas
em condições degradantes. Nos dois casos,
os responsáveis firmaram termo de ajuste de
conduta (TAC) para resolver as irregularidades e
pagar as verbas rescisórias.

Os flagrantes alertaram autoridades de que


esses casos não seriam isolados. Para o vice-
cônsul do Paraguai em Guaíra (PR), Marcelo
Fabian Céspedes, que participou da primeira
audiência pública sobre o tema em Naviraí,
a fronteira seca é uma das dificuldades: “As
pessoas passam como se estivessem no mesmo
Para o presidente do Sindicato Rural e país. Os consulados estão estreitando ligações
vice-presidente da Cooperativa Agrícola para fazer cumprir as normas migratórias.”
Sulmatogrossense (Copasul), Yoshihiro
Hakamada, o setor é de grande importância
para o país e a atividade agrícola precisa ser
preservada. Hakamada não vê a mandioca
como “ouro branco”. Segundo ele, o preço
subiu porque ninguém tinha mandioca. “No Providência
Nordeste, houve seca severa. Os produtores de
lá vinham buscar mandioca para o consumo e Nos casos em que o estrangeiro é identificado
para abastecer as casas de farinha. Foi inédito, em situação de vulnerabilidade como vítima do
porque o preço nunca foi tão alto. Algumas tráfico de pessoas, pode ser fornecido visto para
empresas chegaram a importar fécula de fora permanência no país condicionado ao prazo
do país. Hoje, o preço é melhor do que a média de um ano. Essa providência está prevista na
histórica.” Ao avaliar o crescimento do setor, resolução normativa 93 do Conselho Nacional
responde: “o preço varia, é uma incógnita”. de Imigração. A medida foi criada em 2010
para fortalecer as denúncias e garantir direitos
Do outro lado, Osvaldo Ribeiro da Silva, básicos a imigrantes em situação irregular,
presidente do Sindicato dos Trabalhadores porque muitos deixam de denunciar por medo
Rurais de Naviraí, afirma ter conhecimento de da deportação. Além disso, existe um acordo
paraguaios na região. Até agora, no entanto, para países que integram o Mercosul, que
não fez nenhuma rescisão de contrato de estabelece a possibilidade de residência com
trabalhadores estrangeiros. “Começaram a vir direito a trabalho.
pra cá em 2013. No Brasil, sempre falta mão
de obra. Não se acha brasileiro para trabalhar O caso da fazenda Ponta Grossa está em
por aqui. Os assentados não querem trabalhar fase preliminar de investigação. O produtor
nas fazendas, porque perdem a cesta básica se rural responsável pela colheita, Cleodir
forem registrados.” Cesar de Campos, em audiência no MPT, em
março, confirmou a informação dada pelos
trabalhadores sobre o preço pago por tonelada.
Ele acredita que na região 99% da mandioca
seja colhida por paraguaios.

Rota da imigração Os empregadores estão sendo ouvidos na


busca de solução administrativa, por meio
de assinatura de TAC. Assim, teriam que
O grupo localizado na fazenda Ponta Grossa interromper as irregularidades trabalhistas e
veio de diferentes cidades do Paraguai: adequar a situação dos trabalhadores, inclusive
Vaqueria, Capivari, Caaguaçu e Cidade do quanto à questão da regularização migratória.
Leste, a única localizada na faixa de fronteira, Caso o empregador não aceite firmar o acordo,
próxima a Foz do Iguaçu (PR). Mato Grosso do deverá haver ajuizamento de ação civil pública
Sul possui 730,8 quilômetros de fronteira seca, na Justiça do Trabalho. X
somando os limites com o Paraguai e a Bolívia,
o que facilita a imigração de trabalhadores *nomes fictícios

LABOR 129
Siderurgia

Vulcões de aço
derretido
Submetidos a riscos, calor excessivo, ruído, poeira e
exposição a agentes químicos, trabalhadores adoecem

Por Fabiana Senna

O Brasil terminou 2013 como ano passado, a Companhia


o nono maior produtor de Siderúrgica Nacional (CSN),
aço do mundo, com volume a maior da América Latina,
de 34,2 milhões de toneladas registrou aumento de 194% nos
produzidas, segundo dados lucros, em relação ao mesmo

Grau de insalubridade
da Associação Mundial do período de 2012. O fervor das

e periculosidade Aço (WSA na sigla em inglês). cifras milionárias também

do setor permite A lucratividade do setor aumentou outras estatísticas,


aposentadorias também se manteve em alta: as relacionadas aos acidentes e
especiais só no terceiro trimestre do doenças ocupacionais.

