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Universidade Federal de Sergipe

Centro de Ciências Sociais Aplicadas – CCSA


Departamento de Direito
Teoria Geral do Direito Penal I
Docente: Carlos Alberto Menezes
Discente: Milena Moreira de Almeida Fontes
Tema: Qual é a missão do Direito Penal?

Diversos autores e críticos do Direito Penal discutem acerca de qual seria a sua missão.
A análise feita neste trabalho, recairá, fundamentalmente, nas considerações de Francisco de
Assis Toledo, em sua obra “Princípios Básicos de Direito Penal”1, na qual sintetiza um
emaranhado de visões de diversos penalistas, filósofos e doutrinadores para a formação do seu
pensamento. Para o autor, quando dizemos que “a tarefa do direito penal é a luta contra o
crime”, afirma-se algo verdadeiro [...] Todavia, não se pode dizer que essa missão seja exclusiva
do direito penal”, faz-se necessário “investigar, portanto, qual a tarefa específica do direito
penal, dentro daquele objetivo amplo”2. É a partir dessa assertiva que ele irá buscar apresentar
de forma objetiva e clara a missão do direito penal, apresentando teses que o relacionam com o
campo da ética e com a ideia de proteção de bens jurídicos.
O autor discorre, de início, acerca de uma função ético-social do direito penal na visão
de alguns doutrinadores, afirmando que há delitos que abalam ao mesmo tempo a ordem
jurídica e a ordem moral. Segundo H. Mayer (1953, p.50), “‘o crime é violação de bens
jurídicos, mas, para além disso, é violação intolerável da ordem moral’” (apud TOLEDO, 1994,
p.7). É nesse momento que o direito é acionado para a proteção desses bens jurídicos de uma
forma limitada e fragmentária. De outro lado, há autores que enxergam o direito penal como
um “ordenamento de proteção e de paz para as mais essenciais relações humanas”3. A partir
dessa análise o autor destaca três notas: “a) o fundo ético do ordenamento penal; b) o seu caráter
limitado, ou fragmentário; c) o estar dirigido para a proteção de algo.”4. É aqui que se inicia a
investigação da tarefa do direito penal.

1
TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios Básicos de Direito Penal. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 1994. p.6.
2
Ibid., 1994, p.7.
3
Ibid., 1994, p.7.
4
Ibid., 1994, p.7.
2

É densa a discussão acerca da separação ou não entre o direito e a moral. Muitos autores
acreditam ter o direito um fundo eminentemente ético, outros acreditam não ter nenhuma
relação entre essas duas ordens. De acordo com Francisco de Assis Toledo, essa separação no
âmbito do direito penal, de início, produziu grandes frutos, no entanto, houve uma
“instrumentalização do ordenamento jurídico-penal”5, em certos períodos, para fins
condenáveis, próprios de uma barbárie, a exemplo das Guerras Mundiais e do Nazismo. Em sua
visão, o autor exalta a ideia de que não pode haver oposição entre o direito e a moral, “pois
ambos contêm princípios reguladores do comportamento humano”6, além de que “‘os
princípios e as máximas morais forjam os costumes que, por sua vez, fornecem grande parte da
matéria utilizada para a elaboração legislativa’”7. Ao mesmo tempo, enaltece o fato de que há
diversas normas penais com natureza distinta das normas éticas, não estando o direito, desse
modo, nem oposto e nem totalmente entrelaçado à moral, apenas com uma tênue interligação.
Assim, o direito penal “quer também contribuir para a construção de um mundo valioso,
razão pela qual não pode colocar-se em oposição aos valores morais dominantes”8. Nesse
sentido, limita o campo de sua atuação para que a sua intervenção se aplique apenas no
momento em que lhe for pertinente, ou seja, “dentre a multidão de fatos ilícitos possíveis,
somente alguns – os mais graves – são selecionados para serem alcançados pelas malhas do
ordenamento penal”9, discorre o autor:

A tarefa imediata do direito penal é, portanto, de natureza eminentemente jurídica e,


como tal, resume-se à proteção de bens jurídicos. Nisso, aliás, está empenhado todo o
ordenamento jurídico. E aqui entremostra-se o caráter subsidiário do ordenamento
penal: onde a proteção de outros ramos do direito possa estar ausente, falhar ou
revelar-se insuficiente, se a lesão ou exposição a perigo do bem jurídico tutelado
apresentar certa gravidade, até aí deve estender-se o manto da proteção penal, como
ultima ratio regum. Não além disso. Fica, pois, esclarecido o caráter limitado do
direito penal, sob duplo aspecto: primeiro, o da subsidiariedade de sua proteção a bens
jurídicos; segundo, o dever estar condicionada sua intervenção à importância ou
gravidade da lesão, real ou potencial. (TOLEDO, 1994, p. 14).

Após as considerações aqui feitas, temos, portanto, que a missão do direito penal recai
sobre a proteção de bens jurídicos, em que “bem” é tudo aquilo que se apresenta como útil e

5
Ibid., 1994, p.9.
6
Ibid., 1994, p.12.
7
Ibid., 1994, p.10.
8
Ibid., 1994, p.12.
9
Ibid., 1994, p.15.
3

valioso e é devido a essa sua utilidade que são procurados e muitas vezes expostos a
determinados perigos e lesões. Assim, “sem um conjunto de medidas aptas a proteger certos
bens, indispensáveis à vida comunitária, seria impossível a manutenção da paz social”10. Vale
ressaltar que protegem-se penalmente, “certos bens jurídicos e, ainda assim, contra
determinadas formas de agressão; não todos os bens jurídicos contra todos os possíveis modos
de agressão”11. Destarte, o direito penal busca assegurar a proteção dos bens jurídicos que estão
sob a sua alçada (sempre de forma limitada), a fim de evitar lesões, promovendo a vida
harmoniosa em sociedade.

Bibliografia

TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios Básicos de Direito Penal. 5ª ed. São Paulo: Saraiva,
1994.

10
Ibid., 1994, p.16.
11
Ibid., 1994, p.17.