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SEl\IÃNTiêA ESTRUTURAL
A. / . Greimas
SEMÂNTIC~
L

ESTRUTU~L
O problema da signjficação, objeto de estudo da Semântica,
constitui uma das P!'eocupações nucleares das Ciências Hu-
manas. Neste livro; um pesquisador que se vem destacando
'-
por suas contribuições na área da teoria semântica e da aná-
lise da naxrativa oferece ao leitor universitário um panorama
dos problemas e métodos da Semântica Estrutural, focalizando
questões essenciais como condições de uma semântica cien-
tífica, estrutura elementar da significação, ünguagem e djs- .,
curso, organização do universo semântico, descrição da signi-
ficação, modelos atuaci?nrus e de transformação, e outros tó-
picos de igual importância.

- ,e

Semântica estrutural

EDITORA CULTRIX

EDITORA DA UNIVERS

/
----
SEMÂNTICA ESTRUTURAL
A. ]. Greima,s
Ninguitn ignora que o problema da significa-
~ co:nsritui hoje uma das preocupações nu-
deares das Ciências Humanas, de va. que um
faro só pode ser considerado " humano" na me-
dida em que signifique algo. E para abordar
o esrudo da significação, nenhuma ciência está
mc1hor qualificada do que a Lingüística, cm ra-
1.ão do rigor e formalização de seus mécodos.
Todavia, a província da Lingüístics a quem in-
cumbe tal esrudo, a Semântica, é paradoxalmente SEMÂNTICA ESTRUTURAL
a menos desenvolvida das disciplinas lingüístic:as.
Esse atraSO histórico se explica, sobrerudo, pela
complex.idade do seu objeto de estudo, que só
agora começa a ser delimitado e abordado com
espí.riro verdadeiramente cientifico.
Tiustrariva desse csplrito é. esta obra que, cm
tradução dos P rofs. Haquira Osakabe e lzidoro
Blilmcin, a Cultrix ora entrega ao público uni-
versitário brasileiro numa co-edição com a Edi-
tora da Universidade de São Paulo. SEMÂNTICA
EsT1tt.JTUIAL é notávcl tanto pela atualidade do
sai empenho - a aplicação de métodos esuuru-
raís ao estudo da signilicação - quanto pcla
clareza de suas fomrolações, que procuram con-
ciliar o rigor tcrminol6giro exigido pclos lógicos
e l6gicos matemáticos com o amplo s.istema de
referências culturais do estudioso de Ciên~
Humanas. Neste livro, o Prof. A. J. Greimas,
docente da "lkoJe pra.tique des hautes études",
q ue se vem destacando por suas pesquisas na
área da teoria semântica e da análise da narra-
tiva, oferece ao leitor um panorama dos proble-
mas e métodos da semântica estrurural, abordan- J
do questões essenciais como condições de uma
semântica científica, estrutura dementar da signi-
flOlção, linguagem e discurso, organização do
universo scmâncico, descrição da significação, mo-
delos atuacionais e de transfoTmação, e outros
t , picos de igual importância.
Obra p ublicada
com a colaboração da

UNIVERSIDADE DE SÃO PA ULO

Reitor: Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva

EDITORA DA. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Presidente: Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri

Comissão Editorial:

Presidente: Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri (Instituto


de Biociências). Membros: Prof. Dr. Antonio Brito da
Cunha (Instituto de Biociências), Prof. Dr. Carlos da
Silva Lacaz (Faculdade de Medicina), Prof. Dr. Pérsio
de Souza Santos {Escola Politécnica) e Prof. Dr. Roque
Spencer Maciel de Barros (faculdade de Educação)
A. - J. G R E IM AS
( diretor de estudos da ":e.role pratique dcs hsutcs étudcs" de Pt.tú)

SEMANTICA ESTRUTURAL
Pesquisa de Método

Tradução de
HAQUIRA ÜSAKABE
( da Universidade Estadual de Campinas, SP)
e
Izrooao BLIKSI.EIN
de de São Paulo)

EDITORA CULTRIX
,
~ . SÃO PAULO

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


Título do original~

SêMANTIQUE STRUCTURALE - RECHERCHE DE Mm'HODE

© 1966 - Llbrairie Larousse, P aris.

~--~
\_) lNDICE

COND1ÇOES DE UMA SEMANTICA CIENTIFICA


1.• Situação da semântica 11
a) A significação e as ciências humanas 11
b ) Uma parente pobre : a semântica 12
2.• A significação da percepção 11
a ) P rimeira escolha epistcmol6g,ica 15
b) Uma descrição qualitativa 16
e ) P rimeiros conceitos operacionais 17
3.• Conjuntos significantes e llnguas naturais 17
a) Oassificação dos significantes 17
e) Correlação entre significantes e significados 18
e) Significações "naturais" e signifieações artificiais 19
d) Estatuto privilegiado das línguas naturais 19
4.• Niveis hierárquicos da linguagem 21
a) Fechamento do conjunto lingüístico 21
b) Níveis lógicos da significação 22
e) Semântica enquanto linguagem 2J
d) Ní\'Cl epistemológico 24
e) Notação simbólica 26

MCMLXXVI ESTRUTURA ELEMENTAR DA SIGNI FICAÇÃO


1.• Continuidades e descontinuidades 27
2.• Primcita concepção da estrutura 28
Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos 3.• Conjunção e disjunção
com exclusividade pela 29
·4,• Estruturas elementares 29
EDITORA CULTRIX LTDA. .5.• Eixos semânticos 30
Rua Conselheiro Furtado, 648, fone 278-4811, S. P aulo, 6.• A relação 31
q ue se .reserva a propriedade literária desta tradução. 7 .• Articulações sêmicas 32
s.• Modos de articulação sémica
9.• Forma e subsdncia
Impresso no Brasil
Prinled in Braril
38 ") Construção das linguagens em lingüística aplicada 88
10.• SCfnas e lexetnlU
39 b) N íveis de generalidade 90
11 .• Segunda definição da estrutura
12.• Totalidade e partes 39 e) Procedimento descritivo 92

LINGUAGEM E DISCURSO ISOTOPI A DO DISCURSO


1 .• Heterogeneidade do discurso 93
1.• Significação e romunicação 42
a ) I sotopia da mensagem 93
2.• $jstcmas sêmicos 43
b ) Variações das isotopias 94
3 .• SCfnas e lexetn1U 48
49 e) Dimensões dos contextos isotópicos 96
4.• O plano do discurso
5.• Manifestação das relações 53 2.º Funcionamento metalingü[stico do discurso 97
" ) Expansão e definição 97
SIGNIFICAÇA.O MANIFESTADA b ) Condensação e denominação 100
e) Denominação translaúva 103
1.• O semema 51 d) Dupla função dos classcmas 106
a) Unidades de romunicação e unidade de significação 51 e) Análise das denominações figurativas 107
b) O lexema: uma ronstclação cstillstica 58 /) Análise das denominações translativas 109
e) Definição do scmcma 60 g) Análise ddinicional 110
h) Construção dos scmcmas 114
2.• A figura nuclear 62
i ) Isomorfismo das figuras 116
a) Primeiro n úcleo de "tête": extremidade 62
b) Segundo núcleo de "tête": esfericidade 65 3.º Condições para o estabelecimento de isotopia 117
e) N úcleo sêmi.ro comum 66 fl )Dcf.inição oblíqua 117
d) Figuras simples e complexas 67 b ) Conceitos sobre o mundo Ul
e) Em dir~o ao nivd semiológico do conteúdo 68 e) O fechamento do texto 122
68 d) Do tccto individual ao corpus coletivo 125
3.• Os classcmas e) Isotopia e variação U6
") Semas rontcxtuais 68
b ) Lexemas e scmcmas 70 4.
0
O discurso plurfvoco U8
e) Definição dos classcmas 71 ") Manifestação de uma isotopia complexa 128
d) Em direção ao nivd semântico d.a linguagem 72 b) A ambivalência simbólica em literatura 130
e) I sotopias e sua leitura 131
4.• Conceitos instrumentais 73

ORGANIZAÇÃO DO UNIVERSO SEMANTICO


NfVEL SEMIOLóGICO
1.• Universo da significação 136
1.• Now prévias e aproximações 15 fl) Dupla direção epistemológica 136
" ) Autonomia do scmiológico 75 b) Indução e dedução 136
b ) Lexcmaúsmo antropocêntriro 77 e) A consideração cmp{rica do uruvcrso imanente 138
e) O lingüístico e o imaginário 79 d ) Sistemas e morfemas 139
2.• Estatuto do Semiológiro 82 2.• O universo manifestado da significação 141
4 ) O simbólico e o semio16gico 82 t1) Conteúdo 141
b ) O proto-semantismo de P. Gwraud 83 b) A combinatória 143
e) O scmiológico e o bio-anag6gico 86 e) Escolha ~t.égi~ 145
) .• Possibilidades da descrição scmiol6gica 88 d) Abertura do rorpus dos scmcmas 145
-: -

e) Scmcmas abstratos e concretos


1
..
146 b ) Objetivação do. tato 200
/) As incompatibilidades 148 e) Sintaxe clcmenw da deacriçio 202
3.º O discurso 149 d ) A laemática da daaição 20,
11) Lcx.icaliz.ação e gramaticaliz.ação 149 J .• A construção 207
b) ru separações da expr=ão e as identidadc-s do conteúdo 150 11 ) Construção do modelo: redução e estruturação 207
e) A comunicação 152 b) Reduções simples 208
d) Organização das mensagens 154 e ) Reduções complexas 211
d ) O semântico e o estilístico 217
DESCRIÇÃO DA SIGNIFICAÇÃO e ) A estruturação 218
l .º Manifestação e discurso /) H omologação e geração 220
157
g ) ConteúdOs instituídos e .sua organização 222
11) D icotomia do universo manifestado 157
b) I sotooias fundamentais 159
e) A combinat6ria sintática 159 REFLEXOES SOBRE OS MODELOS ATUACIONAIS
d) A afobulação e o "radotage" 162 l.º Dois níveis de descrição 225
2.º A M:i.nifestacão discursiva 163 2 .º Os atuantes em Jingiiísrica 226
a) As bases pnl!tnáticas da or~anizac;ão 163 J .• ús acuantes do como popular russo 228
h) Modos de presença da manifcsttlÇâo d isc1.1rsiva 164 4.º Os amantes do teatro 229
e) Os micro-universos semânticos 11>5 5 .•A categona a ruaciooa1 "Sujeito" vs "Objeto" 2JO
d) Tioo)Oj!ia dos micro-universos 167 6.º A categona uuaoonal "desunador'' vs '·dcstinatátio" 231
t) Predica tos e atuantes 168 7.• A categon.a atuacional " AdJuvantc" vs "Oponente" 233
f) Catcl?orias atu3cionais 170 8.0 Ü IDOOClO l tu.aCÍOn.al mltico 2.35
~) Sintaxe lóióca e sintaXe semântica 172 9 .ºA 10vesuuUD1 1cmátii.:a 2.>6
h) O caráter modal das cate1mrias atuacionais 173 10.º O invesumenw econômico 238
i) Uma epistemologia lin~tica 174 11.º Atuantes e atores 240
Manifest11C'io fimrativa e manifcs(acâo não figurativa _ 12.º O energetismo dos atuantes 242
}.º 176
a) Um excmn!o: a comunicacão poética 13.º O modelo atu.aàonal e a crítica psicanalítica 244
176
h) O imnlícito e o explícito 14.º Os modelos atuacionais psican.alfticos 247
179
e) O não fi2-urativo 180
d) Em d irecão a uma mctalinl?l1aP.Cm cienrifica 182 PESQUISA DOS MODELOS DE TRANSFO~ÇAO
e ) A verificação dos modelos de descrição 183
l.º Redução e cstruru.raçio 251
PROCEDIMENTOS DE DESCRJÇAO a ) Organização das funções 251
b) Inventário das funções 2:52
t.• Constituicio do corpus 185 e) Acasalamento das funções 253
11) Obietivos e procedimentos 185 d ) Contrato 254
b) O corpus 187 e} Prova 256
e) O texto 190 /) Ausência do herói 258
• d ) Eliminação ou extração 191 g) Alienação e reintegração 260
e ) Os inventários 192 b) Provas e suas conseqüências 263
/) I nventários individuais e coletivos 193 i ) Resultados da redução 264
g) Estntos e Durações 195
2.º Interpretações e definições 264
2.º A normalização 200
11) Elementos &crônicos e diacrônicos d.a narrativa 264
•) Homogeneidade da descrição 200 b) O estatuto diacrônico d.a prova 266
e) A força dramática da narrativa 268
d) Duas interpretações da narrativa 269
e ) A significação acrônica da narrativa 270
f) O modelo transformacional 273
g ) A narrativa enquanto mediação 275
J .• O moddo transformacional e o Psicodratrua 277
a ) Do coletiv~ ao individml 277
b) A estrutura compensadora inicial 278
e) O aparecimento da luta 279 CONDIÇÕES DE UMA SEMANTICA CIENTIFICA
d ) O dcscnvolvimenro da prova 280
e) Rcaliza.ção da prova 282
/) O problema do reconhecimento e da recompensa 284
g ) Manifestação figurativa do modelo 286
h) Alcance do modelo transformacional 286 1.0 SITUAÇÃO DA SEMANTICA
AMOSTRA DE DESCRIÇÃO
a) A significação e as ciências humanas.
1.• Prindpios gerais 288
a ) Exemplo escolhido: o universo de Bc.rnanos 288 O problema da significação está bem no centro das preocupa-
b) Constiruição do texto por extração 289 ções atuais. Para transformar o inventário dos comportamentos
e) Es.colha da isotopia 291
em antropologia e as séries de acontecimentos em Hist6ria, não
2.• A existência enquan to meio 293 temos outro meio senão interrogar-nos acerca do sentido das ati-
a ) Formas da manifestação e tipos de análise 293 vidades humanas e o da História.
b) V ida e morte 295
e) O fogo . 297 Parece-nos que o mundo humano se define essencialmente
d ) A água 299 como o mundo da significação. Só pode ser chamado «humano"
e) O modelo constitucional 302 na medida em que significa alguma coisa.
3.• Existência enquanto empenho 303 Dessarte, é na pesquisa a respeito da significação que as
a) As doenças 303
b ) O bestiário 304 ciências humanas podem encontrar seu denominador comum. Com
e) As mentiras 305 efeito, se as ciências da natureza se indagam para saber como são
d ) As mentiras transitivas 307 o homem e o mundo, as ciências do homem, de maneira mais ou
e) Reduções econômicas 308 menos explícita, se interrogam sobre .o que significam um e outro.
/) As mentiras intransitivas 310
g) As verdades 311 Nesse desejo comum de discernir o problema da significação,
4." Comparação e escolha dos modelos 313
a lingüística teve a possibilidade de aparecer como a disciplina
mais bem situada: pois, mais aprimorada, mais formalizada, ela
a ) Ausência de homogeneidade· 313
b) Comparação dos resultados 315 podia oferecer às demais seus métodos e experiências. Assim,
e) Os modelos e os conteúdos 317 na década de cinqüenta, recebeu ela o invejável título de ciência-
d ) O caráter modal do modelo funcional 318 -piloto em meio às outras ciências do homem.
5." Concepçio dialética da existência 321 A condição privilegiada que lhe foi atribuída só poderia criar
a) As modal.idades 321 uma situação paradoxal: houve uma dupla propagação a partir
b ) A dencga.ção bcrnanosiana 323 de um terreno em que praticamente nada acontecia.
e) A asserção bernanosiana 323
d) O algoritmo dialético 325 A primeira é o preço inevitável da glória: a sociologia. a
e ) História e permanência 327 psicanálise a conheceram antes da !ingüística. Com o nome de

11
"banalização", caracteriza-se pela distorção das eslrutur_as meto- esquecimento da semântica é patente e voluntário: é normal DOS
dológicas de uma disciplina e pela neutralização das oposições meios lingüísticos, perguntar-se ainda boje se a semântica ~ssui
fundamen~is eot_re se~s conceitos. Uma terminologia lingüística um objeto homogêneo, se esse objeto se presta a uma análise
empobrecida e distorcida estendeu-se por certas revistas de van- estrutural, em outras palavras, se se tem o direito de considerar
g~ar?a: o lingüista mal poderia reconhecer aí sua própria descen- a semântica como uma disciplina lingüística.
denc1a. A dificuldade de determinar os métodos próprios à semântica
Paralelamente, a lingüística conhece uma propagação meto- e definir as unidades constitutivas de seu objeto é um fato.
dológica inegável. Não se tratava de empréstimos de métodos O inventário restrito de fonemas, seu caráter discreto descoberto
proprian_ie;1te clitos, mas de atitudes epistemológicas, de certas implicitamente DO momento da primeira revolução ~ientilica da
transpos1çoes de modelos e procedimentos de descoberta que fe- humanidade, que se configurou com a elaboração dos primeiros
cundaram a reflexão de um Merleau-Ponty, de um Lévi-Strauss, alfabetos, favoreciam o progresso da fonética e, mais tarde, da·
de um Lacan, de um Barthes. A distância que separ ava esses fonologia. Nada aconteceu de semelhante com a semântica. A
modelos epistemológicos dos domínios em que podiam encontrar definição tradicional de seu objeto, considerado pudicamente como
sua aplicação só pôde agir no sentido de sua particularização. Se "substância psíquica", impede sua nítida delimitação em relação
à psicol~ia e, mais tarde, em ·relação à sociologia. Quanto às
a ~portâ.ncia dos trabalhos daí .oriundos permite às pessoas mais suas unidades constitutivas, a ebulição terminológica - seme-
avisadas falar atualmente da "escola francesa de antropologia", é mas, semiemas, semantemas, etc. - revela somente embaraço e
de !amentar, por isso mesmo, a ausência de um catalisador meto-
dologico. confusão. O lingüista mais bem intencionado só podia, nessas
oca~iões, considerar a semântica como uma ciência que se procura
E~ pape~ _de catalisador era, naturalmente, o da lingüística. a s1 mesma.
~ cunoso vcnf1car q_ue, cercada assim de soli<;itações diversas, O golpe de misericórdia lhe foi dado finalmente pelo triunfo
mostrou-se ela, de maneira geral, mais que re ticente, até mesmo de uma certa concepção da lingüística que se apoiava sobre a
hostil a toda pesquisa semântica. E as razões são múltiplas. psicologia do comportame nto. f: conhecida a famosa definição
do signo lingüístico dada por Bloomfield ( Language) : " uma
b) Semântica. a parente pobre. forma fonética que te m sentido'' (p. 138), "um sentido d o qual
nada se pode saber" ( p. 162). Levando-se em consideração tais
~ preciso reconhecer que a semântica foi sempre a parente atitudes behavioristas, tomou-se comum considerar-se a semântica
pobre ,da . lingüísti~a. _A o:iais nova das disciplinas lingüísticas - como não possuidora de sentido algum. Entretanto, como o
sua propna denommaçao so se forjou em fins do século XIX - foi observa corre tamente Jakobson falando dos que dizem " que as
~l~ precedida, no qua~~ do desenvolvimento da Lingüística histórica, questões de sentido não têm nenhum sentido para eles", quando
m1,c~almeote pela fonet1ca, mais aprimorada, e depois pela gra- dizem "sem sentido", das duas uma : ou sabem o que querem
matica. Embora denominada e instaurada, a semântica procurou dizer, e por isso mesmo a questão de sentido ganha sentido, ou
apenas tomar emprestados seus métodos quer da retórica clássica, não o sabem, e então sua fórmula já não tem absolutame nte sen-
quer da psicologia de introspecção. tido algum" ( Essais - pp. 38-9).
A lingüística estrutural seguiu, no seu desenvolvimento a Esses três motivos: o retardamento histórico dos estudos
mesma -Ordem de prioridade. A Escola de Praga f undamen't ou :.emânticos, as d if_iculdades próprias à definição de seu objeto e
~lid~ente a fonologia; a Escola de Copenhagem , que a seguiu n onda do formalismo - foram determinantes e explicam as re-
uned1atamente, pre':'cupo,u-se com ! elaboração da teoria lingüística, ticências dos lingüistas em relação às pesquisas sobre a signi-
que procurava aplicar a renovaçao dos estudos gramaticais. O Ílcação.

12 13
Tudo isso mostra bem a posição desconfortável daquele que, 2.0 SIGNIFICAÇÃO E PERCEPÇÃO
consciente da urgência dos problemas semânticos, deseja refletir
acerca das condições pelas quais seria possível um estudo cien- a) A primeira escolha epistemológica.
tífico da significação. Tem ele de enfrentar duas espécies de
d ificuldades: umas teóricas, outras práticas. A primeira observação referente à significação só pode tocar
As primeiras provêm das dimensões consideráveis de seu ao seu caráter onipresente e multiforme ao mesmo tempo. Fica-
empreendimento: se é verdade que a semântica deve encontrar mos ingenuamente espantados quando nos pomos a refletir acerca
seu lugar na economia geral da lingüística e aí integrar-se com da situação do homem que, de manhã à noite e da idade p ré-natal
seus postulaâos e o corpo de seus conceitos instrumentais, cum- à morte, é atormentado por significações que o solicitam por toda
pre-lhe ao mesmo tempo ,isar a um caráter de generalidade su- p_arte, por mensagens que o atingem a todo momento e sob todas
ficiente para que seus métodos, que estão para ser elaborados, as formas. Ingênuas - desta vez no sentido não científico da
sejam compatíveis com qualquer outra pesquisa que vise à sig- palavra - parecem as pretensões de certos movimentos literários
nificação. Em outros termos, se a semântica tem por objeto de que desejam fundar uma estética de não-significação: se, numa
estudo as Hnguas naturais, a descrição destas faz parte dessa peça. a presença de duas cadeiras, situadas uma ao lado da outra
ciência mais vasta da significação que é a semiologia, no sentido parece perigosa a Alain Robbe-Grillet, já que mitificante por se~
saussuriano do termo. poder de evocação, esquecemos que a presença de uma só cadeira
funciona como um paradigma lingüístiéo e no caso de ausência,
As segundas são relativas ao destinatário eventual de suas esta pode ser também bastante significante.
reflexões. A necessidade de formalização, a insistência na univo-
cidade dos conceitos utilizados só podem ser expressas, nesse Mas urna semântica que parte desta verificação da onipre-
estágio das pP-.squisas, por uma neologia das denominações e por sença da significaç.fo só pode ser confundida com a teoria do
redundância das definições que se pretendem umas mais rigorosas conhecimento e procurar ou suplantá-la ou submeter-se a uma
que as outras; esse tateamento pré-científico só pode parecer igual- certa epistemologia. Esta situação desconfortável foi bem obser-
mente pedante e supérfluo ao destinatário cujo sistema de refe- vada p or Hjelrnslev que, após tê-la assinalado como destino de
rências culturais é literário ou histórico. Mas parecerá, com jus- qualquer ciência. e não somente da lingüística, aconselhava a acei-
tiça, insuficiente e excessivamente "qualitativo" aos lógicos e aos tarmo-la resignadamente, mas limitando seus eventuais prejuízos.
matemáticos, que constituem um grupo de sustentação e de pressão Os pressupostos epistemológicos devem ser, conseqüentemente
que a lingüística não pode deixar de considerar. Assim, mergu- tão pouco numerosos e tão gerais quanto possh-el. '
lhado entre exigências práticas contraditórias, o autor só pode :f: com conhecimento de causa que nos propomos a considerar
escolher, com o risco de descontentar a todos, o caminho mediador, a percepção como o lugar não lingüístico onde se situa a apreen-
a fim de se fazer compreender por ambos os lados: se lhe parece são da significação. Assim procedendo, ganhamos a vantagem e
evidente que sem o auxílio da lógica matemática, e da lógica sim- o inconveniente de não poder estabelecer, no seu estatuto O parti-
plesmente, a semântica só pode permanecer na contemplação dos cular, uma classe autônoma de significações lingüísticas, suspen-
seus próprios conceitos gerais. do mesmo modo, ele tem consciên- dendo dessarte a distinção entre -a semântica lingüística e a semio-
cia de que uma iniciação semântica que não vise às ciências huma- ~og_ia saussuriana. Embora reconhecendo nossas ·preferências sub-
nas e, em plena reviravolta, as ultrapasse, permanecerá, por muito jetivas pela teoria da percepção tal como foi anteriormente desen-
tempo, como prática de igrejinha.
(*) Optamos por traduzir statut por "estatuto", embora a palavra não tenha
em nossa língua, a mesma ampla gama de acepções que hoje possui em francês'
no1adamemc cm te.nos de lingüísúca e semiótica ( Barthes Mounin Gr"·~~· etc )•
(N dos T.) '· ' ~ ..

14 15
volvida na França por Merleau-Ponty, observaremos, entretanto, sentido e dos "efeitos do sentido" , conciliando tah·ez um dia
que esta atitude epistemológica parece ser também aquela das quantidade e qualidade, homem e natureza.
ciências humanas do século XX em geral: assistimos assim, para
citar apenas o que é particularmente evidente, à substituição da Observação: Notamos que, no exemplo citado por Lévi-
_psicologia da forma e do comportamento pela psicologia das "fa- -Strauss, aos elementos últimos do sistema semiológico cor-
culdades" e da introspeção. Vemos também que a explicação dos respondem os sintagmas dos processos químicos e não os
fatos estéticos se situa atualmente sobretudo no nível da percep- sistemas• químicos.
ção da obra, e não mais no da exploração do gênio ou da ima-
ginação. Tal atitude, conseqüentemente, ainda que provisória, c) Primeiros conceitos operacionais.
parece vantajosa na época histórica atual: é difícil imaginar outros
critérios de pertinência aceitáveis por todos. Para a constituição dos primeiros elementos de uma termino-
logia operacional, designaremos com o nome de significante os
b) Uma descriçã o qualitativa.
elementos ou os grupos de elementos que possibilitam a aparição
da significação ao nível da percepção, e que são reconhecidos,
No entanto, a afirmação de que as significações do mundo nesse exato momento, como e.'\.teriores ao homem. Designaremos
numano se situam no nível da percepção consiste em definir a com o nome de significado a significação ou as significações que
exploração no mundo do senso comum, ou, como se diz, no são recobertas pelo significante e manifestadas graças à sua exis-
mundo sensível. A semântica é reconhecida assim abertamente
como uma tentativa da descrição do mundo das qualidades sen- j tência.
Só é possível reconhecer como significante alguma coisa e
síveis. atribuir-lhe tal nome quando essa coisa significa realmente. A
Tal tomada de posição surpreenderá apenas os que. aceitando existência do significante pressupõe pois a existência do signi-
a atual ascendência dos métodos qualitativos sobre os diferentes ficado. Por outro lado, o significado só é significado porque existe
domínios da lingüística, não se deram conta da estreiteza dos re- um significante que o significa. Em outras palavras, a existência
sultados obtidos cujo erro se atribui não aos procedimentos quan- do significado pressupõe a do significante.
titativos empregados. mas às falhas da conceituação qualificativa Essa pressuposição recíproca é o único conceito lógico não
que tornam inoperantes os procedimentos. Por outro lado. uma definido que nos permite definir reciprocamente, a exemplo de
análise qualitativa cada \·ez mais rigorosa só contribuirá para pre- Hjelmslev, o significante e o significado.
encher o hiato existente atualmente entre as ciências da natureza, Podemos dar, provisoriamente, o nome de con;unto signifi-
consideradas como quantitativas, e as ciências do homem. que cante a essa união do significante · e do significado, observando
apesar das aparências sempre enganosas, permanecem qualitativas. entretanto que a palavra conjunto, contida nesta definição e que
Isto porque um movimento paralelo e inverso parece-nos confi- remete ao conceito de totalidade, permanece, por enquanto, não
gurar-se entre as ciências da natureza. Como observa Lévi-Strauss definida.
no seu Pensée Sauvage (p. 2-0 ): "A química moderna reduz a
variedade dos sabores e perfumes a cinco elementos combinados
de maneira diferente: oxigênio, carbono, hidrogênio. enxofre e 3.° CONJUNTOS SIGNIFICATIVOS E UNGUAS NATURAIS
azoto. Traçando tabelas de presença e ausência, avaliando doses
e limiares, ela chega a dar conta das diferenças e semelhan- a) Classificaçã o d os signilicantgs,
çns entre as qualidades que teria outrora eliminado de seu domí- Pelo fato de serC'm os signifiran~es, segundo essa primeira
nto por serem secundárias." Uma descrição qualitativa promete definição, detectáveis, 1: 0 momento da perccpç-ão, em seu estatuto
pob e tnb<'lecer a ponte sobre a região brumosa do mundo do de não-dependência do mundo humano, são e'.es automaticamente
JO 17
remetidos ao universo natural manifestado ao nível das qualidades nificação, conseqüentemente, independe da natureza do signifi-
sensíveis. Pode-se assim pensar numa primeira classificação dos cante pelo qual se manifesta. Afumar, por exemplo, como ocorre
significantes, segundo a ordem sensorial pela qual se evidenciam. freqüentemente, que a pintura comporta uma significação pictórica
Assim os significantes - e os conjuntos significantes - podem ser: ou que a música possui uma significação musical não tem sentido
algum. A definição de pintura ou música é de ordem do signifi-
- de ordem visual (mímica, gesticulação, escrita, natureza ro- cante e não do significado. As significações que estão eventual-
mântica, artes plásticas, sinais de trânsito, etc.); mente aí contidas são simplesmente humanas. Poderíamos dizer
- de ordem auditiv~ ( llnguas naturais, música,_ etc.); no máximo que o sjgnificante, tomado em seu todo, comporta
- de ordem táctil ( linguagem dos cegos, carícias, etc.); um sentido global "pintura" ou "música".
- etc. ·
Tal classificação, utilizada constantemente, é em geral consi-
derada não-lingüística. Entretanto, a partir daí, podemos notar e) Significações "naturais" e significações "artificiais".
que as qualidades-significantes, que situamos fora do homem,
não devem ser confundidas com as qualidades-significados: de Uma outra distinção consiste em separar os conjuntos signi-
fato, os elementos constitutivos das diferentes ordens sensoriais ficantes naturais, que são nossas línguas articuladas, dos conjuntos
podem, por sua vez, ser captados como significados e instituir o significantes artificiais.
mundo sensível enquanto significação. O critério desta divisão não aparece, entretanto, de maneira
evidente. Parece que é na natureza discreta dos elementos cons-
b) A correlação entre significantes e significados. titutivos do significante que deveríamos procurá-lo: no caso dos
conjuntos significantes. artificiais, os elementos discretos seriam
Não temos o direito de admitir que a essa forma de classi- colocados a priori, enquanto os conjuntos significantes naturais
ficação de significantes corresponda urna divisão paralela de sig- só extrairiam suas unidades discretas constitutivas a posteriori.
nificados. Podemos , ·islumbrar aqui vários tipos de correlação:
Esse critério não é, entretanto, pertinente ao nosso ponto de
1. Os significantes pertencentes a uma mesma ordem sen- vista, o da percepção: a questão de saber se os elementos dos
sorial podem servir para a constituição de conjuntos significantes significantes são discretos ou não, antecedendo à percepção, pro-
autônomos, como as línguas naturais e a música. 1t necessário vém das condições da significação, a cuja análise não podemos
observar que as pesquisas sobre a patologia da linguagem permi- nos permitir. Do nosso estrito ponto de vista, o problema, se
tiram estabelecer que a distinção entre os ruídos ( que constituem existe, deve ser resolvido ao nível da percepção, no quadro de
um conjunto significante de ruídos ), os sons musicais e os sons uma disciplina que se preocuparia com a tipologia dos signifi-
da linguagem é anterior à sua investidura pelos significados. Sub- cantes. Será suficiente servirmo-nos dos únicos critérios que digam
ordens sensoriais comportariam assim significações globais: ''ruí- respeito ou aos significados, ou as suas relações com os significantes.
dos", «música", "linguagem".
Z. Os significantes de natureza sensorial diferente podem
recobrir um significado idêntico, ou pelo menos, equivalente: é d) O estatuto privilegiado das línguas naturais.
o caso da língua oral e a língua escrita.
S. Vários significantes podem interferir num só processo Em comparação com os outros conjuntos significantes, as
global de significação, como a fala e o gesto. ünguas naturais parecem possuir um estatuto privilegiado, pelas
transposições e traduções possíveis.
Nenhuma classificação de significados é possível a partir dos
significantes, qualquer que seja o estatuto desses últimos. A sig- As transposições são de duas espécies:

18 19
1. Uma Üngua natUial, considerada somente como signifi- 4.0 N fVEIS HIERABQUICOS DA LINGUAGEM
cado, pode manifestar-se através de dois ou mais significantes
a) f,Jmitação do conjunto lingüísttco.
pertencen~ a ordens sensoriais distintas. ,O francês, por exemplo,
pode realizar-se sob a forma fônica e gráfica, ao mesmo tempo. O fim a que se propõe a semântica consiste em reunir os
Admite-se geralmente considerar, em tais casos, um dos sig- meios conceituais necessários e suficientes visando à descrição de
nificantes como o ~rimeiro, e, o outro como derivado ou transposto; uma língua natural qualquer - do francês, por exemplo -, consi-
deste ponto de vista, que e o de Jakobson, não compartilham derada como um conjunto significante. ·
Hjelmslev nem Russell. A . ?ifi_culdade prin;ipal ~e. u~a descriçã_o desse tipo provém,
2. Uma linguagem natural, tomada como conjunto signi- como Jª vimos, do carater pnvilegiado das bnguas natu,rais. Uma
f icante, pode ser transposta e realizada numa ordem sensorial dife- descrição da pintura pode ser concebida, de maneira mais geral,
rente. Assim a linguagem onírica é simplesmente a transposição como a tradução da lingua~em pictórica em língua francesa. Mas
da língua natural num.a ordem visual particular ( divisível, por sua a descrição da língua francesa, nessa mesma perspectiva, é apenas
vez, em duas subordens: em cores, ou em branco e preto) [ encon- a tradução do francês para o francês. O objeto de estudo se con-
tramos exemplos comprovadores em Freud]. O mesmo ocorre funde assim com os instrumentos desse estudo: o acusado é ao
com a linguagem cinematográfica. mesmo tempo seu próprio juiz.
No entanto, parece razoável admitir que essas transposições Um exemplo, talvez inadequado, mas bem característico desse
podem possuir - ou adquirir progressivamente - uma autonomia estado de coisas é fornecido pela lexicografia: um dicionário uni-
língüe qualque r é um conjunto fechado, dentro do qual as deno-
relativa ou total. Os esforços da arte cinematográfica da década minações pe rseguem indefinidamente as definições.
de vinte, tendendo à criação de sua própria linguagem, são carac-
terísticos, se pensamos sobretudo na regressão que se produziu t necessária uma tomada de posição: qualquer pesquisa que
mais tarde após a invenção do cinema falado. ~ r~fir~ a um,a língua natural permanece fechada nesse quadro
li:1gu1st1co e so pode atingir a expressões, formulações ou defini-
As traduções se distinguem desse último tipo de transposição çoes apresentadas numa língua natUial.
somente pela direção que tomam: assim, todo conjunto signifi-
cante de natureza diferente daquela da língua natural pode ser O reconhecim~~t~ da limitação do universo semântico implica,
traduzido, com maior ou menor exatidão, numa língua natural ~r _s~ ~ez, a reJe1çao <l_os conceitos lingüísticos que definem a
qualquer: o mesmo ocorre com a pintura e sua tradução pela s1gnif1caçao como a relaçao entre signos e coisas, e notadamente
crítica pictórica. . a r~us-a em aceitar a dimensão suplementar do referente, intro-
dundo _como co~promisso _Pelos semanticistas "realistas" ( Ullmann)
o desnível que se produz entre o conjunto significante inicial na. teona saussunana do signo, ela própria, aliás, sujeita a caução,
e sua tradução interessa não apenas à semântica, mas a toda p01S _representa apenas uma das interpretações possíveis do estru-
d isciplina de significação: a distância que os separa pode ser in- t~ralismo_ de, Sau~re. Isto porque referir-se a coisas para explicar
terpretada como criadora de alienações e valorizações. signos, nao e mais que uma tentativa de transposição, i.mpraticá-
Vemos que as Ünguas naturais ocupam uma situação privile- v~l.. ~as signif~ca~~-, ~ntidas nas línguas naturais a conjuntos
giada por servirem de ponto de partida a transposições e de significantes nao-lingwsticos: empreendimento de caráter onírico
ponlo de chegada de traduções. como se vê. '
T al fato seria suficiente para dar a medida · da complexidade
desse conjunto significante, que é a lmgua natural.

2f) 21
Observação: Uma dificuldade, secundária, decorre do fato da pesquisa semântica, e que deve ser considerado como meta-
de existirem contextos não lingüísticos de comunicação. Diría- lingüístico em relação ao primeiro.
mos que se trata simplesmente de interferências, no próprio
momento da comunicação, de muitos conjuntos significantes: Observação: O termo linguagem, que empregamos com
o fato de a comunicação ser heterogênea às vezes em nada freqüência arriscadamente, é vago e corresponde quer a um
prejudica o estatuto autônomo dos conjuntos significantes· conjunto, quer a um subconjunto significante. Tentaremos re-
que dela participam. servar o termo língua para a designação unicamente dos
conjuntos ou subconjuntos "naturais", qualquer que seja o ní-
vel em que se situem.
b) Níveis lógicos d« significação.
A lógica moderna permitiu a superação, em parte, da dificul- e:) A semântica como linquageni.
dade causada pela impossibilidade de sair do universo lingüístico
fechado, elaborando a teoria da hierarquia das linguagens. Esse novo conceito nos permite agora precisar o conceito de
O conceito de hierarquia assim introduzido deve ser enten- tradução. Quando um crítico fala da pintura ou da música, pelo
dido como a relação da pressuposição lógica e não pode ser defi- próprio fato de que fala, pressupõe ele a existência de um conjunto
nido, como já observamos, com os recursos de que dispomos. significante "pintura", "música". Sua fala constitui pois, em rela-
A relação da pressuposição se estabelece entre dois conteúdos de ção ao que vê ou ouve, uma metalingua. Assim, qualquer que
que nada sabemos, e que podem ser dois conjuntos significantes seja a natureza do significante ou o estatuto hierárquico do con-
( conjunto "crítica pictórica" pressupõe o conjunto de "pintura") junto significante considerado, o estudo de sua significação se
ou dois segmentos significantes quaisquer. Assiro, podemos dizer encontra situado num nível metalingilistico em relação ao conjunto
que os três segmentos, que dispomos hierarquicamente: estudado. Essa diferença de nível é ainda mais visível quando se
trata do estudo de línguas naturais : assim, o alemão ou o inglês
Percebo podem ser estudados nu.ma metalíngua lingüística que utiliza
que digo o francês, e vice-versa.
que faz frio Isso nos permite a formulação de um princípio de dimensão
mais geral: diremos que esta metalíngua transcritiva ou descritiva
são interligados por relações de pressuposições. não apenas serve ao estudo de qualquer conjunto significante,
mas também que ela própria é indiferente à eséolha d a língua
Observação: Não queremos, com este exemplo introduzir natural utilizada.
os problemas, não lingüísticos, dos níveis de realidade ou Podemos ir um pouco além e p érguntar se a interpretação
níveis de consciência, mas simplesmente ilustrar a existência metalingüística da significação está ligada à utilização .das línguas
de tais níveis.
naturais particulares, e ainda, se sua descrição não se pode saLis-
f azer com uma metalinguagem mais ou menos distanciada das
O reconhecimento dos níveis de significação que podem exis-
tir dentro de um só conjunto significante permite-nos situar a línguas naturais.
pesquisa semântica na distinção de dois níveis diferentes: o que Aqui devemos fazer uma distinção, segundo H jelmslev, entre
constitui o objeto de nosso estudo e podemos continuar designan- metalinguagens científicas e metalinguagens não científicas. A me-
do _de acordo ~om a terminologia estabelecida, como a língua- talinguagem não científica é, como a língua-objeto que ela expli-
-ob1eto. e aquele onde serão dispostos os instrumentos lingüísticos cita, "natural": obra coletiva de várias geraçõ~s de críticos de

22
arte, a língua da crítica pictórica, por exemplo, se apresenta como temporais., aspectuais e modais do franc:As. No entanto, ele não
um subconjunto já existente,· integrado no conjunto significante poderá ser utilizado, por razões evidentes, na análise de outras
francês. A metalinguagem científica é construída: o que quer línguas naturais, por exemplo na análise do impedeito alemão.
É apenas na medida em que o corpo de conceitos gramaticais
dizer que todos os termos que a compõem constituem um corpo
coerente de definições. constitui um conjunto axiomático dedutivo que esses conceitos
poderão servir de base a uma .morfologia comparativa ou geral.
Mas a existência de um corpo de definições só pode significar
uma coisa: que a própria metalinguagem foi previamente colocada O exame do valor metodológico da dedução ou da indução
como língua-objeto e estudada num nível hierárquico superior. situa-se já, como se vê, num nível hierarquicamente superior, o
Assim, para que a metalinguagem semântica, a única que nos in- nível lingüístico quaternário. Isso porque o problema proposto
teressa, possa ser considerada como "científica", é necessário que dessa forma é o de duas concepções da verdade: a verdade consi-
os termos que a constituem sejam previamente definidos e coo- derada enquanto coerência interna e a verdade concebida como
&ontados. A definição de uma metalíngua científica coloca como uma adequação à realidade.
condição, e pressupõe, conseqüentemente, a existência de uma Com efeito, se a descrição é a tradução de uma língua-objeto
meta-metalinguagem, ou linguagem terciária; mas percebemos ra- numa linguagem descritiva, essa tradução deve ser adequada,
pidamente que esta somente terá razão de ser se for destinada deve aderir à realidade, que é, para nós, o nível da língua-objeto.
a analisar a metalinguagem já dada. Desse ponto de vista, os métodos indutivos parecem ser válidos.
Vemos agora quais são as condições de uma semântica cien-- Mas pode-se igualmente afirmar que \una descrição indutiva
_tífica: ela só pode ser concebida como a união, pela relação de não ultrapassará jamais os limites de um dado conjunto signifi-
pressuposição recíproca, de duas metalinguagens: uma linguagem cante, não atingirá jamais os limites de uma metodologia geral
descritiva ou translativa, onde as significações contidas na lin- Não é por acaso que a lógica - linguagem cujos postulados se
guagem-objeto poderão ser formuladas, e uma linguagem meto-
situam ao nível quaternário - é decididamente dedutiva.
dológica, que defma os conceitos descritivos e verifique sua
coesão interna. Encontramos assim, no domínio semântico, os mesmos pro-
blemas que se colocam a respeito da adequação entre esses
modelos lingüísticos que chamamos "leis da natureza" e a reali-
d) O nível epistemolÓgico. dade. O desnível teórico, e às vezes prático, entre modelo e
manifestação, existe sempre. A ciência só se pode construir levando
A existência de uma linguagem metodológica, mesmo que em consideração os d ois aspectos metodológicos fundamentais,
autorize o estudo semântico dentro de uma língua dada, não mas subordinando a indução à dedução.
parece ser suficiente para situar a semântica acima das línguas
naturais. Esse nível terciário que constitui a semântica numa meta- Vemos que só o fato de aceitar a discussão da existência e
linguagem científica deve ser construído por dedução e não por a validade das duas premissas ( indução e dedução ) já nos situa no
indução. nível auatemário e coloca, ao mesmo tempo, as condições de uma
Podemos ilustrar esse postulado hjelmsleviano, com o qual semântica geral, capaz de descrever qualquer conjunto significante,
estamos de acordo, aplicando-o à descrição gramatical. Assim, não importando a forma pela qual se apresente, e independente
um conceito morfológico, o imperfeito francês por exemplo, pode da língua natural que possa servir, por razões de comodidade,
ser definido indutivamente, pela análise de suas distribuições. à descrição. Essas condições são inicialmente a própria existên-
O próprio conceito "impedeito" será denominado ao nível da lin- cia do nível quaternário, isto é, da linguagem epistemológic.a, e a
guagem descritiva; quando for lançado na linguagem metodoló- seguir a análise das condições de validade da descrição semântica
gica, sua validade poderá ser verificada dentro das categorias que deve- ser aí situada.

24 25
A semântica científica e, com ela, a descrição semântica, que
é somente a práxis que utiliza a estrutura hierárquica conceituai
constituída pela semântica, só são possíveis se levarem em consi-
deração simultaneamente (visando à análise de uma língua-objeto)
três linguagens, situadas em três níveis de existência lógica difé-
rentes: a linguagem descritiva, a linguagem metodológica e a
linguagem epistemológica.
ESTRUTURA ELEMENTAR DA SIGNIFICAÇAO
e) A notação almbóllca.
Resta-nos uma última observação, de caráter técnico, na ver-
1.° Continuidades e descontinuidades.
dade, mas bastante importante por suas conseqüências práticas:
trata-se da utilização da notação simbólica.
A lingüística tradicional - que aliás nisso se adaptava às
O exemplo dos matemáticos, e também o da lógica simbólica tendências gerais de seu tempo - insistia prazerosamente no
e, mais recentemente ainda, da lingüística, mostra o que se pode caráter contínuo dos fenômenos lingüísticos. Assim, a passagem
ganhar em precisão no raciocínio e em facilidade operatória, se, do a latino de mar para o [E] francês de mer era considerada
dispondo de um corpo de conceitos definido de maneira unívoca, inconsciente, não captável, sem solução de continuidade. Da
abandonamos a língua "natural" para notar esses conceitos simbo- mesma forma, na área geográfica do galo-romano, a passagem de
licamente, por meio de caracteres e cifras. um patoá, de um dialeto a outro, era feita, a pé ou de bicicleta,
Entretanto, para que tal notação possa ser introduzida num com o "sentimento lingüístico" de permanência. A tarefa do
domínio, é necessário que o inventário dos conceitos a serem tra- lingüista histórico consistia em conduzir diferenças a identidades,
duzidos nessa linguagem "simbólica" seja bastante restrito. So- remontando ao nível mais alto possível.
mente mais tarde saberemos se tais inventários reduzidos são 1t nesse contexto que é preciso situar, salientando seu cará-
possíveis: em todo caso, é um dos objetivos a que a semântica ter revolucionário, a afirmação de Saussure de que a língua é
deve propor-se. feita de oposições.
A notação não é pois um procedimento de descoberta em Essa constatação, entretanto, não é clara, e podemos perguntar,
si mesma. Ela não impede que sua utilização num dado domínio conquanto permaneçamos no plano da "realidade", isto é,
traga a prova indireta de que o terreno de pesquisas escolhido da substância fônica e da articulação individual e ocorrencial, se
foi mal preparado. ( Cf. Reichenbach, L' Avenement de la philo- é possível conceber, por exemplo; um fenômeno de maneira
sophie scientifique, pp. 187-195) . diferente de um campo de dispersão comparável ao do tiro de
artilharia; ou ainda, se é poss-ível captar o caráter descontínuo dos
fatos lingüísticos, ou fazer sobre a língua uma afirmação diferente
dos famosos " tudo se liga" ou "tudo está contido em tudo" .
A única forma de focalizar, atualmente, o problema da signi-
ficação consiste em afirmar a existência de descontinuidades, no
plano da percepção, e dos espaços diferenciais ( como o fez Lévi-
Strauss). criadores de significação, sem se preocupar com a na-
tureza das diferenças percebidas.

26
Obae"ação: O conceito de descontinuidade, que não che- 3.° Conjunção e disiunçâo.
gamos a definir, não é próprio da semântica; ele preside
também, por exemplo, ao fundamento da matemática. t Uma dupla constatação se impõe de início a propósito da
portanto uma pressuposição que se deve colocar no inven- relação.
tário epistemológico dos postulados não analisados. 'I . Para que dois termos-objetos possam ser captados juntos,
é preciso que tenham algo em comum ( é o problema da seme-
2.0 Primeira concepÇão da estrutura. lhança e, em suas eitensões, o da identidade ) .
2. Para que dois termos-objetos possam ser distinguidos, é
Percebemos diferenças e, graças a essa percepção, o mundo preciso que sejam diferentes, qualquer que seja a forma ( é o
"toma forma" diante de nós, e para nós. problema da diferença e da não-identidade ) .
Mas que significa verdadeiramente - no plano lingüístico - O problema do contínuo e do descontínuo, como se vê,
a expressão "perceber diferenças"? reaparece, embora de maneira um pouco diferente. De fato, a
relação manifesta agora sua dupla natureza: é ao mesmo tempo
1. Perceber diferenças quer dizer captar ao menos dois ter- dis-iuntiva e con;untiva.
mos-objetos como simultaneamente presentes.
2. Perceber diferenças quer dizer captar a relação entre
os termos, ligá-los de um ou de outro modo. 4.0 As estruturas elementares.

Daí, a primeira definição, aliás u tilizada geralmente, do con- Esse d uplo aspecto da relação pode manifestar-se em todos os
ceito de estrutura: presença de dois termos e da relação entre níveis lingüísticos.
eles.
Decorrem daí imediatamente duas conseqüências: Exemplos:

1. Um só termo-objeto não comporta significação. II) route nationale ( rodovia federal ) vs route départomentale
( rodovia estadual) ,
2. A significação pressupõe a existência da relação: é o apa- pato vs bato;
recimento da relaçãô entre os termos que é a condição necessária
da significação. · í3) ( b) "voisé" vs ( p ) "non voisé", 0
grande vs pequeno.
Qualquer aprofundamento da noção de estrutura exige a
análise dos elementos de sua definição. Portanto, será necessário Os dois primeiros exemplos não· oferecem nenhuma dificul-
considerar sucessivamente a noção de relação e a de termo-ob- dade: cada termo de relação possui. com efeito, dois elementos,
feto. Quanto à expressão presença, não é analisável nesse nível; dos quais o primeiro ( route, a ) conjunta. ao passo que o segundo
pois· implica, com efeito, o modo de existência dos t ermos-objetos ( natíonale vs departamentale; p vs b ) disjunta a estrutura.
na percepção; levaria à in\'estigação acerca da própria natureza Os dois últimos exemplos parecem ser mais delicados por
da percepção. Sua análise, de acordo com o princípio do mínimo sua própria simplicidade. Se a existência da relação entre os
epistemológico, não pertence mais à lingüística. O mesmo ocorre dois termos não pode ser colocada em dúvida, os dois aspectos
com o conceito de simultaneidade, que, livre de seu caráter
temporal, deixaria ainda um resíduo não analisável, próximo dos
(*) Mantivemos "voisé" / "non voisé", oposição fonológica, cujo traço
conceitos epistemológicos de continuidade e identidade. pertinente ,e baseia na presença ou nio de uoz: ou vibraçio de corclu vocllicu;
corresponde, gcncricamcntc, à oposição sonor4 / s1mú. (N. dos T. )

28
da relação - conjuntivo e disjuntivo - não são, no entanto, permitem postular um ponto de vista comum aos dois termos, o
imediatamente visíveis. da au!ência de cor num caso, e o da medida do contínuo no outro.
Designaremos com o nome de estrutura elementar tal tipo Propomos que se chame de eixo semântico esse denominador
de relação. De fato, uma vez que se convencionou que os ter- comum dos dois termos, esse fundo sobre o qual se salienta a
mos--objetos sozinhos não comportam significação, é ao nh·el das a rticulação da signific ação. Vemos que o eixo semântico te m por
estruturas que é necessário procurar as unidades significativas função englobar, totalizar as articulações que lhe são inerentes.
elementares, e não ao nível dos elementos. Estes, que se pode-
riam chamar signos, unidades constitutivas ou monemas, são ape-
nas secllOdários no quadro da pesquisa sobre a significação. A 6.0 A relação.
língua não é um sistema de signos, mas uma reunião - cuja
economia deve ser precisada - de estruturas de significação. Com a condição de poder encontrar - ou im·entar - a cada
vez a denominação conveniente do eixo semântico, podemos con-
5.0 Os eixos semânticos. ceber urna descrição estrutural do tipo relacional, que consistiria
em indicar, de um lado, os dois termos da relação, e de outro, o
A estrutura elementar deve, portanto, ser procurada não ao conteúdo semântico desta. Assim, designando por A e B os ter-
nível da oposiç.io mos-objetos, e por S o conteúdo semâ.ntico, poderíamos exprimir
pato vs bato a estrutura por: c:)8ís4G/C1i
mas ao nível daquela de A / está em relação ( S) com / B
p vs b,
A relação entre A e B já decompõe-se em:
Admite-se c:onsiàerar que esta oposição consiste no carÁte r
"voisé" vs não "voisé" 1. Uma seqüência "está em relação com", que é uma afir-
mação "abstrata" da existência da relação ( r) entre os dois termos.
dos dois fonemas.
2. O conteúdo semântico da relação ( S ), que designamos
Entretanto, se estamos em condições de comparar - e por- anteriormente como eixo semântico.
tanto de distinguir em seguida - p e b, é porque esses dois
fonemas são comparáveis, isto é, porque sua oposição se situa A fórmula pode ser escrita mais simplesmente como:
sobre um só e idêntico eixo, o do voisement. O termo voisement A/ r(S)/~.
é talvez impróprio, já que evidencia apenas a propriedade "voisé"
de um dos termos, detxando de lado o outro. Mas isso pouco Precisemos agora o estatuto lingüístico de cada um dos sím-
importa: sabemos que se trata de uma terminologia metalin- bolos da fórmula.
güística, descritiva, que poderia, em última instância, ser subs-
tituída por uma notação em letras ou símbolos. O importante É claro que os termos-objetos A e B pertencem à língua-objeto,
é a existência de um ponto de vista único, dentro de cuja dimen- no próprio desenvolvimento do discurso, e que são captados no
são se manifesta a oposição, que se apresenta sob a forma de dois ato da percepção. O eixo semântico S é o resultado da descrição
pólos extremos de um mesmo eixo. totalizante que reúne ao mesmo tempo as semelhanças e diferenças
comuns aos termos A e B : S pertence, portanto, à metalinguagem
O mesmo ir~ acontecer no plano semântico, onde as oposições semântica descritiva. Quanto à relação ( r ), foi pressuposta desde
blanc (branco) vs nolr (preto) o início desta interpretação; ( r ) pertence à linguagem metodo-
gra11d (grande ) vs petit (pequeno) lógica e só pode ser analisada ao nível epistemológico.

8() 31
a ~crição fonológica do árabe clássico, com seus 26 fonemas,
7.0 As artlculaçõet aêmlca:a. dar~, _segundo os cálculos de Cantineau, um repertóri o de 325
A partir do momento em que concorda mos em considera r opos1çoes (trata-se aqw de relações opositivas não descritas, mes-
mo sob a forma de eixos). A descrição do árabe dialetal da
metalingüístico o conteúdo da relação - que designam os com a
letra S - podemos imaginar sem receio metodológico a expres- Palestina setentrio nal, que possui 31 fonemas, revela a existência
~m tudo e "I??r tudo, de 9 o~osições binárias. ( Cf. R. J akobson:
são operacion al do eixo semântic o em tantos elemento s de signifi-
cação quantos forem os termos-objetos diferente s implicados na
Mufarxama . The Emphatic Phoneme s in Arabic em Studie1
Presented to Joshuad Whatmou gh, La Haye, pp. 105-115.)
relação, consider ando tais elemento s como propried ades desses
termos.
Para retomar o exemplo já utilizado. o eixo do "voiseme nt" ( S) 8.0 Os modos de articulaç ão sêmica.
pode ser interpret ado como a relação ( r ) entre o elemento "voisé" O problema do modo de existência ( ou do modo de descri-
(s1) e o elemento não "voisé" (s2) . Nesse caso, o termo-ob jeto
ção) das articulações sêmicas é um dos mais controve rtidos da
A ( fonema b) possuirá a propried ade s1 ( voisé) ao passo que o lingüística atual.
termo-objeto B ( fonema p) terá como propried ade o elemento s2
( não voisé). Para os partidári os do binaris~ o (lógico ou operacio nal), como
b ("voisé") r p ( " não voisé") Jakobson e seus discípulos, um eixo semântic o se articula em
dois semas, que se désignam , de uma maneira ambígua , como
o que é apenas um caso particula r da fórmula mais geral:
marcado vs não marcado .
A (si) r B (s2).
Mas, já nesse nh·el, as diferença s de articulaç ão aparecem .
Esta fórmula pode, a partir de agora, ser aplicada à análise Assim, no caso de
de qualquer relação. Assim, a relação entre dois termos-objetos: " voisé" vs não "voisé"
mulher r (sexo) homem tr?ta-se de um sema marcado ( isto é, presente em um dos
pode ser traduzida por polos) que se encontra em relação com o sem a não marcado ( au-
mulher ( feminilid ade) r homem (masculi nidade). sente num outro pólo) :
3 VS -3
Os elemento s de significação ( s., s2) assim extraídos são de- mas esse esquema não se aplica mais à oposição binária
signados por R. Jakobson como traços distintivos e são, para ele, ape-
nas a tradução inglesa, retraduzi da em francês, dos elementos homem ( masc.) vs mulher (feminin o).
diferenciais de Saussure. Por uma questão de simplicid ade termi- po~ basta constatar a ausência do sema "masculi nidade" no termo-
nológica, propomo s chamá-los semas. -objeto mulher: esse termo possui caracteri sticamen te o sema
Vemos, conseqüe ntemente , que uma estrutura elementa r pode "feminili dade". A articulaç ão pode então ser expressa por
ser captada e descrita seja sob a forma de eixo semântico, seja , vs não s.
sob a da articulaç ão sêmica.
~ importan te observar a partir d e agora que a descrição l!: a esses dois tipos de articulaç ão sêmica que R. Jakobson
sêmica é, quanto ao rendimen to prático, muito superior ao in- se atém.
ventário dos eixos semânticos e parece ter preferênc ia sobre esse Entretan to, no caso da oposição
último, segundo _o princípio de simplicid ade formulad o por grande vs pequeno
Hjelmslev. Assim, tomando o próprio e;wemplo de R. Jakobson,
constatamos facilmente a existencia de um terceiro· termo-objeto lização possíveis da significação: a significação imanente e a
que é médio. significacão-manifestação, para dissipar a confusão que é inútil
Na axiomática .das estruturas elementares elaborada por V. manter por mais tempo. A estrutura elementar, considerada e
Br.endal esse fenômeno pode ser interpretado da _seguinte ma- escrita "em si", isto é, fora de todo contexto significante, s6 pode
neíra: os dois se mas polares ser binária, e isso não tanto por razões teóricas não elucidadas,
s vs nãos que é preciso remeter ao nível epistemológico da linguagem, mas
pelo consenso atual dos lingüistas. Ela é articulada em dois semas
que Br.ifndal designa como
s vs nãos
positivo vs negativo
e nos propomos a fixar sua definição designando-a pela expressão
podem aceitar um terceiro sema, que ser~ definidQ como_ não categoria sêmica, que tem duplo emprego, até o presente, com o
sendo nem s nem não s, e que ele chamaria neutro. A articula- eixo semântícó, mas se re\"elará mais precisa logo adiante.
ção será portanto do tipo
Parece-nos eddente, de outro lado, que não se pode racional-
positivo vs neutro vs negativo mente -introduzir nem postular nesse nível a existência do termo
( grande) (médio) (pequeno) neutro de Bn1ndal ou do -s de Jakobson: a não existência de
um sema não é um sema e só pode ser assinalada ao nível da
Em outros casos, o sema intercalado pode -aparecer como significação manifestada, onde a existência de dois contextos sêmi-
sendo s e não s; tomará então o nome de complexo. Assim, no cos idênticos e distintos pode ser in.terpretada pela presença, no
exemplo abaixo, a articulação primeiro contexto, do sema S, e pela ausência, no segundo contexto,
on \"S il vs cela desse mesmo sema S, ausência que podemos designar conven-
cionalmente por - s. Trata-se aqui, conseqüentemente, não mais
pode ser interpretada como
da existência de semas considerados como unidades de significa-
positÍYO \ ºS complexo vs negativo ção construídas a partir de sua leitura relacional, mas da manifes-
(pessoal) (e pessoal ( não pessoal) . taç.ão dos termos sêmicos, que não devem s~r confundidos com
e impessoal) os semas. Uma tabela de correspondências precisará melhor esta
distinção.
Br91ndal considera em seguida dois outros tipos de articula-
ções sêmicas possíveis, notadamente o complexo posifü·o e o com- Termos sêmicos Seu conteúdo sêmico
plexo negativo, caracterizados pelo domínio de um ou de outro positivo s ( presença do sema s)
sema dentro do complexo sêmico. negatiYo não s ( presença do sem a não s)
Essas duas posições teóricas - a de Jakobson e a de Brondal neutro -s ! ausência de s e de não s)
- parecem, à primeira vista, inconciliá,·eis. Su:t contr~diçã~ en;
tretanto é apenas aparente, pois, no fundo, so a art1culaçao e
complexo s + não s ( presença da categoria sêmica S)
complexa na axiomática de Br9$ndal ; o número de semas impli-
cados nesta permanece constante. A estrutura br.iJ'ndaliana é Observação: No caso da manifestação do termo sêmico
também binária, tanto quanto a de Jakobson. complexo, os dois semas presentes podem encontrar-se, se-
gundo Br0ndal seja em equilíbrio, seja um em relação de
Somos obrigados agora a introduzir aqui, por antecipação, a d-ominância sobre o outro. Retornaremos a esse ponto mais
distinção entre dois tipos diferentes de captação e conceitua- tarde.

34 35
Pode-se. da mesma forma, tentar precisar a . distin~o en~e
categorias sêmicas e articulações sêmicas, não mais ª? _!llVel ep1s- Estas articula ~s sêmicas diferentes - que caracterizam, é
temológico, mas ao nível de procedimentos d~ descnçao,:. a des- claro, não somente o espectro das cores, mas um grande número
crição de uma articulação sêmica é comparavel à_ análise das de eixos semânticos - são apenas categorizações diferentes do
distribuições que procuraria assinalar os termos sêaucos ,n:'s co_n- mundo, que definem, em sua especificidade, culturas e civilizações.
textos sêmicos comparáveis. Mas como n? caso da a~e dis- Por isso mesmo, não é de espantar que Hjelmslev tenha reservado
tribucional, essa pesquisa de termos sêaucos pressupoe o que a essas articul a~ o nome de forma do conteúdo e tenha desig-
se procura: a não existência do sema ( -s) só pode_ ser reco- nado os eixos semânticos que as totalizam como substdnci a do
conteúdo .
nhecida se se propôs inicialmente o sema s como existente; da
mesma forma, o reconhecimento de ~ te~o _<;<>mo ~mplexo Essa última noção - a subst!nc ia do conteúdo - exige maior
pressupõe o conhecimento da categona sêrruca Jª analisa~ em precisão. Entenderemos - como já insistimos ao fa]ar do eixo
semas disjuntos pois de outro modo o termo complexo nao se semântico - que a substância só pode ser proximizada e captada
distinguiria em 'nada de 1;11Il ~ma s_imp}es qualq_uer. ! sso quer com a ajuda de uma lexicalização, a qual se situa necessariamente
dizer que a categoria sêmica e antenor a ~a ~culaça ~ e que, dentro do universo significante. A substância do conteúdo não
se a descrição parte da análise das articulaçoes sêi:mca~, ?la deve, pois, ser considerada como uma realidade extralingüística,
apenas confirma ou infirma. a existência da cate~o;1a sem1ca psíquica ou Üsica, mas como a manifestação lingüística do con-
postulada a priori. A d~scrição semântica, como diztamos, é a teúdo, situada num nível diferente do ~ forma.
construção de uma metalinguagem.
A oposição da forma e da substância se acha, assim, inteira-
mente situada dentro da análise do conteúdo; ela não é a oposi-
9.° Forma e substânc ia. ção do signilicante (forma) e do significado (conteúd o), como
uma longa tradição do século XIX pretendia faze r-nos admitir.
Esta análise da relação, considera da t~to ~orno eixo -~~m~ - A forma é tão significante quanto a substância, e é de espantar
tico quanto em sua articulação em semas, 1mphca consequenc1as
que essa formulação de Hjelmslev não tenha encontrado até o
que ultrapassam de longe o cuidado em definir a estrutura. momento receptividade merecida.
Para demonstrá-lo, tomemos o exemplo de Hjelmslev (Pro- Conseqüentemente, podemos dizer que as articulações sêmicas
legomena , p. 33), que se tomou clássico: o do e~ctro de cores:
de uma língua constituem sua forma, ao passo que o conjunto de
esse eixo semântico - pois se trata exatamente disso - possu1
eixos semânticos traduzem sua substância. Por isso, a descrição
uma gr:mde generalid ade:. ,pode-se a~i~a~ qu~ se encon~ ~ .e~ de qualquer conjunto significante postulado dentro de uma análise
todas as Hnguas naturais, Ja que é dif1cil imag~nar ~a c1v1l_12a
ção acromáti ca A comparação das duas articulaçoes sêm~cas pode ser conduzida em dois planos diferentes - o plano sêmico
desse eixo - inglesa e galesa - é representada pela segumte ou formal e o plano semântico ou substancial - e chegar a
resultados diferentes.
tab~la:
gwyrdd Não há necessidade de acrescentar que forma e substância
green 1--- - - são apenas dois conceitos operacionais que dependem do nível de
análise escolhido: o que será denominado substância num certo
blue glas nível poderá ser analisado como forma num nível diferente.
gray llwyd
Observa ção: l!: aqui que se justifica a introdução do termo
brown "categoria sêmica", aplicado a um eixo semântico de um
tipo particular, aquele que constitui a estnrtura como uni-

87
Não nos resta senão dar ao termo-objeto o nome de lexema.
dade mínima de significação. Continuaremos a empregar o Este pertence à língua-objeto e se realiza no discurso. t;: conse-
termo "eixo semântico" no seu sentido operacional de uni- qüentemente a unidade lingüística de outra ordem e não deve ser
dade de substância do conteúdo articulada em estrutura. incluído na definição da estrutura elementar.

10.0 0& semas e os lexemas. 11.0 Segunda definição da estrutura.


Após o exame d a relação que se identifica em último caso
com o próprio conceito de estrutura, devemos tentar agora a Essa delimitação dos termos-objetos (lexemas) d a definição
determinação do papel que pode ser atribuído, na economia desse da estrutura exige uma reformulação desta. Levando-se em con-
conceito, aos termos-objetos, cuja existência e relação já postula- sideração nossa discussão anterior, podemos dizer que a estruturà
mos ao nível da percepção. é o modo de existência da significação; caracterizada pela presença
Já vimos que uma rela~o pode ser anaHs_ada e m semas, que da relação articulada entre dois semas. As categorias sêmicas,
propusemos fossem considerados como propnedades de termos- como vimos, são imanentes à língua-objeto, mas podem ser for-
-objetos. O problema é, pois, saber qual o sentido que se deve muladas fora dela.
atribuir à expressão Esta definição pode surpreender à. primeira vista; entretanto,
s ( é a propriedade de) A embora não esteja longe de nosso modo de operar, ela se distancia
- -- ---,,.........:-=- :-- muito de nosso modo de pensar. Quando dizemos, por exemplo,
(feminilidade) (mulher ) que o francês possui três modos: o imperativo, o indicativo e o
B. Russe~ analisando os nomes próprios, assinala com razão subjuntivo, constatamos simp1esmente que o eixo modal do fran-
que "o senso comum considera uma coisa como possuidora de cês, expresso por dois semas s e não s, é articulado d a seguinte
quaHdades, mas não como definida por elas" ( Significalion et véri~é, forma:
p. 113). Nessa concepção, a coisa é independente de suas pro~~e- imperativo indicativo subjuntivo
dades; é a coisa em si, e incognoscível como tal: nenhuma análise VS . VS
de suas propriedades chegará a esgotar sua essência. $ nem s nem nãos
A intenção de descrever as substância.e; ( no sentido não lin- nãos
güístico desse termo) só pode tomar impossível o conhecimento.
Com efeito, como o observa B. Russell ( ibid, .p. 112) "se isto Tal categoria sêmica é imanente à língua _&ancesa: cada sema
é vermelho é uma proposição que atribui uma qualidade a uma é realizado dentro de numerosos lexemas.
substância, e se uma substância não se define pela soma de seus
predicados, é, portanto, possível que isto _e aq_ui!o :enl,1,am exa!a- Observação: t preciso observar que não temos nenhuma
mente os mesmos predicados, sem que seJam 1denticos . O pnn- responsabilidade sobre essa interpretação da categoria do
cípio de identidade seria dessa forma recolocado em questão. modo em francês.
T udo isso apenas confirma nossa recusa em relação a uma
semântica que tenha a pretensão de descrever a "substância
psíquica". Somos assim forçados a permanecer no plano fenome- 12.0 A totalidade e as partes.
nológico, isto é, lingüístico, e postular com Russell que as quali-
dades definem as coisas, isto é, que o sema s é um dos elementos Tal concepção de estrutura não nos parece ainda inteiramente
constitutivos do termo-objeto "A, e que este, ao final de uma aná- satisfatória. Já tivemos oportunidade de insistir no fato de que o
lise exaustiva, se define como a coleção de semas s1, Sz, ss etc.

