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PORTAL DE MEMÓRIAS

Paulo Gurgel, um médico de letras

Marcelo Gurgel Carlos da Silva


(Organizador)
PORTAL DE MEMÓRIAS
Paulo Gurgel, um médico de letras

Marcelo Gurgel Carlos da Silva


(Organizador)

Fortaleza, Ceará, 2011


© Copyright de Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Efetuado depósito legal na Biblioteca Nacional

Concepção gráfica e diagramação: Francisco Batista


Capa: Francisco Batista e Marcelo Gurgel
Revisão de Texto: Elsie Studart Gurgel de Oliveira

Ficha Catalográfica
Preparada pela Biblioteca da Escola Cearense de Oncologia
Endereço para correspondência:
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Instituto do Câncer do Ceará / Escola Cearense de Oncologia
Rua Papi Júnior, 1222 - Rodolfo Teófilo
CEP: 60430-230 - Fortaleza-CE Fone/Fax: (0xx85) 3288.4478

Ficha Catalográfica

S586p Silva, Marcelo Gurgel Carlos da (org.)


Portal de memórias: Paulo Gurgel, um médico de
letras / Marcelo Gurgel Carlos da Silva. Fortaleza:
Edição do Autor, 2011.

200p. il.

1. Literatura Brasileira - Gêneros literários –


Crônicas. 2. Memória. 3. Paulo Gurgel Carlos da
Silva. I. Título

CDD: B869.8
ISBN: 978-85-901655-4-5

Nenhuma parte desse livro poderá ser reproduzida sem


autorização expressa do organizador ou do perfilado.
Paulo Gurgel, um médico de letras

Sumário

Apresentação
Marcelo Gurgel Carlos da Silva ................................................. 7
Prefácio
Ana Margarida Arruda Furtado Rosemberg ................................11

Parte I ENSAIOS, DEPOIMENTOS E MENSAGENS


De irmão para irmão
Marcelo Gurgel Carlos da Silva ................................................16
Paulo, bolsista do Lafi
Marcelo Gurgel Carlos da Silva ................................................21
Sabedoria e prudência
Márcia Gurgel Carlos Adeodato ................................................23
Da Cruzadinha à Faculdade de Medicina
Carlos Maurício de Castro Costa ...............................................25
Irmanados no violão
Francisco Cláudio de Castro Costa .............................................26
Paulo, gestor
José Eduilton Girão ................................................................27
Arrependimentos de um falecido cronista
Nelson José Cunha .................................................................29
Paulo Gurgel, uma personalidade versátil
Sônia Maria Carneiro de Mesquita Lobo ....................................33
Paulo, o nosso amigo compadre
Lúcia Bessa de Morais.............................................................35
Paulo Gurgel e os primórdios da Sobrames-CE
Emanuel de Carvalho Melo......................................................37

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PORTAL DE MEMÓRIAS

Dos campineiros tortos


Meuris Gurgel Carlos da Silva & Laerte Antônio José ...................41
Você não sabe como é bom...
Antonio Pinto Macêdo ............................................................42
Paulo Gurgel: um ótimo filho, pai, marido e irmão
Magna Gurgel Carlos da Silva .................................................44
Dr. Paulo Gurgel: um admirável médico
João Martins de Souza Torres...................................................46

Parte II CAUSOS DO PAULO


Contando causos do Paulo
Marcelo Gurgel Carlos da Silva ................................................49

Parte III ENTREVISTAS


Conversa com D. Elda sobre Paulo
Mirna Gurgel Carlos da Silva ..................................................68
Entrevista com Elba Maria Macedo Gurgel
Mirna Gurgel Carlos da Silva...................................................72
Entrevista com Érico de Macedo Gurgel
Mirna Gurgel Carlos da Silva...................................................79
Entrevista com Natália de Macedo Gurgel
Mirna Gurgel Carlos da Silva...................................................82
Questionário-entrevista
Ao Dr. Carlos Alberto Studart Gomes.........................................87
Vida de blogueiro
Márcia Gurgel Carlos Adeodato ................................................91

Parte IV ENTRE MÉDICOS IRMÃOS


Médicos formados pela UFC: a turma de 1971
Marcelo Gurgel Carlos da Silva ................................................98
Hospital São José: o início de uma história a ser contada
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 103
A Casa de Saúde Santa Mônica
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 110

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Exercendo a clínica privada


Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 114
Face to face: a criação da UTI Respiratória do Hospital de Messejana
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 119
Enfrentando a silicose no Ceará
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 124
Bate-papo formal com um mestre informal
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 128

Parte V APRECIAÇÃO LITERÁRIA


A crítica publicada sobre a obra literária de Paulo Gurgel
Diversos autores: Carlos D’Alge, Abdias Lima, Dimas Macedo, José
Alcides Pinto, Antonio Girão, Diogo Fontenele ........................... 134
Paulo Gurgel: humorista e poeta
José Alcides Pinto ................................................................ 141
Peculiar apreciação do livro “Sobre Todas as Coisas”
Tito de Abreu Fialho ............................................................ 143
Lançamento da antologia “Efeitos Colaterais”
Pedro Henrique Saraiva Leão ................................................. 145
Pela fresta da janela: um olhar apurado sobre a atividade literária de
Paulo Gurgel
Elsie Studart Gurgel de Oliveira ............................................. 146

Parte VI HOMENAGENS, DISTINÇÕES E VERBETES


Homenagens, distinções e prêmios
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 156
Honra ao mérito na Sobrames-CE
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Ceará ..................... 158
Concursos e seleções
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 160
Homenagem dos Diretores do Hospital de Messejana
Ernani Ximenes Rodrigues e outros........................................... 163
Dicionário da literatura cearense
Raimundo Girão e Maria da Conceição Sousa ........................... 165

5
Presença do médico na literatura brasileira
Geraldo Bezerra da Silva ...................................................... 167
Médicos escritores & escritores médicos
Geraldo Bezerra da Silva ...................................................... 168
Faculdade de Medicina da UFC: professores e médicos graduados
José Murilo Martins ............................................................. 169
Sanatório de Messejana: uma história a ser contada
Carlos Alberto Studart Gomes ................................................ 170

Parte VII ANEXOS/APÊNDICES


Sinopse de Curriculum Vitae
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 172
Principais marcos da vida: afetivos, profissionais e culturais
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 176
Trabalhos publicados em meio impresso
Marcelo Gurgel Carlos da Silva .............................................. 180
Painéis com ilustrações de textos
Diversos ilustradores ............................................................. 183
Nomes dos médicos formados pela UFC em 1971
Comissão organizadora das solenidades de formatura .................... 185
Posfácio: de orelhas a apêndice
Elsie Studart Gurgel de Oliveira ............................................. 188
Registros fotográficos .......................................................... 191
Paulo Gurgel, um médico de letras

Apresentação

UM LIVRO PARA PAULO GURGEL


Em março de 2008, após serem lançados dois livros sobre
nossa família, cogitei organizar um, focando, exclusivamente, o
nosso irmão primogênito Paulo Gurgel.
A tarefa era hercúlea, porque teria que ser aprontada ao
cabo de pouco mais de três meses, uma vez que se pretendia que a
mesma fosse comemorativa do sexagésimo aniversário do homena-
geado, ou como se diz, popularmente, quando chegasse a vez de o
Paulo se tornar um “sexyagenário”.
Com esse fito, tracei um esboço de sumário, que previa a
colaboração de textos produzidos por familiares, amigos e colegas
do Paulo, aos quais se juntaria uma amostra dos muitos trabalhos
que ele escrevera, selecionados dentre os publicados e os inéditos.
Pretendia-se, originalmente, que tudo iria correr em sigilo,
coincidindo o lançamento da obra com uma festa-surpresa, organi-
zada pela esposa Elba Macedo, em conluio com parentes e amigos
mais próximos. No entanto, houve vazamento da informação e o
“dono da festa” desautorizou a nossa investida, por várias razões.
Primeiramente, explicou que, ao contrário do seu cinquente-
nário, comemorado em 1998, não gostaria de que qualquer evento
festivo marcasse a sua chegada aos sessenta anos; não sei se isso
poderia ser justificado por alguma aversão ou rejeição a usar as prer-
rogativas da terceira idade, a exemplo de “cortar” as filas em bancos
e outras prioridades pouco convincentes, como fazer os pagamentos
das contas dos demais familiares, ou de dispor de um “aposento”
previdenciário, para levantar um empréstimo consignado, destinado
a comprar uma moto para o neto adolescente.
Em segundo lugar, arguiu ele, era um adepto intransigente e
incondicional dos blogs, nos quais prefere publicar os seus escritos,
evitando a impressão dos mesmos, crendo, piamente, que tal atitude

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PORTAL DE MEMÓRIAS

ajuda a preservar nossas árvores, e, por extensão, as florestas.


Também argumentou que nunca teve vontade de reunir seus tra-
balhos em livro de sua autoria, iniciando uma carreira “solo”, visto
sempre preferir integrar antologias e coletâneas.
E, por último, alegou a sua carência de predicados suficien-
tes para respaldar uma biografia completa, merecendo, quando
muito, uma mera citação ou um verbete de antologias literárias,
rechaçando, portanto, com firmeza, a proposta do livro em sua
homenagem.
Arrefeci, mas não esmoreci, e apenas adormeci a proposição,
deixando-a em latência, no frigir de 2008, enquanto reunia condi-
ções para uma posterior eclosão. De fato, recarreguei a munição, e,
em 2009, com um novo sumário, mais encorpado de colaboradores
potenciais, e com a exclusão de textos da lavra do próprio perfilado,
o projeto foi reapresentado, conseguindo sensibilizá-lo, até porque
há muitos cidadãos que foram biografados em livro, cujos méritos
estão aquém dos ostentados por Paulo Gurgel.
No processo de convencimento, com vistas a obter a sua anu-
ência, ficou bem esclarecido que a edição de livros lança mão de
papel extraído de madeira das florestas de eucaliptos, plantadas com
essa finalidade, sendo elas tidas como ecológica e politicamente cor-
retas, uma vez que protegem as florestas naturais e consignam cré-
ditos de carbono.
Como o Paulo foi médico do Hospital de Messejana, penso
ter sido a lembrança dos pés de eucaliptos, ali plantados, que fez
com que ele baixasse a guarda, e com os pulmões e a cabeça mais
arejados, se tornasse mais sensível, e mais cooperativo na constru-
ção desta obra que tem o mérito maior de preservar a sua imagem,
muito embora as traças, os cupins e os fungos possam corroer, no
futuro, as páginas do livro.
Também ficou estabelecido que, de princípio, não se teria
uma definição prévia da data de lançamento, e que, caso viesse o
mesmo a ocorrer, seria desvinculado de outro evento, a exemplo do
seu genetlíaco.

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Diante desses argumentos, Paulo aquiesceu, liberando-


-me com benevolência para pôr em execução o projeto, o que fiz,
de pronto, arregimentando pessoas que pudessem contribuir com
depoimentos e/ou subsídios materiais importantes para a feitura do
livro, interessando tanto ao próprio quanto ao público leitor.
Um elemento fundamental, como ponto de partida, foi o
curriculum vitae do Paulo Gurgel, que serviu não só para arrolar os
temas a serem tratados, mas para definir os marcos principais da sua
vida profissional, cultural e afetiva. Também foi conduzida a busca
bibliográfica para captar verbetes e indicativos da sua vasta produ-
ção cultural.
A responsabilidade pelo prefácio foi confiada à diligente pena
da pneumologista e historiadora Ana Margarida Furtado Arruda
Rosemberg, que emprestou o máximo de si, nesse mister, resul-
tando em um texto escorreito e rico de informações.
No processo editorial, optou-se pelo recurso das entrevis-
tas, sobretudo, para cobrir componentes familiares, de caráter mais
afetivo; da mesma forma, mormente em virtude da dificuldade de
recrutar colaboradores, que discorressem sobre alguns assuntos
mais históricos, dada à minha condição de editor, julguei por bem
instituir um capítulo montado a partir de bate-papos informais,
envolvendo fraternal e medicamente, os irmãos Gurgel Carlos da
Silva, o que deu maior dinamicidade aos assuntos versados.
A apreciação crítica, publicada ou inédita, acerca do intenso
fazer literário do Paulo Gurgel, põe a nu a sua relevância, demons-
trando ser mais do que suficiente para impressão de, pelo menos,
quatro títulos.
Para romper com a monotonia comum em obras de caráter
biográfico, foi incluso um capítulo especial, reunindo dez “causos”
pitorescos, com boa dose hilariante, revelando um pouco do coti-
diano pessoal e médico do homenageado, acompanhados de charges
brotadas do crayon do Jesper.

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PORTAL DE MEMÓRIAS

A obra enfeixa, no apêndice, a sinopse de Curriculum Vitae, os


principais marcos da vida, a lista de textos publicados em antologias
e coletâneas, a lista de colegas da Turma Carlos Chagas e o posfácio.
E aí está, para quem quiser ver e ler, o livro sobre o Paulo
Gurgel, fruto de uma feliz parceria familiar, juntando mulher, filhos,
irmãos etc., e que contou com robusta participação de um seleto
grupo de amigos e colegas. No final das contas, “deu tudo certo”.
Se não tivesse dado, é porque não se chegara aos “finalmente”, só
para lembrar um episódio literário de pouca saudosa memória.
E nem poderia ser o contrário, porque a despeito dos traços
por vezes meio tortos, com os quais se desenhou o perfil do deten-
tor dos direitos de primogenitura de nosso clã, a essência da sua
“alma”, ainda que abstrata, foi captada, no tom igual ao que ele tira
das cordas do seu pinho, que toca tão forte, simulando as batidas do
seu coração. Tudo dentro do figurino, com jeito de amenidades, e
com cheiro de eucalipto, como ele aprecia.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva


Organizador

Desenho a crayon: Paulo na década de 1980

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Prefácio

PAULO GURGEL, o pneumologista literato


Prefaciar uma obra escrita remete, por necessário, conhecê-
-la, em sua inteireza, inclusive quanto às credenciais do autor e à
montagem das peças que formam o seu conteúdo. Isso foi o que me
propus a fazer, após ter recebido o honroso convite, partido do meu
amigo, Marcelo Gurgel, para tecer algumas linhas do livro sobre o
pneumologista literato Paulo Gurgel, meu colega de especialidade e
seu dileto irmão.
Jamais poderia me furtar de atender a uma incumbência como
essa, até por conta das afinidades do tríduo: Marcelo, Paulo e eu:
mesma profissão, mesmo gosto pela literatura. E assim, encontro-
-me a postos, para dizer o que penso, à guisa de prefácio desta obra
que tem a cara de quem a escreveu.
No meio médico, é hábito consagrado pela tradição que se
rememore os nomes e o valor científico dos companheiros, que a
mão soturna da morte de nós distanciou, para sempre; eles são, por-
tanto, impedidos de saber do reconhecimento de seus pares. Como
este não é o caso de nosso caro colega Paulo Gurgel, desincumbo-
-me desta missão com alegria redobrada.
A 6 de junho de 1948, ele viu a luz na encantadora cidade
de Fortaleza, tendo por progenitores Luiz Carlos da Silva e Elda
Gurgel e Silva. Como primogênito de uma numerosa prole, teve o
mérito de desbravar o caminho do saber aos seus 12 irmãos. Sempre
muito aplicado nos estudos, colou grau em medicina pela UFC, com
23 anos, em 1971, sendo o mais moço de sua turma.
Foi em Manguinhos, velha colmeia efervescente de pesqui-
sadores e estudiosos, criado pelo grande sanitarista Oswaldo Cruz,
insigne saneador do Brasil, que Paulo fez o curso de especialização

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PORTAL DE MEMÓRIAS

em Tisiologia Clínica e Sanitária da Fundação Oswaldo Cruz


(Fiocruz). Abraçando a pneumologia, transitou com desenvoltura
por todos os meandros desta especialidade. Com golpes de talento
e de trabalho, à custa de esforços e de uma atividade excepcional,
contribuiu para o engrandecimento da medicina cearense. Foi no
Hospital de Messejana (HM) que, durante 30 anos, exerceu com
esmero e dedicação suas atribuições de: plantonista da emergên-
cia, médico da Seção de Pacientes Externos, e chefe da Seção de
Documentação Científica, do Serviço de Pneumologia, da Divisão
Médica e do Centro de Estudos.
O Serviço de Pneumologia do HM, de 1995 a 1999, deu um
grande salto qualitativo graças à sua gestão solícita e dedicada.
Coube-lhe, indiscutivelmente, o mérito de ter sido um dos artífi-
ces da primeira UTI Respiratória do Norte e Nordeste. A mesma
foi inaugurada no dia 5 de junho de 1996, com o nome de “UTI
Respiratória Prof. Mário Rigato”, homenageando um dos grandes
vultos da medicina brasileira, baluarte da luta contra o fumo no
Brasil, que teve relevante atividade em nosso meio acadêmico.
Na chefia do Centro de Estudos Manuel de Abreu, de 2003
a 2007, coordenou as festividades comemorativas dos 70 anos de
existência do Hospital de Messejana, participou da criação do web-
site do HM, integrou o grupo-tarefa que adequou o HM para a
Certificação como Hospital de Ensino pelos Ministérios da Saúde e
da Educação. Entre estas e outras realizações, foi responsável pelo
cadastro do HM no Diretório das Instituições de Pesquisa do CNPq,
pela reforma dos auditórios, pela construção de uma nova biblioteca
acoplada a uma sala de biblioteca virtual e pela reforma do hall com
a galeria de fotos dos Ex-Presidentes do Centro de Estudos.
Teve, também, atuação larga e vigorosa nos vastos campos
da medicina preventiva. De 1989 a 1990, coordenou o Programa de
Controle da Tuberculose da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará
(SESA); de 1999 a 2006, atuou como Assessor Especial da SESA em
Pneumopatias Ocupacionais.

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Observador criterioso, espírito ponderado estudou a exten-


são da silicose relacionada com o trabalho em pedreiras, no muni-
cípio de Caridade-CE. Entre 1993 e 2001, identificou, no Hospital
de Messejana, 14 casos de silicose em pacientes trabalhadores em
pedreiras. Suas pesquisas foram determinantes para o encerramento
das atividades em duas pedreiras no distrito de Inhuporanga, muni-
cípio de Caridade-CE. No período de 1993 a 2006, diagnosticou 190
casos de silicose de diferentes regiões do nosso estado e de diver-
sas profissões como: cavadores de poços, trabalhadores de pedreiras,
mineiros, jateadores, trabalhadores com cerâmicas etc.
Sua veia literária, desabrochada aos sete anos de idade atra-
vés de poesias, fez com que ele, em 1982, fosse um dos fundado-
res da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Seção Ceará
(SOBRAMES-CE). Integrou sua primeira diretoria, assumiu a pre-
sidência da segunda, de 1985 a 1987, organizou várias coletâneas e
participou de suas inúmeras antologias. Suas crônicas e seus contos
foram veiculados, quinzenalmente, no jornal Diário do Nordeste,
por mais de dois anos.
Criador de cinco blogs, é através deles que, atualmente, dá
vazão a sua produção intelectual. No “Acta Pulmonale”, o blog des-
tinado a temas de pneumologia, divulga a especialidade com infor-
mações e curiosidades ligadas à saúde pulmonar.
Conheci o Dr. Paulo Gurgel nas sessões clínicas do Hospital
de Messejana e, imediatamente, por ele senti grande afinidade,
por eu ter estudado, no Ginásio Santa Maria Goretti, com a Marta,
uma de suas irmãs. Nele apreciei a maneira gentil e fidalga no trato
com os colegas, a fala mansa, os gestos comedidos, a retidão de
caráter, além da inteligência invulgar. Nossos contatos foram sem-
pre nos eventos científicos da especialidade. Coube-me a prazerosa
honra de, com ele, dividir uma mesa, no Outubro Médico de 1993.
Tratava-se de uma Conferência Magistral do Dr. Mário Rigato,
intitulada “Anti-tabagismo e Ética Médica”, quando ele presidiu e

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PORTAL DE MEMÓRIAS

eu secretariei a referida mesa. Guardo doces recordações daqueles


momentos mágicos em que o Prof. Rigatto, com o dom da orató-
ria de que era possuidor, nos encantou, mantendo-nos hipnotizados
como em um transe de prazer intelectual.
Hoje, vejo-me na posição de prefaciadora desse livro tempo-
rão, chegado depois de o Paulo ter produzido muito, literalmente
falando, mas sem tomar a iniciativa de juntar textos de sua autoria,
em um ou mais balaios intelectuais, para deleite do público. Daí eu
me sentir convencida de que é preciso pulmão dos bons para oxige-
nar as ideias.
Paulo Gurgel é um exemplo disso. Basta ver o sumário da
obra com quatorze depoimentos; uma dezena também de “causos”
do Paulo; sete entrevistas concedidas a Marcelo Gurgel, não por
acaso enfeixadas no bloco “Entre Médicos Irmãos”; doze aprecia-
ções sobre as atividades literárias de Paulo Gurgel (sendo quatro até
aqui inéditas) e homenagens, distinções e premiações. Não faltaram
os verbetes, tampouco os anexos/apêndices com uma sinopse de
seu curriculum vitae, os principais marcos da vida, a lista dos tex-
tos publicados em antologias e coletâneas, a relação dos colegas da
Turma Carlos Chagas e o posfácio.
Como se diz no jargão popular, o livro sobre o Paulo Gurgel é
“um prato cheio”. Quem se der ao prazer de saboreá-lo, vai enten-
der que ele não apenas parece ser bom. Ele é bom, de verdade.
Digo e assino embaixo: Paulo Gurgel Carlos da Silva é um
daqueles eleitos por Deus para reinventar a vida, através da sua pro-
digiosa inteligência.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg


Médica pneumologista. Historiadora

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Parte I
ENSAIOS, DEPOIMENTOS
E MENSAGENS
PORTAL DE MEMÓRIAS

De irmão para irmão

Paulo, o primogênito entre os treze filhos do casal Luiz Carlos


da Silva e Elda Gurgel e Silva, nasceu em 06/06/1948, em Fortaleza,
na casa de sua avó materna Almerinda, situada em Otávio Bonfim, à
Rua Domingos Olímpio, 2.209.
Recebeu em casa as primeiras lições escolares, ministradas
por familiares, sendo alfabetizado precocemente, aos quatro anos
de idade, o que chamava a atenção dos adultos por sua aguda inte-
ligência; em uma aula de catecismo, no convento dos franciscanos
menores, dentre tantos meninos lá presentes, foi ele o pirralho que
respondeu, corretamente, a todas as perguntas de Religião, fazendo
com que o dinâmico Frei Teodoro, ofm, deveras impressionado com
o nível de conhecimento dele, o erguesse nos braços para a vista de
todas as crianças.
Após o Curso Primário, feito no Instituto Padre Anchieta,
ingressou no Colégio Cearense do Sagrado Coração, tradicional
centro de educação marista, em 1959, de lá saindo em 1962, ao tér-
mino do Ginásio, involuntariamente, porque nosso pai não fizera
a reserva da vaga em tempo hábil. Como nascera em 6 de junho,
data festiva dedicada ao então beato Marcelino Champagnat, no
Colégio Cearense era feriado escolar, o que causava alguma inveja a
seus irmãos, pois Paulo atribuía jocosamente a suspensão das aulas a
uma suposta homenagem dos maristas a ele próprio. Certamente, a
formação marista de nosso genitor foi o determinante da decisão de
matricular o primogênito na mesma escola, onde fora bem educado,
respondendo à altura o esforço e o sacrifício financeiro de nosso avô
paterno, em manter seus filhos em boas escolas confessionais.
Paulo fez os dois primeiros anos do científico no Colégio
Batista Santos Dumont, e o último, no Colégio Estadual Liceu do
Ceará, o velho Liceu do Ceará, concluindo o segundo grau em 1965,

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Paulo Gurgel, um médico de letras

matriculado no turno da noite, enquanto fazia o “cursinho” pre-


paratório organizado por acadêmicos de Medicina da UFC; nessa
época não existia o terceiro científico direcionado para preparar ao
vestibular.
Foi aprovado em quarto lugar no vestibular da Universidade
Federal do Ceará (UFC), ingressando na disputada Faculdade de
Medicina, em 1966, e colando grau em 1971, depois de seis anos
de estudo, como destacado aluno de sua turma. Com o seu notável
desempenho, sinalizou o caminho para os seus demais irmãos, que
tomaram o rumo do ensino superior.
Quando estava no internato, Paulo teve como dileto precep-
tor o valoroso esculápio, Prof. Paulo Marcelo Martins Rodrigues,
glorioso nome da Clínica Médica cearense, desenvolvendo entre eles
uma maior aproximação e afinidade profissional, construída a par-
tir da relação tutor-aluno, tendo recebido do primeiro o incentivo
para fazer a Residência Médica (RM) no Ceará, sob a orientação do
Prof. Paulo Marcelo. Nessa época, a RM oferecia poucas vagas e
não havia, por parte dos médicos, a cultura de se obter a especializa-
ção por esse caminho; a carreira militar, todavia, era muito atrativa
aos médicos recém-graduados, pela segurança funcional e outras
vantagens pecuniárias, daí porque se decidiu pela alternativa de ser
médico militar.
Foi aprovado, em concurso de âmbito nacional (em primeiro
lugar dentre os que se submeteram ao concurso no Ceará), para
ingresso no Serviço de Saúde do Ministério do Exército. Isso o levou
a se mudar para o Rio de Janeiro, para fazer o curso de formação
de Médico Militar, em 1972, sob a modalidade de pós-graduação,
na Escola de Saúde do Exército, com o estágio técnico-profissional
no Pavilhão de Isolamento do Hospital Central do Exército. Ao
término do curso de formação, ficou em quarto lugar, na classi-
ficação geral da turma. No ano seguinte, em 1973, fez o Curso de
Especialização em Tisiologia Clínica e Sanitária, em Manguinhos,
realizado pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz).

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PORTAL DE MEMÓRIAS

Em sua carreira militar, foi lotado inicialmente no Hospital


Central do Exército, no Rio de Janeiro, onde ainda tenente médico
chefiava as enfermarias de Doenças Infecciosas e de Tisiologia
e secretariava o Centro de Estudos, e no qual trabalhou de 1973 a
1974. Em 1974, foi transferido do Rio de Janeiro para o Comando
Militar da Amazônia, recebendo a incumbência de dirigir o Hospital
de Guarnição de Tabatinga, em Benjamim Constant, na região
do Alto Solimões, na confluência de três países (Brasil, Peru e
Colômbia), conquistando uma excepcional experiência médica,
em função das difíceis condições laborais de um hospital localizado
em ponto remoto do país e com vasta clientela de pessoas carentes,
nessa região de fronteira inóspita. Depois de um ano de atuação,
foi novamente removido pelo “glorioso EB”, em 1975, para a 10ª
Região Militar, passando a servir no Hospital Geral do Exército, de
Fortaleza, onde recebeu a promoção para capitão.

Cap Med Gurgel (1976)

Em 1976, prestou concurso federal para os cargos de médico


da Previdência Social, em duas especialidades: clínica médica e
pneumologia, logrando excelentes resultados, posicionando-se entre
os primeiros lugares de ambas as especialidades; quando convocado
para assumir os cargos aludidos, não titubeou e nem vacilou em
pôr fim a sua carreira militar, preferindo deixar a caserna em 1977,
por não guardar tanta afinidade com a vida castrense, na vigên-
cia da ditadura brasileira, tendo que, inclusive, indenizar as forças
armadas por largar suas funções quando ainda restavam poucos
meses para inteirar o período de cinco anos de permanência mínima
requerido aos oficiais formados pela Escola de Saúde do Exército.

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Paulo Gurgel, um médico de letras

A vultosa quantia foi paga com empréstimo propiciado por


seu genitor.
Ao reverter à vida civil, começou a trabalhar no Hospital de
Mesejana e no Posto de Assistência Médica de Porangabuçu. No
Hospital de Messejana, onde esteve em exercício durante trinta
anos, dos quais vinte e sete anos foram cumpridos em cargos de
chefias na instituição (Seção de Documentação Científica, Serviço de
Pneumologia, Divisão Médica e Centro de Estudos); também exer-
ceu encargos adicionais na Secretaria da Saúde do Estado do Ceará,
coordenando o Programa de Controle da Tuberculose no Ceará e
prestando assessoria no âmbito das pneumopatias ocupacionais no
estado. Durante treze anos (1976 – 1988), dedicou-se ao exercício
liberal da profissão, quando chegou a angariar uma vasta clientela,
atendendo a pacientes particulares e de vários planos de saúde.
É conhecido como um gestor público sensato e muito orga-
nizado. Fiel cumpridor de suas atribuições funcionais, executadas
com tirocínio e versatilidade profissional, realizando as metas pro-
gramadas, sem ranço autoritário, mercê da sua peculiar lhaneza no
trato das pessoas. Como especialista em pneumologia, goza de reco-
nhecido prestígio entre os seus pares, tendo prestado importantes
serviços à Sociedade Cearense de Pneumologia, em cursos e campa-
nhas organizados por esta entidade, e à Coordenação de Residência
Médica (COREME) – Ceará, na função de preceptor da Residência
Médica de Pneumologia.
Orgulha-se de haver participado da equipe que implantou a
primeira UTI Respiratória do Norte-Nordeste do Brasil e de haver
sido o pioneiro no Ceará, em sua especialidade, na realização dos
testes de exercício cardiorrespiratório, com o Hospital de Messejana
servindo de território para ambos os fatos; igualmente, de haver
sido, a serviço da Secretaria da Saúde do Ceará, responsável por
importantes estudos sobre a silicose em nosso meio. Permitiram
esses estudos que a comunidade científica e as autoridades sanitárias
locais tomassem conhecimento da ocorrência desta enfermidade em

19
PORTAL DE MEMÓRIAS

cavadores de poços de fora da região da Ibiapaba e em profissionais


com outras ocupações.
Começou a sua vida literária ainda na meninice, aos sete anos
de idade, publicando poesias em jornal local. Foi fundador e presi-
dente da segunda diretoria da Seção Ceará da Sociedade Brasileira
de Médicos Escritores (SOBRAMES-CE), tendo participado, como
organizador ou colaborador, de variadas coletâneas publicadas, reu-
nindo textos de médicos, sob os auspícios dessa sociedade; durante
mais de dois anos manteve um espaço quinzenal de publicação de
seus escritos no Suplemento Cultura do jornal Diário do Nordeste.
Escreve principalmente contos, crônicas e também artigos dosados
de um humor às vezes cáustico, mas sempre muito refinado. Tem
vasto material acumulado, passível de combinação em vários livros,
mas não tem demonstrado interesse para tal prática; no momento,
vem se dedicando a expor sua produção intelectual na internet, no
Blog do PG, recentemente por ele desenvolvido.
Já era quase um “rapaz velho”, calejado de tantos namoricos,
assíduo freqüentador dos bares, casas de serestas e points culturais
de Fortaleza, quando conheceu a médica Elba Macedo, e decidiu-
-se pelo descanso do guerreiro, vindo a contrair núpcias com ela em
18/10/1984, de cuja união brotaram Érico (02/08/1985) e Natália
(06/06/1990); Érico é concludente de engenharia mecânica da UFC,
tendo se casado com Raíssa, dando-lhe um neto (Matheus); Natália
é aluna concluinte do científico e prepara-se para fazer o vestibu-
lar para o curso de Direito, para realizar o sonho, que a acompanha
desde a infância, de ser juíza.

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva


Irmão e colega do homenageado

* Texto lido por ocasião das despedidas do Hospital de Messejana, transcorrida


em Fortaleza em 29/05/07, e publicado In: Silva Otávio Bonfim, das Dores e
dos Amores.

http://blogdopg.blogspot.com/2007/06/uma-homengem-no-hospital-de-messejana.
html#links

20
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo, bolsista do Lafi

Paulo Gurgel foi beneficiado, em 1968, com uma “bolsa” do


Lafi, um laboratório farmacêutico atualmente extinto. A “bolsa”
era, na verdade, uma forma camuflada de um subemprego, face às
características dos compromissos que ele assumia por lá; contudo,
tais obrigações, por não lhe furtarem muito tempo, não lhe tra-
ziam transtornos com respeito ao cumprimento do seu curso de
Medicina.
Ademais, permitiam-lhe que ele aprendesse um pouco de
Farmacologia, ainda sem ter passado por essa matéria na gradu-
ação. E, como vantagem compensatória, havia também as moedas
sonantes que ele percebia do laboratório, suprindo a mesada paterna
inexistente.
Nos anos sessenta, a Farmacologia era ministrada no quarto
ano da Medicina e, em 1968, ele ainda estava no terceiro ano; mas
o Lafi deu-lhe um exemplar do Litter, reconhecido como o melhor
livro-texto de Farmacologia, com o qual ele estudava as aulas que,
ao longo do ano, teria de apresentar aos propagandistas do labora-
tório, incluindo nelas as informações contidas em apostilas que lhe
eram remetidas pelo departamento médico do laboratório.
Essas aulas ocorriam na sede da empresa à Rua Assunção,
no centro de Fortaleza, aos sábados, a partir das 11 horas.
Acompanhavam às suas exposições os três propagandistas e o pró-
prio gerente regional do Lafi, um bacharel em Direito.
Uma segunda responsabilidade sua na empresa era ajudar
na promoção de seus produtos, cabendo-lhe fazer isso exclusiva-
mente com os seus docentes na Faculdade de Medicina. Ganhou
uma maleta preta e, mensalmente, o Lafi deixava em sua casa
uns caixotes contendo amostras de seus produtos farmacêuticos.
Gradualmente, ele os distribuía com seus professores, terminando

21
PORTAL DE MEMÓRIAS

por fazer o mesmo com seus colegas de turma. Concluído o perí-


odo de distribuição, cuidava de elaborar um relatório, para só então
receber uma nova partida das amostras grátis.

Lafi: a logomarca com o endereço da matriz

O Lafi, nessa época, comercializava duas dezenas de medi-


camentos, entre os quais, havia: o Dienpax e o Nitrenpax, sedati-
vos do grupo dos diazepínicos; o Clorana e o Triclorana, nomes
comerciais da hidroclorotiazida e da hidroclorotiazida associada ao
triantereno, diuréticos até hoje de larga prescrição; a Disteoxina,
uma medicação “hepatoprotetora”; o Tetracloroetileno Lafi e o
Anastrongil, vermífugos para o tratamento da ancilostomíase e
da estrongiloidíase, e o amebicida Anamebil; a Bituelve (do inglês
B-twelve), à base de vitamina B12; e a Betamicetin, o nome de fanta-
sia do cloranfenicol do Lafi.
Ressalte-se que a prática de recrutamento de acadêmicos
de Medicina, para funções de instrutoria interna e de divulgação
externa de produtos medicamentosos, era comumente adotada pela
indústria farmacêutica naquela época, não mais subsistindo, pelo
menos dessa forma, nos presentes dias.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Baseado no texto “Labores Laboratoriais I”, de Paulo Gurgel, publicado no


Preblog, em 29/05/10.

http://preblog-pg.blogspot.com/2010/07/labores-laboratoriais-1.html#links

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Sabedoria e prudência

A proposta do Marcelo era que eu escrevesse sobre a ado-


lescência do Paulo, justificando que, após o falecimento da Marta,
e muito antes da Lucinha (a irmãzinha que nem cheguei a conhe-
cer) eu era a mais próxima dele em idade. Não me convenceu.
Até porque o Paulo não foi, na juventude, um rebelde sem causa.
Não fez nada além do que um adolescente não fizesse. Pelo con-
trário. Gostava de música, de violão, de estudar, do chamego que
a avó materna a ele dedicava e, depois, de acompanhar o tio Edmar
em seus programas noturnos, com a devida cumplicidade que a
situação requeria.
Do Paulo, gostaria, sim, de ressaltar a eficiência dele como
profissional médico. Quando minha filha Melissa estava em seu
primeiro ano de vida, tinha seguidas crises intestinais e a despeito
de ser acompanhada por um dos mais experientes pediatras da
terra, o problema parecia insolúvel. Foi quando o Paulo questio-
nou: não será ela alérgica ao leite da vaca? E indicou o “Sobee”, um
leite extraído da soja. Acertou em cheio. Um ano depois, mandou
que fosse reintroduzido o alimento, mas começando pelo iogurte.
E deu certo.
Tempos depois, foi a Vanessa. E o “pediatra” Paulo deu o
diagnóstico: hepatite que o exame laboratorial confirmou depois.
Quando a Larissa apresentou o mesmo sintoma, nem precisou ser
levada ao médico dela. Mais adiante, foi a catapora que atacou em
bloco. As três e mais a doméstica. Da forma como ele orientou o
tratamento. Não restaram cicatrizes. E olha que a Melissa chegou a
contar, só no pé esquerdo, 32 pústulas.
Giardíase aguda ou amebíase aguda. Uma ou outra era o pos-
sível diagnóstico que o ginecologista, também afamado, apontou

23
PORTAL DE MEMÓRIAS

para o mal-estar que me incomodava há algum tempo. Depois de


um toque, descartou uma possível gravidez. Chegando a minha
casa, as dores se acentuaram. Mais uma vez apelei para a eficiência
do “ginecologista”. Um rápido questionário e a certeza: se não qui-
ser perder a criança, fique deitada porque você está na iminência de
um aborto. A “giardíase” ou “amebíase” é hoje a Larissa, a minha
caçulinha fofa e linda.
Paulo curou a Melissa de uma asma alérgica com vacinas. E
ainda vieram uma bronquite, uma pneumonia e mais o que fosse.
O tio era a voz da prudência e da sabedoria. Graças a ele, e também
aos pediatras, hoje me orgulho de três filhas saudáveis, inteligentes,
estudiosas e respeitosas. (desculpem a corujice de mãe).
Sem ele na família, como teria sido bem pior o padecer da
vovó Almerinda, que ele acompanhava com desvelo de filho, da
tia Rita, no seu Alzheimer devastador, da mamãe com suas tantas
queixas, e em especial do papai. Nele se juntam, num raro saber,
o conhecimento da melhor medicina e o bom senso que nenhum
estudo é capaz de dar. O Paulo tem tudo isso: competência, amor
aos pacientes e discernimento.

Márcia Gurgel Carlos Adeodato


Jornalista

Márcia Gurgel e seu esposo Adeodato Júnior, jornalistas

24
Paulo Gurgel, um médico de letras

Da Cruzadinha à Faculdade de Medicina

Nos idos dos anos de 1950 e 1960, no pacato e dinâmico


bairro de Otávio Bonfim, convivíamos com amigos unidos por uma
Cruzada Eucarística, onde a figura de Frei Teodoro, Frei Albano e
Frei Engelberto permanecem em minha mente.
Em minha mente, persistem memórias de amigos e compa-
nheiros, como Paulo Gurgel.
Vivenciamos juntos às diversas tarefas de membros da
Cruzadinha: esporte, quermesse, cobrança dos associados nas
pequenas e seguras (na época) ruas e vielas circunstantes como a
Rua Larga, o Monte Castelo, o Morro do Ouro etc.
Especificamente do Paulo Gurgel, ficou a imagem do amigo
cuja família, liderada por seu pai, primava pela conduta retilínea e
pelo amor e dedicação aos estudos. Lembro-me de suas residências:
inicialmente, ao lado da Praça do Otávio Bonfim, e depois, numa
casa maior, na rua Domingos Olímpio, que desembocava próximo à
estação ferroviária do Otávio Bonfim.
Após essa fase infanto-juvenil, nos reencontramos no palco da
Faculdade de Medicina, onde os frutos plantados por seu pai flores-
ceram na sua formação médica, palmada pelos mesmos princípios, e
onde o vi também brilhar.
Depois, a residência médica e a formação de pós-graduação
nos afastaram e nos levaram a caminhos e palcos diferentes.
Mas resta a imagem constante e perene do amigo que serviu
de espelho e exemplo.

