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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CARIRI

CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E BIODIVERSIDADE

ESPECIALIZAÇÃO EM CULTURA POPULAR, ARTE E EDUCAÇÃO DO CAMPO


– RESIDÊNCIA AGRÁRIA

TURMA IRMÃOS ANICETO

FERNANDO ANTÔNIO FONTENELE LEÃO

A ARTE QUE RECRIA A VIDA: MEDIAÇÃO CULTURAL NA COMUNIDADE DO


TOMÉ/CHAPADA DO APODI-CE

JUAZEIRO DO NORTE

2015
FERNANDO ANTÔNIO FONTENELE LEÃO

A ARTE QUE RECRIA A VIDA:

Mediação cultural na comunidade do Tomé/Chapada do Apodi-CE

Artigo apresentado no Curso de Especialização em


Cultura Popular, Arte e Educação do Campo –
Residência Agrária, da Universidade Federal do
Cariri, como requisito parcial para a obtenção do
título de Especialista em Cultura Popular, Arte e
Educação do Campo.

Orientadora: Profa. Dra. Carmen Maria Saenz


Coopat

Coorientadora: Profa. Dra. Raquel Maria Rigotto

JUAZEIRO DO NORTE

2015

2
A arte que recria a vida: mediação cultural na comunidade do Tomé/Chapada do
Apodi-CE

Fernando Antônio Fontenele Leão


Orientadora: Profa. Dra. Carmen Maria Saenz Coopat
Co-orientadora: Profa. Dra. Raquel Maria Rigotto
RESUMO

O artigo apresenta uma pesquisa-ação em mediação cultural realizada no ano de 2014, na


comunidade do Tomé, localizada na Chapada do Apodi, Baixo-Jaguaribe cearense. Desde a
década de 1980, essa região sofre os impactos da expansão do modelo agroexportador que
tem provocado processos de desterritorialização, perda da autonomia e imposto significativas
mudanças culturais para as comunidades. Com o objetivo de contribuir para o fortalecimento
comunitário por meio do desenvolvimento de uma consciência crítica e estética coletiva, a
presente pesquisa-ação se conformou como um processo que envolveu apresentações em
diversas linguagens artísticas (teatro, poesia, música, performance), atividades de
arte/educação com crianças, adolescentes e profissionais das escolas da região e ações de
valorização da cultura local. Ao longo do percurso fizemos uso da observação participante, do
diário de campo, de entrevistas individuais e coletivas e pesquisa bibliográfica.

PALAVRAS-CHAVE

Cultura popular. Mediação cultural. Comunidade do Tomé.

ABSTRACT

The article presents a research-action on cultural mediation, held in the year 2014, in the
community of the Tome, Ceará, Brazil. Since the Decade of 1980, this region suffers the
impacts of the expansion of the agricultural model that has caused processes of
deterritorialization, loss of autonomy and imposed significant cultural changes for the
communities. Our goal is to contribute to the community-building through the development of
an aesthetic awareness. This research-action conformed as a process which artistic
presentations (theater, poetry, music, performance), artistic education activities with children,
young people and professionals from the schools in the region and actions of appreciation of
local culture. Along the way made use of participant observation, field journal, of individual
and collective interviews and bibliographical research.
KEYWORDS
Popular culture. Cultural mediation.Comunidade do Tomé.

3
1. Chegando à comunidade

Em algumas ocasiões, nos anos de 2012 e 2013, visitei a comunidade do Tomé,


situada no estado do Ceará, na Microrregião do Baixo Jaguaribe, sobre a Chapada do Apodi.
Minha companheira fazia ali a pesquisa de campo de seu projeto de mestrado e trabalhava
junto a um grupo de moradores. Em uma das visitas, convidado a conduzir uma atividade de
acolhida do grupo, cantei Solencanto1, do Pingo de Fortaleza, e propus uma performance
artística com dois elementos: água e tambor. Solencanto nos convidava a refletir sobre as
adversidades e sobre ver o mundo com outros olhos, a água libertava o coração das mágoas do
passado e nos vivificava para, ao som do tambor, seguir rumo às lutas de resistência. Aquela
comunidade – para mim, naquele momento – era ainda apenas um luto pelo assassinato do
agricultor e ambientalista Zé Maria, um de seus líderes que morrera em 2010 e que devotara
quase uma década de sua vida à denuncia dos riscos causados pelo uso indiscriminado de
agrotóxicos naquele território após a chegada de empresas do agronegócio2. Ao fim daquele
encontro, sensibilizado, aventei a possibilidade de iniciar um trabalho de teatro com os
jovens, ainda sem saber de que maneira eu poderia viabilizar aquele projeto, dado a distância
em relação à Fortaleza, as minhas atividades profissionais, o custo das viagens, etc.. De todo
modo, eu pensava que seria uma boa estratégia de ação mobilizar a juventude em torno da
temática dos problemas socioambientais, a partir do método do Teatro do Oprimido3, e, em
seguida, envolver toda a comunidade por meio da apresentação de cenas de teatro-fórum4. O
projeto ficou engavetado por alguns meses até que em novembro de 2013, como aluno do
Curso de Especialização em Cultura Popular, Arte e Educação do Campo - Residência
Agrária, na Universidade Federal do Cariri (UFCA), consegui uma bolsa de Apoio Técnico
em Extensão (ATP-A)/CNPq, para desenvolver esse projeto.

1
“São muitas estações na vida. Na Terra, quantas situações. Nem sempre tudo está a nos favorecer, mas o dia
pode ser o que se quer. O sol está nos olhos de quem brilha, o céu está nos olhos de quem ver no sol a poesia
da alegria de viver”. Solencanto, ou Canto ao Sol, é uma composição do cantor, poeta e pesquisador musical
cearense João Wanderley Roberto Militão, conhecido como Pingo de Fortaleza.
2
Na década de 1990, empresas agroexportadoras nacionais e transnacionais foram atraídas à região pelas
condições climáticas, pela fertilidade das terras, e, principalmente, por incentivos fiscais e pela infraestrutura
oferecida pelos governos estadual e federal – a citar a implantação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi
(PIJA) –, fenômeno esse que provocou uma série de problemas socioambientais como contaminação da água e
do solo, relações de trabalho precárias, expropriações, violência.
3
O Teatro do Oprimido é um método que reúne jogos, exercícios e técnicas teatrais, sistematizado pelo
teatrólogo Augusto Boal, e cuja finalidade é adquirir a consciência das situações de opressão e ensaiar as
possibilidades de libertação.
4
O Teatro-fórum é uma das técnicas do Teatro do Oprimido e consiste na participação direta do público,
intervindo cenicamente no lugar do personagem oprimido.
4
Em dezembro de 2013, numa conversa com amigos do Núcleo Tramas5, grupo
que se dedica a pesquisas sobre os impactos dos agrotóxicos e do agronegócio na Chapada do
Apodi desde 2007 – e que muito me instigou para a ação naquele território – surgiu, além da
percepção de que os jovens tinham pouca participação nas ações políticas da comunidade – o
que justificava o projeto que eu pensara – um dado importante e um tema a ser considerado no
trabalho: o medo. De acordo com pesquisas recentes do Núcleo,

O assassinato de Zé Maria aumentou o clima de insegurança e medo na comunidade


do Tomé (...). Além do medo da violência física, a população teme represálias como
o corte no abastecimento de água ou processos de demissão em massa contra os
trabalhadores. Embora reconheçam a contaminação das águas como uma ameaça à
vida e à saúde, tanto que a população é categórica ao afirmar que esse é atualmente o
maior problema vivido por eles, o medo imposto pela violência simbólica exercida
pelos agentes de poder tem conseguido neutralizar as estratégias coletivas de
enfrentamento (MELO, 2013, p. 20).

Este seria um fator responsável por afastar os jovens dos movimentos sociais? Falei, então,
sobre a técnica intitulada Arco-Íris do Desejo, ou Método Boal de Teatro e Terapia, que
poderia – juntamente com os outros exercícios do Teatro do Oprimido – favorecer os jovens
participantes do projeto a ganharem consciência e compreensão desse problema, a fim de
superá-lo. O grupo considerou uma boa estratégia e acordamos uma data em que eu pudesse
apresentar minha proposta à comunidade e ao M216, movimento que congrega diversas
instituições e atores sociais em torno da problemática perpetrada pelo estabelecimento do
agronegócio na região do Baixo-Jaguaribe. Àquela altura, organizei algumas ideias, as
principais referências e as questões iniciais para dar início ao projeto. Meu propósito era o de
intervir, por meio de uma pesquisa-ação e a partir de atividades teatrais, para a mobilização da
juventude em favor das lutas da comunidade.

