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ERNEST WOOD

OS SETE RAIOS

Tradução de
JOAQUIM GERVÁSIO DE FIGUEIREDO

EDITORA PENSAMENTO
SÃO PAULO

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Título do original:
THE SEVEN RAYS

Publicado por Theosophical Publishing House, Adyar, Madras 600020, Índia


1ª Edição 1925
2ª Edição 1926
3ª Edição 1928

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"UMA OBRA IMPORTANTE. ILUMINATIVA"
Revmo. C. W. Leadbeater

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SUMÁRIO

PARTE I
A ORIGEM DOS RAIOS

I. A Coluna de Luz 07
lI. Consciência 09
III. O Poder do Pensamento 11
IV. O Poder do Amor 15
V. O Poder da Vontade 18
VI. Matéria, Energia e Lei 22
VII. O Divino e o Material 25
VIII. Harmonia 28
IX. Os Sete Raios 31
X. Relações Recíprocas 34
PARTE II
OS SETE RAIOS
XI. O primeiro Raio 39
XII. O Segundo Raio 45
XIII. O Terceiro Raio 51
XIV. O Quarto Raio 54
XV. O Quinto Raio 58
XVI. O Sexto Raio 61
XVII. O Sétimo Raio 64
XVIII. Quadro Sinótico de um Mestre 69

PARTE III
A GRANDE UTILIDADE E PERIGO DO CONHECIMENTO DOS RAIOS
XIX. Vosso Raio 77
XX. Progresso sem perigo 81
XXI. Etapas do Conhecimento de Si Mesmo 85
Glossário 89

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PARTE I
A ORIGEM DOS RAIOS

Existem sete Forças no Homem e em toda a Natureza. A substância real do


Oculto (o Sol) é um núcleo de Substância-Mater. Ela é o Coração e a Matriz de
todas as Forças vivas existentes em nosso Universo Solar. E a Semente da qual
procedem e se propagam em suas viagens cíclicas todos os Poderes que ativam
os Átomos em suas diversas funções, e é o Fogo dentro do qual eles se reúnem
de novo em sua Sétima Essência, cada undécimo ano. Quem te disser que viu o
Sol, ri dele, como se houvesse dito que o Sol se move realmente em seu curso
diurno. ...
É por causa desta natureza setenária que os antigos se referiam ao Sol como
sendo alguém que é puxado por sete cavalos iguais aos metros dos Vedas; ou,
também, que, embora ele seja identificado com os sete Gana (Classes de Seres)
em seu orbe, é distinto deles, como o é em verdade; assim como tem Sete Raios,
e realmente os tem ...
Os Sete Seres no Sol são os Sete Santos, auto-engrendrados do poder
inerente à Matriz da Substância-Mater. São eles que emitem as Sete Forças
principais, chamadas Raios, que, no início do Pralaya, se concentrarão em sete
novos Sóis para o próximo Manvântara. A energia da qual se lançam à
existência consciente em cada Sol é a que alguns chamam Vishnu, que é o
Alento do Absoluto.

Aforismos Ocultos citados em A Doutrina Secreta, de H.P.B., (Vol. 2, pp. 216/17). Ed.
Civilização Brasileira.
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CAPÍTULO I

A COLUNA DE LUZ
Ao escrever o que se segue para expor as que, espero, sejam ideias claras sobre os sete
raios, não vejo meio de prescindir de certas matérias de caráter abstrato, e, sobretudo, a
referente à afirmação da universalidade de Deus ou Brahman, a Quem alguns consideram
como se estivesse longíssimo, num plano superior e em lugar além de nossa visão. O certo
é que Sachchidananda Brahman (1) está ante nós e diariamente conosco.
Se analisamos o mundo de nossa experiência, vemo-lo composto de três partes: a
primeira é uma grande massa de objetos de toda classe, materiais em todos os planos,
mesmo nos superiores. Em segundo lugar, há um vasto número de seres viventes, com
diversos graus de consciência. Em terceiro lugar, cada qual se vê a si próprio.
Compreender-se-á isto melhor ao recordar-se a história da grande coluna de luz. O
excelso Ser Narayana, Vishnu, alma e vida do universo, o de mil olhos e onisciente, estava
reclinado em seu leito, o corpo da enorme serpente Shesha ou Ananta, o tempo sem fim,
que jazia enroscada sobre as águas do espaço, porque era a noite da existência. Então
Brahmâ, o grande criador do mundo da existência, chamado Sat, chegou-se a Vishnu, e,
tocando-lhe com a mão, disse-lhe: "Quem és?" Suscitou-se entre ambos um debate a
respeito de quem era o maior, e, enquanto prosseguia o debate com risco de inflamar-se,
apareceu diante deles uma grande coluna de fogo e luz, incomparável e indescritível, que
deixou atônitos os contendentes até o ponto de desistirem de sua disputa e convierem em
buscar as extremidades de tão admirável coluna. Vishnu a esteve explorando para baixo
durante mil anos, sem encontrar a base, e Brahmâ a esteve explorando para cima durante
também mil anos, sem encontrar o capitel. Ambos ficaram contrariados. Então Sbioa, cuja
natureza é ananda (bem-aventurança), surgiu diante deles e lhes explicou que eles dois
eram um nele, seu Super-senhor, a coluna de luz, que era três em um; e que, em futura
idade, Brahmâ nasceria de Vishnu e que Vishnu o criaria até que ao fim da idade ambos
voltariam a ver o seu Super-senhor.
Alguns imaginam que ascendendo acharão a Deus; mas a verdade é que, ainda que
descessem de seu presente estado e buscassem durante mil anos, não poderiam
encontrar-Lhe o fim. Isto não significa que Deus esteja aqui, mas invisível e desconhecido
de nós, senão que está aqui, visível e conhecido, porque o mundo que vemos é Seu sat e a
consciência pela qual conhecemos o mundo visível é Seu chit, e o eu que não podemos
deixar de reconhecer em nós é Seu ananda. Cada um de nós está naquela coluna de luz,
onde quer que se mova no espaço da existência ou onde quer que vá no tempo da
consciência. Ninguém pode escapar destas três realidades. Ninguém pode dizer: "eu não
sou", nem "sou inconsciente", nem deixar de conhecer o mundo exterior da existência
Embora haja milhões de mundos nos mundos e seres nos seres, em toda parte estão
presentes sat, chit e ananda, e em toda parte são um.
As coisas que vemos, tocamos, gostamos, cheiramos e ouvimos, são sat, existência
verdadeira, e neste reino da existência ninguém escapará daquilo em que todos confiamos,
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o testemunho dos sentidos, embora sua clarividência se estenda por todos os planos
possíveis da coluna de luz.
O Universo de Deus, o Sachchidananda Brahman, não é composto do conjunto das três
realidades sat, chit e ananda; mas Aquilo (2) se difunde no espaço e no tempo, no que
chamamos manifestação, onde e quando as qualidades de sat e chit se atualizam entre as
misteriosas mudanças cíclicas que se sucedem na vida da eterna superexistência.

O seguinte diagrama mostra estes princípios:

O UNIVERSO DE DEUS
BRAHMÂ: SAT VISHNU: CHIT SHIVA: ANANDA
(O Mundo das Coisa: (O Mundo da Consciência: (O Eu, a Vida Real)
Terra, Água, Ar, Éter) Atma, Buddhi, Manas
Vontade, Sabedoria,
Inteligência)
OS SETE PRINCÍPIOS

Representado por
(Energia natural)

Ichchha (Atma)
Jnana (Buddhi)

Maya (Ilusão)
Krya (Manas)
(Lei natural)

(Sabedoria)
(Atividade)

(Vontade)
(Matéria)
Tamas

Sattva
Rajas
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(1) O termo Brahman, que é do gênero neutro, se aplica em conjunto à
Trindade de Shiva, Vishnu e Brahmâ, enquanto que Brahmâ é masculino e
corresponde ao terceiro membro dessa Trindade.

(2) Necessitar-se-ia de um novo pronome, que expressasse os três gêneros masculino,


feminino e neutro, e, todavia, tivesse forma do número singular.

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CAPÍTULO II

CONSCIÊNCIA

Nos livros hinduístas e teosóficos os termos ichchha, jnana e kriya indicam os três
constituintes essenciais da consciência. Essas palavras se traduzem usualmente, e com toda
a exatidão, por vontade, sabedoria e atividade; mas não se compreenderá o significado
destas palavras traduzidas, a menos que se tenha em conta que unicamente se referem a
estados de consciência.
Estes três estados de consciência relacionam o indivíduo com os três mundos: a
vontade com o do Eu; a sabedoria com o da consciência; e a atividade com o das coisas e
seres existentes. Portanto, jnana ou a sabedoria é a genuína essência da consciência.
Ao perceber a vasta extensão destes três estados, notamos a deficiência de seus nomes
traduzidos, que denotam principalmente o aspecto positivo ou externamente operante de
cada um dos estados. A consciência é sempre dupla, por ser receptiva e vigilante, e ativa e
influente, isto é, que possui potências e faculdades. Cada um dos três estados é ao mesmo
tempo uma potência e uma faculdade.
Ichchha é a consciência do Eu e também a potência da vontade. jnana é a consciência
dos demais seres e também a potência do amor, Kriya é a consciência das coisas e também
a potência do pensamento.
Nunca se pode ver a consciência em nenhum plano, nem ainda com toda espécie de
clarividência. Só pode ver-se a existência. Mas pode experimentar-se a consciência, e desde
logo a experimenta todo ser consciente.
Consideremos que, por muito esplêndido que entre a relatividade das coisas seja o
aspecto essencial de um jivatma ou ser vivente nos planos superiores, ele ainda pertence
ao mundo da existência ou sat. Ademais a consciência não está sujeita ao tempo nem em
plano algum às limitações de sat; ou dito de outro modo, ainda com o risco de má
interpretação, pode estar e está a consciência ao mesmo tempo em qualquer parte, e não
necessita atravessar o espaço para trasladar-se de um ponto para outro. Unicamente
percorre o tempo.
Se, por exemplo, digo a alguém que se traslade de um lugar para outro e depois do
traslado lhe perguntou: "Que estava você fazendo? Estava se movendo?", devia esperar
que me respondesse: "Não; eu não me movia. "E se, apurando mais a questão, lhe
pergunto: Pois, então, o que fazia você?", me haveria de responder: "Eu estava pensando:
estava percebendo o movimento do corpo."
Quando um viajante vai deitado num carro-dormitório durante a noite, e o trem
marcha suavemente, ele não sabe se a direção do movimento vai em sentido de sua cabeça
ou de seus pés; mas ao descerrar as cortinas das janelas, a vista dos objetos exteriores que
parecem passar velozmente lhe dá a entender e disso infere que o trem marcha no sentido
de sua cabeça, e então transmite ao seu corpo as imaginadas sensações do movimento
nesse sentido.
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Uma vez compreendida e recordada esta liberdade das limitações de espaço; de que
goza a consciência, será possível ter exata ideia da natureza da vontade, sabedoria e
atividade como operações da consciência.

CHIT OU CONSClÊNCIA
FORMA PERCEPÇÃO DE: ATUA COMO:
Ichchhâ Eu Poder da vontade
Jnâna Outros Poder do amor
Kriyâ Coisas ou objetos Poder do pensamento

Quando os homens falam de Deus, não pensam, via de regra, no Deus universal a
Quem aludi, senão num Ser a Quem consideram como a suprema Consciência de nosso
sistema solar. É uma Consciência da qual todos participamos, não no sentido de que entre
nós se divida, senão no de que dela participamos com Ele.
Esta grande Consciência, chamada Logos solar pelos teósofos, possui as três potências
de vontade, sabedoria e atividade. Essencialmente é Vishnu, mas Sua vontade o põe em
contato com Shiva e Sua atividade com Brahma. Contudo, estes aspectos de Vishnu têm
sido também chamados Shiva, Vishnu e Brahmâ; e conquanto estas personificações sejam
impróprias, menciono-as porque necessito referir a história da criação de Seu mundo por
nosso Vishnu.
Antes de tudo veio Brahmâ governando o poder criador ou a divina atividade. Para
compreensão dos homens, referem os livros que Brahmâ efetuou Sua obra sentado em
meditação, e, que segundo meditava, iam tomando forma os mundos pelo poder do Seu
pensamento. Tal foi a Sua atividade. Depois entrou Vishnu no mundo material, enchendo-o
de Sua vida; e Shiva foi a sua super-existência com o poder do Eu.
O genuíno Brahmâ transcende a consciência; mas o Brahmâ a que nos referimos não a
transcende; senão que tão só é a personificação de kriya de nosso Logos solar.
Relatei esta história com o exclusivo objetivo de demonstrar que a atividade criadora
não foi ação com mãos e pés no espaço, mas, sim, o que chamamos pensamento. A
potência de kriya toca a matéria do espaço no mundo da existência e lhe dá forma com sua
influência.

O DEUS UNIVERSAL
BRAHMÂ VISHNU SHIVA
(Ser) (Consciência) (Felicidade)
LOGOS SOLAR
Shiva secundário
(Ichchhâ Solar)
(Jnâna Solar)
(Kriyâ Solar)
secundário

secundário
Brahmâ

Vishnu

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CAPÍTULO III

O PODER DO PENSAMENTO
O que é verdade a respeito dos três poderes ou estados da consciência de Vishnu,
também o é a respeito da consciência humana, porque todos os nossos poderes são parte
da grande consciência de Vishnu, assim como a matéria de nosso corpo com todas as suas
propriedades está tomada do vasto oceano material da existência.
É o pensamento em qualquer pessoa que constitui sua atividade como ser humano. É
dupla esta atividade, tanto se consideramos o ser universal ou o aparentemente particular.
Acha-se na faculdade de discernimento que está atrás de toda percepção. Ninguém
percebe passivamente. Não há percepção passiva de modificações ou de consciência, e
toda percepção é um ato da mesma índole que o de assomar-se a uma janela para ver
quem passa. As coisas do mundo nunca entrarão abruptamente, ou de supetão, na
consciência de ninguém. Mas quando a consciência está em atividade abre-se à percepção
das coisas, e podemos percebê-las em seu aspecto negativo ou em seu aspecto positivo, de
sorte que cada pensamento implica o poder criador no mundo das coisas; o mesmo poder
que o pensamento do Brahmâ solar exercitou no princípio do mundo.
Esta verdade a respeito da atividade e da ação resolve o problema que conturba tantos
estudantes do Bhagavad Gitã.
No mundo ocidental predomina uma espantosa confusão sobre as relações entre a
vontade e o desejo, com muitas controvérsias a respeito de qual deles opera no corpo e o
move à ação. A resposta a este problema é que nem a vontade nem o desejo operam
diretamente no corpo. A única potência que influi nas coisas é o pensamento ou kriya. Por
meio de kriyashakti ou poder do pensamento se constrói o corpo e se efetuam todas as
suas atividades não-reflexas.
Prova disso é que, ao tomar a pena para escrever, fazemo-lo em virtude do
pensamento. Quem observe nossa ação, verá que tomamos a pena com a mão, mas o
pensamento moveu a mão.
A Psicologia ocidental recebeu um vislumbre desta verdade com a teoria de Emílio
Coué, segundo a qual quando na mente humana há um conflito, uma luta entre a vontade
e o pensamento (o que está representado na mente), sempre vence o pensamento ( 1).
Assim é, com efeito, se consideramos os resultados da ação, e também se temos em conta
que a palavra "vontade" está impropriamente empregada por Coué. A teoria é verdadeira,
mas está toscamente exposta.
Muitos exemplos poderiam aduzir-se para esclarecer vividamente esta ideia. Um dos
mais expressivos é o sugerido pelo que sucedeu a um negociante de automóveis de Los
Angeles, que tinha o costume de ensinar a dirigir o carro a quem o comprasse. Houve um
comprador que, em consequência, estava aprendendo a dirigir o automóvel, e tardou
longo tempo em dominar a direção, porque o obsedavam os postes telegráficos, como
costuma ocorrer a muitos em circunstâncias semelhantes. Saía o nosso homem de manhã
bem cedo pelo melhor caminho que podia achar solitário, guiando vacilantemente o
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automóvel, com a vista posta na calçada e sem se lembrar dos postes telegráficos, até que
numa curva viu um; e disse para consigo: "Espero que não me vá chocar contra este poste.
Hei de evitá-lo." Mas, segundo repetia o solilóquio, o pensamento do poste ia crescendo
em sua mente, até ocupá-la por completo, sem deixar lugar para o pensamento da
calçada. Então se manifestou notoriamente o poder do pensamento, porque a ideia do
poste ocupava a sua imaginação, enchia a sua mente e dominava as suas ações, embora
vividamente desejasse não se chocar contra ele. Suas mãos, antes inseguras, agarraram
firmemente o volante e com a precisão de um experto automobilista se teria dirigido
diretamente para o poste temido, se por fortuna não tivesse ao seu lado o instrutor na
direção, pois, do contrário, cabe duvidar se teria tido a suficiente serenidade de ânimo
para deter o carro antes do choque.
Este exemplo demonstra o poder que sobre o corpo exerce uma firme e clara imagem
mental, e quão possível é empregá-la para manter ou recuperar a saúde, como afirma
Coué.
Também se nota este poder em muitas outras circunstâncias desconhecidas da
generalidade das pessoas.
O Sr. Clarence Underwood, conhecido pintor norte-americano de anúncios comerciais,
entre eles o de uma fábrica de cosméticos, no qual figuravam várias meninas escolares com
diversidade de coloração de tez, nos mostra como o poder do pensamento modelou o
rosto e o aspecto de uma filha sua.
Disse ele a este propósito:
"Faz alguns anos, deixei de pronto de pintar o tipo de mulher loira, que havia
prevalecido em minha obra, e passei a pintar uma mulher morena. Perguntavam-me as
pessoas quem era, e em verdade eu não sabia dizê-lo, porque não era certamente o
modelo de que me servia nem tampouco uma combinação de vários modelos. Ao menos
para mim, era unicamente um tipo ideal. Minha filha Valéria, na ocasião com seis anos de
idade, enamorou-se intensamente daquele rosto moreno de moça, para por detrás de
minha cadeira observar atentamente meu trabalho, e protestou vivamente quando eu, ao
descobri-la, lhe ordenei que se retirasse. Durante anos pintei aquele mesmo rosto com
leves variações, e ao completar Valéria 21 anos, era a viva imagem daquele rosto que eu
havia pintado tantas vezes, muitos anos antes. Compreendi que esta semelhança era o
resultado do amor e admiração que minha filha sentira ao ver a pintura de meu modelo
ideal. Antigos amigos meus notaram também a assombrosa semelhança, conquanto, na
época em que pintei aquele rosto, 'Valéria era uma menina sem a menor semelhança com
a pintura. Suas feições foram mudando de conformidade com as do rosto pintado de que
ela havia se enamorado, e eu mesmo pude consegui-lo mais facilmente do que ao de
qualquer outra moça. A jovem norte-americana está hoje mais próxima do resultado do
ideal artístico, do que ela própria pode imaginar."
A crença do poder do pensamento, e especialmente na aquisição da beleza corporal
pelo pensamento na beleza artística, está se difundindo amplamente nos Estados Unidos, e
não é de estranhar que alguns famosos artistas desse país considerem que, ao produzir
formosas pinturas do rosto e do corpo humano, desempenham parte importantíssima no
rápido desenvolvimento de uma nova e esplêndida raça nacional. Suas pinturas estão bem
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tipografadas e circulam em centenas de milhões nos exemplares das revistas ilustradas e
nos magníficos cartazes e anúncios do país, porque a beleza artística tem conquistado um
positivo e permanente lugar no comércio norte-americano. Os jovens de ambos os sexos, e
às vezes também os velhos, contemplam aquelas cromografias e anelam "ser como elas".
Diz Harrison Fisher que quando uma jovenzinha admira um tipo de beleza, visto numa
gravura, e pensa muito nele, acaba por parecer-se algum tanto ao admirável rosto, como o
têm observado muitos pintores.
Howard Chandler Christy, cuja opinião não deixa nunca de ser solicitada nos concursos
de beleza dos Estados Unidos, afirma que a altura da mulher aumentou de alguns
centímetros desde que as gravuras das ilustrações a representaram algo mais alta, e
puseram assim diante dela o ideal feminino da beleza física.
O que está de contínuo diante dos olhos tende a impressionar a mente, que por sua vez
influi no corpo; e tal é a razão de que marido e mulher propendam a parecer-se um com o
outro à medida que passam os anos.
Muito análogo a estes efeitos é o da influência pré-natal do firme e constante
pensamento da mãe. Tal foi a ideia das mães na antiga Grécia, que costumavam
contemplar as estátuas para que seus filhos nascessem formosos.
A Senhora Ruth J. Wild, de Brooklyn, cuja filha obteve o primeiro prêmio num concurso
de beleza em que competiu com muitas outras jovens formosas, refere que durante uma
época de graves dificuldades materiais e morais, em que havia ficado sozinha no mundo,
determinou que, se lhe nascesse uma filhinha, esta chegaria a ser uma formosa jovem. Para
esse fim frequentava o museu de Brooklyn e permanecia sentada contemplando as
estátuas de Vênus e Adônis. Também levava consigo a capa de uma revista ilustrada, com
uma cabeça feminina pintada por Boileau; e de contínuo mentalizava a imagem que de sua
futura filha havia forjado. Chegado o tempo, nasceu-lhe a filha que esperava, e diz a este
propósito essa Senhora:
"Todos os meus sonhos e esperanças se concretizaram na mais formosa criatura do
mundo. Disseram os médicos que jamais haviam visto uma menina tão linda. Um deles, ao
saber que ainda me achava em circunstâncias econômicas muito apuradas, ofereceu-me
por ela vinte mil dólares; mas nem por todo o ouro do mundo a teria vendido, porque tinha
consciência de meu êxito. Ao contemplar o rosto da menina, notei que era a viva imagem
da pintura de Boileau, e deduzi que suas feições se desenvolveriam segundo as linhas de
beleza das estátuas que durante a gravidez eu havia contemplado. Assim sucedeu, com
efeito, e hoje em dia tem o mesmo brilho de cabelos, as mesmas negras e espessas
sobrancelhas e a exata expressão da pintura de Boileau, que durante tanto tempo levei
comigo e que tão ferventemente contemplava."
Outro caso é o da Senhora Virgínia Knapp, de Nova Iorque, cuja filha Dorotéia ganhou o
prêmio de Vênus dos Estados Unidos, concurso de beleza celebrado em Madison Square
Garden.
Também a Senhora Knapp concentrava sua mente em coisas muito belas. Perambulava
solitária por entre as belezas naturais, e pedia à Natureza que concedesse à sua filha alguns
de seus atrativos. Afirma esta Senhora que a formosura de sua filha não é de herança,
senão o resultado de sua própria vontade e determinação durante o período pré-natal.
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Nestes casos influi diretamente o pensamento no corpo sensitivo do feto, porque é
bem sabido que entre este e a mãe não há conexão nervosa.
Já está definitivamente comprovado que o pensamento de um indivíduo pode afetar as
mentes alheias e também deixar sua impressão na matéria física. E eu próprio dou
testemunho de haver presenciado centenas de vezes estes fenômenos realizados com
perfeita exatidão e amiúde sob rigorosa comprovação, na Índia e em outras partes.
Não há necessidade de deter-nos nas conhecidas atividades do pensamento, que
governam nossa vida diária e dão a tônica ao ambiente de nossa civilização. Sob o seu
domínio estão todas as modalidades da cultura e do esforço humanos: a filosofia, a
literatura, a ciência, a religião e a arte, aplicadas todas aos mínimos pormenores da vida
cotidiana. Diz Emerson que todas as coisas são fluídicas ao pensamento"; e
verdadeiramente, no transcurso do tempo, chegará o homem a resolver, em virtude do
pensamento, muitos problemas da vida e da natureza, e submeterá a seu serviço forças
ainda mais potentes que as até agora conhecidas. Assim, cabe esperar uma cada vez mais
crescente devoção à confraternidade humana, para realizar progressivamente o propósito
da vida humana.

(1) Tem-se assinalado que a palavra "imaginação" é frequentemente


empregada nesta acepção. Todavia, quando assim empregada, ela significa uma
imagem na mente, isto é, um pensamento estabelecido, um degrau no processo
de pensar. Pensar é como andar. Colocais um pé no chão e o pousais ali. Depois
impelis vosso corpo para frente com aquele pé, como um ponto de aplicação das
forças do corpo contra a terra. No fim do movimento desceis o outro pé; e depois
aliviais o primeiro, parando o corpo em movimento sobre o novo pivô. Assim se
alternam transição e parada no processo de pensar. A imagem mental é uma
parada: um pensamento ou ideia; a transição dela para uma outra é pensar, se é
lógico o processo. No Capítulo XIV se explica como o processo da imaginação
difere do processo do pensamento. Deve-se fazer distinção entre a imaginação
como um processo, e a produção e poder de imagens mentais.

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CAPÍTULO IV

O PODER DO AMOR
Assim como kriya ou o pensamento serve para conhecer as coisas materiais e suas
relações e é o poder criador da vida material, assim jnana nos familiariza com a consciência
dos seres viventes e exerce o grande poder de amor nos homens.
Jnana é sabedoria, que não se deve confundir com o conhecimento. Acertadamente
dizem os livros que todo o nosso conhecimento das coisas é avidya, ajnana; mas estes dois
termos têm sido impropriamente traduzidos por "ignorância", quando em verdade
significam "assabedoria". A palavra ignorância se refere exclusivamente à carência de
conhecimento, sem relação com jnana.
A jnana-vijnana-sahitam, a sabedoria irmanada com o conhecimento, é a verdadeira
sabedoria que tem de conduzir a humanidade à perfeição, porque o Eu obtém proveito
quando o dirigem a sabedoria e o conhecimento.
Shri Krishna explicou com perfeita clareza o significado da palavra Sabedoria em dois
versículos de Gitâ, quando fala das coisas que os homens podem empregar a serviço de
Deus e em benefício da humanidade.
Diz assim:
"Mais aceito que qualquer oferenda é o sacrifício da sabedoria, ó Parantapa! porque
toda plenitude de ação, ó Patha! culmina na sabedoria. Aprende isto por discipulado, por
investigação e por serviço. Os sábios, os videntes da essência das coisas, te instruirão em
sabedoria". (Bhagavad Gitâ, IV: 33 e 34)
Seguramente Krishna dava a entender que quantas obras os homens realizaram no
passado pereceram no pó; porém que, não obstante, o fruto dessas obras perdura como
sabedoria na alma·humana. E também que esta sabedoria não é o mero conhecimento das
coisas acumulado na mente, senão a compreensão da vida.
Qualquer que seja o tipo de suas obras neste mundo, distingue-se claramente o sábio
do erudito. Se, por exemplo, é professor ou estadista, não terá nenhuma ideia nem plano
preconcebidos a que tenha de submeter seus discípulos ou cidadãos, senão que será
sumamente sensível às condições de vida daqueles com quem trate, aos seus
pensamentos e sentimentos, e ao estado de sua consciência, respeitando-os como o
engenheiro respeita em seus projetos as propriedades da madeira e do aço.
O mais a propósito para instruí-lo não é aquele que melhor conhece um assunto, senão
aquele que, por ser sensível à vida, está capacitado para compreender a consciência de
seus discípulos. Pois ele necessita algo mais do que o conhecimento adquirido pelo estudo;
necessita da experiência do coração, dimanante da simpatia e contato da vida com a vida.
Quem, em todo mundo, supera em sabedoria à mãe que inconscientemente tudo pospõe à
felicidade de seu filho?
Portanto, a sabedoria é uma espécie de sentimento sublimado, ou melhor, um sublime
sentimento especial da alma, que não se transmuta em nenhum sentimento inferior. Com
certa precaução cabe dizer que o seu aspecto negativo em simpatia ou sensibilidade a
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respeito das vidas alheias, e que sua modalidade positiva são potências do amor.
A sabedoria é o real sentimento humano, e sua corrupção é o desejo.
A sabedoria é o amor dos seres viventes à vida, enquanto que o desejo é o amor às
coisas materiais. Se um homem deseja vivamente bens materiais, poderio ou fama no
mundo, deixa atrás de tudo isto o anelo de vida mais alta. Mas como incorre no erro de
considerar-se uma personalidade material, um corpo com uma série de pensamentos e
emoções a ele adstritos, sua ideia do acrescentamento da vida o conduz a desejar bens
materiais e poderio pessoal sem se aperceber de que seus próximos são seres viventes,
pois para ele não são mais que complexos e animados mecanismos materiais, que o
agradam ou desgostam segundo lhe sirvam ou estorvem para a realização de seus planos e
desejos.
Mas o sábio é sensível à vida dos demais seres. Considera-a como sua própria a todo
instante e não traça plano algum sem tê-la em conta, de sorte que o amor que assim enche
a sua vida a enaltece e dilata sem cobiça de sua parte. É-lhe impossível ambicionar fama e
não anseia ocupar as mentes alheias para ampliar-se e multiplicar-se nelas, senão que, ao
contrário, movido de universal simpatia, encherá a sua mente e sua vida com os interesses
e necessidades do próximo.
O amor nos traz à vida, não só à física, impelindo-nos a nascer neste mundo, senão que
a cada instante nos dota da mais esquisita sensibilidade e nos conduz a novas experiências
e deveres.
Conhecida é a antiga descrição do avaro que desce ao porão ou sobe ao desvão de
candeia na mão, e ali se fecha para deleitar-se na contemplação de seu tesouro,
adornando seu pescoço e braços com as joias em que se recreia com mórbido prazer.
E, contudo, não desfruta de positivo prazer, porque sempre se sente tomado de
repentino temor, e o sobressaltam as sombras que projeta a trêmula luz de sua candeia,
que se estremece a cada ruído. Verdadeiramente o egoísmo do avaro receia o contato do
próximo e estreita horrivelmente a sua vida. Mas o amor a expande; dissipa todo temor e
humaniza o homem. É o real sentimento humano, e quem o perde, perde sua verdadeira
vida, embora prossiga o movimento do corpo.
Essa narração, muito em voga na índia, demonstra quanto o amor difere do
pensamento, e como se há de obedecer aos ditames do amor em tudo quanto concerne à
vida humana.
Faz muito tempo vivia em uma populosa aldeia da índia um potentado ricaço, já velho
e de mau gênio, pois empregava toda a sua riqueza e poderio em perseguir e atormentar
os que não eram de seu gosto, pelo que trazia atemorizados os aldeões. O filho deste
opulento magnata era de benigna condição, e todos anelavam o dia em que ele herdasse
as riquezas e o poderio de seu pai, e fosse uma bênção para os seus vassalos. Certo dia
chegou à aldeia um errante sannyasi que ia por toda a parte praticando o bem, e deteve-
se ali algum tempo. Muito logo se apercebeu da conduta do tirano senhor, e disse para
consigo, em breve reflexão:
"Por que não matar este velho e livrar esta gente de sua angústia e dar ao filho
oportunidade de prodigalizar o bem, o que seguramente ele fará enquanto puder? O velho
não é feliz, e nada me importa o que se faça de mim, conquanto que eu faça o bem." Mas
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depois se pergunta aos que escutaram a narração: "Que fariam vocês no caso do sannyasi?
O lógico parece que é um bem matar um tirano." Contudo, felizmente, a maioria dos
consultados responde que não mataria o velho, como tampouco o matou o sannyasi do
conto ao seguir os impulsos de seu coração.
A sabedoria nos dá a conhecer que todos nós formamos uma unidade, e tão insensato
seria crer que se pode adquirir a felicidade prejudicando ao próximo, como alcançar a
verdade por deliberada falácia do pensamento.
Análogo problema está hoje equacionado no Ocidente pelo método experimental da
vivissecção. Ninguém se compraz nela; a todos faz estremecer de horror, e, aos
investigadores que têm de praticá-la, lhes repugna ao princípio, até que se lhes endurece o
coração. Pratica-se a vivissecção em nome da lógica e do bem da humanidade, e ao
entendimento parece desculpável, porque ela propende para diminuir o sofrimento
humano. Mas ainda que fosse possível esta minoração do sofrimento humano, não será
por semelhante processo, enquanto o karma governar o mundo, pois disso resultaria o
endurecimento dos corações humanos e o retardamento do progresso da raça.
Seguramente que todos imaginamos a futura humanidade composta de indivíduos de
grande amor e poder, sem arrastar-se pelas brechas do solo, lastimavelmente escravizados
a decrépitos corpos, que têm de cuidar e manter com grave prejuízo e incrível dor ao
próximo. Contudo, parece que ninguém se apercebe de que sua falta de sabedoria afasta
tão gloriosos dias.
Também se nota a sabedoria no ingênuo sentimento que anima o filósofo Emerson, o
qual, ao regressar à sua casa de uma viagem, costumava tocar com a mão os mais baixos
ramos das árvores de seu jardim, e afirmava que lhe parecia que as árvores se alegravam
de voltar a tê-lo entre elas. O mesmo se observa entre muitos dos escritos e poesias de
Rabindranath Tagore, que se compenetra com o espírito de uma criancinha ou de um
arroio e sente a finalidade da vida nas míseras vielas de uma populosa cidade.
Jnana, a sabedoria, é amor, a consciência da unidade da vida.

