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18 de Janeiro de 2018

Tribunal de Justiça de Santa Catarina TJ-SC - Apelação Cível : AC


803118 SC 2008.080311-8 - Inteiro Teor

Inteiro Teor
AC_803118_SC_1261885651676.doc
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Dados do acórdão
Classe:Apelação Cível
Processo:
Relator:Sérgio Roberto Baasch Luz
Data:2009-04-02
Apelação Cível n. , de Campos Novos

Relator: Des. Sérgio Roberto Baasch Luz

INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS - VIOLAÇÃO DE TÚMULO - RESTOS


MORTAIS REMOVIDOS ILEGALMENTE - MAGISTRADO DE PRIMEIRO GRAU
QUE PERMITIU QUE A OFENSA SEJA REPARADA IN NATURA ANTE O
RESTABELECIMENTO DO STATUS QUO ANTE - SENTENÇA EXTRA PETITA
CARACTERIZADA - PRESTAÇÃO JURISDICIONAL DIVERSA DA PRETENDIDA
- EXORDIAL QUE ASPIRAVA A REPARAÇÃO EM PECÚNIA PELO ABALO
MORAL SOFRIDO - VIOLAÇÃO AOS ARTS. 128 E 460 DO CPC - NULIDADE DA
SENTENÇA RECONHECIDA DE OFÍCIO.

- Ao proferir a sentença, o magistrado deve solucionar, mediante fundamentação,


as questões que lhe foram submetidas pelas partes. Nesses termos quando há
provimento de prestação jurisdicional diversa da pretendida, a sentença é extra
petita e, portanto, nula.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível n. , da comarca de
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Campos Novos (2ª Vara Cível), em que é apte/apdo José Duarte, e apdo/apte
Município de Campos Novos:

ACORDAM, em Primeira Câmara de Direito Público, por votação unânime, anular


ex officio a sentença, por ser extra petita , restando prejudicado os recursos.
Custas na forma da lei.

RELATÓRIO

Tratam-se de apelações cíveis interpostas por José Duarte e o município de


Campos Novos, contra sentença proferida pelo douto togado monocrático que, nos
autos de ação condenatória de indenização por danos morais, movida pelo
primeiro apelante em face do segundo, julgou procedente o pedido contido na
exordial, a fim de determinar que o réu localize e identifique, através de perícia, os
restos mortais de ANTÔNIO DUARTE E IRACEMA DUARTE BARBOSA junto ao
cemitério Dom Daniel Hostin, situado neste Município de Campos Novos e, na
sequência, procede a reconstrução do túmulo com a identificação da pessoa
sepultada, de preferência no mesmo local em que foram localizados os restos
mortais. Por fim, em consequência, nos termos do art. 20, § 4º, do Código de
Processo Civil, condenou o réu ao pagamento ds honorários advocatícios no valor
de R$ 415,00, restando o ente público isento ao pagamento de custas judiciais,
conforme legislação estadual.

O requerente interpôs recurso de apelação, requerendo, em síntese, o


ressarcimento em pecúnia pelo abalo moral já caracterizado em sentença, a ser
arbitrado em quantia equivalente a 200 salários mínimos.

O município de Campos Novos também apresentou apelação cível, afirmando que


o local do sepultamento dos familiares do autor encontra-se intacto - não
necessitando de prova pericial dos restos mortais - mas sim somente a
reconstrução das sepulturas.

Assevera, assim, que o julgamento da presente ação indenizatória deve ser


considerada procedente, tão-somente, para determinar a localização do local das
sepulturas, por procedimentos e inspeções de localização sem a realização de
perícia para a localização da ossada e de realização de exames, reconstruindo as
sepulturas na forma declarada pelo apelante, ou de outra forma determinada.

Constra-arrazoados, os autos ascenderam a esta Corte.

É o relatório.

VOTO

Cuida-se de pleito indenizatório contra o município de Campos Novos, em razão de


violação de túmulo e remoção ilegal de restos mortais.
O requerente, na qualidade de filho e irmão de Antônio Duarte e Iracema Duarte
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Barbosa, afirma que esteve no dia 04 de outubro de 2006 visitando os túmulos de
seus falecidos pai e irmã, quando ao chegar no Cemitério Don Daniel Hostin teve a
triste surpresa: as sepulturas de seus parentes, que alí se encontravam por mais de
15 anos, haviam sido removidas.

Portanto, ao propor a presente ação, o apelante/autor requereu nada mais, nada


menos, que a procedência do pedido, "reconhecendo a culpa objetiva do Município
de Campos Novos, condenando-o ao pagamento do valor correspondente a 200
(duzentos) salários mínimos (R$ 70.000,00)" (fl. 05).

Resta claro que o requerente somente pretendeu o ressarcimento em pecúnia pelos


danos morais sofridos ao se deparar com o desaparecimento dos restos mortais de
seus familiares, afirmando, destarte, que "Sem prejuízo da indenização pelo dano
moral, o Autor proporá a competente ação criminal visando apurar
responsabilidade e ainda que sejam os Autores do fato compelidos, através de
exames, a estabelecerem o status a quo ante, evitando que o dano se propague ao
longo do tempo" (fl.05).