Em fevereiro de 2014, apresentei essas ideias na comunidade do Tomé


enquanto uma proposição. Eu compreendia, a partir de Paulo Freire, que “a autossuficiência é
incompatível com o diálogo. Os homens que não têm humildade ou a perdem, não podem
aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo” (FREIRE,
2005, p. 93). E sabia, pois, que precisaria acolher os saberes e os anseios daquelas pessoas,

5
Núcleo Tramas – Trabalho, Meio Ambiente e Saúde é um núcleo de pesquisa do Departamento de Saúde
Coletiva da Universidade Federal do Ceará, sendo coordenado pela Profa. Dra. Raquel Maria Rigotto, co-
orientadora deste trabalho.
6
M21 ou Movimento 21 é formado pela CPT - Comissão Pastoral da Terra, MST - Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra, Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte, CSP-CONLUTAS - Central Sindical e
Popular, Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM/UECE e Núcleo Tramas/UFC, sendo o nome
do movimento uma referência à data de 21 de abril de 2010, dia em que o agricultor e líder comunitário Zé
Maria do Tomé foi assassinado.
5
que a ação precisava se estruturar conjuntamente, que se tratava de um trabalho ‘com’ a
comunidade e não ‘sobre’ ou ‘para’ a comunidade. As pessoas ali presentes receberam com
menos entusiasmo do que eu imaginei (ou que eu queria, talvez com certa vaidade um tanto
comum em artistas e acadêmicos), mas considerou uma boa proposta para ser realizada com
os jovens das escolas, do 6º ao 9º ano. Pensamos, então, junto ao M21, as primeiras atividades
que seriam o start do projeto e que, ao mesmo tempo, poderiam integrar a programação da
Semana Zé Maria, ação anual organizada para lembrar a luta do companheiro morto e a falta
de punição aos criminosos. Voltei à Fortaleza, sem saber ao certo como iria desenvolver as
ações. Mas animado pelo passo importante que tínhamos dado. O projeto havia sido
apresentado e tínhamos dado o pontapé inicial para a sua realização.

2. Do projeto de teatro ao projeto de mediação cultural

Iniciei uma série de estudos e articulações para me aproximar dos temas


ligados às comunidades da Chapada do Apodi. Li uma série de artigos (RIGOTTO, 2011) que
apontavam a crescente perda de autonomia das comunidades no sentido da gerência de seu
potencial ecológico e na determinação de suas necessidades; participei do Encontro dos
Territórios em Conflito - Chapada do Apodi, Tabuleiro de Russas e Figueiredo7; também
minha companheira havia me falado sobre uma professora e gestora de uma escola da região
que havia sido uma grande parceira do Núcleo Tramas em ações anteriores, e marquei um
primeiro encontro com ela (pela indicação da comunidade de realizar o projeto com alunos do
6º ao 9º ano, contatar uma gestora de uma escola era um importante contato).

Voltei à comunidade do Tomé, onde conversei com uma das responsáveis pela
Associação Comunitária São João do Tomé, com uma poetisa da comunidade que me
apresentou tantos poemas, lendas e narrativas que eu não conhecia, com a família de Zé
Maria. Conheci alguns jovens, e falei sobre meu desejo de criar um grupo de teatro no Tomé –
pensei que expressando assim seria mais compreensível do que falar das especificidades do
projeto. Fui apresentado a um secretário de educação e a um secretário de cultura da região, a
técnicos de secretarias municipais de educação, a diretoras e professoras de arte de escolas da

7
Reunião com lideranças comunitárias de comunidades do Baixo-Jaguaribe, organizada pela Cáritas Diocesana
de Limoeiro do Norte, e realizada na data de 27 de fevereiro de 2014, em Limoeiro do Norte.
6
região. Com algumas exceções, muitas pessoas que encontrei e conversei demonstravam
algum desconforto quando eu falava na proposta de mobilizar os jovens para as causas
socioambientais. Senti certa preocupação – velada – por parte das diretoras das escolas em
envolver os alunos em atividades diretamente relacionadas à Semana Zé Maria, talvez por
temerem alguma reclamação dos pais ou de seus superiores8. Um gestor municipal foi,
pessoalmente, em uma das primeiras ações públicas que realizamos me fazer três perguntas:
“quem eu era”, “porque estava ali” e “como havia chegado ali”. Soube de algumas pessoas
que, ao saberem que o projeto se ligava de algum modo aos conflitos socioambientais, já
reagiam desfavoravelmente à execução do trabalho na comunidade. Por fim, nas três vezes
que marcamos encontro com os jovens para dar início à prática com as atividades teatrais –
seja pelo fato de ter ligação com as causas associadas ao Zé Maria, pela necessidade de
trabalhar ou estudar nos horários marcados, por falta de interesse, ou outros motivos que não
identificamos –, em duas ocasiões, nenhum jovem compareceu, numa terceira, apenas um
jovem esteve presente.

Ali começava um grande aprendizado. Pensei que talvez tivesse escolhido o


projeto errado, avaliando se seria possível mudar os rumos da pesquisa, sem saber como
realizar as atividades que eu já havia me comprometido junto ao M21. Eu me indagava
continuamente: seria o medo que neutralizava “estratégias coletivas de enfrentamento” –
problema levantado pelo Núcleo Tramas – que se apresentava na situação? Se as pessoas
viviam sob um clima de tensão e medo, como esperar que elas aceitassem se expor – em cena,
diante de uma plateia – para tratar de temas tão fortes e polêmicos? Eu estava preparado para
acolher as ideias das pessoas, a fim de melhorar o projeto que havíamos pensado, mas não
tinha imaginado a possibilidade de mudar de projeto. As pessoas da comunidade não haviam
se interessado pela ideia? Mas por quê? Se a ideia era tão boa? Bom, isso era o que eu
pensava e julgava a partir de minha visão. Em se tratando de pesquisa-ação,

As questões-problema, norteadoras da investigação, não são formuladas a priori, da


mesma forma que não são sugeridas hipóteses a serem testadas ou confirmadas. (...)
Na pesquisa-ação, as hipóteses são formuladas com base na problematização do
cotidiano, na cultura dos participantes, nas discussões coletivas, nas observações
participantes (MIRANDA, 2012, p. 16).

8
A comunidade do Tomé ainda sofre o desenrolar da ação judicial que decorre do assassinato de Zé Maria do
Tomé, em 21 de abril de 2010. Um importante empresário do agronegócio na região foi denunciado pelo
ministério público como possível mandante do crime e é comum ouvir depoimentos de ações de intimidação a
cada audiência de testemunhas, intimações, novas vistas ao processo, etc..
7
E eu, tendo levado o ‘desenho bonitinho’ do projeto que pretendia realizar, a partir do pouco –
ou nada – que eu conhecia daquela comunidade, como querer que o trabalho representasse os
anseios daquelas pessoas?

Três pessoas foram se mostrando cada vez mais interessadas em contribuir do


modo como lhes era possível, me indicando caminhos plausíveis para uma ação cultural na
comunidade do Tomé: a gestora da escola, a integrante da associação comunitária e a poetisa.
Era a constituição – um tanto espontânea, por isso mesmo mais bela – do “pesquisador
coletivo”, de que trata BARBIER (2002)9, designado neste trabalho de Grupo Pesquisação, e
com isso fui me tranquilizando em relação aos desafios que iríamos (agora, no plural)
enfrentar. Não eram aqueles desafios que eu havia imaginado no primeiro ou no segundo
momento, decerto, mas eram os necessários a serem enfrentados por uma situação nova e
original.

Esse diálogo me apresentava a comunidade como eu ainda não conhecia e me


colocava diante de Paulo Freire ao afirmar que “será a partir da situação presente, existencial,
concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo
programático da educação ou da ação política” (FREIRE, op. cit., p.100). Pois a situação
presente e aquelas três pessoas me mostravam que deveríamos mudar de perspectiva. O
trabalho a partir de um teatro com viés político claramente definido se mostrava inviável, e
talvez devêssemos seguir um caminho oposto ao da proposição inicial. Se antes víamos a
participação nas lutas sociais como o motor para o fortalecimento da comunidade, agora,
nosso objetivo passaria a ser, primeiramente, o de fortalecer a comunidade, por meio do
desenvolvimento de uma consciência crítico-estética, fomentando uma postura comprometida
com o ambiente.

