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SOZINHO, MAS NÃO SEM OS OUTROS *

Paulo Vidal

Cheio de esperanças quanto à revolução russa de 1917, um interlocutor de Freud certa vez

tentou convencê-lo do futuro radiante que aguardava a experiência soviética com o argumento de

que, aos anos iniciais de sacrifício e labuta ímpares, logo se sucederia uma nova era de paz e

harmonia. Freud retrucou que acabara de ser convertido pela metade ao comunismo, pois

“acreditava na primeira metade do programa” (Stavrakakis, 1999, p. 11). Boutade cuja

fundamentação conceitual se acha no trecho de O Mal-estar na Civilização (Freud, 1929) no qual

considera ilusóriosos os pressupostos do comunismo: o homem nasce bom e é benévolo por relação

ao próximo, mas a propriedade privada corrompe a sua natureza, de tal forma que, com a abolição

da propriedade privada, o homem deixaria de ser o lobo do homem.

Já Psicologia das Massas e Análise do Eu (Freud, 1921) foi considerado por muitos uma

antevisão crítica dos mecanismos libidinais e identificatórios que o movimento de massas fascista

logo colocaria em jogo na Europa do entreguerras. De fato, é legível na manifestação de massa

nazista filmada em O Triunfo da Vontade (Riefensthal,1934), como o bigodinho do Füher, do líder,

ocupa o lugar do ideal do eu dos indivíduos, regendo as identificações que se realizam

verticalmente, de tal modo que impera a submissão hierárquica e são abolidas as diferenças

subjetivas entre os membros da massa.

Uma vez que o laço horizontal entre os membros da massa decorre da ligação vertical de

cada um deles com o líder, por mais que se converse na multidão, ninguém fala com alguém, um

não fala com o outro. Todos ecoam no fundo a mesma alienação: cada um sabe quem é, é aquele

que fala como o outro. Pois se acha fora da massa o verdadeiro interlocutor, o líder, portador de um

traço de exceção que o põe à parte. Ponto de agregação da massa, o olhar do chefe, reencarnação

superegóica do olhar do pai da horda primeva, reduz portanto o laço social a uma modalidade de

apego recíproco especular e hipnótica.


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O amor ao chefe seria portanto duplamente necessário para a formação da massa segundo

Freud (1921): primeiramente, ligando o narcisismo, encadeando os indivíduos uns aos outros; e, em

segundo lugar, ligando a agressividade de uns e outros, a qual canalizaria para fora, para o inimigo

externo por exemplo. Verdade que a experiência do pânico demonstraria: no exército, soldados que

enfrentaram corajosamente o inimigo, debandam em pânico quando tomba a cabeça do cabeça, do

general, cada um passando a se preocupar “apenas consigo próprio, sem qualquer consideração

pelos outros” (Freud, 1921, p. 123), os laços mútuos cedendo lugar a um pavor insensato e

incontrolável.

Paradoxalmente, é portanto no pânico, no momento em que o laço amoroso com o chefe é

cortado, que se revela para Freud a essência da socialidade como ligação libidinal de elementos em

si mesmos não sociais: os narcisos individuais. Ao se desagregar panicamente, a massa se

decompõe em narcisos estranhos e hostis uns aos outros, pois a apresentação do mesmo frente ao

mesmo, o surgimento do semelhante no lugar do outro transmuta os resultados do laço comum de

idolatria – somos iguais e pacíficos porque nos reconhecemos fascinados pelo mesmo ídolo - em

relação de animosidade. Como nota Freud, os fãs se identificam entre si graças ao amor que

compartilham por um líder inatingível e que assim deve permanecer: caso um dos inúmeros fãs de

Elvis Presley repentinamente proclamasse que ele deve ser o objeto de culto, pois na verdade é

uma reencarnação até então oculta do ídolo, provavelmente desencadearia uma guerra entre

pretendentes ao cargo de Elvis. A história contemporânea está repleta de acontecimentos ou

desastres semelhantes, vide o esfacelamento da Iugoslávia pós-Tito.

Para formar uma massa, basta portanto que dois se identifiquem com um terceiro, de quebra

um quarto será excluído. Sem nos parecer que exagere, Freud (1929) repete que o homem é o lobo

do homem, que a comunidade tem como fundo sem fundo esse mal que nunca deixará de ser mal-

dito: o segredo do narcisismo é o gozo, o qual não leva em conta necessariamente o outro. Seria

possível entretanto uma política que excedesse o político no sentido freudiano, o qual procede por
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identificação dos sujeitos, por definição carentes de identidade, à propriedade que os insere num

conjunto? Como vimos, para formar uma massa basta que dois se identifiquem com um terceiro, o

resultado será um quarto excluído. Uma política que se diferencie tanto do coletivismo – que cada

um se dissolva no todo, se sacrificando pelas gerações futuras; quanto do individualismo – cada um

por si e que deus se encarregue do conjunto? Questão incontornável numa época em que a política

se reduz à administração sem expectativas dos horrores causados pela segregação social: de um

lado, o shopping; do outro, a favela.

