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Revista Portuguesa de Psicossomática

Sociedade Portuguesa de Psicossomática


medisa@mail.telepac.pt
ISSN: 0874-4696
PORTUGAL

2000
Egberto Ribeiro Turato
INTRODUÇÃO À METODOLOGIA DA PESQUISA CLÍNICO-QUALITATIVA
– DEFINIÇÃO E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS
Revista Portuguesa de Psicossomática, jan-jun, año/vol. 2, número 001
Sociedade Portuguesa de Psicossomática
Porto, Portugal
pp. 93-108
Revista
Portuguesa
93 Revista
de Introdução à Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa
Portuguesa
Psicossomática
de
Psicossomática

Introdução à Metodologia da
Pesquisa Clínico-Qualitativa –
Definição e Principais
Características
Egberto Ribeiro Turato*

Resumo tudos antropológicos, culturais e psi-


Este artigo apresenta a proposta de canalíticos. Com Galileu, a ciência
uma metodologia de pesquisa científica do separou-se da Filosofia e da Religião
tipo qualitativo para ser aplicada ao e ocupou-se, à custa de enormes re-
setting dos cuidados com a saúde. Para sistências dos (cientistas) aristotélicos
tanto discute as principais definições de e da Igreja da época, em fazer pesqui-
métodos qualitativos em geral mais fre- sa com procedimentos metodológicos
quentemente encontradas na literatura e próprios, mas voltada para o estudo
apresenta o conceito de método clínico- das coisas da Natureza. Percebendo
-qualitativo. A seguir enumera doze prin- que, no entanto, as manifestações do
cipais pontos que caracterizam este mé- ser humano e da sociedades consis-
todo e conclui sobre a necessidade do seu tiam em objectos com peculiaridades
uso para o cientista da saúde melhor co- cujo estudo as Ciências Naturais não
nhecer os sentidos e significados que as davam conta, os cientistas trataram de
pessoas trazem para os fenómenos relati- dar status às Ciências do Homem, o
vos às questões da saúde-doença. que por sua vez não encontrou (e ain-
da não encontra) menor resistência
por parte da academia conservadora
I - CONTEXTUALIZAÇÃO que adopta o paradigma positivista.
Enquanto as ciências naturais têm por
Enquanto os métodos quantitati- base a matemática e o objectivo é bus-
vos contam com cerca de quatrocen- car explicações sobre os fenómenos,
tos anos de história, pois nasceram ou seja as relações causais entre eles,
com a ciência moderna galileana, os as ciências humanas têm o escopo de
métodos qualitativos possuem cerca tentar compreender os fenómenos hu-
de um século, vindo à luz com os es- manos e sociais, isto é, as relações de
significado. Para o pesquisador qua-
litativo não bastam os factos (os da-
dos), mas é preciso a imaginação (a
* Professor na Universidade Estadual de
interpretação) para compreender o
Campinas, São Paulo, Brasil. que eles querem dizer para os indiví-

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duos e para a cultura. A presente pro- podemos considerar bastante satisfa-


