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des, segundo o qual “todo mundo começa Rimbaud e acaba

Olegário Mariano”. Divirto-me porque sei que essa coisa é


mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui,
não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum
ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exem-
plo, quando ser “de esquerda” dava cadeia, só alguns poucos
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego,
Turma: 2ª. Série do Ensino Médio todo mundo se diz “de esquerda”. De minha parte, pouco se
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação,
Tema redacional 03: Causas e efeitos sociais do analfabe- pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso es-
tismo funcional na contemporaneidade brasileira. tar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está,
portanto, implícito que não me considero dono da verdade,
Analfabético. adj. (a1899) 1 que não tem alfabeto (diz-se que nem sempre tenho razão, porque há questões complexas
de língua) 2 relativo a analfabeto ETIM analfabeto + –ico. demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não
concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou
(HOUAISS, Antônio et al. Dicionário Houaiss da língua não. Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de Por-
portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 124) tuguês afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo
nem errado, ou seja, tudo está certo: tanto faz dizer “nós va-
Analfabetismo. s.m. (1899) estado ou condição de analfa- mos” como “nós vai”. Ouço isso e penso: que sujeito baca-
beto; falta de instrução, sobretudo da elementar (ler e escre- na, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada
ver) ETIM analfabeto + -ismo ANT alfabetismo, instrução. vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo
ou está posando de bacana, de avançadinho? E se faço essa
(HOUAISS, Antônio et al. Dicionário Houaiss da língua pergunta é porque me parece incongruente alguém, cuja
portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 124) profissão é ensinar o idioma, afirmar que não há erros. Se
está certo dizer “dois mais dois é quatro”, então a regra gra-
Analfabeto. adj. s.m. (a1710) 1 que ou aquele que desco- matical, que determina a concordância do verbo com o su-
nhece o alfabeto; que ou aquele que não sabe ler nem escre- jeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra – u-
ver 2 que ou aquele que não tem instrução primária 3 p.ext. ma vez que tudo está certo –, não há por que ensinar a lín-
que ou o que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil gua. A conclusão inevitável é de que o professor deveria
4 p.ext. B que ou aquele que desconhece ou conhece muito mudar de profissão, porque, se acredita que as regras não
mal determinado assunto ou matéria <ser (um) a. em políti- valem, não há o que ensinar. Mas esse vale-tudo é só no
ca, em matemática> a. de pai e mãe pessoa totalmente anal- campo do idioma, não se adota nos demais campos do co-
fabeta • a. funcional indivíduo cujas habilidades de leitura nhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando
e escrita são insuficientes para atender às necessidades prá- que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de
ticas do dia a dia e para promover o seu desenvolvimento saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos. É
pessoal e profissional ETIM lat. tar. analphabetus,a,um, do verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certa-
gr. analphábétos,os,on “que não conhece o alfabeto”, de mente, dizendo “nós vai” e desconhecendo as normas da lín-
a(n)- + alphábétos,ou. gua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso
professor. Devo concluir que gente pobre tem mesmo que
(HOUAISS, Antônio et al. Dicionário Houaiss da língua falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura?
portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 124-125) Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opini-
ão crítica com preconceito? As minorias, que eram injusta-
mente discriminadas no passado, agora estão acima do bem
e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário. E,
assim como para essa gente avançada não existe certo nem
errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga
“as milhares de pessoas” ou “estudou sobre as questões” ou
“debateu sobre as alternativas” em vez de “os milhares de
pessoas”, “estudou as questões” e “debateu as alternativas”.
A palavra “sobre” virou uma mania dos locutores de televi-
são, que a usam como regência de todos os verbos e em to-
das as ocasiões imagináveis. Sei muito bem que a língua
muda com o passar do tempo e que por isso mesmo o portu-
guês de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de
Machado de Assis, bem mais próximo de nós. Uma coisa,
porém, é usar certas palavras com significados diferentes,
construir frases de outro modo ou mudar a regência de cer-
Da fala ao grunhido tos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica na-
tural do idioma ou, simplesmente, cometer erros gramati-
Ferreira Gullar cais primários. Mas a impressão que tenho é de que estou
malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coi-
Desconfio de que, depois de desfrutar, durante quase sas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a
toda a vida, da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa fala errada cem vezes por hora para milhões de telespecta-
gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e dores? Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmi-
até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernan- ca, e que a globalização tende a misturar as línguas como