88
eixo semântico reúne, de certo modo, os elementos sêmicos que
analiticamente daí extraímos. I sso quer dizer que em relação mesma categoria, poderá ser. chamada hipot6tica ( e, even-
tualmente, hiperotática ).
à totalidade, que é uma categoria sêmica, os semas podem ser
considerados como suas partes. Parece, conseqüentemente, indis- Acreditamos que tal conceitualização mínima permite
pensável integrar essa relação, que vai da t otalidade estrutural economizar a notação de metonímia, difícil de ser reduzida
às suas unidades constitutivas, na própria definição da. estrutura. à unívocidade.
Uma atitude bastante paradoxal pode ser constatada, quanto
a esse tipo de relação, entre os lingüistas contemporâneos. Assim,
Hjelrnslev, por exemplo, integra a relação do todo com · as partes
na sua defirução de estrutura ( Prolegomena, pp. 20, 21 ), sem que
possamos ver no entanto o lugar que lhe é reservado na economia
de sua teoria lingüística. Um gramático que tentasse, como P.
Imbs, introduzir o conceito de totalidade em sua análise correria
o risco, errada ou corretamente, de suspeição de veleidades de
organicismo: certas disciplinas humanistas, efetivamente, abusa-
ram tanto do termo totalidade, considerado como conceito expli-
cativo de valor universal, que seu caráter m itificante se tornou
evidente.
Para evitar essa espécie de mal-entendido e ao mesmo tempo
economizar instrumentos conceituais, propomos que se restrinja,
tanto quanto possíve~ essa defirução e se considere a relação entre
o sema e a categoria sêmica, à qual pertence o sema, apenas do
ponto de vista da pressuposição lógica. Diremos que ao lado da
relação antommica ( disjunção e conjunção) entre os semas de
uma mesma categoria de estrutura elementar, a significação se
define, ainda, pela relação hiponímica entre cada um dos semas
tomados individualmente e a categoria sêmica inteira.

Observação: A utilização operacional desta relação pode


exigir a introdução do conceito de orientação: assim, par-
tindo do sema, a relação pode ser designada como hipo-
nímica; partindo da categoria, poderá ser útil designá-la
como hiperonfmica.

Notaremos, a partir de agora, que é preciso reservar o


termo hiponfmia à relação situada dentro qa estrutura ele-
mentar: a mesma relação, considerada em si, isto é, enquanto
ligada a elementos sêmicos não pertencentes a uma só e

40
41
verá visar ao estabelecimento da exist~ncia de femas para o sig-
nificante, e de semas para o significado, unidades mínimas dos
dois planos da linguagem.
2. O sentido evidenciado pelas oposições fonolÓgicas cons-
titutivas dentro de unidades mais longas é simplesmente um sen-
tido negativo, uma possibilidade de sentido. Expliquemo-nos : se
a oposição bas vs pas atribui a bas uma aparência de sentido,
LINGUAGEM E DISCURSO não se pode dizer que, quando do processo de comunicação,
onde se situam todas as escolhas entre o que será manifestado
e o que permanecerá subentendido, a escolha de bas, e~etuad~
pelo locutor ( Le ciel est bas. Le plafond est bas ) ( O ceu esta
1.0 SIGNIFICAÇÃO E COMUNICAÇÃO coberto. O forro é baixo) faz-se, necessariamente, pela presença
limitativa do lexema pas ou será relacionada a ele. Entretanto,
a manifestação de bas deixará na penumbra haut (alto) e não
As estruturas da si nificação, como acabamos de definir, mani- pas. Isso já mostra com que prudência é preciso manipular os
festam-se isto e, o erecem-se a nos quan o o processo per- conceitos emprestados de disciplinas paralelas à lingüística, como
cepção) na comunicação. Esta, com efeito, reúne as condições a teoria da informação, por exemplo, mas que tratam apenas dos
de sua manifestação, pois é no ato de comunicação, no aconte- dados pertinentes de um significante transcodificado a partir de
cimento-comunicação, que o significado encontra o signüicante. uma língua natural, e que, por isso, podem colocar entre parên-
Esta ·unção do si nificante e significado - ou do lano teses os problemas primeiros da significação. (Pensemos, por
da e ressao e ano o conteu o, se a otarmos a temuno~~a exemplo, na correlação significativa que se quer estabelecer entre
inamar uesa - az a arecer as um a es mm unas o iscurso: a extensão das palavras e a quantidade de informação.)
o fonema e o exema. Na ma · estação e as aixo que sus- A junção do significado e do significante, uma vez realizada na
tenta a existência não manifesta de pas (passo), realiza-se a dupla comunicéiçãb, é; pois, destinada a ser dissolvida a partir do mo-
pressuposição do significante e do significado: para que b possa méntd em que 'se quer progredir, por pouco que seja, na análise
ser reconhecido como unidade discreta do significante, é necessário de um ou oútrô plano da linguagem. O que é necessário reter é
que sua oposição a p no contexto bas vs pas seja reconhecida a possibilidade e a necessidade de u ar o s1 · ica o ara o
como criadora de uma diferença de sentido; mas, para que bas estu o 1cante e o si n· icante ara o estu o o signi-
seja reconhecido como tendo um sentido, é preciso que haja fica o. a ·as, o p ape que atri mmos aos termos-objetos.
anteriormente a oposição b vs p.
Entretanto, essa constatação - segundo a qual a análise do
significante é impossível sem referência ao significado, e vice-
-versa· - não deve ser a ultima ratio de sua aproximação. Duas Conseqüentemente, entenderemos que o sentido do lexema
outras observações devem ser formuladas e retidas nesse momento: bas não surge de sua oposição com pas tal como se realiza durante
1. t preciso inicialmente constatar a ausência de iso~ orfia a comunicação, e 'q ue bas vs pas é uma estrutura discriminatória e
entre os dois planos, do significante e do significado; as urudades não uma estrutura de significação.
de comunicação dos dois planos não são eqüidimensionais. Não Resta-nos então perguntar:
é um fonema que corresponde a um lexema, mas sim . uma com-
binação de fonemas. A análise d os dois planos deve, pois, ser 1. Como se articulam. em conjuntos mais vastos, as estru-
conduzida, embora pelos mesmos métodos, separadamente, e de- turas elementares da significação anteriormente estudadas.

43
1
' coisa: não só eles não se prestam à extrapolação, como não são
2. Qual é o estatuto dessas estruturas quanto ao plano da nem sequer necessariamente" verdadeiros no domínio restrito que
manifestação de sem as onde estes se realizam em lexemas e recobrem.
combinações de lexemas, constituindo por esse fato o que chama-
mos geralmente o discurso. Isso ocorrerá na démonstração abaixo, que parte da oposição
significativa existente entre bas e haut. Para simplificá-la, incluire-
Vemos inicialmente que, longe de se opor a pas, bas se opõe mos inicialmente em nossas considerações a articulação propria-
ao contrário a haut: a separação diferencial entre bas e haut mente dêitica, tal como se manifesta, por exemplo, na substan-
existe certamente sobre o plano do significante, mas não é redu:. tivação da oposição:
tível às oposições fonológicas, como no caso de bas vs pas.
"le haut'' ( o alto) vs "le bas" ( o baixo ).
E isso acontecerá sempre: o regis~o das separações diferen-
ciais ao nível da expressão, por mais seguro e exaustivo que seja, No seu aspecto adjetival, a oposição entre haut e bas parece
não constituirá jamais senão um sistema de exclusões e não · trará poder interpretar-se com o auxílio da categoria da "quantidade re-
nunca a menor indicação sobre a significação. Em outras pala- lativa" que se articula em dois ~ : "grande quantidade" vs "pe·
vras. as se arações de si nifica - o não se deduzem a partir das quena quantidade", constituindó o quadro do julgamento feito pelo
se ara ões e si n icante; e a escrição semantica rovem e locutor, em relação a uma nonna ideal, sobre conteúdos sêmicos
uma ativi a e meta · gwstica situa a num outro ruve e o e e- variados. Assim, a mesma categoria é os mesmos termos sêmicos
cendo às ]eis de articulação estrutural da si nifica ão, que apare- se encontram manifestados nos pares lexemáticos tais como:
cem como constitutivas e uma esp ie e logica lingüística ima-
nente. A superioridade desta lógica em relação a qualquer outra "lcng" (longo ) vs "court" (curto)
lógica possn-el consiste apenas na possibilidade de verificação, "large" (largo) vs "étroit" (estreito), etc.
isto é, do ato de correlacionar o sistema de significações positivas,
construído pelo descrevente, com o sistema de exclusões consti- Comf ~ nossa intenção aqui Wr~er ~a análise sêmica
tuído através do registro de separação do significante. da categoria da "quantidade relativa", podemos colocar entre pa-
rênteses esta oposição utilizando o único lexema que comporta o
VISto isso, é natural que os exemplos que vamos introduzir sema "grande quantidade" para designar os dois termos opostos.
para üustrar nossa reflexão pecarão todos por seu caráter arbi-
trário., pela ausência de proce~entos de verificação. As objeções Depois dessa "suspensão", toma-se mais simples interrogar-nos
que se podem esperar nesse domínio serão, pois, freqüentemente sobre a significação do eixo bastante geral que c~mporta as oposi-
legítimas. Entretanto, tendo tomado como empreendimento a ções: t.Gh_~~ - -- - - -
reflexão acerca das possibilidades da descrição semântica, encon- haut ( alto) vs long (longo) vs large (largo) vs vaste
tramo-nos diante de uma escolha: seria necessário ou concen- (vasto ) vs épais (espesso)
trar-nos nos procedimentos da descrição da significação com o
risco de negligenciar os procedimentos de verificação, ou então Dando a esse eixo o nome de "'espacialidade", percebemos que
procurarmos transpor os métodos de registro das oposições fono- uma primeira divisão dicotômica permite distinguir nele dois as-
lógicas, de análise distribucional, para aplicá-los ao domínio semân- pectos, tais como se manifestam em francês pela oposição lexica-
tico, arriscando-nos, ao mesmo tempo, a esquecer no trabalho, o lizada de espace (espaço) vs étendue ( exte.nsão) e que podemos
essencial, isto é, as condições epistemológicas gerais de uma axio- designar como
mática e de uma conceitualização mínimas, que fundamentem e
justifiquem a pr6pria descrição semântica. dimensionalidade não dimensionalidade
VS
Assim, queremos insistir no seguinte: os exemplos escolhidos, ( haut vs long vs large) ( vaste vs épais)
assim o foram pàra ilustrar a reflexão e não para provar alguma
45
44
Para simplificar uma vez mais nosso exemplo, deixemos aqui esboçada) o que _poderíamos chamar de "sistema sbnico da espa-
a análise da "não dimensionalidade". O sema "dimensionalidade" cialidade". ·
pode, por sua vez, ser considerado como um eixo semântico que Como se obteve esse sistema?
provoca sempre o aparecimento de uma nova articulação em
1 . Se nos interrogamos sobre os passos do pensamento que
verticalldade h orizontalidade permitiram seu estabelecimento, devemos reconhecer que eles
VS
(haut) ( long vs large) pressupõem uma hipÓtese, mais ou menos consciente, concernente
à "maneira de ser" da concepção de espaço no conjunto signifi-
O sema "horizontalidade", considerado como eixo, se articula cante que é a língua francesa. A existência a priori da hipótese
em novos semas~ que podemos designar como ingênua caracteriza qualquer pesquisa cientffica: a objeção de
que ela introduz um elemento subjetivo na descrição não é,
perspectividade lateralidade portanto, em princípio, válida.
vs
(long) (large) 2 . A segunda etapa metodológica consiste em proceder a
uma articulação categórica, levando em conta as separações dife-
Observação: Não podemos nos permitir uma longa digres- renciais do significante. Sem pretender explicitar completamente
são - entre tantas outras possíveis e até necessárias - para aqui os procedimentos de verificação, devemos, entretanto, subli-
mostrar ( o que cremos possível) que extensão, enquanto nhar o fato evidente - considerado freqüentemente como negli-
dimensão, se situa, pelo menos em francês, "em perspectiva", genciável - segundo o qual as oposições lexemáticas de
tendo como ponto de partida o locutor. haut vs vaste vs épais

Todas essas articulações podem ser compreendidas num quadro são opos1çoes manifestadas 'V\O nível do significante, e que é a
existência das separações do significante que permite postular,
de conJunto: em primeiro lugar, a existência das oposições sêmicas do gênero:
espacialidade
dimensionalidade vs superfície vs volume.
1
dimensionalidade não dimensio- Observação: Knud Togeby ( em Calúefs de Lexicologie,
nalidade VI) traz um certo número de indicações concernentes ao
1 comportamento particular, no discurso, d os lexemas espa-
1 1 ciais tratados aqui e mostra em que direção os procedi-
horizonta- verticalidade superfície volume
lidade (haut/bas) ( vaste/x ) ( épais/mince) mentos de verificação deveriam ser elaborados. · ~ claro que
subscrevemos inteiramente o _$CU ponto de vista.
1
perspec- 3 . Devemos igualmente insistir no fato de que o resul-
lateralidade
tividade tado obtido é uma descrição semântica, isto é, metalingüística:
( long/ court) ( large/ étroit) nenhum ~ ou categoria sêmica, mesmo que sua denominação
tenha sido tomada emprestada da língua francesa, é, em princípio,
Esse esquema representa ( de maneira muito incompleta, visto idêntica a um lexema manifestado no discurso.
que a análise da "não dimensionalidade" não está nem seque.-

47
Obeervaç:ãos Constatamos, desde o Inicio, a existência da
categoria sêmica da "quantidade relativa", que interfere no 2. Por outro lado, os sels primeiros lexemas são c-aracteriza-
sistema descrito sem fazer _parte dele. i;: necessário retor- dos, pela presença comum do sema "dimensionalidade... A pre-
narmos mais tarde a e~ problema de interferência. sença comum desse sema estabelece conseqüentemente uma rela-
ção de conjunção entre os lexemas, o que, por sua vez. possibilita
as disjunÇÔes ulteriores.
3.0 SEMAS E LEXEMAS Essas observações permitem uma melhor compreensão do
fenômeno de suspensão sémica, freqüente no funcionamento do 1: ,
A fim de e"1>licitar mais a relação existente entre o sistema discurso. Assim, a existência de semas conjuntivos:
sêmico e a manifestação lexemática de seus elementos, pÕdemos pequena quantidade + e:5Pacialidade + dimensionalidade
servir-nos de uma disposição grMica dos dados, como no quadro
permite a suspensão da oposição sêmica ''\·erticalidade" · vs ''hori-
ª~ ~eA.C111,rru
; •C,Q...,
li
·- zontalidade" em
court sur pattes -:f:. haut de taille

~
cspacia- dimcnsio- vertica- boriron- pcrs-pcc- latcra- ( de patas curtas) ( de tamanho grande)
lidadc nal.idadc tidade talidade tividadc tidade
3. Se, em vez de analisar o quadro com aproximações verticais,
haut + + + - - - compararmos as relações que podem existir entre os semas sobre
bas + + + ·- - - a linha horizontal, constatamos que um lexema qualquer se apre-
long + + - + + -- senta como uma coleção sêmica - fato já notado anteriormente.
court + + - + + No entanto, seguindo o quadro da esquerda para a direita, perce-
large + + - + - + bemos que essa coleção sêmica, que é o lexema, se interpreta como
itroit + + - + - + uma série de relações hiperonímicas, isto é, que vai das totalidades
às partes, ao passo que, lendo-se os semas da direita para a
{ vaste + - esquerda, podemos dizer que as relações entre semas são biponí-
ipais ~ + - mic-as, inda das partes às totalidades.
4' ., > .. Duas podem ser as conseqüências dessa constatação:
~ )VfOrvmv.co.,
Esse quadro sugere as seguintes observações: a - de um lado, o lexema não nos aparece mais como uma
simples coleção sêmica, mas como um conjunto de seJllas ligados
1. Cada lexema da lista é, como se v~, caracterizado pela entre si por relações hierárquicas;· \ G.f.· .p· 5;2.-riW,'l.fOW'e,,riG\,/
presença de certo número de semas e pela ausência de outros.
Essa ausência deve ser interpretada como a manifestação da exis- b - de outro lado, o mesmo tipo de relações entre semas
registradas no interior do lexema pode igualmente existir entre
tência de , uma oposição sêmica que disjunta, a partir de uma
os lexemas no interior de unidades mais largas do discurso. Assim,
base sêmica comum, o lexema dado dos outros lexemas possuido- numa seqüência de discurso como "dimensão vertical", a relação
res desse sema. Assim, os lexemas haut (alto ) bas (baixo ) são entre o lexema "dimensão" e o lexema "vertical" é uma relação
caracterizados pela presença do sema "verticalidade" que se opõe hiperonímica.
à ausência desse sema nos lexemas long (comprido)/court (curto ).
large (largo) / étroit (estreito), caracterizados pelo sema "horizon- 4.º O PLANO DO DISCURSO
talidade". As o)esições sêmicas operam, conseqüentemente, dis-
As con,iderações precedentes visaram sobretudo a uma melhor
junç6es entre os exemas. compreensão do "modo de existência" das estruturas de significa-
48
ção. Mas começamos, no entanto, a colocar a questão do "modo refletem muito bem a organização d os sistemas sêmicos. Entre-
de presença" dessas estruturas n o próprio ato da comunicação. tanto, mesmo em casos tão simples, sentimo-nos já constrangidos
pel~ presença de elementos heterogêneos, como essa apreciação
quantitativa que se acrescenta. à articulação da espacialidade.
Dois sistemas sêmicos, o da espacialidade e o da quantidade, inter-
ferem e se encontram no interior dos mesmos lexemas.
Tal situação, longe de ser excepcional, é, ao contrário, a ma-
neira normal de ser dos lexemas.
D ois exemplos precisarão melhor certos aspectos da organi·
zação sêmica dos lexemas. O primeiro tomado a B. Pottier ( Re-
cherches sur l' Analyse Sémantique en Linguistique et en Traduc-
tion Mécanique), que tenta circunscrever o problema da descrição
semfuJtica, propondo - de maneira paralela à nossa - uma
análise sêmica dos lexemas. Assim, o lexema fauteuil (poltrona)
pode ser escrito, segundo ele, da seguinte maneira:
r "com encosto" ( vs tabouret - banqueta)
fau teuil ~ "com braços" ( vs chaise - cadeira )
l "para sentar-se" ( vs buffet - aparador), etc.

Sem estar inteiramente de acordo com ele ( e notadamente


pelo fato de que "com encosto", "com braços", "para sentar-se"
possam ser considerados como semas, isto é, como unidades míni-
mas), podemos tomar o exemplo de B. Pottier como caracterís-
tico, nem que fosse apenas pelo fato de evidenciar a convergência
de dois sistemas sêmicos heterogêneos: um sistema espaço-visual
e um campo de significação não d~terminada, que seria o da
"funcionalidade", cujos elementos sêmicos engendram juntos o
mesmo lexema f auteuil.
O segundo exemplo é tirado da morfologia do francês. O
morfolexema que é o artigo la é geralmente considerado como
o sincretismo de várias categorias morfológicas, e se decompõe,
Essas considerações, banais ao fim das contas, vão-nos permitir por isso, nos seguintes morfo-semas:
situar melhor o problema da manifestação das significações no
discurso, e, inicialmente , a organização interna do lexema. singular + feminino + definido.
Os exemplos anteriores só refletem de maneira muito imper- Tais semas, por sua vez, não são senão termos de categorias
feita a composição sêrnica dos lexemas: haut/ bas, long/ court etc., sêmicas tradicionalmente denominadas:
enquanto lexemas, constituem casos privilegiados; eles se acham
muito próximos, por assim dizer, das estruturas de significação: número + gênero + determinação.
5() 51
.f q

f A an,IJise do morlolexema les obriga o gramático a constatar


lexema
- paralexema
- sintagma

~
que este não comporta mais que os semas do "número" e da "de- (abricot - "da- (pomme de terre (pain ele seigle
terminação", ao passo que o sema do "gênero" está ausente da masco») ~'batata") "pão de centeio,,)
- manifestação. Formulando de maneira um pouco diferente esta
~ observação, odemos i ualmente dizer ue, nesse caso reciso e apresentam graus diferentes de amálgama devido às condi~es his-
S limitado, a presença do "gênero" pressupõe a presença o "núm~- tóricas diferentes de seu funcionamento, mas que essas unidades, e
1 ro" e da "determmaçao" mas ue o contrário não é verdadeiro. sobretudo as relações que podem existir entre os semas dentro
<:r-> dessas unidades são, do único ponto de vista que nos interessa ( o
...:r Po t-mos e uzir a: que existem, entro e um exema, re a-
li. ções hiedrguicas entre os semas pertencentes a sistemas sêmicos semântico) de natureza idêntica, e podem ser tratados segundo os
rJ- heterogêneos. .mesmos procedimentos.
Tais exemplos permitem complementar as observações ante- Mas, a partir daí, coloca-se uma nova questão. As relações.
riores e tentar uma nova definição, um pouco mais precisa, do existentes entre os semas dentro de um lexema não são manifest
lexema: o lexema é o lugar de manifesta - o e de encontro d~ erentemente senão a exist ncia e uma ca a lexemática única.
5<tmas provementes sempre e categorias e e sistemas sêmicos Diremos, então, que sua mani estação é sincr~tica. Em compen-
diferentes e que entretêm, entre si rela ões bierár uicas isto é sação. no caso de paralexemas, ou de sintagm~ yemos a arecer
ipotat1cas. a relação manifestada como tal no caso reciso de nosso último
Mas o lexema é igualmente um lugar de encontro histórico.
C.Qm efeito, apesar de seu caráter fixo, o lexema é da ordem do
exem ,1o
_ ___:~ ____ Ia
__ ____
_,;..__,;;,.;;;.....;.;;.;.
A rela - o se encontr em tais
_.;._,;.. · estação.
acontecimento e se encontra, como tal, submetido à História. Isso 5.0 MANIFESTAÇÃO DAS RELAÇõES
quer dizer que, no c1;1rso da História, os lexemas se enriquecem de
novos semas, ma-s ue essa mesma História isto é no limit a Essa diversidade das formas de manifestação das relações
distância que se ara um rocesso e comunica - o e outro is coloca dois problemas de caráter mais geral As relações que
a diacronia o e com reender dura - es de cinco se un os como consideramos inicialmente como inerentes às estruturas de signi-
de 5 seculos) pode esvaziar os lexemas de a guns e seus semas. ficação, e que encontramos em seguida no interior de lexemas
Assim, o discurso poético, tal como é concebido por Bachelard, como elementos de soldagem de semas heterogêneos, aparecem
opondo. por exemplo, a euforia do sótão à angústia da cave, pode agora como possíveis de serem manifestadas de maneira indepen-
ser considerado, sob esse ponto de vista, como um empobreci- dente no desenvolvimento do discurso.
mento sêmko, provisório mas considerável, em beneficio de um O primeiro desses problemas é o da diversidade das formas
certo número de categorias sêmicas de caráter redundante. da manifestação; o sey;undo, o da autonomia das relações refe-
O lexema nos ; arece a artir daí como uma unidade de rentes à estrutura elêmentar da significação. .
cornumcação re ativamente estave , mas não imutável. Esta esta- Ú) O discurso, considerado como manifestação da lingua-
bilidade, embora relativa, permite considerar as relações entre os gem,~ como vimos, a única fonte de informa • sobre as si ni-
semas no interior de um lexema como sendo da mesma natureza ficações imanentes a essa · guagem. a · s por esta razao que
das relações entre os semas situados no interior de unidades de o identificamos, desde o início, com a língua-objeto. Ele não
comunicação mais amplas, e postular que elas podem ser descritas impede que todos os termos-conceitos metalingüísticos que cons-
da mesma maneira. truímos - ou que eram "encontrados,, antes de nós na práxis
Segue-se que as unidades de comunicação de dimensão dife- lingüística - sejam automaticamente transferidos ao discurso.
rente,._ que podem ser registradas e que se escalonam como O mesmo ocorre, apesar das aparências, com outras construções

53
de linguagem consideradas como "não lingüísticas" : quando os seja como ama pressupos1çao unilateral: hiponímica., quando era
lógicos desejam instituir os conceitos de sua lingua~em ló,g~ca, orientadá para a totãlidade; füperonimica, quando a totalidade
é ao discurso que se dirigem para estabelecer os mventanos, sustentava uma possibilidade de divisão. Vimos, também, que
mais ou menos completos, de "palavras., que vão servir à cons- qualquer elemento de conteúdo homogêneo podia ser submetido
tituição, por exemplo. da classe das conjunções, que não mais a essa espécie de distorção. Mas observamos igualmente que
pertencerá à língua-objeto. a própria relação era hierarquicamente superior ao conteúdo por
Os lingüistas, sob esse ponto de vista, são muito mais des- ela articulado. A partir da~ podemos compreender facilmente que
confiados que os lógicos: a experiência lhes ensinou que a rel: - a manifestação da significação no discurso pode opera r entre dois
ção entre significante e significadç ( ou melhor: a c~rrelaçao planos ao mesmo tempo: colocando os conteúdos e traçando suas
entre as separações diferenciais do significante e das diferenças redes de relações entre termos sêmicos heterogêneos; isto, ind~-
que elas provocam no significado) é extremamente flexível e pode pendentemente do tipo de m anifestação dessas relações.
tomar formas muito variadas. O morfolexema et (e) exprime Essas observações nos fazem cómpreender que o plano do
bem a relação de conjunção, mas a consecução dos lexemas em discurso, segundo o ponto de vista em que nos colocamos, pode
..,..... ''Jean, Pierre et Paul" (João, Pedro e Paulo ) o exprime da mesma surgir, ao mesmo tempo, com9 homogêneo e he terogêneo.
~ forma. Assim, um sema relacional qualquer pode surgir a partir
~ das distâncias do significante, indo da existência de l:m form_31;te. a ) Ele é homogêneo no sentido de que, independentemente
• ~utônomo ao sincretism o, passando pela consecuçao, pos1çao, das unidades de comunicação levadas .em consideração - lexemas,
sintagmas, ou enunciados - , as relações que se estabelecem entre
j e amálgama. Vemos, por exeml!l~, que ! descrição. das coojun- os semas ou os conjuntos sêmicos ap resentam variações estruturais
. ções ( no sentido que os gramaticos atribuem habitualmente a
_§ esse termo) corre o risco de ser bastante incompleta se se apoiar pouco numerosas, ou, de qualquer forma, codificáveis.
1;, somente no inventário das conjunções lexicalizadas. t homogêneo num outro sentido também : os semas q ue estão
~ A mesma prudência se impõe quando se trata de estatuir ligados entre si, mesmo que estejam dentro de um só lexema ou
acerca da significação das relações, Existem, com efeito, classes dentro de um sintagma em expansão, por exemplo, podem per-
de morlolexemas, como a classe d as conjunções de subordinação, tencer de fato a sistemas sêmicos fre qüentemente distanciados uns
que comportam lexemas de investidura semântica relativamente dos outros. A heterogeneidade dos semas, em outras palavras, se
rica mas encontramos também elementos relacionais "pobres,,, encontra distribuída no discurso de maneira homogênea.
as preposições de ou à, por exemplo, que se limitam ao estabele- Mas já estamos vendo que, nessa perspectiva, o secciona-
cimento de uma simples relação hierárquica entre dois lexemas. mento do discurso em "palavras" - na medida em que deseja-
Podemos facilmente admitir que o mesmo se dá dentro dos mos submetê-lo à análise semântica - não é mais pertinente, e pode
conjuntos sêmicos que são os lexemas; certas relações aí sãQ, sê-lo até menos que seu recorte em sintagmas ou em enunciados.
simplesmente hierár uicas "número,,, "gênero,, no arti o , ao b ) As relates, pelo_ m:nos como podemos apre:ndê-las no
asso que outras po em ser comp exas para sentar-se no cas~ discurso como onna lexicalizada, podem ser de maior ou me-
e au eu1 • Cotnp oPX ' u;v.i nor complexidade sêmica. Sua análise, ainda nos seus princípios,
@ Retornemos, agora, ao s gundo problema que se nos (B. Pottier) apresenta certamente interesse para a semântica. En-
colocou, o da autonomia das relações referentes aos termos estru- tretanto, não vem ao caso considerá-las como eleme11tos de relação
turais que devem ser ligados por elas. Quando de nossa reflexão puros. Se se apresentam, cada uma separadamente, como se com-
sobre a estrutura elementar da significação, o conceito de relação portassem um elemento relacional, isto é, metalingüístico, possuem
nos surgiu como exigência de apreensão simultânea de pelo menos além disso, muito freqüentemente, como qualquer lexema, _um
dois te rmos. Essa simultaneidade podia manifestar-se, como vimos, conteúdo descritivo analisável em semas. Tesniere viu bem isso
seja como uma pressuposição recíproca de conjunção e de disjunªo) quando distinguiu o elemento translativo puro ( que é represen-

55
tado, por exemplo, pelo que em locuções conjuntivas parce que
alors que, avant que, etc.) do conteúdo secundário adverbiai'
que as conjunções de subordinação podem comporta:. '
. ra1 análi~ pe~tiria distingui~, Õe um lado, relações de con-
J~çao e d_~ disJunçao ( que gostanamos de designar, se o termo
n~o ,fos~ Jª usado, como sintáticos) e, de outro lado, relações A SIGNIFICAÇÃO MANIFESTADA
h1erarqrncas que propusemos já chamar ( a fim de distingui-las
~as ~elações hipo e hiperonímicas, que são categóricas, isto é, cons-
titutivas da estrutura elementar) segundo o termo considerado em
primeiro lugar, seja hipotáticos, seja híperotáticos. 1/ 1.0 O SEMEMA
Se aceitamos esta divisão das relações manif~stadas no dis-
curso em dois tipos correspondentes às relações fundamentais reco- a) Unidades de comunicação e unidades de significação.
nhec~das na estrutura ~lemen~ar, devemos constatar que o plano
do disc urso, no seu conjunto, e caracterizado por esta heterogenei- -Reconhecer as limitações de nossa condição de homo loquens
dade fundamental: de um lado, os semas, os lexemas e os enun- consiste em admitir que qualquer descrição de conteúdo desemboca
cia~os <iue se enco_n~am- aí podem manter entre si relações de necessariamente na construção de uma linguagem que pode dar
coWiu.nçao º'! de d1SJun~ o: de outro lado, os mesmos elementos conta dos modos de existência e dos modos de manifestação das
po_ en:3 ser _ligado~ por relações hipotáticas. Resulta daí que os estruturas de significação. Essa construção, por sua vez, apÓia-se
pnmeuos vao manifestar, no interior do discurso unidades situadas no discurso, que é não somente o lugar de encontro do significante
sobre a dimensão paradigmática, ao passo q ~e os últimos vão e do significado, mas também o lugar de distorção de significação
estabelecer, no mesmo discurso, a dimensão sintagmática; em provocada pelas exigências contraditórias da liberdade e das im-
outro: tern:i~s, o plano_ do discurso, de acordo com o tipo de posições da comunicação, pelas oposições das forças divergentes
re~a~s utilizadas, manifesta tanto o modo de existência paradig- da inércia e da história. Visto sob esse ângulo, o d iscurso aparece
ma.ti~a quanto º. de existência sintagmática. Tal fato parece-nos como um alicerce heteróclit<;!, e as unidades de comunicação que
suf1c1ente~~nte unporta~te para ser sublinhado, nem que seja se depreendem de sua análise parecem impróprias para servir de
p~las frequentos confusoes estabelecidas pelos lingüistas, e mais quadro à descrição da significação: assim, os lexemas, os para-
ainda pelos u~ários não-li~güistas, de métodos lingüísticos, entre lexem as e os sintagmas, para fal ar apenas deles, são incontestavel-
o plano do discurso e o SJ.Dlagmatico, .confusões que levam às mente unidades de comunicação de dimensão e estrutura dife-
vezes, à sua total identificação. ' rentes; isso não impede que, do ponto de vista da significação,
possam freqüentemente ser comparáveis e, às vezes, até equiva-
lentes.
Isso quer dizer que, paralelamente ·às unidades de comunica-
ção definidas com o auxfüo de categorias modo-sintáticas, temos
o direito de elaborar unidades semânticas diferentes das primeiras.
Dispomos já, é bem verdade, de um pequeno número de con-
ceit os construídos para dar conta dos modos de existência da
si~ilicação considerada fora de sua manifestação. Tentamos,
alem disso , considerar seu modo de presença do discurso e, mais
precisamente, nas unidades de comunicação tradicionalmente re-

57
conhecidas como i,u. e.adoras de significação, os lexemas. A hetero- a) No primeiro caso, a palavra designa:
geneidade do discUiso nos obriga, entretanto, a retomar o pro- - seja a parte coberta pelos cabelos,
blema, tentando estabelecer, agora, a distinção que existe entre a
çomunicação discursiva da significaç.~o e sua manifestação pro- la tête nue, ( cabeça descoberta)
priamente dita. lave, la tête, ( lavar a cabeça)
Para fazê-lo, vamos tentar uma diligência exploratória in- tête de fou ne blanchit pas, ( cabeça de louco não
versa: em vez de partir do sema visando à definição do lexema fica branca)
como o fizemos anteriormente, vamos tomar como instância d; - seja a parte não coberta pelos cabelos ( o rosto) :
partida o lexema, para ver se sua análise, na tendência, é claro,
de nos revelar sua organização sêrnica, permite reunir informa- faire une tête de circonstance ( ajeitar a cara para a
ções mais precisas sobre sua articulação. O exemplo escolhido . ocasião)
s;rá o le~ema tête, "cabeça", ou melhor, o conjunto de proposi: tu en f ais une tête ( vo~ê faz uma cara feia)
çoes ou smtagmas que comportam o lexema tête do dicionário
de Littré. Tomamos a liberdade de dividir esse corpus como b) No segundo caso, a palavra designa a parte óssea:
~os ap~az, a fim de obter séries de e xemplos próprios para a - fendre la tête à quelqu'un, (partir a cabeça de alguém)
ilustraçao das diversas articulações sêmicas situadas dentro de s~ casse, la tê~e. ( quebrar-se a cabeça)
um só campo lexemático. tete de mort (caveira).

b) O lexema: uma constelação estilísUca. 2. A relação hipotática.

A primeira definição, fundamental, da qual derivam todas as :Mas a palavra tête, enquanto designa uma parte do corpo,
outr~s e, todos os outrós "sentidos" da palavTa, dada por Littré pode tambem remeter quer ao organismo considerado como um
de tête e sua representação como "parte ( do corpo) . . . unida ao todo discreto, quer com certas adjunções "figurativas" ao ser vivo
corpo pelo pescoço ... " Esta definição, como se vê, é "realista" como tal ou à própria pessoa humana. Não tendo intenção, por en-
e se refere à imagem não lingüística do corpo. ( Observemos, de quanto, de levar mais adiante a análise verdadeiramente sêrnica,
passagem, como característica da lexicografia tradicional, o fato vamos contentar-nos com uma simples enumeração:
de que nenhum dos exemplos citados por Littré ilustra a palavra a) organismo, enquanto unidade discreta:
tête como parte do corpo.)
~artindo dessa "imagem" fundamental, podemos proceder, ce troupeau est composé de cent têtes ( este rebanho é
depolS de agrupar levemente os "sentidos'' definidos por Littré formado de cem cabeças)
a certos exercícios estilísticos que a fazem aparecer como foot~ vous aurez à payer tant par tête ( o Sr. tem de pagar
de irradiação de usentidos" mais ou menos "figurados". Duas tanto por cabeça);
relaç~s estruturais, que já conhecemos, permitem agrupar esse b) ser vivo ou vida:
matenal:
mettre la tête de quelqu'un à prix (pôr a cabeça de alguém
1. A relação hiperotática. a prêmio )
il paya de sa tête (pagou com sua cabeça, com sua vida)
Com efeito, a cabeça pode ser considerada, segundo Littré,
quer como coberta pela pele e pelos cabelos, quer unicamente e) a pessoa humana:
na sua parte óssea.

58 59
une tête couronnée ( uma cabeça coroada)
Entretanto, uma questão se coloca naturalmente : que sabemos
se payer la tête de quelqu'un {mistificar alguém). • exatamente, no presente estado de nossa reflexão, a respeito do
lexem! em ge~al? É _evidente, inicialmente, que ele possui um
e) Definição do semema. conteúdo negativo, devido à sua comutabilidade com theme {tema)
te-rre {terra), these ( tese) , etc. Temos o direito de supor ainda
Suspendamos aqui essa análise estilística: já possuímos um que ele. tenha igualmente_ ~ c0;1teúdo positivo, que deve ser,
inventário restrito q ue permite fazer um certo número de cons- necessanamente, um arranjo hipotatico de semas. No estado atual
tatações. de nossos conhecimentos, consideramos esse conteúdo positivo
como o núcleo sêmico, e o designamos por Ns supondo que :se
O exemplo que acabamos de utilizar apresenta um lexema. apresente como um mínimo sêmico permane~e como uma in-
tête. situado em certo número de contextos. Partimos da hipótese variante. ,
de que o lexema tête significa " parte do corpo". A partir daí. os
contextos, que agrupamos de certa maneira, colocam em evi- Mas -. se Ns é_uma inva~ante, as variações de "sentido" que
dência uma constelação de sentidos, que se dispõem, em t omo observamos antenoonente nao podem advir senão do contexto;
10
da hipotética "tête", "parte do corpo numa rede de relações hipo-
,
em outras palavras, o contexto deve comportar as variáveis sêmi-
cas que, sozinhas, podem dar conta das mudanças de efeitos de
táticas ou hiperotáticas. Existe, conseqüentemente, uma correla-
ção entre as variações contextuais, de um lado, e, de outro, as sentido possíveis .?e _sere~ !egistrados. Consideremos provisoria-
mente essas vanavets sem1cas como semas contextuais e de-
variações do conteúdo do lexema observado, variações que, nesse signemo-los por Cs.
caso preciso, aparecem como relações definíveis dentro do quadro
da estrutura elementar da significação. É e vidente que a totalidade dos contextos-ocorrências possíveis
esgota toda~ as v.iriáv,eis sêmicas. Entretanto, o simples bom
senso nos diz que o numero de semas contextuais é muito mais
( * } A tí rolo de ilustração chamamos a atenção do leitor para as ocorrências reduzido que o dos contextos-ocorrências. Assim, por exemplo,
& ''cabeça" cm português. A maior parte delas, bem como dos exemplos ilus. aos contextos:
trativos das notas sub~ücntcs, está documentada no Pequeno Dicionário da
Língua Portuguesa, sup. de Auraio Buarque de Holanda e no Dicionário de f endrela t4te
Caldas Aulete. se casser la !Ate
Relação hiperotácia :
1la t4te de mort, etc.
a) "cabcç2 pelada"
"lavar a cabeça" ~rresp~nde um SÓ efei~? d e sentido,. ~ue podemos traduzir como
(ocorrências cm que "cabeça" se refere i parte recoberta pelos cabelos) parte ossea da cabeça . Parece poss1vel, pois, agrupar os con-
b ) "quebrar a cabeça de algu6n" textos em classes contextuais, que seriam constituídos de éontextos
(ocorrência onde "cabeça" se refere à parte óssea apenas ) que provocariam sempre o mesmo efeito de sentido. Podemos
Relação hipotática: considerar que o sema contextual é esse denominador comum de
toda uma classe de contextos.
a) organismo enquanto unidade discreta:
"esta boiada tem cem cabeças" , ÇQ_mo nada sabemos, por en9aanto, sobre a questão do con-
b) ser vivo ou vida:
teudo do sema contextual assim efinido, não podemos afirmar
"oferecer a cabeça pela salvação dos amigos"
que o sema contextual se identifique sempre com o sema propria-
men!e dito, lSto e, com a urudade mmima de signilicação. E bem
e) pessoa humana: poss1vel que, em certos casos, 0 denominador comum de uma
"C5581 idéias '6 podem vir de abeçaa irnegioocas". (N. de T.)
classe contextual possa comportar mais de um sema no sentido
60 81
estrito desse termo: é à análise concreta desta ou daquela classe têts de cortege ( {rente do cortejo)
que caberá precisá-lo em cada caso particular. Reconheçamos, prendre la tête (encabeçar). 0
por enquanto, que é mais cômodo, tendo, ~m vista º, ~sta~elec!-
mento de um mínimo de conceitos operatonos necessanos a ana- Basta uma rápida olhada para percebermos que esse inven-
üse das uni<lades de manifestação, analisar o caso mais simples, tário apresenta um certo número de traços conjuntivos e outros
aquele em que uma classe contextual está definida por um SÓ disjuntivos.
sema contextual. Com efeito, as definições que acabamos de dar ·1. Uma constatação geral, para começar: a palavra tête não
do núcleo sêmico Ns e do sema contexCuãl Cs nos ermitem agora significa, em nenhum dos contextos-ocorrências desse inventário,
considerar o efeito e senti o como um semema e de defini-lo "uma parte do corpo".
como a combinação de Ns e de Cs: 2 . O primeiro traço comum do inventário e, como se vê, a
semema Sm = Ns + Cs. p.esença em todas as ocorrências, do sema "extremidade".
Podemos acrescentar que, além disso, o sema "extremidade"
aparece bem nitidamente num certo número de locuções idiomáticas
~ºAFIGURA NUCLEAR onde, combinando-se com "verticalidade", com "horizontalidade",
produz figuras quer antropomórficas, quer zoomórficas ( ou ictio-
a) O primeiro núcleo de ''tête": extremidade. mórficas }:
Após essa definição provisória do semema, pod~mos retor?ar a) de la tête aux pi.eds; ( da cabeça aos pés )
à análise, deixada temporariamente de lado, do nucleo sêm1co, cf. de pied en cap ( do pé à cabeça)
cuja combinação com os semas contextua_is, dizíamos, p~o,oca, b ) un tête-à-queue ( volta completa)
no plano do discurso, tais efeitos de sentido que denom~namos ni queue ni tête ( nem pés nem cabeça).
sememas. Para faze-lo, é necessário partir de uma nova serie de
ocorrencias, que podemos classificar, com toda cautela, dentro das 3. O segundo sema da coleção é designado por nós, tanto
seguintes rubricas sêmicas: :como "superioridade'', quanto como "anterioridade". O fato de
tête, enquanto uma das duas extremidades, se opor a pieds ou a
et) extremidade + superioridade+ verticalidade queue, representando outra extremiq_ade, nos permite dizer
la tête d'un arbre ( a copa de uma árvore) que se trata aqui de um mesmo sema sob duas designações dife-
être à la tête des affaires ( estar à testa dos negócios) rentes : "a primeira eA'tremidade", cuja significação é modificada
avoir de dettes par-dessus la tête ( estar endividado até ~la articulação_ sêmica "verticalidade" vs "horizontalidade". Já
o pescoço). tivemos oportunidade de demonstrar (les T opologiques, em Cahiers
de lexicologie, 1964) que os dois termos, considerados em conjunto,
~) extremidade + anterioridade+ horizontalidade + con-
tinuidade
(. ) Português:
tête de nef (ponta de nave )
tête d'un canal (ponta de um canal) a) "cabeça da Igreja, o Papa"
"cabeça do pinheiro"
tête de ligne {início de linha ) .fi) "cabeça do desfiladeiro"
'Y) e~tremidade + anterioridade + horizontalidade + descon- "cabeça de ponte"
tinuidade 'Y) "cabeça da lista"
"cabeça d. coluna": ( parte das tropas que marcham ru frente).
fourgon àe tête (furgão dianteiro) tN. de T .)

62 68
onde um dado sema funciona ao mesmo tempo como sema nuclear
constituem apenas um caso particular da não-concomitância espa- e como. sema contextual. A ambigüidade relativa à definição dos
cial. enquanto o contrário é "inferioridade" ou "posterioridade'' semas contextuais deverá ser suprimida mais tarde.
Substituindo os dois termos dominativos pelo único termo "supe-
ratividade". podemos dizer que o núcreo sêmico que postulamos
para o inventário estudado possui um segundo sema, e que ele b) O segundo núcleo d e "tête": esfericidade.
se apresenta, nesse estado da análise, como
Um outro inventário, paralelo ao precedente, pode ser tirado
Ns + s1 (extremidade) + s2 (superatividade). do mesmo corpus e apresentado sob a forma de uma classificação
aproximativa, evidenciando apenas os caracteres sêmicos verdadei-
4. O terceiro elemento da coleção rião se apresenta mais ramente aparentes. Assim teremos :
como um sema simples, mas como um eixo sêmico que engloba ex ) esfericidade:
dois semas: "verticalidade" (s1 ) e "horizontalidade" ( s,), cuja
disjunção, no plano do discurso, constitui duas classes contextuais. la tête d'un comete (cabeça de um cometa)
Uma análise mais profunda nos mostraóa que tais semas contextuais la tête d' épíngle, de clou ( cabeça de alfinete, de prego)
são, na verdade, elementos constitutivos de outros núcleos sêmicos ( cf. boule, "bola", citro-n, "limão", ciboulot, "cebola" -
que fazem parte do mesmo sintagma ("verticalidade" em la téte em francês popular, designam cabeça).
d 'un arbre - a eopa de uma árvore, "horizontalidade" em la téte
d'un canal - ponta de um canal) . ~) esfericidade +solidez:
se casser la tête ( quebrar-se a cabeça )
5. O mesmo podemos dizer do quarto elemento da coleção: avoir la tête dure ( ter cabeça dura)
a classe contextual {3) comporta o sema "continuidade" (s6 ), a tête fêlée ( cabeça rachada)
classe y) o sema "dC$Continuidade"' (ss), ao passo que a classe
ex) permanece, por assim dizer, indiferente a essa disjunção. Aqtri y ) esfericidade +solidez +continente:
também, podemos observar que o eixo sêmico, articulado em "linha" se mettre dans la tête (meter na cabeça )
vs "pontilhado" r~aliza seus semas dentro de núcleos sêmicos con- une tête bien plei-ne ( cabeça cheia)
tínuos a tête ( tête de ligne vs fourgon de tête - "início da linha" se creuser la tête . ( quebrar a cabeça). •
vs "furgão dianteiro") enquanto só a classe ex) representa o termo
neutro ( nem "continuidade" nem "descontinuidade") da articula- Os resultados da decomposição sêmica à q ual acabamos de
ção sêmica. proceder parecem, à primeira vista, tão diferentes dos da análise
Essa tentativa de depreenêler as constantes sêmicas do núcleo do primeiro núcleo sêmico que se pode perguntar, não sem alguma
desemboca, à primeira vista, em resultados não inteiramente satis- razão, se o lexema tête recobre . um só ou dois núcleos indepen-
fatórios. Assim, pudemos caracterizar esse núcleo pela invariância dentes. Somente uma comparação atenta dos dois núcleos poderá
dos dois primeiros semas, mas li\·emos de constatar, ao mesmo
tempo, que a análise dos semas chamados contextuais obriga-nos
a invadir o domínio dos núcleos sêmicos contíguos, que se apresen- (*) Veja-se cm português:
tam numa relação de dependência estreita quanto ao núcleo estu- et ) "cabeça de alfinete"
dado. Utilizando o signo / para marcar a disjunção sêmica, podemos "cabeça de cebola"
form ular assim os resultados dessa primeira análise: f3 ) "cabeça dura"
"quebrar a cabeça de alguán"
-y) "Deu-lhe na cabeça ser professor". (N. de T .)

65
64
fornecer a resposta a essa questão. Antes de empreender isso, Essa oposição "ponto" vs ''esferóide" pode, desde já, ser for-
contentemo-nos com distinguir, no inventário dado, o próprio mulada como uma estrutura complexa, que manifesta, quer seu
núcleo sêmico: a "esfericidade", que se encontra em todas as {ermo positivo, quer seu termo negativo. Contrariamente ao que
classes contextuais, dos outros semas: " solidez" e "continente", se pensa geralmente, tais estruturas se encontram bem freqüente-
que são simplesmente variáveis contextuais. mente nos núcleos sêmicos que são; é preciso não esquecer arti-
culações, realizadas ao nível do discurso, das categorias perten-
e) O núcleo sêmico comum. centes ao nível sistemático da linguagem. Podemos citar, como
exemplo de nosso p rimeiro encontro com essa espécie de articula-
ção; a definição da categoria de "totalidade" onde, inspirando-nos
· A leitura um pouco mais atenta das ocorrências do segundo
em Br0ndal ( v. Comment définir les indéfinis, e m Etudes de
inventário mostra entretanto, que todos os contextos citados com-
linguistique appliqu_ée, J ), pudemos mostrar que ela funcionava
portam, de maneira mais ou menos implícita, o núcleo sêmico já tanto como um integral, quanto como um discreto, realizando
descrito: com efeito, nas classes ~) e y ) a palavra "tête" significa assim duas séries distintas de quantificativos indefinidos.
sem contestação "parte do corpo"; mas, para que seja possh-el, é
preciso, inicialmente, que a "cabeça" seja concebida como "extre-
midade superativa'', que tête tenha pieds como correspondente. d) Figurãs simples e complexas.
Quanto à classe a ) sabemos que o cometa possui, além de uma
cabeça (tête), uma cauda (queue), e qu e à cabeça de alfinete Na medida qu e essa pré-análise do núcleo sêmico de t ête
(tête d'epingle) corresponde, na outra extremidade, "a ponta" ( la está cQrreta, permite ela esclarecer alguma coisa sobre a constitui-
pointe ). O esquema ção do que designamos, talvez de maneira imprópria, como o
e x't:remidade + superatividade,
mícleo do lexema. T al como se apresenta em nosso exemplo pre-
ciso, o núcleo não é nem sema solitário nem uma simples coleção
que depreendemos como núcleo do primeiro inventário constitui, de semas, mas sim, um arranjo de semas que vai das diferentes
conseqüentemente, a parte- comum dos dois inventários. manifestações possív~is da estrutura elementar aos agrupamentos
~ ,·erdade que nos resta ainda integrar o novo sema nuclear es~turais mais complexos, que ligam entre si os semas perten-
"esfericidade·• e é aqui que a diligência comparativa vem auxiliar- centes a sistemas relath·amente independentes.
-nos. Efetivamente, a presença do sema "esfericidade" repõe em ~ assim que ''extremidade" e ''superathidade" são semas au·
questão, de uma certa forma, a análise dessa notação sêmica, quan- tônomos, isto é, dependem de duas categorias sêmicas não necessa·
do da primeira descrição. Percebemos, assim, que a primeira riamente imbricadas uma na outra. A relação que se estabelece
etapa da análise não le,·ou em conta o caráter dimensional do entre elas dentro do núcleo é também "autônoma" quanto aos dois
espaço que, entretanto, ali figurava de maneira implícita, e isso semas: é a relação hipotática, que definimos pela única- pressupo-
graças à presença do sema "esferiçidade", que pressupõe a con- sição l6gica. Se convencionarmos assinalar essa espécie de relações
cepção do espaço enquanto extensão preenchida ou preenchível. por uma flecha que Yai da esquerda para a direita, do sema
Conforme tratar-se de espaço vazio, constituído de puras dimensões, subordinante ao sema subordinado, a relação entre "extremidade''
ou ao contrário da extensão feita de supedícies e de volumes, a (s1) e ".superatividade" (s2) poderá ser representada da seguinte
9rópria extremidade será concebida tanto como um limite imposto maneira:
a essa ou àquela dimensão, tanto como um inchamento d a extensão,
em outras palavras, seja como um ponto em relação à linha ( con-
tínua ou descontinua ) , seja como um esferóide no mundo dos \to- Designaremos esse núcleo sêmico, caracterizado por relações
lumes. hierárquicas entre os semas que o constituem e que não ultrapas·
66 67
sam as dimensões de um lexema, como uma figura nuclear sim- ·
pies. Se. ao contrário, as relações hierárquicas entre os semas designar por Ns1 ( e que não procuraremos analisar, já que esse
se estenderem a dois ou vários lexemas de um sintagma, como é
não é o ob jetivo perseguido, lembrando . apenas quanto a seu
notadamente o caso para as seqüências do tipo tête d'un arbre:
cont~údo que se refere a uma "espécie de grito"), nos revela a
Ns = (S1 - S2) - Sa existência de duas classes contextuais "sujeitos", que se podem
combinar com aboie. De um lado, a classe dos animais:
diremos q ue a figura nuclear é complexa.
le chien (cão)
le renard (raposa)
e) Em direção ao nível semiolÓgico do conteúdo. le chacal (chacal) etc.,
Não é inútil observar que os semas que constituem as figuras
e, de outro, a classe dos humanos:
que acabamos de estudar remetem todos a uma concepção geral
do espaço e fazem parte, por isso, de um sistema sêmico mais l'homme (homem)
vasto. Em outras palavras, a hipótese segundo a qual uma análise Diogene (Diógenes)
de conteúdo em unidades constitutivas mínimas faz aparecer sis- cet ambitieux ( este ambicioso ) etc.
temas sêmicos subjacentes, recobrindo um grande número de
manifestações lexemáticas, se confirma aqui, uma vez mais. Dire- Diremos que essas duas classes são caracterizadas cada uma
mos pois, introduzindo assim um novo conceito operatório, que pela presença de um sema comum à classe inteira : no primeiro
os semas que, na manifestação, são form adores de figuras nucleares caso, trata-se do sema "animal" ( Cs1 ), no segundo, do sema "hu-
remetem a sistemas sêmicos de uma natureza particular, cujo mano" ( Cs2 ) . Dependendo da manifestação de um ou de outro
conjunto constitui o nível semiol6gico do universo significante. desses semas, com o auxílio de um de seus contextos-ocorrências, no
discurso, sua comb inação com o núcleo Ns1 constitui dois sememas
diferentes:
3.0 OS CLASSEMAS
.- Sm1 = Ns1 + Cs1 (grito animal)
a) Os semcm contextuais. Sm2 = Ns1 + Cs2 ( grito humano ).
No início deste capítulo, definimos provisoriamente o semema
Tomando, por sua vez, o lexema chien (e simplificando bas-
como a combinação do núcleo sêmico e dos semas contextuais. tante), podemos dizer que o encontramos igualmente no interior
Tentando precisar melhor essa definição, procuramos em seguida de dois tipos de contextos diferentes. Como a primeira classe
compreender melhor o núcleo semântico, ao qual acabamos de
denominar figura nuclear. Resta-nos ainda precisar o estatuto dos de contextos-ocorrências permite construir, com o núcleo Ns2, o
elementos do contexto que entram na constituição do semema. semema Sma:
Bastará um exemplo para mostrar a complexidade do pro- le chien aboie ( o cão late)
blema. T omemos uma seqüência de discurso bem simples, como grande (grunhe)
mord (morde) etc.,
le chien aboie ( o cão late).
depreende o sema comum "animal" ( Cs1 )- A segunda classe de
Segundo o procedimento já utilizado, a a.nálise contextual de contextos que manifestam "efeitos de sentido" semêmicos: "espé-
"aboie", penniti.ndo a depreensão do núcleo sêmico, que vamos cie de arpão", "instnrmento de toneleiro", "vagoneta de mina"
obrigam a postular um sema comum "objeto" (Csa)-
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69
contido no contexto chien; e, inversamente, a presença do contexto
b) Lexemas a sememas. abole significa a escolha obrigat6ria do sema s 1 para a aparição
do semema "chien-animal". A seqüência em questão não mani-
Os resultados desse tipo de análise podem ser formulados de festa, portanto, apenas os semas contextuais s1, excluindo os semas \
duas maneiras levemente diferentes. Podemos, tomando as fi- s2 e sa, e sua única combinação semêmica possível é
guras de cada lexema e considerando-as como invariantes, jun-
tar-lhes todos os semas contextuais com os quais elas são capazes Sq = [N2 + Cs1] + [N1 + Cs1],
de se combinar. Teremos assim, para os lexemas aboie e chien,
onde cada núcleo se combina teoricamente com o sema contextual
duas formulações diferentes: pertencente ao lexema vizinho. Dizemos "teoricamente", pois os
L1 = N1 + C (si/s2) dois semas contextuais são na realidade idênticos, e essa busca
~ = N2 + C (si/s,). do dado sema no seu vizinho, quando já o possuímos nele mesmo,
pode parecer facilmente desprovida de fundamento. Com efeito,
Os sernas contextuais assim tratados se encontram reunidos substituindo um dos lexemas da seqüência para obter
pela relação de disjunção, em categorias sêmicas do tipo: Le comm issaire abole ( o comissário ladra)
animais vs humanos percebemos que, com o novo contexto de abole, que manifesta desta
animais vs objetos vez o sema s2, o sema contextual do novo·núcleo Na (commisSaire)
será necessariamente o sema s2:
esgotando dessa forma, antes mesmo de sua manifestação no dis-
curso, todos os empregos possíveis dos lexemas analisados.
Vemos que essa primeira formulação permite afiançar nossas
definições do lexema, _que aparece assim como um modelo virtual Esses exercícios elementares nos permitem já formular, a
que abrange o funcionamento inteiro de uma figura de significação título p rovisório, um certo número de constatações de ordem geral,
recoberta por um dado formante, mas anterior a qualquer mani- que nos caberá provar em seguida.
festaçiio no discurso, que só pode produzir sememas particulares.
Não acreditamos trair o pensamento de B. Pottier dizendo que e) Definição dos classemas.
é provavelmente essa concepção de lexema que ele colocou em
e\'idênci-a nas suas pesquisas, que são paralelas às nossas. ~ pos- A partir de agora, podemos nos dar conta do papel que desem-
sfreJ que um dicionário de lexemas formulados em termos de penha o contexto, considerado como unidade do discurso superior
modelos virtuais traga urna contribuição não negligenciável à so- ao lexema: constitui um nível original de uma nova articulação
lução de problemas semânticos colocados pela tradução mecânica. do plano do conteúdo. Com efeito, o contexto, n_o instante mesmo
Uma semântica lexemática não fica, entretanto, para nós, muito em que se realiza no discurso, funciona como um sistema de compa-
ligada ainda às articulações do plano da expressão para que tibilidades e de incompatibilidades entre as figuras sêrnicas que
possa resolver o problema capital da sinonímia, tomando definiti- ele aceita ou não reunir, já que a compatibilidade reside no fato
vamente possível uma verdadeira análise do conteúdo. de que dois núcleos sêmicos podem combinar-se com um mesmo
Se, ao contrário, em vez de formular cada lexema separada- sema contextual.
mente, consideramos a seqüência do discurso em questão como Considerando o mesmo fenômeno sob um ângulo um pouco
encontro de dois sememas, situamo-nos de uma só vez sobre o diferente, constatamos, por outro lado, que a manifestação no
plano da significação manifestada, onde a escolha dos semas a discurso de mais de um núcleo sêmico provoca automaticamente a
realizar já est.á efetuada. Assim, aboi.e, para se constituir semema, manifestação iterativa de um ou vários semas contextuais. Conse-
elegeu 110 pr6prio momento da realização do discurso o sema S1
71
70
qüentemente, a seqüência do discurso ( le) chien aboie, que descr~
\'emos anteriormente como a combinação de dois sememas, pode le ossuírem um ou vários classernas em comum. Mais do que isso:
ser muito bem formulada de maneira ligeiramente diferente: ultrapassan o o qua ro estreito a mensagem, tentaremos demons-
Sq = ( N2 + N1 ) Cs1. trar, graças a esse conceito de isotopia, como textos inteiros se
encoptram situados em níveis semânticos homogêneos, como o signi-
ficado global d e um conjunto significante, em vez de ( como o
Essa nova apresentação nos permite ver melhor que se uma propõe H jelmslev) ser postulado a priori, pode ser interpretado
determinada seqüência contextual comporta duas figuras sêmi-
cas, não compreende senão um sema contextual; em outras pala- como uma realidade estrutural da manifestação lingüística.
vras, os sernas contextuais correspondem a unidades de comunica- Por outro lado, a autonomia dos classemas em relação aos
ção. sintagmas ou proposições, mais amplas que os lexemas, den- semas nucleares que não é, nessa situação, mais que uma hipótese
tro dos quais se manifestam, grosso modo, os núcleos sêmicos. estimuladora da reflexão, recebe um começo de confirmação se
Esse fato apenas bastaria para postular que os semas contextuais olharmos rapidamente os poucos classemas já reconhecidos ao acaso,
devem ser estudados de maneira independente, separadamente das graças aos exemplos utilizados. Vemos que os classemas,
figuras sêmicas.
objeto vs animal vs humano
Entretanto, o termo sema contextual, que vimos, pode revelar~
-se ambíguo quanto ao uso. Assim, a análise à qual procedemos parecem poder ser articulados em um sistema sêmico, que seria
no início desse capítulo colocou em evidência semas que, embora talvez mais explícito se o apresentássemos da seguinte maneira:
sendo "contextuais" em relação ao núcleo considerado, pertencem,
entretanto, ao núcleo contíguo, e não ao contexto iterativ o, tal corno inanimado VS animado
procuramos defini-lo. Por oposição aos semas nucleares, propomos, j
conseqüentemente considerar como classemas os semas contextuais 1 1
propriamente ditos. animal vs humano

Observação: Como o sema, tomamos também a B. Pottier A generalização que queremos propor a partir de a!!ora seria
o termo classema. a seguinte: se as figuras sêmicas, simples ou complexas, dependem
do nível semiológico global, dos quais são simples articulações
particulares prontas a se investir no discurso, os classemas, de seu
d) Em direção ao nível semântico de linguagem. lado, se constituem sistemas de caráter diferente e pertencem ao
nível semântico global, cuja manifestação garante a isotopia das
Nossa tentativa de depreender uma classe autônoma de semas, mensagens e dos textos.
que tenham as funções originais na organização do discurso, corres-
ponde a uma dupla necessidade. De fato, teremos de mostrar que
tal concepção dos classemas, caracterizados pela sua iteratividade, 4.° CONCEITOS INSTRUMENTAIS
pode ter um valor explicativo certo, nem que seja para p ermitir a
compreensão do conceito ainda muito vago e entretanto necessário Parece-nos útil resumir aqui, antes de prosseguir, os resultados
de totalidade de significação, postulado a uma mensagem ou a uma de um primeiro esforço de conceitualização que tinha como meta
lexia no sentido de H jelmslev. A partir de agora, estamos em a colocação de unidades de construção indispensáveis a qualquer
condições de afirmar que uma mensagem ou umá seqüência gu~l: descrição da significação. O quadro abaixo, contém os termos defi-
_guer do discurso só podem ser consideradas como isotópicas nidos, com certo rigor, nas discussões anteriores e que consideramos
úteis serem retidos.
72
73
IMANÊNCIA MAN!FEsTAÇÃO

nível
scmiol6gico s~t~mas
/ categorias
scmiol6gicas termos
nucleares
figuras 1
scmas scmemas
senucos ~ categoras sêmicos bases
nível
semântico 1 classemáticas 1classemáticas
O NtVEL SEMIOLóGICO

1.0 NOTAS PRtVIAS E APROXIMAÇõES

a) Autonomia do sem1ol6qico.