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CAPÍTULO V

O PODER DA VONTADE
Recordemo-nos da experiência daquele homem de Los Angeles, que não podia
aprender a guiar o automóvel, apesar de seus esforços em dominar o volante, porque o
obsedava o temeroso pensamento de se chocar com os postes telegráficos.
Embora este exemplo demonstre a influência do pensamento, não denota a relativa
fraqueza da vontade. Naquele caso não estava a vontade vencida, mas em suspenso.
Aquele homem não queria; desejava. Eis aqui a diferença entre a vontade e o desejo. A
presença de um desejo ou uma esperança na mente humana denota ausência de vontade;
e quem cede a seus desejos entrega inteiramente sua divindade e abdica seu trono.
Muito simplesmente pode demonstrar-se a completa separação e mútua exclusividade
entre desejar e querer. Se temos o lápis sobre a mesa e refletimos sobre pegá-lo ou não
pegá-lo, poderemos chegar à conclusão de pegá-lo ou não pegá-lo. Não haverá desejo a
respeito do assunto, porque temos a segurança de que em nosso poder está o pegar ou
não pegar o lápis. Mas se o lápis pesasse meia tonelada, ou crêssemos que a pesasse,
diríamos então: "Eu desejaria poder levantar este lápis!"
Quem deseja algo reconhece com isso sua dependência de uma probabilidade externa.
Acha-se em estado expectante, e não aguarda voluntariamente algo que está seguro de
que há de chegar a seu devido tempo, senão que espera que ocorra o que deseja.
É impossível calcular a insensatez do desejo, com a completa negação da vontade que
encerra; e cabe dizer incidentalmente que tão só será capaz de progredir na senda oculta
quem completa e definitivamente mate o desejo.
Se o pensamento é o poder que atua entre as coisas materiais, que é a vontade? É a
potência que atua entre os pensamentos e as emoções e sentimentos. É concentração. É
atenção. É a potência que subdivide a mente em consciência e subconsciência. Se o
homem do automóvel houvesse conhecido esta simples vontade, seguramente alijaria
facilmente o temor aos postes telegráficos. Se houvesse dito: "Não penses no poste. Fixa-te
na calçada e pensa nela. Esquece o poste e enche tua mente com o pensamento no
caminho por onde segues".
Se houvesse tratado de seguir o seu pensamento em vez de suas mãos, tudo lhe teria
saído bem.
Análoga circunstância haverão certamente observado pela noite muitos inexpertos
automobilistas, quando em sentido contrário veem outro automóvel com os faróis acesos.
O motorista não deve deixar-se fascinar pela ideia nascida do temor de se chocar com o
automóvel oposto, cuja presença a assinalam os faróis, mas deve apartar a vista de sua luz
e fixar-se na parte escura da estrada por onde vai, embora não possa vê-la.
A ânsia não é uma forma da vontade, senão precisamente a expansão do desejo.
Enquanto o desejo é comumente a apetência de possuir algo que não se tem, a ânsia vai
mais além e implica o temor de perder o que já se possui ou o temor das várias
probabilidades que ameacem estorvar a satisfação do desejo. O desejo não é tanto o
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reflexo da vontade, mas um reflexo do amor; no entanto, o amor contrafeito perde
sua·característica própria, porque se apega às coisas materiais, enquanto que a esfera
peculiar do amor é a vida consciente.
Portanto, a vontade é o Atma, o Eu que se conhece a si mesmo e manifesta o seu
poderio sobre todas as suas relações com o mundo das coisas e da vida. A vontade é o Eu
sou Eu, e tal se verá que é sua natureza sempre que o homem trate de determinar o seu
futuro. A vontade está relacionada com o verbo "ser" e não com o verbo "fazer".
Quando um indivíduo toma a determinação de "trabalhar firme em seu negócio para
ganhar muito dinheiro", está-se dizendo quase inconscientemente a si mesmo: "Serei rico";
e esta ideia vai tomando corpo em sua mente e move o seu ânimo até que o pensamento
de ser rico o leva à ação.
A vontade conduz, em definitivo, à verdadeira vida superconsciente, à bem-
aventurança, felicidade ou ananda. Este estado de existência é independente do tempo;
mas a consciência atua no tempo, embora não no espaço, e, ao atuar, evolui ou
desenvolve-se, se bem que esta evolução ou desenvolvimento não signifique forçosamente
progresso. Este ponto é de suma dificuldade e dele tratarei mais adiante; mas direi de
pronto que obscurece a consciência e divide a mente, pois que a vontade se dirige a uma
parte de si mesma para o melhor conhecimento desta parte durante algum tempo. É o
mesmo que se um escolar concentrasse durante certo tempo toda a sua afeição no curso
de música e se esquecesse da geografia, história e demais disciplinas escolares. Quanto
mais completo fosse este esquecimento, melhor aprenderia a música.
Assim é como se precisa proceder enquanto se está adquirindo este novo
conhecimento; mas posteriormente a consciência será mais capaz de estudar
conjuntamente música, história, geografia, etc., em vez de concentrar toda a sua força
numa só matéria.
Isto é o que faz a mente subconsciente, em que a vontade, a sabedoria e a atividade
operam sem que disso se aperceba a mente consciente, ou melhor, a parte consciente da
mente, pois que não há duas mentes separadas.
Para esclarecer este ponto, referirei o que me ocorreu com um cavalheiro ancião, de
uma cidade do sul da Índia, muito hábil no governo das faculdades da mente.
Entre os muitos experimentos que me mostrou, distinguiu-se o que ele fez com um
baralho. Primeiro escreveu algo num pedaço de papel, dobrou-o e mo deu dizendo que eu
o guardasse em meu bolso. Depois me convidou que baralhasse os naipes e os estendesse
com o dorso para cima sobre a tarima em que me achava sentado à moda hindu. Feito isto,
disse-me que escolhesse o naipe que eu quisesse, e assim o fiz ao acaso. Então me disse
que olhasse o naipe e ao mesmo tempo o papel que eu havia guardado no bolso, e vi que
no papel estava escrito o nome da carta que ao acaso eu havia escolhido. A pedido do
cavalheiro, entreguei o baralho a dois hindus amigos meus, que me haviam acompanhado
ao visitá-lo, e repetiu o experimento outras duas vezes, dando a cada um deles um papel
diferente, sem tocar em nada no baralho.
Depois me ocorreu tentar por minha conta uma experiência de menor importância, e
para isso supliquei ao cavalheiro que me desse outro papel escrito, ao que acedeu
satisfeito, porque não se limitava a ostentar as suas extraordinárias faculdades, mas tinha
19
interesse em instruir-me tanto quanto fosse possível nesse particular. Baralhei as cartas e
estendi-as como da outra vez; mas antes de escolher uma, concentrei minha mente na sua
e lhe dirigi em silêncio este pensamento: "Qualquer que seja a carta que você tenha
escolhido, não a escolherei eu desta vez". Em seguida levantei uma carta, tirei o papel do
bolso, desdobrei-o e com grande surpresa do cavalheiro, a quem jamais eu havia contado a
experiência, resultou que a carta escolhida não era a mesma cujo nome estava escrito no
papel. Referi-lhe então o que eu havia feito, e ele respondeu que o feito por mim explicava
perfeitamente o sucedido.
Em consequência quis revelar-me o segredo da experiência, e disse-me:
"Antes de tudo, escolho uma carta qualquer, cujo nome anoto num papel. Depois
concentro vigorosamente o pensamento neste nome e transfiro o pensamento para a
mente da pessoa que tem de escolher a carta. Este pensamento fica fixo na mente da
pessoa com o mesmo vigor que lhe dei ao transferi-lo, porém sem que disso se dê conta a
mente consciente de quem o recebe. Pois bem: a mente subconsciente tem suas próprias
faculdades de percepção, e com acerto dirigida é capaz de ver as cartas como se estivessem
descobertas, ainda que o olho físico não as possa ver. O pensamento fixo na mente
subconsciente move o braço e a mão para o ponto onde está a carta por mim escolhida e
também a escolhe a pessoa em ação.
Mas neste caso, quando você dirigiu a sua vontade contra a minha, desfez a imagem
mental que eu havia forjado.com o meu pensamento.
Dito isto, felicitou-me ao estilo oriental pela fortaleza de minha vontade, embora
houvesse sido muito possível que, se se precavesse de minha intenção, houvesse realizado
com êxito a experiência, como tal sucedeu imediatamente depois com meus amigos hindus
que, apesar de não quererem levantar a carta escolhida, a levantaram cada vez como se
lhes obrigassem.
Poderá arguir-se que o cavalheiro bem poderia deduzir minha intenção por
transferência de pensamento, mas parece-me que ele estava demasiado preocupado com
o êxito de sua experiência.
Tempos depois tive uma surpreendente continuação desta experiência em meu Colégio
de Hyderabad, província de Sind, a três quilômetros da cidade de Trichinopoly, onde eu
havia passado uma semana com o mesmo cavalheiro.
Uma tarde, depois de um dia de muito trabalho, estava eu sentado em meu aposento
junto com dois amigos, um dos quais professor de ciências políticas em meu colégio. Era
este professor um hindu graduado com distinção em Oxford, o qual em sua permanência
na Inglaterra havia aprendido alguns jogos de prestidigitação muito engenhosos, com
cartas, e aquela tarde nos estava entretendo com vários deles, num feriado. Meu
pensamento estava muito longe de tudo quanto se referisse a investigação psíquica, pois
me preocupavam as graves perturbações do momento, ocasionadas pela agitação política
suscitada entre os alunos do colégio, que no meu entender comprometia gravemente o seu
futuro. De súbito, sem prévio aviso, ouvi ressoar em metade de meu cérebro uma voz
varonil que claramente pronunciou estas seis palavras: "Cinco de paus. Tente esta
experiência". Eu acreditei que se referia à experiência passada em Trichinopoly algum
tempo antes; mas, obediente à voz, escrevi "cinco de paus" num pedaço de papel; dobrei-o
20
e disse ao professor que sem olhá-lo o guardasse em seu bolso. Depois o convidei a que
baralhasse as cartas, que eu não havia absolutamente tocado; estendesse-as dorso para
cima pelo solo onde nos achávamos, e que escolhesse depois uma ao acaso e a comparasse
com o escrito no papel.
Ao descobrir a carta escolhida, era o cinco de paus, e é de se imaginar a surpresa do
professor quando viu escrito "cinco de paus" no papel que eu lhe havia entregue!
Não sei, certamente, como me guiou a voz naquele caso; mas de meus conhecimentos
sobre o poder do pensamento, parece-me muito razoável crer que o cavalheiro ancião,
residente a três quilômetros dali, sabedor de nossa ocupação, me havia sugerido a ideia
ajudando-me a realizar com êxito a experiência, a qual, por outro lado, é muito valiosa
como manifestação do modo como o pensamento e a vontade podem atuar na parte
subconsciente da mente.
Ao considerar o modo como o pensamento é a potência operante no corpo e nos
misteres da vida diária, devemos ter em conta que às vezes o pensamento é subconsciente
e que muitas das chamadas vicissitudes da vida provêm da ação subconsciente do
pensamento dirigido às vezes pela vontade.
Por exemplo, pode um homem não ter nada que fazer certa tarde e decide sair a dar
um passeio. Põe o chapéu ou o turbante, o guarda-chuva ou capa, e toma uma direção ou
outra de seu caminho. Durante o passeio encontra um amigo que lhe propõe um negócio
ou lhe sugere uma nova linha de conduta cujo resultado é dar uma viravolta completa e
feliz em sua vida. Quando, depois, ao fazer uma retrospecção deste incidente, o
considerará como o ponto de conversão de sua vida, dizendo que foi muita sorte sair
aquela tarde a passeio e encontrar o seu amigo.
Talvez não tenha sido sorte nem casualidade, senão que o Eu interno, seu ser
verdadeiro, moveu a personalidade a sair a passeio e tomar a rua onde encontrou o seu
amigo, da mesma maneira que resultou minha mão ser guiada para escolher a carta entre
as do baralho estendido na tarima.
Todos temos mais ou menos prova experimental de que de quando em quando nosso
homem interno consegue impressionar a parte consciente da mente, e a esta impressão
chamamos a voz da consciência, pois sabe muitíssimo mais acerca da verdadeira e reta
norma de vida que o eu inferior ou personalidade operante nos limites da mente vigílica.
Assim distinguimos claramente entre Ichchha e kriya, entre vontade e atividade; e
vemos que a vontade é independente do desejo; que a atividade é atividade do
pensamento; e que vontade e pensamento são duas potências. O pensamento influi no
corpo e nas coisas da vida. A vontade atua no Eu e influi nas emoções e pensamentos.

21
CAPÍTULO VI

MATÉRIA, ENERGIA E LEI


Observamos que no mundo da consciência, ou chit, estão sempre presentes três
princípios manifestos em diferentes graus e proporções, e em tempos distintos.
Assim também no mundo da existência, ou sat, se distinguem três princípios chamados
tamas, raias e satva, que significam, respectivamente, matéria, energia e lei. Os .psicólogos
antigos e modernos também têm observado a inseparabilidade destes três elementos.
Há estados de existência material, ou princípios de matéria, não propriedades, que um
corpo pode manifestar em diferentes graus e distintos tempos, tanto quanto,
analogamente, a consciência pode manifestar-se em vontade, em amor ou em
pensamento, ainda que as três potências se achem sempre presentes.
O mundo objetivo é um mundo de corpos materiais que se obstruem uns aos outros e
podem bloquear a consciência submetida à matéria por sua imersão num corpo. Se vemos
um objeto é por que ele obstruiu nossa visão e o mundo está cheio de luz porque a
opacidade ou impenetrabilidade à luz de sua atmosfera material difunde os raios solares.
Cada átomo de matéria é, por assim dizer, um Impenetrável ponto opaco no espaço, que só
pode ser acionado do exterior.
A penetrabilidade ou interpenetração da matéria a que os teósofos se referem só se
entende no sentido de que pode haver matéria sutil entre os interstícios ou poros de outra
grosseira ou densa. Assim, ainda que em tais casos dois ou mais corpos ou massas de
matéria se Interpenetrem e ocupem o mesmo espaço, não se interpenetra a matéria
constituinte dos interpenetrados corpos.
A esta. propriedade de opacidade, obstrução, impenetrabilidade ou resistência, que
se observa nas coisas materiais do mundo objetivo, os antigos sábios a chamavam tamas,
É a propriedade da matéria que no conceito e linguagem vulgares se toma pela matéria
em si mesma, ou seja, a propriedade que dá corpo e consistência à matéria e forma no
espaço pontos a que aplicar a energia.
Assim tem a matéria o que poderíamos chamar vontade própria, conquanto seja, uma
vontade negativa, uma obstinação ou teimosia em ser o que é e em não querer entregar a
sua existência.
Durante o século passado predominou a ideia de que o mundo estava construído com
infinitesimais ladrilhos chamados átomos, de considerável variedade, que, se imputavam
imutáveis e portanto incriados, eternos e indestrutíveis. Creu-se que assim como com cem
mil ladrilhos se pode construir uma das muitas espécies de casas e que uma vez
construídas se podiam reformar tirando e voltando a por de diversas maneiras os seus
ladrilhos constituintes assim também o mundo constituído por átomos se estava
constantemente refazendo em suas formas mutáveis. Esta ideia é verdadeira no que toca
a pratica dos projetos humanos. É a manifestação de tamas em certo grau de seres
materiais, e seria verdadeira em absoluto se a estabilidade fosse a única condição peculiar
do mundo material que os nossos cinco sentidos percebem.
22
O segundo constituinte da substância é a energia da matéria, o rajas, que para a
ciência moderna é a fonte e base da matéria embora o tempo evidenciará que também é
material, mas sem corpo nem posição. O conceito que da energia natural expõem os
tratados elementares da mecânica serve muito bem para descrever esta constituinte
propriedade da substância.
Sabido é que nenhum corpo alterará a sua situação de repouso ou movimento sem
que receba uma ou outra modalidade de energia, a menos que seja um corpo complexo,
em que a operação de forças internas ativas altere o seu estado, como, por exemplo,
quando um penhasco se desprende da montanha.
Uma bola de bilhar não se moverá por seu próprio impulso do ponto da mesa onde ela
repousa. Uma vez posta em movimento pelo golpe do taco, não se deteria se não
recebesse do exterior a ação de uma energia contrária, como a resistência do ar, o atrito da
mesa, o choque contra outra bola. A energia da bola em movimento e da força que detém
este movimento são de igual magnitude.
Mas todos estes fenômenos são superficiais, e neles se manifesta rajas como nos
átomos se manifesta tamas, E assim como pode decompor-se o átomo e atenuar-se o seu
tamas até ficar tão só a energia, assim também pode a energia surgir e logo sumir-se em
sattva ou a lei, que é a verdadeira essência do mundo objetivo, como jnâna o é do mundo
da consciência.
A energia transcende o tempo, como a consciência transcende o espaço. Por exemplo,
se levantamos do solo uma bola e a colocamos sobre a mesa, teremos empregado certa
quantidade de energia em levantá-Ia. E a mesma quantidade de energia se atualizará
quando em qualquer tempo futuro caia a bola da mesa ao solo, como caberia demonstrar
se medíssemos o calor engendrado ao chocar-se ela contra o solo, ou fosse possível à bola
efetuar algum trabalho em sua queda.
O calor, o som, a luz, a eletricidade, o magnetismo, a coesão e a afinidade são
modalidades de uma só e única energia, e não há partícula de matéria sem alguma dessas
modalidades. Os recentes estudos sobre a relatividade voltaram a equacionar o problema
da conservação da energia; mas as indagações realizadas aprofundam as relações internas
das qualidades constituintes da substância, sem menoscabo do princípio de energia. Basta
para o nosso propósito convencer-nos de que há uma energia natural e que esta energia
não é espontânea.
A terceira propriedade constituinte da matéria é a lei. Já sei que há de causar
estranheza esta afirmação e que sem refletir os cientistas dirão que no universo só há
matéria e energia, embora, por outro lado, declarem que em toda a parte reinam e lei e a
ordem no universo. Há algo de contradição nesta dupla asserção, e os antigos sábios da
Índia não incorreram nela, porque sem vacilar afirmam que sattva, ou a lei, é uma das
propriedades naturais do aspecto material das coisas e dos seres.
Assim é, com efeito, e não mais difícil de concebê-lo do que a objetividade da energia.
Em toda a parte no universo vemos a energia e a matéria acompanhadas de uma lei que
determina a índole da atividade do objeto físico e de suas relações com os demais corpos.
Todo elemento químico, todo átomo, tem sua natural propensão para brotar numa espécie
23
particular de planta; e a atuação dessa lei é parte da existência natural, ou sat, dos seres e
das coisas.
Claramente compreenderam os antigos sábios que sattva, raias e tamas são as gunas
ou propriedades da matéria, e que toda matéria nada mais é que o conjunto destas três
propriedades, que por sua vez não podem ser mais que matéria. As três palavras sattva,
raias e tamas se usam também como adjetivos para descrever o caráter das coisas, como
por exemplo, quando o Bhagavad Gitá fala dos alimentos sátvicos, rajásicos e tamásicos,
que contribuem para formar o tipo do corpo físico em que predomina a respectiva
qualidade, de modo que um corpo rajásico será um corpo enérgico e ainda revoltoso e
alvoroçadiço.
Todo objeto material possui as três ganas, mas uma delas predomina e lhe dá a sua
sobressalente qualidade assim como em toda consciência há vontade, amor e pensamento,
embora não se manifestem no mesmo grau. Uma delas é a que imprime o caráter e guia e
inspira as outras duas.

24
CAPÍTULO VII

O DIVINO E O MATERIAL

Comparemos agora o mundo de sat com o mundo de chit, para ver como estão
relacionados. O primeiro é propriamente material, e ao segundo lhe enquadra melhor o
qualificativo divino. E devemos compreender que por muitas que sejam as coisas do mundo
material e muitas as consciências do mundo de chit, não há em realidade mais que uma só
coisa no mundo de sat e uma só consciência no mundo de chit.
Esta verdade fundamental é evidentíssima no mundo material e tem suma importância.
O mundo material não está constituído por grande número de coisas reunidas e
sintetizadas como peças soltas à maneira de ladrilhos. Pelo contrário, o procedimento é
Inverso, pois todas as coisas que conhecemos estão abstraídas e como que desglosadas do
mundo material, porém não são mais que uma só e sua unidade está demonstrada pela sua
recíproca dependência externa.
Consideremos o que deve suceder na mente da criança quando abre seus olhos ao
mundo. Primeiramente o vê em gigantesco conjunto, como se fosse uma compacta e
indefinida massa de matéria, depois vai distinguindo nesta massa os objetos de maior
tamanho ou vividez, e posteriormente os objetos mais miúdos.
É algo semelhante à visão do viajante quando o navio em que navega se aproxima da
costa. Primeiro vislumbra uma sombra que pode ser terra. Depois vê claramente que é
terra e aparecem os píncaros das montanhas, logo as árvores e as casas, ate que, já mais
perto, percebe as pessoas, os animais e também as flores das plantas.
Para adquirir conhecimento é necessária análoga diferenciação da massa ou conjunto
das coisas do mundo objetivo. Todo silogismo tem sua premissa universal sem a qual não
seria possível o claro conhecimento, que depois de tudo não consiste em algo novo, senão
na distinta percepção do que antes estava confuso ou inadvertido. Bem sabemos que
percebemos as coisas por analogia e comparação. Muito melhor que observarmos
separadamente um cão e um gato, os conheceremos se os pusermos juntos e estudarmos
sua analogias e diferenças.
O mais hábil pensador sobre um assunto é o que já possui maior número de ideias de
comparação, com tanto que haja dirigido bem estas ideias e estejam claras e ordenadas em
sua mente. Todo pensamento é abstrato. A mente não pode manter duas ideias ao mesmo
tempo, mas, sim, uma ideia que inclua duas ou mais, que em tal caso são parte de um
conjunto maior.
Tão lógico quão real é que o menor depende do maior e a parte, do todo. Característica
das coisas materiais é o não terem iniciativa nem mudarem por si mesmas, senão que sua
mudança depende de influências externas. Assim um livro posto sobre uma mesa ali
permanece porque está na mesa, que por sua vez repousa sobre o pavimento e este sobre
as vigas que se apoiam nas paredes, e as paredes no cimento e o cimento no terreno.
Ademais, a terra é um corpo material sustido no espaço pelos cabos invisíveis da energia
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material da natureza, e, portanto, depende de seu centro de atração, que é o sol.
Vemos assim que unicamente se sustenta e sustém por si mesmo o conjunto do
universo material e que todas as partes dependem do conjunto. Não se pode afirmar,
absolutamente, que o universo esteja constituído de partes, senão, antes, que estas partes
estão, por assim dizer, desglosadas do conjunto, no qual têm seu apoio e raiz.
No mundo da lei existe eternamente toda realidade objetiva. Por exemplo, quando
misturamos dois volumes de hidrogênio e um de oxigênio, e fazemos passar pela mistura
uma chispa elétrica, ambos os gases desaparecem da percepção objetiva, combinados em
dois volumes de água. Desde logo se dirá que na água resultante estão o hidrogênio e o
oxigênio com sua mesma matéria e energia; mas convém ter em conta que não temos
produzido nada novo, nem sequer em relação com as propriedades. É evidente que a água
não estava antes ali, e o está depois da combinação de ambos os gases; de modo que, se só
considerarmos as propriedades aparentes das coisas, creremos que algo novo temos
produzido; mas ,tudo quanto fizemos e manifestar a realidade sempre existente da água.
O mais apropriado símile que podemos dar desta verdade é o das caixas de cubos ou
hexaedros de madeira que servem de brinquedo instrutivo às crianças para reproduzirem
as lâminas cromotípicas que lhes servem de modelo. Cada uma das seis faces de cada
hexaedro tem pintada ou gravada uma porção arbitrária de um dos modelos, e o toque
está em dispor os cubos ou hexaedros uns ao lado de outros, de sorte que reproduzam o
modelo, para o que é necessário ir tateando e discorrendo para acertar com a exata
ordenação.
Uma vez tenha a criança conseguido reproduzir uma lâmina, volta a desordenar os
hexaedros para dispô-los novamente. De sorte que as faces superiores reproduzam outro
modelo. Poderia imaginar-se ser a criança o autor das lâminas reproduzidas, mas não há
tal, por que o foi o artista que as desenhou, e tudo quanto a criança faz é ordenar os
hexaedros de modo que apareça o quadro, cena ou paisagem que o artista compôs.
Assim, ao combinar o oxigênio e o hidrogênio, aparece a. água, e nada se acrescenta
nem se subtrai da realidade. Em todas as coisas ocorre o mesmo de maneira que em toda
produção ou invenção humana rege a mesma lei. Esta realidade é a que a mente percebe
nas usualmente chamadas leis naturais. A lei e uma realidade existente, é sattva, o mundo
das ideias, a objetiva mente universal.
Também tem acontecido dar-se a sat o nome do grande princípio passivo. Segundo já
se disse, na plenitude, ou conjunto do universo material não há iniciativa, porque não ha
tempo, o qual pertence a chit, Já vimos a dependência do livro a respeito da mesa, da mesa
a respeito do pavimento, etc., ate considerar a totalidade das coisas. Esta totalidade tem de
ser, existir e mudar por si mesma, pois não pode haver nada de sua mesma, índole, que do
exterior lhe infunda energia material. Portanto, ha de ser divino ao mesmo tempo que
material. Brahmâ alentado por Vishnu.
Mas chit é o divino em todas as partes. É o grande princípio ativo, consciente, que é e
existe e muda por si mesmo, independente, onipotente, a essência do tempo.
Tive razões especiais para empregar a palavra "divino" em vez da "espiritual", que
acaso tenha ocorrido a alguém para expressar a ideia. A palavra espírito denota algo assim
como matéria sutilíssima, etérea, semelhante a um alento, mas ainda matéria. Em troca, a
26
palavra "divino" deriva da raiz sânscrita “div”, que significa "brilhar", e aparece em vários
nomes como div (céu), divakara (sol) e deva (ser celeste).
Portanto, significa divino o que brilha com luz própria ou interna, e muitos povos
antigos consideraram o sol como símbolo do divino, porque do sol dimanam a luz, o calor e
a vida de nosso mundo, enquanto que a lua foi símbolo da matéria, porque sua luz é
reflexo da do sol.
Quem quer que se dê ao trabalho de pensar sobre este ponto reconhecerá que o Ser
divino ou Logos Solar se distingue do Seu mundo por Seu caráter, independência e
iniciativa. Um dos nomes que mais propriamente o descrevem é o de Swayambhu, que
significa o Ser existente por Si mesmo. É onipotente, onipresente e onisciente, porque é a
totalidade do chit de nosso sistema solar, o chit em toda a sua perfeição, enquanto que o
homem é parte deste chit e tem as três qualidades de potência, presença e ciência, porém
sem o prefixo omni.
Em rigor, não deveria empregar-se a palavra Deus para denominar esta suprema
Consciência, que é nosso Irmão máximo. Nossa consciência é algo que utilizamos; não o
que somos, como nosso corpo é também algo de que nos servimos. Pertencemos ao Deus
universal, à vida real além da matéria e da consciência, além de purusha e prakriti, além do
material e do divino.