posta de pesquisa, no entanto, procu- tória:
ra refinar os métodos qualitativos vi- A pesquisa qualitativa é multimeto-
sando a sua aplicação num universo dológica quanto ao foco, envolvendo uma
humano delicado, o setting dos cui- abordagem interpretativa e naturalística
dados com a saúde, onde questões para seu assunto. Isto significa que os
pessoais (muitas vezes de foro íntimo) pesquisadores qualitativos estudam as
são importantes e precisam de técni- coisas no seu setting natural, tentando
cas metodológicas especiais para se- dar sentido ou interpretar fenómenos em
rem colectadas. Assim, partindo de termos dos significados que as pessoas lhes
bases paradigmáticas sócio-antropo- trazem (Denzin e Lincoln, 1994, p. 2).
lógicas, os métodos clínicos lançam
mão de conhecimentos psicanalíticos, A mera leitura desta definição
tanto para a pesquisa de campo (va- pode ser insuficiente para uma com-
lorização dos fenómenos transferen- preensão precisa do leitor desacostu-
ciais), como para a discussão dos re- mado com a prática de pesquisas qua-
sultados (valorização dos mecanis- litativas, fazendo-o manter-se com a
mos inconscientes de adaptação). concepção hegemónica das ciências
naturais, as quais não têm por esco-
po estudar os significados que as coi-
II - AS DEFINIÇÕES DE MÉTO- sas têm para nós, mas sim, estudar
DOS QUALITATIVOS NA propriamente "as coisas" (os fenóme-
LITERATURA nos da natureza). Esta posição é uma
mudança também para os profissio-
O ponto chave é definirmos o mé- nais da área da saúde, pois a sua for-
todo qualitativo de pesquisa. Não po- mação universitária de cunho posi-
demos aceitar arremedos de concei- tivista conduz espontaneamente para
tuação como aquele que o define o raciocínio automático das correla-
como o método que não recorre aos ções causa-efeito. Que fique claro que
seguintes constituintes: números, cál- quando o investigador qualitativo vai
culos de percentagem, técnicas esta- a campo estudar "as coisas", não é
tísticas, tabelas, amostras numerica- nelas que ele vai ater-se, pois o termo
mente representativas, ensaios rando- genérico "coisas" neste caso é um si-
mizados, questionários fechados e nónimo metodológico de objecto de
escalas. Tentar definir pela via da ne- estudo que tratando-se de uma pes-
gação não é constituir uma definição, quisa qualitativa, são as pessoas ou
mas de facto reflectiria uma ausência comunidades em sua fala e em seu
de conhecimento sobre o assunto. comportamento (as "coisas" que acon-
Reproduzo uma definição genérica tecem…). Por outro lado, é sempre no
de métodos qualitativos que tem sido setting natural que ocorre o estudo, e
oferecida actualmente com frequên- nunca num ambiente reprodutor de
cia na literatura especializada e que situações (laboratórios, gabinetes,
etc.).
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Por conseguinte, se não é a coisa entados para o processo, usados para com-
que lhe interessa, o alvo do interesse preender, interpretar, descrever e desen-
do estudioso é, por outro lado, o "sig- volver teorias relativas a fenómenos ou a
nificado" que as coisas ganham, ou settings (1995, p. 243).
seja, significados que um indivíduo
em particular ou um grupo determi- Na falta de uma tradução precisa
nado atribuem aos fenómenos da na- para o português, mantive a palavra
tureza que lhes dizem respeito. Estas "emic" no original, e que deve ser en-
pontuações merecerão cuidado espe- tendida como o estudo e análise de um
cial mais á frente, quando apresento setting ou comportamento interpretados
as características dos métodos quali- a partir da perspectiva do autor (sujeito
tativos. Prosseguindo, em palavras do comportamento). Assim, explicações
semelhantes, Bogdan e Biklen enten- culturais e padrões são indutivamente
dem a pesquisa qualitativa como "descobertos" dentro do contexto cultu-
aquela em que os pesquisadores tem ral em vez de analisados a partir da pers-
como alvo o seguinte: pectiva do pesquisador, de uma
"…melhor compreender o comporta- estruturação prévia ou de teorias (Morse
mento e a experiência humanos. Eles pro- e Field, 1995, p. 242). Este estudo e
curam entender o processo pelo qual as análise, a partir da visão do pesqui-
pessoas constroem significados e descre- sador, são chamados de "emic" e per-
vem o que são aqueles significados. Usam mitem que sejam feitas generalizações
observação empírica porque é com os even- transculturais (referência idem). Os
tos concretos do comportamento humano autores procuraram ser abrangentes
que os investigadores podem pensar mais na sua definição, mas infelizmente
clara e profundamente sobre a condição deixaram de fora a palavra "signifi-
humana " (1998, p. 38). cado", um termo-chave. No seu alvo
amplo, no entanto, ganha força a pa-
Aí também os educadores norte- lavra "teorias", as quais, na ênfase de
-americanos tomam "significados" Morse e Field, devem ser compreen-
como uma palavra-chave. Novamen- didas (já foram postas por outros,
te depreendemos que o pesquisador antes da pesquisa) ou desenvolvidas
qualitativo não quer entender/inter- (o pesquisador propõe a sua) sobre o
pretar as pessoas em si mesmas (me- objecto de estudo.
dindo os seus comportamentos ou Privilegiando uma definição na vi-
correlacionando quantitativamente são estrutural e com objectivos contem-
eventos das suas vidas), explicando plando mais o campo da saúde colec-
o que, a seu ver, acontece com elas. tiva, as metodologias da pesquisa
Morse e Field apresentam uma defi- qualitativa podem ser entendidas
nição detalhada de métodos qualita- como:
tivos: "…aquelas capazes de incorporar a
Métodos de pesquisa indutivos, questão do significado e da intencio-
holísticos, êmicos (emic), subjectivos e ori- nalidade como inerentes aos actos, às re-

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lações, e às estruturas sociais, sendo es- tais fenómenos tenham estruturação


sas últimas tomadas tanto no seu adven- complexa, por serem de foro pessoal
to quanto na sua transformação, como íntimo ou de verbalização emocional-
construções humanas significativas mente difícil. O pesquisador também
(Minayo, 1994, p. 10). procura um enquadramento da rela-
ção face a face, valorizando as trocas
Novamente, o termo significado afectivas mobilizadas na interacção
ganha presença, a qual passa a ser pessoal e escutando a fala do sujeito,
compartilhada com a palavra "inten- com foco sobre tópicos ligados à saú-
cionalidade", pois neste entendimen- de/doença, aos processos terapêuti-
to a sociedade conteria a possibilida- cos, aos serviços de saúde e/ou sobre
de de todas as acções humanas ten- como lidam com as suas vidas. Por
derem propositadamente em direcção fim, observa o global da sua lingua-
a qualquer coisa diferente de si. Para gem corporal/comportamental no
o campo a que se dedica a autora, a sentido de complementar, confirmar
metodologia qualitativa leva em con- ou desmentir o falado.
sideração os planos das estruturas
sociais, querendo saber o que isto
quer dizer. Outra ideia forte, que se III - AS CARACTERÍSTICAS
harmoniza com a ideia da origem (o DO MÉTODO CLÍNICO-
advento), é a de onde se quer chegar -QUALITATIVO
(através da transformação). Por fim,
ao adoptarmos a expressão "clínico- 1. Sentidos e significados como
-qualitativo", queremos, de forma cla- cernes do estudo
ra, apresentar como temos definido
esta metodologia: é o estudo teórico - e As características dos métodos
o correspondente emprego em investiga- qualitativos gerais de pesquisa são
ção – de um conjunto de métodos cientí- diversas e bem conhecidas pela lite-
ficos, técnicas e procedimentos, adequa- ratura. Entre elas, cinco são consagra-
dos para descrever e interpretar os senti- damente definidas por Bogdan e
dos e significados dados aos fenómenos e Biklen (1998, p. 4-7) e comentadas por
relacionados à vida da indivíduo, sejam Triviños (1987, p. 128-130). Os primei-
de um paciente ou de qualquer outra pes- ros autores, ressaltando que nem to-
soa participante do setting dos cuidados das as investigações qualitativas exi-
com a saúde (equipa de profissionais, fa- bem todos os traços em graus equita-
miliares, comunidade). O pesquisador tivos, descrevem cinco características
é movido a uma atitude de acolhi- principais nesta ordem: a pesquisa é
mento das angústias e ansiedades da naturalística, tem dados descritivos,
pessoa em estudo, com a pesquisa a preocupação é com o processo, é
acontecendo em ambiente natural indutiva e a questão do significado é
(settings da saúde), e mostrando-se essencial. Na discussão que passo a
particularmente útil nos casos onde fazer, no entanto, acrescento diversas