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nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o estava por trás daquela afirmação do secretário não era bem
que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas isso, e sim que a crítica ao livro em discussão não tinha ne-
grunhindo. nhum fundamento: era mero preconceito. Ou seja, simples
pretensão de quem se julga dono da verdade que, qual se sa-
(Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 25.03.2012) be, não existe. Tal relativismo, bastante conveniente quando
se quer fugir à responsabilidade, tornou-se a maneira mais
Verdade e preconceito fácil de escapar à discussão dos problemas. Certamente, não
se trata de afirmar que as normas e princípios que regem o
Ferreira Gullar idioma ou a vida social estejam acima de qualquer crítica,
mas, pelo contrário, devem ser questionados e discutidos.
Tenho comentado aqui o fato de que, para alguns lin- Considerar que todo e qualquer reparo a este ou aquele prin-
guistas, nunca há erro no uso do idioma: tanto faz dizer cípio é mero preconceito, isso sim, é pretender que há verda-
“problema” como “pobrema”, que está certo. Confesso que, des intocáveis. Não li o livro, não quero julgá-lo a priori.
na minha modesta condição de escritor e jornalista, surpre- Creio, porém, que quem fala errado vai à escola para apren-
endo-me, eu que, ao suspeitar de que poderia me tornar poe- der a falar certo, mas, se para o professor o errado está certo,
ta, passei dois anos só lendo gramáticas. E sabem por quê? não há o que aprender.
Porque acreditava que escritor não pode escrever errado. E
agora descubro que ninguém escreve errado nunca, pois to- (Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 29.05.2011)
do modo de escrever e falar é correto! Perdi meu tempo?
Mas alguma coisa em mim se nega a concordar com os lin- Palavras da “geração sem palavras”
guistas: se em todo campo do conhecimento e da ação hu-
mana se cometem erros, por que só no uso da língua não? É Segismundo Spina
difícil de engolir. Essa questão veio de novo à baila com a
notícia de um livro, adotado pelo Ministério da Educação e Nós não vivemos apenas numa época de mitos vazi-
distribuído às escolas, em que a autora ensina que dizer “os os de sentido, de aburguesamento da mentalidade, de des-
livro” está correto. Estabeleceu-se uma discussão pública do respeito às autoridades e às instituições, de carência de ho-
assunto, ficando claro que, fora os linguistas, ninguém acei- mens públicos, de câmbio negro oficializado e de inflação
ta que falar errado esteja certo. Mas não é tão simples assim. desenfreada; atravessamos, sobretudo, uma fase em que o
Falar não é o mesmo que escrever e, por isso, falando, muita maior instrumento da inteligência está em bancarrota: a pa-
vez cometemos erros que, ao escrever, não cometemos. E, lavra, ou melhor, a língua de que nos servimos. Há dois a-
às vezes, usamos expressões deliberadamente “erradas”, ou nos, numa solenidade universitária, tivemos o ensejo de a-
para fazer graça, ou por ironia. Mas, em tudo isso, está im- bordar o problema perante uma turma de novos licenciados
plícito que há um modo correto de dizer as coisas, pois a lín- em Letras, destinados que estavam ao magistério da língua
gua tem normas. O leitor já deve ter ouvido falar de “entro- portuguesa. Dizíamos que 75 por cento dos candidatos a
pia”, uma lei da Física que constata a tendência de sistemas vestibulares, nos cursos de Letras da Faculdade de Filosofia,
físicos para a desordem. Essa tendência parece presente em são reprovados pelo desconhecimento do idioma. Todos sa-
todos os sistemas, inclusive nos idiomas, que são também bemos as condições precaríssimas com que se apresentam
sistemas. Devemos observar que as línguas, como organis- esses candidatos ao vestíbulo das escolas superiores, inteira-
mos vivos que são, mudam, transformam-se, como se pode mente desprovidos de conhecimentos de língua e de literatu-
verificar comparando textos escritos em épocas diferentes. ra, incapazes para uma redação sobre tema qualquer, inca-
Há, ainda, as variações do falar regional, que guarda inevitá- pazes de ligar duas ideias em coerência, incapazes de en-
veis peculiaridades que constituem riqueza do idioma. Mas frentar a discussão de um problema, ou de fazer uma exposi-
isso não é a mesma coisa que entropia. Já violar as normas ção oral sobre determinado assunto. E essa geração foi – co-
gramaticais é, sim, caminhar para a desordem. Se isso é na- mo todos sabem – denominada “geração sem palavras”. De
tural e inevitável, é também natural o esforço para manter a fato, ninguém mais lê. A característica intelectual mais evi-
ordem linguística, que não foi inventada pelos gramáticos, dente da nova geração são incapacidade de exprimir-se, po-
mas formulada e sistematizada por eles: nasceu naturalmen- breza de vocabulário e apego à linguagem gírica como tábua
te, porque, sem ela, seria impossível as pessoas se entende- de salvação. Hoje, a linguagem perdeu a capacidade de clas-
rem. Nesta minha condição de “especialista em ideias ge- sificar socialmente os indivíduos, porque as próprias pesso-
rais” (Otto Lara Resende), verifico que, atualmente, não só as da alta sociedade servem-se da linguagem dos desclassi-
na Linguística, tende-se a admitir que tudo está certo. Se al- ficados – que são a gíria e suas derivações. E o que leem?
guém discorda dessa generosa abertura, passa a ser tido co- Quando saem da literatura de quadrinhos (e alguns não con-
mo superado e preconceituoso. Agora mesmo, durante a dis- seguem ultrapassar essa esfera de leitura), ingressam nou-
cussão em torno do livro, os defensores da tese linguística tras formas perniciosas de ilustrações, quase todas criações
afirmaram que quem dela discordava era por preconceito. norte-americanas: os clubes de livro ou as publicações peri-
Um dos secretários do ministro da Educação decla-rou que ódicas tipo Seleções, que criminosamente oferecem ao leitor
aquele ministério não se julgava “dono da verdade” e que, moderno o resumo das obras literárias ou das grandes cria-
por isso mesmo, não poderia impedir que o livro fosse com- ções do espírito. O editor, a preço módico, oferece ao leitor
prado e distribuído às escolas. Uma declaração surpreen- o seu livro mensal ou a sua revista de literatura; nada mais
dente, já que ninguém estava pedindo ao ministro que afir- desastroso para o espírito crítico, pois o próprio editor se in-
masse ou negasse a existência de Deus, mas, tão somente, cumbe de selecionar as leituras do leitor de hoje. E isso sem
decidisse sobre uma questão pertinente à sua função minis- falar da estratégia comercial dessas instituições, do envene-
terial. Não é ele o ministro da Educação? Não é ele respon- namento psicológico da juventude e do deplorável sentido
sável pelo rumo que se imprima à educação pública no país? de homogeneização, de padronização da cultura intelectual.
Se isso não é de sua competência, é de quem? De fato, o que Essa é a leitura a que se entregam nossos escolares, quando