Carlos Maurício de Castro Costa *


Médico neurologista. Professor da UFC
* Nota: Faleceu em 15/03/2010, não chegando a ver essa publicação, pela qual
sempre indagava.

25
PORTAL DE MEMÓRIAS

Irmanados no violão

Conheço Paulo Gurgel desde o tempo de criança, me lembro que


estudei no Instituto Padre Anchieta, ali no Otávio Bonfim; o pai do Paulo
Gurgel, Dr. Luiz Carlos, mantinha essa escola e estudei lá na minha infância.
O tempo corria e mantínhamos uma relação de amizade que
se consolidaria ao longo do tempo. Paulo Gurgel sempre foi afeito a
um violão. Estávamos começando a aprender e ouvíamos bossa nova
no início da década de 1960. Lembro-me de que Paulo Gurgel me
deu uma luz para a harmonia do “Samba de uma nota só” (Jobim)
em que era necessária a inversão dos baixos e aquilo abriu muito a
minha cabeça para o processo de harmonização.
Éramos estudantes, e, com o tempo, Paulo Gurgel pres-
tou exame vestibular e entrou na Medicina e eu, no Direito. Nesse
período de Faculdade de Medicina, Paulo e eu tínhamos uma iden-
tificação em termos de música. Ouvíamos Chico Buarque, Jobim,
Carlos Lira, Baden Powell e outros músicos e compositores da bossa
nova. Frequentemente, nos encontrávamos para tocar violão; rola-
ram muitos encontros em barzinhos, casas de shows e eu tocando.
Lembro-me de que havia um ponto de encontro em que nos
reuníamos com muita frequência: era o bar do “Pombo Cheio”, no
Parque Araxá.
Ali, quase todo o fim de semana, a gente se reunia para “rolar
música”. Que saudades daquele tempo! Lá frequentavam o Airton
Monte, o Walter, o Mazinho e outros amigos. Tivemos ainda muitos
encontros ao longo do tempo e, até hoje, temos uma amizade muito
forte e sempre é bom falar do Paulo Gurgel, amigo do coração.

Francisco Cláudio de Castro Costa


Bacharel em Direito. Músico

http://preblog-pg.blogspot.com/2010/11/o-violonista-maior-claudio-costa.html#links

26
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo, gestor

Irmãos Gurgel. Ou, mais precisamente, irmãos Gurgel


Carlos da Silva.
De Márcia, sabe-se ser uma notória jornalista que muito
serviu à imprensa do estado e parece já estar aposentada, embora
jovem ainda e com plena capacidade de trabalho.
Com Marcelo, tenho tido contatos algo frequentes. Quando
não pessoalmente, através da leitura do muito que ele produz. Aos
borbotões. Tanto quanto escreve e produz, muito se movimenta:
na epidemiologia médica, na literatura, na Universidade Estadual
do Ceará, na Academia de Medicina, no Instituto do Câncer, na
Sociedade Médica São Lucas e em muitas outras instituições e
ocasiões.
No que concerne ao Paulo, minha convivência com ele foi
maior, por termos trabalhado, ambos, no Hospital de Messejana.
Para aquele hospital ele foi como pneumologista, depois de
abdicar de uma carreira militar, onde já era médico suficientemente
“estrelado”. De princípio eu achava não ter ele feito uma boa opção.
Depois, conhecendo-lhe melhor o caráter, me convenci do acerto da
sua decisão.
No Messejana, àquela época sob o estímulo do Dr. Carlos
Alberto Studart Gomes, Paulo exerceu a sua especialidade com
grande competência.
Anos depois, não muitos, a Direção do Hospital vislum-
brou a sua retidão de caráter e o grande potencial administrativo,
designando-o para funções importantes, as chefias do Serviço de
Documentação Científica e do Serviço de Pneumologia.
o Hospital viria a padecer de várias dificul-
dades. Decorrentes não apenas da aposentadoria daquele grande

27
PORTAL DE MEMÓRIAS

Diretor, mas, sobretudo, de outros problemas administrativos, como


a extinção do INAMPS, o desestímulo por parte dos órgãos superio-
res e o clima de incerteza que pairou sobre o funcionalismo público
na época da “República das Alagoas”.
Mesmo assim, Paulo não esmoreceu e continuou sem-
pre dando o melhor de si, na direção dos vários serviços por onde
passou.
No que me concerne, apraz-me consignar que a convivên-
cia com ele me foi sempre agradável, mercê da sua serenidade,
bom humor e inteligência com que se conduzia no trabalho ou
fora dele.

José Eduilton Girão


Clínico Geral. Membro titular da Academia Cearense de Medicina

Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes –


Pavilhão da Administração

28
Paulo Gurgel, um médico de letras

Arrependimentos de um falecido cronista


“Abençoados os que possuem amigos,
os que os têm sem pedir,
porque amigo não se pede, não se compra,
nem se vende. Amigo a gente sente!”
Machado de Assis

Ela pegou no fragmento com a ponta dos dedos como se exa-


minasse um selo e fez cara de espanto.
- Um e vinte isto aqui?
Era um pedaço de lâmpada com a etiqueta de preço ainda
colada.
-Eu explico. Disse o rapaz amorenado, raça
brasileira.
Gente simples, um pintor de paredes. Calça e
camiseta descombinando manchas de tintas lavadas
e não saídas. Ao escolher lâmpadas na prateleira do
supermercado deixou cair uma delas fazendo-a mil
cacos. Recolheu mais algumas, duas ou três, ajuntou-as
ao pão com mortadela e foi assombrar a moça do caixa
com a honestidade de homem puro que eu, na fila, vi.
Lastimo não ter sido seu amigo.
Queria ter vivido num mundo assim.

*** Nelson Cunha

A campainha tocou nas primeiras horas de sol de um domingo


comum. Eu já sabia quem era pelo latido raivoso do meu cachorro
que não gostava de cheiro de mendigos. Abri a porta e encontrei o
vestíbulo vazio desses humildes que sempre se julgam indignos de
esperar à porta. Os pedintes do meu alpendre usam dessa prática
comovente: bater à porta e recuar para a rua.

29
PORTAL DE MEMÓRIAS

Ele estava na calçada com seu saco de pano às costas e um cão com-
portado na ponta de um barbante. Ambos me olhavam com um olhar
africano, paralítico, cansado e sem cor. Olhar de me dê e não demore.
Queriam comida e levaram a primeira marmita gelada que se
apresentou na minha geladeira. Depois do Deus-lhe-pague, sentou-
-se no degrau porque fome não gosta de esperar. Para minha sur-
presa, com o único bife que achou, aplacou a inquietação do seu
esfomeado amigo Chulé.
Sobraram-lhe o arroz gelado e outras aparas da véspera.
Ganhou meu coração e lastimo por não ter sido seu amigo
Queria ter vivido num mundo só assim.

***

O menino tinha paralisia cerebral e veio para cirurgia de


estrabismo. Não falava nem andava e as mãos tinham movimentos
não aproveitáveis. Movia-as caóticas como galhos em tempestade
devido ao comando anárquico de um cérebro motor avariado. Sabia
pensar, sorrir e abusava disto. Receitei lentes para que visse melhor
o mundo que não foi feito para ele.
A mãe pediu uma conversa em particular. Queria ouvir algo
mais que não pudesse ser dito na frente do risonho. Ele aos nove anos
já sofria com os olhares penosos dos outros. Soube que foi adotado aos
dois anos de idade depois de ter sido abandonado pela mãe extenuada.
Entre tantas crianças normais, a mãe adotiva levou para casa
justamente o sorriso lindo num corpo impróprio para o desfrute.
Aquela escolha agridoce passaria a lhe custar o sal de todos os cho-
ros do mundo. Ela ganhou minha inveja e lastimo por não ter sido
seu amigo.
Queria ter vivido num mundo sempre assim.

***

Abri seu olho com firmeza, pois resistia em abri-lo sozinha.


De repente, sua mão enforcou meu punho e afastou-o de si. Caiu
num choro sentido.

30
Paulo Gurgel, um médico de letras

- Por acaso machuquei seu olho?


- Não é isso, doutor.
- É que me lembrei da minha mãe, falecida mês passado
com oitenta anos.
Antes que eu perguntasse o que tem a ver com o exame, ela
completou a explicação.
A mãe teve um AVC e ficou tetraplégica. Fazia tudo no col-
chão d’água e nunca teve uma escara, graças à devoção da filha
abnegada. Não falava nem escutava e morreu sem se saber o quanto
compreendia.
Estava sempre de olhos fechados. A filha descobriu por acaso
que se os abrisse à força ganhava um sorriso: a única manifestação
daquela massa inerte incapaz de abrir os olhos sozinha. O corpo
aprisionado talvez esperasse todo o dia por aquele breve momento:
A visão da filha sorrindo.
Durante dez anos foi esse o prazer compartilhado pelas duas
mulheres: Um abre-olho e uma troca de sorrisos.
Estava explicado o choro sentido durante o exame. A filha
ganhou minha admiração e lastimo por não ter sido seu amigo.
Queria ter vivido num mundo todo assim.

***

Burburinho à porta do anfiteatro. Curiosidade, medo, repug-


nância, estavam disfarçados por sorrisos contidos. De repente, a
porta se abre e um forte cheiro de formol apresenta os cadáveres
enfileirados. Uma voz burocrática convoca: Paulo Gurgel, Nelson,
Núbia, Ozildo... Mesa nove.
Ali estávamos, adolescentes ainda, diante de cadáveres mumi-
ficados para a primeira aula prática de anatomia. Ele, o deitado,
com carnes já esfarrapadas de outros aprendizes - tal como velas
marítimas após longa travessia - e nós, brancos marujos, a iniciar a
viagem que duraria uma vida.

31
PORTAL DE MEMÓRIAS

Paulo se apresentou como morador do Otávio Bonfim.


À época, pensei que fosse herdeiro da fábrica de óleos do mesmo
bairro e com mesmo sobrenome. Fiz de imediato a conexão hipo-
talâmica que me acompanhou desde então: Cheiro acre de óleo me
lembra a indústria Siqueira Gurgel e dela o amigo Paulo Gurgel.
Estabelecemos daquele dia em diante, a amizade que vigorou
durante o curso. Tínhamos os mesmos interesses, líamos Pasquim,
apreciávamos a música brasileira que despontava na versão Bossa
Nova, estudávamos para provas durante madrugadas inteiras man-
tidas a café, desancávamos a ditadura que batia para sovar o pão da
liberdade. A ditadura fez bem à minha geração porque criou a uto-
pia pela qual lutávamos. Algo etéreo, romântico e impossível: a jus-
tiça social. Hoje sei que a injustiça é a lei da natureza. A civilização
tenta, mas sempre haverá os belos e os feios, os sentados e os cami-
nhantes, os bons e os maus, os obtusos e os brilhantes como o Paulo.
Ele já esbanjava inteligência, aplicação nos estudos e aptidão
para a medicina que o tornaria grande. Terminada a faculdade, vol-
tei para Minas e ele, embora ameaçasse sair do Ceará; ficou. Nossos
encontros passaram a ser episódicos e limitados a reminiscências
porque a vida nos separou: tive meus filhos, novos amigos e ele os
seus. A distância é implacável com os amores e amizades, nada lhe
resiste exceto o sol que nos acompanha, tudo o mais amarela e finda,
até a mais pura amizade.
Ficou um arrependimento:
Gostaria de ter sido seu maior amigo.

Viver foi o prêmio que recebi para ser gasto um


dia de cada vez e não os usei com sabedoria. Teria sido
mais doce se em vida distinguisse essas pessoas.

Nelson José Cunha


Oftalmologista em João Molevarde.
Médico pela UFC-1971.

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo Gurgel: uma personalidade versátil

Discricão, talento artístico, inteligência e bom humor: traços


marcantes do meu amigo e colega de turma, na Faculdade de Medicina
da Universidade Federal do Ceará, Paulo Gurgel Carlos da Silva.
Em 1971, ano final de nosso curso médico, pertencíamos ao
mesmo grupo de doutorandos que optou pelo estágio de seis meses
na Clínica Médica do Hospital das Clinicas, sob a orientação do Dr.
Paulo Marcelo Martins Rodrigues.
Outros colegas como Maria Célia Ciarlini Teixeira, Regina
Alice Freire Coutinho, e Raimundo Pereira de Queiroz Filho faziam
parte do mesmo estágio. O Dr. Paulo Marcelo, competente e meti-
culoso, acompanhava-nos nas visitas às enfermarias, questionando-
-nos e exigindo o máximo de cada um. Discutia conosco temas que
abrangiam da fisiologia à patologia, das técnicas diagnósticas às
melhores formas de tratamento.
Paulo Gurgel, estudioso e inteligente, participava das dis-
cussões clínicas do estágio, sempre bem-humorado, demonstrando
conhecimento sobre os assuntos tratados. Expressava-se de modo
espirituoso e tinha o hábito de substituir palavras populares consi-
deradas deselegantes e vulgares por termos com o mesmo sentido,
porém com mais força semântica. Empregava com muita frequên-
cia, por exemplo, o termo “refrigerações” como sinônimo de “fres-
cura”, palavra muito usada, de modo pejorativo, para caracterizar
atitudes consideradas piegas, preconceituosas, afetadas, excessiva-
mente sentimentais.
Como escritor Paulo Gurgel deixa aflorar sua criatividade
e a elegância de seu estilo em contos, crônicas, dissertações, sobre
diferentes temas. Excelente violonista, conhece muitas composições

33
PORTAL DE MEMÓRIAS

brasileiras, em especial as canções de Chico Buarque de Hollanda,


e com sua voz afinada e em tom baixo presenteava os amigos com
momentos muito agradáveis. Animava os nossos jantares e fins de
semana que frequentávamos juntos, já casados: ele com a Elba e eu
com o Roberto.
Guardo na memória com nitidez a substância das nossas con-
versas, na importante experiência profissional no Hospital Mira y
Lopez, ambos ainda acadêmicos. O meu amigo Paulo Gurgel passou
de plantonista a assistente na clínica do Dr. Glauco Lobo, nesse hos-
pital psiquiátrico e se sentia bem executando essa função.
Entusiasmado usuário da Internet, o espírito jovem e criativo
de Paulo Gurgel se revela nos temas que trata em seus blogs, dentre
os quais o “EntreMentes”.
Homenagear um amigo é acender uma luz que brilhará como
um farol para os nossos descendentes, principalmente quando este
amigo é um exemplo de competência, um homem autêntico que
contagia os que com ele convivem com sua calma e seu bom humor
e que sabe conservar a jovialidade, pois reconhece a inconstância
do prestígio.

Sônia Maria Carneiro de Mesquita Lôbo


Médica psicanalista

Sarau no apartamento da Livreiro Edésio. Da esquerda para a direita:


Sonia Lôbo, o flautista Hélio Menezes, Roberto Lôbo e o compositor Tazo

34
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo, o nosso amigo compadre

Conhecemos pessoas que vêm e fazem parte da nossa história,


Paulo Gurgel é uma dessas pessoas. Falar sobre ele é muito praze-
roso para mim, pois falar do Paulo é falar do “meu assunto predi-
leto” – Vladimir Morais, meu amado e inesquecível marido.
Vladimir conheceu o Paulo em 1976, durante o período em
que foram oficiais médicos do Hospital Geral de Fortaleza (do
Exército), tornando-se amigos, e cuja amizade se solidificou nos
muitos anos em que ambos trabalharam no Hospital de Messejana.
O Paulo me foi apresentado pelo Vladimir em 1977, no mesmo ano
em que o conheci, quando então Paulo fez parte da nossa história,
tendo inclusive sido nosso padrinho de casamento em 1982.
Eu, Vladimir e o Paulo tivemos muitos momentos agradáveis:
nos nossos encontros em muitos points de nossa Fortaleza, como
Estoril, Cais Bar, Lagosta Bar, Suvaco de Cobra, Bigode do Meu Tio
etc.; em viagens de final de semana, subindo a Serra de Baturité,
sempre cantarolando: “Estrada serrana, transversal da noite, serpente
danada, sei do seu açoite...”
Nossos encontros eram regados de inesquecíveis papos, ao
som da boa música, do dedilhar do violão do Paulo, cantando as
músicas do Lupicínio, Chico, Caetano...
Paulo é uma pessoa maravilhosa, amiga, profissional com-
petente e de quem nunca nos distanciamos de verdade. Já casados,
Paulo e Elba, eu e Vladimir, juntamente com nossos filhos, conti-
nuamos a nossa convivência, nos encontrando principalmente nas
comemorações natalícias.
Nosso Vladimir vivia intensamente e amava os amigos,
que não eram poucos, pelo simples prazer de gozar da companhia
deles. Paulo era um desses amigos que ele conservava com carinho

35
PORTAL DE MEMÓRIAS

e, apesar de ele não estar presente fisicamente, sei que estará sem-
pre conosco em espírito. Em seu nome e em meu próprio nome
quero parabenizar o Paulo e dizer da nossa felicidade em tê-lo como
amigo, agradecendo-o por ter feito parte da nossa história.

Lucia Bessa de Morais


Procuradora da CEF

Paulo e Vladimir no
restaurante Ugarte, Cumbuco

Lúcia e Elba (com Érico nos braços)


numa barraca da Praia de Cumbuco

36
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo Gurgel e os primórdios


da Sobrames-CE

Conheci o Paulo Gurgel na Faculdade de Medicina (UFC) por


volta de 1968, nos encontros sob as mangueiras do campus e no bar
do Dozinho, locais em que, na época, ficávamos em nossos recreios
da Medicina papeando, cantando e fazendo política. Dessas fervi-
lhantes reuniões participavam, entre muitos, o compositor Belchior,
Mariano, Penaforte, Chico Passeata e o Prof. Martinho.
Anos depois, já em 1977, novamente encontrei o Paulo, no
Hospital de Messejana. Eu fizera estágio na Cirurgia Cardíaca e, em
1975, havia entrado na equipe de cirurgia do Hospital, e o Paulo,
a partir de 1977, na Pneumologia. Os contatos dentro do hospi-
tal foram ficando frequentes, pois descobrimos que tínhamos em
comum o amor pelas artes: música, literatura, pintura e outras.
Em 1978, fui convidado pelo então Presidente do Centro
Médico Cearense, Dr. Paulo Marcelo Rodrigues, para ser Diretor
Cultural daquele órgão. Fiquei encarregado de cumprir duas
missões: criar um jornal, o “CMC Informa”, e colaborar com o
Dr. Pedro Henrique Saraiva Leão para reativar a revista “Ceará
Médico”.
Ao mesmo tempo, utilizamos o espaço físico, o salão principal
para exposições de pintura e artesanato. Foi criada uma noite cul-
tural com música ao vivo e também formado um grupo de poetas e
escritores que se encontravam para mostrar os seus trabalhos. Este
grupo, formado por vários médicos, se reunia também no consul-
tório do Aquino, um dentista amigo do Paulo, e de lá saiu a ideia
de fazer um livro que se chamaria “Verdeversos”, porque um dos
colegas alegou que nós éramos poetas muito verdes para publicar
um livro. Então, eu fiz um poema, “Verdes Versos”, que terminou
sendo o nome eleito para título do livro.

37
PORTAL DE MEMÓRIAS

Levei a idéia para o Centro Médico ao então presidente,


Dr. Aguiar Ramos, que a aprovou. E criamos a editora do Centro
Médico Cearense, nome que eu dei àquele esforço de se fazer o pri-
meiro livro e à esperança de fazer outros mais. Sem fonte de finan-
ciamento, caí então na estrada e procurei a Secretaria de Cultura do
Estado e terminei no Palácio do Governo. Foi assim que conheci
dois governadores: Virgílio Távora e Gonzaga Mota. Na Imprensa
Oficial do Ceará (IOCE), conheci também o Rosemberg Cariry, que,
à época, era funcionário de seu Departamento de Arte e me ajudou
a fazer este e outros livros.
O “Verdeversos” (1981), uma antologia poética, teve como
participantes os médicos: Airton Monte, Alarico Leite, Caetano
Ximenes, Emanuel Carvalho, João Bosco, Jackson Sampaio, Irene
Nobre, Lucíola Rabelo, Paulo Gurgel e Winston Graça. Houve
um fato interessante: eu, como coordenador, peguei o material de
todos e, durante algum tempo, li-o e fiz uns desenhos em nanquim
para os capítulos dos autores e também para a capa. Mostrei-os ao
Rosemberg que gostou deles e depois esses desenhos foram apro-
vados pelo grupo. Até hoje acho que foi um dos meus melhores
momentos.
O segundo livro surgiu como consequência de um curso no
Centro Médico, que se chamava “Isto Não se Aprende na Escola”
(1982), e eu achei que daria um livro. Foi aprovado pela diretoria
do CMC e novamente caí na estrada, terminando em um encontro
de fim de tarde com o Governador Virgílio Távora, em sua casa na
Barão de Studart, e tomando uma limonada servida pela Da. Luíza
Távora. O Governador fez, de próprio punho, um bilhete em papel
timbrado para a IOCE, determinando que me atendessem. Quando
o convidei para o lançamento do livro, que seria no Dia do Médico,
ele disse que gostaria de ir, contanto que fosse adiante lembrado, o
que foi feito. Para a minha surpresa, um pouco antes da festa de lan-
çamento, ele me confirmou e foi ao CMC. Uma operação de guerra,
pois na época de ditadura era assim, com batedores, ajudante de
ordens, chefe do gabinete militar, seguranças e tudo mais.

38
Paulo Gurgel, um médico de letras

O livro seguinte, com o título de “Encontram-se” (1983),


para lembrar o “Procura-se” dos cartazes policiais, foi criado no
apartamento novo do Paulo, que ficava na Livreiro Edésio, uma rua
próxima à Assembleia Legislativa, entre músicas e ensaios na flauta
transversa nova que o Paulo tinha comprado; nessa época, fizemos
uma músicas juntos. A coordenação foi minha e do Paulo e a revi-
são também foi feita por ele. Desenhos do Ricardo Augusto Rocha
Pinto e a arte e capa do Rosemberg deram um tom especial à obra.
Em seguida, produzimos na editora do CMC dois livros
de natureza técnica: o “Psiquiatria Básica” (1983), do Prof. Frota
Pinto, e o “Nomes e Expressões Vulgares da Medicina no Ceará”
(1985), do médico Eurípedes Chaves Junior.
“Temos um Pouco” (1984), “Criações” (1986) e “Sobre
Todas as Coisas” (1987), foram obras consideradas uma promoção
conjunta do CMC e da Sobrames Ceará. O Presidente do Centro
Médico era o Dr. Lino Holanda e o Presidente da Sobrames era o
Paulo Gurgel, que me havia sucedido, após o cumprimento de
minha gestão à frente da nova entidade.
O Paulo Gurgel, meu grande amigo e colega do Hospital de
Messejana, é uma pessoa bem humorada e alegre, o que pode ser
apreciado em seus trabalhos e atualmente em seus blogs na internet.
Um intelectual e excelente músico (violão), que foi muito impor-
tante na criação da editora do Centro Médico e nos primórdios da
Sobrames-CE. Dos fundadores da Sobrames-CE, só nós dois resta-
mos atualmente como sócios desta entidade.
Eu, que fui o organizador oficial por ser Secretário do CMC,
respondi por contatos, preparo do regimento interno e fundação
da Sobrames Ceará. A seguir, fui eleito Presidente, na presença
do então Presidente Nacional da Sobrames, o Dr. Odívio Borba
Duarte, de Pernambuco. O Paulo colaborou como integrante do
grupo do “Verdeversos”, como sócio-fundador e vogal da 1ª direto-
ria da Sobrames, e como Presidente de sua 2ª diretoria, eleito em 4
de janeiro de 1984, de acordo com a ata de posse.

39
PORTAL DE MEMÓRIAS

Tenho uma grande admiração pelo excelente escritor que é,


pelos blogs maravilhosos que mantém, pelo trabalho como médico
pneumologista , além de ser um humanista e também meu parceiro
musical naquele período tão produtivo.
Gostaria de encontrá-lo mais vezes. O que não tem
acontecido.
Um abraço.

Emanuel de Carvalho Melo


Cirurgião Cardiovascular do Hospital de Messejana

Emanuel: entrevista ao Diário do Nordeste sobre a criação


da Sobrames Ceará. Bico de pena do Glauco

40
Paulo Gurgel, um médico de letras

Dos campineiros tortos

Em pelo menos metade dos 63 anos de vida do Paulo, a nossa


convivência não tem sido intensa, em quantidade de dias, mas é
sempre muito prazerosa. Primeiro, ele morou no Rio de Janeiro
e a seguir em Benjamin Constant, no alto Amazonas. Depois, a
migrante fui eu. Estou em Campinas há três décadas, mas a cada
ano, volto com meu querido esposo Laerte para uma boa e longa
temporada em Fortaleza, para um contato próximo com a família.
E como o Paulo é habitué da casa da mamãe, nós nos vemos com
frequência.
Quer ele queira ou não, o Paulo é o médico “oficial” dos
Gurgel-Carlos. Cuidou do papai com desvelo de profissional compe-
tente e de filho. Faz o mesmo com a dona Eldinha. Todos nós, eu e
o Laerte inclusive, temos a nossa “cota” de doença tratada por ele.
Muitas vezes, como eu exagerava no meu reencontro com o sol, ele
precisou medicar uma insolação malfazeja, quando não uma faringite.
Do “sexissentão” Paulo, quero ressaltar a sua fina ironia nos
textos inspirados que nos brinda em seus blogues. E do violão,
o que dizer? Ele combina bem com a afinação na voz. Um artista
pleno. Mesmo agora, quando reduz sua presença física na boemia.
O Paulo de hoje reúne qualidades como um grande profissional da
medicina, escritor admirado, bom marido da Elba, pai dedicado do
Érico e da Natália e avozão do Matheus, além, claro, de filho predi-
leto da dona Eldinha, irmão e cunhado querido de todos nós.
Um abração dos campineiros tortos Meuris e Laerte.

Meuris Gurgel Carlos da Silva


Engenheira Química. Professora titular da Unicamp

Laerte Antônio José


Contador

41
PORTAL DE MEMÓRIAS

Você não sabe como é bom...

O ano de 1948, reuniria coincidências apenas muitos anos


após identificadas: meus pais se casaram, o Paulo nasceu e eu tam-
bém vim ao mundo.
Com infâncias e juventudes parecidas, mais identificadas por
dificuldades e persistências do que por curtições havidas, cruzamos
os inesquecíveis anos 50 e 60 da jovem guarda e da bossa nova.
Os anos 70 marcariam, significativamente, a carreira do
médico pneumologista que, tendo feito escalas em hospitais do
Rio de Janeiro e do Amazonas, aterrissou finalmente em Fortaleza,
a cidade em que nasceu, para dar continuidade à exemplar vida
profissional.
Ele, no Hospital Geral de Fortaleza (da 10ª Região Militar);
eu, no bairro de Cumbica, Base Aérea de São Paulo. E, como uma
espécie de traço de união entre nós: a vida militar.
Adiante, ele optaria pelo retorno à vida civil, enquanto eu
permaneceria na carreira das armas.
O destino nos presenteou com mulheres maravilhosas que nos
deram dois filhos, um homem e uma mulher, todos bonitos, saudá-
veis, inteligentes e vitoriosos. Filhos estes que, acompanhando os
sacrifícios dos pais em suas carreiras, optaram por outras profissões
igualmente dignas e nas quais estão se havendo muito bem.
Plagiando conhecida frase de/sobre renomado presidente:
“você é que é o cara”. Unanimemente admirado, querido, de bem
com o mundo, sabendo nele inserir-se de acordo com as exigências e
as oscilações do dia-a-dia, o que não é tão fácil assim.
Cidadão em todas as circunstâncias e companheiro de fé,
irmão e camarada, VOCÊ NÃO SABE COMO É BOM TÊ-LO
COMO CUNHADO. Em nome de toda a família, obrigado por

42
Paulo Gurgel, um médico de letras

existir e por permitir que possamos participar das ações de sua sim-
ples, discreta, porém feliz vida.

Antonio Pinto Macêdo


Tenente-Brigadeiro-do-Ar R1

Elba com os pais e irmãos. Da esquerda para a direita: Antonio


Pinto, Elba, Márcia, Rosy Mary (Meirinha), Moacir (pai),
Zaíra (mãe), Denise, Lúcia (Maninha) e Moacir (filho)

43
PORTAL DE MEMÓRIAS

Paulo Gurgel: um ótimo filho,


pai, marido e irmão

Marcelo vem pedindo que eu escreva um pequeno texto sobre


o Paulo, nosso irmão. Confesso que demorei a atendê-lo. Não por-
que rejeitasse a tarefa, mas pela dificuldade em executá-la, pois não
encontrava palavras suficientemente certas ou que abrangessem o
significado de ser o Paulo meu irmão.
No primeiro momento, pensei em fazer um acróstico. Achei,
entretanto, que precisaria de todo o alfabeto, pois como iria incluir
bondade, caridade, humildade e sensatez, entre outras qualidades
que ele apresenta? Assim sendo, optei pela forma direta e simples,
sem rebuscamentos que o português admite. Afinal, não estou aqui
apenas adjetivando, mas colocando em palavras sinceras o que brota
do meu coração e da minha convivência familiar, o que permite
dizer o quanto o Paulo é generoso, solidário, atencioso e leal. Tem
mais, muito mais, um ótimo filho, pai, marido e irmão. Além de ser
uma pessoa responsável, determinada, inteligente e criativa.
Destaco ainda que cito essas qualidades do Paulo não ape-
nas para jogar confete em um irmão, pois quem o conhece sabe o
quanto este rol de predicados é verdadeiro.
Afirmo e reafirmo as qualidades ora elencadas, porque
presenciei atos e fatos que comprovam a conduta do Paulo, tais
como seus gestos e atenções médicas para todos os familiares e,
acima de tudo, a consideração que demonstrava aos seus pacien-
tes no Hospital de Messejana, o desvelo que teve com o papai e a
tia Tatinha, em suas enfermidades, e ainda tem com a mamãe e a
tia Elza, a coragem de cursar informática junto com o filho Érico,
numa turma de adolescentes, com o intuito de estimulá-lo, e atitu-
des de defesa da família, mesmo que para isso assumisse sacrifícios
pessoais e financeiros.

44
Paulo Gurgel, um médico de letras

Comporta ainda enaltecer uma característica ímpar do Paulo,


a sua discrição. Outro comportamento seu que imprime admi-
ração é sua disponibilidade em ajudar, sem tecer comentários ou
julgamentos. Daí advém sua sabedoria e seu prestígio junto aos
familiares.
Paulo, vou agradecer sempre a Deus por ter-me colocado
neste mundo como sua irmã e, para finalizar, deixo dois provérbios
de Confúcio que guardam uma relação estreita com você, por estar
sempre inovando, aprendendo e se reinventando.
“O Sábio teme o céu sereno, porém quando vem a tempes-
tade ele caminha sobre as ondas e desafia o vento” e, “O que eu
ouço, esqueço. O que eu vejo, lembro. O que eu faço, aprendo”.
Com um abraço fraterno da Magna.

Magna Gurgel Carlos da Silva


Engenheira-agrônoma. Advogada.

Casais Laerte-Meuris e Dermeval-Magna,


fotografados em Campos do Jordão, SP

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PORTAL DE MEMÓRIAS

Dr. Paulo Gurgel: um admirável médico

Recebi um honroso convite por parte do Prof. Dr. Marcelo


Gurgel para fazer um depoimento sobre seu irmão, o Dr. Paulo
Gurgel, sobre quem estava sendo preparado um livro.
Tornar-se um médico não é uma meta fácil. Ser um médico
admirável implica admitir a conjunção de muitas virtudes, prova-
das e aprovadas pelo tempo. Julgo-me relativamente apto a fazer
algumas considerações sobre o Paulo, pois foi meu contemporâneo
na mesma Faculdade de Medicina (UFC), de 1966 a 1969. Depois
nos reencontramos no Hospital (Sanatório) de Messejana e lá tra-
balhamos por longos anos, ele na Pneumologia e eu na Cirurgia
Cardiovascular. Esta prova do tempo me autoriza a reconhecer no
Dr. Paulo um honrado cidadão e um grande médico, por ter sabido
exercer a nobre e difícil profissão médica com muita competência,
eficácia e dignidade, sem tropeços e de maneira sábia e modesta.
O Paulo nasceu em 06/06/1948, no seio de uma família sólida;
pais dedicados aos muitos filhos, com firme estrutura moral e reli-
giosa, com não abundantes recursos financeiros. Seus estudos pri-
mários e secundários os fez em muito bons educandários, tornando
possível a concorrida formação médica pela UFC (1966 a 1971).
Após a formatura foram muitos os cursos, estágios de treinamentos,
congressos e eventos científicos que viabilizaram ao jovem profissio-
nal o exercício mais eficaz da Medicina, inclusive no aspecto admi-
nistrativo. A meu rigoroso ver, o Dr. Paulo tem sido um médico
especialmente bom e útil à sociedade. Para isto é imprescindível
seguir a máxima bem antiga contida no Evangelho de São Lucas
(4:23): “Médico, cura-te a ti mesmo.” Entendido, como deve ser, ao
pé da letra, é preciso ser sadio para curar os outros. Isto de ser sadio
é resultado de muitos fatores, como o zelo pelo emocional, cultural

46
Paulo Gurgel, um médico de letras

e espiritual, afora o somático. Desde muito jovem, Paulo se dedicou


ao estudo da Música (piano, violão, violino).
Um aspecto de muito destaque na intensa vida do Dr. Paulo
Gurgel é sua manifesta vocação e aptidão pelas letras, inclusive a
poesia. São muitos os exemplos, através da História, de bem suce-
didos médicos escritores, sugerindo fortemente que quem cuida
dos que sofrem (os pacientes) fica mais sensibilizado no sentido de
despertar, com vigor intensificado, o pendor pelas artes. A pes-
soa em questão tem sido profícua e constante em escrever, tanto na
área médica como nas demais. Em 2006 criou o site EntreMentes,
o primeiro de seus cinco blogs. Pertence à Sociedade Brasileira de
Médicos Escritores, Secção do Ceará, desde 1982, tendo sido seu
presidente.
Casado com Elba Maria Macedo, constituíram uma exemplar
família, com filhos e até neto.
No campo da Medicina continua em atividade clínica, é co-
-autor de livros, foi preceptor de Residentes, como também
Presidente do Centro de Estudos do Hospital de Messejana, atual-
mente cognominado Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes,
tendo ocupado o árduo cargo de Diretor Clínico, quando demons-
trou muita competência, prudência e sabedoria na difícil missão
de dirigir colegas. Mas, na minha visão, o grande destaque do Dr.
Paulo como médico, testemunhado por mim durante muitos anos,
foi sua postura ética, nobre e modesta em tratar com desvelo, res-
peito e competência os pacientes, como também seus colegas de tra-
balho e os funcionários da Instituição. Isto não é tarefa fácil: requer
preparo emocional, técnico e ético. Por tudo isto, considero o meu
amigo e colega Dr. Paulo Gurgel, em definitivo, um grande cidadão
e, antes de tudo, um admirável médico.

João Martins de Souza Torres


Cirurgião Cardiovascular. Professor da UFC. Membro da ACM

47
PORTAL DE MEMÓRIAS

Nonato Luis, Claudio Castro e Paulo Gurgel.


Show do violonista Sebastião Tapajós em Fortaleza (1986)
http://blogdopg.blogspot.com/2007/04/um-show-que-no-acabou.html#links

Em 15/12/10, o organizador deste livro foi homenageado pelas Voluntárias da


Radioterapia – ICC com uma placa contendo esta mensagem: “Dr. Marcelo
Gurgel: As pessoas de sensibilidade e capacidade deixam marcadas suas
presenças por onde passam e nós estamos felizes por termos a oportunidade de
compartilhar do seu marcante trabalho.”

48
Parte II
CAUSOS DO PAULO
PORTAL DE MEMÓRIAS

1 Cloranfenicol na Medula
Uma das atribuições do Paulo Gurgel no Laboratório Lafi,
empresa para a qual trabalhou como bolsista em 1968, era ajudar
na promoção de seus produtos, cabendo-lhe fazer isso exclusiva-
mente com os seus mestres na Faculdade de Medicina. Aos pou-
cos, ele distribuía as caixas de amostra grátis com seus professores
e, por ser inevitável, fazia o mesmo com seus colegas de turma do
terceiro ano.
Dentre os medicamentos comercializados, estava o
Betamicetin, o nome de fantasia do cloranfenicol do Lafi. Essa
droga, certo dia, fez-lhe passar por um pequeno vexame, quando
tentou sugerir ao professor Dr. Murilo Martins que a incluísse em
suas prescrições. Esse notável hematologista, com quem Paulo
teria aulas somente no ano seguinte, quando quartanista, era vis-
ceralmente contrário ao uso do cloranfenicol, por entender que
esse antibiótico, entre os efeitos colaterais, podia provocar anemia
aplástica. Para tentar se contrapor à resistência do docente, o bol-
sista argumentou que o Betamicetin estava associada a vitaminas do
complexo B, e, com isso, diminuiria o risco da aplasia medular, o
que só fez aumentar a sua gafe e ganhar uma severa reprimenda do
seu mestre.

50
Paulo Gurgel, um médico de letras

2 Um Santo Remédio!
Em meados dos anos sessenta, os acadêmicos dos primeiros
anos da Faculdade de Medicina da UFC consideravam que uma de
suas missões era conseguir amostras grátis de remédios em resposta
aos múltiplos pedidos a eles dirigidos. Eles até reservavam um dia
semanal, preferentemente quando as aulas terminavam mais cedo,
para fazer a busca ativa nos distribuidores e/ou representações dos
laboratórios farmacêuticos. Em grupos, equipes de acadêmicos
marchavam avante pelas ruas centrais da capital cearense regular-
mente à cata do precioso botim.
Alguns dos laboratórios fixavam o número de amostras de
cada produto solicitado correspondendo ao tempo de matrícula,
possibilitando apenas uma ao calouro, mas até seis para o aluno do
internato, os quais, por sua vez, não mais dispunham de horários
ociosos para fazer esse périplo arrecadatório.
Eles reconheciam cumprir um autêntico programa para lá
de sem graça; mas, se sentiam recompensados, porquanto, no final
da supinância, tinham os almejados remédios com que atendiam os
parentes e amigos, os quais, como demonstração de gratidão, refa-
ziam as demandas para as próximas investidas laboratoriais, perpe-
tuando o círculo vicioso.

