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formando.html

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

QUE TIPO DE SUJEITO ESTAMOS FORMANDO?

ROMUALDO MONTEIRO DOS SANTOS, PROFESSOR DE FILOSOFIA - ZERO HORA 31/10/2011

O sujeito socrático estava fundado num espectro de beleza interior. E ele nascia num diálogo ou
numa conversa descomprometida. Sócrates sempre teve um discurso crítico acerca do espírito
hedonista, narcísico ou de qualquer tipo de beleza fundada na estética humana. Seu prazer
estava numa vida alicerçada na virtude (a porta de entrada para a Felicidade, através do Bem).
E o melhor, isto deveria ser “arrancado do interior do homem”, por um ato dialético. Esta virtude
nasceria do interior do ser. Entretanto, na atualidade, ao que parece, a estética física ganhou
um estereótipo, no mínimo, comparável à sabedoria, à inteligência e à perfeição. O padrão de
qualidade do esteticismo humano é, porém, quase desumano. Justamente por este sujeito não
passar de um simples utensílio “oco”, “perecível” e com “prazo de validade vencido”. O oco é
quando uma cinturinha fina, seios volumosos, bumbum arrebitado (jargão de beleza utilitarista),
ou o musculoso, todo sarado. Ambos têm mais valor que um cérebro ter a capacidade de pensar,
refletir, instigar ou analisar minuciosa e racionalmente.

Talvez o “pensar” possa pesar muito! Por isto é melhor mantê-lo vazio, afinal de contas, que
utilidade tem um cérebro que reflita? O perecível é quando o ser humano se torna refém de um
modelo padronizado, enlatado ou engessado de determinado tipo cultural. Exemplo clássico
desta sociedade são as crianças e as pessoas idosas, presas frágeis desta parafernália midiática
do consumo. As primeiras, com alguns meses de vida e já fazem parte do manancial
mercadológico da indústria infantil. Bundinhas de fora ou super bem vestidas, sorrisos
inocentes, enfim, todos se maravilham com estas crianças e não discernem o malogro esteticista
que já começa a tomar forma na infância. Já as segundas, muitas sexagenárias, setuagenárias e
até octogenárias são estimuladas ou, quem sabe, estigmatizadas a se produzirem como se
fossem eternas menininhas que vez e outra tomam um banho na fonte da juventude. E esta só
existe graças àqueles cérebros vazios que reportamos anteriormente.

Tal fonte não passa de uma miragem que teima em surgir nos momentos de torpor, a fim de
aliviar o desespero humano. Aqui encontramos o utensílio com o prazo de validade vencido.
Pois sabemos que nesta fase final da vida o ser humano precisa se aceitar. Deve, no mínimo,
aceitar seu corpo físico já todo enrugado, conviver com suas limitações, no que diz respeito à
sua saúde, a fim de ter, no mínimo, certo preparo frente à morte que teima em se aproximar e,
velozmente. Vale recordar o que disse Heidegger, filósofo alemão – o homem é um ser para a
morte – e às vezes, por causa desta histeria esteticista, nos esquecemos de uma realidade tão
concreta, verdadeira e factual.