O projeto que foi sendo pensado no coletivo, então, caminhou no sentido de


oferecer à comunidade – em seu conjunto, não mais apenas à juventude, e abrindo ainda à
participação de outras comunidades do entorno (também impactadas pelo modelo do
agronegócio) – experiências estéticas, afetivas e significativas, que estimulassem mudanças
nos hábitos culturais construídos com pauta numa realidade problemática de perda de
autonomia do seu próprio território, de drásticas alterações nas práticas produtivas, de
ressignificação de valores, de contaminação da água e da terra, de violência, de medo.

9
Para Barbier (2002), o pesquisador coletivo é um modo de organização do trabalho que busca assegurar a
maior participação do grupo envolvido na construção coletiva do processo de pesquisa e na sua continuidade.
8
Desvelávamos em nossas conversas a demanda do coletivo, ou seja, um projeto
de mediação cultural que intentasse promover diálogos interculturais, favorecer reflexões e
percepções acerca do mundo, fortalecer a identidade coletiva, estimular a criatividade, instigar
à prática cultural. Sabíamos que essas questões trabalhadas a contento poderiam levar a uma
autonomia de ação, abrindo possibilidades futuras para o engajamento crítico aos movimentos
de lutas. E concordávamos que

Nosso papel não é falar ao povo sobre a nossa visão do mundo, ou tentar impô-la a
ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa. Temos de estar convencidos de que
a sua visão do mundo, que se manifesta nas várias formas de sua ação, reflete a sua
situação no mundo, em que se constitui. A ação educativa e política não pode
prescindir do conhecimento crítico dessa situação, sob pena de se fazer “bancária”
ou de pregar no deserto (FREIRE, op. cit., p. 100).

Essa percepção de que a ação político-cultural deveria se dar a partir do diálogo com a
comunidade estava cada vez mais clara, e o Grupo Pesquisação ganhava ânimo para gestar
uma realidade nova para o Tomé, tendo a arte como catalisadora desse sonho.

3. O coletivo transformando ideia em ação

“Se cada ser carrega em si o dom de ser capaz e ser feliz” (SATER;
TEIXEIRA, 1990), como possibilitar a essa comunidade o encontro com a capacidade e a
felicidade ou o encontro com o que isso representa em termos de autonomia e liberdade?
Fomos nessa “toada” compondo nossa pesquisa-ação em mediação cultural.

A escolha do método foi motivada pela compreensão de que a pesquisa-ação é


“uma maneira filosófica de existir e de fazer pesquisa interdisciplinar para um pesquisador
implicado” (BARBIER, op. cit., p. 85), nos situando no polo oposto ao do paradigma
cientificista que estabelece uma ruptura epistemológica entre senso comum e conhecimento
científico e persegue pretensa neutralidade e objetividade alheias aos problemas reais do
cotidiano; ao tempo que nos alinhamos com um modelo contra-hegemônico de ciência,
fomentador de um conhecimento que se constrói com o outro, democraticamente,
comprometido com as causas da emancipação social.

O trabalho foi desenvolvido, em sua totalidade, coletivamente pelo Grupo


Pesquisação, integrado por mim, pela gestora da escola, por uma integrante da associação
comunitária São João do Tomé e pela poetisa. Em momentos pontuais, quando da necessidade
9
de equipamentos, organização do espaço em que aconteciam as atividades, divulgação,
avaliação, esse grupo se ampliava e contava com a presença de outros moradores da
comunidade. Apesar de o Grupo Pesquisação não contar com encontros formais e regulares,
mantinha um diálogo constante, pessoalmente – entre os que residiam na comunidade – e/ou
via internet, uma vez que a comunidade do Tomé ainda não contava com área de telefonia
celular à época da pesquisa.

A primeira questão que nos surgiu se relacionava ao programa de ações que


íamos executar (talvez, por nosso perfil coletivo mais prático que teórico), e tentamos
identificar tais ações a partir da observação participante, de entrevistas individuais e coletivas
semi-estruturadas e, principalmente, de conversas informais com moradores da comunidade
(entre eles, e especialmente, os próprios sujeitos do Grupo Pesquisação).

Em uma conversa informal, uma jovem de 20 anos havia dito que nunca tinha
visto teatro lá no Tomé, com exceção de algumas breves representações da Igreja na Semana
Santa. A ausência de apresentações artísticas na comunidade também foi reforçada por outros
moradores. Essa constatação era a indicação de que precisávamos, antes de tudo, garantir o
acesso da comunidade às obras culturais. Então, pensamos em a) organizar uma série de
apresentações artístico-culturais, na Praça da Matriz da comunidade do Tomé, favorecendo o
acesso a expressões artísticas e estimulando o diálogo entre as representações do que é
apresentado e as representações do público a que se destina, ou seja, além das apresentações,
queríamos dar algumas informações sobre o artista/grupo, fazer reflexões, questionar,
comparar, etc.;

Em uma entrevista coletiva com nove professoras de artes de escolas das


comunidades do Tomé e de Cercado do Meio, realizada no dia 28 de março de 2014, uma
professora demonstrou certa insatisfação por perceber predisposições dos alunos para certas
linguagens artísticas e não poder auxiliá-los no desenvolvimento dessas habilidades, devido a
falta de formação específica na área de arte/educação. Diz a professora que

(...) muitos alunos têm o dom da pintura, do desenho, dos versos, da escrita, mas nós
não sabemos resgatar desse aluno, porque nós não tivemos aquela formação básica
para buscar do aluno. (...) Eu gosto de trabalhar com artes, mas sinto essa
dificuldade, porque não tive formação. Nós não temos formadores [na Secretaria
Municipal de Educação] dentro dessa área [de artes]. (depoimento de professora de
artes, durante entrevista coletiva, na comunidade do Tomé, em 28/03/2014).

Ficava clara a deficiência da política de educação do município, e definimos que seria muito
importante b) oferecer atividades de arte/educação a crianças e adolescentes, de modo a
10
fortalecer o impulso criador e a percepção de si e do mundo; e c) promover momentos de
reflexão e estudo acerca de artes para professores da educação básica, a fim de contribuir com
o aperfeiçoamento de sua prática didática;

Figura 1 - Entrevista coletiva com professoras de arte, na comunidade do Tomé (2014)

Em uma entrevista individual, no dia 28 de fevereiro de 2014, a poetisa


demonstrava um descontentamento relacionado à falta de interesse das pessoas pelas
narrativas, pelos versos, pelos dramas populares que já não mais eram cantados naquela
comunidade. Ela falava com saudosismo de quando era dramista e representava por horas a
fio, às vezes, repetindo a mesma canção diversas vezes, tamanho era o interesse do público, e
teceu críticas às escolas.

(...) os meninos dos colégios, de vez em quando eles chegam: - “Dona M., faça um
versinho pra mim a respeito ‘disso assim’, que a professora pediu...”. Ali, de
repente, eu faço, eles passam à limpo, e pronto, tiram uma nota boa... (risos). Mas
tudo isso podia ter dentro da sala de aula, né? Eu não tenho vergonha, eu não me
importava se o professor chegasse... – “M., hoje vá dar uma ajuda a nós, contar uma
história, ler um verso, brincar com os meninos um pouco”. Mas quê? Eu é que não
vou chegar de gaiata, dizendo: - “Muié, eu vim contar história pros teus alunos
hoje”. Não tem nem sentido. Mas tudo isso são coisas que davam pro colégio
aproveitar, e eu acredito que não é possível que no meio de duzentos e tantos alunos
não tivesse um que se interessasse, porque tem. Não faz é ser estimulado. Mas tem.
Porque quando eles vêm pra a gente fazer um pedacinho de conversa, eles acham
bom. Quando dá fé, vem dois, mais três, e porque não no colégio? Não tem
incentivo. Os professores parece que faz aquela aula por obrigação, pra ver se
termina aquele horário, pra ir embora, e pronto, né? (depoimento de Dona M.,
poetisa, durante entrevista individual, na comunidade do Tomé, em 28/02/2014).

Por fim, decidimos que íamos d) registrar alguns poemas e dramas que já não eram mais
cantados a fim de apresentá-los à comunidade, valorizando e estimulando as produções
artísticas e culturais locais.

11
De acordo com Miranda,

Para Kurt Lewin, a pesquisa-ação é um processo em espiral que envolve três fases: a
primeira é a fase do planejamento, quando o pesquisador reconhece a situação e a
problemática que a constitui. A segunda é a fase da tomada de decisão, possível a
partir do conhecimento da situação. A terceira é a fase de encontro dos fatos, quando
são desenvolvidas as ações de intervenção, as quais possibilitam retomar o
planejamento reiniciando o ciclo (MIRANDA, op. cit., p. 19).