51
PORTAL DE MEMÓRIAS

Um dia, cansado dessa mendicância diferenciada, porém ser


romper, por inteiro, o ciclo peditório, largando no opróbrio os que
ainda o procuravam com seus pleitos, Paulo Gurgel, assim como
outros colegas, mudou a sistemática: permutou as suas extenuantes
e cansativas visitas aos laboratórios por formais “memos” direcio-
nados aos gerentes, sempre encerrados pela sentença “antecipada-
mente agradecemos”. Como esses bilhetes eram conduzidos pelos
próprios interessados, implicando uma divisão de tarefas, e tam-
bém uma retração na taxa de êxito, a medida, segundo Paulo, foi
“um santo remédio!”, que, desse modo, interrompeu o tão ingente
esforço que vinha praticando.

3 Morte com Data Anunciada


Nos seus tempos de curso de Medicina, havia um contem-
porâneo do Paulo, de nome Omar (fictício, para sua própria pro-
teção, e de uns tantos doentes, sem muita sorte por terem caído em
suas mãos).
Pois bem, este Omar não parecia bater bem da bola. Faltava-
lhe uma telha na coberta, ou melhor, tinha um parafuso frouxo.
Em outras palavras, segundo se dizia, seu raciocínio não era lá
muito certo.
Aconteceu que, uma vez, alguns dos colegas resolveram alu-
gar uma quitinete, nas proximidades da Faculdade, e, com ou sem
razão, decidiram batizá-la com o nome de Centro de Altos Estudos
Omar Mota (o sobrenome também é fictício). Daí teriam que inau-
gurá-la, solenemente, até para disfarçar que o “cafofo” ia servir de
“abatedouro de lebres”, uma espécie de “Bat-Caverna”, “rendez-
-vous” e coisa e tal.
Sentindo-se bastante lisonjeado com a homenagem prestada
por seus colegas, sem perceber o espírito de gozação, o Omar com-
pareceu ao ato inaugural do centro, todo paramentado como quem
ia a uma festa. Lá discursou por mais de meia hora, emprenhando

52
Paulo Gurgel, um médico de letras

os ouvidos dos presentes que estavam mais interessados era nos


“comes e bebes”, servidos na ocasião.
Mesmo com o ego nas alturas, e aqui não vai nenhum troca-
dilho, por conta daquele poleiro desengonçado ter ganho o pomposo
nome de Centro de Altos Estudos, o Omar não conseguia pôr de
lado a sua preocupação com um caso difícil, colocado sob seus cui-
dados, no Hospital das Clínicas.
Ainda no Internato e, portanto, na condição de aprendiz de
médico, o Omar estava a ponto de pirar de vez, por conta do estado
de saúde de “seu paciente”, há dias e dias penando em um dos leitos
ali espalhados, sem dar qualquer impressão de que estava obtendo
melhora, por menor que fosse.
Na verdade a situação do doente se agravava a cada instante
e o Omar, feito doido, andava pelos corredores, falando só, mas não
tão baixo que não desse para ser ouvido: “Oh, meu Deus, tomara
que esse cara mão morra, tomara que ele não vá dessa pra outra
melhor...”
Com o passar dos dias e como o dito cujo não abotoava o
“paletó de madeira”, muito embora o quadro estivesse de mal a
pior, os colegas começaram a perceber uma sutil diferença no com-
portamento do Omar e que a sua “falação” mudara: Ele já não dizia:
tomara que esse indivíduo não “bata as botas”, mas sim “tomara
que esse indivíduo não morra, até o dia dezoito”.

53
PORTAL DE MEMÓRIAS

A explicação estava ali, a olhos vistos. Nesse dia, o Omar iria


para outra clínica, por força do rodízio do Internato, e, caso a cei-
fadeira de vidas viesse buscar o dito paciente, não iria encontrá-lo
mais aí, para recepcioná-la, livrando-o, portanto de uma mancha na
sua reputação acadêmica.
O que é certo é que a parca só veio quando o Omar estava
em outra. Daí para frente, ele preferiu concentrar sua atenção no
Centro de Altos Estudos, que tinha o seu nome, onde, ao vivo e em
cores, tinha que aprender mais sobre a anatomia humana, sem risco
de ter, nas mãos, alguém com passagem comprada para o Serviço de
Necropsia do Departamento de Patologia, e, o que é mais impor-
tante, sem data marcada para a viagem.

4 Conduta CTA
O Professor Geraldo Gonçalves, regente da disciplina de
Reumatologia da Faculdade de Medicina, era também o responsá-
vel pelo Ambulatório dessa especialidade, no Hospital das Clínicas
da UFC.
Suas aulas práticas eram muito concorridas, mercê da sua
competência e bem-querência, associada ao trato humanitário que
dava aos sofridos pacientes que ali chegavam.
Em 1969, Paulo Gurgel, aluno do quarto ano, estreava nesse
ambulatório, um serviço caracterizado pela agilidade no atendi-
mento e pelo aprendizado propiciado a vários acadêmicos, simulta-
neamente, sob a direta orientação do Prof. Geraldo.
Certa vez, depois que o acadêmico Paulo fez a anamnese, o
paciente foi examinado pelo professor, sob os olhares atentos dos
seus alunos. Concluso o exame físico, o docente indaga ao estudante
Paulo:
– Enfim, qual é a sua impressão diagnóstica?

54
Paulo Gurgel, um médico de letras

– Penso que, de acordo com a história clínica e também com


os achados do exame físico, esse senhor tem artrite reumatóide –
respondeu Paulo.
– Parabéns! O seu diagnóstico está correto. Mas qual será a
sua conduta nesse caso, meu rapaz?
– Acho que devo prescrever antiinflamatórios e corticóides –
explica o estudante.
– Você está no rumo certo; porém, o mais apropriado é a
“Conduta CTA” – estimula o professor.
– “Conduta CTA”? Desconheço tal conduta, mestre. É algo
novo que ainda não está no nosso livro-texto?
– Isso não é teórico, meu filho; mas, uma questão prática,
bem adequada à nossa realidade.
Nisso, o Prof. Geraldo Gonçalves levanta-se e vai até o armá-
rio para retirar algumas amostras para entregar ao paciente, e ponti-
fica com toda a sua espirituosidade:
– “Conduta CTA” significa “Conforme Tenha no Armário”.

Para bem guardar na lembrança, o querido mestre jun-


tava as amostras grátis, recebidas dos propagandistas de remédios,
que, com regularidade, o visitavam em sua clínica particular, para
suprir o seu precioso armário do Ambulatório de Reumatologia
do Hospital das Clínicas, os quais eram dispensados aos enfermos

55
PORTAL DE MEMÓRIAS

despossuídos. Não era ele um Robin Hood, tirando dos ricos para
dar aos pobres, mas, movido por seus caros princípios da caridade
cristã, guardava para distribuir com quem nada tinha, o que vinha
às suas mãos, de graça e sem nenhum favor.

5 Chutando e Recauchutando
Uma das boas histórias contadas por Paulo Gurgel é esta, pas-
sado no ano de 1971, quando ele cumpria o internato de seis meses,
em Clínica Médica, no serviço do Professor Paulo Marcelo Martins
Rodrigues, este luminar da medicina cearense. Acontece que, para
alguns dos internos, o período na clínica era de menor duração, isso
porque alimentavam interesses profissionais que já os remetiam para
outras áreas da medicina, e daí ser preferível, no rodízio do ano de
internato, concentrar o aprendizado no objeto do futuro.
Assim pensava e assim agia a maioria daqueles quase médicos.
No meio deles havia, por sinal, um “fissurado” em cirurgia, a quem
coube certo dia, examinar, quando ainda era interno, na clínica
médica, um paciente que fora admitido no serviço. À medida que
ele descrevia o exame do sujeito, sob as vistas do Professor Paulo
Marcelo, ia dando informações sobre o estado de saúde do doente.
Cheio de empáfia, muito embora o seu desempenho fosse ape-
nas razoável, ele quis dar uma demonstração de “papai sabe tudo”,
só que, no caso, às avessas. Enquanto ia desfilando o que lhe vinha à
cabeça sobre a massa abdominal que levara o indivíduo a se internar
no Hospital das Clínicas, ele procurava discorrer sobre o que qual-
quer interno, no serviço, sabia de cor, como, por exemplo, que o
exame físico implicava dizer o tamanho da massa, qual a sua relação
com planos superficiais e profundos, se havia ocorrência de alguma
pulsação e se a consistência... bem, foi aí que o pretenso cirurgião
entalou.
Notando que o rapaz não fizera menção a esta última carac-
terística da massa examinada, talvez por ignorá-la, o Prof. Paulo

56
Paulo Gurgel, um médico de letras

Marcelo, muito calmo e também muito perspicaz, lembrou ao dito


cujo que ele se esquecera de falar da consistência do “tumor”,
pedindo-lhe, então, que se pronunciasse a respeito. O interno não se
fez de rogado, e, num átimo de segundo, revelou que a consistência
da massa era de borracha. Todos os outros internos, ali presentes,
estranharam o inusitado da resposta, até porque ninguém desco-
nhecia que órgãos e patologias no ser humano, não se apresentariam
daquela forma, ou coisa parecida.
Querendo saber até onde ia a “cara de pau” do quase esculá-
pio, o professor Paulo Marcelo indagou-lhe:
– Mas qual é o tipo de borracha?
– Borracha de pneu, complementou, fazendo até pensar que
o raciocínio de quem é muito esperto, às vezes, chega a superar os
limites permitidos de velocidade.
Tanto o professor, quanto seus discípulos estavam, de fato, de
boca aberta, diante de tal impropério. Como sempre há um gaiato
no meio do grupo, e ali não havia exceção, um dos internos aventu-
rou-se em pedir mais explicação:
– Pneu de quê? Explique melhor.
– Ora, “borracha de pneu de caminhão”, concluiu, com
veemência, o cirurgião do futuro, portador, quem sabe, de uma
síndrome de infância recorrente, pontuada pelas lembranças do
“homem-borracha”, o herói das histórias de quadrinhos que povo-
ara os seus sonhos de criança.

57
PORTAL DE MEMÓRIAS

Uma afirmativa dessas, tão precisa, não poderia deixar de


provocar um delírio geral. Teria a Beócia, por acaso, se transferido
para Hospital das Clínicas da UFC? O certo é que, entre os muitos
que assistiam a essa exibição medíocre de uma peça, que ficava entre
a tragédia e a comédia, pairava a maior das dúvidas: - Teria aquele
interno algum parentesco com o Charles Goodyear? – ou, em outra
hipótese, faria parte da empresa Gerardo Bastos SA, onde “um pneu
é um pneu”, como enfatizava a publicidade ainda em voga? – O que
nunca se soube foi se o então jovem estudante de medicina, quando
feito cirurgião (era isso que ele queria), encontrou na cavidade
torácica, no decorrer de uma cirurgia, ao invés de um pulmão, um
pedaço preto de borracha, dando para ver que se tratava de parte de
um “Firestone” legítimo ou mesmo um “Pirelli meia-vida”.

6 O Parto a Distância
Corria o ano de 1971. Os internos Franklin e Josemar esta-
vam de plantão: o primeiro, no Serviço de Pediatria do Hospital das
Clínicas, e o segundo, seu colega e futuro obstetra, na Maternidade-
Escola. O Franklin, talvez, por não ter o que fazer, resolveu passar
um telefonema para o Josemar, com o intuito de lhe aplicar um trote.
Identificou-se como uma pessoa que morava em um conjunto
habitacional, na periferia de Fortaleza, e que sua mulher se encon-
trava em trabalho de parto. Argumentou que não dispunha de veí-
culo para transportar a esposa até a maternidade, e que, também,
não daria tempo para conseguir uma ambulância para a remoção
dela, pois achava que o bebê nasceria antes disso. Para completar,
adiantou que já tinha escutado bastante gente comentar sobre a
competência e o espírito humanitário do “Doutor” Josemar.
O futuro obstetra caiu na armadilha. E, sem atinar para a
veracidade das informações do “desconhecido”, que narrava com
aflição a situação da “parturiente”, julgou que se tratava de um
parto já em período expulsivo. Era premente, por conseguinte,
transmitir pelo “Graham Bell” todas as instruções que possibilitas-
sem a feitura do ato médico na própria casa da “parturiente”.

58
Paulo Gurgel, um médico de letras

E assim aconteceu. A cada etapa do parto fictício, o douto-


rando Josemar apontava a intervenção adequada. E tudo ocorrendo
sob os continuados agradecimentos do futuro “pai” da criança, o
braço executor, à distância, de suas orientações obstétricas.
Chegado o momento de esclarecer o que fazer com o cordão
umbilical, com ar de sapiência, Josemar nomeou a estrutura anatômica:
– É o cordão umbilical!
A seguir, prosseguiu:
– O senhor tem algum cordão em casa?
– Não – respondeu Franklin.
– Nem cordão de pacote de macarrão?
– Um zero ou dois zeros, doutor?
– Tanto faz, qualquer um serve.
– Pode ser da marca Fortaleza ou da Nebran, doutor?
– Sim, qualquer uma, não faz diferença.

Cordão ou barbante de pacote de macarrão “tinha”, pois,


para a sorte da “parturiente”, não era ainda o tempo do “Nissin
Miojo”. Achado o cordão, este prestou para ligar o outro cordão, no
caso, “o umbilical” e assim dar o fecho ao pseudo parto.
Ao término, mais gratidão do suposto pai da criança.
Não cabendo em si, de tanta satisfação, Josemar desligou o
telefone. E, para estupefação dos colegas de plantão, propagou:
– Puxa, turma, eu tô é bom! Já faço parto até por telefone!

59
PORTAL DE MEMÓRIAS

Sua gabolice, de fazer parto a distância, ou teleparto, teve


curta sobrevida. No dia seguinte, Franklin revelou a autoria do
trote, e o Josemar passou a ser alvo da chacota dos colegas.

7 O Nome da Coisa
Carolino era atendente da Casa de Saúde Santa Mônica, um
hospital psiquiátrico em Petrópolis, onde Paulo Gurgel trabalhou
como plantonista, entre 1973 e 1974. Moreno, atarracado, olhos
amendoados, ele o auxiliava na visita médica aos pacientes. Mas não
tinha lá muita instrução.
Uma vez Paulo pediu-lhe o tensiômetro.
Como o aparelho não aparecesse, o médico repetiu o pedido.
E o atendente... nada.

Aí, já estranhando a demora (por ser ele sempre muito solí-


cito), Paulo endereçou-lhe um olhar meio inquiridor. A ver porque
Carolino remanchava... já que ele não estava tão atarefado assim.
Quando Paulo deu de cara com o atendente apalermado, o ar de
quem não estava entendendo nada.
Foi preciso, então, que Paulo lhe explicasse:
– O aparelho de medir a pressão, seu Carolino.
– Ah, bom.
O médico conterrâneo não sabe por onde anda hoje o bom
Carolino. Mas tomara que tenha evoluído na compreensão dos
nomes do instrumental médico, a ponto de não fazer feio quando

60
Paulo Gurgel, um médico de letras

lhe pedirem, por exemplo, o... esfigmomanômetro. Aliás, que é


sinônimo para o tensiômetro, só que mais pedante.

8 Recebendo a Carga
O fato aconteceu no Hospital de Guarnição de Tabatinga
(HGuT) no município de Benjamin Constant, no Amazonas, e foi
contado pelo sujeito principal da trama. Naquele local, funcionara
a antiga Unidade Mista de Benjamin Constant, no tempo do SESP,
antes, pois, de ser passada para a administração militar.
O ano era 1974, e para lá fora transferido Paulo Gurgel, dei-
xando o Hospital Central do Exército, do Rio de Janeiro. À época, o
posto que ocupava era o de primeiro tenente médico. Ao chegar no
HGuT, por ser o oficial mais antigo, assumiu sua direção, recebida
de um colega gaúcho, o cirurgião Bonilha.
Na condição de novo diretor, viu-se Paulo Gurgel na obri-
gação de receber toda a carga do hospital. Para quem não sabe, no
jargão da caserna, carga equivale ao tombamento dos bens, numa
instituição civil. O certo é que, por muitos dias, Paulo cumpriu
uma verdadeira maratona, acompanhando o ex-diretor e conferindo
todos os bens patrimoniais da instituição.
Nunca, em sua vida, ele imaginara aprender, em tão pouco
tempo, tantos termos referentes a objetos, muitos dos quais, até
então lhe eram desconhecidos, principalmente quando passou no
centro cirúrgico e no gabinete odontológico. Para ele, por exem-
plo, mocho era uma coruja ou caburé. Mas, ali, era aquele banco
redondo e giratório, sem encosto, no qual o dentista se senta.
No dito hospital, o bem de maior valor, era um equipamento
completo de R-X fixo, e que, por sinal, não fazia parte da carga que
estava recebendo, justo por não ter sido comprado pelo Exército
(tinha sido uma doação do FUNRURAL).
Não obstante, faziam parte da carga do HGuT inúmeros
pequenos objetos, inclusive um crucifixo da “marca INRI”. Faltou
pouco para ser dito que ele fora adquirido de Jesus Nazareno Rei
dos Judeus, um comerciante estabelecido naquelas plagas.

61
PORTAL DE MEMÓRIAS

Daí para frente, Paulo percebeu que a coisa tinha ido longe
demais. A gota d’água veio quando o cirurgião Bonilha apresentou-
-o ao “espeto para fixar papéis”, nada mais, nada menos, do que
um pedacinho de arame enferrujado. Essa, não!, pensou do alto da
sua patente o primeiro tenente médico Paulo Gurgel, já investido no
cargo de Diretor do HGuT.
De imediato, ele pediu a “descarga” do inusitado bem patrimo-
nial, objeto de tombamento, já que ali, por razões óbvias, é claro, não
poderia jogá-lo em outro local, dando uma descarga para valer, sob
pena de comprometer a estrutura hidráulica, com um entupimento
sui generis. Não é sempre que um oficial pode mandar algo à m... .

9 O Pai do Vento
Quando Paulo Gurgel serviu em Benjamim Constant a ligação
entre a sede do município, onde ficava o hospital do exército, e o
distrito de Tabatinga, local do Comando de Fronteira do Solimões,
fazia-se, pela via fluvial, por meio de deslizadores e batelões. O
deslizador era um pequeno barco com motor de popa, usado larga-
mente pela população do Alto Solimões, enquanto o batelão era um

62
Paulo Gurgel, um médico de letras

barco bem maior e equipado com um motor de centro. Os desliza-


dores, comparados aos batelões, eram bem mais velozes, e, por isso,
eram rotulados, por alguns usuários, de voadeiras.
Em uma viagem entre os dois locais, que levava menos de
meia hora, o passageiro do deslizador ia apreciando as cenas da
floresta, com os borrifos da água do rio Solimões a lhe refrescar o
rosto, proporcionando um passeio agradável, e até ensejando-lhe a
vontade de que não se chegasse logo ao destino.
Presume-se que esse tipo de deleite não tenha ocorrido com
o coronel Glauco Carpa. Pessoa irritada, prepotente e sempre mal-
-humorada, esse militar estava chegando ao hospital da guarnição
para uma visita de inspeção.
Trazido por “Seu” Chico, um servidor que cultivava o hábito
de chegar mudo e sair calado, que fora designado para pilotar
os deslizadores do hospital, fazendo o transporte de interesse da
instituição.
Um flash que Paulo nunca esqueceu teve o bilioso coronel
como protagonista. O coronel médico, assim que o barco abeirou-
-se na margem fluvial, tentou pisar em terra firme... só que o pé
mergulhou nas águas barrentas do rio. Esse agourento incidente foi,
exatamente, o fermento que faltava para aumentar o mau-humor do
coronel.
Na ribanceira, onde Paulo e seus colegas de farda se encon-
travam para recebê-lo, passaram todos a temer pelo pior. Antes
da chegada do coronel, já se sabia da sua fama de ser um “chato
de galochas”, melhor dizendo, de coturnos. Carpa era um tipo
que tinha o exclusivo e sádico gosto de implicar com os de patente
inferior. Para isso, por seu posto de alto oficial, contava com a hie-
rarquia em seu favor, e, por conseguinte, seria fácil imaginar os dis-
sabores por que passariam os inspecionados, a seguir, no hospital
militar.
Correspondendo à reputação, o burocrático militar fuçou
cada cantinho do hospital, a procura de sujidade, verificou o ins-
trumental e os equipamentos do centro cirúrgico, testando o seu

63
PORTAL DE MEMÓRIAS

funcionamento, abriu e fechou torneiras, acionou interruptores,


inspecionou portas e paredes. Sempre resmungando, e sem nada
mencionar a respeito do que ele poderia agir no intuito de coope-
rar, na esfera de sua competência, para sanar os problemas por ele
notados.
Como não há mal que dure para sempre, o coronel Carpa
deu por conclusa a sua aborrecida visita de inspeção, e partiu, sem
demora, da inóspita região, para pôr no papel as insólitas observa-
ções que ele julgara pertinentes, as quais, porém, na visão de seus
subordinados, eram apenas próprias de um burocrata.

Soube-se posteriormente, em Manaus, uma história concer-


nente a Carpa. Ele, por algum tempo, andara espalhando, a todo
oficialato do Comando Militar da Amazônia, que sua esposa havia
engravidado. Contudo, era uma pseudociese, e, por não passar de
um caso de flatulência, a gestação desapareceu com a eliminação dos
gases intestinais, o que findou por lhe render a alcunha de “Pai do
Vento”.
Por conta desse inusitado desenlace, cada vez que o nome do
mau-humorado coronel era lembrado os companheiros do hospital
caíam todos em risos.

64
Paulo Gurgel, um médico de letras

10 A Receita para uma Vida Saudável


Miguel fora recrutado para prestar o serviço militar como
oficial médico (tenente R2) de um hospital do Exército. Quando
acadêmico de medicina, ele fez fama de gozador, liderando as mole-
cagens e as brincadeiras de sua turma. Parecia que a obtenção do
seu diploma de médico operara uma drástica metamorfose nele, dei-
xando-o sisudo e responsável, o que inclusive provocava estranheza
entre os seus ex-colegas de faculdade.
Na caserna, ele era um “caxias”, vibrando mais que os oficiais
de carreira; achava até que nos 45 dias de estágio intensivo, num
batalhão, aprendera mais que os seus companheiros de farda em
quatro anos da AMAN. Sob o seu “comando” estava uma grande
enfermaria de soldados, aos quais aplicava os ditames maiores do
Regime Disciplinar do Exército, com tolerância zero, para qualquer
indicativo de quebra da hierarquia militar.
Um dia, convocado para prestar uma informação na direção
do hospital, Miguel precisou afastar-se da enfermaria, por um breve
período. Ao voltar, verificou que uma maçã, que deixara sobre o seu
birô de trabalho havia sumido.
Aquela maçã era a sua merenda daquela manhã. E, provavel-
mente, já estava sofrendo a ação do suco gástrico de algum soldado
metido a esperto.
Fez de tudo para descobrir o responsável: Quem foi? Quem
não foi? Mas, ninguém assumia a autoria do delito. E, o que era
mais grave, ninguém dedurava o companheiro de enfermaria.
Miguel decidiu aplacar sua ira, impingindo uma penalidade
grupal. Para isso, concedeu uma autorização especial de saída transi-
tória a todos os soldados baixados à enfermaria, a fim de que fossem
até um supermercado situado nas proximidades do nosocômio, para
comprar maçã, evidentemente, com recursos dos seus próprios soldos.
No retorno, cada praça depositou uma maçã sobre a mesa do
médico. Eram tantas, que ele, se desejasse, poderia até pedir à sua

65
PORTAL DE MEMÓRIAS

mãe para fazer, com o apurado, uma apreciada torta de maçãs, con-
siderada o melhor quitute de sua lavra culinária.
Foi aí, então, que o Miguel recordou-se de seus saudosos
tempos universitários, quando ele estava sempre disposto a pegar
peças nos colegas, vítimas de suas costumeiras brincadeiras. Se ele
fosse um dos soldados, envoltos numa punição coletiva, o que faria
ao ser assim penitenciado? No mínimo, só entregaria a maçã depois
de “lavá-la” num jato miccional.
Pensando em tal eventualidade, Miguel devolveu as maçãs aos
seus comandados para que eles, em sua presença, as consumissem.
É, parece que o velho aforismo médico tem mesmo que ser
modificado. Não comer uma maçã diariamente é que pode ser a
receita para uma vida saudável.

* Esses “Causos”, todos reais, foram contados por Paulo Gurgel e descritos por Marcelo
Gurgel Carlos da Silva.

66
Parte III
ENTREVISTAS
PORTAL DE MEMÓRIAS

Conversa com D. Elda sobre Paulo

Mirna: Fale um pouco sobre os primeiros momentos da gestação do


Paulo.
Elda: Recordo-me do casamento e de que, poucos meses depois,
estava esperando o primeiro filho. Desejava muito um menino, mas
aceitava também uma menina. Mas, que viesse normal. Sem pré-
-natal, mas com uma gravidez tranquila... “Me sentia muito feliz.
Ia muito para a igreja agradecer por um gravidez tão normal”. No
último mês de gestação, o Silva comprou o berço e a cômoda que
seriam a mobília do quarto do nenê. Mas, como o quarto era muito
pequeno para o trabalho de parto, a mamãe cedeu-me o primeiro
quarto de sua casa na rua Domingos Olímpio, 2.209, que era mais
espaçoso e assim mais adequado. Mamãe e meus irmãos estavam
muito satisfeito porque iria chegar um nenê.

Mirna: E a chegada do Paulo, como foram as emoções?


Elda: Ao final do nono mês, às 3h30 do dia seis de junho de 1948,
ao soar dos sinos para a missa da Ordem Terceira Franciscana,
que era celebrada às 4h dos domingos, comecei a sentir as primei-
ras contrações... Tive muito espanto, pois não sabia bem como
seria a chegada do nenê. A partir desse momento, Silva foi buscar
a dona Maria Juca, uma parteira conhecida do bairro, que morava
em Jacarecanga. Ao chegar, a parteira considerou que, como eu era
muito jovem e tratava-se do primeiro filho, bastaria retornar às 16h,
ocasião em que o nenê já estaria mais perto de nascer... Eu estava
muito nervosa. Tive que esperar até o Silva ir buscar novamente a
parteira. Paulo nasceu às 18h, gordo, corado e chorão.

Mirna: E as visitas, como foram?


Elda: Tatinha foi visitar o Paulo antes de ele nascer... Acompanhou
a dona Maria Jucá, mas não assistiu ao parto. Assim que o viu no

68
Paulo Gurgel, um médico de letras

berço, pediu para que lhe fosse dado o nome de Paulo, em homena-
gem ao meu pai.

Mirna: Como foram os primeiros meses de vida do Paulo?


Elda: Elda: Ele comia pouco e chorava muito. Elma era a que mais
se admirava porque ele chorava tanto, não sabíamos o motivo do
choro. Dormia bem... Começou a andar e a falar rápido...

Mirna: Quanto aos estudos?


Elda: Com quatro anos já conhecia as letras e começou a ler... Era
muito esperto... Brincava de bola, de velocípede sozinho... Como
era o primeiro neto dos dois lados, praticamente não tinha primos
com que pudesse brincar... Lembro-me de que, como morávamos
no Instituto Padre Anchieta, enquanto as tias Niná e
Maria e o tio Zezinho faziam os ditados com os alu-
nos, Paulo ficava repetindo corretamente... Todos se
encantavam com a sua inteligência e a sua precocidade.
Estudou no Colégio Cearense e no Colégio Batista...
Sempre foi muito educado, estudioso, discreto, sim-
ples... Com cinco anos, Paulo escreveu o poema “ABC”
e com oito, redigiu o poema “Folhas Mortas”... Silva
gostava de publicar os poemas do Paulo na Revista
Verdes Mares, do Colégio Cearense.
Elda

Mirna: Na infância, como era a relação do Paulo com os irmãos?


Elda: Depois do Paulo, veio a Lucinha. Mas, como ela teve pouca
convivência com ele, devido aos problemas de saúde, Lucinha pas-
sou um tempo na casa da minha sogra e retornou alguns meses
depois melhorada... Infelizmente, ela faleceu pouco tempo depois...
Depois, foram Marta e Márcia... Assim, Paulo não tinha muito com
quem brincar. Praticamente, não tinha primos da idade.

Mirna: Sabemos que Paulo teve uma comemoração especial por sua pri-
meira comunhão na Igreja Nossa Senhora das Dores?
Elda: A missa foi às 6h de um domingo. Ele tinha por volta de oito
anos. As tias deram a festa, com almoço e tudo mais. Uma réplica
da Igreja das Dores, o bolo e os anjinhos de lembrança chamaram a

69
PORTAL DE MEMÓRIAS

atenção de todos os convidados. Era tão diferente e bonito... Tudo


foi feito com muito carinho pela dona Raimunda Matos, amiga da
Tatinha. Depois disso, Paulo ficou participando da Cruzadinha na
Igreja.

Mirna: E na adolescência do Paulo, como era a relação com os irmãos?


Elda: Quando os outros filhos foram crescendo, Paulo já estava ado-
lescente e começando a se preparar para ingressar na Faculdade de
Medicina. Mas, isso nunca causou problemas de relacionamento
com os irmãos... Nunca usou do fato de ser primogênito para ter
privilégios ou mandar nos outros irmãos.

Mirna: Nas férias escolares, o que Paulo fazia?


Elda: Quando menino, quase todos os anos ia para Senador Pompeu
sozinho de trem e ficava hospedado no Catolé. Gostava de tomar
banho no açude e encontrava com os filhos dos meus primos para
tocar violão... Aos domingos, gostava de passear na pracinha da
matriz de Senador Pompeu. Era tão independente que ele mesmo
marcava as passagens de ida e de volta... Quando menos esperáva-
mos, lá estava o Paulo voltando de férias. Às vezes, ia com o Edmar,
tio dele (1). Quando adolescente, passou a ir, para Senador Pompeu,
acompanhado do seu irmão Marcelo.

Mirna: Paulo era o bem querer dos tios e dos avós?


Elda: Era muito admirado por todos... pelo seu comportamento,
inteligência e discrição... Convivia muito bem com os tios Edmar
e Edson... Costumava a acompanhá-los nos passeios... Inclusive,
gostava de ir para as serestas com o Edmar, sempre levando o vio-
lão para tocar e cantar... Muitas vezes, essas saídas eram acom-
panhadas pelos amigos Cláudio, Jaime, Chico Dário... E todo
dia tinha o “soinho” do Paulo feito e muito bem guardado pela
mamãe... O “soinho” geralmente era um prato simples de arroz,
bife de carne bovina e um pouco de macarrão ou farrofa que ele
apreciava muito.

70
Paulo Gurgel, um médico de letras

Mirna: Paulo também sofreu as doenças da época: catapora, papeira,


sarampo, ... era dengoso?
Elda: Teve tudo isso... Reclamava bastante das dores. O que ele
mais sofreu mesmo foi com a cirurgia da retirada das amígdalas.
Recordo que, ao dar um espirro, sentiu uma dor tão forte que saiu
batendo nas paredes do corredor da casa. Interessante que, depois
que ele se formou em medicina, não deixou mais que eu continuasse
a mandar os filhos para fazer cirurgia das amígdalas. Por isso, você
escapou...

Mirna: Como foi a reação da família com a aprovação do Paulo no ves-


tibular para Medicina?
Elda: A família inteira parabenizou-o com muito entusiasmo por
essa aprovação na Faculdade de Medicina, considerando que ele
tinha tirado ótimas notas e era muito novo, além de passar logo na
primeira tentativa numa seleção tão difícil. Sabíamos que o mérito
maior era todo dele. Cabe destacar que o próprio Paulo absorveu
tudo com muita tranquilidade e discrição.

* Entrevista conduzida por Mirna Gurgel Carlos da Silva

(1) As caçadas de Paulinho.


http://gurgel-carlos.blogspot.com/2010/10/as-caçadas-de-paulinho.html#links

Paulo no Sítio Catolé, Senador Pompeu.


E o troféu de uma caçada com o tio Edmar

71
PORTAL DE MEMÓRIAS

Entrevista com Elba Maria Macedo Gurgel

Mirna: Como conheceu o Paulo? Como, onde e quando se viram pela


primeira vez? Foi através de algum amigo? Parente? Etc.
Elba: Na noite do dia 8 de dezembro de 1983, na festa “Noite de tan-
gos e boleros”, em uma restaurante da Varjota. Paulo estava com um
amigo em uma mesa. Eu estava com Marcus Cunha e a minha prima
Fabiana. Como não havia mesa desocupada, Marcus pediu para ficar-
mos na mesa do Paulo. O inusitado foi que não eu queria ir de jeito
nenhum àquela festa. Estava estudando. Mas, como Fabiana era
muito nova, minha mãe não a deixava sair só. Fui por ela.

Mirna: E o que houve de interessante nesse encontro? E também de


desinteressante?
Elba: Paulo ofereceu-me pitangas. Comecei a rir. Não sabia que
seria possível haver pitangas no restaurante. Daí em diante, come-
çamos a conversar. Ao final, embora não estivesse tão sóbrio, pediu
o número do meu telefone para decorar. Não esperava que ele me
ligasse. Hoje, ele justifica dizendo que o numero era fácil e assim
pôde memorizar... Não acredito muito nessa história.

Mirna: A partir daí, começaram os encontros? Como foi? Amor à pri-


meira vista?
Elba: Paulo ligou me convidando para ir no domingo a uma praia,
embora se considerasse “lunar”. Saímos outras vezes e... começa-
mos a namorar. Acho que o namoro evoluiu muito rápido pois, com
apenas três meses que nos conhecíamos, Paulo me pediu em casa-
mento. Achei que era pouco tempo, que precisávamos nos conhecer
mais. Bom, acabamos casando no civil seis meses após o primeiro
encontro. Paulo dizia que eu era “uma namorada muito próxima”,
pois morávamos no mesmo bairro (eu, na Rua Silva Paulet e ele, na

72
Paulo Gurgel, um médico de letras

rua Livreiro Edésio, a uns dez quarteirões) “e uma esposa muito


distante”, porque somente fomos morar juntos depois da cerimônia
católica.

Mirna: Quais eram os assuntos que conversavam? Lembra de algo diver-


tido? Algo chamativo? Enfim, algo que mais a atraía?
Elba: A conversa era muito variada embora como médicos, às vezes,
falávamos de assuntos relativos à profissão. Saíamos muito, conhecí-
amos pessoas de muitas profissões, assim os assuntos mudavam bas-
tante. Mas, os temas relacionados às artes eram bem frequentes.

Mirna: E o princípio do namoro, como foi? Aonde costumavam ir? Que


tipo de restaurante, comida etc? O Ugarte era um dos res-
taurantes que vocês frequentavam?
Elba: Como Paulo morava só, saíamos muito a restau-
rantes para fazer refeições. O restaurante Ugarte, no
Cumbuco, já foi na fase de casados.

Mirna: E como foram os primeiros encontros do casal


nas respectivas famílias Macedo e Gurgel? Os primeiros
contatos?
Elba: Conhecemo-nos no dia 8 de dezembro e no dia Elba
24, véspera do Natal, ele passou com a minha famí-
lia, na casa da tia Tereza e tio Sebastião, na Rua Lívio Barreto, em
Dionísio Torres. Lá, ele foi apresentado como meu namorado à
minha família. Recordo que as primeiras pessoas da família do Paulo
que conheci foram o Marcelo e a Fátima. Íamos muito almoçar aos
domingos nas tias Fransquinha, Rita e Maria, as tias de Jacarecanga.
Em um desses almoços, conheci praticamente todos os irmãos
e irmãs do Paulo. Dessa ocasião, me lembro bem da Meuris e
da Magna.

Mirna: Quanto tempo entre namoro e casamento? Como foi tudo isso?
Elba: Seis meses.

73
PORTAL DE MEMÓRIAS

Mirna: E os preparativos para o casamento, sabemos que foi tudo muito


rápido... assim mesmo, como foram?
Elba: Praticamente não houve preparativos. Paulo morava só... e
já tinha quase tudo em seu apartamento. Fiz pequenas mudanças
e acrescentei algumas coisas de cozinha, cama e mesa que estavam
faltando. Ao cartório, para o casamento civil, fomos apenas Paulo,
eu, com Ronaldo e Denise sendo os padrinhos. No casamento cató-
lico, que aconteceu no horário da manhã, na Igreja de São Vicente,
estavam apenas as duas famílias e alguns poucos amigos. Depois
da cerimônia, fomos à casa dos meus pais, onde foi oferecido um
almoço.

Mirna: Quando começaram a pensar em ter o primeiro filho?


Elba: Queríamos muito ter um filho. E o Érico nasceu no ano
seguinte.

Mirna: E durante o período de gravidez do Érico, o que mais recorda do


Paulo como pai de primeira viagem?
Elba: Houve uma transformação. Paulo ficou muito emocionado
por ocasião de minha primeira ultrassonografia. (1) E, no dia da
operação cesariana, Paulo permaneceu comigo, mas, assim que
o Érico nasceu, saiu acompanhando-o até o berçário. Só saiu de lá
depois que botaram a identificação no Érico. Recordo que o cirur-
gião, o anestesista e outras pessoas que estavam na sala de cirurgia
fizeram depois “a maior hora” com ele. Era o único que deixava a
mulher e saía para acompanhar o filho (risos). A justificativa dele era
de que precisava acompanhar tudo acerca do filho... Na realidade,
ele não disse, mas tinha receio que ocorresse algum problema, que
o trocassem... Detalhe: no berçário somente havia o Érico como
menino (risos).
Outro feito de Paulo: saiu para registrar o nosso filho com o nome
de Victor, que tinha a minha preferência e... voltou com o nome de
Érico na certidão. Sei que Paulo tinha dito que preferia Érico, mas

74
Paulo Gurgel, um médico de letras

não havíamos chegado a um consenso... Bem, quando Paulo vol-


tou com o nome Érico, eu não me incomodei, pois também gosto
deste nome.

Mirna: E, com o nascimento do Érico, como Paulo era? Como cuidava


e dava atenção? Se encantava com as descobertas e progressos do Érico?
Elba: Me ajudou bastante. Eu, uma pediatra, tinha medo de dar os
primeiros banhos no filho. Paulo tratou de aprender com a minha
mãe e, em uma semana, já estava dando os banhos no Érico. Era
super-carinhoso, se encantava muito com o que o Érico fazia... e
como Érico era muito dado, tudo se tornava mais fácil.

Mirna: Tente lembrar-se de alguns feitos do Érico que chamaram a aten-


ção de Paulo e de que você recorda até hoje?
Elba: Quando Érico era criança, e cedo começou a participar
das publicações de livrinhos na escola. Paulo ficava encantado. E
quando Érico, de seis para sete anos, ao viajar com a gente, ia can-
tando todas as músicas do grupo “Mamonas Assassinas”.

Mirna: Quando Érico passou no vestibular pela primeira vez, como foi a
reação do Paulo?
Elba: Paulo era louco para que ele fizesse Geologia. Até levou Érico
para conhecer um geólogo. Paulo perguntava, o geólogo respondia,
enquanto Érico ficou o tempo todo calado. Fez vestibular para a
Engenharia Mecânica na UFC. Paulo ficou muito alegre e até admi-
rado, pois Érico estudava pouco e obteve uma boa classificação.
Paulo colocou uma professora de inglês em casa para ele e o Érico,
a fim de que o Érico criasse gosto pela matéria... Só que o Érico não
demonstrava um maior interesse. Surpresa nossa! No vestibular,
Érico “fechou” na prova de inglês.

