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MULHER, POLÍTICA E SUBALTERNIDADE NO PÓS-COLONIALISMO


NO BRASIL

Resumo: Este trabalho teve como objetivo refletir sobre questões extremamente importantes e imbricadas
entre si: investigou a trajetória da mulher e o surgimento do feminismo no mundo e posteriormente, no
Brasil. Como não seria possível separar a política dos movimentos feministas, buscou-se conhecer como
se dá este processo no Brasil, com a análise de dados de eleições passadas até a de 2014. De posse desses
dados realizou-se uma análise dos mesmos à luz das teorias culturais e pós-colonialistas.
Palavras-chave: mulher; política e subalternidade; pós-colonialismo.

WOMEN, POLITICS AND THE SUBALTERNIDAD IN THE POSTCOLONIALISM IN THE


BRAZIL

Abstract: This study aimed to reflect on extremely important issues and overlapping one another,
investigated the history of women and the rise of feminism in the world and later in Brazil. As it would
not be possible to separate the politics of feminist movements, he sought to know how is this process in
Brazil, with data analysis of past elections until 2014. With this data conducted an analysis of the same in
the light of cultural theories and post-colonialists.
Keywords: women; political and subordination; postcolonialism.

Introdução
Meu interesse por tudo que se relaciona às mulheres, sendo eu mulher, está ligado a
muitos e diferentes fatores, principalmente pela mudança de hábitos culturais ocorridas nas
sociedades ocidentais, a partir do século XX, como maior abertura para questionar papéis que lhe
eram impostos pelos padrões socioculturais existentes até então, e como apesar destas mudanças
ainda existe um padrão de inferioridade, referente à cultura colonialista / pós-colonialista, de que
ainda somos reféns.
Por isso, este trabalho tem como objetivo analisar as concepções presentes nos estudos de
gênero – o feminino, relacionando-os com a subalternidade oriunda do pós-colonialismo e seu
resultado na participação política feminina, apontando de que forma se compõe a experiência de
subalternidade das mulheres neste campo. Para dar conta desta proposta será feita uma revisão
teórica que contemplará, inicialmente a história de trajetória do gênero feminino, explicitando a
política e a participação da mulher, mostrando como ela é vista na cultura pós-colonialista e os
resultados desta interrrelação.
A literatura nos mostra que houveram diferentes deslocamentos teóricos relativos ao
gênero feminino, ocorridos a partir de questões políticas, econômicas, ideológicas, sociais e
culturais nos diversos contextos históricos. Desde a Grécia Antiga até o Renascimento, das
concepções de um único sexo (isomorfismo), à de dois sexos (dismorfismo), o que se constata é
que até 1950, no século XX, as questões relativas às diferenças sexuais sempre convergiram para
um ponto central – o da inferioridade da mulher em relação ao homem.
Questões de Gênero e a trajetória feminina
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A história mostra que o conceito de gênero também é histórico, e trás em si diferentes


determinações, as quais possibilitam muitas abordagens. Mas neste conjunto imbricado de
sentidos e significados, constata-se que o universo feminino é amplo, complexo, cheio de
significados e matizes. Ser mulher é por um lado, ser herdeira de uma história que vai sendo
contada através de suas lutas, em muitas frentes de batalha, e permeadas pelo preconceito, pelas
lacunas históricas, pelas falsas verdades ou mesmo pelo simples estigma de ser mulher e, por
outro, ter o dever ‘sagrado’ de gerar e defender a vida (ainda que a própria), lutando contra a
opressão, a violência e o preconceito, participando de um processo de construção social em que
desempenha a um mesmo tempo diversos e diferentes papéis. Assim a mesma mulher que é mãe,
esposa e dona de casa, é também a professora, a cientista, a pesquisadora, a política, enfim, uma
pessoa que cada vez mais se capacita para atuar socialmente.
Também o universo da política é complexo: estudado por diferentes autores ao longo dos
tempos e em diferentes contextos sociais, tem na obra de Aristóteles o foco de sua expansão. Os
escritos de Aristóteles são considerados a primeira obra sobre a natureza, funções e divisão do
Estado e sobre as várias formas de governo, ou seja, uma forma de reflexão sobre as coisas da
“cidade”, onde o homem – animal naturalmente social e político é compreendido como o cidadão
habitante da pólis, é o homem politikós que opinando e reunindo-se livremente na ágora, discute
e delibera acerca das leis e das estruturas da sociedade. O homem político teria o seu espaço de
atuação privilegiada na esfera pública, no átrio, no senado. Na filosofia aristotélica 1 , política
situa-se no âmbito das ciências práticas (buscam o conhecimento como meio para a ação) e é a
ciência que tem por objeto a felicidade humana: divide-se em ética, que se preocupa com a
felicidade individual do homem na polis, e na política propriamente dita, que se preocupa com a
felicidade coletiva da polis. Já em 335 a.C. Aristóteles, em sua obra, atestava a inferioridade da
mulher, justificada em razão da não plenitude na mulher da parte racional da alma, o logos. Neste
período na Grécia, os homens tinham acesso às atividades públicas enquanto as mulheres eram
responsáveis pela manutenção do lar e o cuidado com os filhos. Os gregos acreditavam na
existência de um único sexo biológico:

[..] homem e mulher não seriam definidos por uma diferença intrínseca em
termos de natureza, de biologia, de dois corpos distintos , mas, apenas em
termos de um grau de perfeição [...] os órgão reprodutivos vistos como iguais
em essência e reduzidos ao padrão masculino (Laqueur, 1987 Apud
ROHDEN,1998, p.128 - 129).