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outras características, devidamente a consciência são distintos em sua es-


comentadas, por julgá-las pertinentes sência, pois o primeiro recebe os sen-
para a concepção da proposta especí- tidos enquanto a segunda dá os sen-
fica do método clínico-qualitativo. tidos. Devemos pontuar que, para
Destacadamente, temos que os pesquisas como aquelas do campo
sentidos e os significados dos fenómenos psicológico, a concepção de fenóme-
são o cerne para os pesquisadores no chama para si o sentido da entida-
qualitativos. Procurar capturá-los, de que se mostra em um local situado
ouvindo e observando os sujeitos da (Martins e Bicudo, 1989, p. 22). Assim,
pesquisa, bem como dar as interpre- por exemplo, as demonstrações de
tações, são nossos objectivos maiores. sentimentos psicológicos de uma pes-
Lembro que o termo "fenómeno" vem soa só ocorrem enquanto situados.
do grego phainomenon particípio pre- Devemos ainda chamar à atenção a
sente de phainesthai, que quer dizer diferença existente entre facto e fenó-
"aparecer" (Webster, 1997, CD-ROM). meno: este mostra-se a si mesmo, situan-
Recordam-nos que este verbo grego do-se, enquanto o facto é controlado
provém de faino, que por sua vez pro- após ter sido definido (referência idem),
vém de fa, que quer dizer "luz", aqui- o que de certo modo nos permite con-
lo que é brilhante, donde fenómeno é ceber o termo fenómeno como mais
o que se situa à luz do dia ou que pode ser abrangente que o termo facto.
trazido à luz (Martins e Bicudo, 1989, Na sequência da apresentação des-
p. 22). Uma definição de vocabulário ta característica do método qualitati-
é o que aparece à consciência, o que é vo, vamos trazê-la à aplicação no
percebido, tanto na ordem física como psí- setting dos cuidados com a saúde.
quica (Lalande, 1993, p. 394). Considerando alguém que tenha uma
A abrangência do conceito de fe- vivência pessoal qualquer, como em
nómeno pode recair amplamente so- particular à de ser ou estar doente,
bre todas as realidades, o que nos per- podemos, através da nossa consciên-
mite arbitrar uma codificação em qua- cia, conhecer-lhe os sentidos e os sig-
tro categorias: as coisas materiais por nificados de tantos fenómenos liga-
nós percebidas ou imaginadas; as tan- dos ao binómio saúde/doença que se
tas coisas da natureza, como as da fí- associam a alguém. São dois elemen-
sica ou da química; as coisas ideais tos que às vezes são confundidos. O
tais como os conceitos da lógica e os termo "sentido" vem do latim, sensus,
entes matemáticos, os quais são exis- particípio passado de sentire, que é
tentes somente no pensamento; e, por sentir, perceber (Webster, 1997, CD-
fim, as coisas culturais, assim criadas -ROM). Um mal-estar, um sintoma fí-
pela prática humana, tais como as ins- sico ou mental, uma doença, um tra-
tituições sociais e políticas e os valo- tamento médico ou tantos outros fe-
res morais (Chauí, 1995, p. 238). As- nómenos têm sentidos: podem ser
sim, todo o existente é fenómeno. percebidos pelo próprio sujeito ou
Costumamos dizer que o fenómeno e pelo observador como possuindo

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uma tendência (tende para um lado) compreender os fenómenos, recusan-