Havíamos, pois, completado a primeira fase e parte da segunda. Ainda nos faltava tomar
algumas decisões, antes de ir ao encontro dos fatos, ou às ações, propriamente ditas. Outras
questões, agora mais teóricas, surgiam. Quando falamos de cultura, a que concepção de
cultura estamos nos referindo? Diante de uma população que foi privada do acesso às obras
culturais, que peças de teatro, shows musicais, leituras de poesia poderiam oferecer um alento,
uma reflexão, um outro olhar sobre o mundo, um riso pra espantar o medo? Por que as
expressões artísticas populares dessa comunidade estão esquecidas? Qual a importância da
escola para esse processo de mediação artística e cultural? Em que consiste e como se opera
essa mediação?

4. Breves discussões sobre cultura, obras culturais e mediação

As culturas não são iguais, a despeito de vários conceitos que sugerem essa
falsa impressão. O conceito antropológico mais amplo que opõe cultura e natureza coloca no
mesmo patamar toda a produção material e simbólica humana; o conceito das elites estabelece
que cultura é, única e exclusivamente, o “cruzamento de certas práticas culturais com as
dimensões metafísicas, espirituais e intelectuais” (DARRAS, 2009, p. 25), pautando a arte
que enobrece o espírito como aquilo que deve ser considerado cultura, sendo as demais
produções do ser humano “incultura”; há ainda outros conceitos mais recentes que se referem
à equanimidade cultural, trazendo a concepção de que “todas as produções valem e devem ser
tratadas de maneira equânime e equivalente” (ibidem, p. 30), induzindo pensamentos do tipo
“tudo é arte”, “todo mundo é artista”, na ânsia de desconstruir os valores elitistas do conceito
anterior.

Indagamos: um quarteto de cordas tem o mesmo valor cultural que uma dupla
de cantadores repentistas? Uma dupla de cantadores repentistas é considerada cultura? Como
se estabelece a cultura popular? Diz o antropólogo Néstor Canclini que os produtos do povo
12
“originam-se tanto da experiência direta das classes populares como do seu contato com o
saber e a arte ‘cultos’, sendo a sua existência, em boa parte, um resultado de uma ‘absorção
degradada’ da cultura dominante” (CANCLINI, 1983, p. 44). Tendo acordo com tal
afirmação, como sustentar o discurso de equidade das culturas, se algumas delas são
submetidas a trocas materiais e simbólicas desiguais?

As culturas – por uma série de questões (geográficas, históricas, políticas,


econômicas, etc.) – são diversas, e não estão encapsuladas, isentas umas das outras, mas ao
contrário, estão em constantes (e, muitas vezes, conflituosas) interações. Essa diversidade e a
interrelação entre as culturas nada apresenta de contraditório, desde que as trocas sejam de
reciprocidade igualitária. Porém, as necessidades de expansão do capitalismo exigem, cada
vez mais, adequações dos grupos sociais aos modelos hegemônicos. “Mesmo os grupos
étnicos mais remotos são obrigados a subordinar a sua organização econômica e cultural aos
mercados nacionais, e estes se transformam em satélites da metrópole, de acordo com uma
lógica monopolística” (CANCLINI, op. cit., p. 26). Ou, em outras palavras, as culturas
populares são obrigadas a assumirem valores e costumes alheios, passando a balizar suas
relações sociais e práticas produtivas pelas leis do mercado.

Nesse contexto capitalista, há, pois, um poder cultural exercido pela cultura
hegemônica. “As relações capitalistas engendram ideias, noções, valores e doutrinas. Sem
estes elementos intelectuais, isto é, da cultura espiritual, as relações de apropriação econômica
e dominação política específicas do capitalismo não poderiam constituir-se nem subsistir”
(IANNI, 1976, p. 22). Ou seja, a classe dominante, a fim de manter o poder econômico e o
status quo, impõe sua cultura, oferecendo-a como o que é ‘naturalmente belo’ ou
‘naturalmente bom’, e ocultando a violência que subjaz a essa imposição, levando as culturas
populares a sentirem tal “adequação” como necessária para a vida em sociedade. Trata-se
claramente de uma relação de opressão, em que o oprimido assume como sua a cultura do
opressor, por meio do Estado, a partir dos aparelhos culturais (família, escola, igreja, meios de
comunicação, entre outros) e da ação de mecanismos repressivos (burocracia, polícia,
exército, entre outros).

Em relação às obras culturais (obras de arte e de pensamento), ou a classe


dominante não oferece o acesso amplo à população ou, quando oferece, não disponibiliza às
camadas populares os meios de se apropriar delas. Da mesma maneira que os outros
elementos da cultura, as obras culturais parecem estar à disposição de todos, mas somente
13
alguns podem efetivamente compreender seus códigos, o que leva as classes populares a se
desinteressarem por essa prática cultural. E o que é pior, de acordo com Bourdieu, “a falta de
prática [cultural] é acompanhada pela ausência do sentimento dessa privação” (BOURDIEU,
2007, p. 69), levando as pessoas a uma distância cada vez maior do seu lastro cultural – sem
essa clara percepção – e facilitando, assim, os processos de manipulação pelas elites políticas
e econômicas. Importante lembrar o quadro de uma ausência quase total de programação
artístico-cultural na comunidade do Tomé, com apenas alguns poucos eventos pontuais no
decorrer do ano.

A propensão em acessar as obras culturais, ou seja, a “necessidade cultural”,


diferente das necessidades básicas do ser humano, é um produto da educação. As pesquisas
em relação ao público de museus na França chegam a números bastante claros (BOURDIEU,
op. cit.). Nos dados pesquisados, em relação ao nível de instrução, apenas 9% dos visitantes
não tinham diploma; 11% dos visitantes tinham diploma de estudos primários; 17% de ensino
técnico ou secundário; 31% tinham vestibular; 24% tinham diploma de nível superior. De
acordo com Bourdieu, isso se dá porque a leitura das obras culturais exige um grau de
competência artística, ou seja, conhecimentos específicos para interpretar e se apropriar da
obra. E o espectador que não teve acesso a tais conhecimentos, diante de uma obra que excede
suas possibilidades de apreensão da mensagem, irá se desinteressar e, possivelmente, um
sentimento de indignidade ou de incompetência possa afastá-los permanentemente desse tipo
de obra, reservando, então, às elites a legitimidade dessa prática cultural.

Quando ouvimos falar em direito de acesso às fontes da cultura como


democratização cultural, saibamos que esse discurso está incompleto (ou é maldoso – para
depois culpar os excluídos por sua própria exclusão). Uma verdadeira democratização da
cultura exige, para além do acesso, as possibilidades de fruição da obra, por meio da
informação e da formação, além da criação de um cenário que oportunize as pessoas a
produzirem suas próprias obras de arte. É nesse ponto em que se fundamenta o projeto de
mediação cultural na comunidade do Tomé. Considerando que “a cultura não apenas
representa a sociedade; cumpre também, dentro das necessidades de produção do sentido, a
função de reelaborar as estruturas sociais e imaginar outras novas” (CANCLINI, op. cit., p.
29-30), poderemos, a partir do diálogo intercultural (entre as representações contidas nas
obras culturais, nos textos trabalhados pelas professoras, nas atividades de arte/educação com
crianças e adolescentes e as representações da comunidade), favorecer a compreensão de que

14
é possível relativizar a visão de mundo atual, reconhecer que os significados dados às coisas
podem ser modificados, desvelar a ideologia dominante para possibilitar uma visão crítica.

Mas o que seria mediação cultural? Paulo Freire afirma que “já agora ninguém
educa ninguém, como tampouco ninguém educa a si mesmo: os homens se educam em
comunhão, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, op. cit., p. 79). Mediação, ou mediatização,
seria a construção de uma relação dialógica entre sujeitos cognoscentes (educador-educando e
educando-educador) e objeto cognoscível (o mundo). Muito diverso de um ensinar ao outro
sobre o objeto, na mediação há o que Freire chama de superar o imediato no mediato.
Tomemos uma de nossas apresentações culturais da presente pesquisa-ação como exemplo. O
poema Da paz, do poeta Marcelino Freire, recitado pelo ator Edivaldo Férrer, relata a história
de uma mãe, de luto pela morte do filho assassinado, que se mostra bastante irritada quando a
convidam para ser parte de uma manifestação pela paz. Diz trechos do poema:

"Eu não sou da paz. Não sou mesmo, não. Não sou. Paz é coisa de rico! (...) A paz é
muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue! (...) Quem vai ressuscitar
meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo
lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida”. (FREIRE, 2011)

O poema apresentado é o imediato. Quando as pessoas são questionadas sobre o porquê da


personagem afirmar que “não é da paz”, sobre o clima de violência vivido no Brasil e naquela
comunidade, sobre o poeta, esse artista que mistura sua visão de mundo com uma técnica para
escrever seus versos, elas estabelecem outra relação com a obra, intensificando a experiência
estética e aprofundando sua compreensão do poema e do mundo, isso é o mediato. Em outras
palavras, o imediato (poema) passa a ser mediato (cultura), quando ganha novos significados
e relações (com a arte, com o mundo, com os seres humanos) para os sujeitos cognoscentes.