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Para Aristóteles a política é um desdobramento natural da ética. Ambas, na verdade, compõem a unidade do que ele chamava de filosofia prática.
Se a ética está preocupada com a felicidade individual do homem, a política se preocupa com a felicidade coletiva da pólis. Sendo assim, é tarefa
da política investigar e descobrir quais são as formas de governo e as instituições capazes de garantir a felicidade coletiva. Trata-se, portanto, de
investigar a constituição do estado.
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No Império Romano, através da instituição do paterfamilias, o homem tinha o poder


absoluto sobre a mulher, os filhos e os escravos. É após as Idades Antiga e Média, com o
surgimento do Renascimento, que ocorreram mudanças com relação ao modelo de sexos, por
meio da biologia ,que ao processar um dismorfismo, justificavam as diferenças entre homens e
mulheres:

Na aurora da modernidade o corpo feminino, descrito a partir da ênfase nos


órgãos reprodutivos, no 'cérebro menor' e na 'fragilidade dos nervos', foi
utilizado para definir o lugar 'naturalmente' inferior das mulheres na sociedade,
justificando a sua permanência no espaço privado (Laqueur, 1994 Apud ARÁN,
2003).

A história relata que no período compreendido entre os séculos XV e XVIII no ocidente,


milhares de mulheres foram torturadas e exterminadas pela morte na fogueira, sob as mais
diversas alegações, especialmente na “Caça as Bruxas”, onde eram acusadas de bruxaria pela
Igreja Católica, aquelas que lutavam por seus direitos e eram vistas como um perigo tanto para a
própria igreja como para o sistema político e econômico que imperava na época (TOMITA,
2001/2002, p. 37). Essa sociedade patriarcal permitia que os maridos dominassem as mulheres no
âmbito privado e que as autoridades masculinas defendessem publicamente, em todas as
instâncias sociais, a supremacia dos homens.
Este quadro histórico também ocorreu no Brasil, colonizado por Portugal, e portanto com
uma sociedade que partilhava da mesma cultura e que foi imposta aos nativos da terra que eram
colonizados. No Brasil colônia a mulher era considerada objeto de obediência ao marido. Neste
período, a vida aqui era regida pelas Ordenações Filipinas2, um código legal que se aplicava a
Portugal (e também a seus territórios ultramarinos), que asseguravam ao marido o direito sobre a
família – mulher e filhos, podendo matar a mulher em de adultério flagrante ou mesmo por mera
suspeita de traição (bastava um boato).

Na Colônia, no Império e até nos primórdios da República, a função jurídica da


mulher era ser subserviente ao marido. Da mesma forma que era dono da
fazenda e dos escravos, o homem era dono da mulher. Se ela não o obedecia,
sofria as sanções. (PRIORE, 2011)

O modelo patrimonial - patriarcal que os portugueses implantaram quando da colonização,


configurava-se pelos traços das estruturas feudais européias, combinados com a nascente
estrutura patrimonialista que favorecia o comércio externo e tinha como base de sustentação a

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As Ordenações Filipinas, ou Código Filipino, são uma compilação jurídica que resultou da reforma do código manuelino, por Felipe II de
Espanha (Felipe I de Portugal), durante o domínio castelhano . Ao fim da União Ibérica (1580-1640), o Código Filipino foi confirmado para
continuar vigendo em Portugal por D. João IV. A exposição de motivos da Lei de 5 de junho de 1595 (Versão digitalizada da edição de Cândido
Mendes das Ordenações Filipinas, pela Universidade de Coimbra, com erros: há duas páginas 144 e falta a 145, no Título LXVI, do Livro I (Dos
Vereadores)) , publicada em Madrid , é uma manifestação do absolutismo de direito divino, paternalista, repleto de referências autoelogiosas.
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exploração da força de trabalho escrava. A estratificação em classes estabelecida apresentaria


sérias inconsistências culturais que unidas às relações escravocratas-senhoriais, apresentavam-se
como elementos decisivos dos papéis que as mulheres, desempenhariam na sociedade brasileira
de então, tendo sua submissão aos homens. Às mulheres brancas da camada senhorial cabiam as
funções de esposa e mãe dos filhos legítimos e o casamento era uma questão de conveniência
econômica que as submetia à autoridade do pai ou marido, vivendo reclusas na casa – grande.

As mulheres brancas pobres não eram reclusas e muitas vezes sustentavam a


casa como costureiras, lavadeiras e outras profissões, além da prostituição,
enquanto as mulheres negras destinavam-se a satisfação das necessidades
sexuais de senhor, o desempenho de atividades ligadas diretamente à produção,
como nas lavouras, minas, além do trabalho doméstico, principalmente no
cuidado dos filhos do senhor enquanto amas de leite. A exigência da prestação
de serviços sexuais que o senhor fazia em relação à negra escrava, tornava-a
simultaneamente objeto e pessoa humana. Transfigurava-se quando utilizada
como mero objeto sexual, em “coisa”, num papel que lhe caberia como ser
humano; e como “coisa”, destituída de valor pela sociedade, tornava-se pessoa
ao desencadear um processo de interação social que acontecia através da
convivência e até da existência de laços afetivos com o patriarca. (SANTOS e
PEREIRA, 2008, p. 6-7)

Em razão disso, do ponto de vista econômico, a exploração da escrava (utilizada como


trabalhadora, em serviços sexuais e reprodutoras da força de trabalho) era bem mais elevada do
que a do escravo. Essa relação ‘assimétrica’ entre homens e mulheres ocorrida de forma marcante
no processo de colonização brasileira, em que ocorreu também “[...] prevalência e a afirmação do
poder do homem, acrescido aos aspectos de raça e classe social fará parte da construção social da
imagem do homem e da mulher em nossa sociedade, reproduzindo-se nas relações familiares e
em várias instâncias da vida social.” (SANTOS e PEREIRA, 2008, p. 6-7)
Mais tarde, no Brasil República, a idéia de que o homem era superior à mulher continuou
sendo reproduzido pelas leis, que por meio do Código Civil de 19163, dava às mulheres casadas o
status de “incapazes”, sendo que elas só podiam trabalhar fora de casa ou assinar contratos de
qualquer natureza com a autorização expressa dos maridos.
Esse quadro histórico descrito, pode ter uma possível explicação nas consequências do
patriarcado, “[...] tempo em que as mulheres eram esquecidas e enfraquecidas pela legislação,
chegando a ser desconsideradas como ser humano, tal como fazia Esparta, na Grécia. (SANTIN,
2002, p. 81). É consenso entre muitos autores que a desigualdade entre mulheres e homens
constitui-se como um fenômeno histórico, social, cultural e econômico materializado pelo
patriarcado (SAFFIOTI, 1999, 2004).
[...] a palavra patriarcado é de origem grega em que pater quer dizer pai e archie
significa comando. [...] patriarcado é um sistema de relações sociais que garante
a subordinação da mulher ao homem e, pode ser pensado [...] como um dos

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O Código Civil de 1916 foi elaborado por Clovis Beviláqua e regulava as relações civis e jurídicas e perdurou até sua reformulação em 1988.
Disponível: http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=6583&revista_caderno=14 Acesso 30/12/2014
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esquemas de dominação/exploração componentes de uma simbiose da qual


participam também o modo de produção e o racismo (SAFFIOTI, 1999, p.193).