e pode-se conhecer para onde eles do assim ficarmos sob o paradigma
apontam, para que lado (ou lados) positivista, cujos seguidores preten-
devemos jogar nosso olhar. Isto ocor- dem ver-nos presos à quantificação
rendo paralelamente a conhecimen- dos factos. Numa pesquisa com
tos estritamente médicos estudados pacientes com enfarte do miocárdio,
no campo biológico. Orientam-se (isto por exemplo, apresentei o que
é, orientam-nos) a observar determi- pacientes quiseram dizer, fenómenos
nadas direcções, sejam estas do cam- associados ao tratamento e prevenção
po filosófico, sociológico e/ou psico- da doença (Turato, 1988).
lógico. Todos sabem que uma expe-
riência de vida, como um sintoma ou 2. Ambiente natural como local
uma doença, traz sentidos à vida da necessário
pessoa que a comporta, o indivíduo
doente, sejam estes sentidos deseja- Na segunda característica dos
dos ou não, sejam ajuizados como métodos qualitativos, deve ficar cla-
bons ou como maus. ro que o ambiente natural é o local
Por sua vez, o termo "significado" certo para a colheita dos dados, pois
(ou significação) vem do latim a configuração ambiental engloba e
significatus, e é a representação, na preserva a configuração das incontá-
linguagem, do significante (Cunha, veis características da pessoa, alvo de
1986, p. 721-722); de signum, uma nossos estudos. Chamamos esta pes-
marca (Webster, 1997, CD-ROM). Si- quisa de naturalística pois, não sen-
nal é aquilo que "representa", é aquilo do experimental, trata-se de uma pes-
que "quer dizer". Uma experiência, quisa em settings acontecendo natural-
como por exemplo uma doença, traz mente (Pope e Mays, 1995, p. 43). Ob-
significados para a pessoa que a vive viamente não devemos confundir a
ou para a pessoa que a observa no palavra naturalística, também habitu-
outro, sejam eles conscientes ou almente usada para se referir aos es-
inconscientes. Estes significados são- tudos dos elementos da natureza,
nos permitidos conhecer, tomarmos num paradigma distinto do nosso, já
consciência enquanto observadores e que não usamos o das ciências natu-
investigadores, também paralela- rais. No caso da pesquisa clínico-qua-
mente aos conhecimentos que litativa, consideramos metodologica-
reunimos na abordagem do campo mente que o contexto físico-estruc-
médico-biológico. Enfim, temos que tural, quotidiano, do local da presta-
o sentido tem por objecto a própria coisa ção de serviços clínicos (o setting dos
enquanto a significação tem por objecto cuidados com a saúde) configura-se
o sinal da coisa (Jolivet, 1975, p. 202). num ambiente natural para as pesso-
Ao queremos conhecer sentidos e as ali envolvidas com processos clí-
significados, buscamos interpretá-los, nicos preventivos e/ou terapêuticos.
voarmos com nossa criatividade para Em oposição, sabemos que a chama-

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da "pesquisa de gabinete" não traz a zar a existência das angústias e ansie-


autoridade e a validade que um tra- dades da pessoa entrevistada como
balho de campo tem a capacidade de um elemento fundamental de mobi-
trazer. lização do interesse do entrevistador.
A palavra setting adquire um sen- Recordamos que, do latim, angustia
tido especial para quem trabalha nas significa estreiteza, de angere, apertar
áreas "psi", sobretudo para os psicote- forte, sufocar (Webster, 1997, CD-
rapeutas que utilizam referenciais -ROM). Considerando a angústia pri-
psicodinâmicos. Em contrapartida, os meiramente no sentido da actividade
pesquisadores de áreas sociais, inclu- clínica, lembramos do que nos fala
sive os da saúde colectiva, muitas sobre ela o psicólogo e filósofo alemão
vezes empregam expressões que fa- Karl Jaspers (1883-1969), um pensa-
lam de escolha do locus e do grupo de dor que muito reflectiu sobre a ques-
observação e informação (Minayo, 1994, tão da existência. Frisemos que a exis-
p. 102). Entendo setting como um tência é entendida como a dimensão
ambiente delimitado, um enquadra- do homem que há mais de imediato e
mento, enfim englobando todos os directo, de mais intimo e pessoal de cada
aspectos incidentais que envolvem as um; na qual este se sente radicado da
pessoas num momento particular. maneira mais profunda, aquilo que é
Pela acepção rica e consagrada na lín- mais inseparável da pessoa e mais inco-
gua inglesa, empregamo-la mesmo fa- municável (Mondin, 1985, p. 194).
lando e escrevendo em outras línguas. Abaixo um significativo trecho de
Lembro que em inglês, há ainda o ter- sua obra "Psicopatologia Geral", edi-
mo environment, também com o sig- tada pela primeira vez em 1913, onde
nificado de ambiente, mas referindo- o autor, ao falar dos fenómenos da
-se mais amplamente ao "meio", com vida psíquica, tais como os sentimen-
todas as situações, eventos e pessoas tos sem objecto, assim retrata a angús-
influenciando o modo em que se vive tia:
e trabalha. Mais especificamente so- Sentimento frequente e torturante é a
bre "ambiente" e "ambientação", dis- angústia. O medo se refere a alguma coi-
cutirei no final do capítulo seguinte, sa. A angústia é sem objecto. Como sen-
que trata das questões imediatas à sação de um sentimento específico no co-
operacionalização. ração, a angústia é vital. ... Todavia, a
angústia é também estado de alma origi-
3. Valorização das angústias e an- nário, que, em analogia com a angústia
siedades como fundamentais vital, atinge, penetra e domina sempre
toda a existência. ... A angústia está liga-
Tratando-se do uso do método da a sensações corporais, a um sentimen-
qualitativo aplicado no setting dos to de pressão, sufocação, estreiteza. Mui-
cuidados com a saúde, é imprescin- tas vezes, é localizada, por exemplo, como
dível ao pesquisador, acolhendo a angústia precordial, às vezes até como
pessoa numa atitude clínica, valori- angústia cefálica (1979, p. 138-139).