130 LABOR
Fundacentro

No Ministério Público de Trabalho (MPT) em


Minas Gerais houve um aumento de mais de
Aposentadoria especial com exposição a ruído, calor ou produto
químico ou biológico.
60% no número de procedimentos instaurados As atividades em siderurgia estão
contra empresas do setor siderúrgico, de 2008 enquadradas no maior grau de risco do Na prática, muitas empresas ignoram a
a 2013. Quase metade, 45 do total de 101 casos acidente de trabalho associado (grau legislação e os trabalhadores têm que pedir
que exigiram a atuação do órgão em 2013, de risco nº 4), segundo o Ministério do na Justiça o direito de se aposentar, como é
estava relacionada às irregularidades no meio Trabalho e Emprego (MTE), baseado na o caso de Sérgio Santos Lopes (foto na pág.
ambiente de trabalho. Classificação Nacional de Atividades 121), que teve o primeiro emprego de carteira
Econômicas do Instituto Brasileiro assinada na Usiminas, em Ipatinga (MG), onde
Atualmente, 46 siderúrgicas são investigadas, desempenhwou atividades em contato com o
de Geografia e Estatística (IBGE). A
algumas com mais de um procedimento aberto. amianto por 24 anos. “Fui demitido em 2009
categorização serve para dimensionar
“Identificamos durante as inspeções falhas e no mesmo ano entrei na Justiça para rever
a criação do Serviço Especializado em
que começam, muitas vezes, no Programa valores devidos pela empresa por não pagar
Saúde e Medicina do Trabalho nas
de Controle Médico de Saúde Ocupacional adicionais de insalubridade e periculosidade.
empresas e para definir o valor de
(PCMSO) da empresa, ao não contemplar Nesse percurso, descobri que poderia me
exames admissionais, periódicos, de troca de multa aplicada por descumprimento de
normas regulamentadoras. O alto grau de aposentar pelo tempo de exposição ao
função, demissionais e outros que servem para
insalubridade e periculosidade do setor amianto. A aposentadoria só saiu em 2012 e,
monitorar e intervir nos riscos de acidentes e
permite, inclusive, aposentadorias especiais, a partir do meu processo, muitos amigos que
doenças”, fala o médico do Trabalho Gustavo
sendo de 20 anos para quem trabalha com trabalhavam comigo também puderam ter
Veloso, da Assessoria de Segurança e Medicina
amianto e de 25 anos para quem trabalha informações para requerer os seus direitos.”
do Trabalho do MPT em Minas.

LABOR 131
Fundacentro

Amianto siderúrgicas são prioridade do MPT em Coronel


Fabriciano, em especial porque a área de
panelas com metal fundido e remoção da
escória, a impureza do minério de ferro.”
O MPT em Minas ajuizou uma ação civil atuação engloba o Vale do Aço, importante
pública (ACP) para exigir que a Usiminas polo siderúrgico do país”, afirma o procurador O vice-presidente da Comissão Interna de
elabore um plano de ação para remover o do Trabalho Rafael Salgado. Prevenção de Acidentes (Cipa) da Aperam,
amianto do ambiente de trabalho. A ACP Cléber Augusto, já viu de perto vários acidentes
exige que a empresa se adeque à norma dessa natureza, ao longo dos 25 anos de
regulamentadora nº 15, do MTE, que dispõe trabalho na empresa. “Já houve casos de
sobre o uso controlado e responsável do mortes por queimaduras há alguns anos,

