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Nação, Identidade e

ESTUDOS/ÉTUDES
Unidade Nacional em
Angola
Conceitos, Preceitos e Preconceitos do
Nacionalismo Angolano
Manuel Jorge*
Introdução deixados, na sua maioria, na igno-
rância. O Acto Colonial de 1930,
O nacionalismo é a expressão que reformulou a terminologia
da luta de uma nação para obter o oficial, chamando de novo colónias,
reconhecimento da sua Identidade o que até ali tinha o nome de
Nacional, o que supõe a existência Províncias de Ultramar, propunha-
de um substracto cultural comum, a se, como objectivo essencial, fazer
afirmação de valores e interesses participar os africanos à comuni-
gerais, em detrimento dos interes- dade cultural portuguesa. É sobre-
ses particulares. Em Angola o nacio- tudo a partir desse momento que a
nalismo encontra-se enfraquecido dupla realidade cultural angolana
por causa do relaxamento do espí- vai tomar forma. Ao lado da reali-
rito de Nação. E a luta pela etno- dade cultural africana, vai criar-se
cracia, que veio substituir a luta pela uma cultura europeia que será,
democracia, ameaça a unidade do pouco a pouco, dominante.
Estado angolano e a existência de A realidade cultural africana está
Angola como nação independente. enraizada na realidade geográfica
As autoridades portuguesas mesma de Angola. Mas ela é dife-
declararam sempre que a sua prin- rente das outras realidades culturais
cipal preocupação era a assimila- existentes em África e aparece assim
ção do homem africano. Mas, como o ponto de partida para a
durante muito tempo, se excluir- formação de uma estrutura civiliza-
mos o esforço efectuado pelas esco- cional de um tipo novo. Durante
las missionárias, os africanos foram muito tempo o colonialismo portu-

