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rar foto da cerveja. Por quê?

Talvez porque nada exista, de


verdade, no mundo contemporâneo, se não for na forma de
anúncio, de publicidade. Não estou apenas contando a meus
seguidores do Facebook que, às 18h42 de sábado, eu estava
num bar “tomando umas”. Estou dizendo isso a mim mes-
mo. Afinal, os meus seguidores do Facebook, sei disso, não
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” estão tão interessados no fato. Não basta a sede, não basta o
Turma: 2ª. Série do Ensino Médio prazer, não basta a vontade de beber. Tenho de constituí-la
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal como objeto publicitário. Preciso criar a mediação, a barrei-
Tema redacional 04: Contumácias acerca da publicação de ra, o intervalo entre o copo e a boca. “Vejam”, pergunto a
(auto)retratos na internet no século XXI: lindes entre imagé- meus seguidores inexistentes, “não é sensacional?”. Eis u-
tica captação e empírica vivência. ma cerveja, a da foto, que nunca poderá ser tomada. A foto
do celular imortaliza o banal, morrerá ela mesma em algum
Selfies arquivo que apagarei logo depois. Não importa; fiz meu a-
núncio ao mundo. Beber a cerveja continua sendo bom. Mas
Marcelo Coelho talvez nem seja tão bom assim, porque, de alguma forma, a
realidade não me contenta. A imagem engoliu minha expe-
Muita gente se irrita, e tem razão, com o uso indiscri- riência de beber; já não estou sozinho. Mesmo que ninguém
minado dos celulares. Fossem apenas para falar, já seria ru- me veja, o celular “roubou” minha privacidade; é o meu se-
im. Mas servem também para tirar fotografias, e, com isso, gundo eu, é a minha consciência; não posso andar sem ele,
somos invadidos, no Facebook, com imagens de gatos su- sabe mais que nunca saberei e estará ligado quando eu mor-
bindo na cortina, focinhos de cachorro farejando a câmera, rer. Talvez, as coisas não sejam tão desesperadoras. Imagi-
pratos de torresmo, brownie e feijoada. Se depender do que ne-se que, daqui a cem anos, depois de uma guerra atômica
vejo com meus filhos – de 10 e 12 anos –, o tempo dos sel- e de uma catástrofe climática que destruam o mundo civili-
fies está, de todo modo, chegando ao fim. Eles já começam zado, um pesquisador recupere os selfies e as fotos de batata
a achar ridícula a mania de tirar retratos de si mesmos em frita. “Como as pessoas eram felizes naquela época!”. A al-
qualquer ocasião. Torna-se até motivo de preconceito para ternativa seria dizer: “Como eram tontas!”. Dependerá, por
com os colegas. “Fulaninha? Tira fotos na frente do espe- certo, dos humores do pesquisador.
lho”. Hábito que pode ser compreensível, contudo. Imagino
alguém dedicado a melhorar sua forma física, registrando (Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 23.04.2014)
seus progressos semanais. Ou apenas entregue, no início da
adolescência, à descoberta de si mesmo. A bobeira se revela
em outras situações: é caso de quem tira um selfie tendo, ao
fundo, a torre Eiffel, ou ao lado de, sei lá, Tony Ramos ou
Cauã Reymond. Seria apenas o registro de algo importante
que nos acontece – e tudo bem. O problema fica mais com-
plicado se pensarmos no caso das fotos de comida. Em pri-
meiro lugar, vejo em tudo isso uma espécie de degradação
da experiência. Ou seja, é como se aquilo que vivemos de
fato – uma estadia em Paris, o jantar num restaurante – não
pudesse ser vivido e sentido como aquilo que é. Se me entre-
go a tirar fotos de mim mesmo na viagem, em vez de, sim-
plesmente, viajar, posso estar fugindo das minhas próprias
sensações. Desdobro o meu self em duas entidades distintas:
aquela pessoa que está em Paris, e aquela que tira a foto de
quem está em Paris. Pode ser narcisismo, é claro. Mas o nar-
cisismo não precisa viajar para lugar nenhum. A complica-
ção não surge do sujeito, surge do objeto. O que me incomo-
da é a torre Eiffel; o que fazer com ela? O que fazer de minha
relação com a torre Eiffel? Poderia unir-me à paisagem, sen-
tir como respiro diante daquela triunfal elevação de ferro e
nuvem, deixar que meu olhar atravesse o seu duro rendilha-
do que fosforesce ao sol, fazer-me diminuir entre as quatro
vigas curvas daquela “catedral” sem clero e paredes. Perco
tempo no centro imóvel desse mecanismo, que é como o
ponteiro único de um relógio que tem seu mostrador na cir-
cunferência do horizonte. Grupos de turistas se fazem e des-
fazem, há ruídos e crianças. Pego, entretanto, o meu celular:
tiro uma foto de mim mesmo na torre Eiffel. O mundo se fe-
chou no visor do aparelho. Não por acaso eu brinco, fazendo
uma careta idiota; dou de costas para o monumento, mas es-
tou, na verdade, dando as costas para a vida. Não digo que
quem tira a foto da cerveja deixe de tomá-la logo depois.
