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DOSSIÊ

EDIÇÃO
COMEMORATIVA

ANA CRISTINA MENESES DE SOUSA


CLARISSA SOUSA DE CARVALHO
RAIMUNDO DUTRA DE ARAÚJO
na
ANA CRISTINA MENESES DE SOUSA
CLARISSA SOUSA DE CARVALHO
RAIMUNDO DUTRA DE ARAÚJO
(ORGANIZADORES)

Dossiê UESPI - 30 Anos

EDIÇÃO COMEMORATIVA

TERESINA/PI
FUESPI
2017
Expediente
ADMINISTRAÇÃO CONSULTORES AD HOC Edição Comemorativa
UESPI 30 Anos
Nouga Cardoso Batista Ana Célia de Sousa Santos
Reitor Bárbara Olímpia Ramos de Melo Volume Único/ Dezembro de 2017
Bárbara Olímpia Ramos de Melo Cristiana Costa da Rocha ISBN - 978-85-8320-204-2
Vice-Reitora Cristiane Portela de Carvalho
Dalva Stella Ferreira Dantas COORDENADORA
Ailma do Nascimento Silva DO COMITÊ EDITORIAL
Francielle Alline Martins
Pró-Reitora de Ensino e Graduação
Igor Dreidy de Sousa Moraes
Eliene Maria Viana de Figueirêdo Pierote Ana Cristina Meneses de Sousa
Jaqueline da Silva Torres Cardoso
Pró-Reitora Adjunta de Ensino e Graduação Kelson Nonato Gomes da Silva
Geraldo Eduardo da Luz Júnior Leonardo Davi Gomes de Castro ORGANIZADORES DO DOSSIÊ
Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Lina Maria Santana Fernandes
Ana Cristina Meneses de Sousa
Raimundo Dutra de Araújo Margareth Torres de Alencar Costa
Clarissa Sousa de Carvalho
Pró-Reitor de Extensão, Assuntos Maria do Socorro Baptista Barbosa
Raimundo Dutra de Araújo
Estudantis e Comunitários Mirian Perpétua Palha Dias Parente
Raimundo Dutra de Araújo
Raimundo Isídio de Sousa REVISÃO DOS TEXTOS
Raimundo Isídio de Sousa
Pró-Reitor de Administração e Recursos
Humanos Rauirys Alencar de Oliveira Raimundo Isídio de Sousa
Ricardo Vernieri de Alencar
Rosineide Candeia de Araújo
Rosália Maria Carvalho Mourão PROJETO GRÁFICO
Pró-Reitora Adjunta de Administração
Roselis Ribeiro Barbosa Machado E DIAGRAMAÇÃO
Recursos Humanos
Samária Araújo Andrade
Joseane de Carvalho Leão Sônia Maria de Araújo Campelo Carlos Augusto Federico
Pró-Reitora de Planejamento e Finanças Mara Vanessa Torres
Valdirene Gomes de Sousa

Dossiê UESPI – 30 anos / organizadores Ana Cristina Meneses de


D724 Sousa, Clarissa Sousa de Carvalho, Raimundo Dutra de
Araújo. – Teresina, PI : Fundação Universidade Estadual do
Piauí, 2017.
244 p.

Edição comemorativa.
ISBN 978-85-8320-204-2

1. Educação. 2. Extensão. 3. Pesquisa. 4. Linguagens. 5.


Linguagens. 6. UESPI. I. Sousa, Ana Cristina Meneses de. II.
Carvalho, Clarissa Sousa de. III. Araújo, Raimundo Dutra de.

CDD: 378.8122

Ficha elaborada pelo Serviço de Catalogação da Universidade Estadual do Piauí – UESPI


Débora Araújo Machado Teixeira (Bibliotecária) – CRB3/1075
EDITORIAL ............................................................................................................. 4
DOSSIÊ UESPI 30 ANOS ......................................................................................... 5
UMA ANÁLISE DOS PROJETOS POLÍTICO-PEDAGÓGICOS .......................... 5
HISTÓRIA E MEMÓRIA DO ENSINO DE ENFERMAGEM ............................ 14
CAMPUS PROFESSOR ANTÔNIO GIOVANNE ALVES DE SOUSA ................ 25
ESTRATEGIA DIDÁCTICA PARA RENOVAR.................................................... 35
TRAÇOS DA EXPANSÃO E INTERIORIZAÇÃO ................................................ 44
ENFERMAGEM EM TERESINA ......................................................................... 54
PELAS MARGENS ................................................................................................. 64
OS 15 ANOS DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL ..................................... 77
A UESPI FRUTO DA LUTA DOS DOCENTES .................................................... 88
A CAPOEIRA COMO PRÁXIS PEDAGÓGICA ..................................................... 99
CLIMA ORGANIZACIONAL ............................................................................. 108
PIBID/ 2011-2016 ................................................................................................... 123

OUTROS TEMAS ................................................................................................. 130


FATORES EXTRÍNSECOS E NÍVEL DE INDEPENDÊNCIA ........................ 130
CATALOGAÇÃO E DIGITALIZAÇÃO DA DOCUMENTAÇÃO........................ 139
SÍNDROMES DE POLINIZAÇÃO E DE DISPERSÃO ...................................... 148
DAS TEORIAS ÀS PRÁTICAS ............................................................................. 160
OS GÊNEROS TEXTUAIS NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA .......... 169
APLICABILIDADE DA FENITOÍNA ................................................................. 180
RELAÇÃO ENTRE O USO DE CATETER ......................................................... 187
ACIDENTES DE TRAB. COM MATERIAIS PERFUROCORTANTES ........... 199
TRABALHOS DA ADMINISTRAÇÃO DE INFORMAÇÕES ............................ 208
ESTUDO SOBRE PRÁTICAS DE PESQUISA .................................................... 218
BUMBA-MEU-BOI NAS ESCOLAS ................................................................... 227

RESENHAS .......................................................................................................... 237


ENTRE O SUJEITO, A ESCRITA E A MEMÓRIA ............................................. 237
MUTAÇÃO NO JORNALISMO ........................................................................... 242
É com imensa alegria e satisfação que entregamos ao público esse Dossiê, resultado
da Programação Alusiva ao 30° Aniversário da UESPI e da vontade de reunir artigos, resenhas
e relatos de experiências que mostrassem a variedade de nossas pesquisas e estudos. O
presente Dossiê é fruto de um trabalho que reuniu professores, discentes, técnicos e ex-alunos
da Instituição em torno de quatro temáticas principais: Ensino; Pesquisa; Extensão;
Inovações tecnológicas e científicas.
Os textos ora apresentados tanto no Dossiê como em Outros Temas somam um painel
sobre a diversidade de temáticas que circulam na nossa IES, que a tornam emblemática e com
um DNA especial: a liberdade intelectual caracterizada pela variedade de ideias, teorias e
práticas que revigoram a cada dia e tornam-se capilares em nosso cotidiano acadêmico.
Sabemos que não somente as temáticas ora apresentadas caracterizam a riqueza intelectual de
nossa Universidade, o que ainda nos deixa mais vaidosos, principalmente diante da
comemoração de 30 anos da nossa instituição, que apesar de jovem já apresenta frutos
maduros e significativos, não ficando a dever a nenhuma outra instituição de ensino superior.
É nesse clima de entusiasmo e comemoração que afirmamos que dos 32 textos
recebidos, 26 foram avaliados pertinentes ao nosso intento principal, que foi o de fazer um
mapeamento intelectual de nossas produções acadêmicas, diante da comemoração dos 30
anos da UESPI. Esse mapeamento foi distribuído em três seções principais. Dossiê UESPI 30
anos, que conta com artigos que realizam avaliações, panoramas históricos, impactos
administrativos, lutas e conquistas, entre outras questões pertinentes à nossa instituição. Na
seção Outros Temas, constam artigos que não foram contemplados no Dossiê, mas são
igualmente importantes para mostrar o mosaico de riqueza intelectual que circula em nossa
IES. Além dessas duas seções, temos ainda as Resenhas de livros de professores da Instituição.
Todos os textos enviados foram avaliados por pareceristas ad hoc competentes na área de cada
temática. Ainda na finalização, com relação à revisão ortográfica e gramatical, contamos com a
contribuição valorosa e eficiente do professor Raimundo Isídio de Sousa.
Queremos finalizar fazendo um convite aos leitores, que leiam nossos escritos frutos de
nossos estudos e pesquisas, dos embates com as teorias e as metodologias. Talvez essa forma
de “consumo” seja a mais importante em face das comemorações de 30 anos de nossa IES, pois
a leitura é uma atividade de recepção e de reapropriação transformadora dos nossos sentidos e
percepções. Dessa forma, nada melhor que festejar em meio às nossas experiências
acadêmicas, pois ao tempo em que nos analisamos vamos entendendo melhor nossas metas e
sentidos dentro de um horizonte de expectativas para outros 30 anos.

A Comissão Organizadora

Dra. Ana Cristina Meneses de Sousa


Ma. Clarissa Carvalho
Dr. Raimundo Dutra de Araújo

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Dossiê UESPI 30 Anos

UMA ANÁLISE DOS PROJETOS POLÍTICO-PEDAGÓGICOS DO CURSO DE


LICENCIATURA PLENA EM LETRAS INGLÊS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO
PIAUÍ –UESPI – DESDE SUA CRIAÇÃO ATÉ OS DIAS ATUAIS

1
Ana Karolinna Pereira de Oliveira

1
Aluna do Curso de Letras/Inglês, cursando o 8º período. E-mail: anakarolinna0803@gmail.com ou
anakarolinna0308@hotmail.com

RESUMO
Esta pesquisa analisou as várias mudanças ocorridas nos Projetos Político-Pedagógicos no curso de
Licenciatura Plena em Letras Inglês da Universidade Estadual do Piauí, desde seu primeiro currículo em 1986
até o de 2013. A análise partiu para os problemas, por que saber como surgiu o curso? Quando surgiu? Por que
surgiu? Quais as mudanças aconteceram? Os dados analisados foram as semelhanças e diferenças entre os
Projetos Político-Pedagógico de 1985, 1995 e 2013 e as mudanças que ocorreram a cada um deles no decorrer
dos anos. Sobre essas mudanças, foram entrevistados 2 (dois) dos professores mais antigos do curso.

Palavras-Chave: Projetos Político-Pedagógicoss. UESPI. Curso de inglês.

ABSTRACT
This research analyzed several changes occurred in the English Bachelor of Art Course at Universidade
Estadual do Piauí. The Projetos Político Pedagógico of English Course, from 1986 to 2013, were analyzed. The
analysis came from the following questions: Why do we need to know how the Course appeared? When did it
start? Why did it come about? What changes happened? The data analyzed were the similarities and differences
between the Projetos Políticos Pedagógicos of 1986, 1995 and 2013, the changes which happened to each one
over the years. About this changes 2 (two) older professors of the Course were interviewed.

Keywords: Projetos Político-Pedagógico. UESPI. English Course

1 INTRODUÇÃO Para a criação do curso de Letras, o CESP


observou, naturalmente, toda a legislação federal
A Universidade Estadual do Piauí é uma pertinente a que está sujeito, tendo no eixo de suas
instituição de ensino superior pública estadual, com perspectivas a preocupação maior com a formação
sede na cidade de Teresina, capital do Estado do do Educador. (FADEP, 1985)
Piauí, mantida pela Fundação Universidade Estadual O curso foi criado originalmente com o no-
do Piauí (FUESPI). me de Licenciatura Plena em Letras – Habilitação
O Curso de Letras, pretendido pela FADEP, em Língua Inglesa e Literatura da Língua Inglesa.
deseja formar recursos humanos criativos, críticos, Os objetivos do curso são formar um (a)
responsáveis, livres e dialógicos capazes de transfor- profissional em Letras, com habilitação em Língua
mar, como agentes de mudança pedagógico/didático Inglesa, capaz de atuar em equipes multidisciplina-
/social, a realidade em que atuam. res, técnico-científicas, de forma interdisciplinar,

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Dossiê UESPI 30 Anos

em atividades inerentes à sua prática, na educação feitas no momento em que o fato ou fenômeno
pública e privada, através de atitudes crítico reflexi- ocorre, ou depois. (LAKATOS; MARCONI, 2003,
vas, no campo de atuação da prática profissional. p.174). A coleta de dados desta pesquisa são extratos
Desse modo o egresso deve estar capacitado para o de documentos sobre o curso, e entrevistas com 2
exercício profissional pautado em valores humanos, dos professores mais antigos do curso.
éticos e sociais, trabalhando, sempre que possível,
com temas transversais que primem pela valorização 2 O CURSO DE LETRAS INGLÊS DA UESPI:
dos direitos humanos. (BARBOSA, et al. 2013, p. 63) DO SURGIMENTO ATÉ OS DIAS ATUAIS
O surgimento dos Projetos Político-Pedagó-
gicos e as mudanças que ocorreram com eles no Os primeiros passos concretos para a criação
decorrer do curso de Licenciatura Plena em Letras da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), com
Inglês da Universidade Estadual do Piauí são nosso sede em Teresina no Estado do Piauí, foram dados
objeto de estudo. Mas, por que saber como surgiu o em 1984, por meio da Lei Estadual nº 3.967, que
curso? Quando surgiu? Por que surgiu? Quais as instituiu a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento
mudanças que aconteceram? Para conhecermos os da Educação do Estado do Piauí – FADEP, entidade
Projetos Político-Pedagógicos do curso e saber quais mantenedora do Centro de Formação de Recursos
mudanças ocorreram, por que elas ocorreram e Humanos para o ensino da rede pública estadual em
como ocorreram. Esta análise pode ter grande nível superior, Centro de Teleducação, Centro de
relevância ao estudar a história da UESPI, a origem Pesquisa. Em 1985, através do Decreto Federal nº
de seus cursos. 91.851, foi autorizado a funcionar o Centro de
Esta pesquisa teve como objetivo geral Ensino Superior, com os cursos de Pedagogia –
compreender como o curso de Licenciatura Plena em Habilitação Magistério, Ciências – Habilitação em
Letras Inglês da Universidade Estadual do Piauí Matemática e Biologia, Letras – Habilitação em
surgiu e as mudanças que ocorreram nos Projetos Português e Inglês e respectivas literaturas e
Político-Pedagógicos do curso no decorrer do tempo administração.
e, como objetivos específicos, conhecer a história do No ano seguinte, em 1986, realizou-se o
curso de Licenciatura Plena em Letras Inglês da
primeiro vestibular para os cursos de Licenciatura
Universidade Estadual do Piauí; analisar as várias
Plena em Pedagogia: Magistério, Ciências Biológi-
disciplinas que existem e que existiram no curso;
cas, Matemática, Letras/Português, Letras/Inglês e
identificar as mudanças ocorridas em todos os
Bacharelado em Administração, totalizando 240
Projetos Político Pedagógicos do curso.
vagas. Com uma estrutura de cursos superiores já
A pesquisa documental compreende ao em funcionamento, o Poder Executivo Estadual
levantamento de documentos que ainda não foram aprova a Lei nº 4.230/88 com o objetivo de criar as
utilizados como base de uma pesquisa. Os documen- condições necessárias para instalação da Universi-
tos podem ser encontrados em arquivos públicos, ou dade Estadual do Piauí – UESPI. Em 1989, é
de empresas particulares, em arquivos de entidades aprovado o primeiro Estatuto da Universidade
educacionais e/ou científicas, em arquivos de
Estadual do Piauí. Em 1992, foi aprovado o Plano de
instituições religiosas, ou mesmo particulares, em
Carreira e realizou-se o 1º concurso público para
cartórios, museus, videotecas, filmotecas, corres-
docente do CESP – Centro de Ensino Superior do
pondências, diários, memórias, autobiografias, ou
Piauí e, consequentemente, o enquadramento dos
coleções de fotografias. (MEDEIROS, 2006, p. 46).
professores que se encontravam no CESP, remanes-
A característica da pesquisa documental é centes dos quadros da Secretaria Estadual da
que a fonte de coleta de dados está restrita a Educação, Secretaria da Administração, Fundação
documentos, escritos ou não, constituindo o que se CEPRO.
denomina de fontes primárias. Estas podem ser

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Dossiê UESPI 30 Anos

Em 1993, através de Decreto Federal, a De acordo com professora Dra. Maria


Universidade foi autorizada a funcionar como uma Eldelita (1ª coordenadora na modalidade presenci-
Instituição multicampi e a sequência histórica se deu al), o MEC havia autorizado o funcionamento do
com o surgimento gradativo de cursos e de campi, no curso em 1986, ele já havia sido estruturado, as
inte-rior do Estado. Nesse ano, houve o primeiro disciplinas determinadas na grade curricular. O
concurso público para professor efetivo. (UESPI, curso era inovador, considerado um dos melhores
1984) do país, que se alinhava com os das universidades do
A Universidade Estadual do Piauí – UESPI Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Com o passar do
oferece, desde 1986, através do Centro de Ciências tempo, notou-se a necessidade de fazer algumas
Humanas e Letras – CCHL, o Curso de Licenciatura mudanças, devido ás demandas do MEC e da
Plena em Língua Inglesa e Literaturas da Língua sociedade.
Inglesa, comumente denominado pela comunidade O professor Especialista Antônio Francisco,
acadêmica de Letras Inglês, formando profissionais assim como os primeiros professores do curso, veio
que atuarão no ensino fundamental e médio do transferido através da Secretaria de Educação do
sistema educacional brasileiro.
Estado do Piauí. Durante estes anos, como professor
O curso de Letras Inglês teve seu funciona- do curso, houve várias mudanças significativas,
mento autorizado para ser ministrado pelo CESP – como alteração de carga horária e inserção de
Centro de Ensino Superior do Piauí, mantido pela disciplinas, antes inexistentes.
FADEP – Fundação de Apoio ao Desenvolvimento
da Educação do Estado do Piauí, pelo decreto do 3 PROJETOS POLÍTICO PEDAGÓGICOS
Conselho Estadual de Educação no C.E.E. 43/85, de
29 de agosto de 1985, e também pelo Decreto Federal 3.1 O Projeto Político-Pedagógico (PPP) de
no 91.851, de 30 de outubro de 1985. A portaria 1985
ministerial nº 452, de 18 de março de 1991,
reconhece o Curso de Letras/Língua Inglesa e O curso Licenciatura Pleno em Letras Inglês
Literaturas da Língua Inglesa (BARBOSA, et al. da Universidade Estadual do Piauí foi criado devido
2013, p. 6). a uma necessidade de atender a demanda do
O curso de letras inglês também é oferecido mercado de trabalho, já que o curso de Letras da
na modalidade EaD. Desde 2010, é ofertado em 6 Universidade Federal do Piauí ainda não conseguia
(seis) polos (Monsenhor Gil, Piracuruca, Piripiri, atender, uma vez que aquela IES oferecia,
São João do Piauí, Simões e Simplício Mendes. O anualmente, apenas 70 (setenta) vagas, número
coordenador desta modalidade do curso é o profes- ínfimo em relação ao quantitativo de professores
sor Dr. Evaldino Canuto de Souza. que atuam nas escolas de 1º e 2º Graus.
O Curso de Licenciatura Plena em Letras In- Outro fator que agravou, ainda mais, o
glês da UESPI, na modalidade de Ensino a Distância, quadro é o regime escolar adotado na UFPI (sistema
é responsável pela formação e qualifica-ção de de créditos) que, dentre outros aspectos negativos,
professores para a rede de ensino do Estado do Piauí contribui para uma maior permanência do discente
que tenham consciência do seu papel como na Instituição, em razão da sua necessidade de
colaboradores do processo de aprendizagem. Além trabalho, consequência e da situação socioeconô-
disso, forma profissionais críticos, com visão
mica do meio.
holística de mundo e cidadãos éticos, capazes de
produzir, criar, investigar nas mais diferentes linhas No currículo original do curso, existiam 40
de pesquisa que o curso oferece, afim de que ele seja disciplinas divididas em 08 blocos com carga
um profissional multiplicador de ações e atitudes, horária de 2.460, a serem completadas em um
comprometido com o ensino de inglês de qualidade mínimo de 4 (quatro) anos e no máximo 8 (oito)
(NEAD, 2016). anos de acordo com o Projeto Político Pedagógico

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Dossiê UESPI 30 Anos

1985 (FADEP; CESP, 1985), e estavam divididas da 3.2 O Projeto Político-Pedagógico (PPP) de
seguinte forma: 1995

I. Disciplinas relacionadas com o conhecimento Em 1996, o currículo do curso de Letras/In-


da realidade: glês sofreu sua primeira reforma, sendo
estabelecido que a partir da aprovação da proposta
ü Metodologia Científica
de reformulação curricular, algumas mudanças
ü Sociologia ocorreriam, como:
ü Cultura dos Povos de Língua Inglesa
ü Alteração no sistema de provas do vestibular.
ü Teoria das Comunicações
Prova específica com uma abordagem mais
II. Disciplinas voltadas para a Origem e Estudo ampla e mais profunda dos conteúdos.
da Língua:
ü O livro texto (Blue Print) utilizado nas
ü Língua Inglesa – I a V disciplinas Língua Inglesa I, II, III e IV passou
ü Língua Latina do nível básico para o intermediário.
ü Linguística ü Disciplinas como Listening e Speaking,
ü Linguística Aplicada ao Ensino de Inglês Técnica de Tradução e Crítica Literária ausentes
na grade curricular, foram inseridas no novo
III. Disciplinas voltadas para a Gramática e currículo.
Redação:
ü Exclusão de alguns conteúdos optativos do
ü Língua Portuguesa – I a IV
currículo para que fossem acrescentados
ü Língua Inglesa – V a XII conteúdos que são indispensáveis ao bom
IV. Disciplinas voltadas para a Literatura: desempenho do professor de inglês.

ü Teoria da Literatura
Entrando em vigor em 1997, onze anos após
ü Literatura Portuguesa o início do curso, esse currículo, de acordo com
ü Literatura Brasileira – I a II Fernandes et al (1996), continha 2.580 horas,
divididas em 8 (oito) blocos, com tempo mínimo de
ü Literatura de Língua Inglesa – I a IV integralização em 4 (quatro) anos e tempo máximo
VI. Disciplinas voltadas para a instrumen- em 8 (oito) anos, e, em um projeto no qual não há
talização do processo ensino-aprendizagem uma definição clara das disciplinas por área de
(formação pedagógica): conhecimento, era assim estruturado:
ü Fundamentos éticos da educação Bloco 01:
ü Filosofia da Educação ü Introdução à Metodologia Científica - 60 h/a
ü Teoria da Literatura - 60 h/a
ü Psicologia da Educação
ü Língua Portuguesa I (Morfossintaxe) - 60 h/a
ü Didática ü Inglês Instrumental - 60 h/a
ü Metodologia do Ensino de Língua Inglesa ü Filosofia da Educação - 60 h/a
ü Prática de Ensino. Bloco 02:
ü Língua Portuguesa II (Redação) - 60h/a
Em 1986, disciplinas do curso eram voltadas ü Literatura Brasileira I - 60 h/a
mais para o ensino de Língua Portuguesa e ü Sociologia Geral - 60 h/a
Literatura e poucas disciplinas eram, realmente, ü Língua Inglesa I (Prática Oral) - 90 h/a
voltadas ao ensino de Língua Inglesa. ü Fundamentos Éticos da Educação - 30 h/a

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Dossiê UESPI 30 Anos

Bloco 03: algumas disciplinas importantes, como Técnicas de


ü Linguística I - 60 h/a Tradução e Crítica Literária, diminuiu a quantidade
de disciplinas de língua portuguesa, e colocou em
ü Literatura Brasileira II - 60 h/a
um único semestre todas as horas de estágio
ü Língua Inglesa II (Prática Oral) - 60 h/a
supervisionado, reduzidas de 400 (quatrocentas)
ü Listening - 60 h/a
para 300 (trezentas) horas (BARBOSA et al, 2013, p.
ü Língua Latina I - 60 h/a B
3-4).
Bloco 04:
ü Literatura Portuguesa - 60 h/a 3.3 As reformas do Projeto Político-
ü Cultura dos Povos de Língua Inglesa - 60 h/a Pedagógico (PPP) de 2003
ü Linguística Aplic. ao Ensino de Inglês - 60 h/a
Em 2003, surgiu a necessidade de uma nova
ü Reading I - 60 h/a
reforma a partir de um questionamento feito pela
ü Speaking - 60 h/a
comunidade acadêmica acerca da separação das
Bloco 05: disciplinas de língua inglesa em disciplinas bem
ü Estrutura e Funcionamento da Educação específicas com relação à habilidade a ser enfatiza-
Básica - 60 h/a da. Entendendo que Listening (audição) e Speaking
ü Literatura de Língua Ing. I (Inglesa) - 60 h/a (fala) são duas habilidades indissociáveis, não fazia
ü Writing I - 60 h/a sentido estudá-las de forma separada. Assim é que,
seis anos após a primeira reformula-ção, surge o
Bloco 06:
terceiro fluxograma do curso de Letras Inglês, que, a
ü Didática - 60 h/a partir de anseios dos estudantes e dos professores
ü Fonética e Fonologia da Língua Ing. - 60 h/a do curso, passa por reajustes tanto na carga horária
ü Reading II - 60 h/a quanto em conteúdo.
ü Literatura da Língua Ing.II (Inglesa) -60 h/a Essa proposta curricular, que passou a
ü Psicologia da Educação - 60 h/a vigorar em 2004, seguiu as orientações e
ü Morfologia da Língua Inglesa - 60 h/a recomendações contidas nos pareceres CNE/CES
ü Writing II - 60 h/a 492/2001 e 1363/2001 e nas Resoluções CNE/CP 2,
Bloco 07: de 19 de fevereiro de 2002 que institui a duração e a
carga horária dos cursos de licenciatura, de
ü Met. do Ensino de Língua Ing.- 60 h/a
graduação plena, de formação de professores da
ü Lit.de Língua Inglesa III (Americana) - 60 h/a
Educação Básica em nível superior. Seguiu também
ü Sintaxe da Língua Inglesa - 60 h/a
a Resolução CNE/CES18 de 13 de março de 2002
ü Writing III - 60 h/a
que estabelece as Diretrizes Curriculares para os
ü Técnicas de Tradução - 60 h/a
Cursos de Letras. Esse currículo também não
Bloco 08: trabalha com a figura do pré-requisito, mas se utiliza
ü Lit. de Língua Inglesa IV (Inglesa) - 60 h/a de um mecanismo previsto no Artigo 48 do Regi-
ü Li. da Língua Inglesa V (Americana) - 60 h/a mento Geral da UESPI para permitir que alunos
reprovados em até 4 (quatro) disciplinas possam dar
ü Prática de Ensino I / II - 300h/a
continuidade ao curso, a flexibilização. (BARBOSA
ü Crítica Literária - 60 h/a
et al, 2013, p. 5-6)

Esse currículo eliminou a figura do pré-


requisito, separou o estudo das quatro habilidades
do aprendizado de língua estrangeira, introduziu

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Dossiê UESPI 30 Anos

3.4 As reformas do Projeto Político- possibilidade de inclusão de uma nova habilitação.


Pedagógico (PPP) de 2008 Assim é que surge esse projeto que, acredita-se,
cumpre todos os requisitos para a construção de um
Em agosto de 2008, com a mudança de curso atualizado e coerente com a realidade em que
coordenação do curso de Letras / Inglês, foi se insere. (BARBOSA, et al. 2013, p. 10)
convocada uma reunião na qual se formou uma
comissão para a reestruturação do Projeto Político 3.6 O Projeto Pedagógico de Curso (PPC) de
Pedagógico do curso, levando em conta que o projeto 2013
então em vigor ainda não cumpria algumas
determinações das Diretrizes Nacionais Curricula- Percebendo-se a necessidade de uma nova
res dirigidas aos cursos de Licenciatura, além de se estruturação do curso, para que o mesmo ficasse, de
encontrar desatualizado no que concernem as fato, bem posicionado diante das novas exigências
disciplinas da área de literatura, uma vez que do mundo globalizado, lança-se, assim, esse projeto
trabalhava o ensino de literatura de língua inglesa de com as seguintes alterações, abaixo listadas, a serem
forma cronológica e centralizada nos países que colocadas em prática a partir do 1º semestre de
deram origem ao idioma e o divulgaram para o resto 2014:
do mundo, ou seja, Inglaterra e Estados Unido,
esquecendo que há toda uma literatura que não é ü Sai a disciplina Introdução à Metodologia
mencionada e muito menos estudada, já que a língua Científica, uma vez que já existem 3 (três) outras
inglesa não é a primeira língua apenas nestes países, disciplinas referentes à pesquisa. Além disso, inclui-
mas em muitos outros. se, nesse projeto, um pequeno manual de elabora-
ção dos trabalhos escritos mais frequentemente
Além disso, percebia-se um distanciamento
solicitados por professores, como resenhas,
muito grande entre disciplinas correlatas, o que
esquemas, fichamentos, resumos, e outros, a fim de
causava estranhamento por parte do alunado, que às
que haja padronização na formatação dos mesmos,
vezes não percebia a relação entre uma disciplina do
seguindo as normas mais atuais da ABNT;
Bloco I e outra disciplina que esteja colocada no
Bloco V. Assim, foi necessário empreender uma
ü Entendendo a importância crucial do
mudança mais profunda, que atualizasse o currículo
conheci-mento de fonética e fonologia, introduz-se
e que o tornasse mais atrativo ao estudante, mais
no primeiro bloco a disciplina Introdução à Fonética
coerente com as novas correntes teórico-metodoló-
e Fonologia de Língua Inglesa, com carga horária de
gicas e que melhor preparasse o (a) aluno (a) do
30 (trinta) horas, que servirá de base introdutória
Curso de Letras / Inglês para a vida profissional.
para a disciplina Fonética e Fonologia da Língua
(BARBOSA et al, 2013, p. 7). Em 2009 o curso passou
Inglesa, que passa a ser ofertada no terceiro bloco
por outra reformulação, que foi aprovada pela
com 90 (noventa) horas;
CEPEX e teve se funcionamento autorizado pelo
Conselho de Educação Estadual. (BARBOSA, et al.
ü As disciplinas Prática de Ensino I e II
2013, p. 12
passam a chamar-se, respectivamente, Estágio
Supervisio-nado I e II, cumprindo o que estabelece a
3.5 A s reformas do Projeto Pol ític o-
Lei 11.788, de 25 de setembro de 2008, mantendo a
Pedagógico (PPP) de 2011
. carga horária de 200 (duzentas) horas cada;
Em 2011, por convocação do Departamento
ü A disciplina Latim, ofertada no Bloco II, é
de Apoio Pedagógico – DAP, fez-se necessária a
tirada do curso, e em seu lugar coloca-se a disciplina
elaboração de um novo PPP considerando diversas
Evolução Histórica da Língua Inglesa, entendendo
leis, pareceres e resoluções ainda não totalmente
que, embora a Língua Latina seja importantíssima
contempladas no projeto em vigor, além da possibili-

10
Dossiê UESPI 30 Anos

para o falante do português, sua relevância não é tão apresentadas no item 9.1, quando será discutida a
grande para o estudioso de língua inglesa, que grade curricular tanto da habilitação básicas como
precisa, muito mais do que conhecimentos de Latim, das outras possíveis habilitações;
ter conhecimento sobre as origens e a evolução do
idioma que estuda. ü Atendendo à Resolução CNE/CP nº 2, de 19
de fevereiro de 2002, implanta-se no Curso de
ü Atendendo aos anseios dos alunos e da
Letras Inglês as disciplinas de Prática Pedagógica,
sociedade piauiense e considerando o que determina
com carga horária total de 400 (quatrocentas)
a Resolução CNE/CP nº 1, de 18 de março de 2011,
horas.
decidiu-se implementar a opção de 3 (três) novas
habilitações no curso de Letras Inglês, o que ü A disciplina Técnicas de Tradução, atual-
certamente qualificará melhor os estudantes que mente no 7º Bloco, com 60 (sessenta) horas, passa a
decidirem completar o curso com uma segunda denominar-se Introdução aos Estudos de Tradução,
habilitação. mantém a carga horária de 60 horas e é ofertada no
5º Bloco;
Serão ofertadas, assim, as seguintes opções
de habilitação: 1. Letras Inglês, já ofertada, a ü A disciplina Linguística Aplicada, de 90
habilitação básica e obrigatória; 2. Letras Inglês e horas, divide-se em duas disciplinas de 60 horas,
Tradução, considerando o imenso mercado de sendo a primeira ofertada no 5º Bloco para todas as
trabalho que existe hoje no país para tradutor, e habilitações, e a segunda ofertada no 6º Bloco
entendendo que a habilitação básica prepara de somente para a Habilitação IV;
modo bem elementar o estudante para exercer essa
função; 3. Letras Inglês e Estudos Literários, ü No caso de formar turmas das habilitações
entendendo que a literatura é uma arte universal, e ofertadas, sendo que cada turma deverá ter um
que o professor de Língua Inglesa do Ensino Médio mínimo de 8 (oito) alunos (as), as disciplinas de
pode também inserir textos literários em sua sala de Pesquisa passam a ser ofertadas a partir do 8º Bloco,
aula, torna-se necessário um conhecimento mais seguindo até o 10º.
crítico e aprofundando acerca do assunto; além
ü A partir do 6º Bloco, haverá a oferta
disso, por conta da necessidade de estudar autores
simultânea das 04 (quatro) habilitações, sendo que
clássicos de língua inglesa nas disciplinas existentes
as disciplinas em comum serão ofertadas no mesmo
na habilitação padrão, fica em falta a discussão
horário, havendo diferença nas disciplinas
acerca das novas formas de estudar literatura, nas
específicas de cada habilitação.
suas relações com a sociedade e com outras áreas do
conhecimento, o que justifica a inclusão de mais ü Atendendo ao Decreto nº 5.626, de 22 de
horas de estudo sobre essa arte; é preciso considerar, dezembro de 2005, que regulamenta a Lei nº
também, que esta IES oferece um curso de pós- 10.436, que dispõe sobre a Língua Brasileira de
graduação Stricto Sensu em Letras cuja área de Sinais — LIBRAS, mantém-se no curso de Letras
concentração é Literatura, Memória e Cultura, a Inglês uma disciplina sobre o assunto (LIBRAS),
oferta dessa nova habilitação proporcionará ao com 60 horas, a fim de familiarizar o (a) futuro (a)
estudante melhores condições de concorrer ao professor (a) de Língua Inglesa com essa linguagem
mesmo; 4. Letras Inglês e Linguística, compreen- bem como com a história de seu uso com o intuito de
dendo a enorme relevância que os estudos linguísti- melhor capacitá-lo (a) a exercer sua profissão.
cos tem para o ensino-aprendizado de um idioma
estrangeiro, acredita-se que mais conheci-mento e ü Desde 2003, com a sanção da Lei 10.639,
preparo nessa área pode levar o futuro professor de o ensino da história e da cultura afrobrasileira e
Língua Inglesa a melhor exercer sua função. As africana se tornou obrigatório nas escolas de todo o
normas para acesso a essa segunda habilitação serão país, inclusive no Ensino Superior. Em 2008,

11
Dossiê UESPI 30 Anos

a Lei 11.645 somou a esse conteúdo a obrigatorieda- Nestes 30 anos do curso de inglês, ocorre-
de da história e cultura indígena nos currículos. ram muitas mudanças, principalmente, nas
Entendendo a importância das leis, mas percebendo disciplinas. Algumas deixaram de existir, por serem
também as especificidades de um curso de Letras irrelevantes para o curso, outras tiveram seus
voltado exclusivamente para o ensino-aprendiza- ementários modificados, ou apenas migraram para
gem da Língua Inglesa e de suas literaturas, bem outros blocos. Mas também surgiram novas
como das culturas dos povos que utilizam esse disciplinas, para o curso poder acompanhar a as
idioma como língua materna ou língua oficial, transformações que ocorreram.
decidiu-se, em vez de incluir a disciplina “História da O corpo docente e discente sentiu que as
Cultura Afro-Brasileira e Indígena”, acrescentar, nas rápidas transformações que ocorreram na socieda-
ementas das disciplinas de cultura e literatura, de, na educação e tecnologia em geral, o curso de
aspectos da cultura africana e / ou afro-estaduniden- Letras/Inglês necessitava de alguns ajustes tanto na
se, bem como características da cultura indígena dos sua carga horária quanto no seu conteúdo, para que
países de língua inglesa, como Canadá e Estados o mesmo pudesse acompanhar este desen-
Unidos. volvimento sem prejuízo para os egressos desta
universidade. (BARBOSA, et al. 2013, p. 12)
ü Considerando a importância adquirida
Desde sua criação, o curso sofreu várias
pelas tecnologias de informação e comunicação
mudanças, a primeira foi em 1996, 10 (dez) anos
presentes no dia a dia dos jovens brasileiros, é de
após a autorização do funcionamento. A segunda foi
fundamental importância que o (a) aluno (a) seja
em 2003, a terceira em 2009 e a última ocorreu em
inserido (a) desde o início no seu uso a fim de ter
2013.
condições de acompanhar algum professor que
queira se utilizar das mesmas em sala de aula. Em 2003, surgiu a necessidade de uma nova
reforma a partir de um questionamento feito pela
Assim, pensa-se na inclusão da disciplina comunidade acadêmica acerca da separação das
“Tecnologias da Informação e da Comunicação”, de disciplinas de língua inglesa em disciplinas bem
30 h/a (trinta horas aula), a ser ofertada no primeiro específicas com relação à habilidade a ser enfatiza-
semestre do curso. da. Entendendo que Listening (audição) e Speaking
(fala) são duas habilidades indissociáveis, não fazia
ü Com a inclusão da disciplina “Tecnologias
sentido estudá-las de forma separada. Assim é que,
da Informação e da Comunicação” no 1º (primeiro)
seis anos após a primeira reformula-ção, surge o
bloco, torna-se desnecessária a manutenção da
terceiro fluxograma do curso de Letras Inglês, que, a
disciplina “Novas Tecnologias”, ofertada atualmente
partir de anseios dos estudantes e dos professores
no 7º (sétimo) bloco, uma vez que o (a) estudante já
do curso, passa por reajustes tanto na carga horária
terá contato com tais tecnologias desde o início do
quanto em conteúdo.
curso.
Essa proposta curricular, que passou a vigo-
Embora o curso seja pautado na valorização dos rar em 2004, seguiu as orientações e recomendações
direitos humanos, entende-se que os mesmos podem contidas nos pareceres CNE/CES 492/2001 e
ser mais bem discutidos se inseridos em uma 1363/2001 e nas Resoluções CNE/CP 2, de 19 de
fevereiro de 2002 que institui a duração e a carga
disciplina específica. Assim, alterou-se a ementa da
horária dos cursos de licenciatura, de graduação
disciplina Sociologia da Educação, que passa a lidar
plena, de formação de professores da Educação
mais diretamente com esse assunto, considerando o
Básica em nível superior. Seguiu também a
que afirma a Resolução nº 1, de 30 de maio de 2012,
Resolução CNE/CES18 de 13 de março de 2002 que
que estabelece diretrizes nacionais para a educação em
estabelece as Diretrizes Curriculares para os Cursos
direitos humanos (BARBOSA et al, 2013, p. 12-15) .
de Letras. Esse currículo também não trabalha com

12
Dossiê UESPI 30 Anos

a figura do pré-requisito, mas se utiliza de um REFERÊNCIAS


mecanismo previsto no Artigo 48 do Regimento
Geral da UESPI para permitir que alunos reprovados BARBOSA, M. S. B., et al. Projeto Político
em até 4 (quatro) disciplinas possam dar Pedagógico do Curso de Letras -Inglês.
continuidade ao curso, a flexibilização. Teresina: FUESPI, 2013.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS FERRO, Maria do Amparo Borges; NOGUEI-


RA, Teresinha de Jesus Araújo Magalhães.
Com a finalização dessa pesquisa, pode-se HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL
perceber o quanto o curso de inglês melhorou no DO PIAUÍ: ORIGEM E EXPANSÃO.
decorrer destes 30 anos, apesar de que, primeira- Universidade Federal do Piauí.
mente, ele tenha sido criado para suprir a necessida-
GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar
de da sociedade da época. Mas, desde sua criação em
Projetos de Pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas.
1985, ele vem sendo considerado um dos melhores
2002.
do país.
Durante essas três décadas, o curso passou MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS,
por várias melhorias. Melhorias estas que acontece- Eva Maria. Fundamentos de Metodologia
ram para tornar o curso cada vez mais moderno, Científica. 5. ed. São Paulo: Atlas. 2003.
para acompanhar as mudanças que ocorrem na
MEDEIROS, João Bosco. Redação Cientí-
sociedade. Como o inglês é um idioma mundial para
fica. 8. ed. São Paulo: Atlas. 2006.
tudo nos dias atuais, existe a necessidade de sempre
o curso está se modificando. NÚCLEO DE ENSINO Á DISTANCIA (NEAD).
Umas das mudanças mais significativas foi o Curso em Licenciatura Plena em Letras-
turno do curso, que em 1985, era disponibilizado Inglês em EAD. Disponível em: <http://sitea
somente à noite e hoje é disponibilizado em dois d. uespi.br/cursos/licenciatura-plena-em-let-
turnos (vespertino e noturno). ras%E2%80%93-ingl%C3%AAs-ead>. Acesso
em: 22 de março de 2016 ás 13:46:20.
Um novo currículo foi elaborado em 2013,
visando uma melhor formação para os acadêmicos PIAUÍ, Fundação de Apoio ao Desenvolvimento
do curso de letras inglês, foram incluídas três da Educação do Estado do Piauí (FADEP).
habilitações (Tradução, Estudos Literário e Projeto Político Pedagógico do Curso de
Linguística), que permitem ao aluno do curso ter Letras-Inglês. Teresina: Secretaria de
uma formação profissional ainda melhor. Educação - Centro de Ensino Superior, 1985.
Com esse novo currículo, os alunos que
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ
atualmente cursam Letras/Inglês, com habilitação
(UESPI). Histórico. Teresina. 1984. Disponí-
em Tradução, Estudos Literário e/ou Linguística na
vel em: <http://www.uespi.br/site/?page_id:
UESPI têm a oportunidade de tornarem-se
=25578>. Acesso: 19 de outubro de 2015 ás
excelentes profissionais em diversas áreas.
15:10:20.
Espera-se que essa pesquisa possa ajudar os
acadêmicos deste curso, e de outros cursos, a
entender como nasce um curso, como e por que
ocorrem mudanças.

13
Dossiê UESPI 30 Anos

HISTÓRIA E MEMÓRIA DO ENSINO DE ENFERMAGEM:


DA FUNDAÇÃO DA ESCOLA DE AUXILIAR DE ENFERMAGEM IRMÃ MARIA
ANTOINETTE BLANCHOT À INSERÇÃO DO ENSINO SUPERIOR DE ENFERMAGEM
NA FACIME

HISTORY AND NURSING EDUCATION MEMORY:


FOUNDATION OF NURSING ASSISTANT SCHOOL SISTER MARIA ANTOINETTE
BLANCHOT THE INSERTION OF HIGHER NURSING EDUCATION IN FACIME

Anneth Cardoso Basílio da Silva1


Francisca Aline Amaral da Silva2

1
Enfermeira. Professora efetiva da Facime Uespi. Especialista em doação, captação e transplantes.
Mestre em educação – UFPI, e-mail: annethbasilio@yahoo.com.br
2
Enfermeira. Professora efetiva da Facime Uespi. Especialista em Educação Profissional.
Especialista em Saúde Pública – UFPI, e-mail: falinesilva@yahoo.com.br

RESUMO
Este estudo tem como objetivo apresentar resultados de pesquisa que corrobore com a reconstituição e
preservação da história e da memória do Ensino de Enfermagem no Piauí. Objetivou descrever e analisar o
processo de implantação como marco no ensino médio auxiliar de enfermagem Irmã Maria Antoinette
Blanchot no Estado e a inserção do curso superior de enfermagem na Facime/UESPI. As fontes primárias de
dados foram entrevistas realizadas com professoras de enfermagem que atuaram na escola de enfermagem na
época de seu funcionamento. Utilizaram-se fontes documentais e fontes secundárias. Tornou possível a
identificação e a contribuição de professoras e enfermeiras piauienses pioneiras na evolução deste processo de
ensino e aprendizagem da profissão, assim como a análise histórica da instalação, estruturação e
aperfeiçoamento do ensino médio e superior de Enfermagem no Estado.

Descritores: Educação Superior. Educação em Enfermagem. História e Memória da UESPI

ABSTRACT
This study aims to present search results that corroborate with the restoration and preservation of the history
and memory of Nursing Education in Piaui. Aimed to describe and analyze the implementation process as a
milestone in high school auxiliary Sister Maria Antoinette Blanchot nursing in the state and the insertion of the
college of nursing in Facime / UESPI. The primary data sources were interviews with nursing teachers who
worked in the nursing school at the time of its operation. They used documentary sources and secondary
sources. Made possible the identification and contribution of teachers and nurses in Piaui pioneer in the
evolution of this process of teaching and learning profession, as well as the historical analysis of the installation,
structuring and improvement of high school and nursing school in the state.

Descriptors: University education. Nursing Education. History and Memory UESPI

14
Dossiê UESPI 30 Anos

INTRODUÇÃO aperfeiçoamento do ensino superior de Enfermagem


na Universidade Estadual do Piauí (FACIME).
O conhecimento histórico do ensino de Souza (2000, p. 87) relata que “Apenas o
Enfermagem, além de elucidar e esclarecer os historiador terá o dom de atiçar a centelha de
aspectos evolutivos, fornece condições para a esperança no passado, firmemente convencido de
compreensão do significado da sua cultura. A
que nem os mortos estarão a salvo do inimigo, ou
elucidação de fatos históricos ilumina e oportuniza o
seja, do esquecimento, caso ele consiga realmente,
entendimento de lacunas e pontos obscuros que são
vencer.” A pesquisa historiográfica, segundo Reis
evidenciados ao longo do tempo, possibilitando
(1998, p. 38) possibilita ao historiador “vencer o
análises e reflexões acerca da memória e do ensino
esquecimento, preencher o silêncio, recuperar as
da Enfermagem piauiense.
palavras, a expressão vencida pelo tempo”.
A busca da reconstituição e preservação da
No decorrer da pesquisa, as fotografias foram
história e memória do ensino de Enfermagem no
essenciais como instrumentos da memória, pois de
Piauí é determinante para a descoberta e a análise de
certa forma capturam a imagem daquele instante que
informações acerca da evolução e do aperfeiçoamen-
atualmente é passado mas desencadeia em quem as
to deste ensino. Torna-se tão fundamental quão
visualizam memórias até então esquecidas,
importante a contribuição dos precursores desta
elucidando e contribuindo para a reconstituição de
história, a descrição desta para o ensino de
fatos e acontecimentos importantes.
Enfermagem, assim como os direcionamentos e as
condições de desenvoltura deste ensino, além de
A ESCOLA DE AUXILIAR DE ENFERMAGEM
fomentar reflexões para a observação criteriosa dos
IRMÃ MARIA ANTOINNETTE BLANCHOT
fatos que ocorreram no passado. Assim, ao
definirmos a problemática deste estudo, buscamos
identificar informações que revelem e acrescentem Na década de 1950, no Estado do Piauí, o
dados sobre a história do ensino de Enfermagem setor da Saúde encontrava-se centralizado e voltado
assim como descrever e analisar a instalação, para as Instituições de Previdência Social. Nos
estruturação e aperfeiçoamento do ensino médio e aspectos políticos e administrativos, tudo transcor-
superior de Enfermagem no Estado. ria sem tumultos e instabilidades.

Como objetivo geral deste estudo, visamos à A Escola de Enfermagem Anna Nery, no Rio
reconstituição e à preservação da história e memória de Janeiro, formou uma turma com doze religiosas
da evolução do ensino da Enfermagem Piauiense da Companhia das Irmãs de Caridade3, das quais
desde o seu início formal que se deu com a apenas dez religiosas colaram grau em 1942, dentre
inauguração da Escola de Auxiliar de Enfermagem elas a irmã Abrahide Alvarenga4, que veio para o
Maria Antoinette Blanchot, em Junho de 1958 à Piauí em 1956.
inserção do curso superior de enfermagem na A Enfermagem científica e sistematizada foi,
FACIME. então, introduzida na Companhia das Irmãs de
Como objetivos específicos, buscamos descre- Caridade no Brasil, que além do trabalho voltado
ver a instalação, organização e a desenvoltura da para a assistência nos hospitais, direcionava-se
primeira Escola de Enfermagem Maria Antoinette também aos ensinamentos criteriosos das técnicas
Blanchot que foi marco no ensino médio para a procedimentais de enfermagem, propiciando a
formação de auxiliares e técnicos de Enfermagem do criação de diversas escolas nesta área da saúde, de
Estado e analisar a inserção, o desenvolvimento e caráter religioso, em diversos estados do país.
3
A companhia das Irmãs de caridade surgiu no século XVII na França fundada por Padre Vicente de Paula e Lisa de Marillac no ano
de 1633. Foi uma das primeiras associações a realizar a assistência do cuidado em domicílio. Reorganizou alguns hospitais,
favoreceu condições higiênicas, individualizou leitos para enfermos. (CASTRO, J.P, 1936) Vida de Luisa de Marillac: fundadora das
irmãs de caridade. Petropólis: Vozes.
4
Duas religiosas vieram para o Estado do Piauí, Irmã Catarina Cola em 1946, e depois Irmã Abrahide Alvarenga em 1956. Irmã
Abrahide nasceu em Minas Gerais em 1907, formou-se pela Escola Anna Nery em 1942 e trabalhou em vários Estados Brasileiros
antes de vir para o Piauí.
15
Dossiê UESPI 30 Anos

A permanência das irmãs no Hospital Getúlio Vargas mesmo. Em várias atas que datam da década de
por um determinado período, fez com que estas 1960 existem abordagens que caracterizam a
observassem as lacunas e as deficiências nas técnicas necessidade de uma Escola de Enfermagem de nível
utilizadas pela equipe de enfermagem o que eviden- superior, pois as enfermeiras diplomadas na época
ciou a necessidade de realização de treinamentos eram poucas e a demanda significativa de serviços,
específicos o que culminou posteriormente na existindo também, por parte do Governo do Estado
fundação da primeira Escola de Auxiliar de um interesse em criar um Curso Superior de
Enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot em Enfermagem. “Houve a solicitação de médicos
1958, instalada inicialmente nas dependências do interessados em saber o currículo de uma Faculdade
HGV. de Enfermagem pois o governo encontrava-se na
Esta escola foi construída em terreno doado época disposto em fazer funcionar esta Faculdade
pelo Estado e com a dedicação e empenho da Irmã brevemente”. (Ata nº42- ABEn-PI)
Abrahide que com alguns auxílios e verbas levantou O governador do Piauí em exercício na época
a estrutura e direcionou o ensino de enfermagem no era Jacob Manoel Gayoso e Almendra, militar e
Piauí e que hoje é a sede da FACIME aonde funcio- historiador, incentivador de várias reformas
nam hoje os cursos de Medicina, Enfermagem, administrativas, construiu modernas unidades
Fisioterapia e Psicologia. Além disso, como as Irmãs escolares, sendo posteriormente sucedido por
de caridade eram exponenciais no ensino de Chagas Rodrigues que exerceu o cargo até 1962, e
enfermagem no Brasil, a ABEn-PI foi criada nesta neste período observou-se a expansão da rede de
fase com o apoio e dinamismo da Irmã Alvarenga. A ensino secundário e normal, assim como a
criação da ABEn-PI aconteceu em março de 1959 nas preocupação no setor saúde com a melhoria da
dependências do HGV, tendo como presidente a assistência de Enfermagem.
mesma. No final da década de 1950 e início da década
Algumas atas da ABEn-PI que foram escritas de 1960, constatamos que a enfermagem piauiense
na época retratam informações acerca de legislações evoluiu com a organização e formação de pessoal
sobre o ensino médio de enfermagem, assim como a com aptidão para o atendimento hospitalar.
necessidade da criação de uma Escola de nível Observamos que um dos fatores primordiais deste
superior no Estado. avanço estrutural e direcionador do ensino e da
assistência foi a chegada das Irmãs de Caridade no
A diretora da Escola de Auxiliar de Enfer- Piauí que constataram deficiências nas práticas
gem Irmã Maria Antoinette Blanchot assistenciais aqui realizadas e dedicaram-se à luta
solicitou opinião sobre o currículo das
escolas de auxiliares de enfermagem para que estas dificuldades fossem sanadas através
dizendo achar muito resumido. A interroga- da consecução de apoio para a inserção de cursos
da informou que as cadeiras constantes na
para o aprimoramento das técnicas de enfermagem.
lei 775, de 6 de agosto de 1949 em vigor para
o ensino da enfermagem, são realmente em
número reduzido,mas poderão ser interpre- FUNDAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DA ESCOLA
tadas amplamente, por isso, cada escola é
livre de acrescentar outras matérias que MARIA ANTOINETTE BLANCHOT
julgar necessárias ao preparo eficiente de
suas alunas (Ata nº4- ABEn-Pi)5. O Hospital Getúlio Vargas estruturou o
funcionamento inicial da Escola de Enfermagem
A maioria dos membros da Associação Maria Antoinette Blanchot em suas dependências
Brasileira de Enfermagem no Piauí era também até a sua transferência para a sede própria localizada
professores da Escola Blanchot e portanto, na Rua Olavo Bilac, 2335, sul, em Teresina. O curso
preocupados com o ensino e com a legislação do de auxiliar de enfermagem fundado, organizado e
5
Nunes BMVT, Santos, AMR, Moura, MEB, Silva, MEDC, Monteiro, CFS, Carvalho, ML Memória coletiva da Associação Brasileira de
En fermagem- Seção Piauí.Rev Bras Enferm 2007 jul-ago; 60(4);464-9

16
Dossiê UESPI 30 Anos

realizado pelas Irmãs impulsionou o aprendizado e a Na conjuntura sócio-econômica e cultural,


qualificação de forma a direcionar um cuidado na década de 60, no cenário Brasileiro, observamos
assistencial muito mais criterioso. Através de uma uma grande instabilidade política devido às
portaria de 4 de março de 1959, o Ministro de Estado reivindicações e lutas de classe, necessárias para a
da Educação de acordo com o disposto no artigo 10 aquisição de direitos. No setor da saúde, no Estado
da lei nº 775, de 6 de agosto de 1949, foi concedida a do Piauí, houve a inauguração da Casa Mater6, uma
autorização para o funcionamento do Curso de reforma importante no HGV e muitas transforma-
auxiliar de Enfermagem Irmã Maria Antoinette ções evidenciadas nos aspectos sociais, políticos,
Blanchot, mantida pela Associação de São Vicente
econômicos e culturais no perfil do profissional de
de Paulo.
saúde no Estado do Piauí.
O Governador do Estado do Piauí, em exercí-
A instalação da UESPI, com sede em
cio na época, Francisco das Chagas Caldas Rodri-
Teresina, deu-se em 1984 por meio da Lei Estadual
gues, reconheceu através da lei nº 1972, de 10 de
de número 3967 que instituiu a FADEP (Fundação
agosto de 1960, como sendo de utilidade pública a
de Apoio ao Desenvolvimento da Educação do
Escola de auxiliar de Enfermagem Irmã Maria
Antoinette Blanchot. Em 1960, a Prefeitura Estado do Piauí). Em 1985, através do Decreto
Municipal de Teresina, também, tendo em exercício Federal número 91851 foi autorizado funcionar o
o prefeito Petrônio Portela Nunes no cargo reconhe- Centro de Ensino Superior com alguns cursos
ceu a utilidade pública da Escola de Enfermagem dentre eles da área de saúde. Em 1993 a Universida-
Antoinette Blanchot, através da lei nº 730 de 17 de de foi autorizada a funcionar no interior do Estado e
agosto de 1960. neste ano houve o primeiro concurso público para
professor efetivo. Em 2005, a UESPI teve seu
Por ocasião da inauguração da Escola de
estatuto reformulado, aprovado e implantado, o que
Auxiliar de Enfermagem Irmã Maria Antoinette
Blanchot houve a necessidade de contratação de garantiu, indubitavelmente, a realização de eleições
Enfermeiras que pudessem ministrar as disciplinas diretas para a escolha do reitor e vice-reitor. Neste
necessárias ao prosseguimento do curso na Escola. contexto, é importante mencionar a evolução do
Algumas Enfermeiras que estavam finalizando o crescimento do número de cursos de Enfermagem
curso de Enfermagem fora no Estado foram no Brasil que estão entre os que mais se expandiram
convidadas pela Irmã Abrahide Alvarenga, madre neste período. O curso de Enfermagem da UFPI foi
superiora supervisora, sobre a possibilidade de instalado em 1973 e em 1988 foram criados novos
retornarem ao Estado do Piauí e contribuírem para a cursos de Enfermagem no Estado, na capital e no
evolução da Enfermagem local. interior.
A Enfermeira Piauiense Maria dos Aflitos
Miranda assim que finalizou o curso de Enfermagem ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DA
pela Escola Carlos Chagas em 1958, em Belo ESCOLA IRMÃ MARIA ANTOINETTE
Horizonte, decidiu vir para o Piauí, para ser profes- BLANCHOT; HOJE, FACIME
sora da Escola de Enfermagem Irmã Maria Antoni-
ette Blanchot, a convite por carta da Irmã Abrahide Esta escola foi construída em terreno doado
Alvarenga. pelo Estado aonde hoje é a sede da FACIME e com a
dedicação e empenho da Irmã Abrahide que com
A Enfermeira Miranda após finalizar o Curso
de Enfermagem em Belo Horizonte iniciou as suas alguns auxílios e verbas levantou a estrutura e
atividades como professora da escola Blanchot logo na direcionou o ensino de enfermagem no Piauí. Além
primeira turma para ministrar disciplinas teóri-cas e disso, como as Irmãs de caridade eram exponenciais
para acompanhar alunos na prática de Enfermagem no ensino de enfermagem no Brasil, a ABEn-PI foi
que era realizada no Hospital Getúlio Vargas. criada nesta fase com o apoio e dinamismo da Irmã
6
Atual Hospital Aliança. A Casa Mater foi fundada em 1966, Instituição Hospitalar privada, aberta a todos em pleno exercício
profissional criando alternativas no campo de trabalho do médico, do enfermeiro e dos auxiliares de enfermagem.

17
Dossiê UESPI 30 Anos

Alvarenga. O acesso à Escola Blanchot7 foi o caminho décadas de 1960 a 1980, foi a mais importante
para o aperfeiçoamento de muitos atendentes de Instituição de Ensino de Enfermagem no Estado do
Enfermagem que se dedicavam à profissão e que Piauí. A fotografia abaixo mostra a sede da Escola de
precisavam de um embasamento teórico, principal- Enfermagem que funcionou durante mais de vinte
mente em questões de Controle de Infecções, anos localizada na Rua Olavo Bilac, em Teresina.
realização de procedimentos adequados, pautados Atualmente, neste local, funciona a estrutura da
em uma assistência criteriosa. Para adentrar na Faculdade de Ciências Médicas (FACIME) onde o
Escola havia a necessidade de realização de um curso superior de enfermagem configura-se como
processo seletivo8 para que os candidatos fossem um dos mais procurados.
admitidos. A Escola Blanchot realizava uma avaliação
A Escola de Enfermagem Irmã Maria com todos os candidatos que se candidatavam ao
Antoi0nette Blanchot funcionou durante alguns processo seletivo para averiguação da ortografia e
meses no Hospital Getúlio Vargas, mas logo em conhecimentos sobre aplicações matemáticas. Após
seguida a Irmã Abrahide conseguiu um terreno para a aprovação na seleção, a prática assistencial era
que fosse construída a sede da Escola, que entre as ensinada e aprendida no próprio Hospital Getúlio
décadas de 1960 a 1980, foi a mais importante Vargas e os estágios com os alunos da Escola eram

Figura 1: Escola de Enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot, em sua sede própria, na década de 60.
Fonte: Conselho de Educação do Estado do Piauí.

7
A Escola de Auxiliar de Enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot foi a pioneira no ensino de Enfermagem no Estado do Piauí no
final da década de 50.
8
Os alunos da Escola eram em sua maioria de baixa renda, muitos alunos tinham bolsa de estudos e a Escola contava com algumas
doações, mas o processo seletivo era realizado anteriormente para avaliação das aptidões dos mesmos.

18
Dossiê UESPI 30 Anos

supervisionados criteriosamente por uma Enfermei- O laboratório era equipado com todo o
ra que também era professora da Instituição. Alguns material necessário para as práticas e os procedi-
alunos que já atuavam na área de Enfermagem ao mentos de Enfermagem. As salas de aula possuíam
adentrarem na escola, sentiram-se mais aptos e recursos para que estes alunos aprendessem sobre a
seguros nas realizações de procedimentos e na assistência e os cuidados na área.
observação de algumas patologias, e outros inclusi- A Irmã Abrahide Alvarenga retornou ao sul
ve, aplicavam tais conhecimentos em domicílio do país na década de 60, após ter deixado valorosa e
quando algum familiar precisava de alguma indispensável contribuição na área do ensino de
assistência. enfermagem no Piauí e assim, outras irmãs a
A Escola recebia muitas doações, alguns sucederam como a Irmã Maria Moura, Carolina,
professores também ensinavam pelo dom, por Julieta, Orminda. O Conselho Estadual de
gostarem da profissão. Muitos professores recebiam Educação através da resolução n° 19 de maio de 1978
os seus salários com atraso e às vezes, apenas de seis decidiu autorizar, após solicitação, a mudança do
em seis meses. Os alunos eram extremamente nome da Escola de Auxiliar de Enfermagem Irmã
carentes e alguns não tinham condições de arcar com Maria Antoinette Blanchot para Escola Técnica de
o pagamento das mensalidades da escola e uma Saúde Maria Antoinette Blanchot, bem como o
funcionamento do curso técnico de Enfermagem.
minoria tinha acesso a bolsas escolares. Os
Esta resolução foi assinada pelo presidente do
professores Enfermeiros também ministravam
Conselho Estadual de Educação, na época, José
aulas de sinais vitais para alunos do curso de
Gayoso Freitas.
Medicina.
As aulas teóricas eram ministradas nas salas
As reivindicações sociais constantes através
de aula e as aulas práticas aconteciam no laboratório
de lutas foram evidenciadas em conjunto com a
e nos Hospitais. Várias disciplinas eram ministradas
instabilidade política na revolução de 1964. No Piauí,
e entre elas a Enfermagem em Saúde Pública,
a reforma do HGV, a criação do curso de Medicina e a
enfatizando a arte de promover a saúde, como
inauguração da Casa Mater, foram fatores que
evidenciamos através da leitura da frase em quadro
instituíram grandes transformações na área da
de giz. Podemos verificar tal fato em fotografia
saúde do Estado do Piauí.
seguinte que mostra a estrutura de uma das salas de
A Escola de Enfermagem Irmã Maria aula da escola em que uma das professoras de
Antoinette Blanchot começou a funcionar em prédio Enfermagem ministrava aula de sinais vitais para os
próprio em 28 de junho de 1958. Nesta nova alunos na disciplina de Fundamentos de enferma-
estrutura existiam dormitórios, refeitório, salas de gem. Hoje, esta estrutura abriga a FACIME e o curso
aulas, laboratório para as práticas de Enfermagem, de enfermagem encontra-se funcionando no mesmo
cozinha, capela, enfim um espaço destinado à local em que se formaram muitos outros profissio-
admissão de alunas que queriam uma qualificação nais de Enfermagem.
na área, algumas residiam na Escola em caráter de A memória não é um recipiente passivo de
internato. impressões. É, pelo contrário, “um processo ativo de
Nesta época, os estágios continuavam a ser busca de significado que reestrutura os elementos a
realizados no HGV, mas passaram também a serem serem lembrados de forma a conservá-los,
feitos no HDIC - Hospital de doenças infecto- reordená-los ou excluí-los” (NUNES, 2003, p. 12-
contagiosas. A Estrutura da nova sede da Escola 13).
Blanchot propiciou aos alunos uma melhor Muitas moças, na época, queriam seguir a
qualificação, pois havia uma preocupação constante profissão de Enfermagem e foi informada pelas
no que se refere à qualidade de ensino e de Irmãs da Santa Casa, em Sobral, no Estado do Ceará
planejamento organizacional. que a Escola de Enfermagem Antoinette Blanchot,

21
Dossiê UESPI 30 Anos

Figura 2 Sala de aula da Escola de Enfermagem Maria Antoinette Blanchot.


Fonte: Conselho de Educação do Piauí

19
Figura 3 e 4: Alunas da Escola de Enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot no dia de sua formatura.
Fonte: Arquivo pessoal de Ana Maria Ursulino

20
Dossiê UESPI 30 Anos

em Teresina, recebia alunas carentes em regime de inaugurado. A biblioteca auxiliou de forma signifi-
internato. Muitas alunas da Escola Blanchot tiva o ensino e a aprendizagem dos profissionais de
encontram-se, atualmente, em outros Estados ou enfermagem do Estado do Piauí. Através do depoi-
continuaram os estudos e formaram-se em mento de algumas professoras e também enfermei-
Enfermagem nas Universidades do Estado ou fora ras, constatamos que os alunos eram muito
dele. estimulados quanto à procura por literaturas que os
Por ocasião das solenidades de formatura oportunizassem o conhecimento de algumas
muitas pessoas foram homenageadas, muitos técnicas e patologias. A escola buscava incentivar os
professores figuraram nas placas de formatura que mesmos ao conhecimento.
ficavam no interior da Escola, logo na entrada como Na fotografia seguinte, observamos a pre-
citam e relembram as depoentes. Tais placas eram sença dos alunos da escola na biblioteca. Hoje, nesta
belíssimas e evidenciavam o valor que a Enferma- estrutura, funciona a biblioteca da FACIME.
gem representava para os alunos que finalizavam o Houve a necessidade de profissionalização
curso. As formaturas eram muito bem organizadas, porque o aperfeiçoamento profissional tornou-se
as festas muito bonitas caracterizavam a impor- imprescindível e essencial. Existia um programa de
tância da formação profissional. Nas fotografias preparação de mão de obra que era denominado de
seguintes observamos a postura das alunas na época Programa Interno de preparação de mão de obra
e também caracterizam a essência da ocasião. (PIPMO), pois os alunos finalizavam o segundo grau
O nome da biblioteca da Escola Blanchot foi e almejavam uma profissão, um curso profissionali-
uma homenagem a Maria Otávia Poti, a primeira zante, e este foi um dos motivos pelos quais a Escola
Enfermeira de nível superior, genuinamente Piaui- precisou buscar junto ao Conselho de Educação este
ense, que trabalhou no HGV assim que o mesmo foi aprimoramento.

Figura 5: Biblioteca da Escola de Enfermagem Maria Antoinette Blanchot.


Fonte: Conselho de Educação do Piauí

21
Dossiê UESPI 30 Anos

A Escola Técnica realizava duas seleções por rada para reconstruções feitas em épocas anteriores
ano e admitia 40 a 50 alunos por turma. No andar e de onde a imagem de outrora se manifestou
térreo, conforme informações do regimento da alterada” . Além dos ensinamentos teóricos e
Escola, funcionavam Diretoria, secretaria, almoxari- práticos existiam os encontros com a celebração de
fado, biblioteca, sala dos professores e salas de aula, missas, realização de eventos e brincadeiras,
sala de reuniões, capela, cozinha, refeitório e área de comemorações e aniversários, teatros que tinham
circulação. No andar superior, o laboratório de como intuito a aproximação entre os alunos, os
técnicas, salas de aulas, três quartos e área de professores e as dirigentes da Escola Blanchot como
circulação. No prédio anexo funcionava a União é evidenciado por uma das professoras da Escola:
Nacional dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem
(UNATE), a área de ginástica, lavanderia e cantina. Nós tínhamos os nossos encontros, promovi-
dos por nós mesmos. Era tipo um retiro
A estrutura que antes funcionava como sede naquela área da FACIME que hoje é um
da Escola de Enfermagem Irmã Maria Antoinette estacionamento. Existiam umas árvores,
mangueiras, sapotis, ali nós tínhamos um
Blanchot, hoje, é a Faculdade de Ciências Médicas encontro com nossos alunos e não era
(FACIME) onde funcionam vários cursos da área de obrigatório, mas tinha uma grande aceitação.
saúde, uma estrutura que , embora modificada, Havia a celebração da santa missa e depois
fazíamos brincadeiras, falávamos acerca de
transformada ao longo do tempo, configura a nossas práticas, conversávamos, trocávamos
ocorrência de uma história de outra época, em que idéias, era muito gostoso... (emoção) e isto
inúmeros estudantes passaram, deixando ou com certa freqüência. Algumas alunas eram
verdadeiras artistas, faziam dramatizações,
levando a essência do aprender. enquetes, poesias... Havia um envolvimento,
uma doação, não era apenas o aluno da
Entendemos como Halbwachs (1990, p. 71) anatomia e o professor. (MENEZES,
que “A lembrança é (...) uma reconstrução do depoimento oral, maio de 2008).
passado com dados emprestados do presente, prepa-

Figura 6: Encontro realizado na Escola de Enfermagem Antoinette Blanchot (Professores e alunos).


Fonte: Conselho Estadual de Educação do Piauí

22
Dossiê UESPI 30 Anos

Os encontros promovidos pela Escola Nacional (LDBEN), no governo de Fernando


Blanchot tinham o objetivo de aproximar os alunos, Henrique Cardoso, atendendo essas demandas
humanizar o ensino, propiciando através de junto com a legislação complementar.
dramatizações, retratações de poesias, teatros e A história da Universidade Estadual do Piauí
brincadeiras a oportunidade de ensino e aprendi- – Uespi tem seu início no ano de 1984, com a criação
zado. da Fadep, com a intenção de formar recursos
9
Este mesmo espaço , a área utilizada para os humanos em nível de terceiro grau, passando por
encontros, era realizada a atividade física. Era diversas fases, nas quais se observa um vasto
obrigatória esta atividade e as alunas eram supervi- crescimento, que tornou possível a melhoria da
sionadas por uma professora. A fotografia abaixo qualidade da educação básica e da qualidade de vida
evidencia um momento de descontração em um dos de diversas pessoas situadas nos locais mais
encontros com a presença das irmãs, professoras e inusitados do Estado do Piauí.
alunas da Escola de Enfermagem Irmã Maria A UESPI, em 2015, teve seu estatuto refor-
Antoinette Blanchot. mulado, aprovado e implantado, o que garantiu a
10
Após a realização da cerimônia religiosa , os realização de eleições diretas para a escolha do reitor
alunos eram reunidos nesta área da Escola e os e vice-reitor. Neste contexto, é importante
professores e as irmãs aproveitavam estes encontros mencionar a evolução do crescimento do número de
para a abordagem de temas interessantes e constru- cursos de Enfermagem no Brasil que estão entre os
tivos, discutiam as práticas, pediam a opinião dos que mais se expandiram neste período. O curso de
alunos, dialogavam acerca das ações assistenciais e Enfermagem da UFPI foi instalado em 1973 na
sobre as dúvidas inseridas no conteúdo teórico. cidade de Teresina e o vestibular aconteceu no
A memória coletiva torna-se, então envoltó- mesmo ano. A partir de 1997, vários cursos na área
rio de memórias individuais, que não são totalmente da saúde foram abertos no Estado. O curso de
fechadas, recebem iluminação, nuances de cores Enfermagem, no âmbito Estadual, foi o primeiro da
diferenciadas, interpretações diferentes. Muitos ao área a saúde criado no interior do Estado. Em 1998,
participarem desta rememoração têm inúmeras a UESPI criou dois cursos de Enfermagem no
lembranças para contar, complementar, preencher interior do Estado, em Parnaíba e Floriano e em
as lacunas da história, pois nem tudo foi escrito e 2002 e 2003 em várias outras cidades do interior. O
verificado. primeiro vestibular para o curso de enfermagem em
Teresina da UESPI somente ocorreu em
A Escola de auxiliares e técnicos de Enferma- 2007/2008.
gem Maria Antoinette Blanchot foi desativada no
início da década de 1980, segundo alguns relatos de REFERÊNCIAS
pessoas que vivenciaram tal contextualização na
época, devido a ausências de doações, verbas, ajuda HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva.
do governo Estadual para a manutenção da Escola e São Paulo: Vertice, 1990.
para o pagamento dos salários dos professores.
Na década de 1990, a demanda por vagas no JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e
ensino superior continuava sendo fator de pressão formação. São Paulo : Cortez, 2004.
sobre o governo federal. Nesta década, em 1996 foi LE GOFF, Jacques. História e memória. 5 ed.
promulgada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Campinas (SP): Unicamp, 2003.

9
Local do atual estacionamento da FACIME (Faculdade de Ciências Médicas da UESPI)
10
As alunas eram chamadas a participarem ativamente das cerimônias religiosas.

23
Dossiê UESPI 30 Anos

______. Novas abordagens. Trad. Henrique DEPOIMENTOS


Mesquita. 4 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1995. MENEZES, Deuzamar. Depoimento oral. Entre-
vista concedida à pesquisadora Anneth Cardoso
NOGUEIRA , L.T. A Trajetória da Enfermagem Basílio da Silva. Maio/ 2008.
moderna no Piauí: 1937-1977. Rio de Janeiro:
EEAN/UFRJ, 1996. 217p. Tese de Doutorado em MIRANDA, Maria dos Aflitos. Depoimento oral.
Enfermagem. Entrevista concedida à pesquisadora Anneth
Cardoso Basílio da Silva. Junho/2008
NUNES, B.M.T. Repensando a prática e
construindo caminhos: uma análise crítica do MOITA, Nair. Depoimento oral. Entrevista
ensino e aprendizagem no Curso de Enfermagem da concedida à pesquisadora Anneth Cardoso Basílio
UFPI. Teresina: EDUFPI, 1988 _______. da Silva.Maio/ 2008
Os primórdios do ensino da Enfermagem
NÉRY, Inez Sampaio. Depoimento oral.
moderna no Piauí: Lutas e conquistas na
Entrevista concedida à pesquisadora Anneth
Universidade 1973-1977. Teresina: EDUFPI, 2004. Cardoso Basílio da Silva. Maio /2008
NUNES, Benevina M.V.T; SANTOS, Ana Maria R; NOGUEIRA, Lídya Tolstenko. Depoimento oral.
MOURA, Eliete B; SILVA, Maria Enóia D.C; Entrevista concedida à pesquisadora Anneth
MONTEIRO, Claudete. F. S; CARVALHO, M.L. Cardoso Basílio da Silva. Junho/ 2008
Memória coletiva da Aben- Secção Piauí.
Revista Brasileira de Enfermagem, 2007-jul- NUNES, Benevina Maria Vilar Teixeira. Depoi-
agos;60(4); 464-9 mento oral. Entrevista concedida à pesquisadora
Anneth Cardoso Basílio da Silva Maio/ 2008
OGUISSO, T. Trajetória histórica e legal da
Enfermagem. Barueri, SP: Manole, 2005.