Saffioti (2004) chama a atenção para o fato de que essas relações de dominação foram
não só reproduzidas, mas apropriadas, reconfiguradas e ampliadas pelas sociedades capitalistas e
pelo seu modo de produção. Desta forma “[...] o conceito de patriarcado também é importante, já
que aí estão presentes as relações hierarquizadas entre seres socialmente desiguais. (SAFFIOTI,
2001, p. 38)”, mas alerta que:

Tão-somente recorrendo ao bom senso, presume-se que nenhum (a) estudioso


(a) sério (a) consideraria igual o patriarcado reinante na Atenas Clássica ou na
Roma Antiga ao que vige nas sociedades urbano-industriais do ocidente.
Mesmo tomando só o momento atual, o poder de fogo do patriarcado vigente
entre os povos africanos e/ou mulçumanos é extremamente grande no que tange
à subordinação das mulheres aos homens (2004, p.101)

A autora coloca que tanto o surgimento quanto a consolidação da sociedade de classes,


tem sustentação na propriedade privada e na família patriarcal monogâmica, e estabelece o lugar
da mulher na sociedade, definem os papéis sexuais de homem e mulher e os(as) filho(as) e as
terras passam a ser propriedades privadas do homem e à ele era dado o poder de vida e morte
sobre a mulher, filhos, escravos e animais, ou seja, sobre todos que estavam sob seu domínio, no
famulus, que “significa escravo doméstico, e família é o número total de escravos pertencentes a
um homem.” (SAFFIOTI, 2004, p. 89)
Essas diferenças que se constituíram a partir de argumentos biológicos que afirmavam a
superioridade masculina e a inferioridade feminina perduraram por muito tempo e, em muitos
lugares, perduram até hoje. Foi a partir do século XVIII que surgiu o movimento feminista, que
visava tanto o empoderamento feminino quanto a libertação a libertação de padrões
opressores patriarcais, baseados em normas de gênero. O feminismo envolve diversos
movimentos, filosofias, teorias e campos sociais e busca a igualdade dos gêneros e a promoção
dos direitos da s mulheres e seus interesses.
Maggie Humm (1990; 1992) e Rebecca Walker (1992) duas historiadoras do feminismo,
afirmam que este surgiu a partir dos movimentos feministas e pode ser dividido em três "ondas".
Destas, a primeira teria ocorrido no século XIX e início do século XX, focando na obtenção de
direitos legais, poder político e no sufrágio feminino. A segunda veio nas décadas de 1960 e 1970,
encorajando as mulheres a entender os aspectos de suas vidas pessoais, e tendo como principal
foco a questão da igualdade e o fim da descriminação da mulher na sociedade, na educação e no
trabalho. A terceira iniciada na década de 1990 e que se estende até a atualidade, veio como uma
resposta positiva fortalecendo as propostas da segunda “onda”. Sempre acompanhando os
acontecimentos e as grandes revoluções (Revolução Francesa, Primeira e Segunda Guerras
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Mundiais, entre tantas outras), o feminismo ganha destaque reivindicatório e força de expressão
ao se unir aos partidos políticos – nos quais obtiveram o espaço que precisavam para suas
reivindicações. (ALVES e PITANGUY, 1991; TELES, 1993; e PINTO, 2010, 2003.)
O Pós Colonialismo, o feminismo e a subalternidade
O pós-colonialismo é visto por muitos estudiosos, grosso modo, como um conjunto de
teorias que analisa os efeitos políticos, filosóficos, artísticos e literários, deixados pelo
colonialismo nos países colonizados. Tendo como uma das obras fundadoras o livro
“Orientalism” de Edward Said, a teoria pós-colonial tornou-se parte dos recursos dos críticos nos
anos 1970. Como teoria literária ou abordagem crítica trabalha com a literatura produzida nas
outrora colônias de outros países, principalmente dos colonialistas europeus como a Grã-Bretanha,
França e Espanha, mas pode em alguns contextos abarcar países ainda em situação colonial e seus
cidadãos. Inclui uma nova forma de crítica, de forma especial a literária (destacam-se os
romances) produzidos por nativos das colônias com ênfase nas do Império Britânico, que
frequentaram universidades britânicas, cujo acesso à educação, ainda indisponível nas colônias,
motivou estas escritas.

A discussão sobre a origem dos estudos pós-coloniais não é de um todo


homogênea. Apresenta indicações cronológicas e geográficas nem sempre
convergentes, o que nos permite afirmar que seus fundamentos, bem como as
reflexões que os desencadeiam são díspares, se fazendo presentes na
problematização das ciências humanas desde a década de 1960. [...]Tal
discussão traz em seu âmago variados olhares, tanto em relação à sua origem e
localização, quanto às categorias conceituais de que lança mão para o
entendimento da complexa dinâmica societária contemporânea. Assim, o pós-
colonialismo não é “[...] uma área que apresenta consensos em torno de
categorias ou do que significa a própria definição de pós-colonial, [...]”
(MARCON, s/d, In: www.nuer.ufsc.br), mas um campo teórico-político aberto
ao debate, característica bastante salutar para a construção de novos
conhecimentos. (LIMA; GERMANO, 2010, p. 199)