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o fazem. É notória, aliás, a miséria dos meios expressivos Em 1955, participamos, como presidente de uma banca exa-
do estudante de hoje, fruto da falta de leitura, da perda de minadora de Português, num concurso de ingresso ao ma-
contato com os genuínos textos literários; já não dizemos da gistério secundário. No Relatório do Concurso, lido quando
perda de contato com os clássicos – que isso seria espantar da proclamação pública das notas, no salão nobre da Facul-
os espíritos desapercebidos; mas do divórcio em que está a dade de Filosofia da Universidade de São Paulo, expusemos
mocidade de nossos dias com uma das verdadeiras fontes da o doloroso balanço das condições intelectuais e morais com
vida: a literatura. E por que não se lê nas escolas secundári- que os 78 candidatos se apresentaram. Não é, hoje, ocasião
as? Simplesmente, porque ou os professores não sabem ori- oportuna para uma transcrição desse depoimento público,
entar a leitura de um texto, no sentido de extrair dele uma senão apenas para lembrar que a Comissão Examinadora
lição de vida e um aprimoramento de nossa sensibilidade pusera em relevo o fato de que os elementos formados pelas
linguística, ou, então, o professor abandonou o regime de Faculdades de Filosofia, na quase maioria, demonstraram,
leitura porque o seu espírito está escravizado àquela mística naquele Concurso, prova de incapacidade, acontecimento
do programa teórico a cumprir. A quase totalidade dos pro- que constituía uma séria advertência aos departamentos de
fessores do vernáculo julga que lecionar a língua é ensinar Letras desses institutos universitários. Para não falarmos
gramática. Esquecem-se de que é lendo e escrevendo que se das monstruosidades no domínio da cultura geral dos candi-
aprende a língua, que se disciplina o pensamento e se apri- datos, invoquemos apenas alguns exemplos de ortografia,
moram as nossas qualidades expressivas. Nessa desvitaliza- ou melhor, de cacografia: “ritimo”, “ipotético”, “diverças”,
ção da cultura, é, particularmente, sensível a perniciosa in- “intensão”, “uzada”, “realse”, “talvês”, “hibérica”, “fixão”
fluência educativa do cinema e da televisão. “A ação dramá- (por “ficção”), “heruditas”, “faicha”, “hera cristã”, “Ome-
tica em si é, praticamente, toda expressa no exteriormente ro”, “tássito”, “alcansar”, “françes”, “luzitania”, “ouve”
visível, enquanto a palavra falada é relegada a um plano se- (verbo “haver”), “líame”; e expressões pleonásticas, como
cundário. A arte de ver passou a ser mera destreza na com- “medida métrica”, “origens etimológicas”, “terminologia
preensão e apercepção rápida das imagens visuais em contí- do vocabulário”, “lirismo singelo e simples” etc.
nua mudança”, diz Johan Huizinga. É o que se verifica tam- E o que é de lastimar: o nível tende a piorar. Nos ves-
bém com as histórias em quadrinhos, em que o processo ci- tibulares do ano passado, para o curso de Pedagogia da Fa-
nemático substitui, até certo ponto, a palavra. A nova gera- culdade de Filosofia da USP, apresentaram-se candidatos
ção adquiriu essa percepção cinemática em grau espantoso. que constituem um testemunho evidente do descalabro em
Tal tendência mecânica da compreensão só pode significar que anda o ensino da língua portuguesa e da crise mental em
atrofia de uma série completa de funções intelectuais. Entre que se debate uma boa porção da nossa mocidade. Pedimos
elas, a capacidade de julgar. Como todos sabem, as propa- permissão para transcrever, a título de exemplo, as redações
gandas comercial e política estão baseadas nessa suscetibili- de duas provas de Português, em que, para dissertação, pro-
dade do homem médio à sugestão pictórica ou imagética. A pusemos este tema: “Discutir a seguinte afirmação: ‘Em um
impressionabilidade rápida, que o anúncio provoca, sugere livro, o que importa é a ideia; a forma é indiferente’”. Pois
o pensamento de satisfazer-se um desejo rapidamente, inde- bem; eis o texto de uma, na íntegra:
pendentemente de reflexão. A palavra, ao contrário, exige
meditação, obriga o exercício reflexivo da inteligência. Daí A ideia externada no fruir constante do expô-la, tem, obvi-
o seu desprestígio, e daí o declínio do espírito crítico, o obs- amente no seu conteudo a importancia-mater. No encadear dos
curecimento da capacidade de julgar, uma das maiores en- proteiformes conceitos que cada pessoa vivencia no interpretar
fermidades de nossa geração. Da incapacidade de julgar ad- da cultura, emanam novidades nas linhas de seu argumentar. O
vém, consequentemente, o desprezo pela verdade, que hoje escritor fará jorrar a cada leitor o seu assimilar e cada leitor terá
atingiu o seu ponto culminante na “declarada advocacia da uma interpretação propria. Os livros são idealizados a um imensu-
mentira política”. Procure-se observar essa incapacidade de ravel numero de leitores e isto obriga o escritor apresentar o mais
nossa juventude – já não direi para julgar – para a definição requintado expor de seu idear. Os varios tipos de livros impõe ao
das coisas e dos fatos. Acostumados a não penetrar a essên- escritor o seu campo de possibilidades possibilitantes no explicar
cia da realidade – porque isso exige elaboração intelectual do seu recondito. A eidética de cala livro é a sua essencia mas
–, os jovens escolares, diante de um problema de definição, estigmatizar a sua forma como um simples envolucro de coisas e
limitam-se a dizer: “Bem, isto é quando...”. Não dizem, ob- ir ao extremo da indiferença do expressar. O estilo é uno, e nem
jetivamente: “Isto é isto”, porque não sabem definir: carac- todos tem felicidade de simbolizar: o que sentem, o que sabem, o
terizam a realidade pela circunstância, não pela essência da- que podem, com clareza, precisão e concatenação. Evidentemen-
quela. E o que é pior: conhecem a realidade exemplificando- te, todos os livros estão subjuldos (“subjugados”?) às suas ideias,
-a, não como fruto de reflexão, como resultado de elabora- pois é facil sofisticar com palavras bem entrosadas no devanear
ção mental. O regresso, pois, do educando à leitura é parte do querer persuadir, se persuadindo. Mas a ideia só surgi (digo i-
da terapêutica das enfermidades mentais de que padece a deia verdadeira) através de pesquisas incansaveis e no fluir do
nossa geração. A nossa vida social patenteia uma multidão manancial de conhecimentos. A ideia é a celula-mater de todo ex-
de sintomas alarmantes que mais bem se podem agrupar sob por, mas a forma a ela está ligada como causa de seu proveito.
a designação de “enfraquecimento da capacidade de julgar” No amplo campo do bivaquês da nossa Literatura encontramos
– conclui o grande ensaísta Johan Huizinga, em sua obra escritores que tendem aos varios as formas – formando um estilo
Nas sombras do amanhã, em que tenta um diagnóstico sere- perseguido pela arte de escrever, enquanto outros procuram sem
no da enfermidade espiritual do nosso tempo. A culpa desse burilar os laivos de seus sentimentos. A forma é a que primeiro
estado de coisas não reside, propriamente, na nossa juventu- impressiona e daí espalha-se essencia do livro – a ideia.
de; as causas são inúmeras, complexas (algumas, até inevi-
táveis), e a terapêutica deve merecer, por parte de pedago- Quem lê uma prova dessas, julga imediatamente tra-
gos especializados, um estudo sério porque se trata de cala- tar-se de alienação mental. Percebe-se, logo, que o espírito
midade. Há quase cinco anos, vimos acumulando os teste- do examinando, inteiramente vazio de conteúdo, fora atra-
munhos positivos disso que hoje rotulamos “calamidade”. vessado por algum professor de Filosofia, desses (e não são