REIS, José Carlos. Os Annales: A renovação teórico-


metodológica e utópica da história pela reconstrução
do tempo histórico. In: SANFELICE, José Luís.
História e história da Educação. Campinas, SP:
Autores Associados: HISTEDBR, 1998

SANTOS, Ana Maria Ribeiro dos; NUNES, Benevina


Maria Vilar Teixeira; NOGUEIRA, Lidya Tolstenko;
MOURA, Maria Eliete Batista; VASCONCELOS,
M.R. Atuação da irmã de caridade Abrahide
Alvarenga no Piauí: uma história a ser contada.
Texto e contexto 2005: 14(4): 551-6.

SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano de.


A memória e a escola. Bragança Paulista:
EDUSF, 2000.

24
Dossiê UESPI 30 Anos

CAMPUS PROFESSOR ANTÔNIO GIOVANNE ALVES DE SOUSA:


Um reflexo da expansão da Universidade Estadual do Piauí em Piripiri.

CAMPUS TEACHER ANTÔNIO GIOVANNE ALVES OF SOUSA:


A reflection of the expansion of the State University of Piauí in Piripiri.

1
Beatriz de Sousa ALVES

1
Pedagoga pela Universidade Estadual do Piauí. Bolsista de Iniciação Científica – UESPI 2013-2015,
Email: byamel17@hotmail.com

RESUMO
Durante a década de 1990-2000, a Universidade Estadual do Piauí esboçou um projeto de expansão e
interiorização da educação superior, levando cursos superiores a cidades do interior do estado num movimento
de implantação de núcleos e campi universitários, com cursos de licenciatura, objetivando a formação de
professores para o ensino básico. A pesquisa justificou-se por buscar a construção da história de implantação da
Uespi-Piripiri, compreendendo o período de 1990 a 2000, analisando a política de expansão e interiorização da
Universidade Estadual do Piauí. Entre outras conclusões, pode-se destacar que a primeira iniciativa de
fundação da Uespi-Piripiri se fez pela implantação de um núcleo em 1993, e a instalação oficial do campus se
deu em 1997, tendo como marco a oferta no vestibular de cursos de licenciatura para a formação de professores
do sistema de ensino básico público.

Palavras-Chave: Expansão. Interiorização. Universidade Estadual do Piauí. .

ABSTRACT
During the decade of 1990-2000 the Universidade Estadual do Piauí has outlined an expansion project and
interiorization of higher education, leading higher education courses to cities in the interior of the state in a
movement of deployment of cores and university campuses, with degree courses aiming the training of teachers
for the basic education. The search was justified by searching for the construction of the history of deployment,
Uespi in the city of Piripiri, comprising the period 1990 to 2000, analyze the policy of expansion and
interiorization, Universidade Estadual do Piauí. Among other conclusions, can highlight that the first initiative
was made by the deployment of a nucleus in 1993, and the installation of the campus if gave official in 1997,
having as Marco the offer in vestibular degree courses for the training of teachers of the public education
system.

Keywords: Expansion. Interiorization. Universidade Estadual do Piauí.

25
Dossiê UESPI 30 Anos

1. INTRODUÇÃO objetivos específicos, conhecer o processo de


implantação e consolidação da Universidade
A Universidade Estadual do Piauí, durante o Estadual do Piauí na cidade de Piripiri; analisar a
final do séc XX, esboçou um projeto de expansão e política de expansão e interiorização da
interiorização da educação superior pelo estado, Universidade Estadual do Piauí, especificamente na
levando cursos superiores a cidades do interior do cidade de Piripiri e identificar a demanda por
estado num movimento de implantação de núcleos e educação superior que implicou na implantação da
campi universitários, com cursos de licenciatura, Universidade Estadual do Piauí na cidade de
objetivando a formação de professores para o ensino Piripiri.
básico, intensificando-se no período entre 1995 e
Para a formação de um referencial teórico
2000, com o processo de expansão, denominado
sobre a temática, elencam-se os autores que
Interiorização da educação superior Pública
abordam a história e a historiografia da educação e
Estadual, efetivado pela Universidade Estadual do
sobre o Ensino Superior Brasileiro, como é o caso de
Piauí - UESPI. (NOGUEIRA, 2006).
Sérgio Castanho (2010) e Campos (2010), Peter
Assim, é implantado na cidade de Piripiri um Burke (1992), Marilena Chauí (2001), Maria de
núcleo da Universidade Estadual do Piauí em 1993, Lourdes A. Fávero (1977), Ghiraldelli (2009) e
que foi elevado a campus universitário em 1995, bem Cunha (2003). Sobre a história da educação no
como em outras cidades de norte a sul do Piauí. Duas Piauí, de modo geral, e mais especificamente a
modalidades institucionais eram instauradas: história da educação superior no Piauí, referenciou-
campus, como a exemplo de Piripiri, com um nível se Itamar de Sousa Brito (1996), Maria da Penha
de administração estruturado, e os núcleos, com Feitosa (2006) e Teresinha de Jesus Araújo
caráter provisório e uma estrutura administrativa Nogueira (2006).
limitada. O campus de Piripiri, Professor Antônio
A metodologia empregada a esta pesquisa
Giovanne Alves de Sousa, consolidou-se como
caracteriza-se a abordagem como quanti-
instituição de ensino superior na cidade de Piripiri,
qualitativa, justificando a escolha por trabalhamos
expandindo a oferta de cursos em seus mais de vinte
de maneira dinâmica com essas duas abordagens,
anos de implantação.
que apesar de distintas, podem se complementa-
Esta pesquisa justificou-se por buscar a rem, pois “o estudo quantitativo pode gerar ques-
construção da história de implantação da Universi- tões para serem aprofundadas qualitativamente, e
dade Estadual do Piauí, campus Prof. Antônio vice-versa” (MINAYO e SANCHES 1993, p.247).
Giovanne Alves de Sousa, na cidade de Piripiri, Sobre a seleção das fontes, buscou-se em arquivos
compreendendo o período de 1990 a 2000, públicos, diário oficial dos poderes estaduais e
justificando o recorte temporal por ser o período de municipais, documentos da própria instituição e de
ocorrência do projeto de expansão e interiorização arquivos particulares. A proposta para análise de
da Universidade Estadual do Piauí, bem como por dados que se utilizou neste trabalho trata-se da
1993 ser o ano de implantação do núcleo da UESPI análise de conteúdos, que Gomes (1993) define
em Piripiri. Entende-se que a realidade que se como um conjunto de técnicas que atualmente são
apresenta na atual constituição do campus é reflexo aplicados a partir de princípios da pesquisa
do processo histórico de implantação deste, quantitativa e qualitativa, sendo um dos motivos
tornando importante a reconstituição histórica pela escolha.
deste passado, para compreendermos o presente
Procede-se à análise do processo de criação
desta instituição.
da Universidade Estadual do Piauí a partir do cunho
Como objetivo geral da pesquisa, tem-se: histórico, redesenhando o panorama educacional
compreender o processo histórico de implantação da brasileiro e estadual a partir da redemocratização do
Universidade Estadual do Piauí em Piripiri e, como país, que acontece em 1980, pós-ditadura,

26
Dossiê UESPI 30 Anos

apreendendo as transformações da sociedade, o da Universidade, ou, por estarem trabalhando e não


movimento de criação de IES estaduais por todo o poder cursar a graduação, devido a fatores
Brasil, a ótica neoliberalista de privatização do econômicos e geográficos, já que a Universidade na
ensino superior, a influência dos organismos capital se fazia distante destas professoras no
internacionais na educação brasileira, culminando interior.
com a criação da Universidade Estadual do Piauí.
Para alavancar o sistema básico estadual de
educação, juntamente com a iniciativa de qualifi-
2. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ:
cação de profissionais, empreendeu-se por parte do
EXPANSÃO E INTERIORIZAÇÃO DO
Ministério da Educação o “Projeto Vencer” que
ENSINO SUPERIOR NO PIAUÍ
tinha como objetivo o acesso, a permanência e a
alfabetização de todas as crianças de 7 a 14. Implan-
Atendendo aos objetivos deste trabalho,
tado no estado do Piauí, percebeu-se, nos estudos de
procurou-se deslindar o processo histórico de
Feitosa (2006) e Nogueira (2006), que este projeto
implantação da Universidade Estadual do Piauí,
fundamentou legalmente a necessidade de criação
procedendo à análise das políticas públicas que
de uma Fundação de Apoio ao Desenvolvimento
levaram a esse fenômeno de criação de IES
Educacional do Piauí (FADEP), pois, como citamos
estaduais, para isso fez-se necessário redesenhar o
no corpo do trabalho, a década de 1980 é marcada
projeto político do Brasil à época, para assim
tanto pela ação mínima do estado em nível de
perceber o movimento que o governo e a sociedade
educação superior, quanto o foco deste na educação
estavam realizando em prol da redemocratização e
básica.
da educação, pois, como afirma Dourado (2002,
p.241), “A análise das políticas para a educação Portanto, com o empenho de professores e
superior, portanto, só pode ser entendida com a socieda-de civil na causa de criação de um sistema
compreensão dos vários instrumentos e mecanis- de ensino superior no Piauí, é que, em 16 de
mos que preconizam a reforma desse nível de ensino novembro de 1984, pelo decreto nº 3967, é criada a
e de sua relação orgânica com o processo de reforma Fundação de Apoio e Desenvolvimento a Educação
de Estado em curso no Brasil”. no Estado do Piauí, com a premissa de ser a
mantenedora da futura Universidade Estadual.
O panorama nacional da década de 1980
Feitosa enumera os objetivos e compromissos que
revela a luta da sociedade pela redemocratização,
surgem com essa fundação:
ilustrado pelo movimento “Diretas Já”, manifesta-
ções que lutavam pelo direito a eleições diretas para
a. A coerência e identificação entre o plano de
a escolha dos governantes. Assim, impulsionado por
ação do Governo Estadual e as diretrizes
essas demandas, o modelo neoliberal é adotado pelo
programáticas do setor Educacional;
governo brasileiro, objetivando a racionalização da
máquina pública, ou seja, o estado mínimo, assim a b. O absoluto comprometimento com a gestão
lógica de mercado controlaria e assumiria o lugar do dos negócios educacionais;
controle estatal. c. A adoção de uma orientação interna de
No nível educacional, esta política se tradu- trabalho onde se mesclam as linhas progra-
ziu pela influência de organismos internacionais, máticas para manutenção e para inovação do
como o Banco Mundial e a Organização das Nações setor (2006, p.101).
Unidas (ONU), a diversificação institucional e prin-
cipalmente a privatização do ensino superior
Com o objetivo de dar suporte ao ensino
brasileiro. Analisando as políticas educacionais e as
básico estadual, a FADEP nasce subordinada aos
ações destas agências internacionais no Brasil,
planos do Governo do Estado. No Diário Oficial do
evidencia-se o papel que o Banco Mundial exerce na
Estado, de 20 de novembro de 1984, fica autorizado

27
Dossiê UESPI 30 Anos

o executivo a criar a FADEP, entre outras disposi- ensino” foi a escolha do Governo do Estado, que,
ções que trazem o decreto 3.967, o artº 19, que além de expandir as matrículas, poderia seguir as
vincula seu funcionamento à Secretaria de Educação recomendações vigentes na reforma universitária. A
do Estado e especifica a fundação nos termos de criação da Universidade Estadual do Piauí foi
promotora de ensino, pesquisa, desenvolvimento de responsável por expandir o ensino público superior
tecnologias educacionais e execução de serviços de no Estado, capaz de superar a iniciativa privada,
radiodifusão educativa, dando como finalidades: contexto diferente do que acontecia em todo o país,
onde o crescimento em matrículas do ensino
I - formação de recursos humanos a nível de superior se dava pela iniciativa privada. De acordo
3º Grau para atender as necessidades do com Nogueira (2006), “[...] pode se visualizar no
Sistema Estadual de Ensino, em especial as Piauí uma expansão do ensino público, por meio de
do interior do Estado, capacitação de pessoal um crescimento em número de campi e cursos bem
como força qualificada de trabalho. maior do que o crescimento do ensino privado,
II - gerenciamento de programas de pesquisas diferentemente do que se vem delineando em nível
aplicadas e desenvolvimento de tecnologias nacional.” Este crescimento é impulsionado
de suporte ao processo de ensino- basicamente pelo projeto de expansão da
aprendizagem. Universidade Estadual do Piauí.

III - execução de serviços de radiodifusão Com a implantação da FADEP, mais tarde


educativa, compreendendo a produção e/ou FADEPI com o “PI” no final para conferir a
veiculação de programas de rádio e televisão naturalidade ao estado do Piauí, esta sendo a
educativas, sem fins lucrativos; [...] mantenedora do que nove anos mais tarde viria a ser
a Universidade Estadual do Piauí. Porém, antes de
V - preservação e enriquecimento dos valores
ser conferido o status de Universidade funcionou o
éticos, morais e culturais da sociedade
Centro de Ensino Superior, voltado exclusivamente
(PIAUÍ, 1984).
para a formação de professores, agregando também
as atividades educativas de radiodifusão. Apenas em
De acordo com as finalidades explicitadas no
25 de fevereiro de 1993, o presidente Itamar Franco,
corpo da Lei, percebe-se que a FADEP já nasce com
pelo Decreto 2.359, autoriza o funcionamento da
os requisitos a compor-se como uma Universidade,
UESPI, com sede em Teresina, campus Pirajá,
já que traz no corpo da Lei há menção à tríade
sendo já instalados os campi de Floriano, Parnaíba,
ensino, pesquisa e extensão. O ensino cumprido
Picos e Corrente. Percebe-se que, com a instalação
através dos cursos de graduação, a pesquisa com a
do Campus central, a expansão da UESPI já se inicia
elaboração de tecnologias para o ensino-aprendiza-
pelo litoral e região Norte e Sul do Piauí.
gem e a extensão através da radiodifusão pelo
estado. Peculiarmente destaca-se o inciso V, que Portanto, a partir da implantação de campi,
trata do valor social da universidade perante o meio núcleos e polos, a UESPI se expandiu para todo o
em que está inserido. Assim, indaga-se quanto à estado, inclusive se fazendo presente em estados
caracterização da instituição, que nasce já com a vizinhos, como a Bahia e o Maranhão.
denominação de universidade, por que está se Para continuar a análise deste período de
apresentou como tal? Ao contrário do movimento da expansão, 1995 e 2004, faz-se menção ao Estatuto
UFPI, que nasceu da aglutinação de faculdades? da UESPI de 1995 que, entre outras alterações,
Pode-se tentar esclarecer esse movimento ao pensar extingue a sigla FADEPI e inaugura a FUESPI -
a década de 1980-90 e o movimento de implantação Fundação Universidade Estadual do Piauí, sendo
de universidades estaduais em todo o país. criados os Campi permanentes de Piripiri, Campo
Destarte, a escolha por uma instituição de Maior e São Raimundo Nonato, segundo Feitosa
ensino superior nos moldes de uma “universidade de (2006, p. 162).

28
Dossiê UESPI 30 Anos

2.1 O processo histórico de implantação da rural, expandindo o ensino primário e a formação de


Universidade Estadual em Piripiri: constitu- professoras para atuar neste nível educacional na
ição do Campus Professor Antônio Giovanne zona rural, sendo implantadas as escolas normais
Alves de Sousa rurais para suprir esta demanda pela formação de
professoras. (BRITO, 1996, p. 108).
Sobre a demanda para a instalação de uma
Faz-se importante frisar que, a partir da
instituição de ensino superior, para além da
criação e da consequente desativação da Escola
demanda de formar os professores da rede de
Normal Rural de Piripiri, o prédio construído para
ensino, pode-se elencar a reforma do ensino médio
tal passa a abrigar o Hospital Regional Chagas
no Piauí, com a reforma de 1962 e a aprovação da
Rodrigues, logo após, sendo desocupado para a
LDB de 1971, aumentando a rede de escolas criadas a
implantação deste em uma nova sede. Com isso, o
partir da década de 1980, ilustrando a expansão do
prédio carregado de histórias e estórias, que
ensino médio de Piripiri. O ensino médio a essa
pensado para funcionar uma escola normal rural,
época, denominado ensino de 2º grau se dividia em
passou a abrigar um hospital e já, em 1993, abre
duas vertentes, um propedêutico de formação
espaço para a implantação de um núcleo da Uespi-
humanística e habilitação para o ingresso nas
Piripiri.
universidades, e o ensino profissionalizante, voltado
para a população de baixo poder aquisitivo, visando A partir do Estatuto de 1995, observando a
à qualificação de mão-de-obra. Ainda em 1963, pela expansão e interiorização da UESPI, Feitosa (2006)
Lei estadual nº 2.501, é criado um Ginásio Moderno explicita a importância deste dispositivo para a
a ser instalado na cidade de Piripiri (BRITO, 1996, p. Universidade comentando que o estatuto de 1995
157). inaugura uma nova fase na instituição, de
ajustamento dos seus quadros, ampliação de cursos
Uma peculiaridade diz respeito à Unidade
e expansão para outros municípios.
Escolar Aderson Ferreira, que funcionou no prédio
que pertenceu ao Hospital Regional Chagas Com a criação de mais sete campi perma-
Rodrigues e, por isso, era chamada, pelos alunos, de nentes: Campus de Parnaíba; Campus de Picos;
“Hospital Velho” (ANDRADE, 2003), mesmo prédio Campus de Floriano; Campus de Corrente; Campus
que hoje abriga a Uespi-Piripiri. Assim sendo, ainda de Piripiri; Campus de Campo Maior e de São
nas décadas de 1940-1950, antes da implantação do Raimundo Nonato. (FEITOSA, 2006, p.128-129).
núcleo da Uespi-Piripiri, datada do ano de 1993, Destarte, a autora menciona a criação do campus de
percebe-se que, ao concluir o ensino médio, a Piripiri, que já funcionava como núcleo desde 1993,
sociedade piripiriense seguia dois caminhos: para os porém, como aponta o relatório de autoavaliação da
rapazes, viajar e concluir o ensino superior; para as UESPI redigido no período de 2013-2014, apenas em
moças, a escola normal era a alternativa. 1997 é implantado o campus, se diferenciando de
núcleo, pois, como já apontado neste trabalho, um
O colégio das Irmãs em Piripiri foi embrio-
núcleo é uma unidade administrativamente simples e
nário de uma escola criada pelo padre Raul Formiga
provisória, e o campus conta com uma administra-ção
em 1942, atuando na formação de moças em tempo
efetiva e permanente, sendo ponto de apoio das
integral, sendo um ensino clerical, administrado
demais regiões. Abaixo se expõe o trecho que aponta a
pela obra das Irmãs de Caridade. Formava normalis-
discriminação de implantação do campus de Piri-piri,
tas para atuar no ensino primário especialmente na
inicialmente denominado campus universitário de
zona Rural. Outro empreendimento criado por
Piripiri:
Padre Raul Formiga em cooperação com o governo
do Estado e o INEP foi a “Escola Normal Rural de
[...] foi inaugurado em 1993 onde antes
Piripiri”. A construção destas escolas se deveu à funcionava uma escola de Ensino Funda-
política do governo do Estado de conter o êxodo mental - Unidade Escolar Professor Aderson
Alves Ferreira, pertencente à 3ª Gerência

29
Dossiê UESPI 30 Anos

Regional de Educação. De “Núcleo” passou a trazia pontos negativos, como é explícitado no


Campus em 1997 tendo dois regimes de cursos
ofertados: o Regular e o Especial. (RELATÓRIO
Parecer do Conselho Estadual de Educação CEE/PI
DE AUTOAVALIAÇÃO DA UESPI 2013-2014, p. nº 064 de 2008, que avaliou a concessão de
88) . diplomas do curso de Licenciatura em História:

Como núcleo, funcionava sobre a premissa


de formação de professores, ofertando cursos de Grande a expansão da UESPI, desde 1997/98,
especialmente. Mas os cursos de licenciatura de
período especial de curta duração em Normal vários tipos foram criados sem discussão mais
Superior, porém com a LDB nº 9394/96, que rigorosa, no mais das vezes por entendimentos
preconiza a detenção de título de graduação mediados por interesses imediatistas, refratá-
rios, dos municípios, no seu enleio com as
universitária para professores da educação básica, autoridades universitárias do tempo. Disto
fixando o ano de 2007 para total adequação do resulta não haver, por exemplo, notícia de
sistema a Universidade Estadual do Piauí com o decisões colegiadas, propostas político-peda-
gógicas, resoluções, etc., que corroborem e
objetivo de atender a esse dispositivo e levar qualifiquem a tomada de decisão sobre a
oportunidade de graduação universitária para todos criação, desde essa época, de centenas de cursos
de licenciatura no chamado Regime Especial. E
os professores da rede de ensino estadual e
é sabido que a maioria dos municípios não tem
municipal executa seu plano de expansão, transfor- projeto sistemático algum no campo da
mando núcleos em campus e instalando mais Educação, exemplo e indicador eloqüentes de
nossas misérias e fracassos, assim tão sabidos,
núcleos com apoio dos campi criados. assim tão reiterados. (PARECER CEE/PI
Como evidenciado no Relatório de Avaliação nº064, 2008).
Institucional da UESPI, as características e objetivos
do núcleo de Piripiri seriam oferecer o curso de Esta expansão da UESPI em forma de
“Normal Superior destinado a professores da Rede Campus em Piripiri se justifica por oferecer a esta
Estadual e Municipal que ainda não possuíam região que antes não tinha uma instituição de ensino
ensino superior. A UESPI, através de convênios com superior, oportunidade para a formação de
a SEDUC (Secretaria da Educação do Estado do professores, atendendo à demanda já mencionada
Piauí) e as Prefeituras localizadas no entorno do acima das escolas de ensino médio e ensino
município, viabilizaram financeiramente esses primário de Piripiri e das demais cidades vizinhas
cursos.” (RELATÓRIO DE AUTOAVALIAÇÃO DA beneficiadas pela Uespi-Piripiri, como é o caso das
UESPI 2013-2014, p. 89). cidades de Brasileira, Domingos Mourão, Lagoa do
São Francisco, Milton Brandão, Pedro II,
Assim, pelo Estatuto da UESPI de 1995 é
Piracuruca, São João Da Fronteira e São José do
criado o Campus Universitário de Piripiri, porém
Divino, prefeituras conveniadas a UESPI, que
sua real efetivação se faz em 1997, ocorrendo em
enviavam professores, no período de férias, ao
1998 o primeiro vestibular para o campus de Piripiri,
campus de Piripiri para formação universitária.
em forma de cursos de graduação em regime
especial, se caracterizando por funcionar durante as No entanto, esta expansão, ao passo que
férias escolares dos sistemas estaduais e municipais trazia desenvolvimento para a região, também foi
de ensino acarretando em vantagens e desvanta- realizada de maneira contraditória, já que, ao abrir
gens, pois, com esse tipo de oferta, a UESPI núcleos e cursos, como destaca o parecer, muitas
proporcionava a oportunidade de formação univer- vezes não era realizado um estudo aprofundado
sitária para os professores da zona rural que não sobre a demanda da região, levando em considera-
poderiam estudar no regime regular de cursos, ção apenas os interesses de políticos locais, que viam
sendo excluídos da Universidade, contudo, é na instalação de campus e núcleos da UESPI uma
inegável que esta política educacional da UESPI oportunidade de engrandecimento político, além de
trazia pontos negativos, como é explícitado no cabide eleitoral, pois os funcionários administrati-
Parecer do Conselho Estadual de Educação CEE/PI ivos do campus e núcleos, subordinados à Secretária

30
Dossiê UESPI 30 Anos

de Educação, eram muitas vezes indicados por estes Tianguá, abarcando também em sua tutela os
políticos. Sem deixarmos de fora a má estrutura núcleos da cidade de Esperantina, Luzilândia,
física do campus, a falta de organização administra- Piracuruca e Pedro II, este último atualmente sem
tiva e pedagógica, o não reconhecimento de cursos turmas regulares, funcionando apenas o PARFOR.
pelo MEC e a falta de docentes, que eram encami-
Portanto, apesar de o campus da Universi-
nhados para os campus e núcleos do interior sem a
dade Estadual do Piauí, Professor Antônio Giovan-
real dimensão do contexto de cada cidade, ocorren-
ne Alves de Sousa, demonstrar um histórico de
do assim à precariedade do ensino, inclusive devido
implantação forjada pela qualificação de professo-
à falta de suporte pedagógico, como biblioteca,
res, percebe-se que a instituição apresenta um perfil
recursos didáticos, entre outros.
diferente atualmente, com cursos de bacharelados e
No caso da instalação da Uespi-Piripiri, atividades voltadas para o ensino, pesquisa e
ocorreu da mesma forma como em outras cidades, extensão, cumprindo a função como universidade,
sem dispor de instalações físicas apropriadas e beneficiando a região e agregando valores à socieda-
construídas para tal finalidade, eram implantados de Piripiriense.
em prédios doados pelo município ou estado, na
maioria das vezes sem atender as especificidades 4. CONCLUSÃO
educacionais. A Uespi-Piripiri foi, e ainda encontra-
se instalada no prédio construído para a Escola Como outros campi instalados neste
normal Rural, que foi adaptado para receber um período, o campus Professor Antônio Giovanne
hospital, o Hospital Regional Chagas Rodrigues e Alves de Sousa em Piripiri representou avanços na
logo depois readaptado para a instalação da U.E. educação superior na cidade, porém esta expansão
Aderson Ferreira em 1977, que por fim deu espaço ao conta com aspectos que ilustram o processo de
núcleo da Uespi-Piripiri localizado na Avenida interiorização da UESPI, através de um crescimento
Presidente Castelo Branco, no Bairro Petecas. quantitativo, ampliando o número de vagas, porém
Especificadas estas condições estruturais da sem pensar na qualidade agregadas a estes cursos,
Uespi-Piripiri, percebe-se que sua implantação, feita pois, como se destacou no decorrer do trabalho, a
de maneira precária, sem um prédio que atendessem Uespi-Piripiri foi implantada na cidade com proble-
às demandas de ensino, pesquisa e extensão, mas estruturais de ordem física, com um prédio
características intrínsecas à universidade refletem inadequado para o funcionamento de atividades
sua expansão e interiorização, feita com o objetivo de educacionais e que não foi projetado para tal finali-
atender a demanda por ensino. Assim na época, a dade; de ordem administrativa, sem autonomia e
UESPI expandia-se com poucos recursos financei- descentralização do campus de Piripiri, com
ros, basicamente provindas dos convênios com as processos burocráticos totalmente subordina-dos
prefeituras com repasses do FUNDEF, sendo ao campus central; e de ordem pedagógica,
observadas estas características na maioria das biblioteca defasada e inadequada, falta de laborató-
cidades em que a UESPI foi implantada. rios, docentes em sua maioria com contrato provi-
O Campus Universitário de Piripiri do ano de sório, sem investimento em concursos públicos para
1998, além de perceber a abrangência e importância docentes efetivos e bem qualificados.
deste campus na região, atendendo a 10 cidades Portanto, estes aspectos denunciam como
piauienses e ainda, com representantes do Estado do ocorreu esta expansão e interiorização da UESPI,
Ceará, da cidade de Viçosa, e da Paraíba, com um tendo como reflexo desta expansão o campus prof.
representante de João Pessoa. Essa característica do Antônio Giovanne Alves de Piripiri que, apesar de o
campus de Piripiri ainda se faz presente. Atualmen- processo histórico de implantação demonstrar uma
te, a demanda advém destas mesmas cidades interiorização forjada pela urgência de formação de
piauienses, incluindo outras cidades do Ceará, como professores no interior do Estado, se consolidou

31
Dossiê UESPI 30 Anos

como instituição de ensino superior de excelência na CASTANHO, Sérgio. Teoria da história e


região e, durante os últimos três anos, vem crescen- história da educação: por uma história cultural
do também qualitativamente, com a ampliação na não culturalista. Campinas, SP: Autores associados,
oferta de cursos, a melhoria da estrutura física, 2010.
descentralização administrativa, investimento no
acervo da biblioteca, construção de laboratórios, CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a universida-
fortalecimento do quadro efetivo de docentes e de. São Paulo: Unesp, 2001.
desenvolvimento de atividades de pesquisa e
CUNHA, Luiz Antônio. Ensino Superior e
extensão, contando com grupos de estudos, bolsistas
Universidade no Brasil. In: FARIA, Luciano Mendes
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Filho. VEIGA, Cynthia Greive. 500 anos de
bolsas trabalhos e moradia, características que
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encaminham a Universidade Estadual do Piauí para
a realização de objetivos por ela elencados desde a 2003. p. 151-517.
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33
Dossiê UESPI 30 Anos

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Desenvolvi-mento da Educação no Estado do Piauí –
FADEP, e dá outras providências. Publicado no DOE
nº 225. Teresina, 28 de novembro de 1984.

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Institui a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da
Educação no Estado do Piauí – FADEP, e dá outras
providências. Publicado no DOE nº 219. Teresina,
20 de novembro de 1984.

_______. Lei nº 4.230, de 01 de agosto de


1988. Autoriza o Poder Executivo a criar as
condições necessárias à instalação e ao regular
funcionamento da Universidade Estadual do Piauí.
Publicado no DOE nº 140, de 03 de agosto de 1988.

_______. Decreto nº 7.435, de 13 de outubro


de 1989. Aprova o Estatuto da Universidade
Estadual do Piauí. Publicado no DOE nº 196, de 23
de outubro de 1989.

34
Dossiê UESPI 30 Anos

ESTRATEGIA DIDÁCTICA PARA RENOVAR LA CONCEPCIÓN DE EVALUACIÓN DEL


APRENDIZAJE EN CURSOS DE LICENCIATURA EN CIENCIAS DE LA
UNIVERSIDAD ESTATAL DE PIAUÍ EN BRASIL

Dra.Edileusa Maria Lucena SAMPAIO

RESUMEN

En la actualidad es un requerimiento insoslayable para las universidades realizar transformaciones esenciales


en el proceso de enseñanza aprendizaje y de forma especial en la evaluación, por tal motivo el tema que norteó
este trabajo fue la elaboración de una estrategia didáctica que contribuya a mejorar la evaluación del
aprendizaje en los cursos de licenciatura en ciencias de la Universidad Estatal de Piauí-UESPI con base en
teóricos tales como Vigostsky (1997), Hoffmann (2010) y González (2007) que permitieron sustentar una
concepción de evaluación mediadora formativa ajustada a las necesidades de la institución. Los principales
métodos utilizados fueron el análisis documental, las entrevistas y la observación participante. Como principal
resultado de la investigación se elaboró la estrategia para renovar la concepción de evaluación del aprendizaje
en los Cursos de Licenciatura en Ciencias de la UESPI que está conformada por la misión, los objetivos, un
sistema de acciones y de métodos y recursos para su desarrollo entre los que se destaca un sistema de talleres
que colocan a los docentes como investigadores y transformadores de su propia práctica capaces de comenzar
un proceso de renovación de la evaluación. Consecuentemente se obtuvo también como resultado
transformaciones sustanciales en la manera de concebir y realizar este componente del proceso de enseñanza
aprendizaje.

Palabras-clave: Evaluación, estrategia didáctica, licenciatura en ciencias, UESPI.

RESUMO

Na atualidade é um requerimento inevitavel para as universidades realizar transformações essenciais no


proceso ensino aprendizagem e de forma especial na avaliação, por tal motivo o tema que norteou este trabalho
foi a elaboração de uma estratégia didática que contribua a melhorar a avaliação da aprendizagem nos cursos
de licenciatura em ciencias da Universidad Estatal de Piauí-UESPI com base em teóricos tais como Vigotsky
(1997), Hoffmann (2010) e González (2007) que permitiram sustentar uma concepção de avaliação
mediadora formativa ajustada as necessidades da instituição. Os principais métodos utilizados foram a análise
documental, as entrevistas e a observação participante. Como principal resultado da pesquisa elaborou-se uma
estratégia para renovar a concepção de avaliação nos cursos de licenciatura em ciencias da UESPI que esta
conformada pela missão, os objetivos, um sistema de ações, métodos e recursos para seu desenvolvimento
dentre os que se destaca um sistema de oficinas que colocam os docentes como investigadores e
transformadores de sua própria prática capazes de començar um processo de renovação da avaliação.
Consequentemente se obteve também como resultado transformações substanciais na maneira de conceber e
realizar este componente do processo de ensino aprendizagem.

Palavras chave: Avaliação, Estrategia didáctica, Licenciatura em ciencias, UESPI.

35
Dossiê UESPI 30 Anos

INTRODUCCIÓN conocimientos previos.


Elementos anteriores evidencian la
Hoy se buscan transformaciones en los
necesidad de propiciar cambios en los procesos
sistemas educativos que contribuyan a una sólida
evaluativos en las universidades de manera que se
formación integral del individuo preparado para la
contribuya al desarrollo de habilidades en los
vida. Ello implica el logro de una educación
alumnos, en la actualización de sus saberes y, de
comprometida, no solo con la apropiación sólida del
manera particular, en una formación más integral,
conocimiento, sino también con el desarrollo de sus
que les garantice la preparación profesional
potencialidades, con la transformación del
requerida, en lo que está comprometida la
conocimiento en positivas convicciones morales y
enseñanza y muy especialmente la evaluación,
motivos de conducta y con una actuación creativa
cambios en los procesos evaluativos en las
ante la realidad social y eso requiere de
universidades de manera que se contribuya al
transformaciones en el proceso de enseñanza
desarrollo de habilidades en los alumnos, en la
aprendizaje y de forma especial en la evaluación
actualización de sus saberes y, de manera particular,
como componente de dicho proceso, pues ésta puede
en una formación más integral, que les garantice la
dar una medida de hasta qué punto se han cumplido
preparación profesional requerida, en lo que está
los objetivos trazados, hasta dónde se ha llegado en
comprometida la enseñanza y muy especialmente la
la formación de ese individuo deseado.
evaluación.
A lo largo de los años, la evaluación como
Para propiciar una evaluación integral del
categoría didáctica ha sido tema de grandes
futuro profesional, las universidades han de partir
discusiones y estudios por su importancia y
del establecimiento de forma clara y coherente de
complejidad, evaluar es un término que siempre ha
los perfiles profesionales, a lo cual se ha de integrar
estado relacionado con diversos significados,
una concepción de proceso de enseñanza
generalmente asociados y confundidos con otros
aprendizaje y sobre esta base de diseño del
términos como investigación, verificación, medida y
currículo. Dichos componentes son significativos en
principalmente control. En este sentido, Hoffmann
la estructuración de diversas formas de control de la
(2010), ha señalado que evaluar desde un nuevo
calidad del proceso educativo que transcurre al
paradigma, implica compartir entre educadores y
interior de las instituciones universitarias, pues
educandos, dinamizar oportunidades de acción
permite a la Universidad evaluada conocer si existe
reflexión en un seguimiento permanente del
coherencia entre las funciones educacionales que se
profesor, el cual ha de propiciar a los alumnos un
proponen y las funciones sociales que le son
proceso de aprendizaje basado en deliberaciones
atribuidas. El proceso de enseñanza aprendizaje que
acerca del mundo, formando seres críticos,
transcurre en las aulas, concreta la manera didáctica
libertarios y participativos en la construcción de
de lograr dichas intenciones y la evaluación como
verdades que continuamente han de ser formuladas
componente del mismo ha de garantizarla con
y reformuladas.
eficiencia a este nivel.
En la enseñanza superior la problemática de
Se resaltaasí, la responsabilidad asumida
la evaluación del alumno, ha sido bastante
por la universidad y el compromiso de los
cuestionada y criticada. Para Gil (1997) la evaluación
profesionales al formar parte de esta manteniendo
ha sido acusada de provocar ansiedades, conducir
sucoherencia y dinamismo alrededor de su misión
injusticias, reducirse al control de la retención de
social. Esa preocupaciónestápresente en la
conocimientos, estar desvinculada de los objetivos
enseñanza superior brasileña y en la realidad de la
del curso/disciplina, priorizar la forma del
Universidad Estatal de Piauí (UESPI), donde dentro
contenido, favorecer la suerte, distinguir el
de los problemas específicos está la evaluación de los
desempeño individual, crear clima competitivo, no
universitarios.
privilegiar las individualidades de los alumnos y sus

36
Dossiê UESPI 30 Anos

En este sentido, la evaluación es pautada en y fragilidades en las prácticas de evaluación del


el Reglamento General de la Universidad aprobado aprendizaje en los cursos de formación de
por la Resolución del Consejo Director de la profesores denominados de Licenciatura, tanto en
Fundación Universidad Estadual de Piauí– los de Ciencias, como en el resto de los cursos. Entre
CONDIR, en la portaría No. 005/2008, publicada estas insuficiencias, que corroboran las antes
por la Resolución el 003/2009 del Consejo señaladas, se encuentran el predominio de una
Universitario de la Universidad Estatal de Piauí - evaluación básicamente sumativa, y cuantitativa,
CONSUN del día 21 de julio del 2009. En este con escasa variedad de técnicas de evaluación, la
documento se presentan los lineamientos generales existencia de una mayor preocupación por la
con respecto a la evaluación, que posteriormente se cantidad de contenidos que acumule el alumno en
instrumentan en los proyectos político pedagógicos sus aprendizajes, la ausencia de planeamiento del
de los diferentes cursos. Aunque estos documentos proceso evaluativo por los docentes en sus clases y
ofrecen determinadas orientaciones, se percibe de uniformidad en los diferentes cursos; entre otros
todavía la necesidad de perfeccionarlos en lo aspectos también esenciales.
referido a cómo concebir el proceso de evaluación
Se aprecia igualmente, una cierta resistencia
del aprendizaje, pues ciertas insuficiencias y
de algunos docentes para asumir cambios
carencias didácticas y metodológicas en dichos
necesarios ante estas problemáticas, aunque otros
documentos se manifiestan en los conocimientos y
reconocen las limitaciones y los problemas
accionar profesional de los docentes de la
existentes relacionados con la evaluación y
Universidad, en lo concerniente a dicho proceso.
demuestran interés en superarlos.
Entre estas carencias, se encuentran las
Prevalece aún de igual manera, la
referidas a los propósitos y fines de la evaluación, la
reproducción de información que involucra
ausencia de sus funciones desde el punto de vista
procesos psicológicos a los que tradicionalmente se
formativo en el alumno, la identificación de la
les han denominado memoria mecánica y se aprecia
evaluación con la calificación, el enfoque
como tendencia la reducción de la evaluación del
predominantemente cuantitativo y cognitivo de la
aprendizaje, solo a los conocimientos, y a las
misma, su consideración desde un punto de vista
habilidades, sin atender otros aspectos de la
básicamente técnico, o más bien "mecanicista", sin
personalidad que invariablemente están implicados
revelar sus determinantes, naturaleza y
en el acto evaluativo.
consecuencias sociales; todo lo cual tiene
incidencias en el papel predominante del profesor en En relación con lo anterior, se ha observado
el acto evaluativo, sin que tenga lugar en éste, el también, en el transcurso del proceso de enseñanza
accionar protagónico del estudiante y del grupo- aprendizaje, la necesidad de su perfeccionamiento
clase. para poder cumplir las aspiraciones establecidas en
la Ley de Directrices y Bases de la Educación
El presente trabajo surge además, a partir de
Brasileña-LDB (1996) y en los documentos
las experiencias y vivencias obtenidas por su autora
normativos de la propia Institución, referidos a la
en el día a día del aula, como gestora y,
calidad del tipo de universitario que se requiere
principalmente como miembro de la Comisión
formar.
Propia de Evaluación de la UESPI instituida,
atendiendo a la Ley. Federal No.10861 que creó el Este articulo que se basa en la tesis de
Sistema Nacional de Evaluación de la Enseñanza doctorado de la autora y tiene como objetivo
Superior (SINAES). proponer una estrategia didáctica que contribuya a
renovar la concepción de evaluación del aprendizaje
Durante un periodo de seis años, desde la
en los Cursos de Licenciatura en Ciencias de la
creación de dicha comisión de evaluación hasta el
Universidad Estatal de Piauí, mejorando el
presente, se han observado y constatado deficiencias
desempeño didáctico de los docentes en cuanto al

37
Dossiê UESPI 30 Anos

conocimiento y ejercicio de su práctica evaluativa, y sociedad. Destaca lo anterior como un camino


se sustenta teoricamente en las concepciones prometedor para la aproximación a fundamentos o
educativas de Vigostky(1997), y las propuestas de bases de una teoría de la evaluación que permita
evaluación del aprendizaje presentes en los trabajos trascender visiones puntuales y reduccionistas de
de Hoffmann (2010) y González (2007). este proceso.
En este contexto la autora de este trabajo
DESARROLLO
valora como imprescindible, identificar y asumir
una concepción de aprendizaje fundamentada
La evaluación del aprendizaje es una
desde la perspectiva vigotskiana, a partir de la visión
actividad socialmente determinada, con función de
que ofrecen los conceptos de educación y desarrollo,
control con respecto a la sociedad y a la educación
concebidos de manera interrelacionada y en unidad.
vista desde una perspectiva amplia, donde ha de dar
Esta idea se sustenta en el concepto que elabora
respuesta con eficiencia a la formación del hombre
Vigotsky (1997) sobre la zona de desarrollo próximo
deseado y, en una estrecha, donde ésta se concreta
(ZDP), un constructo teórico de esencial.
mediante las influencias instructiva, educativa y
desarrolladora de cada estudiante, durante el En este sentido, al analizar la relación
transcurso del proceso de enseñanza aprendizaje educación-desarrollo, Vigotsky(1997) plantea la
dirigido por el docente a nivel áulico. existencia de dos niveles de desarrollo: el real (que
muestra el nivel actual de un sujeto cuando es capaz
González M. (2007), señala que se hace
de demostrar lo que sabe y hace independiente-
necesario elaborar una fundamentación científica
mente) y el desarrollo potencial, (que permite
que sustente una concepción de la evaluación del
revelar su nivel potencial (lo que no es posible que el
aprendizaje en la cual se conciba que no solo esté
sujeto realice por sí solo, no obstante lo puede
dirigida a la valoración del rendimiento académico
realizar con la ayuda de otro).
del estudiante, sino también que contribuya a los
procesos formativos de su personalidad, así como al En esta interrelación, el rasgo fundamental
perfeccionamiento del proceso de enseñanza de la enseñanza es que ella crea la zona de desarrollo
aprendizaje. En este sentido enfatiza en la necesidad próximo y, la evaluación del aprendizaje, por
de concebir una evaluación formativa en el proceso consiguiente, hay que verla en este mismo sentido.
de enseñanza aprendizaje que dirija el docente. En la elaboración de los fundamentos
La ausencia del carácter formativo en la teóricos, se toman también las ideas de Hoffmann J.
evaluación conduce a la “cultura de la prueba”, (2010), que defiende la concepción de evaluación
caracterizada como una de las partes de la función de mediadora en la que plantea que evaluar implica
control, en conformidad con los principios compartir entre educadores y educandos, dinamizar
conductistas. El desarrollo del carácter formativo, al oportunidades de acción-reflexión, en un
contrario, disemina la “cultura de la evaluación” en seguimiento permanente del profesor, el cual debe
consonancia con el principio de la evaluación como propiciar que los alumnos reflexionen acerca del
exigencia reguladora e integradora de los aspectos mundo y que se formen como seres críticos y
instructivos y educativos en el proceso de participativos en la construcción de verdades
enseñanza-aprendizaje. formuladas y reformuladas.

Es en este sentido que la mencionada autora El proceso de enseñanza-aprendizaje,


valora la importancia de la reconstrucción de una transcurre en la unidad de lo instructivo y lo
concepción de la evaluación que se sustente en la educativo. La evaluación, como uno de sus
naturaleza del propio proceso de aprendizaje en las componentes, debe ser vista en las dimensiones que
condiciones de la enseñanza y de los fines de ese conforman la personalidad, es decir, cognitiva,
aprendizaje, acorde con las metas formativas de la afectivo-motivacional y reflexivo reguladora,

38
Dossiê UESPI 30 Anos

considerarlas en estrecha interrelación y en su clara docentes en el sentido que se analiza. Se cimienta a


orientación, a la vez, desde la conducción de la su vez en fundamentos filosóficos, sociológicos,
enseñanza, pues la construcción de la personalidad psicológicos, que insertados en los pedagógicos y
de cada estudiante es una unidad. como parte de éstos en los didácticos facilitan
A los efectos de la evaluación, se trata de la encontrar la orientación necesaria hacia los cambios
valoración, no sólo del intelecto del estudiante, sino a los cuales que se aspira.
además, de considerar las cualidades y actitudes Entre estos principios que orientan el
como componentes de la personalidad, acerca de los accionar didáctico de la evaluación del aprendizaje
cuales la evaluación del aprendizaje tiene también se destacan los siguientes: la evaluación se ha de
funciones que ocupan un importante lugar en el orientar al mañana de los estudiantes en el sentido
crecimiento y desarrollo personal de cada de su desarrollo, de su formación; la evaluación del
estudiante. aprendizaje ha de permitir la formación de
En los últimos años se observa cada vez más estrategias de control y autorregulación en los
la tendencia hacia la comprensión de la necesidad de sujetos que aprenden; la evaluación es motivacional
ver a la evaluación vinculada a los procesos y orientadora; la evaluación es un proceso
formativos, a sus fines, como parte del proceso de formativo, continuo y sistemático; la evaluación es
enseñanza aprendizaje. mediadora e integral.

evaluación de los aprendizajes en dicha La estrategia se ha conformado de manera


Institución, que acompañado de sus alumnos y que su estructura y funcionamiento tenga como
mediante una comunicación dialógica los implica premisa principal la misión de mejorar la
significativa-mente como sujetos activos, reflexivos orientación teórica y práctica del proceso evaluativo
y conscientes en el control y valoración de sus en los cursos de Licenciatura en Ciencias. Derivada
aprendizajes y el de sus coetáneos; propicia niveles de esta se determinan los objetivos, que de una
de interacción positiva y un clima de confianza que forma más específica deben contribuir al
estimula el proceso de regulación y autorregulación cumplimiento de la misión y para el alcance de los
como función esencial de la evaluación, y que, mismos se planifican las etapas de diagnóstico,
partiendo del conocimiento del nivel real y potencial planeamiento, implementación, evaluación y
de sus alumnos, contribuye a que puedan alcanzar socialización.
niveles superiores en su aprendizaje y desarrollo. En cada etapa se diseñan acciones
Sobre la base de esta concepción y de un específicas y se seleccionan los métodos y las formas
estudio diagnóstico que partió del análisis de organización, así como los recursos necesarios,
que en su conjunto facilitan, a partir de la
documental de los Proyectos Politicos Pedagógicos
concepción teórica de carácter didáctico que
de los cursos objeto de estudio así como de
sustenta la estrategia, acercarse de manera
observaciones dirigidas a profundizar en
planificada y organizada al alcance de la misión y los
concepciones y prácticas evaluativas de docentes en
objetivos correspondientes. Al mismo tiempo en la
una muestra seleccionada en cursos de Licenciatura
estrategia se concibe la retroalimentación necesaria
en Ciencias Biológicas y Matemática, se elabora una
que posibilite perfeccionarla sistemáticamente.
propuesta de estrategia didáctica, que en una
versión preliminar de introducción en la Un lugar particular en ella lo tiene la
prácticauniversitaria de la UESPI contribuya a diversidad de formas de organización en que se
mejorar la evaluación de los aprendizajes en dicha organizan y como parte de estas, un sistema de
talleres cuyos objetivos y contenidos llevan
Institución, que se representa en el gráfico siguiente.
implícitos la concepción de evaluación mediadora
La estrategia propuesta es de naturaleza formativa del aprendizaje, como aspiración teórica y
didáctica porque se reconoce que es en los práctica a alcanzar en la Universidad en general y, en

39
Dossiê UESPI 30 Anos

ESTRATEGIA DIDÁCTICA

40
Dossiê UESPI 30 Anos

particular en los docentes de los cursos tomados varios directivos y coordinadores de cursos.
como muestra en la investigación. Como objetivo general del sistema de
Las temáticas planificadas han de surgir de talleres se precisó: Identificar y sensibilizar a los
las propias necesidades detectadas en el diagnóstico participantes con sus necesidades de aprendizaje y
que se realice, lo cual es una potencialidad con las principales problemáticas del proceso de
importante unida a la concepción didáctica y evaluación del aprendizaje de los alumnos en la
metodológica en que se realizan, caracterizada por el UESPI para que partiendo de sus vivencias,
análisis crítico y valorativo de los docentes de sus reconozcan el significado de las relaciones práctica-
propias prácticas, como punto de partida para la teoría-práctica como concepción dinamizadora y
búsqueda de formas de conocer y hacer novedosas renovadora de sus desempeños profesionales.
transformaciones que mejoren el proceso de El docente investigador que conduce los
evaluación del aprendizaje de sus estudiantes, talleres ha de ser portador, desde la didáctica que
dejando atrás formas didácticas tradicionalistas. El utiliza, de demostrar los procedimientos que habrán
contenido del sistema de talleres es el siguiente: de conducir a los docentes participantes a la
concepción de evaluación mediadora formativa
1. Fundamentos teóricos de una concepción y deseada como necesaria remodelación en sus
práctica evaluativa mediadora formativa del prácticas evaluativas futuras.
aprendizaje. Los talleres fueron desarrollados con los
docentes de los cursos de ciencias de la UESPI
2.Fines y funciones de la evaluación.
solamente pero la concepción general de la
Significación de la evaluación como componente del
estrategia y el diseño de los mismos fue valorado
proceso de enseñanza aprendizaje y su interrelación
tanto por los usuarios participantes como por
con el resto de los componentes de dicho proceso.
especialistas que no participaron en los mismos,
3. Formas de evaluación en una concepción siendo ellos 15 profesores de la UESPI; 4 de la
de evaluación del aprendizaje mediadora formativa. Universidad Federal de Piaui, 4 del Instituto Federal
4. La auto-evaluación y la co-evaluación de Educación, Ciencia y Tecnología y 2 de la
como vías mediadoras que facilitan la implicación Facultad Integral diferencial-FACID.
del estudiante en el proceso de su propio aprendizaje Se presentan seguidamente algunos
y en sus procesos formativos. testimonios ofrecidos en las entrevistas al finalizar
la implementación de los talleres y de la estrategia
5. Instrumentos de evaluación,
vista en su conjunto:
características y orientaciones para su elaboración
según la concepción mediadora formativa. “Pude recibir los fundamentos para sustentar
6. La práctica consecuente de la verdaderas transformaciones en los métodos y
retroalimentación: Orientaciones para el análisis técnicas que hasta ahora venía utilizando para
posterior de los resultados de las evaluaciones en evaluar”.
una concepción mediadora formativa. “yo no pensaba que el proceso evaluativo tenía todo
7. La comunicación y su trascendencia en ese sustento teórico”.
una concepción de evaluación del aprendizaje “los talleres favorecen a los sujetos en el sentido de
mediadora formativa. contribuir a la elaboración de nuevas bases para la
evaluación mediante el trabajo en colectivo”.
Como parte del proceso de la investigación,
“la estrategia presenta un diagnóstico de la situación
los talleres fueron desarrollados con profesores de
actual, un planeamiento, implementación,
los cursos antes señalados, con la inserción de
evaluación y socialización de los resultados, etapas
nuevos docentes de otras facultades de la
todas, que contribuyen al alcance de los objetivos”.
Universidad, a los cuales se incorporaron también

41
Dossiê UESPI 30 Anos

Asimismo, durante el desarrollo de la Sobre estos fundamentos se propone una


disciplina Didáctical en el curso de Biología por estrategia con un enfoque marcadamente didáctico
medio de la observación participante fue posible en la que se concreta una misión, objetivos, y un
valorar su contribución hacia un cambio en las sistema de acciones, así como los métodos y los
prácticas evaluativas de los profesores, visto por las recursos para su desarrollo y aplicación posterior en
propias opiniones de los alumnos al concluir el condiciones semejantes, en el sentido de
semestre, de las cuales se presentan algunas: perfeccionar las concepciones y prácticas
evaluativas de los docentes.
“A través de la co-evaluación y de la auto-
evaluación fue posible hacer una reflexión de mi Sus potencialidades didácticas y
aprovechamiento en la disciplina, “Durante las metodológicas se ponen en evidencia en un sistema
clases me sentí libre para dar mis opiniones, fue de talleres y seminarios, portadores de un enfoque
posible expresar los conocimientos, sin tener miedo novedoso en el contenido, así como enlos métodos y
de errar y ser evaluada negativamente”. “Para mí en en los procedimientos utilizados, que permiten
la evaluación el profesor tiene dos funciones en el ilustrar a los docentes y alumnos en las actividades
aula: Una función motivadora y otra orientadora. prácticas que consecuentemente realizan donde
aplican los nuevos conocimientos; cómo ellos
“Quedo claro que es posible hacer una evaluación
pueden, basados en las acciones realizadas al
donde la preocupación esté en lo que aprendemos y
interior de los mismos, comenzar a producir
que sean trabajadas las dificultades, donde la nota
mejoras en la realización de sus evaluaciones en
no sea lo más importante”. clases.
Los planteamientos anteriores, así como la La puesta en práctica de algunas acciones de
valoración, en general, positiva de todos los alumnos la estrategia mostró una buena actitud reflexiva en
y docentes participantes de la estrategia hasta el los participantes y evidenció las posibilidades de
momento y su evaluación por especialistas iniciar un proceso de instrumentación de una
seleccionados en este campo en Brasil, ya son una evaluación mediadora formativa que permita
evidencia de que la estrategia implementada abrirá superar formas tradicionales en la evaluación del
nuevas posibilidades de cambios en la práctica aprendizaje de los estudiantes.
evaluativa en la Universidad Estatal de Piauí. Ella
Los resultados obtenidos con una incursión
habrá de conducir a la toma de conciencia de los
preliminar en la práctica de la estrategia didáctica,
implicados, sobre la base de la elevación de su nivel
con los docentes participantes, se corresponden con
de conocimiento con respecto a la evaluación, vista
la valoración de un grupo de especialistas que
en su sentido mediador formativo. Su novedad y
ofrecieron, en líneas generales, criterios favorables
legitimidad están dadas porque incluye acciones
acerca de sus posibilidades transformadoras. A
científicamente sustentadas basadas en un diag-
partir de estos resultados iniciales, la estrategia
óstico inicial, con fundamentos teóricos y metodo-
clarifica la necesidad de continuar su implementa-
lógicos adecuados al objeto de investigación, los
ción a fin de continuar su perfeccionamiento en
cuales están dirigidos a su transformación paulatina
nuevos contextos y de valorar sus efectos en los
con vistas a contribuir al cumplimiento con docentes involucrados.
eficiencia de la Misión Social de la Institución.
REFERENCIAS
CONCLUSIONES
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43
Dossiê UESPI 30 Anos

TRAÇOS DA EXPANSÃO E INTERIORIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE


ESTADUAL DO PIAUÍ – UESPI

TRACES OF EXPANSION AND INTERIORIZATION OF STATE


UNIVERSITY OF PIAUÍ – UESPI

Evangelita Carvalho da NÓBREGA¹

“É impossível existir sem sonhos”


(Paulo Freire, 2001, p. 35).

1
Pedagoga. Mestre em Educação (UNINOVE/SP). Especialista em Gestão de Políticas Públicas em gênero e raça.
Especialista em Gestão Educacional. Especialista em Docência do Ensino Superior. Docente da Universidade Estadual
do Piauí – UESPI – Campus Parnaíba. Email: evangelitanobrega@hotmail.com

RESUMO

Este artigo apresenta traços da Educação Superior Estadual no Piauí, tendo como foco de análise a
Universidade Estadual do Piauí - UESPI. Propõe-se discutir, de forma sucinta, a interiorização e expansão da
UESPI, orientada por autores como Freire (2001), Chauí (2001), Santos (1994),Mendes (2012), Cunha (1986) e
Ribeiro (1978). O estudo abrange um breve levantamento histórico; não se pretende nesta discussão avaliar a
estrutura e o desempenho da UESPI, mas apresentar ponto de vista acerca do crescimento e da contribuição
desta IES, em várias regiões do Piauí. A UESPI com estrutura multicampi foi criada para atuar na formação de
professores, construída pelos sonhos do povo piauiense, fortaleceu-se nas lutas e nos compromissos de
desenvolvimento regional, assim, continua oportunizando ações democráticas de acesso e permanência as
diversas classes populares no contexto da educação superior.

Palavras-chave: Educação Superior; Interiorização; Expansão.

ABSTRACT

This article presents traits of the State Higher Education in Piauí. With the focus of analysis the State University
of Piauí - UESPI. It is proposed to discuss briefly the internalization and expansion of UESPI, guided by authors
such as Freire (2001), Chauí (2001), Santos (1994), Mendes (2012), Cunha (1986) and Ribeiro (1978). The
study includes a brief historical survey, do not want this discussion to evaluate the structure and performance of
UESPI but present point of view about the growth and contribution of this IES in various regions of Piauí. The
UESPI with multicampi structure was created to work in teacher training, built by dreams of Piauí people,
strengthened the struggles and regional development commitments. Thus continues providing opportunities
democratic actions of access and permanence the various popular classes in the context of higher education.

Keywords: Higher Education; Internalization; Expansion.

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Dossiê UESPI 30 Anos

1 INTRODUÇÃO para atender regiões do interior e potencializar a


descentralização da educação superior dos grandes
A história da educação superior no Brasil centros.
traduz reflexos da precariedade na efetivação de
A reforma do Estado nacional na década de
políticas públicas. Estas distribuídas de forma
1980, por meio da Constituição Federal de 1988, que
injusta, quanto ao acesso e permanência na oferta de
assegura a todos o direito à educação, com garantia
vagas, na infraestrutura, nos recursos financeiros e
de gratuidade de ensino, nos estabelecimentos
pedagógicos, tendo ao longo da história, vivenciado
oficiais de ensino, dentre deste novo aspecto legal a
práticas na oferta de cursos superiores, atreladas a
descentralização do ensino e a autonomia para criar
exclusividades das metrópoles, das principais
IES. A União transfere responsabilidades federais
capitais e das cidades do interior mais desenvolvida.
para Estados e Municípios, que passam a se ocupar,
O Estado do Piauí também viveu sob os olhos da
cada vez menos, com o setor educacional, incluindo
invisibilidade educacional, principalmente no
o superior.
ensino superior. Descreve Mendes:
Desta forma, a expansão do ensino superior
A história da educação no Brasil e no Piauí, brasileiro nas universidades públicas foi baseada
incluindo seu processo de desenvolvimento em modelos e acessos restritos da população,
sócio-político e econômico é marcada de somente alguns “privilegiados” conseguiam
forma indelével por questões fiscais e
tributárias. De maneira geral, tanto o seu formação universitária. O modelo implantando de
processo histórico quanto a história da oferta de cursos superiores foi permeado de
educação especificamente, amalgamaram-se exclusões das classes populares de baixa renda, de
de tal maneira que as políticas educacionais,
quando existiram, foram construídas quase atrasos na resolutividade dos problemas regionais e
que diretamente ligadas ao processo de locais, o que colaborou para retardar o desenvolvi-
obtenção e distribuição dos recursos
financeiros alocados ou não pelo governo
mento social. Concordando com Chauí:
(2012, p. 17).
A Universidade, sendo uma instituição
social, significa que ela realiza e exprime de
O acesso aos cursos superiores no Brasil modo determinado a sociedade de que é e
pertencia somente a alguns privilegiados. Aponta faz parte. Não é uma realidade separada e
sim uma expressão historicamente
Wanderley (1986) que as universidades foram determinada de uma sociedade determina-
criadas para atender as elites e os seus interesses. A da (2001, p. 35).
“elite universitária” buscava formação profissional
pelos cursos superiores, pois estes, em sua grande Entende-se que a universidade deve ser de
maioria, já facilitava o trâmite para exercer altos todos e para todos. Seus princípios devem emergir
cargos nos serviços públicos, setores da indústria, do pensar a sua realidade, preservar e recriar a
comércio e nas profissões liberais. cultura, atuar na construção de novos conhecimen-
O desdobramento da ampliação do ensino tos e reconhecimento de outros fazeres e saberes,
superior surge no Brasil, a partir do pós 1964, com além do dever de cuidar da formação das gerações.
vagas nas universidades federais e várias faculdades Deve-se construir uma relação sólida para
privada, incluindo fundações de natureza pública e desenvolver-se, de forma integrada e indissociável
privada. As políticas expansionistas contribuíram com a tríade Ensino, Pesquisa e Extensão.
na criação de várias universidades estaduais. Estas Romper com modelos que, ao longo da
geraram novas oportunidades educacionais, com história, tem negado e marginalizado o acesso a
ampliação de novas salas, de unidades, de vagas e classes populares ao ensino superior. Neste sentido,
oferta de outros cursos. Já o processo de interioriza- a efetivação de políticas de ensino superior baseadas
ção consolidou-se na estruturação de políticas de em expansão de acesso, de vagas e de compromisso
acesso e oferta de vagas com unidades implantadas com os problemas local, regional e nacional, visando

45
Dossiê UESPI 30 Anos

reformular novos modelos de IES que promovam a único espaço de Formação Superior Público. Tendo
inclusão de todos. reunindo as Faculdades isoladas de: Direito,
Compreende-se que viabilizar a interioriza- Filosofia, Odontologia, Medicina (Teresina) e
Administração (Parnaíba).
ção da universidade permite aos jovens oriundos de
classes populares a realizarem sonhos de cursarem Observa-se que os cursos ofertados não se
uma faculdade. E com isto, surge a esperança de diferem de outras regiões brasileiras. Trazendo as
intervenções na condição de vida social, cultural e mesmas características, ou seja, atendiam algumas
econômica da região, tendo em vista que a classes privilegiadas. Desta forma, a carência de
interiorização geográfica do ensino superior formação profissional em outras áreas do saber
contribui com o crescimento das regiões polo e das refletia o atraso econômico, cultural, científico e
regiões circunvizinhas, além da fixação da popula- político em toda a extensão territorial do Estado,
ção beneficiada, em suas próprias regiões. O ensino principalmente na formação de professores para
superior passa a representar para muitos jovens, um atender a educação básica. Estes recortes de acesso
regador de expectativas de integração com os à Universidade Federal e Faculdades Privadas,
efetivaram atrasos na Educação Superior do Piauí,
diversos saberes e fazeres.
pois a abrangência limitada de oferta de vagas nas
principais regiões e os poucos cursos e/ou ditos
2 BREVE HISTÓRICO DO ENSINO SUPERI-
cursos “elitizados”, bem como, o mecanismo de
OR NO PIAUÍ
seleção (vestibular) oportunizaram a ascensão à
população restrita ao ensino superior.
O primeiro Curso Superior no Piauí deu-se,
com a criação da Faculdade de Direito, no ano de A UFPI era a única IES pública a ofertar
1931. Esta instituição passou por dificuldades ensino superior e com condições de acessibilidade
financeiras e no início de suas atividades, com que privilegiavam principalmente aos que viviam na
acomodações péssimas em prédio cedido. Levando capital (Teresina) ou quem detinha recursos
seus idealizadores e mantenedores transferirem financeiros para lá residir. Assim, o atendimento da
demanda estudantil piauiense até década de 80 era
para o governo do Estado. Já em 1937, por falta de
insuficiente pelas vagas, pela centralização de
quadro docente, passou a funcionar como
ofertas na região central e a falta de políticas
estabelecimento livre. Em 4 de dezembro de 1950,
afirmativas.
passou a integrar o Sistema Federal de Ensino.
Somente depois de duas décadas, surge a 2.1. Expansão e Interiorização: nasce a
primeira Faculdade Católica de Filosofia, em 1957, Universidade Estadual do Piauí-UESPI
com cursos de Licenciatura: História, Geografia e
Letras Neolatinas (Francês, Espanhol e Italiano) e o O ensino superior estadual deu-se pela
Bacharelado em Filosofia. Depois de 12 anos de criação da Lei Estadual n 3.967, l6 de novembro de
existência como Instituição Autônoma, foi incorpo- 1984, publicada no Diário Oficial do Estado nº 219,
rada pela Universidade Federal do Piauí - UFPI. de 20 de novembro de 1984, que instituiu a
Segundo Carvalho: Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da
Educação do Estado do Piauí – FADEP, instituída
A faculdade de Direito do Piauí cumpriria a pelo Poder Público por meio do Decreto nº 6.096, de
função de formar os filhos da elite local, que 22 de novembro de 1984, publicado no Diário Oficial
posteriormente assumiriam os cargos
públicos e políticos do Estado, a Faculdade do Estado nº 225, de 28 de novembro de 1984,
Católica de Filosofia do Piauí tinha como dando origem a Instituição de Ensino Superior
atribuição formar professores (2014, p. 40). Estadual. Criada com fins de capacitação de
recursos humanos e a missão especial de interioriza-
Em 1971, foi instituída oficialmente a Uni- ção, ou seja, atender toda uma demanda reprimida,
versidade Federal do Piauí (UFPI), constituindo-se o em diversas cidades piauienses, além fomentar

46
Dossiê UESPI 30 Anos

exclusivamente sua atuação na formação de Novos passos de expansão foram instituídos


professores para atender a rede de educação pública. por meio do Decreto 8.788, de 29 de outubro de
O artigo 1º da Lei: 1992, que dispõe sobre o funcionamento regular da
IES. Instituída como Universidade Estadual do
Fica o Poder Executivo autorizado a instituir, Piauí - UESPI, em 25 de fevereiro de 1993, por meio
vinculada à Secretaria de Estado da Educação, da publicação no Diário Oficial Seção 1/2.359.
uma organização de ensino, pesquisa,
desenvolvimento e tecnologias educacionais e
execução de serviços de radiodifusão Art. 1º Fica autorizada o funcionamento da
educativa denominada Fundação de Apoio ao Universidade Estadual do Piauí- UESPI,
Desenvolvimento da Educação do Estado do mantida pela Fundação de Apoio ao
Piauí – FADEP, com sede e foro na cidade de Desenvolvimento da Educação do Estado do
Teresina e jurisdição em todo o território do Piauí, com sede na cidade de Teresina,
Estado, e com as seguintes finalidades: I – Estado do Piauí, na modalidade de sistema
formação de recursos humanos a nível de 3º multicampi, instalados em Teresina,
grau, para atender as necessidades do Sistema Floriano, Picos, Parnaíba e Corrente.
Estadual de Ensino, em especial as do interior
do Estado, capacitação de pessoal como força
qualificada de trabalho (grifo nosso). É regida por seu estatuto aprovado pelo
Decreto Estadual n.º 10.176, de 06 de outubro de
A estrutura organizacional iniciou-se 1999 e Resolução do Conselho Superior n.º 029/99.
composta pelo Centro de Ensino Superior do Piauí - Conta com uma estrutura que compreende: Órgão
CESP, por meio do Decreto Federal de nº 91. 851/85 Máximo Deliberativo Superior; Órgãos Executivos
e do Centro de Telecomunicações - CETEL, e do Superiores; Órgãos Executivos Setoriais e Órgãos
Decreto Federal nº 91.316/85, com autorização de Deliberativos Setoriais.
funcionamento dos cursos de Pedagogia, Ciências Em dezembro de 1995, pelo Decreto
Físicas e Biológicas, Matemática, Letras Português/ 9.430/95, dá nova redação ao Estatuto da FADEP,
Inglês, Educação Física, Processamento de Dados. A passa a se chamar Fundação Universidade Estadual
sede em Teresina (capital), Campus Pirajá, sendo do Piauí – FUESPI, que passou a ser a mantenedora
também instalados os campi nas cidades de da UESPI, com foro e sede em Teresina.
Floriano, Parnaíba e Corrente. A Universidade Estadual do Piauí, em 1993
Em 1986, promove o primeiro vestibular, possuía quatro campi no interior do Estado e com
com 240 vagas, distribuídas para os cursos de sede, na Capital (Teresina). Em 1995, atingiu apro-
Licenciaturas em Pedagogia/Magistério; Ciências ximadamente 2.500 alunos matriculados, um salto
Físicas e Biológicas e Matemática; Letras Portu- na expansão e intensificação no interior, chegando a
guês/Inglês e para Bacharelado em Administração um maior crescimento de atendimento no ano de
de Empresas. Além de cursos regulares, cursos 2000, com 21.000 alunos matriculados. Tendo
especiais com programas diferenciados de atendi- ampliação de atendimento em 31 campi/núcleos
universitários em vários municípios piauienses. O
mento da demanda por Educação Superior contem-
crescimento da oferta de cursos teve maior ênfase
plando e atendendo peculiaridades geográficas,
nas licenciaturas.
econômicas, socioculturais e educacionais.
O processo de efetivação de ensino superior 2.2 O fortalecimento da UESPI: recursos do
estadual apresentou características diferenciadas do FUNDEF para formação de professores
modelo de IES implantadas no Piauí. Tais
características foram visíveis com a descentralização A explosão de cursos instituídos no interior do
da oferta de vagas, pois se estenderam a diversas Estado, ofertados pela UESPI, deu-se para atender
cidades, atendendo regiões do norte, centro e sul do demandas de professores leigos que estavam
Piauí. inseridos na rede pública. A motivação das

47
Dossiê UESPI 30 Anos

exigências legais por meio da Lei 9.394/96 - Lei de além das fronteiras do Piauí.
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN),
Porém, a viabilização destes convênios,
em que determina:
esteve atrelada a recursos financeiros do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino
Art. 62. A formação de docentes para atuar na
educação básica far-seá em nível superior, em
Fundamental e de Valorização do Magistério –
curso de licenciatura, de graduação plena, em FUNDEF. O impacto positivo foi garantir a captação
universidades e institutos superiores de dos recursos financeiros para custeio de vagas
educação, admitida, como formação mínima
para o exercício do magistério na educação destinando a professores das redes conveniadas.
infantil e nas quatro primeiras séries do ensino Conforme determinava a lei do FUNDEF nº.
fundamental, a oferecida em nível médio, na 9.424/96:
modalidade Normal.