Piletti e Praxedes (apud LIMA e GERMANO, 2012) referem-se ao pós-colonialismo


como área transdisciplinar de pesquisa e de intervenção política, surgida nos anos de 1960, na
Universidade de Birmingham, por ocasião da fundação do “Centro de Estudos Culturais
Contemporâneos”, que influenciou o aparecimento de muitas vertentes do pensamento pós-
colonial no âmbito da Universidade de Columbia, Nova York, impulsionadas, principalmente,
pela obra de Edward Said, “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente” (1978). O pós-
colonialismo nasce para ser um espaço em que os sujeitos periféricos podem se fazer ouvir,
referindo-se a uma gama variada de sujeitos: das colônias e ex-colônias, das populações cuja
situação de representação é insuficiente, daqueles, marginalizados em geral, que não são capazes
de expressar seu conhecimento sobre os fatos, inseridos em grupos étnicos e imigrantes,
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indígenas e outros grupos “oprimidos como as mulheres”. (PRASAD, 2003, apud LIMA e
GERMANO, 2012)
Lima e Germano (2012) chamam a atenção para autores que se destacam como principais
representntes do pós-colonialismo: o palestino Edward Said e os indianos Homi Bhabha e Gayatri
Spivak, que “ao retomarem a análise colonial trazem à tona novas temáticas, que estão na órbita
desse discurso: orientalismo, imperialismo, feminismo, hibridismo, nacionalismo, identidades,
vozes subalternas, entre outros.
Referindo-se ao subalterno Rosa, e Alcadipani (2013) mencionam a origem dos estudos a
partir de um grupos de estudos precursosr na área.

A análise feita por Spivak sobre questão da representação e do subalterno está


vinculada a um campo de estudos, derivado do pensamento pós-colonial,
denominado de subaltern studies. O precursor desta linha de trabalho é o
indiano Ranajit Guha (1982) que, juntamente com os membros do seu grupo de
pesquisa, ao qual Spivak faz parte, propõe uma releitura da história
considerando o ponto de vista dos subalternos. Este campo de estudos segue a
reflexão de Fanon (1967) e Said (1978) sobre o sujeito subalterno como
produto do discurso dominante. Assim, para recuperar subjetividades
autóctones, o subaltern studies se propõem a realizar uma releitura alternativa
da história que revele realidades locais antes ignoradas pela versão “oficial”.
Esta proposta chega ao contexto latino-americano por meio do Latin American
Subaltern Studies Group (1993). (ROSA, e ALCADIPANI, 2013, p. 192-193)

Na América Latina, os estudos pós-coloniais ocorrem em função das questões vinculadas


ao desenvolvimento social da região, às desigualdades sociais e ao seu descompasso com o centro,
e à modernização do final do século XX, que por suas condições faz surgir o ser periférico, o
hibridismo, o nacionalismo e a globalização, colonialismo e a dependência, que se tornam o foco
dos estudos dos teórico latino-americanos, emergindo daí o problema da subalternidade. As
nações latinas, embora sejam politicamente independentes, convivem com as carências de
iniciativas locais e atraso tecnológico, que traduzem um padrão de desenvolvimento em que fica
clara a dicotomia colonizado/colonizador, e que faz cxom que os povos latino-americanos se
olham e se percebem através do colonizador, assumindo o papel de subalterno. (QUIJANO,2000)
Os estudos pós-coloniais guardam muitas semelhanças com os estudos
feministas. Segundo Ashcroft (1989), ambos estão essencialmente preocupados
com as teorias de marginalização e a construção do sujeito subalterno, seja pela
diferença colonial ou de gênero. Esta aproximação ocorre em virtude da
preocupação com a “voz silenciada” dos subalternos, como um resultado da
maneira como a mulher ou o sujeito colonizado foram levados a constituir sua
individualidade nos termos do opressor. Além disso, ambos questionam o
conceito de universalização, rejeitando as estruturas binárias do patriarcado e do
colonialismo, buscando estratégias de resistência a estas formas de dominação.
(ROSA, MEDEIROS, e VALADAO JUNIOR, 2012, p. 397)
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A aproximação do pensamento pós-colonial e do feminismo ocidental, tem


problematizado o conceito universal de “mulher” fundado a partir de uma perspectiva
eurocêntrica, isto porque o feminismo estritamente definido (que isola o gênero das outras formas
de opressão) obscurece as diferenças reais entre as mulheres e rejeita a heterogeneidade. “As
feministas pós-coloniais têm resistido também à tendência de as feministas ocidentais
caracterizarem todas as mulheres fora do ocidente como uma categoria essencializada,
homogênea e unificada” (ROSA, MEDEIROS, e VALADAO JUNIOR, 2012, p. 398)
As feministas pós-coloniais tem discutido a abordagem nas abordagens acadêmicas feitas
com relação as mulheres do “terceiro mundo”, realizadas por acadêmicos europeus a partir da
utilização de suas próprias culturas, problematizando a veracidade das narrativas feitas pelo
feminismo ocidental, que ao transformarem as mulheres do “terceiro mundo” em “outras”, como
se necessitassem de representação por não ter voz própria contra o patriarcalismo, colocando no
lugar de fala do subalterno, onde elas são impedidas de falar (Spivak, 1988).
Essa condição de subalterno coloca-se como a principal diferença entre os
povos do Ocidente e do “resto” do mundo (HALL, 1996). No caso das mulheres,
essa condição é o mecanismo que as encerra em um tipo de “dupla colonização”
pelo fato de ser mulher em uma nação colonizada. Ou seja, além dos efeitos
gerados em uma estrutura patriarcal, elas estão, também, sob os efeitos do
colonialismo. Assim, historicamente, a condição do subalterno é a condição do
silêncio, pois sua legitimidade tem sido dada por outra pessoa que assume seu
lugar no espaço público, representando-o. (ROSA, MEDEIROS, e VALADAO
JUNIOR, 2012, p. 398)