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poucos) que conduzem ao seu magistério apenas o arcabou- nha filha de uma escola primária recentemente instalada na
ço da matéria, tão evidente no vocabulário pseudo-filosófi- capital paulista, que se orgulha de funcionar de acordo com
co que informa a presente redação. Um ligeiro exame esti- os mais modernos padrões pedagógicos, desde as instala-
lístico denuncia, imediatamente, as condições intelectuais e ções até ao corpo docente especializado. A professora da
patológicas do candidato: o excesso de infinitivos denota a menina, numa incontida indignação, escreveu-nos uma car-
incapacidade de articulação dos pensamentos, visão quase ta sobre a atitude tomada. O aspecto subjetivo, aqui, nada
amorfa da realidade. A superfetação filosófica, que se mani- importa, mas sim a carta em si, a redação em que está vaza-
festa num vocabulário como “proteiforme”, “vivenciar”, da, mais um testemunho da desmoralização a que chegou a
“intuir”, “eidética”, “sofisticar” etc., é o retrato vivo de uma formosa língua portuguesa. Façamos vista grossa aos crimes
época que vive de símbolos vazios – como dissemos. Fala- cometidos contra o regime ortográfico – tais como “consci-
-se duma “geração sem palavras”; diria que a nossa geração encia”, “tôdas”, “êsse”, “vêzes”, “voce”, “tira-la” –, bem
se classifica em dois tipos: “geração sem palavras” e “gera- como às monstruosidades da pontuação, que danificam in-
ção com excesso de palavras”. A prova acima transcrita ins- teiramente a carta. Mas erros como “mãis”, “ofencivo”, “as
tala-se na segunda categoria. Ambos os tipos caracterizam- vezes”, “brada os ceus!”, “nunca mimosiei-a” “chamava na
-se, no entanto, pelo niilismo das ideias. A Folha da tarde, lousa” e outras teratologias que causam pena – mas causam,
na segunda edição, de 31 de março de 1959, reproduzia, ao principalmente, apreensões angustiantes aos pais que têm
alto da página, excerto de discurso, pronunciado pelo verea- pela frente o drama da educação dos filhos. Erros dessa na-
dor Antônio Bichara, por ocasião da solenidade de instala- tureza, dizíamos, são de bradar aos céus, inexplicáveis nu-
ção da legislatura na Câmara Municipal de Salvador. Dizia ma professora, que não dispõe do mínimo exigível para leci-
o edil: “Aqui, ficaremos estáticos na defesa do povo, que, onar numa escola de roça, quanto mais numa escola ultra-
ante o custo da vida, fica como o oceano que se lança ante moderna da nossa capital. Se tivéssemos que fazer um ba-
as ondas revoltas do mar. Estaremos na defesa dos brios lanço esquemático das causas mais evidentes desse doloro-
transcendentes da população”. O espírito é o mesmo; a for- so estado de coisas, começaríamos pelo ensino primário, em
ma ainda se salva porque a pontuação do discurso se deve, que o problema existe em função de substitutas incompeten-
naturalmente, ao articulista que a publicou. Passemos, pois, tes, do regime de promoção ligado à contagem de pontos
à transcrição da outra prova, que, se enfastia o leitor por a- pelo índice de aprovação conseguido pela professora, da fal-
longar o artigo, diverte-o pelo pinturesco do conteúdo: ta de cursos intensivos de língua portuguesa nas Escolas
Normais, da redução do período letivo (às vezes, de nem du-
No estudo da percepção, podemos constatar, que o con- as horas...), de professoras que deixam de sê-lo fora da esco-
junto das imagens é denominado ideia. Mas para que haja uma la (pois acham que levar trabalhos para corrigirem em casa
manifestação clara de uma ideia, é preciso que haja claresa na constitui “serviço extraordinário” que o governo não paga),
forma de quem a externa. A linguagem nos coloca em contato enfim, de não poucas Escolas Normais inescrupulosas, que
com o mundo subjetivo de indivíduos que nos cercam, não poden- escapam à vigilância das autoridades, espeluncas transfor-
do portanto ser de forma confusa. Se a ideia fosse o premordial, madas em fábricas de mestres incapazes. Depois envereda-
haveria muita facilidade na interpretação na obra de Camões, o ríamos pelo secundário, em que o ministério da língua está
que infelizmente não sucede. Qualquer criança a entenderia, sem em crise, explicável em parte por aquelas causas anteriores,
haver necessidade de interpretação, e estudos sobre ela. Certos em parte pela mística dos programas teóricos a cumprir, e
autores, empregaram uma figura de retorica, o eufemismo; como agravada por um mal que nos parece insuperável: a remo-
exemplo temos: “Fulano foi levado ao reino escuro”. É muito boni- ção, essa roleta que põe a perder o ensino em geral, pois o
to esta disposição das palavras, mas carece de objetividade. Seri- aluno, hoje, nem chega a saber o nome de seus mestres, tal
a muito mais digo, logico se escrevesse: “Fulano morreu”. Existem o número de professores que veio a conhecer em cada disci-
livros cansativos, contendo ideias notaveis, mas escritos de tal plina, nos seus 4 ou 7 anos de segundo ciclo. Mas falham
forma que muitas vezes não chegamos a terminá-los. A logica tem também as escolas superiores, onde se estudam cursos espe-
por finalidade o pensamento, a linguagem é a sua forma de ser cializados de fonética, de história da língua, mas não se es-
externada, se a forma não é concisa, o pensamento esta mal ex- tuda o idioma como é. Aliás, o ensino de Filologia nos cur-
posto. A forma pode ser dubia, mas a ideia pode ser unica no mes- sos superiores deveria estar dividido em duas seções: “ensi-
mo caso, o que nos acarreta um estado de confusão. O gongoris- no do vernáculo”, com seus fundamentos históricos – para
mo, é uma forma de expressão que obteve grande sucesso, mas os que se destinem ao magistério secundário; “ensino espe-
foi logo abandonado por tornar muito longa a manifestação de u- cializado do idioma” (com os cursos de fonética, semântica,
ma ideia, por meio da linguagem [...]. estilística, história da língua, leituras paleográficas, prepara-
ção de edições críticas, ecdótica etc.) – para os que se desti-
Hoje, é normal apresentarem-se, nos vestibulares aos nem à pesquisa. Outras causas há, mas que a nossa posição
cursos de Letras da Faculdade, candidatos que jamais leram profissional impede de abordar publicamente. Não nos im-
uma obra literária integralmente. Quando, há quinze anos, pede, porém, assinalar as que formam a moldura e sombra
podíamos perguntar ao examinando, na prova oral: “Que o- do melancólico panorama esboçado: televisão, cinema, his-
bra de Eça de Queirós o senhor não leu?”, hoje, apenas nos tórias em quadrinhos, literatura dirigida (livros do mês, Se-
limitamos a indagar se leu alguma coisa deste ou daquele leções etc.) e luta pela vida. Um balanço judicioso, desses
escritor, pois não tarda a cínica resposta: “Eu li, mas há mui- que só o bom senso do verdadeiro educador pode realizar,
to tempo, um trecho numa antologia...” (nem dizem “tre- fê-lo Paulo Rónai, recentemente, em Anhembi (número 109,
cho” ou “passagem” de livro – dizem “pedaço”). Em dois dezembro de 1959), num artigo intitulado “Reflexões de um
ou três números de A gazeta, de 1957, um professor diag- professor secundário”. A experiência das escolas húngaras
nosticava, a propósito dos vestibulares da Faculdade de Fi- – onde se formou –; das francesas – onde ministrou cursos
losofia, os males no ensino da língua portuguesa, e chamava –; das nossas – em que milita com devoção desinteressada
especialmente atenção para o magistério da língua nos gru- – permitiu-lhe perceber certos ângulos da crise pedagógica
pos escolares. A propósito ainda, há alguns dias, retirei mi- por que passamos no ensino secundário; levantando peque-