Dito de maneira positiva, seria possível uma singularidade coletiva, na qual cada um em seu

nome próprio e responsabilidade chegue a uma conclusão em comum com os outros, mas sem se

dissolver nos outros, sem se refugiar na impessoalidade do “a gente” ou no nome do líder? Em

outras palavras, um vínculo centrado naquilo que escapa a toda identificação?

Diversamente de Freud, que construiu uma organização psicanalítica, a Associação

Psicanalítica Internacional, cujo modelo segue ainda a psicologia de massas artificiais como o

exército ou a igreja, nos parece que Lacan desde cedo se colocou a questão que enunciamos - de

uma singularidade coletiva -, até porque reconheceu no modo burocrático e piramidal de

funcionamento das sociedades analíticas uma causa do estiolamento da invenção prática e

conceitual entre os analistas. Afinal, ao denominar “excomunhão” sua exclusão da Associação

Psicanalítica Internacional, não denunciou Lacan (1979, p.9) o que esta tinha de igreja?

De fato, finda a Segunda Guerra Mundial, derrotados os inimigos do gênero humano, na

falência de qualquer explicação sociológica, econômica da barbárie nazista e particularmente do

extermínio de seis milhões de judeus nos campos da morte, numa Europa devastada, a ser

reconstruída e novamente pensada sob todos os aspectos, neste preciso contexto Lacan redigiu dois

artigos sobre pequenos grupos nos quais, ao contrário das formações de massa, as relações

horizontais entre os membros predominam sobre as relações verticais. Intitulados O tempo Lógico

e A Asserção de Certeza Antecipada (Lacan, 1998) e A Psiquiatria Inglesa e A Guerra (Lacan, 2003)
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esboçam os rudimentos de uma lógica coletiva, a qual explora o laço horizontal entre os membros,

deixado de lado pelo Freud de Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921).

Em O Tempo Lógico, Lacan escreve que “O coletivo não é senão o sujeito do

individual”(1998, p. 213). Afastando a oposição binária entre social e individual pela introdução de

um terceiro termo - o sujeito, sujeito do inconsciente, distinto do eu - esse enunciado “O coletivo

não é senão o sujeito do individual” de forma alguma preconiza que o coletivo deva ser tomado

como um todo unitário, caso no qual apenas se transfere para uma hipóstase mítica (a nação, o

partido, a raça) propriedades “naturais”que os liberais advogam ser o apanágio do indivíduo. A

proposição avança antes que, numa dinâmica coletiva de indivíduos, o sujeito advém como

resultado pontual e fugaz dessa dinâmica, ou seja, é uma lógica que, diversamente da lógica

clássica, inclui a temporalidade na constituição do sujeito. Aqui, o paradigma não é a formação de

massa, mas a surpresa do Witz, do chiste freudiano, que implica três pessoas.

Quanto ao artigo A Psiquiatria Inglesa e A Guerra, o qual marcou profundamente entre

outros Psicanálise e Transversalidade de Guattari (1974), termina da seguinte forma: “esta

guerra...demonstrou suficientemente que não é de uma grande indocilidade dos indivíduos que virão

os perigos quanto ao futuro humano. É claro doravante que as potências sombrias do supereu

entram em coalizão com os abandonos mais covardes da consciência para conduzir os homens a

uma morte aceita pelas causas menos humanas e que tudo que aparece como sacrifício nem por isso

é heróico”(Lacan, 2003, p. 120).

Fruto de uma viagem de Lacan à Inglaterra ainda em 1945, na qual pesquisou o papel

desempenhado por psiquiatrias ingleses de orientação psicanalítica, particularmente Bion e

Rickman, na montagem de uma máquina de guerra que foi capaz de derrotar um exército de

tradição prussiana, A Psiquiatria Inglesa e A Guerra tem como pano de fundo uma interrogação

quanto à efetividade social da psicanálise, quanto à sua ação por referência às potências da pulsão

de morte que opera na civilização.


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Quanto à experiência desses dois psiquiatras e psicanalistas ingleses, ocorre numa unidade

hospitalar de reabilitação de soldados julgados inadaptados à disciplina militar, à qual não

conseguiam se submeter: são restos portanto dos ideais do exército. Em vez de tentar reinscrever

tais pacientes na formação de massa militar batendo na tecla do dever a ser cumprido, acentuando a

culpa e a punição, Bion e Rickman distribuíram os pacientes da enfermaria em pequenos grupos

centrados numa tarefa, num objetivo simbólico. Objetivo comum, a tarefa identifica os membros do

grupo entre si horizontalmente, ao mesmo tempo que os divide, pois cada um a executa à sua

maneira, lutando contra as próprias dificuldades. Ou seja, no pequeno grupo, o inimigo comum é

antes de tudo um inimigo interno, que divide cada sujeito, que o leva a se perguntar quanto ao

desejo que o habita.