É importante não compreender a mediação num sentido redutor, como


sinônimo de ajuda daquele que detém o conhecimento ao que está desprovido desse
conhecimento. Tal concepção, por vezes ainda assumida nos meios educacionais, situa o
educador num ‘meio’ entre o educando e o objeto do conhecimento, transformando-lhe
naquele que transfere conhecimentos e negando-lhe sua condição de sujeito da história. E
temos a clareza de que “no mundo da História, da cultura, da política, constato não para me
adaptar, mas para mudar” (FREIRE, 1996, p. 85-86).

A teoria histórico-cultural de Vygotsky (2007) afirma que a relação sujeito-


conhecimento-sujeito é fundamental ao desenvolvimento humano. Se pensarmos que o legado
material e simbólico de nossos antepassados encontra-se nos objetos e no conhecimento
15
organizado, ou seja, fora do indivíduo; que esses objetos, por si só, não podem influenciar
esses indivíduos; poderíamos indagar: qual a forma pela qual a cultura se estabelece? É por
meio da interação com outros indivíduos, que se dá o processo de apropriação da cultura. De
acordo com Leontiev,

Para se apropriar destes resultados, para fazer deles as suas aptidões, “os órgãos da
sua individualidade”, a criança, o ser humano, deve entrar em relação com os
fenômenos do mundo circundante através doutros homens, isto é, num processo de
comunicação com eles. Assim, a criança aprende a atividade adequada. Pela sua
função, este processo é, portanto, um processo de educação. (LEONTIEV, 1978, p.
272)

Ou seja, a criança passa a significar o mundo, tornar-se um ser cultural, humanizar-se a partir
da relação com o outro, a partir de um processo de interação.

Na mediação das obras culturais, especificamente, BARBOSA (2009) é


categórica ao afirmar que a arte tem um importante papel na mediação entre os sujeitos e o
mundo, visto que a “arte, como uma linguagem aguçadora dos sentidos, transmite
significados que não podem ser transmitidos por nenhum outro tipo de linguagem, como a
discursiva e a científica” (BARBOSA, 2009, p. 21). É o que alguns autores, como LANGER
(1980), chamam de o “padrão dinâmico do sentir”, anterior ao pensamento, que não se estreita
à linearidade da linguagem e permite uma comunicação sem palavras. O dramaturgo Plínio
Marcos, em um poema dedicado ao ator, quase uma oração, fala sobre essa particularidade da
arte e do artista:

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de
forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo,
tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou
medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.
(MARCOS) [s.d.]

O ponto fundamental da criação artística talvez esteja – ao menos para nós nesta mediação
artística e cultural na comunidade do Tomé –, no acesso ao “pequeno núcleo macio de
sensibilidade”, de que fala Plínio Marcos, a fim de gerar novo ânimo para o espectador. É
preciso considerar que, talvez, as palavras que convocam à razão estejam saturadas e não
consigam mais mobilizar; enquanto esse diálogo de emoções, verdadeiro e sem falácias,
ecoando imaginários perdidos – ou ainda não encontrados – possa comover as pessoas “para
as lutas comuns (sua e de sua comunidade) da libertação”.

16
5. O projeto de mediação artística e cultural na comunidade do Tomé

Tratando do projeto de mediação artística e cultural conduzido na comunidade


do Tomé, iremos elencar algumas ações mais significativas, visto que não teríamos espaço
neste artigo para estudar cada uma das ações desenvolvidas em seu particular, nem intentamos
esgotar o assunto nestas primeiras reflexões.

Quadro 1 – números das ações realizadas na pesquisa-ação na comunidade do Tomé (2014)


Ação Artistas e/ou Público envolvido
arte/educadores (média)
envolvidos
06 noites culturais, com 25 apresentações artísticas 100 artistas 1.000 pessoas
03 oficinas de arte/educação nas escolas 13 arte/educadores 150
crianças/adolescentes
01 encontro de diagnóstico e reflexão e 01 formação de 02 arte/educadores 38 profissionais da
contação de histórias para professores da educação educação
básica.
01 exposição de fotografias, com imagens das ações - 150 pessoas
realizadas

As atividades foram organizadas, mês a mês, pelo Grupo Pesquisação, e a


partir da articulação com artistas e arte/educadores conhecidos do Grupo, jovens – em sua
maioria – que solidariamente se engajaram no projeto.

A primeira programação cultural foi realizada no dia 28 de março, em


homenagem ao Dia do Teatro, comemorado mundialmente no dia 27. Certamente, comemorar
o Dia Mundial do Teatro em uma comunidade que pouco – ou nunca mesmo – havia visto
teatro, tinha um ‘sabor especial’. Fizemos uma articulação com o Projeto Arte e Cultura na
Reforma Agrária (PACRA), vinculado ao INCRA-CE, para contarmos com uma peça do
Grupo Deu Zebra no Teatro, do Assentamento Ipanema, município de Alto Santo, na mesma
região do Baixo-Jaguaribe cearense. A peça apresentada foi Um Zé qualquer também ama,
uma comédia divertida, de tema leve e popular (o namoro da jovem proibido pelo tio, homem
muito valente, e as estratégias de Zé para ficar com a moça), e com um grupo de teatro
formado por jovens, ideal para iniciar o projeto de forma atraente. Como uma estratégia para
chamar a atenção dos moradores da comunidade, o grupo fez a maquiagem e vestiu seu
figurino na praça, no fim da tarde. As crianças foram as primeiras a chegar e perguntar o que
aconteceria ali. Naquela altura, já tínhamos disposto alguns bancos da igreja, instalado dois ou
três refletores de chão, e anunciávamos a apresentação no microfone.

17
No momento da apresentação, falei sobre o projeto de mediação cultural
elaborado em conjunto com moradores da comunidade, das ações que pretendíamos realizar e
da alegria de estar iniciando o projeto naquela data em que se comemora o Dia Mundial do
Teatro, assim como, em linhas gerais, sobre a peça que iriam assistir (enredo, autor,
encenação, grupo-intérprete). Uma fala rápida. Não queríamos transformar a experiência
estética em uma aula expositiva e precisávamos manter o público atento e animado com a
apresentação10. A peça ocorreu com o público muito à vontade, simpático, comentando com
quem estava ao lado, rindo. Alguns jovens, em suas motocicletas, não permaneciam na praça,
chegavam e saíam com frequência. Ao final da peça, a impressão era de satisfação geral.
Marcamos – junto aos moradores que ali estavam – a data para a próxima programação.

No dia seguinte ao da apresentação, logo pela manhã, várias pessoas que nos
encontravam na rua vinham cumprimentar, dizer que gostaram muito da peça, e perguntar
“quando vai ter teatro de novo?” – mesmo sabendo da data, combinada na noite anterior.
Íamos compreendendo que aquela pergunta tinha a ver com o desejo de ver outros espetáculos
teatrais, ou, em outras palavras, tratava-se do surgimento de uma aspiração à prática cultural,
em acordo com o pensamento de Bourdieu ao afirmar que “a aspiração à prática cultural varia
como a prática cultural e que a ‘necessidade cultural’ reduplica à medida que esta é satisfeita”
(BOURDIEU, op.cit., p. 69). A comunidade, pois, tendo acessado a obra cultural – obra essa
cujo nível de emissão (complexidade da obra) não excedia, significativamente, o nível de
recepção dos espectadores (controle dos código da obra), sendo, pois, uma obra legível – ia se
apropriando de um conhecimento que a levaria a uma necessidade cultural cada vez maior. O
espetáculo ganhou espaço nas conversas da comunidade nos dias posteriores.