No transcorrer do capítulo anterior, tentamos depreender dois


níveis autônomos da linguagem, o nível semiológico e o nh-el semân-
tico, dois conjuntos arquitetônicos de conteúdo cujos elementos,
encontr:h·eis no discurso, constituíam unidades de manifestação
de dime11sóes diferentes e estabeleciam, de uma só \'ez. a maoifes-
tação da própria significação. É tempo de considerar agora esses
dois níveis lingüísticos separadamente, não para descrevê-los, mas
para precisar, na medida do possÍ\'el, o seu modo de existência, e
acima de tudo, para tentar traçar - o que parece talvez mais
realista no estado atual das pesquisas semânticas - os seus
contornos e significações.
Introduzindo, na divisão do universo significante, dois ní-
\·eis de significação, queremos sobretudo sublinha~ sua autono-
mia mútua. Mas fica entendido que os dois níveis, considerados
em conjunto, constituem o universo imanente da significação,
anterior por direito à manifestação de seus elementos constitu-
li\'OS no discurso. Essa oposição do sistema ao processo, que
parece clara para muitos lingüistas, está longe de ser reconhecida
por todos. Além disso, como o domínio semiológico serve atual-
mente de lugar de encontro a várias disciplinas humanistas, pare-
ce-nos útil insistir ao mesmo tempo sobre a anterioridade lógica
e sobre a autonomia da estrutura semiológica; a fim de precisar
as posições de uma semântica estrutural em relação sobretudo às
pesquisas que se insiram numa psicologia fenomenológica ou
genética e parecem muitas vezes pa!"alelas às nossas. Pensamos

74 75
2 . Nem a expllca-ção genética de uma complexidade cres-
nos diversos trabalhos sobre o simbolismo, sua natureza e suas cente 'do simbolismo, nem o raciocínio pseudocausal ( '.'.::: a deglu-
origens, e mais particularmente nesse esforço de síntese que tição "se prolonga" e cria o "conteúdo") podem ser assimiladas
constituem les Structures anthropol-0giques de l'imaginaire, de à geração das figuras nucleares do discurso a partir dos sistemas
Gübert Durand; este, estudando um grande número de problemas sêmicos. Uma classificação que ·delimite, por exemplo, duas gran-
que nos são comuns, utiliza métodos e propõe soluções opostas des configurações do simbolismo, disjuntando, por razões não
às nossas. É assim que a classificação do simbolismo, que é lingüísticas, a oposição "subida" vs "descida" não pode preten-
grande preocupação do Autor, repousa sobre critérios de ordem der-se estruturali-:;ta, apesar do abuso desse termo. Somente o
genética. Ela se apóia sobre a reflexão bechtereviana e sobre a postulado da anterioridade das estruturas sêmicas em suas múlti-
distinção fundamental d as tiês dominantes reflexas: postural, di- plas manifestações semêmicas no discurso toma possível a análise
gestiva. copulativa. Esse nível reflexológico, considerado como estrutural do conteúdo. Tal concepção, por mais simples que
ontogeneticarnente primeiro, originaria uma aparência de sistema- pareça, não é menos contrário a nossos hábitos de p ensamento
tização dos gestos do corpo, que, segundo G. Durand, estão em profundamente estabelecidos.
"eslreita concomitância" com as representações simbólicas. A par-
tir desse nível, que não é simbólico, mas que fundamenta tanto
b) O lexematismo antropocêntrico.
o próprio simbolismo como sua classificação, torna-se possível
o desenvolvimento do imaginário em "esquemas" e "arquétipos"·. Assim, urna longa tradição lexicográfica nos impõe não so-
Apenas os gestos - porque podem e devem ser considerados mente uma apresentação lexemática dos dicionários, mas também
como primeiros - merecem o nome de esquemas, que vão en- uma hierarquização dos "sentidos" da palavra; o " sentido" relativo
gendrar por sua vez os arquétipos: assim, o gesto da verticaliza- ao homem, ao meio humano, ao mundo do senso comum é sem-
ção, repousando sobre a dominância postural, engendra os arqué- pre considerado como primeiro e, por conseguinte, impücita-
tipos epítetos "alto" vs "baixo", da mesma forma que o gesto mente original. Uma "parte do corpo" é efetivamente o sentido
da deglutição, _d a descida, correspondente à d ominante d igestiva, "natural", de certo modo, da palavra tête, como prendre ( tomar,
produz, prolongando-se, os arquétipos "continente" vs ·"conteú- colher, beber) significa inicialmente "apoderar-se de alguma coisa".
do'·. Os mesmos esquemas dão origem, por outro lado, a arqué- O núcleo sêmico de prendre, tal como aparece com seu sema
tipos substantivos, tais como a "luz'' ou as "trevas", de um lado, "expansão" em :
ou a ºcor", o "recipiente", a " forma" e a "substância", de outro.
Cet arbre prend bien ( Est~ árvore está bem firme)
Teríamos muito a dizer sobre essa obra que contém ao mesmo
Le bois prend ( A madeira pega fogo)
tempo as qualidades e os defeitos do ecletismo. Se falamos dela.
é por ser bastante representativa, por suas manipulações meto- ou com o seu sema "contração" em :
dológicas de um estado de espírito que não é compatível com a
atitude lingüística. La riviere a pris ( O rio congelou)
Le lait prend ( o leite coalha) ( 0 )
1. Para nós, a descrição do simbolismo não pode ser em-
preendida p ostulando-se como critérios da descrição - mesmo é simplesmente a manifestação de uma das numerosas possibili-
que fossem algo distinto de puras hipóteses - as distinções ope- dades estilísticas da palavra; o sentido "próprio" e, evidentemente,
radas ao nível extralingüístico da realidade. O semiológico é,
como a linguagem em geral, apreensível dentro da percepção e
deve apenas as articulações distintivas de sentidos negativos à (*) Observe-se em português o verbo engrossar nos dois casos:
reàUdade exterior, que aí se manifesta enquanto forma da ex- a ) com o sema expansão: "a enlC\lrrada engrossou"
pressão. b) com o sema contração: " a calda engrossou". (N. de T .}

76 77
aquele segundo o qual tomamos alguma coisa "com a mão". Do e) Um domínio reservado: o simbolismo.
mesmo modo, s6 se morde verdadeiramente "com os dentes", e
G. Durand, falando do esquema "mordicant" ( corrosivo, mordaz) A mesma inversão da problemática da linguagem se en-
rompe com a tradição estabelecida; um esquema é, como se vê, contra agravada nas especulações referentes à natureza simbólica
aJgo diferente d o sema. da poesia, do sonho e do inconsciente: essa espécie de encan-
tamento diante da ambigüidade dos símbolos, a hipóstase dessa
Essa tendência em admitir implicitamente como fundamental ambigilidade considerada como conceito explicath·o e a afirma-
e prioritário o nível de significações recortadas segundo a escala ção do carátt>r "inefá\·el" da linguagem poética, da riqueza inesgo-
humana caracteriza igualmente. as pesquisas referentes a outros tável do simbolismo mítico, levam as pessoas tão precavidas como
domínios "insólitos" da linguagem: simbolismos mitológicos, poé-
ticos, oníricos. Assim, as primeiras descrições das diferentes formas
J. Lacan ou G. D urand a introduzir na descrição da significação
jul~amentos de valor e a estabelecer distinções entre a / ala ver-
do simbolismo, iniciadas no estilo de "Chaves dos sonhos" pela dadeira e a fala, social, entre um scmantismo autêntico e uma
enumeração dos obfetos simbólicos, e prosseguidas sob forma de semiologia vulgar. A semântica, que se pretende uma ciência
classificações sumárias pela distinção das epifanias cosmológicas
h umana, procura descrever valores e não postulá-los.
{ Mircea Eliade ), agrupamentos pouco coerentes de símb olos celes-
tes. terrestres, etc., consideram sempre os símbolos - que podem A questão não poderia nem mesmo se colocar nesses termos,
indiferentemente ser tanto lexemas quanto objetos materiais - se em \·ez de indagarmos por que tal palana tem vários sentidos,
como unidades descriti\·as compactas. A tent ativa de descrição do ou como uma palavra pode significar uma coisa e seu contrário
simbolismo da matéria feita por Gaston Bachelard, e que repousava, ( tanto os gramáticos quanto os filósofos árabes se interrogaram
como o sabemos, na distinção quase universal, feita pela física p rolongadamente sobre a existência elos addãd, palavras que sig-
qualitativa, dos quatro elementos : terra, ar, fogo, água, surgiu como nificam ao mesmo tempo "uma coisa e seu contrário"), partíssemos
uma inovação. Entretanto, o autor percebeu que os elementos de uma descrição semiológica para estudar em seguida suas mani-
classificatórios dessa matéria não eram nem simples nem unívocos, festações múltiplas. Veremos então que um símbolo eminenl<c'mente
e que. dentro da matéria terrestre, a moleza da terra própria ao poético não é muito diferente, nem fun ciona de modo diferente
plantio (glebe) se opunha à "dureza da rocha•; quanto à matéria de um lexema qualquer de uma língua natu ral qualquer, como ~
aquática, o simbolismo da água calma se situava aí em oposição é o caso ele têll'. Em outras palanas, reconheceríamos essa \'er-
ao das águas revoltosas. dade do bom senso ele que tudo o que é do domínio da linguagem
Essa constatação conduz Bachelard aos umbrais d a análise é lingüístico, isto é, possui uma estrutura lingüística idêntica ou
sêmica tal como nós a concebemos, onde as oposições comparável e se manifesta graças ao estabelecimento de conexões
lingüísticas determináYeis e, em larga medida, ueterrninadas. Che-
Moleza vs d ureza garíamos talvez a "desmistificar" à custa disso o mito analógico
Estático vs dinâmico moderno segundo o qual há na linguagem zonas de mistério e zonas
de clareza. É possível - trata-se de uma· questão filosófica e não
se acham pressupostas, anteriores aos lexemas-símbolos d a terra mais lingüística - que o fenômeno da linguagem enquanto tal
e da água. Será necessário, entretanto, esperar a aparição da seja misterioso, no entanto; não há mistérios na linguagem.
Poétique de l' Espace para encontrar os primeiros elementos de
uma descrição sêmica consciente e uma concepção da comuni- O "pedaço de cera" de Descartes não é menos misterioso que
cação poética que fizesse uso do nível semiológico da linguagem. o símbolo da lua. O que não impede que a química tenha chega<lo
a dar conta de sua composição elementar. É a uma análise desse
gênero que deve proceder a semântica estrutural Os efeitos d e
sentido persistem bem, é verdade, nos dois casos, mas o novo

78 79
plano analítico da realidade - quer se trate da química ou da
semiologia - não é menos legítimo. Não queremos pretender com isso que o caráter simbólico dos
objetos fálicos provenha sempre do discurso mantido acerca desses
objetos, e que lhes forneceria o contexto indispensável à manifes-
d) O lingüístico e o imaginário. tação da significação simbólica, embora esse seja provavelmente o
caso mais freqüente. Existem comportamentos rituais simbólicos
A última objeção, que é preciso eliminar, está na escolha es- que constituem outros tan tos contextos natUTais. O exemplo
tratégica do plano único da descrição do simbolismo e, mais geral- escolhido mostra. entretanto, de maneira concreta, o que sustenta-
mente. do que se convencionou chamar "imaginário". O plano lin- mos desde o início, isto é, que a significação é indiferente ao
güístico é o único plano de descrição possível? ~ o melhor do ponto significante utilizado: o fato de o significante ser constituído de
de vista operacional? Outros planos de descrição paralelos ao plano .objetos "naturais" ou de combinações de fonemas ou de grafemas
de linguagem não podem ser utilizados para levar ·a resultados com- em nada modifica os procedimentos da análise da significação. ·
paráveis? Uma análise do conteúdo que répouse sobre os objetos que
Quanto ao simbolismo poético,. as coisas parecem ser claras: a constituem o mundo do senso comum. · tomado como significante,
poesia é uma linguagem ou, para ser mais preciso, situa-se dentro é teoricamente legítima, e talve:z mesmo possível. A grande supe-
da linguagem. Toda descrição não lingüística da poesia seria rioridade do plano lingüístico provém do fato de que qualquer
necessariamente uma tradução inútil, talvez impossível. O mesmo outra linguagem - e, conseqüentemef!te, a dos objetos simbólicos
não ocorre com o simbolismo mitológico, onde os objetos e os - pode ser traduzida numa língua natural qualquer, enquanto
comportamentos "naturais" parecem possuir as mesmas funções o inverso não é sempre verdadeiro: não vemos como um poema
simbólicas que os lexemas ou as seqüências discursivas, e são subs- de Mallarmé possa ser traduzido numa linguagem das coisas.
titufreis uns pelos outros. Isso cria inevitaYelmente uma certa con- (Isso aparece muito claramente na elaboração dos métodos audio-
fusão. sobretudo se não se coloca - como ocorre muito freq üente- visuais para o ensino das línguas, quando se trata de construir um
mente - a questão da homogeneidade do plano da descrição. significante visual equivalente do significante oral das línguas na-
turais: se a tela se presta relativamente bem para a representação
Tomemos um exemplo banal, o do simbolismo fálico. Sabemos dos atuantes. os problemas da expressão visual dos predicados e das
que. desde Freud. na psicanálise como na mitologia, quase tudo relações são mal esboçados e não foram até agora resolvidos.) Por
pode ser súnbolo fálico: partes do corpo humano, o corpo na sua outro lado, as línguas naturais possuem um significante relativa-
totalidade, plantas, árvores, peixes, objetos manufaturados, etc. A men te simples, e em parte já analisado, que permite a elaboração
metáfora fálica surge assim como uma classe aberta, preenchida de técnicas cada vez mais seguras e cada vez mais numerosas de
por uma espécie de " bric-a-brac", cujo tertio comparationis cons- verificação das separações de significação, mesmo que as estruturas
titui o único elemento permanente. Entretanto, pouco importa. de significação sejam postuladas inicialmente como resultados hipo-
em última análise, que as ocorrências que compõem esta classe téticos dos procedimentos lógicos. O valor dessas técnicas - ainda
sejam -objetos lingüísticos. visuais ou naturais; a relação. isto é, que em sua aplicação à análise do conteúdo estejamos.nos primeiros
o elemento comum a toda a classe e que a constitui justamente passos - é comparável. para as ciências humanas, à formalização
enquanto classe. não é mais um objeto significante, mas uma algébrica das ciências da natureza, e é aí que reside, parece-nos.
articulação sêmica ou, mais ainda, uma figura nuclear que respeita a superioridade metodológica da lingüística estrutural em relação
à ordem do significado. Do mundo das coisas, do qual toma- às intuições, muitas vezes geniais, mas que . não possuem procedi-
mos emprestado nossos objetos de estudo, passamos assim automa- mentos de verificação, das demais pesquisas humanistas.
ticamente ao mundo da significação, e esta se presta então aos pro-
cedimentos de descrição elaborados pela lingüística.

81)
81
2.0 O ESTATUTO DO SEMIOLóGICO A descrição do n1vel semiolôgico constitui, pois, uma tarefa
autônoma, que deve ser conduzida sem nos prender a esse ou
a) O slmbólico e o semiológico. àquele simbolismo particular.
Até aqui, nós nos esforçamos por mostrar que o simbolismo,
b) O "proto-semantismo" de Y. Gulraud.
qualquer que seja a forma pela qual apareça, não se distinguia,
por sua própria natureza, das outras manifestações da significação A comparação entre o simbólico e o semiológico nos permitiu
e que sua descrição dependia da mesma metodologia. Teríamos entrever os primeiros elementos de uma definição possível do
errado se, ao contrário, o assimilássemos sem mais ao modo de nível semiológico, que seria a forma do conteúdo que tornasse
existência das estruturas semiológicas, embora se aproxime dela em possível, graças à postulação de um nível anagógico qualquer,
\'ários aspectos. Se, para funcionar como tal, o simbolismo deve a aparição deste ou daquele simbolismo. Os conceitos do semio-
apoiar-se no nível semiológico, ele é, no entanto, sempre uma refe- l6gico e da forma do conteúdo não são entretanto coextensivos;
rência a outra coisa, a um nível da linguagem distinto do nível se tudo o que é semiológico pertence necessariamente à forma do
semiológico. conteúdo, o inverso não é verdadeiro: os classemas e o nfrel
Põderíamos dizer que o semiológico constitui uma espécie de semântico da linguagem por eles constituídos ( e que é a fonte
significante que articula o significado simbólico e o constitui num das isotopias anagógicas ) participam igualmente da forma do
feixe de significações diferenciadas. Assim como o plano da expres- conteúdo.
são articulada é necessário para que o plano do conteúdo seja algo O conceito hjelmsleviano da forma do conteúdo, embora re-
distinto de uma "grande nebulosa'' saussuriana, a articulação da volucionário na medida em que significou a morte do formalismo,
forma do conteúdo chama para a vida, diferenciando-a, a substância não é utilizável para fundamentar as distinções reais dos níveis da
deste. linguagem, sobretudo quando se quer manter - como é o nosso
Por outro lado, o domínio da estruturaç-ão semiológica é mais caso - a concepção saussuriana da linguagem considerada como
amplo que qualquer simbolismo particular; em outros termos, não uma forma, cuja manifestação por si só tem como resultado provo-
existe adequação entre tal espaço semiológico e tal simbolismo: o car a aparição dos efeitos de sentido assimiláveis à substância do
semiológico é indiferente ao simbolismo que o toma em considera- conteúdo. A fronteira <JUe é preciso traçar é, portanto, aquela
ção; um só e mesmo nível semiológico pode servir e serve para que separaria o semiologico do semântico, e não a forma da
articular diferentes simbolismos. Assim, retornando ao exemplo substância.
das imagens fálicas, vemos bem que o que permite reduzir inumerá- Parece oportuno retomar, uma vez mais, a exemplos con-
veis variações estilísticas a uma só invariante simbólica é o fato de cretos. As pesquisas empreendidas, desde algum tempo, por P.
que um nível de significação única. o da sexualidade, foi postulado Guiraud, sobre o que ele chama campos morfo-semânticos, são,
no plano semiológico, do qual uma figura nuclear relativamente sob esse ponto de vista, particularmente instrutivas. Num de seus
simples serve de conector a todas as ocorrências contextuais. A estudos recentes (Bulletin de la Société de linguistique, t. LVII,
escolha desse significado é legitima, como o são as dos outros sig- fase. 7), P. Guiraud destaca a existência de matrizes de va-
nificados. Como o demonstrou já H jelmslev ( Essais linguistiques), riações fonológicas, que têm as dimensões de lexemas, aos quais
a categoria do gênero gramatical repousa sobre a oposição s~mica correspondem modelos, paralelos e não isomórficos, de articulações
expansão vs condensação. sêmicas. Apoiado no inventário de uns 400 sememas, o estudo
engloba um campo semântico recoberto pela raiz com base con-
O par fêmea vs macho não é, conseqüentemente, senão uma sonântica (t-k) que caracteriza o sentido nuclear frapper (gol-
manifestação particular dessa oposição semiológica; obtida pela pear). Resumamos inicialmente os resultados desse estudo, in-
combinação do núcleo sêmico com o classema "animado" . teressante sob vários pontos de vista.

82 83
a) O núcleo de ordem táctil attouchement "toque". que
As \'ariedades de "sentido" que esta raiz recobre podem corresponde à base consonântica (t-k) e que não é analisado por
ser agrupadas em duas categorias distintas: P. Guiraud;
1. As primeiras estão ligadas às variações do formante. Assim, b) As variações sêmicas de ordens sensoriais diversas e que
às variações vocálicas da matriz em correspondem aos elementos comutáveis do formante. Assim, a
oposição
[t-i-k] VS [t-o-k] ,VS [t-a-k] petit ( coup) vs gros ( coup)
correspondem as v~riantes sêmicas de coup (golpe): poderia ser interpretado como a polarização do eixo de intensivi-
petit (pequeno) vs gros (grande) vs plat (plano) . dade, ao passo que o terceiro termo evidenciado por P. Guiraud
·se oporia aos dois primeiros do ponto de vista da superfície tocadll,
A matriz fonológica pode comportar outras variações, desta como
feita de caráter consonântico, às quais corresponderão novas arti- superfície vs ; ponto.
culações sêmicas no plano do conteúdo. Assim, a inserção do
infixo (-r-): Quanto ao infixo (-r-) , assim como quanto à variante [f]. estes
[ t-r-i-k] vs [ t-r-o-k] vs [ t-r-a-k] introduzem, por sua vez, determinações aspectuais complementares.
Assim, o modelo semiológico comporta as categorias sêmicas
acrescenta ao modelo o sema suplementar "freqüentativo"; d o que correspondem às diversas ordens de percepção: táctil, espacial,
"'!es~ o modo, a variante [J] substituível à [k], constitui a opção aspectual.
sem1ca
( coup) amorti "amortecido" vs ( coup) net "nítido", Observação: Fomos levados a introduzir aqui uma classi-
ficação pragmática do nível semiológico em ordens sensoriais,
2. O modelo semântico comporta, por outro lado, articula- isto é, segundo critérios extralingüísticos. Tal classificação é
ções sêmicas independentes das variações da matriz fonológica. operacional e só poderá ser justilicada (e portanto funda-
O 71rot o-semantismo, como o chama P. Guiraud, recobre quer os mentada ), após a descrição dos sistemas sêmicos constitu-
,·erbos quer os substantivos e produz tanto sememas do tipo frapper tivos desse nível de linguagem.
como d o tipo coup. lt de igual modo que o mesmo formante
~.e~-~- para desig,?ar os objetos ~m os quais se golpeia ( pelles 2 . Outras variações sêmicas são, em compensação, indepen-
pas . fourgons esborralhadores , maillets "maços" ) como tam- dentes, sem relação de concomitância com as do formante. Assim,
bém os objetos sobre os quais se golpeia ( diversas espécies de placas a oposição
e plaquetas ). Enfim, ele ajuda a constituir, de maneira insólita substantivo vs verbo
à primeira, vista, os sememas que signiJicam tache (mancha) ,
macu.!e (macula ), croúte (crosta ) , bem como diJerentes afecçóes parece secundária em relação às articulações nucleares. O mesmo
cutâneas. ocorre com a oposição
Vàmos verificar inicialmente que as articulações sêmicas reu- destinador vs destinatário
nidas num só modelo se dividem claramente em dois tipos, e isso ( nomes de objetos com ( nomes de objetos sobre
segundo um critério que diz respeito ao plano da expressão e não os quais se golpeia) os quais se golpeia)
do conteúdo.
1. Certas variações estão em correlação com da matriz
as Observação: Contentemo-nos com assinalar esta última
fon ológica. Elas constituem dois estratos hierarquicamente dis- oposição observando que ela já esclarece um pouco o pro-
tintos:
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bJema tratado longamente por G. Durand, em continuação
às class1ficações de Leroi-Gourhan, e relativo à denominação culação da significação, conotando os comportamentos mal diferen-
ciados, situados ao nível biológico - o estimulo exterior e a reação
dos instrumentos que "prolongam" os gestos.
da célula viva - e não, como o desejaria G. Durand. ao nível onto-
gênico do ser humano. ( Os sememas tache, macule, croute, com
As pesquisas de P. Guiraud nos parecem importantes por todo acompanhamento de teign-e (tinge), rogne (sarna), gale {sar-
diversas razões. Primeiramente, porque levaram seu autor, que na), e lepre (lepra), se explicam pro\·avelmente, nesse nível, pela
enquanto promotor dos métodos estatísticos, estava, no entanto, reação da superfície atingida.) O fato de postular nesse nível
habituado a manipular as unidades lexemáticas, a efetuar uma um significado global - como o propõe, por exemplo, Roland
análise sêmica bastante rigorosa. Em segundo lugar, porque elas Barthes, para quem o "estilo" individual não seria senão •a voz
mostram bem que os estudos etimológicos se acomodam perfei- decorativa da carne" - a fim de dar conta da articulação sernio-
tamente a esse tipo de análise, que pode mesmo facilitá-los. lógica da personalidade humana e de conceber esta como "um
E finalmente - aliás, é a isso que o exemplo devia servir -, a sistema de atrações e repulsões" orgânicas, parece-nos certamente
concomitância observada entre as variações da matriz fonológica mais legítimo do que classificar o simbolismo segundo hipotéticas
e as dos elementos semiológicos, de um lado, e a ausência de dominantes reflexas.
uma outra concomitância quando se trata de variações classemá- Tal interpretação entretanto, se é válida simbolicamente, isto
tic.as, de outro, nos permitem entrever o traçado que separa os é, na medida em que o nfrel biológico é postulado como signifi-
semas nucleares dos classemas, o nível semiológico do nível se- cado profundo, não o é semiologicamente: com efeito, a exis-
mântico da linguagem. tência dos sememas do tipo plaquetle mostra que a figura sêmica,
para poder produzir, pela combinação com os classemas apropria-
Observação: Seria fora de propósito levantar aqui o pro- dos, o semema plaquette (plaqueta), não deve compreender o
blema das origens da linguagem. Notamos, entretanto, que o sema "matéria orgânica" e que a oposição "orgânica" vs "inorgâ-
reconhecimento das variações concomitantes dos modelos fono- nica" {cf. "animado" vs "inanimado" ) se situa fora do nível sêmico,
lógiêO e semiológico traz elementos novos às discussão con- talvez mesmo fora do nfvel semiológico. Somos forçados portanto
siderada até agora inatual. a abstrair, de certa forma, a figura nuclear de seu meio orgânico
e de considerá-la como uma percepção pura. como uma categoria
sêrnica que faz parte da articulação sistemática da tactilidade,
e) O semiológlco e o blo-cmag6gico. no sentido não antropocêntrico dessa palavra, da mesma forma
que remetemos o núcleo sêmico t_ête à articulação da espacia-
Todas essas variações não impedem a persistência de um lidade.
duplo núcleo: fonológico, sob a forma do esquema consonântico Assim, parece-nos que o modo de existência do nível sernio-
(t-k), e semiológico, com o "proto-semantismo" de frapper. Esse lógico se encontra um pouco· mais preciso: é um conjunto de
núcleo sêmico, que Littré define em seu verbete sobre tic, como categorias e de sistemas sêmicos situados e apreensíveis ao nível
"movimento convulsivo", aparece muito claramente como uma da percepção, comparáveis, em suma, a essas percepções visuais
articulação do tenno complexo, que manifesta, segundo as idades esquematizadas dos pássaros evocad~ por Raymond Ruyer, e
e os dialetos ·do francês, um dos dois semas da oposição que permitem-lhes reconhecer seus inimigos segundo as opo-
sições :
contato agressivo vs reação convulsiva.
-pescoço longo / cauda curta vs pescoço curto / cauda longa.
Sem levar em consideraç:ío as combinações sêmicas ulteriores,
poderíamos facilmente pretender que tal figura represente a arti- Situados no processo da percepção, as categorias semiológicas
representam, por assim dizer, sua face externa, a contribuição do
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uma idéia deles referindo-nos ao resumo de sua teoria contido
mundo exterior ao nascimento do sentido. Consideradas sob esse no Semantic Problems in Language, que sintetiza o colóqu{o semân-
ângulo. elas parecem isomórficas às qualidades do mundo sensível tico de ~ambridge em 1961, e característico do estado de espírito
e comparáveis, por exemplo, aos mor/o-fonemas de que se compõe que domma., desde bem pouco tempo, os meios lingüísticos inte-
a linguagem geslual. O que, aliás, nada tem de espantoso, se se ressa~os_ nos pro~lemas da trad1;~0 mecânica. Num quadro (p. 196)
lembrar que tentamos conceber uma semântica independente da que indica, a titulo exploratono, as dimensões prováveis dessa
segunda articulação do significante. Seja como for, isso nos parece linguagem, vamos encontrar, ao lado das sensações proprioceptivas
.suficiente para justificar a denominação de semiológico que atri- e interoceptivas, sobre as quais Quillian não ousa pronunciar-se
buímos a esse nível da linguagem. ainda, e para as quais reserva uns 25 semas para construir ulterior-
mente, uma lista de escalas extroceptivas, que reproduzimos fiel:
m ~~ = .
3.0 POSSIBil.IDADES DA DESCRIÇÃO SEMIOL6GICA
a ) The Five Abstract Scales: "Number" (the real number
a) Construção de linguagens em lingüística aplicada. continuun), ·correlation" (in the statistical sense), ·Make-up" ( no-
tion of whole-to-part or whole-'to-aspect), "Similarity", "Deriva-
A análise sêmica do nível semiológico da linguagem surge tive" ( in the mathematical sense);
como a primeira tarefa da semântica estrutural. Uma vez em-
preendida por ela mesma, não somente permitiria melhor com- b) Visual Scales: hue, brightness, · saturation;
preensão do funcionamento dos diferentes simbolismos ineren- c) Temporal Scales: time, length (with subscripts);
tes a toda língua natural, como prestaria grandes serviços às d) Degree of Existence, degree of awareness;
diferentes operações da lingüística aplicada, à tradução automática, e) Auditory Scales: pitch, loudness;
?is voltas com dificuldades enormes na medida em que se propõe
a atingir, com grande . fidelidade, a construção de linguagens f ) Gustatory Scales: sweetness, souriness, saltiness and bit-
documentais também, tomando mais fácil a delimitação das uni-
dades constitutivas da linguagem e fazendo apreender melhor os
modos de sua imbricação.
terness;
g) Olfactory Scales: not yet determined
h) Cutaneous Scales: n ot yet determined
l say, 25 max.
Isso porque esses diversos domínios não são tão distantes como
pode parecer à primeira vista; a órdem de urgência em suas des- Observação: Esta classificação, que nem tentamos traduzir
crições_, infelizmente muito fragmentadas, é também a mesma em -; já que cada termo, extraído de seu contexto, parece am-
todas as áreas. Se nossas reflexões sobre o nível semiológico da b1guo e admite interpretações múltiplas - , não nos interessa
linguagem aparecem, à primeira vista, centradas .em problemas do por suas articulações, mas unicamente pelas razões ciue o
simbolismo, basta dar uma olhada nas preocupações atuais fizeram propor. l!: um exemplo revelador de um estado de
em matéria de tradução mecânica para percebermos que os esfor-
ços, qu~, nesse domínio, tendem a saiI do impasse em que se viu espírito que domina implicitamente as pesquisas semânticas.
cercada por ter escolhido, de saída, o nível lexemático do discurso.
desembocam freqüentei;nente nas mesmas conclusões. A nova dire~ Tal enumeração mostra ji as grandes linhas do projeto: ex-
ção que um pesquisador tão cauteloso como B. Pottier deseja im- ceto por a) que comporta confusamente quase toda a axiomá-
primir à tradução automática é sintomática sob esse ponto de vista. tica da análise lingüística, e de d) que confessamos não entender
O mesmo ocorre com a tentativa de Ross Quillian, que propõe des- muito bem, a descrição semântica, tal como a concebe Ross Quillian,
crever-se o universo semântico traduzindo-o numa linguagem intei- parece consistir, na sua primeira discussão, num quadro apriorís-
ramente construída, cujos elementos, constitutivos das escalas de tico da totalidade de lexemas dentro de uma escala de caráter
graduação, parecem muitíssimo com os nossos semas. Podemos ter
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perceptivo; esta primeira inscrição deverá em seguida ser comi:le- pusemos m'1cleos sêmicos que parecem poder ser formúlados como
tada por sobredetenninaçôes ~rt~!1centes às ord,en~ de sensaçoes uma, oposição:
"proprioceptivas" e "interoceptivas , sem _que o numero de elemen-
tos utilizados pela descrição em seu conJunto venha a ultrapassar
expansão vs expansão + contração.
- segundo o autor - uma centena.
Nessa fase da análise, enquanto o ilwentário permanece Hmita-
li: igualmente no número de 100 classificadore_s semdnticos - do a dois lexemas, não temos nenhuma razão em considerar q ue
alusão nostálgica, prova\·elmente, ao número reduzido d os elemen- "expansão" e "contração" não sejam semas, isto é, unidades mínimas
tos químicos - que se detém Margaret Mastenn~~ ( ibid. PP.: 6-1~) de significação. Se em compensação quiséssemos dilatar esse in, ·cn-
para a construção de sua ~nt~!ing1!a: seu_s classif_1cadores nao sao, tário introduzindo aí o lexema tenir ( segurar, reter ), iríamos per-
entretanto, unidades ?e s1gniI1?3çao mfmmas ~ eis algumas delas, ceber que:
escolhidas ao acaso : mr, cold, give, laugh, one, sign, went, body, eat,
how, more, re-, yes, you, etc.), e se mencio~o~ aqui_esta outra ~en- 1 . O sema "contração", que parece caracterizar ao mesmo
tativa, é, de um lado, para assinalar a conv1cçao ín~a de D;W!OS tempo os núcleos de prendre e tenir, deve ser completado por wna
lingüistas de que o número de unidades de descn~o seman~ca outr.a oposição sêmica:
é ou de,·e ser muito limitado, e, por outro lado, sublmhar o perigo
de arbitrariedade ao qual nos expomos quando aceitamos 11:?1 pou_co
prendre contração + incoatividade
exageradamente ao pé da letra a legitimidade da constmçao apno- tenir contração + dmatí,·i<lade
rlstica da linguagem descritiva.
2 . O sema "contração" parece manifestar-se, no primeiro
caso, sob seu aspecto dinâmico, no segundo, sob o aspecto está-
b) Níveis de generalidade. tico. Portanto, "contração" pode decompor-se ainda em dois semas:
"solidez" ( "dinâmico" vs "estático"), e a oposição dos n úcleos sêmL-
Para nós, o fato de admitir que qualquer descrição é constru- cos de prendre e de tenir aparecerá como
ção é seguramente, em primeiro lugar, o reconhecimento de uma
n~ssidade· mas a descrição comporta também a exigência de cer-
prendrc (expansão ) + solidez + dinâmicó + incoali\·idade
ta ética cie~tífica. Assim como existe o uso correto da liberdade, a tenir solidez + estático + duratividade
utilização da construção apriorlstica não deve também ser arbitrá-
ria: a dimensão lingüística de nossa exis~ência é um~ realida?e Mesmo chegando a esse estágio, ainda não estamos !i<'guros do
social e sua descrição não deve visar senao a construir uma hn- que nossa análise tenha atingido o nível das unidades mínimas ele
guag~ adequada à língua natural que , se, deve descrever. Em significação, nem que ela seja correta ("dinâmico" e ''.focoativo" não
outras palavras; a liberdade adequada a língu_a natural a~ha~s.e são, nesse caso, redundantes?) : uma nova ampliação d o inventário
limitada pela existência d as separações diierenc1ad~ras d~ s1gn?!- não nos obriga a novos reajustes?
cante que qualquer descrição deve levar em cons1deraçao, ut:lt-
zando procedimentos de caráter induti\'O - test:5 d_e com~taçao, Esta análise, que deixamos suspensa, parece precisar o lugar
análises de distribuições - , seja antes da construçao_ s1stema~nte, que é preciso atribuir à construção lógica na descrição semântica:
seja numa fase de veriftcação que sucede necessanamente a d es- na medida em que esta parte de uma dada língua natural e opera
crição lógica. com inventários limitados, seu papel consiste em aprofundar a aná-
lise generalizando-a. Do mesmo modo, o que é válido quando (la
Um exemplo permitirá precisar melhor nos~? pensamento. _Sejam d ilatação do inventário, ou da comparação de vários in\'entários
dois lexemas : donner "dar" e prendre "tomar , para os quais pro- dentro de uma só língua analisada, o é mais ainda quando se

00 91
trata de proceder - como é o caso para a tradução ou documenta-
ção mecânica - à descrição paralela de várias línguas naturais vi-
sando à constituição de uma linguagem intermediá ria.
A descrição obedece, pois, a dois princípios simultanea mente
presentes e contraditór ios: é indutiva em seu desejo de dar conta
fielmente da realidade por ela descrita; é dedutiva em virtude da
necessidade de manter a coerência do modelo em construção e de
ating.ir à generalida de, coextensiva do corpus submetido à des- ISOTOPIA DO DISCURSO
cnçao. Tal concepção do procedime nto desc ritivo, fundamen-
tada sobre a busca do compromisso, seria desencoraj ante se não
fosse ela o tributo natural de toda descrição científica.
1.º HETEROGENEIDADE DO DISCURSO

e) O procedime nto científico. a) Isotopia da mensagem .

A ambição de descrever o nível semiológico no seu con-


Para, melh,or situ~ ?s problemas relativos ao nível semântico
junto. per mais excessiva que pareça à primeira vista, se situa
do ~onteudo, e nece~-º retornar à manifestação da significação
entretanto na escala humana. Qualquer que seja o corpus que
e at procurar as , cond1ç0es estruturais do funcionam ento do dis-
se escolha para esse caso - o Trésor de la lar1gue française ou
curso. Est~ contem, efetivamente, no m omento em que se tenta
o Dictionnaire de Littré -, os resultados deveriam, em princípio, compreende-lo, elementos aparentem ente contraditórios.
aparecer sob a forma de um número limitado de semas. Não
vamos esquecer que toda construção da linguagem, na medida ~ão ~os é possível aceitar uma explicação que dê conta da
em que, dilatando o corpus a ser descrito, aprofunda e faz orgaruzaçao das. m~nsagens, c,uja seqüência constitui o discurso,
descobrir unidades de significação sempre cada vez menores, ~lo poder pre_dicat1vo do espuito humano ou, sob uma formula-
diminui ao mesmo tempo, pela maior generalida de atingida, o ~º talvez ma.is m~dema, pela intencionalidade do locutor; isso
número destas. nao. tanto por receio do mentalismo, mas simplesme nte porque
Os procedime ntos da descrição serão estudados à parte, num taj tnterpretaç ão s_e situa ao nível da emissão de mensagens e
capítulo que lhes será consagrado . Bastará notar doravante que ;;ao ~e sua r_ecepçao ou de sua transmissão. Desse último ponto
a descrição, para passar das figuras aos sistemas sêmicos e, daí, e vista, o ?•sc~so nos parece, em seu desenvolvimento e apesar
de s~u carater linear, como ..... : -
uma sucessão de deteruunaçoes,
às ordens semiológicas, deve tomar de empréstim o os procedi- or . d d 1.: e,
mentos próprios a qualquer análise e constituído s pelas etapas P isso, ena or e uma 1úerarquia sintática.
sucessivas de inventário, redução e estruturaçã o. ~m?,. a i::artir daí, explicar o fato de um conjunto hierárquico
das s1g~1f1c~çoes produzir uma mensagem isotópica? De fato
uma coI.Sa e certa: quer comecemo s a anáJise do dlS.curso pelo·
alto isto é, pam·nd o d e uma l exia, definida como uma unidade
, .
~e ~ntido, ~uer empreenda mos o agenciame nto das unidades
sintaticas ma1or~s a partir das unidades constitutivas mínimas, o
problema ela unidade da mensagem , indiscutivelmente apreendido
como u~ t_~d~ de ~ignificação, se coloca inevitavelmente.
A lmgUJstica dmamarqu esa obser,;ou bem O pro blema ao
Propor fund amen t ar a 1·sotopia d a mensagem na redundânc ia das
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"~ uma brilhante noitada mundana, muito chique, com con-
categorias morfológicas. Efetivamente, as unidades sintáticas, que vidados selecionadíssimos. Num dado momento, dois convivas vão
são de natureza hierárquica, servem ao mesmo tempo de quadros tomar um pouco de ar no terraço :
dentro dos quais se situam as iterações das estruturas morfoló- - Ah! diz um deles em tom satisfeito, que bela noitada, bein?
gicas: homoelemenlares, elas definem, por sua repetição, o que
chamamos tradicionalmente concordância; homocategóricas, elas Jantar magnífico . .. e , depois, belas "toilettes", beim?
dão conta da recção. - Isso não posso saber.
Tal redundância gramatical pode já servir de modelo para - Como assim?
- Não fui lá."
compreender a isotopia semântica da mensagem. É necessário
não esquecer entretanto que as categorias morf ol6gicas não cons- A história, como milhares de outras do mesmo gênero, possui
tituem, do ponto de vista do plano do conteúdo, senão um agru- um certo número de traços formais constantes:
pamento limitado de classemas, e que, por outro lado, mesmo 1. Ela comporta obrigatoriamente duas partes: a narrativa-
se, numa certa medida, são constitutivas da isotopia de mensa- -apresentação e a d1·alogação;
gens sintaticamente delimitadas, tais categorias não são suficientes
para dar conta nem da isotopia. nem das variações isotópicas 2. A apresentação prepara a história: é uma breve narra-
das grandes unidades estílísticas do discurso, nem do discurso tl'io, que estabelece um plano · de significação homogêneo, uma
em sua totalidade. É, pois, recorrendo às categoria.s classemáticas, primeira isotopia;
quaisquer que sejam elas - e não necessariamente às categorias 3. O diálogo é o procedimento que dramatiza a história e
morfológicas -, e considerando, inicialmente , essas variações das rompe sua unidade, opondo bruscamente à primeira uma segunda
isotopias que não se encontram fechadas nas fronteiras sintáticas, isotopia;
que estaremos em condições de avaliar as dificuldades q ue encon- 4 . As duas isotopias e'stão ligadas entre si pelo termo conec-
tramos e as soluções que podemos considerar para dar conta da tor comum. Nos casos mais simples ( jog_os de palavras, p alavras
existência das isotopias amplas. ambíguas, etc.), a identidade, ou mesmo a simples semelhança do
Bem curiosamente, é ao domínio das frases de espírito, a esse formante, basta para conectar as duas isotopias ( não há necessidade
gênero literário que alardeia voluntariamente os procedimentos lin- de perguntar se o formante "toilletes", que recobre dois sememas di-
güísticos que utiliza, que acreditamos ser útil tomar os exemplos de ferentes, possui uma figura sêmica comum ou não );
variações e de permanências isotópicas. 5. O prazer "espirituoso" reside na descoberta de duas iso-
lopias diferentes dentro .de uma narrativa supostan:iÊmte homogênea.
b} Variações das isotoplaa. Vemos, conseqüentemente, que a anedota, considerada como
gênero literário, eleva ao nível da consciência as variações das
Tomemos uma "história" das mais comuns: isotopias do discurso, variações que se finge camuflar, ao mesmo
"C'est une brillante soirée mondaine, três chie, aoec des invi- tempo, pela presença do termo conector.
tés triés sur le volet. A un m oment, de1.4x convives vont prendre Um outro critério, a escolha dos atuantes que p articipam
un peu l' air sur la terrasse: dessas comédias miniaturizadas constitui o procedimento comple-
- Ah! faít l'un d'un ton satisfait, belle soirl.e, hein? R epas mag- mentar que sublinha a heterogeneidade das isotopias que confron-
nifique. . . et puis jolies toilettes, hein? lnmos. De fato, uma primeira classificação superficial mostra a
- Ça, dit l'autre, je n'en sais rien. preferência das anedotas pelas oposições do tipo:
- Comment ça? adultos vs crianças
- Non, fe n'y suis pas alléf'
( Point de vue, 23 fév. 1962.) majoritários vs minoritários

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normais vs loucos zar o conceito de hierarquia dos contextos que se imbricam uns nos
humanos vs animais ·ou coisas, etc. outros. Assim> o sintagma, que reúne ao menos duas figuras sêmi-
cas pode ser considerado çomo o contexto mínimo que permite
A confrontac,.-ão das duas isotopias coloca em oposição, nesse estabelecer uma isotopia; o enunciado permite testar a isotopia dos
caso, não mais apenas d uas seqüências que possuem cada uma um sintagmas que o constituem; este., por sua vez, deverá ser inserido
caráter isotópico: essas facções do discurso são consideradas, do na frase. A descrição se acha, até aí, privilegiada pela existência de
ponto de vista de seu conteúdo, como representativas de men- unidades sintáticas com dimensões conhecidas, comparáveis e comu-
talidades heterogêneas. Vemos que a descrição do conteúdo dessas táveis. A dificuldade aumenta, em compensação, quando ultrapas-
"histórias" poderia constituir uma tipologia das representações cole- samos as dimensões da frase. Existem, certamente, tentativas de defi-
tivas d as classes sociais. Mas isso já é outra história. nição das unidades não sintáticas do discurso mais amplas que a
frase: os parágrafos, as "passagens" ( narrativas, quadros, diálo-
gos, etc.), capítulos enfim. Mas os procedimentos de comutação
e) Dimensões dos contextos 1sot6picos. não podem mais ser empregados aí com rigor, e os critérios for-
mais ,que possamos descobrir são inteiramente insuficientes. Visto
O uso freqüente que fazem as anedotas das narrativas-apresen- que essas unidades não sintáticas não deixam de ser unidades do
tações mostra já a necessidade que tem o narrador de acalmar conteúdo, temos direito de perguntar se a investigação semântica
seu auditório, estabelecendo solidamente o plano isotópico do não pode trazer outros elementos de apreciação que permitam o
discurso, colocando inicialmente o contexto mais amplo, dentro reconhecimento de continuidades isotópicas.
do qual pode introduzir, em seguida, uma no,·a isotopia. O fato
é que as pessoas sérias sabem sempre, ou crêem saber, do que
falam; a conversação espirituosa é, ao contrário, caracterizada 2.º FUNCIONAMENTO METALINGO'tsTICO DO DISCURSO
pela utilização paralela e sucessiva de várias isotopias ao mesmo
tempo. Vemos, pois, que o problema da separação das isotopias
e do reconhecimento das dimensões dos contextos isotópicos é a) Expansão e definição.
importante; ele constitui uma das dificuldades ainda não resolvidas A lingüística moderna conheceu novas direções a partir do
no domínio da t radução mecânica. Isso porque, se a isotopia de momento em que conseguiu reconhecer e integrar no corpo de
contextos tais como: seus conceitos instrumentais um dos aspectos importantes do f un-
Le chien aboie ( o cão ladra) cionamento das línguas naturais: !l expansão. Pouco importa,
L e commissaire aboie ( o comissário ladra) aliás, o nome que se dê a esse fen&meno: ele se resume na cvnsta-
tação de que o discurso, concebido como uma hierarquia de uni-
pode ser garantida no quadro de um enunciado elementar, não dades de comunicação que se encaixam umas nas outras, contém
podemos dizer o mesmo de: em si mesmo a negação dessa hierarquia, pelo fato de as unidades
L e chien du commissaire aboie ( o cão do comissário ladra), de comunica~o de dimensões diferentes poderem ao mesmo tempo
ser reconhecidas como equivalentes.
Jª que a seqüência-enunciado pode manilestar tanto o classema O princípio de equivalência de unidades desiguais, quando
"animal" quanto o classema "humano"; somente um contexto mais utilizado na comparação das línguas naturais entre si ( notadamente
amplo poderá decidir se se trata, na ocorrência dada, do cão ou do na tradução automática, onde o inglês potato corresponde a pomme
comissário. de terre, "'batata"), faz ressaltar o caráter idiomático de cada uma
A análise semântica, procurando critérios discriminatórios, delas; quando aplicado aos fatos situados dentro de uma língua,
com ,·istas ao estabelecimento das isotopias, acha-se forçada a utili- evidencia o aspecto metalingüístico do funcionamento do discurso,

!)6 97
que parece, por conseguinte, ser não menos impoi:_tante que o seu comprimir ~ "reduzir a menor volume; apertar"
-
aspecto propriamente lingüístico. Expresso de maneira ingênua, apertar ~ "comprimir; estreitar"
esse princípio quer simplesmente dizer que uma coisa pode ser
apresentada tanto de modo simples, como de modo complicado; (Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa).
que uma palawa simples pode ser explicada por uma seqüência
mais ampla, e que, inversamente, uma só palavra pode ser freqüen- Vemos que as seqüências definidoras são:
temente tomada para designar o que se concebeu sob uma forma
desenvolvida. . A expansão não é, pois, esta propriedade sintática 1. Sintagmas em expansão tendo a mesma função sintática
do discurso que permite a adjunção de determinações sucessivas que o termo a ser definido (aqui: sintagmas com uso predicativo
graças aos termos manifestados uns após outros: isso é próprio previsível).
do funcionamento normal do discurso. Ela só ganha toda sua sig- 2. Seqüências que são geralmente compostas de um primeiro
nificação quando uma seqüência em expansão é reconhecida como term~, que situa a equivalência, e de um segundo, que determina
o equivalente de uma unidade de comunicação sintaticamente o primeiro.
mais simples que ela. t essa equivalência teoricamente sempre
possível - embora não se manifeste sempre lexicalmente - que A definição discursiva se aproxima assim, sem entretanto se
constitui o desvio estrutural definidor do funcionamento metalin- identificar com ela, da definição lógica, que se faz, como sabemos,
güístico do discurso. per genus proximum et differentiam specificam. Só que, ao invés
É assim que a expansão, se nos colocamos do ponto de vista
de ser limitativa e unívoca como esta última, ela é livre e aproxi-
geral não mais lingüístico, mas unicamente semântico, encontra sua mativa. Não estabelece ~dentidade entre os segmentos situados nos
~xpressão, na medida em que está circunscrita no quadro das uni- dois planos lingüísticos, mas .sim uma equivalência provisória, às
d~des sintáticas que não ultrapassam os limites da frase, na definição vezes até efêmera, fundada na existência de um ou vários semas
latu sensu dessa palavra, no que poderíamos talvez chamar, para comuns aos dois segmentos justapostos.
evitar qualquer equívoco. a definição discursiva. De fato, a lexi-
cograHa consiste, de modo geral, em procurar . substituir por um Observação: O conceito de equivalência, geralmente utili-
lexema catalisador, uma ou ,·árias seqüências - segundo o número zado - aliás de maneira mais ou menos implícita - em
de sememas por ele recobertos-, seqüências essas equivalentes, mas lingüística, não é quase nunca definido. Essa definição de·
sintaticamente mais amplas que o lexema que se quer definir. pende do nível da metalinguagem epistemológica: não nos
Assim, qualquer dicionário fornece inúmeros exemplos do funciona- propomos aqui ~enão levantar seus primeiros elementos.
mento desses sistemas. de equivalências:
mordre :::: «entamer avec les dents" Se a definição le:dcográfica parece ainda relativamente próxi·
_entamer ,.., "toucher ( à une chose intacte) en lui portant la ma da definição lógica, cuja formulação ela imita quase semp re,
premiere atteinte" a definição das palavras cruzadas, em compensação, pode nos
dar uma visão mais exata do funcionamento "normal" de uma
toucher • :::: "entrer en contact avec quelqu'un ou quelque língua natural. Um problema de palavras cruzadas dos mais
chose"; etc. YU]gares, escolhido no France-Soir, nos propõe ao acaso as seguin-
( Dictionnaire Général), tes definições:
correspondentes mais ou menos aos verbetes em português:
Compétition "competição" :::: "proYa esportiva"
m order ~ · "comprimir ou apertar com os dentes; ferir com Taniere "toca. covil" :::: "habitação ~iserável''
os dentes'' Ballet ''balé" ::::"dança figurativa"
98
99
Désir ,.., "desejo,. "vontade nem sempre satisfeita" Esse funcionamento metalingüístico de um discurso que gira
Mer "mar" "extensão de água". perpefuamente em t omo de si mesmo, passando sucessivamente
de um nível a outro, faz pensar no movimento oscilatório entre a
Vemos que a seqüência em expansão, que se pretende equi- expansão e a condensação, a definição e a denominação. Num sis-
valente do semema que ela define, não esgota jamais o inventário tema lingüístico inteiramente fechado ( onde, além de tudo, os
sêmico deste, mesmo que comporte um certo número de semaSi lexemas se identificariam com os sememas, e um gato se chamaria
em comum com ele. sempre um gato), esse jogo metalingilistico seria desigual, desequi-
librado: de fato, se o sistema é definido pelo número N de termos
que o constituem, as P?ssibili~ades combinatórias da definição, por
b) Condensação e denominação. pouco elevado que seJa o numero dado de termos seriam con-
sideráveis, ao passo que a operação inversa - a de~ominação -
Ao falar das palavras cruzadas, invertemos voluntariamente levaria as definições sempre aos mesmos termos. l!: assim, aliás,
os termos: de fato, se o lexicógrafo-cruciverbista que prepara que concebemos freqüentemente, segundo a tradição pseudo-saus-
as palavras cruzadas parte de um semema dado e lhe procura suriana, a liberdade da fala, por oposição à limitação da língua.
uma definição, o problema, tal como se apresenta ao leitor ( isto Esta última, entretanto, não é um sistema fechado, e a denomi-
nação bem como a definição se exercem aí a todo instante e gra-
é, ao nível da recepção) é composto de um corpus de definições a
ças a diversos e numerosos procedimentos.
partir das quais tem-se que achar os termos definidos. Em outras
palavras, se reconhecemos na expansão um dos modos do funcio- Não é este o lugar adequado para tentar uma descrição desses
namento metalingüístico do discurso, ela tem como corolário a procedimentos, nem de apresentar o resumo de um "Tratado da
condensação, que deve ser compreendida como uma espécie de formação ( ou da transformação) das palavras" que entretanto deve
decodificação compressiva das mensagens em expansão. "Se bem ser complelameole refeito sobre novas bases. Isso porque uma
ente ndi, você queria dizer que ... "; é assim que o interlocutor análise da denominação não depende unicamente, como se crê
condensará sempre uma exposição mais longa. Também, da rne-sma muitas vezes, da lingüística diacrônica - o que explica talvez o
forma que a expansão possui uma formulação sintaticamente deli- abandono relativo das pesquisas nesse domínio - mas, também, e
mitada, que é a defini~o ( e cujos prolongamentos lógico-científi- sobretudo, do funcionamento da língua em sincronia. Para ter-se uma
cos são consideráveis), assim também o esforço de condensação visão da amplitude do fenômeno, bastará indicar suas principais
formas.
desemboca muito freqüentemente na denominação. Basta omir
os diálogos quotidianos numa loja especializada, como uma de 1. Alguns desses procedimentos são facilmente reconhecíveis
ferragens por exemplo, para apreender ao natural o procedimento pois que são formais e funcionais; em outras palavras, porque ser~
da denominação; âs definições li\Tes do comprador que busca: vem essencialmente à denominação.
a) Assim ocorre com a derivação, que constitui, em boa
un machin pour ( um negócio para ... ) parte, um sistema de classificação e, ao mesmo tempo, os quadros
une sorte de ( uma espécie de ... ) da denominação simples. l!: assim, por exemplo que se elabora em
francês, no século XVIII, todo um léxico de ativÍdades tecnológicas:
une chose dont on se sert ( uma coisa que se usa p.µ-a .•. ) a partir tanto do nome de um instrumento, como do da matéria
une espece de truc qui ( uma espécie de trem que ... } traba~ada, o sis~ema denominativo oferece os quadros vazios
un bidule ( um troço) , etc., própnos para designar o produtor, a atividade produtora., o pro-
cesso, e, enfim, o lugar de produção. J. Dubois, numa obra recente,
correspondem às denominações, às vezes adequadas, às vezes so- observou bem o problema, e qualquer insistência de nossa parte
mente exploratórias, <lo ,;endedor. seria redundante.
J(X) 101
b) O mesmo ocorre com a utilização acidental do empréstim o,
mas sobretudo do procedimento que funciona universalmente e (de um alfinete ), d 'un mât (de um mastro), d'un compas (de um
sem interrupção, e que consiste na utilização de elementos lexe- co_m~asso), cfu.n marteou ( de um mart~lo). tête de pavot ( dor-
m1deira), â art1cl1aut ( de alcachofra ), d oignon ( de cebola), etc.
málicos pertencentes ao patrimônio greco-latino, comum a todas
Vemos que a figu ra nuclear funciona aí como um verdadeiro
as comunidades lingüísticas da civilização ocidental: as possibili- derivativo que ela ~ó se distingue deste, à primeira vista, pelo
dades sêmicas relativamente simples· que oferecem esses elementos
cot?portamento sintático de seu formante. Olhando um pouco
estabilizados pelas definições unívocas das linguagens científicas' ma.is de perto, percebemos, entretanto, que ela se distingue -dele
são intensamente exploradas para a composjção dos sememas denO: também do ponto de vista de sua composição sêmica: se o deri-
minadores, constitutivos das terminologias científicas modernas. vativo gramatical é formado, em princípio, de classemas, o deri-
As dificuldades em apreender e determinar a passagem da com- vativo de caráter figurativo é um modelo sêmico que depende.
posição à derivação, que foram estudadas por J. Dubois, se expli- do nkel semiológico do conteúdo.
cam pela simplicidade relativa do conteúdo sêmico das raízes
componentes que as aproxima dos derivativos. P. Cuiraud, em suas pesquisas sobre os campos morfo-sem àn-
ticos, que surgem assjm como preliminares de um· inventário desses
2. Um procedimento particular se situa a meio termo entre mo~elos figurativos. propôs um. bom número de exemplos para
den?m~aç óes que utilizam os formantes discretos, que acabamos apoiar essa concepção das classes semiológicas de derivação. Não
de md1car, e aquelas que não recorrem a tais formantes : trata-se \·amos nos deter, portanto, nesta questão.
do procedimento de identificação da definição com a denominação,
ou melhor, da consideração da definição pelo plano denominativo b) Se a denominação figurativa pode ser comparada à deri-
da linguagem. \·ação, um outro procedimento, que consiste na transferência de
uma seqüência do discurso, responsável por todas suas caracterís-
Os exemplos desses procedimentos são numerosos: se planalto, ticas nucleares e classemáticas, de urna isotopia a outra, e isso
ferro velho, ácido acético apresentam diferentes graus de amál- diante da den~minação, lembra, em compensação, o procedi-
gama sintagmático, eles se interpretam todos da mesma forma. mento de emprestimo.
De f~t?, qu~r seja pel~ expansão d~ figura nuclear que reúne dois
ou ,:a~1os !1~cleos sê";'cos em um so, ou pelo enquadram ento clas-
semahco uruco que e acompanhado pela suspensão de um certo e) Denominação translativa .
número de semas ( a denominação em relação à definição é sempre
um empobrecimento sêmfoo ), a definição discursiva se transforma ~a lista dos exemplos de definição de palavras cruzadas que
em denominação e exige, por sua vez, uma nova definição. de°:1os anteriorme nte. om~timos voluntariamente um: à definição
3. _Mas os p rocedimentos que nos interessam mais particular- gram de chapele t ( ao pe da letra, semente de rosário, isto é
mente sao aqueles que, utilizando o corpo lexemático existente _ íi~ura_damente, ::conta d~ ~osário") correspondia a resposta deno:
e e~tretanto não sistematizado ao nível gramatical, como O são os mmati~a °!:e ~ ave-mana ) . •t evidente que essa espécie de
denvados -, produzem novas unidades de comunicação de caràter denommaçao nao corresponde as con<lições gerais que determinam
denominativo. a relação de equivalência entre a denominação e a definição : não
há equivalência entre grain (•grão•, objeto do mundo exterior)
a) O primeiro desses procedimentos poderia ser designado e ave ("ave-maria", uma espécie de prece), tal como aparece,
como denominaç ão figurativa. Vimos, de fato, que urna figura por exemplo em taniere ~ "habitação" ou ballet '.:::'. "dança".
nucl~ar - como o núcleo sêmico de tête, por exemplo - funcionava Tal denominação não entra mais, do ponto de vista do pr()('edi-
na lmgua francesa como um modelo sêmico denominativo de mento formal, em nenhuma das class<'s <lenominativas que acaba-
caráter geral e recobria, enquanto protótipo uma classe ele deri- mos de passar em revista. Somos forçados, pois, a com,iderá-l a
vação aberta; tête d'un clou ( cabeça de um prego), d'une épingle como uma espécie de empréstimo interior, como a transfercn<.'i a de
lO'l 103
um segmento do discurso ( lexema ou sintagma) de um domínio constitui aqui o primeiro elemento de sua explicação: tête de negre
semântico a outro relativamente distanciado. como "parte do corpo humano" é com efeito anterior a tête de
As denominações translativas - é assim que nos propomos a negre enquanto cor. Mas, por outro lado, a expressão denominação
chamá·las - são entretanto muito numerosas. Basta retornar ao semémica, por oposição à denominação figurativa, seria também
verbete tête do dicionário Littré para encontrar aí: adequada: é enquanto "parte do corpo humano", isto é, enquanto
sintagma constituído de dois núcleos sêmicos ( ou de uma só figura
tête de loup "espécie de espanador" em expansão) e sobretudo da totalidade dos classemas tais como
tête de turc ,.., "espécie .de bigorna" puderam ser depreendidos pela análise contextual anterior, que
tête de negre ...., "cor ... " tête de negre passou a ser utilizado para designar uma certa cor
tête à tête ~ "serviço de chá'' morena ou cinza - o que não é de maneira alguma o caso de
t~te de canal. Embora tendo ainda" que precisar em que condições
aos quais podemos acrescentar uns bons cinqüenta nomes de plan· tête de negre pode funcionar metalingilisticamente, isto é, pode-se
tas, moluscos, peixes, aves, do tipo: colocar como equivalente de uma certa cor, não há dúvida de que,
nos casos desse tipo, é no semema e não na figura que é preciso
tête de coq } nomes de plantas situar o termo a quo do procedimento de transferência.
tête d'âne
tête de serpent l nomes de moluscos Observação: Esta distinção entre den.ominações figurativas
tête d'araignée ~ e denominaÇ-Oes translativas ajuda a esclarecer um problema
Ute d'âne l nomes de peixes que, embora secundário~ não deixa de inquietar os etimolo-
tête de lievre 5 gistas: .se a denominação figurativa vai do concreto para o
abstrato, a denominação translativa pode ser orientada no
tête de chien } nomes de serpentes, efo. • sentido oposto ( cf. ave "prece" > ave, "conta de rosário").
tAte noire
Se, em vez de considerar o funcionamento metalingüístico do
A designação de denominação translatii.;a parece convir a esse discurso ao nível da transmissão, adotarmos o ponto de vista da
tipo de procedimento na medida em que a pressuposição 16gica recepção das mensagens e da análise do texto transmitido, cons-
tatamos que :
( • ) Veja-se p rocesso semelhante cm po_rtugués: 1. t;: o novo contexto no qual se integra o seméma transferido
abeça-de<avalo: c:ino de madeira que leva água aos cubos das rod.u que lhe fornece seus novos classemas ( C 1 s) ;
dos engenhos copeiros.
2 . O semema original, aquele que é invocado para servir de
cabeça-de-prego: ... pequeno abc:-sso, espinh.i.
denominador, constitui, com seus semas nucleares e seus classemas,
abeça-de-lobo: osso da parte dianteira dos animais.
uma nova figura para o novo semema denominativo: (Ns + Cs)
ou ainda: = N1s
cabeça-d.e-boi } Conseqüentemente, o semema denominativo transferido, pode
nomes de plantas ser representado pela seguinte fórmula:
cabeça-de-frade
cabeça-de-fogo }
cabeça-de-pedra
nomes de aves Sm (t) = {Ns + Cs) Cis.

a beça-azul l Observação: Não é inútil precisar que essa colocação entre


cabeça-de-burro J nomes de peixes (N de T.)
parênteses dos semas originários do semema transferido pro.

104 105
voca perturbaçôe§ importantes no dispositivo: certos semas e) Análise das denominações figurativas.
somente serão utilizados nessa função metalingüística; outros,
ao contrário, serão "suspensos". Mas sua suspensão não sig- A primeira subclasse do inventário se apresentará como o re-
nifica seu desaparecimento: sem seu reaparecimento em sulta~fo de uma pré-análise, referente, ao mesmo tempo, aos con-
certas condi~s determinadas, o funcionamento plw:ilinear textos e às figuras dos lexemas gue a constituem:
do discurso seria incompreensível brisé
rompu
O último problema que se coloca, finalmente, é o da existência éreinté
échiné "romper"
de domínios semânticos suficientemente autônomos para justificar
a noção de transferência que acabamos de utilizar. Só uma re- roué
flexão mais aprofundada sobre a natureza e o papel dos classemas esquinté
poderá esclarecer um pouco a questão. vanné "sacudir"
lessivé "esfregar"
d) A dupla função doa clauemaa. broyé }
1freqüentativo
moulu "triturar"
Num dos capítulos precedentes, tentamos definir os classemas
pelo seu caráter iterativo e por sua extensão sintagmática1 que, vid-é
mais ampla que a dos lexemas, dava conta da linearidade semân- crevé
tica, relativamente homogênea, .do discurso. Nossa reflexão atual pompé
busca precisar um outro aspecto do discurso, sua "elasticidade'' (cf. coup de pompe)
que, reconhecível graças às manifestações conjugadas da expansão épuisé "esvaziar" ( o que está cheio)
e da condensação, faz aparecer pouco a pouco um novo papel époumoné
atribuível aos classemas: o de constituir o quadro da organização claqué
do universo semântico. Vimos que, na medida em que dois seg- ( associado ao ruído
mentos do discurso, de extensão desigual, podem ser considerados de explosão) (•)
um como a definição, e outro como a denominação de uma só
unidade de conteúdo, esse fato não podia ser interpretado senão Tal inventário - e a subclasse que dele extraímos - só pode
pela existência em comum de vários semas idênticos. ~ -aqui que ser evidentemente aproximativo: por razões claras no plano prá-
aparece uma nova função, classificatória, de uma determinada tico, mas que não se justificam teoricamente, os limites desse
espécie de semas.
O exemplo que vamos escolher para evidenciar esta nova !un- {*) Observe-se, cm português, que cm rei.ação a "fatigado" temos, entre
ção nos foi fornecido por A. Martin, que, sintetizando num recente outras, as seguintes possibilidades:
colóquio as pesquisas do Centro de Nancy sobre os problemas da
sinonímia, se serviu do campo sinonímico de f atigué ( cansado, arrebentado }
esborrachado "romper"
fatigado) para ilustrá-los. t esse material - o lexema f atigué eJJourado
comporta em francês moderno uns cinqüenta sinônimos, ou melhor,
para-sinônimos - que vamos utilizar. mofdo ~
esgotado } ••esvaziar'' {N. de T .) .
extenuado

106 l (ll
estudo nlio permitem proceder a cada momento a exemplificações de um número relativamente ele~ado de figuras; outros núcleos
fund adas em análises exaustivas. Para ser completo, o inventário parecem, ao contrário, caracterizaqos pela presença comum de um
deveria se apresentar como o resultado de um duplo procedimento sema relativamente secundário na economia da figura nuclear, o
analítico conduzido exaustivamente da seguinte forma: da ·"iteratividade''.
1 . De um lado, ele pressupõe a análise distribucional que Entretanto, um sema comum a toda subclasse se depreende,
pennite considerá-lo como uma classe de lexemas comutáveis, si- apesar de tudo, embora só o seja devido ao emprego inconsciente
tuados dentro de um contexto-invariante ( ou e.-entualmente de da forma verbal para designar os semas que queremos sublinhar:
vários contextos complementares). Essa análise visa ao registro ass~ todas as figuras inventariadas se apresentam sob seu aspecto
de um certo número de classemas que tornam possível a consti- dinâmico e não estático. Designamos, por prudência - já que não
tuição do semema. que é, como sabemos, resultado da combinação sabemos muito bem qual é exatamente o sema que caracteriza a
dos sentas recobertos pelo lexema com aquelas que extraímos classe do verbo - , com o nome tradicional de processo esse caráter
do seu contexto. Assim, no caso preciso de fatigué, um contexto dinâmico das figuras.
como:
A pres une journée de travail, fe me sens . . . O Análise das denominações translativas.
( após um dia de trabalho, eu me sinto . .. )
Dispomos, assim, de um certo número de classemas:
permite levantar os c1assemas que, sendo comuns à subcJasse in-
teira, são ao mesmo tempo isotópicos em relação ao contexto :
processo + animado + causado,
são os classemas "animado" ( vs "inanimado") e "causado" ( vs que vamos considerar, até p rova em contrário, como constituindo
"causante" ). A isotopia de "animado" é confirmada pela presença a base classemática comum a todas as ocorrências do inventário.
redundante desse sema no sujeito fe (eu) e em trav ail (trabalho ); Essa base classemática nos permite, efetivamente, introduzir
a de "causado", pelo · flexivo do particípio passado e pela prepo- e examinar novas subclasses do inventário. Permite sobretudo
sição apres (após ). compreender melhor o procedimento da denominação translativa.
Assim, uma nova parcela de ocorrências:
Observação: Algumas dessas ocorrências exigiriam prova- à plot ( "estendido" ou ''esticado")
velmente uma análise classemática mais aprofundada: assim, sur le flanc ("estirado" ou "acamado" )
crevé ( estourar, vazar) necessita da depreensão da oposição sur les genoux ("de joelhos, "prostrado ... ")
classemática "animal" vs "humano". sur les rotules, ("de joelhos" ) ( • )
2. Por outro ladQ, a extração de uma subclasse do inventário constitui uma subclasse de denominações translativas somente
pressupõe uma análise semiológica dos núcleos de cada um dos se admitirmos que o dispositivo de enquadramento classemático
lexemas tomados separadamente. Uma outra forma de análise já está instalado, anteriormente ao procedimento da própria de-
distribuciooal se encontra assim subentendida: consiste em consi- nominação.
derar todos os contextos possíveis ·de cada lexema como variáveis
e visa a extrair para Gada um dos lexemas um núcleo invariante.
t somente a comparação dos núcleos assim obtidos que vai per- ( *) As· formas citadas cm franc!s não correspondem (sobretudo as duu
primeiras ), em termos classemáticos, à tradução em português. Veja-se a ioeim-
mitir cónstatar que as figuras nucleares possuem um ou vários ttncia nos exemplos cm francês do sufixo de particípio passado. Um occmplo
semas em comum. São esses semas comuns, quase hipotéticos, que corrente no português que poderia ilustrar o problema levantado pelo autor
acabamos de ~ crever, a fim de ordená-los um pouco, à margem sem a expressão " (estar) de quatro'' quando utilizada no sentido dí: "csw
do inventário : «romper" e "esvaziar" parecem, assim, fazer parte utcnuado". (N. de T .)

108 109
Observamos depois, por outro lado, o papel particular que 1. Na medida· em que a descrição se preocupa unicamente
desempenha, -na constituição dessa subclasse, o classema "cau- com o estabelecimento ela isotopia do discurso em vista de sua
sado"; presente, no inventário precedente, sob a forma do flexivo análise semêmica, a redução do inventário pode ser obtida
do particípio passado, isto é, na sua manifestação classemática aéeitando-se o procedimento lexicográfico que substitui pelo enun-
por excelência, ele surge aqui, ao contrário, como o denominador ciado das sinonímias a pesquisa das definições. Assim, quando o
comum de todas as figuras nucleares secundárias da subclasse. Dictionnaire général brinca de e sconde-esconde, propondo as defi-
Duas observações, de caráter mais geral, decorrem daí: nições que se seguem:
1. A função particular assumida pelo classema "causado" rendu "fatigué, harassé", "fatigado, extenuado"
esclarece até certo ponto a organização interna da base clas~má- fourbu ....., "harassé", "extenuado"
tica que acabamos de estabelecer. O classema "causado" é, de recru "'harassé de fatigue•, etc., "extenuado de fadiga''
fato, o termo que pressupõe esta base, cujo classema "processo"
enquanto "causante'' é o termo pressuposto: assim, as figuras estamos autorizados, no quadro da análise tal como a delimitamos,
nucleares invocadas para servir de denominadores e reunidas pelo a considerar que o inventário, de 5 lexemas, se acha reduzido a 2:
classema ''causado" pressupõem, efetivamente, o sema "processo"
ao qual corresponde, no nível nuclear, uma figura sêmica carac-
fatigué
terizada pelo sema "prostrar" ( está-se à plât ou sut les genoux
harassé;
somente após um processo pressuposto de "prostração'' ).
2. Para descrever uma subclasse assim reduzida, podemos
2. O papel desempenhado, nessa última subclasse, pelo clas- propor um novo procedimento, que consistirá numa análise das
sema "causado" não é tão diferente daquele desempenhado pelo
denominações por suas definições. Um duplo resultado pode ser
classema "processo" na primeira: ambos servem para classificar atingido dessa forma :
as figuras nucleares, introduzindo, assim, no domínio semiológico
os elementos de uma taxonomia. a) Dada a equivalência da denominação e da definição,
caracterizada pela presença de um certo número de semas comuns
às duas formulações sintagmáticas, podemos admitir que a análise
q) Análise definicional das definições nos informará sobre a natureza dos semas ( se não
de todos, pelo menos de um certo número deles) implicitamente
O inventário "sinonímico" proposto por A. Martin comporta contidos na denominação. Como, de outro lado, a composição
lexemas que dificilmente se submetem aos procedimentos de da base classemática das duas espécies de ocorrências já nos é ,
análise propostos. Se a análise contextual, que permite o registro em princípio, conhecida, o interesse da análise das definições
dos classemas, parece fácil e apenas confirma os resultados já consiste sobretudo nas possibilidades de desvendamento das figu-
obtidos. a análise semiológica e a explicação dos núcleos sêmicos ras nucleares das denominações não moti,·adas, consideradas como
não são muito claras. t verdade que poderíamos considerar, com "abstratas", isto é, desprovidas de conteúdo semiológico;
razão, como negligenciável, a dimensão diacrônica e remontar ao b) Tal exploração dos definidores nos permite - e isso tem
latim para procurar aí a etim9logia, reveladora do núcleo sêmico decorrências - dilatar o inventário e introduzir nele, segundo o
original de fatigare. Mas isto consistiria em afirmar, gratuitamente princípio de equivalência, todas as definições possÍ\'eis das ocor-
e sem apoio em prova alguma, a permanência das figuras nuclea- rências lexemáticas compreendidas no inventário.
res, que nos parecem históricas e não acrõnicas, como o queria A aplicação desse princípio de equivalência entre os definidos
Jung e seus seguidores. e os definidores, contanto que não levante clificuldad~s técnicas
Dois procedimentos suoossivos poderiam ser considerados em Intransponíveis, poderia talvez resolver bom número de problemas
casos desse tipo: deixados· em suspenso no domínio da documentação mecânica.