Luanda - Photo Michel Pérez

n° 28 - décembre 2006 LATITUDES 3


guês negou a realidade dessa pacífica do projecto cultural do definir a angolanidade “como um
cultura. Mas essa sempre resistiu e colonialismo português, dentre os facto simultaneamente político e
está hoje em expansão. O pensa- quais, Assis Júnior, no início do cultural”. Os contornos da angola-
mento dos colonialistas em Angola século, será o principal represen- nidade foram definidos ao longo
foi um dos mais redutores. Ao tante, e vão radicalizar, cada vez dos tempos por camadas sucessi-
mesmo tempo que na esfera econó- mais, as suas reivindicações cultu- vas. A angolanidade já não é hoje
mica procurava-se reduzir o homem rais. (mas foi-o porventura alguma vez?)
africano ao simples papel de produ- o que Costa Andrade entendia por
tor de mercadorias, de que o colo- Os fundamentos este conceito: “Um processo histó-
nialismo tinha necessidade, na rico que tem as suas raízes na negri-
esfera social, ele reduzia o africano Quando, nos anos 1940, os tude”, dizia ele. A angolanidade
ao simples papel de sujeito, no jovens intelectuais angolanos mudou de natureza e, sobretudo, de
sentido de submetido. Na esfera lançam a palavra de ordem: “Vamos fundamento. A angolanidade foi
cultural, a ambição do colonialismo, descobrir Angola”, as premissas tecida pela acção conjugada de três
várias vezes repetida, era a de redu- estão criadas para a passagem da factores: a realidade geográfica, a
zir o africano ao simples papel de resistência cultural não armada à estrutura social e a organização polí-
portador de valores europeus. resistência cultural armada. Com tica. É este último factor que parece
É verdade que não podemos efeito, é esta geração de jovens ser determinante no processo de
negar que a coexistência no mesmo escritores que nos finais dos anos evolução da angolanidade.
território de europeus e africanos 1950, constando o impasse a que O esforço feito pela classe inte-
implica uma interacção que se faz, conduz a resistência não armada, lectual angolana, no sentido da afir-
independentemente dos pontos de não se contenta já a partir “à desco- mação do facto cultural africano
vista das sociedades em presença. berta de Angola”. Como as portas encontrou dois obstáculos: a falta
Mas não é sob este ângulo que a estavam sistematicamente fechadas de instrumentos e a falta de um
questão deve ser analisada. Trata- pelo colonizador português, estes quadro autónomo de e para a sua
se, aqui, de saber se a interacção jovens decidem abrir uma brecha expressão. É que a colonização
implica, obrigatoriamente, a exclu- pela força. portuguesa impunha um limite
são de uma das culturas em A geração de Viriato da Cruz, duplo a todos aqueles que preten-
contacto. A resposta é, necessaria- Agostinho Neto, Mário de Andrade, diam representar os valores locais:
mente, negativa. Porque, se ainda António Jacinto e tantos outros é não somente a língua utilizada devia
não fosse, já não haveria interac- uma geração de literatos empurra- ser a do colonizador, mas também,
ção. Ora, sob a influência do colo- dos para a política, em virtude da e sobretudo, o pensamento
nialismo português, desenvolveu-se força de inércia do colonialismo expresso devia estar em sintonia
uma tendência, mesmo entre os português. Aliás, são esses mesmos com os princípios da colonização
intelectuais de origem angolana, a literatos que, em várias ocasiões, portuguesa.
negar a possibilidade e a realidade nos lembrarão esse facto. Para eles, Um desses princípios foi enun-
expressiva das culturas negro-afri- a luta armada de libertação nacio- ciado por Ernesto de Vilhena nos