Mirna: E quanto à Natalia, foi planejada? Como foi Paulo durante a


gestação de Natália?

75
PORTAL DE MEMÓRIAS

Elba: Érico já tinha cinco anos de idade e achávamos que devíamos


ter um segundo filho. Então, tratamos de ter mais um. Para nossa
felicidade, foi uma menina, a Natália.

Mirna: A chegada da Natália no dia do aniversário dele foi inesperada?


Como foi essa parte?
Elba: Paulo torcia para que Natalia nascesse no dia de seu aniver-
sário, 6 de junho. Por conta de uma cesárea, Natália se antecipou e
nasceu às 22h30 do dia 5 de junho. Mas, Paulo não se deu por ven-
cido, registrou o horário do nascimento às primeiras horas do dia 6.
(2) A minha proposta era registrá-la com o nome de Priscila. Paulo
sugeriu chamá-la de Natália, com o que também concordei.

Mirna: E, com o nascimento da Natália, como Paulo era? Como cui-


dava e dava atenção? Paulo se encantava com as descobertas e os pro-
gressos da Natália?
Elba: Ficou muito alegre. Mas, como Natália dormia pouco, cho-
rava muito e era muito apegada a mim, isso dificultou para que
Paulo tivesse o mesmo desempenho demonstrado com o Érico.

Mirna: Paulo se rendeu logo aos encantos da filhota?


Elba: Natália foi crescendo e, então, o relacionamento foi melho-
rando bastante. Hoje, já adulta, Paulo e Natália mantêm uma rela-
ção muito amigável e são muito companheiros.

Mirna: Como foi Paulo durante os preparativos e a comemoração dos 15


anos da Natália?
Elba: Ajudou bastante. Paulo não é muito adepto às festas.
Argumentava que uma viagem para a Europa seria muito mais inte-
ressante para Natália. Mas, se dobrou aos pedidos da Natália que
teve a sua festa da forma que queria.

76
Paulo Gurgel, um médico de letras

Mirna: E quando Natália passou no vestibular, como foi a reação do


Paulo?
Elba: Ficou muito alegre e foi partícipe total. Acompanhou Natália
na obtenção dos documentos, na matrícula, enfim, em todas as pro-
vidências necessárias.

Mirna: Paulo tem fama de ser metódico e organizado, como você conse-
gue conviver com isso?
Elba: O importante é que ele respeita muito o meu jeito de ser, da
mesma forma que eu respeito o jeito dele. Nas decisões de caráter
pessoal há sempre espaço para expressarmos nossas opiniões.

Mirna: Segundo amigos e familiares, Paulo também leva essa fama para
a medicina. Como é o Paulo médico?
Elba: Responsável, cuidadoso, competente, estudioso, dedicado aos
pacientes.

Mirna: Paulo fez alguma poesia, música ou algo dedicado a você?


Elba: Costumava reclamar porque seus amigos faziam poesias para
as esposas e eu não tinha o mesmo tratamento por parte de Paulo.
Depois, passei a entender que Paulo possui muito mais desenvoltura
no gênero de humor, então acabei recebendo de homenagem uma
crônica, “A Senhorita E.”. (3)

Mirna: Como é o Paulo com o violão? Toca em algum momento especial?


Como ele fica? O que você mais gosta que ele toque?
Elba: Toca sempre. Paulo diz que o melhor tranquilizante que
existe é o violão. Atualmente, toca mais em casa. Ele gosta muito de
bossa nova, chorinho, e eu também.

Mirna: Nos últimos anos, o Paulo boêmio se tornou Paulo blogueiro,


como ficou a convivência com essa mudança?
Elba: O blog é muito importante para ele. Gosto de que ele escreva,
mas não tanto como ficou fazendo a partir da criação de seus blogs.

77
PORTAL DE MEMÓRIAS

Mirna: Sabemos que você tem um expediente bastante extenso fora de


casa, como é o Paulo como dono de casa na sua ausência?
Elba: Excelente. Faz supermercado, paga as contas nos bancos e
também resolve muitos problemas domésticos.

Mirna: Há poucos anos, a família aumentou com a chegada do primeiro


netinho. Como foi a transformação do Paulo para vovô? Matheus veio
para relembrar as peripécias e encantos dos filhos? Ou já superou e reno-
vou tudo isso?
Elba: Gosta muito de Matheus. É um avô muito dedicado, afetuoso.
(4)

Mirna: Enfim, resuma suas observações e seus sentimentos sobre o Paulo


nesses 26 anos de casamento?
Elba: É uma pessoa correta, se preocupa muito com a família, um
pai muito amigo. Muito companheiro, bastante compreensivo com
tudo que acontece. Não demonstra ciúmes, talvez porque confie em
nossa relação. O que mais me admira é que nunca vi Paulo comen-
tando sobre a vida das pessoas, julgando ou fazendo algum tipo de
crítica.

(1) Estamos grávidos! http://preblog-pg.blogspot.com/2011/04/estamos-gravidos.


html#links
(2) Há vinte anos... http://gurgel-carlos.blogspot.com/2010/06/ha-vinte-anos.
html#links
(3) A Senhorita E. http://preblog-pg.blogspot.com/2008/01/senhorita-e.html#links
(4) Passando em revista http://gurgel-carlos.blogspot.com/2010/01/passando-em-
revista.html#links

Concedida à jornalista Mirna Gurgel no dia 1º/março/2011

78
Paulo Gurgel, um médico de letras

Entrevista com Érico de Macedo Gurgel

Mirna: O que mais gosta no seu pai? O que mais admira?


Érico: O que mais gosto e admiro no meu pai são seus princípios
morais, que contribuíram para uma sólida formação do meu caráter.

Mirna: Lembra de algumas características interessantes? E também de


algumas bem distintas?
Érico: Lembro de meu pai lendo. Ele lia e lê bastante. (1) Tinha
e tem muitos livros. Também me lembro dele tocando
violão em casa.

Mirna: Na sua infância, recorda de algumas brincadeiras


com Paulo?
Érico: Lembro de jogar video game com ele. O jogo que
mais apreciávamos era o Alex Kid, do Master System II,
que ele me presenteou. (2)

Mirna: E os passeios, aonde iam? O que faziam? Quais as Érico


diversões preferidas?
Érico: Lembro que íamos bastante à praia quando eu era mais novo.
Meu pai também gostava de nos levar para a serra, íamos muito a
Guaramiranga.

Mirna: E quando Paulo tocava violão, o que você achava?


Érico: Eu o admiro. Ele toca violão de uma maneira esplêndida.

Mirna: E o Paulo professor de violão, como era? Aprendeu algo com ele?
Érico: Ele era um bom professor (risos). Eu que não era um aluno
tão dedicado. Aprendi alguns acordes elementares e consigo tocar
algumas músicas pouco complexas.

79
PORTAL DE MEMÓRIAS

Mirna: O que você achava e acha do Paulo médico?


Érico: Um exemplo de profissional, sempre dedicado à medicina e a
aperfeiçoar-se em sua especialidade, a Pneumologia.

Mirna: Quando você começou a estudar, Paulo ajudava nas tarefas


escolares? Ele fazia algum controle da agenda de atividades, do boletim?
Paulo participava das reuniões, encontros e outros eventos na escola?
Érico: Recordo mais da minha mãe, mas ele me ajudou em algumas
ocasiões.

Mirna: Recorda do que Paulo dizia quando você fez natação? Praticou
judô? Frequentava academia? Etc.
Érico: Da natação, ele gostava. Quanto ao judô, ele apoiava e inclu-
sive me levava ao BNB Clube. Mas, da academia e do jiu-jitsu,
papai não gostava muito, pois achava que me desviavam dos meus
estudos.

Mirna: O que você gostava de conversar com o seu pai?


Érico: De tudo um pouco: atualidades, política, tecnologia etc.

Mirna: Como era a sua convivência com o Paulo no curso de informá-


tica? E no curso de Inglês?
Érico: Dos dois, ele foi o aluno mais dedicado. Entretanto, como os
jovens assimilam as coisas com mais rapidez, meu desempenho tam-
bém o impressionava bastante.

Mirna: Você tinha medo de alguma bronca do Paulo quando fazia algo
errado?
Érico: Não, minha mãe me protegia (risos).

Mirna: O que você recorda como uma ação inesperada do seu pai?
Érico: Quando ele trouxe para casa umas galinhas d’angola para
criarmos como animais de estimação.

80
Paulo Gurgel, um médico de letras

Mirna: Qual a influência do Paulo na sua vida? Na sua formação pro-


fissional? E, agora, quando você constituiu uma nova família?
Érico: Meu pai sempre me apoiou quando eu precisei, tanto profis-
sionalmente quanto na constituição da minha familia.

Mirna: Quais suas impressões e seus sentimentos por seu pai?


Érico: Eu idolatro meu pai. É o amigo mais verdadeiro que tive
durante todos os momentos da minha vida.

Email: ericogurgel@gmail.com ; egurgel1@ford.com

(1) Santa leitura http://blogdopg.blogspot.com/2010/01/santa-leitura.html#links


(2) Pedra, papel e tesoura http://blogdopg.blogspot.com/2007/05/pedra-papel-e-
tesoura.html#links

* Concedida à jornalista Mirna Gurgel no dia 1º/março/2011.

Paulo com Érico e Natália.


Passeio na Gruta de Ubajara

Jornalista Mirna Gurgel: apreciando os


encantos de Heidelberg, Alemanha (2011)

81
PORTAL DE MEMÓRIAS

Entrevista com Natália de Macedo Gurgel

Mirna: O que mais gosta no seu pai? O que mais admira?


Natália: O jeito certinho que ele gosta de fazer as coisas, sempre tão
organizado e com uma memória tão boa. Você pode pedir alguma
coisa que deu para ele cuidar, não interessa o que seja, ele ainda a
terá guardado. Uma qualidade que, infelizmente, não herdei.
Admiro o esforço que ele fez para chegar ao que chegou profissio-
nalmente, estudando e trabalhando desde cedo visando a ter a sua
independência financeira e a tornar-se um profissional exemplar.
Algo que me deixa bastante orgulhosa, principalmente quando vejo
o esforço desprendido para conquistar os seus desejos e conseguir
alcançar os seus anseios, sempre de forma limpa e digna.

Mirna: Lembra de algumas características interessantes? E também de


algumas bem distintas?
Natália: Ele é muito vaidoso, gosta de falar dos resultados obti-
dos nos concursos a que se submeteu. E, sempre que sou contraria
a algo, ele tenta argumentar até o fim, buscando mostrar que está
certo e eu equivocada na minha maneira de pensar. Isto é, ele quer
ser meio “dono da verdade” e fica indignado quando vou contra o
que ele acha ser correto.

Mirna: Na sua infância, recorda de algumas brincadeiras com Paulo?


Natália: Não tenho a lembrança de brincadeiras que o meu pai
tenha feito comigo. Mas, recordo que ele adorava me chamar de
“princesinha” mesmo vendo que, por muitas vezes, me deixava com
muita vergonha. Hoje, confesso que sinto bastante falta dessa forma
com a qual ele me apelidava. (1)

82
Paulo Gurgel, um médico de letras

Mirna: E os passeios, aonde iam? O que faziam? Quais as diversões


preferidas?
Natália: No tempo em que era criança, fomos por muitas vezes para
a serra. Sem sombra de duvidas, eram os seus passeios prediletos.
Em sua opinião, nós moraríamos na serra. Ele sempre fala: “cidade
grande só serve para estressar uma pessoa e fazer com que a vida
dela seja menos longa”. Por isso, lembro bastante da nossa família,
sempre que possível, indo para lá, onde ele ficava o dia inteiro dei-
tado na rede lendo o seu jornalzinho, enquanto eu e o Erico ficáva-
mos na piscina do hotel. (2)

Mirna: E quando Paulo tocava violão, o que você achava?


Natália: Ele ainda toca. Acho ótimo, afinal ele tem bas-
tante talento para a música, e sei que são poucos que
têm a chance de ter um pai dotado de tantos talentos.
Penso que ele devia ampliar o seu repertório musical,
atualizando a sua trilha sonora, afinal já decorei todas
as musicas tocadas por ele. Estou “fera” em musicas do
gênero MPB, que é a sua trilha musical favorita.

Mirna: Quando você começou a estudar, Paulo ajudava


nas tarefas escolares? Ele fazia algum controle da agenda
de atividades, do boletim? Natália

Natália: Não, o meu pai sempre deixou essa tarefa para a minha
mãe. Ele nunca chegou a fazer tarefas comigo ou então pedir para
olhar meu boletim. Porém, houve uma ocasião em que eu tinha
aproximadamente 5 anos, nessa época estava cursando o jardim 2 e
a professora queria que eu fosse reprovada. De acordo com a opi-
nião da professora, eu era “muito infantil”. Discordo totalmente,
pois penso que era correto ser realmente infantil, pois se tratava de
uma criança de 5 anos. Por esse motivo, o meu pai não aceitou tal
medida e me transferiu de colégio para evitar a minha reprovação.
Devo muito isso a ele, pois ele evitou que eu perdesse um ano da
minha vida escolar.

83
PORTAL DE MEMÓRIAS

Mirna: O que você gostava e gosta de conversar com o seu pai?


Natália: Gosto de conversar sobre assuntos de Direito, faculdade a
qual estou cursando. Apesar de ele ser médico, como tem o hábito
de ler muito e de diversos assuntos, acaba também discutindo temas
relacionados ao direito. Assim, ganho um parceiro para discutir os
assuntos da área jurídica. Além disso, gosto de tirar algumas dúvi-
das a respeito de assuntos relacionados à medicina. Embora nunca
tenha pensado em estudar medicina, me interesso por alguns assun-
tos ligados a essa área. Então, aprecio muito conversar sobre a
minha vida acadêmica, como estudante de direito, e a vida profissio-
nal dele como médico.

Mirna: O que você achava e acha do Paulo médico?


Natália: Não me lembro de tê-lo presenciado consultando no hos-
pital. Mas, como vida de médico não para, ou seja, mesmo aposen-
tado, sempre tem alguém da família doente, e ele tenta ajudar de
todas as formas possíveis. Posso garantir que o meu pai é bastante
atencioso e prestativo, principalmente quando se trata de alguém
doente na família. As vezes que o presenciei atendendo foram em
nossa residência, sempre percebi, em todas elas, o seu elevado grau
de dedicação e profissionalismo.

Mirna: Você tinha medo de alguma bronca do Paulo quando fazia algo
errado?
Natália: Nunca tive muito medo do meu pai pelo fato de ele sempre
preferir a conversa à agressão. Mas houve ocasiões em que eu e o
Érico, quando pequenos, brigávamos e ele partia para nos dar uns
beliscões: eu sempre me escondia no banheiro, enquanto o Erico
recebia o “prêmio” pela briga (risos).

Mirna: O que você recorda como uma ação inesperada do seu pai?
Natália: Um dia o presenciei chorando. Sempre vi no meu pai uma
pessoa forte e praticamente inatingível, mas nesta data vi desce-
rem lágrimas dos seus olhos e percebi que ele também tem as suas

84
Paulo Gurgel, um médico de letras

fragilidades, como qualquer outra pessoa, e que por baixo desse


jeitinho sério que ele tem, há uma pessoa pedindo proteção e ajuda
em algumas situações. O dia em que constatei isso foi o da morte do
vovô Luiz (pai dele), em que, pela primeira e única vez, vi a expres-
são do sofrimento no rosto do meu pai.

Mirna: Qual a influência do Paulo na sua vida? Na sua formação


profissional?
Natália: A maior influência dele é a honestidade. É saber que o
dinheiro nem sempre traz felicidade, que a melhor coisa que uma
pessoa pode querer alcançar é construir uma família estruturada e
poder dar aos seus filhos uma “vida confortável”. Propiciar inclu-
sive coisas que, muitas vezes, não pôde ter na infância, mas que
gostaria de que os seus filhos o tivessem de forma honesta. Nada
melhor do que estudar e trabalhar bastante para ser um(a) profissio-
nal exemplar. Com isso, olhar para os seus filhos e dizer a seguinte
frase: “tudo que eu construí foi com meu esforço”. Nada melhor
do que vencer na vida por conta própria, usando o seu trabalho e
estudo em busca de uma vida digna.

Mirna: Quais suas impressões e seus sentimentos por seu pai?


Natália: Tenho por ele vários sentimentos bons, mas quero desta-
car três: amor, felicidade e gratidão. Amor por ser uma pessoa que
eu amo. O meu pai é o amor da minha vida. É algo sincero, bonito
e delicado. Felicidade por tê-lo ao meu lado, sempre me fazendo
ficar alegre, dando força para que eu aproveite a vida, me fazendo
ver o tanto que a vida pode ser bela quando se está feliz com ela.
(3) Gratidão, afinal, quem não consegue ser grata a outra pessoa
que tanto a ajudou, na verdade não tem nada, pois gratidão é um
sentimento lindo de se ter, e sou bastante grata ao meu pai que,
desde que eu nasci se esforça ao máximo para não deixar que me
falte algo. Esteve sempre ao meu lado, em todas as épocas da minha
vida, acompanhou os meus primeiros passos, escolheu minha escola
quando eu era criança e quando cresci e estava indo para uma nova

85
PORTAL DE MEMÓRIAS

fase na minha vida. E mesmo quando ingressei na faculdade, conti-


nuou dando maior apoio. Isso tudo sem contar das inúmeras vezes
em que cuidou de mim quando eu estava doente. Só posso ser muito
grata ao meu pai, por ser uma pessoa tão boa comigo.

(1) Natália em biscuit http://gurgel-carlos.blogspot.com/2008/11/natlia-em-biscuit.


html#links
(2) Pássaro vermelho – 2 http://blogdopg.blogspot.com/2007/12/pssaro-vermelho-2.
html#links
(3) É para o Fantástico? http://gurgel-carlos.blogspot.com/2010/04/e-para-o-fantastico.
html#links

* Concedida à jornalista Mirna Gurgel no dia 1º/março/2011.

Elba com Érico e Natália

Érico e Natália

86
Paulo Gurgel, um médico de letras

Questionário-Entrevista: ao
Dr. Carlos Alberto Studart Gomes

Já aposentado do serviço público federal, após 39 anos no cargo de dire-


tor do Hospital de Messejana, Dr. Carlos Alberto Studart Gomes
encaminhou certo número de cópias desse questionário, em 1990, a profis-
sionais que trabalhavam na instituição. O preenchimento delas, por parte
dos profissionais que as receberam, se destinava a lhe fornecer subsídios
para um livro sobre o Hospital de Messejana que o ex-diretor vinha
escrevendo.
Eis o questionário com as respostas que Paulo Gurgel lhe deu por escrito.

Identificação:
PAULO GURGEL CARLOS DA SILVA – Filho de Luiz
Carlos da Silva (advogado e professor) e de Elda Gurgel
e Silva (doméstica), nascido em Fortaleza-CE, no dia
6 de junho de 1948. Casado com Elba Maria Macedo
Gurgel (médica) com quem teve dois filhos: Érico (5
anos) e Natália (2 meses).
Onde estudou:
Curso primário: Instituto Padre Anchieta, de proprie-
dade de meu pai. Dr. Carlos Studart
Curso secundário: Colégio Cearense (ginásio), Colégio Batista (1º e
2º anos científicos), Liceu do Ceará (3º ano científico) e curso pré-
-vestibular do Diretório Acadêmico XII de Maio.

Especialidade:
Tisiopneumologia e Clínica Geral.
Período em que exerceu a profissão no Hospital:
Desde 1978 (Tisiopneumologia) e 1979 (Clínica Geral) até atual-
mente (1990).

87
PORTAL DE MEMÓRIAS

Funções que ocupou como titular ou respondendo:


Chefe da Seção de Documentação Científica
Chefe Substituto da Pneumologia
Diretor Substituto do Hospital
Coordenador do Serviço de Pneumologia Sanitária da Secretaria da
Saúde do Estado do Ceará (por indicação da direção do Hospital de
Messejana).

Influências dos pais, de outros familiares e de amigos em sua


formação:
Herdei do pai o caráter da austeridade, o qual eu procuro atenuar
com meus momentos boêmios. Da mãe, o senso de organização e o
amor às artes.

Por que escolheu a Medicina:


Sem hipocrisia:
1º - O desejo de ajudar o próximo (carrego comigo uma estranha
inquietação de que estou sendo socialmente inútil).
2º - A vontade de me projetar socialmente. Na época da escolha de
minha profissão, graduava-se em medicina, engenharia ou advocacia
(passando-se ao largo de outras interessantes carreiras como arqui-
tetura, geologia, comunicação etc.).
3° - Mas... certamente, não foi pelo dinheiro que eu poderia ganhar
no exercício da medicina.

Reminiscências da infância e da juventude:


Acólito da Igreja de Nossa Senhora das Dores, com direito a fre-
quentar gratuitamente (uma vez por semana) o Cine Familiar /
Quermesses em Otávio Bonfim e em Jacarecanga / Férias no Sítio
Catolé em Senador Pompeu / Tertúlias e serestas em Monte Castelo
e Parque Araxá / Gazetas à escola para ir ler na Biblioteca Pública e
na biblioteca do Ibeu / A coleção “Thesouro da Juventude” (lida em
casa) / Tom Jobim e a Bossa Nova.

88
Paulo Gurgel, um médico de letras

Tendência artística, literária, jornalística e política:


Escrevo e publico contos e crônicas em que o humor se faz presente.
Embora se pareça coisa de alfaiate o meu lema é: Nenhum dia sem
uma linha.
Considero-me um violonista acima da média.

Lembranças de fatos jocosos ocorridos no exercício da profissão:


Quando lembrados dou-lhes o tratamento literário.

Fatos importantes em / para sua formação profissional:


Estágio (incompleto) no Sanatório de Maracanaú (1972).
Curso de Formação de Oficial Médico (1972).
Estágio no Pavilhão de Isolamento do Hospital Central do Exército
(1972).
Médico do Hospital Central do Exército (1972-1974).
Curso de Tisiologia Clínica e Sanitária pela Fundação Instituto
Oswaldo Cruz (1973).
Diretor e Vice-Diretor do Hospital de Guarnição de Tabatinga, ex
Unidade Mista de Benjamim Constant da FSESP (1974-1975).
Médico do Hospital Geral de Fortaleza / 10ª RM (1975-1977).
Médico do PAM de Porangabuçu (1977-1979).
Médico do Hospital de Messejana (1977-XXXX).
Coordenador da Pneumologia Sanitária da SESA-CE (1989-1990).
Professor do Curso de Tecnologia de Saneamento Ambiental da
UNIFOR (1979).
Colaborador da revista Cooper News.
Autor do capítulo “Doenças Profissionais” do livro Epidemiologia &
Saúde.

Outras informações:
Na Seção de Documentação Científica dispomos atualmente de um
micro com impressora, o que nos permite rodar cinco programas,
aqui criados, de interesse para o Hospital.

89
PORTAL DE MEMÓRIAS

Visão histórica do hospital e sua importância na medicina


do Ceará:
Quando acadêmico de medicina, algumas vezes (♪ eu muito bem
vindo de ônibus de algum lugar ♪), ao passar em frente a este hos-
pital, jamais imaginava fosse acontecer o que o destino me reserva-
ria: integrar o corpo clínico do Hospital de Messejana. Mas... aqui
estou, o que muito me honra. Nesses anos, tenho feito um bom
aprendizado técnico e humanístico, em virtude de ter aqui encon-
trado as condições propícias para tanto. Da parte dos diretores, que
identificam minhas potencialidades e me incentivam, dos compa-
nheiros de trabalho, que trocam comigo experiências e compreen-
dem meus erros, e do pessoal de apoio, sem o qual eu não poderia
exercer a contento minhas funções. E, ainda, por conta dos excep-
cionais recursos técnicos e operacionais que tenho encontrado nesta
instituição. Falar sobre o Hospital de Messejana, o seu incomensu-
rável papel na cardiologia, na pneumologia e na cirurgia cardíaca e
torácica no Ceará, é discorrer sobre o óbvio. Há todo o testemunho
da comunidade cearense sobre o que o hospital para ela representa -
hoje e sempre!

Nota
Credite-se a importância da missão que o hospital cumpre, em
grande parte, à visão administrativa de Dr. Carlos Studart. Numa
época em que a rede sanatorial era um modelo consagrado, este
administrador identificou demandas outras (cardiopatias e pneu-
mopatias não-tuberculosas) que estavam a exigir soluções. E, sem
excluir o nosocômio da luta anti-tuberculose, soube redirecioná-lo
para objetivos mais amplos. Ademais, tão sólida tem sido a estrutura
administrativa deixada por Dr. Carlos Studart que, ao afastar-se da
direção deste hospital, as frequentes trocas de seus diretores (pelas
inquietudes da política) não têm, até o momento, comprometido o
bom desempenho da instituição.

http://blogdopg.blogspot.com/2008/04/uma-histria-que-foi-contada.html#links

90
Paulo Gurgel, um médico de letras

Vida de blogueiro

O título foi ele mesmo quem sugeriu: vida de blogueiro.


Depois de quatro anos na blogosfera e do quinto blog no ar, Paulo
Gurgel computa neles mais de 120 mil acessos do público. Se con-
tar o Scribd, onde muitas postagens do EntreMentes são também
publicadas, o número então salta para cerca de 900 mil, revela. Por
dia, ele reserva de duas a três horas de seu tempo para atualizações e
navegações. E garante: é uma atividade prazerosa.

O que seria mera curiosidade, a criação do EntreMentes,


começou a 18 de novembro de 2006, com o nome temporário
de Blog do PG. Depois, em novembro de 2007, com diferença de
alguns dias, ele “pariu” outros dois: o Linha do Tempo, que já se
chamou Blog Família Gurgel Carlos, e o Preblog, para textos da área
literária. O Acta Pulmonale tem certidão de batismo a 5 de fevereiro
de 2010. Contém notas e ilustrações relativas ao meio ambiente, ati-
vidades físicas, fisiologia da respiração, doenças pulmonares e curio-
sidades da medicina. O caçula dos “filhos” é o Slideshow do PG, de
abril de 2010, o qual reúne um grande acervo de slideshows. Como
antecipa o nome, é um verdadeiro show de slides, resultante de uma
experiência adquirida em apresentações de palestras quando médico
do Hospital de Messejana. No blog principal, são cerca de 7.000
acessos por mês e outros 5.000 nos demais.

91
PORTAL DE MEMÓRIAS

Tudo surgiu de forma empírica, diz Paulo. Nunca fez cur-


sos, treinamentos ou recebeu aulas particulares para criar os blogs.
Ele conta que foi aprendendo aos poucos, parte por observação e
parte por experimentação. “Apanhei um pouco no início, mas agora
domino razoavelmente as ferramentas. A cada dia, eu descobria
uma coisa nova e aí é que está a graça do aprendizado. Como incluir
links sem que o leitor saia da página do blog, por exemplo. O que
eu não sei ainda é construir um site de empresa. O blog é como uma
lancha rápida, você o faz até pelo celular, enquanto o site está mais
para um grande navio”, compara. O Twitter ele usa apenas como
chamariz. Modesto, garante: “até uma criança, hoje, pode fazer um
blog. São muitas as facilidades”.

De tanto visitar blogs, e de ser visitado, o EntreMentes é


hoje relacionado na página principal de outros 17 do gênero. A veia
cômica de Gurgel está presente desde sempre. Já no lançamento,
escreveu: “Vai ser grátis. Custe o que custar”. E, ao lado, inseriu
uma figura a rir. O primeiro texto sério, claro, foi sobre o Hospital
de Messejana, onde ele passou mais de três décadas de sua vida pro-
fissional. Hoje, reúne milhares de postagens em seus blogs. Tudo é
produzido em seus “camarins”, no Blogger, onde as postagens ficam
programadas até a data e a hora de entrada, que são por ele deter-
minadas antecipadamente. Há material pronto para seis meses de
postagens.
“Blog é sinal de conhecimento, de difusão das relações huma-
nas, de cultura e humor. É ótimo fazer interação com outras pági-
nas eletrônicas e com leitores de todo o mundo. No futuro, pode

92
Paulo Gurgel, um médico de letras

até vir a ser uma fonte de renda, porém, no momento, o que faço
é por prazer. A agilidade é espantosa. Fazemos parte de uma rede
mundial de computadores”, fala Gurgel. Lamenta que tão poucos
médicos se dediquem a esta atividade: “Sou o decano dos médicos
blogueiros em Fortaleza. Poucos médicos, até o momento, aderiram
em nossa cidade a esta ferramenta da internet, o que é uma pena”.
Outra observação é que os internautas acessam muito, mas fazem
poucos comentários sobre o que leem. Neste sentido, constata-se
certa acomodação deles.

Quase todos os textos são de autoria do Paulo. Quando não,


ele não deixa de acrescentar sua verve humorística ao que reproduz.
Também cria imagens para a ilustração e faz versões de textos a par-
tir do inglês e do espanhol. Ele tem ainda o louvável hábito de citar
as fontes consultadas. Abaixo, seguem duas de suas postagens para o
deleite dos leitores.

A arca dos dinos


12 Dezembro, 2008

Diz a mitologia judaica que um homem chamado Noé cons-


truiu uma grande arca, na qual conseguiu salvar as espécies animais
que ainda vivem na Terra da extinção pelo Dilúvio Universal.
Nessa fonte não há o relato, mas o patriarca fez também uma
segunda arca, cujas dimensões eram todas em dobro. Com a idéia de
salvar também os dinossauros. Mas, por não ter o dom da ubiquidade,
entregou o comando do Gigantic (o nome da segunda arca) a Néo.

93
PORTAL DE MEMÓRIAS

Néo, que era primo de Noé, gostava de criar dinos e ana-


gramas. E considerou que recebia a missão de Deus, ainda que ela
tivesse vindo de forma indireta. E se preparou com os seus lagartões
para enfrentar o anunciado Dilúvio.
Infelizmente, foi mal sucedido em sua missão. E a sua arca
naufragou causando a morte de todos os dinossauros. Escapando
apenas o Dragão de Komodo, porque os representantes da espécie
haviam embarcado, por engano, na arca de Noé. Embora o Dragão,
macho e fêmea constassem da lista de passageiros do Gigantic.
Um dia, os paleontólogos encontrarão os restos dessa arca no
fundo do Mar Morto. De Néo, porém, não esperem encontrar ves-
tígios nesse lugar. Conseguiu salvar-se do aguaceiro que o céu des-
pejou, usando a única boia que havia a bordo.
Depois disso, gerou Léo que foi morar na península itálica.
Onde deu origem à conhecida família DiCaprio (PGCS).

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A surdez temporária dos argonautas


27 Março, 2009

Na viagem de volta para casa, um dos perigos enfrentados


por Ulisses e os argonautas foi o canto das sereias. Vivendo numa
pequena ilha do Mar Mediterrâneo, próxima da Sicília, essas sereias

94
Paulo Gurgel, um médico de letras

atraíam os navegantes por meio de um canto enfeitiçador. Que tinha


o poder de desviar as embarcações da rota, fazendo com que se des-
pedaçassem contra os rochedos da ilha.
Sabedor de que não teria como resistir à atração desse canto,
Ulisses se fez amarrar ao mastro do navio. A seus tripulantes selou
os ouvidos com cera de abelha, dando-lhes antes a ordem de que
remassem - remassem sem parar! Até que o navio se encontrasse a
uma distância segura da ilha das sereias cantoras.
Muito diferentes das sereias da tradição celta (belas mulheres
dotadas de cauda de peixe), as sereias gregas eram criaturas horrí-
veis. Grandes pássaros com cabeça de mulher, que cumpriam nessa
condição física um castigo imposto pela deusa Afrodite. Cantavam
e, a seguir, devoravam os sobreviventes dos naufrágios que elas
provocavam.
Deixada a zona de perigo, Ulisses pôde então ser desamar-
rado do mastro e reassumir o comando do navio. Cuidou então de
desfazer a surdez temporária dos argonautas, distribuindo com eles
tampas de canetas esferográficas a fim de que pudessem retirar a
cera dos ouvidos.
Tampas de canetas e chaves de carros: conhecem algo que
funcione melhor? (PGCS)

Ilustração: Sheila McGraw


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95
PORTAL DE MEMÓRIAS

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Márcia Gurgel Carlos Adeodato

* Texto baseado na entrevista do perfilado, conduzida por Márcia Gurgel Carlos


Adeodato.

Comemoração do cinquentenário
de nascimento dos irmãos gêmeos
Germano e Luciano (2007)
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Aniversário natalício (3 anos) de Matheus


Noronha Gurgel, neto de Paulo
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96
Parte IV
ENTRE MÉDICOS IRMÃOS
PORTAL DE MEMÓRIAS

Médicos formados pela UFC: a turma de 1971

1. Recordo bem do contentamento de nosso pai e de toda a família,


quando você foi aprovado entre os primeiros lugares no vestibular da
Universidade Federal do Ceará Como você descreve a sua chegada na
Faculdade de Medicina, após o exame vestibular?
Paulo: No início do ano letivo de 1966, selecionados pelo exame
vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC) de dezembro de
65, estávamos reunidos em um auditório da Faculdade de Medicina
para a aula inaugural de nosso curso de graduação. Éramos cem
alunos, em maior parte nascidos no Ceará, jovens e com a predo-
minância numérica do gênero masculino. Começávamos ali a dar os
primeiros passos de um projeto comum que nos conduziria à profis-
são médica.

2. Comumente, as turmas de Medicina da UFC recebem o nome de


uma personalidade médica, em evidência à época da formatura (e.g.
Christian Barnard), ou prestam homenagem a um docente da própria
faculdade, a quem os colegas mais se identificaram, em especial por sua
dedicação ao ensino (e.g. José Carlos Ribeiro, Dalgimar Beserra de
Meneses, Haroldo Juaçaba). Como ocorreu a escolha do nome homena-
geado da sua turma?
Paulo: Em nossos tempos iniciais na Faculdade, escolhemos os
representantes da turma para as várias disciplinas do primeiro ano
e, obviamente, o nome pelo qual a nossa turma seria designada.
Por aclamação, foi escolhido o nome de Andreas Vesalius, o médico
belga que é considerado o “pai da anatomia moderna”. Vesalius foi
o autor do “De Humani Corporis Fabrica”, um atlas de anatomia
publicado em 1543. Sobre a escolha de seu nome para a designação
da turma, aparentemente pesou a circunstância de ser a Anatomia,
dentre as disciplinas do primeiro ano, a que mais nos empolgava. E

98
Paulo Gurgel, um médico de letras

Andreas Vesalius foi, sem dúvida, merecedor de nossa homenagem,


àquele momento. Esse rótulo serviu para manter a coesão da turma,
em torno da proposta de fazer uma excursão, em ônibus fretado,
até o Uruguai e a Argentina, conhecendo também outros estados
brasileiros. Quando chegamos ao Internato, ao ensejo da prepa-
ração do convite de formatura, deliberou-se pela adoção do nome
Carlos Chagas, como forma de prestigiar o grande médico e cientista
brasileiro.

3. Quando ingressei na UFC, em 1972, a famigerada Reforma


Universitária fora implantada, introduzindo-se o regime semestral e
substituindo-se a denominação das cadeiras por disciplinas, dentre outras
mudanças. Quais foram as suas primeiras cadeiras no seu curso médico?
Paulo: A propósito das cadeiras, além da Anatomia, estudaríamos
ao longo do primeiro ano: Histologia e Embriologia, Bioquímica
e Estatística; e, durante o segundo ano: Fisiologia, Psicologia,
Bioquímica II, Biofísica e Medicina Preventiva. Eram todas essas
cadeiras anuais.

4. Ao entrar na UFC, estávamos sob o tacão militar, e a Reforma


Universitária, fora uma experiência pioneira, para servir de modelo
a outras universidades públicas, concebida no bojo do Acordo MEC-
USAID, e, segundo os seus críticos, ela visava a desestruturar as tur-
mas, quebrando a solidariedade entre os alunos, com a introdução do
sistema de créditos e da oferta de muitas disciplinas optativas, encer-
rando o regime seriado e fechando os diretórios acadêmicos. Você, que
entrou antes da reforma citada, como era a convivência do alunado no
seu tempo?
Paulo: A partir do terceiro ano letivo, e prolongando-se a situação
até o quinto ano, a nossa turma foi dividida por ordem alfabética em
duas subturmas. Uma divisão que se fazia necessária para atender ao
caráter semestral das cadeiras (que passariam a ser trocadas, entre
os dois grupos, no meio de cada ano). Bem, não há como negar que
essa partição, imposta pela configuração da grade curricular, não
tenha de algum modo afetado o grau de convivência entre nós.

99
PORTAL DE MEMÓRIAS

5. Após um inusitado e malogrado Ciclo Básico que cumpri na UFC, e


realizado fora do campus do Porangabuçu, foi que pude estudar as disci-
plinas básicas da medicina, como Anatomia, Histologia etc., e daí seguir
para um ciclo clínico repleto de disciplinas optativas. No seu caso, o que
você cursou depois das cadeiras básicas?
Paulo: Foram muitas as cadeiras por que passamos na Faculdade.
Na terceira série: Clínica Médica I, Psiquiatria I, Anatomia e
Fisiologia Patológicas, Parasitologia, Microbiologia e Imunologia,
Medicina Preventiva, Farmacologia e Terapêutica Experimental.
Na quarta série: Clínica Médica II, Dermatologia, Doenças
Infecciosas e Parasitárias, Clínica Radiológica, Psiquiatria
II, Cirurgia Geral I, Otorrinolaringologia, Oftalmologia e
Puericultura. Na quinta série: Cirurgia Geral II, Urologia,
Traumatologia e Ortopedia, Medicina Legal e Deontologia,
Organização e Administração de Saúde, Clínica Médica III,
Neurologia, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia.

6. Depois dessas cadeiras, naturalmente, veio o Internato, não foi?


Quando fiz o meu Internato, em 1977, tínhamos que escolher entre o
Hospital Universitário Walter Cantídio, e dois outros hospitais públicos
(Hospital Geral de Fortaleza e Hospital Geral Dr. César Cals). A sua
turma também já tinha essas opções?
Paulo: Sim. Em 1971, as duas subturmas foram reagrupadas e, a
seguir, divididas em três subturmas. Para que cumpríssemos o ano
de internato, o qual se estendeu de janeiro a dezembro, nas vagas de
estágios disponibilizadas por três instituições: Hospital das Clínicas
(com a Maternidade Escola Assis Chateaubriand), Hospital Geral de
Fortaleza e Hospital Geral Dr. César Cals.

7. Noto que você falou Hospital das Clínicas, e não Hospital


Universitário Walter Cantídio. Essa denominação, em franco desrespeito
à lei vigente, que proibia a denominação de pessoas vivas às instituições e
prédios públicos, foi aprovada pela UFC nos meus tempos de acadêmico.
Como funcionava o Internato, à época da sua conclusão do curso?