110 111
Retomando ao exemplo dado por J. G. Gardln, poderiam ser re- Obsertaçãos Para poder citar diretamente o Dictionnaire
gistrados, sob o termo denominativo de "'inibição", todas as seqüên- -général, apresentamos aqui a análise da forma infinitiva, e
cias definicionais ( do tipo arrêt provoqué par - parada provo- não da forma participial. A flexão particípio apenas acres-
cada por) reconhecidas como tais graças a uma codificação sêmica centa, uma vez mais, o sema redundante "causado".
prévia das denominações. .
Mas retornemos à análise definlcional dessa última classe re- Essa amostra de análise permitirá não somente encontrar na
duzida do inventário. O esquema abaixo dará conta, de maneira definição todos os classemas - o que confirma a isotopia redun-
mais econômica, dos passos que esse procedimento implica: dante do discurso - mas também os elementos da figura nuclear.
O fato de que ela se acha caracterizada pelo mesmo sema "px:os-
Denominação -fatlque,- ("'fatigar") trar'' de uma das subclasses estudadas anteriormente não é, talvez,
devido ao acaso; a possibilidade da descoberta dos elementos
nucleares nos parece satisfatória.
PROCEDIMENTOS APLICAÇôES
Uma vez estabelecido o procedimento, podemos prosseguir esta
mesma análise integrando nela novas ocorrências do inventário.
Primeira definição abater pelo disprodio de força A apresentação dos resultados pode também ser simplificada:
~

Derrubar (dando
Definição dos scg- vários golpes) natividade
mcntos da primeira DENOMINAÇÕES DEFINIÇÕES
alguém que csti causante"
definição de pé ,.
( "processo" balbrener exceder de fadiga
Equivalências "prostrar" "causado" + "animado")
$êm:icas + "causante" exceder ...... .............. íadiga (uma montaria),
sumuner ............. ...... .... ..... de fazendo-a oimiohllr
mais depressa ou por mais tempo .... .................
PlOCE.DlMENTO.S APLICAÇÕES ..... .......... .. ..... ...... ir . ... ......... .....
excéder
além do limite .............. .......
Primeira fadiga (d. esquema anterior)
derrubar de
definição Equivalêncw
" transgressão (de uma norma)" "causado" "proccsso" + "animado"
sêmicu
Definição dos seg fazer sucum· derrubar alguém dispêndio
mentos d3 primei- bit sob o peso por
que está de pé de força Observação: o classema "causado", quando não está lexi-
ra definição
calizado na definição, aparecerá nas formas do particípio
( "processo" passado.
Equivalências "prostrar'' ''causado" "prostrar" "causado" + "animado")
s!micas + "causante" Vemos que a análise dessa nova parcela não traz nada de
novo com exceção do sema aspectual "transgressão" ( de uma
norma), único índice da participação do nível semiológico na
elaboTação da articulação do discurso. Tal como está, ocupa,

112 113
entretanto, na economia geral do semema, o lugar que cortes- A interpretação desse esquema permite sublinhar certo
ponde às figuras nucleares. número de pontos:
1. As bases classemáticas das denominações, que se identi-
h) Construção dos sememas. ficam com os elementos genéricos das definições, constituem qua-
dros gerais, nos quais podem ser lançadas numerosas unidades
A análise desse inventário, embora pudesse parecer muito de comunicação, de dimensões sintáticas desiguais, e permitem
longa quanto à finalidade que lhe havia sido atribuída inicial- considerar com menos inquietação a possibilidade de análise dos
mente, nos pareceu útil na medida em que exemplificava, ao textos caracterizados por oscilações metalingüísticas do discurso;
mesmo tempo, os procedimentos de denominação e precisava as
2. Os sememas construídos, em compensação, só se identifi-
condi~s de integração das definições no inventário inicialmente cam parcialmente com os semem·as-ocorrências. Se o semema cons-
lexemático. Ela mostrou sobretudo como uma classe de ocorrências
truído esgota em princípio todos os classemas, ele se satisfaz, ao
-relativamente extensa poderia ser reduzida a um só semema, que contrário, com o número mínimo, mas suficiente, dos semas,
podíamos chamar "semema construído" para distingui-lo dos se-
presentes ao mesmo tempo como elementos especüicos das de-
memas ocorrenciais. finições e como elementos cónstitutivos das figuras nucleares.
O progresso metodológico obtido assim na conceitualização se- Vemos assim surgir a direção assumida necessariamente pela
mântica nos parece não negligenciável. O conceito de "sernema análise semântica, que tende a valorizar a organização classemá-
constru{do" libera assim a descrição do conteúdo dos últimos tica do universo significante às custas de uma perda de subs-
vínculos que esse último poderia ter com a manifestação discursiva : tância semiológica;
o semema assim concebido é uma unidade de conteúdo, inde- 3. Precisa-se igualmente o papel dos elementos semiológicos:
pendente de sua cobertura lexemática e de seu contorno contextual. estes têm por função reduzir a excessiva generalidade do quadro
Por outro lado, o duplo estatuto das categorias classemáticas, e classemático, servindo de especificadores de classe, de subclasse e
ao mesmo tempo do nível semântico da linguagem, se coloca em finalmente de cada ocorrência semêmica. Se a especificação má-
evidência quando se parte de tal concepção do semema: elas xima, devido à consideração em que se leva a figura nuclear in-
fundam, de um lado, a isotopia sintagmática da manifestação da teira, dá conta da unicidade de cada semema, novos elementos de
significação; constituem, por outro lado, o quadro paradigmático ordem se manifestam já, sob a forma de semas comuns a várias
geral da classificação do universo significante. denominações ou a várias definições, para constituir, como vimos,
O esquema abaixo precisará melhor a articulação interna do agrupamentos de núcleos. Uma nova forma de· análise, esta de
semema construído: ordem estilística, pode por conseguinte, ser tentada: procuraria
ela estabelecer isotopias serniológicas e constituir classes de
figuras nucleares. Embora recusemos enveredar, no momento,
MODO DE PllSENÇA nessa direção, temos, no entanto, que indagar se não existe um
SE.MEMA CONSTI.UÍOO
NO DISCU&SO denominador comum a toda classe de elementos específicos que
Denominação . base classcmática figura nuclear
permitem justificar a escolha dos núcleos à primeira vista hete-
róclitos, chamados a desempenhar o mesmo papel no semema
Definição elementos genéricos elementos c_spccificos construído.
Exemplo: invcntúio "romper"
parassinonlmico de "processo" + "animado" ''esvaziar,.
fatígu.i + "01usado" "prostrar"
"transgredir (uma normà)"

114 115
D Isomorfismo das figuras. s. 0 CONDIÇõES PARA O ESTABELECIMENTO DA ISOTOPIA
Tal denominador comam eA-iste efetivamente: é o sema de
a) Deftnlção oblíqua.
um tipo particular que de\·e ser considerado como um dos termos
da categoria sêmica: Nossas preocupações caracterizaram-se até agora pela pe3-
euforia vs disforia. quisa das equivalências entre as seqüências de dimensões de-
siguais do discurso: os procedimentos que acabamos de propor
devem permitir enfrentar as dificuldades bastante numerosas rela-
De fato, parece que os elementos semiológicos, tais como tivas à existência, no discurso, de todas as espécies de locuções
"romper'' "esvaziar'' "transgredir ( uma norma),, ( cf. o advérbio e de circunlocuções "figuradas" e perifrásticas, conduzindo todas
francês trop, excessivamente) só vêm especificar a definição, ou elas a um plano isotópico de- significações. Entretanto, outrds
enriquecer, pela transferência denominativa, a classe de equi- tipos de expansão e, por isso mesmo, de definição, ainda não
valência do semema inventariado, porque são todos apreendidos estudados, são possíveis: eles tornam mais difícil o estabeleci-
como disfóricos. Diríamos que tudo se passa como se, ao nível mento das equivalências, talvez até impossível.
da· percepção onde situamos essas figuras, uma categoria sub- 1. Tomemos como exemplo o período bem conhecido de
jetiva, proprioceptiva, viesse a seu encontro para binarizá-las numa
.Bossuet:
espécie de a priori integrado na própria percepção. Quaisquer
que- sejam essas especulações epistemológicas, um exemplo toma· Celui qul regne dans les cieux
do do francês corrente e muito próximo de certos núcleos sêmicos et de qui relevent tous les empires,
estudados, a oposição à qui seul appartient la gloire, la majesté et
l' indépendance,
gonfl.é (inchado) vs dégonflé (desinchado) , est aussi
le se-ul qui se glorifie de faíre la loi aux rois
mostra bem o caráter dicotômico da categoria da qual apenas o ( qui se glorifie) de leur donn er, quand il lui
et
sem.a "disfórico" se manifesta no semema fatigué. Vemos que plait, de grandes e de terribles leçons.
os d ois sememas de nosso último exemplo, que possuem, graças
ao dispositivo classémático diferente, um conteúdo distinto de
f atig-ué, se articulam, entretanto, · segundo a categoria "euforia" Aquele que reina nos céus
vs "disforia". A importância dessa categoria proprioceptiva na e de quem provêm todos os impérios,
organização dos microuniversos significantes valorizá.dos não ne- a quem só pertencem a glória, a majestade e
cessita ser salientada. a independência,
• é também
Observação: O caráter incompleto da análise que com- o único que se glorifica fazendo a lei aos reis
porta apenas procedimento de redução, não permite dizer se e ( que se glorifica ) por dar-lhes, quando lhe
a base classemática, determinada unicamente pelo sema "dis- apraz, grandes e terríveis lições.
fórjco" e que poderíamos traduzir como "resultado desagra-
dável de uma atividade" sem levar em conta a implicação t fácil dizer que esta definição - já que se trata de uma defini-
propriamente semiológica, é suficiente por si niesma para dar ção - pode ser condensada sob a forma da denominação Dieu
conta do semema fatigué em seu conjunto. (Deus}. Mas tal condensação só é evidente para nós na medida
em que pressupõe o conhecimento, anterior à' descrição, de uma
116 117
il) para colocar em evidência o tipo estrutural da definição,
certa civilização cristã monárquica, em outras palavras, de um procedamos inicialmente a certas transformações.
"universo semântico armazenado". Tais não são, entretanto, as
condições normais da descrição do conteúdo, e os diversos pro- O elemento genérico, incumbido de estabelecer a equivalên-
cedimentos da análise são, por definição, destinados a prescindir cia com a denominação, está presente na definição sob a forma
do saber inato. do anafórico lui e comporta apenas o classema "atuante''. Dado
que a função fait clore comporta o sema '<factit;ivo", podemos
A seqüência escolhida, considerada em si mesma, fornece
as seguintes informações: transformar X, que é um falso destinatário, em um destinador-
-sujeito. Obtemos, assim, o enunciado incompleto:
a) De um lado, propõe índices genéricos de equivalência
que são celui (aquele) e le seul ( o único) . Eles nos permitem X cUJt (encerra) Y.
registrar os classemas "atuante" e "unicidade" que são, como
podemos observar, de caráter demasiado geral para que se possa Mas a transformação da função F, de factitivo em não fac-
postular uma denominação a esta definição. titivo, só é possível se, ao mesmo tempo, transformarmos o atuan-
b) De outro lado, ela é composta de uma série de epítetos te Z, presente como sujeito, em circunstante-adjuvante. O enun-
em expansão, que se supõe especificarem os elementos genéricos ciado completo tomará então a forma seguinte:
pela atribuição de um certo número de qualificações. X cl6t Y à f aide de Z
Diremos que tal definição é oblíqua, porque pressupõe a pos-
sibilidade de estabelecer a equivalência com a denominação, sendo (X conclui Y com a ajuda de Z).
a base classemática insuficiente, a partir dos elementos especí-
ficos apenas ( ou quase apenas) . Observação: O interesse do exemplo é bem limitado para
2. Um segundo exemplo, por se apresentar em condições que nos autorize a lançar-nos na formulação de regras àe
onde qualquer cultura semântica anterior está ausente, precisará transformação. Nós o deixamos, pois, de bom grado, em
melhor a natureza da diliculdade. Seja uma definição de pala- sua forma ingênua.
vras cruzadas:
Vemos que a definição assim transformada apresenta muito
Un coup de langue lui fait clore un bavardage parfois familier. mais claramente uma nova variante da definição oblíqua: a base
classemática, insuficiente, e aí especificada, não mais por qualifi-
(Uma calúnia o faz encerrar uma fala às vezes f amiliar). A
cação, mas pela predicação.
questão prévia que se coloca é a seguinte: podemos analisar tal
definição e chegar a enç:ontrar o termo denominador que a con- b} Independentemente de seu caráter oblíquo, a definição
densa? Se não, quais são as razões de sua ilegibilidade? proposta apresenta uma outra particularidade: nenhwn de seus
Para responder a isso, tentemos uma análise formal . dessa elementos é a priori unívoco. Sem falar de X, que está ainda
definição. Esta se apresenta como uma proposição que comporta: para ser encontrado, tanto Y e Z como F são suscetíveis de per-
tencer a várias isotopias ao mesmo tempo. Assim, un coup de
a função F: fait clore (fazer, encerrar) langue e un bavardage parfois familier podem ser simples sintag-
e mas em expansão, quer das denominações translativas, quer enfim.
X: lui ( ele, forma _oblíqua)
das definições de segundo grau. Clore, por sua vez, pode sig-
nificar tanto «parar" ( clore le bavardage - "parar" a conversa)
três atuantes
Y: un bavardage parfois f amilier, como "fechar" (clore le bec = "fechar" o bico ).
(uma fala às vezes familiar) As dificuldades de leitura de tal seqüência são pois de duas
I Z: un coup de Zangue ( uma calúnia) espécies:

118 119
«. A definição, enquanto contexto, nã.o é isot6pica: não pelos . serviços que presta no nível do significante, ao universo
podemos postular o resto do enunciado como invariante em rela- semântico armazenado, no nível do significado, pressuposto pela
ção a nenhum dos elementos constitutivos do enunciado tomado leitura da &ase de Bossuet. l!: este quadro, entretanto, e sua
como variável. d registro dos classemas reconhecidos, geralmente, constituição progressiva que resumem metaforicamente o essencial
graças a sua redundância, tomou-se pois impossível. do procedimento descritivo.
13. Nenhum procedimento de pesquisa de equivalências po-
deria ser aplicado. Supondo que o termo Z seja assegmado em b) Conceitos sobre o mundo.
sua univocidade, entraria na definição:
X cl6t Y (un bavardage parfois familier) a l'aide d'un coup A necessidade de uma seleção cultural para resolver as dilicul-
de langue, ·aades relativas à pesquisa da isotopia do discurso, e que aparecem
claramente quando se tenta encarar as definições oblíquas, reco-
X encerra Y (uma conversa às vezes familiar) com a ajuda loca em questão a própria possibilidade da análise semântica obje-
de uma calúnia, tiva. Isso porque o fato de que tal seleção seja, no estado a.tual
de nossos conhecimentos, difícil· de ser imaginada para as necessi-
que permaneceria ainda predicativa, isto é, oblíqua. Supondo dades da análise mecânica, significa que a própria descrição
somente que a definição de Y nos desvenda o termo denominador depende ainda largamente da apreciação subjetiva do analista.
da "conversa às vezes familiar" (bavardage parfois familier) que Alguns especialistas, e os mais eminentes - pensamos sobretudo
é carta ( lettre) , a definição oblíqua: em Bar-Hillel -, chegam ao ponto de afirmar que, por não poder-
mos registrar nas memórias eletrônicas a totalidade dos conceitos
X cl6t la lettre à r aide d'un coup de Zangue
sobre o mundo, não chegaremos jamais a obter uma tradução
(X encerra a c_a rta com a ajuda de uma calúnia)
mecânica de grande fidelidade.
nos liberaria provavelmente seu segredo. O mesmo problema se observa no domínio da construção das
linguagens documentais: M. Coyaud por exemplo, em sua recente
Observação: Podemos facilmente objetar que esse tipo de tese sobre as Linguagens Documentais, evidencia a contradição
definições é excessivamente particular, representativo de interna à qual não escapam as melhores linguagens atualmente
uma técnica pouco divulgada, a das palavTas cruzadas, e construídas. Sua construção obedece efetivamente a dois princípios
não caracteriza o funcionamento normal do discurso. Se, que parecem se excluir e que se manifestam pela _d osagem desigual
no entanto, escolhemos esse exemplo, é porque o considera- de dois procedimentos, um dos quais consiste em dotar a memória
mos, ao contrário, normal; os microuniversos poéticos, mito- de uma taxonomia inata, que representa a seleção cultural ou cien-
lógicos, oníricos, etc., manifestam muito freqüentemente de tífica do universo escolhido, e o outro em imaginar os procedi-
mentos de auto-enriquecimento da memória pela integração das
maneira oblíqua suas significações. Pareceu-nos mais im-
definições, e mais particularmente das definições obliquas. Resulta
portante evidenciar as dificuldades do que escamoteá-las.
disso, quase sempre, uma metalinguagem documental capenga,
caracterizada pela redundância conceituai, o encavalamento das
A técnica das palavras cruzadas, consciente dessas dificuldades, classes semânticas, enfim, pela aúsência de coerência lógica.
vem. de fato, em auxilio do leitor, oferecendo-lhe um procedimento
suplementar, que consiste na possibilidade da descoberta progn::s- _Esse estado de coisas parece dever-se ao modo de funciona-
siva dos grafemas que recobrem a denominação procmada, e isso mento do próprio discurso, que procede tanto por constataçées
graças ao cruzamento de conjunto dos termos. denominadores num de equivalências, como por aproximações obliquas. De fato, se
quadro onisciente, construído a priori. Este quadro corresponde, um semema qualquer se define como uma coleção sêmica susce-

121
tível de adições semiológicas q~e lhe variam a expressão, ele se medipa em que aceite as regras formais do jogo - procurará
caracteriza também pela totalidade de suas determinações possí- apreender, e apreenderá espontaneamente, esta primeira isotopia.
veis, isto é, quer pelo conjunto de qualificações que podemos EI~ comporta, entretanto, certos elementos fataais que lhe
atribuir-lhe, quer pelo conjunto de predicações que admite. Neste são desconhecidos. Podemos ignorar, por exemplo, que Pres-
segundo caso, os conceitos sobre os objetos simbólicos do mundo bourg é o antigo nome de 'Bratislava, ou desconhecer tanto
são praticamente em número infinito. Uma definição de palavras um quanto outro. Do mesmo modo, o lugar onde se acham o tra-
cru-z:adas do tipo "pode-se aplicar a Nero" remete, se ·o quisermos, ~ador e seu cliente, no mome~to da suposta troca de mensagens,
à qualificação tirano, como pode corresponder a numerosos epíte- e-lhe absolutamente desconhecido, e com mais razão, conseqüen-
tos: quantas coisas podem ser aplicadas a Nero! temente, ª. distância que separa os dois lugares. Isso não impede
Mas o que se situa no limite do estabelecimento da equiva- que o ounnte apreenda imediatamente que esta distância é longa
lência obliqua é o que poderíamos designar como definição-aêon- e que o cavalo que a percorre em duas horas e meia deve ser
tecimento. Se a lembrança nervaliana do lugar "onde o pâmpano , d Todo esse conhecimento "espontâneo" , entretanto, que não
veloz.
à rosa se alia" ( ou le pampre à la rose s'allie) . pode ser salva pelo esta e °:ª"el:a alguma implicado nos fatos contidos na seqüência
englobamento desta definição no nível simbólico que lhe é pos- em questao, nao lhe pode vir - e insistimos nisso - do conheci-
tulado e onde seu caráter de acontecimento é ' bipostasiado como mento dos acontecimentos, mas unicamente do contexto global,
"unicidade" no tempo e no lugar de um acontecimento do qual mesmo se este não lhe é dado senão por uma breve apresentação:
se ignora tudo, como adivinhar se "quem passeia boje pelo Hyde Un maqui~non offre à son client un cheval de selle.. . O contexto
Park, com um ovo de avestruz na mão" é efetivamente Bar-Hillel, e anuncia efetivamente pela soma de informações que contém e pela
não uma outra pessoa dentre os 9 milhões de londrinos? utilização de um grafema sintático ( : ) ( ou de um fonema suora-
-segmental. no caso da comunicação oral), e com uma probabili-
dade elevada:
e) A limitação do tex1o. a) ama mensagem ulterior
Vistas nessa perspectiva, não apenas a análise mecânica, mas b) cujo falante será o tratador,
qualquer descrição de conteúdo pareceriam impossíveis. As defi- c ) cujo sujeito-propósito será o cavalo de sela
niç-ões, felizmente, não se apresentam jamais ( à exceção de alguns d ) e cujo predicado comportará a atribuição de qualquer
tipos formais particulares, como palavras cruzadas, enigmas, etc.) qualidade positiva ao sujeito do enunciado a ser emitido.
isoladas, mas integradas num te1,.'to, e os acontecimentos aí rela-
tados são provavelmente às vezes imprevistos, mas jamais gra-· yemos que a informação esperada é. em boa parte, prede-
tuitos. Um exemplo de Freud (Mots cfEsprit) nos dará de uma termmada pela isotopia do contexto: consistirá na escolha de ama
só vez a medida das dificuldades e as indicações quanto à direção das variáveis dentro da classe das qualidades positivas possíveis
pela qual soa solução deveria ser procurada: de um cavalo de sela. Entretanto, a mensagem realmente mani-
"Um tratador de cavalos oferece a seu cliente um cavalo de fe~da pela prese~ça dos termos "partida" e "chegada" não atri-
sela: - Se o Sr. tomar esse cavalo e partir às quatro horas da bm ao cavalo senao o predicado "deslocamento". A verdadeira
manhã, o Sr. estará às seis e meia em Presbourg. - E o que é função dessa mensagem se mostra, por conseguinte, claramente:
que eu vou fazer em Presbourg às seis e meia da manhã?" consiste unicamente em selecionar, em especificar, com o auxílio
do predicado "deslocamento", o termo genérico, compatível com
Nessa história, a segunda isotopia, quase literal, pressupõe e~?· d~ntro do paradigma das qualidades do cavalo, e toda a se-
evidentemente - e isto é a própria condição do. impacto espiri- quência de acontecimento é apenas a definição obliqua de cavalo:
tuoso - a existência de uma primeira isotopia não literal. Efeti-
vamente, todo ominte "médio e cultivado" ( Rifaterre ) - na "o cavalo é ( um cavalo) rápido".

122
Compreendemos melhoI agora o procedimento do pensamento das no texto são determinadas pelas definições que estão presentes
cognoscente, que, por ser dedutivo (já que o cavalo é rápido, a nele, e unicamente por elas, de tal modo que o texto constitui um
distância que terá de percorrer deve ser longa ) , nos dispensa do microunive rso semântico fechado em si mesmo. Essa propriedade
conhecimento real dos acontecimentos relatados. Não é demais,- semântica do discurso torna legítimas as descrições parciais, estabe-
por conseguinte, sublinhar a importância metodológica desse fato lecendo uma espécie de equação entre os textos finitos e os universos
para a descrição semântica, que se acha assim liberta de um de significantes fechados. Ela não oferece, entretanto, solução defi-
seus mais sérios "handicaps": ela começa .pelo estabelecimento nitiva para a descrição dos universos semânticos abertos, caracteri-
de uma isotopia assegurada, sobre a qual se situarão as mais zados pelo afluxo contínuo de infonnaçôes.
estranhas e inesperadas figuras.
As definições, mesmo que sejam de acontecimentos, podem. d} Do texto individual ao c:orpua. coletivo.
conseqüentemente, ser denominadas, com a condição, entretanto,
de que se encontram situadas dentro de um texto isotrópico, sufi- O caráter idioletal dos textos individuais não nos permite
cientemente denso e longo, isto é, comportando a informação neces-
esquece r o aspecto eminentemente social da comunicação humana.
sária ao enquadramento classemático das seqüências não isotópicas. f: preciso, pois, ampüar o problema colocando como princípio que
O estudo de Tahsin Yücel sobre o Imaginário de Bernanos nos
um certo número de textos individuais, com a condição de serem
mostra, por outro lado, que o número de epítetos que determinam escolhidos segundo critérios não lingüísticos que garantam sua
o lexema m orte e que lhe são, pois, compatíveis, se reduz rapida- homogeneidade, podem ser constituídos em corpus e que este
mente à leitura dos textos e que o inventário em pouco tempo corpus poderá ser considerado como suficientemente isotópico.
se acha definitivamente fechado. Podemos, portanto, começar
uma noYa operação: por pouco que os epítetos apareçam como Para termos uma idéia do que pode ser tal isotopia coleth ·a,
redundantes em outros. lugares do texto ou que tendam a se subs: tomemos como exemplo um corpus em miniatura, constituído de
tituírem aí um aos outros, eles permitem descobrir, graças a este con- respostas dos estudantes de filologia francesa na Faculdade de
torno contextual estável, novas denominações de morte, tais çomo Poitiers (196.'3 ) dadas aos inícios das frases a serem completadas
boue ( barro ), ennui ( tédio, fastio) ou solitude (solidão ). Pro- do teste projetivo de Stein. Sendo a seqüência indutora :
cedimentos de estabelecimento da isotopia cada vez mais seguros
poderão, pois, ser elaborados progressh-amente. M on destin est . . .
( Meu destino é ... )
As possibilidades que nos oferecem, para exploração do uni-
verso semântico, o caráter isotópico do texto e sua tendência a as resp ostas, comp lementos definiciooais de destino, se distribuem,
se fechar em si mesmo se acham confirmadas pelas observações segundo os classemas:
de Jean Dubois a respeito do desenvolvimento do discurso nos
afásicos. Em sua comunicação no Colóquio Internacional de bom (10) vs mau (11)
Lingüística Aplicada de Nancy ( 1964) , ele insiste, ao falar da
polissemia sintagmática, numa particularidade observada do texto determinado (9) vs nem determinado nem indeterminado ( 4) vs
continuo: prolongando-se, ·o texto toma-se não somente cada vez não determinado (9).
mais redundante e introduz, cada vez menos, informação, mas, por
causa das red undâncias das estruturas preferenciais, ele desen- Observação: o resto das respostas . ( 7) se apresentam.
volve ao mesmo tempo um subcódigo autônomo. tanto como de~ções de acontecimentos do tipo:
Essa limitaçá<;> do texto pelo esgotamento da informação lhe ensinar filologia.
confere seu caráter ·id{oletal: efetivamente, as denominações conti- viver na França

124 125
quanto como respostas "originais'': determinado", ao pas~o que o classema ºjulgamento" implica a
resposta "bom'' vs "mau".
ser diabólico,
preencher test~s idiotas, etc. Pouco importa que o procedimento considerado aqui seja o
que vai do denominador ao definidor, e não inversamente, como
que seriam fáceis de classificar, mas que deixamos de lado ocorria nos procedimentos de solução dos problemas de palavras
para melhor clareza de nossa exposição. cruzadas estudados anteriormente. Vemos · aliás que, partindo dos
denominadores, o autor de palavTas cruzadas poderia facilmente
Uma outra seqüência indutora, situada com intervalo de quin- fabricar um número igual de definições: "pode ser bom ou mau",
ze questões, era formulada de maneira um pouco diferente: "é freqüentemente impenetrável" são definições de palavras cru-
zadas típicas de destino.
Jean pe·nsait que son avenir .. .
(Jean pensava que seu futuro .. . ) Isso posto, as variações individuais dentro de uma isotopia
coletiva constituem um certo número de escolhas, que se escalonam
Recebeu ela respostas fáceis de serem classificadas em: hierarquicamente:
bom (12) vs mau (25) 1 . D entro de base classemática:
determinado (9) vs não determinado (6) . a) escolha da categoria classemática entre:
determinado/ não determinado vs bom/ mau
Observação: Por sua vez, "determinado" pode ainda ser
analisado "dependente de si mesmo" vs "dependente dos b ) escolba, na categoria já selecionada, entre os classemas
outros". Notemos também que avenir, ao cqntrário de destino, que articulam:
não provoca respostas "originais" . positivo vs neutro vs negativo

2 . D entro de um semema construído, caracterizado por tal


e) lsotopia e variações. classema ou tal grupo de classemas, possibilidade de escolher esse
ou aquele semema-oçorrência. Assim, a decisão de classificar o
Vemos bem o que cumpre entender, nesse caso. preciso, por futuro como "mau'' pode ser manifestado por sememas específicos:
homogeneidade não lingüística do corpus; o que permite reunir
umas cinqüenta respostas individuais ·em corpus coletivo é um con- compromis "comprometido" ( 15 respostas)
junto de caracteres comuns aos testados: o fato de perten;8rem gdché "arruinado" ( 1)
à mesma comunidade lingüística, à mesma faixa de idade; e tam- brisé "destroçado" (1)
bém o mesmo nível cultural, a mesma "situação de testados". (1)
sombre "sombrio"
No plano lingüístico, em compensação, o que permite depois sans foie "sem alegria" ( 1) ·
reunir a totalidade das respostas e considerá-las como as definições
que fazem parte de· uma classe isotópica, é a existência, na se- Esse exemplo nos permite considerar a possibilidade de con-
qüência indutora, dos classemas "futuro" e "julgamento" que pode- ciliar a exigência da iso topia do corpus, de um lado, e as varia-
mos depreender do termo denominador ( destin ou avenir ) e do ções, individuais ou coletivas das mensagens, de outro. Tais
termo predicativo ( est ou pense). Vemos que o classema "futuro'' variações se situam, finalmente, em dois níveis que nos são co-
abre, de certa forma, o paradigma seletivo "determinado" , ·s "não nhecidos: o nível semântico e o semiológico.

126 127
-
1 . As vartações ao nível semdntlco. O grupo de classemas, no entanto, fazer-nos esquecer que a comunicação h umana não é,
tal como aparece nesse exemplo preciso, se é constituído de duas como o pretendem alguns, unívoca nem unilateral. Assim, reto-
categorias classemáticas distintas, isto é, pertencentes, dentro do mando o exemplo já utilizado:
nível semântico, a sistemas classemáticos diferentes, não deha le chien du commissaire abole,
de se apresentar, por esse fato, como um feixe classemálico hierár-
quico. capaz de gerar unidades de manifestação: só podemos, efe- se o contexto mais amplo no qual se inscreve esta seqüência der
tivamente, prejulgar o caráter bom ou mau do futuro na medida sempre conta, por disjunção, do caráter "animal'' ou "humano"
em que é considerado como determinado ou indeterminável. do chien du commissaire, integrando-o em uma ou outra das duas
Assim, a base classemática surge, ao final das contas, como uma isotopias previsíveis, uma terceira solução é igualmente possível:
estrutura hipotática: podemos, de fato, facilmente representar-nos uma narrativa mais
ou menos longa onde a ausência·de escolha e ntre chien e secrétaire
determinado vs não determinado seria mantida.
1 T ais ambigüidades - e pensamos imediatamente entre outras,
1 no "Nez" de Gogol - , se se mostram, na medida em que são in-
bom vs mau tencionais, como procedimentos· retóricos, não deixam de ser por
isso características do funcionamento normal das línguas naturais.
Isso nos permite, por conseguinte, precisar o que é necessário Assim, uma mensagem do tipo:
entender por isotopia de um texto: é a permanência de uma base
classemática hierarquizada, que permite, graças à abertura dos Cet homme est un lion ( este h omem é um leão)
paradigmas que são as categorias classemáticas, as variaçées das permanece, no nosso contexto social, unívoca, e lion manifesta aí,
unidades de manifestação, variações que, em vez de destruir a pela isotopia caracterizada pela r~dundância do classema "hu-
isotopia, ao contrário a confirmam. mano", apenas os valores sêmicos de "coragem". E m compensação,
2 . As variações ao nível semiol6gico. A possibilidade de numa sociedade de homens-leões, a seqüência em questão apenas
manifestar esse ou aquele semema no lugar que lhe está reservado confirmaria a equivalência do homem e do leão, e o contexto
no texto, é condicionada pela assunção seletiva desta ou daquela amplo revelaria aí a repetição dos semas que se referem tanto à
figura sêmica. Vimos igualmente em que medida ( depreensão dos existência humana quanto à existência leonina.
semas comuns de uma classe de figuras, assunção dessas figuras Seria falso acreditar que esse tipo de bivalência seja pi;óprio
pela categoria proprioceptiva) a especificidade dos elementos se- apenas dos discursos mantidos nas sociedades ·ditas "arcaicas":
miológicos podia ser ultrapassada tendo em vista uma análise iso- o mítico difuso que transborda a todo instante, em fortes doses
tópica do conteúdo. Mas as variações semiológicas colocam já o - como o mostrou bem Roland Barthes ( não comemos apenas
problema da existência de outra isotopia, esta semiológica, «filé com fritas", absorvemos ao mesmo tempo parcelas de "fran-
e que daria conta da escolha das figuras sêmicas de um texto. cesismo") - de nossa comunicação social quotidiana- possui segu-
ramente um conteúdo diferente do discurso primitivo; sua presença
'-
0
O DISCURSO PLUR!VOCO incontestável apenas confirma o caráter sempre plurilinear da
manifestação.
a) Manifestação de uma lsotopla complexa. Por conseguinte, o que conta objetivamente, para a análise
do conteúdo, é a necessidade de reconhecer a existência, em certos
Até o presente, p reocupamo-nos e m buscar, através das dis- casos, de vários planos isotópicos num mesmo discurso. E: depois
torções múltiplas do discurso, o plano isotópico de sua m anifes- a obrigação de explicar estruturalmente essa bivalência. Esta nos
tação. Essa pesquisa, por m ais necessária que seja, não deve, parece ser essencialmente devida à recusa de desajuntar, quando

128 129
-
de sua manifestação no discurso, os termos de uma ou de várias Um problema, embora não totalmente lingüístico, pode ser
categorias classemáticas. Levando em con~ideração, _c~mo de cos- levantado a esse propósito. Parece evidente que Baudelaire não é
tume. apenas o caso mais simples, podenamo_s defini-la como a um boudoir (salão) nem Rimbaud un bateau ivre (barco embria-
manifestação, com intervalos irregulares, das articulações complexas gaclo) da mesma maneira que o guerreiro simba é lion (leão) ou
de uma categoria classemática, (do tipo "ou humano ou animal'', que um residente de um manioomio é Napoleão. 1t fácil opor a
por exemplo ) que permite o desenvolvimento, nesses intervalos, organização desejada de isotopias complexas ao funcionamento
dos planos autônomos que dependem quer de uma 9-~er de outra inconsciente do discurso, investido de mitos sociais ou individuais,
das duas isotopias, realizando tanto o termo pos1tivo como o e conceber a literatura como jogos de consciência, incumbidos de
termo negativo da categoria classemática em questão. S~ um nos obter o prazer estético pelo desvendamento das isotopias ocul-
texto qualquer satisfaz a essas condições, diremos que manifesta tas. f: verdade que certos gêneros literários, mesmo certas "es-
uma isotopia complexa. critas" que ·recobrem vas~os períodos históricos, se prestam facil-
mente a tal interpretação. Podemos nos perguntar, entretanto,
b) Ambivalência simbólica em literatura. mesmo considerando esses casos-limite, onde a chave da leitura
büsotópica é claramente indicada pela formulação explícita das
Essa conjunção sincrética dos termos normalmente disjuntos, articulações complexas das categorias classemáticas, se os semas
erigida em procedimento retórico, caracteriza às vezes certos gê- imprevistos que aparecem sobre a linha da nova isotopia assim
neros literários. Assim, Baudelaire, quando pretende ser: construída não escapam ao controle consciente do escritor bem
" ... un oieu~ boudoir plein de roses f anées, como do leitor. 1t possível que, além das distinções da consciência
Ou git tout un fouílUs de modes surannées, e do inconsciente, a comunicação poética seja essencialmente uma
Ou les pasteis plaintifs et le pâles Boucher, comunicação assumida, de uma certa forma, tanto pelo destina-
Seuls, respirent l'odeur âun flacon débouché," tário como pelo destinador.
("Sou um velho aunarim cm que um buquê dcscora / E cm que estão a jazer
figurinos de outroraº / Em que um vago Boucbcr e algum pastel magoado, / Só,
respira o odor de ~ frasco destampado," ( trad. de Jamil Almansur Haddad}] e) As isotopias e sua leitura.
apenas conjunta, estabelecendo sua equivalência, os dois termos Em nada altera a própria estrutura de sua manifestação o fato
da categoria classemática: de a isotopia complexa do discurso ser provocada pela intenção
(conteúdo) exterior vs (conteúdo) interior. consciente do leitor, ou de achar-se instalada aí sem que este o
saiba.. Ao contrário, a existência de construções intencionais de
O discurso que se desenvolverá em seguida a tal ass1:113ção planos isotópicos superpostos pode ajudar-nos, graças ao aumento
será biisotópico, e o leitor procurará, mais ou menos consciente- artificial dos procedimentos, a compreender melhor o fenômeno lin-
mente extrair da descrição "física" do salão todos os semas que güístico como tal.
pode~ manter e desenvolver a segunda isotopia, posta desde o
A análise freudiana, continuada pela T iefpsychologie, habituou-
inicio, aquela do espaço interior do poeta.
-nos a procurar distinguir em toda comunicação dois planos de
O mesmo ocorrerá no caso de narrativas mais longas, em ver- transmissão das mensagens, um dos quais seria manifesto e o
so ou prosa. Quer se trate de M o"ise de Vigny, este inven~or dos outro latente. Esta distinção, na medida em que concerne ao
mitos literários modernos, ou da Peste de Camus, º. apar«:_cunento, discurso apreendido em s.eu funcionamento, não nos parece válida.
em certos lugares privilegiados da narrati~a, de a~cu~a!oes com- De um lado, tudo é manifesto no discurso, contanto que o alocutário
plexas, bivalentes, provocará uma leitura situada em vanos planos seja ao mesmo tempo o destinatário da mensagem. Por outro lado,
isotópicos de uma só vez. tudo nele é latente, isto é, imanente, no sentido de que o discurso
130 131
está sempre cifrado, de que a operação de descodificação corres- como critério para estatuir as propriedades de um texto cuja exis-
ponde inteirame nte ao receptor. tência é objetiva porque lingüística.
Se, abandon ando a evidência secular da linguage m considera- . Foi procurando explicitar _~ proprie~ ades estruturais do pr6prio
da como um código acabado, comum ao locutor e ao alocutário, discurso que propusemos def Ullr sua busotopia pela manifesta ção
debruçamo-nos sobre a comunicação oral quoüdian a. percebemos ao l?~go de ~ u cu_rso, dos termos complexos das categorias elas:
que ela é, mesmo nas melhores condições, difícil e incompleta. sematicas. A 1Sotop1a complexa é pois um caráter formal distintivo
Nada há de espantoso, por conseguinte, em o individuo que sonha
não chegar a descodificar seu próprio .discurso onírico. Não é ne- de ~ma classe_ de discursos possíveis. Cada discurso-ocorrência,
~ahs~do, explicará o conteúdo sêmico de seus termos e as duas
cessário em absoluto, para explicar seu malogro, recorrer à exis- ISotopias que manifesta . No exemplo do chien du commis-
tência de um plano latente: muitos lingüistas reconhecerão, pelo
menos privadamente, a dificulda de que encontra ram em pros- sa~re u~izad~ .anteriormente, o classema "animal" estabelec erá
a 1sotop1a p~~1tiva qu~ se manifest~ graças ao texto, ao passo que
seguir, de maneira ininterru pta, a leitura dos Prolegomena de Louis
o cl_assema humano estabelecera a isotopia negativa que se
Hjelmslev, que dificilmente pode ser acusado de ter desejado manifesta no metatexto. Por poderem ser determin ados em cada
inserir aí uma segunda dimensão anagógica da significação. Tanto caso d ado, os c?nc~itos ~e texto e de m etatexto, embora perma-
num como noutro caso, a principal dificulda de da leitura consiste
em descobrir a isotopia do texto e em poder manter-se nela. ~ecen~o oper~c1~na1s, ?e~arão de ser arbitrários, isto é, subme-
tidos a aprec1açao subjetiva do leitor.
Se, entretant o, parecesse oportuno tomar mais seccionad a, por
. Essas precisões permitem sugerir a definição lingüístic a dos
uma insistência terminoló gica, a oposição entre as duas isotopias
simultâneas do discurso, são os termos de texto e metatext o que diversos modos de presença das isotopias complexas no discurso
proporíamos como menos comprom etedores que os de plano ma- Sabem?s 9!-1~ Viggo Br,,ndal , formulando sua concepção do sis~
nifesto e plano latente. Esta distinção entre texto e melatexto seria tema lingu1Stico el~mei:tar, introduz, ao lado do termo complexo,
somente operacional, e só se apoiaria, ao menos no início, no du~s outras de~ommaçoes: o complexo-positivo e o complexo-ne-
simples bom senso e na apreciação "median a" da comunicação: gativo, caracterizados pela dominân cia de um ou de outro d
termos na articulação global. os
de fato, desse ponto de vista, o texto onírico surge ao indiví-
duo sonhador ao mesmo tempo como legível e insólito, se t di~ícil dizer,_ no estado atual das pesquisas semânticas, em
não absurdo, ao p asso que o metatexto permane ce ilegível, mas que medida as articulações complementares da estrutura -elemen-
se mostrará sensato depois de sua análise-le itura. Assim, um tar, os . termos complexo-positfoo e complexo-negativo, podem
texto como: ser considerados como suficiente mente fundados: sua integração
pare~, de. qualquer f_?rm_a, ~d~r constitui r o quadro dilatado que
le soleil noir de la mélancolie perrmtc a mterpret açao lmgu1sttca da noção de assunção utilizada
{o sol negro da melancolia ) pelo J:?r. Lacao _em psicanálise e cuja importância não' pode ser
esquec~d~. por mnguem. Assim, a concepção brjS ndaliana oferece
é legível e absurdo; seu alter ego, o metatexto, é ao contrário , ilegí- ª. poss1b1hdade de distinguir estrutura lmente três modos de fun-
vel e claro. O caráter operacional dessa distinção surgirá imediata- cionamen to da isotopia complexa no discurso:
mente, desde que substituamos o leitor racional por um leitor imagi- 1. Os do!s t~nnos constitutivos da isotopia complexa se
nário, um místico, um alquinüs ta ou qualquer outro iniciado, que acham em equilíbri o: o locutor e o alocutário "assumem" nesse
in,rerteria necessariamente os termos definicionais. Vemos aqui uma caso ~lena~e nte as duas isotopias. Retomjllldo o exemplo dos
das principais razões que nos impedem de seguir Freud em sua defi- guerrerros s1D1ba:
nição dos planos.la tente e manifesto do discurso: é a personalidade homem positivo
do descodificador {que é uma variável individual ) que é escolhida
leão negativo

133
Trata-se de uma isotopia complexa em equilíbrio. dOnclas dos contr6rios ou a essas estruturas de mediação colo-
cada~ em evidência por C. Lévi-Strauss. Mas a análise de um
2. O termo positivo complexo domina : os dois participantes pequeno número de figuras sêmicas do francês, escolhidas ao
do discurso "assumem" c:ompletamente a isotopia positiva e parcial- acaso, nos mostrou bem que tais estruturas complexas podem
mente a isotopia negati\'a: estar presentes em q uai quer universo significante (ex: as lógicas
Positivo plurivalentes atuais) , que apenas a exploração que dela fazem
Rimbaud
esta ou aquela comunidade lingüística pode ser diferente.
bateau ivrc negativo O caráter simples ou complexo das isotopias do discurso
depende, aliás, das variações individuais. Do ponto de vista do
A isotopia complexa, é nesse caso, positiva; locutor, a maior ou menor complexidade isotópica de seu discurso
3. O termo negativo da isotopia domina: o locutor "as- é função da estrutura idioletal de sua personalidade. Do ponto de
sume" plenamente a isotopia negativa e parcialmente a isotopia vista do alocutário também, o problema da receptividade, isto é,
positiva. No caso de M. Dupont que se considera um lustre, por da capacidade de descodificação simultânea de duas mensagens,
exemplo: pode· ser colocado. Uma experiência pessoal - a casualidade do
M. Dupont positivo encontro de um velho amigo no próprio instante em que este,
após uma hemorragia cerebral localizada, havia perdido a capaci-
lustre Negativo dade de apreender a significação poética ostentada como uma
segunda isotopia, embora retendo a lembrança e a consciência
A isotopia complexa será dita negativa. aguda, para não dizer trágica, da existência desse metatexto tor-
nado inapreensível - nos deu claramente a impressão de que
Observaçã o: t e\"idente que os termos "positivo" e "ne- as pesquisas neurolingüísticas deveriam poder confirmar a existên-
gath·o" não implicam nenhum julgamento de valor. Pode- cia de uma comunicação büsot6pica, cujos dois níveis seriam
ríamos inçlush·e invertê-los. . ao mesmo tempo autônomos e concomitantes, e determinar com
precisão as condições de sua conjunção e de sua disjunção.
Aqueles para quem a obra ele Br.16ndal é familiar sabem o
papel que ele atribuía às estruturas elementares - apreendidas
entretanto por ele no nível do sistema lingüístico, e não, como o
propomos nesse momento, no nfrel da manifestação - no estabe-
lecimento ela tipologia das línguas naturais, que considerava como
representativas das mentalidades coletivas. Assim, as línguas ditas
primitivas são caracterizadas, por ele, pela utilização freqüente
das estruturas complexas, ao passo que os progressos da civilização
traduzem-se pela transformação dessas estruturas complexas em es-
truturas binárias lógicas. Temos consciência, atualmente, do que
há de simplista e de excessivo em tal interpretação, que pretende
definir globalm<>nte, com a ajuda desse único critério, comunidades
lingüísticas internas, e não zonas superestruturais particulares que
se podem constituir em qualquer contexto histórico. Parece ine-
gável que certas metalinguagens coletivas são caracterizadas pela
preferência que elas atribuem às estruturas complexas : às coi-nci-
135
134
linguagem. Distinguimos, efetivamente, duas espécies de semas,
os semas nucleares e os classemas, que remetem a dois níveis
autônomos da linguagem, o nível semiológico e o nfoel semântico.
Apesar de certas abordagens teóricas já encaminhadas, esta distin-
ção repousa ainda em gramle parte sobre extrapolações de caráter
indutivo - de fato, definimos os semas nucleares e os classemas
ORGANIZAÇÃO DO UNIVERSO SEMANTICO pelo seu modo de manifestação no discurso. Os primeiros servem
para constituir-lhe as figuras sêmicas, e os enCQntramos dentro das
unidades sintáticas chamadas lexem~; os últimos, ao contrário,
se manifestam nas unidades sintáticas mais amplas, que comportam
1.0 UNIVERSO IMANENTE DA SIGNIFICAÇÃO a junção de, no mínimo, dois lexemas. Dois procedimentos, apli!.
cáveis às seqüências do discurso de dimensões desiguais, e, portanto,
~ Uma dupla aproximação epistemológica. hierarquicamente distintas, devem ser previstos para a extração
dessas duas espécies de semas.
Após ter colocado em evidência o caráter metalingüístico de
toda descrição e, a fortiori, de toda construção da teoria semân- Tal definição, embora válida, ainda não está completa. Inicial-
tica, tentamos resumir, inicialmente, um pequeno número de con- mente, ela define o que é anterior à ~anifestação pelo seu modo
ceitos de base que ptrmitissem construir as unidades mínimas ( os de manifestação. A seguir, na medida em que mantém seu caráter
constituintes últimos) constitutivas da significação. A partir daí, indutivo, ela se acha submetida ao acaso das descrições parciais
procuramos observar o agenciamento de~ses elementos, em ima- que podem infirmá-la. Isso quer dizer que, para poder definir
nência bem como em macifestação, propondo, sempre que pos- o semema como combinação manifestada de semas nucleares e
sível. novas definições· que dessem conta dessas unidades mais de classemas, e a manifestação como a reunião de dois níveis da
amplas. linguagem, semiológico e semântico, é preciso, sem recusar nada
Chegamos agora a uma nova fase de nossa reflexão - após das definições precedentes, colocar francamente, no plano episte-
explorar o domínio da significação a partir de seus elementos últi- mológico da linguagem, as categorias constitutivas dessas defini-
mos, é preciso fazê-lo na perspectiva oposta, considerando o uni- .ções, e garantir assim, pelo seu caráter apTiorístico, os fundamentos
verso significante na sua t otalidade, para tentar, desta vez, a da construção considerada.
colocação de novos conceitos, coextensivos das articulações e Colocado dessa maneira o problema, perce~emos que antes
distinções fundamentais desse universo. de estatuir a existência de dois níveis distintos -
Esses dois procedimentos consecutivos, um de construção,
outro de divisão, deveriam se juntar para constituir uma teoria semiológico vs semântico
da descrição lingüística do conteúdo. Mas tal teoria não é, pre- - da linguagem, devemos nos assegurar, pelo menos. no princípio.
sentemente, senão uma projeção de nossas necessidades e de dos fundamentos do conceito de linguagem, da oposição entre
nossas esperanças - as análises parciais, que confirmam ou infir- imanência e manifestação nela mantida, bem cómo do con-
mam as proposições, quase sempre hipotéticas, são ainda falhas. ceito de nioel.
b) Indução e dedução. Ao longo dos capítulos precedentes, mantivemos a distinção
cômoda, que já se tomou praticamente clássica, entre a língua
A primeira Q.icotomia que propusemos, e que é preciso re- concebida como sistema imanent-e e a lrngua apreendida como
tomar nessa nova perspectiva, é a dos níveis fundamentais da processo manifestado. Trata-se agora de precisar o sentido que

186 187
podemos conservar para essa oposição na economia geral· de uma turas elementares da significação. Podemos dizer então que essas
teoria propriamente semântica da linguagem. categorias sêmicas constituem um conjunto: o conceito de nível
que utilizamos só faz constatar a dicotomia desse conjunto em
O centro de toda nossa reflexão teórica está na hipótese in- dois subconjuntos, designados respectivamente como níveis semio-
gênua de que, partindo da unidade mínima de significação, pode-
lógico e semSntico.
mos chegar a descrever e a organizar os conjuntos sempre mais
vastos de significação. Entretanto, essa unidade mínima, que O termo conjunto não nos compromete em nada e tão-so-
denominamos sema, não tem existência própria, e só pode ser ima- mente remete, de certa forma, à constatação de nossa ignorância.
ginada ou descrita em relação a alguma coisa que não é ela, e só Efetivamente, não sabemos se as categorias sêmicas são todas
na medida em que faz parte de uma estrutura de significação. organizadas em sistemas sêmicos, nem se estes últimos são coexten-
Situando, portanto, o sema dentro da percepção, num lugar sivos em relação às ordens ( as ordens olfativa, táctil, etc., do
onde se constituem as significações, nós nos apercebemos de que nível semiológico, por exemplo), nem, finalmente, se as ordens
ele recebia aí uma espécie de existência graças à sua participação constituem ou não o sistema dos sistemas; é por isso que dizemos
em dois conjuntos significantes ao mesmo tempo: o sema efeti- que a ordem sêmica é um conjunto de sistemas e que o nível
vamente se afirma, por disjunção, dentro da categoria sêmica; semiol6gico constitui-se de um conjunto de ordens sêmicas, que
ele se confirma, por junção com outros semas, dentro de agrupa- indicam, graças a esses termos "ordem" e "nível", os escalões
mentos sêmicos, que chamamos figuras e bases sêmicas. hierárquicos onde supomos se situarem os sistemas sêmicos. As
análise sêmicas ulteriores permitirão por si só decidir o modo de.
O sema depende ao mesmo te:10po, pois, de dois universos articulação estrutural das ordens e d os nfveis.
significantes, que podemos designar operacionalmente como o
universo da imanência e o universo da manifestação, e que são Tal poderia ser a solução provisória do problema da organiza-
simplesmente dois modos de existência diferentes da significação. ção interna dos níveis do universo imanente. Aproveitamos, entre-
Considerando que a significação só pode se manifestar se for tanto, a ocasião que se apresenta, para colocar de sobreaviso os
inicialmente articulada em estruturas disjuntivas, e que, por outro semanticistas contra essa noção de conjunto, que se parece bene-
lado, só podemos dizer algo da significação na medida em que é ficiar, no presente. do beneplácito de certos meios lingüísticos.
manifestada, a relação entre os dois universos - imanente e mani- Sem negar seu valor operacional, seria preciso no entanto subli-
festado - é a da pressuposição recíproca. Assim ligados, eles nhar seu caráter de formulação provisória, no procedimento global
constituem o que podemos agora chamar de universo semântico, da análise: o conceito de inventário, por exemplo, que é apenas
expressão que podemos sem dúvida substituir pelo termo de uma sua variante terminológica, se é útil para delimitar uma
linguagem., que se tornou ambíguo por soa utilização abusiva em classe cuja análise se propõe antes ae sua redução ao sistema
filosofia e em literatura. ( oo a vários si~temas), pode tornar-se perigoso se sua constituição
Essas precisões preliminares vão-nos permitir agora penetrar for considerada como a ultima · ratio da descrição. O mesmo
mais fundo no universo semântico para aí procurar novos ele- poderíamos dizer das estruturas concretas, que por vezes nos com-
prazemos em opor, em sociologia, às estruturas abstratas, isto é,
mentos defin.icionais.
sistemáticas.

e) A abordagem empírica do universo imanente.


d) Sistemas e morfemas.
Os semas, dízÍamos, só podem ser considerados como elemen-
tos de significação na medida em que fazem parte das categorias Mas poderíamos também retomar o problema no plano episte~
sêmicas, e, portanto, na medida em que se agenciem em estru- mológico, no nível onde se acha elaborado o próprio conceito de

138 189
estrutura, tentando reintroduzir os termos abandonados pela lógica aguardan,do um melhor conhecimento de sua organização estru-
clássica: divisão e partição. A estrutura é, efetivamente, uma tota- tural, eles devem ser considerados como estruturas modemáticas,
lidade considerada como um eixo divisível em semas; as relações constituídas de categorias e de sistemas sêmicos. O universo
que caracterizam sua organização interna são tanto antonímicas ( as · imanente é, por isso, dividido em dois níveis: - semiológico e
sem!ntico - cujos eixos constitutivos, que definem cada nível em
de conjunção e de disjunção) quanto hiponímicas. Vimos que essas
sua totalidade, se identificam com um d os dois termos da catego-
relações eram suscetíveis de se manifestar de maneira independente:
ria meta-sêmica articulada em
chegamos mesmo a designar como "hipotáticàs" as relações de ca- ·
ráter hiponímico, mas que servem para ligar entre si os elementos exteroceptividade vs interoceptividade.
heterocategóricos.
Esse lembrete permite considerar que as relações estão aptas
2.0 UNIVERSO MANIFESTADO DA SIGNIFICAÇÃO
a constituir duas espécies de estruturas: sistemas e modernas.
As primeiras são constituídas de articulações que, partindo de um
eixo totalizante comum, só utilizam os elementos de significação a) O conteúdo.
homogêneos, onde uma categoria sêmica está ·em relação hipero- :E: sedutor ( nós já tentamos fazê-lo) aplicar à opoStçao dos
nímica com seus próprios semas e em relação hiponímica com a níveis semiológico e semântico que acabamos de operar, a dis-
categoria hierarquicamente superior, da qual ela constitui um dos tinção hjelmsleviana entre a forma e a substância do conteúdo,
semas. As segundas, ao contrário, são constituídas de elementos embora conscientes de seu caráter relativo e , por isso, operacional.
de significação dos quais só o eixo totalizante comum e a organi- Situando-nos no plano epistemológico, poderíamos então dizer que
zação hipotática estão assegurados, mas cujos elementos perten- a substância do conteúdo constitui esse pano de fundo, articulado
cem tanto a sistemas, quanto a ordens heterogêneas. No primeiro em um pequeno número de categorias do espírito humano, sobre o
caso, trata-se da divisão da totalidade considerada como eixo; qual se vêm juntar elementos de percepção do mundo exterior
no segundo caso, a partição da mesma totalidade. para manifestar a significação. Tal "concepção do mundo" não é
Retomando as reflexões sobre imanência e manifestação, absolutamente necessária à construção da linguagem descritiva.
podemos dizer que todo sema participa, ao mesmo tempo, das Bastará dizer que a reunião dos níveis imanentes, semiológico e
duas estruturas diferentes : as estruturas sistemáticas e as estru- semântico, constitui a manifestação do conteúdo como tal. Entre-
turas modemáticas. tanto, para que tal manifestação seja plenamepte acabada, é
preciso que sejam superadas duas etapas e preenchidas duas
Observação: Estaríamos enganados se deduzíssemos que a condições:
característica dos sistemas . é serem imanentes - embora 1. ~ preciso que haja reunião dos dois níveis, isto é, que
esse seja o caso mais freqüente - e que a manifestação é uma relação se estabeleça entre um m ínimo de semas pertencentes
sempre modemática : a estrutura dos atuantes no enunciado aos níveis diferentes, produzindo assim a combinação de elementos
é, como veremos, a projeção do sistemático sobre o mode- heterogêneos. Reservamos a esta junção o termo manifestação,
mático; e, inversamente, a utilização taxinômica freqüente restringindo assim seu conteúdo;
do moderna corpo, por exemplo (cf. Lévi-Strauss), nos 2. É preciso também que as combinações de conteúdo assim
obriga a considerá-lo como um modelo imanente. ob tidas se encontrem com o plano da expressão, para achar aí combi-
nações paralelas e não isomorfas da expressão, constituindo assim
Essas considerações permitem formular de maneira um pouco por sua pressuposição recíproca, a manifestação lingüística pro-
diferente a defmição dos níveis constitutivos do universo imanente: priamente dita. D iremos que se trata então da manifestação da

140 141
significação sob forma de discurso, que faz o conteúdo mostrar-se fundamental da manifestação, que podemos identificar com a lín-
como uma sucessão de efeitos de sentido. gua-objeto dos 16gicos. Os meta-sememas não se situam nesse
plano: eles o pressupõem, ao contrário, pre.ssupondo ao mesmo
Obsenação: Parece-nos que a descrição paralela do plano tempo o nível semiológico.
da expressão, que o conceberia como a junção da forma e da Diremos, pois, que a relação que se estabelece, no momento
substância da expressão, não exigindo, por isso, nenhuma da manifestação, entre os níveis semântico e semiol6gico, é a da
realização fisiológica dos fonemas e não produzindo nenhum pressuposição recíproca, condição necessária da constituição do
"efeito de sentido" auditivo, daria conta, de maneira satis- plano fundamental da significação. Os planos secundários, pelo
fatória, da linguagem dita interior. próprio fato de pressupor a existência do plano fundamental,
podem comportar unidades que manifestam apenas as combina-
Somos assim levados a considerar separadamente as duas ções classemáticas.
condições necessárias da manifestação da significação. b ) A natureza das relações entre semas que pertencem a t
1. A articulação simultânea dos planos do conteúdo e da ex- um mesmo nível imanente coloca um outro problema. Das três
pressão, constitutiva do discurso, considerada como uma aquisição relações fundamentais que reconhecemos, parece - e certo
definitiva, não levanta problemas teóricos. Bastará, pois, deixar número de análises parciais o confirmaram - que só a relação
para mais tarde o exame de conjunto das conclusões de ordem hipotática pode ser retida para a interpretação da organização
semântica que convém extrair. interna dos sememas. A relação de conjunção efetivamente se
2. A manifestação, definida como combinação de semas hete- .manifesta, como vimos, estabelecendo-se as equivalências, totais
rogêneos coloca o problema mais geral das relações intersêmicas. ou parciais, entre sememas e classes de sememas, e dá conta do
funcionamento metalingüístico do discurso. A relação de disjun-
a) Parece normal considerar que a relação que funda, pela ção deve, também, ser excluída do instrumental descritivo do
reunião dos nfveis semiológico e semântico, a manifestação do semema: somente a disjunção sêmica permite explicar a dife-
conteúdo seja a de sua pressuposição recíprõcá. Na realidade, a rença de sentido entre dois sememas cuja organização sêmica seria,
questão se complica pela existência de relações lexicalizadas,
por outro lado, idêntica. Admitindo sua existência dentro do seme-
tais como as encontramos em francês, por exemplo, sob a forma
de conjunções ( et, ou, "e". "ou") ou de advérbios relacionais ma, seríamos obrigados a renunciar à análise semêmica do teAto e
( plus ou moins "mais ou menos") etc., aos quais é preciso acres- voltar ao procedimento lexemático que já recusam~s. O lexema é,
centa r todas as lexicalizações realizadas ou possíveis de classemas efetivamente, um modelo de funcionamento, e não uma unidade
( conjunção, substantivo, etc.) ou de grupos de classemas. Em descritiva do conteúdo.
outras palavras, a manifestação de metassemas ou de classemas
não implica necessariamente a presença de elementos semiológicos.
b) A combinatória.
Somos pois obrigados a reconhecer a existência de duas espécies
de unidades manifestas: sem emas, produzidos pela junção dos A simples oposição d e imanência e de manifestação não
semas de níveis heterogêneos, e metassememas que manifestam basta, como vemos, para definir os dois aspectos complementares
apenas as combinações classemáticas. do universo semântico. Desde que deixemos de identificar a
Esse reconhecimento de dois tipos estruturais de sememas, manifestação com o discurso e de considerá-la como "encarnada"
em vez de destruir, apenas confirma o postulado· da pressuposi- nas seqüências fônicas ou gráficas, o universo imanente e o
ção recíproca dos semas nucleares e dos classemas no processo unh·erso manifestado aparecem como dois modelos comparáveis,
da manifestação. Os sememas constjtuem, efetivamente, o plano dando conta, de duas maneiras diferentes, do mesmo fenômeno.

14~ 148
Os dois modelos são bem caracterizados por sua organização e) A . escolha estratégica.
interna diferente; isso não impede que eles constituam uma espé-
cie de vasos comunicantes: o universo imanente se deixa recons- Tal concepção do universo semântico, para chegar à práxis
truir a partir da manifestação; esta, por sua vez, deve poder ser da análise do conteúdo, pressupõe uma descrição prévia, ao menos
deduzida do modelo imanente. Às regras de construção do uni- parcial, dos nÍYeis semiológico e semântico imanentes. Esta. por
verso imanente devem corresponder regras de geração do universo súa vez, antes de ser empreendida, deve-se fundar sobre consi-
manifestado. derações concernentes à escolha estratégica do escalão de profun-
Efetivamente, se considerarmos o universo imanente como um didade ótima a ser dado à descrição.
conjunto de categorias sêmicas, a manifestação toma a forma da Pudemos observar, quando das reflexões precedentes, que o
combinatória de suas articulações. Se o agenciamento das cate- escalão escolhido para a construção dos semas é função das
gorias sêmicas é de ordem sistemática, as combinações semêmicas dimensões do corpus a ser descrito: contrariamente ao que pode-
de suas articulações serão de ordem morfemática. ríamos pensar à primeira vista, a cada ampliação do corpus cor-
As regras de construção dessa combinatória, que já pratica- responde uma maior generalidade dos semas, e conseqüente-
mente estabelecemos, introduzindo progressivamente uma série de. mente, a diminuição de seu número. O número de categorias
restrições, poderiam ser assim resumidas: sêmicas será, portanto, mais elevado se só nos preocuparmos com
a descrição de uma única língua natural ou de um só estado
1. O conjunto das categorias sêmicas está dividido em dois sincrônico dessa língua. Ao contrário, ele diminuirá, se bem que
subconjuntos: um subconjunto E, constituído de semas nucleares, em proporçóes bastante reduzidas, se decidirmos postular um
e um subconjunto I, constituído de classemas; universo imanente que dê conta de um grande número de línguas
naturais ou de vários estados d iacrônicos de uma mesma língu.~.
2. toda unidade de maniÍestação deve comportar ao menos
dois semas; Se há, p ortanto, interesse em situar a descrição sêmica num
plano de generalidade elevada, e em situar ao mesmo tempo,
3. d uas espécies de unidades de manifestação podem ser pelo menos t eoricamente, o problema da comparabilidade das lín-
combinadas: os sememas e os metassememas: guas - problema capital para todos os ramos da lingüística apli-
a) a combinatória deduzida apenas a partir do subconjun- cada - , é preciso, da mesma fo rma, levar em conta dificuldades
to I se constitui em um corpus de metassememas; que provavelmente apareçam ao nível da manifestação semêmica.
À simplicidade do universo imanente corresponde a complexidade
b ) a combinatória que utiliza os dois subconjuntos I e E
constitui o corpus de sememas. Os sememas devem ser combi- do universo manifestado, articulado · em sememas: quanto menos
nados de tal forma que ao menos um termo de cada subconjunto combináveis são os semas, mais complexa e fastidiosa aparecerá
a estrutura morfemática de cada semema.
esteja presente em cada um dos sememas.
4. Cada um dos subconjuntos é constituído de categorias
sêmicas binárias, quando da manifestação: entretanto, cada cate- d) Abertura do corpus dos sememas.
goria binária, por suas possíveis articulações, provoca o apareci- Uma outra particularidade do universo manifestado merece
mento de seis termos diferentes. Conseqüentemente, a uma cate- ser fixada : é a lacuna que separa o conteúdo realizável do con-
goria binária do universo imanente correspondem seis possíveis teúdo efetivamente realizado, nesta ou naquela língua natural.
,ememas diferenciados da manifestação. O cálculo, mesmo aproximativo, mostra bem que um conjunto de
semas relativamente reduzido é capaz de produzir um número
considerável de sememas, contabilizados facilmente em milhares

'44 145
e em milhões de exemplares. l!: evidente que nenhuma língua A possibilidade de avaliar o grau de abstração dos sememas
esgota sua combinatória teórica, e que ela deixa uma margem nos interessa na medida em que as variações de densidade carac-
de liberdade mais que suficiente às manifestações ulteriores da teózam todo o desenrolar do discurso e conclusões práticas
história. C. Lévi-Strauss observou bem que tal concepção do podem ~amente ser tiradas daí. Dir-se-á talvez que esse é
universo semântico pode eliminar a contradição aparente entre apenas um ponto de vista teórico sobre o funcionamento do dis-
a reclusão das estruturas sociais, limitadas em número, e a abertura curso, mas é-nos difícil imaginar um destinatário que descodifique e
da história da qual elas participam. De um modo geral, pois, que procure apreender simultaneamente por um só semema uma
podemos dizer que, se o modelo sêmico de l.lDl universo semântico estrutura morf emática de uns vinte semas. A abstração, isto é, o
é fechado, seu corpus de sememas é, em compensação, ampla- esforço que despende o destinatário para selecionar os dados trans-
mente aberto. mitidos, para reter apenas o estritamento necessário, caracterizà,
em nossa opinião, o funcionamento do jdiscurso em todos os níveis:
Observação: Vamos notar, entretanto, que o caráter par- é por ela, qualquer que seja aliás, o nome que se lhe dê, que
cial de todo corpus de sememas realizados não tem nenhuma R. Jakobson, nas primeiras páginas dos Fundamentais of Language,
incidência sobre as dimensões do conjunto sêmico neces- explica o funcionamento econômico do código e o caráter elítico da
sáóo à sua descrição. A dispersão dos sememas realizados transmissão fonológica.
dentro do campo da combinátoria teórica deve ser tal que A abstração é certamente um empobrecimento do conteúdo,
não se possa tentar nenhuma redução do número das cate- mas é ao mesmo tempo o preço imposto pela comunicação para
gorias, muito pelo contrário: o caráter incompleto dos inven- garantir a pertinência da significação transmitida. Ao invés de
tários pode aumentar o número dessas categorias. deplorá-la, como o fazem certos filosófos concretos, é preciso que
a aceitemos como uma necessidade; após tê-la constatado, não
nos resta senão nos alegrarmos por ela tornar possível a construção
e} Os aememas abstratos e os sememas concretos. de filosofias, mesmo "concretas·.
Um dos caracteres evidentes das combinações sêmicas que Pouco importa que os sememas sejam já lexicalizados com seu
constituem os sememas é sua densidade desigual: efetivamente, conteúdo abstrato, ou que sejam abstraídos, isto é, que sejam
a combinatória pode produzir sememas caracterizados pela pre- despojados, pela suspensão de certos semas, da densidade exces-
sença de duas articulações sêmicas somente, como pode engendrar sivamente forte de suas determinações. Esse traço essencial da
sememas que realizam, em seu interior, termos que representam comunicação torna legítimo o procedimento da simplificação sêmica,
uma articulação qualquer de cada uma das categorias sêmicas. já estudada quando da constituição dos sememas construídos:
A densidade sêmica dos sememas se escalona, portanto, entre esta aparece como a simulação da atividade lingüística quando
dois pólos, o primeiro dos quais comporta um mínimo de dois do processo da comunicação.
semas, e o segundo, o número de semas correspondentes à soma Ao procedimento de simplificação, devemos opor o não menos
das categorias sêmicas binárias utilizadas para descrição do uni- necessário tla complicação. Apercebemo-nos, efetivamente, que
verso. A densidade, considerada como uma categoria quantitativa, os .microuníversos semânticos muito abstratos, como a linguagem
pode, conseqüentemente, servir de critério de apreciação do caráter matemática, não lexicalizam, na manifestação, um número suficiente
mais ou menos abstrato ou concreto dos sememas. Assim, indepen- de sememas, e que os subentendidos implícitos do discurso matemá-
dentemente da natureza semiológica dos semas que os constituem, tico não permitem passar diretamente às operações lingüísticas
.os sememas rei.ação ou velocidade serão julgados abstratos, ao mecanizadas. As linguagens-máqujna, como o Algol lingüístico,
passo que sememas como chuva ou estrutura aparecerão como tiveram de ser elaboradas para nutrir, "encatalisar" o discurso.
concretos. Os matemáticos russos encarregados de construir a linguagem do-

146 141
cumental adequada chegaram às·. mesmas conclusões. O procedi- poderá ser esboçada no momento em que as descrições sêmicas,
mento de complicação, aplicado ao discurso abstrato, elabora assim mesmo parciais, sejam efetuadas, permitindo julgar não somente
uma metalinguagem que se aproxima da formalização de qualquer a agramatícalidade, ou a alexicalidade das combinações sêmicas,
"semântica", no sentido que os lógicos atribuem a esse termo. mas primeiramente sua assemanticidade.
A formalização pode pois exigir tanto procedimentos de simpli-
ficação como de complicação. Ela não se identifica totalmente nem
com uma nem com outra. 3.0 O DISCURSO

f) As lncompatibWdadeL a) Lexicallzação e gramaticallzação.

