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<"Classe do processo#Classe do processo=2@PROC"> n° <"Número do

processo#Número do processo no segundo grau=1@PROC"> -


Origem: <"Vara de origem#Vara de origem=5@PROC"> da Comarca de <"Foro
de origem#Foro de origem=4@PROC">.
<"Participação da principal parte ativa#Participação da principal parte
ativa=22@ATPT">: <"Principal parte ativa#Principal parte ativa=23@ATPT">
<"Participação do representante da parte ativa#Participação do representante da parte
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principal parte ativa=27@ATAD">.
<"Participação da principal parte passiva#Participação da principal parte
passiva=24@PAPT">: <"Principal parte passiva#Principal parte
passiva=25@PAPT">.
Relator: Desembargador Saraiva Sobrinho

EMENTA: ESTATUTO DA CRIANÇA E DO


ADOLESCENTE. APELAÇÃO CÍVEL. ATO
INFRACIONAL ANÁLOGO A FURTO SIMPLES (ART.
155 DO CP). APLICAÇÃO DE MEDIDA SÓCIO-
EDUCATIVA DE SEMILIBERDADE. PRINCÍPIO DA
INSIGNIFICÂNCIA. NÃO CONFIGURAÇÃO.
REITERAÇÃO DE CONDUTAS CENSURÁVEIS. ATO
COMETIDO CONTRA ASCENDENTE. ESCUSA
ABSOLUTÓRIA (ART. 181, II, CP).
INAPLICABILIDADE. MEDIDA SEM CARÁTER
PENAL. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO
CONHECIDO E DESPROVIDO.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos em que são partes


as acima identificadas, acordam os Desembargadores que integram a 3ª Câmara Cível
deste Egrégio Tribunal de Justiça, à unanimidade de votos, em consonância parcial
com a 15ª Procuradoria de Justiça, conhecer e negar provimento ao apelo.

RELATÓRIO

Trata-se de Apelação interposta pelo adolescente F.W.F.,


devidamente representado por Defensor Público, em face da sentença do Juiz da 3ª
Vara da Infância e Juventude da Comarca de natal, que, nos autos da Representação
001.08.502641-8, lhe impôs medida sócio-educativa de semiliberdade (fls. 36/41).
Aduz, em suma, que: (fls. 43/55)
a) foi representado pela prática de ato infracional análogo
ao crime de furto (art. 155 do CP), por ter subtraído "de sua genitora M.A. da S., de
dentro de sua própria residência, a quantia de R$ 14,00 (quatorze reais), um óleo
corporal da marca paixão e um alicate de unha";
b) sua conduta deve ser considerada atípica, em razão do
princípio da insignificância;
c) no caso dos autos, primordial a aplicação da escusa
absolutória prevista no art. 181, II do CP (isenção de pena no crime patrimonial contra
cônjuge, ascendente ou descendente).
Por fim, pugnou pelo provimento do apelo, para ser julgado
improcedente o pedido autoral.
Em Contra-Razões (fls. 57/59), o órgão ministerial
posiciona-se pela manutenção da sentença.
A 15ª Procuradoria de Justiça opinou pelo conhecimento e
desprovimento do recurso, entendendo pela inaplicabilidade do princípio da bagatela
aos dispositivos do ECA (fls. 67/73).
É o relatório.
Feito que independe de revisão, nos termos do art. 198, III,
do ECA.

VOTO
<"Número do processo#Número do processo Tribunal de Justiça
no segundo grau=1@PROC"> RIO GRANDE DO NORTE

FL.______________

Conheço do apelo.
Cinge-se a pretensão recursal à possibilidade de aplicação
1) do princípio da insignificância e 2) da isenção de pena prevista no art. 181, II do CP
(escusa absolutória).
Sem razão o recorrente.
Com efeito, diferentemente do entendido pela douta
Procuradoria de Justiça, o princípio da bagatela é plenamente aplicável aos atos
cometidos no âmbito do ECA, consoante entendimento assente do STF e STJ,
respectivamente:

"HABEAS CORPUS. ATO INFRACIONAL. PRINCÍPIO


DA INSIGNIFICÂNCIA. APLICABILIDADE. ASPECTOS
RELEVANTES DO CASO CONCRETO. CARÁTER
EDUCATIVO DAS MEDIDAS PREVISTAS NO
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE.
ORDEM DENEGADA. I - O princípio da insignificância é
aplicável aos atos infracionais, desde que verificados os
requisitos necessários para a configuração do delito de
bagatela. Precedente. (...)" (HC 98381, Relator(a): Min.
RICARDO LEWANDOWSKI, 1ª Turma,DJe 19-11-2009 ) .