Altas temperaturas
amianto crisotila (branco) e proíbe todos causados por explosões durante o processo
os outros tipos de amianto. O MPT também químico. As lesões por fagulhas são recorrentes
investiga o vazamento de benzeno na e nem sempre são registradas como acidente
Usiminas, baseado no relatório de inspeção de trabalho, o que mostra outra fragilidade do
O calor é um velho vilão da siderurgia. As
produzido pelo MTE, que constatou a setor: a rotina de encobrir os seus riscos.”
lavas expelidas pelos vulcões possuem
exposição de trabalhadores ao benzeno em temperaturas que variam de 650ºC a 950ºC e No início de 2014, a Aperam firmou um
níveis acima dos limites de tolerância. os altos-fornos utilizados para a fundição do acordo judicial com o MPT em Minas se
minério de ferro e da sucata podem atingir três comprometendo a fazer adequações,
Minas Gerais é o maior produtor de aço do país,
vezes essa temperatura. Segundo o médico em conformidade com normas
registrando um volume de 33,7% do total de
do Trabalho Gustavo Veloso, a exposição ao regulamentadoras, de forma a resguardar
aço bruto produzido no Brasil, de acordo com o
calor excessivo, proveniente do alto-forno e a saúde e a segurança dos trabalhadores.
Instituto Aço Brasil. Dentro do estado, o Vale do
do metal fundido, pode provocar câimbras, No total, foram assumidas 35 obrigações de
Aço concentra boa parte dessa produção com
desidratação e espasmos musculares. fazer e não fazer que perpassam a exposição
dois grandes nomes da siderurgia nacional:
“Também há grande risco de queimaduras, ao ruído e ao calor, a instalação de proteção
Usiminas (Ipatinga) e Aperam Inox América
especialmente durante as atividades de em máquinas e equipamentos, a rotulação
do Sul (Timóteo). “As questões envolvendo
manuseio dos grandes fornos, transporte de devida de produtos químicos, a sinalização

132 LABOR
Arquivo Pessoal

e o espaçamento de vãos nas áreas de risco, algumas tóxicas, como é o caso do amianto precisa dos postos de trabalho”, diz o diretor
entre outras medidas. e da sílica, e, aos produtos químicos, como o do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos
monóxido de carbono e o benzeno. “A inalação de Timóteo e Coronel Fabriciano e
da poeira pode provocar desde alergias a presidente da Federação Estadual dos
Avanço doenças mais graves, como a silicose, doença
irreversível que ataca o pulmão, prejudicando a
Metalúrgicos de Minas Gerais, José Wagner
Morais de Oliveira, que acompanha de perto
Para o procurador do Trabalho Rafael Salgado, função respiratória. Os produtos químicos, por a rotina dos trabalhadores.
que propôs as adequações, o acordo significa sua vez, podem provocar intoxicações, difíceis
um enorme avanço. “Foram detectadas diversas de serem mensuradas. O benzeno atinge as
células sanguíneas, podendo causar leucopenia
irregularidades na conduta da empresa durante
anos e o acordo, que abrange quase todo o (redução de leucócitos no sangue), leucemia, Na pressão
meio ambiente laboral, representa significativo câncer de bexiga, de pulmão e do sistema
linfático e também alterações neurológicas”, Segundo a assessora de Saúde da
ganho na qualidade de vida dos trabalhadores.” Confederação Nacional de Trabalhadores da
explica o médico do Trabalho Gustavo Veloso.
Indústria, Marta Freitas, o avanço tecnológico
Outros riscos do setor são as doenças não foi suficiente para melhorar as condições
relacionadas à ergonomia, decorrentes do de trabalho. “A modernização intensificou a
agilidade da produção e, ao mesmo tempo

Riscos silenciosos
prolongado período do trabalho em pé; da
adoção de posturas inadequadas, em função enxugou o número de trabalhadores do setor.
da agilidade do processo de produção e, O reduzido quantitativo de empregados
principalmente, do carregamento de peso. tem que dar conta de um volume cada
Os cerca de 140 mil trabalhadores do setor “Esses problemas estão cada vez mais vez maior de produção, o que aumentou
siderúrgico no país convivem também com frequentes nas causas de afastamento e a pressão e ampliou os riscos físicos, de
riscos mais difíceis de serem percebidos na não recebem a devida atenção no PCMSO queda, queimaduras, lesões e outros para os
rotina de trabalho, como exposição às poeiras, das empresas, que ignora uma análise mais psicológicos como a depressão e o estresse.” X