Art. 7º Os recursos do Fundo, incluída a


Afirma-se, que a situação da educação complementação da União, quando for o caso,
pública no Piauí, presente na década 90, consistia serão utilizados pelos Estados, Distrito Federal
das sequelas originadas pelas políticas públicas e Municípios, assegurados, pelo menos, 60%
(sessenta por cento) para a remuneração dos
ligadas a recursos financeiros, dispersão geográfica e profissionais do Magistério, em efetivo
até preconceitos sociais. A educação piauiense exercício de suas atividades no ensino
fundamental público.
permaneceu por longo tempo, apontada no cenário
nacional, pelos altos índices de analfabetismo Parágrafo único. Nos primeiros cinco anos a
funcional e absoluto, a falta de quadros docentes contar da publicação desta lei serão permitidos
a aplicação de parte dos recursos da parcela de
qualificados, altas taxas de repetência e evasão. 60% (sessenta por cento), prevista neste artigo,
Fatores que se acrescentaram a ausência de na capacitação de professores leigos, na forma
prevista no art. 9º, § 1º(grifo nosso).
professores nas salas de aula, em decorrência da
falta de incentivo na formação, e remuneração baixa
em todo o Estado, com maior ênfase no interior. Os recursos do FUNDEF ajudaram histori-
Descreve Mendes (2012, p. 103), “[...] o curso camente o Estado do Piauí a melhorar a expansão
normal médio passou por vários momentos de educacional da rede pública, elevando os índices de
extinção”. Sem dúvida com a extinção do curso universalização do ensino fundamental e contribuiu
normal para formar professoras, a educação para minimizar os problemas de habilitação
piauiense sofreria prejuízos significativos profissional. A aplicação destes recursos também foi
principalmente na educação pública. imprescindível para formação de pessoal qualifi-
cado para o exercício do magistério, auxiliando na
A busca por curso superior em todo Estado fixação de profissionais no interior.
foi potencializada pelas medidas de expansão e
interiorização que tiveram suas ações viabilizadas Com a exigência da LDB nº. 9.394/96 e com
pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - a criação dos novos Estatutos do Magistério, que
LDB. 9. 394/96, conforme ampara o art. 52: “as tratam de alterar o perfil de formações de professo-
universidades gozam de autonomia didático- res e dos requisitos de estruturação de suas
científica, administrativa e de gestão financeira e carreiras, na perspectiva de melhoria do ganho
patrimonial”. salarial baseados em categorias de formação. Estes
contribuíram para aguçar sonhos de vários
Desta forma, permitiu a UESPI realizar “professores leigos” os ditos sem formação
convênios, com as administrações públicas específica para atuarem no magistério com
municipais, destas no total de 246 prefeituras, sendo formação superior.
220 no Piauí, 18 no Maranhão e 08 na Bahia, além da
Secretaria de Educação do Estado do Piauí. Verifica- Desta forma, a interiorização de cursos
se, nestes números, que a instituição esteve superiores possibilitou atender a demandas de
presente, atuando na formação de professores, professores leigos, nas mais diversas localidades

48
Dossiê UESPI 30 Anos

piauienses. Um novo cenário foi alterado nestas capilaridade, o que, consequentemente


localidades com a perspectiva de formação superior contribuiu para fixação, por todo o
território piauiense, de profissionais de
dos professores em serviço. Os cursos superiores de excelente formação acadêmica, abrindo
“Regime Especial” foram desenhados com novas perspectivas de desenvolvimento,
nas mais diferentes áreas do conhecimento,
atividades acadêmicas em períodos letivos ajustados
não só na capital, Teresina, mas também no
com o período de férias escolares. interior do Piauí (PLANO ESTRATÉGICO
INSTITUCIONAL-UESPI, 2014, p. 11).
Ressalta-se que a qualificação de professores
leigos transformou o panorama educacional das
Estudos mostram que a formação superior
regiões envolvidas. O cenário alterado pela presença
contribuiu para aproximar a introdução de novas
de espaços universitários colaborou com o novo
discussões teóricas e práticas no contexto da
ritmo no cotidiano dos municípios. Estas mudanças
formação de professores, potencializando novas
foram culturais, econômicas e sociais, tornando-se
práticas reflexivas do interior das escolas.
visíveis no desenvolvimento local e regional,
Resultados influenciam um novo jeito de fazer
principalmente em aspectos educacionais.
educação pública democrática com viés para
Explica Santos: “ espaço se globaliza, mas emancipar o meio social e cultural.
não é mundial como um todo, senão como metáfora.
Ressalta a Vice Reitora Bárbara Mello:
Todos os lugares são mundiais, mas não há espaço
mundial. Quem se globaliza, mesmo, são as pessoas
[...] a Universidade deve dialogar com a
e os lugares” (1994, p. 31). sociedade a que pertence e, ao mesmo
tempo, transcender os seus limites. Esse
A interiorização geográfica do ensino
encontro com o mundo é impulsionador,
superior pode ser entendida como um processo de porque a troca de experiências favorece o
inclusão da democratização espacial de acesso. aperfeiçoamento das ideias e a apreensão de
novos conhecimentos. Dessa forma, as
Neste sentido, ampliam-se oportunidades de Universidades Estaduais devem contribuir
serviços contribuindo para o desenvolvimento de para o desenvolvimento socioeconômico de
cidades interioranas. Ainda desperta o potencial da seus Estados, sem perder, entretanto, as
oportunidades de interação com o restante
região como polo de conhecimentos. Todos os do país e com outros países do mundo
gestos, forças, ações, atitudes e incorporação de (PLANO ESTRATÉGICO INSTITUCIONAL
novos saberes geraram movimento de globalização - UESPI, 2014, p.13).
nas pessoas e nos lugares beneficiados pela presença
da UESPI. Um sistema influencia o outro e é por ele A UESPI ganha cada vez mais estabilidade
influenciado, formando outro meio geográfico. O institucional e reconhecimento da sociedade,
reconhecimento da comunidade acadêmica e a solidificando-se como referência na formação e
reação da sociedade local, em que está inserido cada qualificação de demandas dos municípios
polo da UESPI, traduzem a presença da IES como piauienses. Estas impulsionando suas práticas e
patrimônio público local e regional. provocando mudanças educacionais, sociais e
culturais em várias regiões. A sociedade está atenta.
A UESPI tem promovido a inclusão social por
Participa, protege e fortalece efetivamente questões
se estender as mais variadas regiões do território
que são levantadas sobre esta IES, e reivindica
piauiense. Caracterizada pelo modelo de universida-
continuamente melhorias. Muitas famílias
de multicampi, as instalações nestas regiões levam
continuam depositando sonhos e esperança de
em consideração às peculiaridades locais e regionais,
terem seus filhos vinculados à educação superior,
alinhada nos princípios do desenvolvimento.
pois a UESPI passou a ser acessível para grande
Segundo o Reitor Nouga Batista:
parte dos piauienses. Estes depositam esperanças
de alcançarem dias melhores por meio da formação
No seu processo de crescimento e expansão
no Estado, a UESPI foi se posicionando
superior. Por outro lado, aspecto positivo é a
geograficamente com uma excelente estrutura multicampi que também têm contribuído

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Dossiê UESPI 30 Anos

para a fixação de jovens no interior, que antes no território piauiense. Entender que ensino
migravam para outras regiões, em busca de uma superior é um direito de todos e que a UESPI
universidade. contribui para fortalecer a identidade do povo
Compreende-se que, quanto mais é possibili- piauiense, bem como, para aproximar os avanços da
ciência e das novas tecnologias.
tado o encontro e confronto de processos educacio-
nais, mais o ser individual ou coletivo estará sempre Algumas ações construídas verificam-se em
promovendo e despertando novos olhares na números. A UESPI vem configurando-se como uma
intervenção da realidade. No entanto, as condições das IES, que mais atua no campo formação de
da expansão e interiorização da UESPI precisam ser professores presente em várias cidades piauiense.
repensadas quanto aos aspectos de financiamento e Em 2014, atingiu o total de 21.489 alunos
os meios possíveis para promover educação superior matriculados, oferecendo 211 cursos, distribuídos
pública com mais qualidade. A educação que, por meio de sistema Presencial – total de 95 cursos.
segundo Freire (1996), constitui uma forma Em parceria com o Plano Nacional de Formação de
concreta de intervenção no mundo. Professores (PARFOR) total de 78 cursos e a
Destaca-se que, além dos diversos cursos de Educação a distância – (EAD) total de 38 cursos.
licenciaturas, outros cursos também desenvolvem Distribuídos conforme mapa.
relações interdisciplinares de conhecimento e Os resultados da expansão apontam avanços
ganharam relevância social. Os cursos, de medicina, educacionais principalmente no contexto de
enfermagem e odontologia, também contribuem formações de professores. Esta favoreceu o aumento
com a expansão e qualificação da rede hospitalar e de demandas de professores com formação
assistência à saúde em geral; os de agronomia com a superior, viabilizando atuarem em diversos níveis
contribuição significativa do desenvolvimento das de ensino. Os resultados qualitativos, já são
regiões do norte e ao sul e da melhoria das condições
apontados em diversas avaliações institucionais, o
de vida da população, dentre outros das diversas
que favorece a melhoria da educação básica em toda
áreas.
a rede pública e privada piauiense.
Portanto, ao longo de sua existência a UESPI,
com orçamento limitado assumiu demandas de CONSIDERAÇÕES FINAIS
formação superior. Estas por falta de investimen-tos
da União na oferta de vagas e cursos retardou o O desenvolvimento do ensino superior
crescimento da Universidade Federal do Piauí, piauiense foi tardio, tendo seu início concentrado na
limitando acesso à educação superior. Assim, capital, mesmo com a implantação da primeira
enfrentando todas as dificuldades estruturantes, universidade pública, esta chegou de forma bastante
atua com responsabilidade formativa permitindo a tímida, atendendo os interesses de uma pequena
muitos jovens de classes populares o acesso ao parcela da população piauiense, ou seja, “elite”.
ensino superior. Desta forma, ganha visibilidade,
Contudo, as estratégias influentes e audacio-
por meio da formação, pesquisa e extensão, o que
vem contribuindo para aumenta a ascensão social, sas levaram a criar, manter e desenvolver uma
cultural e econômica da população piauiense. Instituição Pública de Educação Superior em
recantos de ampla carência. Surge a UESPI
Não é mais possível o retrocesso, a sociedade
arraigada de desafios estruturais, pedagógicos e
intelectual e política precisam continuar incluindo
administrativos, mas que, ao longo de sua trajetória,
em suas pautas a defensa, a conservação e o
vem equilibrando suas ações e consolidando-se cada
fortalecimento da UESPI. Cabe manter o debate
vez mais seu papel de fomento no ensino, pesquisa e
constante para repensar o modelo e a função da
extensão.
Universidade. Discutir a quem deve destinar-se.
Verificar qual a contribuição que representa a UESPI

50
Dossiê UESPI 30 Anos

Mapa - Distribuição e Localização dos Campi UESPI em 2014.

Fonte: Plano Estratégico Institucional UESPI, 2014.

Hoje, com trinta anos, a UESPI continuam Cabe ressaltar a dimensão qualitativa da
sobre alicerces intencionados na formação do oferta dos cursos, mesmo não sendo objeto desse
magistério piauiense, apresenta-se com maior estudo. Este impacto poderá ser apontado em outras
diversificação em seus cursos, atuando na abrangên- pesquisas. Tratamos de refletir somente o impacto
cia de outros campos de saberes, todos de bastante positivo de interiorização de ensino superior no
relevância no processo educacional do Estado. Estado do Piauí. Continuemos a refletir, repensando
o papel social da educação superior, que deverá ser
Com isto, a UESPI vislumbra solidificar cada presente e atuante nas causas mais urgentes da
vez como Universidade Pública, forte politicamente população.
e audaz no atendimento das classes populares
Conclui-se que fortalecer a UESPI deverá ser
longínquos dos grandes centros, gerando expectati-
um papel de todos. Aqui estão entrelaçados os
vas de alcançar saltos qualitativos em prazos
sonhos de servidores, de gestores e da comunidade
reduzidos. Recebe notoriedade, compromisso e acadêmica. Que continuemos com ousadia criativa
função social da capital ao interior. Isto retrata que de arriscar-se, de inventar o novo, de romper com a
esta experiência na formação de professores com o desesperança, de criar novos significados da vida
público do interior, traduz reflexos que descrevem as social, reelaborando outros mundos. Assim,
novas marcas da educação piauiense. concordamos com Freire quando afirma que “a

51
Dossiê UESPI 30 Anos

“a prática educacional não é o único caminho à CHAUÍ, Marilena de Souza. Escritos sobre a
transformação social necessária à conquista dos universidade. São Paulo: Editora UNESP, 2001.
direitos humanos”, contudo, acredita que, “sem ela,
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jamais haverá transformação social” (FREIRE, o ensino superior da colônia à era de Vargas. Rio de
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52
Dossiê UESPI 30 Anos

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53
Dossiê UESPI 30 Anos

ENFERMAGEM EM TERESINA:
Os desafios para sua implantação e conquistas alcançadas

NURSING TERESINA:
The challenges for implementation and conquests

1
Francisca Aline Amaral da SILVA
2
Anneth Cardoso Basílio da SILVA
George Borges da SILVA3

1
Enfermeira, Professora Auxiliar I, Especialista em Saúde Pública pela UFPI, e-mail: falinesilva@yahoo.com.br
2
Enfermeira, Professora efetiva da Facime Uespi, Especialista em doação, captação e transplantes,
Mestre em educação – UFPI, e-mail: annethbasilio@yahoo.com.br
3
Acadêmico de Enfermagem – UESPI, 3º Período, e-mail: georgeborges001@gmail.com

RESUMO
O estudo tem como objeto o curso de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde, seu início e história de
construção. Teve como objetivo principal desse estudo conhecer a história do curso de Enfermagem da
Universidade Estadual do Piauí. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, documental, retrospectiva,
com abordagem histórica que utilizou fontes escritas e iconográficas. Os resultados retrataram a criação do
curso de Enfermagem no contexto da Universidade em seus multipolos, o início e criação do curso de
Enfermagem em Teresina. O conteúdo tornou possível observar as modificações no Projeto Político Pedagógico
do curso para adequar-se às orientações do Ministério da Educação, o crescimento do corpo docente do curso e
a melhoria no nível de sua qualificação, como também analisar o crescimento da produção científica dos alunos.

Palavra-Chave: História da Enfermagem. Educação em Enfermagem. Universidade Estadual do Piauí.

ABSTRACT
This article studied the nursing course of the Health Science Center, its beginning and building history. The
main objective of this study was to know the history of the nursing course of the State University of Piaui. This is
a qualitative research, documentary, retrospective, with historical approach used written and iconographic
sources. The results depicted the creation of the nursing course in the context of the university in its multipole,
the beginning and the creation of Nursing Course in Teresina. The content made it possible to observe changes
in the Pedagogical Political Project of the course to fit the guidelines of the Ministry of Education, faculty growth
course and the improvement in the level of their qualifications, as well as to analyze the growth of scientific
production of students .

Keywords: Nursing History. Nursing Education; Piauí State University.

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Dossiê UESPI 30 Anos

CONSIDERAÇÕES INICIAIS pareceres sobre o curso, além do relatório de


atividades para o primeiro reconhecimento do
Por que vasculhar o passado? Por que revirar curso. Na coordenação do curso de Enfermagem,
papéis em busca de coisas que já se conhece? Muitas foram obtidas cópias dos projetos político-
perguntas podem surgir, no entanto, a história é pedagógico dos anos de 2002 e 2013.
cheia de reentrâncias, cheia de detalhes que se não Segundo Edmund Burke apud Rosa (2009),
forem registrados, no momento, acaba por perder-se “um povo que não conhece a sua História está
em meio a tantas outras histórias. condenado a repeti-la”, no intuído de não apenas
Organizar dados e datas de forma a tornar o conhecer as dificuldades encontradas na instalação
conhecimento de forma sequenciada e linear torna- e criação do curso mas também para que as
se fundamental para que a história seja escrita e conquistas obtidas durante esse período não sejam
transmitida à posteridade. O curso de Enfermagem esquecidas.
da Universidade Estadual do Piauí, na cidade de
Teresina, é relativamente jovem, com apenas 12 A ENFERMAGEM NA UESPI
anos de existência. Entretanto, pouco ou muito
pouco se tem registrado sobre o mesmo. O registro A Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
que se tem são decretos, pareceres, leis e a nível que existe hoje começou a ser idealizada com o
institucional os Projetos Político Pedagógico dos objetivo principal de qualificar os professores da
cursos de Enfermagem da instituição. Nada rede pública estadual, principalmente do interior do
tratando unicamente sobre o curso de Teresina ou estado, visto que a única universidade pública, a
artigo publicado com essa temática. Universidade Federal do Piauí (UFPI) estava
Dessa forma, a problemática deste estudo localizada na capital do estado. Por conta disso, no
está em organizar e unificar em um artigo, ano de 1984, pelo decreto no 3.967 de 16 de
documentos que corroborem para o conhecimento novembro de 1984, foi criada a Fundação de Apoio
da criação, implantação e desenvolvimento do curso ao Desenvolvimento da Educação do Estado do
de Enfermagem no âmbito da Universidade Esta- Piauí (FADEP), que, no ano de 1988, são criadas
dual do Piauí, especificamente no Centro de Ciências através da lei no 4.230/88 as condições necessárias
da Saúde. para a instalação da Universidade Estadual do Piauí
(UESPI). Com o decreto publicado no Diário Oficial
Como objetivo geral deste artigo tem-se do Estado (DOE) seção 1/2.359 de 1996, a UESPI
conhecer a história do curso de Enfermagem da campus Pirajá, sendo instalados também os Campi
Universidade Estadual do Piauí, no Centro de de Floriano, Parnaíba, Picos e Corrente (UESPI,
Ciências da Saúde, desde sua criação até o ano de 2016; NOGUEIRA, FERRO, 2013).
2016.
No ano de 1993, ocorreu o crescimento e a
Como objetivos específicos, têm-se organizar expansão da UESPI, tanto em número de vagas
cronologicamente documentos que tratem do curso quanto na quantidade de cursos oferecidos, pois a
de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde, educação começou a passar por um momento de
bem como unificar informações acerca do curso de pressão nacional e internacional no que se refere a
Enfermagem do Centro Ciências da Saúde. números relacionados à educação. No Brasil, a
Trata-se de um estudo de natureza qualita- criação da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996,
tiva, documental, retrospectivo, com abordagem que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação
histórica utilizando fontes escritas e iconográficas. Nacional (LDB), veio para avaliar e organizar o
Para atingir aos objetivos propostos, foram ensino superior para que fossem oferecidos cursos
realizadas visitas ao Departamento de Assuntos de qualidade. A oferta de cursos e vagas em
Pedagógicos, onde foram obtidos leis, decretos e Instituições de Ensino Superior (IES) privadas foi

55
Dossiê UESPI 30 Anos

ampliada. O ensino superior público foi beneficiado alunos advindos desses núcleos, foi criado na
após a LDB e também teve seu número de cursos e FACIME(CCS) o curso de Enfermagem, sendo este o
vagas ampliados (ROCHA, NUNES, 2013). Após o último curso de Enfermagem criado na instituição
ano de 1996, as alterações no estatuto da instituição (ROCHA, 2010).
levaram a uma adequação da estrutura, subdividin-
do-se em 04 (quatro) Centros de Ciências e 02 ENFERMAGEM EM TERESINA
(duas) faculdades: a Faculdade de Ciências Médicas
(FACIME) e a Faculdade de Odontologia e A interiorização dos cursos superiores na
Enfermagem - FACOE (FEITOSA, 2004). UESPI de se deu de forma rápida pautada em uma
O objetivo primário para a criação da oferta diversificada. No entanto, fatores importantes
Universidade Estadual do Piauí foi capacitar não foram elencados durante a implantação e início
profissionais para o mercado de trabalho que era do curso de Enfermagem, pois, ao atuar como
carente destes. A área da saúde, em particular a instituição multicampi, além da estrutura física
Enfermagem, foi inserida na instituição devido à necessária, a questão da oferta e quantidade de
necessidade de formar profissionais para atender à docentes não foi pensada. Algo que culminou no
população e facilitar o acesso ao ensino superior aos início do ano de 2004 com o fechamento e
estudantes egressos do interior do estado, pois o remanejamento dos alunos matriculados nos campi
único curso de Enfermagem do Piauí era ofertado de Água Branca, Barras, Bom Jesus, Campo Maior,
pela Universidade Federal do Piauí, com suas aulas Corrente e Piracuruca, por meio da Resolução do
ministradas na capital (NUNES, BAPTISTA, 2004). CONSUN no 014/04 de 05 de março de 2004
(ROCHA, 2010).
A LDB nº 9.394/96, em seu artigo 46, ao
tratar da regulamentação e autorização dos cursos, A FACIME, que até o ano de 2004, segundo o
cita que estes devem ser avaliados para que assim Projeto Político Pedagógico (PPP) do curso de
recebam credenciamento. O curso de Enfermagem, Enfermagem, receberia apenas os alunos de 8o e 9o
que começou a funcionar em 1998 nos campi de período para cursarem estágios supervisionados nos
Parnaíba e Floriano, entretanto, após o ano de hospitais da capital, recebeu turmas de Água Branca
2003, passou a ser ofertado em outros 07 (sete) (3o e 5o blocos), Barras (5o bloco) e Campo Maior (2o
municípios (Picos, Água Branca, Barras, Campo e 3o blocos). A estrutura da FACIME estava montada
Maior, Piracuruca, Corrente e Bom Jesus), onde para abrigar os cursos por ela ofertados, que era
funcionava núclos da UESPI (ROCHA, NUNES, Medicina, Psicologia e Fisioterapia tendo que
2013). adequar sua estrutura física para receber esses novos
alunos. O novo curso de Enfermagem na UESPI
No entanto, a abertura desses cursos deu-se possuía uma Coordenação Geral dos Cursos de
sem que esses municípios polos recebessem os Enfermagem que funcionava no campus do Pirajá e
materiais de insumo e consumo necessários para o respondia pelos alunos advindos dos outros campi
funcionamento básico de um curso de Enfermagem, (UESPI, 2002)
como, por exemplo, laboratórios e campos de
estágios adequados. A coordenadora Geral dos Cursos de Enfer-
magem era a professora Maria Roseane dos Santos
A falta de estrutura foi um dos aspectos que Sousa e, para coordenar o curso e organizar, receber e
embasaram a resolução no 14/04 do Conselho locar esses alunos foi nomeada a professora Maria
Universitário (CONSUN) que autoriza o remaneja- Amélia de Oliveira Costa, que passou a responder
mento dos alunos do curso de Enfermagem para o pelo curso de Bacharelado em Enferma-gem da
campus mais próximo. Com isso, houve o fecha- FACIME/UESPI do campus Poeta Torquato Neto
mento do curso nas cidades de Água Branca, Barras, (UESPI, 2007).
Campo Maior, e os alunos foram transferidos para a
FACIME, em Teresina; na cidade de Bom Jesus, os A chegada dos alunos remanejados dos campi
fechados foi um ponto crítico, pois a Enfermagem,

56
Dossiê UESPI 30 Anos

desde a sua implantação, pertencia à estrutura do (I e II) são subdivididos em grupos menores com
organizacional da FACIME, no entanto, não havia 07 (sete) alunos e, além disso, o estágio segue uma
condições estruturais para receber os 03 (três) metodologia de acompanhamento integral no qual o
blocos curriculares. Para sanar esse problema, foi professor está presente junto ao grupo durante todo
feito um acordo com a coordenação do Centro o estágio, diferindo assim do regime de preceptoria.
Estadual de Educação Profissional em Saúde Após reformas estruturais realizadas no
Monsenhor José Luiz Barbosa Cortêz – Premen Sul, prédio onde funciona a FACIME, o curso de
em outra região da cidade, onde foram disponibiliza- Enfermagem passou a compor além da estrutura
das salas de aulas e estrutura de apoio para receber o organizacional, a estrutura física da Faculdade.
curso em regime provisório (UESPI, 2007).
O primeiro certame ofertando vagas para o
O problema relacionado à estrutura física curso de Enfermagem em Teresina ocorreu em
não foi resolvido de forma rápida, sendo necessário 2008, após a aprovação pelo CONSUN da Resolução
que fosse firmado um convênio entre a Universidade no 025/2007 de 14 de agosto de 2007, com o início
Estadual do Piauí e a Universidade Federal do Piauí das aulas em agosto do citado ano. Entretanto, o
para que as aulas fossem ministradas no Hospital curso teve seu reconhecimento no ano de 2007
Universitário da instituição, sendo utilizadas 03 através do Decreto Estadual no 12.754, de 04 de
(três) salas, nas quais foram alocados 01 (uma) setembro de 2007 e publicado no Diário Oficial do
turma de 6o bloco e 02 (duas) de 7o bloco. Essas Estado (PIAUÍ, 2007).
turmas funcionavam no período diurno. No período
noturno, os alunos do 8º e 9o blocos que faziam a O curso passou por uma avaliação realizada
flexibilização de matrículas (pois eram dos campi de pelo Conselho Estadual de Educação (CEE), no qual,
Parnaíba, Picos e Floriano) tinham suas aulas de após serem corrigidas falhas observadas, teve seu
Tutoria VIII e IX ministradas 01 (uma) vez por reconhecimento aprovado pela Resolução no
semana na FACIME (UESPI, 2007). 102/16, e Decreto 16.581, de 16 de maio de 2016,
ficando assim autorizado o funcionamento do curso
Mesmo com o curso de Enfermagem na até 31 de dezembro de 2019, quando passará por
FACIME, o Plano Político Pedagógico (PPP) dos novo processo de avaliação (PIAUÍ, 2016b).
cursos de Enfermagem previa a flexibilização dos
alunos nos últimos períodos, dessa forma os alunos No entanto, ainda são encontradas muitas
dos campi de Picos, Parnaíba e Floriano ainda deficiências para garantir a formação profissional,
vinham para Teresina, o que fazia necessária a tais como ausência de laboratórios específicos de
permanecia e a continuação de uma Coordenação Enfermagem; escassez e defasagem dos livros na
Geral de Enfermagem (UESPI, 2002). biblioteca, não observando a proporcionalidade de
um livro texto para cada 15 (quinze) alunos/turma e
Segundo ainda o Dossiê de reconhecimento condições estruturais atendendo insatisfatoriamen-
do curso, a criação do curso de Enfermagem da te à avaliação do CEE (PIAUÍ, 2016a).
FACIME proporcionou a realização de concurso
público para contratação de professores do quadro Atualmente o curso funciona no Centro de
efetivo, segundo o edital no 001/2005. Tal concurso Ciências da Saúde (antiga FACIME) do campus
levou a formação de um quadro básico de Poeta Torquato Neto no centro da cidade de
professores para o curso de Enfermagem no ano de Teresina, com 07 (sete) salas de aula para os alunos
2005, contando assim com 13 (treze) professores do 1o ao 7o períodos nos turnos manhã e tarde, e no
efetivos TI-40hs e com 60 (sessenta) professores do turno da noite 01 (uma) sala para os alunos do 8o e
quadro provisório (UESPI, 2007). 9o períodos. O curso tem duas grades curriculares
em andamento e está em fase de finalização do novo
O grande número de professores justifica-se Plano Político Pedagógico. A primeira grade curri-
pelo fato de que os alunos em Estágio Supervisiona- cular vai ser extinta com a última turma em 2017.

57
Dossiê UESPI 30 Anos

Fachada do Prédio do Centro de Ciências da Saúde do Campus Poeta Torquato Neto, Teresina, 2016.

O novo PPP redirecionará algumas modificações Ÿ Adriana da Cunha Menezes Parente, Coorde-
necessárias mostradas em reuniões com o corpo nadora Geral dos Cursos de Enfermagem;
docente em relação a cada disciplina dos mesmos.
Ÿ Rayla Maria Pontes Guimarães, Coordenado-
ra de Enfermagem - Campus Parnaíba;
CURSO DE ENFERMAGEM: ATUALIZA-
ÇÕES DO PLANO POLÍTICO PEDAGÓGICO Ÿ Carlota Lima Vieira Cardoso de Melo, Coor-
denadora de Enfermagem, Campus Barras; ;
Para organizar e adequar o ensino de Ÿ Kelma Virgínia de S. Martins, Coordenadora
enfermagem, a instituição solicitou a elaboração de de Enfermagem, Campus Bom Jesus;
um Projeto Político Pedagógico (PPP) do curso de
Ÿ Luíza Eugênia Ferreira Mandes, Coordenado-
Enfermagem (UESPI, 2013), regido pela Resolução
ra de Enfermagem, Campus Floriano;
CNE/CES no3, de 7/11/2001, que trata das
Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Ÿ Naerton Silva Moura, Coordenador de Enfer-
Graduação em Enfermagem e a nova Resolução do magem, Campus Picos;
CNE/CES de no4, datada de 6/4/2009. No entanto, Ÿ Valda Pereira Viana, Coordenadora de Enfer-
esse não foi o primeiro PPP do curso de Enferma- magem, Campus Água Branca.
gem.
O primeiro Plano Político Pedagógico da Devido à necessidade de adequação e para
Enfermagem na UESPI foi construído no ano de favorecer o crescimento da instituição por meio de
2002, com a participação da Coordenação Geral dos uma formação de qualidade de seus alunos, o PPP do
Cursos de Enfermagem e das Coordenações de curso de Enfermagem passou por várias reformula-
Enfermagem dos campi. Os professores que ções, sendo que, agora está em vigor o plano
construíram o primeiro PPP, foram: aprovado pelo CONSUN em 2013.

58
Dossiê UESPI 30 Anos

O PPP do curso de Enfermagem que está em do ano de 2002 e o de 2013, percebe-se que vários
vigor foi elaborado pelas professoras/coordena- ajustes e adequações foram feitas para que o curso
doras: obtivesse qualidade na formação dos alunos.
A primeira característica observada foi com
Ÿ Maria Eliane Martins Oliveira da Rocha, relação à duração do curso que passou de 4,5 (quatro
Coordenadora Geral dos Cursos de Enferma- anos e meio) para 5 (cinco), sendo a carga horária
gem da UESPI; total do curso alterada de 4.485 h/a, em 2002 para
Ÿ Maria Amélia de Oliveira Costa, Coordena- 4.785 h/a no ano de 2013.
dora do Curso de Enfermagem de Teresina; Com base na Portaria no 4.059, de 10 de
Ÿ Erlane Brito da Silva, Coordenadora Geral do dezembro de 2004, o curso também poderá oferecer
Curso de Enfermagem; disciplinas na modalidade semipresencial, desde
Ÿ Adenilde Maria Coelho, Coordenadora do que não ultrapasse 20% da carga horária total do
Curso de Enfermagem de Floriano; curso (UESPI, 2013). Atualmente, apenas uma
disciplina está sendo ofertada de forma a fazer uso
Ÿ Maria da Conceição Portela Leal, Coordena- conjuntamente da modalidade presencial e
dora do Curso de Enfermagem de Picos; semipresencial.
Ÿ Maria Solange Leopoldo Feitosa, Coordena- Outra alteração percebida, entre os PPP, foi
dora do Curso de Enfermagem de Parnaíba. com relação ao status dos cursos, mostrado no
quadro abaixo:
Ao realizar uma leitura comparativa entre o
Plano Político Pedagógico do curso de Enfermagem

59
Dossiê UESPI 30 Anos

As disciplinas também passaram por uma pois, até a Resolução no 14/01 de 13 de maio de 2011,
adequação, de modo que foram acrescidas 04 o TCC não era um pré-requisito para conclusão do
disciplinas obrigatórias, que são elas: Saúde curso. Essa modificação trouxe grande ganho ao
ambiental, Saúde do trabalhador, Enfermagem em curso de Enfermagem, pois, a partir desses TCC,
cuidados intensivos e Enfermagem em Estomatera- vários artigos já foram publicados em revistas
pia. Passou-se a ofertar também disciplinas científicas.
optativas: Língua Brasileira de Sinais; Exames
complementares, Enfermagem em Onco-logia, DOCENTES DA ENFERMAGEM: CRESCI-
Enfermagem em Nefrologia, Enfermagem em UTI MENTO E QUALIFICAÇÃO
Neonatal, Enfermagem Geriátrica, Imaginolo-logia
Básica, Home care, Farmacologia aplicada à O curso de Enfermagem em Teresina teve
Enfermagem (a disciplina de Farmacologia básica início com um corpo docente formado por
continuará na grade curricular obrigatória), professores com vínculo temporário com a
Enfermagem em Cuidados Paliativos, Acupuntura e instituição, o que não corroborava o estímulo à
Enfermagem em Terapias Naturais. Esse aumento qualificação acadêmica em nível de pós-graduação.
no número de disciplinas ofertadas veio para Com a admissão de professores efetivos, esse quadro
ajustar-se ao aumento do número de horas totais do sofreu modificações, pois a necessidade de oferecer
curso. um ensino de qualidade para formação dos egressos
Outro fator que deve ser ressaltado no PPP fez com que o nível de titulação dos docentes também
de 2013 foi a organização de um roteiro com fosse melhorado.
conteúdo para as disciplinas de Tutoria que até esse Rocha (2010) ressalta a necessidade de
momento tinha ementa livre. A disciplina de qualificação docente para uma melhor qualidade de
Tutoria passou a ser ministrada com ênfase na ensino adequando-se assim as Diretrizes Curricula-
orientação de trabalhos científicos e de pesquisa o res Nacionais para os cursos de Enfermagem.
que propiciará ao aluno uma maior intimidade com Ressalta ainda que, segundo a LDB/96, as universi-
a construção de projetos e artigos científicos, dades devem ter em seu quadro docentes um valor
contribuindo assim para o aumento do número de mínimo de mestres e/ou doutores, isso é, pelo menos
pesquisas do curso. um terço dos professores devem ter essa titulação,
Os estágios supervisionados também tive- além de ter número mínimo semelhante com regime
ram sua carga horária modificada, passando de 900 de trabalho de tempo integral.
horas/aula em 2002 para 920 horas/aula em 2013. Como dito anteriormente, o curso iniciou em
Outra alteração observada foi com base na 2004 e nesse período o curso começou a funcionar
resolução do CEPEX no 28/01, que prevê a com todos seus professores com vínculo provisório. A
participação do aluno em atividades que estimulem partir de 2005, com o primeiro concurso para o curso
a utilização e aperfeiçoamento do conhecimento de Enfermagem, o quadro docente passou a ser
adquirido, as chamadas Atividades Acadêmicas formado com professores efetivos com regime de
Científicas e Culturais (AACC) que deverão ser trabalho tempo integral 40h. Em primeiro momento,
documentadas e entregues a coordenação do curso no início do ano de 2005, foram contratados 06 (seis)
no 5o e 8o períodos como parte dos requisitos para professores, todos enfermeiros para ministrarem as
recebimento do título de Bacharel em Enfermagem. disciplinas específicas do curso, número esse
O aluno deve comprovar a participação em insuficiente. Em julho do mesmo ano, foram
atividades acadêmicas perfazendo no mínimo 180 contratados mais 11(onze) professores que estavam
horas. classificados no concurso (Edital no 001/2005)
(UESPI, 2007).
O Trabalho de conclusão de Curso (TCC)
também foi um acréscimo ao currículo do aluno,

60
Dossiê UESPI 30 Anos

QUADRO 2 – CORPO DOCENTE DO CURSO DE ENFERMAGEM DO CCS

PROFESSOR ADMISSÃO GRADUAÇÃO

Anneth Cardoso Basílio da Silva Ago/2013 Enfermeira Mestre

Arethuza de Melo Brito Carvalho Ago/2013 Enfermeira Mestre

Erlane Brito da Silva Jul/2006 Enfermeira Especialista

Elyrose Sousa Brito Rocha Mai/2012 Enfermeira Doutora

Fabrícia Araújo Prudêncio Jul/2006 Enfermeira Mestre

Francisca Aline Amaral da Silva Jul/2006 Enfermeira Especialista

Isabel Cristina C. Carvalho Moreira Mai/2012 Enfermeira Mestre

Ivonizete Pires Ribeiro Fev/2006 Enfermeira Mestre

José Francisco Ribeiro Jul/2006 Enfermeiro Mestre

Karla Joelma Bezerra Cunha Jun/2013 Enfermeira Mestre

Lorena Uchôa Portela Veloso Mai/2010 Enfermeira Mestre

Maria Amélia de Oliveira Costa Fev/2006 Enfermeira Mestra

Maria Eliane Martins Oliveira Rocha Fev/2006 Enfermeira Mestre

Maria Rosiane dos Santos Silva Fev/2006 Enfermeira Especialista

Marianne Rocha Duarte Out/2013 Enfermeira Mestre

Mauro Roberto Biá da Silva Fev/2006 Enfermeiro Doutor

Mônica Madeira Martins Ferraz Jul/2006 Enfermeira Mestre

Naldiana Cerqueira Silva Fev/2006 Enfermeira Mestre

Roberta Fortes Santiago Out/2013 Enfermeira Especialista

Rosângela Campelo de Oliveira Tourinho Jul/2006 Enfermeira Doutora

Samira Rêgo Martins de Deus Leal Fev/2014 Enfermeira Mestre

Sandra Marina Gonçalves Bezerra Ago/2012 Enfermeira Mestre

Saraí de Brito Cardoso Mai/2012 Enfermeira Mestre

Sônia Maria de Araújo Campelo Abr/2012 Enfermeira Mestre

Suelma Regina Cardoso da Silva Jul/2006 Enfermeira Especialista

Fonte: Coordenação do Curso de Enfermagem. Teresina, 2016.

61
Dossiê UESPI 30 Anos

Dos 17 (dezessete) docentes concursados, faz as adequações sugeridas pela banca examinado-
ainda no ano de 2005, 04 (quatro) pediram ra e entrega à Coordenação de Enfermagem uma
desligamento da IES, o que fez com que o curso cópia em versão final, encadernada em capa dura,
passasse a funcionar com apenas 13 (treze) que será encaminhada a biblioteca do Centro.
professores efetivos, mantendo assim um número
Em um levantamento realizado junto à
ainda significativo de professores provisórios para
biblioteca do Centro de Ciências da Saúde,
acompanhamento dos grupos.
constatou-se a presença de 406 trabalhos de alunos
Atualmente como pode ser visto no Quadro dos cursos de Enfermagem da UESPI. Esse número
2, o curso consta com 25 (vinte e cinco) docentes do refere-se a todos os TCC apresentados de 2005 a
quadro permanente, todos com regime de trabalho 2015 ao Curso de Enfermagem do CCS.
TI-40h. Possui 04 (quatro) doutores, 16 (dezesseis)
Resultados preliminares desse levantamen-
mestres e 05 (cinco) especialistas. Dentre os
to mostraram que a área temática mais estudada foi
mestres, 02 (dois) estão fazendo doutorado com
a Saúde da Mulher com 94 estudos, seguida de
termino previsto para 2017.
Administração (41 estudos), Doenças Infecto-
contagiosas (39 estudos), Saúde do Trabalhador (39
PRODUÇÃO CIENTÍFICA DOS ACADÊMI-
estudos) como as temáticas mais abordadas.
COS E DESENVOLVIMENTO DOS TRABA-
LHOS DE CONCLUSÃO DE CURSO. Observou-se também que algumas áreas
sofreram queda no número de trabalhos como foi o
O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é caso da Saúde da Mulher, entretanto áreas, como
um dos pré-requisitos para a conclusão do curso de Saúde Mental e Urgência e Emergência, que não
graduação. Algumas instituições também o foram contempladas nos primeiros TCCs,
denominam monografia, como o próprio nome o começaram a despertar interesse no alunado.
define, é o último trabalho exigido do aluno para sua Não apenas para concluir o curso, mas
colação de grau. No curso de Enfermagem do Centro também pelo estimulo desde os primeiros períodos
de Ciências da Saúde/Faculdade de Ciências a pesquisa, durante o período 2013/2014, o Curso de
Médicas (CCS/FACIME), respeitando a resolução Enfermagem do CCS foi o 4o curso em número de
do CEPEX 14/01 de 13/05/2011, todos os alunos projetos submetidos (22 projetos) e aprovados (20
farão a apresentação de um trabalho monográfico projetos) na seleção do Programa Institucional de
individual e a produção de um artigo científico ao Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da UESPI
termino do curso (UESPI, 2013). (UESPI, 2016b). Esse fato demonstra que o estímulo
Segundo o Plano Político Pedagógico (2013), ao alunado e a qualificação dos professores favorece
todo aluno que cursa o 9o período do curso deve a pesquisa, contemplando assim um dos pilares-
fazer um TCC, individual, orientado por um mestre da Universidade.
professor efetivo da instituição. O curso de Teresina,
além dos alunos locais, recebe ainda alunos do CONSIDERAÇÕES FINAIS
interior para cursar os dois últimos períodos. O
número de alunos advindos dos campi do interior Estudar a criação e o desenrolar dos fatos
diminuiu consideravelmente, entretanto, o curso de que contribuíram para consolidação do curso de
Teresina ainda recebe pelo menos um grupo de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde
aluno por semestre. proporcionou a organização de documentos e
reflexões sobre todos os desafios e obstáculos
Os TCCs são apresentados a uma banca
encontrados por seus coordenadores e diretores. Ao
avaliadora composta por três professores, sendo
estudar os antecedentes da criação do curso em
pelo menos 02 (dois) do quadro efetivo, que avalia e
Teresina, percebe-se que, mesmo antes de o curso
propõe correções. O aluno junto com seu orientador

62
Dossiê UESPI 30 Anos

ser efetivamente implantado no seio do CCS, ele já NOGUEIRA,T. de JAM; FERRO, M. do A B .


fazia parte de sua concepção, mas, somente depois História da Universidade Estadual do Piauí: origem
de seis anos de Enfermagem na Universidade, este e expansão- ISSN: 2336-1855. In: VII CONGRESSO
BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO,
foi iniciado na capital.
2013, Mato Grosso. Circuitos e Fronteiras da
Com início tumultuado por falta de estrutura História da Educação no Brasil, 2013.
física e de pessoal, o curso demonstrou um
NUNES, B.M.V.T, BAPTISTA,S.S. Os primórdios
comprometimento por parte de seus discentes e
do ensino de enfermagem moderna no
docentes que, mesmo em condições de adversida- Piauí: lutas e conquistas na universidade (1973-
des, instalou-se e cresceu no ambiente acadêmico. 1977). Teresina: EDUFPI; 2004.
Desde a sua criação a Universidade Estadual
PIAUÍ, Conselho Estadual de Educação. Parecer no
do Piauí vem cumprindo seu papel de capacitar e 096/2016. Renovação do reconhecimento, até 31 de
formar profissionais para atender nas mais diversas dezembro de 2019, do Curso de Bacharelado em
áreas do conhecimento. Desse modo, a Enfermagem Enfermagem, do Centro de Ciências da Saúde –
não poderia ser excluída. O curso de Enfermagem do CCS, da Universidade Estadual do Piauí – UESPI,
em Teresina -PI. Conselho Estadual de Educação.
Centro Ciências da Saúde foi o último curso de
Teresina, 2016a.
Enfermagem criado na instituição.
PIAUÍ, Decreto-Lei no 16.581. Renova o
REFERÊNCIAS reconhecimento dos Cursos de Bacharelado em
Enfermagem e de Fisioterapia, do Centro de
BRASIL. Lei no 9.394 de 20 de dezembro de 1996: Ciências da Saúde – CCS, na cidade de Teresina – PI,
Estabelece as diretrizes básicas da educação da Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Diário
nacional – LDB. Diário Oficial [da União]. Brasília, Oficial [do Piauí]. Teresina. 16 mai. 2016, v. 91, p. 3.
1996.
PIAUÍ, Decreto-Lei no 12.754, de 04 de setembro de
2007. Reconhece, por três anos, o curso de
FEITOSA,M.P., A política de expansão e
Bacharelado em Enfermagem, ministrado pela UESPI
interiorização da Universidade Estadual do Piauí - na FACIME em Teresina (PI). Diário Oficial [do
UESPI. In: III ENCONTRO DE PESQUISA EM Piauí]. Teresina. 06 set. 2007, v. 170, p. 2.
EDUCAÇÃO E II CONGRESSO INTERNACIONAL
DE EDUCAÇÃO, 2004, Teresina. Livro de UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ,
resumos do III Encontro de Pesquisa em Hisórico Disponível em: http://www/uespi.br/si-
Educação e II Congresso Internacional de ite/? page_id=25578acessado em 28 de agosto de
Educação. Teresina: EDUFPI, 2004 2016a.

ROCHA, M.E.M.O,; NUNES, B.M.V.T, Expansão UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ, PIBIC


2013/2014 em Números. Disponível em:
dos cursos de graduação em Enfermagem: estudo no
http://www.uespi.br/prop/article.php?p=3,
Piauí. Revista Brasileira de Enfermagem, acessado em 29 de agosto de 2016 b.
Brasília, 2013. P.391-398.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ. Projeto
ROCHA, M.E.M.O, A Expansão dos Cursos de Político Pedagógico do Curso de Enferma-
Graduação em Enfermagem no Estado do gem. 2002. Teresina, 2002.
Piauí. Piauí, 2010. Dissertação (Mestrado em
Enfermagem). Programa de Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ. Dossiê
Mestrado em Enfermagem. Universidade Federal do Enfermagem: reconhecimento do curso de
Piauí, Teresina, 2010. Teresina. 2007. Teresina, 2007.

ROSA, S.M., Censura Teatral no Brasil: Uma visão UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ. Projeto
histórica. Revista Eletrônica Literatura e Político Pedagógico do Curso de Enferma-
gem do CCS – UESPI/Teresina. 2013.Teresina,
Autoritarismo, nº 14 – Julho-Dezembro 2009.
2013.

63
Dossiê UESPI 30 Anos

PELAS MARGENS:
A UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ E O CAMPUS CLÓVIS MOURA

POR LAS FRONTERAS:


LA UNIVERSIDAD DEL ESTADO DE PIAUÍ Y EL CAMPUS CLÓVIS MOURA

Marcelo de SOUSA NETO1

1
Professor Adjunto da Universidade Estadual do Piauí. Doutor em História pela
Universidade Federal do Pernambuco. E-mail: casadapolvora@gmail.com

RESUMO

O presente trabalho propõe discutir o processo de expansão da Universidade Estadual do Piauí – UESPI,
vivenciado entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000, analisando o processo de criação do Campus
Clóvis Moura, originalmente nomeado de Campus Grande Dirceu. Discute-se como a criação do Campus
resultou da mediação entre as reinvindicações das comunidades que compunham a região e conveniências
políticas do período, que tornaram possível a implantação da unidade universitária. Dessa forma, visamos
discutir a história de criação do Campus, bem como as memórias de sujeitos que vivenciaram este processo,
destacando o contexto sócio-político vivenciado pela UESPI. A pesquisa, além do levantamento bibliográfico e
documental, recorreu ao uso da metodologia da História Oral, mais especificamente a partir de entrevistas com
trajetórias de vida e entrevistas temáticas, como proposto por Lucília Delgado (2010), com pessoas que se
relacionaram com a criação e existência do Campus Clóvis Moura da UESPI.

Palavras-chave: História; Memória; Campus Clóvis Moura.

RESUMEN

Este trabajo tiene como objetivo discutir el proceso de expansión de la Universidad del Estado de Piauí - UESPI,
vivió entre finales de 1990 y principios de 2000, analizando el proceso de creación del Campus Clovis Moura,
originalmente llamado Campus Grande Dirceu. Se analiza cómo la creación de la Campus resultado de la
mediación entre las comunidades afirmaciones de que compone la región y la conveniencia política de la época,
que hizo posible la creación de la unidad de la universidad. De esta manera, nuestro objetivo es analizar la
historia de la creación del Campus, así como el tema de los recuerdos que experimentó este proceso, destacando
el contexto socio-político experimentado por UESPI. La investigación, además de la revisión bibliográfica y
documental, recurrió a la utilización de la metodología de la historia oral, en concreto de las entrevistas con las
trayectorias de vida y entrevistas temáticas, según lo propuesto por Lucilia Delgado (2010), con las personas
que están relacionadas con la creación y la existencia de Campus Clovis Moura UESPI.

Palabras-clave: Historia. Memoria. Campus Clóvis Moura.

64
Dossiê UESPI 30 Anos

Os estudos acerca da criação de uma unidade Como destacava um periódico da época,


universitária em uma região empobrecida da capital
piauiense, tomada em sua implantação como um O Piauí está vivendo a exploração do ensino
superior, com o crescimento da oferta de
espaço de segregação social, têm até o presente vagas em universidades públicas e o surgi-
despertado pequena atenção entre pesquisadores mento de faculdades particulares. Em 1994,
dedicados ao estudo da cidade, talvez por reconhece- só havia três centros de ensino de terceiro grau
no Estado: duas públicas, a Universidade
rem, como nos alerta Chauveau e Tétart (1999), os Estadual (UESPI) e a Federal do Piauí (UFPI);
grandes desafios e limites do estudo de uma tempo- uma privada, Cesvale. Hoje, são três
ralidade tão próxima e controvertida. instituições públicas e 14 particulares. Com
isso, o número de alunos matriculados no
Entretanto, frente à carência de escritos ensino superior triplicou em seis anos.
sobre a história da própria UESPI, instituição que,
Em 1994, havia 9852 matriculados nas escolas
em trinta anos de existência, muitas vezes viu o de nível superior. A maioria estava na UFPI, a
desejo individual se sobrepor ao planejamento mais tradicional. Os cursos eram
coletivo, faz-se necessária a reflexão, por meio da concentrados na capital. Em 2000, esse
número saltou para 29443. A UESPI foi a
pesquisa e crítica historiográfica sobre seu processo grande responsável por esse crescimento, com
de gestação e existência, visando contribuir para seu o seu processo de interiorização bem maior. A
crescimento e fortalecimento, que está diretamente Universidade Estadual está seguindo um
processo de descentralização até mesmo na
relacionado à possibilidade de que a população capital. A partir do próximo ano, vai funcionar
piauiense possa continuar a se emancipar, social e o Campus do Grande Dirceu Arcoverde, com
intelectualmente, por meio daqueles a quem esta vestibular próprio (UNIVER-SIDADES...
Diário do Povo, 16.jul.2001, p. 5).
instituição atende.
Nesse sentido, o presente texto propõe uma O Campus da UESPI na região do Grande
análise acerca da criação da segunda maior unidade Dirceu surgiu como resultado do movimento de
universitária da UESPI, o Campus Clóvis Moura, expansão em curso da Universidade e de esforços de
localizado em uma das regiões que em sua lideranças comunitárias, que enxergaram na criação
implantação na década de 1970, concentrava a de um campus universitário a oportunidade para a
população com maior vulnerabilidade econômica e população de a região conquistar uma série de
social de Teresina e que, em fins da década de 1990, outros direitos, entre os quais a maior possibilidade
despontava como uma região de enorme potencial de ascensão ao ensino superior por seus habitantes,
político e econômico. embora não tenha havido nenhuma reserva de vagas
Dessa forma, propõe-se, com esse estudo, para os moradores ou qualquer outra forma de
inventariar e analisar fontes que possam contribuir incentivo ou benefício. Isso mobilizou moradores a
para entender a história da implantação desta encaminharem pedido de criação à Universidade,
unidade universitária e sua importância para o como registrado em ata do Conselho Universitário
cenário educacional, político e social na história da UESPI do dia 24 de maio de 2001, conforme
recente do Piauí, haja vista ser este campus decisivo fragmento a seguir:
para atrair o interesse da sociedade para a região em
que foi implantado, influenciando a maneira como [...] Prosseguindo, o Presidente leu oficio
os próprios moradores da região passaram a se ver e 015/01 da associação de moradores do bairro
Itararé-AMI em que solicitam providencias no
a serem vistos no contexto local. sentido da criação do campus da UESPI no
Durante a expansão da UESPI, no início dos grande Dirceu. Após discussão o presidente
deu conhecimento ao conselho universitário da
anos 2000, assistimos ao seu crescimento mesmo grande aceitação dos moradores pela ideia de
dentro dos limites da Capital, com a criação, em implementação de um campus universi-tário
2001, de um campus universitário no Conjunto da UESPI no grande Dirceu, e falou ainda que a
UESPI já vem trabalhando nesse sentido e que
Dirceu Arcoverde, na região conhecida pela já existe uma comissão analisadora (UESPI.
população e pela imprensa local como região do ATA... 24.mai. 2001, p.150).
“Grande Dirceu”.

65
Dossiê UESPI 30 Anos

A ata do Conselho Universitário põe em Para corroborar esta tese, de que as discus-
evidência uma ambiguidade, ora informa que a sões – e mesmo a decisão – sobre a criação de um
proposição para a criação do novo campus é fruto de campus da UESPI na região já eram anteriores aos
uma reivindicação da associação que representa os documentos citados, e ainda de que o reitor da
moradores, ora trata como tendo tido uma “grande Instituição assumiu a responsabilidade de criação
aceitação dos moradores”, como se a ideia original do campus, a imprensa local já noticiava essa
não tenha sido formulada por eles e sim por “comis- decisão em janeiro de 2001.
são analisadora”, sugerindo que esta proposta
derivava não de provocações sociais, mas tinha um A Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
não para de crescer... O reitor Jonathas
caráter endógeno à instituição. Nunes anunciou o funcionamento de um
campus na região do grande Dirceu, na
De qualquer modo, por meio do fragmento, é região sudeste, ainda este ano, (...) Jonathas
possível perceber a mobilização das comunidades da assegurou que a partir de janeiro do
Região, imbuídas do desejo e de esforços para próximo ano, jovens e pessoas de meia idade
do grande Dirceu já poderão frequentar a
implantação deste campus, à medida que a UESPI, UESPI sem precisar pegar dois ou três
paralelamente, promovia ações e estudos voltados ônibus para o bairro Pirajá. (UESPI....
Diário do Povo. 10.jan.2001, p. 5).
para a instalação de unidade universitária na região.
A comissão analisadora referida pelo reitor, à Como se pode perceber, mesmo antes que
época professor Jônathas de Barros Nunes, diz qualquer discussão anterior nos Conselhos Superi-
respeito a uma comissão constituída pelo Conselho ores da UESPI houvesse se iniciado, o reitor da
Universitário para diligenciar os procedimentos Instituição já assumia, em janeiro de 2001, como
para a expansão da UESPI para a região do Grande certa a implantação e funcionamento do campus na
Dirceu, instaurando a comissão responsável para tal região do Grande Dirceu, para ocorrer no início de
feito: 2002.
Conforme observou Passos (2006), até a
[...] Prosseguindo foi sugerido ao conselho
que seja criado uma comissão para estender chegada do momento da instalação do Campus na
a UESPI para o Grande Dirceu. A comissão comunidade, houve diversas reuniões, debates e
será presidida pela professora Ana Cristina
Pacheco de Araújo Barros e como membros uma assembleia, que foi realizada na própria sede da
Marcelino Martins e professora Edileusa Associação de Moradores do Itararé – AMI, que
Lucena – Submetido à votação a sugestão foi
contou com a participação de líderes da comunida-
ap rovada p or unanimidade (U E SPI.
ATA...09.mar. 2001). de, moradores e a reitoria da UESPI.
Desses debates, o ex-presidente da AMI,
Nesta Ata da reunião do Conselho Universi- Sheyvan Lima destacava que “o vereador Anselmo
tário, do dia 09 de março, dois meses antes da Dias (PC do B) sensibilizou a Câmara Municipal e a
reunião em que se mencionou o ofício da Associação reitoria da Uespi e assim realizamos uma sessão
de Moradores do Dirceu Arcoverde, fica claro ser oficial da Câmara na sede da AMI” (LIMA apud
objetivo da comissão “estender a UESPI para o PASSOS, 2006, p. 15). Dessa forma, por meio da
Grande Dirceu”, sugerindo, assim, que a decisão da citação, pode-se verificar o forte comprometimento
expansão foi anterior à data da referida reunião. da Associação de Moradores, de lideranças políticas
Entretanto, esta decisão se fez sem a anuência do e da própria reitoria da Universidade com a causa da
Conselho, uma vez ser esta a primeira referência, criação de um campus na região.
junto à documentação pertencente aos Conselhos
Nesse percurso, a proximidade entre o reitor
Superiores da UESPI, de expansão da UESPI em
e as comunidades do Grande Dirceu já havia se
direção à região do Grande Dirceu.
estabelecido, o que pode ser verificado por meio de

66
Dossiê UESPI 30 Anos

ofício encaminhado à Universidade, datado de 29 de As discussões sobre a escolha do local para o


maio de 2001 e assinado por um conjunto de funcionamento do campus iniciou-se na Associação
lideranças comunitárias que, recebido pelo próprio dos Moradores do Itararé, e o processo de escolha foi
reitor sob o título “UESPI. UMA CONQUISTA DA conduzido na rádio comunitária do conjunto,
COMUNIDADE DA ZONA SUDESTE DE denominada Liberdade FM. Na consulta realizada,
TERESINA – PI”, dava conta da mobilização e dos foram propostos como possíveis espaços para
encaminhamentos das comunidades para o abrigar o novo campus a sede da Associação dos
funcionamento do Campus. Moradores, a creche Átila Lira, o Centro Kolping
(Dirceu II) e o Centro Social Urbano – CSU, sendo
Vale realçar que este ofício data de cinco dias
este o escolhido.
após a reunião do Conselho Universitário na qual se
fazia referência a outro ofício recebido da AMI pela Relembrando esse período, José Anselmo de
UESPI, indicando uma intensa mobilização existen- Oliveira Dias, ex-vereador e líder comunitário da
região, destacava:
te entre os interessados na implantação do campus
da UESPI.
Foi uma luta que de alguma forma envolveu
Pelo documento, é possível perceber, ainda, a comunidade como um todo, através de
a forte articulação política das comunidades e que reuniões, mobilizou-se as escolas públicas e
privadas. A AMI – Associação de Moradores
reuniões anteriores com o próprio reitor já haviam do Itararé, e a Rádio Comunitária Liberdade
sido realizadas. Observa-se, ainda no ofício, que a conduziram todo o processo de mobilização,
comunidade planejava a realização de estudos e coletando assinaturas através de abaixo-
assinado, e enquetes para saber a opinião da
seminários de forma a garantir a ampla participação comunidade sobre a implementação de um
das comunidades e da administração pública para Campus da Universidade UESPI na região.
instalação do campus (AMI, 2001), não tendo sido Como vereador, colocamos nosso gabinete e
encontrados registros de que eles tenham ocorrido toda a assessoria, para colaborar com a luta
depois disso. da comunidade. Provocamos contatos e
reuniões, discussões e mesa-redonda com o
O empenho do reitor, e ex-deputado federal, governo, do Estado e a PMT, onde a pauta
era a viabilização implantação do Campus
Jônathas Nunes, com as lideranças comunitárias e no Grande Itararé (2006).
com a criação de um campus da UESPI na região do
Grande Dirceu se, por um lado, está relacionado à O depoimento de Anselmo Dias mais uma
forte mobilização social daquela comunidade; por vez ratifica a mobilização e comprometimento da
outro, talvez esteja relacionado com suas pretensões comunidade para a implantação do campus, mas
político-partidárias na região, que concentrava a desta vez evidencia sua atuação como vereador,
maior densidade eleitoral do Estado, que sozinha sinalizando para o papel que a intervenção político-
representava 31,7% dos votos da Capital e 7,39% dos partidária pode ter tido no desenvolvimento desta
votos do Estado (PIAUÍ. TRE, 2016), pensamento trama.
reforçado por periódicos da época que apontavam o
Um ponto que não pode ser ignorado nisso é
então reitor como provável candidato à sucessão
o fato de Anselmo Dias ser vereador eleito por
governamental pelo PMDB (RESULTADO... O Dia,
aquela região, além de ser do Partido Comunista do
30.nov.2001, p. 5).
Brasil (PC do B), partido aliado do governador à
Com a decisão de criação de um campus no época e pelo qual foi eleito como vice-governador
Grande Dirceu, eram necessárias outras ações para Osmar Júnior, correligionário de partido de
sua materialização. Era preciso encontrar uma Anselmo Dias.
estrutura que pudesse abrigar o campus, uma vez
Esta mobilização social também é destacada
que não haveria tempo hábil para a construção de
por Sheyvan Xavier Lima, ex-presidente da AMI,
uma sede e logo a própria comunidade empenhou-se
que por sua vez relembra:

67
Dossiê UESPI 30 Anos

Há duas décadas lutávamos para obter um Os caminhos para instalação do novo


campus da UESPI no Dirceu. Depois de tanta
reivindicação, em 2001 vimos a possibilidade campus da UESPI, a ser instalado na Região do
real de obtermos tal conquista. Com a Grande Dirceu, já estavam traçados. Faltava agora a
vontade política efetuada, agilizamos uma formalização da implantação da unidade junto ao
pesquisa na comunidade para saber onde
seria melhor a instalação do campus, com Conselho Universitário, a exemplo do que vinha
mais de 5.000 opiniões registradas na sendo realizado com a instalação de outras unidades
Associação e na FM comunitária Liberdade,
95,3 Mhz, apontamos à sede do então CSU e cursos, e suas reformas.
(Centro Social Urbano), na época sem muita Por outro lado, a despeito do clima de alegria
utilidade. (LIMA, 2006).
que tomava conta das comunidades que formavam o
No fragmento, o líder comunitário registra a Grande Dirceu, novos problemas ameaçavam o
grande mobilização na região quanto à escolha da funcionamento do Campus, uma vez que sua
sede de um novo campus da UESPI, movimentando instalação não havia sido apreciada pelo Conselho
mais de cinco mil de seus moradores, tendo sido Universitário.
escolhido o CSU como provável sede que era, Apesar de, no ano de 2001, o Conselho
segundo o mesmo, “na época sem muita utilidade”, Universitário da Uespi ter apreciado e aprovado, a
em franca menção à falta de funcionamento do implantação de diversos cursos e unidades
referido prédio, que abrigava um conglomerado de universitárias no Piauí, e mesmo no Maranhão, a
órgãos públicos de prestação de serviços. Até implantação de um campus na região do Grande
mesmo a imprensa local já destacava a ocupação do Dirceu não foi objeto de análise (UESPI, 2001a). No
CSU como futura sede do campus da UESPI ao entanto, por meio da Resolução CONSUN n.
noticiar, 27/2001, de 03 de agosto de 2001, o mesmo
Conselho aprovou o Edital para o Vestibular 2002
Com mais de 50% de maioria na preferência
da Instituição, edital este que ofertava vagas para 09
em relação aos demais candidatos, o Centro
Social Urbano (CSU) do bairro foi escolhido (nove) cursos que funcionariam no Campus Grande
como local ideal para a instalação do campus. Dirceu (UESPI, 2001b), primeiro nome que
Ao todo, nove cursos deverão funcionar no
Dirceu a partir do próximo semestre, em sete receberia, mas já modificado no momento de sua
salas de aula existentes no prédio (...). Para a inauguração para Campus Região Sudeste, nome
coordenadora do CSU do Dirceu, Regina
Pereira de Sales, a instalação do campus é
pelo qual seria conhecido até maio de 2005, quando
uma melhoria merecida para os moradores passou a chamar-se Campus Clóvis Moura (PIAUÍ,
do bairro. 2005), através de lei proposta pelo Parlamento
'Logo em seguida à aprovação do reitor, Estadual, sem que a comunidade universitária ou da
houve uma audiência pública no dia 30 de região fossem consultadas sobre a proposição.
maio, na sede da Associação dos amigos do
Dirceu. Foi uma conquista ver isso Dessa forma, pode-se atribuir como docu-
acontecendo após quatro anos de luta', ela
afirma. (CAMPUS.... AGORA. 18 set. 2001, p. mento que determinou a criação, ou dito de maneira
05). mais poética, que determinou o “nascimen-to” do
Campus Grande Dirceu da UESPI, o nada poético
O periódico não só afirma como certa a Edital do Vestibular 2002, considerando não haver
implantação da UESPI no Dirceu, como já explicita o documento oficial que previsse sua criação antes
local de funcionamento e o número de cursos, dados deste.
que se confirmaram no ano seguinte. Além disso, no
De fato, o Campus só foi oficialmente criado
depoimento da ex-diretora do CSU, mais uma vez é
em 13 de novembro de 2001, por força do Decreto n.
destacada a figura do reitor da Instituição como
10.690 que, determinava:
responsável pela decisão de criação do campus na
região.

68
Dossiê UESPI 30 Anos

Art. 1º. Fica criado, na região administrativa tendo sido seus alunos transferidos para o Campus
do Grande Dirceu, em Teresina, o Instituto Poeta Torquato Neto.
Superior de Educação, com finalidade de
proporcionar, em caráter permanente, a O texto da Lei também deixou em aberto o
formação superior de profissionais da
educação, nas modalidades a saber: nome do campus que abrigaria o Instituto Superior
de Educação, nome que passou a ser cunhado pelo
I. cursos de formação de profissionais para a
cotidiano da comunidade como sendo Campus
educação básica, inclusive o curso de normal
superior, destinado à formação de docentes Região Sudeste, ao rejeitarem o nome de Grande
para educação infantil e para as primeiras Dirceu, em virtude das disputas entre lideranças
séries do ensino fundamental;
comunitárias da região, que se recusavam a admitir
II. programa de formação pedagógica para este nome por que ele expressaria ser este Campus
portadores de diplomas de educação superior
uma conquista restrita à comunidade do Dirceu
que quisessem dedicar-se a Educação Básica;
Arcoverde, quando eles defendiam que foi uma
III. programa de educação continuada para conquista de todas as comunidades situadas na
profissionais de educação;
região sudeste. Daí a defesa do nome Campus
§ 1º O Instituto Superior de Educação, a que se Região Sudeste, tornando mais uma vez o costume
refere este Decreto, funcionará como Campus
Permanente da UESPI, nas instalações do como fonte de direitos, em uma clara demonstração
antigo Centro Social Urbano do Dirceu I, em de que, como observou Henri Lefebvre (1995), todo
Teresina. conhecimento humano é prático, social e histórico.
Como observado Passos (2006, p.15), “a
O Decreto determinou a criação do Instituto
AMI e seus líderes tiveram um papel importante na
Superior de Educação sob a forma de campus
fundação do Campus e até o nome do mesmo foi
pertencente à UESPI e definiu o CSU como sua sede,
decidido por intermédio desta Associação que a
confirmando a vitória desta proposta. O texto da lei
priori apresentou a possibilidade que o Campus
traz alguns elementos de análise importantes e que
denominasse Grande Dirceu”. O nome, então, que a
impactam diretamente sobre os caminhos ou
comunidade “batizou” o Campus guarda maior
desvios tomados pelo Campus em seu trajeto.
significado coletivo, de forma a contemplar todas as
O primeiro refere-se à inexistência, nos comunidades envolvidas nesta luta.
Conselhos Superiores da Instituição, de uma
Mas o poder de mobilização e de pressão
discussão ampla acerca da criação do Campus, o que
popular sobre o Estado precisou ser retomado
sugere inferir ter sido essa decisão tomada entre a
novamente logo após a assinatura do Decreto de
reitoria, a comunidade e o Governo do Estado, o que
criação, pois, o Campus, recém “nascido”,
impede dizer que esta implantação tenha sido fruto
encontrava-se sobre forte ameaça. Como observado
de debates democráticos nas instâncias deliberati-
anteriormente, o Decreto de criação do Campus foi
vas da Instituição.
assinado em 13 de novembro de 2001, mas por um
Em outra análise, mais atenta do texto do governo interino, o que tornava seus atos passíveis
Decreto, verifica-se ter sido o Campus pensado para de questionamentos do Governador titular.
abrigar uma unidade especializada para formação
Cabe então alguns esclarecimentos perti-
inicial e continuada de professores, condição que
nentes sobre a configuração política do Estado que,
nunca foi plenamente implantada, considerando
àquele momento, passava por transformações
que nem todas as licenciaturas ofertadas pela
severas e que afetariam, sobremaneira, a Universi-
Instituição foram oferecidas no Campus e que, por
dade Estadual do Piauí e sua política de expansão.
outro lado, três bacharelados, Administração,
Ciências Contábeis e Direito, passaram a ser Ainda sem ter sido oficialmente criado, mas
ofertados desde o seu primeiro vestibular. No com edital de seleção de seus primeiros estudantes,
sentido oposto, a licenciatura de Ciências Biológicas, via vestibular, já publicado, a antiga sede do CSU
inicialmente oferecida no Campus, foi fechada, ainda não tinha iniciado as obras da reforma e

69
Dossiê UESPI 30 Anos

adaptações para receber o novo o campus, quando, Por fundamento, Jônathas Nunes negava a
em 06 de novembro de 2001, o governador do possibilidade de deixar a reitoria da UESPI
Estado, Francisco de Morais Sousa, o Mão Santa, amparado pelo Decreto, de 01 de janeiro de 1999 e
teve o seu mandato cassado pela Justiça Eleitoral, publicado no Diário Oficial do Estado de 04 de
que o condenou por abusos de poder econômico, janeiro de 1999, assinado pelo governador Francisco
durante a campanha eleitoral de 1998, em ação de Assis Moraes Souza. Por meio do decreto,
impetrada por seu maior adversário na campanha, Jônathas Nunes e sua vice, Maria Christina Moraes
Hugo Napoleão do Rego Neto (PFL... Estadão, Souza Oliveira, eram nomeados reitor e vice-reitora
09.nov.2001), que viria a assumir o governo do da UESPI para um mandato de 04 (quatro) anos,
Estado a partir de 19 de novembro de 2001. escolhidos a partir de lista tríplice encaminhada
Mão Santa tornou-se assim o primeiro pelo Conselho Universitário, em reunião do dia 28
Governador de Estado que teve seu mandato de dezembro de 1998 (PIAUÍ, 1999).
cassado pela Justiça Eleitoral do país e, com sua O desejo do Governador, recém-empossado,
saída, a instalação do Campus da Região Sudeste da em substituir Jônathas Nunes na reitoria da UESPI
UESPI se via ameaçada, haja vista a decisão judicial acionava então uma forte polêmica na sociedade
ter afetado diretamente o Poder Executivo, incluin- piauiense. Isso repercutiu nos periódicos locais,
do a UESPI. onde por exemplo, o professor Dalton Melo
No ínterim entre a cassação de Mão Santa e a Macambira, do curso de História da UFPI, em
posse de Hugo Napoleão, o Estado foi governado reportagem posicionava-se, “a intervenção na
pelo Presidente da Assembleia Legislativa do UESPI foi um desrespeito, a Constituição reza que as
Estado, o deputado Kleber Dantas Eulálio que, universidades gozam de autonomia didática -
dando seguimento à agenda administrativa do científica, administrativa e de gestão financeira e
Estado, assinou o Decreto de criação do campus da patrimonial e obedecerão ao princípio da
UESPI, na região do Grande Dirceu. indissociabilidade entre o ensino, pesquisa e
extensão” (A QUESTÃO....Diário do Povo,01
Ao assumir o governo do Estado, Hugo
dez.2001, p. 02). E assim, em um clima de
Napoleão montou seu novo secretariado e teve que
apreensão e instabilidade administrativa em toda a
decidir os caminhos da UESPI, tendo que enfrentar a
UESPI, o Campus da Região Sudeste da UESPI
recusa do professor Jônathas Nunes em deixar a
aguardava as obras de reforma e adaptação das
reitoria. Como noticiava os periódicos da época,
estruturas do antigo CSU para receber seus
primeiros professores e estudantes universitários e,
Estrategicamente, o reitor Jonathas Nunes
tem se mantido distante da briga política na mesma semana que tiveram suas obras iniciadas,
instalada no Piauí a partir da cassação de foram logo suspensas, em virtude de mudanças na
Mão Santa e consequente posse de Hugo
Napoleão no cargo de governador. Até então, administração superior da Instituição.
seu nome era constantemente citado como Sem conseguir que o reitor se afastasse da
provável candidato à sucessão pelo PMDB.
Instituição, o governador Hugo Napoleão recebeu a
(...) Segundo pronunciamento recente do orientação da Procuradoria Geral do Estado para
procurador geral do estado, Marcus Vinicius
Furtado Coelho, o governador Hugo exonerar Jônathas Nunes da reitoria da Universi-
Napoleão pode, assim que deseje, mudar o dade, tomando como fundamento a necessidade de
reitor da UESPI. No Karnak, porém, a
orientação de que tudo deve ser feito apurar denúncias de irregularidades durante sua
cuidadosamente para que o próprio Jonathas gestão.
Nunes seja levado a deixar o cargo.
(RESULTADO... O Dia,30.nov.2001, p. 5). Sobre o evento, destacava o jornal Na Hora,

70
Dossiê UESPI 30 Anos

O governador Hugo Napoleão Exonerou do desordenado da instituição. Isso ameaçava


cargo o professor Jonathas Nunes, ex-reitor da efetivamente a criação do Campus na região do
Universidade Estadual do Piauí e nomeou a
professora Maria do Socorro Cavalcante Rocha Grande Dirceu, visto que a decisão em criá-lo foi
como nova reitora da instituição de ensino. O articulada no contexto da expansão criticada pelo
anúncio aconteceu ontem (três de dezembro
de 2001) no início da tarde, no salão nobre do
novo Governo do Estado.
palácio de Karnak. O afastamento imediato do Sob a crítica pública de ter promovido uma
ex-reitor e da ex-vice-reitora, Maria Christina
Morais Souza Oliveira, deve-se ao fato de que expansão não planejada da UESPI e, desta forma,
eles deverão responder um processo adminis- desordenada, o reitor era acusado pelo novo
trativo relativo a denúncias de irregularidades governador do Estado, por meio da Procuradoria
durante sua gestão na Universidade Estadual
do Piauí. (HUGO....Na Hora,4 dez.2001, p. 3). Geral do Estado e seu procurador-chefe, Marcus
Vinícius Furtado Coelho, de ter promovido
Entretanto, Jônathas Nunes dava provas de irregularidades em seu intento, o que justificaria seu
que não deixaria a reitoria sem resistir. Se seu ato de afastamento. Não é sem justificativa que este é o
exoneração foi assinado no início da tarde do dia 03 nome que aparece na Ata do Conselho Universitário
de dezembro, ao final da mesma tarde, ele tratava de contra o qual o Conselho deliberou por denunciá-lo
reunir o Conselho Universitário com o objetivo de ao Ministério Público.
rechaçar o ato do Governador, como consta na Ata Sob essas críticas, o governo “Vida Nova”,
do Conselho Universitário, daquela reunião: como nomeado pela equipe de marketing de Hugo
Napoleão, questionava a política de expansão da
ATA DA CENTÉSIMA NONA REUNIÃO DO UESPI e, por consequência, comprometia a
CONSELHO UNIVERSITÁRIO DA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ- continuidade de criação do campus do Dirceu,
UESPI. paralisando, assim, suas obras de reforma, como
Aos três (03) dias do mês de dezembro de dois
noticiou o jornal o Dia,
mil e hum, as 18:00 horas realizou-se na sala,
digo, realizou-se a reunião plenária As obras no novo campus da Universidade
extraordinária do conselho universitário com Estadual do Piauí, no bairro Dirceu
finalidade de deliberar sobre o ato Arcoverde, foram paralisadas após ter sido
governamental da nomeação pró-tempore de notificado o afastamento do reitor Jonathas
uma reitora, afim de examinar supostas Nunes. A empreiteira responsável pelas
irregularidades administrativas na UESPI. O reformas de onze salas com capacitação para
c ons e l ho d e l ibe rou p or u nanimid ad e quarenta alunos interrompeu a obra,
encaminhar representação ao ministério iniciada nesta semana e com previsão para
púbico contra o senhor Marcus Vinícius término no dia 2 de janeiro. (OBRAS...O
Furtado Coelho, nos termos em que serão Dia,07.dez. 2001, p. 3).
formulados perante aquele ministério.
Deliberou ainda não reconhecer o ato
governamental que desrespeita o estatuto e o Nesse mesmo sentido, o jornal Diário do
conselho universitário. Nada mais havendo a Povo noticiava que “a empresa que fazia a reforma e
tratar o presidente deu por encerrada a
reunião e eu Leila e Vasconcelos França, lavrei ampliação do local mandou que os funcionários
a presente ata que após ser lida e aprovada ou parassem de trabalhar logo que saiu a decisão do
retificada será assinada por mim e por todos os governador Hugo Napoleão (PFL) de afastar o reitor
conselheiros. UESPI. ATA...03.dez.2001).
Jonathas Nunes” (CAMPUS...Diário do Povo,
07.dez.2001, p. 9), o que denota a pessoalidade, na
A reunião extraordinária do Conselho
figura do ex-reitor, da decisão de implantação do
Universitário denota que a então reitoria exonerada
Campus.
não se afastaria sem resistência. O novo governo, por
sua vez, passou a empreender uma campanha Talvez motivado por suas pretensões
ostensiva de acusações contra esta gestão, sobretudo políticas, Jônathas Nunes recua de seu intento em
em relação às decisões acerca do crescimento manter-se à frente da UESPI e, assim, de maneira
desordenado da instituição. Isso ameaçava melancólica e de animosidades entre as equipes que

71
Dossiê UESPI 30 Anos

deixavam e as que chegavam ao Palácio Pirajá, sede retomadas. Com obras aligeiradas e poucas
da reitoria da UESPI em Teresina, encerrava-se um adaptações realizadas, orçadas no valor de R$
importante período da história da Instituição e sua 86.000,00 (oitenta seis mil reais), o novo campus,
política de expansão conduzida por Jônathas Nunes, abrigado nas velhas estruturas do CSU do Dirceu, foi
deixando ainda um último ponto em suspenso: a inaugurado sem maiores festividades no dia 06 de
implantação do campus na região do Grande Dirceu. março de 2002, de forma a atender os 490 novos
Apesar do compromisso público da reitora estudantes universitários aprovados nos nove
pro-tempore, nomeada por Hugo Napoleão, cursos oferecidos pelo certame Vestibular UESPI
professora Maria do Perpétuo Socorro Rocha 2002 (CAMPUS... Diário do Povo. Teresina, 07 mar.
Cavalcante Barros, em manter o Campus e dar 2002, p. 05).
continuidade às suas reformas (OBRAS...O Observa-se ainda que, até pouco antes da
Dia,07.dez.2001), as comunidades e lideranças da inauguração, eram esperadas as presenças, além da
região do Grande Dirceu começaram a se mobilizar reitora pro-tempore Socorro Cavalcante, a
no sentido de pressionarem o Governo do Estado em Secretária de Educação, Cristina do Vale, e a
viabilizar a instalação da unidade, uma vez que as presidente do Serviço Social do Estado e Primeira
incertezas em relação à reitoria da UESPI persistiam Dama, Lêda Napoleão (DIÁRIO DO POVO, 06 mar.
e, com elas, o risco de não ser implantado o tão 2002, p. 19; MEIO NORTE, 06 de mar. 2002, p. 04;
desejado Campus. 180GRAUS, 05 de mar. 2002). No entanto, além
Ameaçada a instalação do Campus, a comu- dessas autoridades, o próprio Governador Hugo
nidade movimentava-se de forma a demonstrar ao Napoleão esteve presente na solenidade de
governo seu posicionamento e, assim, como inauguração o que, mesmo em meio a polêmicas,
relembra Sheivan Lima, sinalizava o reconhecimento da importância
político-social da região, fazendo questão de
Após a efetivação do campus quase sem relembrar em sua fala ter sido ele, em seu primeiro
estrutura mínima, veio a cassação de Mão governo, o responsável pela criação da UESPI
Santa e o então governador Hugo Napoleão
(PFL) abriu a possibilidade de desfazer a (MEIO NORTE, 07 de mar. 2002, p. 10) ou, ao
criação do campus. A comunidade menos, da FADEP, que lhe teria sido a precursora.
manifestou-se por abaixo-assinados, carros
de som, mídia televisiva e escrita, conduzida Inaugurado o Campus, novas batalhas se
pela AMI! Percebendo a vontade do povo o iniciavam, entre elas, a procura por um diretor,
governo da elite recuou e hoje temos este
magnífico campus (LIMA, 2006). desafio atribuído ao professor Carlos Alberto
Pereira da Silva que, relembrando a sua chegada ao
As entidades representativas da comunidade Campus, enfatizava, “eu recebi uma proposta da
atuaram efetivamente no sentido de pressionar o professora no seu gabinete, ela falou da questão do
governador a garantir o funcionamento do Campus Campus que tinha de funcionar e se eu topava botar
e, com isso, demonstrar a força política da região. a coisa pra funcionar [....]. Isso foi na sexta-feira e a
Dessa forma, contrariá-las talvez não fosse uma Universidade tinha de começar suas atividades na
decisão recomendável, ainda mais em um ano segunda-feira” (PIAUÍ DA GENTE, 2004, p. 4).
eleitoral, no qual o então governador, Hugo Definida a diretoria do Campus, era preciso
Napoleão, candidatar-se-ia à reeleição. começar as aulas. Conforme o Calendário
A pressão foi exitosa e as comunidades foram Acadêmico da UESPI para 2002, as aulas deviriam
atendidas em suas reinvindicações, a instalação do ter início no dia 04 de março em toda instituição, o
campus retornou a agenda de governo e após longo que foi adiado pela Resolução CONSUN n.
período de paralisação, as reformas foram retoma- 013/2002, para o dia 11 de março, sob a justificativa

72
Dossiê UESPI 30 Anos

da “necessidade improrrogável de realizar Processo Na entrevista concedida pelo ex-diretor, fica claro
Seletivo para Professor Provisório”. que a reforma realizada nas estruturas do antigo
CSU tinha deixado muito a desejar e as adaptações
Adiadas as aulas, o Campus da Região
teriam que ser feitas com o campus em funciona-
Sudeste já começava suas atividades sob o signo de
mento. O ex-diretor faz da entrevista um desabafo, e
um problema que ainda aflige boa parte das
prossegue,
universidades públicas do país, a falta de
professores.
Então aquele primeiro período foi assim, um
Em matéria publicada no jornal Meio Norte, Deus nos acuda (...). Imagine, tinha problema
de falta de estruturas, falta de professor, falta
os colunistas Efrém Ribeiro e Maria Eugênia Ribeiro de tudo. Acho que os alunos, que estão lá
lamentavam, de forma humorada, a situação em que lembram bem das situações difíceis que
se encontrava o Campus ao escreverem, “O prédio da passamos (...). Tivemos também, problemas
com choque de horários de professor, tudo que
UESPI foi inaugurado. Só está faltando dois você pode imaginar aconteceu naquele
pequenos detalhes para o início das aulas: primeiro ano, salas pequenas, falta de ar-
condicionado, assim como todos os Campus
professores e servidores. Um nadinha de nada, da UESPI, faltou planejamento. (PIAUÍ DA
porque alunos tem aos montes” (CAMPAINHA. GENTE. 2004, p. 4).
Meio norte. 19 mar. 2002, p. 4).
“Faltou planejamento”. Sentença enfática
O problema retratado já era denunciado por
proferida a respeito de um campus que iniciava suas
outros periódicos, como é o caso do Jornal O Dia (12
atividades com a promessa de dar respostas de sua
mar. 2002, p. 06), que em matéria intitulada “UESPI
importância à comunidade, que não desistiu em vê-
abre Campus do Dirceu mesmo com falta de
lo efetivado.
professores”, noticiava a esperança do diretor do
Campus, professor Carlos Alberto, em ver o Mas em meio às muitas dificuldades, 490
problema solucionado ainda naquela semana. estudantes depositavam suas esperanças em um
Entretanto, o problema persistiria, considerando campus que começava a funcionar assombrado por
que o edital para suprir as necessidades de desafios e incertezas que provinham mesmo do
interior da própria instituição que, sob nova
professores com a contratação de professores
administração, não via com bons olhos a repetição
provisórios somente veio a ser publicado em 21 de
de cursos já ofertados no campus-sede.
março (AVISO.... O Dia. 21 mar. 2002, p. 6),
prolongando o problema ainda mais. O primeiro grupo de professores a assumir o
Campus constituiu-se pelos coordenadores dos
Mas a falta de professores foi apenas um dos
nove cursos ofertados que, sob a direção do
desafios enfrentados pelo jovem campus. Como
professor Carlos Alberto Pereira da Silva, receberam
destaca Passos (2006), para instalação da unidade,
a missão do funcionamento e legitimação acadêmica
não houve uma efetiva adaptação do antigo Centro
e social do novo campus. Foram estes os
Social, sendo mantidas as mesmas estruturas do
professores: Francisco Ferreira Daves, coordenador
prédio cedido, condição também observada por seu do curso de Bacharelado em Direito; Maria do
primeiro Diretor, professor Carlos Alberto Pereira, Socorro E. Cerqueira, coordenadora do curso de
que em informativo produzido por estudantes do Bacharelado em Administração; Lucídio Bezerra
curso de Pedagogia em 2004, destacava, “nunca se Primo, coordenador do curso de Ciências Contábeis;
preocuparam em tornar o antigo CSU em um Norma Suely Campos Ramos, coordenadora do
Campus Universitário. Estava realmente tudo curso de Licenciatura em Letras Português; José
depredado, não tinha nada, mato grande, sala sem Pinheiro de Oliveira, coordenador do curso de
pintar, iluminação precária” (PIAUÍ da GENTE, Licenciatura em Matemática; Marcelo de Sousa
2004, p. 4). Neto, coordenador do curso de Licenciatura em

73
Dossiê UESPI 30 Anos

em História; Armstrong Miranda Evangelista, qual se inseriu, orgulhosos pelo bem conquistado e
coordenador do curso de Licenciatura em Geografia; construído, assim expressos nessa ordem, pois o
Emília Ordones Lemos Saleh, coordenadora do Campus não foi o que a Lei criou, mas o que seus
curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, e usuários – professores, estudantes, servidores e a
Maria Teresa Freire, coordenadora do curso em comunidade – fizeram dele, edificando simbolica-
Normal Superior. mente no labor diário de suas aulas, um espaço de
Novos capítulos da História do Campus se construção, crítica e reconstrução do conhecimento,
iniciaram, e com eles seus desafios, mas cabe aqui fazendo, desta maneira, que a instituição cumpra
lembrarmos que foram estes professores coordena- seu papel como espaço de emancipação intelectual e
dores, na maioria, professores substitutos, que, social, emancipação esta que começou pela próprio
juntamente com um grupo de outros professores e Campus, aceito e reconhecido como um espaço de
servidores, em sua maioria também substitutos ou formação superior de qualidade e com vigor de
estudantes bolsista que trabalhavam nos setores continuar a colaborar com o desenvolvimento das
administrativos, assumiram o compromisso de pessoas, cidadãos piauienses e filhos de outros
lançar os alicerces simbólicos do Campus, por meio estados que o procurem.
do trabalho com os estudantes e o diálogo com as
comunidades e que, ao longo de sua jovem REFERÊNCIAS
existência, têm contribuído nos caminhos tomados
A QUESTÃO DA UESPI. Diário do Povo, Teresina,
por aqueles que o procuram e pelas comunidades
01 dez. 2001, p. 2
que o circundam, em um gesto de reconhecimento e
agradecimento por terem sido estas, por seu poder AMI. UESPI. Uma conquista da comunidade da
de reivindicação e mobilização, as maiores Zona Sudeste de Teresina-PI. Ofício Sem Número,
responsáveis pela hoje existência do Campus Clóvis endereçado ao Magnifico Reitor, Prof. Jônathas
Moura da UESPI, coroada por muitas conquistas no Nunes. 29 mai. 2001
cenário acadêmico, profissional e social do Estado,
acolhendo estudantes das mais diferentes partes do ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO ITARARÉ.
país. Revista AMI. Edição Especial: Teresina, 1999.
AVISO DE EDITAL. O Dia. Teresina, 21 mar. 2002,
CONSIDERAÇÕES FINAIS: DESAFIOS QUE p. 6
SE RENOVAM
CAMPUS DO CSU PRONTO PARA FUNCIONAR.
Em 2002, iniciadas as aulas, e fundamenta- AGORA. Teresina 18 de setembro de 2001, p. 5
das no desejo de verem o sucesso do Campus,
CAMPUS DO DIRCEU JÁ ESTÁ PRONTO PARA
estudantes, professores, servidores e a comunidade
RECEBER OS 490 ALUNOS. 180graus.com.
iniciaram um profícuo diálogo, tornando o campus
Teresina, 05 mar. 2002. Disponível em
um local de pertencimento que unia cada segmento.
<http://www.180graus.com/materia.asp?idmateri
O Campus passou a ser tratado como um patrimônio
a=2238>. Acesso em: 06 mar. 2002
da região, espaço que oportunizou construir uma
imagem de prosperidade à região, que contrasta com CAMPUS NO GRANDE DIRCEU É MANTIDO.
a imagem erroneamente veiculada de carência Diário do Povo. Teresina, 07 dez. 2001, p. 09.
material e violência urbana. CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões
O Campus Região Sudeste torna-se, assim, para a história do presente. Bauru: EDUSC,
um lugar de memória, que passa a ser significado e 1999. DIÁRIO DO POVO. 05 dez. 2001, p. 9
apropriado por seus usuários e pela comunidade na

74
Dossiê UESPI 30 Anos

UNIVERSIDADES TRIPLICAM O NÚMERO DE PIAUÍ. Decreto S/N, de 01 de janeiro de 1999.