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nas estatísticas do exercício e da produção escolares num as que vive com pressa, ansiosas demais para se aprofundar
regime de programas teóricos bizantinos astronômicos, de nas coisas. Somos a geração que lê o título, comenta, com-
pletora de exames parciais, de períodos longos e mal distri- partilha, mas não vai ao fim do texto. Não precisa, porque
buídos de inatividade escolar (férias), de sufocação burocrá- ninguém lê! Nunca achei que a internet alienasse as pesso-
tica e divórcio entre o mestre e o aprendizando, Paulo Rónai as ou nos deixasse mais burros, pois sei que a web é o que
esboçou uma dolorosa radiografia do Ensino Médio brasi- fazemos dela. Ela é sempre um reflexo do nosso eu, para o
leiro. Se nos perguntassem como salvar a língua portuguesa bem e para o mal. Mas é verdade que as redes sociais causa-
dessa decadência, a nossa experiência poderia apontar uma ram, sim, um efeito esquisito nas pessoas. A timeline corre
série de roteiros didáticos, de expedientes possíveis de recu- 24 horas por dia, 7 dias da semana, e é veloz. Daí que muita
peração parcial, de modificações na estrutura do ensino do gente acaba reagindo aos conteúdos com a mesma rapidez
vernáculo, mas todas sugestões empíricas, por certo. Aos com que eles chegam. Nas redes sociais, um link dura, em
órgãos competentes do governo, sob a direção de pedagogos média, três horas. Esse é o tempo entre ser divulgado, espa-
especializados, é que deveria ser entregue esse problema, lhar-se e morrer completamente. Se for uma notícia, o ciclo
cuja solução nos parece mais importante do que a do proble- de vida será ainda menor: 5 minutos. Cinco minutos! Não
ma da carne ou do feijão. podemos nos dar o luxo de ficar de fora do assunto do mo-
mento, certo? Então, é melhor emitir logo qualquer opinião
(SPINA, Segismundo. “Palavras da geração sem palavras”. ou dar aquele compartilhar maroto só para mostrar que es-
In: _______. Da Idade Média e outras idades. São Paulo: tamos por dentro. Não precisa aprofundar; daqui a pouco,
Conselho Estadual de Cultura, 1964, p. 39-47). virá outro assunto mesmo. Por outro lado... quem lê tanta
notícia? Se Caetano Veloso já achava que tinha muita notí-
Geração “só a cabecinha” cia nos anos 1960, o que dizer de hoje? Ao mesmo tempo
em que essa atitude é condenável, também é compreensí-
Beatriz Granja vel. Todo mundo é criador de conteúdo; queremos acompa-
nhar tudo, mas não conseguimos. Resta-nos apenas respirar
fundo, tentar manter a calma e assimilar a maior quantidade
de informações que pudermos sem clicar em nada. Será que
conseguiremos?

