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EDUCAÇÃO PATRIMONIAL SE FAZ NO MUSEU, NA ESCOLA E JUNTO Á

COMUNIDADE. Faccio, Neide Barrocá; Carrê, Gabriela Machado; Souza, Hellen


Cristiane. Faculdade de Ciências e Tecnologia. Departamento de Planejamento,
Urbanismo e Ambiente.

Resumo
O Projeto “A Pré-História dos Homens contada por meio dos Objetos” atua na
área de curadoria, montando exposições e dando atendimento monitorado no Museu
de Arqueologia de Iepê, SP.
Além das atividades no museu, o projeto tem se preocupado em trabalhar com
professores e alunos dos ensinos fundamental e médio e com a comunidade,
principalmente, a terceira idade, oferecendo cursos e oficinas.
No ano de 2007, o projeto Museu/Universidade fez parceria com o MAE/USP
(Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo) para trocar
experiências nas áreas dos projetos de extensão.
É objetivo do projeto contribuir para a formação da noção de cidadania e
identidade de alunos da rede pública e comunidade em geral, a partir do conhecimento
do patrimônio e das formas de preservação dele e da memória cultural.

Palavras-Chave
Educação Patrimonial, Museu/Universidade/Escola, Arqueologia, Índios Guarani,
Índios Kaingang

Histórico do projeto
O Projeto “A Pré-História dos Homens contada por meio dos Objetos”, em 2007,
completou sete anos de atividades ininterruptas, durante os quais se verificou um
aperfeiçoamento paulatino. As atividades de extensão são nas áreas de Arqueologia,
Etnologia e História do Estado de São Paulo, mais especificamente do Oeste Paulista.
O projeto conta com o apoio do PROEX e do Programa Ciência na UNESP.
A origem do projeto está ligada ao estudo de 15 sítios arqueológicos localizados
no Município de Iepê, SP. Os sítios apresentam urnas inteiras de grupo indígena
guarani, o que é raríssimo no Estado de São Paulo atualmente, e pedras lascadas,
entre elas pontas de flecha de grupos caçadores-coletores da tradição Umbu.
Com os estudos realizados nas áreas dos sítios e com a análise dos materiais, a
comunidade reivindicou da prefeitura e da UNESP, que os vestígios arqueológicos
permanecessem no município, por meio da abertura de um museu para expor o

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acervo e oferecer educação patrimonial específica para a população do município e
região.
A população de Iepê conheceu o patrimônio arqueológico presente no município,
valorizou o acervo, em constante resgate, e cuidou para que ele continuasse no
município. O Município de Iepê, hoje, com o apoio da Universidade, têm um dos quatro
museus de arqueologia mais importante do Estado de São Paulo. Nesse museu, o
projeto em epígrafe atua.
A equipe tem desenvolvido as ações do projeto utilizando-se como referencial
metodológico a pesquisa-ação (THIOLLENT, 1998) e outras abordagens participativas.
Temos, portanto, no projeto, um estimulador de ações e de conscientização
patrimonial, cujos resultados estão sendo aferidos.
O Projeto “A Pré-História dos Homens contada por meio dos Objetos” é
desenvolvido por uma equipe interdisciplinar de professores e alunos. São quatro
professores (dois coordenadores e dois voluntários) e oito alunos (dois bolsistas e seis
voluntários) que participam da realização das atividades do projeto. Contudo, devemos
destacar que, além desses participantes que compõem o quadro da Universidade,
existem também membros da comunidade local. Na cidade de Iepê, SP, contamos
com o apoio de professores da rede estadual de Ensino, dos comerciantes e da
população rural. Esse apoio não se resume na aceitação das ações do projeto, mas
também no auxílio para que essas ações sejam amplas na área do município e região.
Para citar um exemplo, quando realizamos cursos e oficinas na cidade, ganhamos da
população alimentação, hospedagem e lanche no período da tarde. Das igrejas
católica e presbiteriana temos, sempre que precisamos, o salão de festas, disponível
para a realização de cursos. Da prefeitura, muitas vezes, ganhamos combustível e o
custeio de exposições. Nas ocasiões em que ocorrem os cursos de atualização para
professores do ensino fundamental e médio, a prefeitura municipal de Iepê
disponibiliza alimentação e transporte para todos os participantes. Atendemos, nos
cursos de atualização, de 70 a 120 professores por ano.