À pressão do grupo para que confirmasse a suposição de que poderia magicamente resolver

os impasses que surgiam, Bion respondia pondo em jogo o que denominou “suspensão da

liderança”. Nas palavras do autor, “o grupo sempre torna claro que espera que eu atue com

autoridade enqunto líder do grupo e eu aceito essa responsabilidade, mas não da maneira que o

gripo espera (Bion, 1975, p. 73). A sua atividade consistia em interpretar esse fenômeno à medida

que emergia no grupo, retornando a cada um de seus membros a responsabilidade de lidar com o

problema de estar em grupo.

A função de liderança no grupo não deve portanto ser deixada vazia, deve ser preenchida por

alguém, só que justamente para impedir a identificação da pessoa com a função. Verdadeira

desconcretização da chefia tradicional, essa “suspensão da liderança” será retomada por Lacan

como função do mais um no cartel, pequeno grupo de trabalho capaz de funcionar como orgão de

base de uma escola de psicanálise que não se confunda com uma formação de massa. Pois a função

do mais um não é atuar como professor, dar respostas, mas responsabilizar cada um pela

produção do cartel e provocar a elaboração dos temas trabalhados.


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Tal como exemplificado por Lacan com o sofisma dos três prisioneiros em O Tempo Lógico,

a dinâmica desses pequenos grupos é marcada por uma dinâmica temporal, pelo valor significante

do tempo, o qual toma a forma no sofisma lacaniano de duas escansões suspensivas do ato durante

as quais o tempo se decompõe em três instâncias não homogêneas: o instante de ver, o tempo para

compreender e o momento de concluir. Pautada por tempos de qualidades diversas, a comunidade

desenhada por essa lógica coletiva não possui medida comum, não devorou ou tem a devorar uma

substância comum.

Evidentemente, uma singularidade coletiva brota como um acontecimento no campo das

formações de massa, aparecendo para logo desaparecer. Como Bion e Lacan notaram, a existência

de um grupo oscila continuamente entre a homogeneidade imaginária da formação de massa e o

funcionamento simbólico do grupo de trabalho. Sublinhamos isto porque não se trata de forjar uma

nova utopia, projetar uma sociedade ideal, mas de animar com um desejo, desejo de analista, os

momentos de virada de um discurso para outro, momentos propícios à emergência do discurso

analítico.

Por último, em O tempo Lógico Lacan faz alusão à peça de Sartre A portas Fechadas, na

qual os três personagens, condenados a compartilhar o inferno por toda a eternidade, incapazes de

perceber as próprias falhas, se esmeram em apontar as falhas uns dos outros, acabando por concluir

que “o inferno são os outros”. Para Sartre, o insuportável são os outros, ao que Lévi-Strauss

retrucou: “o inferno é cada um”. À concepção existencialista do sujeito, o apólogo lógico dos três

prisioneiros responde por sua vez que o sujeito pode concluir quanto ao que é. Ele atinge sozinho o

verdadeiro, mas não o faz sem os outros, numa operação que deixa resto. É o esboço de uma lógica

coletiva que não desconheça o insuportável: se apressadamente “Eu afirmo ser homem, por medo

de ser convencido pelos homens de não ser homem”, nem por isso deixo de ser responsável pelo

insuportável, pela Coisa que me habita.


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BIBLIOGRAFIA

Bion, W. Experiências com grupos. Ed Imago, RJ, e EDUSP, SP, 1975.

Freud, S. (1921) Psicologia de Grupo e Análise do Ego. Volume XVIII das Obras Completas, ESB,

Imago Editora, RJ, 1977.

______ (1929) O Mal-estar na Civilização.Volume XXI das Obras Completas, ESB, Imago

Editora, RJ, 1977.

Guattari, F. Psychanalyse et transversalité. Ed. Maspero, Paris, 1974.

Lacan, J. (1945) O Tempo Lógico e A Asserção de Certeza Antecipada. In Escritos, Jorge Zahar

Editor, RJ, 1998.

______ (1947) A psiquiatria inglesa e a guerra. In Outros escritos. Jorge Zahar Editor, RJ, 2007.

______ (1964) Os Quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Livro XI do seminário. Jorge

Zahar Editor, RJ, 1994.

Laurent, E. Lo real y el grupo. In Cucagna, A (compilador), Ecos y matices em psicoanalisis

aplicado, Ed. Grama, B. Aires, 2005.

Stavrakakis, Y. Lacan and the Political. Ed. Routledge, Londres, 1999.

* Trabalho apresentado no III Encontro Nacional de Pesquisadores em Psicanálise e Filosofia,

realizado na UFRJ e UFF, 2008.