Se a combinatória realizada nesta ou naquela língua natural Distinguimos anteriormente os conceitos de manifestação e de
discurso, aos quais correspondem duas fases reconhecíveis na pas-
não esgota, pelas razões que já invocamos, as possibilidades teóricas
que ela contém, sua manifestação se ach ~ além d isso, limitada por sagem do universo imanente à sua realização : a manifestação
um jogo de incompatibilidades que eliminam um número impor- semêmica dos semas se acompanha necessariamente da "colocação"
tante de combinações semêmicas. Essas incompatibilidades pode- dos sememas no discurso, durante a qual estes se unem às articula-
riam ser ~e duas espécies: formais e substanciais. ções comparáveis do plano da expressão.
Gostaríamos de dar a esse processo o nome de lexicalização,
1. Incompatibilidades formais. Lembraremos que Brl'Jndal,
procedendo à combinatória dos 6 termos de seu sistema lingüís- se pudéssemos aceitar, como o faz ainda um bom número de
tico elementar, para ver qual é o número possível de estruturas lingüistas, que a integr ação normal dos dois planos da linguagem
distintas, chegou à conclusão de que, sobre uns 144 sistem as teo- se opera pela junção do formante, combinação fonemática, e do
ricamente com~ináveis, apenas 64 combinações e ram de fato com- semema, combinação sêmica constitutiva do lexema ( ou signo
·pativeis. Isso só nos dá, na realidade, indicações concernentes à lingüístico). Infelizmente não é esse o caso: os procedimentos
ordem de importância das eliminações devidas às .incompatibili- modernos de descrição do código lingüíslico, obrigados a decom-
dades: situamo-nos evidentemente num ponto de vista diferente por a análise em múltiplas séries de subprogramações. cada
do de BriJndal .. considerando essas mesmas estruturas não mais vez mais complicadas, dão já uma idéia da complexidade da codi-
em imanência, mas em manifestação. Também nos parece difícil ficação do discurso.
propor por enquanto regras de construção em função das incompa- 1. No melhor dos casos, o formante não recobre o semema
tibilidades. A titulo de indicação, podemos entretanto notar que mas unicamente seu núcleo sêmico,. garantindo-lhe, por sua opO:
a manifestação, por exemplo, · de um semema que comporte o sição a outros formantes comparáveis, seu sentido negativo e,
termo neutro de uma categoria sêmica só é possível se o semema indiretamente, sua especificidade figurativa. t possível, como
em questão contiver -já, na qualidade de sema, o eixo constitutivo acontece no caso dos metassememas ou dos sememas pertencen-
d a categoria considerada. Igualmente, a·manifestação de um termo t~ às t axinomias, que o lexema unívoco se aproxime do único
complexo pressupõe a existência dos sememas distintos que com- semema que recobre - mesmo nesse caso os elementos classifi-
portam os termos "positivo" e "negativo" isolados, etc. Esses catórios que ele contém ultrapassam nec;ssariamente o quadro
exemplos ·mostram que as incompatibilidades não concernem a lexemático.
este ou àquele semema particular, mas que, ao contrário, elas se 2. Vimos que a base classemática se une a dimensões sin-
encadeiam umas com as outras. táticas mais amplas que os lexemas, e que os classemas só podem
2. Incompatibilidades substanciais. Sua denominação coloca ser reconhecidos graças a constatações de diferenças de formantes
dificuldades empíricas e não problemas teóricos. Sua solução · só lexemáticos contíguos, eles próprios redutíveis a classes de for-

148 149
mantes. 1l: preciso, pois, entender por lexicalização não a recon- e uma vanaçao redundante do plano da expressão não provocou
v~rsão do semema em lexema, mas sua reconversão no que às desvio de significação. A sinonímia é, portanto, possível.
vezes chamamos palavra em contexto. Vemos que tal ampliação da noção de desvio diferencial do
3. Enfim, o semema, em sua realização, pode ligar-se a significante introduz uma liberdade de manobra apreciável na
vários lexemas ao mesmo tempo, quer pela expansão de sua fi- análise do conteúdo. Com a condição de situar as articulações
gura nuclear, quer porque se manifesta sob as diversas formas diferenciadoras do significante em níveis distintos - o nÍvel lin-
de denominações ou de definições. Por isso, o processo de lexica- güístico, de um lado, e o nível metalingüístico, de outro - pode-
lização se confunde com o de gramaticali.zação. Lexicalização e mos sustentar, sem trair, por isso, os próprios fundamentos da
gramaticalização são, portanto, dois conceitos operacionais de ma- lingüística estrutural, que o definidor lógico pode ser idêntico ao
nejo aparentemente simples, os quais, embora teoricamente distin- termo definido. A afirmação da impossibilidade da sinonÍmi{l,
tos, se confundem, pelo emaranhamento de seus procedimentos, ·conseqüência lógica da necessidade de dar conta do aparecimento
no processo de comunicação que engendra o discurso. da significação graças às articulações diferenciadoras do signifi-
cante', não é mais incompaúvel, portanto, com a atividade meta-
língüística, que visa, além da multiplicidade das articulações, à
b) Diferenças de expressão e identidades do conteúdo. descoberta das identidades, condição necessária para a ordenação
A ausência de isomorfismo entre as unidades de manifestação do universo semântico.
e as unidades de comunicação recoloca o antigo problema da Quem pode com o mais pode com o menos. Se temos direito
sinonímia. Enquanto foi possÍYel considerar a língua cómo um de postular como possível a identidade semêmica, as condições
sistema de signos e esses signos - isto é, na nossa terminologia, de aparecimento da equivalência semêmica, isto é, da identidade
os lexemas - como a reunião de um formante e de um semema, de um certo número de semas manifestados nos sememas em
o problema parecia simples: uma vez que toda diferenciação fono- outra parte diferentes, podem ser precisadas mais facilmente.
lógica do formante acarreta uma diferenciação inevitável na sig· Consideremos, por exemplo, sob esse ângulo, o procedimento
nificação, a sinonímia é excluída por definição. de verificação dos classemas ertraídos dos contextos lexemáticos.
1l: no domínio morfológico que esse princípio inicialmente A unidade de comunicação, submetida à análise, comporta, por
muito absoluto, ou talvez mal formulado, viu-se abalado pela .um lado, o lexema cujo núcleo se procurará extrair, e, por outro,
primeira vez: analisando as categorias morfológicas, tivemos de ama classe de contextos compatíveis com esse lexema. Quando
reconhecer que as marcas diferentes ( ·3 e -x dos plurais fran- pretendemos que uma subclasse desses contextos. possua um clas-
ceses, por exemplo) podem recobrir elementos de conteúdo idên- sema em comum, postulamos, de fato, uma certa inv ariância do
ticos, com a condição, entretanto, de possuírem distribuições eonteúdo apesar das variações da expressão, uma identidade sê--
contextuais diferentes. mica através dos desvios de significante. Para que tal pretensão
seja legítima, é preciso que um novo desvio diferencial, que
Basta, conseqüentemente, que uma marca seja realizada duas anule o efeito das variações observadas, possa ser registrado em
vezes, em dois níveis estruturais diferentes - a primeira vez, outro nível. Esse outro nível parece ser a unidade de comunj.
sob a forma de oposição de fonemas; a segunda, sob forma de cação toda, e não mais somente a subclasse de variáveis con-
oposição de segmentos fonemáticos - para que o efeito diferen- textuais. Ela está constituída de dois formantes discretos - da
ciador da primeira marca seja anulado pelo aparecimento de uma cobertura fonemática do lexema e da subclasse fechada de for-
segunda separação diferencial Assim, em certas condições, duas mantes contextuais. O caráter discreto e definido desses dois
marcas, combinando-se, podem neutralizar-se formantes permite considerar sua combinação como criadora do
x+ (- x) =0, desvio de significante; a substituição do lexema estudado por

150 151
-
um lexema qualquer ( a não ser que se trate, também nesse caso, apenas da manutenção da comunicação, ou do preenc~ento ~lessa
de uma classe comutável) produzirá um desvio de significação. função fática, explicitada por R. Jakobson, e q_ue podenamos iden-
tificar com a função gramatical no seu conjunto.
Encontramo-nos assim na presença de dois desvios de signi-
ficante, de duas marcas, em suma, que se anulam mutuamente, Basta, efetivamente, que, após uma e~colha operada en~e
autorizando-nos a dizer que a identidade sêmica, postulada a priori as categorias sêmicas constitulivas de um~ lmgua natural, ~ cuJos
par:a a subclasse escolhida de contextos, é possível. Efetivamente, critérios não se mostram de maneira eVIdente, se orgamze um
as análises do plano de expressão não nos informam nada a sistema segundo, caracterizado por um modo de func_ion.~en!o
respeito do c.lassema postulado, e tampouco nos permitem dizer particular e por uma redundância excessiva, para que a signilicaçao
se -s ou -x são marcas de plural, e os paladinos de formalismo manifestada no discurso seja liberada, em parte pelo menos, das
em lingüística fazem semântica, à maneira de Monsieur Jourdan, tarefas de manutenção da comunicação.
sem o saber. Considerar que a estrutura gramatical é um sistema segundo
Essa insistência sobre as repercussões, à primeira vista im- em relação à manifestação do conteúdo não quer dizer que ela
previsíveis, que provoca, no plano da expressão, a afirmação da constitua um universo ou ~ nível imanente autônomo: as cate-
existência de unidades no plano do conteúdo, pode parecer inútil gori_as sêmicas que a c~n:ipõem não têm nad~ de origip~l e se
a alguns. Para nós, porém, tratava-se da introdução do princípio real12am em todas as espec1es de sememas. Ela e, ao contrano, rela-
da identidade na reflexão lingüística ( sensibilizada apenas pelo tivamente autônoma no nível da manifestação, onde um certo
princípio das diferenças, seguindo nisso um dos postulados mais número de sememas, caracterizados por uma densi~a?e sêmic:1
conhecidos de Saussure) , princípio este sem o qual nenhuma relativamente fraca e dotados de formantes especiais, consti-
análise de conteúdo seria possível. Tratava-se para nós de mostrar tuem morfemas gramaticais incumbidos de funções translativas.
que nada, no plano da expressão, se opunha à existência de con- Essa noção de translação, tomada de Tesniere, explica bem o
teúdos idênticos, formulados de maneira düerente. Assim se acha papel desempenhado pelos morfemas gramaticais, que englobam
consolidado o conceito de equivalência, que, definida como idên- lexemas, e tratando-os como termos-objetos de uma sublinguagem,
tidade sêmica parcial, dá conta do funcionamento metalingüístico transmitem-nos ( tal como o futebolista que passa a bola a seu
do discurso e autoriza a própria análise semântica. companheiro}, com a ajuda da redundância gramatical, a~é o f~m
último que é o destinatário. A gram!ticalizaç_ão . ~a ~anifestaçao
e) A comunicação. seria uma coisa excelente se as funçoes de s1gmÍicaçao e as da
comunicação fossem nitidamente distintas. Infelizment~, ~~ estru-
Ligado intimamente ao fenômeno da lexicalização, como vi- turas de comunicação, queiram ou não certas pessoas, significam, _e
mos, acha-se o da gramaticalização. O discurso, efetivamente, é as estruturas de significação, como vimos, se ordenam para comum-
não somente o lugar da manifestação da significação, mas ao car: daí resultam as distorções contínuas do discurso.
mesmo tempo o seu meio de transmissão. O estudo da manifesta- A estrutura gramatical assim compreendida é duplamente
ção já nos permitiu entrever os dispositivos que tomam possível
redundante. Ela o é pela repetição de suas categorias mo~fo!ógicas,
a comunicação. Esses são essencialmente de caráter iterativo. Pu-
pela isotopia devida à iteratividade das classes gramaticais, que
demos assim observar como a mostra de um certo tipo de classe-
mas tinha por resultado a constituição das seqüências isotópicas funcionam em leque no discurso. Ela o é também pela retomada
do discurso; pudemos ver o papel desempenhado pelas redun- contínua dos mesmos esquemas elementares nos quais se acham
dâncias sêmicas que estabelecem as ligações à distância. moldadas as mensagens.
Nessa perspectiva, podemos muito bem compreender que No entanto, pelo fato de ser a estrutura gramatical, ao m?smo
certo número de elementos do conteúdo seja sacrüicado, em vista tempo, uma estrutura significante, ela é criadora, no seu funciona-

152 153
mento, de redundâncias de um tipo diferente. Ela é redundante a partir dos elementos constitutivos, que serão, desta vez, seme-
pela existência dos mesmos semas nos lexemas e nos translativos mas, uma combinatória que produz mensagens que permitem
( a presença de categorias aspectuais ou modais tématizadas nas formular conceitos sobre o mundo em número praticamente in-
raízes e nos flexivos, por exemplo), pela presenç-a dos índices, que finito. Dados os elementos da combinatória, a tarefa da sintaxe
sobredeterminam, uma vez mais, as classes gramaticais, ainda pelo consiste em propor um pequeno número de regras de construção
seu sistema de derivação, que retoma e reutiliza os classemas defi- graças aos quais os sememas se difundem por alguns esquemas
nidores das classes gramaticais já situadas _(os sufixos substanti- sintáticos elementares. O jogo sintático que consiste em repro-
vais que indicam os processos verbais, por exemplo). Esse tipo de duzir cada vez, em milhões de exemplares, um mesmo p equeno
redundância constitui o preço relativamente elevado do tributo espetáculo, que comporta um processo, alguns atores e uma situa-
pago pela humanidade para estar constantemente a par dos acon- ção mais ou menos circunstanciada, talvez seja falseado e nã~
tecimentos do mundo. A eliminação dessas redundâncias abusivas corresponda à maneira de ser das coisas no mundo " real". Isso
constitui uma das primeiras tarefas da análise do conteúdo, mais não impede que o que desenrolamos diante de nós pelas regras
delicada pelo fato de a elaboração da linguagem descritiva situar-se sintáticas seja nossa Yisão de mundo e nossa maneira de organizá-lo
entre os dois extremos a serem evitados: a simplificação e a com- - únicas possíveis; isso graças ao simbolismo fonético.
plexificação. A escolha do nível estratégico para uma descrição O problema que se coloca ao analista é saber como construir
Ótima se impõe, aí como em qualquer parte, como uma exigência sua própria sintaxe semântica, que refletiria, sob forma de inva-
prática. riantes, o conjunto dos jogos sintáticos que são representados, como
outras tantas variáveis, sobre escalões hierárquicos diferentes. Isso
porque essa sintaxe permanecerá sempre semântica, apesar das
d) Orgcmização da mensagem Uusões dos lógicos, que pensam poder operar com formas sem
significação. Estamos definitivamente fechados no nosso universo
Seria pouco sério resumir em algumas linhas a maneira de ser semântico, e o melhor que podemos fazer é ainda tomar cons-
e o funcionamento das estruturas gramaticais. Também não pre- ciência da visão do mundo que aí se acha implicada, ao mesmo
tendemos apreender objetivamente a realidade gramatical com- tempo, como significação e como condição dessa significação.
plexa, mas lançar sobre ela o olhar embaraçado de um semanticista A sintaxe semântica é, pois, imanente à atividade lingüística
que procura o meio mais simples_de demolir as construções barro- e sua só aplicação progressiva pode permitir a situação dos mo-
cas da gramática. para melhor observar o desenrolar da significa- delos da descrição do conteúdo, na medida em que esse conteúdo
ção que aí se acha codificada. visa à mensagem, isto é, conceito sobre o mundo ou relato dos
Desse ponto de vista, o edifício sintático aparece como uma acontecimentos do mundo, exterior ou interior. Poderíamos tentar
construção sem plano nem mira bem claros, como um emaranhamen- traçar a partir deste momento suas grandes linhas:
to de estágios e de escalões: os derivativos abarcam as classes de 1 . A athidade lingüística. construtora de mensagens, apa-
raízes, as "funções" sintáticas transformam as classes gramaticais rece inicialmente com o estabelecimento de relações hipotáticas
fa-zendo-as desempenhar um papel aos quais não são apropriadas: entre um pequeno número de sememas: as funções, os atuantes,
as proposições inteiras são diminuídas e chamadas a se comportar os circunstantes. Ela é pois essencialmente morfemática e apre-
como simples advérbios. Através dessas translações múltiplas, a senta séries de mensagens como algoritm~s. Entretanto, uma
tarefa da análise é de encontrar o fio condutor do discurso, de estrutura sistemática - a distribuição dos papéis aos atuantes -
reduzir essas hierarquias a um plano isotópico da comunicação. se superpõe a essa hipotaxe e constitui a mensagem como uma
Isso porque a sintaxe, apesar desse bricabraque aparente, as- projeção objetivante, simuladora de um mundo de onde o desti-
sume uma função· essencial: ela opera uma nova combinatória, nador e o destinatário da comunicação seriam excluídos;

154 155
1 '

2. A ativjdade metalingüística aparece, por seu lado, como


a pesquisa e o estabelecimento das equivalências e, por conse-
guinte. como a manifestação das relaçêes de conjunção. Com
o auxilio de equivalências, isto é, de identidades sêmicas, ela
constrói mensagens como complementos de informação sobre o
mundo, de tal forma que estas deixam de ser simples redundân-
cias e servem, ao contrário, para construir os objetos lingüísticos,
com a ajuda de novas determinações e novas definições. A ati- DESCRIÇAO DA SIGNIFICAÇAO
vidade metalingüística, sistemática em seus procedimentos, atinge,
conseqüentemente, a criação de objetos, que são, em definitivo,
estruturas morfemáticas.
Vistos nessa perspectiva, os esquemas aos quais obedece nossa 1.0 MANIFESTAÇAO E DISCURSO
atividade sintática aparecem como modelos imanentes, colocados
à nossa disposição para conceber e organizar os conteúdos, sobre- a) Dicotomia do universo manife stado.
tudo sob sua forma semêmica.
Após ter proposto no capítulo precedente o quadro de uma
concepção geral do universo semântico que nos pareceu poder
ser apreendido sucessivamente como universo virtual, como sua
combinatória manifestada, e, finalmente, corno discurso, perce-
bemos que a manifestação discursiva devia, por sua vez, ser in-
terpretada como uma combinatória de segundo grau, geradora
de mensagens. Precisamos deter-nos agora nesse novo aspecto
de organização da significação.
Parece necessário, no entanto, introduzir inicialmente, ao nível
da manifestação, uma divisão dicotômica do universo semântico
igual àquela que já operamos dentro do universo imanente,
utilizando a categoria "exteroceptividade" vs "interoceptividade".
As duas operações não são, no ent~to, idênticas.
Atribuindo à categoria dicotomizante seu estatuto de metas-
sema, podemos classilicar os semas segundo sua origem presu-
mida e distingufr, assim, dois níveis sêmicos dentro do universo
imanente. Preocupados neste momento com a classificação dos
sernemas e não mais com os semas, não podembs mais considerar
a categoria em questão como metassêmica: já que organizam a
manifestação em sememas, os termos da categoria utilizada só
podem ser classemas.
A categoria classemática, que serve assim para distinguir
duas dimensões fundamentais da manifestação, será estabelecida,
por definição, como universal: se todo semema tem necessidade

158 157
de no mínimo um classema para se manifestar, esse classema será b) Isotoplas fundamentais.
ou o termo 1, ou o termo E da categoria fundamental.
Introduzindo na manifestação esta nova divisão, não fazemos
Assim, embora utilizando a mesma categoria sêmica, mas
senão complicar, à primeira vista, o deciframento do discurso, que,
aplicando-a cada Yez com um estatuto diferente, obtemos uma
dupla classificação, que não é nem paralela, nem contraditória. logomáquico pela polissemia de seus lexemas e da confusã? ?e
universos causada pelo emaranhado das estrutu ras gramaticais,
Para exemplificar, o sema pesado (supondo que pesado seja um
sema simples) é, em imanência, um sema nuclear, isto é, pertence se mostrará. além disso, como uma sucessão desordenada de
ao nível semiológico definido pelo termo E ; manifestado nos seqüências práticas ou míticas.
dois contextos diferentes : Na realidade, a instituição dessas dimensões exclusivas sig-
nifica o estabelecimento da isotopia fundamental, a partir da qual
u m saco pesado, se farão as escolhas das isotopias segundas, que determinam as
um a consciência pesada, manifestações práticas ou míticas dos microuniversos. Assim, por
exemplo, o sistema topológico _inteiro, tal c~mo é l~xicalizado ..?~s
o sema nuclear pesado se combinará. no primeiro caso, com o preposições, nos advérbios, etc., e que_ orgamza as_ ~e:entes deveis
classema E, e no segundo, com o classema 1. da dimensão, se acha transposto, pela s_tmples substitu1çao de termos
Retomando a terminologia estabelecida antigamente por Am- categóricos, a um espaço "simbólico" ( ilustrado, de maneira pe-
pere, podemos designar com o nome de dimensão cosmológica remptória, pela nossa reflexão sobre níveis, d imensões e isotopias) .
uma isotopia ou um inventário de sememas que comportem o
classema E. Paralelamente, o nome de dimensão noológica pode
ser aplicado a uma isotopia ou a um inventário de sememas e) A combinatória sintática.
caracterizados pela presença do classema 1. Preocupado, até o presente, em defmir a manifestação como
Toda descrição deverá. portanto, visar quer à dimensão cos- uma combinatória de sememas, deixamos de lado o problema de
mológica, quer à dimensão noológica do conteúdo. A descrição sua delimitação. Não vendo na atividade lingüística striclo sensu
acabada da dimensão cosmológica constituiria a cosmologia, que senão um desenrolar de relações hipotáticas, não dispomos. por
esgota o conhecimento do iµundo exterior. A descrição completa enquanto, de nenhum critério para estabelecer as fronteiras entre
da dimensão noológica constituiria, nas mesmas condições, a noolo- os sememas. Tendo, por outro lado, notado a. possibilidade de
gia, que dá conta inteiramente do mundo interior. Dada a imen- expansão das figuras nucleares, que ultrapassam facilmente os limi-
sidão do universo semântico, a manilestação de uma dimensão, tes "naturais" oferecidos pelos lexemas ( e'!. tête ãun canal); tendo
- cosmológica ou noológica, e a fortiori, sua descrição, só podem ser acentuado em seguida a equivalência das denominações e das
parciais. D iremos pois que o universo semântico é divisível _e~ definiçiles, tivemos de renunciar àquela base de apreciação rela-
microuniversos, cujas manifestações correspondem a corpus lnm- th·amente estável que era o núcleo sêmico ligado ao lexema.
tados de descrição. A manifestação parcial da dimensão cosmoló- Levantar a questão da delimitação das unidades de manifesta-
gica será dita manifestação prática, e a manifestação, par~ial da ção não é retomar somente, como um subterfúgio, os problemas já
dimensão noológica, manifestação m ítica. Como, alem disso, o antigos da atualização do discurso e da constituição do mundo
corpus a ser descrito pressupõe ou um locutor individual ou um dos objetos, em relação aos quais os lingüistas têm sempre mani-
locutor coletiYo, as próprias manifestações parciais serão consi- festado uma desconfiança muitas vezes justificada. Definir o se-
deradas tanto indiYiduais como coletivas. roema como unidade de manifestação é também lançar as bases
de uma nova combinatória sintática, das quais essas unidades
seriam os elementos combináveis.

158 159
de construção vamos tratar de precisar agora. À prhneira vista,
Mas diz-er que tal semema particular deva ser considerado poderíamos dizer que o funcionamento da mensagem consiste em
como uma unidade não é somente atribuir-lhe um classema su- estabelecer inicialmente objetos discretos, para fornecer em se-
plementar, o da "unidade", que transformaria uma hierarquia guida informações sobre esses objeto~, COJ? o a~o. de dete~-
sêmica qualquer, denominada "semcma··, em uma es1nitura m orfe- nações mais ou menos integradas, aphcáveIS a tais obJetos. Assun
mática possuidora de um eixo comum que dá conta de sua apre- é o ponto de vista da lógica tradicional, assim poderia .ser também
ensão tota!; é também instituir o semema como classe, conside- a representação da atividade sintática, apreendida ao vivo, no seu
rnndo o corpus de todos os sememas manifestados como consti- funcionamento hic et nunc. Entretanto, a perspectiva muda desde
tuindo apenas uma dasse denominada "semema··. que deixemos de considerar a mensagem isolada e nos inter-
Diremos, pois, que o universo manifestado, em seu conjunto, roguemos sobre a significação de uma série de mensagens, e per:
constitui uma classe. definível pela categoria da "totaüdade"; que cebamos que a atividade sintática, situada no interior de um corpus,
esta categoria, que nós propomos conceber, seguindo Br.0ndal, consiste, ao contrário, em instituir os objetos a partir de propósitos
como articulando-se em formulados sobre os acontecimentos, ou os estados do mundo.
Diremos, pois, que a priori, no quadro d~ universo semântico
discrição · vs integridade tomado em seu conjunto, o predicado press~poe o atuante, mas que
a posteriori, no interior de um microuniverso, um inventário exaus-
divide o univer;o manifestado, realizando, no momento da manifesta- tivo de predicados constitui o atuante.
ção, um de seus termos sêmicos em duas subclasses. constituídas, no Complicando um pouco a manifestação sintática, devemos in-
primeiro caso, de unidades discretas, e no segundo, de unidades
troduzir a divisão da classe dos predicados, postulando uma nova
integradas. Situando-nos ao nível da manifestação das ocorrências,
categoria classemática, aquela que realiza a oposição "estatismo"
,·emos que t~o semema, sobredetenriinado pela presença, em seu
interior, do classema "discrição", se coloca como um objeto uni- vs "dinamismo". Os semas predicativos são capazes~de fornecer
informações quer sobre os estados, quer sobre os processos que
tário, e produz, enquanto "efeito de sentido", a idéia de "subs-
concernem aos atuantes na medida em que comportem o sema
tância" - pouco importa o nome que se lhe dê mais tarde -
"estatismo'> ou o sema "dinamismo". Assim, anteriormente a qual-
após a adjunção de novas determinações classemálicas: "coisa",
quer gramaticalização, o semema predicativo, tal como se realiza
"pessoa", " imagem", "símbolo", · etc. Vemos. por outro lado, qlle
todo semema que comporte o classema "integridade" se apre- no discurso, recoberto pelo lexema aller (ir) em:
senta como um conjunto integrado de detenninações sêmicas. Cette robe foi va bien ( este vestido lhe cai bem)
Se o universo semântico, manifestado sob a forma de sememas, Cet enfant va à l'école (este menino vai à escola)
for considerado como a classe das classes, aparecerá assim como
um universo sintático imanente. capaz de gerar unidades de ma- comportará, no primeiro caso, o classema "estatismo" e, no se-
nifestação .sintáticas maiores. Propomos fixar o nome de atuante gundo caso, o classema ~'dinamismo".
para designar a subclasse de sememas definidos como unidades Fixaremos o termo função para designar o predicado "dinâmico"
discretas, e o de predicado para denominar os sememas conside- e o de qualificação para o predicado "estático" e diremos que a
rados como unidades integradas. A combinação de um predicado mensagem, enquanto combinatória de sememas, deve comportar,
e de ao menos um atuante constituirá, assim, uma unidade maior, de um lado, uma função ou qualificação, e, de outro, um número
à qual podemos reservar o nome de mensagem ( que precisaremos, limitado de atuantes; a totalidade das mensagens constitui a
sempre que necessário, como sendo uma mensagem semântica). manifestação sintática da significação.
A manifestação sintática, que se organi-za assim em mensagens,
aparece como uma no..-a C'ombinatória muito simples, cujas régras
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160
Observação, O problema da articulação dos atuantes, par- - não é de espantar se nos propomos a designar com o nome de
ticularmente complexo, será retomado mais adiante no seu "radotage" esse inventário de mensagens estáticas. Como as afa-
conjunto. bulaçóes, os "radotages" podem, segundo a isotopia escolhida, ser
ou práticos ou míticos.
d) A afabulação e o ''radotage- (*). Vemos, pois, que a manifestação sintática, seja ela concebida
como uma afabulação ou como um "radotage", constitui, graças
O estabelecimento desses poucos conceitos relativos à orga- às suas unidades, que são as mensagens, esquemas estereotipados
nização da manifestação permite já entrever os p rimeiros p roce- nos quais se difunde nosso saber, concernente ao fazer ou ao
dimentos da descrição: a escolha da isotopia - prática ou mítica ser dos "objetos simbólicos" que são os atuantes.
- a descrever, os procedimentos de d elimitação dos sememas e
da construção das mensagens a serem aplicadas. Parece evidente
que essa descodificação semântica deverá ser seguida da separa- 2..º A MANIFESTAÇÃO DISCURSIVA
ção operacional das mensagens d inâmicas e das mensagens está-
ticas. A isotopia de um texto a ser descrito tomará, assim. a a) As bases pragmáticas da 01'.ganlzação.
forma de um duplo inventário de mensagens.
Os predicados funcionais introduzem na organização da sig- Basta observar a afabulação prática cotidiana para aí distinguir
nificação a dimensão dinâmica, fazendo aparecer os microwli- as linhas gerais pelas quais se opera a organização da significação
versos semânticos constituídos por séries dê mudanças que afetam no discurso. Se a uma série de comportamentos reais correspondei
os atuantes. Mas, colocados à parte o imperativo e o vocativo, no plano lingüístico, uma série paralela de funções que os simu-
que podem aparecer como instrumentos lingüísticos de ação sobre lam, conotando assim um certo "fazer» não lingüístico, um só
o mundo, os outros prediçados são na realidade apenas simulações semema, tal como "broder" (bordar) por exemplo, pode englobar
de ações, apênas narrativas dos acontecimentos d o mundo. Como, todo um algoritmo de funções, aparecendo como a denominação
por outro lado, não sabemos, por enquanto, nada a propósito de um savoir-faire. Num domínio inteiramente diferente, o
dessas narrativas, e como ignoramos mesmo se elas são logicamente " radotage'' mítico de um La Bruyere, englobado com a ajuda de
orientadas, bastará considerá-las como afabulações. Diremos, as- UJ,Il nome próprio de origem grega e, conseqüentemente, vazio de
sim, que um inventário de mensagens dinâmicas, d escodificadas a conteúdo, se revela, a partir da soma das qualificações, obediente
partir de uma isotopia cosmológica, constitui uma afabulação a um princípio de ordem, capaz de gerar um "caráter". A mani-
prálica, e que inversamente, a afabulação será mítica se a isotopia festação discursiva chega, pois, a p roduzir, partindo ou de séries
utilizada para a construção das mensagens é noológica. funcionais ou de inventários qualificativos, conjuntos organizados
Quanto ao inventário das mensagens caracterizadas pela pre- que ultrapassam largamente os limites impostos pela sintaxe, e
sença dos sememas qualificativos, vemos que o microuniverso que, apenas pelo fato de serem suscetíveis de ser denominados,
assim pressuposto aparece como o universo do hábito e da per- se apresentam como totalidades, isto é, estruturas que parecem
manência. O papel dessas mensagens só pode consistir em au- ser de ordem morfemática, no primeiro caso, e de ordem sistemá-
mentar, por determinações sucessivas, o ser dos atuantes aos quais tica, no segundo.
eles remetem. Seu inventário é constituído, no fundo, de con- Pouco importa que essas estruturas sejam denominadas de há
ceitos descosidos sobre coisas e pessoas mais ou menos familiares muito {broder ) ou que as denominemos no próprio momento em que
a seqüência discursiva se ache manifestada (Iphis }: elas poderiam
perfeitamente permanecer implícitas como possibilidades de de-
(*) &dotage: nmativa dispantach. (N. de T ) nominação. Basta-nos, por enquanto, ~der registrar a existência,
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no seio da manifestação discursiva, dos elementos de organização
do universo semântico e notar que, caracterizados pelas deno- ticular que se encontra, é verdade, em certos tipos de afabu-
minações, estes dependem d o funcionamento metalingüístico da lação, como o conto popular. Na maioria das vezes, a manifestação
significação, e são, ou podem ser, por isso, pressupostos pelo complexa está em desequilíbrio - ela é tanto positiva como
discurso. Um princípio de ordem pode ser, conseqüentemente, negativa. Assim, na manifestação quotidiana, o mítico só se mani-
imanente ao que designamos como simples afabulações ou rado- festa sob a sua forma difusa, cedendo o primeiro lugar às preo-
tages: na manifestação discursiva, cujas unidades constitutivas são cupações práticas. Em compensação, nos casos do sonho e da
mensagens, pode ser, em princípio, admitido um universo de poesia, a prática se ressente do desenvolvimento excessivo do
imanência onde estariam situados os modelos que presidem a mítk o e se contenta com uma manifestação difusa (ex. : a elaboração
esta manifestação e que a descrição semântica teria por tarefa secundária de Freud ).
exp licitar. Estaríamos enganados se inferíssemos da insuficiência da ma-
nifestação a inexistência de modelos. As manifestações parciais
- litóticas ou elíticas - não deixam de pressupor modelos aca-
b) Modos de presença da manifestação dlscursiva. bados, e teremos ocasião de trazer mais tarde exemplos que o
confirmam. Pode ser, por outro lado, que tal modo de presença
A manifestação discursiva parece, à primeira vista e de ma- esteja em relação direta com a preferência que o locutor - indi-
neira geral, ser caracterizada por diferentes modos de presença vidual ou coletivo - tem em relação a esse ou àquele tipo de
desses modelos de organização e por diferentes graus de sua modelo; entretanto, é prematuro falar disso.
explicitação. Finalmente, não será inútil notar, embora isso pareça natural,
1. Em casos favoráveis, a afabulação pode se apresentar que a distinção das dimensões noológica e cosmológica é de
como o algoritmo acabado de um savoir-f aire prático ou mítico, caráter muito geral, e que a manifestação discursiva, tanto prá-
e o radotage como uma n omenclatura, resultado de um saber tica como mítica, se divide em mícrounh·ersos manifestados múl-
prático ou mítico organizado. tiplos. f: preciso prevê-lo para tomar precauções no plano opera-
2. Na ma ioria das vezes, a afabulação se manifesta de uma cional: dado que várias técnicas ou várias taxonomias podem
maneira elítica e só apresenta seqüências algorítmicas incomple- estar implicadas ao mesmo tempo num só texto, a descrição não
tas de uma técnica ou de um mito; o radotage, por sua vez, é deve procurar construir, por exemplo, partindo do mítico difuso
freqüentemente litótico e aparece sob a forma de sistemas taxo- na comunicação prática, um modelo único que abrangeria sua função.
nômicos parciais. A descrição tem, nesse caso como finalid ade
juntá-los subor dinando-os a modelos que dêem 'conta do conjunt~
dessas manifestações p arciais. e) Os microuniversos semânticos.
3. A afabulação, como o radotage, podem finalmente aparecer
sob a forma de mensagens isoladas, de caráter m ítico, dentro de Antes de avançar a reflexão a respeito da manifestação discur-
uma manifestação prática, ou inversamente. Diremos que se trata, siva, será útil pararmos um pouco para tentar resumir os resultados
nesse caso, ou de um m ítico difuso na manifestação prática, ou do obtidos. A descrição do universo semântico que empreendemos fez
prático d ifuso na manifestação mítica. com que este aparecesse como passível de ser interpretado com o au-
xilio de dois modelos de caráter geral, dos quais o primeiro dá conta
Vemos assim, uma vez mais, que o equilíbrio da manifesta- da manifestação d o conteúdo, e o segundo da organização do con-
ção discursiva é precário e que o funcionamento de uma biiso- teúdo manifestado.
topia, por exemplo, onde cada mensagem poderia ser lida ao
mesmo tempo como prática e mítica, é apenM um CMO par- 1. O universo imanente - é o nome que demos a esse pri-
meiro modelo - do qual sô é proposta a axiomática, mas cujas
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articulações sêmicas devem ainda ser descritas; foi ele apresentado uma resposta possível - a limitação da atividade sintática s6
pode provir das condições que lhe impõe objetivamente a re-
como capaz de dar conta do universo manifestado. O conteúdo cepção da significação. Embora a mensagem se apresente à
assim manifestado, pelo seu modo de existência, é uma combina- r~epção como uma sucessão articulada de significações, isto é,
tória de sememas; pelo seu modo de aparência, constitui o mundo com seu estatuto diacrônico, .a recepção só pode efetuar-se pela
das qualidades, essa espécie de t ela opaca sobre a qual vêm-se transformação da sucessão em simultaneidade e da pseudo-dia-
refletir inúmeros efeitos de sentido. cronia em sincronia. A percepção sincrônica, se acreditamos
2. O universo manifestado é, por sua vez, submetido a um em Br4>ndal, só pode apreender um máximo de seis termos
modelo que lhe organiza o fun cionamento combinando os seme- de cada vez.
mas em mensagens: uma sintaxe imanente deve, conseqüente- Se o colocamos assim , como condição primeira, o princípio
mente, ser postulada para dar conta, graças a ama combinatória de apreensão simultânea <la significação, aplicá\·el a todos os
muito simples, de uma tipologia de mensagens manifestadas. níveis <la manifestação, não somente a me_nsagem nos aparece como
Contrariamente ao primeiro modelo que, constituído de ca- uma unidade de manifestação acrônica, mas to9a organização da
tegorias da significação, fornece a investidura sêmica a cada !llanifestação, isto é, no sentido latõ dessa palavra, toda a sintaxe
sernema particular, o modelo sintático, construído com a ajuda imanente, de\"e ser concebida como um agenciamento do con-
de categorias metassêmicas, não opera com os sememas-ocorrên- teúdo visando à sua percepção. O universo semântico se frag-
cias, mas com sememas considerados como classes, independen- menta assim em microuniversos, que são os únicos que podem
temente do conteúdo propriamente dito que neles se encontra in- ser percebidos, memorizados e '\·ividos". Efetivamente. se pen-
vestido. samos algo a propósito <le algo projetamos esse algo diante de
A manifestação da significação, que depende, assim, de dois nós como uma estrutura de significação simples que comporta
modelos de interpretação, situados em níveis hierárquicos distin- apenas um pequeno núme ro de te rmos. O fato de podermos
tos, possui, conseqüentemente, uma dupla articulação e se acha depois aprofundar nossa reflexão, fixando apenas uma categoria,
submetida a dois tipos de análise, o primeiro que dá conta das ou um só termo, e desem·oh-er assim estruturas hipotáticas da
investiduras sêmicas, realizadas nos sememas, o segundo da orga- significação, não muda em nada essa captaç-âo primeira.
nização dos conteúdos investidos. . Vemos que é tal reflexão sobre Isso explica a introd ução, nesta etapa da reflexão metodo-
as condições desse segundo tipo de análise e a pesquisa de mo- lógica, do conceito de microuni-verso: diremos q ue ele se apre-
delos que pudessem justificá-lo que nos preocupa no presente. senta como um modelo imanente, constituído, de um lado, de
um pequeno número d!? categorias s~micas apreensíveis simulta-
Só dispomos, de início, do modelo sintático para nos dar uma
primeira idéia da maneira pela qual é preciso conceber a orga- neamente como uma estrutura, e como pode ndo dar conta, de
nização dos conteúdos dentro do universo manifestado. O modelo outro lado, graças às suas articulações hipotáticas, do conteúdo
sintático nos espanta inicialmente por sua simplicidade, isto é, manifestado sob a fonna de texto isotópico.
ao mesmo tempo pelo pequeno número de elementos consti-
tutivos da mensagem e pelas dimensões muito limitadas atribuí-
d) Tipologia dos microuniversos.
das à mensagem no desenrolar do discurso: assim, quando coloca-
mos a questão ingenuamente, não compreendemos por que a
frase é a seqüência má.xi.ma do discurso dentro da qual se exerce Deixando provisoriamente de lado os problemas concernentes
a atividade organizadora propriamente lingüística do conteúdo, à _estrutura interna dos microuniversos, podemos já utilizar, neste
quando se trata de uma manifestação cujas dimensões temporais estágio, as informações relativas às diferentes formas de mani-
não são impostas previamente. Olhando mais de perto, só temos festação de q':1e dispomos, para propor uma primeira classificação

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desses universos, fundada sobre os critérios de manifestação.
Assim, vimos que as mensagens, situadas sobre uma isotopia
só levando em consideraçã-0 seus · predicados. Dessa forma, um
qualquer, deviam ser classificadas em dois inventários separados inventário de mensagens f unclonais apareceu-nos como um algo-
- as mensagens funcionais e as mensagens qualificativas. Dire- ritmo de funções, isto é, como uma sucessão de funções possui-
doras de sentido; do mesmo modo, um inventário de mensa-
mos que o primeiro inventário constitui a manifestação discursiva
do microuniverso que depende de um modelo funcional, e cha- gens qualificativas pareceu ser constitutivo de uma classe de
maremos análise funcional à análise que dá conta desse modo determinações que, embora sucessivas na aparência, obedeciam
de organização. O mesmo ocorre com o segundo inventário de a um princípio de ordem que podia transformá-las em taxono-
mensagens: enquanto manifestâção discursiva de um microuni- mias. Propusemos, a seguir, admitir a existência de modelos -
verso, pode ser interpretado com a ajuda de um modelo qualifi- dos quais apenas a simplicidade estrutural parece estar assegu-
cativo, e os procedimentos de descrição utilizados para esse efeito rada e que devem ser explicitados por análises ulteriores - carac-
tomarão o nome de análise qualificativa. terizados por dois tipos de agenciamento distintos: uns são de
ordem algorítmica e implicam, por 'essa razão, uma consecução de
Podemos precisar, em seguida, que a análise que visa a funções; outros, de ordem classificatória, estão fundados sobre as
explicitar os modelos funcionais, quando feita a partir da ma-
relações de conjunção e de .disjunção. Tal hipótese constitui o
nifestação prática, dará conta dos microuniversos tecnológicos;
quadro, provisório talvez, que permite empreender a descrição
quan<:10 procurar descrever a manifestação mítica, fará aparecer
dos conteúdos no interior de um microuniverso semântico
os m1crouniversos ideológicos. Por outro lado, os modelos qua-
dado
lificativos, na medida em que sustentam a manifestação prática,
dão conta dos microuniversos científicos; operando a partir da A simplificação do problema está, no entanto, na c-0locação
manifestação mítica, explicitam os microuniversos axiológicos. entre parênteses dos atuantes de mensagens. De fato, uma su-
Assim, considerando os microuniversos semânticos, tanto como cessão de mensagens pode ser considerada como um algoritmo
imanentes quanto como manifestados, e distinguindo dois tipos apenas se as funções que af se manifestam são atribuídas a um
p~inc~pais da manifestação e duas formas previsíveis de sua orga- só atuante. O mesmo ocorre com mensagens qualificativas, que
mzaçao, podemos sugerir uma primeira tipologia dos microuni- só se constituem em classe enquanto comportem as determina-
versos semânticos: ções de um atuante único. lt preciso, conseqüentemente, retomar
o problema, levando em conta a complicação introduzida nas
mensagens e nos inventários de mensagens pela pluralidade dos

~ o
funcionais qualificativos atuantes.
A relação entre atuantes e predicados, observada por um
momento no estudo da construção da mensagem, nos pareceu
práúca tecnológicos cicntfficos ambígua.
Se, de fato, ao nível das mensagens tomadas individual-
mflica ideológicos axiológicos mente, as funções e as qualificações parecem ser atribuídas aos
atuantes, o contrário se produz ao nível da manifestação discur-
siva: vemos que as funções aí, bem como as qualificações, são
e} Predicados e atuantes. criadoras de atuantes, e que os atuantes são convocados a uma
vida metalingüística por serem representativos, diríamos mesmo
Até o prese_n te, consideramos as JilCnsagens e os inventários compreensivos, das classes de predicados. Resulta disso q,1e os
de mensagens apenas de um ponto de vista simplificado e parcial, modelos funcionais e qualificativos, tais como os admitimos,
168 169
são, por sua vez, dominados pelos modelos de organização de Assim, nossa primeira sugestão consistiria em articular os
um nível hierárquico superior, que são os modelos atuacionais. atuantes em duas categorias distintas:
Precisaremos, portanto, d a seguinte forma o duplo estatuto sujeito vs objeto
dos atuantes: enquanto conteúdos investidos, os atuantes são,
de fato, instituídos por predicados dentro de cada microuniverso destinador vs destinatário
dado;_ enquanto subclasses sintáticas, são entretanto, por direito, interpretando, quando se fizer necessário, pelo sincretismo cate-
antenores aos predicados, consistindo a atividade discursiva, como górico, toda acumulação eventual de atuantes. Assim no enunciado
vimos, na atribuição de propriedades às entidades. É, pois,
necessária a categorização dos atuantes, isto é, a divisão da classe Eva dá uma maçã a Adão
"atuantes" em subclasses de atuantes, que dêem conta de sua plu-
ralidade; uma vez constituídos em categorias, eles poderão for- o sujeito Eva é o ponto de partida de uma dupla relação - a
necer os quadros estruturais que permitem organizar os con- primeira se estabelece entre Eva e maçã e a segunda entre Eva
teúdos depreendidos graças à análise predicativa efetuada no e Adão, sendo Eva ao mesmo tempo atuante-sujeito e atuante-
interior dos microuniversos manifestados. -destinador.
Uma outra sugestão concerne à distinção que é preciso neces-
sariamente estabelecer entre os atuantes sintáticos propriamente
·O Ccrlegorias atua cionals. ditos e os atuantes semânticos. Nos enunciados :
Seria presunção, no estado atual das pesquisas, tentar dizer Eva dá umá maçã a Adão
algo de preciso sobre as categorias que organizam, tanto no Adão recebe de Eva uma maçã
plano da mensagem discursiva quanto no interior dos microuni-
versos, a representação do mundo das significações sob a forma as substituições sintáticas dos atuantes não altera nada em sua
de oposições e de conjunções de atuantes. Nos dois domínios distribuição semântica, que não varia. Além disso, poderíamos
onde é levantado - basta pensar nas construções das sintaxes dizer que esse jogo de substituições sintáticas serve de ponto de
lingilisticas e lógicas -, o problema não recebeu solução satis- partida a um perspectivismo estilístico ( isto é, à utilização dos
fatória. Tratar-se-á. pois, para nós, apenas de abrir um dossiê paradigmas de organização de narrativas em função dos atuantes
para nele lançar algumas sugestões _e preforrnulações. As análises sintaticamente favorecidos pelo escritor) que constitui uma das
parciais que serão esboçadas nos últimos capítulos constituem dimensões estilísticas freqüentemente exploradas pelos movimentos
apenas abordagens pragmáticas do mesmo problema. literários das últimas décadas. ·
A pesquisa sintática francesa, na medida em que tem a Um fenômeno bem se11sív~l. que merece ser sublinhado a par-
coragem de atribuir um conteúdo semântico aos atuantes (Tes- tir deste momento, é a concomitância das substituições: um desti-
niere, Martinet ), propõe apenas uma solução empírica sob forma natário só pode ser transformado em destinador na medida em
de um inventário de três atuantes que uma substituição paralela é efetuada ao nível das funções e
anula os efeitos da primeira. Isso quer dizer que a distinção
agente vs paciente vs beneficiário categórica que articula os atuantes se manifesta em dois lugares
diferentes da mensagem, e pode ser estabelecida tanto no nível
sem cuidar de sua articulaçã~ categórica, sem se inquietar, por dos atuantes quanto no das funções.
exemplo, com o fato de que o "beneficiário" não pressupõe um
"agente" mas um "benfeitor".

170 171
preocupamo-nos não somente com a necessidade de formular
q) Sintaxe 16giea e sintaxe semântica. as regras de transformação que permitem reduzir as duas pro-
posições a uma só mensagem semântica, mas também com a
t;: essa última solução que pa.rece ter sido escolhida pela sin- necessidade de fixar, ao nível dos atuantes, o conteúdo sêmico
truce lógica, que situa no nível das funções o problema de sua das funções. Efetivamente, podemos dizer qu~, de um modo geral,
orientação. Para dar conta das relações entre os atuantes, é confe- as mesmas categorias sêmicas se manifestam tanto nos atuantes
rido às funções um certo conteúdo sêmico conceitualizado sob o quanto nos predicados. Assim, dois atuantes, tais como:
nome de orientação; assim, nas proposições do tipo
grenler vs cave
x está sob li (sótão) (porão)

é a função ( qualquer que seja sua notação simbólica) que está possuem as propriedades sêmiéas "estar no alto" e "estar em bai.xo"
encarregada de determinar o estatuto dêitico dos dois atuantes. A que dão conta, enquanto predicados lexicalizados, de suas rela-
sintaxe, uma vez orientada deste modo, permite fazer abstração da ções topológicas recíprocas. Uma dupla formulação - topológica
investidura semântica dos atuantes ( isto é, dos "nomes próprios") , e dêitica - de um mesmo conteúdo é apenas a ilustração de
mas multiplica as dificuldades no nível das funções e as transfere um modo de seI geral da significação manifestada. Na medida
para o nível do cálculo das proposições. A via assim escolhida em que a análise funcional ou qualificativa institui os atuantes,
p or ela é sintagmática e não taxonômica, e aparece como uma ela não faz senão transferir, de certa forma, os conteúdos se-
álgebra incumbida de controlar o mundo das significações, na mânticos da classe dos predicados à dos atuantes. Se existem,
medida em que este se manifesta sob a forma de fato e de conseqüentemente. categorias atuacionais de caráter muito geral
evento. e se elas se manifestam, como vimos, tanto no nível das funções,
quanto no dos atuantes, parece-nos necessário dar-lhe uma for-
Uma semântica que buscasse imitar os modelos da sintaxe
lógica chegaria rapidamente a um impasse. Não tendo funções mulação atuacional e não funcional: o conteúdo de um micro-
de controle, ela se perderia na descrição da infinidade de as- universo semântico, previamente descrito, poderá assim se apre-
serções possíveis sobre os acontecimentos do mundo. Vimos sentar. sob esta forma, como um "espetáculo" e não mais como
com Bar-HiUel que nenhuma memória é capaz de armazenar uma série de acontecimentos.
todos os conceitos sobre o mundo; nenhuma ciência devidamente
constituída se livra do inventário dos acontecimentos; aliás, con- h) O caráter modal das categorias atuádon·a is.
dições objetivas nas quais se efetuam muito provavelmente a
recepção e a conservação da significação nela se opõem. Em vez O fato mais chocante no funcionamento das categorias atua-
de dar a forma do desenvolvimento sintático aos conteúdos se- cionais nos pareceu ser seu caráter redundante: cada categoria
mânticos, precisamos, conseqüentemente, encontrar os meios de se manifesta, efetivamente, ao menos quas vezes dentro de uma
reduzir a sintaxe à semântica, e os acontec.imentos às estruturas.
mensagem. Numa primeira vez, ela se· apresenta, por um só de
Somos, assim, obrigados a assumir uma atitude de reserva em seus t ermos, em cada um dos atuantes; numa segunda vez, ela
relação à sintaxe lógica, que nos ofereceria, entretanto, uma me- se encontra, com seus dois termos de uma só vez, na função que
todologia já elaborada. Assim, encontrando-nos em face de dois interliga os dois atuantes. Assim, o enunéiado
enunciados:
x está sob 11 Pierre bat Paul
e ( Pedro espanca Paulo)
ti está sobre x
l73
179
manifesta a categoria S, com os sew l&mos , e não s, da seguinte de condições lingüísticas do conhecimento do mundo, e conse-
maneira: qüentemente,. em considerar a possibilidade de uma epistemologia
A1 ( s) + F (s + não s) +
A-i ( não s). lingüística. ·
Já anteriormente, com a introdução da categoria de "totali-
Vemos que temos aqui um caso de wna relação morfossintá- dade·, que nos pareceu necessária para dar conta da constHuição
tica que se estabelece entre a função e os atuantes "sujeito.. e das combinações sêmicas manifestadas em unidades de signifi-
"objeto" e que é uma relação h omocategórica ( ou, se quisermos, cação - em atuantes, objetos lingüísticos discretos, e em predi-
segundo nossa própria terminologia, biperonímica ) : ela aparece cados, totalidades sêmicas integradas - , confundimos consciente-
como a repetição da categoria manifestada tanto na sua totali- mente a lingüística e a epistemologia. Isso nos pareceu legítimo
dade como em um de seus termos. "na medida em que toda teoria da linguagem po<le ser considerada
Vista sob esse ângulo, a mensagem é, definitivamente, apenas como uma construção metalingüística e onde todo conceito meta-
a projeção da estrutura elementar da significação sobre os con- lingüístico não analisado pode, por esse fato, ser lançado no
teúdos já organizados em classes de atuantes e de predicados, inventário epistemológico hierarquicamente superior.
isto é. de uma estrutura que é hierarquicamente superior às clás- A análise da estrutura da mensagem nos obriga a colocar o
ses de sememas. Se os atuantes, que definimos anteriormente problema de maneira um pouco diferente. Dizer que uma cate-
como classe de sememas discretos, recebem assim determinações goria modal engloba o conteúdo da mensagem e o organiza,
suplementares, sob a fon:na de metassemas que os constituem estabelecendo um tipo determinado de relação entre os objetos
em sujeitos, objetos, destinadores ou de.stinatários, as funções, por lingüísticos constituídos, significa que se reconhece que a es-
sua vez, que concebemos como conteúdos sêmicos integrados, trutura da mensagem impõe uma certa visão do mundo. Assim,
se acham abarcadas por categorias que decidem sobre seu estatuto a categoria de "transitividade" nos força, por assim dizer, a
em relação aos atuantes e que constituem a mensagem e nquanto conceber um certo tipo de relação entre os atuantes, coloca diante
acontecimento ·significante, isto é, enquanto espetáculo do acon- de nós um atuante como investido de poder de agir e um
tecimento. As categorias que chamamos "atuacionais", por pa- outro atuante investido de inércia. O mesmo ocorre com a rela-
recer ser constitutivas dos papéis particulares atribuídos aos atuan- ção entre destinador e destinatário, que parece não somente
tes, parecem ser, ao mesmo tempo, categorias modais, de maneira fundar a troca, mas também instituiI, face a face, objetos dos
a atribuir um estatuto próprio a cada mensagem-espetáculo. A quais um será a causa e o outro o efeito, etc. Supondo agora que
tarefa da semântica nesse nível de reflexão metodológica se toma o número dessas categorias que organizam a · significação seja
precisa: é-lhe necessário estabelecer, com a utilização dessas reduzido e que uma tipologia dos espetáculos assim instituídos
categorias modais, uma tipologia dos modos de existência,. sob a seja possível, tal tipologia, fundada sobre uma descrição exaustiva
forma de estruturas atuacionais simples, dos microuniversos se- das estruturas da mensagem, constituiria o quadro objetivo dentro
mânticos, cujos conteúdos, descritos graças aos procedimentos da do qual a representação dos conteúdos, que se identificam com
análise funcional ou da análise qualificativa ( ou das duas ao mes- microuniversos semânticos, seria a única variável. As condi-
mo tempo), não constituem senão variáveis. ções lingüísticas do conhecimento do mundo se encontrariam
desse modo formuladas.
O Uma epistemologia llngüisüca. Diremos que tal maneira de ver tem poucas conseqüências
práticas para a descrição das significações cosmológica5. O mes-
Situar nesse - nível o princípio da existênciâ de modelos de mo não ocorre, entretanto, quando se trata das manifestações
organização da significação nos leva mais longe do que pensá- míticas, extremamente variadas, cujas análises, praticad-as por dife-
vamos de início: consiste, efetivamente, em asseverar a existência rentes disciplinas humanistas, parecem pouco seguras, isto porque
l 74 175
se seus resultados não são isomo.rfos, não são comparáveis. A3
categorias modais só se referem aos predicados, e aí seu papel nifestação discursiva, só servem para descrever os conteúdos sê-
permanece limitado à formulação e ao controle dos julgamentos: micos dos .atuantes que eles constituem desse modo, e que a
a .coisa será diferente se as concebermos como constitutivas dos oi:ganização ataacional propriamente dita não poderá ser deter-
modelos ao mesmo tempo predicativos e atuacionais, segundo os minada senão tomando em consideração as mensagens funcionais
quais se organizam, inevitavelmente, os microuniversos semân- imbricadas na mesma manifestação. F eita apenas de mensagens
ticos. qualificativas, a manüestação discursiva parece impossível: um
discurso desse tipo não faria senão girar sobre si mesmo, subme-
O domínio das categorias modais é tão pouco explorado que tido a todo instante aos riscos de esgotamento, ameaçado de uma
não possuímos mais que amostras - nem mesmo inventários limitação. Vemos aqui, talvez, uma das razões que levaram inú-
dos verbos ditos "modais"', amostras que naturalmente meras lingüistas a identificar, mais ou menos conscientemente, o
variam de uma gramática a outra. Também, tudo o que dissés- discurso com o plano sintagmático da linguagem. A questão que
semos a esse respeito só poderia ser recebido, com razão, pruden- se coloca é a de saber se existe uma manifestação puramente
temente. Nossa primeira impressão é de que das duas categorias qua!ificativa, e quais são, nesse caso, as condições que tornam
atuacionais que extrapolamos partindo da sintaxe francesa, e que possível sua transmissão e que a constituem em comunicação.
se exprimem pelas oposições:
O caso-limite desse tipo de manifestação, se colocamos à
sujeito vs ob jeto parte os aspectos patológicos da atividade lingüística, parece . ser
destinador vs destinatário representado pelo que chamamos " poesia moderna" . Esta, efeti-
vamente, não somente visa muitas vezes a "abolir a sintaxe" isto
a primeira é de ordem teleológica, a segunda é de ordem etio- é, a diminuir o mais possível1 o número de mensagens fanci~nais•
lógica: a primeira seria uma modulação do poder; a segunda. do ,
~as aparece tamb em, em a gumas de sua realizações, como um
saber. b om exemplo de manifestação complexa com dominância da iso-
topia negativa. Devido à redução da isotopia prática ao mínimo
Observação: Um par de circunstantes "adjuvante" vs indispensável somente, ela pode, à primeira vista. definir-se como
"oponente" aparecerá, mais tarde, vindo de uma análise manifestação mítica e qualificativa ao mesmo tempo.
concreta do conto popular. lt-nos bastante tentador conside-
Efetivamente, a debilidade do suporte prático se acha aí com-
rá-lo como uma modulação do querer. pensada pelo desenvolvimento da manifestação mítica. Assim, o
recorte da manifestação em seme~as se opera em proveito do
plano mítico, e os sememas poéticos - imagens, símbolos, sintag-
3.0 MANIFESTAÇÃO FIGURATIVA E MANIFESTAÇÃO
mas e . definições metaf6ricas - aparecem, conseqüentemente,
NÃO FIGURATIVA
como figuras negativas cujas fronteiras não correspondem mais
àquelas dos sememas positivos do plano prático. Se à expressão
a) Um exemplo: a comunicação poética. sem emas negativos n6s preferimos o termo figuras, isso não
A ênfase que fomos levados a dar às mensagens funcio- se ?eve s?m?nte ao fato de seus critérios <lema.reativos parecerem
na is, que nos permitiram explicitar as categorias atuacionais, e mais flex1ve1s, mas também porque, contrariamente ao que se
de propô-las como modelos de organização de microuniversos, passa q~ando da manifestação complexa equilibrada, onde o
não deve, no entanto, fazer-nos perder de vista a existência de semema e de certa maneira colocado inicialmente e serve aos usos
mensagens qualificativas. Podemos muito bem · imagin ar que os práticos e míticos, na manifestação negativa os núcleos dos
inventários de tais mensagens, constituídos a partir de uma ma- sememas aparecem quase como acidentes, como esses ºmateriais
de bricolagem" de que fala C. Lévi-Strauss, empregados unica-
176
1n
-
mente porque ali estavam pa ra servir a outra coisa. Esta bastar a si mesma como cair na construção de um modelo quali-
"outra coisa" é, de fato, a própria comunicação poética, isto é, a ficativo, cujos atuantes-s-ememas serão constituídos, a partir de
iteração de um certo número de categorias sêmicas que, com- certas fig uras iterativas, de atribuições sucessivas das determina-
binando-se com os classemas interoceptivo e proprioceptivo, cons- ções sêmicas. A análise qualificativa acaba assim por tornar evi-
tituem a isotopia poética. - dente a descrição de uma certa hierarquia, cuja articulação ( com
a condição de que se coloque entre parênteses a categoria proprio-
O papel das figuras, nesse tipo de manifestação mítica, é
ceptiva "euforia" vs "disforia" que lhe confere seu caráter axio-
duplo; de um lado, elas contêm os semas constitutivos da isotopia
poética; de outro lado, servem de relês sêmicos, isto é, de lugares lógico, e conquanto se opere a comutação classemática, transfor-
mando a dimensão noológica em cosmológica) não se distingue
onde se efetuam as substituições de certos semas p or outros.
estruturalmente de modo algum das taxinomias científicas - Bo-
As equivalências que assim _se estabelecem transformam em clas-
tâ.ncias ou zoológicas - analisadas por C. Lévi-Strauss no Pensée
ses homologadas as categorias s~micas elementares, encarregadas,
Sauvage, e que são imanentes, do mesmo modo, no plano da
desde o início da comunicação, da transmissão redundante das manifestação prática.
mensagens p oéticas ( v. infra, cap. seg.). As figuras , efetiva-
mente, são hierarquias sêmicas: o céu, por exemplo, traz em si,
entre outros, os elementos sêmicos de "verticalidade", de "lumi- b) O implícito e o explícito.
nosidade:', de "fluidez", etc. As relações hipotáticas entre semas
que os constituem em sememas se acham aparentemente trans- t;; evidente que o que permite a descrição, sob a forma de
formadas em rela~es de equivalência: é um fenôme no observado taxinomias, de tais manifesta~es figurativas, é a existência de
e descrito tanto por Lévi-Strauss -como por G. D urand, que o categorias sêmicas gerais, que as sustentam e as enquadram,
designa~ aliás, com o nome de isomorfismo. Tal transformação, embora permanecendo implícitas na manifestação. A descrição
entretanto, parece inconcebível dentro de um semema: ela não consiste, pois, em primeiro lugar, na sua explicitação e chega a
pode expllcar-se senão se considerarmos a homologação das tornar evidente uma "lógica concreta" ( Lévi-Strauss ) que sustenta
categorias- sêmicas como o fa to primeiro e a estrutura semêmica a manifestação figura th-a. O termo lógica, compreendido como
desse tipo de manifestação como secundária, ou então se reco- "maneira de raciocinar, tal como se exerce de fato" ( Lalande ),
nhecermos que a comunicação poética é essencialmente a trans- lhe convém melhor, aliás, pelQ fato de seu caráter mais geral,
missão dos conteúdos sêmicos, que se serve de sememas, como que o termo poético proposto por G. Bachelard, quando este
por exemplo, num outro nível, o discurso quotidiano se serve da empreende a descrição das categorias sêmicas espaciais utilizadas
estrutura gramatical para a manifestação do conteúdo. A descri- como elementos taxonómicos da manifestação poética.
ção da manifestação mítica, como vemos, e stá longe de ser a t;; na mesma perspectiva, reduzidas as preocupa~es propria-
d escrição do simbolismo "encarnado" nos sememas. mente lingüísticas, que podemos citar os trabalhos de Roland
Mas reconhecer assim a existência dos semas, extraídos de Barthes e de Jean-Pierre Richard . F a to característico, Charles
seu contexto semêmico, que se pode organizar em classes de Mauron crítica J.-P. Richard, autor de fUnivers Imaginaire de
semas redundantes constituti\'os da isotopia negativa, significa Mallarmé, pela confusão dos planos da poesia e da metafisica.
considerar as categorias sêmicas em questão como outros tantos Sem o querer, ele concede à análise de Richard um atestado de
critérios para uma classificação de figuras, inventariadas dentro eficácia: é normal, efetivamente, que a descrição da manüestaçãÓ
de um metatexto dado. t;; afumar que a comunicação poética é, mítica _permita extrair, nesse nível, os elementos de uma axiologia
na realidade, apenas a manifestação discursiva de uma taxonomia. explícita.
Vemos que a descrição dos microuniversos, assim manifesta- Produz-se, pois, pela descrição, uma tradução dos dados im-
dos, que colocam e!ll evidência uma lógica poética, pode tanto se plícitos da manifestação figurativa em um modelo explicito for-