MATRICULAS EM 6 ANOS. Diário do Povo. Nomeia Jônathas de Barros Nunes para o cargo de
Teresina, 16 jul. 2001, p.5 Reitor da Universidade Estadual do Piauí, para
mandato de 04 (quatro) anos. Publicado DOE de 04
DIAS, José Anselmo de Oliveira. Entrevista de janeiro de 1999. Teresina, 01 de jan. 1999
concedida a Joelma Alves Passos, em 17 de
novembro de 2006 PIAUÍ. Lei n. 5.451, de 24 de maio de 2005.
Denomina Clóvis Moura o Campus da Universidade
HUGO EXONERA REITOR DA UESPI. Teresina. Estadual do Piauí, localizado no Bairro Dirceu
Na Hora. 4 de dezembro de 2001, p. 3 Arcoverde, em Teresina, e dá outras providências.
Teresina, 2005
INAUGURADO O CAMPUS DA UESPI NO
DIRCEU. Diário do Povo. Teresina, 07 mar. PIAUÍ. TRE. Quadro Geral por Zona/Munícipio –
2002, p.5 Eleições 2002. Disponível em: < http://www.tse.jus

LEFEBVRE, Henri. Lógica forma e lógica .br/eleicoes/eleicoes-anteriores/eleicoes-2002>,


dialética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, acesso em: 17 jun. 2016
1995
RESULTADO DE AUDITORIA PODE DECRETAR
LIMA, Sheyvan Xavier. Entrevista concedida a QUEDA DE JÔNATHAS. O Dia. Teresina, 30 de
Joelma Alves Passos, em 20 julho de 2006 novembro de 2001, p. 3

MAGALHÃES, Francisco. Coluna Balaio. O Dia. RIBEIRO, Éfrém; RIBEIRO, Maria Eugênia.
Teresina, 13 mar. 2002, Caderno Dia a Dia, p. 2 CAMPAINHA. Meio norte. 19 mar. 2002, p. 4

MARQUES, Nelito. Inauguração. Diário do Povo. SANTOS, Jussival Sousa. Entrevista concedida a
Teresina, 06 mar. 2002, p. 19. Joelma Alves Passos, em julho de 2006

OBRAS DA UESPI ESTÃO PARADAS. Teresina. Dia SILVA, Carlos Alberto Pereira. Entrevista concedida
a Dia. 07 de dezembro de 2001, p.3 à pesquisadora Joelma Alves Passos em novembro
de 2006.
PASSOS, Joelma Alves. De Campus Região
Sudeste a Campus Clóvis Moura: a expansão da SOUSA NETO, Marcelo de. Entrevista concedida a
Uespi para o sudeste de Teresina na primeira metade Joelma Alves Passos, em outubro de 2006
dos anos 2000. Teresina: UESPI [Monografia. Sob
UESPI ABRE CAMPUS DO DIRCEU MESMO COM
orientação de Claudia Cristina da Silva Fontineles],
FALTA DE PROFESSORES. O Dia. Teresina, 12
2006.
mar. 2002, p. 6
PFL GANHA COM CASSAÇÃO DE MÃO SANTA.
UESPI INAUGURA CAMPUS REGIÃO SUDESTE.
Estadão, São Paulo, 07 nov. 2001. Disponível em: <h
Meio Norte. Teresina, 04 mar. 2002, p. 4
ttp://politica.estadao.com.br/noticias/geral,pfl-
ganha-com-cassacao-de-mao-santa,20011107p409 UESPI instala núcleo no Grande Dirceu. Diário Do
Povo. Teresina, 10 jan. 2001, p.5
05>, acessado em: 20 jun. 2016
UESPI. Ata da Centésima Nona Reunião do
PIAUÍ DA GENTE. Entrevista: Carlos Alberto e Goethe Conselho Universitário da Universidade
Sandes contam suas experiências como diretores do Estadual do Piauí – UESPI. Teresina, 03 dez.
CRS. Informativo Piauí da Gente. Teresina: 2001
Campus Região Sudeste – UESPI, 2004, p.4
UESPI. Ata da Centésima Nona Reunião do
PIAUÍ. Decreto n. 10.690, 13 de novembro de Conselho Universitário da Universidade
2001. Cria, no Grande Dirceu, o Instituto Superior e Estadual do Piauí – UESPI. Teresina, 23 jan.
Educação. Teresina, 13 de novembro de 2001 2002

75
Dossiê UESPI 30 Anos

UESPI. Ata da nonagésima oitava reunião do


Conselho Universitário da Universidade
Estadual do Piauí – Uespi. Teresina, 24 mai.
2001, p. 150

UESPI. Ata da Nonagésima Terceira Reunião


do Conselho Universitário da Universidade
Estadual do Piauí – Uespi. Teresina, 09 mar.
2001

UESPI. Manual do vestibular – 2002. Aprovado


pela Resolução CONSUN n. 27/2001, de 03 de
agosto de 2001. Teresina: UNIVERSIDADE
ESTADUAL DO PIAUÍ, 2001b

UESPI. Resoluções CONSUN – 2001. Teresina:


UESPI, 2001a. Disponível em: < http://www.uespi-
br/site/?page_id=26204 >, acesso em 17 jun. 2016.

WANDERLEY, Luiz Eduardo. O Que é


Universidade. São Paulo: Brasiliense, 1983

ZONA SUDESTE DE TERESINA GANHA CAMPUS


DA UESPI. Meio Norte. Teresina, 07 mar. 2002, p. 1

76
Dossiê UESPI 30 Anos

OS 15 ANOS DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – HABILITAÇÃO EM


JORNALISMO E RELAÇÕES PÚBLICAS – DO CAMPUS POETA TORQUATO NETO
EM TERESINA (PI): HISTÓRIAS, REFLEXÕES E CONSEQUÊNCIAS PARA A
CONSTRUÇÃO DE UM PIAUÍ DIFERENTE

1
Orlando Maurício de Carvalho BERTI

1
Professor, pesquisador e extensionista do curso de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – da UESPI
(campus Poeta Torquato Neto – Teresina – PI). Jornalista e militante social. Está em fase de conclusão do Pós-
doutorado em Comunicação, Cidade e Região na Cátedra Unesco de Comunicação e Região da UMESP –
Universidade Metodista de São Paulo (São Bernardo do Campo – SP). É doutor e também mestre em Comunicação
Social pela UMESP. Fez estágio doutoral na UMA – Universidad de Málaga (Málaga, Espanha). Vice-presidente da
Rede Brasileira de Mídia Cidadã. Atua também como coordenador de projetos de pesquisa e extensão voltados para
práticas jornalísticas contemporâneas, cidadania, comunicação comunitária, tecnologias atuais e reflexões sociais.
Foi aluno da primeira turma de Comunicação Social da UESPI. É o professor de Comunicação Social com mais
tempo em atuação na UESPI. E-mail: orlandoberti@yahoo.com.br

RESUMO

Este trabalho trata sobre os 15 anos do curso de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo e Relações
Públicas – da Universidade Estadual do Piauí, campus Poeta Torquato Neto, em Teresina, Piauí. São refletidas
as contribuições, a história, desafios, vivências pedagógicas e sociais do curso. É feito um estudo histórico-
descritivo com relatos de momentos e também baseado em documentações, mostrando-se desde o início,
passando pela evolução e atualidade do curso. Baseia-se também em experiências do autor do trabalho como
aluno da primeira turma e como docente mais antigo da instituição na área de Jornalismo. Nota-se que a
graduação em Comunicação Social da UESPI é uma das que mais contribuem para a reflexão contemporânea de
fenômenos midiáticos, tendo muita importância na formação de jornalistas e relações públicas. Seus desafios
tendem a ter maior conexão com uma sociedade pujante. Um dos pontos inovadores é a nova segmentação dos
cursos, agora graduações únicas de Jornalismo e Relações Públicas, seguindo novas diretrizes curriculares.

Palavras-chave: UESPI 30 anos. Comunicação Social. História da Comunicação.

RESUMEN

Este artículo investiga los 15 años de la graduación en Comunicación Social – Periodismo y Relaciones Públicas
– de la Universidad Estatal de Piauí, Unidad Poeta Torquato Neto, en Teresina, província de Piauí. Son
investigadas las contribuciones, historia, desafíos, experiencias educativas y sociales del curso. Se hizo una
investigación histórica y descriptiva, también en base a documentaciones. Se muestra el principio, la evolución
y el tiempo presente del curso. Se basa en la experiencia de trabajo del autor como estudiante de la primera clase
y como más antiguo profesor en el área de Periodismo de la instituición. El grado en Comunicación Social
contribuy en la reflexión contemporánea de fenómenos mediáticos y tiene importancia en la formación de
periodistas y las relaciones públicas. Sus desafíos tienden a mayor conexión a una sociedad próspera. Uno de los
aspectos innovadores es la nueva segmentación de los cursos, ahora quedando solo en gradaciones de
Periodismo o Relaciones Públicas, siguiendo las nuevas directrices del plan de estudios brasileños.

Palabras-clave: UESPI 30 años; Comunicación Social; Historia de la Comunicación.

77
Dossiê UESPI 30 Anos

1. INTRODUÇÃO Já a segunda parte, intitulada “O curso de


Comunicação Social da UESPI – habilitação em
Em março de 2016, o curso de Comunicação Social – Jornalismo e Relações Públicas – história,
habilitação em Jornalismo e Relações Públicas da evolução e atualidades até seu debut”, retrata sobre
UESPI – Universidade Estadual do Piauí – campus o sujeito-objeto propriamente dito do trabalho. Traz
Poeta Torquato Neto, em Teresina, debutou, informações históricas e reflexivas sobre o curso,
completando seu décimo quinto ano de existência. principalmente em sua atualidade. A terceira, e
Resgatar e refletir esses 15 anos é o ponto última parte, com o título de “Reflexões sobre os 15
central deste trabalho. Ele é justificado por causa da anos do curso de Comunicação Social – habilitação
importância da sistematização dessa história, suas em Jornalismo e Relações Públicas – da
consequências para a contemporaneidade e da Universidade Estadual do Piauí – campus Poeta
quase inexistência de estudos que tratem da segunda Torquato Neto: Do ontem ao hoje na construção de
mais antiga graduação em Comunicação Social do uma sociedade melhor”, tem caráter analítico e
estado do Piauí. enfatiza as construções do curso retratado para um
Piauí mais reflexivo.
Indaga-se sobre as consequências desses 15
anos e como o curso, que é um dos poucos híbridos 2. O MUNDO ACADÊMICO DA COMUNICA-
no País (oferecendo ao mesmo tempo duas ÇÃO SOCIAL NO PIAUÍ E SUAS INTER-
habilitações em Comunicação Social), atuou, atua e RELAÇÕES COM A CONTEMPORAINEIDA-
pode atuar para a formação de jornalistas e relações DE COMUNICACIONAL BRASILEIRA
públicas no Piauí, tornando a sociedade do estado
mais reflexiva e inclusiva. Por isso, objetiva-se A comunicação faz parte do ser humano.
refletir sobre as contribuições, a história, os desafios, Comunicar-se com intencionalidade é uma das
as vivências pedagógicas e sociais do curso em seus características ímpares dos seres dotados de
15 anos de existência, completados em março de inteligência.
2016.
Desde os primeiros passos evolutivos
Metodologicamente parte-se de um estudo humanos, a comunicação foi uma das peças-chave
qualitativo baseado em pesquisas: bibliográfica, em ajudar homens e mulheres a terem melhor
historiográfica e de campo, notadamente no sentido qualidade de vida, bem como a entenderem seus
de reconstruir uma história de pouca documentação. entornos e a poderem deixar para as gerações
Muito do que é retratado nesse estudo faz parte da futuras lições de cultura, política, religião, mais
história de vida do autor como membro da primeira comunicação e muitas outras sociabilidades.
turma do curso e também como docente mais antigo
de Comunicação Social da UESPI. Boa parte da Os preceitos comunicacionais são tidos
trajetória retratada foi vivida in loco pelo autor. como uma das tecnologias iniciais para impulsionar
o desenvolvimento e a melhoria de vida dos seres
O trabalho está dividido em três partes. A humanos. É através da troca de mensagens, via oral,
primeira, nomeada “O Mundo acadêmico da através de escritos ou de meios eletrônicos que a
Comunicação Social no Piauí e suas inter-relações humanidade tem o poder de historicizar, promover
com a contemporaneidade comunicacional debates e vivenciar melhorias (em alguns casos,
brasileira”, de caráter teórico, traz breves pioras e maniqueísmos) para com seus próximos.
informações sobre o campo comunicacional e sua
interface acadêmica e apresenta um resumido Comunicar-se, seja de maneira intrapessoal
diagnóstico sobre o ensino de Comunicação no Piauí (pensando), interpessoal (entre duas pessoas),
à beira do início da terceira década do Século XXI. grupal (entre grupos) e até massiva (entre massas,
com milhares ou até milhões ou bilhões de pessoas)
fazem parte diária da vida cotidiana. Recebem-se ou

78
Dossiê UESPI 30 Anos

fazem parte diária da vida cotidiana. Recebem-se ou Por muito tempo, o pensamento comunica-
emitem-se essas mensagens. Elas estão em todos os cional foi voltado para o ensino técnico, sendo que,
cantos e, quanto mais os seres humanos se somente na segunda década do século XX, começou-
interligam à tecnologias, mais têm o poder de se a pensar também em questões mais humanísticas
conhecer. Um estigma contemporâneo é que e das áreas das Ciências Sociais.
receber muita comunicação não quer dizer que o ser Hime (2004) destaca o papel de Cásper
humano tem muito o poder comunicacional. Líbero (que atualmente dá nome a uma das maiores
instituições de formação de comunicado-res sociais
2.1 O campo comunicacional e a Academia do País, em São Paulo – SP), o pioneirismo nesse
processo de formação universitária de comunicado-
Somente há pouco mais de um século, a res. “O exercício responsável e competente da
Comunicação, no sentido de socialização de profissão exigia capacitação e aperfeiçoamento,
informações e questões midiáticas, começou a ser tendo em vista a função social do jornalismo. Se
pensada como área específica do saber. Coincide julgava fundamen-tal para o futuro da Nação investir
com a evolução científica de boa parte dos campos, na formação cultural do povo” (HIME, 2004, p. 1). O
que só obtiveram reconhecimento e interação como início da formação de um campo de ensino de
lugares de estudos universitários apenas no final do Comunicação no Brasil tinha seis princípios básicos:
século XIX. progresso, nacionalismo, regionalismo, coletividade,
Impulsionada por ciências como História, juventude e o jornalismo enquanto função social.
Sociologia, Psicologia, Economia Política, Ciência Na conjuntura de início do século XXI,
Política, Antropologia, Semiótica e Filosofia, a Comunicação Social era uma área que oferecia quase
Comunicação começa a ser encarada como campo 30 habilitações, sendo as principais: Cine-ma,
específico do conhecimento e forma suas hipóteses Jornalismo, Produção Editorial, Publicidade e
e tem epistemologia própria. É balizada na Propaganda, Publicidade e Marketing, Rádio e TV e
segunda metade da segunda década do Século XXI Relações Públicas. Geralmente cada habilitação tem
por sérios estudos, dezenas de obras e a uma formação de aproximadamente 3.000 horas
sedimentação do Pensamento Comunicacional com quatro anos de duração. Havia, aproxi-
Brasileiro. madamente, até 2016, quase 500 instituições de
Apesar de algumas correntes comunicacio- ensino superior no País, presentes em todas as
nais ainda não concordarem com a especificidade unidades da federação, sendo a maioria em
da área como campo de conhecimento científico, instituições privadas de ensino. Desde o início da
parte-se dos ensinamentos de Venício Lima (2001), segunda década deste século, reformulações à área
destacando que o campo específico das Ciências da são propostas, inclusive com a separação de
Comunicação abarca os estudos sobre a mídia, ou habilitações para cursos autônomos, mas um ganho
seja, os meios de comunicação de massa e suas significativo do campo acadêmico e das
interfaces sociais, principalmente com os meios especificidades de suas subáreas.
comunicacionais, sejam eles televisivos,
radiofônicos, impressos, online ou via tecnologias 2.2 Chegando até o estágio acadêmico de
atuais. Comunicação social do Piauí
No Brasil, apenas na terceira década do
século XX, começam a ser fundados os primeiros Até o segundo semestre de 2016, período que
cursos superiores de Comunicação Social. Eram coincide com o aniversário de 30 anos de Fundação
bacharelados especializados em formar mediado- da Universidade Estadual do Piauí, havia em
res de informação. Pensava-se nos primeiros cursos território piauiense seis cursos superiores de
para graduar jornalistas, relações públicas e Comunicação Social autorizados a funcionar. Eles
publicitários. ofereciam nove habilitações, sendo cinco instituições

79
Dossiê UESPI 30 Anos

com habilitações em Jornalismo, duas delas com a maioria já atuante e alguns já em processo de
habilitações em Relações Públicas e duas outras doutoramento. Aproximadamente um terço dos
com habilitações em Publicidade e Propaganda, mestres em Comunicação formados na UFPI são
todas funcionando com cursos presenciais e egressos da UESPI.
reconhecidos pelo Ministério da Educação e pelo
Essas cinco instituições de Bacharelado em
Conselho Estadual de Educação.
Comunicação Social formam, em média, de 100 a 150
Estavam autorizados a funcionar até o meio jornalistas por ano no Piauí, entre 10 a 20 jornalistas-
do ano de 2016 no Piauí os cursos de Comunicação relações públicas advindos da UESPI e também a
Social das seguintes instituições: AESPI; Estácio de média de 30 publicitários anualmente.
Sá-CEUT; Faculdade R.Sá, UFPI e UESPI.
É nessa conjuntura brasileira e piauiense que
A AESPI (Associação de Ensino Superior de está inserido o curso de Comunicação Social –
Teresina), instituição privada, é sediada na capital habilitação em Jornalismo e Relações Públicas – da
(pertence a grupo educacional de São Paulo). Ela UESPI, campus Poeta Torquato Neto, na capital
oferece o curso de Publicidade e Propaganda. A piauiense, a segunda graduação da área mais antiga
Estácio de Sá – CEUT (Centro de Ensino Unificado do estado e com forte contribuição para um Piauí
de Teresina, conhecida por Estácio), é uma mais reflexivo como veremos a seguir.
instituição privada, sediada na capital (pertencente
a grupo educacional do Rio de Janeiro), oferecendo 3. O CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA
o curso de Jornalismo e também de Publicidade e UESPI – HABILITAÇÃO EM JORNALISMO E
Propaganda (que é o mais antigo do estado). Já a RELAÇÕES PÚBLICAS – HISTÓRIA,
Faculdade Raimundo Sá, conhecido por R.Sá, é uma EVOLUÇÃO E ATUALIDADES ATÉ SEU
instituição privada, sediada na cidade de Picos (a DEBUT
307 quilômetros de Teresina, no Sertão do estado e
pertencente a grupo econômico local, com diversos O curso de Comunicação Social – habilitação
empreendimentos no Sertão nordestino). Ela em Jornalismo e Relações Públicas – da UESPI – foi
oferece o curso de Jornalismo. A UFPI (Universida- concebido no momento em que a instituição dava seu
de Federal do Piauí), instituição pública federal, é segundo maior salto quantitativo em termos de
sediada na capital, oferta o curso de Jornalismo (e é expansão. Em 2001, a universidade completava seus
o mais antigo do Piauí). É a universidade que 15 anos de existência e gozava o título de ser uma das
formou ao menos metade dos professores que dez maiores instituições de ensino superior do País
atuam nos cursos superiores do estado. Além dos em número de alunos. Tinha unidades espalhadas
cursos destacados, há os dois da própria UESPI, um não só no Piauí (passando de 50) mas também na
na capital (campus Poeta Torquato Neto) e outro na Bahia e no Maranhão. Ainda havia a possibilidade de
cidade de Picos (campus do Sertão), que é o único avanço para outros estados.
curso de Comunicação Social público do interior
A educação superior tinha de chegar aos
piauiense e o primeiro curso de Jornalismo do
rincões do estado, custasse o que custasse, nem que
Sertão Nordestino. Os dois cursos de Comunicação
fosse à base da falta de qualidade. Vivia-se o lema de
Social da UESPI oferecem habilitação em
expansão acima de qualquer custo. Nesse período, a
Jornalismo e Relações Públicas, sendo que a
instituição era administrada pelo professor-doutor
unidade de Picos já faz duas entradas que a
em Física Nuclear Jônathas de Barros Nunes. Anos
habilitação ofertada é apenas em Jornalismo.
antes, ele e sua equipe tinham sido responsáveis pela
Destaca-se também que a UFPI tem desde multiplicação quantitativa de centenas de cursos de
2011 o primeiro mestrado (e até o quase final de licenciatura, proporcionando a maior formação de
2016, único) em Comunicação no Piauí. Já havia docentes em cursos superiores já feita na História do
formado quatro turmas e mais de 40 mestres, Piauí.

80
Dossiê UESPI 30 Anos

Entre 2000 e 2001, era a vez da expansão precisará passar quatro anos cursando Jornalismo
dos bacharelados. Um dos escolhidos foi antes.
justamente o de Comunicação Social. No segundo As duas primeiras turmas formadas em
semestre de 2000, a UESPI tinha feito um grande Jornalismo e Relações Públicas na UESPI Torquato
evento comunicacional trazendo o jornalista Neto (Teresina) tiveram cinco anos de curso. Da
investigativo Roberto Cabrini como estrela e terceira turma em diante, foi aumentado um período
mobilizado jornalistas e comunicadores de todo o a mais, com 11 semestres para a obtenção das duas
estado para debater o futuro da área em território graduações. Desde a primeira turma quem não
piauiense. Foi um dos maiores eventos da área na quisesse cursar RP poderia optar de ter a graduação
história piauiense. em Jornalismo com formação em quatro anos. O
Pensou-se inicialmente em um curso com curso, até 2016, tinha formado nove turmas.
três habilitações: Jornalismo, Relações Públicas No início, o curso tinha cinco professores:
(que não existia no Piauí) e o inovador (Assessoria Cinthia Lages (primeira coordenadora), Francisco
de Imprensa). A ideia da terceira habilitação foi das Chagas, Geraldo Magela, Lenora Campelo e
abandonada nas primeiras semanas de funciona- Nairana Melo, pertencendo à área de Comunicação a
mento do curso, já que assessoria de imprensa é primeira e última professora. Nenhuma delas era
naturalmente uma função jornalística e de relações professora efetiva.
públicas.
O curso, apesar de fazer parte do CCSA –
O curso foi autorizado a funcionar através Centro de Ciências Sociais Aplicadas – sempre
da Resolução Nº 38/2001 do CONSUN – Conselho funcionou no então Bloco 5 (área do então CCE –
Universitário da Universidade Estadual do Piauí – Centro de Ciências da Educação). Ao completar 15
em 29 de outubro de 2001. Segundo Izabelle Lopes anos fazia parte do CCECA – Centro de Ciências da
(2015), o referido documento tem data retroativa de Educação, Comunicação e Artes e tinha quatro salas
29 de agosto de 2000, data em que oficialmente, em de aula e três laboratórios, sendo um de informática,
termos burocráticos, o curso pode ser considerado um de rádio e um de TV, além de espaço de
criado. hemeroteca e coordenação.
Em termos práticos, a graduação em comu- Em 2002, o curso ganhou seu primeiro
nicação Social da UESPI teve início em 05 de março professor efetivo, o então mestre em Comunicação e
de 2001 com aula-magna do professor da UnB – Cultura, Achylles Costa. Em 2004, foi realizado o
Universidade de Brasília – Paulo José Cunha, que é segundo concurso para professor-efetivo em
natural do Piauí. Sua primeira turma tinha 40 Jornalismo. Eram três vagas. Somente o professor
alunos e funcionava no período vespertino. “Em seu especialista Daniel Vasconcelos Solon foi aprovado.
primeiro ano foram inscritos 841 vestibulandos, Em 2005, a UESPI fez o maior concurso de sua
sendo 40 aprovados para o primeiro semestre le- história para a área de Comunicação, foi o terceiro e
ivo, a concorrência do curso neste ano somou 21,02 último concurso efetivo até o completar de seus 15
pessoas por vaga” (LOPES, 2015, p. 58). Eram anos. Foram aprovados para a área de Jornalismo em
alunas e alunos que tinham o sonho de fazer ordem de colocação: Cristiane Sekeff (mestra),
Jornalismo e muitos, relações públicas. Mas um Samária Andrade (especialista), Orlando Berti
fato logo chamou a atenção dessas e desses: para se (especialista) e Sônia Maria Carvalho (especialista),
fazer RP (apelido dado a Relações Públicas), o aluno sendo que os dois últimos já eram professores
teria de cursar quatro anos de Jornalismo pa-ra efetivos do campus da UESPI de Picos (o primeiro
fazer um ano em RP. Esse tipo de hibridização com entrada em agosto de 2003 e a segunda em
continuava até o final de 2016. Somente a partir das setembro de 2003). E esse concurso também
turmas que entrarem em 2017 é que haverá uma apresentava uma novidade: professores efetivos para
separação e quem quiser cursar RP finalmente não Relações Públicas, sendo aprovados Edite Malaquias

81
Dossiê UESPI 30 Anos

(mestra) e José Barroso (especialista). Seis meses Wellington Barroso de Araújo Dias (PT), consideran-
depois dos professores classificados no concurso do o Parecer Nº 194/2006 do Conselho Estadual de
para a área de Jornalismo, Américo Abreu (especi- Educação (CEE–PI). Em 2011, o curso passou por
alista) e Cláudio Vasconcelos (especialista) foram processo de revalidação junto ao Conselho Estadual
convocados. de Educação. Terminou, sem percalços, sendo
O Bacharelado em Comunicação Social – revalidados.
habilita-ções em Jornalismo e Relações Públicas – Entre 2015 e 2016, os cursos passaram por
foi reconhecido em 19 de junho de 2006 pelo prazo fase de revalidação. Até o início do segundo semestre
de cinco anos, através do Decreto Nº 12.255/06, de 2016, o curso possuía 15 professores e aproxima-
assinado pelo então governador do Estado José damente 150 alunos.

TABELA 01 – LISTA DOS PROFESSORES DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL –


HABILITAÇÕES EM JORNALISMO E RELAÇÕES PÚBLICAS – CAMPUS POETA
TORQUATO NETO NO PERÍODO DE COMEMORAÇÃO DOS 30 ANOS DA UESPI –
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ

82
Dossiê UESPI 30 Anos
Professora efetiva

Jornal is t a (f ormad a p e l a
UESPI de Picos) e mestre em
Graciele Barroso6 Comunicação e Culturas Midi- Professora substituta Na ativa
áticas pela Universidade Fede-
ral da Paraíba (PB)

Jornalista e mestre em Comu-


José Américo
nicação pela Universidade Fe- Professor efetivo Na ativa
Lima de Abreu7
deral do Piauí (PI).

Relações públicas e especi-


José Barroso de alista em Administração e Re-
Professor efetivo Na ativa
Oliveira Filho8 cursos Humanos pela Univer-
sidade Paulista Objetivo (SP)

Jornalista e mestre em Ciência Na ativa, coordenador do


José Cláudio da Política pela Uni-versidade curso, ocupando o cargo
Professor efetivo
Silva Vasconcelos9 Federal do Piauí (PI). por metade dos 15 anos do
curso.

Jornalista e mestre em Co-


Marcela Miranda Professora substituta
municação pela Universidade Na ativa
Félix dos Reis10
Federal do Piauí (PI).

Jornalista e mestre em Co-


Maria de Jesus municação Social pela Uni-
Professora efetiva Na ativa
Daiane Rufino Leal12 versidade Metodista de São
Paulo (SP).

Jornalista, mestre em Co- Na ativa e cursando Pós-


unicação Social e doutor em doutorado em Comunica-
Comunicação Social pela Uni- ção, Cidade e Região na Cá-
Orlando Maurício
versidade Metodista de São Professor efetivo tedra Unesco de Comuni-
de Carvalho Berti12
Paulo (SP), com estágio douto- cação Regional na Univer-
ral na Univesidad de Málaga rsidade Metodista de São
(Espanha) Paulo (SP) .

Jornalista e mestre em Co- Afastada para cursar dou-


Samária Araújo de municação pela Universi-dade torado em Comunica-ção
Professora efetiva
Andrade13 Federal do Piauí (PI). na UnB – Universidade de
Brasília (DF)

Jornalista e especialista em
Sammara Jericó Alves Comunicação e Marketing pela
Professora efetiva Na ativa
Feitosa14 Universidade Federal do Piauí
(PI).

Jornalista e mestre em Histó-


Sônia Maria dos ria do Brasil pela Universidade Professora efetiva Na ativa
Santos Carvalho15 Federal do Piauí (PI).

6
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4333020D6
7
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4559466J1
8
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4229599P6
9
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4206474E5
10
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4369049T6
11
ndereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4485886P6
12
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4758310H9
13
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4229539J3
14
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4559620J7
15
Endereço Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4228669Y4
Fonte: Dados sistematizados pelo autor deste trabalho em consonância com listagem da UESPI e informações do currículo lattes de cada um dos docentes.

83
Dossiê UESPI 30 Anos

Com esse quadro docente, o curso de de tantos problemas, termina sendo o maior legado
Comunicação Social da UESPI campus Poeta para o povo do Piauí. É esse conjunto que faz girar a
Torquato Neto é um dos que quantitativamente (em roda do conhecimento do segundo curso de
termos total de professores comparado com o total Comunicação Social mais antigo do estado (somente
de efetivos) que tem um dos maiores quadros de o da UFPI tem mais tempo de existência).
professores permanentes. Outro ponto a ser levado A graduação da UESPI é também uma das
em conta é acerca da constante qualificação dos seus que mais geram impactos sociais entre as quase 30
docentes. Praticamente todos, inclusive contando oferecidas durante as três décadas da história da
com os substitutos, são mestres e desde 2009 há Universidade. Mais uma prova da concatenação
uma busca de qualificação também em doutorados. entre os sujeitos do capital social do curso e seu
A qualificação também termina surtindo impacto ao Piauí e, consequentemente, ao Brasil.
efeito em termos de pesquisa em que até o meio de Essas consequências são vistas sobre as ações dos
2016 haviam registrados sete projetos de pesquisa egressos e de seu atual quadro.
desenvolvidos por seus docentes, além de sete Reflete-se sobre a história da graduação em
projetos de PBIC – Programa de Bolsa de Iniciação Comunicação Social, além da importância de seu
Científica. Também haviam registrados quatro capital social, também sobre a evolução jornalística e
projetos de extensão, mostrando uma vocação para de relações públicas próprios e do mercado teresi-
atividades envolvendo comunidades e outros nense e sua influência para o mercado piauiense
setores além do público universitário propriamente como um todo.
dito.
Frisa-se a formação de novos profissionais e
4. REFLEXÕES SOBRE OS 15 ANOS DO cientificização de um pensamento comunicacional
CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – regional dando impulsos para a criação de um
HABILITAÇÃO EM JORNALISMO E RELA- Pensamento Comunicacional Piauiense e da
ÇÕES PÚBLICAS – DA UNIVERSIDADE sedimentação de uma escola científica com campo
ESTADUAL DO PIAUÍ – CAMPUS POETA próprio de estudo tendo fortes valorizações ao
TORQUATO NETO: DO ONTEM AO HOJE “quintal”. Pensa-se em sujeitos-objeto de estudo que
NA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE contemplem, em sua maioria, problemáticas da
MELHOR Grande Teresina ou de território piauiense com
metodologias ligadas a uma reflexão não só teórica,
O que foi feito nos 15 anos do curso de mas também empírica sobre os sujeitos sociais de
Comunicação Social – habilitação em Jornalismo e uma midiologia (estudos dos meios de comunicação
Relações Públicas da UESPI campus Poeta de massa) contemporânea e regional.
Torquato Neto? Qual seu impacto? Quais suas Destaca-se que não é só para o mercado que o
consequências? O que foi realizado imaterialmen- curso da UESPI forma jornalistas e relações públicas,
te? E o que pode ser pensado em termos de futuro? mas também não se pode deixar de lado a visão
Metaforizando-se uma adolescência, bem mercadológica, pensando profissionais interligados
consonante com seus 15 anos, o curso é cercado de com ética e muito moral e que possam atuar em
dúvidas, medos e até rebeldia; mas também é empresas não como meras peças de uma engrenagem
permeado de virtudes e de buscas constantes por hegemônica, mas como sujeitos essenciais para uma
maturidade. Ao ter seu debut, o grande legado do contra-hegemonia levando à cabo uma verdadeira
curso de Comunicação Social uespiano em Teresina Comunicação Social.
é justamente seu capital social: alunos, funcionários Sobre o capital social do curso de Comunica-
e professores com as respectivas interações junto à ção Social da UESPI, nota-se que naturalmente se foi
sociedade. É uma herança que, mesmo com 15 anos investindo em pessoas. Esse pensamento é historici-

84
Dossiê UESPI 30 Anos

zado desde o seu primeiro, dos quatro projetos mais de uma década da formatura da primeira turma
pedagógicos já feitos durante esses 15 anos. de relações públicas, notam-se ganhos e reconheci-
Em um curso historicamente marcado por mento, principalmente em concursos públicos.
falta de laboratórios em seus anos iniciais e também Não há pesquisas no estado do Piauí
por falta de professores efetivos, além de problemas mostrando o impacto direto entre egressos das
iniciais com pesquisa e extensão naturalmente os instituições de ensino superior em Comunicação do
membros do curso foram-se unindo e criando estado. Mas nota-se, ao refletir sobre a prática, bem
correntes contra-hegemônicas para tentar fazer o como a vivência desses sujeitos nos ambientes
diferencial. Um dos fatos a serem destacados nesse profissionais, que há muita alteração social positiva.
sentido foi a instalação da hemeroteca (local que Não só a universidade é o local de modificação, mas
reúne livros, monografias e materiais audiovisuais sua interação, através de atividades de ensino,
específicos na área de Comunicação Social), pesquisa e extensão, ajuda a melhorar a sociedade.
montada através de gincana. Sobre a formação e a cientificização, nota-se
Muitos dos livros do acervo comunicacional que foi um dos pontos principais de evolução dos que
da Biblioteca Central da UESPI campus Torquato fazem parte do curso. Há um fluxo científico docente
Neto são fruto de doações de professores, alunos e e discente em forte crescimento. Um terminou
ex-alunos, além da insistência em pedidos para retroalimentando o outro. Prova-se essa interface a
multiplicar a quantidade de obras. Outro ato em partir dos primeiros momentos em que os primeiros
curso durante o ano de 2016 era a montagem do docentes foram cursar mestrado. Somente duas
Clube do Livro de Comunicação Social, projeto de professoras do quadro efetivo do curso de Comunica-
extensão que visa duplicar o acervo disponível na ção Social da UESPI de Teresina entraram na
instituição e dobrar o número de livros lidos pelos instituição já mestras, o caso das professoras
cursistas. Cristiane Sekeff e Edite Malaquias. O curso teve um
Destaca-se a importância do movimento aumento de 350% do número de mestres que
estudantil em muitas das interfaces das lutas evoluíram durante seus tempos de instituição.
durante a história do curso. Ele ajudou a refletir Outro grande desafio do curso é manter-se
essas situações e as pessoas foram formadas. antenado com tamanhas modificações tecnológicas
Um dos principais pontos foi que a turma por que passa a sociedade. Um Jornalismo Contem-
formada no curso em 2012 terminou em primeiro porâneo também é feito de interações comunicaci-
lugar nacional no ENADE (Exame Nacional de onais e seu laboratório não apresentava sequer
Desempenho de Estudantes). Nenhum curso de aparelhos modernos. Mas nem só de aparelhagem
Comunicação do Piauí conseguiu atingir esse vive uma graduação. Um dos pontos-chave é justa-
patamar além do da UESPI. mente o sentido de utilização desses laboratórios
para reflexões sociais.
Acerca da evolução jornalística e de relações
públicas entre os sujeitos graduados nos cursos de É fato que a própria produção laboratorial é
Jornalismo e Relações Públicas, vê-se o quanto o necessária para que haja uma maior interação entre a
mercado e a própria Academia foram transforma- teoria e a prática. Pensar uma graduação tecnicista é
dos e em várias empresas jornalísticas há fortes contraproducente, mas também é mais que fato suas
elogios para os egressos da UESPI. Mesmo com uma interações práticas, inclusive não só na sala de aula,
necessidade maior de identidade, o curso de nem muito menos dentro da universidade, mas
Relações Públicas gerou a demanda de uma área também em atividades de pesquisa e extensão. Esses
que antes não tinha tanto espaço no estado e que era pensamentos têm aumentado exponencialmente
engolida por jornalistas. Apesar de necessitar de com o número de produções acadêmicas e científicas
uma maior identidade, mesmo depois de mais de dos egressos do curso e a realização de eventos
anuais, os principais deles: Semana de Audiovisual,

85
Dossiê UESPI 30 Anos

na área de Jornalismo, e o Fórum de Relações Seus 15 anos, completados em 2016,


Públicas, na área de RP. destacam cada vez mais: interação e evolução em
Destaca-se a importância da divisão das todas as suas interfaces de ensino, pesquisa e
habilitações para cursos autônomos. Elas seguem extensão. O curso faz acontecer. Poderia fazer mais,
uma tendência nacional de maior autonomia e claro! É um desafio mais que premente para as
deixarem de ser habilitações em Comunicação próximas turmas e para ser comemorado e evoluído
Social para passarem a cursos autônomos de nos próximos aniversários.
Jornalismo e Relações Públicas. Será um ganho Não são só os estudantes egressos do curso e
crucial principalmente para a área de RP que seus corpos docente e técnico-administrativo
durante os 15 anos de curso teve menos professores participam desses avanços, mas também boa parte
e muitas vezes era relegado a segundo plano. da população do Piauí está inserida com as
Já é certo que as turmas ingressantes em consequências dos trabalhos dos formados em
2017 serão de Jornalismo (já acertado para entrada Jornalismo e Relações Públicas da UESPI de
no primeiro semestre) e Relações Públicas (em Teresina. Essas reflexões reverberam também no
negociação para entrada no segundo semestre). pensamento da melhor formação profissional. É uma
Com esses fatos, os cursos serão a partir de 2017 via de várias consequências positivas e elas têm
autônomos. Eles passavam no meio do segundo ajudado a mudar positivamente a sociedade em um
semestre de 2016 por votações no Conselho período tão complicado.
Universitário com seus planos de curso. A gradua- Mesmo entrando no seu 16º ano com uma
ção em Relações Públicas teve Projeto Pedagógico série de dificuldades estruturais e problemas
feito em tempo recorde graças a trabalho hercúleo ocasionados pela greve mais duradoura de sua
da equipe docente do curso. O Projeto Pedagógico história, o curso uespiano de Comunicação Social
no novo curso de Jornalismo foi pensado entre os prova que seu maior capital é imaterial: as pessoas
corpos docente dos campi de Picos (no Sertão) e de que nele estão e as que por ele passam. É esse capital
Teresina (Torquato Neto). social que tem provado o quanto o mercado de
Comunicação tem disputado os alunos da UESPI, o
CONSIDERAÇÕES quanto mais da metade dos alunos egressos de
Relações Públicas está empregado em áreas públicas
Os principais pontos a serem considerados Brasil afora e o quanto o próprio curso tem formado
sobre os 15 anos do curso de Comunicação Social – egressos atuando em mestrados e doutorados.
habilitação em Jornalismo e Relações Públicas – da É notório que o curso necessita de uma maior
UESPI, campus Poeta Torquato Neto, são acerca da estrutura. Também precisa, com premência de ser
contribuição dessa graduação em relação à contemplado, de novo concurso público para
formatura de um público mais reflexivo e mais preenchimento de vagas para docentes e ainda que
atuante. Prova-se a ocorrência dessas atitudes. tenha novas caras para poder avançar para uma de
A graduação da UESPI é também uma das que suas grandes metas: o Mestrado. Somente com um
mais geram impactos sociais entre as quase 30 quadro de oito doutores com boa produção científica
oferecidas durante as três décadas da história da na área é que esse sonho pode começar a sair do
Universidade. Mais uma prova da concatenação papel. Destaca-se que o último concurso feito para
entre os sujeitos do capital social do curso e seu preenchimento de vagas de professor efetivo foi no
impacto ao Piauí e, consequentemente, ao Brasil. segundo semestre de 2005. Já completou aniversário
Essas consequências são vistas sobre as ações dos de dez anos.
egressos e de seu atual quadro.

86
Dossiê UESPI 30 Anos

Que venham mais 15 anos, mais outros 15,


mais 15, mais e mais ... e que sempre o curso de
Comunicação Social da Universidade Estadual do
Piauí possa continuar colaborando com a sociedade
e também com o povo brasileiro, em especial do
Piauí, trazendo reflexões e ações sociais mais que
transformadoras.

REFERÊNCIAS

HIME, Gisely Valentim Vaz Coelho. Na fundação


da primeira escola de Jornalismo do Brasil
Cásper Líbero gera o conceito de jornalismo
moderno. São Paulo: Universidade de São Paulo.
Revista PJ: BR Jornalismo Brasileiro. Edição 03,
2004.

LIMA, Venício A. de. Mídia, Teoria e Política.


São Paulo: Perseu Abramo, 2001.

LOPES, Izabelle Cristine Azevedo. O perfil dos


jornalistas/relações públicas formados pela
UESPI-Teresina e suas reflexões acerca de
sua formação híbrida. Teresina: Monografia
apresentada no curso de Comunicação Social –
habilitação em Jornalismo da Universidade
Estadual do Piauí, 2015.

PLATAFORMA LATTES. Currículo Lattes de


todas as professoras e de todos os professo-
res do curso de Comunicação Social da
UESPI – Universidade Estadual do Piauí –
campus Poeta Torquato Neto. Disponível em:
<http://lattes.cnpq.br>. Acesso em: 13.ago.2016.

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Dossiê UESPI 30 Anos

A UESPI FRUTO DA LUTA DOS DOCENTES

THE UESPI RESULT OF THE PROFESSORS' FIGHT

Rosângela ASSUNÇÃO1

1
Professora do Curso de História da UESPI- Campus Clóvis Moura, doutora em História pelo Programa de Pós-
Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense-UFF/RJ, bolsista da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Piauí-FAPEPI, mestre em Políticas Públicas e graduada em História pela Universidade Federal do Piauí-
UFPI, estudiosa do movimento sindical docente no Piauí. E-mail; rosangelaassuncao30@hotmail.com

RESUMO

O presente artigo trata da história da Universidade Estadual do Piauí-UESPI, através do estudo da memória dos
docentes a partir de seus depoimentos sobre as greves conduzidas pela Associação dos Docentes do Centro de
Ensino Superior do Piauí-ADCESP. Nosso objetivo é apresentar a realidade da universidade e as mudanças que
foram sendo operadas no interior da mesma ao longo dos anos de 2003 a 2012 e como os professores
perceberam essas mudanças. O recorte temporal se justifica porque foi a partir de 2003, com a chegada do
Partido dos Trabalhadores ao governo do Estado e com uma nova equipe gestora na UESPI, que se iniciou uma
série de mudanças na instituição. O objetivo era buscar a regularização dos seus cursos e a organização
regimental da mesma com criação e aprovação de leis de funcionamento da universidade, como: Regimento
Interno, Estatuto e com o funcionamento de conselhos, eleição para reitor e diretores de Campus, Centros e
coordenadores de cursos, abertura de concursos para professores efetivos.

Palavras-chave: UESPI. Docentes. ADCESP.

ABSTRACT

This article deals with the history of the State University of Piauí-UESPI through the study of the professors'
memory from the testimonies of the strikes conducted by the Association of Teachers of Higher Education
Center of Piauí-ADCESP. Our goal is to present the changes that were made within the university over the years
2003-2012 and how teachers perceived these changes. The time frame is justified because it was from 2003
with the arrival of the Workers' Party to the state government and a new management team at UESPI that a
series of changes in the institution began, trying the regularization of its courses and its regimental
organization with the creation and approval of the university's operating laws such as: the operating of councils,
election of its dean and Campus directors, Centers and coordinators of courses and open competitions for
permanent professors. We believe that we still have to conquer the financial autonomy of the institution.

Keywords: UESPI. Professors. ADCESP.

88
Dossiê UESPI 30 Anos

1. CONTEXTUALIZANDO A LUTA Atualmente, a universidade passa por um


processo de regularização de seus prédios, uma vez
Neste trabalho, apresentamos as transfor- que a maioria foi cedida por outros órgãos do Estado
mações que a UESPI passou ao longo do período e, sem a regularização dos mesmos, fica impossível
2003 a 2012, como resultado da luta dos docentes receber recurso federal para melhoria estrutural.
através das greves. Priorizamos, como aspectos de Segundo o atual reitor, esse processo de regulariza-
análise, a melhoria do corpo docente, de condições ção dos prédios está consolidado. “Na realidade é o
de trabalho e organizacional da instituição. seguinte: o único campus que foi construído para ser
A história da UESPI2 será contada a partir universidade foi o de Picos, [...]. As outras edificações
dos depoimentos de docentes a respeito das lutas da UESPI, na sua maioria, já estão consolidadas com
conduzidas pela Associação dos Docentes do Centro documento passado em cartório como sendo da
de Ensino Superior do Piauí - ADCESP. Acredita- UESPI. [...]”. (BATISTA, 2016, p. 22).
mos que as lutas empreendidas por esta associação A ADCESP foi fundada no dia 5 de abril de
contribuíram para que o estado despertasse para a 1987. A partir daí, a Associação Docente passou a
necessidade de implantação de políticas de discutir os problemas enfrentados pela categoria.
melhoria da instituição e do seu quadro docente. Houve o fortalecimento da associação através dos
Destacamos também o papel da adminis-tração concursos para professor efetivo e, consequentemen-
superior, pois esta, através das várias gestões que te, a ampliação do número de associados. A categoria
passaram pela reitoria da UESPI, foi construin-do docente, a partir de 2003, passa por intensos
meios de regularização e organização da problemas relacionados à falta de melhoria salarial e
universidade, buscando o reconhecimento dos à qualidade de condições de trabalho, reagindo a essa
cursos, a regularização dos prédios da instituição, situação através de greves. No período de 2003 a
elaborando e aprovando leis de regulamentação 2012, aconteceram cinco greves (2003, 2004, 2008,
para o pleno funcionamento da IES. A UESPI é 2011, 2012) conduzidas pela associação em busca de
relativamente nova e ainda está caminhando no melhoria salarial e de condições de trabalho e
sentido de se consolidar3 como instituição de nível estrutural da instituição.
superior. A ADCESP, por ser uma seção sindical do
Nosso recorte de análise será de 2003 a Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de
2012, pois foi a partir de 2003 que a universidade Ensino Superior- ANDES/SN, tem seguido a postura
passou por uma série de transformações buscando do mesmo, que se desfiliou da Central Única dos
se adequar como instituição de nível superior. É do Trabalhadores - CUT em 2004, associando-se mais
ponto de vista dessas transformações que iremos tarde (2007) à Central Sindical e Popular –
acompanhar o desenvolvimento da maior universi- CSP/Conlutas. A ADCESP, no período em estudo,
dade do Piauí (em número de Campus e de alunos). tem sido dirigida por pessoas ligadas a partidos de
4
De acordo com o sítio eletrônico da instituição , a esquerda, tendo uma preponderância de membros
UESPI tem hoje 11 campi, 12 núcleos e 12 polos do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados-
universitários, com um público de 21.489 alunos, PSTU e do Partido Socialismo e Liberdade - PSOL em
872 docentes efetivos, 575 professores com seus quadros da diretoria. No período em estudo, a
contratos temporários e 211 cursos. ADCESP sempre se manteve na oposição ao governo

2
Para mais informações sobre o surgimento da UESPI, conferir histórico da UESPI em: http://www.uespi.br/site/?page_id=25578
3
A partir de 2003, a universidade passou por um processo de reconhecimento de cursos e reorganização e regularização institucional,
procurando criar leis para regulamentar o seu pleno funcionamento. Foi a partir daí que se intensificou o processo de concursos
públicos para docentes e técnicos do quadro efetivo da instituição melhorando o seu corpo de funcionários.
4
Ver UESPI em números, em UESPI, 2016.

89
Dossiê UESPI 30 Anos

do Partido dos Trabalhadores-PT e do Partido principalmente resolver o caso dos cursos sem
Socialista Brasileiro - PSB, manifestando-se através reconhecimento e os problemas financeiros da
de greves e paralisações. instituição. A partir deles, foram feitos os
A Universidade vem sendo melhorada a encaminhamentos no sentido de reconhecer os
partir do atendimento das reivindicações da cursos em funcionamento. A administração superior
ADCESP em luta e do empenho da administração trabalhou na regularização dos cursos ao tempo que
superior em atender a tais reivindicações, embora o tentava resolver os vários problemas gerados pela
processo não tenha ocorrido de forma pacífica. Em expansão, principalmente para outros estados como
2003, com a chegada do Partido dos Trabalhadores Bahia e Maranhão. Também, foi feito eleição para
ao governo do Estado, as esperanças cresceram no diretores do Campus Poeta Torquato Neto e Campus
meio dos movimentos sociais e sindicais, que Região Sudeste (atual Campus Clóvis Moura). Ao
5
esperavam do governo eleito políticas que final da greve dos docentes, ficou acertado concurso
beneficiassem os trabalhadores. Para os docentes para professor efetivo com abertura de 219 vagas. O
organizados na ADCESP, as melhorias só seriam professor Nouga Batista também destaca as
conquistadas à custa de muita luta; logo decretaram melhorias na instituição a partir de 2003. Vejamos:
greve exigindo reajuste salarial, pois já estava há
oito anos sem reajuste. Com a greve, passaram a [...]. O PT chegou ao Governo do Estado e à
exigir, além do reajuste, concurso público para própria Presidência da República, com um
professor do quadro permanente e eleições diretas viés sindical muito grande. Quer dizer, as
pessoas que estavam no governo vinham de
para reitor, diretores de Campi e de Centros e uma base sindical do movimento popular que
Coordenadores de cursos. A administração superior reconhecia direitos da classe trabalhadora.
foi formada por uma equipe de transição que Assim, nós vivemos momentos
importantíssimos. Tivemos a reformulação de
deveria organizar a maior universidade do Estado: a nossos estatutos, a discussão e implantação de
UESPI. Na época, ela era maior do que o seu próprio plano de carreira, a construção de eleição
orçamento, enfrentando grandes dificuldades para direta para diretor, coordenador, reitor.
Claro, que isso não veio dado pelo governo do
se manter, utilizando como renda recursos PT, mas o movimento estudantil e a
oriundos de altas taxas cobradas aos alunos e de comunidade acadêmica souberam reivindicar
convênios firmados com algumas prefeituras do isso e obviamente que dentro da conjuntura
da época, o PT soube reconhecer como
estado. legítima, aquela reivindicação. Ali começou
A reitoria foi assumida pela professora realmente, um despertar pela melhoria da
infraestrutura. [...] (BATISTA, 2016, p. 6).
Maria Oneide Fialho Rocha, correligionária do
governador na cidade de Picos e professora da
Como podemos perceber, as melhorias foram
Universidade Federal do Piauí. Ela foi indicada pelo
acontecendo através da cobrança e luta da comuni-
governador Wellington Dias e o restante da equipe
dade universitária. Prova disso eram as cobranças do
foi definido em reuniões com a reitora, correligioná-
sindicato para chamar os professores aprovados em
rios do Partido dos trabalhadores e por um grupo de concurso. Na greve de 2004, além de reajuste
professores da UESPI. A professora Valéria salarial, a ADCESP cobrava a efetivação dos
Madeira Martins Ribeiro, professora da UESPI do professores do concurso de 2003. O certo é que as
curso de pedagogia, ficou como vice-reitora. No conquistas foram crescendo em número de concurso
final de 2003, a professora Oneide Rocha pediu para docentes e em melhoria estrutural, mas não era
exoneração do cargo de reitora para se candidatar à só por cobrança da ADCESP. A administração
prefeita na Cidade de Picos, passando a reitoria para superior se empenhou no processo de regularização
a sua vice. Ainda em 2003, foram elaborados da universidade e de seus cursos, processo ainda em
relatórios para se fazer um apanhado conjuntural andamento, pois a universidade, para ter seu pleno
da realidade da instituição, procurando principal- funcionamento com todos os seus cursos reconheci-
5
Edital nº 001/2003 de 18 de dezembro de 2003 abertura de 219 vagas para professor efetivo da UESPI.

90
Dossiê UESPI 30 Anos

os, precisa de quadro compatível de professores acrescentar que nem sempre o recurso aprovado ano
efetivos. Nesse quesito, o governo do estado ainda a ano para a UESPI era liberado na sua totalidade.
não cumpriu o seu compromisso, pois, ao comemo- Esse problema aparece como ponto de pauta em
rar seus 30 anos de existência, a universidade ainda todas as greves dos docentes, exigindo pauta em
enfrenta o problema de reconhecimento de cursos, todas as greves dos docentes, exigindo autonomia
tendo que viver com o dilema de fechar cursos por financeira e administrativa da UESPI, até o
falta de professores efetivos e de condições mínimas momento, nenhum governador aceitou tratar do
de funcionamento. Embora reconheça que as assunto.
melhorias foram acontecendo, nem todos
Em 2005, o Estatuto da Universidade foi
concordam com a política do Partido dos
reformulado e implantado, realizou-se a 1ª eleição
Trabalhadores para a UESPI.
para reitor e vice-reitor, sendo escolhidos Valéria
[...]. Tínhamos a conta dos nossos convênios. Madeira Martins Ribeiro e Carlos Alberto Pereira da
Por exemplo, uma das grandes contas era Silva. Até então, esses gestores eram escolhidos pelo
com as prefeituras, com recursos como governador sem consulta à comunidade universitá-
FUNDEB, com formação de professores. A
UESPI foi ampliada com esse recurso que era ria. A partir daí, o governador continuou nomeando,
temporário. Cada convênio tinha a sua conta mas respeitando os eleitos pela comunidade
separada e, quando a gente queria fazer
pagamento de professores, de pessoal, de universitária. Foi aprovada a lei que dispõe sobre o
compras de equipamentos e de materiais era Plano de Cargos, Carreira e Remuneração do
via essas contas. Mas quando passou, já no magistério superior da UESPI; abertura de concurso
governo Wellington, a atrelar essa conta
única, qual era o processo? Se eu fosse para professor efetivo com o oferecimento de 143
comprar lápis, canetas ou qualquer material, vagas e abertura de concurso para técnicos efetivos
livros para a UESPI, eu tinha que primeiro
depositar o dinheiro na conta do Estado para com oferecimento de 152 vagas.
voltar depois a liberação para autorização do
Em 2006, houve a reformulação do Estatuto
pagamento e a liberação do recurso que
estava depositado na conta única do Estado da UESPI e implantação do Plano de Cargos dos
[...] e passa um ou dois meses. Há uma docentes. Com os concursos para docentes, foi
interferência do poder executivo muito forte,
o poder do secretário da fazenda de deliberar melhorando os cursos nos vários Campi da UESPI e
essa conta (“eu autorizo essa conta ou não fortalecendo o sindicato dos docentes com o
autorizo porque eu vou usar esse dinheiro
para outra secretaria”). Então, como
aumento do número de sócios.
administrar isso? [...] (RIBEIRO, 2016, p. 5). Nos anos seguintes, o sindicato permaneceu com
manifestações e paralisações contra a política do
O atrelamento da conta da UESPI à conta estado para a UESPI, sempre apresentando os
única do Estado é apresentado pela professora problemas e cobrando solução até que, em 2008,
Valéria Madeira M. Ribeiro como um dos grandes decretaram nova greve docente pelo aumento
problemas que a gestão enfrentou, questionando salarial e melhorias estruturais. Como resultado da
inclusive a autonomia administrativa do gestor da greve, as conquistas foram um bom reajuste salarial,
UESPI, que dependia da boa vontade do secretário concurso público e a consolidação do Plano de Cargos
da fazenda do estado para liberar recursos para a Carreira e Remuneração com aprovação de lei para
instituição honrar seus compromissos. Vale sua regulamentação .
7

6
Foram realizados concursos para docentes em 2008 com o oferecimento de 124 vagas e em 2011 com a oferta de 240 vagas. Número
bem abaixo do solicitado pelo sindicato. Muitos desses docentes aprovados em concursos só foram chamados a partir de muita luta do
sindicato.
7
Aprovação da Lei Complementar nº 124 de 1º de julho de 2009 que altera a Lei Complementar nº61 de 20 de dezembro de 2005, que
dispõe sobre o Plano de Cargos, Carreira e Remuneração do Magistério Superior da UESPI.

91
Dossiê UESPI 30 Anos

Em 2009, as conquistas foram-se concreti- estudantes e regularização no pagamento das


zando, aconteceu a reformulação do Regimento mesmas, melhorias das salas de aulas, laboratórios e
Interno da UESPI e foi realizada a segunda eleição acervo da biblioteca. Além disso, estendeu-se por
para reitor da instituição, sendo eleitos: Carlos mais alguns anos com suas pautas de reivindicação.
Alberto Pereira da Silva8 e, como vice-reitor, Nouga Em 2011 e 2012, o sindicato empreendeu novas
Cardoso Batista. A eleição para reitor foi uma greves e as pautas do “Movimento S.O. S UESPI”
conquista no sentido da implantação de sistemas passaram a compor os debates. Na greve de 2012,
democráticos de escolha, sendo seguida por eleições além de reajuste salarial, os docentes passaram a
para diretores e coordenadores de cursos, exigir melhorias estruturais para todos os Campi e
implantação de Conselhos de Campus e de Centros núcleos da UESPI e política de apoio estudantil.
para debaterem e decidirem sobre os problemas de
Como resultado, houve um aumento das bolsas para
cada unidade universitária. Esse processo ainda
estudantes e implantação do auxílio alimentação.
está em fase de consolidação, a participação nos
conselhos superiores da instituição ainda está Em 2013, acontece nova eleição para reitor
muito limitada e concentrada no Campus Sede da sendo escolhidos: Nouga Cardoso Batista como
administração e estes conselhos, na sua grande reitor e como vice Bárbara Olímpia Ramos de Melo. A
maioria, são formados pela equipe do reitor através falta de estrutura da instituição é um dos principais
dos pró-reitores. Assim, a participação do problemas enfrentados por docentes e pela gestão
representante dos estudantes e do sindicato é superior; isso por que a universidade não tem
limitada. Este último só tem acento no Conselho autonomia financeira, ocasionando dificuldades
9
Universitário - CONSUN . para administrar esses recursos que são destinados à
O ano de 2010 foi marcado por uma série de instituição pelo governo do Estado. Os mesmos
manifestações e protestos contra a realidade nunca são suficientes para bancar a grande estrutura
estrutural da UESPI. Foi um ano de muita luta da universidade espalhada por todo o estado do
conduzida por docentes e discentes através do Piauí. Todas as gestões tiveram que enfrentar greve
“Movimento S.O.S UESPI”. Esse movimento fez um dos docentes e sempre foram pautadas em progresso
apanhado da realidade estrutural de cada unidade salarial e estrutural.
universitária e passou a cobrar do governo do As melhorias estruturais foram acontecendo
Estado e reitoria da UESPI que essa realidade fosse aos poucos, mas no quesito melhoria salarial os
revertida. Houve o caso grave dos estudantes de professores têm perdido muito porque o governo do
Picos que não tinham sede para funcionamento da estado não tem cumprido com os reajustes que a
universidade e eram distribuídos em escolas da rede categoria tem direito a cada ano. As greves docentes
estadual de ensino. Dessa luta, conquistaram a continuam acontecendo, agora lutando para não
construção do Campus de Picos que estava com as
perderem direitos anteriormente adquiridos. No dia
obras paradas. Esse prédio foi a primeira
18 de abril de 2016, as categorias de docentes e
construção projetada para ser Campus universitá-
técnicos decretaram greve por tempo indeterminado
rio, pois todos os outros tinham sidos adaptados
contra a Lei estadual nº 6.772, extinguindo o Plano
para ser universidade, daí o surgimento dos
de Cargos, Carreira e Salários (PCCs) da maioria dos
problemas estruturais. Esse movimento por ter
servidores estaduais. De acordo com essa Lei, ficava
grande adesão de discentes, pautou os principais
engessada a progressão funcional dos servidores,
problemas enfrentados por eles: necessidade de
além de congelar salários. A greve foi tão forte (durou
restaurante universitário, aumento das bolsas para

8
Professor do Curso de Física do Campus Poeta Torquato Neto, participava da administração superior desde a gestão de Oneide
Rocha em 2003, assumindo cargos de Pró-reitor, diretor de Campus e vice-reitor.
9
Ver conselhos superiores em UESPI, 2016.

92
Dossiê UESPI 30 Anos

66 dias), teve grande apoio dos estudantes de todos lutas e o posicionamento dos professores nos
os campi da IES, como resultado: conquistaram a movimentos.
retirada da UESPI dos efeitos da Lei, a regularização
Iniciamos com os depoimentos de dois
das bolsas estudantis e ampliação do número de
docentes sindicalistas que estiveram à frente da
bolsas, implantação das promoções, progressões e
ADCESP: Daniel Vasconcelos Solon10 e Nouga Crdo-
mudança de regime dos docentes, mas a categoria 11
so Batista . Trata-se de presidentes da entidade que
não conquistou o reajuste salarial.
acompanharam de perto as transformações ocorri-
Hoje, além da questão financeira da univer- das na universidade tanto em nível estrutural como
sidade, os docentes têm que enfrentar uma carga em qualificação e valorização dos docentes. Seus
horária de trabalho excessiva, dificultando o depoimentos são marcados pelas greves vivenciadas
desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da no período de 2003 a 2012 e pela experiência de vida
extensão: grande tripé de funcionamento da de cada um no interior da universidade. Também
universidade pública. Tem-se consolidado na
destacamos depoimentos de gestores da UESPI e da
instituição a visão do valor do trabalho docente
ADCESP.
baseado na produção. Neste caso, o docente é
avaliado pela quantidade de produção ao longo do A partir dos depoimentos, analisamos a
ano, ao tempo em que é desafiado a se integrar aos história da instituição, apresentando os principais
programas que estão implantados na universidade problemas enfrentados pelos docentes no cotidiano
como Educação a Distância- EAD (implantado em da academia e as melhorias conquistadas ao longo
2009), Plano Nacional de Formação de Professores das lutas sindicais, ao tempo em que buscamos
da Educação Básica – PARFOR (implantado em compreender a relação da memória individual com a
2010), Programa Institucional de Bolsa de Iniciação memória coletiva como explica Halbwachs (2003).
à Docência PIBID e tantos outros que dividem os Um dos principais problemas enfrentados pelos
professores em busca de complementação de docentes era a realidade estrutural da instituição,
salários através das bolsas. Isso cria muitas vezes marcada pelo improviso e precariedade no
uma casta de professores (dirigentes e coordenado- funcionamento da mesma. Vejamos o relato do
res desses programas) que se sentem diferentes professor Nouga C. Batista sobre esse problema
daqueles que atuam só no ensino na graduação, estrutural:
dificultando o sentimento de pertencimento de
classe, de redes de solidariedade e a própria luta dos [...] quando eu cheguei aqui na UESPI, a
docentes. universidade lá em Bom Jesus era um
mercado, aliás, um prédio que foi construído
para ser um mercado, mas aí parece que as
2. OS DOCENTES E A ADCESP: VIVÊNCIAS pessoas não gostavam daquele lugar e deram
DAS GREVES outro aproveitamento nele: “Bota a UESPI”.
Aí botaram a UESPI lá dentro. A UESPI não
tem nenhum prédio que tenha sido concebido
Nesta seção, apresentamos as vivências desde as suas bases para ser universidade. O
docentes a partir de depoimentos, construindo um que está sendo construído agora em Picos,
quando concluir, vai ser o primeiro prédio que
relato das vivências de greves na UESPI, ao longo do foi concebido desde o início para ser
período em estudo. Mostramos ainda as transfor- universidade. Então, são todos colégios
mações pelas quais a universidade passou após as antigos, hotéis da rede Rimo, essas coisas,

10
Daniel Vasconcelos Solon, Professor Assistente do Curso de Comunicação Social da Universidade Estadual do Piauí-UESPI/
Campus Poeta Torquato Neto; Foi presidente da ADCESP no período: 2007-2009 e 20132015.
11
Nouga Cardoso Batista, Professor Adjunto do Curso de Física da Universidade Estadual do Piauí-UESPI/ Campus Poeta Torquato
Neto; Foi presidente da ADCESP no período de 2005-2007. Vice-reitor da UESPI (2010-2013). Atual reitor da Universidade
Estadual do Piauí (2014-2017).