canas, cada vez que estas não se nal é um facto cultural, senão um termos seguintes: “O negro, para se
regulassem pelos valores culturais instrumento de cultura. O idealismo poder aperfeiçoar e melhorar as
europeus. dessa geração condu-los a conce- condições materiais e morais da sua
A realidade social impunha, no ber o nascimento do homem novo, vida, deverá abandonar uma grande
entanto, a realização dos princípios fruto da nova cultura. parte do que constituía a sua
expressos por aqueles que se recla- Para os líderes do Movimento própria cultura, e adoptar os valo-
mavam da tradição humanista e pela Independência, a cultura é a res da nossa civilização, adaptando-
cristã na colonização. A resistência vida mesma do povo, porque, em se, nos seus limites, a certas funções
cultural vai partir dos beneficiários última análise, a nação se alimenta e obrigações, com o fim de demons-
destas ilhas de tolerância. Desde a com a sua própria cultura. A resis- trar a sua aptidão e a sua capaci-
segunda metade do século XIX, tência cultural revela-se, aos membros dade, e mostrar que tais valores
jornalistas, no início (Paixão Franco da sociedade dominada, como o podem ser necessários e profícuos
e Pereira do Nascimento, sobre- único reduto em que foram encur- para o progresso geral da comuni-
tudo) e escritores, em seguida, ralados. A identidade cultural apre- dade de que fará parte, a partir de
tomam a decisão de exprimir o seu senta-se, assim, no seu aspecto agora.”
apego aos valores sócio-culturais activo, quer dizer, como elemento Nesse processo a escola portu-
africanos, ao mesmo tempo que principal da identidade nacional. guesa vai desempenhar um papel
denunciam o carácter obscurantista importante, senão principal. Mas o
da política de assimilação praticada fluxo cultural não se fará em sentido
pelos portugueses. A angolanidade único. Sob a influência do meio
As sementes estavam lançadas! ambiente, produzir-se-á uma inter-
As gerações, no século XX, vão Não é, aliás, por acaso que um acção entre a cultura local e a
prosseguir a obra de contestação certo número de autores tentaram cultura europeia dominante.

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Dois dos elementos do método cultural: politicamente, ele é um Silva Rego exprime esse facto
de colonização português devem assimilado aos portugueses, mas com elegância e cortesia: “A língua
ser postos em relevo, em virtude deverá ele, também, ser cultural- nacional, adaptando-se a todas as
do papel que desempenham: por mente português? A solução do latitudes, tomou novas ressonân-
um lado, a língua, por outro, a dilema depende de factores depen- cias, vergou-se a quase todas as
instrução. A língua, segundo A. Silva dentes e independentes da vontade exigências, perdeu consoantes,
Rego, é um elemento tão impor- dos indivíduos. Sob o efeito da inter- abriu vogais, imitou novos sons,
tante na colonização que ela é acção das culturas, a língua portu- empobreceu, enriqueceu... para o
posta, em segundo lugar, depois da guesa africanizou-se e o homem bem da humanidade.”
religião. “A língua da metrópole europeu também se angolanizou. O exemplo da transformação da
portuguesa, diz ele, foi o veículo Veículo da cultura portuguesa e língua portuguesa no Brasil vai
de expressão de todos estes milhões instrumento de dominação, a língua repetir-se em Angola, porque, como
de seres humanos empenhados na portuguesa não sai vencedora no diz Viriato da Cruz, “os colonizado-
obra comum, para a grandeza da combate que lhe impõe o meio res portugueses não negam a exis-
Pátria comum... E o resultado foi ambiente africano, que resiste aos tência de uma cultura negra; o que
maravilhoso.” seus assaltos. eles negam, através de uma argu-

