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Fichamentos artigos famílias

[...] muitas vezes as rotinas de trabalho dentro das empresas, estabelecidas em épocas
anteriores, dificultam em vez de facilitar o equilíbrio entre trabalho e família. Por isso, a
combinação de demandas pode resultar em níveis médios ou altos de estresse entre
funcionários, os quais podem reduzir o desempenho profissional e deteriorar
relacionamentos no trabalho e na família, além de contribuir para o desenvolvimento de
problemas de saúde (BARHAM; VANALLI, 2012, p. 48).

A discussão sobre as necessidades dos trabalhadores em relação às suas obrigações


trabalhistas e familiares se deu a partir da década de 1690, em que se notou a ampliação
da inserção das mulheres no mercado de trabalho. Ou seja, a partir do fortalecimento da
inserção da mão-de-obra feminina, à qual se atribuíam (e ainda se atribuem) as funções
de cuidado para com as crianças e os idosos no ambiente doméstico, que se começaram
a pautar a importância de conciliação das necessidades do trabalho e da família
(BARHAM; VANALLI, 2012).

“[...] as famílias estão dando apoio e incentivo em proporções mais iguais às filhas e aos
filhos em relação à formação escolar, para eles estarem igualmente bem qualificados
para competir no mercado de trabalho (BARHAM; VANALLI, 2012, p. 49).

Certamente, há de se ressaltar os atravessamentos de gênero na composição da mão-de-


obra empregada no mercado formal de trabalho: às mulheres são “delegadas” as funções
domésticas e do cuidado para com os filhos, em detrimento de sua projeção na carreira.
Escutamos de todas as esposas o desejo de retornar ao mercado de trabalho, mas sua
impossibilidade mediante essas tarefas que lhe competem no cotidiano. Há uma
dificuldade de reinserção profissional também em razão do contexto socioeconômico,
de poucas ofertas (ver dados), além da ausência de redes ou equipamentos públicos ou
privados para cuidarem de seus filhos enquanto ambos os pais estão trabalhando.
“No geral, o trabalho remunerado representa independência econômica na vida adulta e
traz reconhecimento social e maior satisfação pessoal. A ampliação de seus
conhecimentos, sua gama de atividades e seus contatos sociais conduzem à formação de
uma identidade profissional e proporciona sentimentos de autonomia e utilidade. Desse
modo, aumenta o senso de competência, o que melhora a autoestima, trazendo
benefícios para o desempenho nos papéis familiares também” (BARHAM; VANALLI,
2012, p. 50).

Dentre as inúmeras considerações teórico-empíricas sobre a relação entre as esferas do


trabalho e da família, do ponto de vista gerencial, destacamos duas perspectivas: a do
“transbordamento” ou “contaminação” e a da compensação (ZEDECK; MOSIER apud
BARHAM; VANALLI, 2012). A primeira diz respeito à ideia de que trabalho e família
são duas esferas de ação completamente distintas e que não podem se envolver,
mediante o prejuízo de ambas nesse contato. Daqui deriva a noção de que não se devem
levar os problemas de casa para o trabalho, fala corrente dos trabalhadores com os quais
conversamos. A segunda diz respeito à ideia de que trabalho e família são esferas
complementares para garantir realização e prazer pessoais e profissionais, sendo que é
esperado dos trabalhadores que tenham uma participação “equilibrada” em ambos. Esta
segunda perpassa sobretudo a fala dos gestores que coordenam o projeto de qualidade
de vida e produtividade que integramos.
Aqui, adotamos a perspectiva de que o universo da família e o universo do trabalho
coexistem em um espaço social, econômico, político, cultural, interpessoal e
intrapessoal, se afetando mutuamente. Ilustrar com o estresse dos familiares e dos
operadores mediante o problema das casas. Como destacam Barham e Vanalli (2012, p.
53):

Demandas simultâneas no âmbito familiar e no trabalho, e a sobrecarga de


responsabilidades (quando as do trabalho estão somadas às familiares) podem gerar
conflitos, sendo que esses conflitos implicam em uma variedade de custos pessoais e
profissionais.

BARHAM, Elizabeth Joan; VANALLI, Ana Carolina Gravena. Trabalho e família:


perspectivas teóricas e desafios atuais. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho,
Florianópolis, v. 12, n. 1, p. 47-59, abr. 2012. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-
66572012000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 08 abr. 2018.

