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Professor Daniel Mayerle

O DIREITO NAS SOCIEDADES PRIMITIVAS

Antônio Carlos Wolkmer1

Sumário
1. Introdução 2. Formação do direito nas sociedades primitivas 3. Características e fontes do
direito arcaico 4. Funções e fundamentos do direito na sociedade primitiva 5. Considerações
finais 6. Referências bibliográficas

1. Introdução

Toda cultura tem um aspecto normativo, cabendo-lhe delimitar a existencialidade de


padrões, regras e valores que institucionalizam modelos de conduta. Cada sociedade esforça-
se para assegurar uma determinada ordem social, instrumentalizando normas de
regulamentação, essenciais, capazes de atuar como sistema eficaz de controle social.
Constata-se que, na maioria das sociedades remotas, a lei é considerada como parte nuclear
de controle social, elemento material para prevenir, remediar ou castigar os desvios das
regras prescritas. A lei expressa a presença de um direito ordenado na tradição e nas
práticas costumeiras que mantêm a coesão do grupo social.
Certamente que cada povo e cada organização social dispõem de um sistema jurídico
que traduz a especialidade de um grau de evolução e complexidade. Falar, portanto, de um
direito arcaico ou primitivo implica ter presente não só uma diferenciação da pré-história do
direito, como, sobretudo, nos horizontes de diversas civilizações, precisar o surgimento dor
primeiros textos jurídicos com o aparecimento da escrita.
Não só subsiste um certo mistério, como falta uma explicação cientificamente correta
e respostas conclusivas acerca das origens de grande parte das instituições jurídicas no
período pré-histórico. Entretanto, ainda que prevaleça uma consensualidade sobre o fato de
que os primeiros textos jurídicos estejam associados ao aparecimento da escrita, não se
pode desconsiderar a presença de um direito entre povos que possuíam formas de
organização social e política primitivas sem o conhecimento da escrita. Autores como John
Gilissen questionam a própria expressão direito primitivo aludindo que o termo direito
arcaico tem um alcance mais abrangente para contemplar múltiplas sociedades que
passaram por uma evolução social, política e jurídica bem avançada mas que não chegaram
a dominar a técnica da escrita. Assim sendo, as inúmeras investigações científicas têm
apurado que as práticas legais de sociedade sem escrita assumem características, por vezes,
primitivas, por outras, expressam um certo nível de desenvolvimento.
Certamente que a pesquisa dos sistemas legais das populações sem escrita não se
reduz meramente à explicação dos primórdios históricos do direito, mas evidencia,
sobretudo, um enorme interesse em curso, porquanto milhares de homens vivem ainda
atualmente, na segunda metade do século XX, de acordo com direitos a que chamamos
arcaicos ou primitivos . As civilizações mais arcaicas continuam a ser as dos aborígenes da
Austrália ou da Nova Guiné, dos povos da Papuásia ou de Bornéu, de certos povos índios da
Amazônia na Brasil 2.
Não parece haver dúvida de que o processo contemporâneo de colonização gerou
um surto de pluralismo jurídico, representado pela convivência e dualismo concomitante, de
um direito europeu (common law nas colônias inglesas e americanas, direitos romanistas

1
Professor e pesquisador nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Direito da UFSC. Doutor em Direito e professor
titular de História das Instituições Jurídicas. Membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros.
2
GILISSEN, John. Introdução histórico ao direito. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian., 1988, p.33.
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nas outras colônias) para os não indígenas e, por vezes, para os indígenas evoluídos; e outro
(sistema legal), do tipo arcaico para as populações autóctones.3
Tendo em conta estas asserções iniciais, cabe pontualizar alguns aspectos do direito
nas sociedades primitivas como formação, caracterização, fontes e funções.