A assimilação

Mas, no seu esforço para a assi-


milação dos espíritos é a escola
portuguesa que vai desempenhar o
papel principal. Era preciso criar
elites locais, que serviriam de pilar
à política colonial. Mas os proble-
mas suscitados pelo sistema educa-
tivo eram graves. Para evitar esses
problemas, o regime de Salazar, que
resultou do golpe de Estado de
1926, apoiando-se na distinção
entre indígenas e civilizados, criou
um sistema de educação com dois
degraus: um para portugueses e
assimilados e outro para indígenas.
Enquanto o primeiro seguia o
regime em vigor na metrópole, o
segundo limitava-se a dispensar um
ensino rudimentar, cujo fim essen-
cial era ensinar os seus destinatá-
rios a falar, ler e escrever a língua
portuguesa. Um tal sistema não
podia deixar de ter repercussões
sobre os outros níveis de ensino e,
sobretudo, sobre o ensino superior.
Foi preciso esperar os meados
dos anos 1960 para que, sob a
influência da política conduzida
pelo angolano Pinheiro da Silva,
então Secretário de Estado da
Educação em Angola, se constate
um acréscimo importante da popu-
lação angolana escolarizada. O
progresso do sistema de ensino
angolano é, então, tão importante
que o facto é assinalado na
imprensa estrangeira.
Tendo acedido à cultura portu-
guesa através da instrução, o ango-
lano encontra-se face a um dilema Mulher Muila

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Nação e diversidade étnica

No domínio étnico, trata-se de


reconhecer o direito à diferença, às
diferentes componentes da Nação.
A ideia central que comanda tal
acção é o postulado seguinte: os
membros da nação são, simultanea-
mente, iguais e diferentes. Se eles
são iguais perante a lei, eles são
diferentes quanto às origens, às
culturas e às psicologias. É, pois,
necessário reconhecer a diversidade
étnica da Nação e, sobretudo, afir-
mar o princípio segundo o qual não
existe, no território angolano, uma
etnia dominante.
É que a Nação enriquece-se com
as suas próprias contradições e,
Juventude na Escola com o esforço feito, para resolvê-
las de maneira justa e apropriada.
mentação que eles intitulam de lhada de povos, de raças, de cultu- Onde não há contradição, não há
científica e definitiva, e mesmo nos ras e de ideais, Angola é um país evolução. Com efeito, a luta de
actos - o que é mais importante - é projectado para o futuro. libertação nacional é, também, uma
que tais culturas possam servir de luta pela identidade nacional. A
base a verdadeiras e novas civiliza- soberania não é, no fundo, senão o
ções.” Este processo de transforma- A Nação resultado do esforço feito por uma
ção linguística, que se desenvolve comunidade, que decide de a utili-
pela força das coisas, tem que E a primeira tarefa a realizar era zar, para melhor afirmar a sua exis-
vencer a oposição dos puristas que, a edificação do principal pilar do tência e a sua originalidade.
em nome da superioridade da Estado, quer dizer, unir a Nação. Na luta contra a opressão colo-
língua portuguesa recusam todo o Para atingir tal objectivo, nenhum nial, essa afirmação da personali-
efeito à interacção. método é exclusivo ou definitivo. dade nacional supõe, entre outras
Mas não é somente a língua que Mas, no caso particular de Angola, coisas, a libertação cultural. É a
sucumbe às exigências do meio tendo em conta a complexidade da razão pela qual Mário de Andrade,
ambiente. O próprio homem não tarefa, duas direcções parecem falando de Angola, revela que: “...
pode resistir à atracção da terra e essenciais: a redefinição dos contor- a questão cultural sempre esteve
das gentes. Enraizado na terra e na nos da Nação e o reconhecimento articulada nas diferentes fases do
cultura angolanas, o homem euro- do direito à diferença de todas as nacionalismo.”
peu, que se instalou em Angola, suas componentes. Não se trata aqui, aliás, de uma
muitas vezes sem esperança de Os contornos da Nação ango- questão particular das sociedades
retorno, e mesmo sem nunca ter lana, em construção, eram, quando dependentes. Max Weber, por exem-
pensado abandonar essa terra, onde Angola acedeu à independência, plo, fazia da cultura o fim e o funda-
nasceu, é um homem cada vez mais vastos do que os que existem mento de toda a política de potência.
menos europeu. António Jacinto, actualmente. No domínio racial, Em África, o problema da afir-
Luandino Vieira, António Cardoso e compreendia todos aqueles que, mação da identidade nacional conti-
tantos outros são os testemunhos pelo sangue, pelo nascimento ou nua na ordem do dia dos debates
da força e do valor da angolani- pelo trabalho, tinham laços com o entre intelectuais e homens políti-
dade, enquanto expressão da iden- território angolano e desejavam cos. As questões debatidas conti-
tidade nacional. mantê-los. Fazia parte desse nuam a ser, com algumas nuances,
Mas, como diz Viriato da Cruz, conjunto a quase totalidade dos as que foram levantadas por Mário
“O intelectual colonizado, mais negros, mas também a quase totali- de Andrade, desde 1962: “Como
cedo ou mais tarde, dar-se-á conta dade dos mestiços e uma grande assegurar o renascimento cultural
de que não se prova a sua Nação a parte dos brancos, que tinham com dos países anteriormente coloniza-
partir da cultura. A Nação prova-se o território angolano laços profun- dos? Que espaço deverá ser reser-
no combate que o povo trava contra dos, que não eram somente senti- vado à tradição ? Como elaborar
as forças de ocupação.” Era preciso mentais. Ignorar esse facto não uma cultura africana original, que
preparar o futuro de Angola. E, pode senão tornar definitiva a divi- tenha em conta, ao mesmo tempo,
nesse combate, o papel dos intelec- são da Nação angolana e contribuir a tradição a as aquisições da civili-
tuais foi fundamental. País encruzi- assim para o seu enfraquecimento. zação moderna?”