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Outros sim, tomo o termo angús- médicos, ninguém completamente são,


tia no sentido não apenas clínico, en- também se poderia dizer, conhecendo bem
quanto um sintoma da manifestação o homem, que nem um só existe que este-
psicológica de uma sensação interna ja isento de desespero, que não tenha lá
de opressão, mas principalmente, no no fundo uma inquietação, uma pertur-
sentido existencialista, como algo que bação, uma desarmonia, um receio de não
traz inquietação que acaba por limi- se sabe o quê de desconhecido ou que ele
tar e restringir a vida: angústia como nem ousa conhecer, receio duma eventua-
desejo de algo que se teme e de medo do lidade exterior ou receio de si próprio; tal
que se deseja e que como tal prepara e como os médicos dizem duma doença, o
anuncia uma ruptura, um salto a reali- homem traz em estado latente uma en-
zar (Jolivet, 1975, p. 19). Neste senti- fermidade, da qual, num relâmpago, ra-
do filosófico, a angústia é tida como ramente um medo inexplicável lhe revela
um estado que traz ao homem uma a presença interna (Kierkegaard, 1984,
tensão não resolvida entre o ser e o p. 203).
nada, entre o finito e infinito. O exis-
tencialismo é uma corrente de pensa- A fala e o comportamento huma-
mento que ganhou força após a Pri- nos demonstram angústias e ansieda-
meira Guerra Mundial, tida por mui- des da pessoa que devem ser encara-
tos como uma renovação necessária, das e acolhidas pelo pesquisador
buscando uma análise minuciosa da ex- qualitativo. Quem não tiver esta sen-
periência quotidiana em todos os seus as- sibilidade e disponibilidade interna
pectos ... sobretudo dos aspectos irracio- de acolher angústias e ansiedades do
nais da existência humana (Mondin, outro não será um bom investigador
1985, p. 182). É no existencialismo do clínico. Na realidade, a angústia hu-
filósofo dinamarquês Sören Aabye mana é a força motriz, de origem in-
Kierkegaard (1813-1855) que encon- terna ao cientista, que o persuade e o
tramos reflexões ilustrativas de como impulsiona à investigação. Desta
consideramos as ansiedades e angús- perspectiva, a actividade científica
tias presentes no sujeito que quere- parte com um interesse secundário
mos estudar. Embora o pensamento por factores sócio-económicos e his-
deste autor se tenha ocupado bastan- tóricos, mas mais condicionada pelas
te com a temática teológica, o seu dis- emoções e pela razão da pessoa do
curso filosófico alcançou grande va- investigador.
lor inegavelmente por examinar a
natureza do indivíduo, os limites do 4. Valorização de elementos psi-
sistema, os conceitos de existência, de codinâmicos como ferramen-
angústia e de interioridade (Mondin, tas
1985, p. 74-75). Ouçamos o autor, que
em sua obra "O Desespero Humano", Particularizemos as influências
de 1849, diz: que recebemos da teoria e da prática
Assim como talvez não haja, dizem os da psicanálise, como desenvolvida

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por Freud, e de onde devemos, obri- rando importantes a introspecção e a


gatoriamente, tanto extrair alguns ele- reflexão pessoal na pesquisa natura-
mentos como contribuição para dis- lística (1986, p. 26). Com o intuito de
cussão de material colhido no contex- entender os elementos emocionais
to de uma pesquisa clínico-qualitati- envolvidos numa entrevista para
va, como, antes, aprender condutas aplicá-los, tanto na clínica assistenci-
para se colocar o mais adequadamen- al como na investigação científica, te-
te no setting de uma entrevista, tendo nho predilecção, desde o início de
esta como técnica-chave do modelo minha carreira de pesquisador e clí-
pesquisa aqui proposto visando uma nico, pelas discussões literárias do
rica collheita de dados. Não se tratan- psicanalista argentino José Bleger.
do exactamente de uma investigação Este autor privilegia de modo claro e
psicanalítica no sentido estrito desta objectivo a discussão da participação
concepção, a investigação na psicolo- do entrevistador no resultado da en-
gia dos settings dos cuidados com a trevista. Sobre a característica do pes-
saúde, vai emprestar conceitos da psi- quisador aqui enfocado, diz este au-
canálise para serem utilizados como tor:
uma ferramenta, entre outras, a fim O instrumento de trabalho do
de empreender suas pesquisas cien- entrevistador é ele mesmo, sua própria
tíficas. Analogamente, como se cu- personalidade, que participa inevitavel-
nhou a expressão Psiquiatria Clínica mente da relação interpessoal, com o agra-
Psicodinâmica, que não é Psicanáli- vante de que o objecto que deve estudar é
se, mas é a prática psiquiátrica que outro ser humano, de tal maneira que, ao
recorre a conhecimentos selecciona- examinar a vida dos demais, se acha di-
dos desta, podemos também pensar rectamente implicada a revisão e o exame
numa psicologia médica com recur- de sua própria vida, de sua personalida-
sos psicodinâmicos, referindo-se a de, conflito e frustrações (1985, p. 26).
uma determinada prática investiga-
dora psicológica que se beneficia de 6. Pesquisador como bricoleur
conceitos trazidos da psicanálise.
Outra característica é termos o
5. Pesquisador como instrumento pesquisador-como-bricoleur. A pesqui-
sa qualitativa envolve o uso de uma
Uma quinta característica é termos colecção variada de materiais em-
o pesquisador-como-instrumento, píricos, dentre os quais a entrevista e
concordando (e acompanhado de tan- o observacional, que devem descre-
tos autores) com as educadoras Lüdke ver os momentos rotineiros e problemá-
e André que mencionam que o pes- ticos e os significados nas vidas dos indi-
quisador pode recorrer aos conhecimen- víduos, sendo que as múltiplas metodo-
tos e experiências pessoais como auxilia- logias da pesquisa qualitativa podem ser
res no processo de compreensão e inter- vistas como uma ‘bricolage’ e o pesquisa-
pretação do fenómeno estudado, conside- dor como um ‘bricoleur’. (Denzin e