"HABEAS CORPUS. ECA. ATO INFRACIONAL


EQUIPARADO A FURTO QUALIFICADO. RES
FURTIVA: ALGUNS ISQUEIROS, APARELHOS DE
BARBEAR, FUMO E PAPEL PARA FUMO, TODOS
RECUPERADOS. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.
APLICABILIDADE MESMO ANTE O COMETIMENTO
DO FATO POR MENORES. PRECEDENTES DO STJ. (...)
1. A jurisprudência desta Corte tem pacificamente
3
enunciado a possibilidade de aplicação do princípio da
insignificância ao fato cujo agente tenha praticado ato
infracional equiparado a delito penal sem significativa
repercussão social, lesão inexpressiva ao bem jurídico
tutelado e diminuta periculosidade de seu autor.
Precedentes.(...)" (HC 125.256/RS, Rel. Min. NAPOLEÃO
NUNES MAIA FILHO, QUINTA TURMA, DJe
30/11/2009)

Ocorre que, no caso em exame, não há como aplicar citada


benesse.
Isto porque, para sua verificação, deve-se levar em conta
tanto o desvalor do resultado quanto as condições pessoais do autor, fundindo-se os
conceitos do princípio da insignificância ao da irrelevância.
Tal entendimento, aliás, vem sendo sedimentado pelo STJ,
confrome se infere dos seguintes julgados:

"HABEAS CORPUS - DIREITO PENAL - CRIME DE


DESCAMINHO - IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO
DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA - REITERAÇÃO
E HABITUALIDADE DO COMETIMENTO DA
CONDUTA LESIVA AO ERÁRIO PÚBLICO -
OCUPAÇÃO ILÍCITA. PRECEDENTES DO STJ. 1.
Comprovada, nos autos, a habitualidade da conduta do
paciente no cometimento do ilícito, não há como aplicar,
in casu, em seu favor, o princípio da insignificância. 2.
Para o reconhecimento do aludido corolário não se deve
considerar tão-somente a lesividade mínima da conduta
do agente, sendo necessário apreciar outras
circunstâncias de cunho subjetivo, especialmente àquelas
relacionadas à vida pregressa e ao comportamento social
do sujeito ativo, não sendo possível absolvê-lo da
<"Número do processo#Número do processo Tribunal de Justiça
no segundo grau=1@PROC"> RIO GRANDE DO NORTE

FL.______________

imputação descrita na inicial acusatória, se é reincidente,


portador de maus antecedentes ou, como na espécie
ocorre, reiteradamente pratica o questionado ilícito como
ocupação.Precedentes do STJ. " (STJ - HC 33.655-RS - 5ª
T. - Rel. Min. Laurita Vaz - DJU 09.08.2004).

"CRIMINAL - RECURSO ESPECIAL - FURTO -


PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA - ÓBICE AO
BENEFÍCIO DEVIDAMENTE MOTIVADO - MAUS
ANTECEDENTES - NECESSIDADE DE EXAME DAS
CIRCUNSTÂNCIAS - (...) I. Não há ilegalidade na decisão
que entende inaplicável o Princípio da Insignificância a
réu que ostenta maus antecedentes, pois a sua incidência
está condicionada não somente aos fatores objetivos,
como à sensatez do Julgador, a quem cabe - orientado
pelos parâmetros previstos no art. 59 do CP - avaliar a
necessidade e conveniência da concessão dessa benesse.
Precedente da Turma. II. A impunibilidade requer o
exame das circunstâncias de fato e daquelas
concernentes à pessoa do agente, sob pena de restar
estimulada a prática reiterada de furtos de pequeno valor.
(...) " (STJ - Resp: 400685-MG - Rel. Min. Gilson Dipp - 5ª
T. - DJU 22.09.2003 - p. 352).