27
CAPÍTULO VIII

HARMONIA

Assim vemos que chit e sat, ou, num plano inferior, o homem em oposição e rixa, até
que Shiva restabeleceu com a Sua presença a harmonia entre ambos, dando-lhes a
entender que os dois eram unos com Ele, e pondo um novo dia em existência.
Assim vemos que chit e sat, ou num plano inferior, o homem e o mundo objetivo de sua
experiência, parecem estar em aberta oposição, até que descobrimos o justo motivo de sua
aparente hostilidade apesar da completa harmonia de propósito em suas relações.
Atrás do homem e do mundo está ananda em que Shiva tem seu ponto de união.
O contato de chit com sat transborda de ananda ou felicidade, como o evidencia cada
ser vivente que ama sua vida, pois o que comumente chamamos vida é o intercâmbio entre
chit e Sat.
É muito comum a ideia de que nos reinos inferiores ao humano a vida está cheia de
felicidade, que no reino animal não é frequente nem duradoura a dor, e que só há temor
no momento de ver a vida ameaçada de destruição. Os milhões de reses, que mês após
mês vão aos matadouros de Chicago e outras cidades, não denotam temor nem tristeza até
verem próxima a morte, porque nem o seu conhecimento nem a sua imaginação lhes dizem
o que os aguarda, e nos pastos a vida lhes foi agradável, ainda que aos homens parecesse
mesquinha. Ademais, em estado natural, o temor influi geralmente nas glândulas e
aumenta as forças físicas com estímulo da consciência, como o animal tímido que tem a
habilidade de burlar e eludir o ataque de seu inimigo.
Conhecido é o conto da corpulenta foca que faz alguns anos vivia num alcantilado da
cidade de São Francisco da Califórnia. Era a foca a rainha da manada que ainda existe
naquela paragem, e, segundo tradição, era-o desde havia cento e vinte anos. Sucedeu que
um dia veio do Sul outra corpulenta foca, na flor da vida, e pareceu-lhe que por sua
juventude devia ser a rainha daqueles alcantilados. A adventícia travou luta com a foca
velha e ambas pelejaram encarniçadamente durante três dias, até que a velha morreu
coberta de feridas.
Por isso se tem dito que a natureza "tem dentes e garras tintos no sangue da presa".
Mas se o considerarmos do ponto de vista da consciência, veremos que não carecia de gozo
a luta de ambas as focas.
Os irracionais vivem mais de sensação que de reflexão, e a velhice não é para eles tão
proveitosa quanto para o homem. Quando os sentidos do corpo começam a debilitar-se,
não tarda em emancipar-se a consciência; falta-lhe já o vivo estímulo que antes a alentava.
Portanto, não há de levar-nos a lastimar que a consciência da foca se emancipasse de seu
corpo em gloriosa pugna em meio da mais intensa experiência por que nunca passara,
sobretudo se consideramos que na viva excitação da peleja é sumamente improvável que o
animal sofresse muita dor.
Verdadeiramente não é de todo ditosa a vida do homem, porque na manutenção de
28
suas novas faculdades se põe em discórdia com o mundo. O desfruto do chit o move ao
desdém de ananda, e Shiva tem de se lhe revelar antes que recobre a perdida inocência. Na
vida do homem hão de se reconciliar amistosamente Vishnu e Brahmâ em sua união com
Shiva.
Não está generalizada nos países ocidentais a ideia de que a harmonia entre a
consciência humana e o mundo objetivo é uma das grandes realidades da vida. Ainda
aqueles que creem que este mundo é de Deus imaginam que é o lugar onde Ele põe à prova
as almas que criou, para, decorrido algum tempo, decidir quais são as eleitas e quais as
réprobras. E aqueles que tão só admitem a evolução da forma não se apercebem de que a
mente humana, embora considerada como produto da natureza, está em harmonia com a
sua origem, apesar de ter desenvolvido em si mesma uma indesejável parasita que como
obstinado intruso se mantém frente à natureza. Contudo, a harmonia subsiste e
acrescente-se que o filho de Shiva, nascido pela mera complacência de chit, é como o
renascimento do próprio Shiva para unir Vishnu com Brahmâ.
Explicando tudo isto em linguagem corrente, direi que a natureza é de decadência e
que as obras do homem não tardam em perecer. Mas, se assim não fosse, não poderia
servir este mundo de escola de Deus para o homem. Se as coisas fossem imperecíveis e por
estranha magia pudessem nutrir-nos os alimentos sem consumir-se, poucos homens
trabalhariam para produzir novas coisas, e o extraordinário trabalho requerido para
destruir as velhas coisas que embaraçariam a terra, aumentaria o desânimo daqueles que
quisessem trabalhar para produzir algo novo, e o homem teria escasso incentivo para
exercitar as suas faculdades de pensamento e vontade. Certo é que a natureza não fez a
vida demasiado fácil, senão que sempre lhe oferece experiências favoráveis ao
desenvolvimento harmônico de todas e cada uma de suas faculdades.
O próprio homem testemunha esta verdade, pois tem progredido através dos séculos e
firmemente avança para gozar de maior poder no futuro mediante o ativo emprego de suas
faculdades.
Um dos Upanishads dá uma curiosa definição do homem, dizendo que é ao mesmo
tempo potente e impotente, sábio e ignorante. Se o compararmos no estado selvagem com
qualquer outro ser vivente, o veremos desvalido e ignorante; carece de roupagem e armas
naturais; não é alípede nem alígero para escapar de seus inimigos; não tem o instintivo
conhecimento que aos animais ensina o alimentício e o venenoso, os que são amigos e os
que são inimigos; nem tampouco é capaz de construir uma vivenda.
Poderia crer-se que a natureza fez uma exceção com o homem, pondo-o tão desvalido
no mundo; mas não há tal. O homem sem vestimentas naturais aprendeu a usar sua
inteligência para fabricar para si roupas com que morar em qualquer clima; e também lhe
serviu sua inteligência para fabricar armas e ferramentas que lhe têm dado o domínio do
mundo.
Pôde o homem primitivo queixar-se de sua inaptidão e rogar a Deus que a remediasse;
mas o homem inteligente, reencarnação do primitivo, olha para trás e dá graças a Deus
pelas oportunidades que lhe ofereceu e pela outorgada honra de constituí-lo através dos
séculos em um ser divino que a si mesmo se vai formando constantemente por seu próprio
trabalho, e não como uma coisa material modelada por força de influências externas. Então
29
vê o homem através do tempo a sua harmonia com o mundo, e compreende que o mundo
tem sido e é seu amigo, não um amigo sentimental, senão verdadeiro em suas
necessidades.
Como o homem pertence ao aspecto divino e não material do universo, ele desenvolve
cada vez em maior medida faculdades divinas, e Deus o auxilia encarnado no princípio de
harmonia. Deus é onipotente e contudo há algo que Ele não pode fazer, como, por
exemplo, que um gigante seja anão ou um quadrado seja um círculo, porque se o homem é
gigante não pode ser anão, e se a forma é um quadrado não pode ser um círculo.
Tampouco pode fazer que uma vontade seja dependente, porque se a vontade não é
independente, não é vontade. Daqui que Deus reconheça a divindade no homem para a
evolução de sua consciência e de suas faculdades, e neste conceito o homem é por si
mesmo existente e criador e divino em todo o tempo.
A harmonia entre chit e sat em nosso mundo de experiências é maya, chamada
também ilusão, não porque seja de algum modo uma irrealidade, senão porque é
considerada como verdadeira vida, sendo assim que a verdadeira vida é ananda ou
felicidade. Por isto dizem os livros que, para libertar-se, o homem deve emancipar-se
também desta harmonia uma vez tenha completado a evolução de sua consciência. Então
deve destruir a chamada junção do vidente e do visível e permanecer no estado de ananda,
de kaivalya, de unidade, porque a unidade de Shiva não a quebra nem mesmo a presença
de Vishnu e Brahmâ.
No Bhagavad Gitá diz Shri Krishna que esta harmonia é daiviprakriti. Em linguagem
corrente a palavra vida denota a harmonia entre sat e chit, porque quando as pessoas
falam da vida não se referem tão só à sua consciência interna nem a energia externa, da
natureza, senão à harmônica interação de ambas, e o interno e o externo em consideração.
Creem as pessoas que, ao tratar de filosofia, deve a palavra vida ter um significado novo
e distinto; mas em nosso caso não é assim de modo algum.
Essa vida é uma maya, é uma ilusão, unicamente porque não é a verdadeira vida que é
felicidade, a vida de Shiva, encarnado na dualidade de chit e Sat

30
CAPÍTULO IX

OS SETE PRINCÍPIOS

Já que existem três aspectos de consciência e três constituintes do ser, cuja recíproca
harmonia é maya, resultam nem mais nem menos que sete realidades fundamentais em
toda a experiência do mundo do homem. Estas sete realidades não derivam de três em
nosso sistema de maya ou vida, porque este sistema é tão só uma parte de outro sistema
superior, em que já existiam as sete realidades. Mas ao constituir Shiva a Sua Trindade de
Seu sétuplo ser, empresta, por assim dizer, três dos sete princípios a Brahmâ e outros três a
Vishnu, reservando para si o primeiro, o ananda.
Disto se infere que as sete realidades ou princípios são perfeitamente iguais e nenhuma
delas está constituída por uma mescla ou combinação com alguma das demais; e, portanto,
pode-se-lhes denominar propriamente princípios ou causas primárias. Se por conveniência
os representamos numericamente, serão os números nomes arbitrários sem que deem
relativa posição às realidades. E se para facilitar a memória os representamos
diagramaticamente não se hão de adstringir aos princípios as propriedades matemáticas do
diagrama. O perigo de usar tais diagramas esta em que de per si pertencem a um princípio,
e dão motivo a que, do ponto de vista deste, se vejam os demais princípios, obscurecendo
desse modo a sua verdadeira natureza. Todavia, arriscar-me-ei a traçar os dois diagramas
seguintes:
SHIVA
Matéria Vontade
Energia Sabedoria
BRAHMÂ

VISHNU
(Amor)
MAYA

Lei Atividade
(Pensamento)

O primeiro diagrama pouca explicação necessita, porque é o de dois triângulos


equiláteros entrelaçados, bem conhecidos. É a melhor indicação dos sete princípios, que
assinalei com os algarismos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. O triângulo com o vértice para cima é chit, e
o do vértice para baixo é sat.
O conjunto é um símbolo da expressão por meio de duas relacionadas trindades de
sete princípios, a saber: 1. Ichchha (Vontade), 2. Jnana (Sabedoria ou Amor), 3. Kriya
(atividade ou pensamento), 4. Maya (ilusão), 5. Sattva (lei), 6. Rajas (energia), 7. Tamas
(matéria).
O segundo diagrama mostra a distribuição destes princípios na Trindade maior; mas
convém ter especial cuidado em não considerar os dois grupos como se estivessem um em
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cima do outro no espaço.

PRINCÍPIOS QUALIDADE DE DEUS


E IDEAIS DOS HOMENS
1. Ichchha Liberdade
2. Jnana Unidade
3. Kriya Compreensão
4. Maya Harmonia
5. Sattva Vontade
6. Rajas Bondade
7. Tamas Beleza
No longo caminho que conduz à bem-aventurança, todo ser humano tem de passar em
sua evolução por três grandes etapas: primeiro a de sat, depois a de chit e finalmente a de
ananda. Isto explica por que todos os seres anelam a felicidade; e os sete princípios que
movem sua vida no mundo são meios conducentes ao referido fim, no qual desaparece até
o amor, a verdadeira essência da consciência.
Como atualmente o homem se encontra na etapa chit, ele considera a Deus na
natureza externamente a si mesmo, e a Deus na consciência ou chit como no interior de si
mesmo. Mas Deus está igualmente em ambas as partes, e na prática os homens buscam a
felicidade em ambas as esferas.
Todavia, como todo homem pertence a Shiva, tem, como Ele, operantes os sete
princípios que põem sua consciência em contato com as sete realidades fundamentais da
vida, embora a diferença de Shiva tenha desiguais os sete princípios e sempre um deles
mais vigoroso que os demais.
Este princípio predominante é o seu raio.
Os sete princípios atraem constantemente todos os homens, porém cada homem
responde mais ao seu próprio raio, que então se torna o ideal supremo de sua vida, e pode
exaltar sua consciência à vida mais intensa de que seja capaz.
Eis os ideais que os sete princípios sugerem respectivamente; 1. Liberdade, 2. União, 3.
Compreensão, 4. Harmonia, 5. Verdade, 6. Bondade e 7. Beleza.
Ichchha é vontade, e do exame que fizemos deste princípio se infere claramente que é
livre a vida daquele em quem predomina a vontade, pois então prefere a liberdade a
qualquer outro bem do mundo.
Jnana é a sabedoria que, segundo vimos, põe uma consciência em perfeita vibração de
simpatia com outra consciência. É o amor que sem cessar anela mais íntima união, embora
a absoluta unidade, como a absoluta liberdade, só seja possível em ananda.
A compreensão significa uma atividade do poder mental do pensamento. E quem tem
kriya como raio predominante, resume todo o seu anelo em compreender acabadamente o
plano das coisas.
No capítulo dedicado ao quarto raio explicarei a influência no homem do princípio de
harmonia, demasiado complexa para mencioná-la brevemente.
Também as raças e as nações têm, como os indivíduos, seu princípio predominante.
Disso é exemplo que nos primeiros tempos da raça ária, e ainda hoje em dia na Índia,
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estiveram e estão em pauta os três até agora citados ideais. Vemos ali aqueles que buscam
o Deus interno, como eles o chamam, por meio dos três caminhos ideais, que
respectivamente se revelam com especial clareza nas grandes escolas yóguicas de Patanjali,
de Shri Krishna e de Shri Shan karacharya.
Mas ao chegar à metade da raça, ao povo grego, vemos ali em assinalado predomínio o
princípio de harmonia; os sábios induzem as pessoas a considerarem Deus como Sat, e nos
homens se desperta o vivo anelo de descobrir a Verdade, a Bondade e a Beleza.
As três modalidades de buscar a Deus externamente se correspondem com as três de
buscá-Lo interiormente, porque há correspondência entre o Deus externo e o interno,
entre o Deus na natureza e o Deus na consciência. Esta relação aparece entre ichchha e
tamas, e, portanto, entre a vontade na consciência e a estabilidade nas coisas. A vontade é
a estabilidade de consciência, e a materialidade é como se disséssemos a obstinação, a
teimosia das coisas; numa palavra, o tamas, que, segundo explicaremos com maior
amplitude mais adiante, é a beleza, o eterno equilíbrio e ponderação das coisas materiais
perfeitas, tanto em repouso como em movimento.
Assim como tamas corresponde a ichchha, também rajas a jnana. Este último princípio
é amor no homem, a energia de consciência que mantém unidos muitos seres viventes.
Rajas se mostra no homem como desejo que acumula todas as coisas e busca a
munificência universal. O ideal de um Deus bondoso move o homem a buscá-Lo na
natureza ou atrás dela como o dispensador de dons; e adora-O, por assim dizer, como a
soma de todo bem.
A correspondência entre kriya e sattva é a mesma que entre o pensamento e as leis da
natureza, que constituem a verdade acerca das coisas. Quem busca a verdade por
investigação das coisas compreende que nelas há uma ultérrima verdade ou realidade ante
a qual todos devemos inclinar-nos. O predomínio dos três últimos ideais nas últimas sub-
raças deu prevalência em sua vida às três grandes formas de adorar a Deus em sat ou
natureza, às quais comumente se chamam ciência, devoção e arte. Se parece obscuro o
significado do segundo destes três termos, recordemo-nos de que as nações europeias, em
seus lugares de adoração, veneram e reverenciam a Deus como dono e dispensador de
todos os bens e O apreciam pelo que chamam Sua bondade.
O diagrama seguinte mostra a correspondência entre as sendas externa e interna, os
ideais que os governam e a sua expressão nos negócios humanos.

Liberdade 1 5 Verdade
Pesquisa e operação

Governo Ciência
Vontade – Amor
Vontade – Amor
– Pensamento.
Introspecção e

- Pensamento.

no mundo das
operação na
consciência.

coisas.

União Bondade
Filantropia Religião

Compreensão Beleza
Filosofia 3 7 Arte

33
CAPÍTULO X

RELAÇÕES RECÍPROCAS

Já expliquei que Shiva é uno e que Sua unidade não é conturbada pela presença de
Vishnu e Brahmâ, que n'Ele existem e cada um d'Eles é trino. Daqui se infere que, segundo
já disse, Shiva é também setenário. Ao sétimo princípio que por Si retém se costuma
considerar como a síntese dos outros seis; mas em rigor é o primeiro princípio, não
constituído pela combinação dos outros, senão o de que derivam por dedução.
Pois bem: Shiva se relaciona por meio de Sua maya (ilusão) com os seis princípios,
separadamente do seu peculiar, mas Ele permanece sendo unicamente ananda (felicidade).
Vishnu se relaciona com Shiva por meio de ichchha, e com Brahmâ por meio de kriya,
mas de per si permanece essencialmente jnana, o amor, o coração ou a consciência
universal. Brahmâ se relaciona com Vishnu por meio de rajas e com Shiva por meio de
tamas; mas permanece essencialmente sattwa, a lei ou a mente universal ou mundo de
ideias.
Vishnu e Brahmâ existem parelhamente durante todo o período de manifestação ou dia
de Brahmâ, e Shiva os mantém em harmonia por meio de sua yoga maya.
A consciência de cada homem é uma porção de Vishnu ou chit; e a evolução em todos
os planos a que aludem os teósofos é a expansão da consciência individual para
compenetrar-se cada vez mais com Vishnu ou Logos teosófico, chamado por alguns o Deus
ou Consciência suprema de nosso sistema planetário. Não é o Deus universal, senão o Deus
da consciência cuja trina natureza está constituída por ichchha, jnana e kriya.
Para compreendê-lo assim, é necessário prescindir de planos e considerar Vishnu como
a consciência total do sistema. O Grande Triângulo da Hierarquia oculta de nosso globo é
uma importante parte de Vishnu, de Quem são partes menores as consciências individuais
dos homens.
Os três membros do Grande Triângulo da Hierarquia oculta são o Senhor do Mundo, o
Buda e o Mahachoan, que respectivamente representam os princípios ichchha, jnana e
kriya do Vishnu solar, ainda que não representem Shiva, Vishnu nem Brahmâ. Mas como
Vishnu está relacionado com Shiva e Brahmâ ao longo de toda a linha de consciência e não
tão só na sede solar, por assim dizer, temos que os membros do Grande Triângulo
desempenham o papel de Shiva, Vishnu e Brahmâ com relação à consciência do mundo.
Assim o esclarece o seguinte diagrama:

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Portanto, o Senhor do Mundo se parece, por assim dizer, a Shiva, o Deus universal, de
modo que a consciência de nosso globo possa conhecer o Eu e cumprir a sua vontade. O
Senhor Buda mantém a unidade de jnana de nosso globo e a oferece ao Vishnu solar. As
funções do Senhor do Mundo e do Senhor Buda são algum tanto ocultas e transpõem os
reinos de maya. Mas o Mahachoan, que governa o kriya de nosso globo, vale-se desta
potência para relacionar-se com o trino Brahmâ, e por meio de maya relaciona a
consciência de nosso globo com o trino mundo de matéria. Desta maneira Ele tem cinco
princípios a Seu cargo.
Toda vida é vida de Shiva; mas como os homens estão passando pela fase de Vishnu,
conquanto cada qual pertença a um dos princípios fundamentais da única vida de Shiva,
está mostrando por agora a sua natureza essencial mediante uma modalidade de
consciência. Mas recordemo-nos de que a consciência, o processo do tempo, não é a sua
vida real, assim como a mera existência, o processo do espaço, não é a sua consciência. Do
mesmo modo que o homem utiliza em seu corpo uma porção de Brahmâ, também utiliza
em sua consciência uma porção de Vishnu; mas sua vida real transcendente a consciência.
Pois bem: como Shiva - o verdadeiro Deus para o homem - é uno com Vishnu e Brahmâ,
o homem pode buscá-lo enquanto passa pelo consciente estado de vida mayávica,
dirigindo externa ou internamente a sua consciência para o princípio universal expresso por
meio de Vishnu ou de Brahmâ. A vontade, o amor e o pensamento têm assim aplicação
dual, pois podem dirigir-se internamente à consciência ou externamente à matéria,
segundo o raio a que pertença o indivíduo possuidor da referida consciência.
Por outro lado, ainda que todo homem viva na trindade de consciência, é setenário,
porque procede de Shiva, e os sete princípios estão inseparavelmente presentes em todo o
homem, mas ao predominante, por ser mais vigoroso, se chama o seu raio. Portanto, o raio
de um homem não só não é uma coisa material, como tampouco é uma distinção de

35
consciência, mas pertence-lhe por sua relação com Shiva. Assim é que não se pode vê-lo,
porque a visão é um dos sentidos, por alto que esteja o plano da visão, e o seu objeto são
sempre as gunas sattva, rajas e tamas.
A consciência nunca é visível, e muito menos o é a verdadeira vida ou ananda. Todavia,
se um homem atua notoriamente em determinado sentido e tem adequado tipo de
matéria (vida na fase sat) para os seus veículos e propósitos, cabe inferir que o seu raio o
incitou a escolher a sua obra e determinou as características do seu corpo.
Ao falar do raio de um homem, considerando o princípio nele predominante, não nos
esqueçamos que também possui os outros seis princípios, e que falamos de um homem,
isto é, de quem é dono de si mesmo até o ponto de governar a sua vida desde o interior de
sua consciência, e não deixar que seja um conjunto de atos reflexos ou de respostas
submissas às influências do ambiente.
O homem que busca Deus por meio de um ideal é positivo e não está submerso em sat,
nem dominado por sat, como o estão os homens de muito atrasada evolução. Vale-se do
poder seu pensamento para indagar a verdade, do sentimento para descobrir a bondade
das coisas e da vontade em ação para achar e revelar a beleza. Todas estas atividades são
completamente diferentes do servilismo e negatividade do embrião de homem que vive
sem outro propósito que se revolver na ociosidade, na indiferença e nos prazeres egoístas.
Os raios dos animais estão claramente assinalados, mas não assim os dos homens até
que estes tenham progredido o bastante no reino humano, pois, enquanto não
progredirem, poderão considerar-se no reto e natural sentido como fracassos de homem.
Com o desenvolvimento de suas faculdades intelectuais, complicou-se de tal maneira o
karma e se abriram influências tão diversas, que geralmente o homem perde de vista, por
obscurecidos, os profundos anelos espirituais de seu verdadeiro ser. Contudo, se alguém se
desse ao paciente trabalho de analisar o homem comum, veria que um de seus sete
princípios é mais vigoroso que os outros seis, e guia as forças de sua alma para o aspecto
universal de si mesmo.
Num homem de caráter, que não seja escravo de seu corpo nem das emoções pessoais
relacionadas com este corpo, nem de ideias fixas ou prejuízos adquiridos, senão que a
vontade, o amor e o pensamento próprios guiem a sua conduta, pode distinguir-se o raio
com relativa facilidade, e também pode formular-se a si mesmo algumas perguntas que o
ajudem a descobrir o raio a que pertence. Mas reservaremos estas perguntas até que
tenhamos descrito especificamente cada um dos sete raios.
Na vida comum dos homens, manifestam-se os raios nos seguintes tipos gerais:

1º O homem de vontade, que se esforça por libertar-se do domínio do eu e das


circunstâncias. É o governante.

2º O homem de amor, que se esforça por conseguir a unidade por meio da simpatia. É
o filantropo.

3º O homem de pensamento, que se esforça por compreender por meio do estudo da


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vida: é o filósofo.

4º O homem de imaginação, que busca a harmonia por um triplo caminho: o mago, o


ator e o artista simbólico.

5º O homem de pensamento, em busca da verdade no mundo. É o cientista.

6º O homem de amor, que busca Deus como Bondade no mundo. É o devoto.

7º O homem de vontade, que busca Deus como Beleza no mundo. É o artista e artífice.

As expressões e atividades destes tipos gerais são variadíssimas, e na Parte II deste livro
veremos que incluem, respectivamente, as características atribuídas aos raios pelos
diferentes tradistas desta matéria.
Antes de encerrar a Parte I deste livro, eu gostaria de explicar por que empreguei
termos imaginários da literatura sânscrita, ao invés de outros termos mais familiares aos
leitores ocidentais. Primeiro, porque pessoalmente aprendi estas verdades nesses termos
sânscritos. Segundo, porque (tal qual na ciência e tecnologia modernas) é de se desejar
haver novas palavras para ideias novas, e as palavras sânscritas são as mais adequadas.
Estas verdades são de âmbito mundial, pouco importando a linguagem que lhes empre-
gamos. Os cristãos, por exemplo, podem substituí-las em sua leitura por "O Pai, o Filho e o
Espírito Santo", em vez de Shiva, Vishnu e Brahmâ, se o desejarem.