Ao falar das subalternidades, Spivak (1988), aponta para as mulheres que, segundo ela,
sofrem o que denomina de dupla colonização, pelo fato de serem mulheres e por terem nascido
em uma (ex)colônia. Esta afirmativa leva à análise sobre a opressão que as mulheres sofrem: na
relação com o patriarcalismo, todas as mulheres são afetadas; e com o colonialismo, apenas as
mulheres do chamado “Terceiro Mundo”.
No Brasil, o patriarcalismo está diretamente relacionado ao período colonial da formação
brasileira, que predominou no período imperial e na primeira república, quando predominou um
modelo de organização familista, que era a expressão máxima da organização social da época.
Nos anos seguintes as mulheres brancas, ricas e alfabetizadas iniciaram o processo de
emancipação feminina. “Desafiaram a dicotomia entre público e privado, conquistaram direitos
como cidadãs, constituíram-se como indivíduos. O individualismo patriarcal foi abalado e a
igualdade entre homens e mulheres colocou-se como possibilidade social” (VAITSMAN, 2001, p.
16). Mas ainda hoje, a mulher que não é privilegiada com estas condições, aquela de menor
condição social, a negra ou a índia, é a mulher subalterna que amarga as dificuldades que lhe são
impostas.
Mulher e Política – trajetória da história à atualidade
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Os estudos feministas apontam que já em 1405, Christine de Pisan (viúva e mãe de três
filhos) realizou um protesto veemente contra a discriminação e o preconceito contra a mulher
através do livro que escreveu “ La Cité des Dames", tentando em pleno século XV reformular o
papel da mulher na sociedade. As manifestações e os protestos realizados pelas mulheres
aconteciam de forma espontânea e isolada; não havia um movimento organizado. As primeiras
manifestações feministas tiveram como tema reivindicatório o acesso à instrução. Marie de
Gournay, em 1622, não só propôs a igualdade entre homens e mulheres, mas também destacou a
importância da instrução como fator preponderante na luta pela conquista de seus direitos. Um
dos primeiros periódicos (jornal) femininos de que se têm notícias é intitulado Lady’s Mercury,
publicado na Inglaterra, no ano de 1693, e como órgão de imprensa feminina, foi considerada
uma leitura só de amenidades, tendo contribuído muito pouco com a causa libertária. (DIAS,
2003, p. 1-2)Em 1792 Mary Wollstonecraft 4 publica "Em Defesa dos Direitos da Mulher
(Vindication of the Rights of Woman)", ensaio a favor da emancipação, em que lança as bases
do feminismo moderno. O livro, escrito em seis semanas, reinvindicava um destino próprio ao
sexo feminino, desatrelando a mulher do marido e dos filhos. Nísia Floresta5, brasileira, defendia
uma melhor educação e posição social para as mulheres desde 1931, quando começou a escrever
no Jornal "Espelho das Brasileiras", dirigido às senhoras pernambucanas, em que durante trinta
números colabora com artigos que tratam da condição feminina em diversas culturas.
Inspirada na feminista inglesa, Wollstonecraft, em 1832, a brasileira Nísia Floresta
publica aos 22 anos em Recife (PE) o livro "Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens", no
qual a autora brasileira não faz uma tradução (ela tem acesso à versão francesa do livro de
Wollstonecraft), mas produz texto próprio no qual "aponta os principais preconceitos existentes
no Brasil contra seu sexo, identifica as causas desse preconceito, ao mesmo tempo em que
desmistifica a idéia dominante da superioridade masculina." A obra de Nísia Floresta é a primeira
de que se tem notícia no Brasil tratando dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho,
exigindo que as mulheres sejam reconhecidas como seres inteligentes, merecedoras de respeito
pela sociedade, num momento em que a grande maioria das mulheres brasileiras vivia
enclausurada em preconceitos, sem qualquer direito que não fosse o de ceder e aquiescer sempre
à vontade masculina.
Nísia Floresta se apropria do conhecimento produzido por Wollstonecraft no estrangeiro,
assimilando suas concepções e acomodando-as ao cenário nacional, transformando-as através de
sua experiência pessoal, em que cada palavra escrita é resultado de suas vivências, "mediatizadas
pelo intelecto".

4
Mary Wollstonecraft era um fenômeno. Desde jovem, trabalhou como tradutora, educadora e jornalista, mantinha-se a si mesma. Em 1972,
interessada nos tumultos revolucionários que estavam acontecendo em Paris, contagiada pela polêmica social e pela luta em favor da liberdade de
pobres e oprimidos, foi para lá como correspondente de uma gazeta londrina. A revolução de 1789, num repente, escancarara as portas da
emancipação para todos os tolhidos e oprimidos: dos escravos aos loucos. Porque ficariam elas de fora? "
(http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/2004/11/08/000.htm).
5
Educadora, escritora e poetisa nascida em 12 de outubro de 1810, em Papari, Rio Grande do Norte. Em 1831, ela publica em um jornal
pernambucano uma série de artigos sobre a condição feminina. http://www.memoriaviva.com.br/nisia/
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Os estudos sobre as mulheres apontam sua trajetória de luta e seu ingresso e figuração
em novos quadros sociais, no exercício de atividades profissionais até então exercidas pelos
homens, das novas condições e papéis assumidos em seus diferentes meios nas sociedades
modernas. Em 1967 foi elaborada a primeira Constituição Brasileira após a Declaração Universal
dos Direitos Humanos que garante a igualdade legal, sem distinção de sexo. A década de setenta
constituiu um marco para o movimento de mulheres no Brasil, que apesar da ditadura política,
vão às ruas reivindicando a redemocratização do país e a melhoria nas condições de vida e de
trabalho da população brasileira.
Na sociedade brasileira, a década de 70 foi marcada, de um lado, pela política ditatorial
dos governos militares e, por outro, pelo surgimento de diversos movimentos populares, dos
quais surgiram novos atores sociais e novos temas políticos. As mulheres saem do cenário
doméstico e ingressam em movimentos sociais contra a carestia, na luta por creches, pela anistia,
enfim buscando seus direitos e melhorias sociais. Elas lutam pela criação de políticas públicas,
muitas das quais oriundas ou decorrentes do movimento feminista e, com isso, entram no cenário
político de forma coletiva, pelo menos em relação às lutas feministas anteriores.
Na década de oitenta, o movimento se amplia e se diversifica, ocupando os espaços
políticos, sindicatos e associações de bairro. O Estado Brasileiro (o governo em todos os seus
níveis) tem acolhido propostas do movimento feminista na Constituição Federal, elaborando
políticas públicas voltadas para enfrentar e superar as desigualdades, discriminações e opressões
vivenciadas pelas mulheres, o que permite na década de noventa a ampliação do movimento e o
surgimento de inúmeras ONGs (organizações não-governamentais) com o objetivo de defender
os direitos das mulheres, além de uma imensa quantidade e pluralidade de projetos, estratégias,
temáticas e formas de organização.
A participação das mulheres na política tem sido estudada por diversas organizações
mundiais e esses estudos mostram um cenário em que existe uma sub-representação das mulheres
nesse campo social em que o Brasil ocupa uma posição ruim no ranking estabelecido. De 189
países estudados, de acordo com a Inter-Parliamentary Union6, apenas 20 países apresentam mais
de 30% de mulheres no parlamento (minoria influente), e neste mesmo estudo, em termos
regionais somente os países Nórdicos apresentam 40% de mulheres nos parlamentos. Nesta lista o
Brasil ocupa a 102ª posição, situado em último lugar na América do Sul e melhor posicionado na
América Latina apenas em relação aos países da Guatemala (105ª) e Haiti (129ª). Existe uma
grande preocupação com a mudança deste cenário no mundo, constatada pela adoção de
legislação de cotas por sexo ou para mulheres feita por 98 países. 7 Em uma análise da