(Revista Galileu, 16.07.2014)

Analfabetismo funcional

Thomaz Wood Júnior

A condição de analfabeto funcional aplica-se a indi-


víduos que, mesmo capazes de identificar letras e números,
não conseguem interpretar textos e realizar operações mate-
máticas mais elaboradas. Tal condição limita severamente o
desenvolvimento pessoal e profissional. O quadro brasileiro
é preocupante, embora alguns indicadores mostrem uma e-
volução nos últimos anos. Uma variação do analfabetismo
funcional parece estar presente no topo da pirâmide corpo-
Outro dia, vi um estudo que diz que 25% das músi- rativa e na academia. Em uma longa série de entrevistas rea-
cas do Spotify são puladas após 5 segundos, e que metade lizadas por este escriba, nos últimos cinco anos, com direto-
dos usuários avança a música antes do seu final. Enquanto res de grandes empresas locais, uma queixa revelou-se roti-
isso, no YouTube, a média de tempo assistindo a vídeos não neira: falta a muitos profissionais da média gerência a capa-
passa dos 90 segundos. O mais chocante desses dois dados cidade de interpretar de forma sistemática situações de tra-
é que o uso do Spotify e do YouTube, em geral, está focado balho, relacionar devidamente causas e efeitos, encontrar
no lazer, no entretenimento, ou seja, se não temos paciência soluções e comunicá-las de forma estruturada. Não se trata
para ficar mais de 90 segundos focado em uma atividade apenas de usar corretamente o vernáculo, mas de saber tratar
que nos dá prazer, o que acontece com o resto das coisas? informações e dados de maneira lógica e expressar ideias e
Você ficou sabendo da entrada do ator Selton Mello no se- proposições de forma inteligível, com começo, meio e fim.
riado Game of Thrones? Saiu em vários grandes portais Na academia, o cenário não é menos preocupante. Colegas
brasileiros e a galera na internet compartilhou loucamente professores, com atuação em administração de empresas,
a notícia. Tudo muito bacana, não fosse a notícia um hoax, frequentemente reclamam de pupilos incapazes de criar pa-
boato inventado por um empresário brasileiro apenas pra rágrafos coerentes e expressar suas ideias com clareza. A di-
zoar e ver até onde a história poderia chegar. Bem, ela foi ficuldade afeta alunos de MBA, Mestrado e Doutorado. Edi-
longe: mais de 500 “tuítes” com o link, mais de 3 mil com- tores de periódicos científicos da mesma área frequente-
partilhamentos no Facebook, mais de 13 mil curtidas, ma- mente deploram a enorme quantidade de manuscritos vazi-
téria em vários sites. Quem não tem paciência de ouvir cin- os, herméticos e incoerentes recebidos para publicação. E,
co segundos de uma música, tem menos paciência ainda frequentemente, seus autores são pós-doutores! O problema
para ler uma notícia inteira. Pesquisas já mostraram que a não é exclusivamente tropical. Michael Skapinker registrou,
maioria das pessoas compartilha reportagens sem ler. Vira- recentemente, em sua coluna no jornal inglês Financial Ti-
mos a “geração ‘só a cabecinha’”, um amontoado de pesso- mes, a história de um professor de uma renomada universi-
dade norte-americana. O tal mestre acreditava que escrever