100
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo: Neste último ano de Faculdade, não fazíamos mais provas


parciais de conhecimento nem trabalhos individuais; recebíamos
conceitos. Conforme o desempenho que apresentávamos em está-
gios por quatro setores: Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Clínica
Pediátrica e Clínica Obstétrica. Cabia a cada interno escolher a clí-
nica de sua preferência, na qual passaria um período de seis meses,
ficando reservado o tempo restante do internato para os estágios de
dois meses nas outras três clínicas. A mais, havia a nos atazanar, com
suas palestras e visitas a instituições, a extemporânea cadeira de
Estudos de Problemas Brasileiros (Moral e Cívica): uma imposição
do regime autoritário do país à Universidade.

8. O Internato de 1977 era muito semelhante ao seu; também durava


um ano, com a diferença da destinação de um mês para o estágio rural (o
Crutac), incrustado no estágio de maior duração. Estudos de Problemas
Brasileiros, uma invenção do regime militar brasileiro, com intenção
doutrinária, era uma disciplina obrigatória feita antes do Internato.
A minha turma original passou por sérios problemas, como a Reforma
Universitária, o Ciclo Básico sob concorrência, o excesso de transferidos,
a dificuldade em obter os créditos etc. que levaram a ter muitas perdas,
ao longo dos seis anos de trajetória escolar. E quanto à sua turma? A
Carlos Chagas, você diria que ela passou incólume a tais vicissitudes?
Paulo: Creio que não tanto quanto à sua turma, Marcelo. Ao longo
de nossa graduação, tivemos perdas de alguns colegas. Nenhuma
delas, felizmente, por infortúnio que ceifasse vida. Foram cole-
gas que deixaram a turma por motivos particulares, transferência e
insuficiência no rendimento acadêmico. Um destes colegas, registre-
-se aqui, foi o nosso queridíssimo colega Francisco das Chagas Dias
Monteiro, o Chico Passeata, que teve de interromper o curso por
perseguição ideológica. Em contrapartida, outros colegas se junta-
ram a nós por transferência, reabertura de matrícula e repetição de
ano acadêmico.

101
PORTAL DE MEMÓRIAS

9. A minha turma de origem foi a do vestibular de janeiro de 1972, com a


oferta de noventa vagas; porém, a opção por Medicina, obtida no exame
vestibular, teria que ser avalizada no Ciclo Básico, na dependência do
rendimento escolar, e vários colegas não lograram escores suficientes para
se manter no curso de primeira escolha. O represamento de muitos alunos
transferidos de outras escolas médicas, brasileiras e portuguesas, ajudou a
completar a balbúrdia. De sorte que, por esses e outros motivos, a coorte
de ingresso em 1972, da Medicina da UFC, ficou bem diferente da coorte
de egressos de 1977.
Paulo: De fato, não enfrentamos tantos dissabores. Feitas as con-
tas de saída, somamos 97 formandos em nossa colação de grau a 18
de dezembro de 1971. Os ínclitos professores João Barbosa Pires de
Paula Pessoa e Raimundo Porfírio Sampaio Neto foram respectiva-
mente o patrono e o paraninfo da Turma Carlos Chagas, a 19ª turma
de medicina da Universidade Federal do Ceará - a nossa turma!

10. Por fim, decorridos quarenta anos, um número tão cabalístico, que
mensagem você daria agora aos seus colegas da Turma Carlos Chagas?
Paulo: De nossa formatura até os dias atuais, já se vão 40 anos.
Quatro décadas no exercício da difícil arte de aliviar e curar! Vários
colegas nossos já partiram (estão encantados, no poético dizer de
Guimarães Rosa). E, ao evocarmo-los, dá-se que somos assolados
por um imenso sentimento de saudade. Não, não há como retor-
namos às passadas águas do rio de Heráclito. Continuemos, pois, a
homenageá-los com o nosso trabalho e durante nossas vidas.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

Nota: o colega Francisco das Chagas Dias Monteiro faleceu em


12/08/2011, enquanto esse livro se encontrava no prelo, e a ele ren-
demos nossas homenagens póstumas.

102
Paulo Gurgel, um médico de letras

Hospital São José: o início


de uma história a ser contada

Ao terminar o oitavo semestre do Curso de Medicina,


ingressei como estagiário do Hospital São José para Doenças
Transmissíveis Agudas (HSJ). O HSJ era então o único hospital de
isolamento público; pertencia à Fundação de Saúde do Estado do
Ceará (FUSEC).
Era uma entidade de médio porte com cerca de cem leitos,
organizada e de adequado funcionamento, dispondo de um corpo
clínico de bom nível técnico. Eram doze estagiários de quinto ano,
que se revezavam em plantões de seis horas diurnas (manhã ou
tarde) a cada seis dias, e atuavam junto aos internos-bolsistas, que,
por sua vez, tinham passado por um ano como estagiários.
O trabalho consistia em atender o ambulatório, para triagem
e admissão de pacientes, bem como assistir às intercorrências dos
enfermos internados. O HSJ foi de capital importância à minha for-
mação clínica, ratificando o que Paulo, o meu irmão, colhera de seu
trabalho nesse estabelecimento hospitalar.
A conversa oportuna, entre irmãos médicos do clã Gurgel
Carlos da Silva, prestou-se para boas recordações, conforme se
expõe em continuação.

1. Como surgiu a oportunidade de trabalhar quando acadêmico no


Hospital São José?
Paulo: A primeira pessoa a me falar sobre a criação do Hospital São
José (HSJ) foi César Forti, um colega de turma na Faculdade de
Medicina da UFC. Como sendo um hospital estadual, recém-cons-
truído no bairro da Parquelândia, em Fortaleza, prestes a entrar em
funcionamento e que se destinaria a atender, isolar e tratar pacientes
com doenças transmissíveis agudas. Ao me informar sobre o novo

103
PORTAL DE MEMÓRIAS

hospital, naquela breve conversa que tivemos sob as mangueiras


do campus de Porangabuçu, César Forti adiantou-me também que
o Hospital São José para Doenças Transmissíveis Agudas iria admi-
tir sete estudantes do quinto ano de medicina para atuar em seus
plantões.

2. De que modo se deu a seleção dos acadêmicos para atuar no Hospital


São José?
Paulo: O processo seletivo para essas atividades no HSJ teria como
base o curriculum vitae dos candidatos. Uma das exigências da sele-
ção, a de estarem os candidatos cursando o quinto ano de medicina,
era para assegurar o conhecimento de seus futuros plantonistas
sobre infectologia, por já terem cumprido no ano anterior a disci-
plina de Doenças Infecciosas e Parasitárias. Com natural ansiedade,
preparei o meu currículo, que foi encaminhado aos avaliadores
através do próprio César Forti. Algum tempo após, era divulgada
a relação dos estudantes selecionados: César Augusto de Lima e
Forti, Francisco Pinheiro (o único que ainda estava no quarto ano
de medicina), José Roosevelt Norões Luna, Luiz Arnaldo Rodrigues
dos Santos, Mário Mamede Filho, Paulo Gurgel Carlos da Silva
e Sílvio Roberto Aguiar do Nascimento (aqui citados em ordem
alfabética).

3. No meu tempo, nós éramos voluntários no quinto ano, e bolsistas da


FUSEC no internato. Que tipo de vínculos vocês tinham com o hospital?
Paulo: Éramos funcionários temporários da Secretaria da Saúde do
Estado do Ceará, de fato e de direito (DOE nº. 5474), como pude
em tempos recentes confirmar. Ressalto isto porque, posterior-
mente, o HSJ passou a admitir estudantes de medicina para seus
plantões, na condição de estagiários. Tivemos os nossos contratos de
trabalho assinados em 15 de maio de 1970. E, a partir desta data,
nossos nomes passaram a figurar numa escala de plantões, à espera
da inauguração do hospital.

104
Paulo Gurgel, um médico de letras

4. Quando ingressei no HSJ, a instituição tinha poucos anos de funcio-


namento. Como foi a inauguração do hospital?
Paulo: Numa manhã, de um dia (útil) que não recupero nos escani-
nhos da memória, comparecemos em peso ao HSJ. Tínhamos sido
avisados de que o hospital ia ser inaugurado. Houve descerramento
de placa e discursos de algumas autoridades do governo estadual,
dentre as quais o discurso de posse do Dr. Lúcio Gonçalo Alcântara,
indicado pelo Secretário de Saúde Dr. Rocha Furtado, para ser o
diretor do HSJ. Lúcio passaria pouco tempo no comando da insti-
tuição. No ano seguinte, assumiria o cargo de Secretário da Saúde,
encaminhando-se a seguir para a vida política, que o conduziria
aos mandatos de prefeito de Fortaleza, deputado federal, senador e
governador do Ceará.

5. Quando eu estagiava no HSJ, movido pela curiosidade, vi que a his-


tória clínica do primeiro paciente foi feita por você. É verdade que coube
a você assumir o primeiro plantão do hospital?
Paulo: Sim. Finda a solenidade, “premiado” pela escala, fiquei eu
para o primeiro plantão do hospital. Naquele plantão histórico fiz
a internação de dois pacientes. O primeiro, um foguista de trem,
jovem e de compleição atlética, portador de tétano; o segundo, uma
criança portadora de raiva. Tratado com Tolserol, Diazepan e outros
medicamentos, o paciente tetânico teve alta por cura, duas semanas
após; já a criança, acometida por uma doença que tinha cem por
cento de letalidade, veio obviamente a falecer.

6. Havia uma escala regular de plantão dos acadêmicos? Era um rodízio,


com variação nos dias da semana, como aconteceu comigo?
Paulo: De princípio, não. Mas, atendendo a uma sugestão do grupo,
algum tempo depois, cada plantonista passou a ter um dia sema-
nal fixo na escala. Optei por cumprir meus plantões aos domin-
gos, como uma forma de não comprometer a presença nas aulas da
Faculdade. O grupo de acadêmicos de medicina no HSJ foi refor-
çado adiante pela contratação do colega Hugo Lopes Mendonça

105
PORTAL DE MEMÓRIAS

Junior, o qual é atualmente cirurgião vascular nos Estados Unidos.


Hugo era chamado para a realização de pequenas cirurgias como
traqueotomias e dissecções venosas.

7. Vocês cobriam o plantão lá, sob acompanhamento de um médico


responsável?
Paulo: Não. Hoje soa estranho que estudantes de medicina, ainda
que fossem dos últimos anos do curso, assumissem responsabi-
lidades por atos médicos. Naquela época, quer pela carência de
profissionais, quer pelo menor grau de exigência da sociedade,
era comum que essa situação fosse tolerada. Pude inclusive obser-
var que tal acontecia, por exemplo, na Assistência Municipal de
Fortaleza (Instituto Dr. José Frota), no SAMDU e em alguns hos-
pitais de psiquiatria. O fato era encarado como uma etapa necessá-
ria ao aprendizado do estudante para exercer a futura profissão. No
caso do HSJ, em cada posto de enfermagem, havia um protocolo de
condutas clínicas para as doenças mais freqüentes na instituição, a
ser seguido pelo acadêmico plantonista.

8. Como era constituído o corpo clínico do hospital?


Paulo: O corpo clínico do HSJ em 1970 era reduzidíssimo: Dr.
Lúcio Alcântara, Dr. Valdenor Benevides Magalhães, que o sucedeu
na direção do hospital, Dr. Antônio Maia Pinto e Dr. Assis Antero.
Eles realizavam as visitas médicas, as prescrições terapêuticas, as
requisições de exames e alguns procedimentos especiais como as
punções lombares. Aproveitávamos a presença deles para acompa-
nhá-los, aprimorando os nossos conhecimentos. A nosso cargo fica-
vam as admissões dos pacientes, quando suas histórias clínicas eram
tomadas e registradas, as prescrições iniciais e as solicitações dos
primeiros exames complementares. Também fazíamos os atendi-
mentos em suas intercorrências clínicas e, ao término dos plantões
(de 24 horas), preparávamos um relatório sobre as nossas atividades.
9. Quando eu estagiei lá, em 1976 e 1977, o Dr. Valdenor Magalhães
era o diretor, e já havia mais médicos, cuidando das enfermarias, mas a

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Paulo Gurgel, um médico de letras

responsabilidade por admissões e intercorrências era nossa. Nota-se que


houve uma expansão no quadro clínico, certo?
Paulo: Sim. No ano seguinte, o Hospital passou a contar com o tra-
balho de mais dois médicos: Dra. Yacy Mendonça de Almeida, irmã
de nosso colega Hugo, e Dr. Valter Correia. Registre-se, ainda, o
grande serviço que era prestado pela Dra. Onélia Porto, a primeira
enfermeira da instituição. Lembro-me dela como uma pessoa afável,
que sempre queria nos ensinar, e que, em seus momentos de lazer,
se dedicava à arte da pintura. O hospital tinha também uma admi-
nistradora, cujo nome não me ocorre agora, que morava em Otávio
Bonfim, bem perto de minha residência.

10. Eu conheci e admirava a Dra. Onélia Porto, era uma pessoa expe-
riente e de sensibilidade artística. Acho que a administradora era a
D. Aracy Melo. Como era o atendimento às doenças infecciosas, em
Fortaleza, antes da instalação do Hospital São José?
Paulo: O HSJ é o primeiro hospital do Estado do Ceará especiali-
zado em doenças infecciosas (Lei nº. 9.387, de 31 de julho de 1970).
Foi construído durante a gestão do governador Plácido Aderaldo
Castelo (1966-1970). Antes da criação deste hospital, os pacientes
com quadros infecciosos que precisavam de medidas de isolamento
eram internados numa ala do Hospital das Clínicas, da UFC, cujo
acesso se dava por uma rua dos fundos da instituição. Em seus pri-
mórdios, o HSJ atendia principalmente aos portadores das seguintes
doenças: tétano (inclusive o neonatal), difteria, pólio, raiva humana,
meningites de várias etiologias, hepatite, febre tifóide e sarampo
com complicações.

11. Como eram as condições de trabalho dos acadêmicos no hospital?


Paulo: O quarto de repouso do acadêmico plantonista era sim-
ples e confortável. Seu mobiliário se resumia a uma cama e a um
criado mudo. Sobre este, ficava um livro de Doenças Infecciosas
e Parasitárias, do Ricardo Veronesi, o “tijolão” a que recorríamos
para dissipar as nossas dúvidas em infectologia. E o alojamento

107
PORTAL DE MEMÓRIAS

era arejado e com uma boa iluminação natural. Numa das pare-
des, havia também uma lousa que, certa feita, foi utilizada por
Dr. Valdenor, com a sua experiência de mestre da UFC, para me
dar uma inesquecível aula sobre a meningite: “É uma doença com
três síndromes: infecciosa, de irritação meníngea e de hipertensão
craniana...”.

12. Parecem assemelhadas às que eu me deparei, cinco anos depois da


sua passagem no HSJ. O ponto negativo ficava por conta de uma sirene
estridente, daquelas usadas em colégios para marcar o começo e o final
das aulas, acionada quando requisitavam os nossos serviços. Dava tam-
bém para estudar?
Paulo: Em horas de menor movimento nos plantões, e quando me
cansava o Veronesi, eu procurava uma sala da administração onde
ficavam arquivadas as radiografias dos pacientes. Eram, em grande
parte, radiografias do tórax que mostravam lesões pulmonares
causadas pelas complicações das doenças infecciosas. Eu tentava
imaginar que pneumopatias tiveram aqueles pacientes radiogra-
fados. Pode haver ali começado o meu interesse pela pneumologia,
a especialidade médica que eu depois abraçaria, numa “traição” à
infectologia.

13. Recordo que, ao tempo em que lá estagiei, serviam uma boa e farta
comida. Eu soube, posteriormente, depois de formado, que a chefe do
refeitório, talvez por me considerar “magrinho”, costumava separar os
melhores e mais apetitosos pedaços de frango para mim, nos dias em que
eu estava de plantão.
Paulo: De fato. No refeitório, quebrando a escrita da insipidez das
comidas hospitalares, tínhamos uma alimentação excelente. E exis-
tia um clima de grande colaboração do pessoal da administração e
do pessoal técnico conosco.

14. Diga-me como você vê a sua passagem pelo HSJ. Que apreciação
você faz, atualmente, dessa instituição?

108
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo: Foi uma experiência notável para mim. Já formado em


medicina, em dezembro de 1971, ainda cheguei a dar dois plantões
no HSJ. Inclusive o que coincidiu com a passagem de ano para 1972.
Depois, segui o meu caminho profissional. Hoje, percebo como
o Hospital São José cresceu em todos os sentidos e como, graças à
dedicação de seus mais de 700 funcionários, continua prestando um
grande serviço ao povo cearense. Dispondo de 115 leitos, uma UTI
com sete leitos, diversos ambulatórios especializados, um serviço de
internação domiciliar, e sendo reconhecido pelo Ministério da Saúde
(MS) e pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) como um
hospital de ensino, campo de estágios curriculares e de pós-gradua-
ção, inclusive de um programa de residência médica, o HSJ é atual-
mente um centro de excelência no diagnóstico, tratamento, ensino,
pesquisa e prevenção de doenças infecciosas.

15. O que mudou na nosologia do HSJ, do seu tempo para hoje?


Paulo: As mudanças foram de enorme monta. Algumas das doenças
aqui citadas, por terem perdido a importância epidemiológica que
apresentavam em nosso meio, já não estão mais no foco da institui-
ção, é bem verdade. Mas outras, como a AIDS, a dengue e as res-
pectivas complicações, encontram-se na ordem do dia do HSJ.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

Detalhe da entrada do atual HSJ

109
PORTAL DE MEMÓRIAS

A Casa de Saúde Santa Mônica

1. Como foi o início de sua atividade de médico militar?


Paulo: Em dezembro de 1972, ao término do Curso de Formação de
Oficial Médico (CFOM) da Escola de Saúde do Exército, pela boa
classificação que alcançara, eu tive o direito de ser lotado em uma
das poucas vagas disponíveis no Rio: optei pelo Hospital Central do
Exército (HCEx), onde, por ter estagiado ao longo de 1972, já tinha
um bom entrosamento com o corpo clínico do hospital. Além disso,
tinha a intenção de continuar no Rio de Janeiro para estagiar em
bons serviços de medicina e fazer cursos de especialização.

2. É verdade que você atuou em psiquiatria?


Paulo: Sim. Durante o CFOM, um dos meus melhores amigos era o
Cobra (nome de guerra do amigo, não era apelido). Carioca, magro,
de estatura mediana, negro retinto e muito simpático, Cobra tinha
como especialidade a psiquiatria. Tendo ele que ir servir, após o
curso, numa unidade militar da fronteira do país e sabendo que eu
ia continuar no RJ, ofereceu-me seus empregos em terras fluminen-
ses. Em dois frenocômios: um em Madureira e outro em Petrópolis.
Descartei de imediato o de Madureira e aceitei entusiasticamente o
de Petrópolis (movido pelo prazer que até hoje sinto em estar numa
serra).

3. Como foi que isso se deu?


Paulo: Cobra sabia que os meus interesses estavam voltados para a
pneumologia e a infectologia. Mas também sabia que eu, quando
acadêmico de medicina, havia prestado serviços em hospitais psi-
quiátricos de Fortaleza: no Hospital Psiquiátrico São Vicente
de Paulo (o Asilo de Parangaba) e no Hospital Mira y Lopez. E

110
Paulo Gurgel, um médico de letras

considerou que eu, com esse aprendizado prévio em psiquiatria,


pudesse substituí-lo à altura nos hospitais em que ele trabalhava.

4. Onde ficava exatamente esse hospital?


Paulo: O hospital em Petrópolis era a Casa de Saúde Santa Mônica.
Ainda existe (CNES 2275600 e informação da internet). Um hos-
pital particular, conveniado com a previdência social e que apre-
sentava um aspecto ímpar, quiçá no mundo. O setor para pacientes
femininos distava vários quilômetros do setor para pacientes mas-
culinos. Esse primeiro setor (onde funcionavam também a admi-
nistração do hospital e o repouso do plantonista) ficava no alto de
uma colina, na Estrada União Indústria, a caminho de Juiz de Fora.
Já o segundo ficava em outro bairro mais próximo do centro de
Petrópolis. Eu usava o meu fusca para me locomover entre as duas
instalações.

Logomarca da época com o endereço da CSSM

5. Você trabalhava, nesse hospital, em regime de plantões? Fale-me des-


ses plantões, por favor.
Paulo: Sim. Meus plantões iam das 19 horas dos sábados às 19 horas
dos domingos. Cumpri-os sem qualquer falta ao trabalho por exata-
mente um ano. No horário das 19 às 24 horas, é que aconteciam as
internações e (pasme você) as intercorrências. Registrava as histó-
rias clínicas e fazia as prescrições exclusivamente no setor feminino.
Recolhia-me a seguir ao repouso. No dia seguinte, após o desje-
jum, deslocava-me em meu carro até o setor masculino. Lá, repe-
tia as atividades anteriormente descritas. Por vezes, eu tinha só que
“homologar” o que já havia sido feito. Um dos que me acompanha-
vam na visita aos pacientes era o atendente Carolino (personagem
de um dos causos deste livro).

111
PORTAL DE MEMÓRIAS

6. Eram muito “puxados” esses plantões?


Paulo: Não tanto. Finda a visita voltava ao setor feminino.
Almoçava. E passava a tarde lendo algum livro de medicina. Quase
sempre um dos diretores do hospital, o Dr. Rodolpho Chauffaille
vinha bater papo comigo. Dentista por formação, era um adminis-
trador exigente e parecia gostar de mim. O outro diretor, um irmão
dele, era médico, e jamais o vi.

7. O que você fazia depois dos plantões?


Paulo: Bem. Às 19 horas, concluído o plantão, saía para me divertir
num dos points da cidade. Um barzinho, uma casa de chá, um clube
social... tendo como pano de fundo a tranquilidade e o clima ser-
ranos. Dormia num hotel modesto localizado no centro da cidade
(hospedar-me no Hotel Quitandinha ficou só na intenção), onde o
dono nunca acertava com o meu posto no Exército. E, às 5 horas da
segunda-feira, iniciava a descida da serra para uma nova semana de
trabalho no Hospital Central do Exército.

8. Por quanto tempo você trabalhou nesse hospital?


Paulo: Foi durante um ano. Em fevereiro de 1974, num café da
manhã no refeitório do HCEx, um colega médico, o Cabral, me
comunicou que eu fora transferido para Benjamim Constant,
Amazonas. Lera no boletim interno. Assustei-me com a inesperada
notícia, claro, pois não esperava que a minha transferência aconte-
cesse com tão pouco tempo no Rio. Mas depois a absorvi natural-
mente, considerando que eu ia enfrentar um novo desafio.

9. Deve ter sido um baque para você deixar a Cidade Maravilhosa,


não foi?
Paulo: Engano seu, caro irmão. Na verdade, não senti muito por
ter deixado o Rio; Petrópolis, sim. E, antes de ir embora, organizei
para mim uma despedida sentimental dessa cidade, não esquecendo
de incluir no roteiro a vizinha Teresópolis (que eu ainda não tinha
visitado). Fiz fotos e mais fotos feito um desvairado. A seguir, como

112
Paulo Gurgel, um médico de letras

entrava o país no reinado da pagodeira, levei nossa irmã Marta e seu


marido João Evangelista, para um baile de carnaval num dos clubes
da Cidade Imperial.

10. Você despediu-se de Petrópolis? Parece que ela lhe marcou, não?
Paulo: Sim. Ainda tornei a ver Petrópolis na quarta-feira de cinzas
em meu percurso para a Fortaleza, cidade em que passaria minhas
férias antes de seguir para o Amazonas. E parei em Petrópolis por
um motivo bem prosaico: sacar o FGTS que a Casa de Saúde Santa
Mônica depositara em minha conta. Ia precisar de um reforço de
caixa para a viagem que faria - por terra - a Fortaleza. Levando
alguns pertences meus e o fusca cuja venda já estava apalavrada com
Luiz Carlos, nosso pai.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

Posse de Marcelo na Academia Cearense de Medicina: Mirna, Luciano,


Paulo e Márcia com o novo acadêmico da ACM (2009)

113
PORTAL DE MEMÓRIAS

Exercendo a clínica privada

1. Eu sei que você manteve um movimentado consultório particular,


durante alguns anos, em Fortaleza. Como brotou a ideia de montar esse
consultório?
Paulo: Em 1976, quando aguardava a minha convocação para o
INAMPS, percebi que havia chegado a época de abrir um consul-
tório particular. Era um projeto longamente pensado, porém, até
então, irrealizável. Na carreira militar, as transferências eram muito
frequentes (inclusive para nós, médicos), e eu antevia que, servir em
Fortaleza, onde poderia angariar clientela, estava sendo uma ques-
tão circunstancial. Assim é que, em apenas cinco anos como oficial
médico do Exército, eu já residira no Rio de Janeiro, no Amazonas
e, por fim, no Ceará. Para permanecer em Fortaleza e poder assumir
os cargos no INAMPS, então solicitei minha demissão do Exército.

2. Onde foi que você estabeleceu o seu consultório particular? As ins-


talações e os equipamentos eram apropriados para prestação de serviço
liberal?
Paulo: Solteiro, eu tinha recém-adquirido um apartamento no
bairro de Fátima para morar. Um apartamento térreo, situado em
uma avenida de grande movimento, e cujo modo de divisão dos
cômodos possibilitava a utilização como consultório, sem compro-
meter a finalidade residencial. Como acontece a todo médico, eu
já possuía alguns dos equipamentos necessários ao funcionamento
de um consultório; outros, porém, como negatoscópio, fichário e
balança antropométrica, eu precisei adquiri-los.

3. Eu recordo bem de sua primeira moradia, situada na esquina das


avenidas Aguanambi e Treze de Maio, de frente ao Hospital Antônio

114
Paulo Gurgel, um médico de letras

Prudente. Era um consultório bem localizado e fácil de ser achado, mas


com certa dificuldade para estacionar. Que apetrechos se fizeram neces-
sários para pôr em funcionamento esse empreendimento?
Paulo: Fichas clínicas, blocos de receituários e cartões de visita
foram impressos numa gráfica. Ainda não existiam os microcom-
putadores com impressoras, naquela época. Por fim, providenciei
a instalação de uma placa de acrílico na fachada do consultório.
Anunciava o meu nome, as especialidades (pneumologia e clínica
geral) e os horários de atendimento. Seriam diários e noturnos. E
minha irmã Magna, então universitária do Curso de Agronomia,
inicialmente me ajudaria na função de atendente do consultório.

4. Eu me lembro de que os primeiros meses foram penosos, de acentuada


escassez de pacientes. Você, inclusive, por pura autogozação, propôs à
Magna substituir o salário a que fazia jus, por uma divisão “fifty-fifty”
do arrecadado, e ela, peremptoriamente, recusou. Como você superou os
entraves dos primeiros tempos de consultório?
Paulo: De fato, por serem escassos os clientes, naqueles primeiros
tempos, cheguei a temer pela sorte do meu empreendimento. Daí
o meu empenho em divulgá-lo no bairro, no círculo de amigos e no
serviço público. Com paciência quanto aos resultados e procurando
realizar um trabalho sério, a clientela foi-se consolidando. Isto se
tornou mais evidente depois que eu celebrei alguns convênios.
Com o Banco Central, a Petrobrás, o Banco do Brasil, o Banco do
Nordeste do Brasil, a Patronal e a Nuclebrás, entre outros.

5. Que tipos de serviços e de procedimntos você oferecia à sua clientela


privada?
Paulo: Além das consultas, dos exames admissionais de candidatos a
empregos e dos tratamentos hipossensibilizantes (vacinas) que eram
feitos em meu consultório, eu atendia pacientes em seus domicílios
ou hospitalizados. Também era solicitado a dar assistência médica
a candidatos em provas de concursos públicos, o que geralmente
acontecia em dias não úteis. O trabalho de um médico que opta pela

115
PORTAL DE MEMÓRIAS

clínica privada, como se sabe, não se limita ao ambiente e aos horá-


rios do consultório.

6. Creio que o crescimento da sua clientela gerava problema de acomo-


dação em um local que possuía dupla serventia, de moradia e de traba-
lho, sem ter sofrido as costumeiras adaptações arquitetônicas. Como foi a
mudança para o seu segundo consultório?
Paulo: Um dia, no Hospital de Messejana, o colega Hilário Ehrich
de Menezes, que estava concluindo a residência médica em cardiolo-
gia, me falou que estava a organizar um consultório. E me convidou
para associar-me a ele no empreendimento. Por coincidência, eu
tinha colocado à venda o apartamento do bairro de Fátima e estava
prestes a me mudar para outro, em Dionísio Torres, o qual, por ser
um imóvel de natureza exclusivamente residencial, tornava imprati-
cável a transferência do meu consultório para o local. Aceitei o con-
vite do colega.

7. Conheci o Hilário nos tempos de faculdade. Fomos contemporâ-


neos, mas ele terminou na turma de dezembro de 1976, um ano antes
da minha. Era bom aluno e foi nosso monitor quando cursei Histologia.
Como eram as condições de atendimento nesse novo consultório?
Paulo: Hilário e eu passamos a atender nossos pacientes na Clínica
Aldeota, na rua Monsenhor Bruno, num imóvel construído exata-
mente para esse fim. Tinha todas as funcionalidades necessárias. E
este novo endereço veio a ser o local em que por mais tempo tive
o meu consultório. Além de nós, alguns outros colegas chegaram
a ter horários de atendimento na sala que usávamos, mas não por
muito tempo. Foi na Clínica Aldeota que comecei também a realizar
espirometrias em um espirômetro de fole, modelo “Vitalograph”
(figura), adquirido de um anestesiologista.

116
Paulo Gurgel, um médico de letras

8. Pelo que se nota, o seu xodó pela espirometria é bastante remoto, no


sentido de antigo. Ao que me consta, além da Clínica Aldeota, a dupla
Hilário-Paulo ainda teve o seu consultório em outro local, não?
Paulo: Sim. Mas não recordo bem o motivo por que deixamos a
Clínica Aldeota e nos transferimos para outra clínica, situada na
avenida Heráclito Graça. Como na vez anterior, coube a descoberta
do novo local a Hilário. Era uma clínica com vários consultórios
e com uma grande sala de espera, na qual se destacava um balcão
central, onde ficavam várias atendentes. A nova clínica suplantava a
anterior no “quesito apresentação”, porém a nossa sala de trabalho
tinha dimensões bem pequenas. Era uma saleta. E nela nos arranja-
mos para atender nossos pacientes e ainda fazer eletrocardiografias
(Hilário) e espirometrias (eu).

9. O seu consultório particular, ia, como se diz, de vento em popa, ame-


alhando sempre novos clientes, sem quase perdas dos antigos, quando você
decidiu encerrar a sua prática liberal. Por que você tomou a decisão de
fechar o seu consultório?
Paulo: Bem! Somente para recapitular: aquele foi o terceiro e
último endereço de meu consultório. Um dia, em 1988, tomei a
decisão de não mais atuar na clínica privada. Com tristeza comuni-
quei a minha decisão a Hilário, que tinha sido um grande parceiro
e amigo em todos aqueles anos. Pesaram dois fatores para que eu
tomasse tal decisão: os repetidos congelamentos ditados pelos pla-
nos econômicos sobre os valores com que os procedimentos médicos

117
PORTAL DE MEMÓRIAS

eram remunerados pelos convênios e o convite para coordenar a


Pneumologia Sanitária na Secretaria da Saúde do Ceará, juntamente
com as atividades que eu já desenvolvia no Hospital de Messejana.

10. Hoje, passados mais de vinte anos, como você avalia a decisão
tomada em 1988, quando fechou o seu consultório particular?
Paulo: Por algum tempo, apesar de não mais dispor de um con-
sultório, ainda continuei a atender os clientes que me solicitavam
a presença em suas residências. Desistir de minhas atividades na
clínica privada, talvez não tenha sido uma decisão acertada. Pois
significou desistir de um projeto pessoal, implantado ao longo de
treze anos, e que já me garantia uma razoável demanda de pacien-
tes. E por que, talvez, a continuidade desse trabalho fosse uma ati-
vidade interessante a um médico atualmente aposentado do serviço
público. Contudo, não vou chorar sobre o leite derramado.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

Paulo em seu consultório (1986)

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Paulo Gurgel, um médico de letras

Face to Face: a criação da UTI


Respiratória do Hospital de Messejana

O bom da entrevista, cara a cara, é que, a cada pergunta, se


segue logo uma resposta, sem dar vez à escolha de palavras, adre-
demente preparadas. O raciocínio lógico e rápido diz bem quem
são os interlocutores, como nesse bate-rebate de que participaram
os irmãos Paulo e Marcelo Gurgel, o primeiro como entrevistador,
o segundo como entrevistado. Na pauta, o assunto da entrevista foi
a criação da UTI Respiratória do Hospital de Messejana. Veja-se
como se deu o seu desdobramento:

1. Como brotou a ideia de criar uma UTI Respiratória no Hospital de


Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes?
Paulo: No início de 1995, em uma reunião no gabinete do recém-
-nomeado diretor do Hospital de Messejana Frederico Augusto de
Lima e Silva, aproveitei para relatar as principais necessidades do
Serviço de Pneumologia, tendo uma delas recebido a imediata aten-
ção daquele dirigente. Não dispúnhamos, no mais importante hos-
pital de cardiologia e pneumologia do Ceará, de uma unidade de
terapia intensiva destinada aos pacientes pneumopatas. Ficávamos,
nos casos mais graves da pneumologia, na dependência do difícil
encontro de leitos vagos, para eles, na UTI da cardiologia do alu-
dido hospital. Ou, ainda, em não poucas vezes, na contingência de
transferi-los para os leitos de terapia intensiva de outros hospitais.
Assim, se, por um lado, os pacientes transferidos obtinham o bene-
fício de um ambiente com recursos técnicos mais adequados ao tra-
tamento, por outro, ficavam distanciados dos cuidados clínicos dos
especialistas da pneumologia. Portanto, urgia ser criada uma UTI
pneumológica para o Hospital de Messejana.

119
PORTAL DE MEMÓRIAS

2. Quais foram os passos iniciais para essa empreitada?


Paulo: Tomada essa importante decisão, Frederico e eu, o rela-
tor de tais carências e que havia sido guindado à chefia do Serviço
de Pneumologia, buscamos as primeiras adesões à causa. E con-
vidamos dois profissionais do próprio hospital, o pneumologista
Francisco Fábio Barbosa Benevides, que viria a ser o primeiro chefe
da UTI, e a enfermeira Maria Elzenir de Sousa Moreira, para que
ambos integrassem o grupo de trabalho incumbido de criar a UTI.
Convites aceitos, uma idéia surgiu e prosperou no grupo. Antes de
tudo, deveríamos organizar e realizar, no Hospital de Messejana, um
evento científico de atualização e motivação para a nova empreitada.

3. Como se desenvolveu esse evento científico?


Paulo: Na época, sabíamos da existência, em São Paulo, de um
médico cearense, Marcelo Alcântara Holanda, que concluíra, de
forma brilhante, uma pós-graduação em pneumologia na Escola
Paulista de Medicina. Foi consenso de que ele deveria ser contatado
e convidado para vir a Fortaleza. Aqui, no Hospital de Messejana,
ministraria um curso de curta duração, na área da terapia inten-
siva. Tal aconteceu em maio de 1995, de 29 a 31, período em que
Marcelo Alcântara ministrou no hospital um Curso de Ventilação
Mecânica. No último dia do evento, conforme fora programado,
também foi realizada uma oficina de trabalho, juntando-se parti-
cipantes do curso a alguns funcionários da área administrativa do
Hospital de Messejana, para discutir as bases da futura UTI.

4. O que se discutiu, afinal, nessa oficina de trabalho?


Paulo: Detalhes, muitos detalhes... Seria uma terapia intensiva de
quantos leitos? Quais os seus indispensáveis equipamentos? E quais
as necessidades, em termos de pessoal, para o seu funcionamento?
Como seria a rotina de admissão dos pacientes? A UTI receberia
também os pacientes operados da cirurgia torácica?
5. A discussão parou aí, ou foram ainda analisados outros aspectos fun-
cionais da futura UTI, nessa oficina de trabalho?

120
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo: Obviamente que os questionamentos tiveram continuidade,


nesse evento. Deveria a UTI Respiratória ser construída no pavi-
lhão cirúrgico, onde já ficavam a UTI Cardiológica e a UTI Pós-
operatória? Ou deveria ficar no entorno das unidades de internação
da pneumologia? Prós e contras levantados e debatidos, no encer-
ramento daquela oficina de trabalho, os seus participantes deci-
diram-se pela segunda opção. Logo depois, em uma vistoria local,
já vislumbramos a situação da futura UTI. Com os seus domínios
onde ali estavam: as salas da chefia do Serviço de Pneumologia e
da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (que viriam a ser
mudadas de local, posteriormente), além de uma pequena parte da
Unidade H, uma enfermaria com dois leitos (que seriam desativa-
dos, mais adiante).

6. Como e quando se deu a inauguração da UTI Respiratória?


Paulo: Em 5 de julho de 1996, construída com capacidade para
cinco leitos, era inaugurada a UTI Respiratória do Hospital de
Messejana – a primeira do Norte-Nordeste do Brasil inteira-
mente dedicada a pacientes pulmonares. A ela foi dado o nome de
UTI Respiratória Professor Mário Rigatto, um nome acreditado
como referência nacional em doenças pulmonares. Era, pois, uma
justa homenagem a quem tanto estavam a dever o ensino e a pes-
quisa no Brasil. Fizeram-se presentes, na inauguração, as principais
autoridades do Estado do Ceará e o próprio professor homenage-
ado, acompanhado de sua esposa, a Profª. Maria Helena da Silva
Pitombeira. O Professor Rigatto, com grande freqüência, vinha ao
Ceará e, de uma forma generosa, dividia conosco os seus conheci-
mentos de mestre e pesquisador. Naquela ocasião, resgatava-se com
ele, certamente, uma grande dívida.

7. Como foram os primeiros meses de funcionamento da UTI


Respiratória?
Paulo: Durante os primeiros meses de sua existência, a UTI inau-
gurada enfrentou problemas. O primeiro, resultante da carência

121
PORTAL DE MEMÓRIAS

local de médicos intensivistas, foi a dificuldade de contratá-los para


“fechar” a escala dos plantões. Com empenho, buscando os profis-
sionais que existiam no Hospital de Messejana e em outros hospi-
tais, o problema foi solucionado. O segundo consistiu na demora
para que os leitos da UTI Respiratória fossem credenciados pelo
SUS, o que inclusive ocasionou um período de serviços prestados
e não ressarcidos. Mas, graças à atuação firme do diretor Frederico
Augusto de Lima e Silva, houve um remanejamento dos recursos
globais da instituição, pelo que a UTI Respiratória teve o custeio e a
sobrevivência assegurados, enquanto persistiu a situação.