Mas intervém um segundo aspecto desse “empobrecimento
da experiência”. Tomar cerveja não é o bastante. Preciso ti-

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Como ficam as memórias e o legado entre gerações? como as de hoje, a possibilidade de distribuição e comparti-
lhamento de suas memórias a um nível praticamente infinito
Simone Silva Jardim e inimaginável que a web permite. Mas tinham mais consci-
ência de que eram arquivos vivos, daí fazerem registros se-
Andrew Hoskins tem estudado um tema instigante: a letivos dos momentos que, realmente, tinham como impor-
sociedade digital e a ampla interação e o impacto das novas tantes em suas vidas.” Hoskins também destacou a audiên-
mídias contemporâneas na formação da memória. Seu tra- cia efêmera dos selfies. “São, ao mesmo tempo, pegajosos e
balho visa entender como essas novas tecnologias influenci- essencialmente obsoletos. Sua vida útil é curtíssima. Esse
am no lembrar e no esquecer, e como a atual “compulsão fenômeno parece indicar que não dominamos nossa memó-
por conectividade” está mudando a forma de vivermos o ria, que era bem mais ativa no passado. Afinal, hoje depen-
presente e entendermos o passado. Hoskins é professor de demos cada vez menos do que somos capazes de encontrar,
“Pesquisa Interdisciplinar” da Faculdade de Ciências Soci- naturalmente, em nossas lembranças e mais dos mecanis-
ais da Universidade de Glasgow, Escócia, e fundador e edi- mos de busca que as tecnologias digitais proporcionam.” As
tor-chefe da revista Memory studies, Atualmente, lidera o ideias de Hoskins dão uma boa discussão, pois vivemos em
ESRC Google Data Analytics Project, que financia projetos tempos em que as tecnologias e mídias digitais nos inebri-
voltados a demonstrar o potencial de informações e dados am, a uns mais, a outros menos. O fato é que proporcionam
públicos disponíveis na internet para o desenvolvimento de aos nossos pequenos grandes egos as luzes da ribalta virtual.
pesquisas sociais e econômicas. Em seu livro iMemory: why Para isso, só precisamos acionar os dispositivos “fotogra-
the past is all over?, ele propõe uma reflexão sobre a nova far” ou “gravar” de nossos smartphones e tablets. De pes-
forma de testemunhar e compartilhar o presente através da soas anônimas em atividades triviais a eventos que têm o
cultura do selfie. De passagem pelo Brasil, Hoskins fez uma poder de mudar a História, hoje nada escapa das indiscretas
apresentação pública sobre como as tecnologias digitais e a lentes digitais. Em meio a esse turbilhão massacrante de i-
cultura do selfie estão alterando as formas de se testemunhar magens e sucintos registros escritos – o sucesso do Twitter
e compartilhar os acontecimentos atuais, além de fazer re- com os seus 140 caracteres é emblemático –, há um desafio
flexões sobre como o que foi registrado no passado se insere hercúleo: manter intacto e sempre fluindo o fio da memória
no ambiente virtual. Sua exposição, realizada durante o “8° coletiva e individual no que ela possui de mais significativo
Fórum de Gestão do Conhecimento, Comunicação e Memó- e valioso, o legado duma geração a outra.