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Lincoln, 1994, p. 2). Os autores lem- O conjunto de meios do bricoleur não


bram que a pesquisa qualitativa com- é portanto, definível por um projecto ...;
porta eminentemente múltiplos mé- ele se define apenas por sua instrumen-
todos de abordagem para tentar as- talidade e, para empregar a própria lin-
segurar uma compreensão em pro- guagem do bricoleur, porque os elemen-
fundidade dos fenómenos em ques- tos são recolhidos ou conservados em fun-
tão, embora sabemos que a realidade ção do princípio de que "isso sempre pode
objectiva como tal jamais pode ser servir" (Lévi-Strauss, 1989, p 33).
capturada (idem, p.2). O bricoleur, na …mesmo estimulado pelo seu projec-
concepção de Lévi-Strauss e comen- to, o seu primeiro passo prático é retros-
tada por Chauí, produz um objecto novo pectivo, ele deve voltar-se para um con-
a partir de pedaços e fragmentos de ou- junto já constituído, formado por utensí-
tros objectos. Vai reunindo, sem um pla- lios e materiais, fazer ou refazer seu in-
no muito rígido, tudo o que encontra e ventário, enfim e sobretudo, entabular
que serve para o objecto que está compon- uma espécie de diálogo com ele, para listar,
do (1995, p. 161). No vernáculo fran- antes de escolher entre elas, as respostas
cês, bricolage é a acção de fazer qual- possíveis que o conjunto pode oferecer ao
quer espécie de trabalho, consertar ou problema colocado (idem, p. 34).
remendar de forma pouco elaborada. É preciso acrescentar, enfim, que o
Denzin e Lincoln lembram que o equilíbrio entre estrutura e facto, neces-
bricoleur é versado sobre muitos sidade e contingência, interioridade e
paradigmas interpretativos que po- exterioridade é um equilíbrio precário,
dem ser trazidos para um problema constantemente ameaçado pelas tracções
particular (1994, p. 2); compreende exercidas num e noutro sentido, segundo
que a pesquisa é um processo interac- as flutuações da moda, do estilo e das con-
tivo moldado pela sua história pes- dições sociais gerais (idem, p. 45-46).
soal, biografia, género, classe social,
raça e etnicidade, e que sabe ainda Esta característica de actividade
que ciência é poder, que para todos do pesquisador-bricoleur não se atém
os achados há uma implicação políti- apenas na fase da colheita de dados
ca (idem, p. 3). de uma pesquisa, mas também no
Assim diz o antropólogo acerca da momento de lidar com eles, quando
figura do bricoleur, em trechos extraí- é preciso também ter certa destreza
dos de sua obra "O Pensamento Sel- em usar tantos referenciais teóricos
vagem", inicialmente publicado em como ferramentas de interpretação de
francês em 1962, e que ressaltam o resultados. Por exemplo, no caso de
princípio de serventia de quaisquer muitos profissionais "psi", devemos
elementos como meios da pesquisa, reconhecer que estes, quando acostu-
a escolha prévia de uma resposta ao mados à prática de atendimento clí-
problema e uma reflexão sobre a pre- nico ou psicoterápico nas linhas
cariedade de equilíbrios das condi- psicodinâmicas, terão obviamente
ções numa pesquisa: maior desembaraço para concretizar

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Revista
Portuguesa
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103 Psicossomática Introdução à Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa

as diversas etapas do método. Penso Mas o interessante é assinalar que


que, mesmo não tendo uma formação já em campo, como frequentemente
institucionalizada, no sentido de con- observamos em muitos casos de pes-
cretizada através de cursos específi- quisadores das Ciências do Homem,
cos para estudos em profundidade, e Camargo, no seu contacto com o am-
nem se ocupando com a prática regu- biente do hospital onde realizou a sua
lar de psicoterapia de orientação ana- investigação (e que a levava à familia-
lítica, todos os estudiosos do ser hu- rização com o setting) constatou um
mano deveriam se sentir à vontade fenómeno havido o qual denominou
em buscar os recursos do saber psi- de preparo interior, tido como deveras
cológico profundo, a fim de trabalhar útil para conseguir maior aproxima-
com estes conhecimentos nos seus es- ção com os pacientes e profissionais.
tudos. Notou também, mesmo após ter ha-
Embora a leitura de obras da lite- vido um período de ambientação,
ratura psicológica concernente seja outro fenómeno durante as entrevis-
altamente recomendada para os pes- tas: percebia em si (e registrava nas
quisadores de modelos qualitativos suas notas) uma ansiedade face à des-
em geral, sabemos que este conheci- conhecida reacção dos entrevistados
mento pode ser adquirido empirica- (idem, p. 21). Após a realização dos
mente. Embora, via de regra, possam primeiros contactos, notou mais um
não atingir uma sistematização de fenómeno o qual, por sua vez, cha-
maior complexidade, estes conheci- mou de desempenho implícito de diver-
mentos advêm de modo razoavel- sos papéis nas entrevistas que condu-
mente consistentes com as vivências zia (idem, p. 22).
em campo. Vejamos o bom exemplo A pesquisadora relata, outrossim,
de Camargo, pesquisadora da ter aprendido em campo que a histó-
Unicamp, com formação básica em ria pessoal referida pelos sujeitos não
Biologia e professora da área de Edu- apresentava necessariamente a reali-
cação, que nos relata a sua ilustrativa dade de como a vida tinha sido vivi-
experiência neste sentido, ao realizar da exactamente, mas que os depoi-
seu trabalho de doutorado sobre a mentos retratavam como a vida lhes
questão da Síndorme de Imunodefi- fazia sentido. Camargo concluiu que
ciência Adquirida. Seu trabalho des- o acto de falar sobre a própria vida
tacava o discurso científico como podia levar o entrevistado a reorga-
dualista ao tomar categorias como nizá-la, pois percebeu a fala como um
contrárias (doença/saúde, razão/ acto criativo, fazendo o indivíduo re-
/emoção, vida/morte), percebendo pensar os eventos de vida, dando-lhes
que os depoimentos tomados dos su- sentido (idem, p. 24). Por fim, a cole-
jeitos da pesquisa mostravam o que ga enumerou uma série de caracterís-
chamou de um movimento constan- ticas do conteúdo e da forma da fala,
te onde a razão transparece através da nas quais viu significados e enfatizou
emoção e a vida através da morte que devem ser devidamente conside-
(1994, p. 19).
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Egberto Ribeiro Turato 104

rados (idem, p. 25). Neste simples e maneira mais linear, no raciocínio de


rico exemplo, constatamos autênticas uma relação causa-efeito, buscando
páginas da psicologia médica, mos- somente "produtos".
trando como um investigador sensí-
vel pode chegar, também pela via in- 8. Naturezas teórica e prática
tuitiva, aos mesmos conhecimentos, como pontos de partida simul-
embora talvez não de forma tão com- tâneos
plexa ou sofisticada. Sobretudo, faz-
-nos pensar, que o pesquisador, quan- Uma característica interessante do
do pluralista (ecléctico), poderá do- método diz respeito às suas concomi-
minar o suficiente de certas áreas do tantes naturezas teórica e prática, pois
conhecimento para lançar mão dos o pesquisador deve ter como ponto
seus conceitos para lidar com os da- de partida tanto as teorias onde
dos. aprendeu sobre as observações em-
píricas, como as experiências por ele
7. Processo como norteador do vividas (Martins e Bicudo, 1989, p.
interesse do pesquisador 25).

Uma característica relevante do 9. Raciocínios indutivo e deduti-


método é que os pesquisadores qua- vo como métodos sequenciais
litativos ocupam-se tanto (ou mais) de trabalho
com o processo do que com o produ-
to, ou seja, querem saber como os fe- Além das características aponta-
nómenos ocorrem importando as das acima, vemos que a literatura é
suas relações. Por conta disto, o pes- consensual em apontar os métodos
quisador qualitativo quer penetrar na qualitativos como integrando o con-
sua estrutura íntima, latente. Por isso, junto dos métodos indutivos. Seguin-
as perguntas colocadas aos entrevis- do a visão da literatura em geral, tam-
tados, via de regra, devem iniciar pelo bém Morse e Field pontuam que, na
pronome "como" e menos com o "por- pesquisa qualitativa, a teoria seria
quê". A primeira forma de indagar construída para explicar as relações ob-
sobre um tópico tende a levar o sujei- servadas do modo como elas emergem a
to a pensar no processo, descobrin- partir dos dados, ao contrário do que
do-o, isto é, "como" estaria ocorrendo ocorreria nos métodos dedutivos,
o fenómeno, que tantas eventos man- onde seria mencionado que as variá-
têm alguma relação com ele, buscan- veis, conceitos, constructos e hipóteses são
do raciocínios de uma rede de múlti- derivados de relações observadas durante
plas e recíprocas causalidades. Ao o processo de codificação dos dados (1995,
contrário, perguntar "porquê", além p. 242). Entretanto, não penso bem
de poder ser sentida a pergunta com assim, pois parece-me cair num certo
um tanto de carácter persecutório, cartesianismo dizer que os métodos
pode levar o entrevistado a pensar de quantitativos são dedutivos, enquan-