10
Adotamos esse modelo sintético de falas para as ações seguintes. Nos dias em que acontecia mais de uma
apresentação, lançávamos uma ou duas questões de provocação. Ia ficando claro, também, que as professoras
das escolas que iam participando de encontros de formação, as crianças e os adolescentes que escutavam das
professoras e/ou participavam das oficinas, também seriam mediadores do processo, no dia-a-dia da
comunidade, tanto quanto o Grupo Pesquisação.
18
Figura 2 - Apresentação de ‘Um Zé qualquer também ama’, na comunidade do Tomé (2014)

Na programação seguinte, em 23 de maio de 2014, realizamos uma intervenção


artística no Acampamento Zé Maria do Tomé11, pensando na importância de a arte ocupar as
várias situações do cotidiano, e apresentamos outra peça teatral, na Praça da Matriz do Tomé.
Ainda que não quiséssemos reduzir a mediação a uma única linguagem artística (a teatral),
considerávamos de grande importância oportunizar outra peça de teatro, a fim de evidenciar
uma diversidade de poéticas dessa mesma linguagem, pensando, ao mesmo tempo, no que diz
Brecht ao afirmar que, “para observar é preciso aprender a comparar. Para comparar é preciso
já ter observado. Através da observação é produzido conhecimento, mas é preciso
conhecimento para a observação” (apud TEIXEIRA, 2003, p. 95). A Isca, monólogo do ator
Edivaldo Férrer, tem um texto que inclui história e imaginação (quatro pescadores em uma
jangada perdida no mar em plena Segunda Guerra Mundial), com um trabalho de ator
sofisticado, visto que o mesmo ator representa vários personagens apenas com mudanças de
corporeidade (postura, tônus, olhar, voz, etc.), e um único elemento cênico (um penico, que se
transforma em chapéu, rabo de peixe, bomba, navio, etc.), ou seja, há uma clara diferença no
grau de complexidade e sutileza na obra em relação à obra anterior (Um Zé qualquer também
ama, do Grupo Deu Zebra no Teatro), estimulando uma ampliação da imaginação e das
percepções. Na ocasião, comentamos um pouco sobre poéticas teatrais e buscávamos
comparar as duas obras, identificando semelhanças e diferenças. Esse “teatro” era bem
diferente do outro “teatro”, como algumas pessoas da comunidade se referiram.

11
Um grande grupo de camponeses e camponesas da Chapada do Apodi (CE) ocuparam, em conjunto com o
MST, com apoio do Movimento 21, no dia 5 de maio de 2014, uma área localizada em Limoeiro do Norte, a fim
de promover a discussão acerca da 2ª etapa do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi.
19
Figura 3 – Intervenção dos atores Edivaldo Férrer e Maruska Ribeiro, no Acampamento Zé Maria do Tomé (2014)

A terceira programação cultural, em 1º de agosto de 2014, incluiu uma


formação em contação de histórias para profissionais da educação básica – demanda de
professores e gestores das escolas da comunidade – e um espetáculo de contação de histórias
na Praça da Matriz, com a arte/educadora e contadora de histórias Camila Barbosa. A poetisa,
integrante do Grupo Pesquisação, também participou da apresentação e apresentou o
Romance do filho que matou a mãe, uma peça de procedência portuguesa, com registros no
Brasil, principalmente no Sudeste, desde o século XIX, de acordo com as pesquisas do
folclorista Rossini Tavares de Lima (LIMA, 1971). O romance (narrativa cantada) tem por
enredo a história da mãe que tenta impedir que o filho case com determinada moça, e esta,
inconformada, sugere que o pretendente mate a própria mãe, o que realmente acontece.
Pretendíamos dar visibilidade ao vasto conhecimento de narrativas da poetisa, buscando
valorizá-lo ao apresentar esse “tesouro” que sempre esteve ali na comunidade e que precisava
ser descoberto.

Após a apresentação do romance, lançamos uma série de informações e


questões de provocação para os moradores que ali estavam, na busca de ir além da “camada
primária dos sentidos que podemos penetrar com base em nossa experiência existencial”
(BOURDIEU, op. cit., p. 79), que seria na história em questão o absurdo do matricídio, para
acessar outros conhecimentos como a importância do legado cultural que, ao se constituir, nos
constitui; do quanto é interessante o fato dessa mesma história ter sido ouvida por um
pesquisador em 1945, em São Paulo, e a história estar sendo ouvida agora, quase 70 anos
depois, do outro lado do Brasil, no Ceará, e sabermos que essa história chegou ao Brasil com
os colonizadores portugueses; da percepção de como a música pode ser comovente e o trecho

20
“meu filho não faça isso, com a mãe que lhe criou, espaço de nove meses, dores por ti que
passou”, ganha em dramaticidade quando cantado.

Figura 4 - Partitura da melodia-base cantada pela poetisa (transcrição por Fernando Antônio Fontenele Leão)

Nos dias 30 e 31 de agosto de 2014, conseguimos viabilizar a ida de 23 alunos


da disciplina de Metodologia do Ensino em Teatro para uma série de ações na comunidade,
compondo a quarta programação cultural do projeto. Entre as atividades, os alunos
apresentaram esquetes teatrais, poemas, histórias, músicas, performances, visitaram o
Acampamento Zé Maria do Tomé, onde apresentaram o Romance do Príncipe Louro
(recolhido integralmente em entrevista com a poetisa e sua filha, no dia 02 de agosto de 2014)
e conversaram com integrantes do MST; por fim, conduziram atividades de arte/educação em
escolas das comunidades do Tomé, Cercado do Meio e Lagoinha, sendo três comunidades
próximas, situadas na Chapada do Apodi. A ação foi de grande importância para os
licenciandos em teatro, que já construíam há dois meses seu plano de trabalho para aquela
ocasião, e se preparavam afetivamente para vivenciar essa relação intercultural. Fica nítido
em vários depoimentos o quanto a vivência foi significativa.

Ainda não consigo digerir tudo que vivemos nesses dois dias, que, por quantidade,
poderia parecer pouco, mas a sua intensidade fala, por si, a sua importância. (...) O
transbordar de informações ainda lateja: luta, resignação, amor, alegria mesclada
com a dor. E isso nos alimenta de exemplos, de aprendizado. Não somente em nossa
arte, mas em nós como seres humanos. Deixo aqui o meu sentimento de gratidão por
cada um ter vivenciado cada instante comigo (...) (relato de uma aluna do curso de
Licenciatura em Teatro/IFCE, após visitar a comunidade do Tomé, publicado em
rede social, em 02/09/2014)

Também foi significativo para as crianças e adolescentes das comunidades que buscavam
ansiosamente saber – ao final do encontro – quando seria a próxima aula de teatro (deixando

21
os alunos da licenciatura com o “coração apertado” por não poder corresponder às
expectativas).

Os facilitadores buscaram, nas atividades mediadas, criar um espaço-tempo


propício para a expressão, a criação, a fantasia. Sabíamos que

Dar existência a um universo imaginário, propor novas realidades, conhecer


emoções vividas por outros ajuda a agilizar a imaginação, a gerar sonhos, a fazer
projetos e vencer as fronteiras dos que vivem um cotidiano marcado pelas privações.
(CARVALHO, 2008, p. 93)

E foi com essa clareza que o trabalho foi desenvolvido, não só considerando as habilidades
específicas da linguagem teatral (o gesto, o movimento, a fala, etc.), mas ampliando o foco
das atividades para possibilitar um estímulo à criatividade e à afetividade vivenciada em
grupo.

Figura 5 - crianças da comunidade de Cercado do Meio, em atividade de arte/educação (2014)

A quinta programação cultural foi bastante especial, realizada em 26 de


setembro de 2014. Tínhamos feito uma provocação aos moradores, na finalização da quarta
noite cultural, ao dizer que nenhum dos nossos amigos artistas de Fortaleza tinham
disponibilidade para contribuir na edição posterior do projeto. Perguntamos: “se não teremos
artistas de Fortaleza, será que teríamos artistas daqui da região para compor essa
programação, ou teremos de cancelar a data que estamos marcando?”. Nosso intuito era de,
mais uma vez, valorizar a cultura local, e fortalecer a percepção de que o projeto era
construído em coletivo. Os moradores responderam que tinham artistas na região, e
propusemos que aquela programação pudesse, então, ser organizada por eles – em especial,
mas não exclusivamente, pelos moradores que integravam o Grupo Pesquisação – que
aceitaram o desafio.

22
Abro um parêntese (Eu, Fernando) para uma explicação e uma reflexão. Entre
uma e outra edição, alguns amigos do Grupo Mandacaru de Arte, do município de Caucaia
(Região Metropolitana de Fortaleza), me contataram para oferecer uma peça teatral para ser
apresentada no âmbito do projeto. Eu disse, porém, que deixasse para o final do ano, pois que
essa programação tinha o caráter especial de contar apenas com artistas da região jaguaribana,
expliquei todo o propósito, mas eles insistiram, dizendo que a peça tratava da questão do voto
consciente, e que nessa edição, por ser às vésperas das eleições (as eleições aconteceriam uma
semana após a programação cultural na comunidade), se mostrava particularmente importante
pela oportunidade das pessoas debaterem o sistema eleitoral, entre outras coisas. Eu, então,
consultei minhas parceiras do Grupo Pesquisação sobre o que elas achavam da proposta de
alterar a ideia da programação. Elas não titubearam e incluíram a peça Confirma? na
programação, considerando muito importante discutir o tema. Ainda quis insistir pela ideia
inicial, mas as parceiras não abriram mão da peça. Fiz uma reflexão no sentido de que se a
programação estava sendo organizada pela comunidade, ela tinha - inclusive - total liberdade
para incluir outros grupos, sendo ou não da região, contrariando a proposta de uma
programação exclusivamente local (será que essa proposta tinha sido muito mais minha,
individualmente?), o que denotava a autonomia cada vez maior do coletivo no decorrer do
projeto.