37
PARTE II

OS SETE RAIOS

“Existem sete Grupos principais de ... Dhyan Chohans. Em todas as religiões


se encontram e reconhecem esses Grupos, pois são os Sete Raios primevos. O
Ocultismo nos ensina que a humanidade se divide em sete Grupos distintos.”
A Doutrina Secreta

38
CAPÍTULO XI

O PRIMEIRO RAIO

Diz o Manu de nossa raça: "O governo e domínio de si mesmo é felicidade; deixar-se
governar por outros é infelicidade".
Este sentimento anima a quem pertence ao primeiro raio, porque é o primeiro dos três
raios de independência e intuição. Diz-se que as pessoas pertencentes a estes três raios são
independentes porque não consideram o mundo como um mestre ou uma munificiente
mãe, uma formosa mansão, e sim como uma terra de aventuras para a denodada vontade,
o alegre coração e a anelos a mente, a que chega de um longínquo país com o objetivo de
realizar grandes façanhas.
Um homem assim transborda de iniciativas, porque não espera que as circunstâncias e
ocorrências o impulsionem à ação senão que as trata, e às vezes sem o devido respeito,
como peças de um jogo em que está empenhado, como materiais de um projeto que vai
pôr em execução. Chamam-no intuitivo porque deliberadamente emprega as suas
faculdades mentais e emotivas no jogo da vida, onde o exercício as fortalece. Anela na
vontade mais sensação do Eu; no ânimo mais sensação de vida; na mente mais sensação
das coisas. Busca Deus ou a felicidade em sua íntima consciência e nisso emprega a sua
vida, enquanto que outros, com o seu poder e destreza de pensamento, vontade ou
sentimentos, põem a confiança no mundo externo e apreendem as lições da natureza.
Mas ambas as sendas conduzem a um mesmo termo: a amplitude da vida interna e
externa. Porque enquanto o homem busca a Deus na natureza, a beleza, verdade e
bondade dela agem nele e atualizam as faculdades que sente rebulir em seu interior, nota
que só pode empregá-Ias no melhoramento do mundo externo. Portanto, todo homem vai
retrocedendo em seu interior e avançando em seu. exterior, ao mesmo tempo.
A nota predominante no homem de vontade do primeiro raio é o domínio de si mesmo.
Quem pertença a este raio terá sentimento muito vigoroso do Eu, com uma firmeza ante as
circunstâncias e os sucessos que dificilmente logrará nada deste mundo comover ou
quebrantar. Inclinar-se-á às ações positivas, com valor bastante para afrontar a vida como
uma aventura, sem entregar-se à ociosidade nem à diferença. Mas se não está evoluído em
outros aspectos, podem ser desagradáveis as consequências.
Quem esteja evoluído e seja de régia vontade, e a si mesmo se domine, não haverá
para ele "pátria nem lar” determinados no amplo mundo, senão que a dignidade do Eu
será o ponto cêntrico e equilibrante de sua existência. Mas não é a dignidade que exige que
os demais a reconheçam ou que por este reconhecimento se esforça, pois então indicaria
dependência das coisas externas. Pelo contrário, é um altíssimo conceito de hombridade,
da própria existência, com extremo horror ao alheio dedo do importuno sucesso ou pessoa
que ousasse tocar, o sagrado santuário.
Assim como ninguém pode ver a beleza sem admirá-Ia (embora alguns a olhem sem vê-
la), nem ver a verdade sem reverenciá-la, assim todo o que sente o toque do Eu interno
39
não pode deixar de ser zeloso sacerdote de seu santuário íntimo. Esta dignidade está muito
longe do orgulho, pois um homem assim é demasiado altivo para ser orgulhoso. Não
consiste em um sentimento de superioridade, já que prescinde em absoluto de toda
comparação e medida com os demais. Seu anelo é ser uno com todos em igualdade de
termos, e seu interesse se cifra principalmente no que é do que no que está. É o homem
sem desejos, que vive internamente.
Em virtude deste ativo poder que o homem sente em sua vida, o supremo ideal deste
raio é a independência ou vida interna, livre das coações do ambiente, com tendência a
dominar as circunstâncias e adaptá-Ias a seus planos. O homem do primeiro raio sempre
tem no xadrez da vida um plano de ataque, realizado em todo o momento possível, e, sem
preocupar-se com o jogo do adversário, move audazmente as peças segundo o plano de
ataque que tenha forjado.
Característica da vontade é chegar ao fim por todos os meios possíveis, isto é, manter
de contínuo a mente em ação até, que cedo ou tarde encontre seguramente o caminho de
sua meta. Este sentimento de sua própria divindade move às vezes o homem a dizer
"Quero", ainda que não saiba como poderá realizar a sua vontade, porque tem a infalível
intuição de que seu Eu interno é o final e absoluto arbítrio de seu destino e o fundamento
de sua fortaleza. Então o pensamento conhece o Eu, a devoção o admira, por ele trabalham
as mãos, e todas as demais partes do homem amam o Eu; e, portanto, pode
verdadeiramente querer com toda a sua vida e com todo o seu ser.
Por causa de sua fortaleza interna, goza na adversidade e contempla amistosamente a
destruição que jamais cessa no reino da natureza. Há os que se horrorizam ante a inflexível
lei da natureza e contra ela batalham. Mas o homem do primeiro raio só vê nessa lei uma
amplitude de seu próprio poder e a respeita como o pugilista a um valioso adversário. Sabe
apreciar o trabalho do laborioso, e, quando algo está bem feito, vê atrás disso a vontade de
quem o fez, e considera-o como um triunfo que o capacita a cavalgar sobre as forças do
mundo, como na mais modesta ordem conhece o experto nadador que está seguro na
água, e quase inconscientemente dá mostras desta segurança antes de se lançar nela, pois
lha infunde a sua arte de nadar e não precisamente a água. Assim também o homem do
primeiro raio não sofre ilusão alguma a respeito do intrínseco valor das coisas externas.
Não age para obter ganhos materiais que lhe proporcionem depois cômodo descanso, e
assim é que nem o fracasso nem a morte o deprimem.
Quando traça algum novo propósito, está sempre disposto a retirar estorvos dos
caminhos da ação, e esquece as coisas velhas ou as aparta de seu passo, e às vezes o
inquietam as coisas inúteis ou as pessoas que imiscuem na obra supérfluos sentimentos,
ideias e palavras. Geralmente tem um plano em marcha, e, quando o realiza, sucede-o
outro novo, com tanta regularidade como se sucedem as ondas do mar. Às vezes o
encontramos em disposição de destruir, rasgando alegremente velhas cartas e papéis,
afastando de sua biblioteca velhos volumes, desfazendo-se de móveis e roupas usados. Ou
vêmo-lo no transcurso de uma viagem livrando-se de tudo isso como o cão sacode a água
ao sair do banho. Dispõe-se a empreender uma nova aventura com a altivez de sua
desenvolta fortaleza, de pés e mãos livres e olho na mira.
Este espírito de destruição não se observa no homem do segundo raio, que com todas
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as coisas se afeiçoa, porque lhe falam da solicitude humana e do trabalho, e têm algo da
alma e energia do homem. Conheço uma pessoa sumamente espiritual deste raio, que
recorta os envelopes das cartas que recebe e aproveita o interior dos mesmos para notas,
não por mesquinharia, senão porque ama as obras humanas, conquanto a ele pareça que o
faz por economia e por repugnância ao desperdício.
O homem do terceiro raio examinará repetidamente o objeto que já não necessita, e
por fim o guarda dizendo que talvez algum dia lhe possa servir.
O homem da vontade não teve ainda o seu dia no departamento da economia política;
mas quando lhe chegar o dia, veremos que respeita tanto o consumidor como o produtor, e
em rigorosos termos diz que tanta retribuição ou paga merece o que consome alimentos e
usa outros artigos, como o que os produz e fabrica. E quando em remotíssimo futuro
chegar o dia de anarquia ideal, logo que o gênero humano tenha aprendido a lição de
fraternidade, não será necessário retribuir nem pagar nada a ninguém.
O Eu é sagrado. Não é, portanto, de estranhar que as pessoas respeitem suas
personalidades, o único eu que conhecem, e que o ridículo e indignidade pessoais sejam
acerbo tormento para os que não sentiram ainda, muito claramente, o seu Eu interno. Não
é prudente menosprezar a personalidade, porque verdadeiro é o deus que está atrás do
ídolo, e se o ídolo faz às vezes o tonto ou o louco, sua energia provém do deus interno que
logo surgirá em seu genuíno caráter. Assim vemos que a personalidade é o verdadeiro
companheiro e o melhor amigo do homem na terra, conquanto pareça às vezes agir como
inimigo.
A vontade humana dá um sentido real às coisas e põe a experiência de cada indivíduo
como última prova do real, de sorte que nesta prova se apoiam os pensamentos e
emoções. De nada vale o testemunho alheio, se não se lhe submete passivamente, senão
que o aceita mais bem como guia que como preceptor, e, se milita nas fileiras de um
caudilho, é por sua livre escolha. Se o caudilho lhe diz que "deve" fazer isto ou aquilo, ele
responderá que "quer fazê-lo"; e se o caudilho replica que tem de fazê-lo porque ele o
manda, ele responde dizendo que, por haver decidido obedecer-lhe, ele se obedece a si
mesmo. Poderá não ser consciente disso de maneira tão clara quanto o nosso exemplo;
mas o certo é que seu único caminho é o de seguir seu Eu interno.
A pessoa pertencente ao primeiro raio sabe que a vida é para a ação; portanto, impele-
o energicamente a necessidade de decidir-se nas questões práticas. Se suspende seu juízo
sobre alguma matéria, não é por fraqueza de vontade, senão porque decidiu suspendê-lo;
mas rara vez o suspenderá, pois preferirá expor interinamente o seu critério enquanto
submete o assunto à revisão. Sabe que deve mover as peças de jogo, embora não veja
claramente o resultado. Portanto, pode aprender muito mais da experiência resultante de
suas ações do que de pensar no que pode ocorrer se age em determinado sentido.
Há na fixidez de suas decisões algum risco de teimosia, porque não se detém a
considerar e reconsiderar vacilantemente um assunto ou ação. Uma vez se tenha decidido,
não voltará atrás em seu acordo, a não ser que deliberadamente se determine a revogá-lo.
Esta fixidez de resolução costuma molestar aqueles que com ele colaboram, e às vezes
pode ocorrer que sem se dar conta ele se empenhe no que tal ou qual coisa há de ser na
prática o que ele decidiu em sua mente. E ainda também projetará, quiçá, sua íntima e
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firme convicção no reino da natureza, crente de que tal ou qual coisa é como a ele se
figura, e não quererá ir ver se com efeito o é ou não Tudo isto deriva de que a vontade é o
seu princípio predominante e sem cessar governa os seus pensamentos e emoções, e os
polariza para o seu prevalecente propósito ou disposição de ânimo.
As ultérrimas modalidades do indivíduo estão profundamente ocultas no Eu, pelo que
cabe considerar a vontade como o Eu atento à sucessão dos acontecimentos. Já que o
destino final de todos os seres é o mesmo, todos têm o mesmo anelo no fundo de seu
coração, e unicamente por meio desta unidade fundamental cabe lograr a completa
liberação. Entretanto, assim como o yogue em meditação parece uma rocha sentada, assim
podemos dizer que é uma coluna de ferro o homem do primeiro raio. Sua liberdade
temporária se estriba em sua aptidão, como a dos antigos estóicos que não se preocupa-
vam com o que não dependia deles, porque ele é completamente senhor de si mesmo, e,
portanto, de tudo o que de sua vontade depende no mundo. Nada importaria a um homem
assim sustentar sozinho uma opinião contra toda a humanidade sem duvidar um momento
de que ele está certo e os demais equivocados,
Se, por outro lado, fosse um homem completamente evoluído respeitaria com profunda
consideração o critério contrário, mas sem dele partilhar nem renunciar o seu. Traçou-se
uma norma de conduta que pode seguir ainda em meio das adversas circunstâncias e
contra o costume geral, ainda que fique sozinho com a sua norma, por nunca assimilar os
matizes do exterior E por isso o escolhem os Guardiões da Humanidade para iniciar no
mundo novas normas de vida.
Como quer que por meio de sua vontade o homem pode modificar-se a si mesmo, a
prática do autodomínio e da austeridade são fáceis ao homem deste raio. Governa-se e
rege-se com vara de ferro. Se sabe que as carnes são alimentos nocivos sob sob os aspectos
fisiológico e moral, abster-se-á delas sem esforço. E se o corpo protesta dizendo que
apetece de novo o morboso alimento e lhe pergunta se é verdade que lho negará para
sempre, o homem do primeiro raio responderá que, com efeito, a proibição é perpétua. Se
crê que certos exercícios ,ou praticas são benéficos, efetuá-Ios-á sem qualquer coibição a
inércia ou repugnância do corpo.
Fará tudo isso sem excitar-se, sem tensão nervosa, pois não há coisa mais tranquila e
aprazível neste mundo do que a vontade.
Alguns imaginam .que as pessoas soberbas, jatanciosas e dominadoras, tem muita regia
vontade, mas não é tal, senão que tais pessoas procedem assim porque lhes parece um
meio eficaz de fazerem-se obedecer. Igualmente também obedeceriam elas se alguém
ainda mais soberbo e jatancioso as dominasse, ao que jamais se submeteria o homem de
firme vontade.
Repetimos que a vontade é a coisa mais tranquila do mundo e o homem que a si.
mesmo se governa não considera a austeridade como um fim determinado mas sim como
o método de vida mais próprio Eu cuja pureza .é sagrada, não como a qualidade adquirida
ou uma virtude conquistada, senão como atributo essencial de sua existência.
Na Índia vemos esta potência da vontade mais manifesta no sentido nacional. Há
muitas pessoas que, enquanto esteja satisfeito seu Eu Interno, quase não atendem às
coisas externas. E na vida pratica encontramos aqueles que são fortes nisto, mas débeis em
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outros pontos de sua natureza, e dizem-nos que achamos o nosso caminho e devemos ser
ditosos nele, enquanto que eles persistem em seguir o que lhes parece ser o seu.
O primeiro raio é amiúde uma senda estranhamente silenciosa, e até o som que ouve
internamente é uma voz do silêncio, que guia o homem pela senda da yoga muito mais
seguramente que a clarividência.
Entre as filosofias práticas, a de Patânjali é típica do primeiro raio, pois seus Yoga
Sutras contêm ensinamentos para o homem de vontade. Assinala a kaivalya ou
independência por meta dos esforços do discípulo, e a subjugação do corpo, dos sentidos
e da mente por etapas de sua consecução. Mesmo em seu curso preliminar, quando fala
esta escola da necessidade de reverenciar Deus em todas as coisas para alcançar o reto
conhecimento, coloca em primeiro lugar a ação de tapas, que em genuíno e amplo
conceito significa o governo e domínio próprios, em todos os aspectos.
Entre os gregos e romanos, o primeiro raio deu origem à escola estóica, e
especialmente em Roma culminou este aspecto daquela grande filosofia. O verdadeiro
estóico sentia então a dignidade do Eu; e ainda que houvesse de escapar de sua casa
incendiada e ver em ruínas o trabalho de toda sua vida, dizia que não havia perdido nada
porque toda a riqueza a resumia no Eu. Assim o compreendia por experiência, e afirmava
que, por penoso que fosse tudo quanto lhe acontecesse, devia servir para enaltecer a sua
vida.
Não falei dos defeitos deste raio porque não os tem nenhum. Pode ocorrer que o
indivíduo pertencente a um raio não tenha alcançado muito alto nível nos demais princípios
de sua constituição. Em tal caso, o homem de vontade se manifestará egocêntrico,
despótico, astuto, ousado, violento, inconsiderado e incauto em seus propósitos. Mas não
se têm de atribuir estes defeitos ao vigor da vontade, senão à deficiência das demais
qualidades, e a maneira de saná-la não consiste em inutilizar a faculdade que já
plenamente possui, nem em desdenhar as incitações de seu caráter essencial, senão em
processá-las com maior acerto, de sorte que o homem compreenda quão muito mais
copiosa poderá ser a sua vida e quão muito mais dilatados os seus horizontes quando
aprender a amar e a pensar como aprendeu a querer, quando respeitar tudo quanto de
belo, agradável e bom existe no admirável mundo que Deus nos deu para escola.
Às vezes observamos nas crianças a vontade em forma de obstinação. A criança quer
fazer uma coisa e está a ponto de fazê-la quando um indiscreto adulto se interpõe, dizendo-
lhe que é seu dever fazê-la. Então tira o prazer da criança, que resiste em estrepitoso
protesto ou em silente obstinação. Sei de um menino de seis anos, cuja mãe queria vestir-
lhe determinada camisa, mas o menino negou-se teimosamente a deixá-la vesti-lo, porque
não lhe agradava a maneira como queria fazê-lo a sua mãe. Chamaram o pai. O menino não
tinha aversão real pela camisa, e teriam bastado umas palavras de persuasivo carinho para
que ele obedecesse; mas o pai lhe deu uns tapas, e então o pequeno murmurou entre
dentes: "Agora não usarei a camisa, mesmo que me matem".
Os pais e parentes ignorantes tratam de vencer na porfia as crianças teimosas e reduzi-
las à submissa obediência; mas geralmente só conseguem convertê-las em criaturas de
uma bondade tão vulgar e néscia que não serve nem às crianças nem aos demais. Tal
bondade não é outra coisa que a malícia, como em rigor é guerra a ideia que muitas
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pessoas têm da paz. Se ao menino de nosso caso houvessem tratado com amor,
seguramente responderia com a voluntária obediência, e à vontade se acrescentaria o
amor, de sorte que, quando homem, teria tido amor apoiado pela vontade e sem dúvida
levaia a cabo meritórias ações no mundo.
Se o homem do primeiro raio intervém na política de seu pais, para o qual nem sempre
tem ocasião nem tempo nem motivo, será excelente político, pois, por haver conseguido
governar-se a si mesmo, acertará em governar os demais. E se por outro lado tem vivo o
sentido de amor ao próximo, esforçar-se-á em que os cidadãos conquistem a liberdade que
ele conquistou, não impondo-lhes regulamentos, leis e ordens coercitivas de fora para
dentro, senão estimulando-lhes a vontade para que por impulso de dentro para fora
enalteçam a sua conduta.
O homem puro e bom de cada raio só anela fazer aos demais partícipes do gozo do
ideal que achou para si mesmo, e, se é prudente, empregará todo o seu poder a serviço de
seus ideais.

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CAPÍTULO XII

O SEGUNDO RAIO

A característica do segundo raio é o amor, a positiva expressão e manifestação na


conduta daquela sabedoria que por meio da simpatia percebe o estado de consciência dos
demais e o tem em conta ao relacionar-se com eles.
Também é um raio de iniciativa, porque o amor é a atuante energia da alma, o rajas da
consciência, e todas as suas atividades propendem ao fomento da fraternidade e a que
seja cada vez mais completa na vida nossa unidade com os demais. Os indivíduos não
pertencentes a este raio, embora sejam capazes de sentir muita simpatia pelos gozos e
penas do próximo e reconheçam os benefícios que aos homens traz a cooperação, não
conseguem compreender facilmente que a união não é um convênio, senão um ato, e que
a fraternidade é mais que cooperação, porque na fraternidade intervém o sentimento e
não assim na cooperação.
Quando o sentimento de unidade está suficientemente arraigado no coração de um
homem, ele já não julgará os demais de seu peculiar ponto de vista, nem considerará as
vantagens que deles receba, senão que por meio de um delicado sentimento se porá em
contato com as consciências alheias, de modo que tome tanto interesse pelas
necessidades do próximo quanto pelas suas próprias. A esfera de tal sentimento vai se
ampliando à medida que o homem de segundo raio evolui, e chega a ser o pai ou mãe
ideal, o cidadão ideal, o patriota ideal, e irmão de todos os homens, de modo que ama a
quantos olha.
Assim mantém no coração o solvente de todas as doenças sociais, que é o grande
poder do amor, e não é sua mínima virtude a universalidade deste amor, que o move a
respeitar não só os seus afins, que por afins o afagam, senão aos que lhe são diferentes em
grau ou classe. Mais ainda, reverencia os que dele diferem, porque possuem alguma parte
da vida e louvabilíssima luz de consciência que ele não logrou ainda incorporar à pequena
parte de sua própria. Por fortuna sua, não necessita de meios de alegrar-se e divertir-se,
mas é indispensável que deles disponham os demais, e assim toda a sua atividade se
encaminha para o altruísmo e o perfeito amor desvanece ao mesmo tempo que causa o
temor, a cobiça e quase todas as causas de antagonismo entre os homens.
É possível gozar dos prazeres da riqueza sem a carga de sua posse, quando os prazeres
nos proporcionam as belezas naturais que não consentem monopólio, ou quando forjamos
a imagem mental da fruição. Um pobre costumava sentar-se à porta do palácio de um
magnata e imaginativamente desfrutava de todas as suas riquezas, e ao deter a vista nas
vitrinas das vendas, imaginava-se possuindo quanto apetecia e necessitava. Ao regressar de
uma viagem, um indivíduo notou a falta de um magnífico relógio de ouro, e, sem
aborrecer-se pela perda, pensou prazerosamente em que alguém o houvesse encontrado.
De certo que estes não são exemplos ideais de homens do segundo raio, mas indicam
claramente o tipo deste raio. Aqueles que pertencem ao segundo raio sofrem de bom

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grado por seu amor, e, ao extasiar-se de amor, não se apercebem da índole sacrificial de
muitos atos de sua vida. Não auxiliam o próximo sofredor com o objetivo de evitar a si
mesmos o sofrimento que por simpatia lhes ocasiona, nem cuidam de fugir à contemplação
de lástimas e misérias, nem apartá-las de sua vista para melhor esquecê-las. Pelo contrário,
estão sempre dispostos a encarar o mundo com todas as suas imperfeições e miscelâneas
de alegrias e tristezas, e dizem humildemente:
"Só Deus é a absoluta realidade. As coisas do mundo são relativamente boas, melhores
ou piores, ainda que em todas podemos gozar, porque o pior propende a transmutar-se
em melhor, e cada mostra de benevolência, companheirismo ou serviço contribui para o
melhoramento que por fim há de conduzir-nos ao sumo Bem".
A doutrina da evolução progressiva e ascendente cativa os indivíduos deste raio e lhes
infunde uma energia que não deixa seu amor em mero sentimento, senão que o derrama
em máxima caudal. Por isso a hipótese da evolução atrai os indivíduos do segundo raio,
porque é a lei de amor manifestada na vida e no mundo.
Consideremos a mais apropriada definição desta lei, a que anunciou há anos Herbert
Spencer, dizendo que consiste na mudança progressiva de um estado de incoerente
homogeneidade a outro de coerente heterogeneidade de estrutura e funcionamento. Isto
significa simplesmente que cada organismo dotado de consciência esta em marcha para
um estado mais definido e independente, com maior decisão de caráter. Mas ao mesmo
tempo impulsiona-o a lei a unidade com os demais seres, na qual sua ação se utiliza no
adiantamento de algo mais que sua separada personalidade.
Evolução também significa que o que antes era análogo e separado se transmuta em
distinto mas unido. E quando chegar o término ideal da evolução, a lei e a ordem haverão
triunfado do caos e das trevas e todos os canais estarão perfeitamente dispostos para que
por eles se efetue o intercâmbio universal de vida na terra como intercambiada está no
céu. O indivíduo do segundo raio goza e se deleita em formar parte deste progressivo fluxo
de consciência; e não se queixará de que o fluxo não alcance o mais alto nível, senão que
considerará tais como são quantos se lhe aproximem sem vituperá-los insensata e
lastimosamente, e esforçando-se com todas as energias de seu ser por estimá-los para que
adiantem algo mais em seu aperfeiçoamento.
A esta senda de evolução humana se chama na Índia karma yoga. Sei que esta
afirmação é subversiva, mas é exata; e por outro lado é errônea a ideia vulgar que
considera o karma, a ação, as obras, como elemento essencial da karma yoga, sem ter em
conta que o amor converte o karma em karma yoga.
Shri Krishna divide a senda do amor em dois grandes ramos: a bhakti yoga, ou devoção
a Deus, e a karma yoga, ou devoção ao homem. Nada mais claro que a seguinte instrução a
Arjuna:
"Verdadeiramente, assim como Janaka e outros alcançaram a perfeição
agindo tendo em vista a unidade de todos os seres, assim deves tu agir.”
Portanto ao homem genuíno do segundo raio é impossível evitar o mundo da ação
dizendo não ser isso muito bom para ele, ou desdenhando as solicitudes de serviço que por
toda parte em ampla e curta medida lhe dirigem. Sua condição é andar por toda a parte
fazendo o bem. Nunca dirá em absoluto, "isto é bom e isto mau de fazer", mas tudo ele
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fará melhor do que foi antes de ser bom.
Conheço um magistrado que preside um alto tribunal de justiça num país cujas leis
castigam ainda com a pena de forca o assassino. Em sua vida privada, o único pensamento
deste juiz e castiço hindu é fazer todo o bem que pode e não prejudicar a ninguém; mas de
quando em quando o seu dever profissional o obriga a condenar um assassino à morte. Faz
algum tempo, um de seus amigos espirituais lhe perguntou: "Não é incongruente com
vossos ideais a responsabilidade da morte de um próximo, ainda que seja de condição
inferior? Não devereis demitir-vos de um cargo que tanta crueldade vos exige? Por que
consentis em ser agente de tão malvada lei?"
O juiz refletiu profundamente sobre o assunto, e por fim decidiu não se demitir do
cargo, dizendo: "Se eu, mesmo amando os assassinos, condeno um à morte, porque me é
impossível salvá-lo, pode ser que meu sucessor, não os amando como eu os amo, condene
quatro à morte; e se o karma me castiga pelo homem que condenei, devo sofrer o castigo
em atenção aos três homens que salvei". O juiz não infringia a lei do amor e não matava
um para salvar outro, senão que cumpria a lei estritamente e salvava vidas humanas.
Também conheci uma senhora residente numa cidade populosa onde eram muito
primitivas as determinações para a recolhida de cães e gatos vagabundos. O município
empregava dois homens neste serviço: um para capturar os animais e outro para matá-los;
e a cada um destes homens pagava em proporção ao número de cães e gatos recolhidos,
os quais tinham o breve respiro de três dias entre a captura e a morte.
A senhora, que amava ternamente os animais e a amargurava o pensamento de que
sofressem, reuniu umas tantas amigas e com elas formou uma associação na qual
ingressaram alguns funcionários públicos de muito respeito e consideração social. Então
solicitaram ao Conselho Municipal que encarregasse a recém-constituída associação de
tudo o atinente à recolhida de cães e gatos vagabundos. O município acedeu à solicitação e
entregou-lhes em usufruto um velho edifício com pátio anexo, nomeando diretora da
instituição a referida dama, que então empregou um dependente seu para que com um
caminhão percorresse a cidade e recolhesse os cães e gatos vagabundos. A associação os
mantinha durante três semanas, anunciando entretanto ao público onde poderiam ser
encontrados os animais que se houvessem perdido, ou adquirir os que desejassem, de
sorte que até o cabo de três semanas não se matavam os restantes. Tal era a compaixão da
senhora que os matava com suas próprias mãos, de sorte que sofressem o menos possível.
A pessoa do segundo raio não faz o bem por gozo egoísta, mas por causa de seu coração
amoroso.
Este é o raio da fraternidade. O homem do segundo raio anda semeando o bem. Sente
que a boa vontade, amizade e afeição são o cimento na construção do templo da
humanidade. Percebe que esquemas, regulamentos, acordos e cooperação não irão longe
nessa obra, e que sem amor jamais poderão negociar a paz para a humanidade.
As pessoas deste raio são os melhores professores e médicos.
O indivíduo do segundo raio não faz o bem pelo prazer egoísta de fazê-lo, senão
porque à prática do bem o move o seu coração amoroso.
Os indivíduos deste raio são os melhores professores e instrutores. Recordo que há uns
vinte anos li um artigo do famoso professor da Universidade de Oxford, Bernardo
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Bosanquet, em que dizia que não era conveniente confiar cátedras e escolas aos
licenciados e doutores de talento mais brilhante, porque lhes havia custado muito pouco a
aprender o que sabiam e não se achavam em disposição de compreender o estado mental
da geração dos estudantes. E seguramente o amor é a qualidade mais necessária não só na
educação, para desenvolver as faculdades latentes na criança, mas também na instrução
para transmitir conhecimentos.
Sabido é igualmente que, em muitos casos, o médico que maior e mais vivo interesse
toma pelo enfermo é não somente o mais popular, mas também o mais afortunado.
Ao homem de cada raio se deparam na vida muitas atividades em todas as etapas da
evolução. No regime econômico de nossos dias, além das chamadas profissões, o indivíduo
do segundo raio poderá ser um comerciante ideal, proporcionando ao povo o que
verdadeiramente este necessite e lhe convenha. Marcará honestamente o preço das
mercadorias, com um lucro razoável, e se negará a vender os artigos produzidos por meios
desumanos. Hoje se considera o comércio tão só como um meio de ganhar dinheiro, e
assim se diz que o negocio não tem estranhas; mas se bem se analisa, ver-se-á que o
comércio honesto depara uma das ocasiões mais favoráveis de servir a humanidade.
Alguns imaginam que a facilidade de contrair amizades superficiais é indício de
pertencer ao segundo raio; mas não é tal. Conheci um cavalheiro, de caráter sumamente
agradável, que durante sua dilatada vida não havia tido mais amigos que as pessoas de sua
família. Perguntei-lhe um dia como era isso, e ele me respondeu: "Não posso brincar com a
amizade. Se me torno amigo de alguém, é para servi-lo por todos os meios, em todas as
tribulações e dificuldades; e como já tenho bastante com minha mulher e filhos, e não
devo comprometer o que eles necessitam, abstenho-me de contrair amizades". Este
cavalheiro é exemplo de um grande coração combinado com o pensamento do terceiro
raio, sempre disposto a sacrificar seus prazeres e diversões em bem alheio, mas de uma
maneira perfeitamente oportuna.
Desde logo cada raio de per si está isento de defeitos; mas é possível que os indivíduos
do segundo raio padeçam de muitos graves defeitos, se têm em baixo nível as qualidades
dos outros raios. Muitos há que sofrem intensamente ao pensar nos horrores subjacentes
em nossa civilização, mas nada fazem para evitá-los, porque sua vontade é fraca, e em
troca amarguram sua vida e conturbam a alheia com suas queixas de que quase todo o
poderio e dinheiro do mundo estejam em mãos daqueles que não amam o próximo. Se
empregassem a pouca energia sua em fazer algum bem, por leve que fosse, não
acrescentariam seu próprio desgosto ao acúmulo de misérias já existentes no mundo, mas
preparar-se-iam para o exercício de maior poder no futuro. É condição deste mundo de lei
que ninguém tenha poder nem oportunidade que não haja se esforçado por merecer.
Análogo é o defeito de levar o altruísmo a extremos absurdos, como quando Goldsmith
atirou pelas janelas todas as suas roupas de cama a um pobre vagabundo que na ocasião
passava pela rua. Os mais não são felizes se sabem que a gente sofre por sua culpa, e os
que não fazem o que devem para com a sua conduta alegrar o ambiente alheio, são uma
grave calamidade para o mundo. Os arrebatos que poderiam chamar-se de generosa
indignação também são defeitos neste raio, enquanto que o homem do primeiro raio é
mais capaz de manter-se equânime quando a ocasião lhe é adversa, e o do terceiro raio é
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mais propenso ao temor.
Da mesma sorte, é perigoso o vivo amor quando não o acompanham outros dons
naturais, porque então pode causar mais dano que benefício à pessoa amada, sobretudo
quando são deprimentes os seus defeitos. Narra-se o caso de uma senhorita norte-
americana que vivia numa modesta sobreloja com sua mãe e sua irmã menor, que ela
mantinha com o produto de seu trabalho cotidiano na cidade. A senhorita acabou por
corresponder ao amor que, lhe dedicava um jovem aneloso de casar-se com ela e retirá-la
do ofício para se instalarem os dois no domicílio conjugal. Porém, com multo pesar da
parte de ambos, a senhorita não podia. separar-se. de sua mãe, já idosa, nem de sua
irmãzinha que necessitava frequentar um colégio de custosa matrícula para assegurar o
seu futuro, pois já havia completado dez anos.
Enquanto os noivos se achavam neste beco sem saída, o dono do estabelecimento
onde trabalhava a senhorita, cavalheiro de idade madura, benevolente temperamento e
sagaz observador, inteirou-se do que sucedia, e muito logo se deu conta de que nem a mãe
nem a irmã aproveitavam material nem moralmente do carinho e condescendência com
que as tratava a sua empregada. Em consequência tomou a brusca determinação de
chamá-la um dia e despedi-la no ato. Não tinha ela nem a mais remota esperança de
encontrar outro emprego, e as coisas começaram a tornar-se muito pretas sob o aspecto
econômico, porque sempre haviam saldado os gastos com o que ela recebia. Contudo, não
tardou .em chegar o remédio eficaz, pois a mãe compreendeu que algo devia fazer
pessoalmente, pôs-se a trabalhar numa venda onde logo esqueceu seus achaques, que
desapareceram prontamente com tão refrigerante tratamento, e ganhou muitas amigas,
de modo que sua vida foi deste então mais alegre e robusta, ao passo que a irmãzinha
abandonou seus vaidosos sonhos e nos dias de festas ganhava algo com que ajudar parte
dos gastos do colégio. Os noivos casaram-se e viveram felizes, à sombra benigna da
paternal amizade do mesmo patrão que para o seu bem a despedira. Está certo levar ao
colo um cão aleijado, quando se tem de subir uma escada; mas seria insensatez e
contraproducente levá-lo às costas pela rua.