2 FORMAÇÃO DO DIREITO NAS SOCIEDADES PRIMITIVAS

A dificuldade de se impor uma causa primeira e única para explicar a


s origens do direito arcaico deve-se em muito ao amplo quadro de hipóteses
possíveis e proposições explicativas distintas. O direito arcaico pode ser interpretado a partir
da compreensão do tipo de sociedade que o gerou. Se a sociedade pré-histórica
fundamenta-se no princípio do parentesco, nada mais natural do que considerar que a base
geradora do jurídico encontra-se, primeiramente, nos laços de consangüinidade, nas práticas
de convívio familiar de um mesmo grupo social, unido por crenças e tradições.4
É neste sentido que a lei primitiva da propriedade e das sucessões teve em grande
parte sua origem na família e nos procedimentos que a circunscreveram, como as crenças,
os sacrifícios e o culto aos mortos. Ninguém melhor que Fustel de Coulanges para escrever
que o direito antigo não é resultante de uma única pessoa, pois impôs-se a qualquer tipo de
legislador. Nasceu espontânea e inteiramente nos antigos princípios que constituíram a
família, derivando das crenças religiosas universalmente admitidas na idade primitiva desses
povos e exercendo domínio sobre as inteligências e sobre as vontades .5
Posteriormente, num tempo em que inexistiam legislações escritas e códigos
formais, as práticas primárias de controle são transmitidas oralmente, marcadas por
revelações sagradas e divinas . Distintamente da ênfase atribuída à família feita por Fustel de
Colulanges, H. Sumner Maine entende que esse caráter religioso do direito arcaico, imbuído
de sanções rigorosas e repressoras, permitiria que os sacerdotes-legisladores acabassem por
ser os primeiros intérpretes e executores das leis. O receio da vingança dos deuses, pelo
desrespeito aos seus ditames, fazia com que o direito fosse respeitado religiosamente. Daí
que, em sua maioria, os legisladores antigos(reis sacerdotes6) anunciaram ter recebido as
suas leis do deus da cidade. De qualquer forma, o ilícito se confundia com a quebra da
tradição e com a infração ao que a divindade havia proclamado.
Neste aspecto, nas manifestações mais antigas do direito, as sanções legais estão
profundamente associadas às sanções rituais. A sanção assume um caráter tanto repressivo
quanto restritivo, na medida em que é aplicado um castigo ao responsável pelo dano e uma
reparação à pessoa injuriada.7 Para além do formalismo e do ritualismo, o direito arcaico
manifesta-se não por conteúdo, mas pelas restrições de fórmulas, através dos atos
simbólicos, das palavras sagradas, dos gestos solenes e da força dos rituais desejados.+
Os efeitos jurídicos são determinados por atos e procedimentos que, envolvidos pela
magia e pela solenidade das palavras, transformam-se num jogo constante de ritualismos.
Entretanto, o direito primitivo de matriz sagrada e revelado pelos reis-legisladores(ou chefes
religiosos-legisladores) avança, historicamente, para o período em que se impõe a força e a
repetição dos costumes. Daí que, no dizer de H. Sumner Maine, o direito antigo compreende,
claramente, três grandes estágios de evolução: o direito que provém dos deuses, o direito
confundido com os costumes e, finalmente, o direito identificado com a lei.
Nas sociedades antigas, tanto as leis quanto os códigos foram expressões da
vontade divina, revelada mediante a imposição de legisladores-administradores, que
dispunham de previlégios dinásticos e de uma legitimidade garantida pela casta sacerdotal.
Escreve H. Sumner Maine que algumas experiências societárias, ao permitirem o declínio do

3
GILSSEN, John. Op. cit., p. 34.
4
LUHMANN, Niklas, Sociologia do direito. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 75, 1983, v.I, p.182-184.
5
COULANGES, Fustel de . A cidade antiga. São Paulo; Hemus, 1975, p. 68-150.
6
Sobre o papel dos antigos reis-sacerdotes, consultar: FRAZER, Sir James George. O ramo de ouro. São Paulo: Círculo do
Livro, s/d, p. 32-33.
7
Cf. RADCLIFFE-BROWN, Alfred R.. O direito primitivo. In: Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópolis:
Vozes, 1973, p. 262-263,269.
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poder real e o enfraquecimento de monarcas hereditários, acabaram por favorecer e