LABOR 133
Artigo

Uma história que o


Brasil tenta esquecer

A escravidão é um desafio que, 125 anos depois da


Lei Áurea, o Brasil ainda não conseguiu resolver

Por Laurentino Gomes*

O desprezo pela conservação meu livro 1808, sobre a fuga da


dos monumentos históricos corte portuguesa de dom João.
nunca foi novidade no Brasil, Um trabalho a ser registrado e

Sem povo, as mas o Rio de Janeiro registrou comemorado são as pesquisas


instituições não têm algumas mudanças benéficas arqueológicas realizadas durante
apoio, a sociedade não nessa área desde que publiquei, as obras de reurbanização da
tem alicerce em 2007, a primeira edição do região portuária da cidade.

134 LABOR
Ilustrações: Cyrano Vital

LABOR 135
Ali funcionou até a primeira metade do século as lavouras de algodão, café, tabaco e outras A primeira lei brasileira de combate ao
19 o Mercado do Valongo, maior entreposto culturas que sustentavam a economia brasileira. comércio negreiro, aprovada em 1831 por
negreiro das Américas. Durante quase 200 pressão do governo britânico, nunca pegou.
anos, o Valongo havia desaparecido do mapa O Brasil foi o maior território escravagista do Era, como se dizia na época, “uma lei para
do Rio de Janeiro sem deixar traço algum, hemisfério ocidental por mais de 350 anos. inglês ver”. Mesmo oficialmente proibido no
como se jamais tivesse existido. Sua localização Estima-se que de um total de 10 milhões de país e condenado por tratados internacionais,
era ignorada nos mapas de ruas e nos guias cativos africanos trazidos para as Américas o tráfico continuou de forma intensa e sob as
turísticos. Agora, graças ao paciente trabalho nesse período 40% tiveram como destino as vistas grossas das autoridades. Calcula-se que
dos pesquisadores e alguma boa vontade senzalas brasileiras. Foi também o país que mais entre 1840 e 1850, ano da chamada Lei Euzébio
das autoridades locais, isso está, felizmente, tempo resistiu a pôr fim ao comércio negreiro de Queiroz (que finalmente pôs fim ao tráfico)
mudando para melhor. As novidades incluem e o último do continente americano a abolir a entraram no Brasil, em média, de 30 mil a 40 mil
a descoberta de preciosos objetos e vestígios mão de obra escrava pela chamada Lei Áurea, escravos africanos por ano.
do antigo mercado negreiro, sua catalogação de 13 de maio de 1888 – quatro anos depois de
e sinalização, além de uma campanha para Porto Rico e dois depois de Cuba. O tráfico de escravos era um negócio
que o local seja reconhecido como um dos gigantesco, que movimentava centenas de
patrimônios mundiais da humanidade pela navios e milhares de pessoas dos dois lados do
Unesco, a agência da Organização das Nações Atlântico. Incluía agentes na costa da África,
Unidas responsável pelo fomento à educação, à Cargas humanas exportadores, armadores, transportadores,
ciência e à cultura. seguradores, importadores, atacadistas que
Viciado em escravidão, o Brasil resistiu revendiam no Rio para centenas de pequenos
O Valongo que começa a ressurgir das enquanto pode aos esforços abolicionistas. traficantes regionais, que, por sua vez, se
escavações no Rio de Janeiro é testemunha Em meados do século 19, a situação chegou encarregavam de redistribuir as mercadorias
eloquente de uma história que o Brasil sempre a tal ponto que a Inglaterra, maior potência para as cidades, fazendas, minas do interior
tentou esquecer. Quando a corte portuguesa econômica e militar do planeta e cuja opinião do país. Em 1812, metade dos 30 maiores
chegou ao Brasil, navios negreiros vindos pública exigia a imediata abolição do tráfico comerciantes do Rio de Janeiro se constituía de
da costa da África despejavam no Mercado negreiro, passou a dedicar ao Brasil tratamento traficantes de escravos.
do Valongo entre 18 mil e 22 mil homens, equivalente ao reservado aos estados
mulheres e crianças por ano. Permaneciam em
barbarescos do norte da África envolvidos com
quarentena, para serem engordados e tratados
a pirataria. Sob a mira dos canhões britânicos,
das doenças. Quando adquiriam uma aparência
mais saudável, eram comercializados da mesma
navios negreiros eram aprisionados a caminho Tributo
do litoral brasileiro e submetidos a cortes de
maneira como hoje boiadeiros e pecuaristas Oitenta por cento dos cativos vinham do
negociam animais de corte no interior do Brasil. justiça inglesas, que geralmente confiscavam
Congo, de Angola ou Moçambique. A taxa
A diferença é que, em 1808, a “mercadoria” as embarcações e devolviam suas cargas
de mortalidade no percurso até o Brasil
destinava-se a alimentar as minas de ouro e humanas ao litoral africano. Nada disso parecia
era altíssima. Na África, o escravo chegava
diamante, os engenhos de cana-de-açúcar e amedrontar os traficantes.
primeiro às mãos dos mercadores nativos,