Paschoal e Tamayo (2005)


(PASCHOAL; TAMAYO, 2005)
(PASCHOAL; TAMAYO, 2005, p. )
Autores como Paschoal e Tamayo (2005) fazem uso do conceito de estresse ocupacional
como uma ocorrência relacional, na qual estão em jogo o contexto de trabalho e o
sujeito, relação da qual pode-se elencar variáveis mutuamente afetáveis, como, por
exemplo, a sobrecarga e a pressão de trabalho, por um lado; as questões familiares e o
estado de saúde mental do sujeito, por outro. Uma definição: “[...] estresse ocupacional
como um processo em que o indivíduo percebe demandas do trabalho como estressores,
os quais, ao exceder sua habilidade de enfrentamento, provocam no sujeito reações
negativas” (PASCHOAL; TAMAYO, 2005, p. 174).
Paschoal e Tamayo (2005) destacam o suporte social como fator desencadeador
ou protetor em relação ao estresse ocupacional, conforme se manifesta no cotidiano de
trabalho.

Quando o suporte social está bem desenvolvido na organização, ele tem um efeito
protetor que se manifesta em baixos níveis de estresse, ou seja, quanto maior o nível de
suporte social no ambiente organizacional, menor o nível de estresse no trabalho. Por
outro lado, quando o suporte social é inexistente ou deficitário na organização, este fator
transforma-se num estressor (PASCHOAL; TAMAYO, 2005, p. 174).
O desempenho no trabalho, em diversos estudos, é afetado pela interferência das
demandas familiares no contexto de trabalho, de modo que o diminui, enquanto que p
desgaste do trabalhador aumenta (PASCHOAL; TAMAYO, 2005).

PASCHOAL, Tatiane; TAMAYO, Alvaro. Impacto dos valores laborais e da


interferência família: trabalho no estresse ocupacional. Psicologia: Teoria e Pesquisa,
Brasília, v. 21, n. 2, p.173-180, ago. 2005. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
37722005000200007&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 26 abr. 2018.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722005000200007.

OIT

O texto da OIT “Trabalho e responsabilidades familiares: novos enfoques” (2009)


destaca a dimensão do tempo, enquanto um bem, que é equalizado pelos sujeitos em sua
relação com o trabalho (esfera pública) e com sua família (esfera privada). Já em 1981
discutia-se o assunto, mediante a criação da Convenção n. 156, que:

[...] estabelece a obrigação dos Estados de incluir, entre os objetivos da sua


política nacional, medidas para permitir que pessoas com responsabilidades
familiares possam exercer seu direito de assumir um emprego sem serem
discriminadas e sem conflitos com suas responsabilidades familiares e
profissionais. Prevê também que os Estados devem implementar medidas
para permitir às pessoas a livre escolha de ocupações, o acesso à educação e a
reintegração à força de trabalho após uma ausência em função de
responsabilidades familiares. Contempla, ainda, a adoção de medidas com
relação ao desenvolvimento de serviços comunitários, públicos e privados de
assistência à infância e à família que levem em conta as necessidades desse
grupo de trabalhadores e trabalhadoras. Por último, assinala claramente que
as responsabilidades familiares não devem constituir, por si só, uma causa
para demissão (OIT, 2009, p. 1).

As denominadas responsabilidades familiares são de fundamental importância para o


desenvolvimento das atividades rentáveis economicamente, uma vez que se trata do
cuidado para com crianças e pessoas com deficiência e/ou doença, fundamental para
que as sociedades funcionem. É importante ressaltar que a despeito do ingresso das
mulheres no mercado de trabalho, para além do âmbito doméstico, são poucas as
iniciativas em termos de oferta de condições efetivas para essa jornada, como a
construção de creches, bem como, ainda, vemos desigualdade na distribuição de tarefas
domésticas e responsabilidades familiares entre cônjuges (OIT, 2009).

A esposa trabalhava na mesma empresa, até o momento em que seu setor foi
extinto e todos foram demitidos. No momento, está desempregada, mas diz que quer
voltar a trabalhar, que sente muita falta, já que trabalhou a vida toda e também por ficar
muito sozinha em casa, sem ter com quem conversar.