emergência de aristocracias, depositárias da produção legislativa, com capacidade de julgar e
resolver conflitos.8 Mas este momento inicial de um direito sagrado e ritualizado, expressão
das divindades, desenvolve-se na direção de práticas normativas consuetudinárias.
Certamente que ainda não se trata de um direito escrito, porém de um conjunto disperso de
usos, práticas e costumes, reiterados por um longo período de tempo e publicamente
aceitos. É a época do direito consuetunário, largo período em que se conheceu a invenção da
escrita, em que uma casta, ou aristocracia, investida do poder judicial era o único meio que
poderia conservar, com algum rigor, os costumes da raça ou tribo .9 O costume aparece
como expressão da legalidade, de forma lenta e espontânea, instrumentalizada pela
repetição de atos, usos e práticas. Por ser objeto de respeito e veneração e ser assegurado
por sanções sobrenaturais, dificilmente o homem primitivo questionava sua validez e sua
aplicabilidade.
A invenção e a difusão da técnica da escritura, somada à compilação de costumes
tradicionais, proporcionam os primeiros códigos da antigüidade, como o de Hamurábi, o de
Manu, o de Sólon e a Lei das XII Tábuas. Constatam-se, destarte, que os textos legislados e
escritos eram melhores depositários do direito e meios mais eficazes para conservá-lo que a
memória de certo número de pessoas, por mais força que tivessem em função de seu
constante exercício .10
Esse direito antigo, tanto no Oriente quanto no Ocidente, na explicação de H.
Sumner Maine, não diferenciava, na essência, a mescla de prescrições civis, religiosas e
morais. Somente em tempos mais avançados da civilização é que se começa a distinguir o
direito da moral e a religião do direito.11Certamente, de todos os povos antigos, foi com os
romanos que o direito avançou para uma autonomia diante da religião e da moral.
Pode-se dizer, por fim, que outra regularidade desse processo normativo foi a longa
e progressiva evolução das obrigações e dos deveres jurídicos da condição de status (as
obrigações são fixadas, na sociedade, de acordo com o status que ocupam seus membros),
inerentes ao direito primitivo, para o da relação contratual dependente da vontade e
autonomia das partes, características já do direito legislado e formal.

3 CARACTERÍSTICAS E FONTES DO DIREITO ARCAICO

Pode-se distinguir, segundo as lições de John Gilissen, algumas características do


direito nas sociedades arcaicas. Primeiramente, o direito primitivo não era legislado, as
populações não conheciam a escritura formal e suas regras de regulamentação mantinham-
se e conservavam-se pela tradição. Um segundo fator de conhecimento é que cada
organização social possuía um direito único, que não se confundia com o de outras formas
de associação. Cada comunidade tinha suas próprias regras, vivendo com autonomia e tendo
pouco com outros povos a não ser em condições de beligerância. Um terceiro aspecto a
considerar é a diversidade dos direitos não escritos. Trata-se da multiplicidade de direitos
diante de uma gama da sociedade atuantes, advinda, de um lado, da especificidade para
cada um dos costumes jurídicos concomitantes, de outro, de possíveis e inúmeras
semelhanças ou aproximações de um para outro sistema primitivo. Além de apontar a
inexistência de uma legalidade não escrita, de uma certa unicidade do jurídico para cada
comunidade e, por fim, a pluralidade dos direitos não escritos. Trata-se da multiplicidade de
direitos diante de uma gama de sociedade atuantes, advinda, de um lado, da especificidade
para cada um dos costumes jurídicos concomitantes, de ouro, de possíveis e inúmeras
semelhanças ou aproximações de um para outro sistema primitivo. Além de apontar a
inexistência de uma legalidade não escrita, de uma certa unicidade do jurídico para cada