136 LABOR
geralmente como prisioneiro de guerra ou máquinas e automóveis. O valor do aluguel
oferecido como pagamento de tributo a um era inteiramente repassado ao dono do
chefe tribal. Cabia a esse mercador levá-lo até escravo, sem que o cativo participasse do
o litoral, onde seria comprado pelos agentes ganho. “Assim, qualquer pessoa com fumaças
dos traficantes portugueses. de nobreza podia alcançar proveitos dos
trabalhos mais humildes sem degradar-se e
Na África, cerca de 40% dos negros sem calejar as mãos”, observou o historiador
escravizados morriam no percurso entre Sérgio Buarque de Holanda.
as zonas de captura e o litoral. Outros 15%
morreriam na travessia do Atlântico, devido às
péssimas condições sanitárias nos porões dos
navios negreiros. As perdas eram maiores nas
cargas que vinham de Moçambique e outras
Desafio
regiões da África oriental. Da costa atlântica, O grande abolicionista pernambucano
uma viagem até o Brasil durava entre 33 e Joaquim Nabuco dizia que o Brasil estava
43 dias. De Moçambique, no Oceano Índico, condenado a continuar no atraso enquanto
até 76 dias. Por fim, ao chegar ao Rio de não resolvesse de forma satisfatória a herança
Janeiro, entre 10% e 12% dos desembarcados escravocrata. Para ele, não bastava libertar os
pereciam em depósitos, como os do Mercado escravos. Era preciso incorporá-los à sociedade
do Valongo, antes de serem vendidos. Em como cidadãos de pleno direito. O regime de
resumo, de cada cem negros capturados escravidão, dizia, corrompia tudo e impedia
na África, só 45 chegavam ao destino final. que a sociedade evoluísse. “A escravidão
Significa que de 10 milhões de escravos não consentiu que nos organizássemos e
vendidos nas Américas, quase outro tanto sem povo as instituições não tem apoio, a
teria morrido no percurso, num dos maiores sociedade não tem alicerce”, escreveu. É um
genocídios da história da humanidade. desafio que, 125 anos depois da Lei Áurea, o
Brasil ainda não conseguiu resolver. X
No Rio de Janeiro, toda pessoa com alguma
projeção social tinha negros cativos. Alguns
proprietários tinham mais escravos do que
o necessário para suas atividades. Os cativos * Quatro vezes ganhador do Prêmio Jabuti
excedentes eram alugados a terceiros. Dessa de Literatura, Laurentino Gomes é autor
forma, seus donos conseguiam um ganho dos livros 1808, sobre a fuga da corte
extra. Havia até corretores especializados portuguesa para o Rio de Janeiro; 1822, sobre
em intermediar esse tipo de negócio – num a Independência do Brasil; e 1889, sobre a
sistema parecido com o funcionamento
Proclamação da República.
atual das imobiliárias e locadoras de

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