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com clareza constitui habilidade relevante para seus alunos, Ler sem entender
futuros administradores e advogados. Concedia-lhes, sema-
nalmente, a tarefa de escrever um texto curto, o qual corrigi- A notícia de que 23,5% dos acompanhantes de paci-
a, avaliando a capacidade analítica dos autores. A atividade entes do Hospital das Clínicas de São Paulo que declararam
causou tal revolta que o diretor da instituição solicitou ao saber ler e escrever são incapazes de compreender instru-
professor torná-la facultativa. Os alunos parecem acreditar ções simples relativas ao uso de um medicamento preocupa,
que, em um mundo no qual a comunicação se dá por men- mas não chega a surpreender. Foi justamente a constatação
sagens eletrônicas e tuítes, escrever com clareza não é mais de que a alfabetização formal significa muito pouco para a
importante. O mesmo Skapinker lembra uma emblemática vida prática que levou a Unesco a criar e depois reformular
matéria de capa da revista norte-americana Newsweek, inti- o conceito de analfabetismo funcional. Desde 1978, o braço
tulada “Why Johnny can’t write”. Merrill Sheils, autora do da ONU para a educação considera funcionalmente alfabeti-
texto, revelou à época um quadro preocupante do declínio zado o indivíduo inserido de forma adequada em seu meio
da linguagem escrita nos Estados Unidos. Para Sheils, o sis- e que é capaz de desempenhar tarefas em que a leitura, a es-
tema educacional, da escola fundamental à faculdade, deso- crita e o cálculo são usados para o seu próprio desenvolvi-
vava na sociedade uma geração de semianalfabetos. Com o mento e de sua comunidade. No papel faz sentido, mas com-
tempo, explicou a autora, as habilidades de leitura pioraram, putar esse tipo de situação, especialmente em censos, não é
as aptidões verbais se deterioraram e os norte-americanos trivial. A solução foi utilizar substitutos mais objetivos, co-
tornaram-se capazes de usar apenas as mais simples estrutu- mo os anos de instrução formal. É uma aproximação gros-
ras e o mais rudimentar vocabulário ao escrever, próprios da seira, mas que tende a funcionar com grandes populações.
televisão. Entre as diversas faixas etárias, os adolescentes e- O IBGE, por exemplo, considera analfabetos funcionais os
ram os que mais sofriam para produzir texto minimamente brasileiros maiores de 15 anos que tenham menos de quatro
coerente e organizado. E o mundo corporativo também acu- anos de estudo. Por esse critério, nosso índice chega a 21%.
sou o golpe pois parte de sua comunicação formal exige pre- O problema surge quando se utilizam tais números em com-
cisão e clareza, características cada vez mais difíceis de en- parações a outros países. Como a definição de alfabetismo
contrar. Educadores mencionados no artigo observaram: um funcional pressupõe a boa integração da pessoa a seu meio,
estudante que não consegue ler e compreender textos jamais e essa varia de acordo com nacionalidade, classe social etc.,
será capaz de escrever bem. Importante: a matéria da News- não se estabeleceu nenhum critério uniforme. O Canadá, por
week é de 1975! Quase 40 anos depois, os iletrados trópicos exemplo, só considera funcionalmente alfabetizado quem
parecem sofrer do mesmo flagelo. Por aqui, vivemos uma tenha mais de nove anos de escolaridade. Mais do que isso,
situação curiosa: de um lado, cresce a demanda por análises as nações desenvolvidas já começam a substituir a noção de
e raciocínios sofisticados e complexos. E, de outro, faltam alfabetismo funcional pelo desempenho de amostras da po-
competências básicas relacionadas ao pensamento analítico pulação em provas que avaliam as habilidades em áreas es-
e à articulação das ideias. O resultado é ora constrangedor, pecíficas e comportam gradações. Nessas condições, 48%
ora cômico. Nas empresas, muitos profissionais parecem da população do Canadá estariam em nível de conhecimento
tentar tapar o sol com uma peneira de powerpoints abarrota- abaixo do adequado. Essas considerações dão bem a medida
dos de informação e vazios de sentido. Na academia, multi- do fosso que o Brasil ainda precisa transpor.
plicam-se textos caudalosos, impenetráveis, ocos. Se apren-
der a escrever é aprender a pensar, e escrever for mesmo u- (Folha de S. Paulo, “Editorial”, 28.07.2010)
ma atividade em declínio, então talvez estejamos rumando
céleres à condição de “invertebrados intelectuais”. Assassinos da inteligência

(Carta Capital, “Sociedade”, 24.07.2013) Olavo de Carvalho

Pensar até um burro pensa. O que distingue a espécie


humana é a sua capacidade de confrontar o pensado ao con-
junto dos conhecimentos disponíveis e regular o curso do
pensamento pela escala de credibilidade que vai do possível
ao verossímil, ao provável ou razoável e, em certos casos, à
certeza. Aristóteles já ensinava isso. Infelizmente, no Brasil,
raros opinadores têm o senso dessas distinções. A maioria
imagina que, para pensar com proveito, basta um pouco de
lógica formal e algum domínio dos chavões mais caros ao
coraçãozinho da plateia. Em debate recente, o professor Igor
Fuser, uma estrela do cast universitário esquerdista, assegu-
rou que “não se pode julgar um regime pelo número das suas
vítimas”. Dez minutos depois, desmentia-se fragorosamente
ao alegar que a ditadura brasileira “perseguiu milhares de
pessoas” e que o número de cristãos assassinados no mundo
está bem abaixo de 100 mil por ano, subentendendo, portan-
to, que a ditadura foi um horror e que os matadores de cris-
tãos nos países islâmicos e comunistas não são tão maus co-
mo se diz. Mas o pior não é isso. Mesmo sem esses autodes-
mentidos grotescos, a afirmativa geral que os antecedeu – a
mais comumente alegada por devotos comunistas empenha-
dos em salvar a honra dos governos mais assassinos que o