Sobre o desejo das mulheres de trabalharem e estudar. Justificar com isso:

As mulheres têm menos tempo ou recursos para investir no desenvolvimento


empresarial e na formação profissional. A sobrecarga, portanto, de
responsabilidades familiares está na base das discriminações e desvantagens
que as mulheres experimentam no mercado de trabalho (OIT, 2009, p. 3).

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Trabalho e família:


rumo a novas formas de conciliação com responsabilidade social. Brasília, 2009.

O desenvolvimento de competências profissionais e constituição de carreira no contexto


de trabalho se dá em detrimento do nível e da qualidade da interação familiar (ROCHA
et al., 2011).

Sobretudo no que diz respeito ao relacionamento entre par parental e filhos, observa-se
os atravessamentos da ordem da intensificação da jornada de trabalho, das jornadas
múltiplas de trabalho, do modo de organização do tempo de trabalho (turnos, por
exemplo), como fatores componentes dessa interação (ROCHA et al., 2011).

Para justificar os valores partilhados pelas famílias

[...] o relacionamento familiar propicia a construção da identidade pessoal e


profissional, por meio da relação entre as gerações, que congregam rituais e
rotinas contínuos no núcleo familiar e fornecem características relevantes
para definição do comportamento pessoal, profissional e social (ROCHA et
al., 2011, p. 374).

Uma das considerações derivadas da pesquisa realizada por Rocha e outros (2011) sobre
as influências recíprocas entre trabalho e vida em família, por mães e pais trabalhadores,
se trata da percepção de cansaço mental e físico relacionado ao trabalho “[...] na
causalidade de desânimo e irritabilidade nas atividades familiares” (p. 375).

MORÉ, Carmen Leontina O. O.; CREPALDI, Maria Aparecida. O mapa de rede social
significativa como instrumento de investigação no contexto da pesquisa qualitativa.
Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 43, p. 84-98, ago. 2012. Disponível em:
<http://www.revistanps.com.br/index.php/nps/article/viewFile/265/257>. Acesso em:
20 abr. 2018.

As redes sociais são para o sujeito tanto fonte de apoio, que recebe, quanto que percebe,
se constituindo em componente de qualidade de vida, de interação e desenvolvimento
humano. A diversificação e a estabilidade de tais redes sociais, portanto, se trata de um
fator protetivo à saúde humana (MORÉ; CREPALDI, 2012; JULIANO; YUNES,
2014).

Pode-se definir redes sociais como um conjunto de relacionamentos interpessoais


significativos para um sujeito, uma família ou uma comunidade, do ponto de vista do
suporte social, material e emocional, que se constitui como rede de apoio e
compromisso mútuos conforme as situações vivenciadas no cotidiano, fortalecendo os
recursos pessoais e sociais para o enfrentamento de tais situações (MORÉ; CREPALDI,
2012).

Juliano e Yunes
(JULIANO; YUNES, 2014)

JULIANO, Maria Cristina C.; YUNES, Maria Angela M. Reflexões sobre rede de apoio
social como mecanismo de proteção e promoção de resiliência. Ambiente &
Sociedade, São Paulo, v. 17, n. 3, p. 135-154, set. 2014. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
753X2014000300009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 19 abr. 2018.

Como seres sociais, as pessoas desenvolvem, ao longo de sua história e conforme cada
momento de seu ciclo vital, estratégias diversas para lidar com os recursos disponíveis
em seu contexto a partir dos vínculos que estabelece, de modo a construir maior
satisfação consigo mesmo em termos de qualidade de vida e de saúde (autoestima,
resiliência, autonomia) (JULIANO; YUNES, 2014).

Como a falta de apoio afeta as famílias, coloca situações de risco:

Sabe-se que a necessidade de apoio aumenta em determinadas circunstâncias


e fases da vida [...] [podendo] caracterizar-se como risco a depender das
circunstâncias associadas às percepções e crenças individuais construídas nos
diferentes universos culturais aos quais as pessoas e grupos pertencem
(JULIANO; YUNES, 2014, p. 137).

Juliano e Yunes (2014) indicam a convivência como elemento de promoção da


reciprocidade, da experimentação de papeis, possibilidade de desenvolvimento mútuo,
de prevenção de riscos e violências. Conectar à fala sobre morar no condomínio da
empresa. Sentir-se pertencente a uma rede de apoios múltiplos, diminuindo a
impotência do desamparo.