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CAPÍTULO XIII

O TERCEIRO RAIO
Há tempo, vi um anúncio ilustrado que representava um par de jovens comprando
bombons de chocolate no mostruário de uma confeitaria. O anúncio exibia o letreiro:
"Chocolates de Johnston: Do homem que compreende à Jovem que Sabe". A jovem sabia
que os chocolates eram bons: o conhecimento é peculiar ao quinto raio; e o Jovem
compreendia.o que os bombons significavam para a jovem: a compreensão e própria do
terceiro raio.
O indivíduo pertencente ao terceiro raio é sensível às coisas externas como o do
primeiro raio o é à do Eu, e o segundo, à consciência dos demais seres. Contudo, como
estão na esfera dos três primeiros raios, aqueles que buscam a Deus, ao Eu ou à felicidade
interior interessam-se pelas coisas do mundo tão só em atenção ao seu enlace com os
estados de consciência
É o filósofo que necessita entender e compreender e crê que desta compreensão e
entendimento depende a felicidade, e que, ainda que o mundo derramasse prodigamente
todos os seus bens sobre os homens e reinasse paz fraternal entre eles, faltará a felicidade.
se a alma não compreender todas as coisas. O homem do terceiro raio é ativo a respeito
das coisas, mas tão somente no interesse da consciência. A compreensão é, em suma, o
estado em que a mente abarca o mundo em amplo pensamento que satisfaz à alma; ao
passo que o anelo do homem do terceiro raio não se estriba principalmente na mera
aquisição de conhecimento senão em satisfazer a fome de conhecimento que a alma tem.
Se aplica aos negócios da vida externa este seu poder ou faculdade de compreensão
que lhe permite ver o conjunto das coisas e compreendêIas, teremos nele o homem de
talento organizador, que prevê a maneira de fazer tudo eficientemente. Quando a
compreensão está irmanada com a vontade do primeiro raio, teremos aí o gênio da
invenção e da organização. Seu poder especial é o pensamento, e, se se atua em
colaboração com pessoas do primeiro e segundo raios, estas lhe emprestarão sua vontade
e amor, ao verem que ele compreende o modo como tem de dispor as coisas.
Se perguntamos a um indivíduo do terceiro raio o que ele fará a respeito de um
assunto prático, como, por exemplo, encarregar-se da direção de uma escola, responderá:
"Deixai-me pensar nisso durante cinco minutos". Provavelmente perguntará a uns e outros
não porque necessite que alguém pense por ele, coisa que o aborrece mas porque lhe
convêm informes em que basear firmemente o seu pensamento. É homem precavido, e,
se por acaso tem graves deficiências em algum dos demais princípios, pensará tão
cuidadosamente sobre a questão que tenha em mãos, que às vezes se lhe escapará a
ocasião de agir antes de decidir-se por meio melhor.
O poder deste raio dá ao homem uma mentalidade muito ampla, oferece-lhe a
conjuntura de abrir-se caminho em diversas atividades da vida. Mas por causa desta
mesma amplitude livre de toda coação, e das muitas ocasiões que se lhe deparam, é-lhe
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difícil concentrar-se numa só atividade com vigor suficiente para lograr êxito na vida,
enquanto que outros de mente estreita o conseguem, porque sua mesma limitação os
move a concentrar-se numa só atividade. O indivíduo do terceiro raio maneja o poder que
modela a matéria, e o aplica à arte, à magia ou a qualquer outra atividade, pois não está
limitado por predileções que dão tão intenso poder sobre determinadas atividades em
alguns outros ramos.
Quando o indivíduo se concentra, emprega o poder de sua vontade em aplicar a
atenção a um vigoroso foco onde mantém o seu pensamento. Quando ele medita,
identifica-se com o objeto de meditação, atendendo fixamente em cada uma de suas
partes e pondo todo o seu pensamento no objeto. Mas quando contempla, intervém um
terceiro ato, em que, por assim dizer, fixa o seu aperfeiçoamento. Então o poder do
pensamento naquela imagem mental modela ou dirige o material, governando as forças
naturais, como limaduras de ferro atraídas pelo ímã.
O pensamento é o grande poder criador empregado no princípio pelo Brahmâ (Deus)
solar. Não é simplesmente meditação, senão algo superior à meditação, a chamada
sanyama, que começa pela concentração e termina pela contemplação, abrindo a porta a
todo o êxito. Os yogues de cada um destes três primeiros raios praticarão toda sanyama,
mas o indivíduo do primeiro raio praticará mais cabalmente a parte de concentração; o do
segundo, a da meditação, e o do terceiro, a da contemplação. Cabe imaginar o poderio do
Adepto em quem os três primeiros raios alcançaram o pináculo da perfeição.
Por causa da amplitude de sua visão e de apreciar as coisas tão somente como pasto
da alma faminta de conhecimentos o homem do terceiro raio vê iguais todas as coisas,
mas em seu aspecto melhor e nunca no pior. É o sábio de quem dizem as Escrituras
orientais que olha por igual o inimigo, uma pepita de ouro ou um pedaço de barro. Desde
logo que isto não significa que o ouro seja barro ou careça de valor, nem que o amigo
valha menos para a alma que o inimigo tal como se costuma considerá-lo; de sorte que
neste sentido o barro é tão valioso quanto o ouro e um inimigo é em realidade um amigo.
Diz Emerson: "Para o poeta, o filósofo e o santo todas as coisas são amigas e sagradas,
todos os sucessos aproveitáveis, todos os dias santos, todos homens divinos, porque a
vista está fixa na conduta e desdenha o circunstancial". O princípio subjacente nesta
declaração o expôs com muito tino Epitecto ao dizer que Deus o havia posto neste mundo
com o único objetivo de que aperfeiçoasse o seu caráter com todas as espécies de virtude,
e que nada havia no mundo que ele não pudesse aproveitar para o cumprimento daquele
propósito.
O homem do terceiro raio vê que as coisas chamadas comumente adversas são
consideradas tais por serem desagradáveis à sensação ou agitarem a mente cheia de
prejuízos. E vê também que tudo pode redundar em benefício do homem, quando com
retidão de animo este o recebe como se viesse da mão de Deus o Dador de todas as coisas.
Também vê ele o significado das coisas chamadas comumente insignificantes e a
sublimidade do vulgar. Para ele, tudo é admirável e contudo nada é misterioso. Uma fibra
de erva lhe falará do Infinito enquanto que outros necessitarão de uma cordilheira ou de
um universo estelar para conceber isso. Quando o cientista positivista lhe diz: "Não há
milagres", ele responde: "Tudo é um milagre". E não obstante, ambos afirmam a mesma
51
coisa: a unidade na natureza. Sempre tem razão, e amiúde várias, de tudo que ele faz; e
pode descobrir a razão das coisas que lhe ocorrem de maneira estranha. Brahmâ é o ideal
deste raio, porque Ele ensinou aos Rishis tudo o concernente às coisas deste mundo.
A qualidade de viveka (discernimento) capacita o filósofo para distinguir o importante
do supérfluo no assunto que o ocupa. Refere-se no Japão que ao morrer o grande Shogun,
Ieyasu morreu, e, após sepultado o cadáver nas colinas de Nikko, o seu sucessor no
Shogunato convidou todos os Daimios do Império a que cada um enviasse uma lanterna de
bronze ou de pedra para ornamentar o jardim que rodeava o templo sepulcral. Todos
corresponderam ao convite, menos um que era demasiado pobre; este, em vez da lanterna
que ele não podia oferecer, plantou voluntariamente duas fileiras de árvores ao longo do
caminho para que sua sombra protegesse os transeuntes. Depois viu-se que sua oferenda
valia mais que as outras, e um homem do terceiro raio o teria notado desde o princípio.
Esta maravilhosa visão dá singular adaptabilidade ao homem do terceiro raio, que tanto
pode habitar numa choça como num palácio, e dormir no solo ou em colchão de plumas.
Demonstra, alem disso, esquisita sensibilidade no uso das coisas particulares, e aproveita
todos os materiais apropriados para realizar o seu plano. É o xadrezista por excelência, que
se serve das diferentes peças segundo sua índole convenha a determinado plano; isto é,
tem em projeto vários planos ao mesmo tempo, pois se a peça que move não convém a um
dos planos, pode convir a outro e tirar o maior proveito possível de cada situação.
Como em seu trato com as pessoas tem a mesma amplitude de visão, não o preocupam
as minudências, senão que acerta em distinguir entre o necessário e o supérfluo, e sua
natural adaptabilidade se manifesta em forma de tato ou dom com as pessoas. Às vezes o
estudo e exame dos costumes dos animais nos dá a compreender bastante do que é a
condição humana. Assim faz tempo opino que nosso irmão menor, o elefante, com o qual
tive ocasião de tratar extensamente na Índia, é o animal típico do terceiro raio. Pode-se ver
o elefante arqueando-se graciosamente horas inteiras num concorridíssimo mercado, e
observando atentamente quanto ocorre ao seu redor, mas sem mostrar o menor desejo de
intervir nisso.
Diz-se que ao se ver caçado, o elefante se revolve furiosamente como um demônio;
mas, ao compreender a inutilidade de toda resistência, tem a suficiente filosofia para
aceitar com perfeita calma a nova situação e acomoda-se docilmente às novas condições. É
muito valoroso diante de um perigo cuja natureza compreende, mas mostra-se em
extremo tímido diante de frivolidades se não as compreende, pois de tal modo se acha a
sua vida concentrada na compreensão. Num momento de pânico, desconcerta-se e
enlouquece, mas em circunstâncias normais é muito cuidadoso e considerado, e
sumamente fiel e solícito em seus afetos, sempre profundos e duradouros.
O indivíduo pertencente ao terceiro raio progredirá mais rapidamente se disciplina a
sua mente tanto em intensidade quanto em amplitude do pensamento. Para isso tem de
imaginar e preconceber claramente o que tenha de fazer em determinado tempo. Tal qual
o experto patinador que a cada momento se verga como se fosse de aço, ou o pinguim que
sem errar um só pesca os peixes, assim poderá pensar o homem do terceiro raio quando
tiver disciplinado a sua mente.
Para vigorizá-la e dar-lhe maior alcance, tem de ir-lhe acrescentando ideia após ideia,
52
mas de modo que, antes de acrescentar uma, esteja perfeita e claramente compreendida a
anterior. Assim pode pensar numa fibra de erva, depois em muitas e ir acrescentando
arbustos e flores à sua representação mental, até que seja capaz de forjar e manter em sua
mente a imagem de um jardim com todos os pormenores, como em princípio manteve a
imagem da fibra de erva.

53
CAPÍTULO XIV

O QUARTO RAIO

O predomínio do quarto princípio caracteriza o homem do quarto raio. Sua qualidade é


a harmonia. Não pode separar o mundo Interno do externo. Se concebe uma ideia, não fica
satisfeito enquanto não a põe em prática, e se tem de fazer uma obra no mundo, necessita,
para ser feliz, que a obra expresse uma ideia ou um ideal.
Entre os homens não representa unicamente o aspecto interno, como o governante, o
filantropo e o filósofo; nem tão só o aspecto externo como o cientista o devoto e o artista,
senão que manifesta o princípio de maya (ilusão), já descrito como expressão especial de
Shiva, que harmoniza Vishnu e Brahmâ No mundo terrestre não cabe maior realidade do
que esta harmonia, e contudo e ilusão, porque não é a verdadeira vida de Shiva, a
verdadeira ananda ou bem-aventurança.
A atividade do homem do quarto raio não é a de prakriti ou material, nem a de purusha
ou espiritual, nem a de sat ou existência, nem a de chit ou consciência senão a do que Shri
Krishna chamou "Minha outra prakriti", "Minha outra manifestação", a davi-prakriti, que
não é meramente maya, senão yoga-maya.
Corrobora esta verdade a experiência do indivíduo do quarto raio em cuja alma como
disse Emerson, não há vala nem cerca nem linha divisória onde cesse Deus e comece o
homem.
Nas primeiras etapas do seu desenvolvimento, o homem deste raio denotará vigorosas
disposições de ânimo, que às vezes o inclinarão aos três tipos de confiança própria (os três
primeiros raios) e outras vezes aos três tipos de devoção (os três últimos raios), mas nunca
se apartará de sua equiponderada posição em que manifesta simultaneamente os dois
aspectos da natureza humana.
Esta inquietude lhe ocasiona não pouca desdita, porque na obra que tem de fazer no
mundo necessita expressar um ideal, e os ideais que não pode expressar em ação lhe
estiolam e queimam a alma. Sua consciência está conturbada até que chega ao ditoso
estado de vida em que o aspecto interno e o externo atuam em constante harmonia e as
leis capitais do progresso externo e do interno, o karma e o dharma, se transfundiram
numa só.
Quando assim se transfundem ambas essas leis, o homem do quarto raio alcança o
ponto mais próximo da verdadeira felicidade que se pode desfrutar neste mundo, porque é
plena e constante a interpretação do interno pelo externo e do externo pelo interno, e às
vezes se manifesta fulgidamente o espírito de profecia.
A vida e a religião dos antigos egípcios denotam muito assinaladamente a influência
deste raio. As coisas daquele país eram representações da vida, e as representações da vida
eram muito materialmente objetivas. Assim ocorre, por exemplo, com a arquitetura egípcia
de linhas mesquinhas e colunas redondas e abundantes, e cujo traço se ajustava
constantemente às formas vegetais e animais sem que lhe servissem de ornamentação.
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Por outro lado, a escultura, pintura e desenho de figuras humanas e outros seres
viventes, no Egito, foi em forma matemática e hierática como em nenhuma outra parte. E
tudo isso não era mais que a apropriada roupagem da magia interna, verdadeira vida do
antigo Egito. A arte egípcia era cheia de arroubadora beleza, mas simbólica e só acessível
aos iniciados. E atrás do símbolo os egípcios descobriram a entranhada realidade e
necessitavam representar em forma material as verdades psíquicas.
Qualquer um pode notar a influência que as formas e as cores exercem na mente e no
ânimo. Se entramos num aposento ornamentado de floreados desenhos, sua vista nos
influirá na natureza emocional; mas se o decorado é de desenhos geométricos,
receberemos uma impressão mental. A influência é direta e nela muito intervém o
simbolismo; porém como o pensamento se fixa nas formas e entre os pensamentos os
semelhantes se atraem, resulta que muitos símbolos envolvem grande quantidade de
energia mental, cuja influência são capazes de sentir os indivíduos do quarto raio.
Do reconhecimento destas verdades derivaram muitas variedades de arte mágica, e o
mago branco pertence ao quarto raio.
Notamos a influência deste raio em grande número de atividades humanas. Quem
tenha vigorosamente desenvolvida sua qualidade peculiar poderá ser eminente ator, pois,
ao assumir a atitude externa correspondente a uma emoção, suscitá-la-á em seu ânimo.
Por exemplo, se quer sentir piedade ou devoção, tomará a atitude e o traje de religioso, e a
emoção pia e devota brotará em resposta.
Por toda parte vemos pessoas deste tipo, que fingem ser o que anelam ser, e contudo
não há nisso simulação nem hipocrisia nem desejo de que os demais as tomem pelo que
aparentam, senão simplesmente a pressuposição do que com o tempo será uma realidade.
O grácil e donairoso aspecto da cultura e expressão da beleza física (como se observa,
por exemplo, nas espanholas) é também peculiar ao quarto raio, porque manifesta a
liberdade espiritual no corpo físico. Nas múltiplas atividades deste raio se encontram todas
as variedades de interpretação do mental pelo material e do material pelo mental. O mago,
o ator e o artista simbólico pertencem ao quarto raio.
Na Índia, onde tudo se encontra em tal abundância que parece ser um compêndio da
raça humana, a influência do quarto raio se manifesta vigorosamente na arte e em algumas
formas culturais.
Se um ocidental tem a fortuna (o que é muito raro) de se simpatizar com uma família
hindu e ganhar sua verdadeira amizade e confiança até o ponto de que em sua presença
ambos se mostrem tal qual são, sem dissímulos nem modificações, quiçá lhe permitam ver
o interior do sacrário que existe em todo lar indiano. Achará imagens ou pinturas das
formas da Divindade, e às vezes de santos, muito longe da beleza exigida pelos cânones
artísticos. Mas o ocidental observará que, quando os seus amigos hindus se aproximam
daquelas representações, as reverenciam profundamente e se arroubam ante sua beleza.
Ali está a beleza; mas não na imagem nem na pintura, senão na mente de quem as
contempla como se fossem a vívida realidade.
Algo parecido sucede na linguagem. A palavra "beleza" não é bela em si, mas ao
pronunciá-la aparecem na mente as visões da beleza conhecida. Certo é que a linguagem
pode ser bela independente do seu significado, mas este aspecto corresponde ao sétimo
55
raio, enquanto que o uso da linguagem como expressão de ideias pertence
assinaladamente ao quarto raio. No geral, o homem do quarto raio tem vocabulário muito
nutrido.
Vimos que no primeiro e sétimo raios predomina a vontade; no segundo e sexto o
amor; e no terceiro e quinto o pensamento. Mas como o homem do quarto raio não seguiu
nenhuma dessas três sendas, tem usualmente entremesclados em mais ou menos iguais
proporções os três atributos da consciência, embora nenhum tão perfeito como se se
houvesse especializado em qualquer deles. Este equilíbrio dá à mente a faculdade chamada
imaginação, na qual se misturam a vontade, o amor e o pensamento.
Se um homem deste tipo estuda um problema, não esperará por muito tempo sua
solução lógica, senão que os seus sentimentos se derramarão sobre o problema e amiúde
brotará de sua mente a solução revelada pela concentração da vontade. Se, pelo contrário,
há algo que suscite suas emoções, intervirá logicamente a vontade para mostrar a índole da
situação e o aspecto dos sucessos.
Em sua modalidade positiva a imaginação é uma potência mágica que enche a vida
humana, pois, quando o imaginativo olha as coisas, vê a vida, e quando olha a vida, vê o
mundo das coisas. Não pode atender isoladamente à vida ou às coisas. Quando a
imaginação chega ao seu ponto culminante, o homem é um verdadeiro mago que enlaça o
visível com o invisível, e o invisível resulta de meios visíveis.
Os literatos pertencentes a este raio mostram fertilíssima imaginação ao expressar suas
ideias e o seu pasmoso poder de analogia põe a seu serviço imagens trazidas dos confins da
terra. Os vivos relâmpagos de fantasia como os de Shakespeare e Kalidasa brotam da
imaginação. A virtude desta faculdade pode ser muito viva, e amiúde a observamos com
singular pureza na vida infantil.
Recentemente referiram-me que duas meninas conversavam sobre o que fariam
quando fossem maiores. Uma delas disse que teria uma casa muito linda e muitos filhos. A
outra, que sem dúvida havia sido educada num ambiente muito pouco idealista, replicou:
"Pois eu serei professora; teus filhos virão à minha escola e eu os surrarei à ponta de
chicote." Mas a interlocutora rompeu em prantos e, com a voz entrecortada de soluços,
respondeu: "Que horror! Que te fizeram meus filhos para assim os maltratares?"
Não é muito frequente achar uma tão viva imaginação nos adultos, ainda que nos
indivíduos remanescentes da raça-raiz atlante esteja mais assinalada do que nos da ária.
Conheci um médico chinês que me dizia que seu maior prazer nas horas vagas era
estender-se em sua poltrona e imaginar que estava no céu. A sensação era par ele tão real
como se com efeito fosse positiva.
No Ocidente os irlandeses nos dão uma genuína manifestação das qualidades mentais
do quarto raio. Amiúde as misturam de sorte que provocam a perplexidade ou o riso de
quem os observa, segundo a ocasião seja séria ou frívola. Quando menos se espera,
discorrem logicamente, e com a mesma rapidez vão da razão à fantasia.
Em geral, é característica do quarto raio que suas atividades comecem de uma maneira
e propendam a terminar de outra. Se começam com gozo, costumam acabar em
melancolia, e se o princípio é sério, o fim pode ser jocoso. Tal é a origem de muitos contos
irlandeses.
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Refere-se que um cavalheiro, indo um dia de passeio, encontrou um irlandês amigo à
beira do caminho, que estava escavando um buraco. O cavalheiro lhe fez as fúteis
perguntas que se costuma fazer em tais casos, e lhe disse:
- Olá, Miguel! Que fazes? Estás escavando um buraco?
Ele lhe respondeu:
- Não; escavo a terra e deixo o buraco.
De natureza inversa é outro caso, em que, ao encontrar um irlandês que trabalhara em
uma edificação, lhe perguntaram se estava acostumado a subir escadas, e ele lhes
respondeu:
- Não senhores; nunca subi por uma escada, menos uma vez quando caí num poço.
O teutônico que tributa culto fetichista às leis e às regras não é capaz de compreender a
ingênua lógica do irlandês, que vive sujeito a fórmulas e desdenha as regras quando lhe
parecem desnecessárias.
Quisera ilustrar este raio com referência ao reino animal, embora deva advertir que, no
exemplo que vou citar, manifesta-se o raio em muito primitiva modalidade, que muito rara
vez manifesta o homem. O animal a que me refiro é o mono, que tive a fortuna de observar
de perto, em sua própria guarida. Pode-se vê-lo empreender muito formalmente uma coisa
e ao cabo de pouco tempo saltar para outra. Quando quietos, estão melancolicamente
pensativos, e em atividade mostram-se brincalhões, com o capricho que denotam entre
ambos os estados. Regozijam-se quando não estão sumidos no desespero, ou acuados por
algum grave empenho. Fingem e imitam as ações do homem, e nada deixam
completamente acabado de tudo que empreende o seu veleidoso e volúvel caráter.
Não posso resistir à transcrição dos seguintes versos de The Road-Long of the Barder-log
de Kipling, que observou genialmente o temperamento dos símios:
“A luz da zelosa lua, formamos buliçoso corro. Não invejas nosso cabriolante
grupo? Não quisereis ter quatro mãos?
Em fileira nos sentamos num galho, pensando nas belas coisas que conhecemos,
sonhando com as façanhas que projetamos, para realizar, num momento, algo
nobre, grande e bom, que poderíamos conseguir se o quiséssemos.
Temos ouvido o que dizem o símio, o bruto e a ave. Pele, aleta, escama e pluma
parlam em confusa geringonça. Excelente! Admirável! Que se repita! Agora falamos
como homens.
Depois nos enlaçamos nossas saltitantes fileiras, que através dos píncaros
aluminam aquela colina por onde ligeira e alta trepa a videira silvestre.
Pelos restos de nosso festim e pelo nobre ruído que fazemos, estai seguros de que
vamos realizar grandes proezas.”

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CAPÍTULO XV

O QUINTO RAIO

Este e os dois raios seguintes denotam a característica geral de obediência, porque por
seu meio o Deus interno busca o Deus externo. Em rigor, são raios devocionais.
O primeiro que temos de mencionar é aquele em que a parte pensante do homem se
consagra em inquestionável serviço à grande mente do mundo das ideias, ao universo de
lei, e coloca-se sob a tutela deste mundo. A verdade é a ultérrima realidade quando se vê
deste modo. E ainda que os cientistas, em sua constante investigação da verdade,
examinem e analisem rigorosamente todas as coisas, nunca põem em tela de juízo a
verdade da verdade ou o fato do fato, senão que se inclinam ante eles em completa e
deleitosa submissão, porque são a realidade final, e quando se lhes vê o rosto, para a alma
é evidente a sua autoridade.
Para o homem do quinto raio, a verdade do mundo é o fundamento da realidade, e por
isso a investigação do conhecimento é para ele uma atividade religiosa fundada
essencialmente na fé. Em outra de minhas obras formulei este credo nos termos seguintes:
"Creio que o mundo é um lugar onde pode achar-se a verdade. Creio que a mente
humana é um instrumento para descobri-la. Creio que, quando o homem a descobrir, será
benéfica para a sua vida."
Se comparamos o estado do selvagem com o do homem civilizado de nossos dias,
notaremos a virtualidade deste credo. Pouca tranquilidade de ânimo tem o selvagem, pela
simples razão de que não sabe que pode pensar sobre todas as coisas, senão que aceita
grande número delas, como, por exemplo, o trovão e o relâmpago, a dor e a enfermidade,
como sendo inescrutáveis mistérios, sem saber quando nem onde nem como lhe
sobrevirão, e assim teme de contínuo que lhe sobrevenham.
Mas o homem civilizado conhece muitas coisas deste mundo e tem intensificado a
potência dos sentidos e a força de suas mãos em infinidade de maneiras demasiado
conhecidas para ser mencionadas, de cujos benefícios desfruta a cada momento do dia.
Por estranho que pareça, com todas estas conquistas a seu serviço e apesar da admiração
que à generalidade das pessoas lhe causam os triunfos da ciência ainda considera o homem
civilizado como um mistério algumas coisas a que não lhe parece aplicável o pensamento,
entre elas a morte.
O traçado da linha entre o que se pode e o que não se pode conhecer é uma
reminiscência selvagem. Mas os homens do quinto raio que contribuem para o progresso
humano desvanecerão algum dia este prejuízo e submeterão ao domínio da mente o
conhecimento de fenômenos tais como a morte, muito antes do fim da raça ária. É
Impossível calcular os divinos cumes de conhecimento e poderio a que a ciência tem de
exaltar a vida da humanidade terrestre no transcurso do tempo. E sucederá assim em
virtude do método científico que examina fatos com sumo cuidado, compara-os sem
paixão, nem prejuízo, e não espera deles resultados preconcebidos, senão que aceita suas
58
ideias sobre eles como conhecimento e suas hipóteses como teorias, unicamente depois de
reiterada comprovação.
Para compreender que a ciência se apoia na fé, recordemos as condições da Europa
nos tempos medievais, quando. a luz do conhecimento estava eclipsada pela crueldade e
covardia dos homens daquela época, quando em nome da religião exerciam absoluta
autoridade secular. Decidiram que este mundo não era o mundo de Deus, que Deus estava
em alguma parte, e que, se bem que nos havia posto aqui como almas em provação,
permitia que Seu grande adversário, o demônio, nos tentasse durante toda a vida. Assim
acreditou-se que este mundo era o mundo do demônio, um inimigo da alma, a morada da
mentira, e que o conhecimento do mundo conduziria o homem à condenação, de sorte que
a mente com a qual o homem se propunha examinar o mundo foi considerada tão
pecaminosa que não podia servir de instrumento para a indagação da verdade em
benefício positivo do homem.
A maioria das pessoas ignorava então que o mundo era a morada da verdade. Mas
houve uns tantos que compreendiam que o era, que tinham fé no mundo e em si mesmos,
e fé tão firme que os terrores da Inquisição não lograram quebrá-los nem apagar de todo a
luz da ciência, Aquela seleta minoria traçou firme e gradualmente o caminho do
conhecimento e demonstrou o valor da fé do quinto raio que morava neles. Hoje em dia
todo devoto inteligente reconhece não só que a ciência tem enaltecido esplendidamente a
vida física do homem, elevando-a muito acima da vida animal; que o homem tem
capacidade para arrostar tranquila e pacificamente todos os problemas da existência
material, e tem desenvolvido a mente humana para o exercício até um esplêndido grau,
senão, também que a ciência tem auxiliado o devoto a conhecer muito melhor a Deus.
Em todas as épocas o homem tem considerado a Deus como o senhor do universo, mas
quando criam que a terra era plana e que o firmamento uma abóboda sustentada por
colunas, e com agulheirinhos por onde em formas de estrelas se filtrava a luz do céu, não
podia comparar-se o conceito que então se formava do Senhor do universo com o
diamante da adoração devocional de hoje em dia, em que os homens pensam nas
maravilhas do mínimo reveladas pela física e a química; nos prodígios da vida e da natureza
revelados na fisiografia e na biologia, que convertem o universo num milagre incessante e
abrem nele cada dia novas perspectivas.
O caráter devocional do homem do quinto raio se nota em que adora, sem o reparar,
as leis da natureza e crê facilmente na imortalidade da matéria essencial. Nunca deseja
alterar nem um ápice da atuação da mais tênue lei da natureza. Mesmo que só com o
levantar do dedo pudesse fazê-lo, não quereria modificar por sua iniciativa individual a
ordem das coisas, pois lhe parece perfeita a disposição deste mundo, no que vê seu melhor
e mais idôneo mestre. Percebe claramente que onde quer que o homem inventa ou faz
uma coisa, a natureza o obriga por meio da experiência a melhorá-la. Por exemplo,
constrói um automóvel; mas quando o puser em marcha, a experiência lhe ensinará algo
novo que não sabia a respeito a técnica automobilística, e que sem o auxílio da natureza
das coisas não o haveria aprendido. Ademais, esta lição lhe servirá para acrescentar a
potência de seu entendimento.
Se os cientistas filosofarem um pouco, como não o costumam fazer, convencer-se-ão de
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que sua limitada mente se adapta por completo à mente divina representada pelas leis da
natureza, e que cada vez mais se vigoriza com o exercício e se enriquece com os
conhecimentos adquiridos num ambiente tão adequado ao seu tipo. Se o cientista fosse
também devoto e tivesse altas aspirações, convencer-se-ia de que o mundo nos familiariza
com a natureza de Deus e nos faz mais semelhantes a Ele.
O mundo nos aproxima do onisciente tanto que prepara a mente para uma apreensão
maior, a cada momento, da realidade viva de que tudo tem sumo significado para o sábio,
ainda que pareça insignificante ao néscio. Com um pouco de filosofia também se
convenceria de que o homem não domina com o seu conhecimento as leis da natureza,
senão que com elas se associa, e, enquanto ele trabalhar com elas, elas trabalharão com
ele na grande lei da cooperação reveladora de que entre os reinos da natureza não há
oposição nem conflito, senão que todos contribuem conjuntamente para o bem.
Parece-me que o animal pertencente a este raio é o cavalo, o fiel servo do homem,
que, no arado, no tiro ou na sela, aprende a viver disciplinadamente, a respeitar as regras e
fórmulas, a lei e a ordem, entre as inevitáveis dificuldades da vida material.