6
Classificação disponível no site www.ipu.org/wmn-e?classif.htm . Acesso em 17/06/2008.
7
A informação é do projeto Global Database of Quotas for Women, desenvolvido pelo IDEA - Internacional Institute for Democracy and
Electoral Assistence e a Universidade de Estocolmo que classifica essas legislações segundo tipo (constitucional, eleitoral ou partidária). Ver
especificação dos países por tipo de cota em www.quotaproject.org/country.cfm . Copyright 2006, International IDEA and Stockholm University |
Acesso em 27/06/2014.
11

participação feminina nas eleições de 2006, em comparação com as eleições de 2002, Rodrigues8
constata que não houve crescimento significativo desta participação9. Embora os movimentos das
mulheres e a crítica feminista com relação aos limites da democracia política brasileira venha
sendo incansável, segundo Camurça10 (2007), "a cultura política hegemônica que ainda produz
interdições, obstáculos e mesmo bloqueios à participação das mulheres na política, um monopólio
dos homens até pouco tempo" faz com que a representatividade das mulheres neste campo ainda
seja pequena. A Assessoria de Imprensa do CFEMEA11 permite a comprovação do pensamento
de Camurça ao analisar as eleições 2006 e as mulheres que concorreram ao pleito e foram eleitas,
ao afirmar que:

Foram poucas as mulheres eleitas em 2006. De um total de 2.498 candidatas (2 à


Presidência, 26 aos Governos, 35 ao Senado, 652 à Câmara Federal e 1783 às
Assembléias e Câmara Legislativas) foram eleitas até o momento 173 mulheres
(4 Senadoras, 46 Deputadas Federais e 123 Deputadas Estaduais/Distritais),
segundo os dados do Tribunal Superior eleitoral. Nenhuma mulher foi eleita
Governadora no 1º turno e 5 candidatas estão disputando o 2º turno. Esses
resultados são péssimos e fica o sentimento de que a eleição de mulheres é um
acontecimento cada vez mais difícil. Os dados detalhados estão no site
www.cfemea.org.br.

A análise mostra que, neste período, das candidatas à Presidência da República nenhuma
chegou ao segundo turno, não tendo sequer grande representação na votação no primeiro turno.
As mulheres concorreram ao Governo do Estado em 18 unidades da Federação e não ganharam
em 1º turno em nenhuma delas, tendo alcançado votação expressiva e disputado o 2º turno em
apenas 5 Estados12.
O Senado Federal renovou 1/3 de seus/as integrantes nas eleições de 2006 e as mulheres
concorreram em 19 unidades da Federação tendo se elegido como representantes em apenas 4
delas. Já as vagas na Câmara dos Deputados foram disputadas por mulheres em todas as unidades
da Federação e os 29 partidos apresentaram candidatas em algum dos Estados, tendo sido eleitas
46 deputadas federais, por 20 Estados e por 13 partidos políticos representando 8,97% das

8
RODRIGUES, Almira - Mulheres e Eleições 2006 no Brasil. Esta análise constitui uma das ações do Projeto A participação política das
Mulheres nas Eleições 2006, desenvolvido pela socióloga e pesquisadora do CFEMEA, com o apoio da Embaixada da Finlândia que apoiou o
CFEMEA em projeto anterior, sobre as Eleições Municipais de 2004 e a discussão da Reforma Política no Brasil.
9
Segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 125.913.479 eleitores/as, sendo 51,53% de mulheres e 20,42% de jovens (16 a 24
anos). As mulheres somam quatro milhões de votos a mais em todo o País. Ainda de acordo com o Tribunal, são mais de 18 mil candidatos/as
oriundos de 29 partidos políticos.
10
CAMURÇA, Sílvia. As mulheres na política e a reforma política. SOS Corpo e AMB - CFEMEA, março de 2007. Disponível no endereço
http://www.cfemea.org.br/. Silvia Camurça é socióloga e educadora popular, integra a equipe do SOS Corpo Instituto Feminista para a
Democracia, em Pernambuco, e a Secretaria Executiva Colegiada da Articulação de Mulheres Brasileiras.
11
Mulheres eleitas em 2006: o desafio é cada vez maior. Dados atualizados. CFEMEA - Assessoria de Imprensa em 27 de outubro de 2006. As
análises e dados estão disponíveis em: www.cfemea.org.br
12
Ana Júlia de Vasconcelos Carepa (PT-PA); Denise Frossard Loschi (PPS-RJ); Roseana Sarney Murad (PFL-MA); Wilma Maria de Faria (PSB–
RN); e Yeda Rorato Crusius (PSDB-RS). Todas essas mulheres têm uma trajetória política consolidada: Ana Júlia e Roseana são senadoras e têm
a continuidade do mandato por terem sido eleitas em 2002; Denise e Yeda são deputadas federais e terão seus mandatos findos nesta 52ª
Legislatura; e Wilma está disputando a reeleição como Governadora e terá sua gestão finda em 31 de dezembro de 2006. É interessante observar
que as cinco candidatas são de diferentes partidos do espectro político e também de diferentes regiões do País. Em 2002, foram eleitas duas
governadoras: Wilma M. de Faria no 2º turno e Rosinha Garotinho no 1º turno. Dados disponíveis em www.cfemea.org.br.
12