Diferentemente do entendido pelo juiz a quo , o requerente, ora apelante, não


postulou em nenhum momento a obrigação de fazer deferida em sentença, qual
seja a localização e identificação, "através de perícia, os restos mortais de
ANTÔNIO DUARTE E IRACEMA DUARTE BARBOSA junto ao cemitério Dom
Daniel Hostin, situado neste Município de Campos Novos e, na sequência,
procede a reconstrução do túmulo com a identificação da pessoa sepultada, de
preferência no mesmo local em que foram localizados os restos mortais." (teor da
sentença na fl.158).

Destarte, verifica-se que o juiz sentenciante decidiu a presente ação com fatos e
fundamentos diversos dos que constam na inicial, isto é, não se ateve à causa de
pedir, infringindo o artigo 128, do Código de Processo Civil. E ainda, dispõe o
artigo 460, caput, do Código de Processo Civil:

"Art. 460. É defeso ao juiz proferir sentença, a favor do autor, de natureza diversa
da pedida, bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso
do que lhe foi demandado."

Comentando o dispositivo processual acima transcrito, leciona Sérgio Gilberto


Porto :

"A norma, no caput, tem por propósito estabelecer a necessária vinculação que
deve haver entre o pedido/causa de pedir e a sentença, em razão do princípio da
adstrição; vedado, pois, que o juiz decida fora dos contornos da lide fixada através
do pedido vestibular, que é, em última análise, o elemento identificador do
conteúdo da demanda." (Comentários ao Código de Processo Civil, vol. 6, Do
Processo de Conhecimento - arts. 444 a 495, São Paulo: Revista dos Tribunais,
2000, p. 109).
A norma inscrita no artigo 460, do Código de Processo Civil é cogente, devendo o
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magistrado, obrigatoriamente, ater-se aos limites expostos na petição inicial. No
entanto, é permitido ao togado manifestar-se sobre questões alheias somente
quando constituírem matérias de ordem pública, o que não afasta a imposição de
pronunciar-se acerca dos pedidos iniciais.

Assim sendo, ao sentenciar, o magistrado deve fundamentar sua decisão,


analisando os fatos e o direito, e fazer o dispositivo, com a solução das questões
que lhe foram submetidas pelas partes.

Diante disso, a sentença deveria se ater a decidir acerca do ressarcimento em


pecúnia pelo alegado abalo moral sofrido, e não quanto ao restabelecimento do s
tatus a quo ante.

Acerca do tema, leciona Humberto Theodoro Júnior :

"A sentença extra petita incide em nulidade porque soluciona causa diversa da que
foi proposta através do pedido. E há julgamento fora do pedido tanto quando o juiz
defere uma prestação diferente da que lhe foi postulada, como quando defere a
prestação pedida mas com base em fundamento jurídico não invocado como causa
do pedido na propositura da ação. Quer isto dizer que não é lícito ao julgador
alterar o pedido, nem tampouco a causa petendi." (Curso de Direito Processual
Civil, 38 ed., vol. 1, Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 464. Itálico conforme
original)

Inegável que a hipótese sub examine configura justamente sentença extra petita ,
pois, conforme bem salientado, o magistrado decidiu a lide por fatos e
fundamentos diversos dos expostos e requeridos pelo ora requerente/apelante.

Enfatizou, outrossim, o colendo Superior Tribunal de Justiça:

"A sentença"extra petita"é nula, porque decide causa diferente da que foi posta em
juízo (ex.: a sentença" de natureza diversa da pedida "ou que condena em" objeto
diverso "do que fora demandado). O tribunal deve anulá-la." (RSTJ 79/100).

Perfilhando este entendimento, julgou esta Corte de Justiça:

"Constatada a incongruência entre o pedido formulado pelo autor e a sentença


prolatada pelo juízo a quo, o qual condenou o réu em objeto diverso do que lhe foi
pleiteado, e ante a proibição expressa do art. 460 do CPC, que dispõe ser"defeso ao
juiz proferir sentença a favor do autor, de natureza diversa da pedida, bem como
condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi
demandado", forçoso reconhecer a sua nulidade, com a devolução dos autos à
origem com o fito de adequar a tutela jurisdicional prestada de acordo com o
pedido formulado na inicial." (Apelação Cível n. , de Criciúma. Rel. Des. Rui
Fortes. Julgada em 22.08.2006)
"Desta feita, configura-se extra petita a sentença que aprecia questão não suscitada
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pela parte, a que a lei exige prévia iniciativa, ensejando a nulidade absoluta do
decisum por inobservância ao princípio da congruência entre o pedido formulado
na exordial e o objeto do comando judicial, correspondentes aos artigos 128 e 460,
todos do Código de Processo Civil." (Apelação Cível n. , de Criciúma. Relª Desª
Salete Silva Sommariva. Julgada em 27.07.2006)

Pelo exposto, anula-se ex officio a sentença de primeiro grau e, consequentemente,


determina-se a baixa do processo à comarca de origem, restando prejudicada a
análise dos recursos.

DECISÃO

Ante o exposto, por votação unânime, anular ex officio a sentença, por ser extra
petita , restando prejudicado os recursos.

O julgamento, realizado no dia 3 de março de 2009, foi presidido pelo Exmo. Sr.
Des. Newton Trisotto, com voto, e dele participou o Exmo. Sr. Des. Vanderlei
Romer.

Florianópolis, 4 de março de 2009.

Sérgio Roberto Baasch Luz

Relator

Des. Sérgio Roberto Baasch Luz

Disponível em: http://tj-sc.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/6528063/apelacao-civel-ac-803118-sc-2008080311-8/inteiro-teor-12632250

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