A comunidade organizou uma bela programação cultural. A começar pela


poetisa que ensaiou com três garotas (de 9, 12 e 13 anos) – entre elas, duas netas – várias
partes de uma apresentação tradicional de dramas populares (canto e dança), confeccionou as
saias de papel crepom – “do jeito que era nos drama de verdade”, de acordo com ela –, e foi
nos apresentando aquele universo de histórias. Era emocionante ver aquelas garotas – a
despeito de possíveis comentários maldosos das colegas (diziam que dramas populares era
“coisa de velho”) – cantar e dançar peças culturais já esquecidas, ou não conhecidas, da maior
parte das pessoas da região. Em uma das entrevistas com a poetisa e sua filha (citada
anteriormente, realizada em 02/08/2014), sobre os dramas, a poetisa já se queixara que os
jovens ali na comunidade só queriam saber de forró (referindo-se não ao forró tradicional,
mas às festas costumeiramente frequentadas pelos jovens), então imagino o quanto aquele
momento foi significativo também para ela. Essa apresentação aconteceu na casa da poetisa,
no fim da tarde do dia 26 de setembro de 2014, para um grupo pequeno de pessoas, entre
moradores e alguns artistas que iam participar da programação da noite.

23
Mais tarde, na Praça do Tomé, tivemos uma tocante e longa programação com
aproximadamente três horas de duração e um público médio de 250 pessoas. Para além da
peça teatral Confirma?, do grupo de Caucaia, tivemos um poema de nossa poetisa (sobre as
eleições no Brasil), cinco textos escritos e apresentados por jovens das escolas das
comunidades do Tomé e de Cercado do Meio, pernas de pau, um imitador de cantos/assobios
de pássaros, engolidores de fogo, malabaristas, palhaços, músicos, e uma dezena de figuras
interessantíssimas do Boi Mirim de Quixeré, que encerrou a festa daquela noite memorável. A
noite foi também memorável por um fato menos poético, muito diverso de um mundo tão
cheio de boniteza que estava sendo apresentado ali. Em determinado momento, um grande
número de ônibus, carros, motocicletas passaram anunciando um comício político, em volume
máximo, impossibilitando as apresentações. Temíamos que aquilo esvaziasse nossa
programação, mas, felizmente, isso não aconteceu. Passada a carreata, nossa praça recobrou a
atenção e permaneceu ali todo o tempo para contemplar as produções artísticas de seus
conterrâneos. A gestora da escola, integrante do Grupo Pesquisação, em depoimento no dia
posterior ao da apresentação, refletiu:

Eu até comentei que quando passaram os carros algumas pessoas iam sair, mas não,
quem estava aqui não saiu pra ir pra lugar nenhum. A gente começou com um
público e com aquele público terminou. E foi extenso ontem, eu até disse pro Toinho
[coordenador do Boi Mirim] pra ir um pouco mais rápido, porque sendo muito
extenso ia cansar o pessoal, tinha muita criança... mas, mesmo assim, ficamos até o
final, firme e forte. (...) então, é claro que isso é um ponto positivo pro trabalho e pra
todo o projeto, pra toda a ideia. A gente tira por ontem que foi um dos dias que tinha
mais gente, mesmo com o movimento de política e tudo o mais. (depoimento de L.,
gestora da escola e integrante do Grupo Pesquisação, durante entrevista coletiva, na
comunidade do Tomé, em 27/09/2014).

Abro outro parêntese (eu, Fernando) para falar da emoção daquele momento.
Ao final do espetáculo, fui parabenizar Toinho de Toni, do município de Quixeré, multi-
artista virtuoso, organizador do Boi e de várias daquelas apresentações, e lhe falei o quanto
estava impressionado com aquilo tudo, que tinha sido uma das noites mais tocantes de minha
vida cultural. Ele, por certo, não entendia o meu espanto e meus olhos marejados. Ou, talvez,
ele – intuitivo como era – muito tranquilamente me compreendia a emoção, e sabia que
choramos diante da beleza porque “ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de
eternidade” (ALVES, 1995, p. 107), em meio a essa nossa vida tão efêmera. Apenas me
abraçou.

24
Figura 6 - Garotas apresentando trechos de Dramas Populares, na comunidade do Tomé (2014)

6. Refletindo e avaliando resultados junto à comunidade

Após a quinta programação cultural, realizamos uma entrevista coletiva, no dia


27 de setembro de 2014, com sete moradores da comunidade do Tomé e alguns jovens artistas
que tinham participado da programação da noite anterior. Nos seis meses de projeto até aquele
momento, a comunidade se mostrara mais claramente e queríamos ouvir sua avaliação do que
estava se dando a partir das ações de mediação cultural. Alguns moradores já percebiam
mudanças bastante significativas, no plano coletivo, com novos hábitos que iam se
consolidando; também no plano mais individual, em relação a certas posturas e reflexões
acerca das obras apresentadas.

Uma das principais mudanças percebidas pela comunidade tinha relação com o
fato de que muitas pessoas evitavam sair de suas casas à noite, preocupadas com o aumento
da violência, o que impedia uma vivência social. Segundo moradores, após às 19h., em dias
comuns, há pouca gente na rua. Porém, nos dias em que organizamos as programações
culturais, tivemos um significativo movimento na comunidade, com uma reunião de 120 a
250 pessoas, aumentando a cada edição, entre 19h. e 22h., a participar ativamente da ação
cultural proposta. Essa mudança ficou bastante clara, pois, num depoimento de S., integrante
da associação comunitária, ligada ao Grupo Pesquisação:

Tem gente que não sai de dentro de casa, às vezes tem medo até de vir pra Igreja.
Diz: “não vou pra igreja, não, porque tem muito movimento na estrada, eu tenho
medo”. E se tranca, realmente, no seu mundo. Mas quando apareceu agora o

25
“teatro”12, sempre tão vindo. Aí a gente disse: “ah, agora você saiu de casa”; Ela
disse: “no meio de tanta desgraça, pelo menos a gente pode rir de alguma coisa, pra
distrair a mente!” (depoimento de S., integrante da associação comunitária, durante
entrevista coletiva, na comunidade do Tomé, em 27/09/2014).

A entrevista seguia falando acerca do fenômeno da violência, e percebíamos


que outra mudança estava se processando. Havia um incômodo da comunidade diante de
tantos comentários que imputavam ao Tomé a pecha de uma comunidade perigosa. Diz uma
moradora, “a gente é vista como uma comunidade violenta, uma comunidade sangrenta. O
povo diz: ‘você mora lá naquele Tomé? Ave Maria, tenho medo até de falar no nome, porque
ali é muito violento. Como é que você consegue viver lá?’”, diz Dona R., moradora. A
mudança já percebida por alguns moradores tratava da percepção da comunidade do Tomé
pelos próprios moradores e entre as comunidades vizinhas. Moradores do Tomé já diziam –
com certo orgulho – que pessoas das comunidades do entorno perguntavam muito sobre o
projeto de arte. Diz uma das moradoras que uma “comadre” de outra comunidade perguntou
se esse “teatro” não podia ir nem um dia pra lá. “A gente passa agora a divulgar as coisas boas
também. As coisas boas que acontecem, as coisas que as pessoas da comunidade sabem
fazer”, diz L., gestora da escola e integrante do Grupo Pesquisação.

Em determinado momento desse encontro, o grupo é surpreendido pelo pedido


de fala de uma jovem atriz de Fortaleza, que tinha se apresentado na programação cultural da
noite anterior. Diz a jovem,

nada se compara à grandeza de receber o outro, e aqui eu fui muito bem recebida e
senti toda a força de vocês. Eu queria poder passar mais tempo aqui no Tomé, morar
um tempo aqui, fazendo um trabalho de arte na escola, com as crianças.
Infelizmente, eu não posso. Só posso dizer obrigada por tudo. (depoimento de M.,
aluna do curso de Licenciatura em Teatro/IFCE, durante entrevista coletiva, na
comunidade do Tomé, em 27/09/2014).