cadeiras da Câmara Federal. Em nível estadual, o total de mulheres eleitas diminuiu em relação
às Eleições de 2002. 13
O número de mulheres eleitas em 2006 é pequeno e não se ampliou de forma expressiva
com relação às eleições de 2002. Os resultados para as Assembléias e Câmaras Legislativas são
preocupantes pois o número de mulheres eleitas decresce em 10 cadeiras, significando uma
queda de 12,56 para 11,61% a proporção de mulheres eleitas para este cargo em todo o País em
2002. Os dados para candidaturas de mulheres às Assembléias já vinha apontando este fenômeno
da retração o que se manteve quanto às mulheres eleitas.14 Entre as conclusões a que a Assessoria
de Imprensa do CFEMEA chegou, está a de que: “Os partidos políticos têm um papel essencial
na promoção da participação política das mulheres e podem desenvolver ações afirmativas
independentemente de legislação federal, [...] adoção de cotas por sexo para a composição de
suas direções e destinação de percentuais do fundo partidário”, destacando ainda que “É
importante a difusão de campanhas na mídia de promoção cotidiana da participação política das
mulheres, visando combater a mentalidade patriarcal que reserva aos homens o território da
política representativa”
A influência da mídia e as relações entre mídia e política no Brasil ganham destaque na
medida em que se refletem fortemente na opinião pública e criam representações sobre os
candidatos. “Assim, aquilo que a mídia [...] veicula ou deixa de veicular é significativo do ponto
de vista da percepção da realidades social que está acessível à população.” (MIGUEL apud
FINAMORE e CARVALHO, 2006, p.351). O discurso da mídia é um discurso social, que de
acordo com Fairclough (2001) constitui uma prática que representa, significa, constitui e constrói
o mundo, e que pode tanto promover mudanças quanto reforçar a realidade vigente.
Caldas (2005) aborda o papel da mídia na construção coletiva da história e reflete sobre a
responsabilidade da mídia na elaboração do imaginário popular e na reconstrução da história,
abordando as relações de poder e o processo de produção da informação, bem como as
manipulações, conscientes ou não, nele envolvidas. Falando sobre a memória coletiva e a
influência dos meios de comunicação de massa que ocorre na formação / deformação da opinião
pública, a autora afirma que acontece "a destruição da temporalidade provocada pela mídia em
suas múltiplas formas de representação da realidade, da polissemia das vozes, de simulacro do
real" (CALDAS, 2005, p.139). Segundo ela, a formação do imaginário social embasado na
"aldeia global" permite a articulação de tudo "em teias multimídias com informações
fragmentárias, destituídas de contexto, sem uma perspectiva histórica" o que traz consigo a
necessidade de uma reflexão crítica que permita "o retorno de uma utopia social que substitua a
práxis e a lógica do consenso fabricado pelo sujeito histórico, comprometido com a sociedade em
que vive" (Caldas, 2005, p.141). Esse fato ocorre com maior ênfase no discurso político.

13
Neste pleito, foram eleitas 123 deputadas estaduais/distritais, representando 11,61% do total de cadeiras que é de 1059 em todo o País (TSE –
6/10/2006). Há quatro anos, foram eleitas 133 deputadas estaduais/distritais, totalizando 12,56%.
14
Assessoria de Imprensa CFEMEA, 2006.
13

Mesmo nesse cenário ainda está presente a luta das mulheres para ocuparem um espaço
neste campo social. Manuela D'Ávila (PCdoB), candidata mais votada para a Câmara dos
Deputados nas últimas eleições no Rio Grande do Sul, disse que o ambiente político é visto como
masculino e há um "machismo" que procura constantemente descaracterizar a competência das
mulheres. "A Rita Camata, que dá o nome a uma das leis mais importantes deste país, era
apresentada como a musa do Congresso. Quando falam de minha votação também se referem a
uma suposta beleza. Isso é preconceituoso e procura desqualificar a vitória das mulheres", disse
Manuela.15

As Mulheres e as Eleições 2014


Historicamente sub-representadas no Legislativo Federal, as mulheres não conseguiram
ampliar seu espaço nas eleições de 2014. O processo político eleitoral vem sendo monitorado por
órgãos do Governo, Institutos de Pesquisa, e Órgão ligados à Mulher, como o CFEMEA16 e o
Instituto Patrícia Galvão, entre outros. Foram eleitas 51 mulheres para a Câmara, o que representa
praticamente 10% do total de integrantes da Casa. No Senado, cinco candidatas se elegeram. O
número pouco variou em relação a 2010, quando 45 deputadas conseguiram um mandato na
Câmara. Naquele ano, 12 ganharam cadeira no Senado, mas o número de vagas em disputa era o
dobro das 27 em jogo nesse domingo.
O resultado mantém o Brasil entre os países com menor participação feminina no
Parlamento. Em maio, o país aparecia em 129º lugar em uma lista atualizada da União
Interparlamentar (UIP) sobre a presença das mulheres no Legislativo. A entidade analisou
a situação de 189 países. O resultado da eleição reforça a tese de que os atuais mecanismos de
incentivo, como a cota de 30% para mulheres na composição das chapas, não são suficientes para
ampliar a participação feminina nas esferas de poder.
Desde 2009, uma exigência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) obriga que pelo menos
30% das candidaturas dos partidos sejam dedicadas (por cotas) a um dos sexos, no caso, o sexo
que tem a menor representatividade: o feminino, mas em julho do ano eleitoral, os partidos não
tinham atingido essa cota para as Eleições de 2014, o que gerou um último recrutamento que
finalmente chegou a 30,7% de candidatas - apenas 0.7% acima do previsto por lei. Desse número,
16,5% são mulheres brancas e 14,2% mulheres negras, de acordo com pesquisa feita pelo
Instituto de Estudos Socioeconômicos.
Para Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão 17 , organização responsável por
pesquisas sobre a representatividade da mulher e do negro nas Eleições de 2014, não é a falta de
interesse das mulheres que dificultam as candidaturas e, sim, um esquema fechado dos partidos,
que ainda privilegiam a representação masculina.