Para justificar situação de estresse relacionado às casas:

A análise dos fatores de risco não deve ser realizada de forma estática, pois
os mesmos representam processos dinâmicos e subjetivos. Assim, o impacto
destes depende, por exemplo, do número total de fatores de risco a que uma
pessoa foi exposta. Importa ainda, o período de tempo, a fase de
desenvolvimento humano, o momento da exposição e o contexto e grau de
gravidade da exposição para a pessoa (ENGLE; CASTLE; MENON, 1996;
RUTTER, 1987; YUNES; SZYMANSKI, 2001). Vale salientar que, a
percepção e a interpretação individual de experiências negativas, o sentido
atribuído a um evento estressor e/ou um ambiente relacional percebido como
adverso é que o classificará ou não a condição de estresse (JULIANO;
YUNES, 2014, p. 138).
.
Em consideração à dimensão interpessoal inerente à constituição de redes sociais de
apoio mútuo, é preciso destacar o papel da comunidade local, do Estado, via município,
e da organização/empresa como pontos privilegiados, neste caso aqui estudado, para
conexão no sentido da promoção de solidariedade para com as famílias dos
trabalhadores.

Para explicar técnica brainstorming


Essa técnica é conhecida como “tempestade de ideias”, propicia a emergência do maior
número de ideias possível em determinado tempo e sobre determinado assunto. Quando
em grupo, se torna mais produtiva por haver troca de experiências e o estímulo a novas
percepções, portanto, se trata de um processo criativo (CIARLINI, 2014).

Territórios
Os territórios constituem-se em espaços-vivências complexos, por abarcar tanto um
espaço físico e geográfico, quanto a experiência e a história pessoais e intersubjetivas de
cada pessoa, dos coletivos a que pertencem. Envolve, portanto, memória e identidade.
“[...] é importante ressaltarmos não apenas a existência de vínculos afetivos com o
ambiente, mas também a relevância desses vínculos para a qualificação da existência
humana. O lugar em que se vive vai além de um espaço físico, ele corresponde ao
território das relações que se estabelecem com a rede de afinidades e diferenças, que
servem como base para a construção da identidade sociocultural” (FERRAZ et al.,
2017, p. 1038).
Em estudo com famílias residentes em região de mineração de urânio (FERRAZ et al.,
2017), foi verificada realidade semelhante, no que diz respeito à abertura econômica
gerada pelo processo de instalação de grandes empresas, seguida de um vácuo político e
socioeconômico. Gera-se empregos temporariamente, terceirizados, normalmente;
busca-se mão de obra qualificada não local; expõe-se populações locais a condições de
vulnerabilidade, em razão da ausência, ou precariedade, de políticas públicas efetivas de
emprego, saúde, cidadania, segurança e meio ambiente.

Tornar públicas essas questões produz visibilidade às disputas entre as populações


vulneradas, as empresas, as instituições regulatórias e o Estado, o que pode fortalecer
estratégias locais, globais e propiciar um debate amplo sobre o real sentido da
democracia, sustentabilidade e justiça (FERRAZ et al., 2017, p. 1043).
Diante de tal complexidade, é preciso evidenciar a dimensão relacional componente dos
territórios, que são vivos e dinâmicos, podendo assegurar proteção social, produção de
saúde e de solidariedade. “Esta sociabilidade do cotidiano é constituída de pessoas,
empresas, instituições, formas sociais e jurídicas e formas geográficas” (LIMA; YASUI,
2014, p. 597).

FERRAZ, Carla Eloá de Oliveira et al. Partir e ficar de famílias em território marcado
pela mineração de urânio: estudo merleau-pontyano. Saúde em Debate, Rio de Janeiro,
v. 41, n. 115, p. 1033-1045, dez. 2017. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/sdeb/v41n115/0103-1104-sdeb-41-115-1033.pdf>. Acesso
em: 02 mai. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/0103-1104201711504

LIMA, Elizabeth Maria Freire de Araújo; YASUI, Silvio. Territórios e sentidos: espaço,
cultura, subjetividade e cuidado na atenção psicossocial. Saúde em Debate, Rio de
Janeiro, v. 38, n. 102, p. 593-606, set. 2014. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/sdeb/v38n102/0103-1104-sdeb-38-102-0593.pdf>. Acesso
em: 10 mai. 2017. http://dx.doi.org/10.5935/0103-1104.20140055