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CAPÍTULO XVI

O SEXTO RAIO

Assim como no quinto raio predomina o pensamento, no sexto prevalece o sentimento,


porque pensamento e sentimento se aplicam às coisas. E assim como a fé do cientista o
leva a investigar as leis da natureza, a fé do homem do sexto raio o conduz a descobrir a
Bondade subjacente no mundo e a render-se com plena obediência e devoção a esta
Bondade que para a maioria das pessoas está significada por Deus.
Em todas as épocas houve devotos místicos cujas orações não continham nem sombra
de súplica material, senão que eram um perpétuo derrame de gratidão e adoração aos pés
da suma Bondade que os atraía com impelente poderio e os banhava em sobre-humano
gozo.
Os místicos compreendiam por direto sentimento o que outros alcançavam por
argumentação, isto é, que as experiências da vida não são boas nem más por serem
agradáveis ou dolorosas, senão que todas são úteis porque chegam das mãos de Deus.
Diz um provérbio hindu: "Tudo quanto recebemos é uma dádiva". Verdadeiramente
assim parece ao devoto do sexto raio. O verdadeiro devoto deve descobrir nas coisas do
mundo e experiências da vida mais bondade do que os outros homens, porque está mais
próximo do coração do mundo, ou pelo menos vislumbra a divina bondade no mundo e sua
devoção é o anelo de acrescentar o vislumbre.
Ainda que geralmente não se aperceba, esta sua senda é um meio muito eficaz de
invalidar a dor, derivada em grande parte da desordenada imaginação do homem, que nas
primeiras etapas evolutivas o move a comer mais do que pode digerir, a cobiçar mais do
que pode reter e a desejar coisas incompatíveis. Mas ao devoto a dor física lhe parece
insignificante, comparada com a delícia de suas visões e a honra de seu serviço. Sabe que é
bom tudo quanto lhe sobrevém, ainda que ignore por que o é; e cabe formular o seu credo
analogamente ao do cientista, e dizer: "Creio que o mundo é a morada da bondade de
Deus, e que, alentados os sentimentos do coração, a irão crescentemente descobrindo, de
modo que, quando o homem confia em Deus e não teme, ficará incalculavelmente
recompensado em sua fé, mesmo no mundo material".
A simplicidade desta fé é, às vezes, muito comovedora, como disso nos dão exemplo As
Florzinhas de São Francisco.
Conheci muito intimamente um cavalheiro hindu, famoso jurisconsulto em sua
província, que era assinaladamente deste tipo. Às vezes chegava tarde para tomar o trem,
mas não sei que misteriosa simpatia o enlaçava com os sucessos que, quando chegava
tarde para tomar o trem, sempre chegava o trem à estação com atraso, e podia tomá-lo.
Tão-só uma vez vi que perdeu o trem, e então me disse tão Sorridente como não creio que
alguém com tanta doçura sorrisse na terra: "Oh! tudo o que faz Deus é o que melhor nos
convém.” Tal era sua constante exclamação em todas as suas não poucas tribulações.
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Contudo, nunca se mostrava preguiçoso em auxiliar o próximo, e centenas de pessoas
tinham algo que lhe agradecer, e, quando morreu parecia que a cidade em que morava
houvesse perdido luz.
Na simplicidade da devoção consiste o seu vigor espiritual. Neste mundo não se tem de
reconhecer a Deus por meio de ostentosas oferendas, senão por absoluta pureza
devocional. Que diz Vishnu pelos lábios de Krishna no Bhagavad Gitá?
“Aceito a oferenda de uma folha, de uma flor, de uma fruta ou de uma gota
d'água se veementemente e com devoção ma oferecem. O que quer que faças, o que
quer que comas, o que quer que ofereças, o que quer que dês e qualquer austeridade
que cumpras, faze tudo em oferenda a Mim.”
Jamais se escreveu um relato descritivo desta simples devoção, que supere o da aldeã
de A Luz da Àsia, de Edward Arnold, que falou ao Senhor Buda, dizendo:
“Venerável Senhor meu! Pequeno é o meu coração, mas uma miúda chuva, que
apenas umedeceria a planície, enche a corola das açucenas. Basta-me ver o brilho do
sol da vida na graça de meu esposo e nos sorrisos de meu filho, e que reine em nosso
lar o eterno estio do amor. Transcorrem ditosos meus dias ocupados no governo de
minha casa. Ao sair o sol, desperto-me para orar aos deuses e oferecer-lhes grãos.
Podo minha planta de tulsi e distribuo o trabalho entre minhas servas. Ao meio-dia
apoia meu esposo a cabeça em meu regaço e adormece-se em sonhos felizes ao
rumor do adejante leque. À hora de comer, quando tranquilamente entardece, estou
a seu lado e lhe sirvo o jantar. Depois as estrelas acendem suas lampadazinhas de
prata, convidando ao sono após as orações no templo e as conversações com os
amigos.”
....
“Porque os Livros Santos ensinam que, se um homem planta árvores que deem
sombra aos caminhantes, abre um poço para mitigar a sede das gentes e lhe nasce
um filho, tem segura a felicidade além da morte. E humildemente creio o que dizem
os livros ...
Também creio que a bondade tem de provir do bem e a maldade do mal em todas
as coisas e em todo lugar, porque vejo que os frutos saborosos nascem de raízes sãs
e as coisas amargas de troncos peçonhentos. Vejo que a mesquinharia engendra o
ódio, a benevolência a amizade, e a paciência a paz durante nossa vida. E quando
soar a hora de nossa morte, não morreremos então tão felizes como antes?”
....
“Mas quanto a mim, procuro fazer o que me parece bom, e obediente vivo a lei,
com a esperança de que o que tem de suceder, sucederá e será bom.”
Nosso Senhor respondeu:
“- Tu dás lições aos mestres. Teu singelo ensino é mais sábio do que o da ciência.”
Hinduístas e budistas dizem que a energia do mundo não se aplica à comodidade e
bem-estar material dos seres que o habitam, mas tão só ao que pode beneficiá-los, e falam
da capital lei do karma que rege todo o universo, de sorte que nenhum sofrimento pode
62
sobrevir a um ser vivente que não o mereça por havê-lo infligido anteriormente a outros.
Portanto, acrescentam que não há motivo de temor neste mundo de Deus.
A lei kármica, ou a Boa Lei, tem sido considerada sempre como imenso benefício na
religião budista, cujos fiéis a reverenciam como o de melhor no mundo; e aqueles que a
adoram e nela acham sua dita podem também pertencer ao sexto raio.
Nos muitos livros hinduístas e budistas que tratam da positiva construção do caráter e
do melhoramento do homem por sua própria cultura, sempre se ensina ao aspirante que
deve submeter-se a Deus em todas as coisas e contentar-se, como diz o Gitâ, com o que
eventualmente lhe sobrevenha sem esforço de sua parte, aceitando-o como um dos
melhores meios de aperfeiçoar a sua conduta.
O anelo de descobrir a bondade nas coisas pode também ligar o homem do sexto raio
com laços de sincera gratidão ao instrutor ou mestre que proclame a suprema bondade e
demonstre em sua conduta a eficácia do serviço que presta. Assim se têm congregado as
pessoas deste raio sob o estandarte de Cristo no Ocidente, de Shri Krishna na Índia, e de
outros instrutores de diversos graus de excelência em todo tempo.
No Cristianismo encontramos os três tipos de homens existentes em todas as religiões,
a saber: 1º - Os que estão sob o domínio do karma e não pertencem definitivamente a
nenhum raio, porque não são donos de si mesmos nem de sua conduta, senão que vivem
em contínuo temor e inquietação, e refugiam-se na religião; 2º - Os que reverenciam a
Cristo por Seu amor e serviço à humanidade. 3º - Os que amam e servem a humanidade em
obediência a Cristo, a quem reverenciam principalmente por Sua grande bondade. Os do
segundo grupo pertencem ao segundo raio, pois estão movidos de simpatia a tudo quanto
os rodeia; e os do terceiro pertencem ao sexto raio, primeiramente como devotos e depois
como servidores.
A estimação da prosperidade toma parte importantíssima na reverência tributada ao
mundo sem personificá-lo. Milhões de pessoas amam com gratidão este nosso mundo
porque desfrutam deleitosamente dos benefícios de Lakshmi, a deusa da prosperidade,
cuja presença admiram sem restrição nem reparo nos êxitos e riquezas da humanidade.
Este sentimento é hoje em dia muito vigoroso no povo estadunidense, que ama as suas
cidades e suas férteis planícies com ilimitada devoção, dizendo com lágrimas nos olhos:
"Esta é a terra de Deus." Porque são um povo que não se envergonha de seus sentimentos,
e verdadeiramente está Lakshmi ali.
Entre os animais, nosso amigo o cão é o que melhor responde ao sexto raio. O dono
que o acaricia e nenhum dano lhe faz, cuja vida lhe parece uma sucessão de milagrosos
poderes, é para o cão a fonte de todo bem. É o ser em quem confia e espera, por quem
tem de trabalhar e, se preciso, morrer; que por toda parte abre as portas do paraíso, cujo
rigor tem muito de benevolência e ante quem lhe parece suprema e luzente dignidade
humilhar-se se o vê desgostado. Seu dono é para o cão um deus salvador, e Cristo e Krishna
não têm devotos tão fiéis entre os homens.

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CAPÍTULO XVII

O SÉTIMO RAIO

Assim como o cientista vê o divino pensamento em todas as coisas e o devoto adora o


amante coração do mundo, assim também o artista responde à hábil mão da natureza, cuja
beleza adora sem reservas. Este é o sétimo raio de obediência ou devoção, porque o artista
e o amante da beleza têm por Mestre o universo.
O verdadeiro artista não se considera criador da beleza, como o verdadeiro filósofo não
se considera autor das verdades que proclama. A este respeito reconhece a sabedoria dos
platônicos, e pergunta: "Donde obtém o filósofo a sua verdade e o artista a sua beleza?
Brotam da mente do gênio as suas invenções e dá com elas algo novo ao mundo, ou as
extrai da maravilhosa criação em cujo seio vive?" E responde à pergunta dizendo que a arte
é imitação da natureza e o artista um vidente do pensamento divino, que satura o universo
de belezas e maravilhas.
Recordo-me que numa exposição da Escola de Belas Artes de Calcutá, alguns visitantes
se detiveram diante de uns quadros que representavam ocasos nos Himalaias, e os
criticaram em voz alta dizendo que em nenhum pôr do sol se podiam ver matizes como
aqueles. Mas os mesmos críticos se admiraram algum tempo depois ao contemplar um pôr
do sol cujos matizes eram, segundo confissão própria, exatamente iguais aos dos quadros
da exposição de Calcutá.
Não os haviam visto antes de então, e se naquela ocasião não deixaram de vê-los foi
porque já os haviam visto pintados, e o artista lhes havia ensinado de certo modo a ver o
que ele vira. A beleza em todas as coisas sensibiliza o artista cuja delicada sensibilidade por
ninguém superada, pode elevá-lo a alturas de consciência inacessíveis à vulgaridade.
Lembro-me de um artista russo que estava convencido de que não poderia haver
esperanças para a Europa enquanto não assimilasse a arte russa de sorte que sua influência
modelasse a civilização e refundisse as pessoas.
O platônico, com seu amor à beleza, acrescentou devoção à sua filosofia e apercebeu-se
de que a felicidade tem de dimanar da reverente e agradecida contemplação das obras do
Ser universal no qual vivemos. O êxtase na beleza tem de ser um elemento constituinte do
estado de ananda ou felicidade além da consciência.
Deste modo considerado, o hábil artista colabora com Deus na evolução do homem.
Ainda que receba o fluxo de beleza na proporção em que sua corrente se abra, tal qual
sucede a todo ser humano, domina além disso seus pensamentos e emoções, de maneira
que por sua mão se vertem na obra artística. Assim se concentra em por sua devoção e
desdenha os preconceitos populares. Antes de tudo vê a beleza que os demais não podem
ver, e depois a reproduz separada da confusa massa de beleza com que está misturada nas
condições comuns, e assim chama a atenção pública.
Já que o artista vê sempre Deus em todas as coisas, nunca em sua vida desiste de seu
propósito e raramente se contempla nas demais pessoas a sustida concentração de
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vontade que com todas as suas faculdades põe a serviço de sua obra.
Consideremos, por exemplo, a solícita e completa devoção com que se construíram até
em seus menores detalhes os templos e mesquitas da Índia: Quase todas as cidades e
grandes povoações da Índia meridional estão dominadas por magníficos templos com
"gôpura” cobertas de minuciosas esculturas e entalhes, e rodeadas de cisternas cingidas de
artísticas valas, ao passo que no norte e centro da Índia se veem por toda parte suntuosas
mesquitas, com minaretes e cúpulas, palácios, tumbas e templos de dimensões menores
que os do sul.
Estes magníficos edifícios, formosos por seu tamanho, linhas e proporções, assim como
por seus detalhes escultóricos, subsistem entre nós como perduráveis monumentos das
primitivas épocas, quando os homens se extasiavam ante a beleza, em demanda da
revelação, e hoje em dia servem de eficacíssimo instrumento para refinar, enaltecer e
ampliar a consciência de quantos moram perto deles e os visitam, e comovem-se ante sua
insuperável beleza. E seguramente o singular donaire do povo hindu deriva em grande
parte da influência do sétimo raio em seu país.
Não sabemos quem foram os arquitetos e escultores de tais edifícios, mas ao
contemplar a sua obra, notamos a paciência e perseverança com que devem ter
trabalhado ano após ano para assegurar a perfeição de cada pormenor de sua obra.
Escritores de diversas nacionalidades coincidem em elogiar aqueles desconhecidos
artistas por seu labor, e agradecer sua obra, pois continuará sendo durante milhares de
anos fonte de inspiração para os amantes e devotos da beleza no mundo inteiro. Não é
possível contemplar semelhante beleza sem acrescentar a interna beleza que por sua vez
se manifestará nas formas externas. A maioria dos verdadeiros artistas é de formoso
aspecto, embora os caricaturistas sejam caprichosas caricaturas.
Ao contemplar a beleza de um pôr do sol ou a magnificência dos ingentes Himalaias,
ou o enorme maciço do Rio de Janeiro, notamos depois que temos assimilado algo de sua
beleza e energia, e sentimo-nos mais tranquilos e seguros que antes da contemplação.
Recebemos algo da fortaleza e serenidade de Deus, que nos equilibrou internamente com
firmeza e serenidade.
Assim como a aquisição de conhecimentos vigoriza a mente, assim a hábil produção de
obras belas aformoseia o aspecto dos gestos do artista. Desta maneira em cada senda o
homem se aproxima de Deus assemelhando-se a Deus, e a positiva beleza é uma destas
sendas, porque a beleza nunca pode ser superficial nem manifestada por meios repulsivos,
assim como o edifício do conhecimento não pode erigir-se sem a verdade em cada uma de
suas partes.
Os que buscam a beleza externa, ainda que esta se converta ao final em escórias, são
como os que imaginam que as fartas riquezas materiais dão força e vigor ao pobre em
qualidades positivas de caráter.
No airoso galopar do cavalo há habilidade de ação e beleza no movimento do conjunto
e do menor dos músculos. Uma verdadeira yoga de ação. O mesmo sucede com todas as
ações que séculos de evolução ou rigorosa disciplina têm aperfeiçoado, como mais que
nunca o cinematógrafo nos dá prova disso.
Nos movimentos cinematográficos, o filósofo e o cientista podem descobrir a
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estabilidade do princípio de beleza, embora o artista não esteja especialmente interessado
neste aspecto do assunto Há equilíbrio no movimento, tão verdadeiramente estável como
qualquer esplêndida forma da moderna arquitetura finlandesa.
Ao contemplar a beleza das coisas dirá o homem: "Ainda que o céu se vá, hei de levar
estas coisas comigo."
Com esquisito bom senso os autores dos Puranas cobriram o caminho por onde haviam
de conduzir à cidade o ferido, Yama, com cavalos descendentes do Uchachaihrava,
elefantes da família de Airávata e marrecos em formosos tanques e rios, e corpulentas
árvores que davam deleitosa sombra.
A beleza é o repouso da perfeita ação em som, cor ou forma, e com acerto se tem dito
que de todas as coisas do mundo material só persiste a arte. Podemos, a este propósito,
transcrever as lindas frases de Sir Edwin Arnold sobre a lei do trabalho, que mostra o mais
hábil na ação:
“A seu toque florescem os rosais; sua mão modela as pétalas do lótus. Nu
obscuro solo e nas silenciosas sementes tece o atavio da Primavera. Seu pincel
colora as luzentes nuvens e à cauda do pavão real engasta as suas esmeraldas, As
estrelas são sua estância, e o relâmpago, o vento e a chuva seus escravos. Elabora
nas trevas o coração do homem e na obscuridade do ovo o faisão de pincelado
pescoço. Sempre ativo, transmuta em amor a Ira e a destruição. Seus tesouros são
os cinzentos ovos no ninho do colibri dourado. Os hexágonos favos da abelha são
suas redomas de mel. A formiga percorre seus caminhos, e a branca pomba os
conhece muito bem.”
...
“Concerta no interminável dossel do céu a harmoniosa música das móveis
eferas. Nos abismais seios da terra esconde o ouro, o ônix, as safiras e as lazulitas.
Envolto perpetuamente no minério se oculta nas opalescentes clareiras dos
bosques e alimenta ao pé dos cedros admiráveis rebentos com novas flores, fibras e
ervas.”
É impossível falar de beleza sem citar o Japão. Tenho viajado por todo o mundo e
convivido com gentes de vinte países diversos, e em nenhuma parte vi a copiosa beleza
que enche a vida do japonês. Os templos, jardins e lojas de objetos artísticos são
indescritíveis maravilhas do mundo, e compreende-se o valor que o Japão tem para a
humanidade ao advertir que os japoneses já nascem artistas.
Em outros países são raros os artistas e apenas exercem influência na massa social
como se estivessem perdidos em seu seio; mas no Japão tudo é belo e com sua beleza
comove todo o país.
Não elaboram para os estrangeiros que vão visitá-los, mas para si mesmos, as suas
singularíssimas pinturas e objetos de arte. No mais modesto lar há um sacrário da beleza no
aposento principal da casa, algo levantado apartado no solo e com espaço muito estreito,
como local apartado e de retiro, adornado ao menos por um quadro, o "kakemono", e uma
peça de bronze, marfim ou laca sobre um pequeno pedestal de ébano.
Na primeira visita à casa, parecerá que nisto se resumem as belezas artísticas do lar;
mas há outras no sacrário da beleza onde a dona da casa as tem guardadas e só de quando
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em quando mostra umas tantas por vez. Em que outro país acharemos esta compreensão
do princípio da beleza? Ainda o mais leve contato de mãos japonesas com um objeto o
embelezam, com beleza mais literal do que sugestiva, porque a qualidade da sétima sub
raça está de tal modo aperfeiçoada que quase encobre o caráter da Quarta Raça (1) que lhe
é imanente. Que outro povo se deleitará em suas floridas cerejeiras que cultiva por causa
das flores e não das cerejeiras de variedade incomestível? E onde encontraremos crianças
tratadas com tanta delicadeza, às quais se ensina para se acostumarem a não entristecer o
jubiloso ânimo de seus companheiros?
Seguramente que tal beleza e devoção à beleza são gratas aos anjos. Beleza, beleza por
toda parte, e um povo sumamente delicado, porém com férrea vontade. Feliz o Mantide
semelhante raça!
Singular aspecto de expressão do princípio de beleza, que atua por meio do sentido do
tato, é o instinto de limpeza que caracteriza os indivíduos deste raio, sem chegar à
pulcritude e nitidez, pois se contrai à eliminação da sujeira que possa enfeiar a beleza das
coisas. Os japoneses manifestam esta qualidade, pois nas áreas da limpeza quase se cozem
vivos, diariamente, no banho. Não é fácil a excessiva limpeza pessoal; e contudo,
recordemos a este respeito o provérbio japonês sobre a má sorte da minuciosa governanta
da casa, que se empenhou em lavar a cara de um tigre.
O cerimonial também é parte muito importante da operação deste raio, e podemos
defini-lo dizendo que é a magia do raio praticada pelo homem. Quem vivesse em
companhia de um homem dê elevados e santos pensamentos, ver-se-ia enaltecido pelas
ondas e forma mentais do pensador no grau em que o outro respondesse a elas.
Tal é o que sucede a muitos discípulos, que em presença do Mestre compreendem
certas verdades que não acertavam em compreender isoladamente. A influência de toda
modalidade de kriya-shakti (poder mental) no mundo é indubitavelmente real, e atua por
meio da beleza como por qualquer outro meio, e assim o peregrino que vá a Badarinarayan
consegue a força e a pureza dos Himalaias, e o peregrino a Kioto, a suave amenidade dos
jardins em que se assentam os santuários.
Mais positivamente e com maior proveito o alcança o peregrino reverente, porque
então se coloca em disposição de responder à energia mental e absorvê-la por meio de seu
corpo físico, suas harmônicas emoções e seus nobres pensamentos.
As cerimônias do culto em cada lugar e país propendem especialmente à transmissão
dessa influência, e daqui que a beleza tenha muito significado em relação com a cerimônia,
quanto à forma, movimento, som, cor e sabor dos agentes cerimoniais, de sorte que sem a
cerimônia não podem muitas pessoas manifestar toda a devoção de que são capazes.
Tão sumamente importante é o cerimonial no sétimo raio que há muitas pessoas na
índia que, quando se lhes fala da senda da ação, em seguida pensam nas cerimônias de sua
religião, pois as consideram como as ações capazes de pôr o homem em contato com os
devas (anjos), e creem que o serviço prestado deste modo aos seres invisíveis traz a eles e
ao seu ambiente enaltecedora graça.
Instituiu-se o cerimonial como um instrumento para auxiliar deliberadamente o
homem, como de outros diversos modos o auxiliam outras coisas em que a mente se dirige
a um ideal. Por esta razão, os excelsos guias da humanidade acrescentaram à beleza do
67
cerimonial agradável aos devas a magia e simbologia do quarto raio.
Assim vemos no genuíno cerimonial lindas formas cuja beleza aumenta com os
harmônicos pensamentos nelas derramados durante séculos, e também outras formas de
beleza profundamente oculta que envolvem as matemáticas essenciais do mundo e a
influências dos grandes reinos dos devas que vivem na emoção da beleza e se deleitam em
acudir a toda parte onde haja formas belas.
Entre os animais, o gato denota a qualidade própria do sétimo raio. É um animal de
formas belas e de graciosos movimentos e atitudes.
No cavalo, no elefante, e mesmo no cão e no macaco, se nota certa rusticidade à parte
da linha especial de seu desenvolvimento, mas não no gato. Uma senhora minha amiga me
referiu que um gato da vizinhança costumava meter-se em sua casa aparentemente com
deliberada intenção. Passeava pelo aposento onde se reunia a família, e, se via que havia
calefação, acomodava-se junto ao fogo; do contrário, ia-se embora desalentado.
A afeição do gato pelas comodidades não é precisamente amor à moleza como nos
homens preguiçosos, senão a satisfação de sua sensibilidade, pois é o animal que mais de
cheio entra nas condições físicas, e, se se aparta das pessoas e não as acaricia, não é por
desvio, senão porque outras coisas para ele mais importantes lhe chamam a atenção.
O gato gosta de ter todas as coisas limpas e é muito asseado de si mesmo, com carinho
maior à casa do que às pessoas, às quais tão só estima, quando lhe passam a mão pelo
lombo ou lhe fazem outra espécie de carícia. Em troca, se o homem o estima não é por
companheirismo senão por suas graciosas atitudes e movimentos, seu fino pelo e por ser
agradável vê-lo e tocá-lo.

(1) A Raça Atlante. (N. do T.)