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Em Angola, os nacionalistas sobre a cultura angolana. As respos- e a colonização marcará, durante
tentaram responder a tais questões tas que foram dadas estão longe de muito tempo ainda, a vida do nosso
numa proclamação adoptada em ser unânimes. A razão principal povo angolano.”
1975 pela União dos Escritores reside no facto que, aqueles que Não é, pois, na negritude que se
Angolanos. Constatava-se nesse procuraram definir a angolanidade, deve procurar as raízes da cultura
documento: “1°) a necessidade e a esqueceram, muitas vezes, os seus angolana. Proceder dessa maneira
urgência de defender a dignidade e elementos constitutivos. seria negar o efeito de aculturação
a especificidade cultural do homem que resultou da colonização. O
angolano e salvaguardar, especial- fenómeno cultural angolano deve
mente, as suas tradições culturais, Os factores de unidade ser estudado como um fenómeno
historicamente perspectivadas e social total, e não como o simples
garantidas, por séculos de resistên- A angolanidade é um dos múlti- resultado de um contacto de cultu-
cia popular, assim como as conquis- plos neologismos que os naciona- ras. Devemos, infelizmente, consta-
tas culturais obtidas ao longo da listas angolanos forjaram, no tar que o próprio Agostinho Neto
luta pela independência nacional; decurso da luta de libertação. também caiu no erro de uma abor-
2°) a necessidade e a urgência de Criado, talvez, por Alfredo dagem culturalista do fenómeno
activar, a partir dessas tradições e Margarido, em 1960-61, o termo social angolano. “A cultura ango-
conquistas, o inventário cultural do aparece pela primeira vez num lana, diz ele, está constituída, hoje,
país, no contexto particular do artigo de Fernando Costa Andrade, por partes que vão das áreas urba-
renascimento cultural africano, que dá desse conceito a definição nas assimiladas até às áreas rurais
como contribuição original para um seguinte: “É preciso entender-se por apenas influenciadas pela assimila-
mundo verdadeiramente livre.” Angolanidade não somente a negri- ção cultural europeia”. É esquecer
Tratava-se, no fundo, de uma tude, mas também a perspectiva do os critérios da aculturação, na
incitação à pesquisa dos elementos homem-novo que Frantz Fanon medida em que ele reduz essa acul-
susceptíveis de permitir a constru- menciona como sendo indispensá- turação à sua forma forçada,
ção da angolanidade, com vista à vel para um diálogo efectivo entre enquanto ela também pode ser
sua integração na africanidade. É os homens de África e dos outros espontânea, natural, livre ou mesmo
que a presença portuguesa deixou continentes”. controlada.
traços profundos na terra, nas coisas Essa definição, elaborada sob a Talvez seja a definição de Alfredo
e nas gentes. Do ponto de vista pressão dos acontecimentos polí- Margarido a que mais se aproxime
humano, a assimilação foi a arma tico-militares, que se desenrolavam daquilo que é, verdadeiramente, a
essencial utilizada para a “conquista em Angola, não aparece apta para angolanidade; quer dizer “a substân-
das almas.” descrever a realidade cultural ango- cia nacional angolana”. Essa noção
Os nacionalistas angolanos, na lana. Ela não toma em considera- permite re-situar a problemática
sua luta para estabelecer uma enti- ção a historicidade do fenómeno cultural angolana na sua historici-
dade estadual no solo angolano, cultural angolano. É Agostinho Neto dade, porque mostra que: “Angola
contestaram essa política, tanto que nos lembra essa historicidade tem uma característica cultural
como princípio quanto como quando declara: “O povo e o meio própria, que resulta da sua história
método. E a razão principal residia ambiente foram, aqui em Angola, ou das suas histórias”, para retomar
no facto que, segundo o movimento marcados pelo ferro da escravatura, uma expressão de Agostinho Neto.
pela independência de Angola, o
quadro político colonial não era
apto para satisfazer a necessidade
que se fazia sentir de um desabro-
char da cultura angolana.
Em última análise, o que os nacio-
nalistas angolanos procuravam era
um bilhete de identidade para o
Estado angolano em vias de constru-
ção, de maneira a poder fazê-lo valer,
tanto no interior como no exterior do
território. Segundo Mário de Andrade,
as questões que se punham aos
nacionalistas eram as seguintes:
“Rejeição definitiva do substracto
negro-africano? Diluição na cultura
dominante? Aceitação da pseudo-
condição de mestiço cultural?”
Essas interrogações marcaram
toda a reflexão dos nacionalistas Lubango - Universidade - Photo Michel Pérez