178 179
tos, e constrói assim, para si, os termos da metalinguagem des-
mulado numa linguagem diferente. Essas traduções podem ser critíva. A qu,stão é saber como caracterizar esses termos denomi-
naturais, isto é, realizar-se dentro de uma mesma comunidade nadores, distinguindo-os dos sememas ordinários.
lingüística., seja no quadro de uma sincronia: passando de um
microuniverso manifestado (poético) a um outro ( crítica lite- A dificuldade de defini-los, assim como de precisar o estatuto
rária); seja no de uma diacronia: já utilizamos, anteriormente, o da manifestação terminológica' no seu conjunto, não é próprio da
~xemplo, muito aproximativo, da filosofia pré-socrática, que se lingüística: a exemplo da arte que se diz abstrata - e que, guar-
incumbiu de traduzir as mitologias anteriores em "ideologias". dadas todas as proporções, se acha à mesma distância da ma-
Mas as traduções podem igualmente ser artificiais, isto é, descri- nifestação pictórica figurativa que a nossa terminologia descritiva
tivas, saídas de uma vontade metodológica de explicitação. O da manifestação antropomorfa _., estamos tentados a definir os seme-
problema do modo de presença dos modelos de organização é, mas descritivos pela sua fraca densidade e a considerá-los como
pois, ao mesmo tempo, o da hierarquia dos níveis metalingüísticos. abstratos. Entretanto, o conceito de abstração não recobre todos
Esses níveis, do ponto de vista da descrição, seriam os seguintes: os sememas considerados; se as funções e as qualificações da
metalinguagem descritiva são freqüentemente abstratas, os atuan-
1. Nível implícito: toda manifestação, mítica ou prática, tes; pelo fato de serem constituídos com o auxílio das determina-
na medida em que se desenvolve como um discurso, compçirta, ções predicativas múltiplas, são, ao contrário, concretos.
implicitamente, seus próprios modelos de organização; Uma outra possibilidade consistiria em considerá-los como
2. Nível parcialmente explicitado: tal é o caso das tradu- concretos, não somente seguindo C. Lévi-Strauss, que utiliza. como
ções naturais, dessas ideologias e metafísicas que, embora o vimos, o conceito de "lógica concreta", mas também - e talvez
formuladas de maneira muitas vezes não figurativa ao nível da pelas mesmas razões - parque, muito freqüentemente, os semas
manifestação semêmica, conservam no entanto implícitos os mo- a partir dos quais a denominação se constrói dependem do mundo
delos aos quais se acha subordinada a manifestação discursiva; das qualidades sensíveis. Mas isso seria introduzir um novo critério
3. Nível explicitado, que é visado pela descrição semân- - aquele que utilizamos para a delimitação do nível semiológico
tica da manifestação. - ao lado da densidade sêmica, para definir a oposição do
concreto e do abstrato. Uma nova confusão poderia ocorrer,
~ evidente que a formulação dos modelos, quaisquer que além disso: tomamos cuidado em distinguir a própria manifesta-
sejam o nível de sua apreensão e o grau de sua abstração, cons- ção dos modelos que ela contém implicitamente: é a manifesta-
titui novas manifestações, tanto semêmicas quanto discursivas, e ção que poderíamos, a rigor, considerar como concreta, e não a
as integra no mesmo universo semântico. terminologia que registra os elementos metalingüísticos extraídos.
l!: ainda a expressão de semema não figurativo que parece
e) O não figurativo. ser mais conveniente. Efetivamente, a passagem de um a outro
nível da manifestação não se efetua unicamente pela rarefação
A atividade metalingüística, apreendida ao nível do f uncio- sêmica no interior dos sememas, mas também pela dissolução das
namento do discurso, consiste, como vimos, no vaivém das defini- figuras nucleares. A denominação semântica, que ela opera a
ções e das denominações. O mesmo sucede com a atividade cien- partir dos sememas figurativos ou de configurações contidas nas
definições, consiste em reter, por sua extração, apenas semas per-
tífica, que, considerada sob o ângulo lingüístico, comporta inces- tinentes, tendo em vista a construção de modelos. Assnn, a des-
santes procedimentos de denominação. Construindo um modelo, crição da manifestação poética abandonará por exemplo as figuras
a descrição semântica não procede de maneira diferente: ela de grenier (sótão) e de cave (porão), para reter, apenas. os
utiliza o material lingüístico disponível ou cria novos lexemas semas "alto'' e "baixo'\ úteis para a construção dos sememas
para denominar os focos de convergência definicionais descober-
181
180
a.óol6gicos - os quais não "denominamos" - como por exemplo desdobramento do discurso linear, que se acha assim segmentado
euforia de altitude e disforia das pr~u~~ezas. Vem~ aqui as em ,tantos inventários de mensagens quantos forem os modelos
razões da preferência das linguagens científicas pelas raizes greco- descritos. A manifestação discursiva de um microuniverso semân-
-latinas: seu emprego permite atribuir aos lexemas, construídos tico é transformada., assim, segundo a descrição, em uma hierar-
através delas, conteúdos sêmicos não motivados, estabelecidos quia de modelos. O discurso, cujo caráter linear deixaria prever
quase que exclusivamente sobre as definições anteriore&. à primeira vista a formulação algébrica, uma vez descrito, mais
Considerando apenas a composição dos sememas, diremos, evoca uma visualização geométrica pluridimensional.
de maneira empírica, que a manifestação é ~ão figurativa se 3. A formalização. A descrição deve visar, de outro lado, à
ela se caracteriza pela presença .de um grande numero de sememas formalização dos seus sememas. O conceito de formalização está
não figurativos. mal definido e é compreendido de diferentes modos. Aplicado
à descrição semântica, o esforço de formalização compreenderá
d) Em direção a uma metalinguagem clentíftca.
essencialmente:
a) uma análise que procura reduzir os predicados, na medi-
Entre a manifestação não figurativa e a metalinguagem cien- da -do possível, ao estado de semas únicos, sendo entendido que
tífica na qual ela será finalmente traduzida, resta um certo número sua manifestação em linguagem descritiva os transformará em
de etapas a transpor. sememas abstratos, compreendendo, além do sema descrito, apenas
1. A supressão do discurso: sendo complexa toda manifes- a base classemática mínima, onde serão representadas as categorias
tação, a descrição procura eliminar uma de suas dimensões, para que pertencem ao inventário axiomático da descrição;
só deixar subsistir a isotopia simples. A dificuldade desta tarefa b) constituição dos atuantes em conceitos, entendendo por
é bem demonstrada pelo simples fato de que toda exposição científi- "conceito" um semema não figu rativo concreto, definido por se-
ca oral ou escrita, por mais depurada que seja, comporta sempre memas abstratos;
~a certa quantidade tanto de ruído, necessário para fazer passar c) dado que a própria descrição escolhe o nível de genera-
a informação, quanto, ao contrário, de elementos elíticos, de lidade onde ela constrói seus semas e define seus conceitos, o
subentendidos cuja amplitude não é jamais precisa nem uniforme. valor da nova manifestação semântica assim formalizada s6 po-
Resulta d aí que a certeza de uma isotopia simples só pode ser derá ser determinado segundo dois critérios que são intrínsecos
obtida pela supressão do discurso: não basta que os sememas ao sistema: a descrição deve ser coextensiva em relação à axiomá-
sejam despojados de seus núcleos figurativos,. é pr~iso . t~ém tica que a tornou possível; o corpo das denominações descritivas
que o discurso seja transformado em uma manifestaçao discursiva, deve ter uma coerência interna.
isto é, em um inventário de mensagens. Vemos que uma escrita
branca só pode ser realizada pela abolição do discurso, e também,
que tal desejo, muito explícito em certas formas de poesia, em e) A verifica çã o dos modelos de descrição.
vez de chegar à isotopia simples, provoca, ao contrário, o apare-
cimento da manifestação complexa negativa., isto é, fortemente A desigualdade do desenvolvimento das ciências da natureza
camuflada. e das ciências do homem, visível em todas as etapas da constru-
ção da metalinguagem científica., se mostra, assim, com uma clareza
2. O inventário das seqüências discursivas. A manifestação particular quando se trata de aferir as possibilidades de verifica-
discursiva, figuratiYa ou não, pode comportar, e comporta fre- ção da descrição. A eficácia das ciências cosmológicas consiste,
qüentemente, dentro de um só texto, vários modelos imanentes como sabemos, na possibilidade, que aliás está longe de ser abso-
ao mesmo teml?(). A descrição consiste, pois, muitas vezes no luta, de instituir a comunicação entre os modelos científicos e os

182 183
modelos tecnol6gicos, e de verificar a ssim o ·valor dos primeiros
pela solidez dos últimos, graças à supressão da orientação, permi-
tindo estabelecer a equivalência e ntre o que chamamos categorias
teleolÓgica e etiolÓgica, de um lado, e as estruturas atu.acionais de
outro lado.
O problema, que podemos apenas lembrar aqui, é o da possi-
bilidade de retorno, a partir dos modelos axiológicos conhecidos PROCEDIMENTOS DE DESCRIÇÃO
e descritos, aos modelos ideológicos: o estabelecimento das regras
de transformação q ue autorizam essa passagem acrescentaria ao
da coerência um segundo critério da verdade dos modelos nooló-
gicos. Mas, ao mesmo tempo que a da verificação, também pode- 1.° CONSTITUIÇÃO DO CORPUS
ria ser considerada a possibilidade de uma terapia social e individual.
Supondo que os principais modelos axiológicos de nosso universo a) Objetivos e procedimentos.
sejam analisados e descritos; supondo também que conheçamos
suficientemente bem os paradigmas de variações e as regras de Prosseguindo em nosso esforço de compreensão das estruturas
transformação dos modelos ideolÓgicos, poderíamos prever um e apreensão dos elementos da significação, e ainda em nossas
dia a possibilidade de construção e colocação dos modelos reflexões sobre os modos de existência e de manifestação do
funcionais, capazes de desviar os indivíduos e as coletividades universo semântico, poderíamos chegar a crer que a semântica
em direção de novas estruturações axiológicas. Uma ciência do visa à descrição dos vastos conjuntos significantes recobertos pelas
homem eficaz poderia assim se substituir aos tateamentos atuais das línguas naturais. - E nisso estaríamos enganados. Inicialmente,
terapêuticas psicológicas e sociológicas. porque a descrição das significações contidas nas llnguas naturais
é o objetivo das ciências humanas e nisso a lingüística não
poderia substituí-las- E além disso, porque a lingüística, mesmo
se, em suas aplicações, leva em consideração tal descrição não
pode proceder de outra forma que nao seja dividir o universo
para aí procurar princípios de organização. A ambição da semân-
tica poderia, no máximo, consistir em estabelecer os fundamentos
de uma metalinguagem descritiva, em inventariar e em unificar,
sobre bases comuns, os procedimentos da descrição da significação.
Ela se pretende ao mesmo tempo doadora e receptora.
A compartimentação atual das ciências humanas faz-nos fre-
qüentemente esquecer que elas são todas ciências da significação;
o distanciamento dos microuniversos dos quais elas deveriam
ocupar-se nem sempre permite perceber que eles possuem, ou
no plano de sua manifestação bruta ou no .nível dos modelos que
as disciplinas particulares elaboram para deles dar conta, um
grande número de propriedades estruturais e funcionais comuns.
O semanticista, por sua vez, tendo renunciado à ficção, mantida

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184
--
por muito tempo, de vocabulários fundados e delimitados graças simbólica, fundamentos que são, no entant o, altamente proclama-
a"critérios não lingüísticos e, ao mesmo tempo, à possibilidade de dos como lingüísticos.
descrevê-los como lexicologias, se volta para os domínios de signi- Uma última precisão, finalmente: os procedimentos de des-
ficação aparentemente mais heterogêneos: afirmando sua n atu- coberta, no estágio atual d as pesquisas, mantém ainda inteira-
reza lingüística comum, está em condições de examinar o estabe- mente seu caráter de h ipóteses, aplicáveis a diferentes fases da
lecimento de correlações, mais ou menos negligenciadas ou des- descrição. Falta-lhes a garantia do rendimento operatório, que
percebidas, entre elementos, sistemas, e algoritmos reconhecidos somente pode ser dada por descrições parciais numerosas.
em diferentes microuniversos semânticos, q uE! autorizam a formu-
lação de hipóteses e a constituição de modelos de descrição a
b) O corp11&
partir das concomitâncias estruturais parciais.
Esse estado de fato confere à semântica seu caráter aberto, Podemos definir o corpus COII)O um conjunto de mensagens
próprio para aproveitar-se das aquisições já registradas ou das cuj~ ?º_nstituição visa à descrição de um modelo lingüístico. Esta
descrições fáceis de realizar nos diferentes domínios, mas q uase def1mo/10, entretanto, é simples apenas na aparência. De fato, vimos
sempre inacessíveis por falta de um mínimo de linguagem comum. que so pod.emos descrever um modelo quando estiver implicita-
:f:: por isso que o cuidado que transparecerá nas páginas seguintes· mente contido na manifestação discursiva de um microuniverso
não será o de levar tão longe quanto possível, como o exigiria semântico. Constituir um corpus não significa, portanto, simples-
o estatuto de disciplina auto-suficiente, o esforço de formalização mente preparar-~ .P.ara a descrição, pois dessa escolha prévia
da linguagem semântica descritiva, mas ao contrário, o de formu~ d~pende, em de~1tivo, o valor da descrição, e, inversamente,
lar os procedimentos de descrição mais gerais, utilizáveis, pelo nao 5? yode aferu: o valor do corpus senão quando terminada a
menos no estado inicial, no maiçr número possível de domínios. desençao. A sobriedade e o rigor lógico da definição, em suma,
Tal concepção dos procedimentos de descoberta e de descrição ape,aas ocultam o caráter intuitivo das decisões que o descritor
- as duas palavras são praticamente sinônimas -, considerados sera levado a tomar em cada e~pa da análise. Certo número
como um savoi-r1aire, permite a colocação de algumas questões de precauç~ e de conselhos práticos devem, pois, cercar essa
ingênuas do tipo: O que é preciso buscar? Por onde começar? esc~lh:i,_ a fim de ,reduzir, tanto quanto p ossível, a parte de
Como proceder? Sabemos por experiência que estas são as ques- subJetividade <;IU~ ai se manif~sta. Diremos que um corpus, para
tões mais difíceis de responder, e que, no entanto, é assim que ser bem constitu1do, deve satisfazer a três condições: ser repre-
elas se colocam ao pesquisador. sentativo, exaustivo, e homogêneo.
_ Isto- porque há, muitas vezes, µma distância considerável 1. A representatividade pode ser definida como a relação
entre os procedimentos práticos da linguagem interior em busca hipotática que vai da parte que é o corpus à totalidade do dis-
do objetivo e do método de pesquisa e a apresentação definitiva curso por ~le subentendido, efetivamente realizado ou simples-
dos resultados obtidos. Sem negligenciar essa última, que cons- mente posS1vel. A questão <la representatividade se cofoca tanto
titui por si mesma uma etapa importante que leva à formalização, para ?s corpus individuais como para os corpus coletivos. Assim,
nossa desconfiança nunca será exagerada em relação às formula- o conjunto dos escritos conhecidos de Baudelaire só constitui uma
ções muito apressadas ou muito gerais, as quais se impõem tanto parte ínfima da totalidade das falas efetivamente p ronunciadas
mais facilmente quanto mais funcionar míticamente o caráter de ou ~pensadas" por Baudelaire. Suponqo mesmo que possamos
sua apresentação, como um procedimento de conotação aterrori- reunu todos os documentos conservados relativos à sensibilidade
zante. Assim, dando um exemplo anódino, não nos esqueceremos ~oletiva da sociedade francesa do século XV, teremos que nos
tão cedo de nossa surpresa ao encontrar tão pouco de lingüística, indagar em que medida tal corpus representa todas as expressões
e uma lingüística tão fragmentária, nos fundamentos da lógica dessa sensibilidade.

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O corpus é, portanto, apenas parcial, e teríamos de renunciar
à descrição se procurássemos assimilar, sem mais, a idéia de sua a) Na primeira fase, a descrição se faria utilizando-se apenas
representatividade àquela da totalidade da manifestação. O que per- um ~mento do corpus, considerado representativo, e construindo,
mite sustentar que o corpus, embora permanecendo parcial, pode a partir desse segmento, um modelo que só tenha valor opera-
ser representativo, são os traços fundamentais do f uncionaroento cional;
do discurso, retidos sob os nomes de redundância e de limitação. . , ~) A ~gunda !ase seria a da verificação desse modelo pro-
Vimos que toda manifestação é iterativa, que o discurso tende v1sono. Dois procedunentos de verificação não contraditórios cuja
muito rapidamente a se fechar em si mesmo: em outras pa- escolha depende, sobretudo, da natureza do corpus a desc;ever
lavras, a maneira de ser do discurso leva em si mesma as p odem então ser distinguidos: '
condições de sua representatividade. Dificilmente poderemos en- a.) A verific~ção por saturação do modelo ( Pr opp, Lévi-
contrar um melhor exemplo de representatividade que aquele -Strauss) q~e ~ons1ste_ em começar.com a segunda parte do corpus
das condições do aparecimento do M ichelet de Roland Bartbes, e prossegULr sistematicamente a comparação entre o modelo e
anterior em alguns anos à edição completa do ]ournal Intime. as ~c?:rências sucessivas da manifestação; isso até o esgotamento
Sem recorrer às confidências de Michelet, sua temática pessoal def1mtivo das variações estruturais;
se mostrou tão evidente ao descritor e foi tão inesperada par a o~
f3) A verificação por sondagens (J. Dubois ) que consiste
eruditos que Lucien Febvre, depositário do Joumal, foi levado a em escolher, segundo os procedimentos estudados pelos estatísti-
garantir a representatividade do corpus parcial ~tilizado para a cos ( R. Moreau) um certo número de porções representativas da
descrição. segunda pa~e do corpus e em observar o comportamento do
2. A exaustividade do corpus deve, por sua vez, ser concebida modelo ~plicado a essas porções de manifestação. O modelo
como adequação do modelo a se.r construído à totalidade de seus ~<>?e, asSim, ser ~onfirmado, infirmado ou completado. Nas duas
elementos impücitamente contidos no corpus. últimas eventualidades, deve ser considerada a retomada total
da an~lise, _e a operação, no seu conjunto, será conduzida até
O princípio de exaustividade foi considerado, ao longo do a confirmaçao do bem-fundado do modelo operacional.
século XIX - e· é ainda muitas vezes hoje - , como a condição
sine qua non de toda a pesquisa humanista. A imagem do per- . 3. A homogeneidade do corpus parece depender, à primeira
feito erudito é aliás associada a ele e conhecemos suficientemente v1st~ - sobretudo quando se trata de corpus coletivos -, de um
bem os prejuízos que tal princípio trouxe, quando se trata de c~nJunto. de ~ondi~e~ não lingüí!ticas, de um parâmetro de situa-
instituir esse monstro que é a "tese de uma vida", para que não çao relah~o as vanaçoes apreenstveis, quer ao nível dos locutores,
nos creiamos obrigados a admiti-lo sem críticas prévias. L. H jelms- quer ao ntve! do volum~ da comunicação. J. Dubols, que se preo-
cupou com isso, acredita que a homogeneidade insuficiente do
lev o inscreveu, é verdade, entre os imperativos que condicionam
a descrição, mas o fez num espírito totalmente diferente, a fim corpu~ pod~ ~r c~rr~gida por procedimentos de ponderação ( v.
Te:mmologie l,_ngu!st1que, por J. Dubois e P. Mareie, no Fran-
de sublinhar a necessidade de equilíbrio entre o caráter dedutivo çais m~derne, Janeuo, 1965). Se podemos admitir com ele que
e o caráter indutivo da análise lingüística. ~ cr:scunento do vol~~e das comunicações produz uma "bana-
Não é de espantar que nos perguntemos hoje, de maneira Üzaça? ~as estrutur:15 , não . ve~os em que essa transformação
gene ralizada, se não existem meios mais econômicos que permitam quan~1tat1va em efeitos qualitativos poderia atrapalhar a homo-
obter as mesmas garantias de fidelidade da descrição ao corpus geneidade do corpus "banal" : a manifestação difusa do m ítico
que aquelas que parece oferecer a exaustividade. O procedimen- acarret~ pr<:va.:elmente a neutralização de um certo número de
to breve que poderíamos propor consistiria em dividir a operação categonas sem1cas do modelo - isso está ainda para ser demons-
de descrição em duas fases distintas: trado - s:_111 transformar, entretanto, a própria estrutura, e 0
problema nao parece se situar no nível da constituição do corpus,
188
189
necessidade parece tão eviden te que mereceria apenas uma sim-
mas no d a escolha dos procedimentos de extração das informações. ples menção se a pedag ogia do ensino literário não tivesse com·ertido
Quant o às variações devidas ao locuto r da comunicação, os pro- "a explicação. de texto·• em instituição nacional. O "t exto" a expli-
blemas das d istâncias diacrônicas ( classes de idade ) ou de tipos car so excepc1oaalmente corre_sponde a um corpus representativo,
de manifestação {níveis culturais, etc.) , que parece não serem lin- o~ modelos que nele se maa1feslam implic itamente quase nunca
e
güísticos quand o se trata de corpus coletivos, se acham tais sao completos, e a explicação do texto se transfo rma ine,i ta-
quais no interio r do corpu s individual: a manif estaçã o discur siva
velme nte_en:i _um _prct~x to que dá lugar à explicitação dos · eleme n-
de um só locuto r se desenrola necessariamente sobre o eixo dia- tos de s1gnif1caçao situados em todas as isotopias do te."<to ao
crônico; ela pode tomar a forma figurativa (poesia ) ou não figu- mesmo tempo.
rativa (teorias estéticas ) . Na medid a em que a descrição visa,
qualq uer que seja a forma da manifestação do microuniverso,
à , A prepar ação de u~ texto - não é preciso d izer que um
construção de um modelo não figurativo e conceituai, o própri
o so corpus pode conter varios textos analisados sucessi\·ame nte -
model o imanente deve ser consid erado como indife rente aos modos com~r eend: não somente a eliminação de uma dimensão da
da manifestação . O proble ma das variações diacrônicas, que, pela manife~taçao. em proveito de outra, mas também a de todas as
estabilidade relativa das estrut uras sociais, poder ia bem ser resol- o_utras 1sotop1as da me_~ a ~ens ão consideradas como não per-
tm?~tes (?ara a de;5c_nçao visada. Assim , o mito de Édipo, ser na
vido pelo procedimento da ponderação quand o se trata dos corpus se acha situad o, pelo fato de
coletivos, é mais complexo, ao contrário, no nível dos corpu s indi- analise. feita por Lev1-Strauss,
viduais: voltaremos a esse ponto mais tarde. conce bi?º co~o ? ;xplic ação das origen s do home m, na isotopia
d~ carat~ r et1olog1co; outro texto, postul ado para O mesmo
i:n1to, len a_ sem d~vida aí encontrado os elementos de urna
e) O texto. mterp retaçao teleologica da organização social.

O proced iment o que, logicamente, segue a constituição do d) ElimJn11ção ou extração?


,
corpus consiste na transformação do corpu s em texto. O corpus
de fato, é uma seqüê ncia delim itada do discur so, e, como tal,
N~ n:iom~mto da prepa ração do texto, pode ser útil pergu ntar
só pode ser uma manifestação logomáquk a, da qual é preciso reter 5: a ~lurunaçao dos ele~e ntos <lo corpus perten centes às isotopias
apena s uma das isotopias escolhidas. Enten demos, pois, por tex-to nao mteressantes não e excessivame_nte custos a, se a extração
( e também por metate xto) o conjun to dos eleme ntos de significa- somen te dos elementos que interessam a descri ção não será mais
ção que estão situados na isotopia escolhida e estão cercad os econôm!ca. Os dois conceitos de elimin ação e de extração são,
dentro dos limites do corpus. como v1D1os, de caráter puram ente operacional. Efetiv ament e se
Assim entend ido, o proced iment o da transformação do corpus a parte restan te do corpus é quantitativamente mais import~nte
em texto se mostra sob dois aspectos eompl ement ares: que a pa;te a ser excluída, diremos que o procediment o a ser
adotad o e o. da eliminação _dos eleme ntos não pertin entes do
1. Um aspecto positivo, que reside na escolha da isotopia. corpus, em vista do estabe lec~e ~to do texto. Em compensação
,
Essa escolha, embor a logica mente posterior à constituição do se a parle a ser excluída é mais unpor tante que a que deve ser
corpus, se situa, na verdad e, no interio r da práxis descritiva : se
é ão,
consei:rada, o procedimento a ser empre gado será o da extraçção.
verdad e que a descrição exige a transfo rmação do corpus em a partir do corpus dado, dos eleme ntos pertin entes da descri
texto, não é menos verdad e que a escolha do corpus se faz
quase sempre em fu nção do texto que se procuro descrever. A questão de saber em que condições um ou outro dos
procedimentos deve ser empre gado é de ordem prátic a: parece que
2. Um aspect o negativo, que consiste na eliminação dos em presença de uma manifestação difusa. mítica ou prática,
a
eleme ntos pertencentes a outras isotop ias contid as no corpus. Essa
191
190
extração <los elementos pertinentes se mostra mais econômica e,
inversamente, que toda manifestação concentrada imporá natural- Inventário de modelos, implícitos ou explícitos. Assim, a descri-
mente o procedimento de eliminação das seqüências não pertinen- ção do corpus dos contos populares russos deverá operar, nesse
tes. Assim, o método adotado por Roland Barthe-s em sua análise estágio da análise, tanto a partir de um texto constituído de um
da "temática existencial., de Michelet parece ter sido o da extra- inventário de contos, isto é, de. modelos ocorrenciais implícitos.
ção, como aquele preconizado por Riffaterre em suas pesquisas como a partir de um inventário de modelos explícitos, já des-
sobre os "efeitos estilísticos" - ao qual podemos, entretanto, critos numa análise anterior. Que a descrição proceda de uma
reprovar a indiferença quanto à escolha prévia da isotopia; ao análise separada de cada conto-ocorrência" ou que ela opere
contrário. o procedimento utilizado por Lévi-Strauss em sua des- pela comparação dos modelos implícitos contidos nos exemplares
crição do mito de Édipo é certamente a eliminação dos elementos ainda não descritos, isso já depende do procedimento de estrutu-
não pertinentes. ração. Parece-nos importante dilatar aqui o conceito de texto
a fim de liquidar a idéia um pouco simplista segundo a quaÍ
Isso não impede que a extração pareça, à primeira vista, mais os corpus de descrição só são constituídos de "fatos" e os textos
sujeita à apreciação subjetiva do descritor. Nesse caso, é normal não sã~, em p rincípio, senão inventários de ocorrências.
exigir que esse caráter subjetivo seja corrigido pela intervenção
mais fundada do conjunto dos procedimentos nas diferentes fases Isto poTque, se um inventário de m odelos é uma etapa em
da análise, e, mais particularmente, no nfvel da construção do direção à construção de um gênero de modelos, a descrição pode
modelo. onde a pesquisa de equivalências e de oposições se presta muito bem visar ao estabelecimento de um texto que seria um
à constatação de lacunas e de omissões. E ssas omissões, inevitá,·eis -inventário de gêneros. Na medida e m que se consiga, por exem-
apesar da redundância dos elementos a serem descritos, poderão plo, ~efinir o conto_ popular como um gênero~ o inventário de
ser recuperadas por retroanálises, por retornos reiterados. todos os gêneros comparáveis pode dar lugar à descrição de um
metagênero comum, que seria a narrativa, considerada em sua
generalidade, ou um subconjunto qualquer de narrativas. O que
e) Os inventários. queremos sublinhar aqui não é somente a possibilidade de situar
a descrição em níveis de generalidades diferente-s, e ao mesmo
O corpus depurado tomará, portanto, a forma de um texto temp9, a e~entualidade da constituição dos corpus que correspon-
isotóp!co. Este, para não ser mais um discurso logomáquico, dam ~os diferentes objetivos de descrição, mas também a neces-
devera apresentar-se -como uma manifestação discursiva deslexica- sidade de conceber uma hierarquia de modelos que estão imbri-
lizada e desgramaticalizada: uma etapa importante desse procedi- cados uns nos outros p oTque uns p articipam da e lab oração dos
mento. o da normalização da manifestação, deve pois ser prevista. outros.
E ntretanto. deixando para mais tarde seu exame. é preciso que
permaneçamos ainda por algum tempo no nível da reflexão mais O Inventários individuais e coletivos.
ger~L a fim de esgotar nele, ao mesmo tempo e num só lugar, o
conJ~nto dos problemas relativos à constituição do corpus. T al concepção hierárquica dos modelos deve permitir esclare-
É fácil imaginar que o texto isotópico, a liviado de todos cer o difícil problema das relações entre os inventários individuais
os elementos parasitários da comunicação, se mostrará como um e os inventários coletivos, e o da comparabilidade dos modelos
inventário de mensagens. isto é, de proposições semânticas pro- resultantes dessas duas espécies de manifestação. À primeira vista,
tocolares. cujo arranjo ulterior equivalerá à construção de modelos. os procedimentos permitidos pela descrição dos contos populares
Entretanto, se os modelos descritivos se constroem a partir de russos parecem paralelos àqueles que o descritor teria que empre-
inventários de mensage ns, não é menos legítimo conceber um ender na totalidade dos romances de Bemanos, por exemplo.
texto, que, em v.ez de ser composto de mensagens, será já um Com uma diferenç.a, apenas: o corpus d os contos populares era
sustentado por um locutor coletivo, ao passo que os romances de
192
193
Bemanos têm um locutor indh·idual. Mais ainda, o locutor indivi- nizados e exalte o não conformismo do indivíduo - o que é
dual, que é Beroanos, é apreensíwl na totalidade de suas falas, apenas uma outra maneira ~e conceber o model~ "estil~sti~o",
representada pelo corpus de todos seus escritos, e podemos falar utilizando a inversão d os signos). A flecha bonzontal mdica,
do " unh·erso de Bernanos" que contém em si os microuniversos assim, a possibilidade de constituir um inventário de gêneros
semânticos que são seus romances. quase nos mesmos termos que earacterísticos de uma comunidade lingüística ou cultural dada,
do universo do conto popular russo, de que. os contos particulares visando à descrição de um metagênero.
não passam de emanações. Por ·outro lado, vemos que o universo
de Bernanos serve ao mesmo teinpo de mediador entre o Journal Entretanto, o esquema coloca igualmente em evidência a
d 'un curé d e campagne e o unin•rso imaginário da sociedade situação particular de um romance-ocorrência, o Journal d'un curé
francesa da primeira metade <lo século XX. A questão prática de campagne, que se acha situado no cruzamento de dois eb:os,
assim proposta é saber qual significação é preciso atribuir. respec- e é sucetível de entrar simultaneamente em dois corpus diferentes
th·amente aos três corpus possíveis: o corp_us que te m as dimen- e de ser submetido a duas análises com objetivos di\"ergentes.
sões de um romance. o corpus da totalidade dos escritos de Tomando a título de exemplo a análise atuacional vemos que as
Bernanos, e. finalmente. o corpus de todos os romances de uma personagens desse romance poderão ser consideradas como va-
sociedade e de um períodll histórico dados. e quais as correla- riáveis de uma estrutura atuacional romanesca própria da litera-
ções estruturais que p,o demos razoavelmente esperar encontrar tura do século XX, mas que participarão, ao mesmo tempo, como
entre os modelos que possamos explici~r a partir de tais corpus. encarnações específicas, da estrutura atuacional própria de Be r-
Uma apresentação esquemáticà talvez permita enxergar me- nanos. As personagens do Journal se mostram, pois, como fi-
lhor o problema. guras particulares e únicas; elas se acham convocadas para a vida,
e manifestadas pela convergência de duas estruturas atuacionais
gênero "enilo da gênero "romance do isomórficas, mas não isotópicas. Considerada como princípio de
mctagêncro "X" personalidade" Século XX" explicação, a convergência estrutural daria conta da constituição
dos fato s hist6ricos: a manifestação convergente dos modelos
Benunos-- · /e ]õurn41 d'un curé de e4mpagnt
necessários faria, assim, surgir fatos contingentes. A etimologia,
nessa perspectiva - P. Guiraud observou bem isso -, não é mais
Malraux- --_.,.. la Condition humainc uma busca de étimos, mas sim uma identificação de modelos
etimológicos e o cálculo probabilístico de suas convergências.
Gidc- - ----,. /u Faux-Monnayturr

As flechas verticais do esquema indicam q ue. de um lado, q) Estratos e durações.


os corpus constituídos por romances-ocorrências deYem ser consi- A escolha da estrutura atuacional para ilustrar a convergência
derados como inventários de modelos implícitos que permitem a dos modelo~ heterogêneos nos permitiu não levar em. conta o
construção do gênero " romance do século XX"; que, de outro lado, caráter diacrônico de todo corpus. Tivemos já a ocasião de su-
os corpus feitos de totalidades representativas de falas individuais blinhar esse paradoxo: o fato de uma manifestação de fala se
constituem outras tantas manifestações que pode m sernr a cons- achar separada, no tempo, de uma manifestação por um
lrução do gênero designado sumariamente como "estilo da perso-
intervalo de 3 segundos ou por um intervalo . de 300 anos não
nalidade": de fato, cada comunidade cultural atribui aos indiví-
duos os .,caracteres" axiológicos de seu ser e os algoritmos ideo- muda em nada a natureza diacrônica de sua relação. Assim,
légtcos d~ seu comporl~mento ( mesmo que os conceba às vezes tudo é diacrônico na manifestação da significação, salvo a própria
como a negação de .Papéis de comportamentos socialmente orga- significação, condicionada pela nossa aptidão de apreender acro-
nicamente, como totalidades, estruturas de significação muito sim-
194
195
princípio dessa interpretação é tomado de um historiador, os
ples. Em outras palavras, o que nos permite apreender um conto exemplos dos corpus coletivos diacrônicos que podem ilustrá-lo
popular ou um romance de Bemanos como algo possuidor de p~r";C~m. SU_P~rfluos. Tra~spondo esse esquema para o plano da
sentido é a permanência, ao longo da narrativa, de um pequeno histona mdiVIdual, podenamos estabelecer correspondências entre
número, de categorias de significação. Todo texto, conseqüente- as estruhrras fundamentais e as categorias constitutivas, por exem-
mente e, ao mesmo tempo, perman~ncia e diacronia: ele manifesta plo, da concepção clássica da "natureza humana", entre as estru-
sua permanência graças a um pequeno número de estruturas fun-
turas históricas e a modulação diacrônica da "história de uma
damentais redundantes; é diacrônico pela articulação hipotática
vida", ao passo que as estruturas estilísticas dariam conta das
das estruturas secun~árias em relação às estruturas fundamentais
e assim por diante. Todo corpus diacrônico, seja ele coletivo ou
variações devidas às "situações de tensão" que têm repercussões
estruturais.
individual, seja representativo da "história da língua francesa"
ou da "vida de Mal1armé", poderia ser descrito como uma A questão a ser resolvida é a das relações entre as estruturas
construção hierárquica constituída de camadas estruturais sobre- ass~ hierarquizadas e o corpus qu_e se julga contê-las A apresen-
postas, de baixo para cima, segundo sua maior ou menor perma- t~çao d~ e~q~ema subentende implicitamente ser o corpus, cole-
nência. Um corpus diacrônico qualquer, estendido sobre o eixo tivo qu mdiVIdual, compreendido como uma sucessão descontínua
horizontal indicado por uma flecha, símbolo do irreparãhile de elementos de. sig~cação que podem ser submetidos ao que
tempus, poderia, por sua vez. ser dividido em durações mais ou chamamos, em H1Stóna, a periodização, e que é para nós o recorte
menos longas. Uma correlação aparentemente simples se estabe- do discurso em seqüências. Entretanto, desde que tentemos com-
lece, assim, entre os estratos hierárquicos das estruturas e sua parar qualquer corpus assim "periodizado" com a maneira de
duração. manifestação de estruturas históricas, no tempo, percebemos que
o recorte "periodizante" não corresponde inteiramente à apresen-
tação das estruturas. Assim, tomando um exemplo banal e sem
Corpus Diacrônico nenhuma garantia de "verdade" na história da literatura francesa,
º, r~~e .ve,~cal corresponderá, no próximo esquema, aos "pe-
ESIRUIURAS DURAÇÕES nados histoncos, ao passo que as separações diagonais darão
co~~ da apresentação, no corpus diacrônico, das estruturas de
media duração.
estilísticas curtas curtas curtas
1 curtas 1 1650 1850
históricas médias médias " barroco"

fundamentais longas "clássico"


" romântico"
O esquema distingue, assim, no interior de um corpus dia- 15.50 1750
crônico, três estratos hierárquicos de estruturas: fundamentais,
históricos e estilísticos, e três espécies de durações: longas, médias Esta con_statação comporta duas conseqüências práticas que
e curtas, reconhecidas há algum tempo por F. Braudel. A corre- concernem drretamente aos procedimentos de descrição:
lação consiste em postular, para cada tipo de ·estrutura, sua pró-
~ · A análise que busca explicitar as transformações dia-
pria duração relativa: as estruturas se acham, assim, situadas no
crômcas das estruturas não deve utilizar o recorte do texto em
tempo, e a história resulta "estruturalizada". Já que o próprio
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196
trechos que correspondam às "plenas" realizações das estruturas,
mas operar, ao contrário, uma divisão do texto em seqüências quais falaremos mais adiante, parecem constituir seqüências de
sobrepostas, que compreendam cada vez, dos dois lados da zona corpus de curta duração, que podem ser descritos sob forma de
livre, duas zonas de emaranhamento onde as estruturas sobrevi- modelos ideológicos e que constituem o estrato estilístico. Uma
ventes coexistam com as estruturas de substituição novamente ela- análise semântica mais aprofundada nos permitiu observar que
boradas; esses modelos estilísticos se integravam, sob forma de seqüências
algorítmicas parciais, num modelo ideológico mais geral, realizan-
2. Na medida em que a descrição esteja interessada nas trans- do-o, finalmente, por retoques sucessivos devidos aos progressos
formações diacrônicas manifestadas no corpus, as zonas de ema- da cura, até acabá-lo. Esse exemplo, de cujo caráter ocorrencial
ranhamento constituirão, para ela, seqüências de texto privilegiadas. temos consciência e que precisa ser confirmado por outras análises
Embora a distinção dos três estratos estruturais, que introduz uma do mesmo gênero, não se limita a dar uma interpretação lingüís-
nova dimensão, em profundidade, na existência dos universos tica de determinada terapêutica: · dá conta da maneira pela qual
semânticos, e, sobretudo, que reintegra a diacronia na descrição poderíamos interpretar a integração dos modelos funcionais esti-
estrutural, não possua no momento senão um valor operacional, lísticos nos modelos históricos hierarquicamente superiores, mas
não nos parece impossível que ela seja, um dia, consolidada com que possuam o mesmo estatuto estrutural
o auxílio de critérios estruturais e funcionais. A partir daqui
propomos reservar a expressão transformações diacrônicas apenas Um outro exemplo que merece ser tomado em consideração
às mudanças situadas num dos três estratos estruturais reconhe- nos vem da análise, dita temática, de J.-P. Richard, aparentemente
cidos, distinguindo-as, assim, do funcionamento normal - no muito distanciada; por seus objetivos e métodos, da ante-
entanto diacrônico - de uma sincronia, quer se manifeste por rior. Tentando descrever a história pessoal de Mallarmé, J.-P. Ri-
variações paradigmáticas quer por jogos de equivalências, devidos chard chega a considerá-la, se fizermos abstração das preocupações
às expansões e co~densações sucessivas. e de uma terminologia diferentes das nossas, como um modelo fun-
cional fundamental único, do qual os diversos poemas, ou talvez
Ela concerne, em todo caso, mais particularmente à descrição classes de poemas, que possuem em todo caso uma duração "vi-
de certas estruturas históricas - sejam individuais (ex. : uma cura vida., média - e que interpretamos como suscetíveis de serem
psicanalítica) ou coletivas ( ex.: as mudanças no interior dos sis-
descritos com o auxílio dos modelos históricos - , não seriam senão
temas de valores sociais) - para as quais o reconh~imento das
transformações diacrônicas é tão importante quanto a análise das manifestações parciais, que esgotam progressivamente o modelo
sincronias estruturais. fundamental no seu conjunto. Encontramo-nos, assim, de posse de
uma segunda análise, sem relação com a primeira,. e que dá conta
Certos fatos, entretanto, chamam, a partir de agora, nossa do mesmo modo de integração dos modelos funcionais, situados
atenção e nos obrigam a interrogar a natureza das rela-
desta vez, o que é uma vantagem para nós, nos estratos estruturais
ções existentes entre as estruturas situadas sobre estratos dife-
rentes. Tememos que nossa apresentação hierárquica das estru- histórico e fundamental. .
turas se refira um tanto exclusivamente aos modelos qualificativos Os dois exemplos referem-se, é yerdade, à história individual:
e ato:acionais, cuja natureza hierárquica se presta à estratificação. não pennitem, por si sós, justificar uma extrapolação em direção
O mesmo não se dá quando se trata de modelos funcionais: seu à história coletiva, que estaríamos tentados a empreender. Isto
caráter algorítmico toma mais incômoda a interpretação das in- porque a história das comunidades sócio-culturais se mostra, à
terferências hierárquicas entre os modelos pertencentes aos dife- imagem da história individual, como algo que pode ter um sen-
rentes estratos. Além disso, os fatos a partir dos quais tal interpre- tido, como algo que realiza, graças às estruturas históricas par-
tação pode ser tentada são pouco numerosos. Assim, uma série ciais, um modelo fundamental cuja economia global (bem como as
de narrativas' psicodramáticas, registradas por M. Safoaan e das variações) seria previsível: haveria, assim, histórias trágicas ou
resignadas como a de Mallarmé, e histórias doentes, obsessivas ou
198
199
-
certo número de categorias morfológicas que a explicitam lingüis-
f6bicas como as que M. Safouan Induziu crianças a narrar. Tal ticame,nte mas que introduzem ao mesmo tempo, na manifestação,
extrapolação é, por enquanto, prematura. um pQJ'âmetro de subietioidade, não pertinente para a descrição,
e que é preciso, portanto, eliminar do texto ( a não ser que a
análise tenha escolhido esse parâmetro como objeto de des-
2.0 A NORMALIZAÇÃO crição) .
As categorias a serem eliminadas são principalmente as se-
a) Homogeneidade da descrição. guintes:
Depois dessa longa divagação, que nos parece justificada pela 1 . A categoria da pessoa. A eliminação dessa categoria terá
importância do fenômeno diacrônico na constituição do corpus como conseqüência a homogeneização do texto, o qual conservará
e de sua análise ulterior, retomamos aos procedimentos de des- a forma que marca a não participação no discurso, isto é, a 3.0
crição propriamente ditos para abordar aquele a que designaremos pessoa. Todos os pronomes pessoais ( eu, ele, n6s, v6s, se) serão
com o nome de normalização. Tendo procurado definir, até o assim substituídos por atuantes convencionais, tais como locutor
presente, as condições de homogeneidade do texto a ser descrito, ou escritor, alocutário ou leitor, da mesma forma com que,
teremos de precisar, sob a rubrica de "normalização", os meios no lugar dos anafóricos colocaremos os atuantes aos quais eles
próprios para garantir a homogeneidade da própria descrição. remetem. Uma vez que o procedimento não é destinado apenas
Esse novo procedimento, como já indicamos, não é necessariamente à "desgramaticalização,, do discurso, o descritor deverá estar atento
consecutivo ao primeiro; ele é, antes, paralelo a este. Consiste às mil artimanhas que permitem ao locutor intervir ou permanecer,
em transfonnar o discurso, que se acha em estado bruto no corpus, disfarçado, no texto;
em manifestação discursiva, e compreende três operações distintas: 2 . A categoria do tempo. A eliminação concerne a todas
as indicações temporais relativas ao nunc da mensagem. O texto
1. objetivação do texto: entendemos por isso a eliminação no conservará, entretanto, o sistema de não concomitância temporal,
texto em preparação de categorias lingüísticas referentes à construído sobre um então sem relação direta com a mensagem.
situação não lingüística do discurso; Os dois sistemas temporais devem ser distinguidos cuidadosamente,
2. instituição de uma sintaxe elementar da descrição, que consis- pois o tempo não subjetivo é utilizado pela análise funcional;
tirá em situar, com a introdução de uma notação simbólica
muito elementar, classes de sememas, que já definimos, e 8. A categoria da dêixis. Todos os dêiticos espaciais -
em tomar uniforme a expressão de um pequeno número de determinados, pronomes ou advérbios - , na medida em que
regras de combinação dessas classes em mensagens, construí- comportem a apreciação subjetiva do locutor, serão excluídos do
das a partir dos enunciados do discurso; texto. Apenas a dêixis espacial objetiva, construída a partir de um
alhures, deverá ser mantida;
3. instituição de uma lexemática da descrição, que tem por fina-
lidade normalizar a expressão de sememas denominados, isto 4. Todos os elementos fáticos em geral T omando de R.
é, mais uma vez lexicalizados, mas já dentro da linguagem Jakobson o conceito de função fática e estendendo-o ao conjunto
descritiva. de elementos e dos procedimentos lingüísticos colocados a serviço
da comunicação, devemos entender por eliminação dos elementos
fáticos não somente a supressão das seqüências do tipo: « Alô,
b) Objetivação do texto. você está me ouvindo?", mas a eliminação de toda redundância
gr amatical ou lexical.. Isto porque se a redundância, t omada como
Todo discurso pressupõe, como sãbemos, uma situa~o não tal, pode significar "permanência,, ( ou "obsessão" ), a descrição
lingüística de comunicação. Esta situação é recoberta por um
201
200
visa a reconhecer e registrar o que é redundante e não a con- João gosta de f.ocar violão
tabilizar as redundâncias. O procedimento de normalização cruza, A Terra parece redonda
assim, com o de redução.
gosta e parece são modalidades que, logicamente anteriores aos
predicados, constituem o quadro de sua modificação, a qual a
e) Sintaxe elementar da descrição. descrição, de acordo com seu próprio objetivo, deverá levar em
conta. As mensagens construídas a partir das duas proposições
As grandes linhas dessa sintaxe sãõ já conhecidas; não se dadas poderão ser formuladas assim:
tratará, pois, aqui, de proceder à sua codificação. A construção
de uma sintaxe semântica, independente da língua natural em- F (m)/A/ e Q (m)/A/.
pregada, corresponde a certo número de necessidades. Trata-se,
notadamente: Dentro da classe das qualificações, podemos distinguir igual-
mente uma subclasse de "aspectos"/ definidos pela sua relação
1 . de suprimir o emprego redundante e o emaranhado das hipotática para com o predicado. Assim, nas proposições:
classes morfológicas e das classes sintáticas;
Pedro saiu precipitadamente
2. de eliminar a sinonímia sintática que resulta das formu- O caminho era muito longo
lações lexemáticas diferentes dos mesmos sememas;
3. de construir uma linguagem descritiva que permita a precipitadamente e muito podem ser considerados como aspec-
comparação dos modelos descritos a partir das manifestações for- tos: . constituídos numa classe de variáveis, eles modificam bipo-
muladas nas diferentes línguas naturais. taticamente os predicados.
Quanto à própria sintaxe, ela consiste, como já vimos, na Pouco conhecidos, muitas vezes confundidos com as moda-
divisão dos sememas em duas classes: lidades, os aspectos podem tanto entrar na construção do semema
predicativo quanto se constituírem em classes de variáveis, facili-
Atuantes vs Predicados, tando certos tipos de análise interessados nos predicados. A dis-
sendo os predicados, por sua vez, divididos em .tinção de uma subclasse de aspectos mantém, pois, inteiramente
seu caráter operacional. Nós só o introduzimos aqui para mostrar
Funções vs Qualificações. uma das direções possíveis da ampliação, com auxilio de articula-
ções hiponímicas novas, da sintaxe semântica.· As proposições
Diremos, pois, que toda mensagem semântica pertence neces- naturais se transcrevem então em mensagens semânticas da forma
sariamente a wna das duas classes de mensagens possíveis:
F (a)/A/ e Q (a)/A/.
F/ A/ ou Q/ A/.
Diremos que as modalidades e os aspectos são operadores
dos predicados.
Dentro das classes das funções, podemos distinguir uma
subclasse de modalidades, cuja descrição, nas diversas línguas Quanto aos atuantes, já fixamos provisoriamente seus papéis
naturais, está inteiramente por ser feita. Diremos, numa primeira e seu número. Aos quatro atuantes acresaentaremos ainda dois
aproximação, que não nos compromete, que elas são caracterizadas circunstantes, dos quais trataremos mais tarde: para simplificar
pela sua relação hiperotática para com o predicado. Assim, nas a notação, vamos designá-los igualmente por AA maiúsculos, nume-
seqüências: rando todos os atuantes e os circunstantes de 1 a 6 :
Sujeito . Observação Ui A indicação das relações enue unidades
Objeto . J'lão sintáticas não entra no quadro desse estudo. Precisamos
Destinador . enuetanto que:
Destinatário
Adjuvante a) Os semas são indicados ,por minúsculas, para distingui-los,
Oponente . ao mesmo tempo, das categorias sêmicas e dos sememas,
marcados por maiúsculas;
A visão desta sintaxe, que pretendemos e!ementar, estará b) as relações não precisadas, mas hipotáticas mais fre-
completa se precisarmos, além disso, que: qüentemente, entre os semas são marcadas com o sinal + .
Insistimos em que o contexto precisa a cada vez a relação
1. As mai<isculas são resen·adas apenas aos atuantes e pre-
postulada.
dicados ( funçées e qualificações), ao passo que as minúsculas
denotam as outras articulações hipotáticas que poderíamos ser
levados a introduzir; Observação lll: Dada a existência de numerosos sistemas
de notação simbólica, fonte freqüente de confusão, procuramos
2 . Os colchetes servem para reconhecer os atuantes os reduzir ao mínimo indispensável o número de sinais utilizados.
par~nteses os operadores, ao passo que os predicados são as;ina- É pelas mesmas razões que só apresentamos aqui rudimentos
~a<los pela ausência de sinais de inclusão; de uma sintaxe, que cada descritor - a menos que adote
3. As relações entre unidades sfotáticas são indicadas assim: seu próprio sistema de notação - poderá ampliar segundo
· suas próprias necessidades. Assim, nem mesmo mencionamos
a) uma relação hipotática. qualquer: ausência de sinal; os qualificadores ("um" vs "todo"; "pequena quantidade"
b) uma relação cuja indicação não é pertinente para a des- vs "grande quantidade"), que podem ser considerados como
crição: ( ; ~; operadores que modificam os atuantes, e dos quais a lógica
não se pode privar. Seu papel, na descrição semântica, nos
c) disjunção: (/); pareceu muito mais restrito.

4 . A ordem sintagmática convencional adotada para a trans-


crição das mensagens inteiras é a seguinte: d) A lexemática da descrição.

F/ Q {m; a) [A1 ; A::; A3; A,; Ar,; A11;] . Todo esforço de explicação de um semema qualquer leva, como
sabemos, à denominação e, conseqüentemente, à criação de um
Observação I: Alguns outros sinais, de carátC' r muito ge ral, novo lexema. Incapaz de operar de outra forma, a normalização
foram também utilizados. Sua definição foi ,·oluntariamentc deve visar a cumprir essa denominação da maneira mais econômica
deixada de lado, pois, ·por razões didáticas, por precaução ou possível. Assim, os lexemas da linguagem descritiva devem .ser,
ignorância, não insistimos em sua natureza. Assim : na medida do possível, unívocos, isto é, recobrir, seguindo nisso
o exemplo dos léxicos científicos, apenas wn semema. É evidente
a ) ~ indica correlação ou equivalência ( ou desejo de pre- que. a não ser que se utilizem formantes esuanhos ou combinações
cisar tais relações); _grafemáticas novas - portanto, ileghleis - , não conseguimos isso
b) n indica a oposição em geral ( que ~e trata ele precisar) ; tão facilmente. É preciso, conseqüentemente, procurar atingir um
c) _ . indica a pressuposição ou a implicação. optimum de denominação que se situa entl'e a ausência de moti-
vação e o risco de confusão, remetendo ao procedimento de
204
estruturação o cuidado de analisar os lexemas descritivos e de quand~ se tratar de funções e -d.ade, -ência, -ância, etc., para
consolidá-los com o auxílio de definições de caráter sêmlco. lexicalizar as qualificações. Nos casos em que faltem meios derivati-
vos, os p rocedimentos perifrásticas do tipo o fato de . .. poderão ser
Observaçã o: Os aficcionados da linguagem correta con~ a so1ução. A descrição sistemática dos classificadores ( ou dos defi-
t inuarão não aceitando esses neologismos, muitas vezes bar- nidores ) utilizados pela lexicografia, e que são sinônimos ou equi-
rocos e absurdos: não têm consciência do fato de que os valentes, no nível das definições, dos sufixos empregados no nível
lexemas denominativos não fazem parth da linguagem na- da denominação, poderia ser, nesse estágio, de uma grande utili-
tural, mas da linguagem d escrith·a segunda, e que eles não dade. Aliás, é inútil, no momento, entrar nos pormenores desse
são mais idiomáticos que os sinais algébricos, por exemplo. procedimento, cujo princípio deveria ser explicitado - ele é, efe-
tivamente, embora de maneira empírica, comumente empregado
Sabemos que as línguas naturais possuem, em geral, dois há já algum tempo.
sistemas caracterizados de lexicalização: o primeiro, consiste em Essa proposição, tendendo a organizar uma lexemática des-
lançar os sememas nas classes gramaticais ( verbos, adjeti- critiva autônoma, só constitui, a bem dizer, um episódio da luta
vos, etc.); o segundo procede por derivação. Assim, todo se- que os lingüistas empreendem de maneira mais ou menos cons-
mema funcional pode, em princípio, ser lexicalizado, quer como ciente para suprimir a heterogeneidade básica que existe, nas
verbo - resolver, caminhar, mudar, etc. - quer como subs- línguas naturais, entre as classes morfológicas e as classes sintá-
tantivo deverbal - solução, caminhada. mudan{'a, etc. Da mesma ticas. Nossa maneira de conduzi-la consiste, de um lado, na redu-
forma, todo semema qualificativo pode-se apresentar tan to como ção dos atuantes sintáticos aos atuantes semânticos e, de outro,
adjetivo - largo, certo, intransitivo, etc. - quanto como subs- na supressão das classes morfológicas no nível da linguagem des-
tantivo derivado - largura, certeza, intransitivi dade, etc. Essa critiva.
redundância natural só pode ser motivo de hesitação na prática
da descrição. Sem falar da dificuldade freqüente de estabelecer Observaçã o: A notação sjmbólica, que não chegamos nem
a distinção entre predicados e atuantes, é dificil à análise mesmo a mencionar aqui, só poderá, por razões práticas evi-
reconhecer os diferentes atuantes. Assim, nos enunciados do den!es, ser introduzida mais tarde, quando, após a redução,
tipo: o numero dos lexemas descritivos tiver diminuído o suficiente.
a solução do problema = F/ A-i/,
a solução do professor = F/ Ai/,
3.0 A CONSTRUÇÃO
dois atuantes distintos têm uma formação gramatical idêntica.
Diante de tais ambi~üidades, parece mais econômico eliminar a) Construção do modelo: redução e estruturaçã o.
um dos procedimentos de denominação, excluindo a lexicalização
por classes gramaticais, e adotar um procedimento único, que Sob o nome de normalização, acabamos efetivamente de
conserve a motivação lexical das classes de sememas s6 por meio propor os primeiros elementos de uma sintaxe e de uma )exemá-
de derivação sufixal. A operação consiste: tica da linguagem semântica, isto é, os quadros metalingüísticos
nos quais poderemos lançar os conteúdos manifestos dos corpus
1 . Em atribuir a todos os sememas a forma substantiva - a serem descritos. Este procedimento constitui uma garantia suple-
como não sobrarão outras classes gramaticais às quais possa ser mentar da homogeneidade do texto; auxilia também a apreender
oposto. o substanli\"O. enquanto classe, se achará assim neutralizado; mais facilmente suas redundâncias e suas articulações estruturais.
2. Em lexicalizar os sememas pela adjunção apenas dos sufixos Isto porque a fase da descrição que é assim anunciada só
substantivais apropriadas -mento, -agem, -ção, zero, etc. - pode consistir na construção do modelo que englobe o texto, em
206
-
elementos estilísticos, como veremos mais tarde, podem ser reto-
outras palavras, na transformação do inventário de mensagens _em mados em vista de uma nova análise, que tenha objetivo diferente.
estrutura. De fato. todo inventário é uma lista de ocorrênctas,
A redução consiste, pois, em reconhece r a equivalênc ia entre
cuja dimensão depende das particulari ?ades ~o _texto; o modelo vários sememas ou várias mensagens e em registrar com a ajuda
é simples e só pode comportar um nwnero hm1tado de termos. de uma denominação comum toda classe de ocorrências julgadas
A transformação do inventário em estrutura comportar á, pois, equivalent es. Como é muito difícil, se não impossível, reconhece r
em primeiro lugar, o procedimento de redução. Por outro lado, de uma só vez todas as equivalências, o procedime nto consistirá
mesmo que seja concebido como uma sucessão ou como um quase sempre em praticar uma série de reduções, que constituem
catálogo, o inventário é sempre uma justaposiçã~; o modE:lo. e?1 etapas de aproximação sucessivas. 11: ao descritor, conseqüen te-
cempensação, é uma estrutura, isto é, a colo~a~o e~ ev1dêncta mente, que cabe decidir, diante de seu inventário, em qual
dos princípios de organização relacional da s1gn~caçao. A cons- etapa da redução será mais rendoso introduzir a normalizaç ão,
trução implica, pois, em segundo lugar, o procedune nto de estru- e em que momento os sememas em construção poderão ser deno-
turação. minados de maneira definitiva.
Observação: Se evitamos a utilização aproximati va, b3;1a-
Distinguiremos três tipos diferentes de redu~es simples:
lizada, do termo estruturação, é porque queremos reserva-lo 1. Redução dos elementos id~ticos: Muitas ocorrências
para designar um proce~~n to det~rmina~o ~e descriçã_?, cujos formantes e conteúdos são idênticos podem ser reduzidas e
que, operando com inventãrtos redUZ1dos, visa a construçao consideradas como uma só unidade de conteúdo. Assim, no caso
do próprio modelo. do teste projetivo de Stein já utilizado, se o início da frase :
A vida de uma pessoa ... provoca 10 respostas idênticas: . . . é o
O s d ois procedime ntos d e redução e de estruturação serão que m ais conta, d iremos que bastará reter, para as necessidades
agora considerados sucessivamente. de análise ( nesse caso, com vistas à normalização) , uma só
As reduções podem ser simples ou complexas. ocorrência é o que mais conta. Duas observações são necessárias
a esse propósito:
a ) Apesar das práticas comuns da lingüística estatís tica, a
b) Reduções simples. identidade dos iormantes não é, em si, um critério suficiente para
A redução se mostra, na sua forma mais simples, como a efetuar a redução: ela indica, ao contrário, a equivalência d os
supressãó da redundância. Efetivame nte, vimos que o texto, ins- conteúdos, que só pode ser assegurada, no caso da redução dos
taurado na temporalid ade do discurso, só pode ser apreendido elementos idênticos, pela comparaçã o d os contextos constitutivos
como permanência, isto é, em suma, como significação global, na dos sememas.
medida em que os elementos fundament ais desta se manifestem b ) A descrição semântica considera a repetição, e, por isso
iterativam ente. A redundância, no entanto, não é apenas um mesmo a freqüência relativa dos elementos iterativos do conteúdo,
fenômeno quantitativo. pois a repetição implic,a, muit o fr~üen- como um fenômeno normal, e não como algo investido de um
temente, ,·ariações notáveis da forma do conteudo. Consequen te- estatuto particular. A freqüência, num texto dado, de elementos
mente, a redução da redundlnc ia só se pode fazer às cust~s de com formantes idênticos é um índice ú til, revelador de redundân-
um certo empobrec imento da significaçã o : uma vez escolhido o cias camufladas prováveis, e seu papel nQ plano prático não é
nÍ\"el de generalida de, a descrição só pode se manifestar _c~°2º negligenci ável.
seleção dos elementos de conteúdo pertinente s e ~orno re1e1ça? 2. A redução das equivalências sintáticas. As equivalências
( ou suspensão provisória) de outros elementos, conSiderad os esti- desse tipo, ilustradas pelo exemplo bem conhecido :
lísticos e não pertinentes para a construção do modelo. Esses
A destrói B o que há de mais
Destruição de B por A mais que tudo
Ação destruidora de A sobre B mais que todo ouro do mundo,
não são, entretanto, nem inteiramente sintáticas, nem tão formais aparecem como variáveis estilísticas de um só elemento de signi-
como pretendem alguns. São, antes de tudo, equivalências de ficação ( não se tem, a esse nível de análise, de perguntar se se
conteúdo; elas comportam. além disso, variações lexicais de impor- trata de um sema ou de uma combinação sêmica) , que podemos
tância desigual. Assim, na fonte de exemplos já citada, a qualifica- traduzir como "superlatividade".
ção da vida de uma pessoa pelas ocorrências: Os dois segmentos:
.. . é mais importante que tudo é .. . precioso
... Importa mais que todo o resto conta
.. . é o que há de mais importante no mundo vale,
apresenta variações lexicais na expressão da superlatividade <Jl.le são, por sua vez, comparáveis, pela proximidade de suas definições
·nos fazem considerar essas construções como equivalentes e não e comportam todos em comum um conteúdo sêmico "estima" ( sem
como idênticas. As pretendidas identidades sintáticas não são, o que uma análise sêmica mais aprofundada seja necessária nesse
mais das vezes, senão equivalências muito fáceis de reconhecer. nível de redução) .
3. Redução das equivalências semêmicas: Quando os lexemas Bastará, a seguir, transformar o conteúdo sêmico extraído em
considerados como eventuais núcleos sêmicos constitutivos dos qualificação (conferindo-lhe, na ocasião, a forma normalizada),
sememas não são recobertos po·r formantes idênticos, sua redução e considerar o elemento sêmico "superlatividade" como um aspecto
exige uma análise sêmica prévia. Tal análise das ocorrências, con- da qualificação: após esta redução, o semema qualificativo pode
sideradas como- transfonnáveis em sememas, pode utilizar os pro- ser registrado e transferido na linguagem semântica sob a forma:
cedimentos já descritos, indo da simples comparação de suas defi-
nições até a colocação em evidência do suas figuras. Ela visa a Q "estimabilidade" (a: "superlatividade") .
explicitar um número suficiente de elementos genéricos comuns
a todas as ocorrências, que permitem reduzi-las a um só semema.
e) Reduções complexas.
O mesmo teste de Stein oferece, para julgar a vida de
uma pessoa, ao lado da qualificação importante, outras séries d e Os três tipos de reduções simples comportam traços estru-
ocorrências: turais comuns: a redução aí se opera pela comparação e pela
colocação em evidência das identidades sêmicas, estas acompa-
.. . é o que há de mais precioso ( 6 ocorrências) nhadas, se possível, da suspensão dos elementos não idênticos.
. . . vale mais que tudo ( 10 ocorrências) Estruturalmente, o procedimento repolisa sobre a utilização das
. . . vale mais que todo o ouro do mundo ( 4 ocorrências) . relações de conjunção e sobre a neutralização das de disjunção.
Reservaremos o nome de reduções complexas aos procedi-
Essas 20 ocorrências se acham inicialmente reduzidas, graças mentos que colocam em jogo principalmente as relações hipo-
a numerosas identidades de expressão, a um inventário constituído táticas ou hiperotáticas. A redução- não se detém, pois, no esta-
de 3 exemplares. Cada uma das ocorrências pode, em seguida, belecimento das classes de equivalências, mas busca reunir em
ser dividida em dois segmentos. Os primeiros segmentos: uma só classe todos os elementos do conteúdo cujas relações com