93
Dossiê UESPI 30 Anos

do mercado como esse caso aí de Bom Jesus. Também não havia uma aplicação regular da
Mas se você chegar hoje em Bom Jesus todas
política de progressão funcional dos docentes,
as salas de aula são climatizadas com Split, lá
a gente tem uma biblioteca, lá você tem piorando a situação salarial. É o que depreendemos
quatro aparelhos de Datashow. Certamente, dos relatos dos professores.
ao final de uma greve, as pessoas não
visualizaram isso, mas com o passar do tempo
esse mobiliário foi sendo incorporado Entrei aqui como especialista. E o salário era
(BATISTA, 2013, p. 29). vergonhoso, quase que um salário mínimo, o
salário do professor especialista 20h. Essa
própria realidade concreta salarial acabou me
Certamente, esses arranjos foram adotados ajudando também a me interessar mais pelo
durante a criação de muitos campi no interior e na movimento sindical. Embora a minha vivência
enquanto ativista do movimento sindical
capital. Pelo depoimento de Batista (2013), viesse de bem antes (SOLON, 2013, p. 2).
percebemos uma preocupação em apontar as
melhorias pelas quais os campi vêm passando. O Batista reforça a situação da dificuldade de
seu relato destaca as conquistas como resultados progressão docente:
das greves talvez para reforçar a sua vivência como
sindicalista e ex-diretor da ADCESP, mas devemos [...]. Eu fiz um concurso cujo edital previa o
atentar para o fato de Batista, à época do salário para professor que entrava graduado,
depoimento, ser vice-reitor e candidato a reitor na professor que entrava com mestrado,
professor que entrava com o doutorado,
eleição de novembro de 2013, o que pode justificar inclusive, também o salário por regime de
essa preocupação em apresentar uma imagem trabalho, 20h, 40h e dedicação exclusiva. Fiz o
positiva da instituição. concurso, imaginando que seria contratado
como adjunto I, por ser doutor, e com o regime
Ainda sobre a realidade estrutural dos de dedicação exclusiva. Depois que eu entrei
foi que me fizeram mostrar que, embora
Campi, o depoimento do professor Carlos Alberto naquele edital tivesse uma tabela salarial de
Pereira da Silva, ex-reitor da UESPI, é bem professor adjunto, na verdade o concurso era
ilustrativo, provando como se ocorria a abertura de para professor assistente e que a dedicação
exclusiva você solicitaria. Depois é que, dentro
campus e como os membros da administração da conveniência da universidade na aprovação
superior viam tal processo, como de grande desafio. dos conselhos, é que ela ia ser efetivada ou não,
de forma que eu entrei no ano de 2003 e tive
que esperar um ano e meio para poder passar
Eu fui o primeiro diretor do Campus Clóvis para categoria de adjunto, mas para poder
Moura. Fui convidado a assumir a direção implantar no meu contracheque a gratificação
daquela unidade porque ninguém queria em referente a uma pessoa que tinha o título de
2001. Assumi em uma sexta-feira para iniciar doutorado. Então, eu era professor assistente I
as aulas em uma segunda. Não tinha nada, com gratificação. Na época, nós tínhamos a
tivemos que reunir quatrocentos e cinquenta gratificação de titulação, com gratificação de
alunos no pátio para dizer a eles que não dava doutorado e dei entrada no processo de
para começar as aulas naquele momento, solicitação de dedicação exclusiva e somente
porque não tínhamos nem mesmo professor dois anos depois é que ela foi concedida[...]
(risos). Mas como eu gosto de desafios, (BATISTA, 2013, p. 5).
assumi, botei para funcionar e hoje aquilo é
uma realidade e está no cenário nacional, tem
cursos bem avaliados nacionalmente[...] Apresentamos os depoimentos seguidos para
(SILVA, 2016, p. 2). que possamos compreender os pontos que são
destacados nos relatos. Solon (2013) destaca que os
Percebemos pelo depoimento que as melho- salários eram baixíssimos, o que o motivou a se
rias que o Campus tem atualmente são reforçadas organizar no sindicato para a luta, reforçando assim
para minimizar os problemas encontrados na época sua vivência sindical e crítica à política salarial do
de sua fundação. Outro problema destacado, no governo para os docentes da UESPI. Já Batista
depoimento dos professores, era a situação salarial (2013), embora coloque a dificuldade em assumir o
e de condições de trabalho que eram precárias. cargo como doutor- Dedicação Exclusiva, não

94
Dossiê UESPI 30 Anos

destaca a importância salarial e sim a política das suas demandas. Entretanto, não podemos
organizacional e de valorização do docente da IES. esquecer o caráter classista do Estado (GRAMISC,
Essa ainda tem sido a realidade de muitos 2012), pois a relação com o movimento sindical se dá
professores da UESPI, uma vez que conquistar a com base nesse caráter. Por isso, na maioria das
Dedicação Exclusiva na instituição é um processo vezes, a ação do movimento sindical é tratada de
burocrático e difícil, depende das finanças do forma criminosa. Outra questão interessante é
governo do Estado e não é uma decisão puramente observar o que os sujeitos vêm destacando dentro do
dos Conselhos Superiores da IES. Situação contexto de luta docente na universidade, como vão
agravada em 2016, quando vários professores construindo a memória dos eventos. As conquistas
deram entrada em suas mudanças de nível, de são atribuídas às lutas docentes e não como política
classe e de regime de trabalho e, embora os do estado.
Conselhos superiores e reitor tenham aprovado Halbwachs (2003), em seu estudo sobre a
essas solicitações e o reitor emitido portaria, as memória nos anos 1920-1930, alertou que, embora a
mesmas não foram autorizadas pelo governo do memória individual pareça algo próprio da pessoa,
estado, nem implantadas na folha de pagamentos. de seu foro íntimo, ela faz parte da memória coletiva e
Até o momento ainda existe professores que não nela se apoia. À medida que o indivíduo está inserido
foram contemplados em suas solicitações de em um determinado grupo, comunga e é persuadido
progressão funcional. pelos seus membros em torno de uma memória
O fato motivou a greve dos docentes e comum.
técnicos em 2016. Os dados da IES de 2016 De acordo com o autor, os fatos mais fáceis de
apontam para uma melhoria significativa no quadro serem lembrados são aqueles de domínio comum do
docente, por exemplo: dos 872 professores efetivos, grupo. Portanto, a relação estreita e afetiva com o
257 são doutores; 575 são mestres e 518 especialis- grupo possibilita com facilidade a reativação da
tas. Ainda não é o ideal, mas com a qualificação do memória coletiva e individual, mas existe um
quadro docente já foi possível implantar dois processo de “negociação” para conciliar as duas e elas
Mestrados. A questão salarial e condições de só conseguem se apoiar quando os membros do
trabalho dos docentes tem sido um dos principais grupo ainda comungam de uma base comum.
problemas que retornam como bandeiras de luta Halbwachs concebe a memória como uma produção
das várias greves que foram encabeçadas pela social na medida em que ela é construída coletiva-
ADCESP ao longo dos anos. Mas, na greve de 2008, mente e submetida a flutuações e transformações a
tiveram grandes conquistas nessa pauta salarial. É o partir de uma vivência na sociedade limitada
que destaca Daniel Solon. estritamente no espaço e no tempo. Pelos relatos,
percebemos que a questão salarial e estrutural da
[ ...] . E e s s a s g r e ve s t i ve r a m g a n h o s
universidade era um anseio comum do grupo. Por
importantíssimos para nossa universidade. O
número de professores substitutos diminuiu isso, ela aparece com mais frequência no depoimento
bastante, portanto o número de concursos dos dois sujeitos. Ambos construíram e vivenciaram
para professores efetivos deu um salto nesse
período, a questão salarial dos professores as greves relatadas como sujeitos ativos do processo,
também deu uma melhorada, principalmen- permitindo que a memória ainda esteja viva.
te, entre os mestres e doutores que eram Entretanto, os dois depoentes ocupam lugares
dedicação exclusiva e passaram a ganhar
mais que professores da USP, inclusive, era opostos na instituição: Solon continua líder sindical e
motivo de brincadeira dentro dos congressos Batista é membro da administração superior, atual
do ANDES nacional [...] (SOLON, 2016, p. 4). reitor e continua filiado à ADCESP.
Com a chegada de novos professores através
Percebemos que o movimento sindical vê o
dos concursos públicos, a Associação Docente foi-se
Estado como o ente responsável por resolver os
fortalecendo e passando a exigir melhorias esrutu-
problemas educacionais e, para ele, são direciona-

95
Dossiê UESPI 30 Anos

rais para a UESPI através de greves, embora nem capacitava na construção das estratégias de
sempre os professores abraçassem o movimento mobilização para a greve. Mattos (2009a, p. 27) parte
paredista. É o que depreendemos do relato de de uma análise da relação da classe trabalhadora com
Batista, quando destaca a participação dos o capital como época de grandes derrotas que se
professores nas assembleias da categoria: “Sempre acentuou no Brasil na década de 1990, sintetizada
era forte assim, a gente contava com a presença dos numa maior precarização das relações de trabalho,
professores na assembleia aqui dentro da aumento das taxas de desemprego, agravamento das
universidade, do campus, mas a manifestação fora a condições de existência, tendo como consequência:
gente contava com os alunos [...]” (BATISTA, 2013, “Do ponto de vista da subjetividade coletiva [...] o
p.12). recuo do sentimento de pertencimento a um coletivo
Essa é uma constante quando se fala em social [...] e da identificação com os projetos de
greve de docentes, sempre se questiona a transformação social orientados por uma perspectiva
quantidade ínfima de professores nas mobilizações de classe trabalhadora [...]” (MATOS, 2009, p. 17).
e manifestações de rua. Nessa situação, é possível Fragmentação está tanto nas relações de trabalho
identificar quem são os companheiros da luta, uma como no nível da consciência de classe.
vez que a greve questiona a postura de cada um no O relato de Batista é sintomático sobre esse
decorrer do movimento, sua relação com a recuo do sentimento de pertencimento a uma classe
associação sindical, seu grau de engajamento, enfim ao analisar as conquistas que os professores tiveram
“a greve reenvia os professores ao seu posiciona- a partir das greves. Ele destaca a valorização do
mento identitário na sociedade, [...].” (ROBERT, vencimento de quem tem titulação, mas reforça que o
2013, p. 2). Acreditamos que muitos não professor também pode conquistar isso sozinho.
frequentavam as atividades da greve porque tinham Vejamos:
outro emprego; porque sentiam vergonha da
situação salarial que tinham, uma vez que na greve [...] Aqui na Universidade Estadual do Piauí,
esses problemas são escancarados para toda a você tem a questão da remuneração como um
incentivo a uma política de qualificação. O
sociedade ou por não gostar de participar de professor sabe que todo ano vai receber um
movimentos políticos. aumento salarial, que poderá ser grande,
razoável, pequeno, vai depender do poder de
A greve passou a ser o único instrumento do mobilização daquele ano, mas o professor
sindicato para conseguir o atendimento de suas também sabe que ele pode lhe conceder um
aumento de 30% saindo para fazer o mestrado.
pautas, muitas vezes a greve era decretada para O professor mestre pode conceder um
forçar o governo a abrir um canal de negociação. aumento de 50% saindo para o doutorado.
“[...]. Na medida em que o governo não apontava Então, isso depende. Hoje, parece que ter um
salário razoável depende muito mais de você
nenhuma abertura de negociação, a gente já fazia próprio do que de quem está lá no lado do
crescer mais ainda a mobilização. E a gente sabia Karnak. Isso só é possível porque nós tivemos
que era o instrumento que a gente tinha [...]” uma conquista de plano de carreira que
permite que a gente enxergue essa
(SOLON, 2013, p. 7). possibilidade de crescimento no vencimento
com base na titulação, que gera outro ganho: a
Dificilmente, as greves apresentam apenas gente saber que somente os professores
um significado. Elas são formas de ação do sindicato titulados têm realmente a condição de
no sentido de reagir à política salarial do governo, concorrer aos editais de fomento à pesquisa
que, por consequência, trará o recurso
mas servem também para apresentar novas necessário para instrumentalizar melhor o seu
lideranças sindicais e as condições de trabalho da curso de graduação, o seu ambiente de
categoria. É o caso, por exemplo, de Solon. Este, trabalho, a sua sala, o seu laboratório. Então,
quer dizer, se nós não tivéssemos um plano de
além da vivência sindical e política, era formado em carreira e um plano de carreira que a gente
Comunicação Social e já havia trabalhado como verificasse claramente a valorização salarial
dentro da categoria, as pessoas não tinham
jornalista em alguns jornais em Teresina, o que o nenhum estímulo a se qualificar e ninguém

96
Dossiê UESPI 30 Anos

nunca ia conseguir concorrer a editais O momento é de reflexão e de fortalecimento dos


porque nós não teríamos a qualificação.
laços de solidariedade e do despertar para uma
Então, a conquista do nosso plano de
carreira com a introdução desses elementos, consciência de classe.
eu considero também que foi uma grande
conquista da ADCESP nesses anos Outra questão interessante que queremos
(BATISTA, 2013, p. 28). destacar é sobre as mudanças pelas quais a
universidade passou e a quem os docentes creditam
É salutar que a memória individual em tais mudanças. As principais mudanças apontadas
relação ao grupo seja construída a partir do papel foram conquista do PCCs, eleições diretas para
que o indivíduo ocupa naquele determinado grupo. escolha de gestores, concursos públicos para
Se ele ocupou postos de comando, a sua memória docentes, melhorias estruturais, Regimento interno
vai prezar por defender a memória coletiva que deve e Estatuto da instituição, conquistas de reajustes
ser consolidada em relação ao grupo, reforçando salariais e de ampliação e regularização de bolsas
assim a coesão social do mesmo. Se tivermos uma para estudantes, auxílio alimentação. Na análise dos
participação mais distante, a tendência é o depoimentos, percebemos que todos os sujeitos
esquecimento e certo distanciamento da memória conseguem apontar melhorias para a instituição e
coletiva construída e preservada no grupo. A para os docentes.
memória de Nouga C. Batista demonstra ainda que A memória dos mesmos destacou pontos
ele teve uma boa participação no grupo ao valorizar comuns, provando que os principais problemas da
as melhorias como a conquista do Plano de Cargos instituição era sentido por todos, ADCESP e
Carreira e Salários - PCCs; resultado da luta da administração superior, com uma diferença básica,
ADCESP. Entretanto, no seu depoimento, os docentes militantes sindical atribuem as
percebemos ainda a nova cultura institucional conquistas como resultado da luta enquanto os
destacada por MANCEBO (2011), a do docente administradores, a uma política de gestão, o que
produtivo, competitivo e empreendedor, aquele aponta para uma disputa de memórias como definido
que, através de sua titulação, vai captar recursos por Michel Pollak (1992).
através dos órgãos de fomentos para desenvolver
suas pesquisas e criar melhores condições de REFERÊNCIAS E FONTES
trabalho para ele e melhorias para o seu curso ao
mesmo tempo em que capta recursos para a BATISTA, Nouga Cardoso. Nouga Cardoso
universidade. E a luta conjunta? E as obrigações do Batista: depoimento [2013]. Entrevistadora:
estado com a universidade? Essas questões ficam Rosângela Assunção. Teresina, 2013. 1 gravador
camufladas na luta diária pelos editais e para digital. Entrevista concedida Rosângela Assunção.
concluir as metas de pesquisas. E a docência? Esta
fica a cargo daqueles que ainda estão nas titulações ________. Depoimento [2016]. Entrevistadora:
mais baixas. Essas são algumas questões que já Rosângela Assunção. Teresina, 2016. 1 gravador
digital. Entrevista concedida a Rosângela Assunção.
atingem as universidades federais e aos poucos vão
tomando de conta dos professores-pesquisadores GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere,
das estaduais. volume 3. Edição e tradução Carlos Nelson Coutinho.
Em 2016, esse plano de carreira esteve Coedição, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio
ameaçado pelo governo do estado. Como resultado Nogueira. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
os professores se uniram à ADCESP, construindo Brasileira, 2012.
uma das maiores greves da categoria e provaram
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva.
que o individualismo não é o melhor caminho para
Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro,
se trilhar se quiserem construir uma universidade
2003.
forte e respeitada e ter os direitos garantidos em lei.

97
Dossiê UESPI 30 Anos

MANCEBO, Deise. Trabalho docente na UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ-UESPI.


educação superior: problematizando a luta. IN: Instituição/Reitoria/Conselhos Superiores.
http://nupet.iesp.uerj.br/arquivos/cap42011.pdf. Disponível em: http://www.uespi.br/site/?page_id
Acesso em 26/06/2013. 25580. Acesso em 26 de ago de 2016.
MATOS, Marcelo Badaró. Reorganizando em
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ-UESPI.
meio ao refluxo: ensaios de intervenção sobre a
Instituição/Histórico. Disponível em: http://ww
classe trabalhadora no Brasil atual. Rio de Janeiro:
Vício de Leitura, 2009. w.uespi.br/site/?page_id=25578. Acesso em 26 de
ago. 2016.
POLLAK, Michel. Memória, esquecimento,
silêncio. Tradução de Dora Rocha Flaksman. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ-UESPI.
Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. UESPI em números. Disponível em: http://www-
3-15, 1989. Disponível em: < http://www.uel.br .uespi.br/site/wpcontent/themes/uespi/uespi_em
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io.pdf>. Acesso em: 12 dez. 2015.

RIBEIRO, Valéria Madeira Martins. Valéria


Madeira Martins Ribeiro: depoimento[2016].
Entrevista concedida; Rosângela Assunção.
Teresina, 2016.1 gravador digital. Entrevista
concedida a Rosângela Assunção.

ROBERT, André. Sobre alguns instrumentos


teóricos para pensar “a greve docente”. IN:
http://nupet.iesp.uerj.br/arquivos/Robert2013.pd
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SILVA, Carlos Alberto Pereira da. Carlos Alberto


Pereira da Silva: depoimento[2016]. Entrevista
concedida; Rosângela Assunção. Teresina, 2016.1
gravador digital. Entrevista concedida a Rosângela
Assunção.

SOLON, Daniel Vasconcelos. Daniel Vasconce-


los Solon: depoimento [2013]. Entrevistadora:
Rosângela Assunção. Teresina, 2013. 1 gravador
digital. Entrevista concedida a Rosângela Assunção.

SOLON, Daniel Vasconcelos. Daniel Vasconce-


los Solon: depoimento [2016]. Entrevistadora:
Rosângela Assunção. Teresina, 2016. 1 gravador
digital. Entrevista concedida a Rosângela Assunção.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ-UESPI.


Campi/Núcleos. Disponível em: http://www.uesp.
br/site/wpcontent/themes/uespi/nucleo_campi.htm
l.Acesso em 26 de ago. de 2016.

98
Dossiê UESPI 30 Anos

A CAPOEIRA COMO PRÁXIS PEDAGÓGICA: as experiências do


Projeto Capoeira da UESPI em Teresina-PI

CAPOEIRA AS EDUCATIONAL PRAXIS: the experiências of the Capoeira UESPI


Project in Teresina-PI

1
Robson Carlos da SILVA

1
Pedagogo (UFPI), Mestre Em Educação (UFPI), Doutor em Educação (UFC), com Pós-Doutoramento em História e
Memória da Educação pelo PPGE da Universidade Federal da Paraíba/UFPB; Professor Adjunto II da UESPI; Diretor
do CCECA. Coordenador do Grupo de Pesquisa em História Cultural, Sociedades e História da Educação Brasileira
(NUPHEB)/CCECA/UESPI. Orienta projetos de pesquisa pelo PIBIC/CNPq e coordena projetos de pesquisa na UESPI
com bolsa de fomento do CNPq. E-mail: robsonuespi64@gmail.com.

RESUMO

O Projeto de Extensão Universitária Capoeira na UESPI foi concebido com o objetivo principal de oportunizar a
aprendizagem vivencial-operativa da Capoeira em todas as suas dimensões e de suas múltiplas abrangências
nas áreas com as quais apresenta interfaces, deixando evidente o caráter de práxis pedagógica, revelando de
forma explícita a intencionalidade e a sistematização do processo de ensino e aprendizagem da Capoeira. O
trabalho procura analisar, de forma sucinta, alguns aspectos referentes à história e desenvolvimento da
Capoeira enquanto práxis pedagógica, questões relevantes de justificativa para a necessária implantação do
projeto e introduzir aspectos substanciais da natureza, metodologia, atividades realizadas e aspectos da
avaliação do projeto.

Palavras-Chave: Capoeira. Práxis Pedagógica. Extensão Universitária.

ABSTRACT

The University Capoeira Extension Project in UESPI, is designed with the main objective to create
opportunities experiential-operative learning of Capoeira in all its dimensions and its multiple scopes in areas
with which presents interfaces, making it clear the character of pedagogical praxis, revealing explicitly
intentionality and systematization of the teaching and learning process of capoeira. The work seeks to examine,
briefly, some aspects of the history and development of Capoeira as pedagogical praxis, relevant issues of
justification for the necessary implementation of the project and to introduce substantial aspects of nature,
methodology, activities undertaken and aspects of the project.

Keywords: Capoeira. Pedagogical Praxis. University Extension.

99
Dossiê UESPI 30 Anos

1. INTRODUÇÃO substanciais da natureza, metodologia, atividades


realizadas e aspectos da avaliação do projeto.
A Capoeira, recentemente institucionaliza-
da em patrimônio cultural imaterial brasileiro,
constitui-se numa prática que consegue congregar 2. UM OLHAR HISTÓRICO E CONCEITUAL A
pessoas das mais diversas origens, condições sociais RESPEITO DA CAPOEIRA
e econômicas, valores, idade e sexo, se efetivando,
notadamente no espaço da “roda de Capoeira”, em
A Capoeira constitui-se em uma simbiose de
locus significativamente democrático e identitário,
diversas manifestações, envolvendo em uma única
por permitir uma releitura crítica da formação
prática arte, dança, luta, música, canto, poesia,
histórico-cultural de nosso povo, além da prática
teatralidade (VASCONCELOS, 2006), história,
livre e diversa por parte dos admiradores.
dentre outros aspectos, numa mistura de expressões
Assim sendo, buscando ampliar as possibili- e gestos que formam uma espécie de jogo, de disputa
dades pedagógicas da prática da Capoeira, o Projeto marcada pela malícia, agilidade, velocidade e força
Escola Cultural da Arte Capoeira, institucionalizado cinegética dos contendores.
enquanto Projeto de Extensão Universitária da Pró-
reitoria de Extensão, Assuntos Estudantis e Comu- A partir de uma leitura de Silva (2002), pode
ários (PREX/UESPI), sob coordenação da Divisão ser entendida enquanto uma cultura, ou artefato
de Programas Socioculturais, foi concebido e está cultural, utilizada historicamente como instrumento
sendo executado com o objetivo principal de de resistência do povo negro africano, escravizado no
oportunizar a aprendizagem vivencial-operativa da Brasil, contra a política de opressão implementada
Capoeira em todas as suas dimensões e de suas pelos senhores de engenho.
múltiplas abrangências nas áreas com as quais Sua origem é controversa e se desdobra em
apresenta interfaces, deixando evidente o caráter de várias interpretações. Silva (2010) destaca que
práxis pedagógica, notadamente pelo fato de, ao alguns estudiosos e praticantes defendem que se
ocupar o contexto de instituições de ensino trata de uma cultura africana, aqui trazida pelos
sistematizado, passar a assimilar determinados primeiros negros escravizados como mão-de-obra
valores, ideais e códigos que diferem dos códigos escrava, em sua maioria da etnia Bantu, da região de
que foram se constituindo no processo de sua Angola. Autores, tais como Falcão (2006, p. 55),
origem e desenvolvimento, revelando de forma
afirmam que “A capoeira é uma manifestação da
explícita a intencionalidade e a sistematização do
cultura afro-brasileira que durante muitos anos foi
processo de ensino e aprendizagem da Capoeira.
condenada e proibida pelo poder constituído”.
A criação de um locus para a prática e
Por outro lado, existem aqueles que defen-
estudos sobre a Capoeira na UESPI, na Oficina de
dem sua origem brasileira, sendo aqui desenvolvida
Artes, no Campus Torquato Neto/Pirajá, centrou
pelo povo negro africano escravizado, enquanto
seu foco no desenvolvimento de habilidades e
instrumento de defesa e resistência contra o estado
capacidades físicas próprias dessa arte, bem como a
opressivo imposto a estes. Nasceu e se desenvolveu a
apreensão de conhecimentos teóricos da cultura
partir da necessidade e da ânsia por libertação,
brasileira em geral.
originando-se de uma fusão de culturas africanas, de
O presente texto traz um relato de experiên- aspectos ritualísticos, gestuais e musicais da cultura
cia que procura analisar, de forma sucinta, alguns
deste povo, se constituindo em uma cultura única,
aspectos referentes à história e desenvolvimento da
com aspectos característicos bem diversos das
Capoeira enquanto praxis pedagógica, questões
possíveis manifestações que lhe deram origem
relevantes de justificativa para a necessária implan-
(CARVALHO, 2007; SILVA, 2010).
tação do projeto, além de apresentar aspectos

100
Dossiê UESPI 30 Anos

No entanto, ao largo das discordâncias conhecimentos, por meio do desenvolvimento das


sobre sua origem, um aspecto é comum a todos as pesquisas que germinarão as teorias que procuram
pesquisas e estudos: seu desenvolvimento se deu explicar a realidade e tornar o nosso olhar e
nas ruas, nos espaços livres existentes nas percepção sobre esta realidade mais claro e consci-
localidades rurais do Brasil Colônia, assim como ente.
nas ruas dos centros urbanos da época do Império Entendendo que a Capoeira pode ser aborda-
(SOARES, 2002), nasceu no meio do povo, se da enquanto cultura de significativa relevên-cia
originou e se constituiu enquanto cultura “popular” sociopolítica nos contextos educacionais, passa-se da
carregada de aspectos identitários significativos do compreensão de que sua prática deve se restringir ao
sentimento de brasilidade, ou seja, foi a partir do treino de seus movimentos gestuais específicos e de
Brasil, por meio de nossos Mestres e Professores, aperfeiçoamento técnico destes gestos, à sua
que a Capoeira ganhou o mundo, permeada por compreensão enquanto práxis pedagógica, ou seja,
nosso modo de ser, nossa linguagem, processos prática com objetivos emancipatórios, de conscien-
gestuais, nossos códigos mais identitários, sendo, tização a respeito do processo de libertação das
portanto, praticada, admirada e reverenciada opressões impostas ao povo negro e sua cultura em
enquanto cultura brasileira. terras brasileiras, clareza de suas potencialidades en-
quanto prática que salvaguarda aspectos simbólicos,
3. A CAPOEIRA ENQUANTO PRÁXIS rituais, históricos e sociais de nossa identidade
PEDAGÓGICA cultural.
A compreensão que permeia nossas reflexões
Quem melhor aborda a questão da Capoeira recai sobre o embate entre as possibilidades da
enquanto praxis pedagógica são Falcão (2006) e Capoeira enquanto prática cultural de educação não
Silva (2010), ao defenderem a ideia de que a escola é 2
formal , que educa para a liberdade de expressão seja
um local ou campo de intervenção educacional gestual (movimentos) e/ou oral (musicalidade),
intencional, sendo que no momento em que adentra enfatizando formas diversas e reelaboradas de se
os espaços de educação institucional necessita considerar a história social brasileira, por meio da
questionar e buscar uma compreensão crítica e luta e do uso de estratégias de resistências contra a
emancipatória do significado real do como ensinar opressão imputada ao povo (em especial o negro no
essa arte, quais os conteúdos que devem ser Brasil), e as tentativas de institucionalização dessa
privilegiados, qual o papel do professor e como cultura, por meio da conformação, do controle e da
avaliar o processo de ensino-aprendizagem domesticação, remetendo a ideia de produção de
efetivado na escola. corpos submissos e dóceis enfatizada por Foucault
Podemos ampliar este entendimento para (2005).
os espaços universitários, também locais de Foi centrado nessa concepção que o Projeto
intervenções educacionais formais, com maior de Extensão Universitária Escola da Arte Cultural
responsabilidade social por se tratar de centros de Capoeira se tornou uma realidade concreta na
formação para a vida profissional e da produção de UESPI.

2
A educação enquanto processo geral não se restringe e nem começa na escola. Antecede a educação escolar e continua além de seus
limites. Sobre isso, Sacristán e Gómez (2000) afirmam que a educação tomada em um sentido amplo cumpre a função de socialização e
humanização do homem, expressa na construção de artefatos materiais e culturais imprescindíveis para a sobrevivência da espécie e
dos grupos, artefatos estes que podemos denominar de produtos sociais, notadamente quando passam por um processo de aquisição
por parte das gerações futuras. A partir dessa concepção, reforçado por Wanderley (1984), entendemos a educação não formal como
aquela produzida pelas classes populares ou para as classes populares e centradas em seus interesses imediatos. Trata-se de uma
modalidade de educação que os grupos populares proporcionam a si próprios, com características diferentes da educação oficial e a
margem dos processos que se fundam exclusivamente a partir da relação do professor que ensina com os alunos que aprendem.

101
Dossiê UESPI 30 Anos

4. ESCOLA DE CAPOEIRA: EDUCAÇÃO soal e de consciência social de jovens estudantes da


FORJADA A PARTIR DA PEDAGOGIA E DOS UESPI, bem como de professores, funcionários e
ESTUDOS CULTURAIS pessoas da comunidade próxima, notadamente
jovens estudantes de escolas públicas, que não
A partir de nossos estudos no campo de dispõem de oportunidades de desenvolver suas
conhecimento dos Estudos Culturais (SILVA, 1998; habilidades e potencialidades, devido a necessidades
COSTA, 2001; HALL, 2005; NELSON, 1998; econômicas, sociais e culturais como também, no
SANTOMÉ, 1998), amparado por nossas caso de professores e funcionários, por falta de tempo
experiências práticas no exercício e na difusão da e espaço apropriados.
cultura, nos despertou para a forma como a
Foram estes aspectos que despontaram
Capoeira está sendo implementada enquanto
enquanto justificativas preponderantes para a crença
prática desportivo-cultural nos mais diversos
na significativa relevância do projeto para a
espaços acadêmicos no Brasil, como podemos
comunidade acadêmica e profissional da UESPI e da
identificar nos trabalhos de Freitas (1997), Falcão
comunidade do entorno social próximo, pela
(1996); Campos (1990, 2001), Barbieri (1993), bem
possibilidade de se criar espaços de prática de uma
como Silva (2010), que faz um apanhado do
atividade desportivo e cultural que envolve lazer,
processo de implantação e prática da Capoeira em
descontração, o desenvolvimento de qualidades e
diversos espaços educacionais institucionalizados.
habilidades físicas e cognitivas, história, musicali-
Assim sendo, provocou-nos o questiona- dade e poesia, assim como a organização e
mento sobre o porquê da não implantação da implantação de grupos de estudos e produção de
Capoeira enquanto disciplina prática, inicialmente trabalhos e pesquisas acadêmicas, atendendo aos
de forma optativa, no currículo da UESPI. Neste pilares da formação acadêmica: ensino, pesquisa e
sentido, nasceu a proposta de elaboração, execução extensão.
e implementação de um projeto de extensão
Após o processo de tramitação institucional
universitária de oferta da Capoeira para a
comunidade acadêmica da UESPI. Podemos que marcou a concepção, proposta, apresentação do
destacar, enquanto dado relevante da coerência da p ro j e t o , a n á l i s e c rí t i c a e p o s s i b i l i d a d e d e
execução deste projeto, uma experiência que viabilização, até sua aprovação para futura execução,
desenvolvemos em meados do ano de 1990, foi ofertado à comunidade pelo Edital PREX, nº
aproximadamente, no próprio espaço acadêmico da 004/2007, com 20 vagas para jovens entre 12 e 15
UESPI, em dias alternativos aos dias letivos, anos de idade, estudantes de escolas públicas de
experiência que durante um bom tempo iniciou Teresina, visando expressar um caráter social de
alunos e formou monitores e professores de atendimento, por meio da prática da Capoeira, a
Capoeira que atualmente desenvolvem trabalhos jovens com suposta carência na prática de atividades
relevantes em nossa cidade. lúdico-educativas.

Outro ponto importante é a oportunidade Inicialmente, mantendo o foco ressaltado, e


da oferta da prática de uma atividade cultural após vasta campanha de divulgação em diversas
brasileira, que engloba a prática gestual de escolas públicas próximas à UESPI, o projeto não
movimentos tipicamente brasileiros, o estudo de teve procura, notadamente pelo fato de que
aspectos históricos, sociais e antropológicos da significativa parcela de jovens estudantes das escolas
cultura brasileira, a formação de grupos de estudos públicas já praticarem a Capoeira, seja na própria
e aprofundamentos teóricos a respeito da cultura escola, seja em espaços próximos de suas residências,
brasileira, em especial da cultura negra e da cultura tais como, quadras em praças públicas, clubes
do povo, além da oportunidade de se trabalhar a sociais, sedes de associações de moradores, dentre
formação cognitiva, afetiva, de interação interpes- outros.

102
Dossiê UESPI 30 Anos

Assim sendo, o projeto teve sua proposta A respeito da pedagogia da Capoeira,


reformulada por meio de novo processo Vasconcelos (2009) nos ajuda a entender melhor a
encaminhado à PREX, cuja substância manteve os natureza e a cultura das escolas dessa arte, a partir de
aspectos característicos do projeto inicial, apenas uma leitura reflexiva sobre a escola de Besouro
com algumas alterações necessárias, sendo Cordão de Ouro, um dos mais afamados mestre da
cuidadosamente revisto e aceito por meio de novo Capoeira. Em seu entendimento:
trâmite acadêmico. O Edital PREX nº 004/2008
tornou a ofertar o projeto de prática na Capoeira na O ensino de capoeira constitui tema de
universidade, agora com 40 vagas, envolvendo grande validade para se pensar a prática e a
elaboração teórica desta arte do espetáculo. É
alunos da UESPI, professores e demais comum que escolas de capoeira estabeleçam
funcionários e pessoas da comunidade do entorno filiações entre discípulo e mestre: João
social. Pequeno de Pastinha, em Salvador; Ivan de
Ferreirinha, em Santo Amaro; Júlio Morais,
O processo de divulgação do projeto em Fortaleza. Isso ocorre quando se trata de
uma escola tradicional. No caso de Besouro, o
atendeu à seguinte planilha: inscrição dos seu discípulo mais importante foi, sem dúvida,
classificados de 22 a 28/04 de 2008 de 2008; Cobrinha Verde. Embora não incorpore o
homologação das inscrições de 30/04 de 2008; nome do mestre ao seu próprio nome,
Cobrinha Verde manteve-se fiel aos
seleção dos classificados de 05 a 07/05 de 2008; ensinamentos do mestre até a morte em 1983.
divulgação dos classificados dia 09/05 de 2008; e (VASCONCELOS, 2009, p. 55).
início das aulas dia 12/05 de 2008.
Nessa passagem, ficam claros alguns aspectos
O projeto teve seu início com o total de 23
pessoas inscritas, sendo 13 mulheres e 10 homens, importantes que podem ser destacados enquanto
demonstrando o caráter multidisciplinar, multicul- contribuições relevantes na educação de pessoas,
tural e socializante do projeto, apontando para um notadamente de crianças e jovens em formação
campo fértil para o fomento de pesquisas futuras, escolar. Em primeiro lugar, a questão da filiação
notadamente em questões próprias do campo de entre discípulo e mestre que é estabelecida nessas
conhecimento da cultura, gênero, juventude e escolas, o que demonstra uma forma natural e
movimentos sociais, currículo escolar, dentre consentida de autoridade, centrada no respeito e no
outros. reconhecimento das habilidades do mestre,
garantindo uma espécie de princípio que nada
Atendendo ao planejamento da pauta da
remete à ideia de hierarquização, inclusive, como
Oficina de Artes da UESPI, foram cedidos pela
veremos adiante, qualquer tipo de processo
Divisão de Programas Socioculturais da PREX os
hierárquico não se sustenta e, mesmo quando
horários de 18 às 22 horas, nos dias de segunda e
pretende se constituir, parece se dissolver facilmente
quarta-feira para funcionamento do projeto que, na
no momento do jogo, na dinâmica da Capoeira.
atualidade, já conta com mais de 60 alunos inscritos
e freqüentando regularmente às aulas, inclusive Outro aspecto diz respeito ao uso dos concei-
com a presença de alunos já iniciados que se tos de discípulo e mestre, remetendo à concepção de
agruparam ao projeto como forma de contribuir na mestre como pessoa detentora de excepcional saber,
difusão da Capoeira enquanto práxis pedagógica de habilidade, conhecimentos e competência em deter-
conscientização, na percepção da constituição de minada arte, artesão ou artífice, que comanda deter-
um campo novo e vasto para estudos e pesquisas no minado movimento cultural e se encarrega de formar
campo de conhecimento da cultura, bem como pela discípulos nessa mesma arte, sendo o discípulo
busca de espaços privilegiados de atualização e muito mais do que um mero aprendiz, mas um
aprimoramento de seus conhecimentos a respeito seguidor devotado e consciente da importância de dá
da prática da Capoeira. prosseguimento ao trabalho de seu mestre.

103
Dossiê UESPI 30 Anos

Essa concepção pode contribuir efetiva- tão do merecimento que, ao se confundir com as
efetivamente na formação de crianças e jovens habilidades demonstradas pelos discípulos,
capazes de guardar valores caros e essenciais para ressaltam a necessidade sempre presente dos
suas relações sociais, tais como respeito às pessoas e mestres em manter-se atualizados, demonstrando
aos ambientes; compreensão das reais possibilida- constantemente sua “vocação”, naquilo que na
des de aprendizado significativo a partir do realcio- Capoeira se conhece como uma nova experiência, ou
namento com pessoas mais experientes ou que seja, uma nova "malandragem" sempre pronta a se
vivenciaram experiências relevantes para seu cres- manifestar.
cimento intelectual, psicológico e afetivo; ideia de
mestre enquanto aquele que guarda segredos, Esse merecimento capaz de partilhar, dentre
carrega consigo as tradições mais ocultas e sabe o tantos saberes, os segredos da mandinga; dos
movimentos que, combinados, podem
momento certo de transmiti-las a seus discípulos. encontrar o tempo adequado para a defesa ou
ataque; os segredos da vida cotidiana: dobrar
Vasconcelos (2009) segue desvelando os uma esquina ou entrar pela porta de um bar.
processos pedagógicos das escolas de Capoeira e Esse mistério do saber não pode ter preço. Não
afirma: pode ser classificado como mercadoria. Não
representa simplesmente um domínio
corporal que mistura dança e luta. É tudo parte
[...] a tradição é revivida e transmitida de um jogo, mas, acima de tudo, uma vocação.
oralmente aos discípulos por um processo Um atributo quase divino fornecido por
pedagógico bastante complexo. [...]. No caso merecimento. Deve ser transferido de acordo
da capoeira transmudada em arte, tem-se a com a necessidade e capacidade de cada um.
configuração de um compromisso de sangue Não seria lícito cobrar por este saber. [...]
e, concomitantemente, um grande (VASCONCELOS, 2008, p. 59).
pacto/conflito de vontades alinhadas em
torno de uma pedagogia da malandragem se
estabelece. É que, pelo menos no caso da Acreditamos, assim, que a Capoeira pode
escola de Besouro, a capoeira é experimenta- adentrar a escola e outros espaços de educação
da, acima de tudo, como vocação. A capoeira
tornava-se um segredo que poderia ser
institucionalizados de forma sistemática, atrelada ao
compartilhado em determinados momentos currículo e trazer inúmeras contribuições para os
entre seus pares, a depender do grau de alunos em seu processo de escolarização, como por
merecimento e, principalmente, da habilida-
de ou vocação do aluno. [...]. Aqui estaria exemplo, possibilitar que tenham um contato com
propriamente um suporte para se entender a uma cultura, muitas vezes, presente em seu
necessidade tão forte e, ao mesmo tempo, tão
complexa de hierarquias entre os capoeiris- cotidiano, em sua vida diária, com um tratamento
tas. Contudo, essa hierarquia em determi- sistemático e fundado em valores a favor da
nados momentos de nada servirá. No transformação social, inclusive fomentando debates
momento do jogo da capoeiragem, as
posições hierárquicas parecem dissolver-se. e discussões a partir da leitura crítica dos conteúdos
O mestre deve provar os seus conhecimentos ideológicos presentes nos manuais e discursos
no momento do jogo ou sempre que for
necessário. Nesse caso, não há lugar para escolares quando abordam ou silenciam a respeito do
hierarquias. A pedagogia da malandragem é papel questionador dessas práticas culturais,
uma sempre nova experiência (VASCONCE- detentoras de códigos e valores que diferem e
LOS, 2009, p. 58).
confrontam com os valores dominantes, geralmente
Voltando à questão da hierarquia, podemos presentes na escola.
afirmar, ancorados em nossa experiência, que nas A Escola Cultural da Arte Capoeira/UESPI se
escolas de Capoeira prevalece o estabelecimento de desenvolve por meio de atividades práticas e teóricas.
aprendizagens vivenciais, em que a capacidade de As atividades práticas envolvem as etapas de uma
superação nasce e é fortalecida por meio de um aula de Capoeira, seguindo os seguintes passos:
processo educativo que privilegia os processos de conversa inicial (privilegiando algum aspecto
socialização, trazendo em seu fundamento a ques- fundamental); alongamento corporal (exercícios de

104
Dossiê UESPI 30 Anos

soltura e preparação para as atividades); prática ção e participação nas atividades; nível de interesse,
(fundamentos básicos, ginga, golpes, esquivas, concentração e respostas aos ensinamentos
floreios, movimentos de chão etc.); Roda de proporcionados (práticos e teóricos); demonstração
Capoeira (culminância); volta à calma. do desenvolvimento de habilidades características da
prática da Capoeira (gestuais, emocionais, relacio-
As aulas teóricas, desenvolvidas concomi-
nais e intelectuais); demonstração de afinidade ou
tantemente com as aulas práticas, contemplam os
afloramento de habilidade no conhecimento e
seguintes aspectos: exposição dialogada sobre a
manuseio apropriado dos instrumentos e rituais
história, desenvolvimento e evolução; discussão
culturais característicos da capoeira; dentre outros.
sobre os fundamentos básicos; estudos sobre a
ritualização; aulas sobre aspectos da musicalidade Os resultados observados apontam para um
(canto, palmas, música, poesia, instrumentos e rápido desenvolvimento do aprendizado dos alunos,
toques tradicionais); valores e ética; a história dos acompanhado do senso de respeito às tradições e a
Mestres consagrados e contemporâneos; os estilos e hierarquia e o cuidado com os fundamentos da
ritmos do jogo, sendo realizadas, preferencialmen- Capoeira, assim como, entendimento de comporta-
te, nos momentos de volta à calma após a realização mentos, no sentido de manter um relacionamento
da roda de Capoeira. saudável e amigável com o conjunto da comunidade
da UESPI, notadamente em relação às demais
Na metodologia do projeto, são desenvolvi-
atividades desenvolvidas no entorno, evidenciando o
das, ainda, oficinas de confecção e manuseio dos
caráter e a natureza de práxis pedagógica.
instrumentos (berimbau, atabaque e pandeiro);
festivais de cantigas; jogos e batizados de Capoeira
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
(promoção das graduações), aulas-passeio (visita a
outros espaços de prática), dentre outras atividades.
Compreendendo a Capoeira como uma
Nas aulas práticas são utilizados como recursos
prática cultural que engloba formas de atividades
principais os instrumentos e materiais de apoio
humanas que visam à expressão, à criação e à
para treinamento de chutes e aulas de floreios
perspectiva do coletivo, sendo a capacidade de
(movimentos acrobáticos), enquanto nas aulas
socialização sua marca mais importante, entender-
teóricas, além das exposições orais, deverão ser
mos ser de relevância fundamental o fomento de
utilizados apostilas, textos, quadro de acrílico,
espaços públicos para a socialização de práticas que
pincéis, filmes em DVD, dentre outros. reconheçam e valorizam a cultura brasileira, sua
A avaliação do projeto é realizada semestral- significativa diversidade e sua capacidade em
mente, por meio de relatório final que contempla contribuir efetivamente numa educação com
todas as atividades desenvolvidas; o impacto e a “brasilidade”.
receptividade por parte da comunidade atendida; o A Capoeira se constitui em uma práxis
grau de contemplação dos objetivos propostos; a cultural de valor pedagógico essencial, que pode
relação entre as metodologias e técnicas de ensino trazer muitas contribuições para o desenvolvimento
aplicadas e o desenvolvimento dos alunos; e as geral de crianças e jovens, notadamente aqueles
mudanças cognitivas e comportamentais apresen- pertencentes a realidades sociais menos favorecidos
tadas pelos alunos. econômica, cultural e politicamente, ampliando sua
As avaliações do desempenho individual de capacidade de reivindicar espaços próprios, de terem
cada aluno são ser registradas por meio de Diário de o direito de representação, ou seja, o direito de falar
Campo próprio do coordenador, efetivadas por de si próprios, do lugar que ocupam, de contarem sua
meio de diagnósticos aplicados a cada mês de versão da história por meio do canto, do som, da
atividade, cujas informações são coletadas por vibração dos instrumentos, do ritual e de toda a
observação, versando notadamente sobre: integra- poesia da musicalidade.

105
Dossiê UESPI 30 Anos

Pelo valor simbólico que possui, um CAMPOS, Hélio. Capoeira na Escola.Salvador:


verdadeiro código gestual que, ao atrair e socializar Presscolar, 1990.
pessoas, é capaz de proporcionar a integração de
povos das mais diferentes culturas, acreditamos que COSTA, Marisa Vorraber. Currículo e política
a Capoeira pode contribuir efetivamente para cultural. In:_____ (org.). O Currículo nos
melhorar a vida de crianças e adolescentes que limiares do contemporâneo. 2 ed. Rio de
Janeiro: DP&A, 2001.
vivem em situação de riscos e vulnerabilidades
pessoais e sociais. CARVALHO, Dayton Starley Moita de. Proposta
A multidimensionalidade da Capoeira, a metodológica do ensino da Capoeira: a capo-eira
partir de seu universo simbólico em que elementos ao seu alcance. Salvador: Gráfica Salesiano, 2007.
tais como a musicalidade, o caráter espetacular, as
FALCÃO, José Luiz Cerqueira. Unidade Didática 2:
artimanhas e a surpresa tornam as possibilidade de
Capoeira. IN: KUNZ, Eleonor (org.). Didática da
manifestação corporal e de comunicação gestual
Educação Física. 4. ed. Ijuí-RS: ED. Unijuí, 2006.
numa ação extremamente peculiar e, ao mesmo
p. 55-94.
tempo, plural, defendemos ser a Capoeira uma
práxis em que a alegria e o riso se encontram com a ________. A Escolarização da Capoeira.
luta e o combate, o físico e o espiritual se interpene- Brasília-DF: ASEFE – Royal Court, 1996.
tram, em um diálogo constante, caracterizando-a
como prática educacional significativa, visto que FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis:
possibilita sua utilização de diversas formas, com Vozes, 2005.
olhares diversos, em espaços e tempos diferencia-
FREITAS, Jorge Luiz de. Capoeira infantil: a arte
dos, assim como pelo envolvimento integral de
de brincar com o próprio corpo. Curitiba-PR: Editora
pessoas das mais diversas culturas.
Gráfica Expoente, 1997.
Concluímos destacando que o Projeto Esco-
la Cultural da Arte Capoeira/UESPI se constitui, na HALL, Stuart. Identidade Cultural na pós-
atualidade, em um dos espaços que mais divulga, modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP& A, 2005.
difunde e engrandece a cultura do povo, contribu-
NELSON, Cary. et. al. Estudos Culturais: uma
indo positivamente para a abertura de novos cam-
introdução. In: SILVA, Tomaz Tadeu da.
pos de estudos e práticas por parcela de mestres,
Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos
professores, funcionários, alunos e pessoas da
Estudos Culturais em educação. Petrópolis-RJ:
comunidade, numa oportunidade impar na qual a
Vozes, 1998, p. 7-38.
UESPI, por meio da PREX/Divisão de Programas
Socioculturais, aparece enquanto instituição pio- SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. I. Perez.
neira em nosso estado, exercendo seu papel de Compreender e transformar o ensino. 4. ed.
instituição pública formadora e fomenta-dora de Porto Alegre: Artmed, 2000.
projetos de responsabilidade social.
SANTOMÉ, Jurjo Torres. As Culturas negadas e
REFERÊNCIAS silenciadas no Currículo. In: Alienígenas na sala
de aula: uma introdução aos Estudos Culturais em
BARBIERI, Cezar. Um jeito brasileiro de educação. 2 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998.
aprender a ser. Brasília: DEFER/CIDOCA/DF,
SILVA, Gladson de Oliveira. Capoeira, do
1993. Engenho à Universidade. São Paulo: USP, 1993.
CAMPOS, Hélio. Capoeira na Universidade: SILVA, Robson Carlos. Capoeira: o preconceito
uma trajetória de resistência. Salvador: EDUFBA, ainda existe?. Teresina: Armazém Digital, 2010.
2001.

106
Dossiê UESPI 30 Anos

SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de Identi-


dade: uma introdução às teorias do currículo. Belo
Horizonte: Autêntica, 2002.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Capoeira


Escrava e outras tradições rebeldes no Rio
de Janeiro (1808-1850). 2 ed. Campinas-SP:
Editora da UNICAMP, 2002.

VASCONCELOS, José Gerardo. Besouro cordão


de ouro: o capoeira justiceiro. Fortaleza: Edições
UFC, 2009.

________. Educação e música na capoeira.


Revista Educação em Debate. Fortaleza, 2008,
v. 1 e 2, n. 56,57 e 58, anos 30 e 31, p. 53-67.

________. A Dança do bêbado: embriaguez e


teatralidade na arte da capoeiragem. In:
VASCONCELOS, José Gerardo; SALES, José Albio
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educação popular. 4. ed. São Paulo: Brasiliense,
1984. p. 62-78.

107
Dossiê UESPI 30 Anos

CLIMA ORGANIZACIONAL NA DIRETORIA DE PLANEJAMENTO E ORÇAMENTO


DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ – UESPI

Solineide Moura e SILVA1

1
Possui graduação em Bacharelado em Administração de Empresas pela Faculdade Adelmar Rosado (2007),
especialização em Educação a Distância e Gestão de Pessoas pela Universidade Estadual do Piauí. Foi tutora a
Distância da UFPI e IFPI.

RESUMO

O clima e a cultura organizacionais são aspectos intrínsecos à motivação humana no trabalho. Estudos neste
tema auxiliam a compreensão tanto do cenário subjetivo da ambiência organizacional, como de aspectos mais
físicos que podem passar despercebidos em uma análise menos acurada. Este trabalho de pesquisa trata de uma
investigação na Diretoria de Planejamento e Orçamento da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, utilizando
como método a pesquisa survey, por meio da aplicação de questionários e apresenta uma análise de abordagem
quantitativa. Possui o objetivo principal de avaliar a importância do clima organizacional do grupo investigado
para o ambiente de trabalho, levando-se em consideração a cultura organizacional, a motivação, a liderança e as
relações interpessoais. Evidencia-se que o clima no ambiente de trabalho do setor em estudo não se configura
de todo satisfatório, apresentando aspectos negativos e positivos. Além destas considerações, o estudo sugere
algumas ações com a finalidade de melhorias no clima da instituição.

Palavras-chave: Clima Organizacional. Cultura. Gestão de Pessoas.

ABSTRACT

The organizational climate and culture are intrinsic aspects of human motivation at work. Studies in this area
help understand both the scenario of subjective organizational environment, as physical aspects that may go
unnoticed in a less accurate analysis. The research conducts an investigation in Diretoria de Planejamento e
Orçamento da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, using survey research as a method, by means of
questionnaires, and analysis of quantitative approach. It has the main objective to assess the importance of the
organizational climate of the group investigated for the work environment, taking into account organizational
culture, motivation, leadership and interpersonal relationships. As main results, it is evident that the climate in
the workplace sector under study is not configured at all satisfactory, presenting negative and positive aspects.
Beyond these considerations, the study suggests some actions in order to improve the climate of the institution.

Keywords: Organizational Climate. Culture. People Management.

108
Dossiê UESPI 30 Anos

1. INTRODUÇÃO coletados foram analisados e os resultados dispostos


em tabela em seção específica.
Para alcançar êxito com as pessoas que desempe-
nham as tarefas na organização, torna- se necessá- 2. O CLIMA ORGANIZACIONAL
rio conhecer o nível de satisfação geral, de modo a
atingir os objetivos propostos pela instituição. Com O Clima Organizacional pode ser entendido
a valorização de seu capital humano, as empresas como a concepção que o indivíduo tem do seu
conseguirão obter condições de competir interna e ambiente de trabalho, em função das exigências da
externamente, pois o desempenho dos funcionários organização e seus valores pessoais, e também como
está intimamente ligado aos seus resultados e à as percepções compartilhadas pelos funcionários a
motivação; surge então como instrumento respeito de vários aspectos organizacionais e, de
propulsor para o alcance do desempenho esperado. acordo com Coda (1993), suas origens remontam às
escolas de administração dos Estados Unidos em
Nesse contexto, caracterizado pelas relações
1967. Após sucessivos estudos, o conceito foi
entre as pessoas no ambiente de trabalho, emerge o
sedimentado, caracterizando o Clima Organizacional
interesse de pesquisa sobre o clima organizacional,
como um estudo psicológico fortemente afetado
resultado de diferentes combinações dos seus pelas condições existentes na empresa, tais como
elementos constitutivos ou formadores. Seu sistemas, estrutura e estilo gerencial. Além de estar
conceito enfatiza as trocas que acontecem no dia a ligado à conjuntura interna e externa da organização,
dia entre as pessoas e a organização e diz respeito ao é, por definição, circunstancial.
que as pessoas pensam sobre a realidade social no
Segundo é exposto por Teixeira (2002, p.
ambiente da organização em determinado
574), o clima organizacional deve ser compreendido
momento. Portanto, a caracterização da imagem
como uma “expressão dos sentimentos dos
que esses colaboradores têm dos principais
empregados diante dos valores, das políticas, das
aspectos ou traços vigentes na organização, o que só
práticas de gestão de recursos humanos, da forma de
pode ser compreendido em termos das percepções
relacionamento com os colegas, da postura da
daqueles que fazem parte da organização.
empresa ao estabelecer metas e retribuir pelo alcance
Com base nessas premissas, o estudo do delas, além da situação econômica”. Nesse sentido, o
clima organizacional na Diretoria de Planejamento autor dispõe que o ponto de importância no clima
e Orçamento – DIPLAN da UESPI justifica-se pela organizacional é o sentimento dos empregados a
observação direta que, no referido setor, as pessoas respeito das ações e decisões da empresa que os
podem não estar sendo motivadas a exercerem seus afetam.
papéis. Desta forma, o objetivo deste trabalho é Para Coda (1993), embora as empresas
analisar os aspectos referentes ao clima organizaci- desejem profissionais bastante motivados, não há
ional na DIPLAN/UESPI. Para esta análise, é contrapartida, elas não oferecem condições a isso,
preciso conhecer o clima do setor, seus elementos não há preocupação em respeitar e tentar garantir
influenciadores apontar algumas sugestões que níveis adequados de satisfação no trabalho para seus
poderiam balizar as decisões de melhoria do setor. colaboradores. Se os empregados vivenciam mais
Assim, o estudo utilizou-se de um método insatisfação do que satisfação nas empresas onde
survey de pesquisa, por meio da aplicação de trabalham, isso dificulta o compromisso delas com os
questionários de perguntas fechadas, com opções objetivos, os novos desafios e a própria missão
de respostas em escala Likert, para descrever a estabelecida para a organização.
opinião dos respondentes quanto a questões Nesse caso, na visão do autor, torna-se impra-
relacionadas ao tema. O público-alvo da pesquisa ticável conciliar os interesses dos empregados com os
foi composto pelos servidores da diretoria, em um da empresa, no sentido de maior dedicação ao

109
Dossiê UESPI 30 Anos

ao trabalho, ou sua realização dentro de novos como simples empregados”. Isso implica dizer que
padrões de qualidade ou produtividade. Entretanto, atualmente, apesar dos computadores e dos balanços
é possível empreender ações para transformar o contábeis, os empregados precisam estar alegres, o
clima organizacional, visto que este diz respeito ao sentimento interfere, pois, para que sejam produti-
que as pessoas pensam existir e o que está vos. Eles devem sentir que o trabalho é adequado à
acontecendo no ambiente da organização em dado suas capacidades e que estão sendo tratados
momento sendo, portanto a caracterização da equitativamente.
imagem que essas pessoas têm dos seus principais Shinyashiki (2002, p. 470) sintetiza que a
aspectos vigentes, o que, para Coda (1993), se felicidade na organização e a satisfação no trabalho
constitui no maior desafio em relação à apreensão são fortes determinantes do sucesso pessoal e
do conceito de Clima Organizacional, pois este só organizacional. Acentua, entretanto, que é preciso
pode ser compreendido em termos de percepção das separar trabalho compulsivo de produtividade, e
pessoas que fazem parte da organização. nesse sentido: “as empresas devem entender que
Acentua-se também que, fundamentalmen- uma das maiores vantagens competitivas que ela
te, as características do próprio funcionário que está pode ter são funcionários com produtividade e
participando da identificação do clima, quase capazes de conseguir maiores resultados com
sempre acabam explicando diferenças de percepção determinada quantidade de esforço”.
das mesmas dimensões de clima dentro de uma Nesse contexto, a satisfação no trabalho
organização. E que, além dos fatores pessoais, a área reflete na produtividade, porque ela expressa relação
de atuação, o nível hierárquico do cargo ocupado e a direta ao trabalho exercido, de forma geral e em seus
região geográfica, também afetam as percepções de vários aspectos, que incluem a natureza, a supervisão
clima organizacional, mesmo que as dimensões e o ambiente deste trabalho, relacionamento
consideradas sejam idênticas e avaliadas de interpessoal, política salarial e reconhecimento,
maneira equivalente durante a coleta de opiniões modelo de gestão, processos de comunicação, estilo
dos funcionários. de gerência e grau de relacionamento entre as
Teixeira (2002, p. 589) afirma que “a gestão diferentes áreas funcionais (MOSCOVICI, 1995).
do clima organizacional é uma atividade que exige Coda (1993) indica que há o estabelecimento de
atenção permanente, trabalho constante e vínculo entre satisfação, desempenho e produtivida-
participação de toda a hierarquia”. O que comprova de do funcionário, além da redução nos índices de
a concepção de Coda (1993), visto que críticas ao rotatividade e de absenteísmo no trabalho, são
papel do gerente de Recursos Humanos configuram consequências das atitudes positivas advindas de um
clima favorável.
uma crise de liderança e de projeto organizacional
mais do que de motivação ou de satisfação, É importante para as organizações estimular
aumentando cada vez mais o desafio de engajar e um clima organizacional para seus funcionários, pois
mobilizar os funcionários para a mudança e resulta em produtividade e lucro. De acordo com
desenvolvimento organizacionais. Dutra (2002, p. 69), Quando se faz referência a um
bom Clima Organizacional, a primeira coisa que
Conforme Chiavenato (1999, p. 7), as
passa por nossas mentes é a imagem de uma empresa
pessoas são visualizadas como parceiros das
com funcionários trocando gentilezas e com um
organizações. Como tais, elas são fornecedoras de
sorriso na boca o dia todo, e em que a chefia não faz
inteligência que proporcionam decisões racionais e
cobranças “pois somos todos iguais” e “a chefia é
imprimem o significado e rumo aos objetivos
boazinha”.
globais, uma vez que “[...] as organizações bem
sucedidas hoje se dão conta disso e tratam seus A gestão do clima organizacional é um
funcionários como parceiros do negócio e não mais instrumento para avaliar o grau de comprometimen-

110
Dossiê UESPI 30 Anos

to do funcionário para com a empresa e, por outro movimentos de unificação das cidades estados em
lado, a empresa saber como corresponder às estados absolutistas, pois de alguma maneira a
expectativas de seus funcionários em relação à intenção da existência de uma identidade entre elas
organização. Uma das ferramentas para avaliar e se justificara na centralização do poder político e
traçar planos de ação com a finalidade de melhorar o econômico.
Clima Organizacional é conhecer o que pensa cada No âmbito do mercantilismo e da expressão
funcionário sobre a empresa através de pesquisas capitalista, a posteriori, o conceito de cultura foi
internas, que podem se utilizar de formalidade utilizado no sentido do entendimento de costumes,
científica e métodos survey, para avaliar como anda língua, crenças e mitos de povos diferentes para que
a eficiência na comunicação interna. fossem estabelecidas as relações comerciais e as
Segundo Souza (1982, p. 37), relações de dominação. Já no final do século XIX,
conforme estes autores, os estudos sobre cultura se
Clima organizacional é um fenômeno resul- depararam com a noção de diversidade, mas
ltante da interação dos elementos da Cultura empregaram algumas concepções darwinistas para
organizacional, é uma consequência do peso entender como culturas superiores e de alguma
de cada um dos elementos culturais e seu
efeito sobre os outros funcionários. Uma forma justificam a dominação política ou econômica.
excessiva importância dada à tecnologia leva Remetendo o conceito para os níveis do indivíduo e
a um clima desumano; a pressão das normas da sociedade, o antropólogo inglês Edward B. Taylor
cria tensão; a aceitação dos desafios, sem
descuidar os preceitos e o trabalho, eleva o (apud FLEURY; SAMPAIO, 2002, p. 284) definiu
clima de tranquilidade e confiança. cultura, em 1871, como um “complexo total de
conhecimento, crenças, artes, moral, leis, costumes e
Ainda de acordo com o autor (1982, p. 14), é quaisquer outras aptidões e hábitos adquiridos pelo
de suma importância a sua avaliação, pois afirma homem como membro da sociedade”.
que estudos deste tipo são úteis, visto que “fornecem O conceito de cultura foi trazido às ciências
um diagnóstico geral da empresa, bem como administrativas no final da década de 1950, justifi-
indicações de áreas carentes de uma atenção cando tal interesse a eventos como a expansão
especial. Não basta sentir que o clima está mau, é geográfica das empresas multinacionais, que tinham
preciso identificar onde, por que e como agir para como pretensão a reprodução de suas estruturas em
melhorá-lo”. Contudo, entende- se que, no estudo outros países para obtenção de vantagens competiti-
do Clima Organizacional, as informações referentes vas. Ainda que reproduzam as estruturas e os
às relações que se estabelecem na empresa têm principais programas, os resultados obtidos não são
grande relevância, dado que, para compreender os mesmos e os administradores visualizam-nos
uma organização, é necessário o aprofundamento como problemas diferentes daqueles dos seus países
da interpretação destas relações nela existentes. de origem.
Dessa maneira, uma das primeiras ideias de
3. CULTURA E CLIMA ORGANIZACIONAL
cultura empregadas pela administração se assemelha
a concepção de culturas nacionais, pela qual se
Para compreender uma organização, é procura fazer a identificação de elementos culturais
necessário o aprofundamento da interpretação das que foram obtidos na sociedade pelos empregados,
relações nela existentes e, para fazer uma análise do em especial, os que entram em conflito com a ordem
clima organizacional, a cultura organizacional é um organizacional original, para então buscar um novo
elemento importante, pois ela influencia nas arranjo organizacional ou uma mudança de crenças e
relações dentro da organização. Fleury e Sampaio valores. Os autores atribuem ao conceito de cultura
(2002) apontam que a ideia de cultura nacional foi, organizacional uma exterioridade ao contexto
inicialmente, uma preocupação europeia, com os sociocultural como a origem dos fenômenos em

111
Dossiê UESPI 30 Anos

estudo e se direcionam para o interior das organi- muitas cores, por isso, não são mutuamen-te
zações e corporações, estas últimas entendidas exclusivas e nem podem ser justapostas. Freitas
como um conjunto de empresas sob a mesma (1991, p. 7) conceitua cultura organizacional como “o
direção. modelo dos pressupostos básicos, que determinado
Fleury e Sampaio (2002) registram diferen- grupo tem inventado, descoberto ou desenvolvido no
tes focos e visões de organização nos diversificados processo de aprendizagem para lidar com os proble-
estudos de cultura que analisaram, relacionando-os mas de adaptação externa e integração interna”.
como apresentado na tabela abaixo. O autor coloca que, “uma vez que os pressupostos
De acordo com os autores, cada uma destas tenham funcionado bem o suficiente para serem
visões de cultura privilegia formas de pesquisa e considerados válidos, são ensinados aos demais
análise de informações diferentes para o entendi- membros como a maneira correta para se perceber,
mento do conceito com a imagem de um código de se pensar e sentir-se em relação àqueles problemas”.

Quadro 1: Estudos de Cultura Organizacional

Conceito de Cultura Visão da Organização

A cultura funciona como um mecanis-


Organizações são organismos que
Cultura corporativa mo regulatório-adaptativo e permite a
existem por meio de proces-sos de
articulação dos indivíduos na organi-
trocas com o ambiente.
ização

Cultura é um sistema de cognições Organizações são sistemas de co-


Cognição partilhadas. A mente humana gera a nhecimento e a esta noção repou-sa
organizacional cultura, através de um número limita-do sobre a rede de significados subjetivos
de regras. que os membros parti-lham.

Organizações são padrões de discurso


Cultura é um sistema de símbolos e sig-
Simbolismo simbólico que são mantidas através de
nificados partilhados. A ação simbó-lica
organizacional como a linguagem facilita os significa-
necessita ser interpretada ou decifrada a
dos e realidades partilhadas.
fim de ser compreendida.

Processos
Cultura é uma projeção da infraestrutura Formas e práticas organizacionais são
inconscientes e universal e inconsciente da mente. manifestações de processos incons-
organização cientes.

Fonte: Smicich (1983) (apud FLEURY; SAMPAIO, 2002, p. 286-287).

112
Dossiê UESPI 30 Anos

Para apoiar esta conceitualização, Chiave- caracterizados por baixo índice de realização. O
nato (2000, p. 444) define cultura organizacional trabalho pode satisfazer uma gama de necessidades,
como “o conjunto de hábitos, crenças, valores e desde as de sobrevivência até as de autorrealização,
tradições, interações e relacionamentos sociais dependendo de cada pessoa.
típicos de cada organização” e divide-a em: Na visão de Castro (2002), a motivação é vital
aspectos formais e abertos, que são percebidos à dinâmica entre pessoas, influenciando de forma
com facilidade e envolvem as políticas e diretrizes, direta na eficácia das relações, e possui dois vetores,
métodos e procedimentos, objetivos, estrutura quais sejam: (i) a motivação interna, que é
organizacional e a tecnologia adotada; e aspectos caracterizada pelo conjunto de percepção que o
informais e ocultos, os que são de difícil indivíduo possui sobre a existência, do modo como
percepção, envolvem percepções, sentimentos, ele valoriza e gosta dos próprios pensamentos e
atitudes, valores, interações informais e normas comportamentos, do modo como sua autoestima
grupais. Para ele, a cultura sofre alterações com o propicia ações para a sua felicidade e do modo como
tempo, ela não é estática e nem permanente. Assim, ele reconhece seus atos e se valoriza. Nesse sentido, a
uma organização se torna um sistema complexo, automotivação permite que o ser humano lide, de
com características próprias típicas da sua cultura e forma real, com as impulsões básicas de seu
clima organizacional e tais variáveis devem ser inconsciente e também aja como mediador entre
continuamente observadas, analisadas e aperfeiço- esses impulsos básicos e as existências da realidade
adas para que resultem motivação e produtividade. concreta; (ii) e motivação externa, que é caracteriza-
da pelo conjunto de valores, missão e visão de
3.1 Motivação e Clima Organizacional determinado ambiente que permite relações
interpessoais adequadas, além de permanecer
A motivação tem um papel muito importan- intrínseca ao clima que leve à plena relação dos seres
te na compreensão do Clima Organizacional, pois humanos que atuam nesse mesmo ambiente.
ela é fundamental para a satisfação e desempenho
dos funcionários. De acordo com Maximiano (1997, Conforme explica Chiavenato (1999), são
p. 71), a palavra “motivação do latim motivus, muitas as teorias de motivação. A teoria tradicional
movere, que significa mover, indica o conjunto de da motivação, surgida de um movimento científico da
razões ou motivos que explicam, induzem, administração na virada do século XIX, baseia-se na
incentivam, estimulam ou provocam algum tipo de suposição de que o dinheiro é o principal motivador.
ação ou comportamento”. Ainda para o autor, um Se a recompensa financeira for grande, os
dado curioso e essencial é a motivação para o trabalhadores produzirão mais. Desse modo, as
trabalho que indica um estado psicológico de recompensas financeiras devem estar relacionadas
disposição ou vontade de perseguir uma meta ou diretamente ao desempenho, apesar desta visão há
realizar uma tarefa, o que confere a suposição de que muito não ser mais tão bem compreendida, pois este
uma pessoa motivada para o trabalho é uma pessoa não seria o único fator motivacional. Na visão deste
com disposição favorável para perseguir a meta ou autor, o modelo de motivação mais difundido seja o
realizar tarefas. estudo de Abraham Maslow, com a sua “Teoria de
Hierarquia das Necessidades Humanas”, na qual as
No que diz respeito à qualidade do trabalho necessidades humanas estão organizadas em níveis,
executado, Chiavenato (1999) observa que os numa hierarquia de importância e de influência,
sujeitos com maior motivação, apresentam numa pirâmide, cuja base representa as necessidades
rendimentos maiores quando a tarefa é qualitativa- primárias (necessidades fisiológicas) e no topo, as
mente valorizada. Em tarefas rotineiras, tais necessidades mais dificilmente alcançadas (necessi-
sujeitos revelam índices idênticos ou até mesmo dades de autorrealização). Esta teoria sofreu diversas
inferiores em comparação com os indivíduos críticas e acredita-se, atualmente, que as necessida-

113
Dossiê UESPI 30 Anos

des existem conforme ela expressa, mas não em que, conforme Casado (2002), rejeita noções
hierarquia tão rígida. percebidas e que reconhece essas diferenças
Outra teoria descrita por Chiavenato é a de individuais. Sendo voltada especificamente para o
Frederick Herzberg, na qual a motivação depende trabalho, é considerada uma teoria de processo e não
de dois fatores: (i) fatores higiênicos, referentes às simplesmente de conteúdo, porque identifica
condições que rodeiam a pessoa enquanto relações entre variáveis dinâmicas que explicam o
trabalham, englobando as condições físicas e comportamento de pessoas no trabalho. Chiavenato
ambientais de trabalho, salários, benefícios sociais, (1998) diz que Vroom propõe um modelo de
políticas da empresa, tipo de supervisão recebida, expectação da motivação que se baseia em objetivos
clima de relações entre a direção e os empregados, intermediários e gradativos que conduzem a um
regulamentos internos, oportunidades existentes objetivo final. Segundo esse modelo, a motivação é
etc; (ii) e fatores motivacionais, referentes ao um processo que governa escolhas entre comporta-
conteúdo do cargo, às tarefas e aos deveres relacio- mentos. O indivíduo percebe as consequências de
nados ao cargo em si. Os fatores motivacionais cada alternativa de comportamento como resultado
envolvem sentimentos de autorrealização, de representando uma cadeia de relações, entre meios e
crescimento, de reconhecimento profissional fins.
manifestado por meio de tarefas que o indivíduo De acordo com Casado (2002, p. 256), Vroom
realiza no seu trabalho. apresenta três conceitos para explicitar os
Nesta teoria, Herzberg argumenta que os pressupostos de sua teoria: (i) valência, orientação
fatores de satisfação são motivadores porque têm o efetiva em direção a resultados particulares, onde de
efeito positivo de melhorar os desempenhos dos forma positiva se atrai o comportamento em sua
indivíduos. Entre eles, considera as conquistas e o direção, e de forma negativa se dá quando o individuo
reconhecimento como sendo os fatores motivacio- prefere ou não buscar o alvo; (ii) expectativa, grau em
nais mais importantes. Para ele, as pessoas não são que a pessoa acredita, ou espera que seus objetivos
motivadas por seus fracassos e sim por suas sejam atingidos. Diz respeito à probabilidade que a
conquistas. Pequenas conquistas servem como pessoa enxerga na execução de seus alvos; (iii) e
estímulo para que alguém queira conquistar um força, conceito similar ao de energia e ação.
pouquinho mais. O segundo fator, o reconheci- No âmbito das relações interpessoais, os
mento, ocorre quando alguém conquista alguma motivos internos são as necessidades, aptidões,
coisa e outra pessoa de alguma maneira, demonstra interesses, valores e habilidades da pessoa, que a
admiração por esta conquista. Os elogios pelas fazem capaz de realizar certas tarefas e não outras
conquistas representam o reconhecimento. que a fazem sentir-se atraída por certas coisas e evitar
Na concepção de Casado (2002, p. 254), a outras, que a fazem valorizar certos comportamentos
Teoria dos dois fatores de Herzberg é vista em um e menosprezar outros. Maximiano (2000) acentua
mesmo contexto, pois estes são “fatores de que as relações interpessoais, para serem sadias e
dimensões diferentes. A alta satisfação não se fortalecidas, devem ocorrer num clima de atmosfera
traduz pela ausência de fatores de insatisfação e está psicológica criada pelo líder, pois o comportamento
relacionada à natureza do trabalho em si”. Melhor do mesmo pode criar a sensação de cordialidade e
compreendido como o autor sugere, “o oposto de interesse de hostilidade ou de indiferença, tornando
satisfação não é insatisfação, e sim não-insatisfação. o clima mais ou menos favorável.
Da mesma maneira, o oposto de insatisfação não é
satisfação e sim, não- satisfação”.
Outra teoria que apoia estes aspectos
motivacionais é a proposta por Victor H. Vroom

114
Dossiê UESPI 30 Anos

3.2 Liderança e Clima Organizacional Conforme França e Arellano (2002), na literatura


atual, observa-se a preocupação acrescida com a
A liderança representa o “uso da influência formação de equipes e grupos de trabalho no
não coercitiva para dirigir as atividades dos processo de liderança, explicitada no conceito de
membros de um grupo e levá-los à realização de seus liderança de alto desempenho, no qual o líder, antes
próprios objetivos”, de acordo com Maximiano de qualquer coisa, é um catalisador de talentos na
(2004, p. 289) e, segundo França e Arellano formação de novas competências e garantias de
(2002),é um processo social no qual são resultados em processos competitivos de mercados e
estabelecidas as relações de influência entre os ambientes econômicos globalizados. Para Bergamini
grupos, cujo núcleo desse processo de interação (1996), todas as teorias da motivação conservam o
humana é composto de líder ou líderes, seus denominador comum de que a liderança engloba
liderados, um fato e um momento social. Já nos duas ou mais pessoas e se trata de um processo de
estudos de Smitth e Perterson (1994) as primeiras influência exercido de forma intencional por parte do
discussões importantes sobre o processo de líder sobre seus seguidores, o que determina, em
liderança talvez sejam oferecidas por Maquiavel, ao todas as situações, condições de relacionamento
analisar o equilíbrio entre princípio e oportunismo interpessoal.
que, sob seu ponto de vista, proporciona maior Neste pensamento, Vergara (1999) expõe que
orientação para as ações de um príncipe, nas a liderança está conectada a estímulos e incentivos
cidades-estados medievais italianas. E sua que podem motivar as pessoas para a realização da
orientação estende-se não somente às relações com missão, da visão e das finalidades que a empresa
as outras cidades-estado, mas também aos modelos persegue e, como sugere Chiavenato (1999, p. 174), a
mais eficazes utilizados pelos orientadores na liderança pode ser classificada nos seguintes estilos:
relação com seus orientados. (i) liderança autocrática, que centraliza as
decisões e impõe suas ordens ao grupo. O
Schein (1982, p. 83) caracteriza a importân-
comportamento dos grupos mostra forte tensão,
cia da liderança no contexto da organização,
frustração e agressivi-dade, de um lado, e, de outro,
dizendo que: “a organização como um todo não se
nenhuma espontanei-dade, nem iniciativa, nem
sairá bem, a menos que a liderança em todos os
formação de grupos de amizade; (ii) liderança
níveis atinja algum padrão mínimo de eficiência”,
liberal – O líder delega totalmente as decisões ao
explica que, para se analisar essa questão, deve-se
grupo e deixa-o totalmente à vontade e sem controle
considerar o nível da organização, os tipos de
algum. Embora a atividade dos grupos seja intensa, a
conceitos culturais, políticos ou socioeconômicos
produção às vezes é medíocre. As tarefas se
que subjazem na organização a ser analisada, o nível
desenvolvem ao acaso, com muitas oscilações,
de influência pessoal de quem está analisando a
perdendo-se tempo com discussões voltadas para
natureza das tarefas, os funcionários e as limitações
motivos pessoais do que relacionadas com o trabalho
situacionais que podem atuar em cada caso, a fase em si; (iii) e liderança democrática – O líder
de evolução do grupo e a relação entre líder e conduz e orienta o grupo e incentiva a participação
subordinados. O autor acrescenta que, quanto mais democrática das pessoas. Há formação de grupos de
desenvolvida a organização, maior a importância da amizade e de relacionamentos cordiais entre os
orientação do líder para atitudes em relação às membros. Líder e subordinados passam a
pessoas e a recompensa interpessoal, e menor a desenvolver comunicações espontâneas, francas e
importância de orientação para os problemas e cordiais. Há um nítido sentido de responsabilidade e
competências das tarefas, desde que a orientação de comprometimento pessoal além de uma
para as tarefas e sua competência permaneça no impressionante integração grupal, dentro de um
nível razoavelmente elevado. clima de satisfação.