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O que é verdade é que a noção lidade é a do homem angolano, em pela rejeição do substracto negro-
de angolanidade foi obscurecida luta contra os processos erosivos africano, nem pela diluição numa
com o tempo e parece, por vezes, da alienação”. qualquer cultura dominante e, ainda
imprecisa na sua formulação ou Não se pode deixar de constatar menos, pela aceitação da “pseudo-
inexacta no seu conteúdo, porque que todo este esforço de constru- condição de mestiço cultural”.
é uma noção evolutiva. Aqueles que ção da angolanidade se faz em A angolanidade constrói-se com
procuraram esclarecê-la não toma- abstracto. Ela não tem assento tudo aquilo que a História legou ao
ram em conta os factores da sua nenhum na realidade, que ela povo angolano: o substracto negro-
evolução. Com efeito a angolani- ignora, para se refugiar nas núvens africano e os elementos da cultura
dade tem dois fundamentos: um fungíveis da filosofia. Mas, mesmo dominante que, ao longo dos sécu-
político e outro cultural. nesse terreno a opção não parece los, penetraram até ao fundo do
No domínio político, a angolani- adaptada. inconsciente popular. Será que essa
dade aparece como um instrumento Sabemos quanto a negritude, concepção conduz à aceitação da
necessário, senão indispensável, enquanto afirmação do facto cultu- condição de mestiço cultural?
para a criação e a afirmação da iden- ral africano, está hoje contestada. Absolutamente, não! É que essa
tidade nacional em construção. No Do mesmo modo, o “retorno às concepção é a única que seja
fundo esse fundamento é a conse- origens” ou à busca da autentici- conforme à realidade. Ela parte do
quência lógica da reflexão e da dade encontram hoje tais dificulda- princípio que não há cultura pura,
influência que Frantz Fanon exerceu des, que vão sendo, pouco a pouco, como não há raça pura. E é por isso
na luta pela independência: “Nós abandonados como conceitos. que devemos assumir, plena e intei-
pensamos que a luta organizada e A angolanidade deve construir- ramente, a realidade histórica que
consciente empreendida por um se a partir dos elementos concretos forjou Angola e a sua cultura.
povo colonizado para restabelecer a em que se manifesta, não como um
soberania da Nação constitui a maior esforço de negação de uma reali-
manifestação cultural possível”, dizia dade cultural imposta, mas como Os preconceitos
ele, desde 1959. um esforço de afirmação de uma
Mas esse fundamento político realidade cultural nova, que nasceu A análise dos elementos constitu-
vai sempre acompanhado com um do cruzamento de civilizações. Só tivos da cultura angolana mostra que
fundamento cultural, que lhe dá a uma abordagem desse tipo pode essa concepção é conforme à reali-
sua dimensão real. É que a angola- permitir-nos ligar o cultural e o dade. Tomemos, por exemplo, dois
nidade serve de revelador aos social, porque, diz Roger Bastide, elementos: o elemento linguístico e
alicerces da cultura autónoma da “...essas duas séries de factos não o elemento psicológico. No domínio
Nação angolana em formação. se podem separar e estão em rela- linguístico, a língua portuguesa foi
Mário de Andrade apresenta essa ção dialéctica estreita: a integração adoptada como língua oficial do
problemática da seguinte maneira: conduz à assimilação; a competição país. Mas os nacionalistas parecem
“No caso dos portugueses, a assimi- implica uma contra-aculturação. Os lamentar essa opção e pronunciam-
lação sempre se traduziu, na prática, fenómenos de contactos culturais se por um combate contra a língua
pela destruição dos quadros negro- estão ligados às relações raciais e do colonizador. É o próprio
africanos e a criação de uma elite condicionados por elas”. Agostinho Neto que se exprime nos
quantitativamente reduzida. Ela O problema da angolanidade termos seguintes: “... o uso exclu-
apresenta-se como a receita mágica ultrapassa, pois, o quadro restrito sivo da língua portuguesa, como
que conduziria o indígena das da pesquisa sobre a noção, para língua oficial, veicular e utilizável,
trevas da ignorância até à luz do atingir o próprio conteúdo. A ques- actualmente, na nossa literatura não
saber. Uma forma de passagem do tão já não é tanto a de saber o que resolve os nossos problemas”.
não-ser ao ser cultural, para utilizar se deve rejeitar, mas a de reunir
a linguagem hegeliana’. todos os elementos susceptíveis de
Para sair do impasse ao qual participar na construção da angola- Língua e linguagens
conduz tal política, os nacionalistas nidade. Se procurássemos respon-
angolanos propõem um estudo der às questões tal como as põe É verdade que os portugueses
aprofundado “...das questões que Mário de Andrade encontrar-nos- procuraram impor a língua portu-
advêm das culturas das diferentes íamos diante de um vazio. É que, guesa em todos os degraus da
nações angolanas, hoje confundi- tais questões, não parecem correc- construção social angolana. Eles não
das numa só, e dos efeitos da acul- tamente formuladas. É verdade, e hesitaram em tentar a utilização de
turação, dado o contacto com a este factor é importante, que tais métodos conducentes à destruição
cultura europeia”. Em suma, a estra- questões foram elaboradas no fogo das línguas indígenas, como eles
tégia proposta visa, ao mesmo do combate pela independência diziam. Mas, nesse combate, com
tempo, “um retorno às origens”, e nacional. Não podemos, nem deve- armas desiguais, o projecto portu-
uma rejeição da contribuição estran- mos, ignorar esse facto. Mas, seja guês nem sempre saiu vencedor.
geira porque, como diz Costa como for, é importante constatar Restará, certamente, a ilusão de uma
Andrade: “a perspectiva da angona- que a angolanidade não se constrói vitória. Mas somente a ilusão!