210 211
a isotopia do texto podem ser defmidas em termos de relações
estruturais elementares. ... camuflou-se atrá, do tronco da droore
Como para as reduções simples, distinguiremos vários tipos de . .. dobrou a esquina, etc.,
reduçêes complexas; por ser a manifestação semântica sempre plu- podendo as seqüências definicionais, como vimos, ser integradas
rívoca, é difícil escolher exemplos simples. Assim ocorre com os na classe das denominações. ·
que vamos propor aqui sucessivament~; cada um deles c?~po~a
quase todas as propriedades estrutur~s que_ quere~os ~gwr 2. Redução hlpotática e redução hiperotática. Seja uma se-
e anaHsar separadamente. O esclarecunento contara mais que o qüência de discurso tirada das Lettres philosophiques {"'Primeira
valor do objeto esclarecido. Carta sobre os Quakers") de Voltaire: -
1. Redução dQ figurativo. Utilizando o começo de frase do " ( etlorsque apres de batailles .gagn!es)
teste de Stein: Quando Frank viu seu chefe chegar . . . , obti- tout Londres brllle d'llluminations, .
vemos de nossos alunos respostas de dois tipos. De um lado, que le Ciel est enflammé de fuséei,
respostas do tipo: Que r alr retentit du brult des actlom de grdces. des cloches. des
. . . ele teve medo ( 3 ocorrências) [orgues, des canons,
... ele sentiu medo ( 3 ocorrências) (nous gémissons en sil~nce sur ces meurtres qui causent la 1JUbli-
[ que allégresse)".
que. após as reduções simples, dão lugar à formulação da men- ~( e vencidas as batalhas)
sagem: Londres inteira resplandece em luzes,
Q (medo) (A1 (Frank); A2 (chefe)] . o Céu· incandesce em fogos,
o ar retumba ao ruído das ações de graças, dos sinos. dos órgãos,
Outras respostas, como: r
dos canhões,
.. . sobressaltou-se (Gememos em silêncio pelas chacinas que causam a pública
. . . ficou lívido [alegria)".
... empalideceu
O segmento que isolamos, colocando entre parênteses o res-
se apresentam, em compensação, como manifestações figurativas tante da seqüência. se apresenta sob a forma de três proposições,
do mesmo medo. Dada a isotopia noológica escolhida para a des- que poderíamos traduzir em três mensagens semânticas. Vemos,
crição, e o fato de que os atores da mensa~e.m manifestam ~s entretanto. que as três proposições ( como aliás a enumeração das
atuantes "inferior" e ''superior", pode-se admitir que a reduçao determinações de "ruído") constituem de fato um recurso esti-
deve partir do comportamento prático, como o empalidecimento, lístico desejado por .Voltaire - sua redução a uma só proposição
para reduzi-lo à sua significação mítica "medo" e não inversa- que os abarque é, conseqüentemente, necessária, e o enunciado
mente. Mas vemos ao mesmo tempo, que os predicados práticos aproximativo - "Londres celebra a vitória", por exemplo, é equi-
desse tipo são hi~táticos e se apresentam co~o definiçõ_es _- valente ao segmento inteiro, anterior a qualquer normalização,
acontecimentos de "medo", que abrem um paradigma de v~açoes que daria qualquer coisa como:
estilísticas em número indefinido. Logo, a classe ocorrenc1al de
equivalentes hipotáticos pode ser ampliada às respostas do gênero: F ( regozifo ) [ A1 ( não quaker); quantificador {todos)].
.. . safa correndo
.. . escondeu-se O problema. apresentado assim num quadro retórico. parece
simples. Na realidade, ele se liga ao funcionamento morfemático
212
213
embora estas não estejam sempre explicitamente presentes na
da linguagem, de que as figuras de elipse ou de litotes s6 dão manifestação.
conta parcialmente. Toda função lingüística que corresponda a 3. Redução das funções à$ qualificações: Dois problemas
um comportamento dito "real., pode ser considerada como hipero- distintos, mas que na prática se confundem quase sempre, devem
tática - ela compreende uma série virtual possível de funções ser considerados sob essa rubrica: trata-se, de um lado, da difi-
parciais, que recobrem comportamentos mais pormenorizados; culdade de reconhecer com segurança, quando do procedimento
pode também ser vista como hipotática: ela remete efetivamente, de normalização, os sememas qualificativos e de distingui-los dos
ou pode remeter, a uma função denominativa, que designa todo sememas funcionais; trata-se. por outro lado, quando do procedi-
um algoritmo de funções parciais. Considerado numa perspec- mento de redução, de considerar os sernemas funcionais reconheci-
tiva de denominação e aplicado a unidades de discurso mais d os e registrados como tais e de lançá-los, separadamente ou en-
amplas, o mesmo problema é encontrado em documentação, onde quanto classe, no invenlário dos sememas qualificativos.
sob o nome de condensação, implica o procedimento complexo e
=
mal estudado da confecção de resumos ( abstracts). O procedi- a) O primeiro desses casos se acha ilustrado, e em parte escla-
recido, pelas provas semânticas elaboradas por Mme L. Irigaray,
mento inverso, a expansão, pode ser reconhecido no modelo dis-
cursivo do ensino francês que é a dissertação, fixada na forma. às quais foram submetidos dementes senis hospitalizados em
que lhe foi legada pela retórica clássica, antes de seu adormeci- Sainte-Anne. Assim, convidados a escolher entre três seqüências
mento. Os dois pro~dimentos complementares reclamam a ela- aquela que seria equivalente à denominação doutor:
b~ração das regras de redução e de produção que poderiam cons-
tituí-los em técnicas de descrição e de descoberta. O d outor é o que conserta carros?
O doutor é o que dirige trens?
Se a formulação de tais regras não parece impossível, uma O doutor é o que cuida dos doentes?
dificuldade, tanto teórica como prática, merece ser assinalada:
ela concerne ao nível ótimo a que deve visar a redução. O os sujeitos testados provaram dificuldades consideráveis em distin-
problema não é de ordem quantitativa, não se .trata de saber guir entre a seqüência que exprime a qualificação do doutor e
quantas funções deverá comportar cada algoritmo, nem quais são aquelas que lhe atribuem fu nções. Não parece duvidoso tratar-se
as dimensões do algoritmo denominável. A manutenção da isotopia aí de uma fronteira estrutural que marca o enfraquecimento ou
do texto ao longo da descrição, operando sucessivamente conden- o cessar, nos doentes observados, da atividade que reconhecemos
sações e expansões das funções, é um problema de ponderação que como metalingüística.
introduz incômodos elementos subjetivos de apreciação. O êxito No entanto, não se trata aQenas disso. O que interveio em
da análise funcional depende notadamente desse fator: no capi- parte aqui, e o que se pode reproduzir, na presença de distinções
tulo consagrado, em parte, à análise do conto popular, fomos menos evidentes, em qualquer análise, é o fato de todas as seqüên-
levados a remanejar um pouco o inventário das funções estabele- cias a serem interpretadas possuírem funçées q ue comportam o
cido por Propp, para tomar mais equilibrada a estrutura da narra- aspecto iterativo. No caso, a iteratividade se acha manifestada
tiva. O leitor verá, graças a esse exemplo, que além da isotopia, pela combinação do presente, que comporta hipotaticamente a
que é um conceito fundamental da descrição, a redução deve categoria aspectual "imperfeclivo" vs. "perfectivo", sincretizada,
levar em conta a economia geral da narrativa, isto é, a coerência com o plural dos atuantes-objetivos. Basta. conseqüentemente,
interna do modelo. que o aspecto, iterativo ou durativo, seja apreendido antes da
Vista sob esse ângulo, a redução se mostra como algo que função para que esta, degradada em figura especilica da defini-
pode tomar tanto a forma de condensação, isto é, da denominação ção, apareça como uma qualificação, isto é, como um atributo
das funções hiperotáticas, quanto da forma da expansão, isto é, permanente do atuante. O mesmo ocorre, aliás, quando as fun -
da partição de uma função muito geral em funções hipotáticas,
215
214
ções comportam modalidades tais como "saber'' ou "poder", que
d) O semânlico e o estilístico.
os transformam em qualidades permanentes. A enumeração não
pára aí: no exemplo que demos de redução da manifestação A reflexão sobre os procedimentos de descrição já considerados
figurativa ao nível não figurativo, o que permite transformar a mostra que cada passo adiante consiste .ao. mes:no tempo n_a
função perfectiva de "ele saiu correndo" em qualificação "medo" seleção e na eliminação dos elementos de s1gnificaçao. O procedi-
é a iteratividade das respostas, isto é, a inscrição de uma ocorrên- mento descritivo se mostra, no seu conjunto, como uma busca
cia no corpus coletivo. de constantes do conteúdo às custas de suas variáveis, progres-
A natureza das relações entre qualificações e funções já pa- sivamente abandonadas, como uma valorização da substância do
rece estar precisada. Supondo que a descrição dependa, a partir conteúdo pela colocação entre parênteses. dos elementos de sua
de um corpus representativo, da totalidade das funções atribuí- fonna
das a um atuante qualquer, seu inventário poderá nos oferecer, Diremos pois que a descrição de um corpus qualquer é semân-
no máximo, a esfera de atividade do atuante. A análise ulterior tica na medida em que, partindo das ocorrências, ela as transforma
poderá acentuar apenas as funções redundantes, e o modelo em inventários, e estes em classes e, eventualmente, em classes
e laborado não dará conta senão da estrutura dos comportamen- de classes, para chegar à construção do mod~lo que _dê conta do
tos característicos. Tal tratamento das funções, embora legítimo, modo de existência do microuniverso semântico manifestado pelo
corre o risco de fazê-las aparecer a todo instante, quer tomadas corpus. Mas este procedimento ascendente da descrição pode e
separadamente, no nível dos inventários parciais, ou, então, em algumas vezes deve ser completado pelo pro~dim~nto desce~-
estado de modelo constituído, como hipotáticas em relação às dente, que terá por tarefa, partindo do modelo-1_nvanante, reumr
qualificações, aos inventários ou ao modelos qualificativos. Assim as variáveis abandonadas em cada etapa e constituí-las em estru-
sendo. são teoricamente possíveis procedimentos de transforma- turas sistemáticas ou morfemáticas, espécies de submodelos que
ção das funções em qualificações e, efetivamente, vamos tentar, dão conta do funcionamento e da produtividade das estruturas
no momento certo, sua demonstração. Tais tratamentos das fun- hierarquicamente superiores. Chamaremos estilística este procedi-
ções, entretanto, não devem ser coniundidos com a descrição
dos modelos funcionais propriamente ditos: vemos por conse- mento descendente da descrição.
guinte que todo inventário de funções não é implicitamente Podemos distinguir dois modos de investigação estilística.
subordinado a um modelo de caráter funcional, e que este pres- O primeiro, correspondente ao nível da redução complexa, j~
supõe a existência de uma programação mínima entre funções, reconhecido será de natureza hipotática (metonímica ) e procurara
que as transforme em consecução. da.r conta dos tipos de relações que definem a distância que
Evidencia-se assim uma dupla vocação d a análise funcional: separa os sememas construídos quando da primeira redução da
na medida em que ela considera apenas as relações existentes isotopia definitivamente estabelecida.· Tratar-se-~ aí -do que po,de-
entre as funções e os atuantes, seus modelos são comparáveis e, rfamos chamar estilística semêmica. Embora situada num ruvel
em certas condições, hipotáticos, em relação aos modelos qualifi- de generalidade mais · alto, ela corresponde, grosso modo, aos tipos
cativos; na medida em que ela se interesse pelas relações entre de relações estudados desde há muito sob o nome de figuras e
funções, é capaz de explicitar modelos que dão conta não mais ·tropos. O segundo modo de descrição estilí~ca ~everá retom~r
dos modos de existência, mas dos modos de transformação dos as variáveis deixadas de lado quando da reduçao sunples: devera,
microimiversos semânticos. conseqüentemente, ocupar-se das relações de natureza disjuntiva
(metafórica) e promover a análise sêmica das ocorrências que se
deixam construir em sememas descritivos. Tratar-se-á, nesse caso,
de uma estilística sémica. Ela corresponderia, por suas preocupa-
ções, a uma disciplina lingüística um tanto negligenciada, a forma-
218 217
ção das palavras, que as tendências atuais ~a H_ngüística nã~ !ar- o estatuto diacrônico da descrição considerada como procedimento.
darão a recuperar. As descrições de J. Dubo1s, visando a exphc1tar De fato, se os resultados da descrição - ou a exposição do trajeto
o que considera como microssistemas· (cf. via_~ caminho . .~ estra- a seguir que fazemos nesse instante - tendem a fazer aparecer
da, etc.) poderiam servir de modelo a esse t ipo de pesquisa. os dois termos como definidores das fases sucessivas que carac-
terizam duas operações distintas, a própria descrição não pode
Observação: Estamos conscientes da polissemia termi- ser concebida como diacrônica. Um inventário das ocorrências
nológica que aqui introduzimos. Assim, ? procedime~to_ se- só pode ser reduzido a uma classe e denominado por um se-
mântico da descrição, não é semântico senao em seu objetivo: mema único na medida em que um outro inventário, diametral-
o modelo a que deve chegar será construído com o auxílio de mente oposto, seja ao mesmo tempo constituído e denominado.
categorias sêmicas que dependem, em princípio, do nh-el se- Expliquemo-nos: a redução de um inventário, tomado isolada-
mântico imanente. mente, a um semema construído, é sempre possfvel, e já o pro-
vamos, por exemplo, operando a redução das equivalências da
Quanto ao procedimento estilístico, ele só se identifica classe fatigué. Mas tal redução não será necessariamente perti-
parcialmente com o estrato estilístico estrutural, deixando de nente se não for operada no quadro de um corpus dado com
lado o problema das relações entre os estratos fundamental e vistas a uma descrição isotópica: toda manifestação discursiva
histórico. Melhor que elaborar uma terminologia pletórica, fechada está submetida a uma estrutura que lhe é própria, e
procuraremos reunir inicialmente as condições de uma ter- os inventários de equivalência são suscetíveis de variar de um
minologia. corpus a outro. Js50 quer dizer que a redução, nesse caso, pres-
supõe a representação, mesmo hipotética, das estruturas a serem
Se os dois procedimentos, semântico e estilístico, são apenas descritas, mas que por sua vez a estruturação, para ser efetuada
duas fases de uma mesma descrição, o segundo procedimento com êxito, pressupõe as reduções acabadas.
supõe, no entanto, o primeiro: só podemos falar de análise esti- A pressuposição recíproca caracteriza, como sabemos, a articula-
lística na medida ein que a descrição semântica já esth·er acabada, ção complexa da estrutura elementar da significação. Podemos,
isto é, só a partir do momento em que um estrato iso.tópico do
conteúdo for estabelecido na sua invariância, para que a procura pois, dizer não só que a descrição, concebida como metalíngua,
possui sua estruturação própria, mas também que seu funciona-
de suas ,·ariáveis tenha um sentido. Sem isso, tudo, na lingua-
mento, isto é, no futuro, a pesquisa descritiva, implica a apreensão
gem, corre o risco - e isso ocorre muito freq~enteme~te -
de se evidenciar como estilístico, e o mal-entendido subjacente simultâ.nea dos procedimentos dos quais ela é constituída.. Os
procedimentos cujos termos fazem· parte de uma estrutura com-
a toda controvérsia entre os partidários· da aproximação literária
e os lingüistas só tende a generalizar-se. plexa estática são ditos complementares, quando são apreendidos
no momento do funcionamento da mesma estrutura, sem que, no
entanto, o estatuto sincrônico da estrutura possa ser colocado em
e) A estruturação. questão. A descrição é, pois, uma práxis metalingüística, no curso
da qual todos os procedimentos, cujo conjunto constitui o modelo,
O termo estruturação é reservado para designar o procedi- estão simultaneamente presentes e atuantes. Os procedimentos de
mento de descrição complementar do da redução. Ele parece ser descrição, são sob esse prisma, apenas regras de funcionamento
útil, pelo seu sentido literal de "colocação em estru~ura", aplicado da estrutura que é a descrição, exatamente como as regras gra-
aos elementos de significação obtidos pela reduçao. maticais dão conta do funcionamento da estrutura gramatical.
A cohStãtação ele que os procedimentos de redução e de es- O corpus a ser descrito pode ser simple3 e satisfazer-se com uma
truturação são complementares coloca em questão, uma vez mais, só estrutura; pode ser mais complexo e exigir várias: a descrição

218 219
rências dado, e que esta exige a presença "estruturante'' isto é,
se dividirá nesse caso, numa série de descrições parciais inde- disjuqtante, dos termos negativos das categorias sêmicas cujos
pendentes, que se enc~ixam hierarqui~ente ~as, nas outras. termos positivos se procura identificar. As reduções complexas
O que é preciso reter e que cada descnçao parcial~ so pode org~- implicam, além da base, geralmente classemática, comum a todas
oizar os conteúdos semêmicos, obtidos pelas reduçoes, como arti- as · ocorrências, a presença dos conteúdos sêmicos cuja equiva-
culações da estrutura elementar. lência só pode ser estabelecida graças às relações hipotaticas.
A homologação, considerada até o presente como binária,
O Homologação e generalização. pode ser ampliada até as dimensões da estrutura elementar arti-
culada em seis termos. Se admitimos que uma categoria binária
Para melhor compreender a complement~dade d?s proc«: pode manifestar-se em seis sememas-ocorrências, constituindo
dimentos de redução e de estruturação, gostanamos de 1;1~od~ir desvios de significação suficientes, não se exclui a possibilidade
aqui o conceito de homologação. Segun:Io o V ~cabulárw Filo- de uma homologação que possa operar a redução dentro do
sófico de Lalande, num sistema de relaçoes do tipo: quadro estrutural articulado do mesmo modo.
A vs B O conceito de homologação nos ajuda igualmente a avançar
A' vs B' em direção à compreensão das transformações estruturais que
situamos nas zonas de emaranhamento do corpus de caráter dia-
A e A' são ditos homólogos em relação a B e B'. Mais particul~- crônico. Roman Jakobson, que foi um dos primeiros a se inte-
monte "em matemática, as partes correspondentes de duas fi- ressar por isso, propôs interpretá-los no quadro da sobredeter-
guras , semelhantes, ou, mais geralmen~e, correlativas,_ são ~tas minação dos elementos estruturais. Assim, o desaparecimento da
homólogas". Restringindo, para adaptar as nossas necessidades ime- declinação do antigo francês pode explicar-se situando-se previa-
diatas, a definição desse conceito, dircmo.s que mente a ordem sintagrnática dos elementos do enunciado, que,
pela redundância, libera em seguida os formantes desinenciais e
S (s) vs não S (não .t), autoriza sua queda. Esse exemplo só dá suficientemente conta,
S' (s) vs não S' (não s), é bem verdade, da substituição dos formantes: a categoria atua-
cional " sujeito" vs. "objeto" expressa de maneira redundante,
o que significa: dois sememas S e S' serão ditos homólogos durante um período de emaranhamento dos signilicantes, sai
em relação ao não S e não S' se possuírem em comum u_m con- ilesa da prova.
teúdo sêmico s ( isto é, ao menos um sema), que, conS1derado
como termo positivo, está presente ao me~o temp~, sob sua Mas podemos muito bem conceber tais sobredeterrninações
forma negativa de não s, nos sememas nao S. e nao ~1 . Em no plano do conteúdo: uma estrutura binária homologada, fun-
outras palavras, a redução dos sememas-ocorrênc1as S. e ~ a ~ cionando como uma permanência e produzindo de maneira redun-
só semema descritivo só é pertinente se o conteúdo sêm1co idêntico dante sememas de substituição homologados: S', S", S"', etc.,
que permite essa redução estiver igualmente presente, sob. a em relação de disjunção com os sememas: não S', não S", não S"',
forma categórica negativa, no inventário paralelo das ocorrências pode pôr-se a gerar, num dado momento, não mais sememas
não S e não S' reduúvel também, e, ao mesmo tempo, a um binários mas uma estrutura semêmica ternária comportando, além
outro semema d~critivo~ que é homólogo em relação ao primeiro. dos sememas polarizados, um terceiro semema que articula o ter-
A homologação assim entendida engloba, conseqüentemente, ao mo complexo. Por pouco que persista o engendramento das
mesmo tempo a redução e a estruturação. · ocorrências em três termos, uma zona de emaranhamento, que
comporta ao mesmo tempo as estruturas binárias e as estruturas
Vemos então que o que caracteriza as reduções simples é ternárias, acha-se constituída, e só deixa subsistir, depois, apenas
a identificação dos conteúdos sêmicos de um inventário de ocor-
221
a estrutura ternária. E.sse tipo <lo transformação estrutural foi De fato, os procedimentos mantêm seu caráter geral enquanto
descrito por Lévi-Strauss (Anthropologie Structurale, p. 248), que se trate da descrição do conteúdo propriamente dito, isto é, do
mostra como uma estrutura binária homologada tal como conteúdo instituído dentro de uma manifestação fechada e re-
dundante pela atividade predicativa do discurso, e descrito; conse-
S (vida ) vs Não S (mor te) q üentemente a partir dos inventários de mensagens. A análise
S1 (agricultura ) vs Não S1 {g1,erra ) das classes dos predicados, qualificativos ou funcionais, institui,
de fato , separadamente ou em conjunto ( com o auxílio de per~qua-
é apropriada para gerar um tercei~o termo complexo ou mediador: ções cujas regras devem ser precisadas ), os atuantes semânticos:
Guerra após a descrição do conteúdo, cujos procedimentos acabamos de
Agricultura C aça
YS vs estudar, estaremos então, em princípio, na presença de tanta~
(positivo) (complexo) (negativo)
estruturas simples homologadas quantos forem os atu3:11~es. Devera
ser considerada, portanto, nova etaga da descnçao, consa-
Observação: De fato, o problema é, como sempre, mais grada a uma nova estruturação dos ~tu~!es, a se1:1 reco~ ecimento
complexo do que possa parecer à primeira vista : não vemos e ao estabelecimento de uma constituiçao do rrucrouruverso des-
por que a substituição efetuada ao nível da variação das crito.
ocorrências afeta, num dado momento, a própria estrutura.
A iuterpretação tradicional da mudança pela usura histórica
Mas uma outra saída é igualmente possível. A análise pre-
não parece satisfatória. Retomamos o problema m ais adiante, dicativa, tendo transformado o inventário· das mensagens funcionais
analis:indo a estrutura Vida ,·s Morte em Bemanos. num pequeno número de estruturas de conteúdo homologadas,, ~m
vez de atribuir as estruturas aos atuantes, pode, ao contra n o,
interessar-se pe las relações entre as classes de funções e considerar
Ao engcnclramento de no,·os termos estruturais, podemos opor os conte údos homologados como constitutivos d:ssas classes, e ~ã?
a degeneração das estrutur3s, simplificadas por transformações os atuantes. Vimos, ao estabelecer as funçoes, que a anali-
em sentido inverso. Bastará lembrar aqui a concepção de Brf6ndal se funcional propriamente dita só pode ser concebida se as
para quem o progresso elo espírito humano se identifica com a funções - que estarão, na etapa da descrição a que che-
simplificação que tende a binarizar as estruturas, isto é, que no gamos, investidas de conteúdos analisados e hoi:nologados -
fundo se identifica com a degeneração das estruturas. Entenda-se apresentarem entre si relações de consecução e manifestarem um a
que a interpretação valoriza nte de Bn>Jndal - que nossa termino- diacronia um "antes" e um "depois" lógicos. Uma etapa descritiva
logia deixa de lado - continua estranha às preocupações lin· diferente ' da construção atuaciooal, que organize as funções inves-
güísticas. tidas. de conteúdos em urna seqüência transformaciona~ deverá
ser prevista.
o) Os conteúdos Instituídos e sua organização. E sta última e tapa de estruturação, consagrada à organização
dos conteúdos instituídos e investidos, quer nos atuantes quer
Com a homologação, que resume os dife rentes procedimentos nas funções, dc,·e acabar a descrição. Na sua fase institucional
de redução, subordinando-os à exigência de uma colocação em prevista, esta permane ce~ esse~ci~e.nte ~xinô~ic~ organizando
estrutura correlativa, encerram-se a enumeração e a form ulação as sianificações
0
em conteudos h1erarqwcos disporuve1s. Os m odelos
dos procedimentos gerais de descrição dos microuniversos se- que é preciso procurar descrever a partir daí devem partic~a-
mânticos, que partem <lo corpus de manifestação fechado. Os rizá-los: seu modo de ex:islência é o do microuniverso desc,n to.
procedimentos seguintes que poderíamos propor concemeriam !'vias, ao mesmo tempo, eles são mais gerais que os conteud~s
já à organização dos modelos particulares. particulares e aparecem como invariantes, como tipos de orgaru-

222
· os cooteu'dos
zação da significaça-o em m1·croun1·versos dos quais
investidos não são senão variáveis. ,
Encontramo-nos, como vemos, no domínio das conjeturas onde
toda ,form_ulação de hipóteses parece prematura . Adian~em os
tambem, titubeand_?: os três capítulos que se seguem constituem
amostras de reflexoes e de análises parciais explorando d ' ·
articular s A 1,_ - 1.- ' omtruos
P, _ e : s generauzaç oes éU quais estas podem prestar-se REFLEXOES SOBRE OS MODELOS ATUACIONAIS
so terao, eVJdentemente, um valor hipotético.

1.0 Dois níveis de descrição.

Quando um mitólogo como, por exemplo, Georges Dumézil, se


propõe a descrever uma população divina analisando um por um
todos os seus representa ntes, o procedime nto utilizado percorre
duas vias distintas:
1. Escolhendo uma divindade qualquer, ele constitui, com o
auxílio de todos os textos sagrados, mitológicos, folclóricos, etc.,
um corpus de proposições nas quais o deus em questão entra
como atuante. A partir do inventário das mensagens funcionais,
as reduções sucessivas, seguidas da homologação, lhe permitem
constituir o que podemos designar como esfera de atividade da
divindade.
2. Constituindo um corpus paralelo - que contém a totalidade
das ·qualificações dessa divindade, tais como as encontram os sob
a forma de cognomes, de epítetos estereotipa dos, de atributos
divinos, ou então, em sintagmas em expansão que comportam
considerações de caráter teológico - cuja análise permite estabele-
cer a fisionomia moral da divindade considerada.
Resultam daí duas definições possíveis do mesmo deus: a
primeira, que parte do princípio de que um deus é reconhecido
pelo que faz., mas que, consideran do mítica sua atividade, inscre-
ve-o como um dos atuantes de um unh-erso ideológico; a segunda,
que o situa como um dos atuantes com o auxílio dos quais se
conceitualiza uma axiologia coletiva.
As coisas não se passam de outra forma aqui na terra : assim,
quando por exemplo, apÓs ter escolhido, para a descriç.:o do
universo raciniano, a análise funcional, R. Barthes diz que a tra-
gédia raciniana não é psicológica, suas afirmações só podem chocar Esta permanência da distribuição de um pequeno número de
os defensores das explicações qualificativas tradicionais. papéis, dizíamos, não pode ser fortuita; vimos que o número de
. Vimos que . nesse nível -~e descrição, as duas análises predi- atuantes era determinado por condições apriorísticas da percepção
cativas - funcional e qualificativa -, longe de serem contradi- da significação. Quanto à natureza dos papéis distribuídos, foi-nos
tórias, podiam, ao contrário, em certas condições, ser consideradas mais .difícil pronunciar-nos: pareceu-nos ao menos indispensável
como complementares e seus resultados como convertíveis de um corrigir a formulação ternária, defeituosa, substituindo-a por duas
modelo a outro: a divindade poderia agir conforme sua própria categorias atuaclonais, sob a forma de oposições:
mor~; seus co~portamentos iterativos, julgados típicos, podiam sujeito vs objeto
ser mtegrados igualmente como qualidades. O problema da dis-
destinador vs destinatário.
junção do_s p~o~essos ~escritivos ·s6 se ~oloca mais tarde, quando,
uma vez mstitu1dos tais atuantes, isto e, investidos de conteúdos,
formos tentar a descrição do microuniverso dentro do qual eles A partir daí, conseguimos empreender a seguinte extrapolação':
e~te~ ou ,agem., Esta no~a descrição, situada num nível supe- já que o discurso "natural" não pode nem aumentar o número dos
rior, so sera poss1vel se dispusermos para seu empreendimento atuantes nem dilatar a apreensão sintática da significação para
ao menos de um certo número de hipóteses concernentes a seu além da frase, o mesmo deve ocorrer dentro de todo microuni-
objetivo. Mas, para constituí-las, é preciso tentar responder inicial- verso; ou melhor, ao contrário, o microuniverso semântico só pode
mente a dois tipos de questões: a) quais são as relações recíprocas ser definido como universo, isto é, como um todo de significação,
e o modo de existência em comum dos atuante.s de um micro- na medida em que lhe é possível surgir a qualquer momento
llrn:ver;o? b) qual é o sentido, muito geral, da atividade que diante de nós como um espetáculo simples, como uma estrutura
atr1bmmos aos atuantes? Em que consiste tal "atividade'" e se atuacional.
ela é transformadora, qual é o quadro estrutural dessas 'trans- Duas tarefas de ordem prática foram necessárias para ajustar
formações? esse modelo atuacional, tomado de empréstimo à sintaxe, ao seu
Vamos tentar responder inicialmente à primeira das duas novo estatuto semântico e às novas dimensões do microuniverso:
questões. considerar de um lado, a redução dos atuantes sintáticos a seu esta-
tuto semâ_~tico ( Maria, receba ou seja-lhe enviada uma carta, é sem-
-pre "destinatária") ; reunir, por outro lado, todas as funções manifes-
2.0 Os atuantes em lingüística. tadas num corpus e atribuídas. qualquer que-seja a sua dispersão,
Como já dissemos, ficamos impressionados com uma observa- a um só atuante semântico, a fim de que ' cada atuante manifestado
ç~o d_e Tesniere - que ele pretendia, provavelmente, fosse apenas traga, atrás de si., sua investidura semântica e a f~ de q~e
didática - onde ele compara o enunciado elementar a um espetá- possamos dizer que o conjunto dos atuantes reconhec1dos, quais-
c~l?. Se lembrarmos o que chamamos funções segundo a sintaxe tra- quer que sejam as relações entre eles, é representativo de toda a
d1cional, vamos ver que se trata de papéis desempenhados por pala- manifestação.
vras - , o suje!t~ aí é "alguém q_u~ faz a ação"; o objeto "alguém Eis até onde chega a hipótese de um modelo atuacional, visto
que sofre a açao , etc. ~ propos1çao, em tal concepção, é, efetiva- como um dos princípios possíveis da organização do universo
mente, ~penas um espetaculo que dá a si mesmo o homo loquens. semântico, excessivamente considerável para ser apreendido, na
O espetáculo tem, entretanto, algo de particular: ser permanente : sua totalidade, em microuniversos acessíveis_ao homem. lt neces-
o con~eúdo das ~ções muda o tempo todo, os atores variam, mas o sário agora que as descrições concretas dos domínios delimitados ·
enune1a~o-espetaculo permanece sempre o mesmo, pois sua per- ou pelo menos das observações de caráter geral, as quais, sem serem
manência está garantida pela distribuição única dos papéis. apoiadas em análises expressivas, incidem sobre o conjunto de

226
significantes vastos e diversificados, venham confirmar estas extra-
polações lingüísticas, trazendo, ao ·mesmo tempo, informações sobre de atuantes, um glnero. Os atuantes possuem, pois, um estatuto
a significação e as articulações possíveis das categorias atuacionais. metaliogüístico em relação aos atores; pressupõem acabada, além
russo; a análise funcional, isto é, a constituição de esfeias.

3.0 Os atuantes do c:onto populm russo.


. Esse duplo procedimento, a instituição dos atores pela descri-
ção de suas funções e a redução .das classes de atores à das atuantes
Uma primeira confirmação dessa hip6tese foi-nos dada por do gênero, permite a Propp estabelecer um inventário definitivo
V. ~ropp eI? sua Morfologia do Conto P~lar Russo, cuja tra- dos atuantes, que são:
duçao amen cana relativamente recente so há pouco tempo foi
conhecida pelos franceses. Após ter d efinido o conto popular 1.0 the villai-n;
como uma extensão de suas 31 funções sobre a linha temporal, 2.0 the donor ( prooider);
Propp se coloca a questão dos atuantes, ou dos dramatis personae, 3.0 the helper;
como ele os chama. Sua concepção dos atuantes é funcional: 4.0 the sought-for person ( and her f ather );
as personagens se definem, segundo ele, por "esferas de ação" 5.0 the dispatcher;
das quais participam, sendo estas constituídas por feixes de fun- 6.0 the hero;
ções que lhes são atribuídas. A invariância que podemos obser- 1.0 the false hero.
var comparando todos os contos-ocorrências do corpus é a das
"esferas de ação" que são atribuídas às personagens ( as quais pre-
ferimos chamar atores), variáveis de -um conto a outro. Ilustrando Esse inventário nos autoriza a dar uma definição atuacional
isso e~~ auxílio de u:n esquema simples ( v. abaixo ), vemos que, do conto popular russo como sendo uma narrativa de 7 perso-
nagens.
se defmumos as funçoes F 1, F 2, Fa como constituindo a esfera de
atividade de um certo atuante A1, a invariância dessa esfera de
atividade de t1Ill conto a outro permite-nos considerar os atores 4.0 Os atuantes do Teatro.
a1, a2, aa, como expressões ocorrenciais de um s6 e mesmo atuante
A1, definido pela mesma esfera de atividade. No ponto exato onde Propp termina a sua análise, encontra-
mos um outro inventário, bastante semelhante, no catálogo das
mensagem 1 mensagem 2 mensagem 3 funções · dramáticas apresentado por E . Souriau em sua obra
200 ()(X) Situations dramatiques. A reflexão de Souriau, embora
Conto 1 F1 F2 Fa subjetiva e não tendo apoio sobre n~nhuma análise concreta, não
ª1 81 a1
está muito distanciada da descrição de Propp; aliás, prolonga-a
Conto 2 de certa forma. :E: pouco provável que SouriaÚ tenha conhecido
F1 ~ F2 a:z Fs 82
a obra de Propp. Isso não chega a ser pertinente. O interesse
do pensamento de Souriau consiste no fato de ter ele mostrado
Conto 3 F.1 aa F2 as Fs as que a interpretação atuacional podia se aplicar a um tipo de
narrativas - as obras teatrais - bem diferente do conto popular
Resulta daí que, se os atores podem ser instituídos dentro de e que seus resultados podiam ser comparáveis aos primeiros.
um conto-ocorrência. os atuantes, que são classes de atores, não Encontramos aí, embora expressas em outros termos, as mesmas
podem sê-lo senão a partir do corpus de todos· os contos: uma distinções entre hist6ria-acontecimento ( que não é para ele senão
articulação de atores constitui um conto particular; uma estrutura uma seqüência de "temas dramáticos"), e o nível da descrição
semântica ( que se faz a partir de "situações" de componíveis

229
-
em processos dos atuantes). Encontramos aí, finalmente, um in-
veis entre eles, é renunciar multo cedo à análise, deixando a
ventário limitativo dos atuantes ( que ele batiza, segundo a termi- segunda parte da definição, seus traços específicos, num nível de
nologia sintática tradicional, com o nome de funções). Por infe- formalização insuficiente. Uma categorização do inventário dos
licidade, após ter hesitado algum tempo entre 6 e 7 funções dra- atuantes parece, pois, necessária: vamos .tentá-la, comparando,
máticas, Souriau decidiu-se, finalmente, a limitar o número em num primeiro passo, os três inventários de que dispomos: os de
6 (número contestado, aliás, por Guy Michaud , em seu Techni- Propp e de Souriau, e aquele mais restrito, já que comporta
ques de l'ceuvre, que pretendia restabelecer a 7.ª função, aquela apenas duas categorias atuacionais, que conseguimos tirar das
do vilão) : teríamos assim obtido definições paralelas de dois considerações sobre o funcionamento sintático do discurso.
gêneros diferentes - conto popular e peça d e teatro - , que, Uma primeira observação permite encontrar e identificar,
cada um dos autores, separadamente, teria pretendido que fossem nos dois inventários de Propp e de Souriau, os dois atuantes sin-
narrativas com sete personagens. táticos, constitutivos da categoria "Sujeito" e "Objeto". :e im-
O inventário de Souriau se apresenta da seguinte forma: pTessionante, importa notá-lo agora, ver como a relação entre
sujeito e objeto, que obtivemos com tanta dificuldade, sem pleno
I..eão .... . . a Força temática orientada; resultado, aparece aqui com a · mesma investidura semântica nos
Sol . . .. . . . . o Representante do Bem desejado, do valor dois inventários: a do "desejo". Parece possível conceber que a
orientado; transitividade, ou a relação teleol6gica, como sugerimos chamá-la,
situada na dimensão mítica da manifestação, apareça, após esta
Terra o Obtenedor virtual d esse Bem ( aquele para combinação sêmica, como um semema que realiza o efeito de
o qual trabalha o l..eão ); sentido "desejo". Se isso ocorre, os dois microuniversos, o gênero
Marte o Oponente; "conto popular" e o gênero "espetáculo dramático'', definidos por
Balança .. . o Árbitro, atribuidor do Bem; uma primeira categoria atuacional, articulada segundo o desejo,
Lua . . .. . . . o Auxfüo, reduplicação de uma das forças pre- são capazes de produzir narrativas-ocorrências onde o desejo será
cedentes. manifestado sob sua forma ao mesmo tempo prática e mítica de
"procura".
Não há razão para nos desencorajannos com caráter energético O quadro das equivalências dessa prim~ira categoria será o
e ao mesmo tempo astrológico · da terminologia de Souriau: esta seguinte:
não chega a ocultar uma reflexão coerente.
Sintaxe Sujeito vs Objeto
1
5.0 A categoria atuaclonal "Sujeito" vs ' Objeto".
Propp Hero VS sought-for person
As definições de Propp e de Souriau confirmam nossa interpre-
tação sobre um ponto importante: um número restrito de termos Força temática vs Representante do Bem de-
atuacionais basta para dar contá de um microuniverso. Sua Souriau
orientada sejado, do valor orientador
insuficiência está no caráter ao mesmo tempo excessivo e insu-
ficientemente formal que se pretendeu dar a tais definições:
definir um gênero apenas pelo número de atuantes, fazendo abstra- 6.º A categoria atuacional "destinador" va ndeatina1ário".
ção de todo o conteúdo, é situai a definição num nível formal
excessivamente elevado; apresentar os atuantes sob a forma d e A pesquisa do que poderia corresponder, nas intenções de
um simples inventário, sem se interrogar sobre as relações possí- Propp e de Souriau, a esta segunda categoria atuacional não deixa

231
de apresentar uma oerta dificuldade, P,ºr causa da manifestação ,o Árbitro, atribuidcr de bem vs o Obtenedor
sincrética freqüente dos atuantes - Ja encontrada no ?ível da virtual desse Bem.
sintaxe -, do acúmulo, já muitas vezes constatado, de dois atuan-
tes, presentes sob a forma de um só ator.
Na análise de Propp, em compensação, o destinatário parece
Por exemplo, nwna narrativa que seri~ simple:mente un:ia estar articulado em dois atores, o primeiro dos quais é muito in-
banal história de amor, terminando, sem a mtervençao dos pais, genuamente confundido com o objeto do desejo:
com o casamento, o. sujeito é ao mesmo tempo o destinatário, ao
passo que o objeto é ao mesmo tempo o destinador do amor: (the sought-for pe-rson and) her father,
_________
+
Ele ,.,, Sujeito _ Destinatário ao passo que o segundo aparece, como se poderia esperar, sob o
nome de dispatcher (mandante). Nas ocorrências, de fato, são o
Ela Objeto + Destinador rei ou o pai - confundidos ou não em um só ator - que incumbem
No caso, os quatro atuantes são simétricos e invertidos, mas sin- o herói de uma missão. Podemos, pois, sem grandes problemas,
cretizados sob a forma de dois atores. e sem o aUX11io da psicanálise, reunir o pai da pessoa desejada
ao mandante, considerando-os, quando se apresentam separada-
Mas vemos também - e a copia de Michel Legrand, can- mente, como dois "atores" de um mesmo atuante.
tada nos Guarda-Chuvas de Cherbourg, mostra isso numa sín-
tese impressionante : Quanto ao destinatário, parece que, no conto popular russo,
seu campo de atividade se funde completamente com o do sujeito-
"Un homme, une femme , -herói. Uma questão teórica que se pode propor a resp~ito, e
Une pomme, un drame"· com que vamos nos defrontar mais taTde, é saber se tais fusões
( "Um homem, uma mulher, podem ser consideradas como critérios pertinentes para as divisões
Uma maçã, um drama") de um gênero em subgêneros.
Vemos que as duas categorias atuacionais parecem, até o
- com que facilidade a disjunção do objeto e do destinador pode momento, constituir um modelo simples, fundado inteiramente sobre
produzir um modelo com três atuantes. o Objeto, que é ao mesmo "tempo objeto de desejo e objeto de
Numa narrativa do tipo da Procura do Santo Graal, aq con- comunicação.
trá'rio, os quatro atuantes, bem distintos, são articulados em duas
categorias:
Herói 7.0 Categoria atuadonal "Adjuvante" va ''Oponente".

Objeto Santo Graal );: mais difícil assegurar a articulação categórica dos outros
_____ _____
Destinador ,.., Deus
atuantes, a não ser que nos falte o modelo sintático. Reconhece-
mos, entretanto, sem d ificuldade duas esferas de atividade e, den-
tro destas, duas espécies de funções bastante distintas:
Destinatário Humanidade
1. As primeiras, que consistem em trazer auxílio, agindo no
A descrição de Souriau não oferece dificuldades. A categoria sentido do desejo, ou facilitando sua comunicação;
àestin~dor vs destinatário 2. E outras que, ao contrário, consistem em criar obstáculos,
opondo-se quer à realização do desejo, quer à comunicação do
aí é francamente marcada, como a oposição entre objeto.

233
~ Esses dois feixes de funções podem ser atribuídos a dois Quando, no transcorrer do procedimento de normalização,
atuantes distintos, que designaremos com os nomes de quisemos atribuir um status formal aos advérbios, nós os desig-
namos como aspectos que constituem uma subclasse hipotática de
adjuvante vs oponente. funções. Existe em francês, dentro da classe mal definida dos
advérbios, um inventário muito restrito de advérbios de qualidade,
Esta distinção corresponde à formulação de Souriau, de quem que se apresentam sob a forma de dois pares de oposição:
tomamos emprestado o termo oponente; preferimos o termo adju-
vante, introduzido por Guy Michaud, a auxílio de Souriau. volontiers vs néanmoins ( de bom grado vs não obstante)
bien vs mal ( bem vs mal ),
Quanto à formulação de Propp, encontramos aí o oponente,
denominado pejorativamente villain ( = vilão) ao passo que o adju- q~e poderiam justamente ser considerados como categorias aspe~-
vante, no caso, recobre duas personagens, o helper e o donor tuais, cuja interpretação semântica parece difícil: a primei.ra ca-
( = provider ). Essa elasticidade de análise pode surpreender à tegorla indicaria, no processo de que se acha investida a função,
primeira vista. a participação da vontade, com ou sem previsão da resistência;
No entanto, é preciso não esquecer que os atuantes são insti- a segunda constituiria a projeção sobre a função da apreciação
tuídos por Propp, sem falar de Souriau, a partir de suas esferas que o sujeito faz incidir sobre seu próprio processo ( quando o
de ação, isto é, com o auxílio apenas da redução das funções sujeito se identifica com o locutor).
e sem levar em conta a homologação indispensável. Não preten- Já se pode ver onde queremos chegar: na medida em que
demos fazer aqui a crítica de Propp, cujo papel de precursor é as funções são consideradas como constitutivas dos atuantes, não
considerável mas registramos simplesmente os progressos realiza- vemos razão em não admitir que as categorias aspectuais possam
dos, durante estes últimos trinta anos, com a gene.ralização dos constituir-se em circunstantes, que seriam formulações hipo-
procedimentos estruturalistas. J;: preciso também levar em conta táticas do atuante-sujeito. Na manifestação mítica, que nos preo-
que é mais fácil operar quando se dispõe de dois inventários com- cupa, entendemos que o adjuvante e o oponente não são senão
pa.rados, em vez de apenas um. projeções da vontade de agir e resistências imaginárias do próprio
Podemos nos perguntar a que corresponde no universo mítico, sujeito, julgadas benéficas ou maléficas em relação ao seu desejo.
cuja estrutura atuacional que.remos explicitar, esta oposição entre Esta interpretação vale o que é. Tenta explicar o apa.recimento
o adjuvante e o oponente. À primeira vista, tudo se passa como nos dois inventários, ao lado de verdadeiros atuantes, dos circuns-
se, ao lado dos principais interessados, aparecessem agora, no tantes e dar conta de seu estatuto sintático e semântico, ao mesmo
espetáculo projetado numa tela axiológica, atuantes que repre- tempo.
sentam, de maneira esquemática, as forças benfazejas e malfazejas
do mundo, encarnações do anjo da guarda e do diabo do drama
8.0 O modelo atuacional mítico.
da Idade Média.
O que espanta também é o caráter _secundário desses d ois Induzido a partir dos inventários, que continuam suspeitos,
últimos atuantes. Brincando um pouco com as palavras, pode- apesar de tudo, construído levando-se em conta a estrutura sin-
ríamos dizer, pensando na forma participial pela qual os desig- tática das línguas naturais, esse modelo parece possuir, por
namos, que se trata de "participantes" circunstanciais, e não sua simplicidade, um certo valor operacfonal para a análise de
de verdadeiros atuantes do espetáculo. Os particípios não são, manifestações míticas somente. Sua simplicidade está no fato de
de fato, senão adjetivos; que determinam os substantivos na mesma que ele é um todo inteiramente fundado sobre o 'Objeto do desejo
medida que os ·advérbios determinam os verbos. do sujeito e situado, como objeto de comunicação, entre o desti-

235
nador e o destinatário, sendo o desejo do sujeito, por seu lado, D a mesma forma, a ideologia marxista, no nfvel d a militância,
modulado em proje~s do adjuvante e do oponente: poderia ser distribuída, graças ao desejo de ajudar o homem,
de maneira paralela :
Destinador4 Iobjeto I_. Destinatário Sujeito . . . . . . . . . . . . . . . . Homem
t Objeto . . . . . . . . . . .. . . . . . Sociedade sem classes
Adjuvante _. jsujeito j +- Oponente Destinador . . . . . . . . . . . . História
Destinatário . . . . . . . . . . . Humanidade
Oponente . . . . . . . . . . . . . Classe burguesa
· 9.º A investidura "temática". Adjuvante . . . . . . . . . . . . . Classe operária

Se quiséssemos indagar a respeito da possibilidade de utili- ~ esta via que parece t er inspirado Souriau quando p ropôs
zação, a título de hipótese estruturante, desse modelo que consi- ( op. cit. pp. 258-259) um inventário das p rincipais ''forças temá-
deramos operacional. deveríamos começar por esta observaçã(l: ticas" -que, embora "empírico e insuficiente", como o confessa o
o fato de ter desejado comparar as categorias sintáticas aos inv~n- próprio autor, pode dar-nos uma idéia d a amplitude das variações
tários de Propp e de Souriau nos obrigou a considerar a relação a considerar.
entre o sujeito e o objeto - que nos par eceu inicialmente ser, em
linhas gerais, uma relação de ordem teleológica, isto é, uma moda- Principais forças temáticas
lidade de "poder fazer" que, ao nível da manifestação das funções,
teria encontrado um "fazer" prático ou mítico - como uma rela- - amor ( sexual ou f amilial, ou de amizade - acrescendo-se a isso
ção mais especializada, comportando uma investidura sêmica mais a admiração, responsabilidade moral, encargo espiritual);
pesada, de "desejo,., e transformando-se, ao nível das funções mani- - fanatismo religioso e político;
festadas em ·"procura" . Diríamos assim que as particularizações - cupidez, avareza, desejo das riquezas, do luxo, do prazer, da
e ventuais do modelo deveriam incidir inicialmente sobre a rela- beleza ambiente, de honras, de autoridade, de diversões, de
ção entre os atuantes "Sujeito" ,·s "Objeto", e manifesta-se como orgulho;
uma classe de variáveis constituída de investiduras suplementares. - inveja, ciúme;
Assim, simplificando bastante, poderíamos dizer que, para um - raiva, desejo de vingança;
sábio filósofo da época clássica, · sendo precisada a relação do - curiosidade ( concreta, vital ou m~tafísica);
desejo por uma investidura sêmica como o desejo de conhecer, - patriotismo;
os atuantes de seu espetáculo de conhecimento se distribuiriam - desejo de um certo tipo de ~abalho e vocação ( religiosa, cien-
mais ou menos da maneira seguinte: tífica, artística, de viagem, de homem de negócios, de vida
militar ou política);
Sujeito . . . . . . . . . . . . . . . . Fil6sofo - necessidade de repouso, de paz, de asilo, de entrega, de li-
Objeto . . . . . . . . . . . . . . . . Mundo berdade;
Destinador . . . . . . . . . . . . Deus - necessidade de Outra Coisa, e de Outros Lugares;
Destinatário . . . . . . . . . . . Humanidade - necessidade de exaltação, de ação, qualquer que seja esta;
Oponente . . . ....... . . . . Matéria - necessidade de sentir-se vivo, de realizar-se, de cumprir-se;
Adjuvante . . . . . . . . . . . . . Espírito - vertigem de todos os abismos do mal, ou da experiência;
- todos os temores: acordo, em suas linhas gerais, com o modelo operacional proposto,
medo da morte, mlm domínio onde só poderia ser situada uma manifestação prá·
do pecado, do remorso, tica: a dos investimentos de empresas. A documentação a esse
da dor, da miséria, respeito foi.nos fornecida por F . e J. Margot·Duclot, em Une
da feiúra ambiente, enquête clinique sur les comportements d'investissements, que
da doença. deve ser publicado numa obra coletiva - L'Economique et les scien·
do t édio, ces humaines. Os resultados desta pesquisa, feita sob a forma de
entrevistas não diretivas, podem, facilmente, ser analisados no qua·
da perda do amor.
dro de um modelo atuacional, que o chefe da empresa desenvolve
temor da infelicidade dos semelhantes, de seu sofrimento ou de diante do pesquisador ao querer descrever sua própria atividade
sua morte, de suas máculas morais, de seu aviltamento; econômica e transformá.Ia de fato num corpus de comportamentos
temor ou esperança das coisas do Além (?). moralizados, isto é, míticos, revelando uma estrutura atuacional
implícita.
Não se pode criticar nesta enumeração o que o Autor não
buscou colocar nela: sua carência de exaustividade ou ausência de O sujeito.herói é, naturalmente, o investidor, que, querendo
qualquer classificação. Podemos, em compensação, salientar aí descrever uma sucessão de comportamentos econômicos, prova a
uma distinção importante, que, de outra forma , teria talvez nos necessidade de dar conta de seu próprio papel e o valoriza.
escapado: a oposição dos desejos e das necessidades, de um lado, O objeto, ideológico, do investimento é a salvação da empresa,
e de ''todos os temores", de outro. Vemos que o modelo atuacional sua proteção: acontece ao herói falar estilísticamente dela,
proposto, fundado sobre a relação de "desejo", é suscetível de como de uma criança que é preciso proteger das ameaças do
transformação negativa, e que a substituição· dos termos dentro mundo exterior.
da categoria
obsessão vs fobia O oponente se apresenta sob a forma do progresso científico
e técnico que ameaça o equilíbrio estabelecido.
deveria, em princípio, ter repercussões profundas sobre a articula· O adjuvante, de início evidentemente, são os estudos prepara·
ção do conjunto dos termos do modelo. tórios, anteriores ao investimento: pesquisa de mercado, quadros
Mas o defeito principal da hipótese que acabamos de emitir, de rentabilidade, pesquisas de econometria e pesquisas operacio·
e que é a possibilidade da particularização do modelo pela inves· nais; mas tudo isso, apesar da amplitude da desenvoltura orató.
tidura progressiva e variável de sua relação de objeto, se mostra ria à qual o sujeito se presta, nãó é nada, no fundo, em compara·
aqui com clareza : as investiduras possíveis enumeradas por Sou. ção com a urgência, nc momento decisivo, da argúcia e da
riau não interessam ao modelo propriamente dito, mas dependem intuição, dessa força mágica e "revigorante" que transforma o
do conteúdo semintico quer do atuante·sujeito, quer do atuante· presidente-diretor geral em herói mítico.
.objeto, que pode ser.lhes atribuído por outros procedimentos,
notadamente pela análise qualificativa, anterior à construção do O destinador é o sistema econômico que confia ao herói,
modelo atuacional. apÓs um contrato implícito, a missão de salvar, pelo exercício de
exaltação d a liberdade individual, o futuro da empresa.
O destinatário, contrariamente ao que se passa no conto po·
l O.0 O investimento econômico. pular russo, onde ele se confunde com o sujeito, é aqui a própria
Falando em investir, é difícil não dar um exemplo de manifes· empresa, ator sincrético que abarca o atuante.objeto e o atuante-
lação mítica 'contemporânea com uma estrutura atuacional de .destinatário: isso porque o herói é desinteressado, e a recompensa
-
não é a filha do Rei confiada a Ivan-Bobo-da-Aldeia, mas sim her father, pretendendo provavelmente salvar a dignidade humana
a rentabilidade da empresa. da mulher-objeto. As análises de Lévi-Strauss mostraram que a
Pareceu-nos interessante salientar esse exemplo, não tanto mitologia, para dar conta, no nível dos atores, das distríbuiçóes
para colocar em evidência a existência dos modelos míticos com complementares das funções, manifesta freqüentemente uma pre-
o auxílio dos quais o homem contemporâneo interpreta sua ativi- ferência para as denominações atuacionais próprias às estruturas
dade aparentemente racionalizada - as observações de um Roland de parentesco. Os atuantes se agrupam freqüentemente em grupos
Barthes nos instruíram suficientemente sobre isso - , mas sobre- de atores, tais como: marido e mulher, pai e filho, avó e neto,
tudo para ilustrar o caráter complexo - ao mesmo tempo positivo gêmeos, etc. (Trata-se ainda, subsidiariamente, de fazer distinção
e negativo, prático e mítico - da manifestação discursiva, que a entre as oposições categóricas, que refletem as distribuiçó~ com-
descrição deve, a todo instante, levar em conta. plementares de funções, e os desdobramentos retóricos, pro~di-
mentos que podem logo tomar-se estereotipados.) É aqui que
podemos colocar a questão de saber a que correspondem exata-
11.0 Atuantes e atores. mente os modelos de parentesco utilizados pela psicanálise para
a descrição das estruturas atuacionais individuais: devem eles ser
O procedimento da investidura temática da relação de objeto, situados no nível da distribuição dos atuantes em atores, ou após
pelo simples fato de correr o risco de fazer confundir, a todo uma géneralização que à primeira vista pareceria abusiva, repre-
instante, a descrição do modelo atuacional com a análise qualifi- sentam formulações metafóricas das categorias atuacionais?
cativa, mesmo supondo-se que ele seja válido, não é suficiente
para dar conta da variação dos modelos e p romover sua tipologia. O terceiro critério tipológico poderia eventualmente ser o da
Só nos resta, pois, retornar aos pr óprios atuantes, para ver em que ausência de um ou vários atuantes. As discussóes teóricas não
medida os esquemas de distribuição dos atuantes, de um lado, e permitem considerar senão com muito ceticismo tal possibilidade.
os tipos de relações estilísticas entre atuantes e atores, de outro, Os exemplos de ausência de atuantes citados por Souriau se
poderiam servir de critérios a uma particularização "tipologizante'' interpretam todos como efeitos d ramáticos produzidos pela es-
dos modelos atuacionais. peta da manifestação de um atuante, que não é a mesma coisa que
ausência, mas sim muito mais o seu contrário: assim, a ausência
O primeiro critério tipológico desse tipo poderia ser o sincre- de Tartufo nos dois primeiros atos da comédia ou a espera
tismo, freqüentemente registrado, dos atuantes; poderíamos, assim, dos salvadores na história de Barba-Azul apenas tornam mais
subdividir os modelos em gêneros, segundo a natureza dos atuantes aguda a presença do atuante ainda não manifestada na economia da
que se deixam sincretizar - no conto popular, como vimos, são -e strutura atuacional.
o sujeito e o destinatário que se constituem em arquiatuante; Do ponto de vista operacional, e sem levantar o problema da
no model? de investimento econômico, em compensação, o arqui- realidade de tal ou tal distribuição de atuantes, podemos consi-
atuante e realizado pelo sincretismo do objeto e do destinatá- derar redutível o modelo atuacional proposto como um ótimo
rio, etc. Tomado num domínio não axiológico, o exemplo poderia de descrição, a uma estrul'Jra arquiatuacional mais simples, mas
ser mais esclarecedor: assim, a rainha no jogo de xadrez é a argui- também extensível (em limites difíceis de precisar, à primeira
atuante sincrética do bispo e da torre. vista, mas que não são certamente consideráveis), dada a articula-
Para o segundo critério, o sincretismo deve ser distinguido ção possível dos atuantes em estruturas bipotáticas simples.
da divisão analítica dos atuantes em atores hiponímicos ou hipo- Uma questão totalmente diferente é · a da denominação dos
táticos, que corresponde à distribuição complementar de suas atuantes, que é relevante apenas para uma -pequena parte da
funções. 1t assim que Propp tentou - de maneira bastante infeliz, análise funcional a partir da qual, seguindo Propp, tentamos cons-
parec~nos - defiµir o destinador como tlie sought-for person and truir o modelo atuacional, embora não vejamos razão que o impeça

240 241
de articular os conteúdos descritos graças à análise qualificativa. A é não somente a denominação de um conteúdo axiológico, mas
denominação dos atuantes, que, p or esse fato, tomam a aparência também uma b ase classemática, que o institui como uma possi-
de atores, não pode, na maioria das vezes, ser interpretada senão bilidade de processo: é de seu estatuto. modal que lhe vem seu
no quadro de uma descrição taxonômica: os atuantes aí pare- caráter de força de inércia, que o opõe à função, definida como
cem sob a forma de sememas construídos, como lugares de fixação um dinamismo descrito.
dentro da rede axiológica, e a denominação de tais sememas - P or conseguinte, compreendemos melhor as razões que teriam
vimos isso por ocasião da análise d o semema que denominamos conduzido E. Souriau a dar aos atuantes nomes de planetas e
arbitrariámente fatigué (fatigado) -, se não 'é contingente, de- de signos do zodíaco. O simbolismo astrológico exprime, nos seus
pende do nível estilístico e só pode, conseqüentemente, ser jus- termos esta constelação de "forças" que é a estrutura atuacional,
tificada após a análise qualificativa exaustiva. Embora estando capaz de exercer "influências" e de agir sobre as "destinadas".
de acordo, em princípio, com Lévi-Strauss quando diz, a propósito Considerando-a sob esse ângulo, compreendemos também uma
da análise de Propp, que a descrição do universo do conto popular das razões da formulação energética, pulsiva, da psicanálise freu-
não pode ser completa, dada nossa ignorância em relação à rede diana, cuja conceituallzação repousa, em ~rande parte, sobre a
axiológica cultural que a sustenta, não pensamos que isso constitua pesquisa de um modelo atuacional suscett\·el_ de dar c~nta do
o obstáculo maior para a descrição, que, embora pennanecendc comportamento humano. Propp se pergunta,. nao :em raza?,. ~ o
incompleta, pode ser pertinente. Assim, a partir de seqüêocià: modelo do gênero, convenientemente descnto, nao perm1~ra a
comparáveis, tomadas emprestadas dos diferentes contos-ocorrên composição mecânica de novas ocorrências, como o faz a vidente
cias tais como: que, de posse de um modelo astroló~ico, é capaz <le gerar um
Un arbre montre le chemin número relativamente elevado de horoscopos.
( Uma árvore aponta o caminho) Esse caráter particular dos atuantes, que os faz aparecer, no
Une grue fait don d'un coursier nível dos efeitos de sentido, como inércias, p oderia servir de
( Uma grua dá de presente um cavalo) ponto de partida a uma certa _e.stilí~ica atua~i?~al, 9-ue daria co~ta
dos procedimentos de personif1caçao, de co1SLf1caçao, de alegona,
U71 oiseau espionne talvez mesmo de certos tipos de figuração, etc. Espanta-nos, com
(Um pássaro vigia ) efeito a facilidade com a qual as ideologias mais "abstratas" in-
podemos reduzir os predicados a uma função comum de "ajuda" cidem' no nível quase figurativo da manifestação: como o auxilio
e postular para os três atores um atuante adjuvante que os englobe do gosto romântico das maiúscula;s, as grandes figuras ideológicas
- somos incapazes de encontrar, sem o auxílio d e uma descrição da Liberdade da História e do Eterno Feminino encontram outros
axiológica, impossível nesse caso, o porquê das denominações par- atores mas d~ estatuto lingüístico comparável, t al como D angier,
ticularizantes dos atores. Bonn; Nouvelle e Merencolie de um Charles d'Orléans.
Observamos, igualmente, que se o atuante-sujeito está pro_nto
Entretant o, os primeiios elementos de uma estilística atua- para personificar os sememas que compreende, e produz efettos
cional talvez não sejam impossíveis de formular se partirmos
apenas da análise funcional. · de sentido tais como :
Le crayon écrit mal. . . ( O lápis escreve mal) ,
0
Le fournal se demande. . . ( O jornal se pergunta),
12. O enenfetismo dos atuantes.
o atuante-objeto atribui antes, por ser ao mesmo tempo "paciente"
Não se pode esquecer, de fato, que o modelo atuacional é e "ator", o efeito de sentido dito "simbólico" aos objetos hipo-
em primeiro lugar a extrapolação da estrutura sintática. O atuante táticos, tais como :
242 243
--
la pomme d' Eve ( a maçã de Eva) velmente apenas de uma dessas convergências felizes que confir-
ou mam a existência de uma atitude eplstemol6gica bastante geral.
le f eu de Prométhée ( o fogo de Prometeu). A economia do método psicocrítico comporta três conceitos
operacionais fundamentais e outras tantas fases distintas de pro-
Vemos que tal estilística teria por tarefa interpretar os efeitos cedimento analítico: como a passagem de uma a outra fase não
de sentido devidos aos sincretismos que resultam do caráter ener- é bem claramente assinalada, pareceu-nos indispensável contar com
gético de todos os atuantes e das articulações próprias a cada essas três fases conjuntamente, embora a primeira entre elas possa
um dentre eles. Uma teoria explicativa da denominação, reunindo ser comparada com a análise ideológica do capítulo seguinte, ~om
parte da pesquisa etimológica, deveria levar em conta essas pre- bastante utilidade.
disposições atuacionais, que, somadas às redes taxinômicas cons- 1. A primeira etapa da descrição consiste em afirmar a possi-
titutivas do conteúdo propriamente dito, formariam um inventário bilidade de descobrir as redes inconscientes comuns, subjacentes
de variáveis, a partir do qual as probabilidades de aparecimento a certo número de poemas de um mesmo autor. Ela esboça,
de denominações-acontecimentos poderiam ser calculadas. como vemos, dois procedimentos: de um lado, a redução d as ocor-
rências a funções semânticas; de outro, a consecução dessas fun-
13.0 O modelo atuacional e a crítica psicanalítica. ções, que empreenderemos mais tarde. Assim, a superposição de
dois sonetos de Mallarmé, Victorieusement fui. .. e La chevelure
t impossível. neste estágio, não falar da psicanálise: o modelo v ol d'une flamme .. . , permite proceder à redução e à organização
atuacional, na medida em que poderia pretender recobrir toda das funções de que damos um exemplo ( Des métaphores obsé-
manifestação mítica, só pode ser comparável, ou entra r em con- dantes uu mythe personnel, pp. 39-40) :
flito. com os m odelos que a psicanálise elaborou. Assim, o desejo,
encontrado tanto em Propp como em Souriau, parece-se com a
FUNÇÕES
libido freudiana que estabelece a relação de objeto, objeto difuso CONSTllUÍDAS
M or/e Combl1le Triunfo Grandeu Riso
na origem e cuja investidura semântica particulariza o universo
simbólico do sujeito. A distribuição dos outros papéis, em com-
pensação, evidencia tanto as similitudes como as divergências entre suid.dio sangue vitoriosa- real riso
o esquema operacional proposto e os diferentes modelos utilizados mente
morte tcmpcs- glória inspira-
em psicanálise. dora
tade
A intromi~são do lingüista, isto é, em suma, do profano, nesse 1.· tição casco ouro
domínio um tanto sacralizado, só se pode justificar pelas ambições Soneto guerreiro púrpura
apregoadas da psicanálise de propor seus próprios modelos à explosão
festa
descrição semântica, de que Freud foi o primeiro a dar exemplo. FUNÇ.ÕES-OCOll· tesouro
Limitando esta intervenção, vamo-nos contentar em examinar um JlENCIAIS triunfo
pouco mais de perto a última dessas interpretações psicanaüticas de
Ch. Mauron . que, aplicada às pesquisas literárias, leva o nome, morrer rubis glória diadema olho
escolhido pelo autor, de "psicocrítica" (Psychocritique du genr~ 2.• suspirar esfola explora fronte galhofeiro
comique. 1964). Soneto fulgurante coroado feliz
tutelar tocha
Se o autor não tivesse indicado suas fontes inglesas ( e notada-
mente Fairbain), poderíamos crer que ele tivesse seguido, grosso
modo, o procedimento metodológico de Souriau: trata-se prova-

244 245
Será inútil buscar indicações, que nos seriam preciosas, sobre 3. A terceira fase comporta a definição do mito pessoal, ele
os procedimentos descritivos que permitirfilll essas reduções: o próprio identificado com a estrutura da personalidade. A aplica-
autor não se interessa por isso. Importa a ele constatar, inicial- ção desses princípios metodológicos aos universos semânticos de
mente, o caráter inconsciente dessas redes, e sua nahueza perma- alguns grandes poetas franceses permite a Ch. Mauron observar
nente, obsessiva, que permite postular a exist~ncia de "formações que toda "formação psíquica autônoma" comporta vários "grupos
psíquicas autônomas" não lingüísticas, constitutivas do inconsciente. de figuras". Se os atores se acham, de um poema a outro, de
2. A segunda fase, que não é diretamente ligada à primeira, uma obra em prosa a outra, numa "situação dramática instável",
utiliza o mesmo método de superposição das seqüências seleciona- os atuantes constituem, graças à permanência de suas relações
das do corpus, a fim de descobrir "secretas similitudes afetivas" conflituais, um sistema estável. É a essa "situação dramática in-
entre as "figuras míticas" que se manifestam nos diferentes textos. terna" que Ch. Mauron dará o nome de mito pessoal.
Tais figuras, que são personagens humanas, se constituem em
ªgrupos de figuras". Assim, as "figuras passivas" de Baudelaire,
mulher, cômico, vidraceiro, monstro, bufão, anão, etc., considera- 14.º Os modelos atuacionaia pslcanalíücos.
das, se estabelecermos as equivalências terminológicas, como at.o-
res, são reduzidas a um só atuante, que Mauron designa como As "estruturas dramáticas obsedantes" parecem, à primeira
"portador de quimera" ( op. cit., p. 134). Esta redução de atores vista, bastante próximas de nosso modelo atuacional. E~as dife-
a atuantes se realiza por uma espécie de análise funcional em rem dele entretanto num ponto importante, o das relaçoes, que
estado embrionário, seguida do reagrupamento das funções em justamente os constituem em estruturas. Para nós, um ntuan!e se
"esferas de ação", das quais apresentamos uma amostra. Segundo constrói a partir de um feixe de funções e um modelo atuac1onal
Ch. Mauron, os "portadores de quimera" apresentam os seguintes é obtido graças à estruturalização paradigmática dos inventários
traços comuns : dos atuantes. Cb. Mauron vê, ao contrário, na "superposição das
situações", a possibilidade de estabelecer as relações de conflito
"l . Caminham em direção a um objetivo, expõem-se, entre atuantes. Ora, as situações são instáveis; elas são, como
buscam um contacto. já sublinhou Souriau, ~a _orden:i d? acontecimento,_ 41;~ é a pr_?-
"2. Entretanto, sua marcha é dificultada: sentem-se aba- posição, e as funções a1 sao atnbuidas a atuantes smtahcos e nao
tidos, o contacto é nulo ou nefasto ( sujo, aviltante, hostil) ... semânticos: nenhuma análise pode operar com duas classes de
variáveis simultaneamente. A psicocrítica não se perde com ques-
tões de pormenor, já que dispõe ao mesmo tempo de um conjunto
"A impressão mais geral é ·a de prostituição.• (Op. cit., de situações conflituais e de modelos de personificação que lhe
p.132). oferece a tradição psicanalítica: " ... como as pesquisas de Freud
mostraram, o próprio sonhador é representado correntemente no
A essa descrição que, levada com mais rigor, talvez fosse válida,
sonho por duas ou várias personagens distintas. Adotei o seguinte
acrescenta-se interpretações tomadas de empréstimo à psicaná-' ponto de vista: todas as personagens que aparecem num sonho
representam quer: 1.0 ) uma parte da personalidade do sonhador,
lise ( que o autor designa, bastante ingenuamente, mas com insis-
quer : 2.0 ) uma pessoa com a qual uma parte da personalidade
tência, como "científica") : a "formação psíquica autônoma" da do sonhador está em relação, mais freqüentemente de identifica-
qual nada se pode dizer, já que, por definição, é inconsciente, ção, ná realidade interior'' ( R. Fairbain, Psychanalytic S~udief. of
( op. cit., p. 57) acha-se "assimilada a uma espécie .de sonho incons- the Personality, citado por Mauron, op. cit., p. 217). A ps1cocntica
ciente com personagens", em outras palavras, ao fantasma com dispõe, conseqüentemente, d os modelos elaborados por Freud e
múltiplas variações.
seus sucessores, e a descrição que ela empreende não consiste senão
246
247
consciente. Desde Saussure, com sua concepção da estrutura signi-
em unir os materiais que permitem a confrontação dos atoTes e das ficante {subscrevemos inteiramente o que disse Merleau-Ponty a
·situações" reconhecidos com as estruturas atuacionais já estabeleci-
das e não em construir tais modelos. As críticas que poderíamos esse respeito), a categoria dicotômica da consciência, que se opõe
fo~ular sobre isso iriam no sentido de uma certa concepção da ao inconsciente, não é m ais pertinente nas ciências do homem, e,
psicanálise, que Ch. MaUJ'on considera erradamente como "cienti- pessoalmente, seguimos com muito interesse os esforços de um
Lacan, que procura substituí-la pelo conceito de assunção. (Vê-se,
ficamente" estabelecida.
aliás, o embaraço de Ch. Mauron quando deve decidir se essa ou
Sem atacar o pr6prio "ser" da psicanálise, gostaríamos, entre· aquela rede de metáforas obsedantes é consciente ou inconsciente
tanto, de fazer aqui um certo número de ob,s~rvações concernentes em tal poeta.)
à sua terminologia. As pessoas desse dom1mo reconhecem (Po~-
talis) que o corpo de conceitos instrumentais elaborado pela .psi- 2. Existe, por outro lado, um modelo atuacional tomado em-
canálise é muito heterogêneo e corresponde a esforços sucessivos prestado da terminologia descritiva da estrutura do parentesco,
de apreensão de realidades psíquicas, lexicalizados com auxílio Esse modelo é articulado tanto segundo a imagem da famfüa oci-
de meios lingüísticos diferentes. dental restrita ( pais e filhos) quanto segundo as representações,
antropologicamente duv idosas; mas muito na moda na época de
1. Existe inicialmente uma conceituação de caráter espacial Freud, de "horda primitiva". Ele entra -algumas vezes em con-
que permite conceber a estrutura da personalidade como articulada corrência com o primeiro - na medida em que esse modelo
em várias camadas superpostas ( superego, ego, id) que se acham estrático se acha utilizado como atuacional - e chega a substituí-lo
em relação bipotática quanto à estrutura global. :t a esse modelo por exemplo na anáJise de Moüe re feita por Ch. Mau:ron. Duas
que se refere Ch. Mauron quando afirma que "cada figura pode observações de ordem epistemológica poderiam ser feitas a esse
representar apenas um ego ou algum aspecto do superego ou do respeito. De um lado, o modelo "estrutura do parentesco" não é
id" ( op. cit., p. 210), ou quando diz que o "eu consciente de tão simples como parece à primeira vista e comporta, ao contrário,
Baudelaire se identifica o mais comumente com essa personage~ várias Tedes relacionais, q ue se complicam pela lexicalização do
( isto é, o atuante denon:µnado chat princier),, ( ibid. p . 134). A len-
"perspectivismon estilístico dos atuantes: leve ser, consequente-
calização espacial d os conceitos tomou-se. a~~ente -. co~o mente, de difícil manejo metodológico. Por outro lado a. sua im-
bem observou G. Matoré - o mal, talvez inevitável, das ciências
pressão sobre as pessoas é muito forte, e as. disciplinas que, como
humanas e n6s o utilizamos abundantemente sem no entanto sermos
a lingüística, o experimentaram durante muitos séculos, conhecem
enganados pelo procedimento e~prega~o. J?ois _.Planos da ,lingu~- seus efeitos inibidores na reflexão metodológica.
gem ou duas dimensões da manifestaçao nao tem. para ~~s mais
nada de espacial no nível das definições, onde designam su_nple~- 3. Existem finalmente modelos mitológicos tais corno o mito
mente dois termos redundantes de uma estrutura complexa, _isto e, de .1!:dipo, que Freud utilizou metaforicarnente para descrever cer-
ligadas pela pressuposição recíproc!. !'lão ousamos _pronun:1ar-nos tas situações e não estruturas complexas, e cujo caráter típico ele
sobre isso, mas parece que esses mveis da. personalid~de sa_o con- isolou mais tarde.
siderados pela psicanálise tanto como níveis estruturais mwto ge- A elaboração de tais modelos parciais, hipotáticos em relação
rais quanto como expressões da estrutura atuacionàl ( eles agem,
à estrutura do parentesco, é metodologicamente pertinente. :t seu
censuram-se, liberam-se), quanto, enfim ( e isso irrita b~stant~ o caráter indutivo que os toma um pouco suspeitos e gostaríamos
lingüista), como níveis de consciência. Tentem somente 1II1agmar
de ver a psicanálise, com a superação desse estágio de inventari-
0 embaraço do lingüista se se lhe pede para descrever, levando
em conta a categoria "consciente" versus "inconsciente", a estru- zação e de exemplificação dos casos ·clínicos e das denominações
tura gramatical do francês : a cada àrticulação ~o singula_r, o. plu~al míticas, constituir-se numa teoria de modelos de análise tanto
agiria no subconsciente, e o indicativo se opona ao subjuntivo m- atuacionais quanto transformacionais.
Gostaríamos de acrescentar - já que falamos de terminologia
....:. q ue a instauração de um procedimento metafórico de concei-
tuação de uma disciplina que se quer científica só pode ter conse-
qüências consideráveis em seu desenvolvimento. Além de ceder à
tentação constante, e "inconsciente.,, de tomar as metáforas como
realidades, a psicanálise bloqueia, assim, a via ,q~e dev,e conduzi-la
à construção de uma metalinguagem metodolog1ca uruvoca e coe-
rente, formulando suas descobertas, que são corretas, numa lingua- PESQUISA DOS MODELOS DE TRANSFORMAÇAO
gem poética e ambígua, e que pode freqüentemente ir até à
própria hipóstase da ambigüidade.
Essa utilização, muito conhecida das outras disciplinas, do 1.0 REDUÇAO E ESTRUTURAÇÃO
vocabulário musical para falar da pintura, ou vice-versa, com-
porta numerosos outros ri5<;os. O domínio do, qual se tomam _em- a) Organização das funções.
prestados conceitos metaforicos pode, lambem ele, progredrr e
articular de maneira nova seus conceitos e seus postulados. t pr~- A Morfologia do Conto Popular Russo de V. Propp é atual-
cisamente o que ocorreu com a definição do mito em antropologia, mente bastante conhecida; as semelhanças dos contos russos com
no momento em que Ch. Mauron buscava utilizá-lo para dar outros contos europeus do mesmo gênero são suficientemente se-
conta, através da psicanálise, da estrutura d;t personalidade lite- guras para que se possa falar dessa obra sem uma exposição prévia
rá.ria. Passando por uma série de assimilações semicausais, semi- de seu conteúdo. Sabemos que depois de ter procedido à descrição
-analógicas, mas sempre " dinâmicas" ( que palavra mágica, ao lado das funções - descrição que consiste ao mesmo tempo na conden-
de "concreto", para ocultar nossa ignorância!), o autor chega, a sação de unidades sintagmáticas da narrativa em unidades semân-
partir de excitações nervosas da primeira infância, aos fantasmas ticas denominadas e em sua consolidação como invariantes em
persistentes e finalmente ao mito pessoal, unidade desse "todo" relação à sua presença, sob forma de variáveis, nos contos-ocor-
genético, dins.n;ico e estrutural que é garantida_ pela "formaç~o rências - Propp propõe uma dupla definição dessa narrativa que é
psíquica", da qual nada se pode saber. Mas o mito pesso~, ass~ o conto popular:
definido, corre.c;ponde, em linhas gerais, a qualquer narrativa m1-
tica considerada sob forma de manifestação bruta e que é preciso
1. Considerando as relações entre as fun ções assim descritas
e os atuantes aos quais estas são atribuídas, ele agrupa as fun-
just~ente submeter, à análise para dela ex~air, a estrutura ~a- ções em esferas de ação, cada uma definindo um atuante parti-
nente. Por uma especie de paradoxo, que nao e apenas termmo-
cular. Isso lhe permite conceber o c·onto como uma narrativa com
lógico, -o método psicocrítico está com atraso de uma gue,rr~, e sete personagens;
pára onde a análise, com todos os seus problemas metodolog1cos,
apenas começa. 2. Considerando as funções em si mesmas, na sua sucessão que
é constitutiva da narrativa, Propp obtém uma segunda definição
do conto popular caracterizado segundo ele: a) por um inventário
bastante reduzido de funções ( 31 ); b ) por sua ordem de sucessão
obrigatória.
No capítulo precedente, procuramos explorar a primeira defi-
nição de Propp, perguntando-nos em que medida ela podia aju-
dar na compreensão e justificação de um modelo ãtuacional mais