8
Cf. SUMNER MAINE, Henry. El derecho antiguo Parte general. Madrid: Alfredo Alonso, 1893, p. 18-19.
9
SUMNER MAINE, Henry. Op. cit., p. 20.
10
SUMNER MAINE, Henry. Op. cit. p. 22.
11
SUMNER MAINE, Henry. Op. cit., p.22.
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comunidade e, por fim, a pluralidade dos direitos não escritos, Gilissen reconhece também
que o direito arcaico está profundamente contaminado pela prática religiosa.12 Tal é a
influência da religião sobre a sociedade e sobre as leis, que se torna intento pouco fácil
estabelecer uma distinção entre o preceito sobrenatural e o preceito de natureza jurídica. Na
verdade, o direito estava totalmente subordinado à imposição de crenças dos antepassados,
ao ritualismo simbólico e à força das divindades. Um secretismo nebuloso mesclava e
integrava, no religioso, as regras de cunho social, moral e jurídico.13
Por último, Gilissen chama atenção para o fato de que os direitos primitivos são
direitos em nascimento , ou seja, ainda não ocorre uma diferenciação efetiva entre o que é
jurídico do que não jurídico. Assinala-se no entanto, que as regras de controle podem variar
no tempo e no espaço. Os critérios que permitem auferir, na sociedade moderna, o que é
jurídico podem não ser aplicados às comunidades da pré-história. Admite-se, assim, que um
costume de épocas arcaicas assume um caráter jurídico na medida em que constrangendo,
garante o cumprimento das normas de comportamento.14
Ainda, seguindo as incursões históricas do erudito pesquisador belga, cabe
mencionar uma breve passagem pela questão das fontes do direito entre as sociedades sem
escrita. Do pouco que se sabe e que, com certeza, pode-se apontar, é que as fontes jurídicas
primitivas são poucas, resumindo-se, na maioria das vezes, aos costumes, aos preceitos
verbais, às decisões pela tradição, etc.
No que concerne aos costumes, há de se reconhecer como a fonte mais importante
e mais antiga do direito, manifestação que se comprova por ser a expressão direta, cotidiana
e habitual dos membros de um dado grupo social. Novamente, aqui, a religião aparece como
fenômeno determinante, na medida em que o receio e a ameaça permanente dos poderes
sobrenaturais é que garante o rígido cumprimento dos costumes.15
Neste quadro, colocam-se, igualmente, certos preceitos verbais não escritos
proferidos por chefes de tribos ou de clãs, que se impõem pela autoridade e pelo respeito
que desfrutam. Trata-se de verdadeiras leis ainda que não escritas, repousando no prestígio
daqueles que detêm o poder e conhecimento.
Por fim, parece significativo mencionar, como fonte criadora de preceituações
jurídicas nas sociedades arcaicas, certas decisões reiteradas utilizadas pelos chefes ou
anciãos das comunidades autóctones para resolver conflitos do mesmo tipo. Conjuntamente
ao que se designa de precedente judiciário , Gilissen acrescenta também os procedimentos
orais propagados por gerações como os provérbios e adágio .16

4 FUNÇÕES E FUNDAMENTOS DO DIREITO NA SOCIEDADE

Após algumas reflexões mais genéricas sobre a formação, características e fontes do


direito primitivo, torna-se relevante destacar um pouco mais as funções e os fundamentos
das formas de controle social em sociedades ainda não possuidoras do domínio técnico da
escrita . Para uma outra leitura da natureza e das funções do direito arcaico, tomar-se-á em
conta as investigações pioneiras e clássicas de Bronislaw Malinowski (1884-1942), feitas
empiricamente com populações das Ilhas Trobriand, ao nordeste da Nova Guiné, e que
resultam, em 1926, na obra Crime e Costume na Sociedade Selvagem.
Inicialmente, constata-se que em cada cultura humana desenvolve-se um corpo de
obrigações, proibições e leis que devem ser cumpridas por motivos práticos, morais ou
emocionais. Há que se considerar, para Malinowski, que , além das regras jurídicas
sancionadas por um amparo social com poderosa força cogente, subexistem outros tipos
diferenciados de normas tradicionais gerados por motivos psicológicos. Naturalmente, a base

12
Cf. GILISSEN, John. Op. cit., p. 35.
13
GILSSEN, John. Op. cit., loc. Cit.
14
Cf. GILISSEN, John. Op. cit., p.37.
15
GILISSEN, John. Op. cit., p. 37-38
16
Cf. MALINOWSKI , Bronislaw. Crimen y costunbre en la sociedad salvaje. Barcelona: Ariel, 1978, p. 26, 69, e 70.
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de toda investigação do direito primitivo está na imposição rígida e automática aos