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Porque, se a língua portuguesa foi lano. “Ele serve-se somente dela, nem na totalidade. O nosso objec-
introduzida como língua oficial em porque o colonizador lhe permite, tivo é, simplesmente, de mostrar
Angola, ela será, como diz Alfredo por um lado, e o obriga, por outro como o mundo dos valores e dos
Margarido, “...influenciada pela (na verdade tal obrigação não é símbolos, por um lado, e as expres-
língua autóctone e determinará a nunca total; as deformações fonéti- sões da vontade do povo, por outro
criação - não do que se chama o cas começam, desde que o coloni- lado, apesar de sofrerem os efeitos
português do colonizador - mas de zado é forçado a utilizar a língua do da civilização europeia, não perde-
uma forma híbrida, mais negra do colonizador). Assim, se a palavra não ram em nada a sua especificidade.
que portuguesa”. o distancia dos problemas humanos
O colonizador, para melhor se e permite-lhe entrever uma solução
fazer compreender, acaba por adop- para tais problemas, também o força Culturas e vivências
tar um meio de expressão imposto, a exprimir em português as particu-
indirectamente, pelo colonizado. O laridades da sua posição de negro Aquilo a que se chama, por
uso dessa nova língua é muito colonizado, cuja cultura tradicional exemplo, a mentalidade angolana,
corrente e, mesmo na obra de certos tem as suas raízes no Kimbundu.” quer dizer, o conjunto das maneiras
poetas que melhor conhecem o Se se tiver em conta o facto de de viver, de sentir e de pensar,
português, encontramos deforma- que esse extracto foi tirado de um próprios ao povo angolano, foram
ções muito características: Mário artigo sobre a poesia de Agostinho fortemente influenciados pelo
António, António Jacinto. Neto, não é difícil concluir-se que a contacto directo ou indirecto com a
Aqueles que conduzem um língua angolana, quer dizer, o civilização europeia. A contribuição
combate contra a língua portuguesa português falado em Angola, é um tecnológica desta última e as suas
ignoram, portanto, completamente elemento importante da construção técnicas comerciais e culturais
o processo de “invenção da língua da angolanidade. Num país em que marcaram profundamente as trans-
angolana”. O mesmo processo já se a diversidade linguística é uma fonte formações das formas de expressão
desenrolou no Brasil. Alfredo de instabilidade e de confrontações da mentalidade angolana.
Margarido explica assim essa inven- entre as diversas etnias, a existên- Essa realidade foi constatada por
ção da língua: “...a relação entre a cia de uma língua comum, supra- Agostinho Neto nos termos seguin-
língua do colonizador e a língua do étnica, aparece como um elemento tes: “... no contexto angolano, a
colonizado é precária. Mais ainda: de aglutinação da Nação. Essa expressão cultural resulta, senão de
verifica-se que os africanos, apesar língua é o português falado em cópia -por enquanto - pelo menos
da sua presença prolongada junto Angola, nascido, não de uma defor- do resultado duma aculturação
do colonizador, não aprendem o mação do português, mas de uma secular, que pretende reflectir a
português. Eles aprendem uma “...reinvenção da língua, que parece evolução material do povo que, de
língua intermédia, que lhes permite provar a grande vitalidade do portu- independente, tornou-se submisso
somente uma identificação superfi- guês, mas também a necessidade e completamente dependente para
cial.” angolana de abandonar o espaço tornar-se de novo independente,
Haverá uma rejeição do subs- de glotofagia, para utilizar uma em novas condições.”
tracto negro-africano no processo expressão em voga, actualmente. É verdade, sim, que a cultura
de invenção da língua angolana? A Depois de ter, assim, delimitado angolana, a nova cultura angolana
resposta, como podemos verificar, o elemento linguístico da angolani- é aquela que foi construída pela
só pode ser negativa. E também é dade, resta-nos a delimitar o história, e o realismo exige que
evidente que não há diluição na elemento psicológico. É que, na assumamos a história. É o próprio
cultura dominante. A língua ango- verdade, como diz Roger Bastide, Agostinho Neto que nos indica essa
lana é o produto da história comum “...a dialéctica que intervém nos via. Escutemo-lo: “A cultura evolui
de duas civilizações, que fizeram cruzamentos de civilizações dife- com as condições materiais e a cada
mais do que coexistir (porque dois rentes deve ser destacada de toda a etapa corresponde uma forma de
povos podem coexistir, mesmo postulação filosófica e ficar pura- expressão e de concretização de
pacificamente, e, no entanto, odiar- mente empírica: ela põe-nos em actos culturais.”
se profundamente). A língua ango- presença de um duplo movimento, Os estudos dos etnólogos sobre
lana é o produto da história de dois que vai das supra-estruturas à infra- Angola mostram bem que, apesar
povos que viveram juntos, durante estrutura e vice-versa, que produz da influência portuguesa, a socie-
séculos. toda uma série de reacções em dade angolana não se dissolveu nos
Ao utilizar a língua portuguesa, o cadeia, ou dos valores que mudam cânones e valores propostos pela
intelectual angolano também não até ao nível ecológico, ou das estru- cultura dominante. Ela adaptou-se
aceita a “pseudo-condição de turas que se modificam e transfor- e produziu um novo sistema de
mestiço cultural”. Para compreender mam os valores, as normas e os valores e de normas, que consti-
o sentido e o alcance dessa afirma- símbolos.” tuem os elementos, não de uma
ção, voltemos a Alfredo Margarido. O elemento psicológico da mentalidade portuguesa, mas de
Para este autor, a língua portuguesa angolanidade não será tratado aqui, uma mentalidade angolana. É certo
não é a língua do intelectual ango- nem em toda a sua complexidade, que houve sincretismos religiosos