115
Dossiê UESPI 30 Anos

3.3 Relações Interpessoais e Clima siderar essas questões impede a visão apurada da
organização e impossibilita a ação para a melhoria
O estudo das relações interpessoais torna-se dos modelos de gestão de pessoas.
necessário para a compreensão do clima das Na ótica de Enriquez (1997), em cada organi-
organizações, pois o homem, na atualidade, por
zação deve existir uma estrutura administrativa
vários fatores intervenientes, como a sua própria
capaz de perseguir objetivos conciliáveis que levem a
maneira de ser, a interferência dos grupos sociais e
integração de cada indivíduo à organização e a
do meio ambiente, pode desenvolver estados de
idealização dela mesma à demanda de forte espírito
angústia e ansiedade que implicam em doenças
de equipe, a conclamar por iniciativa e criatividade.
ocupacionais. Conforme a percepção de Bergamini
Para este autor, alguns administradores, no entanto,
(1996) há a necessidade de entender a complexida-
não reconhecem o indivíduo, não o incita a correr
de das relações que se estabelecem entre as pessoas,
riscos e nem oportuniza o direito de errar com fins a
no contexto organizacional.
possibilitar a sua autonomia.
Sá e Lemoine (1999, p. 12) afirmam que: “o
local de trabalho é também um lugar em que se situa 4. ASPECTOS METODOLÓGICOS
um nível intermediário entre o individual e o
sistema cultural de conjunto, é aquele da O estudo desenvolvido utiliza-se de uma
organização e da empresa, local das relações metodologia de abordagem quantitativa, proferida
humanas”. Em sua visão, as relações interpessoais através da representação numérica da percepção dos
desenvolvem-se em decorrência do processo de indivíduos questionados em dados percentuais.
interação. Em situações de trabalhos compartilha- Utilizou-se como método a pesquisa do tipo survey,
dos por duas ou mais pessoas, há atividades pois esta, conforme Babbie (2003) tem por finalidade
predeterminadas a serem executadas e interações e três objetivos gerais, sendo eles a descrição, a expli-
sentimentos recomendados, tais como comunica- cação e a exploração. Dedicar-se-á neste trabalho à
ção, cooperação, respeito e amizade. Esse ciclo de descrição.
atividades – interações-sentimentos - não se
relaciona diretamente com a competência técnica As surveys também integram o conjunto
de cada pessoa. central da pesquisa social, pois elas oferecem
uma maneira rápida e relativamente barata de
Na opinião de Moscovici (1995), os grupos, descobrir as características e crenças da
por sua vez, vão depender dos componentes população em geral. As surveys são um dos
culturais do sistema maior do qual fazem parte. métodos empregados com mais frequência na
pesquisa social e são utilizadas igualmente
Atitudes, valores, crenças e ideologias predispõem pelo governo, pelos pesquisadores acadê-
as pessoas a perceberem e interpretarem as situa- micos na universidade e pelas organizações
ções, a criarem, analisarem e avaliarem possíveis militantes. (MAY, 2004, p. 109).
linhas de ação e solução, a fazerem suas opções com
tranquilidade e segurança no respeito moral da Neste tipo de pesquisa, empregada para
escolha. descrever uma amostra não probabilística de uma
população, busca-se identificar “quais situações,
Segundo Casado (2002), as justificativas
eventos, atitudes ou opiniões estão manifestos em
para o estudo dos processos grupais acham-se na
uma população”, por meio da descrição de um
própria natureza deles, ou seja, no desenvolvimento
subgrupo desta população, segundo Freitas et al.
humano. As organizações são compostas de pessoas
(2000, p. 106).
que trazem para o ambiente de trabalho todo o seu
jeito de ser, sentir e viver. São motivações diferen-
tes, habilidades e aptidões diversas, competências
distintas que precisam conviver e produzir. Descon-

116
Dossiê UESPI 30 Anos

4.1 População e Instrumento de Coleta de em funcionamento, o Poder Executivo Estadual


Dados aprova a Lei nº 4.230/88 com objetivo de criar as
condições necessárias para instalação da Universida-
O presente trabalho foi desenvolvido com de Estadual do Piauí – UESPI. Em 1989 é aprovado o
um grupo de colaboradores da Universidade primeiro Estatuto da Universidade Estadual do
Estadual do Piauí – UESPI, lotados na Diretoria de Piauí. Em 1992, foi aprovado o Plano de Carreira e
Planejamento e Orçamento – DIPLAN. Definiu-se a realizou-se o 1º concurso público para docente do
população para a investigação em questão, visto que CESP – Centro de Ensino Superior do Piauí e,
o público era formado por doze indivíduos, consequentemente, o enquadramento dos professo-
possibilitando a execução da pesquisa. res que se encontravam no CESP, remanescentes dos
Utilizou-se como técnica de pesquisa a quadros da Secretaria Estadual da Educação,
aplicação de questionários. Os formulários Secretaria da Administração, Fundação CEPRO etc.
respondidos, sem qualquer identificação dos Em 1993, através de Decreto Federal, a
respondentes, para manter a privacidade e o direito Universidade foi autorizada a funcionar como uma
de não identificação do público participante, Instituição multicampi e a sequência cronológica,
condição explicada previamente, foram entregues e com o surgimento gradativo de cursos e de campi, no
os pesquisadores procederam com a análise. Os interior do Estado. Nesse ano, houve o primeiro
questionários foram impressos em papel, possuíam concurso público para professor efetivo. Em 2005, a
perguntas fechadas e, como opções de resposta,
UESPI teve seu estatuto reformulado, aprovado e
apresentou-se, ora em escala Likert, com as
implantado, o que garantiu a realização de eleições
variações que iam de um aspecto positivo a um
diretas para a escolha de reitor(a) e vice-reitor(a).
negativo, perpassando por aspectos intermediários.
Ainda nesse ano, a Universidade aprovou e implan-
tou a reformulação do Plano de Cargos, Carreira e
4.2 O locus da pesquisa
Salários de seu corpo docente.
Os primeiros passos concretos para a A instituição tem por missão ser uma Univer-
criação da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), sidade comprometida com o ensino, a pesquisa e a
com sede em Teresina, foram dados em 1984, por extensão, voltados para a qualidade de vida do povo
meio da Lei Estadual nº 3.967, que instituiu a piauiense e a Diretoria de Planejamento e Orçamento
Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da é um setor que faz parte da Pró-Reitoria de Planeja-
Educação do Estado do Piauí – FADEP, entidade mento e Finanças – PROPLAN e é responsável pelo
mantenedora dos Centros de Formação de Recursos planejamento, gestão de convênios e o seu orça-
Humanos para o ensino da rede pública estadual em mento.
nível superior, Centro de Tele-educação, Centro de
Pesquisa. Em 1985, através do Decreto Federal nº 5. ANÁLISE DOS RESULTADOS
91.851, foi autorizado a funcionar o Centro de
Ensino Superior, com os cursos de Pedagogia – A aplicação do questionário teve o objetivo de
Habilitação Magistério, Ciências – Habilitação em levantar informações referentes aos fatores que
Matemática e Biologia, Letras – Habilitação em influenciam o Clima Organizacional tais como a
Português e Inglês e respectivas literaturas e
cultura organizacional, o tipo de liderança, a
administração.
motivação e as relações interpessoais existentes no
No ano seguinte 1986, realizou-se o primei- grupo. As respostas foram divididas em duas
ro vestibular para os cursos de Licenciatura Plena categorias: (i) Profissional e (ii) Instituição, com
em Pedagogia: Magistério, Ciências Biológi-cas, critérios analisados referentes aos dois fatores
Matemática, Letras/Português, Letras/Inglês e individualmente. Assim, apresentam-se abaixo a
Bacharelado em Administração, totalizando 240 tabela com as categorias observadas e os resultados
vagas. Com uma estrutura de cursos superiores já percentuais, com posterior análise descritiva.

117
Dossiê UESPI 30 Anos

Profissional 1 2 3 4

Sua qualificação profissional para desempenhar sua atual função 50% 42% 0% 8%

Autonomia para tomar decisões sobre a execução de seu trabalho 8% 51% 33% 8%

Relacionamento com as pessoas da equipe de trabalho 83% 17% 0% 0%

Ajuda dos companheiros de trabalho quando necessita 50% 25% 25% 0%

Relacionamento com chefe imediato 67% 33% 0% 0%

Reconhecimento do trabalho que desempenha 33% 42% 25% 0%

Feedback sobre os resultados do trabalho que executa 42% 33% 25% 0%

Critérios utilizados para promoção interna 0% 33% 0% 67%

Grau de satisfação em trabalhar nesta Diretoria 58% 42% 0% 0%

Legenda: (1) Muito Satisfeito (2) Satisfeito (3) Pouco Satisfeito (4) Insatisfeito
Fonte: Elaborados pelos autores

Os respondentes, em uma primeira questão, na execução do trabalho é percebida como satisfató-


identificaram seu grau de formação, onde 8% ria pela maioria de 51%. O que leva a dizer que há
possuíam ensino médio completo, 25% ensino valorização da participação dos membros na tomada
superior incompleto, 8% formação superior de decisão, em suas percepções, o que permite
concluída e 59% cursos de pós-graduação completo. evidenciar que a liderança tende a ser participativa e
A estatística indica interesse dos colaboradores em facilita a interação com o trabalho em equipe.
melhor qualificação, visto que a função que
O relacionamento com as pessoas da equipe é
desempenhavam exigia somente formação em nível
essencial, pois permitirá saber qual o grau das
médio.
relações interpessoais, que é essencial para um bom
A qualificação profissional, primeiro aspec- clima. O grupo mostrou-se coeso neste aspecto e
to apontado, demonstra um melhor desempenho todos os respondentes afirmaram estar muito
das tarefas, o que implica dizer que, há um maior satisfeitos com o relacionamento de sua equipe de
entendimento do objetivo da tarefa a ser realizada trabalho. Isto significa dizer que as relações
pelo funcionário e, a partir dos percentuais expos- interpessoais, pautadas nas diferenças aceitas e
tos, percebe-se que os pesquisados, em grande tratadas com diálogo aberto, permitem um ambiente
maioria consideram-se qualificados, o que pressu- harmonioso, trabalho cooperativo em equipe,
põe domínio sobre o conhecimento das atividades segundo a exposição de Sá e Lemoine (1999).
do setor e capacidade maior de articular o conheci- O trabalho em equipe é mais produtivo e
mento teórico com a prática das atividades desen- provoca nos trabalhadores um clima de companhei-
volvidas. rismo e consequentemente de satisfação. Evidencia-
se nesta tabela que há um ambiente social produtivo,
A questão da autonomia em um local de
pois de acordo com 50% dos pesquisados sempre
trabalho é importante, pois as decisões ficam
recebem ajuda de seus companheiros quando
descentralizadas e o processo segue com maior
precisam. Além do relacionamento com a chefia

118
Dossiê UESPI 30 Anos

imediata, em que para a maioria dos pesquisados, frequência que recebem este retorno. Conforme
esta se dá de maneira muito satisfatória, o que leva a Casado (2002), o feedback fornecido pelo líder é
perceber que há um relacionamento gratificante importante e ajuda o colaborador a manter seu
entre o líder e os colaboradores neste contexto desempenho alinhado com os objetivos como
organizacional. também é importante o feedback autogerado, no qual
o empregado tem meios para avaliar seus progressos
O reconhecimento pelo trabalho realizado é
e a efetividade de seus esforços.
fator motivacional, sendo representado, por vezes,
pelo elogio da conquista e, de acordo com a Os critérios de promoção interna são uma
concepção de Chiavenato (1999) no tangente à forma de saber se o colaborador está sendo
teoria de Herzberg, ele tem o efeito positivo de valorizado por seu trabalho. Pela informação
melhorar o desempenho dos indivíduos. A percentual, observa-se que 67% dos pesquisados
tendência apontada pelos percentuais é de que há sentem-se insatisfeitos com relação aos critérios
satisfação em relação a este aspecto, visto que 75% utilizados para promoções internas e isso pode
dos entrevistados demonstram-se agradados, entre prejudicar o clima entre os colaboradores. Porém,
aqueles que respondem que estão muito satisfeitos e mesmo com este quadro conflitante em relação às
satisfeitos. promoções, com 58% de participação, os servidores
mostram-se muito satisfeitos em trabalhar no setor
A próxima pergunta refere-se ao feedback, investigado, seguidos de 42% que se apresentam
que é a expressão verbal ou escrita da interpretação satisfeitos. Um percentual positivo em relação ao
por parte do líder, ou chefe imediato, de como o clima.
trabalho foi realizado pelo colaborador para que
este ratifique ou retifique-o e, na próxima vez que a Na tabela seguinte são demonstrados os
percentuais da percepção dos colaboradores
mesma atividade for realizada, ele consiga executá-
entrevistados, em relação à instituição investigada,
la sem falhas ou distorções, ou com a mesma
mais especificamente na setor pesquisado, questio-
eficácia. De acordo com o visualizado, a maioria de
nando sobre aspectos físicos e subjetivos associados
42% demonstram-se muito satisfeitos com o
ao clima organizacional. Em seguida, à exposição dos
feedback sobre a eficácia do seu trabalho, seguido
percentuais, prosseguimos com um detalhamento
por 33% que se apresentaram satisfeitos com a
descritivo e analítico dos dados indicados.

Profissional 1 2 3 4

Instalações físicas e equipamentos disponíveis 0% 17% 83% 0%

Oferece treinamento profissional 0% 0% 0% 100%

Salário compatível com a função 8% 33% 59% 0%

Frequência de reuniões no setor 0% 0% 0% 100%

Participação nas atividades informais da instituição 50% 42% 8% 0%

Legenda: (1) Muito Satisfeito (2) Satisfeito (3) Pouco Satisfeito (4) Insatisfeito
Fonte: Elaborados pelos autores

119
Dossiê UESPI 30 Anos

No que tange às condições físicas de seja, é através desta informalidade que os laços
trabalho, suas instalações e equipamentos do setor afetivos se constroem.
em estudo não são satisfatórios, para 83% dos Em última questão, o formulário apresentava
pesquisados. O valor percentual é expressivo elas opções de fatores que os colaboradores poderiam
podem ser associadas com a satisfação do colabora- identificar como importantes para a manutenção do
dor uma vez que é importante e essencial que as bom clima organizacional. Dentre as opções, a
pessoas trabalhem em local arejado, com apoio às maioria representada por 50% dos respondentes
suas funções por meio de maquinário e suporte escolheu o reconhecimento do trabalho realizado,
tecnológico eficiente. seguidos de 25% que marcaram satisfação na relação
O treinamento profissional, quando ofere- com o chefe, 17% que optaram pela remuneração e
cido pela Instituição, pode ser um aspecto motiva- 8% que escolheram participação no processo
dor, porém, conforme se observa na tabela, os decisório. Quando estimuladas adequadamente, as
colaboradores não estão satisfeitos com a frequên- pessoas são levadas a grandes realizações e maior
cia de oportunidades de treinamento, isso colocado produtividade. Nesta perspectiva, os objetivos
através da percepção de 100% dos pesqui-sados poderão ser atingidos trazendo maior realização no
que, mesmo representado por um grupo de pequeno trabalho.
número, pode ser determinante no desempenho do
setor. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O salário compatível com a função mostra se


Após conhecer o ambiente de trabalho da
este fator está sendo satisfeito, pois o trabalhador
Diretoria de Planejamento e Orçamento da UESPI,
dentre alguns fatores de motivação, precisa ter uma
com o auxílio da aplicação de um questionário que
remuneração justa. A maioria de 59% dos
revela a opinião dos colaboradores do setor, sobre os
pesquisados tornam evidente que o salário pago
elementos influenciadores do clima organizacional,
pela Instituição não corresponde ao nível de
verificou-se, nas respostas, como pontos satisfatórios
exigência de sua função. Este fator está estabelecido
a valorização da participação dos membros na
na teoria dos dois fatores de Herzberg (apud
tomada de decisão, uma boa relação interpessoal,
CHIAVENATO, 1999) mais precisamente nos
ambiente social produtivo, a participação nas
fatores higiênicos. Isso implica dizer que há
atividades de integração oferecida pela Instituição, o
possibilidades de insatisfação em relação ao salário
reconhecimento do trabalho, assim como o
recebido pelos colaboradores pesquisados. recebimento de feedback e o grau de satisfação
Verifica-se, através do resultado, que não há elevado por trabalhar no setor.
satisfação com a frequência de reuniões com os Como pontos de insatisfação, foram indica-
colaboradores do setor e saber qual a participação das as condições físicas do ambiente de trabalho,
dos colaboradores nas atividades da instituição raras oportunidades de treinamento, inexistência de
permitirá saber qual o grau de integração existente reuniões com os colaboradores, além dos frágeis
entre eles, o que é apoiado também pelo seu critérios utilizados para promoção e o salário recebi-
relacionamento interpessoal. As reuniões formais do pela função desempenhada aquém das expectati-
não são satisfatórias, mas em relação às atividades vas. Diante destas evidências, apreende-se que o
informais, conforme visualizado acima, os servido- clima no referido ambiente de trabalho não se
res estão bastante satisfeitos com as atividades de configura tão satisfatório, mas que apresenta fatores
integração oferecidas pela universidade, seguidos que poderiam ser melhorados, visto que uma das
por uma margem representativa e pouco inferior na propriedades do clima organizacional é ser mutável e
escala. As atividades de integração permitem a relativamente maleável. Portanto, podem ser
articulação dos indivíduos na organização, o modificados através de ações gerenciais e políticas,
conhecimento de todos os colegas de trabalho, ou metas e objetivos estratégicos, somadas a sua equipe,

120
Dossiê UESPI 30 Anos

orientadas e preparadas para gerir pessoas, são sem REFERÊNCIAS


dúvida, os maiores responsáveis na definição do
clima organizacional necessário ao desenvolvimen- BABBIE, E. Métodos de pesquisa de Survey.
to de projetos motivacionais. Bela Horizonte: Editora UFMG, 2003. BERGAMINI,
C. W. Psicologia aplicada à administração de
O maior subsídio que uma investigação
empresas: psicologia do comportamento
sobre clima organizacional pode dar é concretizar
organizacional. 3 ed. São Paulo: Atlas, 1996.
um plano de ação imediato para programar
medidas, não somente que melhorem os aspectos CHIAVENATO, I. Recursos humanos nas
desfavoráveis, mas que mantenham aqueles empresas: pessoas, organização e sistemas. São
positivos, e que comecem a fornecer algum tipo de Paulo: Atlas, 1999.
tratamento para aqueles aspectos que porventura
não tenham apresentado uma tendência nítida de _________, I. Gestão de pessoas: o novo perfil
opinião. dos recursos humanos nas organizações. Rio de
Neste sentido, propõem-se algumas ações Janeiro: Campus, 1998.
com o intuito de garantir a melhoria do Clima
Organizacional na Diretoria de Planejamento e CASTRO, A. P. Motivação nas Organizações. IN:
Boog, Madalena e Gustavo (org). Manual de
Orçamento da UESPI: (i) melhorias e/ou mudanças
Gestão de Pessoas e Equipes: estratégias e
na estrutura física para que seja favorável a um bom
tendências. Vol. 1. São Paulo: Gente, 2002.
desempenho das tarefas; (ii) criar oportunidades de
treinamento para os colaboradores do setor; (iii)
CODA, R. Pesquisa de clima organizacional:
realizar reuniões periódicas, com fins de facilitar a uma contribuição metodológica. Tese de Livre
comunicação entre a chefia e os colaboradores; (iv) Docência apresentada no Departamento de
avaliar os critérios utilizados para promoções; (v) Administração da FEA/USP, 1993.
melhorias de salários de muitos que se sentem
prejudicados, para que se sintam motivados a novos CASADO, T. A motivação e o trabalho. In: Boog,
desafios com satisfação Madalena e Gustavo (org) Manual de gestão de
Dados e informações a respeito do clima pessoas. Vol. 2. São Paulo: Gente, 2002. p247-257.
organizacional servem de poderoso orientador
político da empresa, servindo também como DUTRA, J. S. Gestão de Pessoas: modelos,
processos, tendências e perspectivas. 1 ed. Rio de
indicador das atitudes dos funcionários e dos efeitos
janeiro: Atlas, 2002.
que estas provocam uma importante contribuição
deste estudo, para administradores e acadêmicos
ENRIQUEZ, E. O indivíduo preso na armadilha da
que se interessem pelo tema em questão. Além do
estrutura estratégia. Revista de Administração
estudo proposto neste trabalho, atentamos para as de Empresas. São Paulo; v. 37, n. 1, jan/mar – 1997.
oportunidades de desenvolvimento de novas p. 18-29.
pesquisas nesta área temática, a fim de enriquecer o
campo de conhecimento da gestão de pessoas, FRANÇA, A. C. L.; ARELLANO, E. B. Liderança,
especificamente na gestão pública das universida- poder e comportamento organizacional. In: GOOG,
des. Madalena e GUSTAVO. Manual de Gestão de
Pessoas. Vol. 2. São Paulo: Gente, 2002. p 259-269.

FREITAS, H. et al. O método de pesquisa survey.


Revista de Administração, São Paulo, v. 35, n. 3,
p. 105-112, jul./set., 2000

121
Dossiê UESPI 30 Anos

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formação, tipologias e impactos. São Paulo: estatal. Revista de Administração de Empre-
Makron, Mcgraw-Hill, 1991. sas, Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, p. 14-18, jan/mar,
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FLEURY, M. T. L.; SAMPAIO, J. R. Uma discussão
sobre cultura organizacional. In: Boog, Madalena e TEIXEIRA, J. E.. Clima organizacional: empregados
Gustavo (Org.). Manual de gestão de Pessoas. satisfeitos fazem bem aos negócios. In: Manual de
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MAY, T. Pesquisa social – questões, métodos e VERGARA, S. C. Gestão de Pessoas. São Paulo:
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soal: treinamento em grupo. 3. ed. Revista e
ampliada. Rio de Janeiro: Olympio, 1995.
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dos Cursos de Pós-graduação em Adminis-
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SMITH, P. B.; PETERSON, M. F. Liderança,


Organização e Cultura. São Paulo: Pioneira,
1994.

122
Dossiê UESPI 30 Anos

PIBID/ 2011-2016, CONTRIBUIÇÕES PELO CONTEXTO


DOS TRINTA ANOS/UESPI

PIBIB/2011-2016, CONTRIBUTIONS BY THE CONTEXT


THE THIRTIES/UESPI ABSTRACT

Umbelina Saraiva ALVES1


2
Elilian Basílio e SILVA

1
Profª Me DE – UESPI, Coordenadora de Gestão do Pibid /2013-2016
2
Profª. Me. Curso de Pedagogia/UESPI – Campus Clóvis Moura - Coordenadora Institucional do PIBID/UESPI

RESUMO
O presente artigo trata do “PIBID/UESPI 2011-2016, contribuições ao contexto dos trinta anos”. Pretendeu-se
como objetivo geral analisar os impactos do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID
na formação dos acadêmicos da UESPI em Teresina e nos municípios de atuação do Pibid. A relevância da
pesquisa ocorreu devido à necessidade de se saber os impactos do Programa na voz dos envolvidos no processo
a partir dos relatórios parciais e finais, lidos e analisados. Na realização desta pesquisa, optou-se por trabalhar
com uma abordagem bibliográfica de fundamentação em Ramos (2011), França (2009), Tardif (2002), Brito
(2006), Altet (2003), dentre outros e de campo. Os Relatórios dos Coordenadores de área e Memoriais dos
bolsistas foram documentos essenciais para análise documental. Também se utilizou a técnica da observação
nas visitas técnicas realizadas aos Campi pela Coordenação Institucional. A consolidação do PIBID/UESP
alcançou, de 2011 a 2016, impactos satisfatórios para os alunos da UESPI envolvidos, no sentido de torná-los
mais seguros em relação à ação docente. Os acadêmicos envolvidos apresentaram um grande amadurecimento
acadêmico, o resultado da ação dos subprojetos/PIBID na concepção dos acadêmicos e coordenadores de área,
mostra a aceitação e satisfação com os impactos do Programa na ação docente e aprendizado dos alunos da
Educação Básica.

Palavras- chave: PIBID/UESPI. Formação. Licenciaturas.

ABSTRACT
This article deal with “PIBID/UESPI 2011-2016, contributions to the context of the thirties”. It is intended as a
general purpose: Analyze the impacts of the Program PIBID in the training of the academics from the UESPI in
Teresina city as well as in the municipalities where they operate the Pibid. The relevance of the research
occurred due to the need to know the impacts of the Program in the voice of those involved in the process from
the partial and final reports, read and analyzed. In this research, we chose to work with a bibliographical
approach to state reasons in Ramos (2011), France (2009), Tardif (2002), Brito (2006), Altet (2003), among
others and from field. The reports from the area Coordinators and Memorials of the grantees were essential
documents for document analysis. Technique of observation was also used during the technical visits carried
out on the campi by the Institutional Coordination. The consolidation of PIBID / UESP reached, from 2011 to
2016, satisfactory impacts for the UESPI students involved, in the sense of making them safer in relation to the
teaching activity. The academics involved presented a great academic maturity, the result of the action of the
subprojects / PIBID in the conception of the academics and area coordinators, shows the acceptance and
satisfaction with the impacts of the Program in the teaching action and learning of the students of Basic
Education.

Keywords: PIBID/UESPI. Formation. Degrees.

123
Dossiê UESPI 30 Anos

INTRODUÇÃO à docência de futuros professores dos cursos de


licenciaturas para atuarem no âmbito da Educação
A contemporaneidade constitui-se como Básica na articulação teoria e prática.
cenário de mudanças epistemológicas e metodoló-
gicas em relação à formação de professores, as OBJETIVO GERAL
pesquisas tornam-se acessíveis aos professores no
exercício da sua profissão. Nesse contexto vigente, Analisar as contribuições do Programa PIBID
vislumbram-se mudanças positivas que oportuni- na formação dos acadêmicos nas licenciaturas.
zam aos professores apresentar o resultado no
exercício da função exercida, antes destinados O PROGRAMA PIBID/UESPI COMO POLÍ-
apenas aos pesquisadores que não vivenciavam a TICA EDUCACIONAL
prática pedagógica.
Entende-se por política educacional o
Compreendendo-se que, em contextos
conjunto de diretrizes, decisões e ações, assumidas
anteriores, preponderavam ações tecnocráticas
pelo estado com o intuito de desenvolver educação
racionalistas presentes ainda hoje nas práticas
formal, devendo assegurar condições de acesso e
docentes; atualmente professores são impulsiona-
permanência no processo educativo. O Plano
dos a promover mudanças favoráveis ao processo
Nacional de Educação, criado a partir da Lei
educativo através da ação, reflexão, ação. Cada vez
13.005/2014 consiste legalmente em garantir no
mais, amplia-se o interesse docente atuante em
prazo de dez anos a execução de programas
pesquisas e assuntos relacionados ao exercício de
estabelecidos independentemente da mudança ou
sua prática e buscam maior envolvimento político
não de partidos políticos. Antes, os projetos eram
que favorece a melhoria da educação brasileira.
iniciados, eram extintos e novos eram lançados,
Conforme o contexto já mencionado, a provocando o processo de descontinuidade das
relevância da pesquisa ocorreu devido à necessida- ações.
de de se saber as contribuições do Programa PIBID
Em meio a esse contexto, a educação
em memória aos trinta anos da UESPI, completados
brasileira obedece a organismos internacionais,
em 2016 e ainda pela explicitação das contribuições
segue modelos de ensino que deram certo em outros
das ações do Programa na voz dos envolvidos no
países, com outras crianças, em outro contexto
processo a partir dos relatórios parciais e finais,
social, e aplicam no Brasil como se todas as crianças
lidos e analisados, bem como pela atuação das
do mundo fossem iguais, desrespeitando suas
pesquisadoras como docentes efetivas da Universi-
particularidades, sua realidade social. Isso agrava
dade Estadual do Piauí e também no exercício da
cada vez mais o problema da educação brasileira.
função de coordenadoras do PIBID/UESPI (2013-
Nesse âmbito, França expõe (2009, p. 39):
2016). Na realização deste estudo, as referidas
pesquisadoras optaram por trabalhar com uma
Constatamos que, na atualidade, pressionado
pesquisa bibliográfica de fundamentação em Ramos pelo baixo desempenho dos sistemas educa-
(2012), França (2009), Tardif (2002), Brito (2006), cionais em âmbito internacional e nacional
[...]. Vários programas e ações têm sido
Altet (2003), dentre outros, e de campo, com análise
desenvolvidos nos âmbitos federais, estaduais
de dados documentais envolvendo todos os e municipais para ampliar as oportunidades
subprojetos da capital e municípios de atuação no educacionais da educação básica e melhorar a
sua qualidade. Porém, são iniciativas, na sua
PIBID. maioria, desarticuladas, induzidos por meio
Implantado na instituição conforme decreto do financiamento e ações e programas nem
sempre realizados de modo orgânico.
n° 7219, de 24 de junho de 2010, em 2011, esse
programa tem a finalidade de fomentar a iniciação à

124
Dossiê UESPI 30 Anos

Devido à necessidade de corte de gastos escolas públicas e auxiliá-los no desenvolvimento de


como discurso de garantia de desenvolvimento do metodologias diversificadas que estimulem o
país, inúmeros cortes foram realizados inesperada- aprendizado dos alunos e melhorem o seu desem-
mente pondo em risco o fim de políticas públicas de penho Conforme o explicitado, a CAPES em parceria
impactos consideráveis como o PIBID, programa com a Universidade Estadual do Piauí como órgão
destinado à educação em parceria com Instituições público governamental, compreende que a qualidade
Universitárias com aplicabilidade em instituições da educação não está relacionada somente a dados
de Educação Básica. Porém, diante da sua quantitativos de resultados providos da realização de
importância, permaneceu por representar ganhos provas de desempenho. Nesse âmbito, programas
ao ensino público piauiense que necessita de públicos como o PIBID podem possibilitar a
investimentos em programas educativos sistemati- melhoria do sistema educacional através de práticas
zados com o intuito de melhorar a qualidade da estimulantes desenvolvidas a partir das necessidades
educação, configurando a melhoria do processo de cada escola.
educativo nas escolas. A complexidade do contexto de formação
inicial dos Cursos de Licenciaturas da Universidade
PIBID E SUA CONTRIBUIÇÃO AO CONTEX- Estadual do Piauí – UESPI imprime à IES adotar
TO DOS TRINTA ANOS DA UESPI processos de formação docente direcionados a ações
que impulsionem os futuros professores, reflexões
Diante do contexto vigente, em relação aos sobre suas práticas pedagógicas. Acredita-se que o
trinta anos comemorados por todos os que fazem a PIBID/UESPI promove esse desafio a graduandos,
UESPI, o Programa Institucional de Bolsa de professores e demais atores sociais no contexto
Iniciação à Docência (PIBID) dentre os demais é um educacional no sentido de propiciar práticas
dos caçulas da IES com 6 (seis) anos de vigência. transformadoras do cotidiano escolar.
Como iniciativa da Fundação Coordenação e
O Programa PIBID/UESPI é originado a partir do
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior –
Decreto 7.219, de 24 de junho de 2010, e em
CAPES e ligado à PREX (Pró - Reitoria de extensão,
conformidade com a Portaria CAPES nº 96 e demais
Assuntos Estudantis e Comunitários) visa à
normas aplicáveis executadas pela instituição desde
valorização da formação de professores para 2011. A proposta inicial contemplou o número de 458
Educação Básica, envolvendo os Campi/UESPI: bolsistas referente ao projeto PIBID/UESPI 2011 que
Torquato Neto, Clóvis Moura, Campo Maior, totalizou 08 subprojetos; em 2012 ampliou 07 novos
Piripiri, Parnaíba, Floriano, Picos, Oeiras e São subprojetos, perfazendo um total de 15 até fevereiro
Raimundo Nonato. A referida ação do MEC concede de 2013; com abertura do edital de nº 61 /2013,
bolsas a alunos das licenciaturas participantes de ampliou-se para 2014 até 2017, o total de 20,
projetos de iniciação a docência, desenvolvidos por perfazendo 35 subprojetos com 1.018 bolsistas.
Instituições de Educação Superior (IES) como a Segue ampliação do PIBID/UESPI conforme os
UESPI em parceria com escolas de Educação Básica editais de concorrência.
da Rede Pública de Ensino e ainda disponibiliza no
As exigências da formação inicial nas
atual contexto, bolsas para 1 (hum) Coordenador
Licenciaturas da Universidade Estadual do Piauí –
Institucional e (4) quatro Coordenadores de Gestão
UESPI adotam processos de formação docente
com a incumbência de acompanhar o Programa
direcionados ao ato de pensar, agir em constante
administrativamente.
diálogo com o conhecimento, conforme aborda Brito
`` O PIBID/UESPI surge com o intuito de (2007, p. 51) “[...] está relacionado à especificidade
minimizar as dificuldades dos professores de da profissão docente. Esse conhecimento é de
3
Vale ressaltar que atualmente devido aos cortes realizados pela CAPES os números do quadro representativo acima foram alterados
e representam atualmente um pouco mais de seiscentos bolsistas

125
Dossiê UESPI 30 Anos

Quadro 1 – Editais de concorrência do PIBID

Edital
Tipo de Bolsista
2011/2013 2014/2016

Coordenador Institucional 01 01

Coordenadores de Gestão 01 04

Coordenadores de Área 15 57

Supervisores 30 116

De Iniciação a Docência 244 840

TOTAL 291 1018

Fonte: Arquivos PIBID/UESPI, 2016.

natureza polivalente, dinâmico, construído e re- SABERES DA PRÁTICA NA FORMAÇÃO


construído de forma permanente [...]”. Considera- ACADÊMICA
se que o PIBID/UESPI intensifica as trocas de
experiências e saberes entre os pares a partir de No âmbito nacional, um problema comum
reflexões críticas. Ao longo do período em vigência, enfrentado pelo corpo docente em sua prática são os
destacam-se resultados relevantes em nível de questionamentos sobre a qualidade da formação
metodologias diversificadas e inovadoras, além de inicial, ofertada nas universidades do país aos
pesquisas sobre as ações desenvolvidas nos graduandos ao longo dos cursos de licenciaturas.
subprojetos. Acadêmicos em período de estágio questionam o
fosso existente entre teoria e prática pedagógica e os
O PIBID/UESPI contribui com a formação
saberes repassados pelos docentes geralmente
docente, a vivência do fenômeno da educação no
desarticulados entre si.
“Sistema Público de Ensino” além de possibilitar
que se travem novos diálogos interativos. Estimula Tardif (2002, p. 234) explica:
o crescimento e a valorização dos profissionais do
magistério, provoca reflexões sobre a parceria das [...] o trabalho dos professores de profissão deve
ser considerado como um espaço prático
licenciaturas com as escolas de Educação Básica em específico de produção, de transformação e de
contínua formação. Ainda colabora na formação por mobilização de saberes específicos ao ofício de
tratar-se de uma oportunidade de exercitar a professor. Essa perspectiva equivale a fazer do
professor – tal como o professor universitário ou o
formação docente inicial para uma nova cultura de pesquisador da educação – um sujeito de
construção da profissionalização tal qual aborda conhecimento, um ator que desenvolve e possui
Altet (2003, p. 15) “[...] supõe a adesão e o sempre teorias, conhecimentos e saberes de sua
própria ação.
envolvimento ativo dos atores implicados” que
podem ocorrer no interior das escolas e da
Cada vez mais professores têm sido cobrados
academia. Nesse âmbito, nascem novos tempos de
para que haja efetivação entre teoria e prática, mas,
aprendizagens individuais e coletivas, oriundos de
no dia a dia, nem sempre essa intenção acontece. A
ações institucionalizadas.
pesquisa e extensão, estimulados no passado nos

126
Dossiê UESPI 30 Anos

espaços acadêmicos unicamente aos docentes aulas estimulantes e prazerosas numa prática
pesquisadores das instituições universitárias, pedagógica que contribua para resgatar o interesse
ampliou-se aos alunos partícipes do programa dos estudantes pelo ambiente escolar.
PIBID/UESPI como parte da formação em
desenvolvimento para atuar paralelamente como METODOLOGIA
professor/acadêmico atuante na Educação Básica.
Na contemporaneidade, é desejável que as Para a realização deste estudo, considerou-se
IES articulem ações de ensino, pesquisa e extensão essencial a pesquisa bibliográfica e documental na
já que se evidenciam em muitas escolas públicas intenção de coletar informações para melhor
brasileiras uma separação entre a prática pedagó- delineamento dos objetivos propostos. Nesta pesqui-
gica do professor e a real necessidade dos alunos. sa, os dados quantitativos foram essenciais às
Autores, como Ramos (2011), consideram que isso análises, complementados pelos aspectos qualitati-
se deve a falhas na formação inicial nas instituições vos do diálogo com os sujeitos. A pesquisa
formadoras. Afirma que muitos teóricos e pesquisa- qualitativa, como explicita Lakatos (2009, p. 271),
dores não vivenciam cotidianamente a prática em “pode ser caracterizada como a tentativa de uma
sala de aula e acabam por definir saberes que fogem compreensão detalhada dos significados e caracterís-
a realidade dos alunos. Conforme Ramos (2011, p. ticas situacionais apresentadas”.
26), pode-se considerar como motivo para Os Relatórios dos Coordenadores de área e Memori-
preocupação: ais dos bolsistas foram documentos essenciais para
análise documental, pois leituras minuciosas dos
[...] quando observamos o baixo índice de
documentos, informações relevantes sobre as ações
desenvolvimento educacional de nossos
alunos, não obstante os inúmeros esforços e nos subprojetos foram fundamentais para a interpre-
avanços que o país experimentou nas tação e análise dos dados contidos nos relatórios e
últimas décadas há motivos para apreen-
sões (RAMOS, 2011, p. 26). Memoriais, conforme orienta Bardin (1995) no que
se refere à análise de conteúdo.
Dessa forma, em programas como o A técnica da observação foi essencial nas
PIBID/UESPI, desenvolvem hábitos que o ajudam a visitas realizadas aos Campi pela Coordenação
enfrentar as inúmeras situações contingenciais da Institucional e de Gestão, na confirmação ou
profissão docente que podem transformar-se em refutação das análises, conforme define Minayo
características profissionais manifestadas através (2007, p. 70): “o processo pelo qual o pesquisador se
do seu fazer pedagógico, do seu saber fazer validado coloca como observador de uma situação social com a
pelo seu trabalho diário para tentar amenizar finalidade de realizar uma investigação científica”.
possíveis necessidades que não foram sanadas em Explica-se o fato de as pesquisadoras estarem
sua formação inicial. Por isso, a importância dessas no ambiente de pesquisa no período em que
experiências ocorrerem na graduação através do ocorreram ações do PIBID nos subprojetos da capital
programa PIBID. e dos municípios por se constituírem como
A relevância das práticas desenvolvidas nas coordenadoras do Programa no contexto da pesquisa
escolas certamente traz grandes benefícios aos na UESPI, permitindo às pesquisadoras o diálogo
docentes de iniciação, pois os convida a realizar uma espontâneo, observação e acompanhamento do
permanente reflexão sobre sua própria prática em universo de 57 Coordenadores de área e 840 bolsistas
sala de aula e a partir dessa ação, prepará-los para o de iniciação como sujeitos desta pesquisa,
mundo real em busca de conhecimento e alterna- apresentados no quadro 1, sobre o desenvolvimento
tivas como tentativas de aproximar o aluno à de ações dos subprojetos PIBID/UESPI para
realidade em que está inserido. Além de aprimorar o confirmação dos dados analisados a partir dos
conhecimento do alunado, poderá proporcionar resultados dos relatórios anuais I, referente ao

127
Dossiê UESPI 30 Anos

Projeto Pibid/2014 e o II, correspondente ao Projeto um dos maiores problemas enfrentados pelos
Pibid/2016 enviados à CVD/CGV/DEB/CAPES/ educadores em relação à educação pública escolar.
Brasília – Distrito Federal. Outro dado positivo foi o estímulo dado aos
estudantes das escolas em relação à aproximação da
RESULTADOS ALCANÇADOS Universidade nas suas vidas; o impacto que desperta
o interesse em ingressar nela, as monitorias contri-
A formação como um processo que se inicia buíram decisivamente para a problematização do
na Universidade e se estende às escolas de Educação ensino com estímulo à criatividade e à autonomia nos
Básica, onde os Bolsistas de Iniciação à Docência processos de aprendizagem estudantil. No que se
têm a chance de vivenciar e levar aos espaços refere à formação dos professores, é constante, na
escolares ações inovadoras apreendidas a partir dos fala dos bolsistas, a afirmação de que as atividades do
conhecimentos teóricos que proporcionam práticas programa ajudam a ter uma visão mais ampla e
inovadoras, capazes de gerar resultados e impactos complexa do que é ser um profissional da educação.
significativos à aprendizagem. De maneira sucinta,
Quanto aos impactos, conforme as informa-
destacou-se como resultado o cumprimento de
metas que o Programa estabeleceu no que se refere ções identificadas nos relatórios dos Coordenadores
às ações desenvolvidas nos 35 subprojetos de Área sobre os professores que tiveram contato
desenvolvidos em oito municípios do Piauí. com os bolsistas, 98% quase a totalidade testemu-
nharam que aprenderam com os alunos bolsistas,
No cenário científico, o Programa proporci-
sobretudo pela motivação que estes apresentaram no
onou em contínuos três anos, eventos de
desenvolvimento das atividades do magistério.
socialização de pesquisas sobre as práticas
Melhorou a desenvoltura da comunicação, o trabalho
desenvolvidas em diversos subprojetos no “I, II e III
em equipe, o desenvolvimento lúdico, o tempo
Encontros Pedagógicos PIBID/UESPI”, bem como
dedicado aos estudos, resultando em uma melhoria
o I e o II Colóquios com o envolvimento de aproxi-
das notas destes. Alguns impactos são inquestioná-
madamente 3.000 (três mil) participantes em todos
veis, outro aspecto importante é a sedimentação da
os eventos e 400 (quatrocentos) trabalhos apresen-
ideia de que o professor é um pesquisador, pois não é
tados.
possível uma prática docente sem o respaldo teórico
Como resultados das produções, foram de um pensador.
apresentadas, no II e III encontros, duas coletâneas
impressas de artigos dos coordenadores de gestão, Os bons resultados proporcionados pelos
coordenadores de área, supervisores e bolsistas de Subprojetos PIBID/UESPI nas licenciaturas trouxe-
iniciação, contidos em cadernos como sínteses ram benefícios formativos gerados pelas atividades
científicas reflexivas sobre as questões pedagógicas pibidianas, seja em relação a contribuições relativas
e metodológicas ligadas aos processos formativos, ao ensino, à pesquisa e à extensão. Conforme os
através da produção do conhecimento nas áreas das dados sistematizados, todos os coordenadores de
licenciaturas resultantes da atuação no Programa. área, bolsistas e supervisores dos Subprojetos
Tais coletâneas constituem a sistematização, fruto observam uma melhoria na qualidade do ensino das
do esforço e do compromisso dos educadores que escolas assistidas como também um melhor
fizeram e fazem do PIBID/UESPI um movimento desempenho dos alunos. Conforme análise dos dados
coletivo mobilizador e transformador dos saberes pesquisados, os subprojetos proporcionam aos
em um projeto de sociedade menos desigual. discentes bolsistas do Programa uma percepção do
As diversas ações dos subprojetos PIBID que é o universo escolar e de que forma podem
contribuíram decisivamente para a sensibilização e solucionar problemas pedagógicos presentes no
reconhecimento discente de sua identidade docente cotidiano da sala de aula.

128
Dossiê UESPI 30 Anos

CONSIDERAÇÕES FINAIS BRITO, Antônia Édna. Sobre a Formação e a prática


Pedagógica: o saber, o saber-ser e o Saber-fazer no
O PIBID/UESPI constitui uma realidade no exercício Profissional. In: MENDES SOBRINHO,
que se refere à formação de professores de iniciação José augusto, CARVALHO, Marlene Araújo de.
à docência e se destaca por ser um Programa de Formação e Prática Pedagógica: Diferentes
formação interdisciplinar, hoje com maior número contextos de análises. Belo Horizonte: Autêntica,
de bolsas ofertadas por esta IES. Acredita-se que o 2006.
processo de consolidação do Programa PIBID
FRANÇA, Magda; BEZERRA, Mauro Costa (org.) et
alcançou de 2011 a 2016 no cotidiano das escolas
al. Política Educacional: gestão e qualidade do
parceiras, ações que possibilitaram contribuições
ensino. Brasília: Liber livro, 2009.
em melhorias à qualidade do ensino das escolas de
Educação Básica envolvidas no Programa. Tais LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Maria de
perspectivas se fortalecem em razão da exequibili- Andrade. Fundamentos da metodologia cientí-
dade e da aceitação das atividades propostas por fica. São Paulo: Atlas, 2009.
parte dos bolsistas e demais participantes dos
subprojetos. MINAYO, Maria Cecília de Sousa. Pesquisa social:
teoria método e criatividade. Petrópolis: Vozes,
Conforme os dados analisados, os alunos
2007.
envolvidos no Programa PIBID apresentaram um
grande amadurecimento acadêmico, fruto do RAMOS, Mozart Neves; ROITMAN, Santilla Isaac.
contato com a docência. Espera-se que esses alunos A Urgência da Educação. Fundação Santillana.
possam aplicar todo o conhecimento e experiência São Paulo: Moderna, 2011.
vivenciada nos subprojetos em sua futura profissão
como docente. Relatório de atividades do Programa PIBID/UESPI/
ano base 2014.
Outro aspecto positivo foi a consolidação da
parceria escola e universidade uma vez que cada Relatório de atividades do Programa PIBID/UESPI/
nova atividade realizada pelos bolsistas certamente ano base 2016.
contribuiu com o desenvolvimento da aprendiza-
TARDIF Maurice. Saberes docentes e formação
gem dos alunos. As expectativas para o atendimento
profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
de novos subprojetos é meta da administração
superior, porém, é salutar reforçar a ideia de que,
para operacionalizar tais demandas, perpassa pela
necessidade de ampliação através de novos editais
via CAPES/MEC.

REFERÊNCIAS

ALTET, Marguerite et al. A Profissionalização


incerta dos Formadores de Professores. In: ALTET,
Marguerite, Léopolde Paquay e Philippe Perrenoud:
A profissionalização dos formadores de
professores. trad. Fátima Murad _ Porto Alegre:
Artmed, 2003.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo.


Lisboa: Edições 70, 1995.

129
Outros Temas

FATORES EXTRÍNSECOS E NÍVEL DE INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL PARA ATIVIDADES


DA VIDA DIÁRIA EM IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS RELACIONADOS AO RISCO DE
QUEDAS EM INSTITUIÇÕES DE LONGA PERMANÊNCIA

EXTRINSIC FACTORS AND LEVEL OF FUNCTIONAL INDEPENDENCE FOR ACTIVITIES OF


DAILY LIVING REGARDING INSTITUTIONALIZED SENIOR CITIZENS WHO WERE IN RISK
OF FALLIN

Carla Mikaella de Moura BRASIL1


Veruska Cronemberger Nogueira REBELO2

1
Graduação em Fisioterapia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI (2016). Aprimoranda em fisioterapia
cardiorrespiratoria no Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes.
2
Doutora em Engenharia Biomédica pela UNIVAP. Possui GRADUAÇÃO em FISIOTERAPIA pela UNIFOR.
Especialista em Fisioterapia Traumato-ortopedia pelo COFFITO, em Administração de Recursos Humanos pela AESPI
e Gerontologia Social pela UFPI. MESTRADO em Engenharia Biomédica pela UNIVAP. Atualmente é Professora
Adjunta da Universidade Estadual do Piauí - UESPI.

RESUMO
Objetivo: Investigar o nível de independência funcional para atividades da vida diária (AVD´S) e os fatores
ambientais dos idosos institucionalizados associados ao risco de quedas em instituições de longa permanência
(ILPI´S). Métodos: A avaliação da capacidade funcional foi realizada com a escala de Katz. Participaram 72
idosos de ambos os gêneros divididos em 2 grupos: G1 – deambulam sem auxílio (74,97 ± 7,5 anos) e G2
–deambulam com auxílio (78,38 ± 8,5 anos). A avaliação ergonômica ambiental das ILPI´S foi realizada
através de um questionário check list validado baseado no Estatuto do Idoso e da NBR 9050.
Resultados: Com relação à atividade funcional, maior independência ocorreu em alimentar-se em ambos os
grupos. A avaliação ergonômica nas ILPI´S apontou os mobiliários e acessos como pontos que mais necessitam
de correção de acordo com a legislação vigente. Conclusão: Os idosos institucionalizados são parcialmente
independentes para a realização das AVD'S e as ILPI´S apresentaram nível de acessibilidade arquitetônica
insuficiente para garantir autonomia e independência funcional gerando alto risco de quedas.

Palavras-chave: Envelhecimento. Institucionalização. Ergonomia.

ABSTRACT
Objectives: This study investigated the level of functional independence for Activities of Daily Living (ADL)
and environmental factors of institutionalized senior citizens associated with the risk of falls in a retirement
home. Method: A functional capacity evaluation was performed using The Katz Index. Seventy-two senior
citizens of both genders were divided into two groups and participated in this study: G1 - those that walked
independently (74.97 ±7.5 years) and G2 - those that could not walk independently (78.38 ± 8.5 years). The
environmental ergonomic evaluation of the retirement home was conducted through a validated checklist
based on The Senior Citizens' Statute and Brazilian Standard NBR 9050. Results: Regarding the functional
activity, greater independence occurred in the feeding of both groups. Ergonomic assessment in the retirement
home pointed out furnishings and access required improvement in accordance with current legislation.
Conclusions: Institutionalized senior citizens are partially independent to carry out ADL and the retirement
home had levels of architectural accessibility insufficient to guarantee autonomy and functional independence,
thus generating a high risk of falls.

Key Words: Aging. Institutionalization. Ergonomics.

130
Outros Temas

INTRODUÇÃO avaliação e assinaram o termo de consentimento


livre e esclarecido, concordando em participar
O acentuado aumento da demanda social de voluntariamente da pesquisa.
idosos nas últimas décadas tem gerado preocupa-
O presente estudo foi realizado em quatro
ções não somente em relação aos custos elevados
ILPI´S de Teresina, Piauí, no período de agosto de
para o Estado, mas com as condições de saúde,
2015 a julho de 2016. Foram avaliados 72 idosos
qualidade de vida, autonomia e independência desta
(média de idade de 76,5 anos), acima de 60 anos, de
parcela da população que envelhece, necessitando,
ambos os gêneros, no cálculo amostral foi
portanto, de políticas sérias e consistentes a
1 considerado um poder estatístico de 80% e nível de
respeito .
significância de 5%. Nos critérios de exclusão, foram
Os idosos, em geral, dispõem de poucas excluídos os idosos acamados e com síndrome do
atividades físicas para participarem, agravando imobilismo.
assim o ciclo: envelhecimento, menor capacidade
A coleta de dados foi realizada em duas
funcional e sedentarismo2. Os comportamentos
etapas. Na primeira etapa, foi realizada uma
sedentários trazem severas consequências para a
avaliação ergonômica ambiental dos locais de
saúde e qualidade de vida dos longevos, pois fatores
circulação dos idosos nas ILPI´S, como: sala de TV,
como força, equilíbrio, flexibilidade e resistência
refeitório, ala masculina, feminina e sanitários. A
física encontram-se debilitadas, principalmente em
segunda etapa foi constituída da avaliação funcional
idosos institucionalizados, causando maior
dos idosos institucionalizados.
probabilidade de sofrer quedas do que os idosos não
institucionalizados3,4. Para a avaliação ergonômica, foi utilizado um
questionário check list – análise ergonômica
A etiologia da queda é normalmente multifa-
validado, que teve como base o Estatuto do Idoso e da
torial, podendo ser divididos em fatores extrínsecos
NBR 9050, na qual estão descritas as normas e
(fatores ambientais, tais como ilumina-ção,
superfície para deambulação dentre outros) e padrões para o funcionamento de ILPI´S, clínicas
fatores intrínsecos (por exemplo, limitação das geriátricas e outras instituições destinadas ao
atividades de vida diária, o uso de medicamentos e atendimento de idosos quanto à área física, sendo
problemas de mobilidade)5, 6. Portanto, o presente excluída a questão referente à utilização de aquece-
estudo tem por objetivo avaliar o ambiente e o risco dores por conta das características climáticas de
de quedas em idosos correlacionando com o nível de Teresina. O questionário foi subdividido nos itens:
independência funcional para atividades da vida área física e instalações, iluminação, ruídos,
diária (AVD´S), levando em conta o efeito do ventilação/temperatura, cores, mobiliário e acessos.
ambiente na função, dessa forma analisando os O ambiente interno das instituições foi
ambientes de longa permanência localizados na registrado com máquina fotográfica Nikon, 16.0
cidade de Teresina e correlacionar com a indepen- megapixels, mensurado com trena metálica e
dência dos seus residentes. observado quanto à disposição de mobiliário, acesso
aos ambientes, portas e esquadrias, escadas,
MÉTODOS rampas, instalações sanitárias, dormitórios, tipos
de materiais de construção, área de recreação e
Trata-se de uma pesquisa clínica, transversal, quan- dietética.
titativa, analítica, comparativa e de levantamento de
Na segunda etapa do estudo, foi utilizado o
dados. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética
índice de KATZ, desenvolvido para pacientes
em Pesquisa (nº 1.143.739). Os responsáveis e/ou
institucionalizados e frequentemente utilizado para
idosos e seus cuidadores receberam uma explicação
a avaliação das AVD’S em idosos. O grau de
detalhada sobre os objetivos e procedimentos de

131
Outros Temas

assistência exigido é avaliado em seis atividades: la 1 apresenta a distribuição por gênero e em faixa
tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, transferên- etária. As médias do tempo de instituicionaliza-ção
cia, continência e alimentar-se. A pontuação final e do índice de Katz estão apresentadas na Tabela 2.
resulta da soma da pontuação das seis AVD´S e varia Distribuiu-se a relação dos resultados
entre zero (dependente) a seis pontos (independen- encon-trados em cada atividade funcional (banhar,
te), correspondendo à pontuação ao número de vestir-se, ir ao banheiro, transferência, continência
AVD´S em que o idoso é independente. urinária e fecal, alimentar-se) e evidenciaram-se em
Para realizar a análise dos dados, foi utiliza- todas as variáveis estudadas graus variados de
do o programa estatístico SPSS, versão 21 e realizada comprometimento. A atividade continência uriná-
uma análise descritiva dos dados ergonô-micos. ria e fecal foi a que apresentou maior comprometi-
mento em G2, enquanto que maior independência
RESULTADOS funcional ocorreu na atividade de alimentar-se em
ambos os grupos (Tabela 3).
A avaliação da capacidade funcional foi reali- A figura 1 compara os grupos de participan-
zada em uma amostra de 72 voluntários residentes tes com o grau de dependência, evidenciando maior
de quatro diferentes instituições de longa perma- dependência no grupo G2 quando comparado com
nência com idade acima de 60 anos divididos em G1.
dois diferentes grupos segundo a capacidade de de-
ambular sem auxílio (G1) e com auxilio (G2). A tabe- No que diz respeito à avaliação do ambiente
la 1 apresenta a distribuição por gênero e em faixa físico das quatro ILPI’S, os principais itens que
etária. As médias do tempo de instituicionaliza-ção e necessitam de adaptação são os mobiliários e os
do índice de Katz estão apresentadas na Tabela 2. acessos (Figura 2).

Tabela 1- Perfil sociodemográfico dos idosos institucionalizados, Teresina - PI, 2015

G1(n=38) G2(n=34)
Variáveis % Valor Absoluto %
Valor Absoluto

Gênero

Feminino 14 36,8 26 76,5

Masculino 24 63,2 8 23,5

Faixa etária/ anos

60 a 69 anos 9 23,7 6 17,6

70 a 79 anos 20 52,6 9 26,5

Acima de 79 anos 9 23,7 19 55,9

LEGENDA: G1 – deambulam sem auxílio. G2 – deambulam com auxílio. % Porcentagem.

132
Outros Temas

Tabela 2 – Idade, índice de Katz e tempo de institucionalização (média ± desvio-


padrão) nos dois grupos avaliados, Teresina - PI, 2015.

G1(n=38) G2(n=34)
Variáveis
Média e DP Média e DP

Idade 74,97±7,5 78,38±8,52

Índice de Katz 5,68±0,9 1,7±2

Tempo de institucionalização 4,97±5,1 3,61±2,9

LEGENDA: G1 – deambulam sem auxílio. G2 – deambulam com auxílio. DP = Desvio Padrão.

Tabela 3 - Distribuição dos idosos segundo a independência em cada atividade


funcional (banhar, vestir-se, ir ao banheiro, transferência, continência urinária e
fecal, alimentar-se), Teresina - PI, 2015.

G1(n=38) G2(n=34)
AVD
Valor Absoluto % Valor Absoluto %

Banho 35 92,1 7 20,6

Vestir 35 92,1 10 29,4

Ir ao banheiro 36 94,7 7 20,6

Transferência 36 94,7 15 44,1

Continência urinaria e fecal 36 94,7 5 14,7

Alimentação 38 100 24 70,6

LEGENDA: G1 – deambulam sem auxílio. G2 – deambulam com auxílio. % Porcentagem. AVD – Atividade de Vida Diária.

DISCUSSÃO Uma pesquisa semelhante apontou que as


principais atividades funcionais que os idosos
Em consonância com vários estudos sobre institucionalizados apresentavam independência
risco de quedas em ILPI´S, os resultados desta eram a alimentação e continência enquanto que o
pesquisa mostram que a incidência de mulheres presente estudo apontou apenas a atividade de
institucionalizadas (40) é maior comparada ao alimentação como a mais independente em ambos
gênero masculino (32), bem como a maioria da os grupos avaliados15.
população de idosos estudada possui propensão a Estudos mostram através da aplicação do
uma dependência funcional para AVD´S segundo o índice de Katz que, de acordo com o avanço da faixa
índice de Katz e as mulheres tiveram maior risco em etária, há um retrocesso na capacidade funcional
serem dependentes para as AVD´S que os homens 7, 8, 9, dos idosos, porém constatou-se a presença de
10, 11, 12,13, 14.

133
Outros Temas

Figura 1 - Distribuição dos idosos segundo a relação entre dependência e grupo


correspondente, Teresina - PI, 2015.

ĊD
ĊĆ
ČD
ČĆ
ĈD
ĈĆ
D
Ć
GÑŐÑŌŇŲŌŃÒMPŎPMÕ GÑŐÑŌŇŲŌŃÒMÖ ŎŇÑǾMŇM HŌŇÑŐÑŌŇŲŌŃÒMPŎPMÕ

ĠĈ ĠČ

LEGENDA: G1 – deambulam sem auxílio. G2 – deambulam com auxílio.

Figura 2 – Relação entre a adequação ergonômica em quatro diferentes instituições


de longa permanência para idosos (ILPI`S) com o valor ideal (total) possível de ser
atingido, segundo um questionário validado, Teresina - PI, 2015.

LEGENDA: ILPI1 - instituições de longa permanência para idosos 1. ILPI2 - instituições de longa permanência
para idosos 2. ILPI3 - instituições de longa permanência para idosos 3. ILPI4 - instituições de longa permanência
para idosos 4.

dependência funcional até mesmo nos sujeitos mais Na análise ergonômica das ILPI’S, obser-
jovens, o que evidenciou o déficit das funções em vou-se uma falta de padronização na construção das
idosos institucionalizados 1 6 . Oliveira e Mattos instituições e a estrutura física não segue totalmente
destacam a prevalência de dependência para AVD´S as normas técnicas estabelecidas pela NBR 905018.
nos idosos institucionalizados (6,4 vezes maior) do Não foi observada na maioria das ILPI´S avaliadas a
que a observada em idosos da comunidade embora os presença de saídas de emergência sinalizadas
18
fatores de risco associados aos dois tipos de considerada obrigatório na legislação vigente .
17.
dependência sejam similares nos dois grupos Em apenas uma ILPI, a edificação era vertical,

134
Outros Temas

as outras três ILP’S seguiam o padrão horizontal, o dores de ar em alguns quartos e no refeitório de
que facilitava a locomoção e evitava acidentes como apenas uma instituição, havendo desconforto
19, 20
quedas . térmico nas ILPI'S, devido à elevada temperatura
As instituições possuíam iluminações natu- local da cidade de Teresina. Os resultados deste
rais por portas, basculantes e janelas e iluminação estudo estão em desacordo com a NBR que estipula
artificial com lâmpadas o que permitia a mudança intervalos de temperatura operativa para ambientes
gradual da iluminação em espaços transitórios, internos no verão e no inverno conforme a umidade
porém não possuíam luz de vigília nos dormitórios e relativa do ar, visto que no verão, os intervalos são
banheiros, considerados obrigatório na legislação de 22,5°C a 25,5°C, com umidade relativa de 65% e
19
vigente . Nas instituições que apresentam escadas 23,0°C a 26,0°C, com umidade relativa de 35%23.
ou degraus, observou-se uma necessidade de Em todas ILPI’S pesquisadas, os pisos eram
implantar iluminação adequada nestes ambientes revertidos com azulejos brancos, antiderrapantes e
ou utilizar barreiras para evitar a circulação de sem muito brilho como recomendado pela NBR
idosos, minimizando assim o risco de quedas. 18
9050 . Em duas ILPI’S, predominavam as cores
O estudo realizado por Sloane e colaborado- frias e havia padronização das cores, enquanto as
res com um grupo de 66 pacientes demonstrou que o demais apresentavam cores vivas contratantes
aumento da exposição à luz durante o dia tem efeitos permitindo noção espacial dos idosos através do
24
benéficos sobre o sono e ritmo circadiano de contraste para ajuste visual .
pacientes com demência. Devido a resultados como A disposição do mobiliário nos refeitórios e
esses, o aumento do nível de iluminância geral nos
salas possibilitava a circulação e minimizavam o
ambientes onde as pessoas com demência passam
risco de acidentes, com ausência de tapetes soltos
seus dias é uma abordagem que tem recebido muita
sobre o piso e móveis baixos no centro destes
popularidade21.
ambientes, respeitando a legislação vigente 19 .
As ILPI’S não possuem mecanismos para Na avaliação dos mobiliários no interior dos quar-
redução de ruídos. Em geral, elas estão localizadas tos, verificou-se ausência do botão de campainha na
em regiões com poucos ruídos. Os ruídos observados cabeceira de cada leito nas quatro ILPI’S, em apenas
em duas das instituições visitadas se deveram aos uma das quatro instituições havia alguns leitos com
seguintes motivos: (1) Presença de barulho por conta grades nas camas e presença de criado-mudo com
de uma reforma que estava sendo realizada na luminária, em relação à quantidade de leitos por
instituição; (2) Diversos aparelhos de sons quarto, houve variação entre as instituições e em
individuais disputando a atenção em um mesmo uma delas o número máximo de leitos por quarto
ambiente. Uma estratégia comum para promover extrapolou o máximo recomendado19.
um bom conforto acústico é utilizar materiais que
Os espaços privativos (quartos e banheiros)
ajudem a absorver o som, principalmente nas áreas
privadas da casa, como os quartos, promovendo são os locais de maior permanência dos idosos
assim um bom local de descanso. Podem ser institucionalizados e apresentaram maior déficit de
utilizados forros acústicos, cortinas de tecidos acessibilidade nas ILPI´S, portanto com maior risco
pesados, carpetes higiênicos e pisos acústicos, de acidentes, o que justifica a maior prevalência de
diminuindo assim a reverberação e garantindo quedas em vários estudos com idosos residentes em
25, 26, 27
22
maior inteligibilidade e conforto para o usuário . ILPI’S .

Nas ILPI’S, a ventilação natural era possível Na avaliação dos acessos, os pontos em
por meio de portas e janelas, havendo grande desacordo com a legislação vigente variaram entre
circulação de ar no local, enquanto a ventilação as instituições, podendo-se destacar: corredores
artificial era por meio de ventiladores na maioria dos com largura menor que os padrões exigidos;
ambientes, exaustores nas cozinhas e condiciona- corrimão em apenas um dos lados de corredores;

135
Outros Temas

corrimões instalados a uma altura e distância da avaliar as alterações de equilíbrio e as atividades


parede acima do recomendado; rampas com tapete instrumentais da vida diária, pois a maioria da
antiderrapante em péssimo estado de conservação; amostra de idosos encontrava-se em estado de
ausência de maçanetas em algumas portas; ausência fragilização.
de adaptações com barras de apoio em instalações Com a realização do presente estudo, foi
sanitárias; ausência de dispositivos de campainha possível concluir que a população prevalente nas
nos sanitários; e altura inadequada de vasos e bacias ILPI’S são idosos frágeis com maior vulnerabilidade
sanitárias. Dessa forma, as inadequações arquitetô- funcional, parcialmente independentes, para a
nicas e de mobiliário encontradas nas ILPI´S podem realização das AVD'S devido ao declínio natural do
ser considerados indicadores que predispõem aos envelhecimento e às condições de saúde e de
28
riscos de quedas . institucionalização, além do nível de acessibilidade
Analisando os resultados deste estudo quan- arquitetônica ainda ser insuficiente para garantir
to à avaliação física, foi possível perceber que a autonomia e independência funcional gerando alto
rotina das ILPI’S, muitas vezes, não permite que os risco de quedas.
idosos realizem as atividades de autocuidado e que Dessa forma, um bom nível de acessibilidade
tenham total autonomia sobre suas vidas, pois isso em uma ILPI pode ser um fator importante na
demanda maior contingente de trabalhadores e melhora do nível de independência funcional para
maior tempo na execução do cuidado. As instituições as atividades cotidianas dos idosos residentes,
têm um papel fundamental na evolução do grau de principalmente na população idosa mais frágil e
dependência do idoso, podendo ser fator de piora, cadeirante. Novos estudos são necessários para o
quando limitam as atividades e os estímulos melhor conhecimento do perfil dos idosos institu-
fornecidos a essa população 29. cionalizados, suas potencialidades funcionais, bem
A maioria das ILPI'S no estado do Piauí é fi- como a contribuição de um ambiente acessível na
lantrópica, oferecendo cama e comida, sem prevenção de quedas, autonomia e independência
infraestrutura adequada e sem profissionais habili- dessa população.
tados para cuidar dos idosos. De acordo com Del
Duca e colaboradores, existe uma significativa REFERÊNCIAS
associação entre quedas e indivíduos residentes em
instituições públicas e filantrópicas dos quais 19,2% Aires M, Paz AA, Perosa CT. Situação de saúde e
sofreram fraturas decorrentes de quedas, sendo que grau de dependência de pessoas idosas instituciona-
a maior parte delas localizadas nos membros lizadas. Revista Gaúcha de Enfermagem. 2009
inferiores30. Tal situação reflete a ausência de Sep 30;30(3):492.
conhecimento ou fiscalização das políticas públicas e
Álvares LM, da Costa Lima R, Da Silva RA. Ocorrência
de planejamento na assistência prestada. Na
de quedas em idosos residentes em instituições de
presente pesquisa, também se evidenciou a
longa permanência em Pelotas, Rio Grande do Sul,
necessidade de adequação ergonômica e dos
Brasil Falls by elderly people living in long-term care
recursos humanos, para garantir a saúde plena do
institutions in Pelotas, Rio Grande do Sul State. Cad
idoso, pois as demandas encontradas reforçam a
saúde pública. 2010 Jan;26(1):31-40.
realidade de muitos lares para idosos.
As possíveis limitações do estudo a serem ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNI-
levantadas são as seguintes: não foram coletadas CAS. NBR 16401-2: instalações de ar-condicionado:
informações sobre o número de quedas dos idosos, sistemas centrais e unitários: parte 2: parâmetros de
item importante e que se faz necessário para a efetiva conforto térmico. . ABNT; 2008.
avaliação do evento queda e também não foi possível

136
Outros Temas

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNI- De Araújo Nunes VM, de Menezes RM, Alchieri JC.
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Outros Temas

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138
Outros Temas

CATALOGAÇÃO E DIGITALIZAÇÃO DA DOCUMENTAÇÃO HISTÓRIA DE SÃO


RAIMUNDO NONATO, PIAUÍ (SÉCULOS XIX E XX): RELATOS DE EXPERIÊNCIA

CATALOGUING AND SCANNING OF SÃO RAIMUNDO NONATO'S HISTORICAL


DOCUMENTATION (PIAUÍ, XIX AND XX): EXPERIENCE REPORTS

1
Déborah Gonçalves Silva

1
Licenciada em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI); Mestre em História Social pela Universidade
Federal do Maranhão (UFMA); Doutoranda em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA); Docente do Curso
de História da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Campus São Raimundo Nonato. Coordenadora do Projeto de
Extensão de “Catalogação e Digitalização da Documentação Histórica de São Raimundo Nonato (séculos XIX e XX)”.
E-mail: gmdeborah@gmail.com

RESUMO
O trabalho refere-se ao relato de experiência de salvaguarda da documentação histórica de São Raimundo
Nonato, Estado do Piauí, antes acondicionada no acervo do Judiciário do Fórum da referida cidade. O artigo
descreve as etapas de execução do Projeto de Extensão de “Catalogação e Digitalização da Documentação
Histórica de São Raimundo Nonato, PI (séculos XIX e XX)”, desenvolvido pelo curso de Licenciatura em
História do Campus Prof. Ariston Dias Lima, UESPI de São Raimundo Nonato. O projeto, ainda em
desenvolvimento, conta com as seguintes etapas: identificação, diagnóstico e higienização, classificação,
catalogação, digitalização e construção de banco de dados. Além de procurar garantir a conservação de
documentos históricos importantes para a sociedade, objetiva-se também, proporcionar o contato dos
discentes do curso de História às fontes de pesquisa, bem como, contribuir para o acesso e disseminação da
informação.

Palavras-chave: Documentos Históricos; Conservação; Digitalização;

ABSTRACT
This work refers to the safeguarding report experience of historic documentation from São Raimundo Nonato
city, State of Piaui. The documents were stored before in the city's forum. This article describes the steps for
implementing the Extension Project, named “Cataloguing and Scanning of São Raimundo Nonato's Historical
Documentation (Piauí, XIX and XX)”, that was created by history course from Professor Ariston Dias Lima
campus, UESPI, in São Raimundo Nonato city. The project, yet on development stage, has the following steps:
identification, diagnosis and hygienization, classification, cataloguing, scanning and database construction. In
addition to ensuring the conservation of important historical documents for society, the project aims to provide
the history student's contact at research sources, as well as contribute to the access and information
dissemination.