Sendo assim, in casu, malgrado a ação desenvolvida pelo


adolescente seja inexpressiva – "subtração da quantia de R$ 14,00 (quatorze reais),
um óleo corporal da marca paixão e um alicate de unha" – não se pode olvidar das
suas condições pessoais, o que de per si torna inviável a utilização do preceito da
irrelevância penal do fato.
Ora, a certidão de fls. 14/15 dá conta de vários
5
procedimentos de apuração de atos infracionais perpetrados pelo menor, como bem
pontuou a Procuradoria de Justiça (fl. 73):

"(...) o recorrente já deu provas de sua contumaz


deliquência, cometendo atos análogos aos crimes de
ameaça, tentativa de roubo e e furto qualificado,
respondendo, atualmente, a 6 (seis) procedimentos , sendo-
lhe concedida a remissão nos processos nº 001.07.000804-
4 e 001.07.004460-1, e ainda assim, observa-se sua
insistência no cometimento de delitos.(...)"

Outrossim, menciona o Juiz de primeiro grau se tratar "(...)


de adolescente que vem reiterando na pratica de atos infracionais. Há necessidade de
dar um basta nessa escalada de atos infracionais praticados, a fim de que F.W.F.
Possa refletir sobre sua conduta e tomar um novo rumo em sua vida e para melhor.
(...)" (fl. 39).
Noutro viés, pretende o recorrente a aplicabilidade da
isenção de pena prevista art. 181, II do CP, porquanto o ato fora cometido contra sua
genitora.
Mais uma vez insubsistente seu argumento.
É que, mencionado instituto, eminentemente de Direito
Penal, não se aplica ao procedimento em análise, porquanto o ECA, em seu art. 103,
do ECA, define ato infracional como sendo "a conduta descrita como crime ou
contravenção penal".
Assim, vale registrar que o crime, segundo conceito
analítico, é tão somente o fato típico, ilícito e culpável.
Destarte, a punibilidade, que no caso do furto contra
ascendente tem a escusa prevista no artigo 181, inciso II, do CP, não faz parte do
conceito de delito, sendo somente a sua conseqüência.
Nessa tônica, o furto praticado contra genitora é, sob a
ótica da legislação penal, crime, por se tratar de fato típico, ilícito e culpável. A
ausência de punibilidade da conduta não retira do fato sua condição de crime.
<"Número do processo#Número do processo Tribunal de Justiça
no segundo grau=1@PROC"> RIO GRANDE DO NORTE

FL.______________

Em função disso, tendo a representação atribuído ao


adolescente a prática de subtração de bem de ascendente (sua mãe), não se pode negar
a aplicação de medida sócio-educativa, que visa, antes de tudo, proteger o adolescente,
fazê-lo refletir sobre suas atitudes, redirecionar sua vida.
Corroborando desse entendimento, pode-se colacionar os
precedentes dos tribunais pátrios:

"ESTATUTO DA CRIANÇA EDO ADOLESCENTE -


FURTO PRATICADO POR MENOR CONTRA
ASCENDENTE - RECONHECIMENTO DA ESCUSA
ABSOLUTÓRIA PREVISTA NO ART. 181, INC. II, DO
CÓDIGO PENAL - REPRESENTAÇÃO NÃO
RECEBIDA - IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO
ANALÓGICA DAS DISPOSIÇÕES DO DIPLOMA
PENAL SUBSTANTIVO, QUE SERVE, TÃO-
SOMENTE, PARA ENQUADRAR O ATO
INFRACIONAL PRATICADO POR ADOLESCENTE -
DECISÃO CASSADA - APELO MINISTERIAL
CONHECIDO E PROVIDO" (TJSC, AC 2003.026458-2,
Rel. Des. Irineu João da Silva, j. 18/02/2004)

"ADOLESCENTE - ATO INFRACIONAL CONTRA


ASCENDENTE - IMUNIDADE ABSOLUTA
INAPLICÁVEL - INTERNAÇÃO PROVISÓRIA -
CONSTRANGIMENTO ILEGAL - INOCORRÊNCIA -
ORDEM DENEGADA. Inaplicável é a exclusão da
punibilidade prevista no inciso II do artigo 181 do Código
Penal porque sujeito está o inimputável às medidas sócio-
educativas, e não às penas retributivas" (HC n. 2617-7, de
Cianorte, Acórdão 8291, j. 14.12.1998).
7
Isto posto, em consonância parcial com a 15ª Procuradoria
de Justiça, nego provimento ao recurso.
Natal, 08 de janeiro de 2010.

Desembargador Amaury Moura Sobrinho


Presidente

Desembargador Saraiva Sobrinho


Relator

Doutora Mildred Medeiros de Lucena


9ª Procuradora de Justiça