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sociedade euro-africana se estrutu-
rou.
A colonização portuguesa criou,
assim, um africano de tipo novo.
Destribalizado, não sabendo, por
vezes, falar a língua local, impelido
para as estruturas organizacionais
europeias e, enfim, urbanizado, o
assimilado desempenha, plena-
mente, o seu papel de pilar da colo-
nização. A partir de 1961, o desen-
volvimento do sistema educativo vai
permitir o aumento da miscelânea
racial e do número de africanos que
fazem parte da sociedade euro-afri-
cana. A identificação do estatuto
sócio-económico com a raça encon-
tra-se já em vias de desaparecimento.
A diferenciação biológica vai ser
substituída pela diferenciação cultu-
ral.
No mercado - Huila - Photo Michel Pérez

que “...incluem o culto de Cristo em “...a cultura angolana é africana, ela


quase todo o território...” Mas “o é sobretudo angolana”. Conclusão
mundo sobrenatural dos indígenas”, As “tradições, princípios e méto-
para retomar a expressão de Jorge dos da colonização portuguesa” Nas vésperas da independência,
Dias, ficou afastado do racionalismo para retomar o título do estudo do a Nação angolana ainda não se tinha
científico, que teria, sem isso, professor Marcelo Caetano, tiveram consolidado. A luta pela indepen-
destruído a sua própria substância. em Angola uma característica parti- dência foi um dos factores de aglu-
As normas e os valores que cular: o esforço para assimilar o afri- tinação da nação. A divisão da
entram na constituição da angolani- cano ao europeu. Essa orientação Nação angolana está na base da
dade podem encontrar-se, na sua repousava sobre duas bases: ela guerra fratricida. A política colonial
expressão concentrada, nas reco- tinha, por uma lado, um funda- de dividir para reinar fez com que
lhas de Óscar Ribas e Estermann, mento filosófico, cujo núcleo era a se reforçassem os germes da divi-
que nos revelam, não um mundo moral cristã, e por outro, a necessi- são: o racismo, o regionalismo, as
petrificado, voltado para si mesmo, dade de uma certa eficácia, na reivindicações de carácter étnico.
mas um mundo que, ao mesmo implantação do sistema administra- Foi assim que o projecto naciona-
tempo que tem as suas raízes na tivo português. Seja qual for a lista falhou. A paz só é possível
terra angolana, não resistiu à atrac- importância do juízo de valor que quando os nacionalistas se decidi-
ção dos factores exógenos. possamos ter sobre as ambições dos rem a lutar, não por interesses
Agostinho Neto exclamou-se um dia portugueses, não podemos, de mesquinhos, mas pela causa da
nos termos seguintes: “Felizmente a maneira nenhuma esquecer a obra democracia, fazendo tudo pela
hesitação e a dúvida foram criadas realizada. Nação e nada contra a Nação.
sobre a questão de saber se a O assimilado era um africano O que está em causa é a unidade
cultura portuguesa, que serviu algu- desenraizado que cortou os laços de Angola enquanto Estado: ou a
mas camadas sem ligação com o culturais com a sociedade africana unidade se faz na diversidade, ou a
seu povo, é ou não a que deveria originária, para adquirir e utilizar divisão da Nação se perpetua, com
ser apresentada como a emanação “os hábitos e costumes” dos euro- as suas repercussões sobre a
cultural do povo angolano. Mas a peus. Para obter esse estatuto, ele unidade do Estado. Em suma, a
questão não se põe nesses termos devia passar com sucesso um teste equação a resolver resume-se no
e nunca foi assim posta, mesmo por que compreendia, entre outras binómio seguinte: regionalismo ou
angolanos de origem europeia. A provas, as seguintes: falar e escre- nacionalismo. A questão parecia ter
reivindicação de angolanidade foi ver correctamente o português, sido resolvida durante a luta pela
sempre um facto para todos os viver de um trabalho regular e independência. Ela volta a pôr-se
angolanos, tenham eles ou não dispor de um certo rendimento. O com grande acuidade, o que vem
participado no esforço de contesta- africano que tivesse passado com justificar a trilogia que constitui o
ção do colonialismo português. O sucesso esse teste era assimilado título deste artigo G
homem angolano nunca se sentiu aos europeus e beneficiava, assim, * Maître de conférence à l’Université de
culturalmente português, porque, dos privilégios reservados à socie- Paris V; président de la Maison de
como diz o próprio Agostinho Neto, dade europeia. Foi assim que a l’Angola (Paris).

10 LATITUDES n° 28 - décembre 2006