cost0umes das tribos.17
A importância da interpretação de Malinowski está no fato de que ainda que priorize
a criminalidade, as formas de castigo e a recomposição da ordem, acaba tratando,
igualmente, dos conflitos entre sistemas jurídicos (penal e civil), do direito matrimonial, da
vida econômica, dos costumes religiosos, do desenvolvimento do comunismo primitivo e do
princípio da reciprocidade como base de toda estrutura social.
É necessário reconhecer o significado de algumas de suas premissas enquanto
primeira tentativa de análise antropológica da lei primitiva. Um primeiro aspecto que chama
atenção, na proposta de Malinowski, está na tentativa de desmistificar a lei criminal
entendida como núcleo exclusivo de todo e qualquer direito primitivo, pressuposto que se
tornou tradicional entre alguns antropólogos do direito. Acertadamente, a regra jurídica
primitiva não se reduz tão-somente a imposições, nem tampouco a lei dos selvagens é
somente lei criminal. Não se pode pretender que, com mera descrição do crime e do castigo,
o tema direito se esgote no que concerne à comunidade primitiva .
Como decorrência desse processo, o autor dos Argonautas do Pacífico Ocidental
apontou como um segundo aspecto a inconsistência da tese de que não haveria um direito
civil entre as sociedades aborígenes. Assim, divergindo da posição de muitos antropólogos de
sua época que insistiam na base religiosa e no teor exclusivamente criminal da jurisprudência
primitiva, Malinowski introduz o argumento de que existia um direito civil consensualmente
aceito e respeitado.18As regras de direito civil caracterizadas por uma certa flexibilidade e
abrangência, enquanto ordenação positiva regulamentadora dos diversos momentos da
organização tribal, compreendiam um conjunto de obrigações impositivas consideradas
como justas por uns e reconhecidas como um dever pelos outros, cujo cumprimento se
assegura por um mecanismo específico de reciprocidade e publicidade inerentes à estrutura
da sociedade .19A lei civil primitiva não tem apenas um aspecto negativo no sentido de que
todo o descumprimento resulta num castigo, mas assume um caráter positivo através da
recompensa para os que cumpreme respeitam as regras de convivência.
Um terceiro aspecto é apontar a particularidade de que o direito não funciona por si
mesmo, pois é parte integrante da dinâmica de uma estrutura . Torna-se desnecessária uma
maior constatação, para Malinowski, porquanto as manisfestações legais e os diversos
fenômenos de tipo jurídico encontrados na Melanésia não constituem instituições
independentes. O direito é mais um aspecto da vida tribal, ou seja, um aspecto de sua
estrutura do que propriamente um sistema independente, socialmente completo em si
mesmo .20
Ao fazer uma crítica à teoria antropológica do Direito, Malinowski avança no exame
dos aspectos práticos de d, eterminadas funções do direito bem como à explicitação dos
princípios legais que regem as relações sociais do grupo. Seu questionamento é feito
basicamente contra a falsa perspectiva criada pela antropologia tradicional de que inexiste
um direito Civil e que toda lei é expressão dos próprios costumes autóctones, sendo
obedecidos automaticamente por pura inércia. 21Ora, as normas de controle social que
impõem obediência ao homem primitivo são afetadas por necessidades sociais e por
motivações psicológicas.22
É neste contexto que se deve interpretar o direito primitivo. A função principal do
direito é , para Mulinonowski, limitar certas inclinações comuns, canalizar e dirigir os
instintos humanos e impor uma conduta obrigatória não espontânea... , assegurando um
modo de cooperação baseada em concessões mútuas e em sacrifícios orientados para um
fim comum. Uma força nova, diferente das inclinações inatas e espontâneas, deve estar
presente para que esta tarefa seja concluída..
17
MALINOWSKI. B. Op. cit., p. 71
18
Cf. MALINOWSKI, b. Op. cit., p. 73-74
19
MALINOWSKI, B. Op. cit. p. 74.
20
MALINOWSKI, B. Op. cit. Loc. Cit.
21
Cf. MALINOWSKI, B. Op. cit. P. 78
22
Cf. MALINOWSKI, b. Op. cit. P. 78-79.
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Este fator novo que se distingue das imposições religiosas e das forças naturais vem
a ser revelado pelo conjunto prático de regras jurídicas civis que, enquanto instrumento
integrador, é caracterizado pelos fatores da reciprocidade, incidência sistemática,
publicidade e ambição. Assim, o papel do direito é fundamental como elemento que regula,
em grande parte, os múltiplos ângulos da vida dos grupos na Melanésia e as relações
pessoais entre parentes, membros do mesmo clã e da mesma tribo, fixando as relações
econômicas, o exercício do poder e da magia, o estado legal do marido e da mulher, etc.
Esta modalidade de regras civis distingue-se das regras fundamentais penais que protegem
a vida. A propriedade e a personalidade e que instituem-se pela sanção do castigo tribal.
Mas, se não há sanção religiosa e tampouco castigo penal, quais são forças poderosas que
fazem cumprir estas regras de direito civil? Para Malinowski esta fundamentação há de se
buscar na concatenação das obrigações, que estão ordenadas em cadeia de serviços mútuos,
seja, um dar e tomar que se estende sobre longos períodos de tempo, cumprindo ambos
aspectos de interesses e atividade... . Por conseqüência, a força compulsiva destas
regras procede da tendência psicológica natural pelo interesse pessoal (...) posta em jogo
por um mecanismo social especial, dentro do qual se demarcam estas ações
obrigatórias. Parece claro aqui uma das teses nucleares que explicita e fundamenta a
presença do legal nas sociedades autóctones: o direito não é exercido de forma arbitrária e
unilateral, mas produto de acordo com regras bem definidas e dispostas em cadeia de
serviços recíprocos bem compensados.
Em suma, de todos os sistemas de regras legais das sociedades primitivas, o
destaque maior é atribuído ao direito matrimonial. Não só é o mais abrangente sistema legal,
como o fundamento essencial dos costumes e das instituições. A força do direito matriarcal
define que o parentesco só se transmite através das mulheres e que todo os privilégios
sociais seguem a linha materna. Daí decorre a rigidez da lei primitiva com relação ao
comércio sexual dentro do clã, principalmente, no que se refere ao crime
incesto(principalmente com a irmã) que gera as práticas de punição mais severas.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Resta, no final, levantar alguns questionamentos críticos sobre interpretações