68
CAPÍTULO XVIII

QUADRO SINÓTICO DE UM MESTRE

RAIO CARACTERÍSTICA DO RAIO CARACTERÍSTICAS MÁGICAS RELIGIÃO


1 Fohat Shechinah - Bramânica
2 Sabedoria Raja Yoga Udista
(Mente humana)
3 Akasha Astrologia Caldéia
(Magnetismo natural)
4 Nascimento de Hórus Hata Yoga Egípcia
(Desenvolvimento físico)
5 Fogo Alquimia Mazdeísta
(Substâncias naturais)
6 Encarnação da Deidade Bhakti Cristã, etc.
(Devoção) (Cabala, etc.)
7 - Magia cerimonial Culto do elementais

Este quadro sinótico dos raios tem todo o valor de um documento histórico. Pelos fins
do século passado, o Mestre Djwâl Kûl deu-o em Adyar ao famoso ocultista C. W.
Leadbeater, dizendo a ele e aos seus amigos, então presentes, que era tudo quanto por ora
se podia revelar ao mundo acerca dos raios.
No começo não sê achou muito inteligível o quadro sinótico, mas serviu de fundamento
clássico aos informes ulteriores obtidos de quando em quando. Foi publicado no livro O
Mestre e a Senda do referido ocultista.
Caiu-me em mãos pela primeira vez há poucos dias, depois de escritos os capítulos
precedentes. Todavia, ao examinar o quadro notei que nada há nele que indique algum
erro na presente obra, nem ponto necessitado de alteração. Reproduzo-o com permissão
do autor, porque parece-me que meus comentários sobre ele hão de interessar aos
estudantes dos Raios.
1. Os que conhecem A Doutrina Secreta da Senhora Blavatsky hão de ter lido as
palavras Fohat e Shechinah, que juntas indicam as características do primeiro raio. Fohat
por si só significaria o de todo ponto indescritível poder residente no Deus universal antes
da manifestação; poder empregado de maneira também de todo incompreensível quando
o manifestado Uno quis multiplicar-se, e desdobrou-se em dois e logo em três
concomitantes com eles.
Mas Fohat-Shechinah significa o mesmo poder manifestado como Shakti ou causa
primeira da variedade, que ao descer ao nível humano é vontade ou potência com que a si
mesma se modifica e com auxílio da mente rege a matéria segundo já ficou explicado.
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Fohat-Shechinah é a verdadeira vida de que dimana toda vida e promove o
desenvolvimento de tudo quanto medra.
Os ocultistas que tenham tido a rara fortuna de ver o Senhor do Mundo, o Chefe do
Primeiro Raio de nosso globo, associarão a esta ideia a recordação da índole elétrica de Sua
aura, semelhante a um azul relâmpago, porque em nosso planeta não há quem o avantaje
no ativo exercício e governo da vontade.
O quadro enumera a característica mágica de cada Raio. Não podemos assegurar por
que o Mestre falou particularmente da Magia, mas podemos conjeturar.
A Senhora Blavatsky expôs a principal razão de que a Fraternidade de Adeptos seja tão
cautelosa na revelação do conhecimento dos raios, pois diz que este conhecimento confere
grande poder. Muitos têm desejado este conhecimento com o fim de saber a que Raio
pertencem, e depois praticar a correspondente Magia, por cujo meio possam receber
copiosa e facilmente as energias naturais. Assim é que ao falar dos raios pensava-se muito
na Magia. Não se adscreve Magia alguma ao primeiro raio, porque com toda probabilidade
os ativos indivíduos deste raio prescindem de toda energia auxiliar e não admitem outra
magia que sua própria vontade, no que não lhes falta razão, pois sentem o poder do Eu e
como ninguém são capazes de utilizá-lo.
Quem esteja diretamente familiarizado com a religião hinduísta ou bramânica, e
especialmente com as modalidades existentes antes de instituir-se o culto de Shri Krishna,
terá notado a insistência desta religião sobre a doutrina de que o Atman ou Eu humano é
uno com o Eu universal. É um inexpugnável centro de consciência destinado a libertar-se
de todos os laços terrenos, não por graça nem favor externos, mas por direto domínio de
todas as partículas de seu ser, e a inflexível afirmação em pensamento e atividade que
envolve a frase capital: "Eu sou Aquele".
Se a religião hinduísta não foi em seus primeiros tempos tão suave e benigna como
agora, ao menos expôs o mais claramente possível a crença no princípio e valor da justiça
segundo as doutrinas fundamentais do karma e do dharma. O valor e a vontade do ancião
magnata Bhisma são típicos desta religião. Demonstrou-os em sua esplêndida
independência, quando ameaçado pelo terrivelmente colérico rei Shisshupala. Conteve-se
e replicou-lhe tranquilamente: "Sabei que todos os reis da terra são para mim como tênue
palha. Ainda que me matásseis, como a uma besta selvagem, ou me abrasásseis na
fogueira, neste momento ponho o pé sobre vossas cabeças. Porque diante de nós está
agora o Senhor a quem adoro".
Importa dizer, de passagem, que os aspirantes ao primeiro raio não necessitam esta
linguagem, pois as circunstâncias em que se viu Bhisma eram sumamente provocadoras.
Ademais, a imitação não é peculiar do primeiro raio.
Mais tarde, quando Bhisma jaz moribundo no campo de batalha, coberto de feridas e
crivado de flechas, falou, antes de expirar, ao povo reunido ao seu redor sobre a valia das
treze formas de verdade, assegurando-lhe que o esforço é superior ao destino e a vontade
humana maior que os acontecimentos.
Ainda mesmo Shri Krishna, que tanta preeminência deu no hinduísmo ao influxo do
segundo raio, enumera em primeiro lugar as robustas virtudes da impavidez, a pureza
sátvica e o perseverante anelo de sabedoria, entre as qualidades divinas que o homem tem
70
de atualizar.
2. A sabedoria, assinalada no quadro como a característica do segundo raio, quase
dispensa comentários, mas convém recordar a importantíssima verdade, já explicada, de
que a ativa expressão e essência de toda sabedoria é o amor. O termo râja yoga no quadro
sinótico aplica-se, no meu entender, à esplêndida e régia ciência de união ensinada por Shri
Krishna no Bhagavad Gitâ; e a frase "mente humana", usada ali, não se refere tanto ao
princípio manásico ou mental, chamado o sexto sentido na Raja Voga, mas antes ao centro
de consciência humana, denominado buddhi (intuição) pelos teósofos.
A religião budista é seguramente o mais acabado tipo do segundo raio. Muito amiúde o
seu Fundador, ao percorrer o vale do Ganges, mostrava aos hinduístas o risco da soberbia
subjacente na doutrina do Eu, se alguém dizia: "Eu sou Aquele", pensando no "Eu" como
geralmente pensam os homem, ou seja, como personalidade material ou consciência
ordinária. Com muita frequência insistia o Senhor Buda em que o comum das pessoas
formava um falso conceito de Deus, pois não existia o eterno Ser tal como os homens o
figuravam.
Consideremos, além disso, Seu ensino sobre a compaixão e a benevolência. Gautama o
Buda "tornou a Ásia benigna" e deixou tão fundo traço de seu amor no mundo, que os
centenares e milhares de milhões que têm sido Seus discípulos durante o transcurso dos
séculos se distinguiram sempre por sua benevolência e desinteresse. Jamais apoiou sua
propaganda na perseguição, e contudo, nenhuma outra religião do mundo ganhou tão
grande número de fiéis. Verdadeiramente é a religião do segundo raio.
3. O quadro assinala o akasha como a característica do terceiro raio. Akasha é o depósito
ou armazém da mente universal, onde estão todos os arquétipos, o primeiro plano material
em que atua o kriya ou energia mental de nosso Logos solar. É a vigorosa memória da
consciência de nosso globo; o meio pelo qual a consciência enche o espaço. Do akasha
dimanam por diferenciação todos os fenômenos da vida objetiva.
Opino que a Astrologia relacionada com este raio não se refere ao sistema de símbolos
e correspondências especulativas, denominado hoje Astrologia, mas à ciência positiva do
influxo dos Espíritos planetários que presidem os raios.
O homem do terceiro raio, uma vez aprendida a sua Magia, saberá tudo o referente às
características dos sete distintos tipos de cada grau de energia e matéria, de sorte que o
mundo inteiro seria para o experto neste raio como um vasto tabuleiro de xadrez, em que
poderia ver a posição e valor de cada peça e aproveitá-Ia para seus fins e propósitos.
Todas as forças da natureza se recopilam numa grande ciência matemática e têm umas
com outras afinidades que bem podem chamar-se magnetismo. A religião caldéia, com sua
complicada astrolatria e astrologia prática, com seu Livro dos Números, seu enlace da
árvore do conhecimento com a árvore da vida e sua grande reverência pelo deus lunar,
parece que pertenceu a este raio.
4. É muito estranho que o quadro assinale o nascimento de Hórus como a característica
do quarto raio. Mas tudo se explica ao recordar o exposto na mensagem sobre maya,
considerada como encarnação de Shiva para proporcionar um laço de união entre Vishnu e
Brahmâ, ou seja, harmonizar as relações entre a consciência e a matéria.
Quando Osíris foi desprovido de seu reino, muito sofreu o povo debaixo da cruel tirania
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de seu opressor; mas Osíris renasceu em seu próprio filho Hórus, que veio vingar as injúrias
e restaurar a felicidade. Na religião egípcia o cerimonial de luta pela morte de Osíris
causava verdadeira dor, e era símbolo das vivas ânsias de felicidade ou ananda, que o
homem experimenta atado à vida terrena.
Set, o matador de Osíris, símbolo dos rebeldes elementos da natureza e das trevas da
noite, ficou vencido por Hórus, que restabeleceu a harmonia e foi por último o deus dos
justos prêmios e castigos. Além do mais, Hórus era o símbolo do homem no estado
intermediário em que se encontram o supremo espírito e a ínfima matéria, e, depois de
batalhar, harmonizam-se.
Como este ponto é importantíssimo, tratarei de explicá-lo em relação com os sete
princípios do homem. Ao quarto princípio se costuma chamar antahkarana, que
literalmente significa causa, instrumento ou agente interno. Nos planos superiores (em
certo sentido) estão átma (vontade), buddhi (sabedoria) e manas (inteligência), os três
primeiros princípios, e embaixo, os outros três princípios que na constituição do homem
representam o quinto, sexto e sétimo.
As denominações destes três últimos princípios são muito confusas, pois cada autor
lhes tem dado nomes diversos. Por minha parte adotarei as mais convenientes a este
estudo. O que comumente se chama mente inferior é kama-manas ou seja, o manas
mesclado com o desejo, o manas interessado nas coisas materiais. Na geral se tem
empregado a palavra kama em sentido por demais restrito, como se só significasse o
grosseiro desejo sensual. E o desejo é o aspecto externo do amor, o amor às coisas dos três
mundos, enquanto que o genuíno amor é amor da verdadeira vida ou o amor do divino, e
pertence ao Eu íntimo e superior.
O que comumente se denomina princípio astral é simplesmente kama, e quando está já
formado em definido corpo astral se chama kama-rupa. O sétimo princípio está no duplo
etérico, também chamado linga-sharira ou corpo sutil.
O corpo físico não contém nenhum princípio humano. É tão só uma parte do mundo
objetivo. Nem sequer é a mão do homem, senão o instrumento manejado pelo princípio
residente no duplo etérico. O corpo denso só serve para conter os órgãos por cujo meio
funciona o homem no plano físico.
Nas tabulações dos sete princípios, uns autores incluem o antahkarana e outros o corpo
denso, mas nenhum inclui a ambos. Transcrevemos três destas tabulações, como segue:

1. Homem comum 2. Ocultista 3. Novo Adepto


1. Átma 1. Átma 1. Átma
2. Buddhi 2. Buddhi 2. Buddhi
3. Manas 3. Manas 3. Manas
4. Corpo físico 4. Antahkarana 4. Mônada
5. Manas inferior 5. Kama-manas 5. Kama-manas
(kama-manas)
6. Astral 6. Kama-rupa 6. Kama-rupa
(kama-rupa)
7. Etérico 7. Linga-sharira 7. Linga-sharira
(linga-sharira)
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Como muito logo veremos, a primeira tabulação enumera propriamente os sete
princípios do homem comum; a segunda expõe os do ocultista que não atingiu ainda a
perfeição; e a terceira dá os do adepto do momento de entrar no adeptado. O quarto
princípio, que agora estamos considerando, atua por meio do corpo físico, no primeiro
caso, pelo antahkarana no segundo e pela mônada no terceiro. Pois bem: há uma
admirável relação entre a mônada, o antahkarana e o corpo físico; mas como isto é algo
difícil de compreender, explicá-lo-emos gradualmente.
O átma-buddhi-manas é a individualidade ou ser divino do homem, o que
verdadeiramente evolui. O corpo causal ou manas superior evolui com maior ímpeto na
senda probatória; o búdico, na primeira metade da senda do discipulado (entre as primeira
e quinta iniciações). Portanto, nestes planos está a primeira atuação do ser divino do
homem; mas necessita algo para especializar suas funções, como a partícula de pó na
névoa ou o grão de areia na pérola. Como muito mais tarde tem de chegar a ser um Logos,
deve aprender a ver um mundo desde seu mundo interno, isto é, o mundo que há de
constituir o ambiente externo onde exercitar a percepção. Daqui a necessidade de sumir-se
ou incorporar-se na matéria.
Portanto, o ser divino do homem não pode entrar todo de uma vez na matéria, senão
tão só ponto por ponto. Este ponto é o antahkarana com determinada personalidade.
Assim vemos que no homem inferior ou personalidade o antahkarana é um substituto do
Eu superior.
Em determinada encarnação, o Eu superior não intentará manifestar-se em mostrar o
desenvolvimento adquirido em vidas anteriores. A vida que então passa tem algum
propósito especial, e a personalidade terá de contentar-se com não evoluir, senão com dar
a lição que então deve dar, pois pertence ao presente e não à eternidade, e assim é que
deve entregar-se por completo ao Eu superior, sem outra esperança de benefício para si
mesma do que sua recompensa no devacan. Se assim não se porta, será o antagonista do
Eu superior cujo propósito frustrará.
Tudo isto simbolizava a lenda egípcia de Osíris. O Eu superior é Osíris que tem que
efetuar seu labor nos planos superiores. Não pode descer e pelejar contra Tifão ou Set, mas
envia seu filho Hórus com este propósito. Hórus é o antahkarana, e o antahkarana é o único
divino que há na personalidade, uma reencarnação de seu próprio pai. Assim se explica a
frase "nascimento de Hórus"
Consideremos agora a distinção entre a personalidade e a série de corpos. Hórus tem
de ser o governante da personalidade, isto é, tem de estabelecer na terra um reino que
represente seu pai. Para isso os corpos atrairão diversas espécies de matéria com graus de
vibração e formas e hábitos congruentes com uma personalidade superior. Assim, Hórus
foi a divina personalidade do homem, em completa harmonia com os três princípios
superiores, e estabeleceu na terra um reino como o estabelecido no céu, ficando
constituída a divina Tetractys, chamada também o sagrado "Quatro" e também
Tetragrammaton pelos pitagóricos.
Mas há de se ter em conta o karma das ações cometidas por meio do corpo físico
denso, em existências passadas. Este karma intervém para dar forma ao corpo, mesmo
antes de nascer, mediante a hereditariedade e outros agentes externos.
73
Desde o instante do nascimento, as coisas do mundo objetivo, a que chamamos o
ambiente, influem sem cessar no corpo e propendem a formar outra personalidade. Tifão
deseja governar. Se ganha a batalha em toda linha numa encarnação, teremos o desditoso
fenômeno do estabelecimento da personalidade egoísta. Contudo, não é inútil a derrota.
Se o Eu superior não é capaz de dominar-se em meio das experiências a que o passado
karma o submete, será tão só indício de que ainda se acha em estado de tuição e não de
intuição. Há de aprender por experiência, às vezes amarguíssima. Mas todas as
experiências que o karma traga aproveitam para a evolução da alma, e, embora
sobrevenham disfarçadas de inimigo, são nosso melhor amigo.
Portanto, em rigor não é Tifão um inimigo, senão outro substituto, o substituto do
antahkarana, que lhe proporciona uma ordenada e contínua disciplina do Eu superior como
meio de prosseguir sua evolução. Este substituto é o representante dos Senhores do
Karma.
Agora chegamos ao ponto vital do assunto. Disse que o antahkarana é um substituto do
Eu superior, do ser divino, e não é assim rigorosamente, embora era necessário dizê-lo
para penetrar uma verdade mais profunda. O Eu superior é o sujeito da experiência, o
único que experimenta; o material é o objeto da experimentação. O divino e o material não
podem enlaçar-se por meio de uma coisa que esteja em qualquer deles; mas têm de
enlaçar-se porque ambos são peças de um grande todo.
Recordemos a história da coluna de Luz. Vishnu (o Segundo Logos, o Divino), e Brahmâ
(o Terceiro Logos, o Material) não podem conciliar-se até que Shiva (o Primeiro Logos) se
manifesta e lhes demonstra que é muito superior a ambos. Então os dois se lhe submetem
devotamente e começam a atuar conjuntamente em obediência a Ele. Contudo, Shiva não
permanece com eles, senão que depois de havê-los harmonizado lhes promete que
voltariam a vê-lo quando houvessem terminado a sua obra. Substituiu a harmonia como
meio de conexão entre o sujeito e o objeto, o conhecedor e o conhecido, entre o divino e o
material. Esta harmonia é maya; é nossa vida, o substituto da verdadeira e real vida.
Portanto, no ser humano, o antahkarana é o representante de maya e o mesmo é o corpo
físico que de fulcro ou ponto de apoio serve ao karma.
E posto que a mônada é o Primeiro Logos no homem, o Eu superior é o Segundo Logos
(com três faculdades) e o eu inferior é o Terceiro Logos (com as três qualidades), teremos
que o antahkarana representa o Primeiro Logos (a Mônada) até que se complete o enlace,
conexão ou harmonia entre o Terceiro e o Segundo Logos, entre Brahmâ e Vishnu, entre a
matéria e a consciência, entre o material e o divino. Realizada esta harmonia, já não é
necessário o antahkarana, porque os homens terminam sua trajetória humana e voltam de
novo à presença do seu Senhor (a mônada).
A hatha yoga é dada como a magia deste raio. Na Índia se baseia na teoria das
correspondências e na crença de que assim como a mente influi no corpo, também o corpo
influi na mente. Aqueles que praticam a hatha yoga disciplinam rigorosamente o corpo,
mas não por meio de austeridades danosas nem mortificações, exceto alguns ignorantes
que a tão abusivo extremo chegam, senão mantendo-o em perfeita condição de saúde e
resistência fisiológica, e atuando sobre o duplo etérico por sistemas de respiração. Tudo
isso com o objetivo de obter faculdades psíquicas ou siddhis, ou conseguir profunda e
74
sustida concentração.
A magia egípcia tomava em conta não só o corpo físico, senão muitas outras coisas, e
valia-se da simbologia e da correspondência para produzir efeitos nos mundos interno e
externo. Todos os objetos materiais do mundo externo tiveram para os egípcios
significados e efeitos internos, pois enlaçavam estreitissimamente em seu pensamento e
em sua conduta os mundos interno e externo.
5. Vemos assinalado o fogo por característica do quinto raio e alquimia por sua magia, o
que claramente indica a índole científica deste raio, em que a mais escrupulosa verdade e
pureza são requisitos de êxito. Aqui, o fogo, em todas as sua modalidades, toma parte
muito principal em todas as operações do homem referentes à química, física e demais
ramos da ciência aplicada. O fogo está relacionado com a mente concreta do homem, e
também com a interessantíssima circunstância de que a ciência depende quase por
completo do sentido da vista e portanto da ação da luz, uma das modalidades de Agni.
Por exemplo, se necessita conhecer a natureza do calor num corpo, o cientista não o
tocará com os dedos para averiguar pela sensação o grau de calor, senão que se valerá de
um termômetro que o indique visivelmente. Como sabemos todos, o Mazdeísmo é a
religião do fogo e da pureza.
6. A característica do sexto raio é a "encarnação da deidade" e a devoção ou bhakti é
sua magia. Isto concorda exatamente com o nosso esquema, porque o devoto deste raio
considera Deus como a suma Bondade no mundo objetivo e não como a abstrata Deidade
que concebem os indivíduos de outros raios. O Cristianismo tem sido sempre em sua
maior parte uma religião deste tipo, sem esquecer a riqueza e prosperidade na terra e na
vida futura.
8. Por alguma razão que desconhecemos, o Mestre não assinalou a característica do
sétimo raio, acaso porque, se houvesse assinalado a Beleza, poderia desaperceber-se de
seu profundamente assentado caráter. Todas as referências das relações do homem com a
grande evolução dévica demonstram quão amantes são os devas de todo o belo na
natureza e na arte, em forma, cor, som e qualquer outra modalidade. Especialmente se
tem observado que são afeiçoadíssimos aos fragrantes e delicados odores, aromas e
perfumes.
Não é de estranhar-se que em semelhantes circunstâncias o cerimonial seja a magia do
sétimo Raio, e as magníficas cores, harmoniosos sons e rítmicos movimentos que quase
sempre acompanham o cerimonial, podem melhorar o ambiente psíquico da humanidade
e pôr os devas em mais estreito contato conosco.
A sensível percepção da existência de seres invisíveis na natureza conduz também às
primitivas formas desta atividade, em que os homens se põem em contato com os devas e
os espíritos da natureza através de formas cerimoniais adequadas.

75
PARTE III

A GRANDE UTILIDADE E PERIGO DO CONHECIMENTO DOS RAIOS

"O sábio, remove a concepção de que o Não-Espírito é Espírito" - diz Shankaracharya.


Atma é Não-Espírito em seu estado parabrãhmico final; Ishvara, ou Logos, é Espírito; ou,
como explica o Ocultismo, é uma unidade composta de videntes Espíritos manifestados.

A Doutrina Secreta

Embora Ishvara seja "Deus" - imutável nas mais recônditas profundezas de Pralayas e
na mais intensa atividade de Manvantaras, contudo além dele está Atma, cujo pavilhão
está envolto pelas trevas de Maya eterna.

A Doutrina Secreta

76
CAPÍTULO XIX

O RAIO INDIVIDUAL

O conhecimento dos raios só convém aos que têm um ideal, uma estrela cintilante no
Oriente, que com tão irresistível fascinação os atrai tanto que não podem deixar de fazer
do caminho para o ideal a senda de sua vida.
Os que ainda vivem para a momentânea satisfação do corpo, dos sentidos e da mente,
ainda são escravos de maya e têm os mutáveis prazeres dos animais. Unicamente quem
nutra um ideal constante está no caminho da verdadeira vida, de ananda ou felicidade, e
ainda então, se tem de percorrer rapidamente a senda, não só necessita da guiadora
estrela de seu ideal que ante ele brilhe alto na obscuridão da noite, senão também de uma
lâmpada de virtude para seus pés, e uma força que ponha em movimento os seus
membros. Mais ainda: para trilhar velozmente a senda, deve determinar a estrela a que há
de seguir, e que virtude e força têm de ser as suas, isto é, tem de conhecer seu próprio raio.
Isto só é possível quando sua conduta é dirigida do interior.
Dias atrás observava eu dois xadrezistas. Um estava inclinado sobre o tabuleiro com a
vista ansiosa e cenho enrugado, e ao mover as peças tremiam-lhe os dedos. O outro estava
deitado para trás, estudando serenamente o tabuleiro, e movia as peças com desenvoltura
natural e graciosa. Quem anele trilhar a senda da felicidade tem de compreender que a
vida se assemelha ao jogo de xadrez, e está no ponto de coincidência dos dois mundos.
Chamarei "meu mundo" o lugar onde me encontro com o mundo exterior. Não é meu
mundo todo este mundo exterior, senão tão só uma parte dele, onde está em marcha o
meu jogo, onde as coisas me tocam e comovem por meio dos sentidos, e eu influo nelas
por meio do pensamento. Muitas coisas há no tempo e no espaço com as quais não me
porei em contato no transcurso do presente jogo, e outras muitas coisas há fora de meu
alcance. Mas seguramente há uma esfera ou região que é "meu mundo", grande ou
pequeno, segundo a amplitude com que vim ao mundo e o tomei em minhas mãos,
intervindo no jogo da vida por meio dos sentidos de percepção.
Úteis são todas as peças do xadrez do mundo: rei, rainha, bispos, cavalos, torres e
peões, isto é, a família, a riqueza, a fama, os amigos, os negócios e ainda o corpo com suas
qualidades de saúde, força e vigor, com seu cérebro e sentidos, e seus hábitos físicos,
emocionais e mentais.
O jogo prossegue para cada qual em seu mundo, no ponto de encontro do Eu interno
com o mundo exterior. No princípio a posição nos parece segura, mas ao fazer um
movimento para acrescentar nossos poderes, ou desfrutá-los, ficamos expostos ao ataque.
Porque cada movimento do indivíduo provoca outro em resposta, no mundo onde a
reação é inseparável da ação. Sucedem-se alternativamente as boas e as más posições;
caem peões e cavalos, mas o jogador não cai e aprende a conhecer o valor das peças, pelo
uso que delas faz, e tranquilamente deixa arrebatá-Ias quando o seu sacrifício lhe
proporciona posição mais vantajosa. Caem os bispos, as torres e a rainha; mas o jogador
77
não cai. Nem tampouco cai ainda que perca o rei, que é o seu corpo no xadrez da vida, e
não há de afligir-se por isso, pois, se jogou bem, terá mais fortaleza num novo jogo.
Os sucessos da vida nunca afetam o verdadeiro ser, senão apenas ao nosso pequeno
mundo. Se nos inclinamos ansiosamente sobre o tabuleiro, sem prudência nem
discernimento, parecerá que a perda de torres e peões fere o verdadeiro ser; mas em
realidade nada disso o tem afetado, senão tão só seu mundo, pois tudo quanto sucede é
favorável para a serena e ativa alma. Que cada qual se sinta apoiado no respaldo e verá
como assim é.
Considero cinco as etapas na evolução da alma, e por toda parte se veem os homens
colocados nas seguintes posições nos degraus da escada evolutiva:

1ª Etapa: Reclinado para trás.


2ª Etapa: Eretamente sentado.
3ª Etapa: Inclinado para diante.
4ª Etapa: Eretamente sentado.
5ª Etapa: Reclinado para trás.

A primeira etapa é a do homem primitivo e ainda adormecido, civilizado ou selvagem,


apático e preguiçoso, que só se move excitado pelos duros golpes do destino. A segunda
etapa é a do que aprendeu que no mundo há coisas muito agradáveis e ansiosamente as
apetece com extremada cobiça. Na terceira etapa ainda o avassala o desejo, mas já sabe
que o mundo está cheio de perigos e compensações; que o regem definidas e peculiares
leis, e anela timonar com segurança a débil nave de sua existência por entre a muralhada
do tormentoso oceano da vida física. Na quarta etapa, o homem ainda está metido no
jogo, mas joga com dignidade, embora o afetem fundamente os ganhos e perdas. Na
quinta etapa, joga com a convicção de sua imortalidade, pois sabe que vai progredindo
sem cessar, e não Pode deixar de ganhar a partida final de um jogo maior, do qual e
mínima e contingente parte aquele em que está empenhado.
Nesta etapa não sente ansiedade nem descontentamento nem aflição. Para ele
desvaneceram-se por igual a esperança e o temor, e não se deixa arrastar pelos êxitos e as
circunstâncias até o extremo de que seu adversário mova as peças como lhe aprazo Suceda
o que suceder, não perde jamais a calma. Joga reclinado sobre si mesmo, como se, por
assim dizer, e suas forças de reserva são como as que envolvem o salto do tigre.
Assim como, em sua esfera de experiência, outros homens têm descoberto duas
partes, "Eu e o mundo", ele distingue três elementos ou setores em seu campo e atuação:
eu, meu mundo e o mundo . Já não há de temer nada do mundo, senão tão só de si
mesmo,.e ,seu único cuidado é vigiar o mundo de suas faculdades e não deixá-las nunca em
ociosidade.
Chegado o homem, em certa medida, a esta etapa, cabe perguntar: como saberá ele a
que raio pertence? É impossível dar regras para averiguá-lo; mas cada qual pode fazer-se
várias perguntas que estimularão a intuição. Pode ter viva afeição pela ciência, arte ou
filantropia, ainda que talvez sejam fases passageiras ou interesse estimulado pelo

78
ambiente. Antes de tudo o indivíduo tem de perguntar de que modo o estudo da magna
ciência teosófica o livrou das limitações que o aprisionavam. (1) - Pareceu-lhe que lhe
abriria uma interminável senda de vitória para o triunfante progresso da anelante alma?
(2) – Pareceu-lhe que apartava os obstáculos que se opunham ao universal espraiar do
jubiloso coração? (3) - Desvaneceu-se a confusão da mente que ansiava conhecer tudo de
uma vez? (4) - Demonstrou-lhe que ainda nas mais tenebrosas circunstâncias da vida há
um propósito espiritual, e que na perfeição haverá lugar adequado para as coisas agora
imperfeitas? (5-7) - Prometeu-lhe tempo e oportunidade para aperfeiçoar o conhecimento
ou ilimitado contato com tudo quanto cabe conceber de mais glorioso ou a certeza de
consumada habilidade numa arte em algo que as energias de toda uma vida não seriam
suficientes para dominar? Reflita cada qual detidamente sobre estas coisas, sem desejo de
que seu raio seja este ou aquele, e a intuição lhe falará.
Também pode perguntar-se retrospectivamente como influi nos demais. Isto poderá
servir-lhe de informação, pois ninguém pode dar o que não tem, senão que dá do que tem.
Conseguiu fortalecê-los com o seu contato e aumentar sua capacidade para arrostar as
vicissitudes da vida? Despertou-os para um conhecimento e sensibilidade superiores aos da
vida pessoal, que se compenetra com o mundo?
Guiou-os para que compreendessem internamente o mistério da existência? Logrou
tudo isto sem deliberada intenção de sua parte e tão só por sua influência individual?
Ademais, que lições aprendeu da experiência adquirida no mundo?
Movido o indivíduo pelas claras e definidas lições da experiência, quiçá ao agir lhe tenha
acudido à memória o seu passado; mas se o mundo lhe pôs generosamente as coisas para
que as escolhesse e as considerasse, acaso tenha invertido o procedimento.
Sobretudo, qual é o seu mais íntimo e profundo anelo? Que exclua ou prescinda de
todos os seus desejos e pergunte-se a si mesmo o que é que realmente anela, e não aceite
nenhuma resposta superficial, senão que se pergunte porque a dá e qual é o profundo
anelo que ainda lhe subsiste. A preferência ou repugnância, ou o passageiro capricho por
algum dos raios lhe falseará a visão da verdade. Há de estar disposto a aceitar o que a
intuição lhe manifestar, e nunca esperar que sua resposta seja esta ou aquela.
Ademais pode o indivíduo restringir o campo de investigações considerando as três
faculdades da mente, para ver qual é a que mais influi em suas resoluções e excita mais a
atividade das outras. Anela conhecimento e poderio pelo amor que o move a servir a Deus
e auxiliar o próximo? Deseja a companhia dos demais e as oportunidades da vida para
melhor compreensão e entendimento? Ou é acaso o vigor do Eu que aneloso de viver
plenamente se arroja às contendas da vida?
Que o indivíduo tome por pedra de toque os seus fracassos. Há três leis espirituais às
quais nenhum homem íntegro deve desobedecer: há de exercitar diligentemente suas
faculdades, há de ser sincero consigo mesmo e com os demais, e há de estar cheio de
amor.
Se aspira ao superior, não tem escusa nem justificação que sacrifique um destes três
princípios em favor de alguém nos conflitos do dever na vida prática, ainda que na certa o
sacrificasse alguma vez, mas sempre menos segundo o tempo passe. Que sacrificou no
passado? Foi insincero ao ser bondoso? Ocasionou dor por ser fiel à verdade? Fraquejou na
79
verdade ou no amor ao fazer algo que considerava de vital importância para o êxito? O
princípio que manteve com maior firmeza pode indicar o raio a que pertence. Todavia,
todas estas coisas são de auxílio incerto porque do interior há de brotar o conhecimento do
raio.
Também é necessário, neste esforço para discernir o raio, não fazer comparação entre
si e os demais indivíduos. Pode suceder que um seja de compreensão muito mais débil que
outro a quem conheça, e, contudo, que a compreensão seja o rasgo mais assinalado de seu
caráter, porque os outros princípios são ainda mais débeis. Também pode suceder que o
raio de um indivíduo seja o do amor, e não obstante, que tenha vontade mais firme do que
outro indivíduo pertencente ao primeiro raio. A questão não está em comparar-se com
outra pessoa, senão em conhecer qual princípio governa as forças da alma.
O homem perfeito no mais débil destes princípios é tão forte como o homem ainda
imperfeito no mais vigoroso dos seus, porque realizou em todos eles tudo quanto é
possível realizar um ser vivente em forma humana. Quando o indivíduo tiver escolhido sua
estrela guiadora, as seguintes serão as lâmpadas guiadoras de seus passos pelo
emaranhado espinhal da vida, e as forças que o impulsionem em seu caminho.