Desenvolvimento

Desde sua implantação, o projeto tem atendido a um grande número de


pessoas. Entre as ações desenvolvidas pelo projeto destacamos:
1. Elaboração de textos didáticos sobre a pré-história do Oeste Paulista para
professores e alunos do ensino fundamental e médio;
2. Realização de palestras e cursos para professores e alunos do ensino fundamental
e médio sobre o período pré-histórico do Oeste Paulista (Fotos 1, 2 e 3);

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Fotos 1, 2 e 3: Oficina de argila (fotos 1 e 2) e curso para professores (foto 3). Fotos: Faccio, 2007.

4. Apresentação de vídeos para professores, alunos do ensino fundamental/médio e


grupos da terceira idade e realização de oficinas de argila, utilizando as técnicas das
oleiras guarani (Fotos 4, 5, 6, 7 e 8);

Fotos 4, 5 e 6: Oficinas de argila para alunos do ensino fundamental e médio da rede pública. Fotos: Faccio,
2007.

Fotos 7 e 8: Oficina de argila para a terceira idade. Fotos: Faccio, 2007.

5. Elaboração de revistas em quadrinhos sobre os índios que habitaram o Oeste


Paulista, com ISSN 1808-7833-6;
6. Elaboração de painéis para o Museu de Arqueologia de Iepê (MAI), abrangendo o
período dos grupos caçadores-coletores até o da arqueologia histórica, buscando a
recomposição dos cenários de ocupação humana;
7. Montagem do Museu de Arqueologia de Iepê, com curadoria das peças
arqueológicas;
8. Realização do projeto de educação patrimonial, no Município de Iepê, com a
distribuição de 500 panfletos educativos;

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9. Realização de projeto de resgate da identidade indígena na Reserva Indígena
Vanuíre, com a promoção de duas palestras sobre identidade indígena;
10. Elaboração de quatro unidades didáticas para o ensino fundamental das escolas
municipais de Iepê, sobre “O índio do Oeste paulista” (em elaboração);
11. Monitoria de visitas ao Museu de Arqueologia de Iepê;
12. Criação de um grupo de estudos, que se reúne semanalmente para discutir textos
e ações do projeto;
13. Assessoria a professores do ensino fundamental e médio, no que diz respeito a
uma nova forma de abordar em aula a questão indígena e do patrimônio cultural;
14. Perícias nos sítios arqueológicos evidenciados pelo público alvo e cadastro desses
sítios junto ao IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Destaque para algumas das atividades em desenvolvimento


A curadoria do acervo de peças pré-históricas do Museu de Arqueologia da
cidade de Iepê, criado a partir de achados de docente da Faculdade de Ciências
Tecnológicas, faz parte de algumas das atividades dos alunos do Projeto Museu
Universidade: Educação Patrimonial.
Com o avanço das pesquisas desenvolvidas na área rural do município de
Iepê, foi possível resgatar e expor várias peças dos índios que habitaram o local no
período pré-colonial em um museu próprio como era desejo da população de Iepê, SP.
Trata-se de um espaço que cumpre um papel de mantenedor da memória, contada por
meio de objetos e de interlocutores do conhecimento produzido na universidade (Foto
9).

Foto 9: Museu de Arqueologia de Iepê, SP. Foto: Santilli, 2007.