elaboradas por antropólogos acerca das origens do direito em sociedades primitivas.
Certamente uma ponderação, respaldada nos elementos trazido pela etnologia
jurídica atual, aponta para a fragilidade das teses evolucionistas que dão conta de que o
direito primitivo passou por longa progressão constituída pela comunhão de grupos, pelo
matriarcado,patriarcado, clã e tribo. Tal evolução é sistemática é, no dizer de John Gilissen,
por demais simplista e sobejantemente lógica para ser correta. Não há comprovações
científicas de que a legalidade acompanhou e refletiu os diversos estágios das sociedades
primitivas de acordo com a premissa evolucionista. Não existe certeza se o matriarcado
realmente ocorreu e se foi, posteriormente, sucedo pelo patriarcado23.
Com relação à obra de H. Sumner Maine, um dos fundadores da antropologia jurídica
moderna, apesar de sua inegável importância, não deixou de compartilhar com um certo
evolucionismo darwinista. Sua concepção societária parte de uma lenta evolução cujo
processo permitiu que o direito transpusesse o período antigo do status para a fase moderna
do contrato . Naturalmente transpareceu, em sua clássica e erudita investigação, a
superioridade da cultura jurídica européia moderna sobre a ingenuidade e o primarismo
normativo das sociedades arcaicas.24
Por último, cabe elencar algumas críticas às concepções jurídicas de B. Malinowski,
autor que foi privilegiado em boa parte deste artigo. Para isso, seguem-se as considerações
de Norbert Rouland, para quem as teses jurídicas de Malinowski não gozam mais do grande
prestífio que alcançaram no passado. Trabalhos de antropologia jurídica mais recentes
apontam certas inverdades sujeitas a comprovação. Um dos erros é conceber que nas
23
Cf. Gilissen, John. Op. Cit, p. 38
24
Cf. ROULAND, Norbert. Anthropologie juridique. Paris: PUF, 1988, p. 50
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sociedades primitivas, o direito civil não podia ser violado. Por outro lado, o direito seria
objeto de consenso, sendo muito mais respeitado entre os autóctones do que na sociedade
moderna. Escreve Norbert Rouland que algumas investigações etnográficas mostram o
contrário, pois o indivíduo, pensando que há menos vantagem do que a inconveniência em
respeitar a lei, acaba muitas vezes violando-a.25
Em suma, foi pertinente começar a longa trajetória histórica das instituições
jurídicas através de uma breve reflexão sobre as formas, natureza e características da
legalidade nas sociedades primitivas.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Hemus, 1975


FRAZER, Sir James George. O ramo de ouro. São Paulo: Círculo do Livro. s/d
GILISSEN, John. Introdução histórica ao direito. Fundação Calouste Gulbenkian,
1988
LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito. Rio do Janeiro: Tempo Brasileiro 75, 1983,
v. I.
MALINOWSKI , Bronislaw. Crimen y costunbre en la sociedad salvaje. Barcelona:
Ariel, 1978
RADCLIFFE-BROWN, Alfred R. Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópolis:
Vozes, 1973
ROULAND, Norbert. Anthropologie juridique. Paris: PUF, 1988
SUMNER MAINE, Henry. El derecho antiguo Parte general. Madrid: Alfredo Alonso,
1893

25
Cf. ROULAND, Norbert. Op. Cit., p. 101