8. A estrutura da UTI Respiratória ainda é, hoje, basicamente, a mesma


da época da sua inauguração?
Paulo: Não, claro que não. Em 2005, a UTI Respiratória, já dava
sinais de estar subdimensionada para atender às crescentes deman-
das, de onde a necessidade de passar por uma ampla reforma. Quem
cuidou desse remodelamento foi Petrônio de Vasconcelos Leitão, à
época gestor do Hospital de Messejana. Com a UTI ampliada, em
sua área física, pela reforma, sua capacidade aumentou para oito lei-
tos, dois deles para o isolamento de pacientes. Além disso, recebeu
respiradores e equipamentos de monitorização clínica, em versões
mais modernas. De tal forma que, ao final dessas melhorias, a uni-
dade em questão ficou adequada aos novos padrões exigidos pelo
Ministério da Saúde.

9. Agora, passados quinze anos da implantação da UTI Respiratória do


Hospital de Messejana, quais têm sido as principais repercussões positi-
vas de sua criação?
Paulo: A UTI Respiratória produziu uma gama de vantagens para a
instituição, dentre as quais podem ser referidas: 1. Melhoria da qua-
lidade de atendimento aos pacientes pulmonares internados no hos-
pital; 2. “Reoxigenação” do Serviço de Pneumologia, possibilitando
aportar, no serviço, um bom número de pneumologistas e de outros
profissionais; 3. Campo de prática para médicos, enfermeiros,

122
Paulo Gurgel, um médico de letras

fisioterapeutas etc., com ênfase no fato de que a Residência Médica


contempla, em seu programa de pneumologia, períodos de estágio
do médico-residente na UTI Respiratória. Além disso, é um dos
setores do hospital onde o ideário da integração multiprofissional é
assimilado e exercitado, na prática diária, em toda a sua plenitude;
e 4. Realização de trabalhos e pesquisas científicas da lavra de seus
profissionais e estagiários, os quais, não raro, são apresentados em
congressos e publicados em revistas, contribuindo, em muito, para
elevar o conceito do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto
Studart Gomes, nos últimos anos.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

UTI Respiratória do Hospital de Messejana

123
PORTAL DE MEMÓRIAS

Enfrentando a silicose no Ceará

1. Havia casos de pneumopatias ocupacionais, quando você ingressou no


Hospital de Messejana?
Paulo: Em meus primeiros anos como médico do Hospital de
Messejana, havia uma questão que me intrigava. Não eram vistos
enfermos com pneumopatias ocupacionais sendo atendidos no hos-
pital, quando se sabia existirem, no Ceará, as profissões que podiam
causar tais enfermidades. E essa constatação, também confirmada
por outros colegas do hospital, era por mim diariamente verificada
ao fazer a conferência dos prontuários médicos, uma das minhas ati-
vidades como chefe da Seção de Documentação Científica. Portanto,
o que eu conhecia sobre essas pneumopatias tinha como fontes de
informação a leitura de livros e revistas especializadas e a apresenta-
ção desses casos em congressos médicos.

2. Quando isso se modificou?


Paulo: Um dia, no ano de 1986, aconteceu um fato que deu início
à história das pneumopatias ocupacionais no Ceará. Ao término
de uma sessão clínica da Pneumologia, que eu estava presidindo,
a Dra. Márcia Alcântara Holanda, pneumologista do Hospital de
Messejana, pôs-se a mostrar, a todos nós, um grande número de
radiografias de tórax de pacientes que ela havia atendido na Região
da Ibiapaba. Eram radiografias com imagens pulmonares compatí-
veis com o diagnóstico de silicose, todas elas realizadas em cavadores
artesanais de poços da região, muitas das quais mostrando formas
avançadas da doença.

3. Que consequências iniciais tiveram essa revelação pioneira da Dra.


Márcia Alcântara?
Paulo: Alguns desses cavadores de poços foram depois inter-
nados no Hospital de Messejana para serem mais intensamente

124
Paulo Gurgel, um médico de letras

investigados, inclusive para se submeterem a biópsias pulmonares.


Esses estudos e os trabalhos de campo, realizados pela Dra. Márcia
Alcântara e colaboradores, foram a seguir publicados em revistas
médicas, no período de 1986 a 1995, dando conhecimento à comu-
nidade científica mundial da existência de silicose entre perfurado-
res de poços no Ceará. Esse fato deu eco a um trabalho científico de
Dr. Antônio de Deus Filho e colaboradores, que fora publicado em
1984, no qual constava a descrição de 24 casos de silicose em perfu-
radores de poços no Piauí.

4. Como se deu a sua participação concreta com a silicose?


Paulo: Em 1993, fiz o diagnóstico de um caso de silicose em um
paciente oriundo de Paramoti. Antes de adoecer, ele trabalhara
em uma das pedreiras do vizinho município de Caridade. A par-
tir de 1996, passei a diagnosticar e a acompanhar, no Hospital de
Messejana, outros pacientes silicóticos que haviam trabalhado em
uma ou nas duas pedreiras de Caridade. Além da silicose em tra-
balhadores de pedreiras de Caridade, passei a descobrir casos da
doença, adquirida em outras ocupações silicogênicas (jateamento
com areia, mineração subterrânea, trabalho com cerâmica branca
etc.) e a identificar outros casos da doença em cavadores de poços da
Ibiapaba e de outras regiões do Estado.

5. Como foi a sua atuação para enfrentar o problema da silicose?


Paulo: Em 1999, fui convidado pela enfermeira Dra. Sandra
Solange Leite Campos, que chefiava a Célula de Atenção da Saúde
e do Idoso, na Secretaria da Saúde do Ceará, para exercer a função
de assessor especial da Secretaria da Saúde do Estado (SESA-CE),
em pneumopatias ocupacionais. Não contar mais com os servi-
ços da Dra. Márcia Alcântara (que havia se aposentado) e saber de
meu interesse científico por esse grupo de doenças, foram os moti-
vos para a indicação de meu nome. Então, em maio do mesmo ano,
viajei a Curitiba, para participar do “Curso de Leitura Radiológica
das Pneumoconioses”. Foi um curso de capacitação para pneumo-
logistas, radiologistas e médicos do trabalho, àquele ano ministrado

125
PORTAL DE MEMÓRIAS

pelos Drs. Eduardo Capitani e Eduardo Algranti, sob os auspícios


da Fundacentro e da Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná.

6. Como eram suas atividades desse assessoramento na SESA-CE?


Paulo: Minhas atividades, nessa assessoria à SESA-CE, consistiam
na realização de leituras radiológicas, atendimento a trabalhadores
expostos à sílica, espirometrias, palestras e cursos de atualização
para profissionais de saúde do PSF, médicos do trabalho e traba-
lhadores, além da elaboração de planilhas, pareceres e relatórios.
Devido à frequente associação da silicose com outros agravos, como
a tuberculose e o vício de fumar, incluíam-se, ainda, entre as minhas
atividades, as ações de controle da tuberculose e do tabagismo nos
integrantes dos grupos de risco para a silicose.

7. Quanto aos casos surgidos em Caridade, qual foi a sua atuação?


Paulo: Além de acompanhar, no Hospital de Messejana, os pacien-
tes silicóticos provenientes desse município, fui o organizador e
principal executor de uma pesquisa, “Silicose em Trabalhadores de
Pedreiras no Distrito de Inhuporanga, em Caridade”, que revelou
a ocorrência desta enfermidade na referida região. Da fase inicial
da pesquisa, resultou um relatório preliminar em que eu comuni-
quei a existência do problema às autoridades sanitárias do Estado
do Ceará. Posteriormente, com a colaboração dos Drs. Marcelo
Alcântara e Malena Aguiar, foi elaborado um pôster que divulgava
o assunto para os médicos participantes do IX Congresso Norte-
Nordeste de Pneumologia, realizado em Fortaleza-CE, no período
de 10 a 13 de outubro de 2001.

8. Participou de outros trabalhos de natureza científica relacionados com


pacientes que adquiriram a silicose devido a outras ocupações no Ceará?
Paulo: Sim. Também fui um dos autores do trabalho científico
“Manifestações Radiológicas da Silicose em Jateadores de Areia
Atendidos no Hospital de Messejana – Relato de 7 Casos”, que foi
apresentado como tema-livre no XXXII Congresso Brasileiro de

126
Paulo Gurgel, um médico de letras

Pneumologia e Tisiologia, realizado em Salvador-BA, de 13 a 17


novembro de 2004. Os outros autores deste trabalho foram o Dr.
Helano Neiva de Castro, então médico-residente de pneumolo-
gia do Hospital de Messejana, e a médica radiologista Dra. Norma
Selma Santos.

Cavadores de poços: com o funcionário Melquisedec


(o 2° a contar da esquerda), coordenador local das ações
de controle da silicose na Região da Ibiapaba, na época
dos trabalhos de Paulo

9. Como sintetizaria a sua experiência pessoal com a silicose, no


Hospital de Messejana e na SESA-CE?
Paulo: Minha experiência pessoal com a silicose, no Hospital de
Messejana e na SESA-CE, pode ser sintetizada no número de casos
da doença que eu diagnostiquei durante período de 1993 a 2006.
Foram 190 casos, assim distribuídos: 125 casos em cavadores de
poços, sendo 111 da Região da Ibiapaba e 14 de outras regiões do
Estado; 46 casos em trabalhadores de pedreiras, sendo 45 oriundos
do município de Caridade; nove casos em mineiros procedentes de
vários municípios; sete casos em jateadores com areia residentes
em Fortaleza; dois casos em trabalhadores com cerâmica branca em
Fortaleza; e um caso em trabalhador com terra diatomácea.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

127
PORTAL DE MEMÓRIAS

Bate-papo formal com um mestre informal

1. Como foi que você iniciou suas atividades docentes?


Paulo: Em 1966, quando cursava o primeiro ano da Faculdade, fui
convidado pelo coordenador do curso pré-vestibular do Diretório
Acadêmico XII de Maio para dar aulas de Química no referido
curso. Durou apenas um mês essa minha atividade, por se tratar de
uma vacância temporária na disciplina. E o responsável pela indica-
ção do meu nome para substituir o professor titular foi o colega de
turma Paulo Cid, o qual já sabia da minha aptidão pela Química. No
mesmo ano, ainda daria algumas aulas particulares dessa matéria a
outros vestibulandos em Fortaleza.

2. Pelo visto, foi bem informal o início. Mas, naquela época, face à
carência de professores na área de Ciências, o governo estadual firmava
contratos precários com universitários, para preencher essas lacunas. Você
foi um desses beneficiados?
Paulo: Sim. No ano seguinte, tive o nome proposto pelo professor
José Carlos da Silva (tio Zezinho) para uma das vagas de profes-
sor temporário da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do
Ceará. Passei a lecionar as cadeiras de Ciências Físicas e Biológicas
e de Biologia para turmas dos cursos ginasial e colegial, no Colégio
Joaquim Albano, então dirigido pelo professor Sebastião Praciano
de Sousa. O diretor do turno da noite, período em que eu ensinava,
era o professor Wilson Leite Linhares (ainda tenho contato com ele
nas caminhadas que ambos fazemos pelas ruas do bairro do Cocó).

3. Como era a jornada de trabalho nesse colégio público?


Paulo: Eu cumpria uma carga horária de 20 aulas por semana,
sendo quatro delas diariamente, de segunda à sexta-feira. Além de

128
Paulo Gurgel, um médico de letras

preparar e dar essas aulas, eu tinha de montar e corrigir as respecti-


vas provas.

4. Devia ser complicado conciliar essa a jornada de trabalho com as


aulas da faculdade, certo?
Paulo: Sim. De fato, foi um período difícil para mim. Dependia
dos ônibus para ir de minha casa à Faculdade, onde estudava em
tempo integral, e também para fazer o percurso inverso, ao fim do
dia. Felizmente, já existia a linha do Granja Paraíso para me facili-
tar a locomoção. À noite, outros ônibus me levavam até a Aldeota,
onde fica o Colégio Joaquim Albano, e de lá me traziam de volta ao
Otávio Bonfim. Era comum, especialmente nas vésperas de provas
na Faculdade, ao retornar do Colégio Joaquim Albano, eu ficar na
casa de Mário Mamede Filho. Lá, eu me juntava a ele e a outros
colegas (César Forti, Sílvio Aguiar e Álvaro Andrade) para “virar a
noite” em estudos relacionados com a prova do dia seguinte. Apesar
de ser o último chegar, era o primeiro a encerrá-los para me reco-
lher. Minha amizade com o Mário me permitia que eu pedisse uma
antecipação do lanche da madrugada.

5. No seu currículo, consta que você foi bolsista do Lafi? Como era sua
atuação nesse laboratório farmacêutico?
Paulo: Como bolsista do Lafi, além de divulgar na Faculdade de
Medicina os produtos do laboratório farmacêutico, eu dava aulas
aos propagandistas de sua filial em Fortaleza. Isto foi em 1968. As
aulas aconteciam aos sábados, sendo o tema de cada aula uma das
drogas que o laboratório comercializava. Isso me obrigou, inclusive,
a aprender um pouco de Farmacologia, antes do tempo previsto.
Tendo a responsabilidade de dar uma aula por semana, dá para ver
que o serviço no Lafi era bem mais leve do que o anterior.

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PORTAL DE MEMÓRIAS

6. Você prosseguiu com a docência paralela até o Internato?


Paulo: Não, claro que não. Parei bem antes do Internato. Até o
término de minha graduação em medicina, o Lafi foi o último dos
locais em que eu tive de dar aulas. À medida em que avançava no
ciclo clínico, os trabalhos e “bicos” seguintes (Asilo de Parangaba,
Hospital Mira y Lopez e Hospital São José de Doenças Infecciosas
Agudas) seriam de natureza exclusivamente assistencial.

7. Você teve experiência no magistério superior, logo depois de formado?


Paulo: Sim. Em 1979, fui convidado para ensinar no Curso de
Tecnologia de Saneamento Ambiental da Universidade de Fortaleza
(Unifor). Esse curso recebia ajuda da Fundação Kellogg e era coor-
denado por Francisco Beserra de Aquino que me fez o convite.
Odontólogo por formação, Aquino era um grande amigo. Uma
noite, por semana, ele, eu e outros companheiros (Wilson Medeiros,
Emanuel Melo e Lucíola Rabelo eram os mais assíduos) nos reunía-
mos em seu consultório, para curtir a boa música brasileira. Aquino,
além de entender de carpintaria (tinha feito à mão os móveis de seu
consultório) tocava uma harmônica de botão. Mas voltando à minha
função na Unifor, como professor colaborador da universidade, cabia-
-me orientar os alunos da Tecnologia em suas atividades de campo,
no bairro Lagoa Redonda. Passei apenas um semestre no cargo e pedi
demissão. Não me sentia motivado para o que estava fazendo.

8. Depois dessa experiência de trabalho no magistério superior, você teve


atuação em ensino durante a sua atuação médica? Se sim, como ela se
dava?
Paulo: Sim. Como médico do Hospital de Messejana, frequen-
temente eu apresentava casos clínicos e dava palestras nas ses-
sões científicas do Serviço de Pneumologia. Também organizava
as sessões anátomo-clínicas que seriam discutidas pelo corpo clí-
nico do hospital, nas reuniões do Centro de Estudos. Porém, o
período em que tive o maior envolvimento com o ensino foi o de
1995 a 1999, quando chefiei o Serviço de Pneumologia. Por haver

130
Paulo Gurgel, um médico de letras

acumulado esta chefia com a de coordenador da Residência Médica


em Pneumologia, uma decisão que tomei ao constatar, na época,
a necessidade de reorganizar este curso de pós-graduação no
Hospital de Messejana. Nos últimos anos, em virtude do meu tra-
balho no setor de Função Pulmonar, eu apresentava regularmente a
“Espirometria do Mês” nas sessões do Serviço de Pneumologia. Era
uma forma diferente de discutir um caso de pneumologia, partindo
de suas alterações funcionais para chegar ao diagnóstico e à indica-
ção terapêutica.

9. Também consta, no seu currículo, que você foi instrutor de Cursos da


Secretaria da Saúde do Estado do Ceará? Relate como foi essa experiên-
cia de instrutoria, por favor.
Paulo: Bem. No período de novembro de 2000 a agosto de 2002,
eu fui instrutor dos Cursos de Capacitação em Diagnóstico,
Tratamento e Ações de Controle da Tuberculose. Estes cursos,
organizados pela Secretaria da Saúde do Ceará (SESA), ao tempo
em que a Dra. Sandra Solange Leite Campos chefiava a Célula de
Atenção à Saúde do Adulto e do Idoso, destinava-se a médicos e
enfermeiros das Equipes de Saúde da Família. Com a enfermeira
Joilda Pessoa Furtado (já falecida) e a farmacêutica Creusa Lima
Campelo, do Laboratório Central (Lacen), formamos um grupo
afinado, o qual esteve na maioria das microrregionais de saúde do
Ceará realizando essas capacitações. Foram 24 cursos, com 1.299
alunos, em 19 municípios, e nos quais ministrei 118 aulas. Na
época, eu até brincava dizendo que havia me tornado um caixeiro-
-viajante da tuberculose.

10. Houve algum desdobramento sucedâneo ao tempo que foi instrutor da


SESA?
Paulo: Sim. Ao deixar esta função, continuei prestando assesso-
ria técnica à SESA na área das pneumopatias ocupacionais, até
2007, ano em que me aposentei. O meu interesse pelo estudo des-
sas pneumopatias no Ceará, no decorrer da década de 1990, havia

131
PORTAL DE MEMÓRIAS

despertado a atenção das autoridades estaduais de saúde, e a SESA


me indicou para participar de um curso sobre “Leitura Radiológica
das Pneumoconioses”, em Curitiba-PR. Esse curso, que fiz em
1999, foi ministrado pelo Dr. Eduardo Algranti e pelo Dr. Eduardo
Capitani, sob os auspícios da Fundacentro. Como assessor técnico,
eu fui muito convidado para dar palestras, sendo estas, na maio-
ria das vezes, sobre a situação da silicose no Estado do Ceará. Elas
foram proferidas em cursos, congressos, seminários e workshops que
aconteceram em Fortaleza, Salvador, Natal, Tianguá, Meruoca...

11. E depois de aposentado do serviço público, você voltou a ter inserção


no ensino superior, e mais especificamente em cursos de Medicina?
Paulo: Sim. Com a criação do Curso de Medicina da Universidade
Estadual do Ceará (UECE), a título de colaboração, passei a minis-
trar, anualmente, duas aulas teóricas de semiologia do aparelho res-
piratório aos estudantes de medicina da referida universidade. Na
Faculdade Christus, também cheguei a dar aulas como palestrante
convidado. E, no ano de 2008, assumi, por um quadrimestre, o
cargo de professor de Práticas Médicas da UECE. Nesse período,
dei aulas teóricas e práticas de Pneumologia a um grupo de estudan-
tes de medicina da UECE, no Hospital de Messejana, apesar de já
estar aposentado pelo Ministério da Saúde. Acredito ter sido este o
“canto de cisne” de um professor informal.

* Entrevista conduzida por Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

132
Parte V
APRECIAÇÃO LITERÁRIA
PORTAL DE MEMÓRIAS

A crítica publicada sobre a obra


literária de Paulo Gurgel

UMA ANTOLOGIA DE POETAS MÉDICOS


I
São oitenta e três poemas e dez poetas médicos reunidos
numa antologia (“Verdeversos”), numa bem apresentada edição do
Centro Médico Cearense, com os respectivos cuidados de edição,
paginação e ilustração. (...)

II
Finalmente, João Bosco Sobreira e Paulo Gurgel Carlos da
Silva. O primeiro participou da antologia “Queda de Braço” e tem
um livro de poemas inédito “A Pedra e a Fala”. Do segundo há uma
curiosa e irreverente minibiografia que antecede os seus dez poe-
mas. (...)
Humor e irreverência, talvez um toque de non sense, encon-
tramos nos poemas de Paulo Gurgel “Vesperal” e “Profética”. Bem
anda o poeta, em tempos “reaganianos” - como escreve Millôr - em
aludir ao mito do caubói invencível John Wayne. A preocupação
social nos poemas “Desfazenda” e “Auto do Compadecido”. No
final deste poema, o entretexto cresce na medida em que o poeta
escreve: “As minhas mãos / Uma sabia da outra”. Um momento
de evocação da infância recuperada aparece no sugestivo poema
“Quintal de Infância”.

Carlos D’Alge
In: Jornal “O Povo”, fevereiro de 1981.

134
Paulo Gurgel, um médico de letras

ESTANTE DE LIVROS
Dez médicos puseram as mangas de fora e reuniram em
“Verdeversos” as suas poesias: Airton Monte, Alarico Leite,
Caetano Ximenes, Emanuel de Carvalho Melo, João Bosco Sobreira,
José Jackson Sampaio, Maria Irene Nobre, Lucíola Rabello, Paulo
Gurgel e Winston de Castro Graça.
Os poemas de Paulo Gurgel, quase todos, trazem a marca do
grande poeta. (...)
Paulo Gurgel é, para mim, uma revelação poética admirável.
O poema “Quintal de Infância” é um quadro estético e espelho de
uma sensibilidade artística incontestável: (...)
A Paulo Gurgel, que se ocupa aqui de cousas triviais, podem-
-se aplicar as palavras de Otto Maria Carpeaux: “A arte é um dom
do Céu, mas tem que servir à Terra”.
“Oriental” é um poema que mostra a radiografia do homem:
(...)
Estou certo de que Paulo Gurgel ainda nos vai fazer surpresas
maravilhosas no campo da poesia.

Abdias Lima
In: “Tribuna do Ceará”, 18 de março de 1981.

LIVROS
“Encontram-se” neste livro quatorze luminares da medicina
brasileira: Beto Bezerra, Dalgimar Meneses, Emanuel Carvalho,
Francisco Nóbrega, Francisco Sampaio, Heitor Catunda, Jackson
Sampaio, Lucíola Rabello, Paulo Gurgel, Ricardo Augusto R. Pinto,
Rose Mary M. da Silveira, Sérgio Macedo, Wilson Medeiros e
Winston Graça.
Encontram-se para, em verso e em prosa de claridade lunar
ou solar, nos dar conselhos sobre a saúde, falar sobre o mistério da
vida, sobre os problemas da carne, as saudades dos cais, para pro-
testar contra um mundo robotizado ou rir (Paulo Gurgel) de tudo,
inclusive de si próprio.

135
PORTAL DE MEMÓRIAS

Paulificante
PAULO, não é que nasci? Tinha um grande projeto,
-----fluvial, de atravessar caudaloso o
PAUL da humana existência, mas
-----represo-me, estagno-me - sorte
PAU - termino por saber que me espreita uma
PÁ de terra e que, dia qualquer,
-----eu morro
P... da vida.
Paulo Gurgel é um humorista à Leon Eliachar. É pena que
não esteja enriquecendo as revistas do Sul.

Abdias Lima
In: “Tribuna do Ceará”, 15 de junho de 1983.

CRIAÇÕES
Inicialmente, gostaria de considerar o seguinte: “Criações”,
a nova antologia que o Centro Médico Cearense acaba de publi-
car, é um livro que mesmo não se destinando à realização de uma
ambicionada carreira literária, enfeixa em suas páginas a virtude de
provocar outras reflexões. No geral, trata-se de um projeto que, se
por um lado peca pela falta de unidade estética e mundividencial,
por outro assombra pela qualidade de alguns textos que apresenta,
assaltando, muitas vezes de surpresa, a sensibilidade literária do
próprio leitor. (...)
Sobre a irreverência do discurso de Paulo Gurgel, eu teria
muita coisa a dizer, mas, contraditoriamente, eu diria que nada
tenho a acrescentar. Gostaria de que os seus textos fossem assimila-
dos tal como ele os concebeu, assim de forma tão irrecusavelmente
metafórica que parecem espreitar a sua própria decodificação.
No mais, gostaria de aqui registrar a importância dessa inicia-
tiva do Centro Médico Cearense, no sentido de divulgar, através de
sucessivas edições, a produção literária de seus associados, erguendo

136
Paulo Gurgel, um médico de letras

um empreendimento inquestionavelmente pioneiro no âmbito das


associações profissionais existentes no Ceará.
A Editora do Centro Médico Cearense, portanto, está de
parabéns, como de parabéns estão os seus articuladores, especial-
mente os médicos Emanuel Carvalho e Paulo Gurgel, responsáveis
pelo seu programa editorial. E se mesmo, como insinuei, ainda não
atingiu um estágio capaz de polarizar a ambivalência por mim recla-
mada, no início desta apresentação, isto se deve ao fato de o Centro
Médico Cearense, antes de ser uma sociedade de escritores, se cons-
tituir numa escola que apreende a vida exatamente ao contrário
daquilo que aprendemos na escola, dando-nos, assim, a lição de que
literatura é vida e de que viver nem sempre representa uma opção
pelos descaminhos da realidade.

Dimas Macedo
In: “Diário do Nordeste”, 28 de fevereiro de 1986, e nas p. 40-42 do livro
“Ossos do Ofício”, publicado pela Editora Oficina, em Fortaleza, 1992.

DIAGNÓSTICO POÉTICO E FICCIONAL


Paulo Gurgel e Emanuel de Carvalho reuniram-se com médi-
cos seus amigos e, através da Editora Centro Médico Cearense,
publicaram “Criações” - um belo e sugestivo título para a antolo-
gia que ora apresentam ao público cearense. Cearense, dizemos nós,
porque dificilmente esta equipe de poetas ultrapassará as fronteiras
do Estado, não pela qualidade dos poemas, que são bons, mas por
falta de distribuição, que é esse, ainda, o maior problema para quem
escreve e reside na província. (...)
Voltemos, agora, ao livro - “Criações”. Há um fato de muita
singularidade neste livro: são as “biografias” dos autores apresen-
tadas (e animadas) pelo poeta Paulo Gurgel - um homem muito
inteligente e portador de um espírito de observação fora do comum,
dotado de um senso de humor raro entre escritores, mesmo ao nível
nacional. O livro não faria sentido algum se o leitor não começasse
pelas orelhas - orelhas de bom sinal, por sinal, diga-se de passagem.

137
PORTAL DE MEMÓRIAS

Os antologiados - nove ao todo - estão reunidos aqui, neste


volume de prosa e poesia, cada qual dando a dimensão de seu
talento, de sua criatividade, de sua veia poética ou ficcional. É
um grupo da pesada e que pesa muito nas letras de nosso Estado.
Pela ordem de entrada no florilégio: Dalgimar Meneses, Emanuel
Carvalho, Geraldo Bezerra, Hamilton Monteiro, Hugo Barros, Luiz
Teixeira, Paulo Gurgel, Pedro Henrique S. Leão e Sérgio Macedo.

José Alcides Pinto


In: “Tribuna do Ceará”, 24 de maio de 1986.

SOBRE TODAS AS COISAS E ALGO MAIS


I
Esses médicos do Ceará são fogo. Além de bons, em muitos
casos ótimos, excelentes profissionais, muitos deles se destacam
também em outras atividades, notadamente no campo da Cultura,
da Literatura em particular. Existe aqui inclusive uma seção da
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, que há vários anos
vem atuando com muita garra na edição de livros, oito ao todo até
o momento, prosa e poesia, contando com este interessantíssimo
“Sobre Todas as Coisas”, saído recentemente. A exemplo de cinco já
publicados, este agora reúne um bom número de médicos escritores,
explorando (no bom sentido) mais de um gênero literário, com des-
taques para o conto e a poesia. (...)

VIII
Dizer que Paulo Gurgel é um dos sujeitos mais inteligen-
tes aqui da terrinha, criativo (e engenhoso) como poucos é repe-
tir o óbvio. Quem lê o que sai dele em nossa imprensa sabe disso,
daí o número de leitores (futuros eleitores?) que ele tem, atentos
sem tirar nem pôr à sua prosa, sempre gostosa e bem humorada,
sem esquecer, é claro, o seu estilo escorreito e muito bem servido,
em termos de língua... brasileira. Sim, ele escreve como o povo
fala, sem arrebites digamos gramaticóides, o que seria realmente

138
Paulo Gurgel, um médico de letras

uma besteira. A parte dele encerra este “Sobre Todas as Coisas” e


encerra otimamente, com a gente podendo falar, por isso mesmo,
num final feliz. São crônicas e estórias, numa delas (“Em Cartaz”)
fazendo brincadeiras com filmes (?) - tudo muito engraçado, à
maneira do autor. Médico, está certo, dos bons de nossa cidade,
com uma excelente folha de serviços, mas para mim, que ainda
não o procurei para uma consultinha, um escritor de mão cheia,
legibilíssimo, mesmo quando se está assistindo a uma novela tipo
“Sassaricando”.

Antônio Girão Barroso


In: “Revista”, coluna do jornal “Tribuna do Ceará”, 30 de janeiro de 1987.

O CANTAR E O CONTAR SOBRE TODAS AS COISAS


Neste entardecer de fim de milênio, onde as ameaças à raça
humana são inúmeras e insondáveis, a palavra parece ser revisitada
e recuperada por alguns grupos atentos à integridade do homem.
Neste sentido, o verbo se faz remédio e a Literatura se faz milagre.
(...)
“Sobre Todas as Coisas” traz variadas texturas e variadas sen-
sorialidades onde o leitor, feito beija-flor, parte por diferentes textu-
ras e variadas paisagens. Alguns dos construtores desta antologia, já
conheço de outras tramas literárias e pude viajar através das reafir-
mações do estilo de pensar e vestir a palavra de cada um; é o caso de
Paulo Gurgel, Hamilton Monteiro e Celina Pinheiro.
Paulo Gurgel recria a palavra dentro de uma imagística cine-
matográfica e hemorrágica, onde a realidade é sempre mais inédita
que a fantasia e o espanto afoga sempre o leitor aturdido e perplexo.
Deste modo, Paulo Gurgel é escritor engenhoso e iluminado por
soluções, individualíssimas e insuspeitas.

Diogo Fontenele
In: “Tribuna do Ceará”, 21 de novembro de 1987.

139
PORTAL DE MEMÓRIAS

MÉDICOS ESCRITORES
I
Com um título geral e significativo (para o texto leia-se sig-
nificante) chega-nos às mãos a antologia “Sobre Todas as Coisas”,
da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará,
com um total de treze participantes - poetas e ficcionistas - já com
os nomes firmes nas letras, todos demonstrando sensibilidade e dom
para a literatura e as artes. (...)

II
As últimas páginas de “Sobre Todas as Coisas” são preenchi-
das por Paulo Gurgel, um homem de letras dos mais completos de
sua geração. É um artista nato. Talento vasando por todos os poros.
Mergulhado no absurdo existencial, na vanguarda criativa, tira de
tudo isso os efeitos mais surpreendentes. É um idealista. Seu estilo
é inconfundível. Sabe lidar com o reino das palavras e seus encan-
tos. Dono de um potencial de fabulação imenso, com alguns contos
já premiados, é um dos pontos altos desta antologia. Suas estórias
(crônicas, poemas, fábulas?) oscilam entre o picaresco e a prosa de
costumes (confidencial). Trabalha com os signos e os signos eróti-
cos. É o desenhista e o escultor da palavra. O cotidiano é a menina
de seus olhos. A condição humana está por inteiro em seus escritos.

José Alcides Pinto


In: “Tribuna do Ceará”, 16 de abril de 1988.

140
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo Gurgel: humorista e poeta

O médico, poeta e humorista Paulo Gurgel é também ficcio-


nista nas horas vagas. E horas vagas para ele é o tempo disponível
entre a profissão, a poesia e o violão. Que me desculpem a rima.
Mas o ritmo poético e o acorde acordam nesse homem o humor, que
o pratica com grande sobriedade e agudo senso crítico. Sensível à
beleza artística, é um expert da criatividade.
Vez por outra, nos mostra nos suplementos literários a
dimensão de seu talento inventivo numa simples crônica ou estória
engraçada. Diríamos, mais propriamente, de fino humor, onde a
ironia desponta aguda, ferina, insinuante, inusitada. É este o poeta
que temos agora em mãos, participante de duas antologias, a pri-
meira datada de 1981, VERDEVERSOS, e a segunda com o título
ENCONTRAM-SE, do ano em curso.
A publicação dos livros mencionados é da responsabilidade
do Centro Médico Cearense e, na primeira antologia, nada menos
de dez figurantes são encontrados. Na segunda, a lista estica para
quatorze. E isto prova que, se a coisa pega, vamos longe. Médicos
escrevendo poesia? - ora direis os tolos! E nós respondemos que é
o que de melhor pode acontecer nos dias de hoje. Há os males do
corpo e os da alma. Os nossos médicos-poetas cuidam dos dois. E
em nosso meio já temos cultores das musas de alto nível, de nome
nacional, como Airton Monte e Caetano Ximenes Aragão, para citar
apenas dois do VERDEVERSOS, sem contar com Pedro Henrique
Saraiva Leão, que saiu do movimento concreto do Ceará, lançado
em 1957, e que não está incluído entre aqueles poetas.
Mas, o que vem a ser a poesia de Paulo Gurgel? O humor
estaria ausente? Não. E até isto se nota em sua minibiografia.
Vejamos: “Detesto ser levado a sério; o contrário, também.”Em
outra passagem o temos assim: “Amante dos livros, dois deles

141
PORTAL DE MEMÓRIAS

marcariam-lhe profundamente a juventude: ‘Os Lusíadas’, de


Homero, e ‘Ilíada”, de Camões.” (O grifo é nosso, mas a afirmação
é dele.) “Abriram-lhe tanto a visão que fez um exame de vista sem
que o oculista lhe dilatasse a pupila.”
Isso são trechos esparsos de sua minibiografia (que não é tão
mínima assim). O humor também invade a prosa desse cartunista da
palavra e da imagem poética, que nos deu apenas o espaço do quarto
minguante para redigir estas palavras: “Quero só quatro linhas para
botar num livro”. E aí estão mais que “quatro palavras” que, con-
tudo, não dão ainda para fazer um juízo crítico de seus trabalhos
inseridos nas publicações já referidas. Mas não podemos fechar esta
nota sem antes dar ao público uma demonstração de sua criatividade
poética:
“Que anjos são esses
Que se nutrem da celestial ambrósia
Mas que não diligenciam
Quando mastigo cogumelos venenosos?”
Humor cáustico, mas humor, também aqui se vê. E só ele,
entre nós, o faz com tanta autenticidade assim. Vamos à frente,
poeta; não há retorno para nada. O que está morto está perdido. Às
bruxas o passado e o louro dos heróis.

José Alcides Pinto


Poeta e escritor cearense (falecido abruptamente em 2008).

Escrito em 1983, mas mantido inédito, até o presente livro.

142
Paulo Gurgel, um médico de letras

Peculiar apreciação do livro “Sobre Todas


as Coisas” (editado pela Sobrames – Ceará)

Chegou-me às mãos, por gentileza de Geraldo Bezerra (45),


o livro SOBRE TODAS AS COISAS - EDIÇÃO CONJUNTA -
SOBRAMES/CE (1). Então, eu li Celina Pinheiro (5), Francisco
Medeiros (37), Helvécio Feitosa (67), Luiz Alberto (99), Marigélbio
Lucena (119), Hamilton Monteiro (55), Emanuel Carvalho (27),
João Wilson (91), Luiz Moura (107), Dalgimar Meneses (17), Ícaro
Meton (83) e Paulo Gurgel (129).
Foi então que, dando asas à imaginação, eu, fugindo do
QUOTIDIANO (101), agarrei um COMPANHEIRO (102) e
dizendo É PRECISO VIVER (52), fomos ver o NOTURNO DA
CIDADE GRANDE (60). Antes de relatar esta CRÔNICA DA
NOITE (93), digo: - nós, TORCEDORES DE FUTEBOL (125),
separados do CARTOLA DO FUTEBOL (127), fomos ver MEU
TIME DE FUTEBOL (126) que estava EM CARTAZ (135) ele-
vado. MEU CORAÇÃO I (85), sem REFLEXÃO (103), sentiu o
jogo CUMBUCO (55).
Deixei-o lá, saí, só, procurando BILACA (40), com
a INQUIETUDE (63) e o INDISCIPLINADO (113) e
ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO... (91) cheio de MUTAÇÕES
(48). Então, HOMO FALLUS ERECTUS (42), apertei o
SEGUNDO (131) MEU CORAÇÃO II (86) cheio de DESEJO
(85) e FEITIÇARIA (64). Era uma TARDE ABSURDA (62),
véspera de CARNAVAL (105) e o CARNAVALESCO (14) em
TEMPO REDESCOBERTO (65) aguardava o DESENLACE
(12), sim, UM ESTRANHO ENTERRO (71), CICATRIZ (117)
de O INFORTÚNIO DE JUCA (75), vítima de O MAL-DO-
ZECA (79). Era como um NATAL VENDIDO (95) e eu, sen-
tindo INSÔNIA (59) e cheiro de DERROTA (28), lembrando
os REFLEXOS DO NEGRO (30), onde SER OU NÃO SER...
HONESTO (5) era MAGRA FANTASIA (32), propus à ROSA
(49), sim, a VOCÊ (58): - SEJAMOS NÓS (44).

143
PORTAL DE MEMÓRIAS

Realizamos então A PRIMEIRA FUGA (17): era O DIA DE


SÂO SARUÊ (83) e deixamos “O SERTÃO EM POLVOROSA
(67). PERDÃO... ERA UMA VEZ UM PAJEÚ (84). Mas MARIA
CLARA (103), a BRANCA DAS NEVES (137), aproveitando AS
COROAS DE APOLO (133), disse-me: escreve a ELEGIA EM
VIDA A JOSÉ DE AGUIAR RAMOS, VAMOS CONSTRUIR O
HOSPITAL DO CÂNCER (119), pois CADA MOMENTO, A
VIDA (46) é AMOR NA CONCEPÇÃO DO POETA (37).
Eu, com FEBRE (33), compus este CANTO ENIGMÁTICO
(105), autêntica SÚPLICA DE NATAL (61), endereçando A
VOCÊ, MEU FILHO, MINHAS ESPERANÇAS (97) pois,
APESAR DE TUDO (34), NINGUÉM SE LEMBROU DE TI...
(53), mas AINDA PRESTA O TEU AMOR (45).
Rumei então para NOVA IORQUE (31) onde daria a AULA
DE 14 DE MAIO DE 1975 (21) sobre O QUE PODE HAVER
DE COMUM ENTRE: INVERSÃO UTERINA TOTAL,
O REDEMOINHO MARÍTIMO DE MAELSTROM E A
MANOBRA DE GUAXINIM (122) e soltei THE ATOMIS BOMB
(43) e TAU SALOMONIS (25) com as MEMÓRIAS DE UM
ATESTADO MÉDICO (107).
Com A MARCHA DO TEMPO (50), olhando OS OLHOS
DA MULHER AMADA (99), UMA SEMANA MAIS TARDE
(43), entre REFLEXÕES (35), à hora d’O JANTAR (9), uma
CONCEPÇÃO (38): - SER POETA (29), é UMA ESTÓRIA DE
EMERGÊNCIA (89) NO UMBRAL DO ANÍSIO (27), cresce
como BOLA DE NEVE (51) da INFÂNCIA (87), após a BALADA
DO POETA SEM NOME (100), dedicada à MÃE (10).
Em ANTÍTESE (104), após o EXAME PRÉ-NUPCIAL
(11) e consultar RELÓGIOS (7), resolvi escrever UM POEMA
PRA VOCÊ (96). Era a VISITA DA POESIA (56): - O CURIOSO
CURIÓ (116) desprendeu uma FORTUITA LÁGRIMA (39),
sequei-a com FÓSFOROS (129).