15
Matéria publicada no jornal O Globo. OLIVEIRA, Chico. Yeda: corrupção inibe presença feminina - Para governadora eleita do Rio Grande do
Sul, moralização aumentaria participação. Fonte: Jornal O Globo - 04 Data: 11/12/2006. Também disponível em SENADO NA MÍDIA -
SEPOPhttp://www.senado.gov.br/sf/noticia/senamidia/principaisJornais/verNoticia1.asp?ud=20061211&datNoticia=20061211&codNoticia=2112
07&nomeOrgao=&nomeJornal=O+Globo&codOrgao=2729
16
Centro Feminista de Estudos e Assessoria - CFEMEA - é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos.
17
http://agenciapatriciagalvao.org.br/politica/
14

Os dados apresentados e analisados ao longo do texto reforçam o que o CFEMEA e o(s)


movimento(s) feministas vêm apontando há décadas: mulheres são interditadas dos espaços
institucionais de poder e decisão. A retração no número de governadoras e deputadas
estaduais/distritais são provas materiais disso. A sub-representação política feminina já não é
segredo: cada vez mais é conhecida e discutida fora das universidades e do(s) feminismo(s). E é
incompatível com qualquer presunção democrática, já que as mulheres são maioria da população
brasileira, do eleitorado e, apesar de serem pouco menos da metade da/os filiada/os a partidos
políticos19, são maioria da/os nova/os filiada/os.
Outra informação relevante é a Pesquisa do DataSenado18 divulgada no início de outubro
de 2014 que apontou as percepções dos brasileiros acerca da dificuldade que as mulheres
enfrentam para concorrer: a falta de interesse por política e a falta de apoio dos partidos políticos
foram apontados pela maioria dos entrevistados como os principais motivos da pequena
participação da mulher na política. “A grande barreira para a participação das mulheres é a
própria estrutura partidária. Os partidos não garantem condições para as mulheres concorrerem
em pé de igualdade com os homens”, destacou o assessor especial da Secretaria de Transparência
do Senado, Thiago Cortez.
A procuradora da Mulher no Senado, senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), disse
que o problema da sub-representação das mulheres na política tem sua raiz na subordinação
imposta às brasileiras ao longo da história e que continua na sociedade atual. Segundo a senadora,
não haverá um aumento significativo do número de mulheres na política enquanto não houver
uma reforma política.“- Com esse tipo de política eleitoral que temos no Brasil a mulher nunca
vai alcançar o seu espaço. Primeiro, porque os partidos são comandados por homens, a mulher
quase não tem espaço dentro dessas agremiações; e, segundo, que o acesso ao financiamento é
para eles também, não chega a elas”– afirmou.
O aumento de seis cadeiras não animou a coordenadora da bancada feminina na Câmara,
deputada Jô Moraes (PCdoB-MG). “É um resultado decepcionante. Ele mostra que a política de
inclusão das mulheres nas instâncias de poder está fadada ao fracasso, está falida”, avaliou a
parlamentar, que foi reeleita no domingo (5/10/2014). Apesar da cota prevista em lei (12.034/09)
de 30% de candidaturas femininas nas eleições para deputados e vereadores, Jô Moraes acredita
que é preciso uma reforma política que democratize a presença da mulher no Parlamento. As
cotas, segundo ela, não geram o resultado desejado porque não são preenchidas com antecedência.
“Elas são feitas de última hora, para os partidos políticos apenas cumprirem a exigência legal”,
criticou. O cientista político Antônio Augusto de Queiroz, assessor parlamentar do Departamento
Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), afirma que as cotas só terão validade efetiva
quando as eleições ocorrerem com base em um sistema de listas fechadas e de alternância de
gêneros. “Essas mulheres foram eleitas por mérito próprio, já que os partidos não lhe deram o
devido espaço.”
18
http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2014/10/02/datasenado-falta-de-apoio-dos-partidos-e-principal-obstaculo-para-mulheres-na-
politica;http://www.senado.gov.br/senado/datasenado/pdf/datasenado/DataSenado-Pesquisa_Mulheres_na_Pol%C3%ADtica.pdf
15

Os pontos importantes levantados pelo CFEMEA com relação ao quadro político e à


participação das mulheres nas Eleições no Brasil remetem a questões como: quais os fatores que
atraem as mulheres para este campo; quais os elementos que constrangem e limitam sua
participação; como votam os eleitores de ambos os sexos com relação aos/as candidatas e quais
as estratégias e pautas de campanha das candidatas comparativamente aos candidatos - existe
diferenças entre gastos financeiros, tempo dedicado à campanha, apoio recebido, entre outros.

Considerações
O referencial teórico construído mostra a trajetória e a luta feminina pelo reconhecimento
no mundo e no Brasil. Essa luta pelo reconhecimento enquanto ser humano, não é diferente da
luta iniciada em outros países, na Europa, e depois, mundo afora.
Da mulher como propriedade do homem no patriarcado, ainda hoje existem resquícios
em diferentes instâncias sociais. É certo que a mulher avançou em sua luta pela liberdade e
reconhecimento, especialmente depois de vincular os movimentos feministas aos partidos
políticos, seja no campo pessoal, seja no profissional, Mas este avanço não é pleno e enm
tampouco é igual para todas as mulheres. Conforme o texto, mulheres brancas, economicamente
privilegiadas tem muito mais possibilidades de obter reconhecimento e lugar de fala como ser
social, enquanto que as menos privilegiadas ainda se vêem atreladas aos resquícios da cultura
colonial.
A exposição dos dados das pesquisas no texto mostram a existência de comportamentos
subalternos da mulher, com relação à sua própria representação política: os próprio partidos
políticos não cumpres as leis de coras estabelecidas, fato que mostra a necessidade de muitos
outros estudos e reflexões acerca do para que seja possível estabelecer uma sociedade mais digna
e mais justa.
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