ria”, uma iniciativa da ABERJE, ECA-USP, Grupo de Estu-
do de Novas Narrativas, Museu da Pessoa e Memória Voto- (Observatório da Imprensa, “Era Selfie”, 26.08.2014)
rantim, foi seguida de debate mediado pelo jornalista Mauro
Malin, do Observatório da Imprensa. Hoskins tem se dedi-
cado à pesquisa do que define como iMemory, ou seja, “me-
mória digital”, processo de lembrar e registrar as coisas no
ambiente das novas tecnologias, que não tem a mesma per-
manência de recordações feitas na era pré-digital. “Até tem-
pos atrás, as famílias faziam álbuns de fotografias reveladas
em papel ou vídeos em fitas VHS dos momentos que consi-
deravam mais importantes. As fotos em papel subsistem ao
tempo. Já as gravações dependem, para sua reprodução, de
aparelhos que caíram em desuso. De qualquer forma, essas
memórias estão mais seguras, no que diz respeito à sua ar-
mazenagem, que os vídeos e selfies de hoje, que podem ser,
facilmente, corrompidos ou perdidos no ambiente digital.
Sem contar que, atualmente, as pessoas estão obcecadas pe-
lo ato de registrar uma certa imagem. Memória não é regis-
tro, e sim, o ato de lhe dar significado.” Hoskins considera
que a compulsão por conectividade (estar sempre “tuitando”
ou postando mensagens nas redes sociais) e o compartilha-
mento de selfies (quando a pessoa tira fotografias dela pró- Como e por que tirar uma selfie
pria) têm acelerado um processo de esvaziamento da memó-
ria. “O registro via selfies transforma eventos coletivos em Luli Radfahrer
vivências individuais que são exibidas em perfis pessoais de
cada um, em meio a várias outras imagens, o que acaba ba- Nos últimos anos, a selfie – aquele autorretrato infor-
nalizando o que deveria ser um registro da memória. Preci- mal, tirado com smartphone segurado na ponta da mão – se
samos encontrar um caminho para que as mídias e as novas tornou um hábito. Em, praticamente, todo lugar público, há
tecnologias digitais fortaleçam a memória, não a deteriorem alguém fazendo biquinhos e caretas para um retângulo de
ou a façam entrar em declínio.” Hoskins também defende vidro. Nas mídias sociais, se o braço é visível, a selfie é cer-
que é preciso dar um valor adequado ao que classificamos ta. Para resolver esse problema, monopés de bolso se torna-
como “passado”. “Os mais jovens, e os adultos também, es- ram o carro-chefe dos camelôs, permitindo que casais em
tão engrossando esse movimento de ‘conectividade tóxica’, restaurantes possam esticar o telefone à distância para tirar
que se traduz na compulsão por gravar e fotografar os mo- sua foto romântica, liberando o pobre garçom. O hábito não
mentos que estão vivendo. Indago: o que estão fazendo com é mais coisa de adolescentes autocentrados. De astronautas
essas lembranças e experiências? Esse legado pessoal será no espaço ao Papa no Vaticano, é raro quem não tenha seu
transmitido, naquilo que tem de mais significado, como fi- autorretrato publicado em uma das redes, muitas vezes em
zeram seus pais e avós? As gerações passadas não tinham, ocasiões para lá de inoportunas. Mas, se causou polêmica a

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foto tirada pelo primeiro ministro dinamarquês com Barack co de se tornar carente, ansioso e dependente de uma mídia
Obama e David Cameron no funeral de Nelson Mandela, que tem pouco de “social”. Na competição diária e contínua,
quando a Samsung pagou para Bradley Cooper tirar selfies ninguém tem paciência para ouvir histórias pessoais. O que
com outros atores na entrega do "Oscar", ninguém estra- importa são fotos de corpos, lugares e luxos tão supérfluos
nhou. Nem pediu royalties. O autorretrato é anterior à foto- e inatingíveis quanto as beldades retocadamente perfeitas
grafia. Rembrandt e Van Gogh são famosos por usá-lo como do Instagram. As redes sociais são concêntricas, e o centro
técnica de aprendizado e experimentação. Mas, se nos anos está no umbigo de cada um. Talvez, por isso, seja tão excên-
recentes, o smartphone facilitou a prática, o resultado ainda trica. Mas ainda é melhor ter um ambiente exibicionista que
está mais para um feito da tecnologia do que para uma obra desafia o comportamento castrador e controlador das ideo-
de arte. Nas redes, praticamente tudo o que se vê é a execu- logias totalitárias do que um regime hipócrita que limita es-
ção das mesmas poses. Gente no vestuário da academia, no colhas através de códigos de conduta e decência. Bem dosa-
banheiro em frente ao espelho, montada para a balada, baca- da, a publicação de autorretratos em redes sociais pode ser
na em uma sala VIP, doidona esperando a saideira, unifor- questionadora e libertária. Contanto que tenha algo a dizer.