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mundo já conheceu – é perfeitamente desprovida de sentido. 13,163 milhões de pessoas que não sabiam ler nem escrever
Para perceber isso, basta medi-la com a escala de credibili- ─ o equivalente a 8,7% da população com 15 anos ou mais.
dade. Em política, admite-se universalmente, as certezas ab- Em 2011, o número de analfabetos era de 12,866 milhões.
solutas são raras ou inexistentes. O meramente possível re- Em termos absolutos, o aumento foi de 297 mil analfabetos
flete a liberdade da fantasia, o verossímil é apenas questão e se concentrou no Nordeste ─ especialmente nos Estados
de opinião, gosto, preferência. Não servem de argumentos. da Paraíba, Pernambuco, Bahia e Alagoas. A taxa de analfa-
Resta a probabilidade razoável. Quem quer que argumente betismo na região passou de 16,9%, em 2011, para 17,4%,
seriamente em política, procura nos convencer de que a ra- em 2012. O Nordeste concentra 54% do total de analfabetos
zão, com altíssima probabilidade, está do seu lado. Aconte- do País. Ou seja, um em cada dois analfabetos é nordestino.
ce, para a tristeza dos tagarelas, que todo argumento de pro- No Centro-Oeste, a taxa de analfabetismo passou de 6,3%,
babilidade depende, eminentemente, do elemento quantita- em 2011, para 6,7%, em 2012. Na Região Norte, ela foi de
tivo que o fundamenta explícita ou implicitamente. Se digo 10%, no ano passado. As menores taxas foram registradas
que o candidato X vai vencer as próximas eleições com uma nas regiões mais desenvolvidas. No Sul, a taxa de analfabe-
probabilidade de zero a cem por cento, não disse – absoluta- tismo foi de 4,4% da população com 15 anos ou mais. No
mente – nada. Tanto vale dizer que um governo é igualmen- Sudeste, ela chegou a 4,8%. Santa Catarina é o Estado com
te malvado se não matou ninguém ou se matou milhões de a menor taxa de analfabetismo do País, com 3,1%. Os núme-
pessoas. Quando um comunista esperneia contra o que cha- ros da Pnad também mostram como o analfabetismo incide
ma de “contabilidade macabra”, tem, é claro, uma boa razão sobre a população mais velha. Entre os que têm 60 anos ou
para fazê-lo. Contados os cadáveres, é impossível negar que mais de idade, 24,4% não sabem ler ou escrever. Na faixa
o comunismo foi o flagelo mais mortífero que já se abateu dos 49 aos 59 anos, a proporção é de 9,8% do total. Já na
sobre a humanidade. Diante disso, só resta apegar-se ao sub- faixa dos 30 aos 39 anos, 5,1% são analfabetos. As menores
terfúgio insano de que o macabro não reside em fazer cadá- taxas ─ de 2,8% e 1,2% ─ estão nas faixas de 25 a 29 anos
veres e sim em contá-los. Somando à insanidade o fingi- e 15 a 19 anos, respectivamente. Os técnicos do IBGE tam-
mento, a proibição de contar tem de ser suspensa quando se bém constataram melhora na taxa de analfabetismo funcio-
fala de regimes “de direita”, do que se nota que os 400 terro- nal, que passou de 20,4%, em 2011, para 18,3%, em 2012
ristas mortos no regime militar – a maioria de armas na mão ─ queda de 2,1 pontos porcentuais. Em termos absolutos,
– são um placar muito mais hediondo e revoltante do que os isso significa que o país tinha, no ano passado, 27,8 milhões
100 milhões de civis desarmados que os heróis do comunis- de pessoas de 15 anos ou mais de idade com menos de 4 a-
mo assassinaram na URSS, na China, na Hungria, em Cuba nos de escolaridade ─ um número muito alto de brasileiros
etc. O senso de quantidades e proporções é a exigência mais incapazes de ler e compreender um simples manual de ins-
básica e incontornável não só da conduta honesta, mas da trução de equipamentos. O levantamento do IBGE mostra
racionalidade geral. Dissolvendo-o pouco a pouco na platei- ainda que 11,9% da população com 25 anos ou mais de ida-
a, os fúseres da vida destroem não só a moralidade pública, de não têm qualquer instrução ou têm menos de um ano de
mas as próprias condições elementares do funcionamento estudo. Em 2011, a proporção era de 15,1%. Os números da
normal da inteligência humana. Se, nas universidades brasi- Pnad mostram, no entanto, que, em vez de aumentar o nú-
leiras, há quota de 40% a 50% de alunos analfabetos funcio- mero de pessoas preparadas para enfrentar o ambiente com-
nais, isso não se deve só a uma genérica “má qualidade do petitivo de um mercado de trabalho cada vez mais sofistica-
ensino”, mas ao fato de que há décadas o discurso comunista do em termos tecnológicos, a educação brasileira está no ca-
e pró-comunista onipresente espalha, nas mentes dos estu- minho inverso. E, com isso, o Brasil permanece com um im-
dantes, doses maciças de estimulação contraditória e obstá- portante segmento da população à margem do processo eco-
culos cognitivos estupefacientes. nômico, por falta de instrução, o que agrava a desigualdade.
Esse é o atestado do fracasso da política educacional adota-
(Folha de S. Paulo, “Tendências e debates”, 17.06.2014) da nos últimos anos. Ela agitou bandeiras politicamente vis-
tosas, como adoção do sistema de cotas raciais, democrati-
Cresce o analfabetismo zação do Ensino Superior e criação de universidades mas se
revelou incapaz de alfabetizar e preparar milhões de brasi-
Depois da universalização das matrículas no Ensino leiros para o mercado de trabalho, negando-lhes com isso as
Fundamental, que foi uma das principais conquistas do país condições para que possam se emancipar econômica e soci-
das décadas de 1990 e 2000, era de esperar uma significativa almente.
melhoria na qualidade das escolas nos últimos anos. Mas,
em vez do desenvolvimento natural rumo a uma educação (O Estado de S. Paulo, “Opinião”, 01.10.2013)
básica mais eficiente, capaz de assegurar ao país a formação
de capital humano de que necessita para poder crescer e pas-
sar para níveis mais sofisticados de produção, o Brasil está
retrocedendo. Essa é uma das mais importantes ─ e preocu-
pantes ─ conclusões que podem ser extraídas da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012, divul-
gada pelo IBGE. A pesquisa é realizada desde 1967 e traz
informações sobre população, migração, trabalho, rendi-
mento e domicílios, além de educação. A partir de 2004, ela
passou a cobrir todo o país. Para realizar a Pnad de 2012, os
técnicos do IBGE consultaram 147 mil domicílios. Segundo
os indicadores da Pnad na área de educação, o analfabetis-
mo ─ que vinha em queda constante desde 1998 ─ voltou a
crescer no ano passado. Os técnicos do IBGE identificaram