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to os qualitativos são indutivos. Fala- pelo menos temporária, de que essa for-
mos nos métodos indutivos entendi- ma de representação da realidade é acei-
dos teoricamente como aqueles que tável, embora possam existir outras igual-
partem do particular para o geral e mente aceitáveis, sendo que o importante
nos dedutivos, ao contrário, que par- é manter uma atitude flexível e aberta,
tem do geral para o particular. Con- admitindo que outras interpretações po-
cordo com Triviños, acerca dos fenó- dem ser sugeridas, discutidas e igualmen-
menos, ao comentar que podem ser te aceites (1986, p. 52). Appleton lem-
explicados num processo dialéctico bra-nos que a validade dos dados da
indutivo-dedutivo. É compreendido em entrevista qualitativa acontece na
sua totalidade, inclusive, intuitivamen- medida que o estudo revela uma des-
te. (1987, p. 130). crição acurada das experiências dos
indivíduos e que as pessoas ao terem
10. Validade dos dados como for- esta experiência reconheceriam ime-
ça do método diatamente aquelas descrições ou in-
terpretações como sendo delas pró-
Podemos dizer que os estudos prias (1995, p. 995).
qualitativos têm a sua maior força na
validade, isto é, no alcance para o qual 11. Descrição dos dados e inter -
a medição reflecte autenticamente o pretação como fases concomi-
fenómeno sob exame, em contraste tantes
com a força maior dos estudos quan-
titativos que se encontra na fidedig- Podemos falar que a pesquisa qua-
nidade (confiabilidade, reprodutibi- litativa apresenta dados descritivos e
lidade, qualidade do que é receptível), as descrições são tratadas interpre-
ou seja, no alcance para o qual a me- tativamente (Martins e Bicudo, 1989,
dição produz a mesma resposta a p. 28). Os dados colectados levam a
cada vez que é usada (Pope e Mays, forma de palavras, os resultados es-
1995, p. 43). Bogdan e Biklen pon- critos devem conter citações literais
tuam que pesquisadores qualitativos ilustrativas que dão vida à apresen-
não partilham a expectativa de que tação, bem como as interpretações,
deva haver a mesma consistência nos com toda a sua riqueza, devem estar
resultados de observações feitas por dife- tão próximas quanto possível da for-
rentes autores ou pelo mesmo autor todo ma como aparecem gravadas
o tempo, mas estão preocupados com a (Bogdan e Biklen, 1998, p. 5). Além de
precisão e a compreensão de seus dados que o pesquisador qualitativo deve
(1998, p. 35-36). Para as educadoras complementar a redacção com as ob-
Lüdke e André, o que se espera nos es- servações emergentes no setting da
tudos qualitativos não é que os observa- entrevista, sempre perguntando a si
dores totalmente isentos cheguem às mes- próprio o porquê dos detalhes da lin-
mas representações dos mesmos eventos, guagem verbal e não verbal daquele
mas sim que haja alguma concordância, entrevistado.

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12. Pressupostos conclusivos na armadilha da própria pretensa es-


como passíveis de generaliza- perteza mental. Pior, estaríamos es-
ção tagnados há cem anos atrás.
Bogdan e Biklen lamentam que algu-
Por fim, fecho o quadro com a se- mas pessoas têm a possibilidade de
guinte característica: ao contrário dos usar uma definição extremamente taca-
métodos quantitativos que são tidos nha de ciência, qualificando de pesqui-
para generalizar seus achados para sa somente o que é dedutivo e possa
outros campos, os métodos qualitati- testar hipóteses, mas por outro lado,
vos permitem generalizar os pressu- parte da atitude científica é para ser
postos finais levantados como conclu- mente aberta sobre métodos e evidên-
sões do respectivo trabalho. Lembra- cias (1998, p. 38).
mos que generalizar significa atribuir
um valor geral ou partir dos casos
particulares para o geral, ou seja, para IV - CONCLUSÕES
aquilo que concerne a todos os indiví-
duos, coisas ou factos que formam um E o que se apresentaria, de facto,
género, uma categoria ou um conjunto como novo nesta proposta de traba-
(Zingarelli, 1998, CD-ROM). Cabe ao lho de investigação científica que te-
leitor, consumidor da pesquisa reali- mos denominado clínico-qualitativa?
zada, empregar tais pressupostos con- Digo que temos uma proposta não
clusivos para novos casos, situações somente teórica, mas também, e so-
onde fenómenos e factos semelhan- bretudo, prática e concreta de união,
tes se apresentam a ele, no sentido de numa postura que se quer eclética
ver se seriam úteis na sua compreen- entre duas áreas.
são. Portanto, incabível seria a crítica De um lado, as concepções
de que os seus resultados não são re- epistemológicas dos métodos quali-
produtíveis. Primeiramente, porque tativos de pesquisa desenvolvidos a
fenómenos e factos, sejam indivi- partir das Ciências do Homem, e, de
duais ou na amplitude social, os quais outro lado, os conhecimentos e atitu-
se manifestam no campo das Ciên- des clínico-psicológicas desenvolvi-
cias do Homem, por razões obvia- dos tanto no enfoque psicodi-nâmico
mente conhecidas, simplesmente não das relações pessoais, como historica-
são reprodutíveis. mente no campo da prática da medi-
Em segundo lugar, porque o que cina clínica.
se quer na pesquisa qualitativa é, de Em outras palavras: o método de
modo deliberado, conhecer cientifica- que aqui falamos não se situa apenas
mente o particular. Seríamos ingénu- sob os referenciais paradigmáticos
os em querer ver toda a forma de ciên- convencionalmente usados na socio-
cia como preocupada com a caracte- logia compreensiva e na antropologia
rística da reprodutibilidade. Mais do cultural, mas a partir deles, e diferen-
que isso, significaria ficarmos presos temente do que constatamos na lite-

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Portuguesa
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107 Psicossomática Introdução à Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa

ratura da pesquisa destas duas disci- V - BIBLIOGRAFIA


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not reach: an introduction to qualitative e Luigi Rosiello) - Lo Zingarelli 1998 in
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