Texto escrito no Rio, em 11 de abril de 1988, por Tito de Abreu Fialho, então
presidente da SOBRAMES - Nacional, e enviado ao Ceará para os participantes
do citado livro.
* Em negrito figuram os títulos dos textos de Paulo Gurgel, com as respectivas
páginas iniciais, entre parênteses.

144
Paulo Gurgel, um médico de letras

Lançamento da antologia
“Efeitos Colaterais”

Minhas senhoras; meus senhores; meus colegas.


O caro, preclaro, e raro colega Luiz Gonzaga de Moura
Júnior, presidente desta entidade médico-literária, solicitou-me
apresentar a vocês os demais colegas presentes nesta antologia.
Mormente para cumprir um protocolo, eis que são todos conheci-
dos e apreciados.
Permitam-me - contudo - de início nomear outros, os quais
nesta crestomatia não figuram: Francisco de Castro / Afrânio
Peixoto / Oswaldo Cruz / Miguel Couto / Clementino Fraga, pai
e filho / Fernando Magalhães / Maurício de Medeiros / Aloysio de
Castro / Deolindo Couto / Peregrino Junior / Carlos Chagas Filho /
Pedro Nava / Ivo Pitanguy / o nosso Airton Monte, todos figuras de
truz da Medicina e da Literatura brasileiras.
Como são, igualmente - quiçá com a mesma proficiência - os
colegas hoje e agora reunidos nesta coletânea, a demonstrar, mais
uma vez, que “letra de médico” não é tão ilegível, como apregoam
alguns: (...)
PAULO GURGEL, verdeversejando desde 1981, terça com a
mesma destreza a crônica, o humor, e o conto, de maneira fluida,
condensando-se ao sabor do ar expirado por seus temas prediletos.
Pneumologista de escol, não padece daquela dispneia intelectual,
tão encontradiça, a qual nem os médicos conseguem tratar.

Pedro Henrique Saraiva Leão


Trechos do discurso proferido por Pedro Henrique Saraiva Leão
(um dos participantes da antologia), em 14 de dezembro de 1990,
na noite de lançamento do livro “Efeitos Colaterais”.

145
PORTAL DE MEMÓRIAS

Pela fresta da janela: um olhar apurado


sobre a atividade literária de Paulo Gurgel

Estou me valendo de um recurso, não muito recomendável,


é verdade, para xeretar a vida de outra pessoa. E que às vezes, nada
como assumir a posição de “olheiro”, sem ninguém por perto, para
demover desse intento.
Falo aqui da oportunidade que tive e estou tendo de obser-
var, através da fresta de uma janela imaginária, a participação do
médico-escritor Paulo Gurgel Carlos da Silva, em 15 publicações
da SOBRAMES, editadas no período 1981-2010. São trinta anos de
colaboração e um farto material que precisa ser desvendado, para
que se conheça melhor como funcionam a alma, a cabeça e o cora-
ção desse autor.
De princípio, me vem à lembrança as palavras ditas por
Jesus, a Paulo de Tarso, quando este se encaminhava para Damasco:
“Saulo, Saulo, por que tu me persegues?” Fazendo um trocadilho,
e usando o mesmo ritmo e a mesma sonoridade da frase messiânica,
agora sou eu que digo: “Paulo, Paulo porque tu tanto escreves?”
E aí, eu continuo a me indagar: Será por compulsão, ou será
uma herança genética? A verdade só ele sabe, mas dá para enten-
der que escrever é como ter fome: só se sacia a vontade, escrevendo,
ou comendo. Paulo Gurgel exemplifica isso muito bem. Ele usa o
dom que Deus lhe deu e que a vida se encarregou de aperfeiçoar,
para tirar de dentro de si um amontoado de sensações, umas afli-
tivas, outras nostálgicas algumas eivadas da mais refinada ironia,
todas, entretanto, com uma dose de criatividade que o diferencia da
maioria dos simples contadores de casos, sem molho para dar sabor
à iguaria, digo narrativa, preparada com as devidas reservas.
Ao pegar esse 15 livros da Sobrames, pensei: o que vou fazer
com os achados do Paulo Gurgel? – Classificar os textos, por catego-
ria – se contos, se crônicas, se poesias?

146
Paulo Gurgel, um médico de letras

Não, esse é um exercício meio burocrático, ainda que


demande um certo conhecimento de literatura. Escolher, aleato-
riamente, alguns produtos de sua lavra, para uma análise literária,
a rigor? – Também não, até porque algo de especial pode ficar de
fora, comprometendo a já tão decantada expertise do escritor, e,
ainda, porque a comentarista da obra, ou do texto, poderia estar
aquém do seu valor. De qualquer modo, tenho que fazer qualquer
cousa, e isso já é um bom começo. Vou selecionar três livros, dos
quais ele participou: um de 1981, outro de 1987 e mais um de 1994,
que é para sentir o quanto ele desandou a crescer nesses anos todos
em que deu vazão à sua enorme capacidade de procriar, não reben-
tos, que ele se segurou em dois, mais em textos, artigos, poemas,
que já somam centenas.
Paulo Gurgel é daqueles que não se contentam com
o pouco. Talvez até por isso tenha escolhido a pneumolo-
gia, como especialidade médica, só para ouvir o paciente
dizer, seguidas vezes, 33, 33, 33.

VERSOS QUE TE QUERO VERDES


Parafraseando Garcia Lorca, o grande poeta
do tempo da Guerra Civil espanhola, tornado imor-
tal como o seu poema “verde que te quero verde”, a Profa. Elsie Studart
SOBRAMES dá de presente ao seu público a antologia
VERDEVERSOS, fazendo lembrar que os verdes prados, os verdes
campos de Lorca, podem ter uma correspondência nos verdes loci,
onde os médicos deixam fluir a sua sensibilidade, tantas vezes enco-
berta por uma jaleco branco.
Quando, em 1981, Paulo Gurgel iniciou esse seu processo
de criação, avalizado pela SOBRAMES, nas páginas de 141 a 152
da publicação “VerdeVersos”, já dava para sentir, a partir da sua
autobiografia, que ali estava um gozador que sabia escrever, muito
embora deixasse um post scriptum com essa chamada: detesta não
ser levado a sério; o contrario , também. E ai segue uma “ruma”
de poesias, mostrando a grande versatilidade do poeta. Em
“Interiores” ele ousou musicar a letra, ao mesmo tempo em que

147
PORTAL DE MEMÓRIAS

recorria ao simbolismo, para desnudar sua alma, em um jogo de


cores e de sentimentos. Quando Paulo rememora a infância, com
o desenho do quintal guardado na lembrança, acodem, de uma só
vez, a fé cristã, o gosto pelos livros, o cheiro do café, com pão, man-
teiga e grude, o aconchego da rede sem varanda, comprada, talvez,
na porta da casa e a sensação do dejá vu com as roupas da meni-
nada estendidas no varal. Quanta pureza, na imaginação do Paulo
poeta! Depois vem “Desfazenda”, trazendo nuances drumondianas.
E agora, José? E agora, Paulo? Nem mais um grito de desespero sai
do vazio do curral. Mas tu, como aquele, nunca esmoreceste.
O tempo caminha, as páginas se sucedem e o “Auto do
Compadecido” chega para mostrar que o Ariano Suassuna não estava
mais só. O que não precisava era ele, Paulo, logo adiante, buscar o
emprego de anti-herói. Como deixaria de haver vaga, no futuro,
para quem se encantava por uma sonata de Beethoven e conseguia
identificar uma tecla de lá bemol desafinada? O edifício que o Paulo
Gurgel procurava, podia estar inacabado, mas ele, com certeza, sabe-
ria como concluí-lo. É sempre assim que acontece com quem sabe
para onde ir, sem correr o risco de chegar a qualquer lugar.
Em outra paragem “Vesperal”, o poeta se revela ao dizer
que está preparado, dos miolos aos testículos, para ser um guer-
reiro noturno, justo ele que admira o crepúsculo, sem qualquer dis-
farce. E quando se coloca como um ser desempoeirando lâmpadas,
na lenda dos prazeres, ele se veste de oriental, fustigando camelos
e afiando cimitarras. Chama atenção, nos quatro tercetos, o uso de
substantivos, com precisão. “Até o último pedaço” traz uma relem-
brança da poética de Ferreira Gullar, em seu antológico “Direitos
do Homem”: é preciso “confiar nos homens, como um menino con-
fia em outro menino”. Paulo não deixa por menos: ele quer a sorte,
quer as mãos de uma criança para brincar consigo, até o ultimo
pedaço. Quanta singeleza!
O que se sente também desta casual apreciação da verve
literária de Paulo Gurgel, é o seu gosto por trazer de volta à idade
adulta, as coisas contidas nas antigas cantigas de roda, que faziam
a festa nas noites de apagão, mas de lua cheia, no bairro do Otávio

148
Paulo Gurgel, um médico de letras

Bonfim. O seu poema “Descubram os seus rostos”, é um arranjo


novo que dá à melodia para fazer entender que anjos são esses,
agora não mais tão guerreiros, mas que unguentam suas cicatriza-
das feridas, e que o nutrem da ambrósia, sem qualquer diligência,
quando ele mastiga cogumelos venenosos. Esse, na verdade, um
confronto entre o que foi antes e o que veio depois, o eterno embate
entre a infância despreocupada e a idade adulta calcinada pelas
intempéries da vida.
Para fechar a participação de Paulo Gurgel em “Verdeversos”
(não se trata de versos, ainda no seu verdor, mas de poesia lavrada
por médicos, tendo a esmeralda como cor simbólica da profissão),
a “Profética” dedicada a São João, finda com um minuto de silên-
cio comovente que reverbera uma eternidade. Com certeza, o poeta
acertou na bola sete.

EM NOME DA LIBERDADE
A liberdade foi e será sempre o bem maior do ser humano.
Quem voa, precisa de asas; quem cria, precisa de imaginação. E
o homem, para dar vezo ao seu processo de criação, precisa estar
livre, pelo menos em sentido figurado, para alçar vôo e rumar para
o infinito, deixando um rastro de sentimento que se dilui entre as
palavras que compõem uma antologia literária, como essa que rece-
beu da SOBRAMES o título de “Sobre todas as coisas”.
Realmente, a qualquer um é dado falar de qualquer coisa.
Mas é importante ressaltar que não é qualquer um que pode falar
de qualquer coisa, a qualquer tempo e em qualquer lugar, sem que
tenha como Paulo Gurgel, um apurado senso de timing e de feeling,
duas exigências básicas, para quem quer que ser escritor.
Pensando nessas e em outras coisas, é que se decidiu pela
escolha desse livro, para uma varredura, em regra, da produção
autoral de Paulo Gurgel. O título é assaz apropriado à participa-
ção do primogênito do casal Elda-Luiz Carlos, que veio, com tudo,
nessa produção literária. A primeira coisa que fez foi querer exercer
a direito de primogenitura, puxando o cordão da família, represen-
tado por irmãos e irmãs que praticam a saborosa arte de escrever.

149
PORTAL DE MEMÓRIAS

“Sobre todas as coisas” é inquestionavelmente, sobre todas


as coisas. Paulo usou e abusou da sua engenhosidade para construir
contos e crônicas, todos inteligentemente marcados por uma carac-
terística só encontrada em quem sabe aliar à arte da escrita, uma
bagagem cultural respeitável e mais uma sutileza na forma como
esquadrinha as histórias e desenha os personagens.
Uma vez, ouvi alguém dizer que a crônica é a prima pobre da
literatura. Pobre de quem disse isso, porque no caso, por exemplo,
do Paulo, suas crônicas parecem ter parentesco com o Eike Batista,
que, a exemplo de Midas, tudo o que toca vira ouro, Mas, deixando
de lado essas miudezas, que não me fazem aceitar a crônica como
a “ouriversaria do nada”, no dizer de alguém, o que mais se quer,
agora, é dissecar sua participação nessa publicação da SOBRAMES,
datada de 1987, justo quando ele tinha só 39, verdes anos, mas já
acumulava a sabedoria de quem tinha vindo de outra encarnações,
com passagens, inclusive, na Grécia antiga, onde aprendeu tudo
sobre mitologia.
A primeira das contribuições foge a essa temática. É uma
crônica, com o titulo “Fósforos”, na qual o médico escritor Paulo
Gurgel, se revela como um arguto observador das chamadas “pula-
das de cerca” e que acabam por terminar em três letras fáticas: Fui!
O autor, da forma como fala, dá até a impressão de já ter aden-
trado na psicanálise, para desvendar o mistério que transita na alma
do fujão. Ele só faltou lembrar dos fósforos, com a marca “Fiat”,
aquela quase sempre associada à palavra Lux, para explicar que o
fugitivo, com certeza, não ia à procura de fósforos, mas certamente,
iria precisar de muita “luz”, se quisesse enxergar de novo o cami-
nho da casa. A cabeça, como os fósforos, a essa hora já estaria per-
dida, e o risco, agora, era perdê-la de novo, com uma “amassadura
no quengo”, usado, no caso, o rolo de madeira com o qual, tantas
vezes, a cara-metade preparara o “nhoque” do vilão como instru-
mento de defesa.
Paulo é, na verdade um escritor dos bons, justamente por
dar motivo a quem aprecia sua arte, de se aventurar por atalhos,

150
Paulo Gurgel, um médico de letras

mesmo improvisados, dando continuidade à trilha por ele aberta,


em direção a uma clareira grávida de muitas surpresas. Depois de
“Fósforos”, vem “O segundo”. É segundo mesmo, no titulo e na
posição. Essa é uma crônica gostosa de ser ler, e que remete à velha
frase aristotélica: “O homem é um animal político”. Paulo tem a
política no sangue e, com a autoridade de quem sabe o que acontece
nos gabinetes dos deputados, nos corredores do congresso, nas cala-
das da noite, ou em pleno “alvorada”, imiscui-se nessa teia contur-
bada, onde os egos se digladiam, para fazer suas ilações sobre o que
é ser segundo e ficar na “moita”, esperando se tornar o primeiro.
Na sequência da contribuição de Paulo Gurgel à
SOBRAMES, ano 1987, está o conto “As coroas de Apolo”. A nar-
rativa é leve, usando o autor o recurso do diálogo, para imprimir
maior dinamicidade ao texto. O conteúdo é primoroso, fazendo alu-
sões, o tempo todo, a personagens mitológicas, o que confirma o seu
profundo conhecimento sobre a matéria. O que acontece, porém,
é que Paulo não deixa por menos quando quer ironizar. Com um
humor sutil como o seu, não há porque se estranhar quando diz que
Panaceia tinha razão e que Jacinto andava meio aidético. “Coisas de
Paulo”, lembrando o jargão usado por outro Paulo, o Gracindo, em
antiga novela da Globo.
“Em Cartaz” vem aí com quatro croniquetas: “Sagaz”, “Até
que a morte nos una”, “Joplin, a liberada”, e “A lei da selva”.
Deliberadamente, Paulo Gurgel faz alterações em títulos originais,
e se deleita em dar vida nova a produções da sétima arte, sem deixar
escapar esse seu lado cult movie não tão conhecido por estranhos,
mas tão respeitado por quem de perto o conhece como cinéfilo,
admirador profundo dos clássicos que fizeram a história do cinema
internacional. O que mais se sente, nessa participação, é o dedo do
Paulo, digo, a inteligência do autor, fazendo a tessitura da produção.
Ele faz que nem já se consolidou, no adágio popular: “Quem conta
um conto, aumenta um ponto”. Neste caso, não houve acréscimo só
de um ponto, mas de vários, casando com a oportunidade a que se
permite, de criar sempre mais e melhor.

151
PORTAL DE MEMÓRIAS

O último dos trabalhos de Paulo Gurgel, a fazer parte desta


Antologia da SOBRAMES, é um conto, intitulado “Branca das
Neves”, e que, como a maior parte das produções do gênero,
começa assim: “Era uma vez ...”. Nesse trabalho, figuram perso-
nagens recorrentes de uma infância que já se foi há um bocado de
tempo, mas que nem por isso foram deletadas da memória do autor.
Gostei do Gargamel, introduzido na figuração e, mais ainda, dos
sugestivos nomes dados aos figurantes, revelando o quanto Paulo é
inteligente, criativo e com um humor para lá de refinado, dando a
impressão de que ele não devia fazer graça de graça, posto ter sido
premiado por Deus, com a graça de ter caído do céu, no meio de
uma família, que podia não ter muita comida na mesa, mas tinha
muita literatura guardada na estante. É isso que se sente no último
parágrafo da crônica. Paulo traz de volta The Raven, com o lúgubre
e simbólico Never More de Edgar Alan Poe, coisa que só conhece
bem quem ama a literatura. Li e reli esse final de texto, sentindo na
alma a mesma emoção de quando escutei a lenda do “Sete-Estrelo”.
A sonoridade das palavras é tal e qual, na crônica, e “todos dança-
ram a mais não poder, na noite luarenta”. Na historinha que ouvi
contar, meninos famintos se abraçaram, e cantaram, em redor da
mãe, até que chegaram ao céu, com a fome inteiramente saciada.
Com esse texto primoroso, Paulo deixou, em quem teve a oportuni-
dade de apreciá-lo, um gosto de quero mais.

NÃO BASTA SÓ A PRESCRIÇÃO


Receita, é assim: primeiro se prescreve, depois se avia. Ao
médico, cabe prescrever o que ele acha que irá fazer bem ao doente.
Isso tanto no consultório, como no hospital. Mas há também um
local, onde o esculápio geralmente repousa a sua cabeça, e que
funciona como “centro vital”, para produção de ideias que, mais
adiante, serão prescritas, por ele próprio, a quem estiver precisando
dos seus serviços. Não raro, o travesseiro é o melhor estimulador
dessa batalha de neurônios, cada um querendo ser mais do que o
outro, para gerar coisas bonitas, envoltas no manto da fantasia que
vai cobrir as necessidades da clientela.

152
Paulo Gurgel, um médico de letras

Neste livro da SOBRAMES, intitulado “Prescrições”, tem-


-se uma prova disso. As produções literárias que o compõem, cer-
tamente foram gestadas fora dos ambulatórios, a maior parte, talvez,
nas caladas da noite, onde o silêncio diz tudo. Prescrever, no caso, é
mais um exercício de catarse, muito bem aceito, por sinal, quando
o remédio tem a dose certa e produz o resultado certo. Vem daí a
satisfação do cliente (aqui não se trata de doente, mas de leitor) de
pegar a bula (sumário) com as muitas indicações do conteúdo do
“remédio”, que foi receitado, e que quase sempre faz muito bem à
alma, Esse é o caso da parte selecionada para uma avaliação crítica
da participação de Paulo Gurgel, na antologia “Prescrições”. Nela
se confirma que a qualidade vale muito mais do que a quantidade.
Aqui, o médico escritor contribui com três contos, todos, evidente-
mente, trazendo a sua marca pessoal: forte saber literário e genuíno
sabor das coisas populares, dando aos textos uma tessitura só com-
parável a quem é do ramo, e sabe mexer com os elementos temáti-
cos, usando o enorme potencial da sua criatividade.
O que mais me chamou a atenção, nessas contações de his-
tórias, foi a dinâmica da parole, trazendo, para a linha de frente,
palavras que até podem estar esquecidas, mas que ainda não encon-
traram substitutas, à altura. Quem, se não Paulo Gurgel, para dizer
que o faroleiro tinha ido “cubar” a reserva de combustível? Ou
então, chamar de “Philipe-Auguste”, o cão de pelo cuidado, lem-
brando como é relaxante fazer “pitó” em pelo de cão? Esse, no final
do conto, tão esquálido e com alento apenas para “abanar a cauda”.
É aí que bate aquela certeza: feliz de quem sabe desenhar, com as
palavras, imagens tão perfeitas, que até os olhos menos avisados
acabam por captar.
O segundo conto de Paulo Gurgel, nessa coletânea, segue o
mesmo rumo e ritmo literários. O autor fala do “três-oitão”, de
abrir o “bedelho”, de dar “bicadinhas”, de “papo leveza”, usando
de tantas e tantas expressões saídas da boca do povo, com a mesma
ousadia de um Guimarães Rosa, de um José Lins do Rego, de um
Jorge Amado, identificados com a literatura regional. “Arma

153
PORTAL DE MEMÓRIAS

Quente, 1”, só não foi mais quente porque os seus cartuchos só


davam tiros de pólvora seca, como o próprio autor da história (com
h ou com e) se empenhou em alardear.
O terceiro conto é quase uma continuidade do anterior, pelo
menos na forma de “contar o causo”. Dicionário algum registra
o termo “bernardice”. Só mesmo Paulo Gurgel, pensando estar
no Grande Sertão, à procura das veredas, para desaguar sua cria-
ção. A estrutura do diálogo é muito boa, bem dentro daquele sis-
tema de “bateu, levou”. Ninguém fica imune às expressões usadas
pelo autor e que o vulgo já se encarregou de consolidá-las: uma, é
“bater o catolé”, quando algo não deu em nada; outra é “pernas
pra que vos quero”, quando o que se tem mesmo a fazer é fugir.
Com um texto enxuto como esse, o que se explica pelo número
pouco avantajado de caracteres, o autor só fez provar que o poder
de síntese é também seu forte. Para “variar”, traz à tona o seu
saber médico (outros colaboradores da SOBRAMES fazem tam-
bém isso), mostrando incrível habilidade no manejo da língua,
para dizer que o cara fora alvejado “no ventrículo, crossa da aorta,
tronco da coronária e, por último, no cabo do marca-passo cardíaco,
desconectando-o”.
É, Paulo, a aorta, a artéria mais calibrosa do corpo, com cer-
teza, no seu caso, deve estar agora “entupida” de tantos elogios à
sua versatilidade, como escritor, mas não tanto que não dê passagem
a um conselho, em cima da hora: retome o velho hábito de escrever,
para sair no papel. Esse negócio de blog, não agrada todo mundo,
a mim, principalmente, que não sei “abrir um computador”, do
mesmo jeito que muita gente continua sem saber fazer um “O com
uma quenga”. Essa não vale para você. Aliás, você é uma exceção,
muito brilhante, por sinal.

Elsie Studart Gurgel de Oliveira


Técnica em Assuntos Educacionais

154
Parte VI
HOMENAGENS,
DISTINÇÕES E VERBETES
PORTAL DE MEMÓRIAS

Homenagens, distinções e prêmios

Paulo Gurgel foi um menino precoce, alfabetizado muito


cedo, tendo publicado as suas primeiras letras ainda menino. Foi
um aplicado aluno do Colégio Cearense Sagrado Coração, recebendo
apurada educação dos Irmãos Maristas. Ingressou na Faculdade de
Medicina, classificado entre os primeiros lugares do vestibular da
UFC, aos 17 anos de idade, sendo o mais novo da sua turma.
Destacou-se, na sua atuação em Medicina, como competente
e zeloso profissional, merecendo o reconhecimento dos seus pares, o
que pode ser atestado nas homenagens e distinções seguintes:

1) Medalha de Integração Nacional das Ciências de


Saúde, em bronze, outorgada em 1972, pela Academia Brasileira de
Medicina Militar.
2) Referências Elogiosas na Folha de Alterações de Oficial
Médico do Exército, consignadas em 11/02/74, 09/07/74, 08/11/74,
22//04/75, 27/05/75, 31/12/75, 31/12/76 e 17/10/77.
3) Agradecimento do Centro Médico Cearense, em ofício
de 26 de outubro de 1982, pela valiosa cooperação na “I Semana
Cearense do Médico”.
4) Agradecimento da Direção do Hospital de Messejana, em 4
de abril de 2000, pela grande contribuição prestada à instituição, no
exercício das Chefias do Arquivo Médico, Pneumologia e Divisão
Médica. (Vide transcrição adiante).
5) Membro da Mesa da Solenidade de Abertura do
HM73ANOS, em 18 de setembro de 2003, na qualidade de organi-
zador das comemorações pelos 70 anos de existência do Hospital de
Messejana.

156
Paulo Gurgel, um médico de letras

Distinguiu-se, igualmente, no campo cultural, notadamente


por seu fazer literário, sendo alvo de várias honrosas premiações,
mencionadas a seguir:
1) Classificado no Festival Credimus da Canção, realizado
em Fortaleza-CE, em 1980, com a música “Angra dos Desejos”,
composta em parceria com Idalina Cordeiro e Airton Monte.
2) Selecionado com dois textos – Heteróclito, seus Inimigos
e Heteróclito, suas Casas de Pasto - no “I Concurso de Contos
do Projeto Cultural do BNB Clube”, para o livro “MultiContos”,
publicado em 1983 pela entidade promotora do evento.
3) Classificado em 1º lugar - categoria contos do “I
Concurso de Contos, Poesia, Fotografia e Artes Plásticas”, pro-
movido pelo “Movimento Cultural dos Servidores do INAMPS”,
em Fortaleza-CE, em 1984, com o texto “Os Gerúndios Estão
Florindo”.
4) Classificado em 7º lugar – categoria prosa, com o texto
“O Caminho do Meio”, no “1º Concurso Nacional de Prosa e
Poesia”, promovido pela Associação Médica Brasileira, para a anto-
logia publicada em 1991, por ocasião da comemoração do quadragé-
simo aniversário da AMB.
Tem seu nome inserido, como verbete, em quatro antologias/
coletâneas, principalmente de cunho literário. (Vide transcrição
adiante).

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

157
PORTAL DE MEMÓRIAS

Honra ao mérito na Sobrames Ceará

PAULO GURGEL CARLOS DA SILVA - Presidente da


SOBRAMES CEARÁ de 1985 a 1987
Nasceu em Fortaleza – Ceará, em 06/06/1948. Graduou-se
médico pela Faculdade de Medicina da UFC em 1971, especia-
lizando-se a seguir em pneumologia. No período de 1972 a 1977,
foi oficial médico do Ministério do Exército, havendo trabalhado
em hospitais militares no Rio de Janeiro, Amazonas e Ceará. No
Hospital de Messejana, onde atualmente é aluno do Curso de
Extensão Saúde Baseada em Evidências (HSL/Anvisa), já exer-
ceu os cargos de chefe do Arquivo Médico, chefe do Serviço de
Pneumologia, diretor da Divisão Médica e presidente do Centro
de Estudos Manuel de Abreu. Na Secretaria da Saúde do Ceará,
em 1989, coordenou o Serviço de Pneumologia Sanitária e, no
período de 1998 a 2007, foi assessor especial em Pneumopatias
Ocupacionais. Também foi um dos fundadores da Seção Ceará da
Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, havendo participado
como vogal de sua primeira diretoria. Em 1985, sucedendo a Dr.
Emanuel de Carvalho Melo, assumiu a presidência da Sobrames
Ceará para gerir os destinos desta entidade até 1987. Em sua ges-
tão editou o livro Nomes e Expressões Vulgares da Medicina no
Ceará (1985, IOCE), de Eurípedes Chaves Junior, e organizou,
ilustrou e editou Criações (1986, Gráfica do CMC), uma coletânea
reunindo textos literários de nove médicos filiados da Sobrames
Ceará. Em 1987, após passar a presidência desta sociedade para o
colega Geraldo Beserra da Silva, assumiu a sua vice-presidência.
Em 1990, na gestão do colega Luís Gonzaga de Moura Júnior,
retornou à situação de vogal da Sobrames Ceará. Em 1992, coorde-
nou o Módulo Médicos Escritores do VIII Outubro Médico, pro-
movido pelo Centro Médico Cearense. Recebeu premiações em

158
Paulo Gurgel, um médico de letras

concursos literários patrocinados pelo BNB Clube de Fortaleza e


pela Associação Médica Brasileira. Prefaciou o livro Em Busca de
Poesia, de Dalgimar Beserra, e teve comentários inseridos nos
livros A Cor do Fruto, de Fernando Novais, e Nossos Momentos,
de Wellington Alves, e Otávio Bonfim, das Dores e dos Amores -
Sob o Olhar de uma Família, de Marcelo Gurgel. Sua obra literá-
ria figura nas antologias Verdeversos (1981), Encontram-se (1983),
MultiContos (1983), Temos um Pouco (1984), A Nova Literatura
Brasileira (1984), Escritores Brasileiros (1985), Poetas do Brasil
(1985), Criações (1986), Sobre Todas as Coisas (1987), Letra de
Médico (1989), Efeitos Colaterais (1990), Meditações (1991), AMB
– 40 anos (1991), Outras Criações (1992), Esmera(L)das (1993),
Prescrições (1994), Antologia até Agora (1996), Médicos Escritores
& Escritores Médicos da FMUFC (1998), Marcelo Gurgel: Verso
e Anverso (2003), Dos Canaviais aos Tribunais - A Vida de Luiz
Carlos da Silva (2008) e Achado Casual (2008).

* Publicado no Boletim da Sobrames-CE

Honra ao mérito. http://gurgel-carlos.blogspot.com/2007/10/honra-ao-mrito.html#links

Paulo quarentão na casa da Caio Cid

159
PORTAL DE MEMÓRIAS

Concursos e seleções

Na metade da década de sessenta, eram poucos os cursinhos


pré-vestibulares em Fortaleza; entre eles, os de menor custo men-
sal estavam sob a custódia de diretórios acadêmicos (DA) das facul-
dades. O da Faculdade de Medicina, de responsabilidade do DA
12 de Maio, era um dos mais concorridos, mercê da qualidade dos
seus professores, como: Manassés C. Fonteles, Martinho Rodrigues
Fernando, Dalgimar Beserra de Menezes, dos bons resultados
que obtinha no vestibular, e, naturalmente, das suas modestas
mensalidades.
Em 1965, Paulo submeteu-se ao processo seletivo para pre-
enchimento das vagas, na expectativa de ficar na turma de melho-
res alunos, mas foi surpreendido com a aprovação em primeiro
lugar. Essa sua primeira conquista, por sinal, faria jus a uma
bolsa integral, condição esta não honrada pelos dirigentes do dito
“Cursinho”, que tão somente dispensaram-no do pagamento da
taxa de matrícula.
Paulo Gurgel foi aprovado em 4º lugar no Exame Vestibular
de 1966 para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do
Ceará. Neste processo seletivo, dos quase 800 candidatos que dis-
putavam as 100 vagas oferecidas pela Faculdade de Medicina, ape-
nas 33 foram inicialmente aprovados. Foi o famoso “vestibular da
Cecília Meireles”, o qual surpreendeu a maioria dos vestibulandos
(que, naquela época, não costumavam incluir nos preparativos para
a prova de Português o estudo dos autores modernistas). Uma revi-
são feita, a seguir, elevou para um número inferior a 50 a relação
dos nomes aprovados. E houve necessidade, ainda, da realização de
um segundo vestibular (e de uma segunda revisão de provas) para
que fossem preenchidas todas as vagas de 1966 na Faculdade de
Medicina.

160
Paulo Gurgel, um médico de letras

Foi aprovado na seleção, realizada em 1969, para as bolsas


de estágio da Assistência Municipal de Fortaleza (o Instituto Dr.
José Frota). Tendo participado da seleção como aluno do 4º ano de
medicina (sem ter ainda passado por diversas disciplinas do curso
de graduação), Paulo concorreu em desvantagem com muitos outros
candidatos que eram, na maior parte, do quinto ano da Faculdade.
Logrou o 25º lugar, o que não foi suficiente para conseguir uma das
24 bolsas do estágio.
Foi aprovado no Concurso Público, realizado em 1971,
para ingresso no Curso de Formação de Oficial Médico da Escola
de Saúde do Exército (conforme Boletim Regional nº 35, de 22 de
fevereiro de 1972, da 10ª RM do Ministério do Exército). Este con-
curso, que constou de uma prova escrita sobre conhecimentos médi-
cos e de uma prova psicotécnica, aprovou no Ceará seis dos nove
candidatos inscritos. Paulo obteve o 1º lugar no Estado. O cargo
exigia ainda que se submetesse a uma avaliação da aptidão física, na
qual foi também aprovado.
Durante o ano de 1972, fazendo parte de uma turma de 100
médicos alunos da Escola de Saúde do Exército, no Rio de Janeiro,
chegou ao término do curso em 2º lugar no conjunto das discipli-
nas e em 4º lugar na classificação final (a qual incluía outros aspectos
como grau de liderança, prática de esportes etc.). Com a classifi-
cação obtida nessa escola de formação da Moncorvo Filho, pôde o
oficial médico escolher a primeira das vagas do Rio que estavam à
disposição dos concludentes do curso. Optou pelo Hospital Central
do Exército onde, paralelamente ao curso de formação militar, havia
passado por um estágio técnico-profissional.
Com base em informações curriculares, em 1973, uma
comissão aprovou o seu nome para uma das 20 vagas do Curso
de Especialização em Tisiologia, da Fundação Instituto Oswaldo
Cruz. O curso, com duração de 472 horas e com bolsa de estudo da
Divisão Nacional de Tuberculose, foi realizado durante o 2º semes-
tre do ano.

161
PORTAL DE MEMÓRIAS

Paulo foi aprovado no Concurso do DASP, realizado em 1976,


para o cargo de médico do Instituto Nacional da Previdência Social,
na especialidade de Tisiopneumologia, em 3º lugar para os Estados
do Ceará, Piauí e Maranhão, com nota 90 (a mais alta do concurso
nesta especialidade, empatado com dois colegas, mas posicionado
em terceiro por ser o mais novo deles). Foi aprovado também, no
mesmo concurso, para o cargo de médico do Instituto Nacional da
Previdência Social, na especialidade de Clínica Médica, em 33º lugar
para os Estados do Ceará, Piauí e Maranhão, com nota 72. E, para
a investidura em ambos os cargos, figurou o seu nome na primeira
lista daqueles que foram convocados.
Em 1979, foi aprovado no Concurso Público para ingresso na
Classe A de Sanitarista do Ministério da Saúde, com 94,67 pontos na
prova escrita (a maior nota registrada nesta prova em todo o terri-
tório nacional), cabendo-lhe, após a avaliação curricular, o 3º lugar
do concurso (conforme Diário Oficial nº 14.069, de 26 de setem-
bro de 1979). Paulo não quis assumir o cargo. E o seu compareci-
mento na sede da administração local do Ministério da Saúde, em
Fortaleza, para assinar o termo de desistência, provocou inclusive
certo rebuliço entre os funcionários do órgão (que estavam desejo-
sos de conhecer o candidato cearense que obtivera a maior nota da
prova escrita).
Foi aprovado em 2º lugar (1º classificável) no Concurso
Público, realizado em 2 de julho de 2006, para o cargo de Médico
Auditor da Prefeitura Municipal de Itapiúna-CE, com nota 250.00
(para 300.00 da nota máxima possível) na prova escrita. Oito can-
didatos se submeteram a essa prova e Paulo, com a desistência do
candidato que se classificou em 1º lugar, foi a seguir chamado para
assumir esse cargo.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

* Baseado no CV e em informações pessoais do perfilado.

162
Paulo Gurgel, um médico de letras

Homenagem dos Diretores


do Hospital de Messejana

Em maio de 2000, Paulo Gurgel estava deixando, por motivos


particulares, o cargo de Diretor Médico do Hospital de Messejana.
Foi realizado um almoço em sua homenagem em um restaurante
situado no Lago Jacareí, em Fortaleza.
Estiveram presentes a esse evento os diretores do Hospital: Dr.
Ernani Ximenes, Dr. José Memória, a assistente social Dra. Dione
Bezerra e o administrador Dr. Humberto Vitorino. Na ocasião, o
homenageado recebeu deles um documento com os seguintes termos:

“Dr. Paulo,
Ser Servidor Público hoje não é fácil. Administrar em serviço Público é
ainda mais difícil. Mas, mesmo com todas as dificuldades, ainda encon-
tramos homens, SERVIDORES como o senhor, que fazem do SERVIR
um dos verbos mais praticados no seu exercício profissional.
E servir com ética, compromisso e justiça é uma missão das mais nobres,
só abraçadas por pessoas igualmente nobres, que têm plena consciência do
seu dever para com a sociedade.
Assumindo as chefias do Arquivo Médico, da Pneumologia e, finalmente,
da Divisão Médica, o senhor foi tudo isso. Soube honrar esta casa e os
cargos que ocupou como poucos. Com a sua maneira peculiar de ser, dei-
xou uma marca de seriedade e competência nesta administração.
Por tudo isso, e muito mais, queremos lhe agradecer pela grande contri-
buição que deu, reforçando a nossa admiração e o nosso reconhecimento.
Lembre-se de que esta casa pertence àqueles que a construíram com o seu
trabalho e dedicação. Aqui, entre o coração e o pulmão, haverá sempre
um espaço para acolhê-lo.
Um grande abraço.”

163
PORTAL DE MEMÓRIAS

Assinaram o documento:
Dr. Ernani Ximenes Rodrigues – Diretor do Hospital de Messejana
Dr. José Maria Furtado Memória Jr. – Diretor Médico
Dra. Dione Bezerra de Barros – Diretora Técnica
Dr. Humberto Vitorino Dantas – Diretor Administrativo

Paulo, diretor clínico do HM, com a turma da broncoscopia (2000)

Paulo, especialista, trabalhando


no setor de espirometria (2002)

164
Paulo Gurgel, um médico de letras

Verbete I

Silva (Paulo Gurgel Carlos da)


Filho de Luiz Carlos da Silva e Elda
Gurgel e Silva, nasceu no dia 6 de junho
de 1948 em Fortaleza, onde fez o curso
primário (Instituto Padre Anchieta), o
ginasial (Colégio Cearense) e o cientí-
fico (Liceu do Ceará e Colégio Batista).
Diplomado pela Faculdade de Medicina
da Universidade Federal do Ceará, curso
concluído em dezembro de 1971. Curso
de Tisiologia Clínica e Sanitária na
Fundação Instituto Osvaldo Cruz do Rio de Janeiro (1973). É pro-
motor da Editora Centro Médico Cearense, que já apresenta sete
livros publicados. Desde 1984, exerce a presidência da Sociedade
Brasileira de Médicos Escritores, Regional do Ceará, e é consul-
tor, também colaborador da revista Coopernews. Colaborou em
C.M. INFORMA (jornal do Centro Médico Cearense); no jornal
SIMEC (do Sindicato dos Médicos do Ceará); em Informativo A
Ferragista (house organ da empresa deste nome); em Mandacaru
(jornal da Associação de Economiários do Ceará); Jamb (jornal
da Associação Médica Brasileira); O Povo e Diário do Nordeste.
Foi professor de Ciências e Biologia do Colégio Joaquim Albano
e do Curso de Tecnologia do Saneamento Ambiental, da Unifor.
É Pneumologista e Clínico Geral do Hospital de Messejana
(INAMPS) e na clínica privada. Publicou: na área literária: Verde-
Versos (1981); Encontraram-se (1983); Multicontos (1983);
Temos um Pouco (1984); Literatura Brasileira (1985); Poetas do
Brasil (1985); Escritores Brasileiros (1985); Criações (1986) e

165
PORTAL DE MEMÓRIAS

Proemial, prefácio que escreveu para o livro Em Busca da Poesia,


de Dalgimar Meneses. Na área médica: Doenças Sexualmente
Transmissíveis (1983), monografia; Saúde Ocupacional, capí-
tulo X do livro “Epidemiologia e Saúde” (1983), de M. Zélia
Rouquayrol. Em 1983, teve dois contos selecionados no Concurso
de Contos do BNB Clube e, em 1984 com o texto experimental
“Os Gerúndios Estão Florindo”, obteve o primeiro lugar, na cate-
goria conto, do concurso promovido pelo Movimento Cultural dos
Servidores do INAMPS em Fortaleza.