Key Words: Historical Documents; Conservation; scanning;

139
Outros Temas

1.INTRODUÇÃO contou com o resgate, a higienização e diagnóstico, a


qualificação e catalogação dos documentos.
“O documento que dorme nos arquivos é não A segunda etapa, ainda em desenvolvimento,
somente mudo, mas órfão; os testemunhos corresponde a digitalização e organização das
que encerra desligaram-se dos autores que imagens em banco de dados, e, consequentemente,
os puseram no mundo; estão submetidos a formação e organização do Centro de Documenta-
aos cuidados de quem tem competência ção e Pesquisa em História de São Raimundo
para interroga-los”. Nonato, buscando constituir os acervos históricos
Paul Ricoeur, 2007. que sejam capazes de gerar séries documentais e
banco de dados em Excel com as mais variadas
A partir do Projeto de Extensão PREX fontes que se puder guardar e salvaguardar a fim de
/UESPI n. 06747/16 intitulado “Catalogação e que possa viabilizar a pesquisa e produção escrita
Digitalização da Documentação Histórica de São sobre a história local.
Raimundo Nonato – PI, (séculos XIX e XX)”, Os documentos revelam uma grande riqueza
idealizado pela professora Ma. Déborah Gonçalves de informações para o desenvolvimento de estudos e
Silva, a UESPI passou a salvaguardar os documentos pesquisas acadêmicas em diversos temas, tais como
de valor sócio-histórico acondicionados no acervo escravidão, comércio, política, relações sociais e
do Fórum de São Raimundo Nonato. Através da familiares, biografias, transmissão de bens e
parceria entre a direção do Campus Prof. Ariston propriedades rurais e urbanas, patrimônio, dentre
Dias Lima, a coordenação do Curso de História e o outros. Esse escopo documental garante aos
diretor do Fórum, o Laboratório de História recebeu discentes do Curso de História o contato com tais
documentos situados entre o século XIX e XX, tais fontes que poderão subsidiar futuras pesquisas,
como: testamentos, inventários post-mortem, arro- bem como, ser utilizado em sala de aula. Além disso,
lamentos, registros de compra e venda, processos o projeto fortalece a importância da digitalização
crime, cartas de alforria, correspondências, dentre para salvaguardar essa documentação e torná-la
outros. acessível.
A escolha da documentação do acervo do É necessário salientar que o desenvolvimen-
Judiciário, se deu a partir do diagnóstico das to deste trabalho pela Universidade Estadual do
condições inadequadas de acondicionamento, assim Piauí, campus universitário Prof. Ariston Dias Lima,
como, pelo fato de estar ameaçada de extinção se justifica pela preocupação em recuperar,
devido a sua fragilidade e aos efeitos de agentes organizar e preservar os acervos documentais que já
físicos, químicos e biológicos que podem danificar existem e que estão se perdendo por conta da ação
e/ou até levar a perda total do acervo. Além disso, do tempo e do tratamento inadequado. Para que
levou-se em consideração a sua relevância para a possamos construir um acervo aberto à comunidade
História de São Raimundo Nonato e região e para o acadêmica e ao público em geral, visto que, a cidade
desenvolvimento de pesquisas, bem como, a de São Raimundo Nonato não dispõe de um Arquivo
necessidade de garantir a preservação dos documen- Público. Além disso, ocorre a necessidade de
tos e a disseminação de informações existentes no valorizar a história e a memória de São Raimundo
acervo. Nonato e do Piauí, através do desenvolvimento e
O projeto, dividido em duas etapas, tem por fortalecimento de pesquisas acadêmicas na região.
finalidade desenvolver um trabalho centrado em O texto a seguir tem como objetivo relatar as
higienizar, organizar, catalogar e digitalizar o acervo experiências já adquiridas a partir da execução do
documental recolhido no Fórum de São Raimundo projeto de extensão supracitado, descrevendo as
Nonato, para garantir a preservação da História e da etapas de desenvolvimento e a metodologia de
Memória desta região. A primeira etapa, já concluí- trabalho desenvolvida no projeto.

140
Outros Temas

2.RELATOS DE EXPERIÊNCIA COM A DO- em risco de extinção devido a ação do tempo, a


CUMENTAÇÃO HISTÓRICA umidade e os ataques de cupins e traças (ver
imagens 1 e 2). Conforme destaca Esther Bertoletti
O Projeto de Extensão iniciou a partir da (2012, p. 12), “o que acontece na maioria das
retirada da documentação antes acondicionada no instituições que possuem documentos de memória,
Fórum do município. Como trata-se de uma sejam elas públicas ou privadas, é que só em
documentação frágil devido o tempo, a preocupação situações extremas, quase de catástrofe, se começa a
inicial era de garantir que os documentos de valor pensar em um trabalho de preservação dos
histórico pudessem receber um tratamento documentos”. Neste sentido, era necessário e de
adequado no que refere a conservação, para que não interesse das duas instituições, garantir a organiza-
fossem extintos. Todo esse material estava ção, catalogação, digitalização e conservação do
acondicionado numa sala do Fórum, de modo que acervo para que se pudesse subsidiar o desenvolvi-
encontrava-se desorganizada e, alguns documentos mento de pesquisas e o acesso a informação.

Imagens 1 e 2: Acervo do Fórum de São Raimundo Nonato - P

Fonte: Laboratório de História/UESPI de São Raimundo Nonato-PI

Os conjuntos documentais são diversificados momento, o Laboratório de História do Campus


e em quantidade significativa, compreendendo Prof. Ariston Dias Lima, recebeu um total de 445
documentos primários do acervo cartorial e do documentos, entre esse número encontram-se: 178
judiciário. Desse modo, conforme definido com o inventários post-mortem e testamentos, cartas de
Juiz da Comarca de São Raimundo Nonato e com a alforria, registros de compra e venda de terras,
equipe do Fórum, a retirada dos documentos deveria ambos do século XIX; 175 inventários post-mortem,
ocorrer em duas etapas, sendo que a primeira delas 49 processos crime, 36 retificações de nome,
ocorreu ainda no mês de junho e a segunda etapa correspondências oficiais e registros de eleições,
será mediante a finalização do trabalho com o compreendendo o século XX.
primeiro lote de documentos. Num primeiro

141
Outros Temas

Toda essa documentação, bem como, as curso de História da Instituição na medida que,
informações contidas na mesma, em certa medida é garante o acesso dos discentes as fontes e a pesquisa
desconhecida pela população de São Raimundo histórica.
Nonato e região, especialmente pelo fato de não Inicialmente os discentes envolvidos no
haver um Arquivo Público no município e, as projeto, recebem um treinamento para manuseio
pesquisas que exploram esse escopo documental adequado da documentação, bem como, para
serem incipientes. Desse modo, alunos e pesquisa- desenvolverem as atividades de diagnóstico e
dores, tiveram o primeiro contato com essas fontes higienização. Em seguida, participaram de uma
quando passaram a ser salvaguardadas pela UESPI. oficina de Paleografia, com o objetivo de conhece-
Atualmente, o projeto conta com oito bolsis- rem as principais etapas da escrita, os manuscritos
tas, sendo seis voluntários: Adrienny Cavalcante, brasileiros e desenvolverem técnicas para a leitura
Elisa Dos Santos Deusdará, Kamila Ramos paleográfica. Na ocasião, também exploraram os
Rodrigues, Nara Fernanda Sousa Lopes, Rodrigo diferentes tipos de documentos acondicionados no
Ribeiro De Sousa e Ronailto Ribeiro De Castro; um Laboratório de História, para que pudessem
estagiário: Sidimara Benevides Luz e um bolsista conhecer a sua estrutura, assim como transcrever as
PIBEU: Mateus Alves de Carvalho. Todos são informações contidas nos mesmos. Por fim,
discentes do Curso de História da UESPI de São receberam uma oficina de Digitalização de Docume-
Raimundo Nonato e estão cursando o 1º, 5º e 7º ntos Históricos, onde conheceram as regras de
período. A salvaguarda dos documentos de valor digitalização, tais como: cuidados adequados à
histórico pela UESPI, torna-se relevante para o documentação histórica, padrões de imagem, tipo
curso de História da Instituição na medida que, de câmera ideal, foco, lente, régua de cores, régua
garante o acesso dos discentes as fontes e a pesquisa métrica, conversão de imagens e armazenamento.
histórica.

s
Imagens 2 e 3: Proces o de diagnóstico e higienização dos documentos

Fonte: Laboratório de História/UESPI de São Raimundo Nonato-PI

142
Outros Temas

2.1 Seleção, Diagnóstico e Higienização ção dos documentos, pois as sujidades em suporte
de papel são as principais responsáveis pela
Face à deterioração causada pelas condições degradação da documentação. A limpeza é realizada
inadequadas de acondicionamento, ao chegar no de forma mecânica, de modo que sejam utilizadas
Laboratório de História da UESPI a documentação luvas de algodão, máscaras e jalecos, para evitar o
precisou receber alguns cuidados, tais como: contato com o pó existente nos documentos. Utiliza-
seleção, limpeza e diagnóstico. Como os documen- se uma trincha com cerdas macias sempre com
tos estavam desorganizados, estes foram separados movimentos leves e no sentido contrário de quem
e organizados por tipo e período ao qual pertenciam. está realizando a atividade de limpeza. O pó de
Em seguida, foi realizado o diagnóstico de cada borracha quando aplicado em movimentos
documento, procurando identificar as seguintes circulares e leves auxilia na retirada de sujidades na
questões: tipo de documento, local e data, número superfície do documento. Nesse processo de
de folhas, nomes dos envolvidos, capa, encaderna- limpeza, com o auxílio da trincha e do bisturi, são
ção e características de deterioração (sujidades, retirados a poeira, fuligens, os excrementos de
perda de folhas, manchas, ataques biológicos, insetos, traças, cupins e aranhas, entre outros. Após
rasgos, dobras, ondulações, perfuração por insetos, esse procedimento de higienização, foram
fragilidades, entre outros). removidos os alfinetes, clipes, grampos, fitas
A higienização constitui-se como um dos adesivas, barbantes que interferem na conservação
procedimentos mais importantes para a conserva- do documento. Os documentos com dobras e
ondulações foram planificados.

Imagem 4: Processo de diagnóstico e higienização dos documentos

Fonte: Laboratório de História/UESPI de São Raimundo Nonato-PI

143
Outros Temas

2.2 Registro e Catalogação O procedimento utilizado é a digitalização


através da captura de imagens com uma câmera
Finalizado o processo de higienização, os fotográfica de alta resolução para garantir a
documentos foram registrados, ou seja, inventaria- integridade do documento original e a legibilidade
dos e numerados e, em seguida, organizados em da cópia digital. De acordo com o Conselho Nacional
caixas de material polionda e envoltos em papel de Arquivos, “a digitalização de acervos é uma das
alcalino, sem adesivos ou barbantes. Esse ferramentas essenciais ao acesso e à difusão dos
procedimento também é importante para garantir acervos arquivísticos, além de contribuir para a sua
que o documento não sofra ataques biológicos, preservação, uma vez que restringe o manuseio aos
físicos e químicos. originais[...]” (CONARQ, 2010, p.4). Portanto, a
A inventariação do acervo documental foi digitalização dos documentos contribui tanto para
realizada levando em conta a necessidade de facilitar o acesso e a disseminação das informações,
registrar todas as informações relacionadas a cada como para a segurança e preservação dos documen-
documento, bem como, para garantir a rapidez na tos.
localização dos mesmos. Dessa forma, foi desenvol- O trabalho está sendo realizado no Labora-
vido um banco de dados em Excel onde cada tório de História, na UESPI de São Raimundo
documento recebeu um código e junto a ele foram Nonato, que recebeu equipamentos para que o
digitadas as informações como: caixa, tipo de projeto fosse executado. Como descrito anterior-
documento, local e data, autor, número de folhas, mente, toda a documentação em processo de
fonte (judiciário ou cartorial), situação física do digitalização está sob a salvaguarda da UESPI, onde
documento, resumo das informações contidas no já recebeu tratamento adequado e está sendo
interior do mesmo. O quadro 1 é um modelo de digitalizada. O ambiente é climatizado, possui
identificação das caixas polionda onde o material mesas para que a equipe prepare o documento que
está acondicionado. será digitalizado e computadores para o armazena-
mento dos arquivos já digitalizados.
2.3 Digitalização e Armazenamento O processo de captura da imagem é realizado
com a preocupação de que os riscos de danos ao
Após todo o processo descrito nos itens documento sejam os menores possíveis, por essa
anteriores, partiu-se para a digitalização dos razão optamos por não utilizarmos scanners nesse
documentos. É importante ressaltar que, essa etapa processo. Outra questão diz respeito a reprodução
encontra-se em desenvolvimento, há três semanas em imagem digital, que deve ter a mesma dimensão
os membros do projeto estão digitalizando todo o física e as cores do documento original, de modo que
acervo. a resolução garanta a produção de uma imagem
digital que possa ser legível.

Quadro 1 – Modelo de identificação das caixas acondicionadas no Laboratório de História

CAIXA 1

CÓDIGO TIPO DE DOCUMENTO ANO QUANTIDADE

144
Outros Temas

Imagens 6 e 7: Processo de digitalização dos documentos históricos

Fonte: Laboratório de História/UESPI de São Raimundo Nonato-PI

Para isso, preparou-se uma “mesa de A proposta é disponibilizar o arquivo digital


reprodução”, com fundo preto, marcação para área para consultas e pesquisas, tanto para estudantes e
do documento (régua métrica e escala de cores), pesquisadores, como para a comunidade em geral.
iluminação e tripé com a câmera. A câmera digital é
conectada via dispositivo USB a um computador
A tecnologia digital permite aos Arquivos
para que seja feita a captura remota das imagens,
Públicos enfrentar o desafio entre
isto é, todo o procedimento de captura da imagem é conservação e acesso. Métodos, ferramentas
feito pelo computador. O documento é colocado na e tecnologias avançadas no campo da
digitalização, armazenamento, recuperação
mesa de reprodução de modo que fique alinhado e e apresentação de imagens e outros tipos de
dentro da área que será capturada a imagem. (ver documentos históricos estão atualmente a
imagens 6 e 7). disposição das instituições responsáveis
pela preservação da memória (ANDRADE,
Após gerar a imagem digital do documento, et.al., 2003, p.2).
a mesma é nomeada para facilitar a sua consulta e,
em seguida armazenada. Posteriormente, todas as
Portanto, esse procedimento de digitaliza-
imagens digitais são revisadas para verificar se estão
ção além de ser realizado com mais agilidade,
dentro das normas estabelecidas no projeto, onde é
preserva o documento, na medida que o manuseio
feita uma cópia em mídia de DVD-R e uma cópia de
do mesmo é o menor possível.
segurança em HD externo.

145
Outros Temas

3. RESULTADOS PRELIMINARES 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como mencionado anteriormente, este rela- Acreditamos que além de assegurar a


to de experiência trata de um projeto ainda em conservação de documentos importantes para a
desenvolvimento, portanto, apresentamos alguns História de São Raimundo Nonato e região, é
resultados já alcançados e, posteriormente o que possível fortalecer o Laboratório de História do
ainda será realizado pelo projeto de extensão de campus de São Raimundo Nonato, de modo que
“Catalogação e Digitalização da Documentação também seja um espaço de pesquisa tanto para os
Histórica de São Raimundo Nonato-PI (séculos XIX discentes e docentes do campus, como para a
e XX)”. comunidade. Consequentemente, esperamos que
A partir deste projeto, o curso de História projeto também contribua com a formação
recebeu uma sala ampla para abrigar o Laboratório complementar dos discentes no que refere à
de História e a documentação histórica retirada do pesquisa histórica, permitindo que os mesmos
Fórum, além dos equipamentos necessários para a possam aplicar na prática o que aprendem em sala
realização das atividades, tais como: câmera digital, de aula, bem como, a aproximação entre universi-
tripé, computador, scanner, móveis, dentre outros. dade e comunidade em geral, de modo, a promover a
O projeto que começou a ser executado em troca de experiências e a disseminação da informa-
junho deste ano, já conta com todos os documentos ção.
higienizados, classificados, diagnosticados, catalo- Ressaltamos a importância da participação e
gados e estão em processo de digitalização, onde até envolvimento dos alunos que foram convidados a
o momento já foram geradas mais de 3 mil imagens fazerem parte do projeto e que estão dedicados a
com resolução entre 600 e 1200d.p.i e em formato desenvolver todo o planejamento de trabalho,
JPG, que possibilita o armazenamento de imagens muitas vezes superando o que foi proposto no
com qualidade e em tamanhos reduzidos. A projeto inicial, ou seja, estão motivados e empenha-
digitalização desses documentos históricos permite
dos em pesquisar e na divulgação dos resultados do
a conservação dos mesmos, além da facilidade do
em eventos e palestras.
acesso, conhecimento de sua existência, desenvolvi-
mento de pesquisas com fontes pouco utilizadas nos Ao final do projeto, esperamos concluir
estudos desenvolvidos na região, e a preservação da todas as atividades propostas, de modo a formar o
memória. acervo digital de todos os documentos salvaguarda-
dos pela UESPI. Por fim, desejamos que o
Além de fazerem leituras orientadas sobre os
Laboratório de História da Universidade Estadual
documentos históricos e de temas que poderão ser
do Piauí, Campus Prof. Ariston Dias Lima em São
abordados a partir de tais fontes, os discentes que
participam do projeto, desenvolvem pesquisas Raimundo Nonato, seja uma referência para as
utilizando a documentação histórica, onde já pesquisas sobre a região, visto que a documentação
apresentaram os resultados preliminares em histórica acondicionada no mesmo, além de
eventos acadêmicos. A partir do contato com as diversificada, apresenta enorme quantidade de
fontes, alguns discentes do Curso de História informações sobre diferentes temáticas. Os
desenvolveram os seus projetos de pesquisa para os documentos encontram-se disponíveis a pesquisa-
seus TCCs, possibilitando o contato com as fontes dores e a comunidade interessados pelas fontes
documentais e, consequentemente com a pesquisa documentais e pelos temas a elas relacionados.
histórica. Além dos alunos do curso de História, o
Laboratório também passou a receber pesquisado-
res e moradores de São Raimundo Nonato, interes-
sados em conhecer os documentos e realizar
pesquisas.

146
Outros Temas

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Nelson Spangler de; et al. Gestão


documental nas instituições arquivísticas: a preser-
vação da memória. São Paulo, Infoimagem, 2003.
Disponível em: <laplace.dcc.ufmg.br /npdi/
modules/news1/visit.php?fileid=26> Acesso em:
10/04/2016.

BERTOLETTI, Esther Caldas. Como fazer programa-


mas de reprodução de documentos de arquivos. São
Paulo: Arquivo do Estado, 2002. Disponível em:
<http://www.saesp.sp.gov.br/cf7.pdf>. Acesso em:
10/04/2016.

CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS -


CONARQ. Recomendações para Digitalização de
Documentos Arquivísticos Permanentes. 2010.

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Diretrizes


de Preservação na Fundação da Biblioteca Nacional.
2006. Disponível em: <http://www.bn.br/site/pa
ges/servicosProfissionais/preservacao/diretrizes.p
df> Acesso em: 10/04/2016.

147
Outros Temas

SÍNDROMES DE POLINIZAÇÃO E DE DISPERSÃO DAS ESPÉCIES LENHOSAS NOS


PARQUES AMBIENTAIS EM TERESINA, PIAUÍ, BRASIL

POLLINATION AND DISPERSAL SYNDROMES WOODY SPECIES IN


ENVIRONMENTAL PARKS IN TERESINA, PIAUÍ, BRAZIL

SÍNDROMES DE POLINIZACIÓN Y DISPERSIÓN DE ESPECIES LEÑOSAS EN EL


PARQUE AMBIENTAL EN TERESINA, PIAUÍ, BRASIL.

1
Francisco Soares SANTOS-FILHO
2
Caio Jefiter dos Reis Santos SOARES
3
Amanda Caroline Rodrigues da SILVA
4
Yara Dorneles Soares de QUEIROZ
5
Silvane de Sousa HONÓRIO
Franciele Ferreira SILVA6

1
Universidade Estadual do Piauí (UESPI), francisco.soares@pq.cnpq.br, lattes.cnpq.br/1941820037679346
2
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), csoares.dgrs@gmail.com, lattes.cnpq.br/4672880336042153
3
Universidade Estadual do Piauí (UESPI),amandacrds@hotmail.com, http://lattes.cnpq.br/8832343945763263
4
yaradornelles@hotmail.com, http://lattes.cnpq.br/7275541561741946
5
silvane_honorio@hotmail.com http://lattes.cnpq.br/8583072647323570
6
Universidade Estadual do Piauí (UESPI) francielly.fs11@gmail.com, http://lattes.cnpq.br/8985395774985935

RESUMO
A cidade de Teresina (PI) apresentou um crescimento urbano acelerado que consumiu suas florestas nativas.
Como forma de compensar esta degradação, foram criadas áreas de parques preservando fragmentos florestais.
Este trabalho teve como objetivo mostrar as diferentes estratégias de polinização e de dispersão desenvolvidas
por espécies lenhosas encontradas em parques urbanos. Foram analisados os frutos de 24 espécies e
classificados de acordo com a bibliografia especializada. A família mais abundante foi Fabaceae; o tipo de fruto
mais abundante foi o legume, com 46%; a polinização mais frequente foi o realizado por abelhas e a forma de
dispersão mais comum foi zoocórica.

Palavras-Chave: Florestas estacionais semideciduais. Dispersão. Parques Urbanos. Teresina.

ABSTRACT

Teresina (PI) showed a fast urban growth that has consumed its native forests. In order to compensate this
degradation, forest fragments were preserved by the creation of parks and reserves. The present study aimed to
show the different strategies of pollination and dispersal developed by the woody species found in urban parks.
We analyzed the fruits of 24 species and classified according to the literature. The most abundant family was
Fabaceae; the most abundant type of fruit was the vegetable with 46%; common type of pollination was by bees
and the most common form of zoocoric dispersion.

Key-Words: Semideciduous forests. Dispersal. Urban parks. Teresina.

148
Outros Temas

RESUMEN

La ciudad de Teresina (PI) mostró un rápido crecimiento urbano que ha consumido sus bosques
nativos. Con el fin de compensar esta degradación, creado áreas de parques preservan fragmentos de
bosque. Este estudio tuvo como objetivo mostrar las diferentes estrategias de polinización y
dispersión desarrollados por especies leñosas que se encuentran en los parques urbanos. Se
analizaron los frutos de 24 especies y se clasifican de acuerdo con la bibliografía pertinente. La familia
más abundante fue Fabaceae, el tipo más abundante de fruta era el vegetal con un 46%; el tipo más
común de la polinización hecho por las abejas y la forma más común de dispersión fue zoocora.

Palabras Clave: Bosques semideciduos. Dispersión. Parques urbanos. Teresina.

INTRODUÇÃO A pesquisa que gerou este trabalho tem o objetivo de


levantar floristicamente áreas situadas no
A cidade de Teresina é a única capital Aglomerado de municípios nº 7 do Território de
nordestina localizada no interior do Estado, estando Desenvolvimento Entre Rios, onde se situa o
situada na margem direita do rio Parnaíba e tendo no município de Teresina. Além da coleta de
seu território a foz do rio Poti. O município apresenta exemplares para caracterização da flora local, o
uma área de 1.391,98 km2 e uma população estimada projeto também tem como objetivos elencar os
em mais de 840 mil habitantes (IBGE, 2016). principais mecanismos de dispersão e polinização
A região de Teresina está encravada na região encontrados em espécies do estrato arbóreo-
Meio Norte do Brasil, apresentando-se como um arbustivo das áreas coletadas. Com o desenvolvi-
ecossistema diversificado sob o ponto de vista da mento da pesquisa envolvendo principalmente
vegetação. Situa-se na segunda maior zona ecotonal áreas preservadas da cidade, verificamos a
do país, composta pelo subúmido da Amazônia - a inexistência de informações pertinentes ao tema, no
oeste, semiárido nordestino (Caatinga) - a leste e com que se refere a vegetação nativa da região.
forte influência dos Cerrados do Brasil Central - a
sudoeste (FARIAS; CASTRO, 2004). MATERIAL E MÉTODOS

De acordo com o Mapa de Aplicação da Mata 1) Área de abrangência das coletas


Atlântica (referente à Lei nº 11.428/06), o município
de Teresina encontra-se em área formada por As coletas foram realizadas em áreas de
florestas estacionais semidecíduas, cuja lei conceitua Parques situadas no perímetro urbano da cidade de
como área de Floresta Atlântica, muito embora Teresina (PI). Foram escolhidos os parques
estudos realizados localmente e em outras áreas do municipais: Parque Ambiental de Teresina, Parque
Piauí, também presentes no mapa, não contemplem da Cidade e Parque Ambiental Poti I (Figura 1).
espécies daquele ecossistema (CASTRO et al. 2009).
Áreas do entorno de Teresina concentram formações O Parque Ambiental de Teresina situa-se
vegetacionais com espécies bem típicas do Cerrado, numa área de 37 ha. entre os bairros Mocambinho e
muitas espécies também aclimatadas na região da Buenos Aires na zona norte de Teresina, tendo como
Caatinga (SANTOS-FILHO, 2000) e a prevalência de coordenada Lat: 05°01'85”S; Long: 42°48'57”W
uma zona de tensão ecológica ou transicional com (Entrada). Foi criado na década de 1990 a partir de
muitas espécies de palmeiras, plantas da família uma área cedida pelo Instituto Brasileiro de Meio
Arecaceae, denominada de Mata dos Cocais Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA)
(SANTOS-FILHO et al. 2013). à Prefeitura de Teresina. O parque preserva uma

149
Outros Temas

Figura 1: Mapa de localização das áreas de coleta (Parques Ambientais) em Teresina (PI).
Elaboração C.J.R.S. Soares

150
Outros Temas

área com muitas espécies de Cerrado (ABREU, 3) Estudos taxonômicos e morfológicos


2004) e é uma das maiores áreas verdes da cidade
utilizadas para o lazer ecológico e para visitação de Com intuito de caracterizar a composição
escolas durante aulas de campo (LIMA, 1996). florística, investigar tipologia dos frutos, as
O Parque da Cidade situa-se em uma área de síndromes de polinização e dispersão das espécies
17 ha., na margem esquerda do rio Poti, no bairro foram separadas as plantas lenhosas coletadas. As
Primavera na zona norte de Teresina, com identificações das amostras foram realizadas a
coordenadas Lat: 05°03'38”S; Long: 42°48'71”W partir de literatura especializada. Os tipos de frutos
(Entrada). Foi inaugurado no início da década de foram classificados usando a terminologia adotada
1980, numa área de sítio de propriedade privada, por Barroso et al. (1999). As síndromes de
adquirida pela Prefeitura de Teresina. O parque polinização das espécies foram caracterizadas com
apresenta muitas espécies de Cerrado, mas sofre uma base nos critérios propostos por Faegri; Van Der Pijl
influência da ação dispersora do rio, portando uma (1979) e Torezan-Silingardi (2012) que classificou as
vegetação ciliar significativa. Além de área de síndromes em Abiótica (Anemofilia – vento;
preservação o Parque conta com uma infraestrutura Hidrofilia – água) ou Biótica, podendo ser por
utilizada como praça esportiva (LIMA, 1996; Cantarofilia (besouros), Miofilia ou Sapromiofilia
SANTOS-FILHO, 2005). (moscas), Melitofolia (abelhas), Esfingofilia
(mariposas grandes), Falenofilia (mariposas
O Parque Ambiental Poti I situa-se numa área
pequenas), Psicofilia (borboletas), Mirmecofilia
com cerca de oito ha. disposta ao longo da margem
(formigas), Ornitofilia (aves) ou Quiropterofilia
esquerda do rio Poti, entre as zonas centro e norte da
(morcegos).
cidade, entre as Coordenadas: Lat: 05°04'96”S;
Long: 42°47'75”W e Lat: 05°03'95”S; Long: As síndromes de dispersão foram estudadas
42°48'41”W. Foi inaugurado na década de 1990 em com base no proposto por Van Der Pijl (1982), sendo
substituição a uma favela com mais de 100 casebres e consideradas duas categorias: 1. Abiótica – tipo de
preserva a vegetação ciliar, apresentando muitas dispersão não mediada por animais, subdivida em:
plantas exóticas ou nativas plantadas na sua a) Anemocóricas - quando os diásporos
composição florística (LIMA, 1996; SANTOS- apresentam-se alados, plumosos, em forma de
FILHO, 2005). balão; ou seja, dispersos pelo vento; b) - Autocóricas
– plantas que possuem mecanismos de explosão do
2) Coleta do material botânico fruto e expulsão da semente como as espécies
barocóricas (dispersão por gravidade) e 2.
O material botânico foi coletado mensalmen- Zoocóricas - quando apresentam atrativos, ou
te por um período de 13 meses (abril de 2015 a maio desenvolveram estruturas de fixação e/ou fontes
de 2016), abrangendo as três áreas escolhidas. alimentares em seus diásporos. O mesmo autor
Foram coletados espécimes de todas as formas de caracteriza frutos autocóricos como sendo aqueles
vida, preferencialmente em estado reprodutivo em cujos diásporos não apresentam características
coletas através de caminhadas aleatórias nas trilhas morfológicas dos tipos anteriores, incluindo a
das áreas selecionadas. O material foi herborizado dispersão explosiva.
seguindo a metodologia de Mori et al. (1989). As
exsicatas foram incorporadas ao Herbário HAF RESULTADOS E DISCUSSÃO
(Afrânio Fernandes da Universidade Estadual do
Piauí - UESPI). As espécies foram organizadas em Nas áreas em estudo, foram registradas 24
famílias de acordo com o sistema de APG IV (2016) espécies lenhosas em frutificação, pertencentes a 10
(Tabela 1). famílias botânicas (Tabela 1).

151
Outros Temas
Tabela 1. Lista das espécies lenhosas e classificação das síndromes de polinização, dispersão e tipos de frutos registradas nos Parques
Ambientais de Teresina, Piauí.

Família / Espécie Hábito Síndrome de Síndrome de Tipo de


Polinização Dispersão Fruto

Arecaceae

Attalea speciosa
Arv Entomofilia Biótica / Zoocoria Drupa
Mart. ex Spreng.

Apocynaceae

Calotropis procera (Aiton)


Arb Melitofilia Abiótica / Anemocoria Folículo
W.T. Aiton

Himatanthus drasticus (Mart.)


Arv Psicofilia Abiótica / Anemocoria Folículo
Plumei

Bixaceae

Cochlospermum vitifolium Arv Melitofilia Abiótica / Anemocoria Cápsula


loculicida
(Willd.) Spreng.

Capparaceae

Capparidastrum frondosum Arb Ornitofilia Biótica / Zoocoria Cápsula


folicular
(Jacq.) Cornejo&Iltis

Crateva tapia L.

Combretaceae

Terminalia spp. Arv Entomofilia Abiótica / Anemocoria Betulídeo

Euphorbiaceae

Ricinus communis L. Arb Entomofilia Abiótica / Autocoria Cápsula


Esquizocarpo

Fabaceae

Adenanthera pavovina L. Arv Entomofilia Abiótica / Autocoria Legume

Caesalpinia pyramidalis Tul. Arv Melitofilia/psicofilia Abiótica / Autocoria Legume

Copaifera martii H. Arv DPI Biótica / Zoocoria Legume

Delonix regia (Bojerex Hook.) Raf Arv Entomofilia Abiótica / Autocoria Legume

Legenda: (Arb) arbusto, (Arv) árvore, (DPI) adaptação a diversos insetos.

152
Outros Temas
Tabela 1. (continuação)

Família / Espécie Hábito Síndrome de Síndrome de Tipo de Fruto


Polinização Dispersão

Fabaceae

Enterolobium contortisiliquum Arv Melitofilia Legume Núcoide


Abiótica / Autocoria
e Zoocoria
(Vell.) Moron Núcoide

Hymenaea stignocarpa Arv Quiroptorofolia Biótica / Zoocoria Legume Bacáceo

Mart. ex. Hayne Bacáceo

Libidibia ferrea (Mart.) L.P. Arv Entomofilia Abiótica / Autocoria Legume

Queiroz (Barocoria) Bacóide

Leucaena leucephala (Lam.) de Arb Melitofilia Abiótica / Anemocoria Legume

Wit.

Parkya platycephala Benth Arv Quiropterofilia Biótica / Zoocoria Legume

Helicteres sacarolha A. St.- Melitofilia Núcoide

Entomofilia

Pithecellobium diversifolium Benth Arv Melitofilia Biotica / Zoocoria Legume

Tamarindus indica L. Arv Melitofilia Biótica / Zoocoria Legume

Bacóide

Vatairea heteroptera (Allemão) Arv Melitofilia Abiótica/ Anemocoria Sâmara

Duckeex F.A. Iglesias

Lecythidaceae

Lecytis pisonis Cambess Arv Melitofilia Biótica / Zoocoria Pixídio

Malvaceae

Guazuma ulmifolia Lam. Arv Melitofilia Biótica / Zoocoria Cápsula/Loculicida

Helicteres sacarolha A. St.- Arb Melitofilia Abiótica / Amenocoria Cápsula/Septicida

Hil., A. Juss. &Cambess

Rubiaceae

Genipa americana L. Arv Melitofilia Biótica / Zoocoria Anfissarcídio

153
Outros Temas

Todas as plantas tiveram suas flores e frutos sendo que a última espécie também pode ter
classificados. As flores foram classificadas quanto à síndrome de polinização de tipo melitófila. Ornito-
síndrome de polinização e os frutos quanto ao tipo e filia foi observada apenas em Capparidastrum
síndrome de dispersão. A família Fabaceae foi a mais frondosum. DPI foi observada apenas em Copaifera
representativa com 12 espécies. A dominância dessa martii.
família nos levantamentos florísticos e ecológicos no A síndrome do tipo melitofilia foi a mais
Brasil é comum, uma vez que possui elevado número significativa, representando 48% das espécies
de táxons e é uma das mais frequentes na região (Figura 1), a exemplo dos resultados encontrados
neotropical (GENTRY, 1982). por Pinheiro et al. (2013) no litoral do Piauí.
A síndrome de polinização do tipo melitofilia Locatelli et al. (2004) destacaram as abelhas como
foi a mais representativa observada em 48% das um dos principais polinizadores das angiospermas.
espécies, seguidas de entomofilia 26%, quiroptero- A eficiência das abelhas, diante do conjunto de
filia 11%, psicofilia 7%, ornitofilia 4% e DPI 4% adaptações morfológicas para obtenção de pólen, a
(Figura 2). Entre as famílias analisadas, Fabaceae foi grande quantidade de flores visitadas e a rapidez da
a mais diversificada em relação aos tipos de coleta, proporcionam maior vantagem entre os
polinização, sendo registradas quatro síndromes demais polinizadores (MASCENA, 2011). Tal
distintas: DPI (adaptação a diversos pequenos eficiência, está diretamente relacionada às
insetos), melitofilia, psicofilia e quiropterofilia. A características das flores das espécies melitófilas,
síndrome psicófila foi registrada nas espécies - associadas à morfofisiologia e comportamento
Himatanthus drasticus e Caesalpinia pyramidalis, desses animais (FAEGRI; VAN der PIJL, 1979).

Figura 2: Distribuição das espécies por síndrome de polinização nos Parques Ambientais de Teresina, Piauí

154
Outros Temas

Com relação à consistência, frutos secos, que Quanto ao mecanismo de dispersão, as


são típicos das síndromes abióticas, predominaram espécies foram classificadas em três tipos: as que
em relação aos carnosos. O levantamento apontou dispersam por Zoocoria (48%), seguidas das que o
para ocorrência de 46% dos frutos classificados como fazem por Anemocoria (28%) e as dotadas de
legumes, 17% cápsula, 9% anfissarcídio, 8% folículo e Autocoria (24%) (Figura 4). Pinheiro et al. (2013)
os demais - drupa, betulídio, esquizocarpo, píxidio e também encontra-ram maior número de espécies
zoocóricas, em estudo similar desenvolvido no
sâmara, 4% cada (Figura 3).
litoral do Piauí.

Figura 3: Frequência de frutos em relação a tipologia encontrada nos Parques Ambientais de Teresina, Piauí

Figura 4: Frequência das espécies por síndromes de dispersão encontradas nos Parque Ambientais de Teresina, Piauí.

155
Outros Temas

Figura 5 – A.Lecythis pisonis Cambess / Pixídio; B.Helicteres sacarolha A. St.-Hil., A. Juss. & Cambess /

Cápsula Septicida; C.Adenanthera pavovina L. / Legume; D.Guazuma ulmifolia Lam. /

Cápsula Loculicida; E.Libidibia ferrea (Mart.) L.P. Queiroz / Legume bacóide; F.Cochlospermum
vitifolium (Willd.) Spreng. / Cápsula Loculicida; G.Enterolobium contortisiliquum ( Vell.) Moron /

A Figura 5 ilustra frutos encontrados na mãe podem ser dispersos secundariamente por
amostra. De acordo com a síndrome de dispersão zoocoria. Um exemplo é o Enterolobium contortisi-
estes podem ser classificados, com base na literatura liquum que pode ser disperso tanto por autocoria,
específica, em: melitofilia (abelhas); entomofilia ocasionado pela explosão do fruto, quanto por
(insetos); quiropterofilia (morcegos); psicofilia mamíferos. Em Pithecellobium diversifolium,
(borboletas); ornitofilia (aves); DPI (adaptação de quando o fruto abre expõe sementes ariladas que
pequenos insetos). A Figura documenta os principais são dispersas por aves (JUDD et al. 2009). Este tipo
tipos com sua respectiva relação de tamanho. de zoocoria é chamada de endozoocoria, pois a ave
As espécies autocóricas analisadas apresen- se alimenta do fruto e dispersa sua semente na
tavam frutos secos e deiscentes, como Ricinus defecação. A colonização e dispersão dirigida
communis,Adenanthera pavoninae Caesalpinia explica a vantagem da dispersão endozoocórica.
pyramidalis. Libidibia ferrea, entretanto,apresenta Nesta modalidade, os animais elegem sementes
fruto seco, porém indeiscente, não possuindo, maiores (por disporem de mais recursos). Este
portanto, dispersão autocórica. Nesta planta a dispersão direciona melhor do que a anemocórica
dispersão é por barocoria. (HOWE; SMALLWOOD, 1982).
Os frutos autocóricos são lançados aleatoria- A presença do elevado número de espécies
mente (dispersão primária), contudo, eventualmen- zoocóricas destaca a importância das interações
mente, os frutos e as sementes que caem da planta- mutualísticas entre plantas e animais na manuten-

156
Outros Temas

ção dos ecossistemas naturais (KINOSHITA et al., ALMEIDA JR., E. B; MEDEIROS, D.P.W.;
2006), o que pode garantir a existência de um maior VICENTE, A., LIMA, L.F.; LIMA, P.B. Estudo
número de agentes dispersores. Isto ocorre porque comparativo entre síndromes de dispersão em
espécies zoocóricas tendem a influenciar a quatro áreas de Floresta Atlântica sensu lato,
distribuição das espécies frugívoras em uma Nordeste - Brasil. Revista Brasileira de
comunidade (BUDKE et al., 2005), resultado de Biociências 5 (Supl. 1). p. 498-500, 2007.
existirem muitas plantas que produzem frutos
carnosos (CLARK; POULSEN, 2001). A zoocoria é APG IV. An update of the Angiosperm Phylogeny
mais representativa para as plantas de porte Group classification for the orders and families of
arbustivo e arbóreo (MORELLATO; LEITÃO – flowering plants: APG IV. Botanical Journal of
FILHO 1992), além de ser um fator importante para o the Linnean Society, 181. p. 120, 2016.
distanciamento dos propágulos da planta-mãe BARROSO, G. M.; MORIM, M. P.; PEIXOTO, A. L.;
(BUDKE et al., 2005), o que eleva as chances de ICHASO, C. L. F. Frutos e sementes: morfolo-
estabelecimento dessas plantas devido à diminuição gia aplicada à sistemática de dicotiledôneas.
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predação desses propágulos (JANZEN, 1970;
CONNEL, 1971). BUDKE, J.C.; ATHAYDE, E.A.; GIEHL, E.L.H.;
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CONSIDERAÇÕES FINAIS florística e espectro de dispersão de espécies
lenhosas em uma floresta ribeirinha, arroio Passo
O presente estudo buscou identificar as das Tropas, Santa Maria, RS, Brasil. Iheringia,
espécies encontradas nas áreas de parques Série Botânica 32. p.17-24, 2005.
municipais de Teresina e seu mecanismo de
CASTRO, A.A.J.F; CASTRO, A.S.F.; FARIAS,
dispersão. O estudo de dispersão se reveste de
R.R.S.; SOUSA, S.R., CASTRO, N.M.C.F.; SILVA,
importância, pois é possível realizar projeções sobre
C.G.B.; MENDES, M.R.A.; BARROS, J.S.; LOPES,
o potencial das espécies em ocupar áreas. O sucesso
R.N. Diversidade de espécies e ecossistemas da
na ocupação e estabelecimento das plantas reforça o
vegetação remanescente da Serra Vermelha, área de
potencial destas espécies em constituir fragmentos
chapada, municípios de Curimatá, Redenção do
florestais preservados, que são de grande importân-
Gurgueia e Morro Cabeça do Tempo, sudeste do
cia aglomerados urbanos, em especial por permitir a
Piauí. (Série: Relatórios). Publ. Avulsas
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159
Outros Temas

DAS TEORIAS ÀS PRÁTICAS:


PIBID/UESPI NA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Isabel Cristina da Silva FONTINELES1

1
Doutoranda e Mestre em Educação pela UFPI. Professora Assistente do Curso de Pedagogia pela UESPI/CCM.
Coordenadora de Área do PIBID/UESPI. Autora e Coordenadora do Projeto “Práticas Pedagógicas”. Pesquisadora do
Núcleo de Estudos, Extensão e Pesquisas Educacionais (NEEPE) da UESPI, Campus Clóvis Moura. E-mail:
ic.fontineles@hotmail.com

RESUMO

O presente artigo analisa como os objetivos do Programa Institucional de Iniciação à Docência (Pibid) estão
contemplados no processo de formação Inicial dos Bolsistas de Iniciação à Docência, do Curso de Pedagogia da
Universidade Estadual do Piauí (UESPI), no Campus Clóvis Moura. O texto faz abordagem qualitativa com
análise bibliográfica e recorre aos documentos públicos sobre o Pibid, subprojeto de Pedagogia da UESPI, cuja
adesão se deu em 2012; entrevista com as supervisoras das duas escolas envolvidas e com os vinte bolsistas do
programa. Entre os teóricos ligados à discussão da problemática, destacamos Formosinho (2009), Rodrigues e
Esteves (1993), Liberali (2010) e Gatti (2010). As falas das pibidianas revelam que as diversas competências
desenvolvidas nas escolas refletem o diálogo com sua formação na IES. Dentre os mais ressaltados, o que
podemos destacar foi o desenvolvimento de habilidade em trabalho coletivo, seguido do trabalho com projetos.
Observamos que os objetivos do Pibid vêm-se cumprindo e contribuindo para a própria história da Uespi.

Palavras-chave: Política de Formação. Pibid. Docência.

ABSTRACT

The present article analyzes how the objectives of the Institutional Program of Iniciation to Teaching (Pibid) are
comtemplated in the process of initial training fellows of Initiation to Teaching, of Pedagogical Course, of Piauí
State University (UESPI), in Campus Clóvis Moura.The text presents qualitative approach with bibliographical
anlysis and the sources were public documents about Pibid, subproject of Pedagogical Course of UESPI, such
accession occurred in 2012; enterviews with the supervisory of the two schools involved and with the twenty
fellows of the program.Among theoretical thinkers linked to discussion of that issue, stand out Formosinho
(2009), Rodrigues and Esteves (1993), Liberali (2010) and Gatti (2010). Pibidian's speeches reveal that several
competences developed at the schools reflect the dialog with their formation in that Higher Education
Institution. Among the most highlighted aspects on the Pibidian's view, what we could note was the
development of the skill in coletive work, followed by work with projects. We note that the objectives of Pibid
are being fulfilled, contributing to the Uespi history.

Keywords: Formation Policy. Pibid. Teaching.

160
Outros Temas

INTRODUÇÃO Nessa perspectiva, a UESPI, assim como as


demais instituições formadoras, propõem mudan’-
Na medida em que o homem cria, recria e ças curriculares e projetos que visam a um currículo
decide, vão se formando as épocas históricas. de licenciatura que garanta a identidade do curso de
E é também criando, recriando e decidindo formação de professores e propiciem aos alunos das
como deve participar nessas épocas. É por licenciaturas a integração da teoria e da prática com
isso que obtém melhor resultado toda vez a especificidade do trabalho docente. Um exemplo
que, integrando-se no espírito delas, se dessa proposta é o Programa Institucional de Bolsa
apropria de seus temas e reconhece suas
de Iniciação à Docência (PIBID), que busca
tarefas concretas (FREIRE, 1979, p. 64).
incentivar a iniciação à docência por meio de ações
didático-pedagógicas que aproximem o licenciando
O Programa Institucional de Bolsa de Inicia-
da realidade escolar, articulando ensino superior e
ção à Docência (Pibid) tem conquistado espaço de
educação básica.
discussão entre os professores e pesquisadores desde
a sua implantação pela Coordenação de Aperfeiçoa- O texto apresenta abordagem qualitativa
mento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em com análise bibliográfica e as fontes de informações
2007, nas instituições de Ensino Superi-or, com a foram os documentos públicos sobre o Pibid,
finalidade de incentivar e valorizar a formação inicial subprojeto de Pedagogia da UESPI, cuja adesão se
de professores e melhorar o ensino da educação deu em 2012; entrevista com as supervisoras das
básica. Com a Lei nº 11.502/2007, a Capes recebeu as duas escolas envolvidas e com os vinte bolsistas de
atribuições de induzir e fomentar a formação inicial e iniciação à docência. Daí importante compreender
continuada de profissionais da educação básica e quais os entendimentos dos interlocutores conside-
estimular a valorização do magistério em todos os rados sobre o PIBID, que importância este progra-
níveis e modalidades de ensino. ma tem para todos que o fazem nas IES e nas escolas
As pesquisas educacionais apontam que o parceiras, para ressignificar a formação inicial de
papel do professor, na qualidade da educação básica, professores de Pedagogia.
exige também qualidade nos processos de formação
de professores. Gatti (2010), ao analisar currículos e PIBID: BURILANDO A POLÍTICA PÚBLICA
ementas de várias Licenciaturas, entre elas a ATRAVÉS DOS DOCUMENTOS
Pedagogia, constata insuficiência formativa para
planejar, ministrar e avaliar atividades de ensino O Pibid é uma iniciativa para o aperfeiçoa-
para os anos iniciais do ensino fundamental e para a mento e a valorização da formação de professores
educação infantil. O baixo investimento em lingua- para a educação básica. Os objetivos do Programa de
gens, tecnologias e temas inovadores, aliado à Iniciação à Docência têm caminhado em busca de
inexistência de planos de carreira, ou planos pobres efetivar sua proposta de qualidade e incentivo à
em perspectivas profissionais e as representações valorização do magistério. Quais sejam:
sociais sobre a carreira docente, geram, segundo
Neves (2012), um cenário de pouco interesse pela 1) incentivar a formação de docentes em
profissão docente. nível superior para a educação básica;
Nesse sentido, o presente trabalho deseja 2) contribuir para a valorização do magis-
saber se os objetivos do Programa Institucional de ério;
Iniciação à Docência (Pibid) estão contemplados no
processo de formação Inicial dos bolsistas de 3) elevar a qualidade da formação inicial de
Iniciação à Docência, do Curso de Pedagogia da professores nos cursos de licenciatura, promovendo
Universidade Estadual do Piauí (UESPI), no Campus a integração entre educação superior e educação
Clóvis Moura. básica;

161
Outros Temas

4) inserir os licenciandos no cotidiano de educativo da escola e de sua valorização profissio-


escolas da rede pública de educação, proporcionan- nal, traduzida em políticas permanentes de estímulo
do-lhes oportunidades de criação e participação em à profissionalização, à jornada única, à progressão
experiências metodológicas, tecnológicas e práticas na carreira, à formação continuada, à dedicação
docentes de caráter inovador e interdisciplinar que exclusiva ao magistério, à melhoria das condições de
busquem a superação de problemas identificados no remuneração e à garantia de condições dignas de
processo de ensino-aprendizagem; trabalho. Embora consista em ideal previsto em Lei,
5) incentivar escolas públicas de educação os professores do Piauí ainda não se veem
básica, mobilizando seus professores como co- valorizados nestes quesitos, como Fontineles
formadores dos futuros docentes e tornando-as (2008) confirma em sua pesquisa acerca dos dez
protagonistas nos processos de formação inicial para anos de Fundef.
o magistério;
Já o inciso X, ao se referir à articulação entre
6) contribuir para a articulação entre teoria e formação inicial e formação continuada, bem como
prática necessárias à formação dos docentes, entre os diferentes níveis e modalidades de ensino,
elevando a qualidade das ações acadêmicas nos enfatiza o que revelou o inciso V. Quanto ao inciso
cursos de licenciatura. XI, este prevê a formação continuada entendida
como componente essencial da profissionalização
O Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009, docente, devendo integrar-se ao cotidiano da escola
que Institui a Política Nacional de Formação de e considerar os diferentes saberes e a experiência
Profissionais do Magistério da Educação Básica, docente, o que nos reporta às discussões de saberes
disciplina a atuação da Coordenação de Aperfeiçoa- docentes em Tardif (2002), que aborda os saberes
mento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no conceituais, curriculares e experienciais do profes-
fomento a programas de formação inicial e continua- sor.
da. No seu artigo 2º, estabelece alguns princípios Já o inciso XII, ao compreender que os
para formação. O primeiro deles é o inciso V, quando profissionais do magistério como agentes formati-
trata da articulação entre a teoria e a prática no vos de cultura e, como tal, da necessidade de seu
processo de formação docente, fundada no domínio acesso permanente a informações, vivência e
de conhecimentos científicos e didáticos, contem- atualização culturais, nos leva reconhecer que a
plando a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e
relação ora criada pela UESPI atende sobremaneira
extensão; o segundo, o inciso VI, trata do reconheci-
aos licenciandos de Pedagogia da UESPI, uma vez
mento da escola e demais instituições de educação
que os supervisores, bem como demais professores
básica como espaços necessários à formação inicial
da escola, pois esta rica troca favorece muito na
dos profissionais do magistério; o inciso VII, quando
atualização de todos licenciandos e professores que
especifica a importância do projeto formativo nas
atuarão como co-formadores. Sabemos ainda que o
instituições de ensino superior que reflita sobre a
especificidade da formação docente, assegurando conhecimento e informações que o graduando leva
organicidade ao trabalho das diferentes unidades às escolas podem auxiliar toda a equipe escolar.
que concorrem para essa formação e garantindo Assim, o acúmulo de tarefa que lhe é propos-
sólida base teórica e interdisciplinar; to na escola, o professor tem dificuldade de acesso às
O Pibid/UESPI, através do subprojeto de informações e à atualização cultural. Daí, no que se
Pedagogia, reconhece estes princípios e através de refere a tempo, Formosinho (2009), que diz que a
seus profissionais e alunos do referido curso vem escola atarefada perde a sua capacidade de formular
materializando estas perspectivas. Além destes perguntas e definir problemáticas provocando um
princípios, cabe ressaltar ainda o inciso VIII, que déficit de reflexividade e inconformidade como
reconhece a importância do docente no processo denuncia.

162
Outros Temas

Formosinho inicia o texto alertando sobre a fessores e licenciandos fortalecem um elo que
diferença entre 'classe docente' e 'corpo docente', por constitui como meta das IES o ensino, a pesquisa e
se tratar de um grupo de profissionais heterogêneos extensão.
com diferenças individuais que se refletem nos
modos de ensinar. A heterogeneidade pode ser ENTRE OLHARES E PERSPECTIVAS:
percebida considerando os diferentes níveis de INTERCONEXÕES ENTRE TEORIA E
ensino em que os professores exercem suas PRÁTICA
atividades, as diferentes disciplinas, a organização
do processo de ensino, as habilitações acadêmicas, a Conforme o grau de desenvolvimento do
posição na carreira, entre outras diferenças que entrevistado, às vezes a simples escuta, atenta
e respeitosa, é interpretada como “ajuda”
reforçam a ideia de que o próprio percurso biográfico ainda mais se ocorrer desenvolvimento de
dos professores e experiências adquiridas revelam a consciência do entrevistado a respeito de um
diversificação da função docente e apresenta tema importante na sua experiência
(SZYMANSKI, 2002, p.18).
diferentes concepções acerca do que é ser professor.
Este autor apresenta a importância da Foram entrevistados os 20 licenciandos
formação que não integre somente à carreira do pibidianos e as duas supervisoras. Destes, analisa-
professor, mas que implique nas condições reais para remos alguns depoimentos. Os alunos e professores
uma aprendizagem efetiva e uma sociedade mais tiveram seus nomes preservados e apresentados em
participativa. Muito do que Formosinho aborda siglas. Questionados sobre a importância ou
remete à realidade do Brasil, vez que vivemos uma influência do Pibid para UESPI/ CCM e para
situação ainda eurocêntrica com educação de Pedagogia, os bolsistas assim respon-deram:
contexto complexo.
A influência do PIBID para a UESPI é bem
O Art. 3º da Política Nacional de Formação de positivo, dando oportunidades para gradu-
Profissionais do Magistério da Educação Básica e, andos da instituição, irem para o campo de
entre eles, destaque precisa ser dado ao inciso I, trabalho e conhecerem a realidade do ensino,
suas dificuldades e possibilidades de
apresenta objetivos que visa a promover a melhoria mudanças (AC, 2013).
da qualidade da educação básica pública. Reconhe-
cer este ideal e transformá-lo em realidade exige O Pibid é importante para UESPI/CCM
esforço conjunto e, neste contexto, o Pibid, com seus porque torna a instituição mais reconhecida,
subprojetos e graduandos, juntamente com os dando oportunidade ao estudante de ir a
campo (a escola) elaborar e aplicar projetos.
professores como protagonistas, com projetos E este, por meio da apresentação de trabalhos
voltados a cada realidade, possivelmente se esbocem em eventos científicos, divulga seu trabalho,
bem como o nome da instituição e assim o
caminhos que levem a melhorias e elevem a qualida- Governo destina mais recursos para a
de do ensino na educação básica. Qualidade esta que Universidade, elevando o seu nome. E para o
tem processo dialético entre IES, escolas da educação curso é importante, porque possibilita ao
estudante adquirir experiência na área da
básica e a comunidade em torno destas instituições, docência, bem como também melhorias para
contemplando projeto formativo nas instituições de o curso, mostrando sua importância e
ensino superior que reflita a formação docente, prestígio, assim como todos os outros cursos
ofertados pela instituição (FA, 2013).
garantindo sólida base teórica.
A seguir, traçamos uma análise com base na Na fala das duas bolsistas, fica claro o
entrevista realizada com supervisores e licenciandos reconhecimento do Pibid para a inclusão do
do Pibid de Pedagogia do Campus Clóvis Moura, cuja licenciando na docência com diversas vivências em
prática no Pibid já remete para uma prática que, por sala de aula. Tanto AC quanto FA veem positiva-
ser conjunta e planejada, revela um caminho ainda mente a inserção do Pibid para a UESPI, por
muito longo a percorrer. Mas que já aponta que pro- proporcionar a aproximação do estudante à prática.

163
Outros Temas Outros Temas

Desta forma, percebemos que o Pibid provoca Na escola, percebi que os alunos se sentiram
impactos na escola e na formação dos licenciandos de motivados em estar superando as dificuldades,
Pedagogia. E os resultados, que no olhar de AC, e também estavam menos tímidos e isso, a meu
fortalecem a aprendizagem dos alunos das escolas ver, é um passo muito importante para ajudar
parceiras. Este olhar embora destacado nesta fala é os mesmos a se pronunciar diante das dúvidas
também percebido pelos demais pibidianos: “Na em sala de aula.Na minha formação, percebi a
escola onde atuei no primeiro semestre, observei que carência de profissionais comprometidos com
foram bem aceitos os projetos pelos alunos e que a educação, em estar oferecendo um ensino de
contribuiu para uma aprendizagem diferente com qualidade, independente do ambiente que é
filmes, jogos, brincadeiras e incentivo a leitura” (AC, oferecido, pois essas crianças não são culpadas
2013). de não desfrutar de privilégios como ocorre no

Já para pibidiana FA, na escola os impactos ensino privado. Acredito que um professor

foram a resistência da gestão; dos alunos em desmotivado também influencia na aprendi-

frequentar as aulas do projeto e também a forte zagem e interesse do aluno (JL, 2013).

ausência dos pais. E os resultados foram a aceitação


Por tal razão é que Rodrigues e Esteves
da presença do Pibid na escola e também a
(1993) situam a análise de necessidades no campo
participação de alguns alunos nas aulas, mostrando
de investigação da pesquisa científica, na área de
interesse em realizar as atividades propostas. Esta
formação. Inicialmente, defendem a análise de
pibidiana relata: “Na minha formação, os impactos
necessidades como uma etapa do processo pedagó-
foram superar esse desafio da aceitação pela gestão e
gico da formação, que tanto pode centrar-se no
pelos alunos da escola e os resultados foram a
formando como no formador. Prosseguem a
aprendizagem e experiência em ter convivido esse
abordagem defendendo que a análise de necessida-
período com os alunos, conhecendo as dificuldades
des pode ser considerada como uma estratégia de
de alguns deles e poder contribuir para ajudá-los”
planificação voltada para a formação e que não há
(FA, 2013).
necessidades absolutas, mas a necessidade de um
Neste quadro, percebem-se formas diferenci- indivíduo em um dado contexto.
adas de sentir o impacto na inserção à docência. Na
A análise de necessidades e a formação de
percepção de Jk, tem-se:
professores são construídas pelas autoras com o
Os resultados observados na escola em que propósito de debater a formação de professores pelo
estive na primeira etapa do subprojeto de viés da análise de necessidades. Para tanto,
Pedagogia, foram visíveis, já que se pôde apresentam os principais pressupostos comuns aos
perceber os alunos mais motivados para as
atividades e, consequentemente, uma melhor vários sistemas de educação, a saber: a) o que deve
aprendizagem. Por este motivo é que esta constituir a formação inicial, entendida como base
primeira experiência teve saldos positivos na
minha formação, já que foi através dos de preparação do professor, b) a formação de
projetos aplicados nesta instituição que professores entendida como uma forma de educa-
aprendi a fazer projetos e a lidar com algumas ação permanente, pessoal e profissional, c) preparar
situações que são correntes em uma escola
(Jk, 2013). o professor para desempenhar papel ativo e com
campo de intervenção mais amplo que o da sala de
JK, ao falar do impacto, faz relação das aula.
atividades do subprojeto com sua formação, Por esse diapasão, é pertinente lembrarmo-
acentuando como algo positivo para sua experiência. nos da dimensão social, política e cultural da
Já JL ressalta pontos que caracterizam um ensino de educação, pois
qualidade para ela, quando diz:

164
Outros Temas

Educar é construir, é libertar o homem do Já a supervisora S2 salienta alguns aspectos,


determinismo, passando a reconhecer o papel
da História e onde a questão da identidade
dizendo: “[...] acreditamos que as dificuldades não
cultural, tanto em sua dimensão individual, foram um grande empecilho, o resultado foi
como em relação à classe dos educandos, é evidente e todas as atividades foram realizadas.
essencial à prática pedagógica proposta. Sem
respeitar a identidade do educando, sem levar Assim, ninguém poderá retirar o mérito do grupo
em conta as experiências vividas pelos edu- PIBID/PEDAGOGIA/UESPI/CCM da escola
candos antes de chegar à escola, o educador participante” (S2).
não terá êxito na sua tarefa, e o processo será
inoperante, consistirá em meras palavras A primeira supervisora sentiu dificuldade
despidas de significado real. É um “ensinar a
pensar certo” como quem “fala com a força do
inicial, talvez porque, diferente da segunda, realize
testemunho”. É um ato comunicante, co- bem menos formação contínua. Formação contínua,
participado, de modo algum, produto de uma para Rodrigues e Esteves, será aquela que tem lugar
mente “burocratizada”. O educador deve
incentivar a curiosidade do educando,valori- ao longo da carreira profissional após a aquisição da
zando a sua liberdade e a sua capacidade de certificação profissional inicial (a qual só tem lugar
aventurar-se (FREIRE, 2004, p. 73). após a conclusão da formação em serviço),

Somente com essa noção de “ensinar a [...] privilegiando a ideia de que a sua inserção
pensar” que, no processo de formação inicial, os na carreira docente é qualitativamente
diferenciada em relação à formação inicial,
licenciandos e seus professores chegarão aos
independentemente do momento e do tempo
caminhos mais seguros para a percepção das de serviço docente que o professor já possui
necessidades das escolas nas quais atuam ou atuarão. quando faz a sua profissionalização, a qual
consideramos ainda como uma etapa de
Assim, o Pibid é ferramenta fundamental para que tal formação inicial (RODRIGUES; ESTEVES,
consciência se processe com mais eloquência e 1993, p. 44-45).
eficácia.
As autoras ainda salientam, como alterna-
Sobre as dificuldades que de certa forma
tiva ou como complemento do desenvolvimento
impactaram na interação e na realização dos
individual do professor, dimensões como desenvol-
subprojetos na escola, uma supervisora- S1 revela:
vimento: a) pedagógico contínuo; b) descobertas
contínuas de si próprio; c) cognitivo contínuo;
Eu, como supervisora, inicialmente tive
dificuldades em dar andamento ao projeto, d) teórico contínuo e e) contínuo da carreira.
pois se tratavam de novas atividades, estudo de
Tanto a formação inicial quanto a contínua
novas ações, percepções de dificuldades dos
alunos e da escola. Não tínhamos materiais deve fortalecer, em sua base, o enfrentamento teoria
pedagógicos e didáticos fornecidos pela e prática. Tal enfrentamento vem-se consolidando
CAPES e isso foi o mais complicado no anda-
mento das atividades, uma vez que a escola neste primeiro momento. A teoria é fundamental
também não possuía. Depois percebemos que para a aplicação da prática, porém encontramos
a falta de acompanhamento dos pais, as dificuldades na hora de unir a práxis, pois as
deficiências na aprendizagem causadas pelas
faltas de habilidades desenvolvidas nas séries situações e comportamentos são diferentes. Contu-
anteriores, portanto, um acúmulo de dificul- do, teoria e prática são elementos indissociáveis,
dades (S1). afirma a bolsista AC, 2013. “Com certeza esta éa
grande contribuição deste programa”, explica CS,
A supervisora elenca algumas dificuldades 2013.
desde sua adaptação ao projeto e evidencia que estas
Nas dimensões didáticas, saber; saber fazer
também foram sentidas pelos licenciandos do
e saber ser, as contribuições têm acontecido.
Pibid/Pedagogia, mas que tais dificuldades motiva-
Segundo a bolsista AC, “na dimensão saber, sou
ram a busca das soluções “para os problemas que
consciente que pouco sei. Na dimensão saber fazer,
encontrávamos no dia-adia” (S1).
aprendi elaborar atividades pedagógicas, slides, ata,

165
Outros Temas

projetos. Na dimensão ser, sinto mais segurança em colegas, o entendimento de que na prática o
sala de aula e estou aprendendo muito com o PIBID”, profissional tem que criar estratégias para poder
destaca AC. Neste mesmo sentido, a pibidiana RZ desenvolver sua profissão, bem como a experiência
corrobora, quando afirma: de ter participado de evento científico apresentando
trabalho. “Obtive também um olhar mais crítico
As contribuições são diversas, o saber-saber com relação ao sistema de ensino que se tem hoje e
ocorreu no momento que estou em prática na as formas como a escola realiza suas atividades
sala de aula e em muitas vezes busquei na
teoria fundamentos para minhas ações. O declara” (FA, 2013).
saber-fazer encontra-se na elaboração e
execução de projetos e pesquisas na escola. O
Outra pibidiana diz que várias competências
saber-ser, que julgo ser o mais importante, forma possíveis desenvolver e cita algumas delas
ocorreu no sentido de agir com autonomia são: desenvolvimento da prática em sala de aula;
dentro da sala de aula e na escola, em
expressar minhas opiniões no grupo e assumir elaboração de projeto e aplicação; elaboração de
responsabilidades pessoais (RZ, 2013). trabalhos científicos, entre outros – TH, 2013. Já
outra pibidiana, (AS, 2013), ressalta que o trabalho
Como é percebido, a pibidiana traz consigo em grupo foi o destaque, mas, também, mais
noções dos pilares da educação de forma muito clara, compromisso até mesmo com a nossa profissão. AP,
o que contribui para sua reflexão em torno da teoria e 2013 é enfática: “Percebo que melhorei minha
da prática. escrita, pois precisei escrever e relatar muitas ações.
Passei a atuar em uma sala de aula, o que sem
Em torno desta concepção de reflexão,
dúvidas me fez desenvolver a prática docente, a lidar
Liberali (2010) descreve três tipos de reflexão:
com diversas situações que ocorrem em sala de aula
e acredito que desenvolvi e aperfeiçoei a habilidade
1) Reflexão técnica, está preocupada em
de trabalhar em equipe”.
aplicar de forma rigorosa as teorias e técnicas na
prática para atingir determinados fins, aqui o Ficam claras, na fala das pibidianas, as
professor é visto como um mero técnico que deve ser diversas competências que conseguiram desenvol-
capaz de aplicar essas teorias e técnicas para uso ver no interior da escola parceira e no diálogo com
prático, prática essa que não estaria aberta à sua formação. Dentre o mais ressaltado, o que se
mudança; pode perceber foi o desenvolvimento de habilidade
em trabalho coletivo, seguido do trabalho com
2) Reflexão prática, seria encontrar soluções
projeto e que a proximidade com diversidade no
para a prática na prática, discorrendo sobre os
interior das escolas as torna capazes de ir em busca
problemas da prática de forma isolada, ou seja, fora
das soluções de forma coletiva e individual.
do contexto educacional mais amplo;
Assim, Rodrigues e Esteves (1993) partem
3) Reflexão crítica, ela retoma características
do pressuposto de que as necessidades podem ser
das reflexões anteriores, porém foca nas questões
apreendidas através das expectativas formuladas
éticas, ela leva o educador a entender-se como
pelo indivíduo. As autoras elencam alguns indicado-
intelectual, transformador e responsável por formar
res de necessidades, tais como: a distância entre o
cidadãos ativos e críticos dentro da comunidade.
que o professor espera da formação ideal e o sistema
atual; a discrepância entre a percepção que o
Ao serem questionadas sobre que competên-
professor tem do seu trabalho tal como é e como
cias desenvolveram a partir do Pibid, as respostas
deveria ser; a diferença entre as práticas; as
foram: Compromisso com o trabalho realizado na
divergências entre as modalidades de formação e as
escola; Empenho na elaboração e aplicação de
dificuldades e problemas no cotidiano profissional.
projetos; Aprender a trabalhar em grupo (AC, 2013)
assim responde. Além de AC, outra pibidiana revela Dessa forma, quando questionados se
que a elaboração de projetos, juntamente com as sentem instigados com a profissão docente e de que

166
Outros Temas

forma o Pibid contribui para que isso ocorra, CONSIDERAÇÕES FINAIS


informam que, quando você sente a necessidade de
mudança, de ver uma educação de qualidade para Ao analisar as falas dos pibidianos através da
todos, e o PIBID está proporcionando um incentivo entrevista realizada com os bolsistas e de seus
para a aprendizagem de um modo prazeroso e relatórios, tomando por parâmetro os objetivos do
inovador, destaca AC. Confirmando o que diz AC a Programa, foi possível constatar que os seis objeti-
pibidiana CT, 2013 sublinha: “Sim, pois é gratificante vos do Pibid vêm-se consolidando junto às práticas
ver a evolução de um aluno. O pibid contribui com a dos licenciandos, dos professores das IES, dos
possibilidade de estar com os alunos na prática”. professores supervisores, assim como refletindo em
Reconhecem a necessidade de perceber as toda escola.
diversas atividades e experiência no campo docente. Dessa forma, os objetivos do Pibid contem-
Dessa forma, sentindo-se encorajados vendo a plam o processo de formação dos bolsistas de
profissão como gratificante, necessidade de ver Pedagogia, por acreditar que as atividades desenvol-
mudança e qualidade na educação, não revelam vidas de ensino e pesquisa contribuem para
desânimo nem desinteresse, embora quando formação inicial destes, através da formação funda-
solicitados para que descrevessem suas ações mentada na reflexão, na problematização de
pessoais no PIBID, bem como as dificuldades situações concretas relacionadas à atividade docen-
encontradas destaquem: “As ações realizadas no te. Além de contribuir ainda para instigar os
programa se embasaram praticamente na aplicação professores-supervisores à autoformação e à
de projetos desenvolvidos pelo grupo, que seriam os formação de seus pares.
projetos, os quais foram desenvolvidos em sala de A formação inicial como um todo precisa
aula, como também de maneira mais secundária a dialogar com as dificuldades enfrentadas pelos
observação e auxílio às professoras. As dificuldades professores de Educação Básica. A iniciativa do
maiores se deram com relação a uma integração com Pibid fortalece nossa visão de que o diálogo entre as
a professora da turma, que não soube separar a nossa instituições formadoras, as IES, se faz por demais
função da dela, às vezes confundindo os nossos necessário e urgente, vez que o tempo dos
papéis” (AS). Outra dificuldade foi a de conseguir professores de Educação Básica é um tempo
presença do alunado no contraturno e de reunir os recheado de muitas atividades com pouco tempo de
pais para conscientizar da necessidade, destaca CS. reflexão sobre a ação.
Nos Referenciais para a Formação de Profes- Percebe-se que o Pibid provoca impactos na
sores, elaborado pelo Ministério da Educação e escola e na formação dos licenciandos de Pedagogia,
publicado em 2002, apresenta-se, em um de seus embora, durante diagnósticos e execução dos
trechos, como sendo uma das características da projetos nas escolas conveniadas, tenham ocorrido
formação continuada daquele momento o fato desse dificuldades, mas, na construção de atividades para
tipo de formação “não se organiza[r] a partir de uma solucionar tais problemas, licenciandos e superviso-
avaliação diagnóstica das reais necessidades e res se conhecem e melhoram o ambiente escolar.
dificuldades pedagógicas dos professores” (BRASIL, Neste contexto, também melhoram suas práticas
2002, p. 44). Esta observação se faz relevante pelo pedagógicas e sugerem novos debates para forma-
fato de os professores no interior da escola se ção inicial e continuada dos professores.
ressentirem das atuais formações continuadas das
quais participam.

167
Outros Temas

REFERÊNCIAS LIBERALI, Fernanda Coelho. Formação Crítica


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BRASIL. Decreto nº 7.219, Dispõe sobre o Programa Campinas, SP: Pontes, 2010.
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168
Outros Temas

OS GÊNEROS TEXTUAIS NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

THE TEXTUAL GENRES IN THE PORTUGUESE LANGUAGE TEACHING.

Jáira Machado da SILVA1

1
Graduanda do Curso Letras LIBRAS-PARFOR-UFPI; Pós-Graduada em LIBRAS-NEAD-UFPI/2016; Graduada em
Letras Português- UESPI/PARFOR / 2014. E-mail: jairajms@hotmail.com.

RESUMO
Este artigo objetiva analisar se os gêneros textuais estão sendo abordados no ensino da língua portuguesa de
forma que favoreça uma aprendizagem mais ampla da língua em seus contextos sociais, uma vez que os gêneros
textuais estão diretamente ligados a todas as formas de comunicação relevantes para o ensino da língua. A
pesquisa foi fundamentada em teóricos que abordam o tema proposto, como Marcuschi (2008, 2010, 2011),
Schneuwly e Dolz(2004), Beth Marchuschi (2010), Santos (2007), entre outros. A abordagem prática
pedagógica de alguns professores e o posicionamento de alguns teóricos em expor e explorar os diversos
gêneros de textos mostraram que, apesar das constantes discussões acerca do tema, os professores de língua
portuguesa não estão capacitados para trabalhar a língua na sua funcionalidade, de forma que o aluno adquira
conhecimentos necessários sobre cada um dos gêneros estudados e que seja capaz de adequar sua linguagem
aos objetivos que deseja atingir.

Palavras-chave: Língua Portuguesa. Ensino. Gêneros Textuais.

ABSTRACT
This article has objective to analyze whether the textual genres are being approach in the teaching of the
Portuguese language in order to promote a wider learning of the language in their social contexts. The textual
genres are directly linked to all relevant forms of communication for language teaching. The research was based
on a theoretical approach to the theme, as Marcuschi (2008, 2010, 2011), Schneuwly and Dolz (2004), Beth
Marchuschi (2010), Santos (2007) and others. Observing the pedagogical practice approach of some teachers
and positioning of some theorists, to expose and explore the various genres of texts, the results showed that
despite constant discussions on the subject, the portuguese language teachers are not capacitated to work the
language in its functionality, so that students acquire necessary knowledge about each of the textual genrs
studied and be able to adapt their language to the objectives you want to get.

Keywords: Education, Textual Genres, Portuguese Language.

169
Outros Temas

1. INTRODUÇÃO reflexão do uso da língua em diferentes situações


comunicacionais; Antunes (2009), que defende que
Os gêneros textuais são uma ferramenta com os estudos dos gêneros textuais, as dificuldades
relevante para se desenvolver um trabalho com o de produção e de recepção dos textos seriam mais
ensino da língua, pois favorece uma prática de leitura facilmente atenuadas; Santos (2007), que alega que
e escrita contextualizada com as práticas cotidianas, não faz sentido ensinar formas textuais que não
ajuda os alunos a participarem de várias situações apresentam nenhuma função social; Cafiero (2010),
sociais, proporcionando uma construção significa- que se atenta para o uso dos suportes onde
tiva do seu conhecimento em diferentes esferas originalmente os textos circulam; Porto (2009), que
sociais. alerta para a adequação dos gêneros de textos de
A prática de leitura por meio da diversidade acordo com a intenção social de uso; Mendonça
de gêneros textuais, no cotidiano dos alunos, (2007), que afirma que, para o trabalho com gênero
favorece uma interação entre o ensino da língua e o textual, é importante uma reflexão acerca dos
meio social. Isso se torna possível pela interação efeitos de sentido que cada gênero carrega;
entre leitor e texto, uma vez que o leitor para
A pesquisa se configura por meio de uma
compreender o texto precisa fazer inferências,
investigação de natureza teórica – prática, qualitati-
partindo principalmente do seu conhecimento de
va do tipo etnográfica (que estuda a realidade num
mundo.
contexto social) em que o método de abordagem é
Observando a abordagem prática pedagógica um estudo de caso com seis professores que
de alguns professores e o posicionamento de alguns lecionam a disciplina de português do município de
teóricos, em expor e explorar os diversos gêneros de Buriti dos Lopes, sendo dois do ensino fundamental
textos, este artigo objetiva analisar se os gêneros
menor de 1º ao 5º ano, dois do fundamental maior
textuais estão sendo abordados no ensino da língua
de 6º ao 9º ano e dois do ensino médio, contemplan-
portuguesa de forma que favoreça uma aprendiza-
do todos os níveis da educação básica.
gem mais ampla da língua em seus contextos sociais,
pois se entende que os gêneros textuais estão direta- A coleta de dados se estrutura por meio de
mente ligados a todas as formas de comunicação pesquisa de campo (observação humana das
relevantes para o ensino da língua. instituições, entrevista semiestruturada com
professores) e análise de documentos (planos de
Na perspectiva dos gêneros textuais, o ensino da
aula, planejamentos, Projeto Político Pedagógico),
língua torna-se mais eficiente porque permite o
por conterem informações de suma importância
trabalho com a linguagem em situações na sua
funcionalidade em que os alunos irão aprender na para efetivar e legitimar essa pesquisa.
prática e não de forma superficial cada gênero O confronto entre as informações coletadas
textual. na pesquisa de campo e a teoria se expressa na
Para fundamentar este trabalho, foram análise de dados apresentado, nas considerações
observadas as pesquisas de autores, como Marcuschi finais, os possíveis diagnósticos e prognósticos
(2008, 2010, 2011), que considera os gêneros como sobre o uso dos Gêneros Textuais no ensino da
fenômenos históricos, ligados à vida social; Língua Portuguesa.
Naspolini (2009), que concebe os gêneros práticas
sociocomunicativas; PCNs (1997), que propõem que 2. OS GÊNEROS TEXTUAIS
a escola possibilite ao aluno aprender a linguagem a
partir da diversidade de gêneros que circulam O ensino da língua através dos gêneros
socialmente; Schneuwly e Dolz (2004, p.60-61), que textuais tem uma eficácia significativa, pois
apresenta a proposta provisória de agrupamento de possibilita ao aluno uma visão concreta do uso da
gêneros; Beth Marchuschi (2010), que propõe uma língua numa dimensão social, histórica e linguística.