Raio Estrela Lâmpada Força Atividade


1 Liberdade Valor Vontade Governo
2 União Amor Amor Filantropia
3 Compreensão Verdade Pensamento Filosofia
4 Harmonia Valor Imaginação Interpretação
5 Verdade Verdade Pensamento Ciência
6 Bondade Amor Amor Religião
7 Beleza Valor Vontade Arte

A solução é às vezes muito mais complicada pela presença no caráter de outro princípio
vigoroso. Contudo, cada raio tem sete subdivisões, e cada uma destas, outras sete, embora
não tratemos aqui delas, porque a característica do princípio dominante prevalece em cada
subdivisão, assim como todos os matizes de uma cor são desta mesma cor. Mas pode
suceder que o segundo princípio do caráter de um indivíduo atue autonomicamente e em
determinadas circunstâncias iguale em intensidade ao prevalecente.
Têm se exposto diversos conceitos do sub-raio, mas aqui o definimos dizendo que é o
princípio que segue em vigor ao predominante.

80
CAPÍTULO XX

PROGRESSO SEM PERIGO

Na presente etapa evolutiva, o objetivo de nossa vida é o desenvolvimento da


consciência, ou melhor, do poder consciente, até a perfeição humana. Para isso é
sumamente útil o conhecimento do raio, pois quando o homem sabe a que raio ele
pertence, descobre o seu mais formidável poder, e, ao exercitá-lo, adiantará muito
rapidamente, com resultados felizes ou desastrosos, segundo sua maneira de exercê-lo.
Por causa principalmente da incalculável gravidade do perigo que envolve o
conhecimento dos raios, o mesmo tem sido mantido em reserva até que os dispostos a
recebê-lo tenham aprendido o bastante acerca da natureza da vida humana e da positiva
fraternidade. Se um homem se enamora de um ideal e com ele se identifica de tal sorte
que sinta em seu interior o poder do ideal e propenda a ir cegamente atrás dele sem ter em
conta as fraquezas de seu caráter, em tal caso é quase seguro que fracasse em seus
esforços de adiantamento.
Daremos alguns exemplos que o demonstrem. Se o homem busca a verdade no raio
científico, e o amor ou devoção escasseiam em seu caráter, não tardará em imolar vidas de
animais e mesmo humanas em seu afã de investigação. Por outro lado, se um indivíduo é
intensamente filantrópico, mas fraco em entendimento, pode incorrer sem querer nos mais
tremendos desatinos, levado por seu zelo do bem estar da humanidade; se tem poder e
ocasião para isso, é capaz de provocar sangrentas revoluções.
A grande utilidade do conhecimento dos raios consiste em que permite ao indivíduo
achar e sentir sua qualidade dominante e, depois de achada e sentida, empregá-la
inteiramente no desenvolvimento das qualidades relativamente deficientes.
Os que tenham lido meu trabalho sobre a Construção do Caráter, recordar-se-ão de que
todo intenso vício humano indica uma deficiência de caráter, acompanhada de certa
fortaleza. Um caráter débil em todos os seus aspectos não é capaz de fazer grande coisa, e
aos de tal caráter costumam chamar bons, conquanto seja difícil saber para que são bons.
Portanto, se o homem reconhece algum ponto fraco em seu caráter, tem de empregar
em revigorá-lo suas vigorosas qualidades. Assim, por exemplo, se tem régia vontade e
escassos sentimentos humanitários, tem de valer-se de sua vontade para favorecer e
auxiliar o próximo até que seu humanismo alcance alto nível. Neste caso e em todos os
análogos, o indivíduo ganha muito e nada perde, porque fortalece a sua vontade em tanto
grau como se a empregasse em propósitos egoístas, mas ao mesmo tempo fomenta o
amor.
Na verdade é difícil alterar os motivos habituais, mas quem crê na reencarnação e se
convence de que a finalidade da vida é a construção do caráter, não tardará em eliminar os
motivos fúteis e saberá que, ao agir quando melhor lhe seja possível, põe-se em mais
ampla e benéfica relação com o próximo.
81
Na senda que conduz à consciência perfeita, o homem não necessita de se esforçar na
conquista simultânea das qualidades correspondentes aos sete raios, mas, sim, deve
aperfeiçoar-se em três deles, nos três primeiros cujas respectivas qualidades são a vontade,
o amor e o pensamento. Se é bom filósofo, não tem de preocupar-se em ser cientista, e se
tem afeição à arte do sétimo raio, não há de empenhar-se na obra do primeiro.
Contudo, quem tenha por princípio predominante o do quarto raio pode considerar que
suas deficiências estão no segundo ou no sexto, ou no terceiro ou quinto, mais bem que no
primeiro ou sétimo, porque há estrita afinidade entre os raios primeiro, quarto e sétimo,
como a há entre o segundo e o sexto, e entre o terceiro e o quinto. No entanto, sempre
convém que uma ao menos das três escolhidas linhas de auto-educação esteja no grupo
dos três primeiros raios e que outra corresponda ao grupo dos três últimos, pois assim se
tornará o caráter mais equilibrado e evitará que o aspirante se aparte demasiado do
mundo ou nele se submirja fundamente.
Tenho chamado sub-raio à qualidade ou princípio que em vigor segue ao
predominante no caráter individual. Se esta segunda qualidade pertence ao mesmo grupo
que a predominante, como, por exemplo, se esta é do segundo raio ou a do quinto, e
aquela pertence ao terceiro ou ao sétimo, resultará desequilibrado o caráter. Em tal caso
convirá que o indivíduo escolha como terceira qualidade que atualizar uma do outro grupo
e empregar em sua atualização todo o poder de seu raio; depois a do sub-raio, ou seja, a
que segue em vigor e intensidade à do raio; e por fim uma terceira, a que melhor lhe
pareça entre as remanescentes, depois de aplicada a regra que temos descrito. Já não há
de temer então prosseguir tão rapidamente como possa, sobretudo se vê na terceira
qualidade escolhida o ponto fraco de seu caráter para cujo fortalecimento tem de
empregar sua qualidade mais vigorosa.
A rapidez do progresso requer a compreensão das duas leis capitais que o favorecem.
Assim como no mundo experimental há dois princípios fundamentais: o ativo
representado por Vishnu e o passivo simbolizado por Brahmâ, assim há também duas leis
capitais: a do karma e a do dharma respectivamente, pertencentes a eles e que atuam em
prol do desenvolvimento da consciência.
Costuma considerar-se a lei do karma como castigo infligido que prejudicaram o
próximo, mas esta explicação não define sua verdadeira índole. Em realidade é um plano
harmônico que ensina homem por coação externa o que não quis aprender por
espontâneo impulso de sua consciência. É o meio de que se vale a natureza para insistir
em que o homem cumpra as responsabilidades contraídas em proporção ao
desenvolvimento de suas faculdades.
Volvamos ao símile do xadrez. Um dos jogadores moveu algumas peças que o
colocaram em determinada posição, e ainda que jogo não se desenvolva a seu gosto, ou lhe
dê vontade de abandonar a partida, não pode deixar de fazer outra Jogada, em
consideração a seu adversário. Assim ninguém tem de permanecer passivo no jogo da vida,
senão que sob a consequente penalidade tem de prossegui-Io porque o mundo castiga a
ociosidade, o egoísmo e a Insensatez, por muito inocente que seja um homem, ninguém o
salvará de um atropelamento de automóvel se insiste em atravessar com os olhos fecha
dos uma avenida de muito trânsito.
82
A lei kármica nos relaciona com o mundo material, e é exatamente a mesma que nos
queima a mão quando a pomos no fogo e não empregamos a nossa inteligência em
indagar de maneira mais discreta a natureza do fogo. Portanto, não e possível a
passividade no Jogo da vida. Todo aquele que aspire trilhar a senda de perfeição tem de
atender ao que particularmente lhe põe o mundo adiante, e crer que envolve uma lição a
ele destinada e necessária ao seu progresso.
O homem pode desenvolver de bom grado, na vida, suas qualidades ou potências de
vontade, amor e pensamento, exercendo-as ativa, inegoísta, e sensatamente; ou então,
com dor aflição se necessário, a experiência da vida o obrigará a desenvolvê-Ias por coação
da lei.
Assim diz acertadamente Emerson:
"Cada dia chega uma nave, e cada nave traz uma mensagem favorável para aqueles
que não sentem temor ao olhar ao longe o mar, seguros de que a mensagem trazida pela
nave é a que desejam escutar."
Também é parte desta lei que o homem receba o dano ou benefício que fez aos
demais, mas isto tampouco é castigo, senão pura educação. O homem que
intencionalmente prejudique a outro dá provas de ser insensível ao bem-estar e
sentimentos do prejudicado, pelo que necessita experiências que lhe avivem os bons
sentimentos. Mas se prejudicou por ignorância ou estupidez, também necessita
experiências que lhe ensinem a ter no futuro maior cautela com sua conduta. Poucos há
que se arrependem de sua insensatez sem as lições da experiência.
Disse Wolsey: "Se eu houvesse servido a Deus com a metade do zelo com que servi a
meu rei, ele não me teria entregue em minha idade em mãos de meus inimigos". A lição que
a experiência deu ao famoso cardeal é típica do ponto que consideramos, pois não só
sofreu os vexames que havia infligido a outros, mas ao sofrê-los teve um vislumbre de
sabedoria, uma visão de como convém portar-se na vida.
Não houve desdouro para ele que não o tivesse visto até a experiência o ter golpeado
duramente, porque tal é o meio de que se vale a vida para ensinar ao homem. Em verdade
que o objetivo da encarnação do Eu não é desfrutar das já adquiridas faculdades, senão
vigorizar as deficientes; e lei kármica não cessa de proporcionar as externas condições mais
adequadas para equilibrar o caráter.
Quando a lei do karma nos impede de fazer o que desejamos por sabê-lo fazer rápido e
bem, não é um inimigo, mas um amigo que nos assinala o que ainda temos de aprender
enquanto trilhamos a reta senda de perfeição. Assim é que para progredir tão rapidamente
quanto lhe seja possível, o homem não só tem de aceitar o jogo tal como o encontra no
tabuleiro e dispor-se a jogar até o fim da partida, com as peças que tenha e na situação em
que se achem, senão que deve jogar de bom grado e coração alegre, sem desejar que o
jogo de outra pessoa fosse o seu. Diz o Bhagavad Gitá:
"Cada qual alcança a perfeição mediante o cumprimento de seu próprio karma."
A outra lei, o dharma, rege a evolução da consciência, e em rigor não existe outra
evolução, pois as formas da natureza se constroem de conformidade com a evolução da
consciência. O dharma de um homem é a sua situação na escala da evolução da
consciência, e a principal característica desta lei é que a vontade, o amor e o pensamento
83
se têm de acrescentar exercitando-os e não de outra maneira.
Portanto, prudente será quem exercite suas faculdades, por insignificantes que sejam,
em vez de mantê-las ociosas por não poder medi-las com as de outros a quem admira. Não
o aperfeiçoará a espera, senão o esforço em realizar uma obra que lhe pareça superior às
suas faculdades. Diz o Bhagavad Gitá:
"Mais vale cumprir o seu próprio dever, mesmo sem mérito, do que o dever alheio com
toda a perfeição."
Uma das características da lei do karma, que nos relaciona com o mundo exterior, é
que, quando o homem se dedica à atividade peculiar de um raio, desenvolve e atualiza ao
mesmo tempo a qualidade distintiva do raio que esteja em correspondência com o seu,
segundo a analogia entre eles já mencionada.
Quem se dedique à beleza artística, em qualquer de suas modalidades, desenvolverá ao
mesmo tempo a vontade e autodomínio peculiares do primeiro raio. Quem siga a senda da
devoção, como, por exemplo, a que conduz a Cristo, entrará nos sempre dilatados campos
da fraternidade humana. Quem investigue a verdade científica chegará a ter também algo
de filósofo. Quem trabalhe destramente com firme vontade acabará por sentir e amar a
beleza, pois a habilidade na ação produz sempre obras belas, porque é causa de beleza.
Quem experimente o sentimento de fraternidade humana começará por estimar quanto
vale o companheirismo, e acabará por venerar devotamente aqueles que lhe sejam
superiores, como irmãos maiores na grande família humana. E o filósofo que trate de
compreender as relações entre o homem e o mundo entrará algum dia nos domínios da
ciência.
A mesma lei rege também o progresso das nações. Nossa presente sub-raça pro pende
à filosofia e a tudo quanto desenvolva a mente superior; e nos Estados Unidos, onde o povo
tributa culto à abundância e à prosperidade e admira todo o grandioso, nota-se que a
mente da sexta sub-raça está dando mostras de um sentimento de fraternidade como
talvez em nenhum outro país do mundo.
Quando a fraternidade houver estabelecido seu império na ainda longínqua maturidade
da sexta sub-raça, como na quinta tem conseguido a ciência ruidosos triunfos e penetrado
até nos mais leves pormenores da vida, na quinta, cabe predizer que tudo quanto o
homem tiver de fazer na sétima sub-raça será embelezar todos os aspectos da vida. Com
isto aumentará poderosamente a sua vontade e gozará da liberdade externa que
possibilitará a culta e ilustrada anarquia, impossível de se estabelecer até que com
indisputada soberania prevaleça a fraternidade.

84
CAPÍTULO XXI

ETAPAS DO CONHECIMENTO DE SI MESMO


Diz Emerson:
"De perto nos toca aquela antiga fábula da esfinge sentada junto ao caminho, que
propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não os resolvia. Em copiosa variedade
sobrevêm sucessos que propõem enigmas à mente humana. Os capazes de responder
acertadamente às enigmáticas perguntas dos sucessos escravizam-se a eles. Os sucessos os
esmagam, os tiranizam e fazem deles homens rotineiros, os chama dos sensatos nos quais a
servil submissão aos fatos extinguiu até a última chispa daquela luz pela qual o homem é
verdadeiramente homem.”
"Mas se o homem é fiel aos seus melhores sentimentos e instintos, e não se rende às
circunstâncias, como se pertencesse a uma raça superior, e mantém-se firme pelo
conhecimento de si mesmo, então os fatos e sucessos sobrevêm adequadamente em seu
próprio lugar, reconhecem o homem por seu senhor e o glorificam."
Isto indica, segundo antes disse, que o homem pertence à consciência, e se
positivamente assim o compreende, nada há que temer e tudo lhe sairá bem. Contudo,
convém saber que parte do que o homem toma comumente por seu verdadeiro ser é uma
porção do mundo exterior. Examinemos este ponto pelo exame do homem.
Em primeiro lugar vemos que possui vários corpos materiais, que são o físico e os seus
vários companheiros pertencentes aos planos mais sutis. Este conjunto de corpos
proporciona à consciência um limitado instrumento, e ao encarnar neles efetua um
definido ato de concentração.
O corpo é literalmente uma câmara escura (1) que nos reclui do mundo exterior, e não
no-lo mostra como geralmente se supõe. Contudo, os órgãos dos sentidos mitigam algum
tanto a obscuridade·da câmara, pois deixam entrar um pouco de luz que projeta na tela da
mente claras imagens do mundo exterior. A visão pertence à consciência não à câmara
escura, mas só pode ver a parte do mundo exterior iluminada pelos raios de luz que
penetram na câmara, enquanto seja capaz de concentrar energicamente a atenção num
raio de luz.
A concentração de uma vaga e muito indefinida impressão do mundo é como uma
embrionária mente subconsciente, porém com claros e brilhantes pontos nela,
resultantes das vívidas experiências obtidas por meio da câmara do corpo. Natural
consequência disso é que o homem se relaciona com uma coisa após outra e não evolui
no corpo nem tampouco o corpo evolui, senão que passa por uma série de mudanças
como as estações do ano e está sempre ganhando e perdendo, em assimilação e
desassimilação.
Não temos de nos afigurar que a criança e o velho sejam imperfeitos, e só é perfeito o
homem na virilidade. A criança e o velho têm a sua peculiar perfeição, de que carece o
homem maduro. Sucede o que com o estudante que durante o dia aprende umas tantas
lições de diversas matérias em diferentes aulas e de distintos catedráticos. No dia
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seguinte o escolar assistirá às mesmas aulas e aprenderá algo mais do que aprendera no
dia anterior, porque no reino do conhecimento "ao que tem lhe será dado" e o poder da
mente aumenta dia a dia. Assim também em futuras encarnações, quando cada qual
passar pelas estações da vida, lhe será mais fácil o passo e ter-se-á enaltecida a sua
consciência.
A proporção que progredir este enriquecimento, ir-se-ão aguçando os órgãos do
sentido com mais dilatado campo de percepção A consciência será capaz, à medida que
se fortaleça, de ter mais ampla visão das coisas, até que, chegada ao pináculo da
perfeição, perceba todo o mundo exterior e veja sem olhos e ouça sem ouvidos, disposta
a entrar no transcendente estado de consciência de Vishnu.
Mas até que chegue esse dia, o homem encarnado tem de se reconciliar consigo
mesmo, pois como personalidade no corpo não pode progredir sem aproximar-se da
perfeição. Enquanto aprende agora uma coisa numa aula e fixa sua atenção nela, fica em
grande parte obscurecido o que pouco antes aprendera em outra aula. Há de ir vivendo
hora após hora, fazendo todo o possível para aproveitar o tempo. Encarnou com o
propósito de adquirir algo novo, e à aquisição dedica os seus sentidos, emoções e
pensamentos, a porção do seu ser neste labor empenhada se lhe apresenta claramente
como uma entidade distinta de todas as demais coisas.
Analisemos agora a personalidade. Não é a série de corpos, senão algo que foi
crescendo com eles. Ainda que a criança sinta, pense e mesmo queira por meio de seu
corpo, carece em princípio de personalidade, que pouco a pouco se vai formando segundo
passam os anos e cresce o corpo, até definir-se por completo.
O corpo físico terá recebido determinada educação e contraído certos hábitos
acompanhados de outros emocionais e mentais inerentes aos corpos astral e mental. Tudo
isso constitui uma distinta personalidade, que reagirá com peculiar idiossincrasia sobre o
mundo exterior. Não é o verdadeiro homem, e em vez de designá-la com o pronome "eu",
deveria se lhe aplicar o pronome neutro "isso".
A personalidade é ou deveria ser um instrumento, algo formoso, bom, forte, puro,
definido e útil para os misteres da vida, de modo que por seu meio pudesse obter o
verdadeiro homem positivas e valiosas experiências. Todavia, deve ser a personalidade um
instrumento que sirva ao homem para pensar, amar e querer; e não só para responder às
impressões do mundo externo, mas também aos estímulos do homem interno.
Imaginemos, por exemplo, que um indivíduo que saiba escrever ou jogar tênis com a
mão direta aprendesse a fazê-lo também com a esquerda. O resultado lhe traria positivo
benefício, não só na ordem de ambidestreza manual, mas também na ordem moral e na
referente ao seu aperfeiçoamento, porque, enquanto aprendia a usar sua mão esquerda,
praticava a concentração, adiantando umas coisas enquanto trabalha por outras.
Tal é a maneira de atuar durante a vida terrena. O verdadeiro homem é destro; mas a
personalidade não pode empregar o tempo no desfruto do já ganho, senão que deve servir
de instrumento para dotar de uma nova faculdade o poder ao homem interno. Em tais
circunstâncias toda linhagem de ambição pessoal (sankalpa em sânscrito) ameaça
menoscabar a eficiência da personalidade no serviço do verdadeiro ser humano.
Se a personalidade vive realizando constantemente a obra do verdadeiro homem, em
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outra aspiração que não seus ideais, ela se identifica com o verdadeiro homem; mas se
imagina ser algo de per si e que pode ser algo mais, está sentenciada à aflição. Não deve
cobiçar nada, nem sequer conhecimento.
Na Bolívia, as mulheres indígenas e mestiças denotam sua posição social e sua riqueza
usando ao mesmo tempo tantas saias quantas possam; mas esta ostentação não as
favorece nem agrada a quem as olha. O mesmo sucede à personalidade que se empenha
em ser uma enciclopédia ambulante.
A personalidade não necessita maior conhecimento do que o indispensavelmente
apropriado à índole da obra que tem de levar a cabo no mundo; e quando deparamos com
personalidades que assumem conhecimentos supérfluos, isso nos faz recordar as
superpostas saias das mulheres indígenas bolivianas.
A simples naturalidade de um belo animal, de um cão, um gato ou um cavalo, em sua
própria pelugem, sem coleiras nem cintos nem arreios, há de ser o ideal da personalidade,
sem ornamentos supérfluos que poderiam ser úteis e formosos em outro lugar.
O terceiro elemento de nossa análise é a personalidade egoísta. Se a consciência do
homem se submergiu nesta personalidade, crendo-se identificada com ela, com exclusão
de toda outra coisa, então a personalidade usurpa o trono do Eu superior, e não há outro
interesse senão a prolongação da vida terrena para satisfazer suas comodidades e
ambições físicas, emocionais e mentais. Em tal caso, o homem de ideais, o verdadeiro
homem, fica inane durante toda aquela encarnação. Boa é a personalidade, mas a
personalidade do egoísta ou egoísmo é a maior maldição.
O quarto elemento de nossa análise é o homem consciente, cujo verdadeiro interesse
na vida estriba nas atividades de um dos raios e na consecução de um dos ideais. Sua vida
será frutífera no grau em que refreie o egoísmo pessoal, porém que mantenha robusta a
personalidade. Cada qual pode comprová-lo por si mesmo. Enquanto tributa culto ao seu
ideal, tudo lhe sai bem, mas enquanto cede ao egoísmo pessoal, tudo lhe sai mal. Tem de
se perguntar ao indivíduo em que pensamentos ocupa a sua mente, e mais ainda tem de
recapacitar-se sobre o que faz sua mente quando não pensa. A rigorosa disciplina e
purificação da conduta o capacitarão para estabelecer na personalidade tais hábitos de
emoção e pensamento, que antes se inclinará mais ao interno que ao externo e se
interessará nos ideais e não nos objetos de desejo.
Ao homem consciente lhe enquadram os pronomes "eu", "tu", "ele", mas não o neutro
"isso", por que não é uma coisa material e objetiva, senão uma vida consciente. Aqui se
encontra o fruto dos trabalhos da personalidade. Aqui se encontra alguém que evolui e
permanece sempre o mesmo apesar das mudanças. Uma coisa material não pode mudar e
não obstante ser a mesma depois da mudança por causa de sua limitação de espaço, mas o
Eu consciente permanece sempre o mesmo entre a incessante mudança de pensamentos,
emoções e desejos, e amplia cada vez mais sua visão do mundo material.
Mas tampouco é a consciência o verdadeiro ser do homem nem ainda na hora do
triunfo, quando transcendeu a necessidade de encarnar-se em forma humana. A
personalidade e o corpo são parte do mundo material. O Eu é uma parte do mundo
consciente, da infinita e ilimitada consciência universal. Aqui se encontra a colheita de
quanto se semeou no campo da personalidade. Cada novo atingimento vai ampliando e
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enaltecendo a consciência, de modo que seja cada vez uma parte maior da consciência
universal. A consciência individual é uma parte de Vishnu como resultado de uma parte de
Brahmâ.
Contudo, nem ainda assim chegamos ao fim, por muita que seja a expansão da
consciência individual. Pode abarcar todos os sete raios, como resultado das experiências
adquiridas no mundo de Brahmâ, enquanto por este mundo se estende a imanência de
Vishnu, como a personalidade benévola de maya.
Mas no segundo raio é possível espraiar ainda mais a consciência e ser parte do
transcendente aspecto de Vishnu. E ainda mais se pode chegar ao primeiro raio na vontade
de Vishnu, onde se identifica com Shiva. Aqui está o umbral do genuíno nirvana, onde o
homem se sobrepõe à consciência, como muito tempo antes se sobrepôs à matéria, e então
já não há "tu" nem "ele", senão tão-sé o único Eu.
Disse Buda:
"Se alguns dizem que o nirvana é a aniquilação do Eu, dizei-lhes que mentem. Se alguns
ensinam que o nirvana é vida separada, dizei-lhes que se enganam. Porque ignoram a
verdade, não veem a luz que brilha por cima de sua rotas lamparinas e não sabem que a
felicidade está fora da existência e do tempo.”

(1) Expliquei isto em minha conferência sobre A Psicologia Pessoal e a Mente


Subconsciente.

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GLOSSÁRIO DOS PRINCIPAIS TERMOS SÁNSCRITOS EMPREGADOS NESTE LIVRO

Ananda: Felicidade; o estado da vida real.


Ananta: Tempo infinito, a base da consciência.
Átma: O ichchhâ no homem.
Bhagavad-Gitâ: O Canto do Senhor, um tratado devocional e filosófico amplamente usado
pelos hindus.
Bhakti Yoga: União com o divino pela devoção a Deus.
Brahmâ: O terceiro membro da divina trindade; o mundo das coisas.
Brahman: Deus, que inclui a vida real, a consciência e o mundo das coisas.
Buddhi: O jnana no homem.
Chit: Consciência.
Deva: Um ser divino de qualquer grau; o ser que brilha do interior. Vishnu é o deva
supremo, a matriz de todos eles.
Dharma: A posição de uma alma na escala evolutiva; a lei do desenvolvimento.
lchchhâ: A vontade na consciência. Sua forma ativa é vontade; sua forma receptiva a
consciência do eu.
Jnãna: A sabedoria da consciência. Sua forma ativa é amor; sua forma receptiva a
consciência da consciência.
Karma: Atividade; ação intencionada. Também a lei de reação, de causa e efeito.
Kriya: A atividade da consciência. Sua forma ativa é o pensamento; sua forma receptiva a
consciência das coisas.
Kriyashakti: O poder do pensamento.
Lakshmi: A deusa da prosperidade; esposa de Vishnu. Especialmente relacionada com o
sexto raio.
Manas: O kriya no homem.
Maya: Nossa vida, um substituto da vida real; o mundo de relações entre chit e sat.
Raias: A energia constituinte do mundo das coisas.
Sannasi: Aquele que deliberadamente renuncia maya.
Sat: Existência; a característica do mundo de Brahmâ.
Sattva: A lei e a ordem no mundo das coisas; o mundo das ideias fixas ou arquétipos
materiais.
Shiva: O primeiro membro da divina trindade; a verdadeira vida.
Shri Krishna: O grande instrutor espiritual do Bhagavad Gitâ; uma encarnação de Vishnu.
Swayambhu: O ser existente por si mesmo; um nome de Deus.
Tamas: A matéria constituinte do mundo das coisas.
Vijnana: Conhecimento.
Vishnu: O segundo membro da divina trindade. O mundo da consciência ..
Yoga: União com o divino; os meios de consegui-la.

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