Essa fala e alguns relatos escritos de alunos da Licenciatura em Teatro que lemos para o
grupo fizeram essas pessoas abrirem um belo sorriso. E não tínhamos como não lembrar que
“o sorriso, mais que o riso ou o pranto, é a mais suave forma de se dar razão à vida” (BOAL,
2003, p. 11).

12
Os moradores da comunidade chamavam as programações culturais genericamente de “teatro”, a despeito
de terem sido apresentadas obras de diversas linguagens artísticas. Possivelmente, porque as primeiras
apresentações eram peças teatrais. De todo modo, é interessante se pensarmos que o termo teatro deriva do
grego e se refere a “lugar de onde se vê”.
26
As falas dos moradores também apresentavam novas posturas num plano mais
individual, em relação às obras culturais, e inclusive por parte de crianças, conforme o relato
de uma moradora que participou de todas as programações. Diz a moradora,

O que eu observei lá onde eu tava sentada foi as crianças... tinha gente fazendo
zoada... e elas [crianças]: “‘psiu’, cala a boca, eu quero assistir”.Aí teve uma mulher
que disse: “eu tô com 30 anos, nunca meu pai mandou eu calar a boca quem é você
pra mandar eu calar a boca?” (risos)... aí ela disse: “pois então se arretire daí, se
você não veio pra assistir, eu quero assistir”. As crianças, né, pequenas, e elas lá,
olhando, dando risada, e reclamando com o adulto que tava fazendo zoada. Quer
dizer, elas tavam prestando atenção e tava gostando. (depoimento de Dona R.,
moradora da comunidade, durante entrevista coletiva, na comunidade do Tomé, em
27/09/2014).

A situação demonstra o interesse de uma plateia diante do que é apresentado, exigindo que o
indivíduo que faz barulho e está desatento se retire a fim de não perturbar a recepção. Essa
atenção também pode ser percebida em certo grau de apreensão da obra pelo espectador, ao
criar, por exemplo, conexões com o mundo real. As programações culturais faziam parte,
definitivamente, das conversas cotidianas dos moradores, como um estímulo para a percepção
da realidade. Diz L.,

(...) ontem tinha uma senhora que disse assim: “Ave Maria, esse pessoal [o grupo de
teatro] tá dizendo tudo o que é verdade, porque semana passada o candidato fulano
passou na minha porta e disse essa mesma coisa, e eu sei que é mentira, porque ele
não vai fazer mesmo” [referindo-se à peça teatral ‘Confirma?’, do Grupo Mandacaru
de Arte, sobre o voto consciente]. Então, assim, de uma maneira lúdica, de uma
maneira criativa, está despertando a consciência do povo. (depoimento de L., gestora
da escola e integrante do Grupo Pesquisação, durante entrevista coletiva, na
comunidade do Tomé, em 27/09/2014).

7. Concluindo a ação e a pesquisa

Em 10 de dezembro de 2014, retornamos à comunidade para montarmos uma


exposição de fotografias das cinco programações culturais realizadas, apresentarmos um
grupo de dramistas das comunidades de Lagoa da Casca e Carnaúbas (comunidades do
entorno do Tomé), um outro grupo de dramistas do município de Itaitinga, e uma cantoria
com os repentistas Geraldo Amâncio e Zé Vicente. Foi bonito ver os moradores do Tomé
apontando os conhecidos nas fotografias, cantarolando as canções dos antigos dramas,
sorrindo com o desafio poético dos cantadores repentistas. Foi bonito acompanhar as
senhorinhas dramistas de Itaitinga numa visita a um casal bastante idoso do Tomé, ouvir as
histórias que Geraldo Amâncio contou no fim da tarde para alguns moradores, sentir o
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cuidado e a disposição dos companheiros do Núcleo Tramas que ali estiveram para prestigiar
a finalização da pesquisa-ação. Foi bonito estar mais uma vez com todos os parceiros da
comunidade do Tomé a construir mais uma programação, uma articulação e uma outra
percepção de si e do lugar em que vivem.

Figura 7 - Crianças visitam a exposição de fotografias da pesquisa-ação, na Comunidade do Tomé (2014)

Se a proposta, desde o início, era desenvolver uma ação política, estamos


certos de que isso aconteceu. Sem denúncia, sem dedo em riste, sem os estereótipos que
imputam à arte dita engajada. De outro modo, nossa ação política, amorosa, fundada no
diálogo, na cocriação, na certeza de que a esperança gesta a utopia, ofereceu momentos – por
pequenos que fossem – de dignidade, de beleza, de humanidade, e assim levou as pessoas a se
reconhecerem mais dignas, belas e humanas. Nossa pesquisa-ação em mediação cultural
cumpriu com os objetivos de favorecer o acesso às expressões artísticas em sua diversidade,
promover o diálogo intercultural, estimular a criatividade, apresentar informações com
conteúdos da arte e da educação, valorizar e estimular as produções artístico-culturais locais,
mas fez mais. Por exemplo, possibilitou que uma senhora superasse o medo de sair de casa e
hasteasse a bandeira da coragem; conduziu pessoas pela sensação de se orgulhar do seu
território e querer defendê-lo; ofereceu determinação e afoiteza a um garoto que pediu para
um adulto se retirar pois o estava atrapalhando no sério ato de ver um palhaço fazer graça;
instigou uma mulher a não votar num candidato falacioso.

Canclini nos indaga em sua obra: “como suscitar, a respeito do modo de vida
que nos foi imposto mas que assimilamos como próprios, o distanciamento necessário para
que surja a visão crítica?” (CANCLINI, op. cit., p. 37). Tendo vivenciado essa pesquisa-ação,
cremos ainda mais no potencial emancipatório da arte. Concebemos mais claramente o que

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diz Boal ao afirmar que “uma estética democrática, ao tornar seus participantes capazes de
produzir suas obras, vai ajudá-los a expelir os produtos pseudoculturais que são obrigados a
tragar no dia-a-dia dos meios de comunicação, propriedade dos opressores” (BOAL, 2009, p.
167). Isso quer dizer que as classes oprimidas precisam se apropriar da palavra, da imagem,
do som, em suma, do capital cultural, não para assumir a cultura da elite, mas para não se
deixar manipular por ela, e para, crítica e livremente, estabelecer sua própria cultura. Cultura
que, sendo diversa, é respeitada em sua diversidade; que se desenvolvendo autonomamente,
possa estabelecer relações interculturais; que não sendo autossuficiente, não lhe sejam
impostas trocas materiais e simbólicas desiguais.

Nossa pesquisa-ação na comunidade do Tomé, por um lado, identificou a


ausência de programações artísticas e culturais na região, a carência de formação para
professores na área de artes, as escassas oportunidades de fruição e produção artística
oferecidas às crianças e aos adolescentes pelas escolas públicas, a construção de um ideário
que estabelece as expressões populares como “atrasadas”, “coisa de velho”, “incultura”
levando ao desaparecimento de um legado cultural de valor inegável, como resultado do
modelo hegemônico e desigual de desenvolvimento capitalista, que busca a homogeneização
de produção para atender à sua lógica monopolística; por outro lado, assumiu a frente de
oferecer possibilidades de acesso, de informação, de formação e de produção artístico-
cultural, no período de março à dezembro de 2014, proporcionando uma experiência de
democratização de arte e cultura, com a finalidade de contribuir para o fortalecimento
comunitário a partir do desenvolvimento de uma consciência crítica e estética. O cantador
Geraldo Amâncio, em cantoria realizada no Tomé, por ocasião da última programação
cultural no âmbito desta pesquisa, sintetiza em uma estrofe parte da história da comunidade e
as mudanças conquistadas: “Aqui houve um grande abalo / Pra o povo desse ambiente, /
Quem chorava antigamente / Já, hoje em dia, não chora. / Houve uma grande melhora, / Tem
cultura e tem poesia”.

Trata-se, logicamente, dos primeiros resultados, pois, estamos certos de que um


trabalho dessa magnitude não poderia estar concluído, ou, como proposto pela metodologia da
pesquisa-ação, deveria se reiniciar o ciclo (planejamento, tomada de decisão, encontro dos
fatos) após sua conclusão. Porém, chegando ao fim nosso processo de estudos no Curso de
Especialização em Cultura Popular, Arte e Educação do Campo – Residência Agrária,
estabelecemos o fechamento dessa etapa, a fim de socializar tais resultados, em gratidão pela

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confiança depositada em nós pela comunidade e por tantos parceiros e com a esperança de
referenciar futuros trabalhos de companheiros de anuncio da causa da emancipação humana
por meio da arte.

8. Referências bibliográficas

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