Fontes para estudo crítico:


Carlos d’Alge, “Uma antologia de poemas médicos – II” in
O Povo, fev/81; Abdias Lima, “Estante de Livros” in Tribuna do
Ceará, 18/03/81; Abdias Lima, “Livros” in Tribuna do Ceará,
15/06/83; “Os Médicos Cearenses em Verso e Prosa” in Diário
do Nordeste, Fortaleza, abril/83; “Prosa e Poesia” in Diário do
Nordeste, Fortaleza, 21/10/84; “Médicos e Escritores” in Diário
do Nordeste, Fortaleza, 05/12/82; “Os Médicos se Unem e Fundam
Uma Nova Editora” in Diário do Nordeste, Fortaleza, 11/06/84;
“Criações: quando os médicos são poetas” in Diário do Nordeste,
Fortaleza, 28/02/86.

* Verbete In: GIRÃO, Raimundo; SOUSA, Maria da Conceição. Dicionário da


literatura cearense. Fortaleza: Imprensa Oficial, 1987. p.213.

166
Paulo Gurgel, um médico de letras

Verbete II

Paulo Gurgel da Silva


Nasceu em Fortaleza (CE) no dia 6 de
junho de 1948.
Filho de Luís Carlos da Silva e de Elda
Gurgel e Silva.
Estudou no Colégio Cearense, Liceu
do Ceará e Colégio Batista.
Formou-se pela Faculdade de
Medicina da Universidade Federal do
Ceará em 1971, especializando-se em
Pneumologia. Fez Curso de Tisiologia Clínica e Sanitária na
Fundação Instituto Osvaldo Cruz do Rio de Janeiro em 1973.
Colaborou em diversos periódicos cearenses.

OBRAS:
VERDEVERSOS - Coletânea - 1981
ENCONTRAM-SE - Coletânea - 1983
MULTICONTOS - Coletânea - 1983
TEMOS UM POUCO - Coletânea - 1984
LITERATURA BRASILEIRA - Antologia - 1985
POETAS DO BRASIL - Antologia - 1985
ESCRITORES BRASILEIROS - Antologia - 1985
CRIAÇÕES – Coletânea - 1986
SOBRE TODAS AS COISAS - Coletânea -1987
LETRA DE MÉDICO - Coletânea - 1989
EFEITOS COLATERAIS - Coletânea - 1990
MEDITAÇÕES - Coletânea - 1991
OUTRAS CRIAÇÕES - Coletânea - 1992
ESMERALDAS – Coletânea - 1993

* Verbete In: SILVA, Geraldo Beserra da. Presença do médico na literatura brasileira.
Fortaleza: Sobrames, 1996. 338p. p.311.

167
PORTAL DE MEMÓRIAS

Verbete III

Paulo Gurgel Carlos da Silva


Nasceu em Fortaleza, Ceará no dia
6 de junho de 1948. Filho de Luís Carlos da
Silva e de Elda Gurgel e Silva. Formou-se
pela Faculdade de Medicina da Universidade
Federal do Ceará em 1971, turma número
19. Especializou-se em Pneumologia. Fez
Curso de Tisiologia Clínica e Sanitária na
Fundação Instituto Osvaldo Cruz do Rio
de Janeiro em 1973. Membro da Sociedade Brasileira de Médicos
Escritores do Ceará, tendo sido um dos seus fundadores. Colaborou
em diversos periódicos. Obras: - VERDEVERSOS – Coletânea
de médicos poetas – 1981. – ENCONTRAM-SE – Coletânea de
médicos escritores – 1983. – MULTICONTOS – Coletânea – 1983.
– TEMOS UM POUCO – Coletânea SOBRAMES-CE – 1984. –
LITERATURA BRASILEIRA – Antologia – 1985. – POETAS
DO BRASIL – Antologia – 1985. – ESCRITORES BRASILEIROS
– Antologia – 1985. – CRIAÇÕES – Coletânea SOBRAMES-CE –
1986. – SOBRE TODAS AS COISAS – Coletânea SOBRAMES-CE
– 1987. – LETRA DE MÉDICO – Coletânea SOBRAMES-CE
– 1989. – EFEITOS COLATERAIS – Coletânea SOBRAMES-CE
– 1990. – MEDITAÇÕES – Coletânea – SOBRAMES-CE –
1991. – OUTRAS CRIAÇÕES – Coletânea SOBRAMES-CE
– 1992. – ESMERALDAS – Coletânea SOBRAMES-CE – 1993. –
PRESCRIÇÕES – Coletânea SOBRAMES-CE – 1994.

* Verbete In: SILVA, Geraldo Beserra da. Médicos escritores & escritores médicos.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 1998. p.56-7.

168
Paulo Gurgel, um médico de letras

Verbete IV

Paulo Gurgel Carlos da Silva


Rua Caio Cid, 100. Telefone:
273-2413. Fortaleza-Ce – CRM: 1405 –
Especialidade: Pneumologia – Residência
Médica: Estágio no Pavilhão de Isolamento
do HCEx, Rio de Janeiro (1972) – Curso de
Especialização: Tisiologia Clínica e Sanitária
na Fundação Osvaldo Cruz, 1973 – Exerce
Atividade em Clínica Particular – Carreira
Universitária: ex-Professor do Curso de
Tecnologia do Saneamento Ambiental
(UNIFOR) – Cargos: ex-Diretor do Hospital de Benjamim
Constant-AM; Chefe do Serviço de Pneumologia do Hospital de
Messejana (cargo atual) – Academias e Sociedades: Membro da
SOBRAMES-CE – Outros: Co-Autor de 16 Livros de Literatura.

* Verbete In: MARTINS, José Murilo de Carvalho. Faculdade de medicina da UFC:


professores e médicos graduados. Edição do cinqüentenário. Fortaleza: Imprensa
Universitária, 2000. 3v. p.31.

169
PORTAL DE MEMÓRIAS

Verbete V

SEÇÃO DE DOCUMENTAÇÃO
CIENTÍFICA
No início de 1965, em uma sala
situada no pavimento térreo no Pavilhão
Central, recentemente reformado, foi ins-
talada a Seção de Documentação Científica
que, no passado, foi um simples arquivo de
prontuários conhecido com o nome SAME
(Serviço de Arquivo Médico e Estatística).
Chefes da Seção:
Dr. Abner Cavalcante Brasil
Dr. Francisco Sampaio de Oliveira
Dr. Amaury Teófilo Brasil
Dr. Abner Cavalcante Brasil (2ª vez)
Dr. Paulo Gurgel Carlos da Silva
SERVIÇO DE PNEUMOLOGIA
Neste mesmo ano (1972) o Hospital foi dotado de uma estru-
turação funcional, que já se fazia necessária, haja vista a diversifica-
ção e ampliação de suas atividades. Para exercer a função de chefe
da Clínica Pneumológica foi designado o conceituado profissional
Dr. Alarico Leite, possuidor de uma larga folha de serviços presta-
dos à instituição e à medicina cearense. Sucederam-lhe, neste mis-
ter, Márcia Alcântara Holanda, Leopoldo César de Vasconcelos,
Abelardo Soares de Aguiar, Francisco Fábio Barbosa Benevides e
Paulo Gurgel Carlos da Silva – este, o atual titular.

In: GOMES, Carlos Alberto Studart. Sanatório de Messejana: Uma História a Ser
Contada. Fortaleza: Edição do Autor (apoios: CMC e SOBRAMES-CE), 1990.
p.121, 218-219.

170
Parte VII
ANEXOS / APÊNDICES
PORTAL DE MEMÓRIAS

Sinopse de CV

1. IDENTIFICAÇÃO
Paulo Gurgel Carlos da Silva, nascido em Fortaleza, em
06.06.48, casado, médico, escritor e blogueiro, residente em
Fortaleza-Ceará.

2. FORMAÇÃO E TITULAÇÃO
2007 – 2008 Hospital Sírio-Libanês / Anvisa São Paulo-SP
Curso de Extensão em Saúde Baseada em Evidências (a distância,
com 148 horas)
1973 – 1973 Fundação Instituto Oswaldo Cruz Rio-RJ
Curso de Especialização em Tisiologia Clínica e Sanitária (com 472
horas)
1972 – 1972 Fundação Instituto Oswaldo Cruz Rio-RJ
Curso de Introdução à Epidemiologia e ao Saneamento (com 160
horas)
1972 – 1972 Hospital Central do Exército Rio-RJ
Estágio no Pavilhão de Isolamento
1972 – 1972 Escola de Saúde do Exército Rio-RJ
Curso de Formação de Oficial Médico (com menção MB)
1972 – 1972 Sanatório de Maracanaú Fortaleza-CE
Estágio em Tisiologia (convênio com o SNT)
1966 – 1971 Universidade Federal do Ceará Fortaleza-CE
Curso de Graduação em Medicina (com summa cum laude)
Formação Complementar
Congressos: 18
Cursos e simpósios: 90
Outros eventos: 60
Aprovações em concursos públicos: 5

172
Paulo Gurgel, um médico de letras

3. EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL
2008 – Atual Multiclínica Fortaleza Fortaleza-CE
Ambulatório de Pneumologia (médico assistente)
2008 – Atual Secretaria Municipal de Saúde Itapiúna-CE
Auditoria Médica (auditor)
2008 – 2008 Universidade Estadual do Ceará Fortaleza-CE
Curso de Medicina (professor de práticas médicas)
2007 – 2008 Aguanambi Saúde Fortaleza-CE
Ambulatório de Pneumologia (médico assistente)
1977 – 2007 Hospital de Messejana Fortaleza-CE
Funções administrativas
Centro de Estudos (presidente), 2003 – 2007
Divisão Médica (diretor), 1999 – 2000
Serviço de Pneumologia (chefe), 1995 – 1999
Auditoria Médica (auditor), 1993 – 1995
Direção Médica (subdiretor), 1989 – 1989
Serviço de Arquivo Médico e Estatística (chefe-substituto e chefe),
1977 – 1979 e 1979 – 1995
Funções técnicas
Função Pulmonar (especialista), 2000 – 2007
Unidade de Internação (médico assistente), 1987 – 1988 e 1995 – 1999
Residência Médica (preceptor), 1995 – 1998
Seção de Pacientes Externos (médico assistente), 1990 – 1994
Emergência (plantonista), 1978 – 1986
1989 – 2007 Secretaria da Saúde do Estado Fortaleza-CE
Pneumopatias Ocupacionais (assessor), 1999 – 2007
Programa de Controle da Tuberculose (assessor), 2000 – 2002
Serviço de Pneumologia Sanitária (coordenador), 1989 – 1990
1979 – 1979 Universidade de Fortaleza Fortaleza-CE
Curso de Tecnologia do Saneamento Ambiental (professor
colaborador)
1977 – 1979 PAM 505-435 INAMPS Fortaleza-CE
Pronto Atendimento (médico assistente)

173
PORTAL DE MEMÓRIAS

1976 – 1988 Consultório Particular Fortaleza-CE


Atendimento em Pneumologia e Clínica Geral
1975 – 1977 Hospital Geral de Fortaleza Fortaleza-CE
Ambulatório (médico assistente), 1975 – 1977
Enfermaria (médico assistente e chefe), 1975 – 1977
Emergência (plantonista), 1975 – 1977
Serviço de Saúde da 10ª Região Militar (chefe interino), 1977 – 1977
1974 – 1975 Hospital de Tabatinga B. Constant-AM
Direção Médica (diretor e subdiretor)
1973 – 1974 Hospital Central do Exército Rio-RJ
Enfermaria (médico assistente)
Emergência (plantonista)
Centro de Estudos (secretário)
1973 – 1974 Casa de Saúde Santa Mônica Petrópolis-RJ
Emergência em Psiquiatria (plantonista)
1970 – 1971 Hospital São José Fortaleza-CE
Emergência em Infectologia (plantonista)
1967 – 1967 Colégio Joaquim Albano Fortaleza-CE
Ciências e Biologia (professor)

4. OUTRAS ATIVIDADES
Coordenação de pesquisa: 1
“Silicose em Trabalhadores de Pedreiras em Caridade – Ceará”
Palestras avulsas: 204
Trabalhos científicos apresentados
Exposições orais: 22
Pôsteres: 2
Trabalhos científicos publicados
Capítulos de livros: 3
Artigos em revistas: 16
Organização de eventos: 15
Processos seletivos / Concursos
Formulador de questões para provas: 10
Analisador de currículos: 13
Pareceres técnicos: 3

174
Paulo Gurgel, um médico de letras

5. PARTICIPAÇÕES EM ENTIDADES ASSOCIATIVAS


Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará, sob o nº.
1.405, desde 1972. (registrado na especialidade de Pneumlogia).
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, sob o nº. 2.911,
desde 2002.
Sindicato dos Trabalhadores Federais em Saúde e Previdência Social
do Estado do Ceará, desde 1977.
Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores, Seção Ceará, desde 1982.

6. INTERESSES
Pneumologia
Auditoria Médica
Informática (editor de EntreMentes, Preblog, Linha do Tempo, Acta
Pulmonale e Slideshows do PG)
Arte e Cultura
Caminhadas

OBSERVAÇÕES FINAIS
* Baseado no Currículo completo, disponível na Plataforma Lattes:
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/index.jsp

175
PORTAL DE MEMÓRIAS

Principais marcos da vida: afetivos,


profissionais e culturais

Infância e Adolescência
1948 - Nasce em Fortaleza-Ceará, a 6 de junho, na Rua
Domingos Olímpio, nº 2.209.
1954-58 - Cursa o Primário no Instituto Padre Anchieta.
1955-58 - Participa da Cruzada Eucarística Infantil da Paróquia N.
Sra. das Dores.
1959-62 - Cursa o Ginasial no Colégio Cearense do Sagrado
Coração.
1959-62 - Pratica atividades recreativas: futebol.
1960 - Passa a residir na Rua Domingos Olímpio, nº 2.309.
1963-64 - Cursa os 1º e 2º Anos Científicos no Colégio Batista
Santos Dumont.
1963-64 - Pratica atividades recreativas: tênis de mesa.
1965 - Cursa o 3º Ano Científico no Liceu do Ceará.
1965 - Frequenta o curso pré-vestibular do D.A. XII de Maio
da Faculdade de Medicina.

Juventude
1966-71 - Cursa Medicina na Universidade Federal do Ceará
(UFC).
1966 - Estuda violão com o Prof. Cláudio Castro.
1967 - Primeiro emprego como professor de Ciências e
Biologia do Colégio Estadual Joaquim Albano.
1968 - Bolsista do Laboratório Lafi.
1969 - Excursão com colegas da Medicina através de vários
estados do Brasil até o Uruguai e a Argentina.

176
Paulo Gurgel, um médico de letras

1969 - Faz estágio no Hospital Psiquiátrico São Vicente de


Paulo.
1970 - Faz estágio no Hospital Mira y Lopez.
1970 - Participa do Projeto Rondon VI em Cidade de Deus,
Rio de Janeiro-GB.
1970-71
- Plantonista do Hospital São José de Doenças
Infecto-Contagiosas.
1971 - Presta serviços no Hospital Mira y Lopez.
1971 - Participa do Coral Universitário e estuda piano com a
Profa. Mércia Pinto.

Adulto Jovem
1972 - Estágio no Sanatório de Maracanaú.
1972 - Curso de Formação de Oficial Médico no Rio de
Janeiro-GB, concluído com menção MB.
1972 - Estágio no Pavilhão de Isolamento do Hospital Central
do Exército.
1972 - Curso de Epidemiologia e Saneamento pela Fundação
Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz).
1973-74 - Médico do Hospital Central do Exército, no Rio de
Janeiro-GB
1973 - Curso de Especialização em Tisiologia Clínica e
Sanitária pela Fiocruz.
1973-74 - Médico da Casa de Saúde Santa Mônica, em
Petrópolis-RJ.
1973-74 - Secretário do Centro de Estudos do Hospital Central do
Exército-GB.
1974-75 - Diretor do Hospital de Guarnição de Tabatinga, em
Benjamin Constant-AM.
1974 - Viagem a Colômbia, Equador e Peru.
1975-77 - Médico do Hospital Geral de Fortaleza / 10ª. RM.
1976-88 - Atua em clínica privada.

177
PORTAL DE MEMÓRIAS

1977 - Admitido por concurso no Hospital de Messejana.


1977-79 - Médico concursado do PAM 505-435 do INAMPS, em
Porangabuçu.
1978 - Estuda violino com o Prof. Antônio Cochrane.
1979 - Professor colaborador do Curso de Tecnologia do
Saneamento Ambiental - UNIFOR.
1979-94 - Chefia o Serviço de Documentação Científica do
Hospital de Messejana.
1981 - Estreia em “Verdeversos” (a 1ª de 22 coletâneas
literárias).
1983 - Escreve “Doenças Ocupacionais”. In: Rouquayrol, MZ
- “Epidemiologia & Saúde”.
1983-86 - Colaborador da revista “CooperNews”.

Maturidade
1984 - Casa-se com Elba Maria Macedo.
1985 - Nasce Érico de Macedo Gurgel, a 2 de agosto, seu pri-
meiro filho.
1985-87 - Preside a regional cearense da Sociedade Brasileira de
Médicos Escritores.
1986-89 - Colabora com o suplemento literário “DN-Cultura”.
1989-90 - Coordena o Serviço de Pneumologia Sanitária da
SESA-CE.
1990 - Nasce Natália de Macedo Gurgel, a 6 de junho, filha.
1995-99 - Chefia o Serviço de Pneumologia do Hospital de
Messejana.
1999 - Treinamento em “Leitura Radiológica das
Pneumoconioses” pela Fundacentro, em Curitiba-PR.
1999-00 - Diretor médico do Hospital de Messejana.
2000 - Co-autor do livro “Manual de Condutas em Clínica
Médica” (capítulo “Hemoptise”).

178
Paulo Gurgel, um médico de letras

2000-02 - Instrutor de cursos de capacitação em controle da tuber-


culose para equipes do PSF-CE.
2000-07 - Dedica-se a provas funcionais respiratórias no Hospital
de Messejana.
2001 - Pesquisa a silicose em trabalhadores de pedreiras no
município de Caridade-CE.
2003-06 - Preside o Centro de Estudos Prof. Manuel de Abreu do
Hospital de Messejana.
2003-08 - Érico cursa Engenharia Mecânica na Universidade
Federal do Ceará (UFC).
2005 - Érico casa-se com Raíssa Noronha de Carvalho.
2006 - Nasce Matheus Noronha Gurgel, a 17 de abril, neto.
2006 - Cria o site “EntreMentes” (o 1º. de seus cinco blogs).
2007 - Aposenta-se por tempo de serviço no Ministério da
Saúde / Hospital de Messejana.
2007-08 - Curso de Saúde Baseada em Evidências pelo Hospital
Sírio-Libanês.
2008 - Natália inicia curso de Direito na Universidade de
Fortaleza (UNIFOR).
2008-XX - Auditor médico da Secretaria da Saúde de Itapiúna.
2008-XX - Médico pneumologista da Multiclínica Fortaleza.
2011 - Homenageado por amigos e familiares com o livro
“Portal de memórias: Paulo Gurgel, um médico de
letras”.
2011 - Comemora com os colegas de turma os 40 anos de for-
matura em medicina.

179
PORTAL DE MEMÓRIAS

Trabalhos publicados em meio impresso

1 LITERÁRIOS (*)
1.1 Capítulos de livros (coletâneas de prosa e poesia)
“Verdeversos” (CMC, 1981).
“Encontram-se” (CMC, 1983).
“MultiContos” (BNB Clube de Fortaleza, 1983).
“Temos um Pouco” (CMC/Sobrames CE, 1984).
“A Nova Literatura Brasileira” (Shogun Editora, 1984).
“Escritores Brasileiros” (Crisalis Editora, 1985).
“Poetas do Brasil” (Editora Mirante, 1985).
“Criações” (CMC/Sobrames CE, 1986).
“Sobre Todas as Coisas” (Sobrames CE, 1987).
“Letra de Médico” (Sobrames CE, 1989).
“Efeitos Colaterais” (Sobrames CE, 1990).
“1º Concurso Nacional de Prosa e Poesia” (AMB, 1991).
“Meditações” (Sobrames CE, 1991).
“Outras Criações” (Sobrames CE, 1992).
“Esmera(L)das” (Sobrames CE, 1993).
“Prescrições” (Sobrames CE, 1994).
“Antologia Até Agora” (Sobrames CE, 1996).
“Marcelo Gurgel em Verso e Anverso” (Org. Elsie Studart e
outros, 2003)
“Dos Canaviais aos Tribunais: a vida de Luiz Carlos da Silva”
(Org. Marcelo Gurgel e Márcia Gurgel, Editora da UECE, 2008).
“Achado Casual” (Sobrames CE, 2008).
“Ressonâncias Literárias” (Sobrames CE, 2009).
“Receitas Literárias” (Sobrames CE, 2010).

180
Paulo Gurgel, um médico de letras

1.2 Apresentações de livros de outros autores (prefácio e


orelhas).
“Em Busca de Poesia”, de Dalgimar Beserra de Menezes (1985).
“A Cor do Fruto”, de Fernando Novais (1986)
“Nossos Momentos”, de Wellington Alves (1988)
“Otávio Bonfim, das Dores e dos Amores: sob o olhar de uma
família”, de Marcelo Gurgel (Editora da UECE, 2008)
1.3 Colaborações em jornais e revistas
“Jornal do SIMEC”, do Sindicato dos Médicos do Ceará, de 1980 a 1981.
Informativo mensal “A Ferragista”, de 1980 a 1983.
“CMC-Informa”, do Centro Médico Cearense, de 1981 a 1983.
“Mandacaru”, Informativo da AECE – Associação dos
Economiários do Ceará, de 1981 a 1985
“DN Cultura”, suplemento literário do jornal “Diário do
Nordeste”, de 1986 a 1989.
“JAMB”, Jornal da Associação Médica Brasileira, de 1986 a 1990.
“O Povo Cultura” e “Jornal do Leitor”, suplementos literários do
jornal “O Povo”, de 1992 a 1994 e em outros períodos.
(*) Textos também disponíveis em meio eletrônico no Preblog.
http://preblog-pg.blogspot.com

2 TÉCNICOS
2.1 Capítulos de Livros
SILVA, P.G.C. da – Doenças Ocupacionais. In: ROUQUAYROL,
M.Z. Epidemiologia & Saúde. Fortaleza: Edição do autor /
UNIFOR / CNPq, 1983. p.241-262.
SILVA, P.G.C. da – Hemoptise. In: CEARÁ. SECRETARIA DA
SAÚDE. – Manual de Condutas em Clínica Médica. Fortaleza:
SBCM-CE / SESA-CE, 2000. p.276-280.
SILVA, P.G.C. da – Manejo Clínico da Tuberculose. In: CEARÁ.
SECRETARIA DA SAÚDE. Normas Operacionais para Atenção
ao Portador de Tuberculose e Hanseníase. Fortaleza: SESA-CE,
2003. p 319-338.

181
PORTAL DE MEMÓRIAS

2.2 Artigos em revistas


“Herpes Simples”. CooperNews, nº 14, 1983.
“Alergia Alimentar”. CooperNews, n° 20, 1984.
“RMN: Nova Conquista da Medicina”. CooperNews, nº 21, 1984.
“Radiação, com Toda a Energia”. CooperNews, nº 25, 1984.
“Um Médico Vê os Medicamentos”. CooperNews, n°s 29, 30 e 31,
1985.
“Câncer”. CooperNews nºs 38, 39 e 40, ano 5, 1986.
“(Re)visão Geral das Doenças Pulmonares”. Histórias da Saúde,
ano II, n° 3/S1 Edição Nacional 2001.
“Sobre um Hospital de Setent’Anos”. Revista da Sociedade
Cearense de Cardiologia, agosto/2003, volume 4, nº1, p.35-40 /
Histórias da Saúde, ano VI, nº 7/S2 Edição Nacional 2003.
“O Centro de Estudos do Hospital de Messejana” e “Manuel de
Abreu, o Inventor da Abreugrafia”. Histórias da Saúde, ano VII,
nº 8, 2004.
“Hospital de Messejana: Homenagens e Inaugurações”. Histórias
da Saúde, ano IX, nº. 12/2006, p.10.
2.3 Monografia e revisões
Monografia: Doenças Sexualmente Transmissíveis. Fortaleza:
edição mimeografada do autor, 1983. 21p.
Revisão final dos manuais “Tuberculina”, “Vacinação BCG”
e “Tuberculose na Infância”, de autoria do Prof. Dr. José
Rosemberg, para a publicação pela Secretaria da Saúde do Ceará,
em 2001.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

182
Paulo Gurgel, um médico de letras

Painéis com ilustrações de textos

Figura 1 Figura 2 Figura 3

Figura 4 Figura 5

Figura 6 Figura 7

Figura 8 Figura 9

183
PORTAL DE MEMÓRIAS

http://slideshows-pg.blogspot.com/2010/04/ilustradores.html

184
Paulo Gurgel, um médico de letras

Nomes dos médicos formados


pela UFC em 1971

Adriana Menezes da Costa


Aline Maria Barbosa Cavalcante
Ana Maria de Andrade Lira
Antenor Fernandes Mendes
Antonio Anglada Casanovas
Antonio Carlos de Magalhães Portela
Antonio Lages Alves
Antônio Newton Soares Timbó
Antonio Vieira de Araújo
Artur Pereira e Silva
Artur Wagner Vasconcelos Nery
Ary Silvério Reis de Souza
Carlos Alberto Soares
Carlos Maurício de Castro Costa
Cecília Braga de Azevedo
César Augusto de Lima e Forti
Clóvis Rodrigues Viana Filho
Diana de Sá Pereira Barreira
Edson Menezes da Nóbrega
Eleonora Pires de Almeida
Elenita Maria Pinheiro da Fonseca
Emanuel Ponte Frota Neves
Ercílio Guimarães do Nascimento
Fernando Antônio da Rocha Carvalho
Francisco Afrânio Gomes Pereira
Francisco Álvaro de Andrade Neto
Francisco de Assis Brandão Meireles
Francisco de Assis Martins
Francisco de Assis Negreiros Colares

185
PORTAL DE MEMÓRIAS

Francisco Daniel Neto


Francisco José Batista da Silva
Francisco Sisvilan de Morais Coimbra
Francisco Valdenor Barbosa
Frederico Augusto de Lima e Silva
Getúlio Nunes do Rêgo
Haroldo Heitor Ribeiro
Hugo Lopes de Mendonça Júnior
Imeuda Maria de Almeida Carvalho
Jorge Washington Rebouças Chagas
José Gilbert Angelim Rocha
José Hildebrando Guedes Montenegro
José Joaquim Oliveira Monte
José Leite Gondim Cavalcante
José Luiz da Paz
José Lustosa Elvas Parente
José Maria de Vasconcelos
José Nilo Dourado
José Pereira dos Santos
José Rocélio de Lima
José Roosevelt Norões Luna
José Tarcísio Diniz
José Tocantins Viana
José Vileimar Gonçalves
José Wilson Rocha
Jucionou Coelho Silva
Lúcia Maria de Alcântara
Luciano Alves Façanha
Luiz Arnaldo Rodrigues dos Santos
Maria Alice Pessoa de Magalhães
Maria Auxiliadora Bezerra
Maria Célia Ciarlini Teixeira
Maria de Fátima Vasconcelos Teixeira
Maria José Sales Calado
Maria Leni do Monte
Maria Lery Soares

186
Paulo Gurgel, um médico de letras

Maria Regina Saraiva Teixeira


Maria do Socorro Bezerra Barbosa
Maria do Socorro Madeiro Couto
Maria do Socorro Távora de Souza
Maria Tereza de Melo Cerqueira
Mário Mamede Filho
Maura Maria Araújo Bezerra
Maureen Schwartz
Melkon Fermanian
Miguel Nilton de Oliveira
Nelson José Cunha
Neusa de Melo Ferreira
Nilce de Matos Nunes
Noelma Pessoa de Magalhães
Núbia Martins
Otaviano Benevides de Alencar Araripe
Otoni Cardoso do Vale
Paulo Cid Torres da Silva
Paulo Gurgel Carlos da Silva
Raimunda Margarete de Oliveira Fichera
Raimundo Ozildo Rocha de Aragão
Raimundo Pereira de Queiroz Filho
Regina Alice Freire Coutinho
Roberto Barreto Marques
Roberto Bruno Filho
Roberto Misici
Sheila Machado Rolim
Silvio Roberto Aguiar do Nascimento
Sônia Maria Carneiro de Mesquita Lôbo
Vera Lúcia Benevides Leite
Vilani Oliveira Siqueira
Zélia Moreira de Oliveira

Fonte: Convite para as solenidades de formatura dos doutorandos de 1971.


Nomes conferidos no site do CFM.

187
PORTAL DE MEMÓRIAS

Posfácio

DE ORELHAS A APÊNDICE
No princípio, seriam as “orelhas”, mas para “o bem de todos
e felicidade geral dos leitores”, o texto mudou de lugar e se conver-
teu em posfácio, sem nenhuma rejeição ao transplante. Adaptar, “é
coisa nossa”, como enfatizava o júri do antigo programa de calouro
do Sílvio Santos. E assim, lá vem a saraivada de palavras, em honra
a um Gurgel, que não é parente de perto, mas é do mesmo tronco
familiar
Da mesma forma como “a história do livro se confunde, em
muitos aspectos, com a história da humanidade”, a história deste
livro tem muito a ver (perdão para o cacófaton) com a história de
vida do personagem central, no caso o médico/ literato/ artista
Paulo Gurgel Carlos da Silva, gente de bem, em todos os sentidos.
Se um livro é mais do que um produto, que tem como suporte
a informação, o que se dizer então deste livro que traz, nas suas
páginas, um breve canto lírico e épico, desnudando a vida do Paulo
Gurgel desde os seus verdes anos?
De começo, vale falar que o Paulo já nasceu embrulhado em
uma manta cristã, o que explica a sua intimidade com as coisas lá
de cima. “Quando Deus o desenhou, com certeza, Ele estava namo-
rando”. Essa é a certeza que se tem de que o Paulo foi concebido
por obra do casal Luiz e Elda, mas com a parceria do Espíto Santo
que abençoou sua chegada. Só estando o Senhor muito apaixonado,
para produzir um fruto dessa qualidade. Quem saiu ganhando nessa
história, não foi só o Criador, mas a criatura, que pôde, ao longo de
mais de sessenta anos, cumprir uma brilhante trajetória, com cenas
de lirismo e epopeia.

188
Paulo Gurgel, um médico de letras

As orelhas de um livro, não diferem muito das “conchas


auditivas situadas nas partes laterais da cabeça e pertencentes ao
ouvido”, segundo definição do mestre Aurélio. Se quando se está
feliz, o sorriso vai da ponta de uma à ponta da outra, o que dizer
então do conteúdo da publicação do “livro do Paulo”? Aí é que a
alegria se espalha, porque percorre o corpo inteiro, chegando a
inundar a cara da autora dos seus dias, dos seus irmãos de sangue
e dos muitos colegas e amigos que participaram da dita “epopeia
pauliana”, tão grandiosa, quanto heróica. Afinal, ser o primeiro de
uma série de 13 é mais do que um evento cabalístico, com direito
a maquinações. É uma responsabilidade que inclui a obrigação
de comer menos, para não deixar que os outros 12 comam menos
ainda. Mas isso é o que faz alguém se tornar herói. Vindo à frente
de “uma cambada de gente”, Paulo “deu duro” para transferir “a
los hermanos” valores confirmados pelos seus feitos guerreiros,
pelas suas atitudes decentes, pela sua verve extraordinária de sem-
pre transformar em limonada o limão mais azedo, colhido na beira
da estrada pela qual teve que percorrer.
O livro, de cabo a rabo, revela ser ele “um homem dos sete
instrumentos”, o que não quer dizer que desvendá-lo, seja um
“bicho de sete cabeças”. Como diz o ditado, “emprenha-se até pelas
orelhas”, mas, dessa vez, a concepção fica no miolo da publicação,
permitindo que se dê graças a Deus por esse ilustre passageiro da
história dos Gurgel Carlos da Silva, não por acaso viajante transitó-
rio, dessa caminhada terrena chamada vida, com parada no bairro
Otávio Bonfim, onde nasceu, cresceu e se fez “tocador de violão”,
cantando “pra lua” os seus desejos de “eterno apaixonado”, antes
que a Elba viesse se assenhorear dos seus sonhos. No meio de todo
esse caleidoscópio funcional, a combinação de imagens, tal como se
descreve no livro, não dispensa a viração do holofote para a figura
do Paulo, médico com carimbo de especialista em pneumologia,
conhecedor profundo da “asma”, donde ser ele, com base na origem
da palavra, um entusiASMAdo pela vida.

189
PORTAL DE MEMÓRIAS

A natureza foi pródiga com o Paulo Gurgel: deu-lhe o


encanto, a magia inigualável de cativar, e, o que foi melhor, pre-
miou-lhe com uma cabeça igual a do Santo Onofre e com um cora-
ção que bate feliz, como o do “Carinhoso” de Pixinguinha. É que os
sinos da Igreja das Dores continuam repicando dentro de sua alma.

Elsie Studart Gurgel de Oliveira

Referências bibliográficas sobre a família Gurgel Carlos


AMARAL, A.G. do – Na trilha do passado: genealogia da família
Gurgel. Fortaleza: Minerva, 1986. 292p.
OLIVEIRA, E.S.G.; OLIVEIRA, A.G.; SANTANA, C.S. (orgs.)
– Marcelo Gurgel em verso e anverso. Fortaleza: Expressão, 2003.
124p.
SILVA, M.G.C. da; ADEODATO, M.G.C. (orgs.) - Dos canaviais
aos tribunais: a vida de Luiz Carlos da Silva. Fortaleza: Edições
UECE, 2008. 192p.
SILVA, M.G.C. da - Otávio Bonfim, das dores e dos amores: sob o
olhar de uma família. Fortaleza: Edições UECE, 2008. 144p.
OLIVEIRA, E.S.G. - Sacoletras: um sacolão de consoantes, vogais,
pontos, vírgulas e .... . Fortaleza: Expressão, 2010. 220p.

190
Paulo Gurgel, um médico de letras

Registros fotográficos

Pais: Luiz e Elda. Foto da época do casamento

Paulo: sua foto mais


antiga (1949)

Paulo e Marta: infância em Otávio Bonfim. Marta faleceu aos 29 anos de


idade, deixando como descendente, de seu consórcio com João Evangelista,
o filho Leonardo Gurgel Carlos Pires, atual Promotor de Justiça no Ceará

191
PORTAL DE MEMÓRIAS

Aniversário do primogênito Paulo


na casa da Justiniano de Serpa

1ª Eucaristia: Paulo com os avós (e o bolo que


reproduzia a igreja de N.S. das Dores)

Mãe e filhos na casa da Domingos


Olímpio: Magna (nos braços de
Elda), Sérgio, Luciano, Germano,
Paulo, Marta, Márcia e Marcelo

192
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo: aluno
do Colégio Cearense

Paulo: acadêmico de medicina.


Férias no Sítio Catolé,
em Senador Pompeu

Paulo: formatura em
Medicina (dezembro
de 1971)

193
PORTAL DE MEMÓRIAS

Festa de casamento: Paulo e Elba fotografados


com Luiz e Elda, pais de Paulo

Paulo com Elba. O jovem casal


no Parque Adahil Barreto

Elba gestante sob a


assistência do médico
obstetra Eduardo Leite

194
Paulo Gurgel, um médico de letras

Érico, primeiro filho

Érico: Doutor do ABC pelo Colégio


Batista Santos Dumont (1991)

Érico no apartamento da JulioAzevedo

195
PORTAL DE MEMÓRIAS

Natália na casa da
Caio Cid (1991)

Natália: festa junina no


Colégio 7 de Setembro

Natália na festa de seus


15 anos (2005)

196
Paulo Gurgel, um médico de letras

Casamento de Érico
com Raíssa (2005)

Solenidade de colação de grau da UFC de 18/12/2008: o engenheiro mecânico


Érico fotografado com a esposa, os pais e a irmã nos jardins da Reitoria

Matheus passando em revista


o apartamento dos bisavós
Moacir e Zaíra (2010).
Rosy Mary fotografou.

197
PORTAL DE MEMÓRIAS

Bodas de ouro do casal Luiz-Elda: com filhos, genros, noras e um dos netos (1997)

Flagrante da inauguração da Sala de Pesquisa Jurídica


Dr. Luiz Carlos da Silva, na Justiça do Trabalho (2002)
Dentre os filhos do homenageado, formaram-se em Direito:
Sérgio, Magna, Luciano e José

198
Paulo Gurgel, um médico de letras

Paulo apresenta o livro “Marcelo Gurgel em


Verso e Anverso”, uma edição comemorativa
do duplo Jubileu de Prata de Marcelo:
25 anos de magistério e de medicina

Festa de despedida de Paulo no Hospital de Messejana (2007)

Paulo, Elba e Marcelo em recente


confraternização familiar (2011)

199
Rua João Cordeiro, 1285
(85) 3464.2222 • Fortaleza-CE
www.expressaografica.com.br

EDITORA
Um elemento fundamental, como ponto de partida dessa obra, foi o
curriculum vitae do Paulo Gurgel Carlos da Silva, que serviu para arrolar os
temas a serem tratados e definir os marcos principais da sua vida profissional,
cultural e afetiva. Também foi conduzida a busca bibliográfica para captar
verbetes e indicativos da sua vasta produção cultural.
No processo editorial, optou-se pelo recurso das entrevistas, sobretudo,
para cobrir componentes familiares, de caráter mais afetivo; da mesma forma,
para discorrer sobre alguns assuntos mais históricos, julgou-se por bem
instituir um capítulo montado a partir de bate-papos informais, envolvendo,
fraternalmente, o organizador e o perfilado.
A apreciação crítica, publicada ou inédita, acerca do intenso fazer literário
do Paulo Gurgel, põe a nu a sua relevância, demonstrando ser mais do que
suficiente para impressão de, pelo menos, quatro títulos.
Para romper com a monotonia comum em obras de caráter biográfico, foi
incluso um capítulo especial, reunindo dez “causos” pitorescos, com boa dose
hilariante, revelando um pouco do cotidiano pessoal e médico do homenageado,
acompanhados de charges brotadas do crayon do tradutor Jesper.
A obra enfeixa, no apêndice, a sinopse de seu curriculum vitae, os seus
principais marcos da vida, um rol de trabalhos publicados em meio impresso, a
lista de médicos da Turma Carlos Chagas e o posfácio.
Para quem quiser ver e ler, o livro sobre o Paulo Gurgel é fruto de uma
feliz parceria familiar, juntando mulher, filhos, irmãos etc., que contou com a
robusta participação de um seleto grupo de amigos e colegas do retratado.

Marcelo Gurgel