·250 251
geral, utilizável num maior número de descrições ~e microuni- 10. decisão do herói ( beginnlng counter action) ·
versos míticos. Vamos agora empreender um novo tipo de explo- 11. partida ( departure); '
ração: a análise funcional, como vimos, podia se~r p~a descre- 12. atribuição de uma prova ( the first function of the dono,)·
ver os conteúdos dos atuantes e dar lugar, em segmda, a constru- 13. enfren~ento ~a prova (the hero's reaction); '
ção de um modelo atuacional; ~':s, ao mesmo t~mpo, ~rvia de 14. recepçao do adjuvante ·( the provision, receipt of magical
ponto de partida para uma descnçao concern~nte as rela?oes en~e agent);
funções que, embora organizadas,. em narrativas, ~evenam, pel? 15. deslocamento espacial ( spatial translocation);
menos em teoria: a ) pela redundancia que caracterIZa toda mam- 16. combate ( struggle);
f estação discursiva, manifestar-se em número suficientemente re- 17. sinal ( marking);
duzido para serem apreendidas como estruturas simples; b) ofere- 18. vitória ( victory );
cer ao mesmo tempo, pela sua sucessão na narrativa, elementos 19. dissolução da falta ( the initial misfortune or lack is li-
de 'apreciação que permitissem explici~. ~ e~stência de modelos quidated);
de transformação das estruturas da s1gnif1caçao. 20. retorno ( return);
-A fim de verificar, em certa medida, essas previsões teóricas, é 21. perseguição ( pursuít, chase);
necessário retomar um inventário constituído por Propp para ver: 22. liberação ( rescue);
a) se podemos reduzi-lo de maneira apreciável~ de forma a atingir 23. chegada incógnita ( unrecognised arrival);
um conjunto funcional como uma estrutura simples; b ) em ~ue 24. ver acima 8.ª;
consiste a consecução obrigatória das funções, e em que me~da 25. !~buição ~e uma taref_a ( the difficult task);
ela pode ser interpretada como correspondente a transformaçoes 26. ex1to (solution: a task ,s accomplished);
reais de estruturas. 27. reconhecimento ( recognition );
Precisado assim nosso objetivo, não nos resta senão tentar essa 28. revelação da vilania ( exposure);
simplificação do inventário, procedendo, se for o caso, a novas re- 29. revelação do herói (transfiguration: new appearence);
duções e a eventuais homologações estruturantes.
30. punição (punishment);
31. casamento ( wedding).

b) lnTentário das funções.


e) Acasalamento de funções.
O inventário das funções de Propp se apresenta, numa tra-
dução aproximada, da seguinte maneira: Essas 31 fun~es co_nstituem um inventário bastante grande
/ para que se poss~ cons1de~ar sua ~st~turação. É preciso, por-
1. ausência ( absence) ; tanto, tentar reduzi-lo, seguindo de m1c10 a sugestão do próprio
2. proibição ( interdiction); Propp, que entrevê a possibilidade de "acasalar·• as funções. Mas
3. violação ( violation); o acasalamento, nesse e~t~gi~ só pode ser empírico e repousa ape-
4. procura ( reconnaissance) ; nas sobre uma dupla exigencia: uma condensa·ção da narrativa em
5. infonnação ( delivery); ~id~de: episó~icas, entendendo-se que os episódios a serem pre-
6. decepção (fraud) ; \'lstos sao considerados como possuidores de um caráter binário
7. submissão ( complicity); e de serem constituídos de duas funções apenas. '
8. vilania ( villainy) ; . Após ta~ redução, o inventário de Propp se articula da se-
8.ª falta ( lack); gwnte maneira:
9. mando, ordem ( mediation, the connective momenl);

.252 253
1. ausência; O, acasalamento, <lt::finido como uma categor.ização de funçé>es,
2. proibição vs violação; tem como conseqüência liberar a análise, ao menos parcialmente, da
3. procura vs submissão; ordem de sucessão sintagrnática: o procedimento comparativo,
4. decepção vs submissão; procurando identidades a conjuntar e oposições a disjuntar, pode,
5. vilania vs falta; portanto, exercer-se sobre o conjunto das funções inventariadas.
6. ordem vs decisão do herói; Como Lé\·i-Strauss observou em sua crítica a Propp ( la Structure
7. partida; rt la Forme) a proibição não é, no fu ndo, senão a transformação
8. atribuição de uma prova vs enfrentamento da prova; negativa da injunção, isto é, do que designamos como "ordem··.
9. recepção do adjuvante; Mas esta é, por sua vez., acompanhada de uma função que lhe
10. deslocamento espacial; é recíproca: a decisão do herói, que seria melhor designar como
11 . comb ate vs vitória; "aceitação". Graças a essa dupla oposição, precisa-se a economia
12. sinal; geral das 4 funçces :
13. dissolução da falta; Sf'
14. retomo; ordem
15. perseguição e liberação; estabelecimento do contrato,
16. chegada incógnita; aceitação
17 . atribuição de uma tarefa vs êxito;
então
18. reconhecimento;
proibição
19. revelação do traidor vs revelação do herói;
20. punição vs casamento. ruptura do contrato.
violação
Vemos que somente certo número de funções se presta Mas, de outro lado, se a proibição é a forma negativa da
ao acasalamento. . Um novo inventário, embora mais reduzido, não
ordem, e se a violação é a negação da aceitação, vemos que os
é mais manejável que o primeiro. quatro termos não são senão a manifestação de um sistema sêmico
que podemos notar:
d) Contrato. - tanto no nível h iperonímico, como a articulação de uma
categoria .
Podemos perguntar-nos se o acasalame-nto de funções não pode A \"S A;
receber uma justificativa me todológica que o torn~ria operacional.
Assim um par funcional tal como - quanto no nível hiponímico, onde cada um dos termos
manifesta por sua \'ez uma articulação categórica como um sistema
proibição vs violação
i a ã
interpretado, no quadro da descrição sintagmática d~ Propp,
como ligado pela relação de implicação (a violação e!etívamente
pressupõe a proibição ). Considerado, em compensaçao, fora ~e
todo contexto sintagmático, ele aparece como uma categoria
não a
vs
-
n ao a

sêmica cujos tennos são, ao mesmo tempo, conjuntos e disjuntos, Esta homologação teórica, que nos permitiu conceber A como
e é, conseqüentemente, formulável por ºestabelecimento do contrato", nos autoriza agora a reinterpretar
a última função da narrativa. designada por Propp como "casa-
s vs não s mento''. De fato, se a narrativa inteira foi desencadeada pela

254 255
-
ruptura do contrato, é o episódio final do casamento que resta- A injunção vs aceitação
F = enfrentamento vs êxito
não c = conseqüência.
belece após todas as peripécias, o contrato rompido. O casamento
não é,' p ois, uma função simples, como deixa supor a análise de
Propp, mas sim. um contrato firmad,o_ entre o d~sti~a.dor, _~ue Quando tentamos aplica r esse esquema a todas as provas que a
oferece o objeto da busca ao destinatano, e o destinatáno-su1e1to, narrativa comporta - e há várias -, apercebemo-nos de que
que o aceita. O casamento deve, conseqüentemente, ser formulado as provas são analisadas desigualmente por Propp. Basta es-
da mesma maneira que "ordem" vs "aceitação", com a diferença, tabelecer um quadro comparativo das provas encontradas na nar-
entretanto, de que o contrato assim concluído é "consolidado" rativa para preencher quase mecanicamente as lacunas que não
pela comunicação do objeto do desejo. deixam de aparecer :
Observação: Pelo tratamento que demos à função "casa- ESQUEMA PI.OVA PROVA PROVA
mento", começamos a série de retificações do inventário das PROPOSTO QUALIFICANTE PltlNCl PAL CLORIFJCANTI:
funções de Propp, cujas condições teóricas já precisamos: a
{ injunção 1.• função do atribuição de uma
isotopia da manifestação discursiva só pode ser as~urada A doador • ordem tarefa
se os algoritmos das funções condensadas forem denominados accitaçãc.. reação do herói decisã~ do herói
em relação a um só nível de generalidade escolhido. combate
F { :~cotamento
eXJtO vitó ria êxito
e) Prova. não e = COJlSC· recepção do adju- dissolução da falta reconhecimento
qüênda vante
A constataçã.o de que um contrato pode eventualmente ser
seguido de funções-conseqüências, e de_ que el~ pode, po~ta!1to,
inscrever-se no encadeamento das funçoes, obnga-nos a situa-lo Esse quadro permite formular um certo número de observações :
dentro dos esquemas sintagmáticos de que faz parte.
1. Ele coloca em evid~ncia o grande número de redundân-
Se tomamos, a título de exemplo, a prova a que se deve
c-ias que a narrativa-conto comporta:
submeter o herói imediatamente após sua partida, vemos novas
lacunas na descrição de Propp. Assim, a análise da prova em a) lniciâlmente, as provas, t:!onsideradas como esquemas sin-
duas funções tagmáticos, retornam três ,·ezes: elas são distintas -apenas do ponto
atribuição enfrentamento de, ,·ista do conteúdo de suas conseqüências;
\ ºS b) O par funcional constitutivo da estrutura do contrato,
(The firsl function of the don01') ( the hero's reactlon) t-ncontrado sob sua forma negativa de à no início da narrativa
é insuficiente: assim como a ordem é seguida da decisão do herói, 5C acha no fim, já o vimos, como A. Além disso, é pelo contrato:
a atnbuição da prova só pode ser seguida de sua aceitação. O A1 A2 A3, que se inicia cada prova;
mesmo acontecerá com o seguinte: à aceitação sucede o,enfrenta- c) O par "enfrentamento" vs "êxito", presente em cada
mento, que se realiza pela vitória; finalmente, a prova e coroada uma das três provas, aparece uma vez, c~mo o veremos, não
por urna função-conseqüência: a recepção do ad1uvante. precedido de contrato;
Portanto, podemos dizer que toda "prova" - é assim que 2. O esquema da prova se apresenta como uma consecução
destgnamos o esquema sintagmático de 5 f unçée~ que acab~mos lógica, cuja natureza .deveremos precisar, e não como uma seqüên-
de descrever - -comporta, na ordem de sucessao, as segwntes cla sintagmática, pois que:
funções e pares de funções :

256 ' 257


a) Os pares A e F não são sempre contíguos: o envio do t preciso acrescentar que entre os momentos p e não p se
· herói em missão é seguido só muito depois pelo enfrenta.mento situa· igualmente o deslocamento espacial, em outras palavras,
· principal com o vilão; um deslocamento rápido (d ), que, indicado no desenrolar da nar-
b) Os pares A e F podem se achar sós, fora do esquema da rativa antes do combate, sob a forma de uma função particular,
não está menos simetricamente presente apÓs o combate, onde
prova; ele se confunde com as funções "perseguiç.10" n "liberação".
3. Se o par funcional A pode ser considerado como uma Estamos no direito de considerar que "perseguição" YS "libera-
estrutura binária de significação, o mesmo não ocorre com o par ,;ão" constitui um sincretismo de funções, que comportam, de um
F, cuja constituição exige ser interpre tada. lado, o par funcional F ( decomponÍ\·el em "enfrentamento" vs
''êxito") e de outro, o deslocamento rápido. No esquema da
ausência, teremos, portanto, de introduzir uma função a mais (d) ,
f) Ausência do ber6L o deslocamento, que embora se efetuando nas direções opostas,
não deixa de ser redundante :
Uma olhada superficial à distribuição das funções na narra-
tiva mostra que seu ponto culminante é constituído pelo combate p+ d + não p vs não p +d+ p
do herói com o vilão. Esse combate se situa, entretanto, fora da
sociedade atingida pela desgraça. Uma longa seqüência da narra- Duas coisas devem ser observadas a propósito desse esquema:
th-a é caracterizada pela ausência do herói, a qual se situa entre
sua partida e sua chegada incógnita. 1. A rapidez do deslocamento deve prova,·elmente dar con-
ta, ao nfrel da narrativa, da intensidade do desejo ao nível do
Analisando um pouco mais de perto essa seqüência, observa- modelo atuacional. Assim considerada, ela não é uma função mas
mos de novo a ausência do critério de jsotopia, ao qual d evo um aspecto desta, e, como tal, não é pertinente numa descrição
obedecer a denominação das funções. À partida do herói corres- das funções. Preocupamo-nos com isso apenas para extrair um
ponde, em Propp, a função de retorno, que, na verdade, não indica F redundante dentro do sincretismo das funções, e também por-
o retorno do herói, mas sua nova putida, após a permanência que o fenômeno do sincretismo, registrado nesse nível de análise,
num outro lugar onde está situado seu combate vitorioso com o vil~o. merecia ser notado;
Se, portanto, entendemos como "partida" ( ~esignan<l.~-a por ~) 2. O próprio deslocamento, considerado como uma cate-
o momento a partir do qual começa a ausência do _h_ero1, a funçao goria "ir'~ vs " retomo", só é interessante na medida em que
que lhe é direta~en!e oposta, enqu!lnto s~~a pos1~vo opos\~ ao assinala a solidão do herói e sua permanência num além, sem
sema negativo, nao e o que Propp chama re torno , mas a che- relação com o aqui da narrativa. Os estudos de D. Paulme e de
gada incógnita" ( p). L. Sebag (publicados em l'Homme III ) precisaram o sentido
Por outro lado ao momento a partir do qual começa a ausên- dessa disjunção tipológica: a permanência do herói é tanto sub-
cia corresponde o 'momento da chegada do herói aos lugares de terrânea ou aquática quanto aérea; situ~-se tanto no reino dos
combate ( não p); ao momento de chegada do herói aos lugares mortos como no dos deuses. O problema é, ao mesmo tempo,
corresponde o que Propp chama " retorno" ( não p ) . Dispomõ, complexo e simples, muito complexo, em todo caso, para ser
pois do esquema de substituição do herói: tratado no quadro do conto popular, cuja investidura axiológica
é insuficiente. Consideremos, pois, provisoriamente a ausência
p p do herói como uma categoria de expressão dêitica, redundante
...., em relação à função mediadora do herói, que precisaremos mais
não p ' tarde.
não p

258 259
Obse"ação: A ausência dos antepassados ( = do destina- Se levarmos em conta o procedimento de coisificação, comum
dor) pode ser observada do mesmo modo.
na manifestação mítica, veremos que se trata, no primeiro caso,
da liberação da mensagem-objeto e, no segundo, de sua extorsão.
g) A alienação e a reintegração. A simetria observada exige, entretanto, ser ainda confirmada pelo
Os leitores de Propp devem ter observado que ele distingue comportamento, que supomos simétrico, dos dois pares funcionais
restantes.
claramente, em sua descrição, as nove primeiras funções, anotan-
do-as com o auxilio de caracteres gregos e considerando que Na parte final da narrativa, o reconhecimento do her6i é
elas constituem uma espécie de introdução da narrativa. Conhece- ,eguido da revelação da verdadeira natureza do vilão, que se
mos já o papel que desempenham as três primeiras funções ( au- acha desm_ascarada. Mas se o vilão é desmascarado, é porque
sência, proibição, violação), para as quais foram encontradas as deve ter tido uma máscara. E. efetivamente, embora o lexema
equivalências no interior e no fim da narrativa. Só nos resta pois descriti~o "decepção'' não o indique ~laramente, Propp não deixa
considerar os três pares de funções que constituem esta "intro- de sublinhar o fato de que o vilão, para enganar o herói, se
dução": apresenta sempre disfarçado. Precisa-se assim a oposição entre
procura vs informação, "decepção" e "revelação do v~ão".
decepção vs submissão, Quanto à segunda função do par, a "submissão do herói"
vilania vs falta. ela igualmente faz aparecer o herói, .e mbora de maneira meno~
clara, como portador de uma máscara. De fato o herói nesse está-
Observamos inicialmente que esta seqüência aparece como gio da narrativa, é muito freqüentemente ap;esentad~ como um
uma sucessão de desgraças apresentando-se após a violação da simples, uma espécie de b obo-da-aldeia, que se deh:a enganar
ordem estabelecida, e, também, que ela aparece como uma série f~c!lmente, ou e~tão, em casos extremos,, que dorme enquanto o
negativa, à qual deveria corresponder, segundo o principio de \•1lao opera; enfim, trata-se de um heroi não revelado. A esta
simetria observado nos procedimentos anteriores, uma série positiva, manifestação camuflada do herói corresponde, no final da narra-
O primeiro par de funções, ''~ rocura" vs "informação", parece tiv:t, sua transfiguração: o herói aparece em todo seu esplendor,
inscrever-se no quadro da concepção geral da comunicação, e trajado âe vestes reais; manifesta sua verdadeira nat ureza de
traduzir-se mais simplesmente pela " interrogação" vs "resposta". herói. Conseqüentemente, comparando as funções do início e do
À comunicação lingüística assim decomposta parecem correspon- fim, podemos dizer que à manifestação do vilão e do herói disfar-
der. na seqüência da narrativa, duas funções separadas : çados, ocultando-se sob aparências, corresponde a revelação de
sua verdadeira natureza. Apesar da dificuldadê da formulação
sinal vs reconhecimento, lexêmica das funções, a hipótese se confirma: as funções iniciais
negativas de desenrolam paralelamente à.s funções terminais po-
que, embora formuladas num outro tipo de significantes, podem sitivas.
ser interpretadas como ~ lmpossfvel não ·observar uma espécie de c·rescendo na
emissão ( de um sinal) vs recepção ( desse sinal) , progressão dos pares funcionais. A comunicação negativa, isto é
duas funçõe.s simétricas que constituem o ato de comunicação po- a extorsão da informação, é seguida do ato de trapaça; este:
sitivo, ao passo que o par funcional por sua vez, será seguido de vilania, realizada sob forma de
roubo ou de rapto. Esse terceiro par de funções parece-se mais,
interrogação vs resposta 110 entanto, do ponto de vista de seu status estrutrnal, com o
aparece como constitutivo de uma espécie de comunicação nega.tiva. primeiro par: de fato, as duas seqüências têm algo em comum:
nos dois casos, um objeto - uma mensagem ou um representante
261
simbólico <lo Bem - transfere-se de mãos e passa do herói ( ou de
-
C1
C1
não c 1
e, --
C1

não C1
sua família, ou dos seus) para o vilão. No par interca lar de e; C2
funções, essa transfe rê ncia, desde que exista, é menos visível: é =
a penas ã compa ração com a primei ra prova -a que deve subme ter-se
C2 = não c2
C2
não ci
o herói, e cujo resulta do é a recepç ão do adjuva nte, uto é, em c.s Ca
suma, do vigor que o qualifica como he rói, que permit e com- Ca = e, = não
preend er que o que muda de mãos, quando do processo de "decep - não e, Ca

ção", o que é furtado pelo ,ç·ilão, é, por assim dizer, a nllture za


heróica do herói. Podemos dar, a seguir, de maneira convencional, à série
Vemos que se precisa o estatut o estrutu ral das seqü~ncias inicial inicial o nome de alienação, e à série terminal o de reintegração.
e final da narrati va, caracte rizadas cada uma delas por uma tríplice
redund ância de pares funcionais; trata-se na verdad e de uma estru- Observ ação: A introdu ção da notação nos dispensa de
tura comum de comunicação ( a de troca ), que compo rta a trans- atribui r novas denominações às fun ções reinter pretada s.
missão de um objeto : objeto-mensagem, objeto-\'igor e objeto-
-bem; a seqüên cia inicial aparec e como uma série redund ante b) Provas e suas conseq üência s.
de privaÇ'Ões sofridas pelo herói e pelos seus, ao passo que a
reqüên cia final consht e numa série paralel a de conquistas efetua- Nesse estágio da análise, podem os já considerar a interpr e-
d as pelo herói-. tação das conseqüências das proYas.. As prorns, num total de
Entre tanto, se "vilani a" vs "falta" consti ~em um par fun- três, compo rtam cada uma delas dois pares de funções, notados
cional de t roca negati\ 'a, no -outro lado da narrati va as coisas A e F, e uma função solitária, considerada como a conseq üência
se complicam um pouco; à vilania corresp onde a puniçã o do particu lar que especifica cada prO\'a. Elas se aprese ntam, se-
vilão, mas a ·falta é dissolvida, de maneir a redund ante, inicial- gundo ordem narrativa, como
mente pela restitui ção do Bem à comun idade, após a vitória sobre
o vilão, e depois pela recomp eraa do .herói, quando do casame nto. a recepção do adjuva nte,
a dissolução da falta,
Tratare mos de resumi r toda a análise , introduz.indo a nota- o reconh ecimento.
ção simbólica. Designamos por C os seis pares de fu nções que
acabam os de analisa r : sua enume ração em C1 C 2 C:s indica, pela
Dado que todas as funções, exceto essas trAs, se organiz am
repetiç ão de C o caráter invaria nte de seu estatut o de cbmunicação,
em pares, o estatut o solitário das conseq üência s poderia parece r um
sendo que os números 1, 2 e 3 represe ntam os objetos · variáYeis
desta. tanto perturb ador.
A 8{lálise das duas seqüências de alienação e de reinteg ração
Consid eremos, por outro lado, a série inicial das funções como permit e, felizme nte, compr eender melhor as conseqüências. Assim,
a transformação negati\ 'a da série termin al, design ando essas começa ndo pela conseq üência da prova principal, a liquidação da
funções iniciais por C1 C:: Cs, Como a maiúsc ula C design a sem- falta aparec e como a função positi\·a ( não cl ), opondo-se à sua
pre uma catego ria suscetÍ\'el, por sua vez, de uma articulação transformação negativ a que é a falta ( õãõ'c3 ) . Da mesma forma,
sêmica em e vs não c, vamos obter a seguin te represe ntação o reconh ecimen to aparec e como "recep ção da mensag em" {não
simból ica das duas séries paralel as e inversas: . Cs) , opondo -se ao seu sema positiYo, que é "sinal" ( C, ) e à infor-
mação (comunicação da mensagem ) [iiãõc,]. Quanto à recepç ão
268
do adjuvante, que é . a co°;seq~ên cia da ~rova ~ualifira~t e, já
vimos que correspond ia à pnrnçao da energia heroica q ue repre- uma certa liberdade a própria definição <la narrativa, que, segundo
senta. a submissão (não c 2 vs nao c2 ). ' Propp. devia apresentar uma ordem de sucessão obrigatória .

_ Esta integração das conseqüên cias nas seqüências de aliena- A redução, tal como a operamos, exigiu. ao contrário, uma
ça~ e de integração permite apreender meU1or o sentido das pró- interpretaç ão paradigmátic-a e ac-rônica das relações entre as fun-
P?ªs P_:Ovas : seu papel consiste em anular os efeitos nefastos da ções: o acasalamen to das funções. de fato, só é válido se a rela-
alienaçao, esta resultando da violação da ordem estabelecid a. ção de implicação :
não s - . s
1) Resultados da redução. puder ser transforma da. pela existência, no conteúdo sêmico das
funções acasaladas , de uma relação de disjunção, em
A primeira_ parte da análise, que constitui uma espécie de
errata da reduçao das fu nções, acha-se assim concluída, e podemos s vs não s,
a~~esentar, sob forma esquemátic a, o inventário reduzido e defi-
mttvo das funções da narrativa. que permite a apreensão do par funcional enquanto estrutura ele-
mentar da significação.
Ruptura da
ordem Reintegraç ão Essa interpretaç ão paradigmá tica, condição da apreensão da
e e significação da narrativa na sua totalidade, nos permitiu depois
alienâção restituição da ordem t'ncontrar, independe ntemente da orde m de sucessão sintagmátic a,
desta vez unidades de signifi cação mais amplas, cujos termos são
Prova principal constituído s de c ategorias sêmlcas manif~stad as nas funções toma-
das individualm ente. A relação constitutiva dessas unidades- é
pÃC1C:êspA1p1(A2 + F:: + não c2) d não p 1(F1 + c1 + não c3 ) igualmente a da d isjunção. Entretanto , para assinalar a distinção
nao p1dF1p1(As + F3 + não c )C2C A( não c
1 3 3) entre os dois níveis estruturais. notamos, de um lado, co01 o auxílio
das maiúsculas , o fato de que os termos que os constituem são já
Qualificaçã o Procura Demanda categorias; e do outro. com o auxfüo do sinal de negação super-
posto. seus termos negativos.
A - contrato ( ordem vs aceitação)
F = luta ( enfrentam ento vs vitória ) Esse procedime nto, se o examinarm os um pouco mais de perto,
C =
comunicaç ão não é senão urna redução das funções a categorias funcionais.
seguida, num segundo procedime nto, de sua homologaç ão. Tal
P = presença
redução nos permitiu extrair, apesar do desenrolar da narrativa, e
D = deslocame nto rápido
abstração feita de sua redundância, duas e struturas funcionais
homologad as :
2.0 INTERPRETAÇõES E DEFINIÇõES A vs A
e
a) Elementos a aônicos e diaciônlco s da narrativa. e vs e
O esquema da p ágina precedente representa o inventário e de prever a possibilida de de interpretar a narrativa como uma
reduzido das funções. Essa redução só foi possível tomando-se com estrutura acrônica simples.

264
a prova
me desejava Propp, como obrigatória, Muito ao contrário,
ôhaervação: A análise <la estru tura <la comunicação manif estaçã o de liberd ade. E
constitui, nesse sentido, uma certa
C vs C não é tão simples como pode fazer supor sua se, rio entanto, ela apare ce como seqüê ncia fixa, não o deve
-
apres enta~ º-. Ela exige um longo desenvolvimento, impos às relações internas de causalidade, mas à redun dânci a que a fixa
s1vel nos Üm1tes deste capítulo. Volta remos a isso em outra mític a suple -
ocasião. enqua nto forma. conferindo-lhe, como conotação
mentar, o sentido da afirmação da liberd ade do herói;
es, se
_ Toda_ n_arrativa se :eduz ~a. pois, a esta estru tura simpl um par 2. Se a relação entre A e F é uma relação de conse
cução.
nao _subs1st1sse um res1du o diacrô nico sob a forma de se manif estaria
' não deve estar ident ilicad a como uma relaçã o que
f unc1onaJ cução admi te facil-
graças ao significante "cont igüid ade". A conse
a prova princ ipal
enfrentamento vs êxito, mente a separação e vemos notad amen te que
, ao contrá rio,
deixa separ a seus dois pares funcionais A e F, estreitando
que notamos como F e desig~amos como "luta '' e que não se desse modo, a narrativa;
transformar em uma categ oria sêmic a eleme ntar.
3. O que, no entanto, confere à consecução livre de A + F
o estatu to de estru tura diacrônica é a conseqüência neces
sária que
b) O estatuto diacrônico da prova. se depre ende desta überd ade de encon tro. A conse qüênc ia, é.
de fato, necessária; ela pressupõe a existê ncia de A + F : vemo s
to·
_ O par funcional F possui um caráte r duplamente insóli de opo~ isso claramente nas reduções litóticas de certas narrativas, men-
onde o
n_a~ some~tc pode ser interp retad o como uma categ oria
nal soli- adjuv ante pode ser atribu ído ao herói sem que a narrativa
:J~º sê~,c~. !nas ~parece como a única seqüência funciom mome nto cione a prova que prece de essa transferência. A prova
é, pois,
na, ass1_01etnca; isto é, não se apresenta em nenhu onada pelo
apenas uma convite à consecução de A e F, sanci
da narra hrn sob sua forma negativa.
aparecimento da conseqüência não e.
--~m- co~pensa ~o, F entra, como elemento constitutivo, numa
sequenc!a diacrônica que designamos com o nome de "prov
a". Se a prova possui assim um estatu to diacrônico partic ular,
modelo
e que e comp osta de ela tamb ém mantém um paralelismo incontestável com o
atuacionaJ definido anteriormente.
A+ F + e. De fato, não somente os seis atuan tes se acham implicados
lação
a como na prova, mas també m as categ orias, que permitiram a articu
,A pr~va po?er ia ser, J?Ois, por essa razão, considerad
tiva como do modelo atuacional. encontram na prova seus equiv alente s.
º . nucle_o 1rredu t1\"el que da conta da definição da narra Assim, à categoria da comunicação correspond e a estru tura do
am 0
diacronia. . UT .certo número de obsen-ações, que precis contrato. O par funcional F, por sua vez, manifesta, sob
forma
n1 co, pode agora ser formu lado: possu i)
estatuto d1acro de luta, a oposição das forças do adjuv ante ( que o herói ,
repre senta
~- A relação entre A e F pode ser considerada como
uma e do oponente . Quan to à conseqüência, vemos que ela
de seu
relaçao de consecução, e não como uma relaçã o de impli cação sob formas variadas, a aquisição pelo sujeito do objet o
necessária. Efetivamente, A ou A podem achar-se sós nacimen narrativa desejo.
apare to d~
sem qu:. sua presença acarrete necessariam ente o
r pre- Observe-se que, das três provas que comporta a narrativa:
F: A nao pres~upõe'... pois, F. Por outro lado, F pode esta
sente na narrativa, nao prece dido de A : F não press upõe, pois, A. prova quali ficante,
r a prova principal.
1~ quer dizer que a seqüência ªprova•, se ela caracteriza r- prova glorificante,
, confo
narrativa enquanto consecução, não impõe esta. consecução
267
266
Consideraremos como atividades principais aquelas das sep_:1ra-
SÓ as duas úhimns npresentam 3 correspond~ncia termo :i termo ções funcionais cujo sema ad quem constitui t:m:1bém a co~sequên-
entre as funções que implicam e os atuantes da narrativa.
cia da prova. isso porque, desta forma, as ativida ~~ ~ mtegram
Quanto à primeira pro,·a, cuja conseqüência é a qualificação do
na própria estrutur a da prova e fazem parte, s':bs1d1anamente, d_a
herói para as pro\'as dccisi\'as, ela não apresenta. pelo seu F, senão
sua definição. Consideraremos, em compensaçao, como sec~n~a-
uma luta simulada. isto é, simbólica. onde o destinador desempenha
o papel de oponente. rias e não pertinentes, as atividades constitu!das pelas opos1çoes
sêmicas separadas, mas cujo sema ab quo nao precede a conse-
qüência da prova.
e) A atividade dramát ica da narrativa.

Se a pro\'a constitui por si mesma a definição diacrônica da nàr- d) Duas tn~1a ções da narrcd!•a.
raliva, o desenrolar temporal desta é e\'idenciado por um certo A prova que define diacronicamente a nanativ at e que cons-
número de procedimentos, que constituem os elementos de um titui seu nó, está longe de esgotá-la. De fat~, ex~to a luta {F),
savoir-faire narrativo. Tal savoir-faire, constitutivo da "elaboração os outros constitutivos da prova estão, ~r assun dize~, apenas f~r-
secundária" da narrativa ( conhecida sob os nomes de intriga, de malmente presentes nela: sua· investJdura semântica, sua s1~-
suspense, de atividade e de tensão dramáticas ), pode ser definido nificação - que será também a sign!11cação d~ pr~va -, eles ~ao
pela separação das funções, isto é, pelo distanciamento, no enca- as recebem senão do contexto, isto e, das sequências da narrativa
deamen to das funções constituídas pela narrativa. dos conteúdos que precede m ou seguem a prova.
sêmicos pertencentes à mesma estrutur a da significação. .
E. Souriau definiu com bastant e simplicidade a economia
Assim, ao sema nao C3 ( falta ) corresponde, com intervalo de geral de uma peça de teatro : a ~a _situa~o mais ou menos
quinze funções , o sema não e, ( dissolução da falta ). Não é neces- calma do início corresponde uma s1tuaçao mais ou menos perma-
sário fazer o comentário da falta, que Souriau designa como urna nente do fim da peça; entre as du~ algo se ~assa. Conh~ m~s
situação intolerável, criadora de necessidades, promotora de ação. já esse "algoº que se passa no meio da narrativa; mas a prop~a
Uma ,·ez colocado esse sema negativo , a narrativa tenderá a en- narrativa vai extrair seu sentido apenas das duas permanências
contrar o sema positi\'O, a dissolução da falta. A atividade obtida do inÍcio e do fim.
pela separação de não Cs ,·s não c3 pode ser chamad a "Procura··. As duas seqüências - inicial e final - da narrath:3_ são cons-
No próprio momento em que a atividad e "Procur a" se dis- tituídas de duas categorias sêmicas, sob sua form_a positiva ou ne-
tende, coloca-se um novo sema c 1 (sinal) : a atividade que tende gativa:
em direção à realização do sema contrário não c 1 (reconhecimento) seqüência final
f>mbora sua tensão pareça menor, por causa do caráter positi\'o ( e seqüência inicial
não negativo, como no caso de -Procura•) do sema procurado, Ã+c C + A
pode ser chamado *Demanda", isto é, pedido do reconhe cimento,
que é de,.,ido ao herói. Considerando que as duas seqüências contêm o essencial da
investidura semântica da narrativa. é sua leitura que <leve dar a
Quanto à terceira atividade, a de ·Qualificação", que liga não c cha,·e da significação do conto popular. ~~ coisas, e~tretanto'. se
2
a não C2. se se mostra frágil. é apenas na medida em que a quali- complicam pelo fato de que, s~un~o o ttpo <le relaçoes co~stde -
ficação do herói só faz anuncia r sua ,·itória sem realizá-la. Sua radas entre os termos estruturatS, e possn-el uma dupla _lettura.
estrutura, entre~ to, é a mesma que a da atividade -Procura• e A primeira consistirá na apreensão ar rônica dos termos sob forma
ambos constituem a atividad e redunda nte que conduz a intriga.
269
268
-
de categorias e no estabelecimento da correlação entre as duas A correlação permite, pois, apreender a narrativa como uma
categorias: estrutura de significação simples. Quanto à pr6prla "correlação",
à e considerada como relação, é essencialmente a afirmação da exis-
tência da relação; expressa, já que se trata de verbalizá-la, pela
e e conjunção como, ela estabelece a relação conjuntiva entre os
termos da proporção.
isto é: a existência do contrato ( da ordem estabelecida) corres-
ponde à ausência do contrato ( da ordem) assim como a alienação ~ necessário agora considerar um pouco mais atentamente
corresponde à plena fruição dos valores. os termos da correlação, para ver em que medida podemos,
apesar da ausência do contexto axiológico, aprofundar a interpre-
A segunda leitura, levando em conta a disposição temporal
Jação da significação do conto popular.
dos termos, nos levará a considerá-los como implicados uns pelos
outros: Tomemos de início a segunda parte da proporção, que se
(Ã > C) (C > A} refere ao d omínio individual. Quando da redução, interpretamos
cada C como um processo de comunicação caracterizado pela
o que pode ser comentado mais ou menos nestes tennos: num transmissão de um objeto simból.ico. A comunicação foi depois par-
mundo sem lei, os valores são invertidos; a restituição dos valores ticularizada, segundo o objeto transmitido, sendo cada objeto va,.
torna possível o retorno ao reino da lei. riável indicado por um número diferente : 1, 2 e 3. ~ inútil insistir
\ emos que as duas formulações são bem diferentes apesar - o fato é bem conhecido em antropologia - nesse modelo
<la identidade dos termos. ' mítico da apresentação dos valores que é o objeto em comuni-
cação; é mais interessante tentar apreender a sua natureza.
e) A significação acrônica da narrativa. 1. No caso de C1, o objeto da comunicação é uma mensa-
gem, uma espécie de fala "congelada", coisilicada e por isso trans-
A primeira formulação se apresenta como a correlação de missiveL Por constituir a chave do conhecimento e do reconheci-
duas ordens de fatos pertencentes a dois domCnios diferentes: mento, o objeto-mensagem poderia ser considerado como uma
formulação, no plano da manifestação mítica, da modalidade do
1 . O domínio social: ordem da lei, da organização contra- "saber''.
tual da sociedade;
2. No caso de C2, trata-se da transmissão do \'igor, que priva
2. O domínio individual ou interindividual: existência e
o homem da energia necessária à ação, ou, ao contrário, lha atri-
posse graças à comunicação inter-humana dos valores individuais.
bui. O objeto-vigor seria o equh·alente mítico da modalidade
A apreensão paradigmática da narrativa estabelece, conse- do "poder''.
q üentemente, a existência da correlação entre os dois domínios
entre o destino do indivíduo e o da sociedade. Vemos que, ass~ · 3. No caso de C 8, a comunicação consiste na transferência
compreendida, a narrativa apenas manifesta as relações que exis- do objeto do desejo, que corresponderia, conseqüentemente, à
tem ao nível da axiologia coletiva, da qual ela não é senão uma modalidade do "querer".
forma de manifestação entre outras formas possÍ\'eis. O conto Apesar de não ousarmos nos pronunciar, por enquanto, sobre
popular é, nesse sentido, simplesmente uma encarnação particular a natureza da correlação entre os valores que constituem a nar-
de certas estruturas de significação, que podem ser anteriores rntiva e as categorias modais constitutivas do modelo atuacional,
a ele, e que muito provavelmente são redundântes no discurso n existência desta correlação traz a confirmação do caráter de
social. gronde generalidade que possuem tanto uns quanto outras.
. 210 271
Vemos, pois, que os termos alienação e reintegração ~~ ~alo- dos atuantes el~cida o paradoxo: a violação é bem uma injunção,
res, pelos quais designamos as seqüências da narrativa C C C e que 'comporta a riegação <lo destinador e lhe substitui o destina-
CCC, parecem de certa forma justificados por essas novas precisões. tário. De fato, a identificação do destinador e do destinatário
na função de injunção parece constituir a própria definição da
Em resumo, podemos dizer que a segunda parte da proporção
voptade, do ato voluntário.
estrutural coloca, de fato, a alternativa entre o homem alienado
e o homem que frui a plenitude dos valores. Vemos, conseqüen temente, que, se
Quanto à primeira parte da proporção, ela é ao mesmo tempo A VS A
mais simples e mais complexa. O estatuto de A, que definimos como
um contrato social, possui igualmente, à primeira vista, a forma é a oposiçao entre o estabelecim ento do contrato social e sua
da comunicação : o destinador impõe que o destinatário aja; o ruptura, a ruptura do contrato toma uma outra significação posi-
destinatário aceita a injunção. Trata-se, pois, de uma obrigação tiva: a afirmação da liberdade do indivíduo. Logo, a altem ath·a
livremente consentida. No caso de Ã, o destinador proíbe o desti- proposta pela narrativa é a escolha entre a liberdade do indiví-
natário de agir, o que é, evidentem ente, a transforma ção negativa duo (isto é, a ausência do contrato) e a aceitação do contrato
de a, da injunção. que é um convite ao fazer (e n:io ao não fazer) . ::ocial. t somente após esse complemento de análise que aparece
O contrato aí é de ordem negativa, privando o homem das possi- a verdadeira significaçã o do conto popular, que é, como o mito -
bilidades de aç.ã o. Lévi-Strauss bem o pressentiu e afirmou - uma presentificação
das contradiçées, das escolhas igualmente impossh·eis e ihsa-
Por outro lado, à aceitação correspond e a \iolação, que, apesar tisfatórias.
de ser uma forma de negação, não é, entretanto. negação, pois
ccmporla a vontade de agir, em oposição à proibição. que é a No contexto do conto popular russo, es5a contradição mítica
interdição de agir. A violação ér pois, um termo ambíguo : pede ser form ulada da seguinte maneira : a liberdade individual
tem por corolário a alienação; a reintegração dos valores de\·e
a) em relação à aceitação, ela é a negação da aceitação: ser pngn por uma instauração da ordem, isto é, pela renúncia
não a a esta liberdade.
não a vs
f!: preciso ver agora como a narrativa tenta resolver esta
b ) cm relação à proibição, que é·a negação da injunção ( ordem contradição.
de agir), ela é a negação da negação ( negação da ordem de não
agir ) ; logo : O O modelo transform acional
ã vs - ( ã ).
Vemos que a análise da narrativa pode dar lugar a duas de-
Em outras palavras, a negação da negação é uma espécie de finições diferentes.
.Cirmação ( cf. o si afirmativo do francês ) : A primeira delas era :le ordem diacrônica . A narrativa se
reduz. de fato, .à seqüência da prova que, manifestan do no dis-
- (a) = a. curso um modelo atuacional, antropomo rfiza, de certa forma, as
,ignilicações e se apresenta, por essa razão, como uma sucessão
Isso quer dizer que a violação é uma espécie de injunção. Jc comportam entos humanos (ou para-huma nos ). Esses compor-
Embora paradoxal à primeira vista, a dedução é teoricamente t.tmentos, como v~os, implicam ao mesmo tempo uma sucessão
válida contanto que se limite à conversão somente d as funçÕ<'s. k mperal ( que não é nem contigüida de nem. implicação lógica) e
-sem l~var em conta os atuantes. A tomada em consideraÇàô uma liberdade de sucessão, isto é, os dois atributos pelos quais

272 273
tem-se o hábito de definir a História: irreversibilidade e escolha. a luta ( F ) - único par funcional não anaYsável em estrutura
Vimos também que essa escolha irreversível (F após A) compor- acrônica, e que precede imediatamente o aparecimento, sob forma
tava uma conseqüência, dando assim ao homem engajado no positiva, do termo pertencente à estrutura que buscamos transfor-
processo histórico a consagração da responsabilidade. A seqüên- mar - que deve dar conta da própria transformação.
cia diacrônica elementar da narrativa comporta, pois. em sua A luta aparece inicialmente como enfrentamento do adjuvante
definição, . todos os atributos -da atividade histórica do homem, e do oponente, isto é, como manifestação, ao mesmo tempo
que é irreversível, livre e responsável. funcional, dinâmica e antropomórfica, daquilo que poderíamos
Tal interpretação da prova permite considerá-la como o mo- considerar como os dois termos - positivo e negativo - da
delo figurativo, isto é, como um conjunto organizado de compor- estrutura de significação complexa. O enfrentamento é imediata-
tamentos míticos, que dá conta das transformações históricas, ver- mente seguido da função "ê~to", que significa a vitória do
dadeiramente diacrônicas. e a análise da narrativa, tentada nessa adjuvante sobre o oponente, isto é, da destruição do teimo nega-
direção, admite, pois. conceber como possível a descrição dos tivo em proveito apenas do termo positivo. A luta, assim . in-
modelos transformacionais. Visto sob esse ângulo, o papel da terpretada, poderia, pois, ser a representação mítica da dissolu-
prova se precisa '- ela compreende uma estrutura de conteúdo ção da estrutura complexa, isto. é, dessa operação metalingüística
dada : onde- a denegação do termo negativo não deixa subsistir senão o
a e termo positivo da estrutura elementar. Teremos, aliás, ocasião de

não a
~·--
não e
retomar esse problema das qualidades do julgamento no capítulo
seguinte, num nível diferente, não figurativo. De qualquer forma,
a luta aparece já como a expressão da atividade metalingüística,
e a transforma. por uma operação mítica. cujos termos vamos no sentido de que não possui conteúdo próprio, mas incide, ao
definir, numa estrutura de conteúdo diferente da primeira : contrário, sobre o conteúdo da conseqüência. que é, como vemos,
manüestada separadamente, independentemente da luta.
a ,..,, e
Mas a conseqüência não é a saída da luta apenas; ela é
não a não e igualmente a do contrato parcial, estabelecido antes da luta e
que é, também, constitutivo da prova - a conseqüência é, pois,
A comparação, emborà superficial, das estruturas - antes e a sanção desse contrato, a prova de sua realização, e implica o
depois . da transfprmação - mostra que ~ta parece consistir na restabelecimento parcial do contrato global rompido. Não que-
supressão dos sinais negativos da estrutura sobre a qual ela se rendo prolongar-nos aqui sobre a interpretação lingüística do jul-
exerce; em outras palavras, num procedimento metalingüístico gamento assertivo, que deveremos retomar mais tarde, contenta-
que é a denegação da negação, que tem como resultado o apare- mo-nos em afirmar que a prova. considerada como expressão
cimento da asserção. figurativa do modelo transformacional, introduz uma dimensão dia-
Assjm sendo, podemos tentar considerar agora os elementos crônica que, opondo os conteúdos axiológicos .investidos nas estru-
ainda não analisados do esquema da prova. Vimos que as três turas que a precedem e que a seguem, dá conta também de sua
provas contidas na narrativa comportam, cada uma, uma conse- transformação.
qüência particular - não c 1, não c2 e não e,, e que essas conse-
qüências são não somente os resultados das provas, mas também ;) A narrativa enquanto mediação.
os termos positivos de categorias sêmicas cujos termos negativos
se acham presentes, sob forma _ d e antecedentes, na estrutura Vemos que a narrativa (e mais particularmente o conto popular
que se supõe ~r transformável pela prova. ~ conseqüentemente russo). submetida à análise funcional que busca determinar a

274 '275
sucessão de lutas _e de provas. O modelo que apresenta a narrativa
~tur~a das relaçõe! entre as funções dentro de uma manifestação dá conta, assim, de diversas formas de "soterismo", que propõe
discursn:a, é suscetível, em suma, de uma dupla interpretação, a solução de toda situação intolerável de falta.
que evidencia a existência de dois tipos de modelos imanentes:
a primeira dá conta de um modelo constitucional, que parece Essa introdução da história, seja ela explicativa ou projetiva,
ser uma forma protocolar de organização dos conteúdos axioló- cíclica ou aberta, dá um interesse suplementar à análise, permi-
gicos contraditórios, apresentados como insatisfatórios e inevitá- tindo colocar a questão do valor e do alcance d os modelos tais
veis; a segunda, ao contrário, explicita il. existência de um modelo como se mostram após a descTição do conto popular russo.
~~~ormacional, oferecen_do uma sol~ção ideológica, uma pos-
s1 bilidade de transformaçao dos conteudos investidos.
Esta possibilidade de uma dupla interpretação não faz senão 3.0 O MODELO TRANSFORMACIONAL E O PSICODRAMA
sublinhar o grande número de contradições que a narrativ a pode
conter. lt .ª?. mesmo tempo a afirmação de uma permanência a ) Do coleUvo ao individual
e das possibilidades da mudança, afirmação da ordem necessária
e da liberdade que transgride ou restabelece essa ordem. E, no A definição da narrativa considerada como uma manifestação
entanto, essas contradições não são visíveis a olho nu· muito ao discursiva, que desenvolve, graças à consecução de suas funções,
c<;>n~ário, a n~rativa dá a impressão de equilíbrio e 'de conha- um modelo transformacional implícito, não se funda, infelizmente,
diçoes neutralizados. t nessa perspectiva que ela se mostra senão na análise de um único gênero de narrativas, o conto
essencialmente em seu papel de mediação. De m ediações múlti- popular russo. Sua dimensão permanecerá, pois, tão reduzida que
plas, devemos dizer: mediações entre estrutura e comportamento, não se poderá mostrar que o modelo reconhecido na narrativa-
entre permanência e História, entre a sociedade e o indivíduo. -conto é encontrado em outros domínios axiológicos e se aplica a
narrativas de figuração diferente. Podemos mesmo dizer que
Parece-nos possível, generalizando um pouco exageradamente, quanto mais o novo domínio de aplicação do modelo se distanciar
agrupar esse tipo de narrativas em duas grandes classes: as narra- de seu lugar de origem, tanto mais geral parecerá, e com razão,
tivas da ordem aceita; as narrativas da ordem presente recusada. No o seu alcance.
primeiro caso; o ponto de partida está na constatação de certa
ordem existente e na necessidade de justificar, explicar esta ordem. O domínio que se ofereceu, um tanto ao acaso, à nova expe-
A ordem que existe, e que ultrapassa o homem, porque é uma ordem
riência, parece corresponder a esta exigência. Tratar-se de um
social ou natural ( existência do d ia ou da noite, do verão ou do in- corpus constituído pelos resumos das narrativas feitas por uma
verno, dos homens e das mulheres, dos jovens e d os velhos, dos agri- criança "obsessiva", quando de um · tratamento psicodramático, as
cultores e dos caçadores, etc.), se ·acha explicada ao nível do homem: quais extraímos, com os comentários do autor, das Réflexions sur
a procura, a prova são comportamentos humanos que instauraram le psychodrame analytique de M. Safouan (Bulletin de psychologie,
esta ou aquela ordem. A mediação da narrativa consiste em "huma- 30 nov. 1963). Diante da dificuldade de procurar material psicana-
nizar o mundo", em dar-lhe uma dimensão individual e de aconteci- lítico bruto, não interpretado, para as necessidades da descrição
mento. O mundo se acha justificado pelo homem, o homem inte- semântica, os resumos de M. Safouan apresentam a vantagem de
grado no mundo. ser simples e de englobar o conjunto do tratamento por que passou
a criança. O interesse desse corpus é evidente: contrariamente
No segundo caso, a ordem existente é considerada imperfeita; ao conto popular, que é obra coletiva, as narrativas de que ele é
º. homem, ~lienado] a situação, intolerável. O esquema da narra- composto provêm de um só locutor individual. Por outro lado, a
tiva se projeta entao como um arquétipo de mediação, como uma distinção entre a manifestação figurativa da narrativa e a estrutura
promessa de salvação: é preciso que o hom~m. o indivíduo, de sua significação aparece aqui de maneira indiscutível: embora
assuma a sorte do mundo, que ele o transforme através de uma
277
Z16
o ~o~p_us seja cons~ituído de uma série de narratirns - histórias ainda de- maneira bastante reduzida: a privação da força vital
pol:cuu~, con~os chine~s, narrati\'as de espionagem - a manííes- que caracteriza a seqüência do início é compensada pela consciên-
taçao discursiva, atra\'es de todas essas narrativas, é una e reflete cia de seu próprio heroísmo.
~ma estrutura de significação única, compará\'el, se não idêntica A estrutura desse inventário de narrativas permanece, entre-
a estrutura da narrati\'a do conta popular. · tanto, inteiramente acrônica : se, como "o mito", tal como é defi-
O tratam,en~o psicodramático se manifesta, nessa perspectiva, nido por Lévi-Strauss, ela permite à criança "viver" uma situação
como urna tecmca qu~ busca promo\'er a realização progressi\'a impossível, não chega a nenhum encadeamento diacTônico. Pode-
elo modelo transformacional da narrati\'a até seu término e o papel mos admitir a existência litótica da situação inicial, não manifes-
<lo t~r_apeuta_ consiste em observar o encadeamento elas' narrativas tada nas narrativas, e representá-la por A {ruptura do cona;ato
parciais, a fim_ de que se dirijam a uma realização do mo<lelo entre pai e filho); a integração dos valores individuais numa
estrutural previsto. Para justificar o que acabamos de resumir em "ordem social'' permanece impossível, pois sua formulação só
P~';lcas palavras, exporE'mos, etapa por etapa, o tratamento des- pode ser
c.·nto por M. Safouan. e
-e A

b) A estrutura compensadora inicial


e significa a ausência, no limite, de um novo contrato previsível.
O heroísmo que a criança não cessa de apregoar em suas narrativas,
, tA criança
d . d foi apresentada aos terapeutas pela mae, - cui·o
cara er _ omma or ~ra vish·el. acompanhada <lo pai, apagado e por falta de um destinador não é reconhecido.
b o~acha_o; uma ~onf1gurac;ão familiar banal, quE' fornece as pri- Notamos, ao mesmo tempo, como traço característico não
me.1.ras mfo~açoes con~extuais. A criança, convidada a "inven- somente desse primeiro inventário de narrativas, mas do corpus
tar as narr~tl\"as para o Jogo psicodramático, não deixou de "propor em seu conjunto, a manifestação exclusiva de C2, isto é, da priva-
~mana apos semana. histórias policiais que, apesar de sua di\'er~ ção e da atribuição da energia vital, preferido em relação a outros
s1dade aparente, tinham em comum o seguinte: havia de um e escolhido na axiologia de valores individuais: ele poderá cons-
lado: um mestre-cantor, de outro lado, uma nobre vítima que tituir um dos elementos da definição d~se tipo de estrutura.
coraJosamente, consentia ~m ser explorada, pois, se deixasse escapa~
seu segredo. ela pro,·ocana a perda de uma personagem que devia
Obse"ação: t interessante assinalar que a intervenção do
proteg~~ a todo custo - muito freqüentemente seu próprio pai" t eraupeta, o qual detém a iteração dessa estrutura inicial,
( loc. c,t.. p . 365). ·
consiste na explicação da estn.itura semântica comum ao con-
Se adotarmos, para a análise das narrativas psicodramáticas junto das narrath·as. O papel da tomada de consciência pa-
a mesma notação simbólica utilizada para a descrição do cont~ rece limitar-se, .nesse tratamento pelo menos, a essa fase
popular, p~deremos tentar_formular a estrutura iterativa implicita-
inicial.
mente manifestada no conJunto das narrativas desta fase inicial por

e) O aparecimento da luta.
c2(decepção) C2 ( revelação do vilão)
Após esta intervenção, aparece um novo tipo de narrativas.
não e: (submissão) não c 2 ( revelação do herói)
Todas estas, no entanto, comportam uma idéia comum: "para
isto é, por um. s~stema p~adigmJtico simples, que exprime, sob malandro, malandro e meio". "Havia um malandro que conse-
forma de opos1çao categorica. apenas os valores individuais• e guia enganar o inspetor, este conseguia capturar, enfim, o mal-

278 279
. dado orde m de dete r o méd ico em segr edo, o chef e d os band idos
feito r; havi a tamb ém O "gan ,. para dest ruir o ini-
meio, que ria aplic ar um gotJ ster que, cont raria men te às leis <lo Imagina um estra tage ma muit o com plica do
migo. Sua filha deve ir colh er flores na
prox imid ade do cam po
de sua próp ria astú cia ou da cÍefseus co( mpa rs~. mas caiu vflima
es etc. Loc. c,t., pp. 36S, 3S6) •• . Uma vez prisioneira,
. de Li-Tock. e deixar-se rapt ar. com o refémLi-T ock. acre ditando-se
Aba ndon ando os elem ento s com d
e não c2. que ela pret ende rá esta r atac ada de peste.
lhe conf eriam o cará te r acrô nico a pens a . ores c2
esperto, recla ma com o resg ate quat ro caix
as de ouro por sua pri-
enca deam ento diac rônic o 1 ,d narr ativa tent a provocarl um de sua filha, o méd ico
reve an o um novo par funciona F : sioneira. Ll-Sbong lhe prop õe, em troca
recla man do por esse
deti do e que é capa z de trata r da doen ça. troc a. Ll-Shong
a
F ( com bate ) serviço vinte caixas de ouro. Uma vez feita inimigo, na
e, ( doc-epção ) a seu
dita a seu auxiliar uma men sage m dirig ida e que cons eqüen-
• submissão > \"itÓr ia •
qual anun cia que o próp rio méd ico está doen
te
pela mor te cert a.
.
O exam e dessepenovo·t im·e ntár ·io_d e narrativa teme nte Ll-T ock deve espe rar
s e da nova S&-
a inter vém pro-
qüên cia estru tural
rm1 e as segu mtes obse rvaç ões: Ness e preciso mom ento do jogo, o tera peut
sage m é envi ada, o
b . pond o um dilem a para a criança : se a men
l. A seqü ência estru tura l chan de esca par da
ce
ra poss umd ~ o cará ter dia- conh ecim ento do mal pode dar ao inimigo a
crônico, penn anec e, no enta nt ~. ::l,~ preciso envi ar a men-
estru tura ac rôni ca com pens d gua, e fuoc 1ona com o uma morte; se se que r dest ruir o inim igo, não é
, como os papé is do sagem. A criança, inca paz de sair dess
a, inter rom pe o jogo.
herói e do vilão são intercaa b!;L_.De0 fato
pod e esrolhê-los, se faz her6~ 1 outa\~,
~· auto r das. narrativas, q ue A narr ativa , emb ora complexa, deixa-se
anal isar com o o
' 1 ao, r:nas prefe nvelmen te heró i, temo inicialmente re-
s
a seu bel-p raze r. dese nvolvimento da prova simulada. Ten
a:
2. O que faz com q ue osf pape,.is se1a . conh ecer as fun ções constitut ivas da prov
poss a t m intercambiéh·eis e
que a luta ( F ) não
men te, a ausê ncia na econ r? nsdo a
rmar-se em pro,·a, é, evidente -
narr ativa de 1
-não-cl\ F A
não cl\
( dissoluçio
• om1a cont rato
( A) e, por isso, do desti nado r que f . d O, d · qua quer o atua nte-
espera
(fala ) (lua ) (cont rato) ca falta)
aria a Juva nte
-sujeito, ao mud á-lo de missão.
falsa captu ra luta simul:ica: falso - contr ato: retor no da
pedid o de rcs- filha ( e nio
troca entre herói
Obs en a ção: A inte rven l'<io d0 pe uta não se situa fora ' gatc e dê con- e vilio ( e não do objet o
mas dent ro do J·ogo.· e' a n">";t.1ma tera
dese m J d pe1o tera- tr2-rcsgatc dcstin:ador ) do desej o)
1~ a
peul a, que se recusa cont inua r a ' , . pen e nao o terap euta . "
O prob lema com o vem os - ser v1~ a, - (A ) - (não cll)
manifestação (não t's) - (F)
consciência ~s no da dist .bº~º- se ~tua mais no nível da -
, n ~1ça o e a assu nção e.los papéis.
plan o da "dec ep-
Emb ora a p rova se dese nrol e inte iram ente no
d) O dese nvolvimento da prova . ção", isto é. da simu laçã o e do enga no, e
emb ora seja marc ada,
por esse fato. pela inve rsão dos signos
e inter vers ão da sucessão
A crian ça, tend o jura.do ving ança, \ ,o)ta na sem ana segu inte sinta gmá tica das funções. ela cont ém no
enta nto, à exceção do
com um cont o chi ês hong e Li-Tock dois sent a, cons eqüe nte-
band idos inun· . o acam mui to com plexo. Li-Sb d . ' ªsinal'", todos os elemento s constitutivos: apre
pam t om s vime nto da estrutura
igos,
outr o. Shan g, auxi liar de Li-S b e us . an os um dian te do men te, um progresso indi scut ível no dese nvol
do único méd ico da Chin ong anun cia ao chef e a capt ura subj acente ao conj unto do corp us.
a capa z de extermin ar a pest e. Ten do
28()
A principal dificuldade que bloquea rá o desenrolar dessa nar- . d . turas Seu ex-<:hefe o desco-
do cargo e não_ quer sa~er m~~ ~av::ent e ~mpre ende que , uma
.rativa-ocorrência reside, no entanto , na distribuição dos atuantes: bre e chega wespera ~ n : furtar-se
o contrato simulado, válido do ponto de vista funcional, não o é Seu chefe o detem a
nova missão o espera ~ eseJa i a um~ outra cidade onde um
se considerarmos os atuantes que o realizam. O herói sincrético, tempo. A missão consiste em .dr lhe dará uma mensagem de
de fato, só pode fumá-lo com o \.ilão, pois que ele próprio assume, agente considerado desconheci rº
sincreticamente, o papel do destinador e não pode ser, ao mesmo . rt! eia e sua tare a consi.stirá em fazer chegar
, .
a
grand e IIDPº , n . ' A alizar a missão, o agente vivera muitas
tempo, destinatário. O acúmulo dos papéis de sujeito e de destina- mensagem ao destino. 0 re _ .
dor é, além disso, visível quando da dissolu ~o da falta: o objeto rtantes Especialmente rece-
a\'enturas cujos P_?rmenor~ sao ~ rabord ado por um desconheci-
do desejo retoma , pelas mesmas razões, a seu pai-destinador. Mas, berá um certo fenmentod d agd~ amendoim que lhe passa um
sendo destinador, ele não pode mais atribuir-se o vigor qualificante; -do, disfarçado de ven e or fazê-lo foi aililgido por uma bala.
ele o envia pois sob a forma do antivigor ( = doença ) ao vilão.
O ápice do estratag ema se acha assim realizado: o antivigor que
pacote. Mal el~ ~caboub de .d tidade do desconhecido. Procura
O agente tem duvida so re a i en d . ,,
vai ao vilão não é senão um pretens o não vigor; o vilão, entretan to, a mensagem e a encontr a entre os amen oms. , . ,.
o aceita como verdade iro e considera que sua natureza vai privá- Apesar das Jacunas e das indicações sempre sumana s, a analise
-lo de sua força; a manifestação litótica da prova qualificante se da narrativa não apresen ta dificuldades:
acha assim realizada.
O mesmo ocorre com a punição do vilão ( c ): o herói que,
em sua qualidade cumulativa de destinador, é encarre 2
gado de pu-
-
não~ Ai ~
(prova qua-
Pi
(luta)
'1
(sinal)
nio Cs
( dissolução
ni-lo, envia-lhe, desta vez, um verdadeiro antivigor, sob a forma (falta) ( ordem vs acci- da falta)
tação) lificantc)
do médico tomado pela peste. Mas o vilão só pode ser punido
se o herói for já revelado. O herói-<lestinador cai assim na sua o chefe encarte- aventuras tiroteio ferimento rransfcrên·
espera da cia da men·
própria armadilha : enquan to destinador, ele quer enviar um objeto- ga o c:x•agcnte
mensagem sagcm (!)
-mensagem ( não c1 ) que permite reconhecê-lo como herói. f; aqui da missão
que se situa a intervenção do terapeuta.
Obse" ação: Notar-se-á que a na.n:.ativa -abdan~on~ p~r
Obse" ação: Esta intervenção do terapeu ta consiste em . , til ti - da seqüência i01c1al, nao el.Xan 0
ser mu 'al~ repeteçaseonão a situação de falta. O interesse da
°,
tornar explícita a impossibilidade do sincretismo sujeito
destinador, a impossibilidade para o herói de ser seu próprio
+ contexto 1enan , ,
narração, e do locutor, está em outra parte.
destinador. A ausência de um destina dor indepen dente im-
pede o reconhecimento do herói enquanto herói. As duas . d perto a narrativa aparece
Observada um pouco malS e ' -
narrativas seguintes serão, pois, consagradas à pesquisa, ao . , . d d stin dor encontr ado oao reconb ec1·do e
mesmo tempo, do destinador e do reconhecimento. como uma bistona o e a -<l stio
dor está presente
finahnent~ perditº · ~e fatoáe O d~~~a~~~re:: / chefe da contra-
e) Realização da prova.
na ~arrativa, so aª
-espionagem, um es
~::â~r
que vai procurar o destinatário, e o
de d · ue entrega
desconh ecido, ,?isfarç:d~.em veotle d~~sc o:tàoº ~:~oiibeceremos
A nova narrativa proposta pela criança consegue finalmente a "mensa gem , ªº. er?~~ t:~ue é de nacionalidade egípcia.
realizar a prova sob forma positiva. Ela se apresenta como uma facilmente o pro~nodpsi . lista interessante a ser observado,
história de espionagem: "Um agente de um escritór io de contra- 0 papel do destina or-ySicana ,
-espionagem saboreia seu uísque num bar do Cairo. Aposentou-se resume-se em três funçoes:
283
rio•
1. t um dest inad or não reconhecido pelo dest inatá deveria mere cer reco mpe nsa : é o cont rário que
se prod uz. Com o no
' herói "dec epci onado··.
2 · Seu pape l consiste em e tr
~

J(to -f e.nsagem , isto Início da man ifest ação d iscursh·a, o heró i é um
é, o sinal de conhecimento e de re~ o~: - o terminada. O ermi tão.
unen o o enm ento cons- - A narr ativa, entretan to, n&o está aind a
titui, aliás, sua redu ndân cia parc ial ). não o esqueçamos, é o enviadQ da Prov idên cia: está prep a