mizada no jogo de futebol, brindando no restaurante, jogan-
do videogames, de pés para o alto na praia, posando na fren- (Folha de S. Paulo, “Tec”, 03.03.2015)
te de um carrão, ao lado de celebridades. Quem não viu vári-
as dessas? Quem nunca tirou uma dessas? Algumas técnicas
simples podem melhorar bastante uma selfie. A escolha de
um fundo colorido e uniforme, como uma parede ou cortina,
ajuda a simplificar a imagem e chamar a atenção para a pes-
soa fotografada. Outro cuidado importante é com a luz. É
importante ficar de frente para ela. E tomar cuidado com o
flash, para que a luz não fique muito forte. Posar com obje-
tos ajuda a compor a cena. Ângulos inusitados, associados
a uma boa linguagem corporal, tendem a criar fotos bem aci-
ma da média. O autorretrato não precisa valer por mil pala-
vras, mas é desejável que valha mais do que um tuíte. O que
leva a uma questão mais complicada: por que se tiram selfi-
es? Um pequeno histórico das transformações na mídia tal-
vez ajude a compreendê-las. Até a década de 1990, a mídia
de massa proporcionava uma fuga da realidade transportan-
do leitores e telespectadores para um universo ficcional de
sitcoms, novelas e séries. Depois, os reality shows viraram
a câmera e a atenção para o indivíduo banal em todo o es-
plendor de sua boçalidade. Mídias sociais democratizaram
o voyeurismo antes reservado a celebridades, tornando-o a- Selfie
cessível a todos o tempo todo. Hoje o segredo do sucesso de
cada nova rede social parece estar em um exibicionismo de- J. R. Duran
clarado. Facebook se tornou uma espécie de dicionário ilus-
trado das pessoas comuns, que embelezam o perfil para tor- Então, é assim. Ao final do “Grande Prêmio de Mon-
nar suas vidas especiais. YouTube é a televisão de quem não za” deste ano, na Itália, do alto de seu segundo lugar no pó-
tem muito o que dizer, mas adora berrar para uma câmera. dio, o piloto Fernando Alonso levantou o braço esquerdo e,
Blogs e Tumblr deram vazão à expressão em GIF e textos, segurando um aparelho celular, tirou uma foto dele mesmo.
mesmo que seja só para propagar a zoeira. Twitter criou au- Clique e pronto. Precisar se fotografar, Alonso não precisa-
diências cativas e hashtags. LinkedIn se especializou nas a- va. Ainda mais se consideramos que um batalhão dos me-
nálises positivas. Instagram abriu o espaço para selfies, con- lhores fotógrafos esportivos do mundo inteiro estava a seus
solidadas pelo Tinder. WhatsApp ressuscitou emojis, aque- pés para registrar o momento que, diga-se de passagem, se
les desenhinhos que pareciam confinados a nerds asiáticos. tornou uma constante este ano: tomar vários segundos de di-
Snapchat e Vine abriram caminho para o mini-vídeo-selfie. ferença de Sebastian Vettel. Talvez para espantar o tédio, ou
Em comum, todos transformam seus usuários em espetáculo a frustração, é que ele praticou esse ato de onanismo visual
de si mesmos. Na era do narcisismo digital, as oportunida- que, acreditem se quiserem, tem uma denominação clara co-
des de ostentação são gigantescas. Nunca foi tão fácil, nem mo uma imagem de 41 pixels. É o selfie. É assim que se de-
tão popular, ser um fanfarrão. Apesar de todos estarem co- nomina o exato momento em que alguém se fotografa com
nectados, a empatia e o interesse pelo outro são mínimos, a um smartphone com o propósito de postar a imagem nas re-
não ser para pedir sua aprovação. Basta examinar o conteú- des sociais. Na década de 1990, existiu, nos Estados Unidos,
do das fotografias para perceber que elas estão lá mais para um programa infantil televisivo chamado Pee-Wee’s Play-
chamar a atenção dos outros do que para relembrar momen- house. Na casa de Pee-wee, cadeiras falavam, humanos se
tos marcantes. Há um fascínio curioso em espionar a vida a- misturavam com bonecos e robôs, ficção e realidade, tudo
lheia, correspondente a uma tentação exibicionista em ser em um mundo lúdico e colorido que entretinha crianças e,
visto. Embora tais atitudes pareçam brincadeiras inocentes frequentemente, adultos também. Em um certo momento do