170
Outros Temas

Sabe-se que, no processo de comunicação, os seria impossível. Em conformidade com Marcuschi,


falantes da língua necessitam escolher o suporte que esta também afirma que os gêneros são práticas
será usado durante a interação comunicativa, uma sociocomunicativas, dinâmicos e que sofrem
vez que cada gênero fornece recursos específicos para variações em sua constituição...”
apresentar a informação desejada, a fim de interagir
Nesse sentido, Marcuschi (2008, 2011)
diretamente e eficazmente com seus interlocutores.
aponta uma diversidade de gêneros, que se
Para Marcuschi (2010, p. 19), os gêneros materializam em situações comunicativas e “quanto
textuais são fenômenos históricos que estão ligados à mais circulam, mais sofrem alterações por se
vida social, fruto de um trabalho coletivo que acharem ligados a uma modelagem social”, o que
contribuem para organizar as atividades comunica- pode ser observado nesta sua afirmação:
tivas do dia a dia e facilitam a comunicação dos
falantes nas práticas sociais com o meio e consigo. [...] Devem ser vistos na relação com as práticas
Comungando do mesmo pensamento, Cavalcante sociais, os aspectos cognitivos, os interesses, as
relações de poder, as tecnologias, as atividades
(2007, p. 30) diz que “É a partir deles que nos discursivas e no interior da cultura. Eles
inserimos como falantes numa sociedade”. mudam, fundem-se, misturam-se para manter
sua identidade funcional com inovação
Sabe-se que os gêneros são interpretados e organizacional. (2011, p. 19)
usados de acordo com o meio social em que surgem,
sofrem influências culturais e dinamizam-se Em se tratando da diversidade de gêneros
segundo seus usuários, uma vez que cada ser em consonância com Marcuschi (2008), Porto
interpreta de um jeito diferente, bem como a (2009) diz que os gêneros se apresentam em nossa
intencionalidade do gênero, objetivando o uso e não vida cotidiana das mais diversas formas e sua
apenas a forma. Como afirma Marschuchi (2010, p. escolha depende das necessidades dos falantes, os
19), objetivos e os efeitos pretendidos na comunicação.

Os gêneros caracterizam-se como eventos Assim, existem tantos gêneros textuais quanto
textuais altamente maleáveis, dinâmicos e as situações sociais convencionais em que são
plásticos. Surgem emparelhados a necessida- usados: anúncios, atas convites, avisos,
des e atividades socioculturais, bem como na convênios, crônicas, discursos políticos,
relação com inovações tecnológicas, o que é editoriais, editais, entrevistas, histórias,
facilmente perceptível ao se considerar a instruções de uso, leis, notícias, novelas,
quantidade de gêneros textuais hoje existen- orações, piadas, receitas, regimentos,
tes em relação a sociedades anteriores à reportagens, requerimentos, romances,
comunicação escrita. (2010, p. 19) sermões, telegramas, palestras e trabalhos
científicos, entre outros. (PORTO, 2009, p. 41) .
Sobre a utilização dos gêneros textuais,
Antunes (2009) reflete que “a língua está a serviço Contudo, observa-se que a diversidade de
das pessoas, de seus propósitos reais, os mais gêneros presente, nas mais diversas situações de
diversificados”, então, pode-se dizer que a língua se comunicação, vai muito além do domínio discursivo
efetiva em atividades e em situações de comunicação dos falantes, uma vez que eles fazem uso, constante,
nas diferentes práticas sociais. Dessa maneira, os da linguagem por meio dos diversos gêneros que os
gêneros textuais são formas de comunicações, que rodeiam.
variam de acordo com o contexto social e a situação Os gêneros textuais apresentam caracterís-
de usualidade, surgem da necessidade comunicativa ticas que os diferem uns dos outros. Schneuwly e
dos seres e utilizam-se da língua para proferir sua Dolz (2004, p. 60-61) “apresentam a proposta
intenção comunicativa. provisória de agrupamento de gêneros, foram
Naspolini (2009, p. 2) concebe que “são inseridos alguns gêneros que circulam com
tantos os gêneros que elencá-los ou classificá-los frequência na sociedade”.

171
Outros Temas

Domínios sociais de Comunicação Exemplos de Gêneros Escritos e Orais


Aspectos tipológicos

Capacidades de linguagem dominantes

Ÿ Cultura literária ficcional Conto maravilhoso, Conto de fadas, Fábula,


Lenda, Narrativa de aventura, Narrativa de
Ÿ Narrar ficção científica, Narrativa de enigma, Narrativa
mítica, Sketch ou história engraçada, Biografia
Ÿ Mimeses da ação através da criação da romanceada, Novela fantástica, Conto, Crônica
intriga no domínio verossímil Literária, Advinha, Piada.

Relato de experiência vivida, Relato de uma


Ÿ Documentação e memorização das ações viagem, Diário íntimo, Testemunho, Anedota
humanas ou caso, Autobiografia, Curriculum vitae
...
Ÿ Relatar Notícia, Reportagem, Crônica social, Crônica
esportiva
Ÿ Representação pelo discurso de experi- ...
ências vividas, situadas no tempo Histórico, Relato histórico, Ensaio ou perfil
biográfico Biografia

Textos de opinião, Diálogo argumentativo,


Ÿ Discussão de problemas sociais controversos Carta de Leitor, Carta de reclamação, Carta de
solicitação, Deliberação informal, Debate
Ÿ Argumentar regrado, Assembleia, Discurso de defesa
(Advocacia), Discurso de acusação (Advocacia),
Ÿ Sustentação, refutação e negociação de Resenha crítica, Artigos de opinião ou
tomada de posição assinados, Editorial, Ensaio

Texto expositivo (em livro didático), Exposição


Ÿ Transmissão e construção de saberes oral, Seminário, Conferência, Comunicação
oral, Palestra Entrevista de especialista,
Ÿ Expor Verbete 353, Artigo enciclopédico, Texto
explicativo, Tomada de notas Resumo de textos
Ÿ Apresentação textual de diferentes formas expositivos e explicativos, Resenha, Relatório
dos saberes científico, Relatório oral de experiência

Ÿ Instruções e prescrições
Instruções de montagem, Receita, Regulamen-
Ÿ Descrever Ações to, Regras de jogo, Instruções de uso, Comandos
diversos, Textos prescritivos.
Ÿ Regulação mútua de comportamento

3. O ENSINO DA LÍNGUA A PARTIR DOS no âmbito escolar.”, em busca de um ensino da


GÊNEROS língua significativo, produtivo e até desafiador.
Ainda segundo essa autora, foi a partir da
Nos anos 1990, intensificaram-se os estudos
propagação das ideias de “Bakhtin (1992) [...]
sobre os gêneros textuais, assumindo espaços
dentre outros, que os gêneros passaram a se
expressivos no contexto escolar. Conforme Beth
destacar, ainda que, com algumas divergências, a
Marchuschi (2010, p. 75), “nos últimos quinze anos,
importância de se compreender os gêneros textuais
ocorreram mudanças significativas no tratamento
em relação com as práticas sociais.”
dispensado ao ensino de elaboração de texto no

172
Outros Temas

Nessa nova perspectiva de ensino dos Enfim, é papel da escola tornar o ensino cada vez
gêneros, as aulas de Língua Portuguesa passaram a mais útil e significativo, buscando, na escola e
ter uma maior significação para os alunos, uma vez também no convívio social, oportunidade de
que os gêneros permitem aos envolvidos na expressar seus conhecimentos.
educação, refletir sobre a usualidade e funcionalida-
A abordagem dos gêneros, dentro da escola,
de da língua, nos mais diferentes contextos sociais de
deve-se aproximar o máximo possível de situações
comunicação. Como afirma Schneuwly e Dolz (2004,
comunicativas existentes fora do âmbito escolar.
p. 78),
Conforme destaca Santos (2007, p. 18),

Os alunos encontram-se, assim, em múltiplas


situações em que a escrita se torna possível, em [...] É preciso que os textos reais, fruto de
que ela é mesmo necessária. Mas ainda: o situações reais de uso, passem a fazer parte do
funcionamento da escola pode ser transforma- cotidiano escolar e não apenas os modelos
do de maneira que as ocasiões de produção de escolares tradicionais baseados nos textos
textos se multiplicam: na classe, entre alunos; clássicos. Alega-se que não faz sentido ensinar
entre classes de uma mesma escola; entre formas textuais que não apresentam nenhuma
escolas. Isso produz, forçosamente, gêneros função social e que só existem dentro dos
novos, uma forma toda nova de comunicação muros da escola.
que produz as formas linguísticas que a
possibilitam. Por estar em contato, tanto direto como
indireta-mente com uma diversidade de gêneros, o
O ensino, atualmente, promove uma aluno necessita compreender as características
interação entre todos os seres envolvidos no textuais e discursivas de diferentes gêneros. Não só,
processo. Além de gerar um conhecimento útil para a
com a finalidade de reconhecer, mas também como
vida, oferece condições de utilizá-lo nas diferentes
forma de ampliar as competências linguísticas e
situações cotidianas.
discursivas dos alunos, nas diversas situações de uso
Para Antunes (2009), os estudos dos gêneros da linguagem.
permitem ao aluno perceber que a elaboração e
De acordo com os PCNs (1997, p. 43), uma
interpretação de um texto resultam da união de
abordagem fora do convívio dos alunos dificulta a
fatores internos e externos à língua. Por isso, é
aprendizagem. Dessa forma, o ideal é que eles
relevante a abordagem de uma diversidade de
estejam em contato com situações de comunicação
gêneros textuais nas aulas de Língua Portuguesa, a
reais, uma vez que “a finalidade do ensino de Língua
fim de proporcionar aos alunos uma reflexão acerca
Portuguesa é a expansão das possibilidades do uso
do uso da língua nas mais diferentes situações.
da linguagem.”
Em outras palavras, o gênero é um instru-
Um fator relevante a ser considerado, para
mento que possibilita exercer uma ação sobre a
propiciar esse uso da linguagem, são as condições
realidade, levando o aluno a perceber a relação entre
em que os gêneros chegam até os alunos. Deve-se
os gêneros textuais e a sociedade, pois, no mundo que
se encontra em constante transformação, surgem a tomar cuidado em mostrar os suportes onde
todo o momento situações que exigem a criação ou a originalmente os textos circulam. Isso porque, em
reinvenção dos gêneros, além de possibilitar a razão das condições sociais das famílias, a escola é
capacidade leitora e escritora nas diversas áreas do responsável por apresentar os suportes originais em
conhecimento. que circulam a variedade de gêneros (CAFIERO,
2010, p. 95) .
Partindo do princípio que há uma infinidade
de gêneros textuais que circulam socialmente, os A abordagem, dentro das aulas de Língua
PCNs (1997) propõem que a escola possibilite ao Portuguesa, pelo professor, deve adequar-se de
aluno aprender a linguagem a partir dessa acordo com as intenções social de uso. Portanto, as
diversidade de gêneros articulada diretamente. características que distingue os gêneros textuais,

173
Outros Temas

devem ser levadas em consideração na escolha do por serem sensíveis à realidade e, diretamente,
gênero a ser trabalhado (PORTO, 2009). envolvidos no processo de comunicação.
Em concordância com Porto (2009), Bentes Ensinar a língua utilizando os gêneros
(2011, p. 105) afirma que: textuais como ferramenta de interação social é uma
estratégia eficaz para que os educandos saibam
É nesse sentido que acreditamos que o empregar os textos necessários para exercer o seu
ensino/aprendizagem de língua portuguesa é papel social. Segundo Parolin (2010, p. 76),
um trabalho que pode ter como ponto de
partida um olhar mais demorado sobre
determinados gêneros textuais. Esse olhar Vivemos em um contexto em que o conheci-
mais qualificado, que envolve necessariamen- mento nos é facilitado e nos chega sob inúmeras
te uma compreensão do gênero se insere, a formas. Contudo, não basta apenas termos
natureza heterogênea do gênero, sua função contato com o conhecimento, é necessário
primordialmente comunicacional, seus também que a pessoa integre essas informações
conteúdos, estrutura composicional e estilo, e as elabore para que se tornem aprendizagens
possibilitará ao aluno as condições necessá- significativas. [...] O grande desafio da escola é
rias para desenvolver competências de leitura entender o que está, acontecendo no mundo
e de escrita outras, além daquelas que ele já atual e o que ela prepara. Concomitantemente
possui. ao seu desafio de acompanhar as vertiginosas
mudanças sociais e os inúmeros avanços nas
áreas do conhecimento, a escola tem se
Com a proposta de trabalhar com os gêneros proposto a auxiliar as famílias no processo de
textuais, a autora sugere uma reflexão quanto ao uso desenvolvimento da autonomia e da construção
da língua em suas diferentes situações comunicacio- da cidadania.
nais, confrontado-a com as necessidades particula-
res de cada ser envolvidos no processo, bem como a Dessa forma, a autora questiona as formas
de acesso ao conhecimento, cada vez mais rápido e
realidade social da turma.
por todas as esferas sociais, sendo a escola
Quanto ao trabalho com gêneros textuais nas responsável pela inserção dos alunos numa
aulas Língua Portuguesa, para uma formação social, sociedade diferenciada, para que aprenda a se
é imprescindível que o professor proponha uma posicionar e questionar as situações a que é
reflexão acerca dos efeitos de sentido que cada submetido.
gênero carrega. Assim como, a função social que ele Tomando como ponto de partida a reflexão
exerce sobre os indivíduos (MENDONÇA, 2007). acima sobre a abordagem dos gêneros textuais,
Para a efetivação dessa ferramenta, na acredita-se que o estudo dos gêneros deve acontecer
de forma a oportunizar os alunos uma construção
formação social do aluno, é necessário que ele esteja
reflexiva das práticas discursivas e que possam usá-
num contexto em que favoreça a interação com os
la como estratégia de adequação social, e assim,
demais colegas, facilitando a troca de informações e a exercerem efetivamente sua cidadania. Diante desse
valorização das habilidades individuais. E, ainda, contexto, Rojo (2010, p. 30) questiona:
“auxilia o aluno a ser o legitimo “dono” de sua fala, ou
seja, levar o aluno a ocupar, com maior consciência, Que eventos de letramento e que textos
os diferentes lugares a partir dos quais pode falar e selecionar? De que contextos ou esferas? De
que mídias? De quais culturas? Como abordá-
escrever.” (BENTES, 2011, p. 105).
los? Essas questões se colocam porque, na
Assim, o trabalho do professor é provocar vida cotidiana, circulamos por diferentes
contextos e “esferas de comunicação e de
uma reflexão acerca dos conhecimentos que os atividades” (doméstica e familiar, do trabalho,
alunos trazem consigo, do âmbito social em que estão escolar, acadêmica, jornalística, publicitária,
burocrática, religiosa, artística etc.) em
inseridos para que eles busquem soluções e se
diferentes posições sociais, como produtores
posicionem nas diferentes situações enfrentadas ou receptores/consumidores de discursos, em
dentro e fora da escola. Portanto, os gêneros devem gêneros variados, mídias diversas e em
culturas também diferentes.
estar em constante paralelo com as práticas sociais,

174
Outros Temas

Essas reflexões nos permitem inferir que a Através da entrevista e observação das
escola é responsável pela socialização dos atividades desses docentes, foi possível uma análise
conhecimentos, de ideologias e transformações da concepção de Gênero Textual, dos tipos de texto
sociais, por isso é fundamental promover situações e utilizados nas aulas de Português, da finalidade do
contextos significativos de aprendizagem, pois nela trabalho com gêneros e as dificuldades encontradas
perpassam diferentes interações sociais de valores, nesse trabalho.
ideias e interesses diferenciados obtidos em
Observou-se que as seis professoras, de
contextos em que circula com usos e funções sociais.
forma unânime, utilizaram apenas o livro didático,
Enquanto prática social, o uso dos gêneros fazendo a leitura do texto apresentado na introdu-
textuais, contribui como fonte de informações nas ção de cada unidade. Em seguida propuseram aos
múltiplas relações em que o aluno-leitor está alunos questões de interpretação dos textos, de
envolvido. Uma porta aberta na formação do cidadão forma superficial. Os alunos fizeram uma leitura
e consequentemente na construção da cidadania, silenciosa, enquanto preenchia a chamada. Depois
uma vez que, esse contato possibilitará novas pediu que cada aluno lê-se um parágrafo,
relações de aprendizagem com as informações terminando pediu que os alunos destacassem os
presentes no seu meio social. pontos que mais chamou atenção no decorrer do
texto, as características dos personagens principais
4. OS GÊNEROS TEXTUAIS EM SALA DE e qual a importância dele para a história.
AULA
E para finalizar, pediu que os alunos respo-
dessem as atividades proposta no livro. Dentre as
O estudo propôs analisar se os gêneros
questões os únicos questionamentos acerca do
textuais são abordados no ensino da língua
gênero em estudo eram: o público a que se destina, o
portuguesa de forma que favoreça uma aprendiza-
local onde pode ser encontrado, e as características
gem mais ampla da língua em seus contextos sociais.
principais. Por exemplo, a função do gênero
Para obter esses dados, realizou-se um estudo publicidade institucional, a organização estrutural
de caso, coletando os dados por meio de entrevista, e do folder e apelo usado pela propaganda para
observação de aula de seis professores de três escolas chamar atenção dos clientes, por meio de i
diferentes, sendo duas professoras pedagogas que magens e slogans.
lecionam Polivalência há pelo menos 15 anos, e que
Outro gênero observado foi carta do leitor,
atualmente trabalham no 3º ano do fundamental;
extraídas da revista “Mundo Estranho”. E, mais uma
duas formadas em Letras- Português que atuam no
vez, a proposta do livro didático foi obedecida a
ensino fundamental de 6º ao 9º ano, há 05 anos; e
rigor. Percebeu-se que os alunos não compreendiam
duas também formadas em Letras-Português, que
a proposta, pois quando questionados se as cartas
atuam no ensino médio há 08 anos.
eram referentes a publicações anteriores ou da
As professoras pesquisadas atuam em escolas mesma em que foram publicadas, não souberam a
públicas na rede municipal e estadual de ensino. resposta correta. Acredita-se que se tivessem
Optou-se por observar educadoras de escolas analisados as cartas dentro do local de publicação
distintas devido à demanda de profissionais na área teriam entendido com mais facilidade, pois esse tipo
de letras, por escola, ser de no mínimo dois de leitura não faz parte do cotidiano dos alunos.
professores, o que não seria satisfatório para a
Os trabalhos não ultrapassaram a proposta
análise do tema em pesquisa.
do livro: um questionamento teórico acerca das
As questões que compõem a entrevista características dos gêneros em estudo. Dessa forma,
tratam das concepções e práticas do professor quanto percebe-se que as atividades realizadas não
ao uso dos gêneros textuais no ensino da língua permitiram que os alunos compreendessem a
portuguesa. funcionalidade dos gêneros analisados.

175
Outros Temas

Durante a observação das atividades nas apontando os suportes de circulação dos gêneros
aulas de língua portuguesa, perceberam-se textuais, tais como: livros, revistas, muros, placas,
conversas paralelas entre alguns alunos. Uma das televisão, na língua falada, escrita, gesticulada,
educadoras pediu aos referidos alunos que dançada, cantada, etc.
prestassem atenção ao conteúdo da aula e estes A professora A não soube diferenciar os
colocaram que o assunto deles era mais interessante locais de circulação dos gêneros: “nos livros,
que o da professora. revistas, e-mail, anúncio, conto, tirinha, etc.”
Diante dessa situação, a professora não Os dois primeiros referem-se aos meios de
apresentou argumentos convincentes aos alunos e os circulação e os demais são exemplos de gêneros
mesmos continuaram os diálogos. Com isso, pode-se textuais.
questionar que a forma de abordagem dos gêneros As demais professoras apontaram uma
não proporciona aos alunos um real sentido para diversidade de gêneros e não os locais em que eles
tornar significativa a aprendizagem da língua. circulam como proposto na pergunta: “anúncio,
Na verdade, o ideal seria levar os gêneros em artigo, resumo, conto, piada, lista, histórias em
seu contexto de produção e uso para proporcionar quadrinhos, fábulas, bula, horóscopo, regras de
uma reflexão mais sistematizada e eficaz quanto à jogo, bilhete, certidão de nascimento, carteira de
função e uso do gênero proposto como preconizam os identidade, cartas, poema.”
PCNs (1997) que uma abordagem fora do convívio Observando esse ponto, pode-se perceber
dos alunos dificulta a aprendizagem. que a discussão acerca dos locais onde os gêneros
Analisando as entrevistas com as professoras, circulam ainda é falha na maioria das instituições e
observou-se que todas entendem que gêneros as professoras que participaram da pesquisa
precisam ser ensinados de forma auxiliar os alunos reconhecem a diversidade, mas apenas duas sabem
na vida social. Dessa forma, a aprendizagem da por onde eles circulam.
língua acontecerá com mais significação, entretanto, Sobre esse assunto, Rojo (2010, p. 30)
mesmo sabendo os benefícios que estes proporcio- afirma que, assim como as pessoas, os gêneros
nam para a formação dos alunos, não estão circulam por diferentes contextos e esferas de
preparados para trabalhar os gêneros de forma comunicação e de atividades, o que se considera de
concreta. extrema importância para o estudo dos gêneros.
Quando questionados sobre a sua concepção Quando questionados sobre que tipos
de Gênero Textual, as seis professoras compreendem textuais são utilizados em sala de aula, apenas o
o gênero como uma forma de comunicação, deixando professor F percebeu a diferença que proposital-
transparecer em suas palavras que eles fazem parte mente foi colocada para observar se os professores
do cotidiano para facilitar a vida social, pois é reconheciam a diferença entre tipos de textos e
conhecendo a finalidade de uma diversidade de gêneros textuais. Os demais continuaram listando
gêneros que o aluno será capaz de participar com uma diversidade de gêneros, o que mostra uma
consciência das práticas sociais. confusão acerca dos tipos e gêneros que devem ser
Como afirmam Marcuschi (2010, p. 19) e trabalhados com os alunos a fim de melhorar a
Cavalcante (2007, p. 30), os gêneros facilitam a competência leitora e de mundo dos alunos estão
comunicação dos falantes nas práticas sociais com o inseridos.
meio e consigo, e a partir deles nos inserimos como Ao perguntar por que trabalhar com gêneros
falantes numa sociedade. textuais as respostas foram diversificadas. As
Ao serem questionadas sobre onde se pode professoras A e B, que lecionam no 3º ano e que não
encontrar os gêneros textuais, somente as são formadas na área de letras, entendem que o
Professoras E e F responderam satisfatoriamente trabalho com gêneros textuais qualifica o aluno para

176
Outros Temas

A partir das respostas acima, verificou-se que Atualmente, as discussões acerca da funcio-
as entrevistadas entendem a importância do trabalho nalidade e importância de ensinar os gêneros
com gêneros de forma que a resposta de uma textuais nas aulas de língua portuguesa têm sido
complementa o que falta na resposta da outra, debate de muitos teóricos, uma vez que é impres-
entretanto, em nenhum momento atentam para o cindível que a escola leve o aluno a refletir sobre a
trabalho com a funcionalidade dos gêneros que é o língua em uso. Percebeu-se que a maioria das
mais importante desse trabalho para o ensino da professoras pesquisadas parecia compreender a
língua. importância dos gêneros textuais e entendem que é
Diante das práticas desenvolvidas pelo necessário apresentar uma diversidade de gêneros
professor, pediu-se que fizesse uma observação textuais aos alunos. Entretanto, não sabem como
quanto às dificuldades encontradas para trabalhar levar os alunos a entender a importância que esses
com gêneros textuais nas aulas de Língua Portugue- gêneros textuais carregam para uma prática social
esa. Os professores A, B, D e E, de forma consciente.
diversificada, elegeram a falta de interesse pela Os Gêneros Textuais oportunizam variadas
leitura. O professor C destacou a oralidade, uma vez formas de explorar o texto, por isso, essa forma de
que é difícil expor o que se pensa sobre o que está em trabalho tem se expandido nas práticas pedagógicas
debate. O professor F mencionou que a maior de muitos educadores, assim garantindo aos
dificuldade é levar os alunos a compreender a discentes a oportunidade de conhecer e avaliar a
estrutura física do gênero em estudo, uma vez que é utilidades dos textos que circulam socialmente.
por meio da estrutura física que se pode diferenciar Na pesquisa, observou-se que a maioria dos
um gênero do outro. entrevistados compreende que os gêneros textuais
Durante as observações e as entrevistas com estão presentes na sociedade para facilitar a comu-
os professores, notou-se que, quando se trata em nicação dos falantes. Diante dessas considerações,
ensinar a língua em funcionamento, os desafios e as não se pode negar a importância dos gêneros no
preocupações são diversos. Mesmo os que estão em ensino da língua, isso seria ignorar a vida social dos
contato direto com a língua em funcionamento não se alunos.
sentem preparados para transmitir de forma Logo, o ensino da língua através dos gêneros
concreta a língua em situações e contextos reais. é necessário para que o aluno produza e entenda a
linguagem em seu contexto social e histórico. Os
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
pesquisados também entendem que é papel da
escola proporcionar aos alunos um ensino da língua
Esta pesquisa teve como objetivo analisar se
para que reconheçam uma diversidade maior de
gêneros textuais são abordados nas aulas de língua
gêneros, mas não destacaram o ensino da língua na
portuguesa para uma aprendizagem significativa da
sua funcionalidade, nem para seu conhecimento e
língua. É imprescindível destacar que a amostra de
usualidade em diversas situações comunicativas.
professores aqui estudada representa um quantita-
tivo pequeno de sujeitos, em decorrência das A investigação apresentada neste artigo é de
limitações de tempo destinado ao desenvolvimento grande relevância para a compreensão do funciona-
do trabalho. Desse modo, não se pode e nem é mento do ensino da Língua Portuguesa com base na
intencional generalizar os resultados obtidos. A perspectiva de ensino dos Gêneros Textuais, uma
pretensão é apenas levantar alguns questionamentos vez que, o estudo dos Gêneros Textuais nas aulas de
pertinentes sobre o tema aqui pesquisado, destacan- Língua Portuguesa permite que os alunos tenham
do a importância da reflexão dos docentes em relação oportunidade de refletir sobre a sua funcionalidade
ao trabalho com gêneros textuais. na linguagem interativa.

177
Outros Temas

Conclui-se que essa nova proposta de estudo GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de
da Língua através dos Gêneros Textuais ainda não é pesquisa. São Paulo: Atlas, 1991.
uma prática consolidada nas aulas Língua
Portuguesa e que, aos poucos, a passos lentos, vem Lakatos, Eva Maria. Fundamentos de
provocando uma reflexão a cerca do uso e ensino da metodologia científica 1. Marina de Andrade
língua na formação social dos alunos. Marconi, Eva Maria Lakatos. - 5. ed. - São Paulo :
Espera-se que outros estudos deem continu- Atlas 2003.
idade à investigação apresentado neste artigo,
ampliando a análise das questões aqui tratadas e MARCUSCHI, Beth. Escrevendo na escola para a
debruçando-se também sobre as práticas de ensino vida. IN: RANGEL, E.D e ROJO, Roxane H. Rodri-
de Língua Portuguesa, de modo a compreender como gues. Língua Portuguesa: ensino fundamental.
os gêneros textuais têm sido abordados no contexto Brasília: MEC/SEB, 2010, p. 65.
escolar.
MARCUSCHI, Beth. Redação escolar: breves notas
REFERÊNCIAS sobre um gênero textual. IN: SANTOS, C.F,
MENDONÇA, M., CAVALCANTI, M.C.B.
ANTUNES, Irandé, 1937- Muito além da gramá- Diversidade Textual: gêneros na sala de aula.
tica: por um ensino de línguas sem pedras no Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p. 59.
caminho/ Irandé Antunes- São Paulo: Parábola
Editorial, 2007. (Estratégias de ensino;5) MARCUSCHI,Luis Antônio. Gêneros textuais:
configuração, dinamicidade e circulação. IN:
__________, Língua, texto e ensino: outra KARWOSKI, A. Mário, GAYDECZKA, Beatriz e
escola possível/ Irandé Antunes. – São Paulo: BRITO, K. Siebeneicher. Gêneros textuais e
Parábola Editorial, 2009. (Estratégias de ensino; 10) ensino: reflexões e ensino- São Paulo: Parábola
Editorial, 2011, p. 17.
Brasil. Secretaria de Educação Fundamental.
Parâmetros curriculares nacionais: língua MARCUSCHI,Luis Antônio. Gêneros textuais:
portuguesa/ secretaria de Educação Fundamental. – definição e funcionalidade. IN: DIONISIO, A. Paiva,
Brasília- 1997: 144p MACHADO, A. Rachel e Bezerra, M. Auxiliadora.
Gêneros textuais e ensino. São Paulo: Parábola
BENTES, Anna Christina. Linguagem oral no Editorial, 2010, p. 19.
espaço escolar: rediscutindo o lugar das práticas e
dos gêneros orais na escola.IN: RANGEL, E.D e MARCUSCHI,Luis Antônio, 1946- Produção
ROJO, Roxane H. Rodrigues. Língua Portuguesa: textual, análise de gêneros e compreensão /
ensino fundamental. Brasília: MEC/SEB, 2010, p. Luiz Antônio Marcuschi. – São Paulo: Parábola
129. Editorial, 2008. 296p. (Educação linguística; 2)

CAFIERO, Delaine. Letramento e leitura: NASPOLINI, Ana Tereza. Tijolo por tijolo:
formando leitores críticos. IN: RANGEL, E.D e prática de ensino de língua portuguesa, volume
ROJO, Roxane H. Rodrigues. Língua Portuguesa: único: livro do professor / Ana Tereza Naspolini. 1.
ensino fundamental. Brasília: MEC/SEB, 2010, p.
ed. São Paulo: FTD, 2009.
85.
PAROLIN, Isabel. Professores formadores: a
Diversidadetextual: os gêneros na sala de aula/
relação entre família, a escola e a aprendizagem.
organizado por Carmi Ferraz Santos, Márcia
Isabel Parolin. 2. Ed. São José dos Campos: Pulso
Mendonça, Marianne C.B. Cavalcanti. 1.ed., 1.reimp.
editorial, 2010. 120p.
– Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

178
Outros Temas

ROJO, Roxane. Alfabetização e letramentos


múltiplos: como alfabetizar letrando?. IN:
RANGEL, E.D e ROJO, Roxane H. Rodrigues. Língua
Portuguesa: ensino fundamental. Brasília:
MEC/SEB, 2010, p. 15.

SANTOS, Carmi Ferraz. O ensino da Língua


escrita na escola: dos tipos aos gêneros textuais.
IN: SANTOS, C.F, MENDONÇA, M., CAVALCANTI,
M.C.B. Diversidade Textual: gêneros na sala de aula.
Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p.11.

SCHENEUWLY, B; DOLZ, J. Gêneros orais e


escritos na escola. Trad. e org. Roxane Rojo e Gláis
Sales Cordeiro. Campinas, SP: Mercado das Letras,
2004.

SOARES, Magda. Linguagem e Escola. Uma pers-


pectiva social. São Paulo: editora ática, 2006

179
Outros Temas

APLICABILIDADE DA FENITOÍNA NA CICATRIZAÇÃO DE LESÕES POR PRESSÃO


EM UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA1

PHENYTOIN APPLICABILITY OF THE HEALING OF INJURIES PRESSURE IN


INTENSIVE CARE UNIT: A REVIEW INTEGRATIVE

2
Jackson Henrique Sousa LIMA
3
Douglas Ferrari CARNEIRO
4
Marttem Costa de SANTANA
2
Enfermeiro Intensivista, Doutorando em Terapia Intensiva pelo IBRATI/SOBRATI. Mestre em Terapia
Intensiva – IBRATI/SOBRATI Professor do Curso de Pós Graduação da Faculdade Latino Americana de
Educação (FLATED). *Avenida Newton Bello, 129, Centro, Fortuna-MA, Brasil, CEP: 65695-000 email: limajackleao@hotmail.com
3
Médico Intensivista do Exército. Doutor em Terapia Intensiva. Reitor Internacional Udabol Unimercosul.
Docente e Presidente do IBRATI/SOBRATI email: sobrati@uol.com.br
4
Enfermeiro, Doutorando em Tecnologia e Sociendade (UTFPR). Mestre em Educação pela UPFI
e Mestre em Terapia Intensiva pelo IBRATI/SOBRATI.

RESUMO
A fenitoína tópica é uma droga anticonvulsivante sintetizada desde 1937 e amplamente utilizada em nosso meio
para o controle e/ou prevenção de crises convulsivas em adultos e crianças. A partir de seu efeito colateral de
hiperplasia gengival, uma possível capacidade cicatrizante passou a ser considerada por volta de 1945. A
fenitoína é um anticonvulsivante que vem sendo empregado na cicatrização de feridas. O presente estudo visa
atualizar os conhecimentos disponíveis a respeito do uso tópico da fenitoína no tratamento de lesões por
pressão; expor as indicações para o uso tópico da fenitoína; demonstrar resultados comparativos da fenitoína
aplicada topicamente com outros procedimentos padrão de tratamento tópico. Trata de um estudo de revisão
integrativa da literatura através do banco de dados, LILACS, SciELO, MEDLINE e Biblioteca SOBRATI, no
período de 2000 a 2016, onde foram encontrados 4 artigos relacionados a temática. A revisão integrativa da
literatura realizada neste estudo conclui que o uso tópico da fenitoína é uma evidência forte de efeitos benéficos
para o processo de cicatrização em úlceras venosas, por pressão, pé diabético, por hanseníase, porém incentiva-
se a produção de novas pesquisas sobre a temática.

Palavras-chave: Terapia intensiva. Fenitoína, cicatrização. Enfermagem Baseada em Evidências.

ABSTRACT
Topical Phenytoin is an anticonvulsant drug synthesized since 1937 and widely used in our country for the
control and / or prevention of seizures in adults and children. From its side effect of gingival hyperplasia, a
possible healing ability has been considered around 1945. Phenytoin is an anticonvulsant that has been used in
wound healing. This study aims to update the knowledge available about phenytoin topical use in the treatment
of pressure sores; expose the signs to the topical use of phenytoin; show comparative results of phenytoin
applied topically with other standard procedures for topical treatment. This was an integrative review study of
literature through the database, LILACS, SciELO, MEDLINE and SOBRATI Library, in the period 2000-2016
which were found 4 articles related to topic. The integrative literature review performed in this study concludes
that the topic of phenytoin is strong evidence of beneficial effects on the healing process in venous ulcers,
pressure, diabetic foot, by leprosy, but encourages the production of new research theme.

Keywords: Intensive care. Phenytoin. Healing. Nursing Based on Evidence


1
Extraído da Dissertação de Mestrado em Enfermagem Intensiva IBRATI/SOBRATI

180
Outros Temas

1 INTRODUÇÃO possível capacidade cicatrizante passou a ser


considerada por volta de 1945. Esta capacidade foi
As Unidades de Terapia Intensiva (UTI's) são confirmada em 1958 através de pesquisas
uma área do hospital destinada à assistência ao experimentais em seres humanos não epiléticos
paciente crítico que necessite de cuidados específicos portadores de lesões gengivais (SHAPIRO, 1958).
e intensivos, nas 24 horas, por uma equipe interdis- O uso de substâncias tópicas como promoto-
ciplinar composta por: médicos, enfermeiros, téc- ras da cicatrização tecidual tem gerado controvér-
nicos em enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudió- sia, tanto pela complexidade dos eventos relaciona-
logos, psicólogos, nutricionistas, odontólogos, assis- dos à reparação tecidual, quanto pela dificuldade em
tentes sociais e farmacêuticos. se estabelecer parâmetros de avaliação das drogas
Apesar dos avanços na área da cicatrização testadas em seres humanos.
cutânea e do surgimento de novas terapias, o Há trabalhos que mostram que o uso de
tratamento das úlceras tróficas e das feridas cutâneas simples emoliente como cremes e da própria
decorrentes do pós-operatório de tumores de pele, vaselina é suficiente para uma boa cicatrização, com
ainda pode ser um grande desafio tanto para o baixo índice de infecção. As informações científicas
médico como para o paciente. O tratamento das sobre as propriedades químicas e farmacológicas da
úlceras de perna, por exemplo, principalmente nas fenitoína demonstram pouco risco de reações de
suas formas mais graves, pode ter um grande hipersensibilidade, relacionada ao seu uso tópico
impacto na qualidade de vida do paciente. em parte pela baixa solubilidade e mínima absorção
Lesão por pressão é um dano localizado na sistêmica via cutânea deste sal (PEREIRA, 2009).
pele e/ou tecidos moles subjacentes, geralmente Porém, muitas das suas ações terapêuticas ainda
sobre uma proeminência óssea ou relacionada ao uso suscitam dúvidas quanto ao seu total entendimento.
de dispositivo médico ou a outro artefato. A lesão A afinidade com o tema surgiu com a
pode se apresentar em pele íntegra ou como úlcera experiência do pesquisador como enfermeiro
aberta e pode ser dolorosa. A lesão ocorre como plantonista na Unidade de Terapia Intensiva de um
resultado da pressão intensa e/ou prolongada em Hospital Público no município de Teresina-PI, onde
combinação com o cisalhamento. A tolerância do proporcionaram o estímulo para o desenvolvimento
tecido mole à pressão e ao cisalhamento pode desta pesquisa, no qual se percebeu a necessidade da
também ser afetada pelo microclima, nutrição, busca cientifica para a aplicabilidade da fenitoína na
perfusão, comorbidades e pela sua condição cicatrização de feridas.
(NPUAP, 2016) Nesse contexto, acredita-se que esta investi-
Segundo o NPUAP, a expressão descreve de gação irá colaborar com as vigentes pesquisas acerca
forma mais precisa esse tipo de lesão, tanto na pele da temática, aprimorar, lapidar os conhecimentos
intacta como na pele ulcerada. No sistema prévio do da equipe interdisciplinar que atuam nas Unidades
NPUAP, o Estágio 1 e a Lesão Tissular Profunda de Terapia Intensiva bem como estimular a
descreviam lesões em pele intacta enquanto as outras comprovação de substancias que interfiram na
categorias descreviam lesões abertas. Isso causava reparação tecidual o que justifica o estudo proposto.
confusão porque a definição de cada um dos estágios Para guiar o estudo, formulou-se a seguinte
referia-se à úlcera por pressão. (NPUAP, 2016). questão de pesquisa: quais os resultados disponíveis
A fenitoína tópica é uma droga anticonvulsi- na literatura acerca da aplicabilidade da fenitoína na
vante sintetizada desde 1937 e amplamente utilizada cicatrização de feridas em pacientes internados em
em nosso meio para o controle e/ou prevenção de Unidades de Terapia Intensiva?
crises convulsivas em adultos e crianças. A partir de Diante do exposto, objetiva-se descrever
seu efeito colateral de hiperplasia gengival, uma como a produção científica apresenta o uso da

181
Outros Temas

fenitoína como agente cicatrizante e discutir sua Fernandes (2000) afirma que a revisão
aplicabilidade em feridas em pacientes internados integrativa é uma análise ampla da literatura,
em Unidades Terapia Intensiva. Elegeram-se como contribuindo para compreensão sobre métodos e
objetivos específicos: atualizar os conhecimentos resultados de pesquisas, bem como na identificação
disponíveis a respeito do uso tópico da fenitoína no do direcionamento de futuras investigações. A
tratamento de úlceras de pressão; expor as indica- elaboração da revisão deve seguir padrões de rigor
ções para o uso tópico da fenitoína; demonstrar metodológico, os quais possibilitam ao leitor
resultados comparativos da fenitoína aplicada identificar as características reais dos estudos
topicamente com outros procedimentos padrão de analisados. O resultado de uma revisão da literatura
tratamento tópico. bem elaborada, sobre um determinado tema clínico,
acarreta impacto benéfico direto na qualidade dos
1.1 HIPÓTESES cuidados prestados ao paciente.
O propósito inicial da revisão integrativa da
A hipótese central deste estudo é a de que o
literatura é a obtenção de um entendimento
uso tópico da fenitoína em solução diluída com soro
profundo sobre o fenômeno a ser investigado, com o
fisiológico 0,9% acelera a re-epitelização da ferida
objetivo de apresentar o atual conhecimento sobre
aberta, apresentando menor tempo de cicatrização e
um tópico específico ou esclarecer assuntos ainda
melhor resultado cosmético se comparado com o uso
obscuros. Além disso, torna-se essencial que as
de cremes a base de antibióticos.
fontes escolhidas expressem a representatividade
do todo, para que o processo seja organizado e
1.2 OBJETIVOS
conciso (BROOME, 2000).

Atualizar os conhecimentos disponíveis a Na pesquisa bibliográfica, ocorre o desenca-


respeito do uso tópico da fenitoína no tratamento de deamento de uma série de etapas, tais como: escolha
lesões por pressão; expor as indicações para o uso de tema, levantamento bibliográfico, formulação do
tópico da fenitoína; demonstrar resultados compara- problema (pergunta), elaboração do plano
tivos da fenitoína aplicada topicamente com outros provisório de assunto, busca de fontes, leitura do
procedimentos padrão de tratamento tópico. material, fichamento, organização lógica do assunto
e redação do texto (GIL, 2002).
2. O CORPUS METODOLÓGICO DA INVESTI- Neste estudo, o tema escolhido foi “aplicabi-
GAÇÃO lidade da fenitoína na cicatrização de lesões por
pressão” devido ao grande aumento de casos vividos
Tratou-se de um estudo de revisão integrativa diariamente em unidades de terapia intensiva e por
da literatura operacionalizada a partir das seguintes estar relacionada a causas multifatoriais e apresen-
etapas: identificação do tema e seleção da questão de tarem fisiopatologia, critérios diagnósticos, impli-
pesquisa; estabelecimento de critérios de inclusão e cações terapêuticas, prognósticas e preventivas
exclusão; identificação dos estudos pre-selecionados distintas.
e selecionados; categorização dos estudos seleciona-
Para a seleção da amostra, foram estabeleci-
dos; análise e interpretação dos resultados e apresen-
dos os seguintes critérios de inclusão: artigos online
tação da revisão/ síntese do conhecimento (MEN-
disponíveis na íntegra que aborde o tema
DES, SILVEIRA e GALVÃO, 2008)
aplicabilidade da fenitoína na cicatrização de ferias
A pergunta que norteou este estudo foi: quais publicados no idioma português no período de 2000
os resultados disponíveis na literatura acerca da a 2016. Como critérios de exclusão, optou-se por
aplicabilidade da Fenitoína na cicatrização de feridas estudos em formatos de editoriais, estudos
em pacientes internados em Unidades de Terapia epidemiológicos. Através do banco de dados da
Intensiva? Literatura Latino-Americana do Caribe em Saúde

182
Outros Temas

(LILACS), Scientific Eletronic Library Online 3. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO


(SciELO) e na Literatura Internacional em Ciências
da Saúde (MEDLINE) e Biblioteca SOBRATI usando Ao analisar os quatro artigos para o estudo,
os seguintes descritores em saúde: terapia intensiva, foram constatados que em relação à autoria 03
fenitoína, cicatrização, enfermagem baseada em foram escritos por Enfermeiros, 01 por Médicos e
evidencias. acadêmicos do Curso de Medicina. Dos temas
Em seguida, foi realizada uma leitura abordados, 01 abordava a produção cientifica acerca
exploratória, seguida da seletiva e, por fim, a análise da aplicabilidade da fenitoína na cicatrização de
do material selecionado. Posteriormente, foi feito o feridas, 01 sobre o potencial terapêutico da fenitoína
fichamento com a devida identificação das fontes e o na cicatrização de radiodermites, 01 sobre o efeito
registro dos conteúdos pertinentes, para reunir da fenitoína tópica na cicatrização de feridas: uma
sistematicamente o material colhido dos artigos revisão sistemática, 01 Uso de fenitoína na cicatriza-
selecionados para o estudo (GIL, 2002). ção de úlcera por pressão: Desafio terapêutico.
Por fim, os dados foram apresentados em A caracterização dos estudos pode ser
quadros e analisados conforme os objetivos do visualizada detalhadamente na Tabela 1, abaixo:
estudo.

Tabela 1: Caracterização dos estudos quanto autos/ano, revista, metodologia, público alvo e enfoque temático.

METODOLOGIA PÚBLICO ALVO ENFOQUE TEMÁTICO


AUTOR/ ANO REVISTA

FIRMINO, F.; REVISTA


ALMEIDA, A. ESC. DE Revisão Da Paciente Produção Científica acerca
M. P.; et al., ENFERM. USP Literatura Adultos da aplicabilidade da fenito-
2015 (RIO 2015) ína na cicatrização de feri-
das

Revisão Revisão
JUNIOR, E. P. Uso de fenitoína na
Revista sistemática: sistemática:
S.; BATISTA, cicatrização de úlcera por
Cientifica do Estudo descritivo e Estudo descritivo e
R.R.A.M.; et al., pressão: Desafio
ITPAC documental documental
2011 Terapêutico
(caso clínico) (caso clínico)

Potencial terapêutico da
FIRMINO, F. Esc. Anna Nery R. Revisão da Paciente
fenitoína na cicatrização
2007 Enfermagem Literatura Adultos
de radiodermites

O efeito clínico da
SHAW Revisão
The British journal fenitoína tópica na
J ,HUGHES C. Sistemática da Seres humanos
of dermatology cicatrização de feridas:
M, LAGAN, K. Literatura
uma revisão sistemática
M., 2007

Fonte: Elaborado pelo pesquisador com base nos dados e resultados da pesquisa, 2016.

183
Outros Temas

O artigo intitulado A produção cientifica te torna-se importante considerar que este fármaco
acerca da aplicabilidade da fenitoína na cicatrização foi considerado de uso seguro, barato e eficaz na
de feridas de Firmino e Almeida et al. (2015) cicatrização de feridas por diversos pesqui-sadores
apresenta evidencias fortes que os benefícios considerados nesta revisão integrativa.
decorrentes do uso da fenitoína foram associados ao O estudo de autoria Junior e Batista et al.,
aumento do tecido de granulação, da angiogênese, e (2011), intitulado Uso da fenitoína na cicatrização
diminuição do tamanho das feridas que receberam de úlcera por pressão: desafio terapêutico, trata-se
intervenção. de um estudo descritivo e documental de caso
Destaca-se que as pesquisas de evidencia clínico. A paciente foi informada sobre os procedi-
mentos experimentais e a responsável pela mesma
forte a moderada apontaram efeito analgésico deste
assinou um termo de consentimento livre e
fármaco para as feridas, bem como seus autores
esclarecido. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de
referiram o uso da fenitoína como aplicação segura
Ética e Pesquisa da Fundação de Medicina Tropical
fatores importantes quando se teme a absorção
do Tocantins sob parecer 090/2010.
sistêmica que a aplicação tópica pode desencadear.
No presente estudo, foi utilizada a fenitoína
Em se tratando de comparações, destaca-se
tópica na forma de comprimido 100mg triturado e
nesse estudo que a fenitoína na aplicação tópica dissolvido em 5ml de solução fisiológica 0,9%,
apresentou potencial cicatrizante maior que o soro aplicado sob a ferida de 12/12 horas, posteriormente
fisiológico, ainda que seu potencial tenha sido coberta com gazes.
inferior ao do hidrocoloide. Este fato torna o uso da
O estudo acima acompanhado com a terapia
fenitoína como agente cicatrizante atrativo aos
a terapia tópica utilizada da fenitoína sugere que ela
serviços desprovidos de maiores recursos para
pode ser útil para o tratamento de feridas agudas e
aquisição de materiais de curativos de alta tecnolo- crônicas, mostrando uma melhora substancial na
gia. formação do tecido de granulação; assim como
A produção científica acerca do potencial redução dos tecidos desvitalizados e secreções; por
cicatrizante da fenitoína caracteriza-se por pesquisas fim regressão da LP após setenta dias de tratamento
em feridas que são problemas clássicos na geração de satisfatório, (figura 2), apesar da paciente, devido a
custos para o sistema público de saúde mundial, sua doença de base, permanecer acamada na maior
agravado nos países em desenvolvimento. Novamen- parte do tempo.

Figura 1: Úlcera de pressão na região sacral Figura 2: A mesma úlcera setenta e dois dias
antes do início do tratamento. após o uso da fenitoína tópica.
Fonte: Junior e Batista et al. (2011) Fonte: Junior e Batista et al., 2011

184
Outros Temas

Ainda segundo o estudo observou-se que a Segundo o estudo quatorze ensaios clínicos,
fenitoína pó tornou-se uma opção mais barata e de foram incluídos na revisão sistemática. Dois
fácil aplicação tópica em úlceras, alivia eficazmente a trabalhos foram de papeis de altura e 12 de
dor, combate quadro infeccioso local e melhora a moderada ou baixa qualidade metodológica. A
formação e tecido de granulação, promovendo assim maioria dos trabalhos não conseguiu descrever a
a cura, a redução da morbilidade e dos encargos randomização, a alocação de tratamento e técnicas
financeiros que permitam a sua utilização em ofuscantes adequadamente. Houve evidência
ambientes pobres em recursos. moderada apresentaram para apoiar o siso da
O artigo denominado Potencial terapêutico fenitoína para o tratamento de úlceras de perna,
da fenitoína na cicatrização de radiodermites de feridas de hanseníase, feridas crônicas e úlceras do
autoria de Firmino 2007, trata-se de uma revisão de pé diabético.
literatura e relato de experiência. No presente
estudo, a dose da fenitoína escolhida para 4. CONCLUSÃO
intervenção proposta está de 50% inferior às doses de
fenitoína demonstradas na literatura em relação a A revisão integrativa da literatura realizada
aplicação em feridas como úlceras por pressão grau neste estudo conclui que o uso tópico da fenitoína é
II. Segundo os autores o emprego de tal dose foi uma evidência forte de efeitos benéficos para o
devido o volume pequeno da área danificada pela processo de cicatrização em lesões por pressão, pé
irradiação e o cuidado em não causar anos a pele da diabético e por hanseníase.
lesão.
A realização de pesquisas experimentais
Supõe-se que o pH da fenitoína tópica seja nesta temática está crescendo no âmbito internacio-
alto (cerca de 12), o que pode causar danos a pele nal. Os chineses têm desenvolvido trabalhos
adjacente à ferida, uma vez que o pH da pele normal é promissores, no entanto estão no idioma chinês com
em torno de 4,5 ou 5. Daí decorre a indicação do uso poucas informações disponibilizadas nos resumos
da fenitoína manipulada na forma de creme por parte inglês, um dos fatores limitantes na pesquisa.
de alguns estudiosos. Na intervenção descrita não
foram detectados à inspeção, danos na pele No entanto, os estudos conduzidos são de
adjacentes. qualidade forte a moderada, embora os resultados
de algumas pesquisas sejam encorajados com
Segundo Firmino 2007, em relação ao uso da
resultados satisfatórios apesar da ação da fenitoína
fenitoína tópica na cicatrização de radiodermites,
tópica não estar totalmente definido, a eficácia da
não constou registro na literatura compulsada tal
terapia com fenitoína tópica ainda necessita de mais
como constou para úlceras venosas, por pressão, pé
estudos clínicos baseados em evidências para que os
diabético, dentre outras. No entanto a radiodermite
benefícios na cicatrização de lesões por pressão
grau II esboça ferimento similar à úlcera por pressão
sejam determinados, assim como a dose ideal e o
grau II e queimaduras, e, nestas, a fenitoína tópica foi
utilizada com bons resultados. método a ser utilizado no procedimento.

O estudo de autoria de Shaw J; Hughes CM; Destaca-se a importância de incentivos na


Lagan K. M, 2007, intitulado “O efeito clinico da produção de pesquisas que apontem suas possíveis
fenitoína tópica na cicatrização de feridas: uma indicações em processos de cicatrização, o que
revisão sistemática tratou-se de um estudo de revisão muito contribuirá para a revisão e atualização de
sistemática onde os pesquisadores tinham como medidas de cuidados e uma assistência de enferma-
principal objetivo: sistemática para identificar, gem mais humanizada com inovações no cuidado.
sintetizar e avaliar criticamente as evidências clínicas
disponíveis sobre os efeitos da fenitoína tópica na
cicatrização de feridas.

185
Outros Temas

REFERÊNCIAS PEREIRA, C. A. Z. Avaliação do efeito da


fenitoína (5,5-difenil-2-4-imidazolidione,
BROOME, M. E. Integrative literature reviews sódio) na cicatrização cutânea da excisão de
for the development of concepts. In: nevos melanocíticos na face e no dorso do
RODGERS, B. L.; KNAFL, K. A. (Eds.). Concept tórax. [tese]. UNIFESP.São Paulo, 2009.
development in nursing: foundations, tecniques
and applications. Philadelphia: WB Saunders SHAPIRO MDDS. Acceleration of gingival
Company, 2000. p. 231-50. wound healing in nonepileptic patients
receiving diphenylhydantoin sodium. Exp.
FERNANDES, L. M. Úlcera de pressão em Med. Surg 1958 Sep; 7 (3): 41-53.
pacientes críticos hospitalizados: uma
revisão integrativa da literatura. 2000. 168 f. SHAW J ,HUGHES C. M, LAGAN, K. M. O efeito
Dissertação (Mestrado) - Escola de Enfermagem de clínico da fenitoína tópica na cicatrização de
Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão feridas: uma revisão sistemática. The British
Preto, 2000. journal of dermatology. 2007.

FIRMINO, F. Potencial terapêutico da


fenitoína na cicatrização de radiodermites:
relato de experiência.Esc. Anna Nery R.
Enfermagem. 2007
.
FIRMINO, F.; ALMEIDA, A. M. P.; et al. Produção
Científica acerca da aplicabilidade da fenito-
ína na cicatrização de feridas. REVISTA ESC.
DE ENFERM. USP. (RIO 2015)

GIL, A. C. Como Elaborar Projetos de Pesquisa.


4. ed. São Paulo: Atlas, 2002, 175p.

JUNIOR, E. P. S.; BATISTA, R.R.A.M.;et al. Uso de


fenitoína na cicatrização de úlcera por
pressão: Desafio Terapêutico. Revista Cientifica
do ITPAC. Volume 4. Número 2. Abril de 2011.
Publicação 4.

MENDES, K. D. S.; SILVEIRA, R. C. C. P.; GALVÃO,


C. M. Revisão integrativa: método de pesquisa
para a incorporação de evidências na saúde e
na enfermagem. Texto Contexto Enfermagem,
Florianópolis, v. 17, n. 4, p. 758-764, out./dez. 2008.

NPUAP – National Pressure ulcer Advisory


Panel. Disponível em: <http://www.npuap.org/> .
Acesso em 02.06.16

186
Outros Temas

RELAÇÃO ENTRE O USO DE CATETER VENOSO


CENTRAL (CVC) IMPREGNADO COM ANTISSÉPTICOS E A INFECÇÃO DA
CORRENTE SANGUÍNEA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

RELATIONSHIP BETWEEN THE USE OF CENTRAL VENOUS CATHETER (CVC)


IMPREGNATED WITH ANTISEPTIC AND BLOODSTREAM INFECTION:
A REVIEW OF LITERATURE INTEGRATIVE

1
Jackson Henrique Sousa LIMA
2
ODINÉA MARIA AMORIM BATISTA
2
Enfermeiro Intensivista, Doutorando em Terapia Intensiva pelo IBRATI/SOBRATI. Mestre em Terapia
Intensiva – IBRATI/SOBRATI Professor do Curso de Pós Graduação da Faculdade Latino Americana de
Educação (FLATED). *Avenida Newton Bello, 129, Centro, Fortuna-MA, Brasil, CEP: 65695-000 email: limajackleao@hotmail.com
2
Enfermeira especialista em Controle de Infecção Hospitalar. Docente da graduação em Enfermagem da UNINOVAFAPI,
Teresina, PI. Doutoranda em Enfermagem pela UFPI.

RESUMO
A infecção associada ao cuidado à saúde (IRAS) é uma séria problemática e um desafio em âmbito mundial
ainda mais diante da variabilidade de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Nesse sentido, estabeleceu-
se como objetivo principal desse estudo buscar evidências sobre a associação entre o uso de Cateter Venoso
Central (CVC) impregnado com antissépticos e a redução da Infecção da Corrente Sanguínea (ICS). Tratou-se
de um estudo de revisão integrativa da literatura. Entendemos que outras pesquisas acerca de prevenção de ICS
relacionada ao CVC são necessárias no sentido de elucidar questionamentos ainda sem respostas, auxiliar na
tomada de decisão frente às controvérsias, apoiar a implementação de novas tecnologias e a sua aplicabilidade
na prática, o que sem dúvida, repercutirá na qualidade da assistência aos pacientes submetidos à cateterização
venosa central.

Palavras-Chave: Terapia Intensiva, controle de infecções, enfermagem baseada em evidencias.

ABSTRACT
The infection associated with health care (IRAS) is a serious problem and a challenge worldwide even before the
variability of diagnostic and therapeutic procedures. In this sense, it was established as the main objective of
this study to find evidence on the association between the use of Central Venous Catheter (CVC) impregnated
with antiseptic and reducing bloodstream infection (ICS). This was an integrative review. We consider that
further research about ICS prevention related to CVC are necessary in order to clarify questions without
answers, assist in taking forward the decision to the disputes, support the implementation of new technologies
and their applicability in practice, which undoubtedly have repercussions on the quality of care for patients
undergoing central venous catheterization.

Keywords: Intensive care, infection control, nursing based on evidence.

187
Outros Temas

1 INTRODUÇÃO por tempo superior a 48 horas, e cuja infecção


sanguínea não seja relacionada a outro sítio
A infecção associada ao cuidado à saúde
Uma das formas de prevenir essa complica-
(IRAS) é uma séria problemática e um desafio em
ção é mediante a oclusão do óstio do cateter central
âmbito mundial ainda mais diante da variabilidade
com curativo estéril, para o qual estão disponíveis
de procedimentos diagnósticos e terapêuticos.
diversas tecnologias no mercado. Frente a isto,
Especificamente, a infecção relacionada ao cateter
objetivou-se identificar fatores relacionados à
vascular é preocupante face a sua gravidade e
ocorrência de infecção, reação local e má fixação de
letalidade. Tem etiologia complexa e multifatorial. 2
curativos para cateter venoso central .
Estudos destacam a situação clínica do paciente, o
tipo de cateter, sua composição, a técnica de inserção, O uso de antissépticos tem sido investigado
a localização, a frequência de manipulação do como uma das possibilidades de modificar as
sistema e a duração da cateterização aspectos que propriedades da superfície do dispositivo, e
1
merecem atenção . diminuir a colonização microbiana do cateter. O
Por tudo isso, observa-se que é necessário o reconhecimento dessa possibilidade tem
conhecimento da equipe multiprofissional sobre os implementado nas últimas décadas o uso de
1
riscos de infecções relacionadas a procedimentos cateteres impregnados com antisséptico .
invasivos em especial o cateter vascular, pois o tempo Segundo Assis et al. (2007)3, a infecção da corrente
e a sua permanência são as principais evidencias para sanguínea é responsável por 10 a 15% de todas as
o aparecimento de sítios de infecção na unidade de infecções hospitalares. Nos Estados Unidos, estima-
terapia intensiva. se que 87% das infecções de corrente sanguínea
O emprego do cateter venoso central em sejam devidas a cateteres. No Brasil, a taxa de
ambiente hospitalar corresponde a um avanço para a infecção da corrente sanguínea relacionada a cateter
prática clínica, sendo ferramenta indispensável no é de 17,05/1000 dispositivos invasivos-dia,
cuidado ao paciente, principalmente para aqueles em considerando-se um percentil de 95%.
situação crítica. Neste grupo de pacientes, o cateter
Apesar dessa não ser a principal dentre as
de curta permanência é o mais comumente
infecções hospitalares, acarreta grande ônus para os
empregado, uma vez que é indicado quando se
estabelecimentos de saúde, uma vez que prolonga o
necessita de acesso central por curto período de
tempo de internação, aumenta o custo do
tempo (sete a dez dias)2.
tratamento e coloca em risco a vida dos clientes4.
O aparecimento de múltiplas técnicas e
O curativo do acesso venoso central é uma
desenvolvimento tecnológico relacionado ao acesso
maneira de proteger o sítio de inserção do cateter da
vascular permitiu o salvamento, assim como o
colonização por bactérias. Atualmente, existem
prolongamento, da vida de incontáveis pacientes.
diferentes curativos no mercado, sendo que o de
Mas sua utilização não está isenta de complicações,
pois muitas vezes podem evoluir de forma catastró- gaze e fita e o filme transparente de poliuretano são
fica. Assim, se faz necessária a devida atenção desde a os mais utilizados. Esses curativos variam na
inserção até a sua retirada. durabilidade, facilidade de aplicação, capacidade de
2
desenvolver reação cutânea e capacidade de
Segundo Pedrolo et al. (2014) , a despeito de
prevenir infecções5.
sua ampla utilização, os cateteres centrais expõem o
paciente a complicações, dentre as quais se destaca a Para Bacuzzi (2006)6, o uso de antissépticos
infecção primária da corrente sanguínea, devido aos tem sido investigado como uma das possibilidades
elevados índices de morbimortalidade associados. de modificar as propriedades da superfície do
Esta corresponde à primeira infecção da corrente dispositivo, e diminuir a colonização microbiana
sanguínea nos pacientes em uso de cateter central cateter. O reconhecimento dessa possibilidade tem

188
Outros Temas

implementado nas últimas décadas o uso de cateteres um tópico específico ou esclarecer assuntos ainda
impregnados com antissépticos. obscuros. Além disso, torna-se essencial que as
Diante do exposto, o presente estudo utilizará fontes escolhidas expressem a representatividade
a Prática Baseada em Evidências (PBE), uma vez que do todo, para que o processo seja organizado e
10
sua abordagem proporcionará a aplicação conciso .
sistemática da melhor evidência disponível para a Na pesquisa bibliográfica ocorre o desenca-
avaliação de opções e tomada de decisão no cuidado deamento de uma série de etapas, tais como: escolha
7
integral do paciente . de tema, levantamento bibliográfico, formulação do
Nesse sentido, estabeleceu-se como objetivo problema (pergunta), elaboração do plano
principal desse estudo buscar evidências sobre a provisório de assunto, busca de fontes, leitura do
associação entre o uso de Cateter Venoso Central material, fichamento, organização lógica do assunto
11
(CVC) impregnado com antissépticos e a redução da e redação do texto .
Infecção da Corrente Sanguínea (ICS). Neste estudo o tema escolhido foi “infecção
de corrente sanguínea” devido ao grande aumento
2. MATERIAL E MÉTODOS de casos vividos diariamente em unidades de terapia
intensiva e por estar relacionada a causas
Tratou-se de um estudo de revisão integrativa multifatoriais e apresentarem fisiopatologia, crité-
da literatura operacionalizada a partir das seguintes rios diagnósticos, implicações terapêuticas,
etapas: identificação do tema e seleção da questão de prognósticas e preventivas distintas.
pesquisa; estabelecimento de critérios de inclusão e
Para a seleção da amostra foi estabelecido os
exclusão; identificação dos estudos pré-selecionados
seguintes critérios de inclusão: artigos online
e selecionados; categorização dos estudos selaciona-
disponíveis na íntegra que aborde o tema infecção de
dos; análise e interpretação dos resultados e
corrente sanguínea publicados no idioma português
apresentação da revisão/ síntese do conhecimento8.
no período de 2008 a 2016. Como critérios de
As perguntas que nortearam este estudo exclusão, optou-se por: estudos em formatos de
foram: qual a prevalência de infecção relacionado a editoriais, estudos de caso, estudos epidemiológi-
cateter venoso central em pacientes da unidade de cos, dissertações, teses e comentários. Para realizar
terapia intensiva? Quais os métodos de segurança esta pesquisa foi feita uma busca eletrônica no banco
que previnem esse tipo de infecção hospitalar? de dados SCIELO, usando os seguintes descritores:
9
Fernandes (2000) afirma que a revisão terapia intensiva, controle de infecções, enferma-
integrativa é uma análise ampla da literatura, gem baseada em evidencias.
contribuindo para compreensão sobre métodos e Em seguida, foi realizada uma leitura
resultados de pesquisas, bem como na identificação exploratória, seguida da seletiva e, por fim, a análise
do direcionamento de futuras investigações. A
do material selecionado. Posteriormente foi feito o
elaboração da revisão deve seguir padrões de rigor
fichamento com a devida identificação das fontes e o
metodológico, os quais possibilitam ao leitor
registro dos conteúdos pertinentes, para reunir
identificar as características reais dos estudos
sistematicamente o material colhido dos artigos
analisados. O resultado de uma revisão da literatura 11
selecionados para o estudo .
bem elaborada, sobre um determinado tema clínico,
acarreta impacto benéfico direto na qualidade dos Por fim, os dados foram apresentados em
cuidados prestados ao paciente. quadros e analisados conforme os objetivos do
estudo.
O propósito inicial da revisão integrativa da
literatura é a obtenção de um entendimento
profundo sobre o fenômeno a ser investigado, com o
objetivo de apresentar o atual conhecimento sobre

189
Outros Temas

3. DESENVOLVIMENTO A utilização de CVC representa significativo


avanço no diagnóstico e na terapêutica em saúde.
As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) se Nos recém-nascidos e crianças, são indicados para
utilizam de medidas extremas como medicações e terapia medicamentosa, monitorização hemodinâ-
dispositivos invasivos, que paradoxalmente, podem mica, administração de nutrição parenteral total.
desencadear complicações e efeitos colaterais. Entre Alguns procedimentos cirúrgicos e clínicos são
essas complicações, a infecção hospitalar se destaca realizados com o desenvolvimento dessa tecnologia
12
pela sua frequência e importância . na internação13.
O uso de cateter venoso central (CVC) vem se Trata-se de um dispositivo de acesso direto a
tornando prática indispensável nos cuidados aos corrente sanguínea, o uso do cvc está associado a
pacientes hospitalizados, particularmente, os mais complicações mecânicas e infecciosas, locais ou
graves. Na Europa 60% dos pacientes hospitalizados, sistêmicas, descritas como celulite do sítio de
fazem uso do CVC em algum momento da inserção, endocardite, bacteremia e infecção
13
internação .
metastática.
A infecção relacionada ao cuidado ao cuidado
A patogenia da infecção de corrente
à saúde é apontada como uma das mais serias
sanguínea é multifatorial, podendo ocorrer por
problemáticas e um desafio em âmbito mundial. E,
contaminação da solução de infusão, nas conexões
esse agravo se torna ainda maior mediante a
entre cateter e as linhas de infusão e/ou colonização
variabilidade de recursos e condutas aplicadas na
endógena do cateter.
assistência, seja no domicilio ou na instituição14.
Várias condições têm sido apontadas como
Quando se fala de infecção hospitalar é
fatores de risco para o desenvolvimento das
importante destacar sua participação significativa
infecções relacionadas ao cateter venoso central
nas taxas de morbimortalidade, no aumento do
período de hospitalização, e, por conseguinte na (CVC). A duração do cateterismo, a colonização
elevação dos custos. Acresce-se que o risco de cutânea no local de introdução do cateter, a
infecção está diretamente relacionado às condições manipulação frequente da linha venosa, a utilização
clínicas do paciente, extremos de idade, comorbida- do cateter para medir a pressão venosa central, o
des, condições nutricionais, dentre outros aspectos15. tipo de curativo usado, a doença de base e a
gravidade dos estados clínicos são considerados os
As UTIs são unidades especializadas dentro
fatores mais importantes12.
dos hospitais, destinadas ao tratamento de pacientes
cuja sobrevivência se encontra ameaçada por As infecções de corrente sanguínea relacio-
doenças ou condição que causa instabilidade ou nada a cateter ocorrem quando o germe presente no
disfunção de um ou mais sistemas fisiológicos. Os local de inserção atinge a corrente sanguínea,
leitos de terapia intensiva representam mais ou resultando em bacteremia, que quando não contida,
menos 10% dos leitos de um hospital, porém a provoca infecção com grave comprometimento
maioria das infecções hospitalares graves ocorre com clínico, podendo resultar em septicemia.
os pacientes internados nessas unidades12.
Essa infecção a partir do cateter deve ser
No Brasil, a Portaria n° 2615 de 1998 suspeita quando existe um foco infeccioso primário
considera infecção hospitalar qualquer manifestação aparente e quando as hemoculturas (do sangue da
clínica de infecção que manifeste após a admissão e ponta do cateter), colhidas após 48h de internação,
que se manifeste durante a internação ou com resultarem no crescimento do mesmo agente
procedimentos hospitalares. As topografias mais infeccioso18.
frequentes são trato urinário, aparelho respiratório,
Com relação a infecção sanguínea relaciona-
sítio cirúrgico e corrente sanguínea, com distribuição
da a cateter, as taxas de infecção variam de acordo
percentual variando, respectivamente de 40,8 a 42%,
16,17
11 a 32,9%, 8 a 24% e 5 a 9,2% . com o local de implante, o tipo de cateter emprega-

190
Outros Temas

do, a categoria do CTI (queimados, trauma, pós- Vale ressaltar que durante a cauterização
operatório) e as comorbidades dos pacientes18. prolongada, as conexões dos cateteres são
A Seleção do sítio de inserção pode ser um manipuladas diversas vezes, o que aumenta
importante fator de risco, com base em estudos possibilidade do desenvolvimento de uma infecção
observacionais que sugerem taxas mais altas para da corrente sanguínea da colonização12.
cateteres inseridos na jugular em comparação com a Em relação às complicações infecciosas
subclávia; e ao comparar cateteres nas femurais com desde a década de 60 a literatura informa que são
aqueles inseridos em subclávia e jugular interna. frequentes as complicações sépticas, variando desde
A veia jugular, depois da veia femural, é a que uma supuração local, até uma infecção sistêmica. As
segue quando analisamos a literatura em relação ao infecções relacionadas ao acesso vascular são
risco de contaminação devido ao fato deste local ser descritos como celulite no sitio de inserção, flebite,
próximo à região das traqueostomias dos pacientes tromboflebite séptica, bacteremia, abcesso pulmo-
na terapia intensiva, o que favorece o contato com
secreções das vias aéreas, além da facilidade do nar, cerebral e artrite 19,21.
deslocamento do cateter pela movimentação do O tempo de permanência do cateter venoso
pescoço possibilitando a contaminação dos mesmos. central é o principal fator determinante para o
A seleção do local de inserção é baseada na desenvolvimento da infecção de corrente sanguínea.
facilidade de inserção, na habilidade de quem insere, O risco de infecção aumenta proporcionalmente
no risco de infecção, trombose e complicações do com a permanência do cateter venoso central.
procedimento. O CDC recomenda que a taxa de infecção da
O tipo de CVC é selecionado de acordo com a corrente sanguínea relacionada a cateter (ICSRC)
finalidade da utilização, levando em consideração as (infecção de corrente sanguínea relacionada a
características individuais do paciente, além de sua cateter central), seja calculada com base no número
condição clínica e limitações, e em com consonância de ICSRC por 1000 cateteres venosos centrais/dia,
com algumas variáveis como: tempo de utilização pois este parâmetro é mais útil que a taxa expressa
(temporário ou curta duração, permanente ou de por 100 cateteres (ou percentual de cateteres
longa duração), sítio de inserção (subclávia, femural,
estudados, devido a interferência do tempo na
jugular interna, periférica, cateter central, inserido
determinação da infecção e, o portanto, há ajuste do
perifericamente), percurso até o vaso (tunelizado e 19
risco pelo numero de dias de uso do cateter .
não tunelizado), extensão física (longo ou curto).
A constituição é variável, podendo apresentar im- Vale ressaltar que é alarmante que é
pregnação com heparina, antibióticos e antissépti- alarmante a evidência de que aproximadamente
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cos, diferente número de lumens, dentre outros . 90% das infecções de corrente sanguínea (ICS) estão
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A utilização de cateteres venosos central é associadas ao uso de CVC .
essencialmente para o cuidado do paciente Em relação a constituição, são vários os
hospitalizado que requer um acesso central, sendo autores que demonstram benefícios na utilização de
suas vantagens praticamente indiscutíveis. Porém, cateteres impregnados com agentes antissépticos e
podem existir complicações mecânicas e/ou anticoagulantes, além da técnica de “lock” de
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infecciosas .
antibiótico, onde o mesmo é introduzido através do
Dentre as complicações mecânicas estão a lúmen do cateter, permanece por algumas horas e
formação de trombos, punção arterial acidental, depois é removido. Todas essas medidas visam a
pneumotórax, oclusão ou colapso do dispositivo, proteção de aderência microbiana, e consequente-
extravasamento do liquido infundido, arritmias mente, o desenvolvimento de infecção relacionada
cardíacas, embolia gasosa durante a inserção do 22
ao cateter .
cateter, sangramentos e formação de hematomas.

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Outros Temas

Desde a sua introdução, esses cateteres têm Em se tratando de curativos no local de


sido preferidos para pacientes que exigem acesso inserção do cateter, os mais utilizados são os
central. No entanto, podem induzir a taxas mais altas transparentes semi