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Desde 1999, quando começaram as pesquisas arqueológicas no município, o
grupo de pesquisa da UNESP, cadastrado no CNPq com o título “Arqueologia Guarani
no Vale do Rio Paranapanema”, já descobriu cerca de 30 mil peças, como urnas
funerárias de grande porte, vasilhas com diversas decorações, lâminas de machado,
boleadeiras, virotes (pontas de lanças), pontas de flecha e tembetás - pingentes labiais
usados em ritos de passagem da infância à adolescência por índios.
A exposição dos objetos e os painéis da exposição foram elaborados pelo
grupo que atua no projeto, que é composto por arqueólogo, arquiteto, sociólogo,
desenhista e alunos dos cursos de geografia, engenharia ambiental e arquitetura. A
interdisciplinaridade possibilitou a essa equipe montar a exposição de forma
inovadora, tendo em vista a ciência e o lúdico.
Aulas de campo em sítios arqueológicos são dadas para professores do ensino
fundamental e médio. Essas aulas buscam instrumentalizar o professor para aulas
práticas na própria escola, como por exemplo, a montagem de sítio arqueológico na
escola, onde o aluno pode aprender, além da pré–história, noções de escala e de
análise do espaço (Foto 10).

Foto 10: Aula de campo no curso para professores do ensino fundamental e médio.
Foto: Faccio, 2007.

Entre as ações do projeto em epígrafe, também destacamos o de restauração


de vasilhas cerâmicas arqueológicas. Vasilhas cerâmicas fragmentadas, antes
guardadas nas prateleiras de reservas técnicas do museu, agora podem ser expostas
depois de restauradas. Os participantes do projeto restauram as peças com uma
técnica criada pelo grupo de pesquisa “Arqueologia Guarani do Vale do Rio
Paranapanema”. Pela qualidade do trabalho, o grupo do “Núcleo de Ensino” foi
convidado pelo IPHAN para restaurar vasilhas em São Mateus, cidade histórica do
Espírito Santo e ensinar meninos carentes daquela região a dar continuidade ao

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trabalho. Iniciamos esse trabalho em setembro de 2006 e daremos continuidade a
esse trabalho em dezembro de 2007 (Foto 11).

Foto 11: Tralbalho de restauro de vasilhas indígenas pré-históricas.


Foto: Faccio, 2007

Para 2007, estão previstas aulas na Reserva Vanuíre, ministradas pelos


próprios bolsistas da UNESP, sobre a técnica indígena kaingang de confecção da
cerâmica a um grupo de jovens índios. A meta é, também, ampliar as atividades já
desenvolvidas, principalmente as do Projeto “Preserve a História e Entre na História”,
que estimula as pessoas que encontram vestígios arqueológicos a avisarem o Museu
ou a UNESP, sem tirar a peça do local de origem. Cada participante é fotografado com
a peça e recebe um certificado, cuja cópia fica exposta na galeria do Museu.

Conclusão

Tendo em vista que o patrimônio cultural vem sendo dilapidado, é importante


que a Universidade mostre para a população a importância da preservação do mesmo.

Para os bolsistas, o projeto tem se mostrado como mais uma alternativa para
que os conhecimentos adquiridos no curso de graduação em Geografia sejam
transmitidos à comunidade de forma atraente e lúdica.
Os alunos aprendem a preparar o conteúdo e a expor esse conteúdo com
linguagem adequada ao tipo de público. Lêem mais, escrevem mais e por isso se
tornam mais seguros. Os alunos que têm a oportunidade de participar do projeto,
aprendem a lidar com as dificuldades do mercado de trabalho e por isso saem melhor
preparados da Universidade para uma vida profissional plena.

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Referências Bibliográficas
ALENCAR, Vera Maria Abreu de. Museu- Educação: se faz ao andar. Dissertação de
Mestrado. Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, 1987.

ALMEIDA, Adriana M. Desafios da relação Museu-Escola. Comunicação e


Educação, São Paulo: Moderna: USP, n0 10, p. 50-56, set./dez., 1997.

HORTA, Maria de Lourdes P.; GRUNBERG, Evelina: MONTEIRO, Adriane Queiroz.


Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: IPHAN, Museu Imperial, 1999.

THIOLLENT, Michel (Coordenador). Extensão Universitária e Metodologia


Participativa. II Seminário de Metodologia de Projetos de Extensão.
COPPE/UFRJ, 1998.

VALENTE, Maria ESTHER. Educação em Museus. O público de hoje no museu de


ontem. Dissertação de Mestrado. Departamento de Educação, Pontifícia
Universidade Católica, Rio de Janeiro, 1995.