e passageiras, sua prática constante pode criar uma depen- programa, uma palavra qualquer era escolhida como “a pa-
dência da rede e um falso sentimento de confiança. Em vez lavra do dia”, e, a cada vez que ela era pronunciada, as luzes
de estar bem com o que se é, é comum ver gente desesperada se acendiam, as portas do cenário se abriam e fechavam e
em busca da foto certa, com detalhes perfeitos. Quem condi- todo mundo batia palmas. Para alegria e farra geral o Oxford
ciona o status social ao desempenho duma selfie, corre o ris- Dictionary Online (e, atenção, não é o mesmo que Oxford

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English Dictionary) decidiu que a palavra do ano é… selfie! a perfeita síntese da portabilidade, neste caso, repleta de i-
E batemos palmas, como crianças de Pee-wee Herman, toda magens e emoções acumuladas em camadas e mais camadas
vez que alguém segura o celular com o braço estendido, le- de aplicativos. É através dessa atividade de formiga digital
vemente arqueado, com a lente apontada diretamente para que se pode escrever, verdadeiro mosaico de pequenas fo-
si mesmo, espiando o coração de algum ego no ato de prati- tos, uma biografia visual que não requer edição nem leitura
car quiromania fotográfica. A cada segundo, nasce mais um para ser entendida; basta ser percebida. E sai dessa percep-
perfeito selfie. Em um momento não muito distante, as pes- ção a perfeita biografia imaginária. Surreal. Pode ser que as
soas viajavam e se fotografavam ao lado de monumentos fa- imagens não mintam, mas não se pode esquecer de que a câ-
mosos com a clara intenção de provar, na volta para casa, mera sempre pode ser manipulada por um mentiroso de pri-
que tinham estado lá (e atire o primeiro celular quem nunca meira categoria. É curioso que essa superexposição da pri-
esteve em Pisa e fez uma foto empurrando – ou escorando vacidade acontece em um momento em que se discute se as
– a torre). Hoje em dia, não é preciso chegar até a locação – biografias devem ser, ou não, autorizadas. Como se sabe, é
a foto dentro do avião já é um selfie perfeito. A internet está difícil apagar o passado na internet, e o gesto de Fernando
repleta de imagens de pessoas que se fotografam em qual- Alonso deixa o recado de que, apesar do testemunho de to-
quer lugar, seja no banheiro, no restaurante, chapados na ba- das as objetivas ali apontadas para o campeão, apenas a ima-
lada, com o bicho de estimação no colo, grávidas, dormin- gem dele seria a mais verdadeira de todas. Porque, nela, A-
do, ou no reflexo de alguma superfície espelhada, a qualquer lonso se mostrou como queria ou imaginava ser visto. O per-
momento e sem nenhuma razão. Sempre fazendo cara de pa- sonagem de Pee-wee Herman era interpretado pelo ator Paul
to, na tentativa de sugar as bochechas e parecer mais magro. Rubens. O programa terminou no auge do sucesso quando,
Os narcisos do smartphone precisam, desesperadamente, da ironia do destino, Paul foi pego pela polícia praticando o au-
polinização fotográfica nas redes sociais para que isso pos- toerotismo em um cinema para adultos, na Flórida. De acor-
sibilite uma autofecundação digital de pixels emocionais. U- do com as leis da cidade de Sarasota, o lugar podia ser restri-
ma legião de Zeligs desesperados padece da compulsão de to, mas isso não significava que ele pudesse chegar às vias
se inserir em qualquer realidade para poder existir. Apenas de fato. O escândalo nos jornais foi tão grande que o show
porque se convencionou que, se você tem um celular na mão acabou. E, nas redes sociais, a autossatisfação digital do ego
e não está inserido em algum lugar, você não existe. O que não causa espanto. Ela é digna, apenas, de um simples
conta, no fim do dia, é a história oficial espalhada na inter- hashtag: #selfie. Vamos aguardar a palavra do próximo ano.
net, como se a pessoa tivesse de ver sua imagem refletida na
rede para ter certeza da própria existência. Nesse sentido, os (O Estado de S. Paulo, “Geral”, 23.11.2013)
smartphones são o equivalente multiuso do canivete suíço,

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